Chamada de Artigos (CFP 2027.1): "Antropofagia: 100 anos de devoração"
A Antropofagia surge em maio de 1928 como nova publicação, mas também
movimento de vanguarda, manifesto, filosofia, ideologia, método e conceito cultural
que, desde então, veio se mostrando uma ideia fecunda, retomada de tempos em
tempos nas mais diversas abordagens. Sua concepção esteve por trás, por exemplo,
do Tropicalismo, do Cinema Novo, das ideias de tradução de Guilherme de Almeida e
dos irmãos Campos, do entrelugar do intelectual latino-americano de Silviano
Santiago, da 24ª Bienal de São Paulo, além de vários outros eventos que recorrem à
Antropofagia como metáfora para a compreensão da cultura visual e do pensamento
brasileiro.
Além disso, diversas publicações mais contemporâneas como Antropofagia hoje?
Oswald de Andrade em Cena (2010), organizada por Jorge Rufinelli e João Cézar de
Castro Rocha; Antropofagia: palimpesto selvagem (2016), de Beatriz Azevedo; e
Saudades do mundo: notícias da antropofagia (2022), de Eduardo Sterzi, revelam
o caráter plural e atemporal do ideário oswaldiano em torno desse movimento, que se
permite devorar pelo “espírito do tempo”, estando, então, sempre vivo. Não à toa,
Augusto de Campos (1975) considerou a Antropofagia como uma das correntes de
pensamentos mais ousadas e originais existentes, que só não ganhou a devida
atenção pelo fato das produções e discussões em torno de si estarem,
majoritariamente, em Língua Portuguesa.
Não por acaso, a Antropofagia se constitui, para a filosofia, como uma questão que
permanece aberta. O próprio Oswald de Andrade, particularmente em textos como A
Crise da Filosofia Messiânica e a Marcha das Utopias, elabora filosoficamente o
conceito para além da simples metáfora da apropriação cultural – dimensão que foi
reconhecida, entre outros, por Benedito Nunes e Vilém Flusser. Mais recentemente,
trabalhos como os de Eduardo Subirats e Rodrigo Duarte têm contribuído para reabrir
a possibilidade filosófica da Antropofagia. Nesse sentido, interessa também investigar
o que significa pensar filosoficamente a partir da Antropofagia.
Uma das forças da Antropofagia talvez esteja precisamente em sua capacidade de
não se deixar circunscrever por uma única disciplina. Literatura, filosofia, artes visuais,
cinema, música, teatro, comunicação, antropologia, estudos culturais e outros campos
têm encontrado nela não apenas um objeto de estudo, mas diferentes métodos de
produção, tradução, circulação e transformação de formas, discursos e imagens etc.,
de modo que um objetivo desta chamada é compreender essa capacidade de
reatualização e importância que parece sempre emergir dos momentos de latência.
Essa capacidade de reatualização, é claro, não implica apenas a permanência ou a
confirmação de um projeto oswaldiano. As apropriações contemporâneas da
Antropofagia também permitem deslocá-la, criticá-la e submetê-la a outras
perspectivas históricas e epistemológicas. Obras e textos de artistas indígenas
contemporâneos, como Jaider Esbell e Denilson Baniwa, por exemplo, têm recolocado
a antropofagia em questão a partir das relações entre modernismo, alteridade,
apropriação e epistemologias indígenas. Outro exemplo, é o “Manifesto da
Antropofagia Periférica”, de Sérgio Vaz, que produzido a partir de um diálogo direto
com a cultura hip hop paulistana e com o Sarau da Cooperifa busca repensar, por
outras perspectivas, as relações entre margem/centro e popular/erudito, no contexto
das produções artísticas contemporâneas. Essas releituras tornam possível perguntar
não apenas o que a Antropofagia devorou, mas também o que foi deixado de fora de
seu projeto e o que acontece quando o próprio paradigma antropofágico é deslocado,
devolvido ou devorado por outras perspectivas.
Assim, a proposta deste Dossiê é de, por meio dos artigos recebidos, celebrar o
próximo Centenário da Antropofagia, seja por meio de leituras do Manifesto, da
Revista e das obras dos integrantes do Movimento ou por meio de discussões que se
proponham a pensá-la enquanto concepção viva, crítica e atuante na cultura
contemporânea. Mais do que celebrar a permanência de uma ideia, interessa-nos
investigar as diferentes formas pelas quais a Antropofagia foi, ao longo de um século,
retomada, transformada, traduzida, criticada e reapropriada. O que significa pensar a
Antropofagia hoje? Que tipo de filosofia, método ou crítica ela pode constituir? Que
novas questões emergem quando ela é colocada em diálogo com outros campos do
saber, outras mídias e outras epistemologias? E, finalmente, o que ainda pode a
Antropofagia devorar – e o que pode ser devorado por ela?
Convidamos, portanto, contribuições que abordem, entre outras possibilidades: as
relações entre Antropofagia, literatura, comunicação, cinema, artes visuais, música,
teatro e outras formas de produção cultural; as diferentes reapropriações do ideário
antropofágico ao longo do século XX e XXI; a Antropofagia como filosofia e método de
pensamento; as relações entre Oswald de Andrade e a filosofia brasileira; as revisões
da Antropofagia a partir de perspectivas indígenas e afro-brasileiras; e, de modo mais
amplo, as possibilidades e os limites da Antropofagia como conceito crítico no
presente.
Submissões devem ser encaminhadas até 19 de fevereiro de 2027.
A avaliação das submissões começará em março de 2027.
Responsáveis pelo dossiê:
Claudia Camardella Rio Doce (UEL)
Guilherme Foscolo (UFSB)
Lucas Toledo (Unicentro)













