Xingamentos e relações racializadas de gênero: sintoma cultural da sociedade brasileira

Autores

DOI:

https://doi.org/10.5433/2176-6665.2025v30e51627

Palavras-chave:

interseccionalidade, racismo, sexismo, discriminação social, injúria racial

Resumo

Pesquisas anteriores identificaram que os xingamentos são práticas carregadas de valores sexistas e homofóbicos. Este estudo visou elencar neles o marcador social raça, com intersecção de gênero, objetivando compreender como o racismo se expressa nesse fenômeno da linguagem, tendo como referência o paradigma da interseccionalidade. Levantamos, através de questionário online, os xingamentos considerados como piores contra mulheres e homens; mulheres e homens negros. Foram analisados 1.782questionários. Após análise de conteúdo, semântica e pragmática, separamos os xingamentos em categorias e comparamos suas incidências relativas aos diferentes grupos. Identificamos a presença evidente de valores racistas quando se racializa o alvo. Contudo, gênero foi um fator de diferenciação: contra mulheres negras, as ofensas visavam à estética e contra homens negros, havia associação com a criminalidade. Os dados sugerem a existência de um racismo gendrado no país.

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Biografia do Autor

João Paulo Siqueira, Universidade de Brasília

Mestre em Antropologia Social pela Universidade de Brasília (2024). Pesquisador junto ao Coletivo de Antropologia e Saúde Coletiva do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade de Brasília. E-mail: joaop.307@gmail.com

Valeska Zanello, Universidade de Brasília/ Departamento de Psicologia Clínica

Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (2005). Docente junto ao Departamento de Psicologia Clínica e ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica e Cultura da Universidade de Brasília. Email: valeskazanello@gmail.com

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Publicado

2025-07-20

Como Citar

SIQUEIRA, João Paulo; ZANELLO, Valeska. Xingamentos e relações racializadas de gênero: sintoma cultural da sociedade brasileira. Mediações - Revista de Ciências Sociais, Londrina, v. 30, p. e51627, 2025. DOI: 10.5433/2176-6665.2025v30e51627. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/mediacoes/article/view/51627. Acesso em: 14 jan. 2026.

Edição

Seção

Artigos