A experiência do corpo cardíaco: a subjetivação da dor por meio da religiosidade

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5433/2176-6665.2024v29n3e50826

Palavras-chave:

Etnografia, Cardiopatia, Sofrimento, Religião e corpo

Resumo

Este estudo etnográfico teve o intuito de compreender a experiência do corpo cardíaco e como os elementos religiosos atuam sobre as percepções, concepções e práticas dos adoecidos internados em um hospital federal, sobretudo na subjetivação da dor pelos sujeitos. Os dados apresentados aqui são pertinentes à técnica de entrevistas etnográficas. Participaram da pesquisa pacientes adultos, independentemente do sexo, que se encontravam à espera da cirurgia cardíaca ou em fase de recuperação. O estudo revelou que a experiência cardíaca era associada a símbolos e práticas religiosas. As formas de expressão devocional foram refletidas como técnicas disciplinares no hospital para a superação dos desafios da internação, fase em que os sujeitos enfermos são constituídos e reconfigurados por meio de elementos religiosos conforme suas concepções de papéis sociais, implicando um menor ou maior sofrimento social aos pacientes.

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Biografia do Autor

MAYARA CASSIMIRA DE SOUZA, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2017). Doutoranda em Saúde Coletiva pelo Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: mayaracassimira.sc@gmail.com

jaqueline Teresinha Ferreira, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutora em Antropologia Social pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, França (2003). Professora Associada do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro. E-mail: jaquetf@gmail.com

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Publicado

2024-11-30

Como Citar

CASSIMIRA DE SOUZA, MAYARA; TERESINHA FERREIRA, Jaqueline. A experiência do corpo cardíaco: a subjetivação da dor por meio da religiosidade. Mediações - Revista de Ciências Sociais, Londrina, v. 29, n. 3, p. 1–15, 2024. DOI: 10.5433/2176-6665.2024v29n3e50826. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/50826. Acesso em: 28 jan. 2026.

Edição

Seção

Dossiê