Chamada de Artigos (CFP 2026.2): "Literatura e Psicanálise: o texto do inconsciente"

06-02-2026

A relação entre Literatura e Psicanálise constitui uma das interseções interdisciplinares mais frutíferas e complexas no campo das ciências humanas, a partir do aprofundamento de seu estudo na década de 1970  e até nossa contemporaneidade, fundando um diálogo que enriqueceu tanto a teoria literária quanto a prática clínica desde os primeiros escritos de Sigmund Freud. O fundador da psicanálise reconheceu explicitamente sua dívida para com a literatura como fonte de insights sobre o funcionamento da psique humana, enquanto escritores modernistas e pós-modernos têm incorporado cada vez mais, consciente ou inconscientemente, conceitos psicanalíticos para a exploração de novos territórios narrativos.

A interface entre a literatura e a psicanálise tem constituído um vínculo vital na construção da teoria psicanalítica desde seus primórdios, ao ponto que Freud postulava que o melhor psicanalista seria alguém que tivesse uma sólida formação em áreas humanísticas, mencionando em primeiro lugar a literatura, antes que a filosofia. A trajetória da obra de Freud atravessou praticamente todos os campos do saber, mas foi principalmente na literatura que a fundamentação básica da teoria psicanalítica encontrou respostas que sustentavam, metaforicamente, as conclusões obtidas sobre estados específicos das patologias clínicas: da comprovação empírica na clínica à ficção, existia um sucedâneo de uma narrativa (eis o texto do inconsciente) que pugnava por vir à luz e impor sua verdade. Ao ponto de manifestar que “os poetas são valiosíssimos aliados, cujo testemunho deve estimar-se em alto grau, pois costumam conhecer muitas coisas existentes entre o céu e a terra que nem sequer suspeita a nossa filosofia”. Este empréstimo shakespeariano não constitui um fato isolado, pois a obra freudiana está permeada por textos literários — contos, romances, lendas e mitos — que propõem conceitos e categorias específicos da estrutura e do funcionamento do aparelho psíquico. Basta lembrar de seus estudos sobre Édipo Rei, de Sófocles, Hamlet, de Wiliam Shakespeare, Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, Gradiva, de Wilhelm Jensen, e O homem da areia, de E.T.A. Hoffman.

Essa necessidade de recorrer ao texto literário está dada em função do aporte que este realiza ao dar forma, nas entrelinhas da enunciação e das significações inconscientes, à realização do desejo humano e à manifestação pulsional que impele o sujeito à vida; no dizer de João Guimarães Rosa: “nasce um menino, torna o mundo a começar”. O foco temático deste Dossiê procura textos que, a partir de uma abordagem de leitura desde o olhar psicanalítico, façam uma análise desse recomeço perene e da busca incessante pela realização desse desejo.

Propomos alguns eixos de possibilidades de propostas:

  • Análises de leituras sobre a representação do psicanalista (Roth, Svevo, Tezza);
  • Formulações sobre as tendências da crítica literária psicanalítica (Bellemin-Noël; Eagleton, T. Ogden);
  • Investigações em torno do campo lacaniano e do texto literário;
  • Escritas sobre os biógrafos e as biografias da psicanálise;
  • Indagações acerca do mal-estar na civilização;
  • Perscrutação dos mitos na psicanálise;
  • Exame dos diversos conceitos da teoria psicanalítica à luz do texto literário;
  • Exploração das grandes temáticas da literatura à luz da teoria psicanalítica;
  • Estudo das épocas estéticas sob o olhar psicanalítico.

Submissões devem ser encaminhadas até 10 de julho de 2026.

A avaliação das submissões começará em agosto de 2026.

Responsáveis pelo dossiê:

Hermano de França Rodrigues (UFPB) e Gustavo Figliolo (UEL)