Raízes que contam: estudo exploratório de obras de literatura infantil angolana para a educação infantil
DOI:
https://doi.org/10.5433/1519-5392.2025v25n5p71-98Palavras-chave:
Literatura infantil angolana, Identidade cultural, Educação infantil, Mediação de leituraResumo
Este artigo examina o potencial da literatura infantil angolana na formação de crianças em idade pré-escolar, destacando sua função como dispositivo de mediação cultural e de construção identitária. Partindo de referenciais teóricos sobre literatura infantil (Colomer, 2007; Nikolajeva, 2014), letramento literário (Bajour, 2012; Cosson, 2021a) e perspectivas decoloniais (Azzari; Pereira, 2025; Ngũgĩ, 1986), dialoga-se com políticas de livro e leitura, como o PNLD-Literário, em um contexto educativo marcado pela presença de matrizes culturais exógenas. O corpus da pesquisa é constituído por Ynari – A Menina das Cinco Tranças (Ondjaki, 2004) e Presente de Natal seguido de Yana e o Lenhador (Fernandes, 2007), obras que evocam a cosmovisão bantu e práticas comunitárias tanto em sua dimensão textual quanto imagética. As análises foram conduzidas a partir de metodologia qualitativa interpretativa, ancorada em categorias que consideram representação cultural, tradição oral, desenvolvimento linguístico, estética literária e impacto educacional. Observou-se que as narrativas e ilustrações não apenas oferecem repertórios simbólicos enraizados na cultura local, mas também favorecem práticas pedagógicas de escuta ativa, reconto e exploração imagética, contribuindo para a formação de sujeitos críticos e culturalmente situados. Os resultados indicam que, quando inserida em contextos educativos da infância, a literatura infantil angolana pode assumir um papel central na construção de crianças culturalmente conscientes, linguisticamente estimuladas e simbolicamente conectadas à sua realidade, com potencial de transferibilidade para outros contextos lusófonos e programas de formação docente.
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