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Nas Veredas da Velhice: A EDUCAÇÃO DO IDOSO EM COMÊNIO
Jane Cristina Franco de Lima* |
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* Aluna do Mestrado em Fundamentos da Educação, da Universidade
Estadual de Maringá-PR.
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RESUMO Este artigo tem por objetivo identificar a proposta de educação para a velhice efetuada pelo pedagogo Comênio no século 17, levando em consideração que a educação para esta faixa etária é a alternativa mais viável para o enfrentamento dos problemas sociais, decorrentes do envelhecimento humano. Compete aos profissionais, inclusive o Assistente Social, que desenvolve trabalhos com este segmento, analisar as propostas de educação efetuadas em outros momentos históricos, para ampliar os horizontes do conhecimento e propor novas formas de intervenção diante das demandas colocadas. Palavras-chaves: Velhice; idoso; educação; história. 1 O FENÔMENO VELHICE NO SÉCULO 20 O crescente aumento mundial da população idosa, tem se tornado uma das maiores preocupações do final do século 20. A redução da taxa de fecundidade (número menores de filhos) e o aumento da vida média dos indivíduos (em torno de 70 anos), fruto dos avanços da medicina, contribuíram para que o índice da população idosa mundial se elevasse rapidamente. A expectativa é de que em 30 anos, de 1970 ao ano 2000, este índice atingirá o patamar de 603 milhões de pessoas idosas, o que equivale ao dobro existente em 1970, 300 milhões de idosos. Face a esta progressão desmedida, a velhice passou a ser vista pela sociedade como um fenômeno social de difícil resolução, tornando-se, inclusive, um dos maiores problemas da denominada questão social. No Brasil, à partir da década de 80 algumas alternativas foram propostas pelo Estado e pela Sociedade Civil, como forma de enfrentamento deste problema, tais como: clubes de terceira idade, grupos de idosos vinculados ou não a igrejas, organizações não governamentais e Universidades Abertas à Terceira Idade. Estas instituições apresentaram programas que visavam o redimensionamento do universo social do idoso, onde a ocupação do seu tempo com práticas educativas, possibilitaria um maior desenvolvimento intelectual, social e físico. Neste contexto, a convivência e a participação social do idoso seria de fundamental importância. Os intelectuais contemporâneos são unânimes em afirmar que a educação do idoso é a alternativa mais viável para a solução do problema do envelhecimento. Apesar de não ser caracterizada em outros séculos como um fenômeno social, a velhice e seus problemas sociais não se encontravam ausentes. Para cada momento histórico, formas de intervenção diferenciadas foram propostas. Neste sentido, a educação permanente defendida pela atual intelectualidade encontra seu precursor no século 17. João Amós Comênio entendia que os indivíduos deviam ser preparados para a velhice, o que significava a redução dos problemas sociais advindos da velhice. O aprofundamento do pensamento do pedagogo Comênio, permite compreender que o envelhecimento do homem do século 20 não se encontra isolado do envelhecimento do homem nos séculos anteriores. Este homem é fruto de transformações históricas e sociais presentes no século 17 e apresentadas por Comênio. Portanto, voltar no tempo e resgatar a proposta efetuada por este intelectual, significa ampliar os horizontes no que diz respeito à compreensão da velhice para além do século 20, bem como, visualizar que somente a educação do homem para o processo de envelhecimento pode, de fato, minimizar os problemas sociais produzidos pelo despreparo da família e da sociedade para enfrentar o envelhecimento humano. 2 A ESCOLA DA VELHICE NO SÉCULO 17 João Amós Comênio nasceu em 28 de março de 1592 em Uhersky Brod na Morávia (República Tcheca e Eslovaca). Em 1611 concluiu os estudos secundários em sua pátria, e, tendo em vista o ministério eclesiástico, foi enviado para Alemanha onde se matriculou na Universidade Calvinista de Herborn, em Nassau. Seu pensamento foi marcado fortemente por Andrea, Campanella e Vives, e, sobretudo, pelas lições do teólogo calvinista João Henrique Alsted, preocupado com reformas educacionais. Esse pensador incutiu profundamente em Comênio o enciclopedismo, expresso mais tarde em suas obras pedagógicas. Neste período, Comênio tomou conhecimento dos princípios defendidos por Ratke sobre as reformas do ensino. Conheceu, outrossim, o avançado sistema de educação da Holanda, que naquele período era o centro cultural mas avançado da Europa. Em 1613, Comênio transferiu-se de Herborn para a Universidade de Heidelberg, onde continuou seus estudos. Nessa universidade, entrou em contato e assistiu conferências de célebres professores diretamente ligados ao Eleitor Palatino, Frederico V. Em 1614, Comênio retornou à sua pátria, assumindo a função de professor na escola latina de Prerov. Dividia as atividades docentes das tarefas religiosas junto aos Irmãos. Tornou-se pastor da Unidade dos Irmãos em 1616, e reitor das escolas dos Irmãos em Fulnek, em 1618. As disputas constantes entre protestantes e católicos levaram Comênio para o exílio em 1620, onde terminou os seus dias. Por ter nascido e convivido com o meio protestante, Comênio recebeu desde criança forte influência dos valores cristãos e bíblicos, o que contribuiu sobremaneira para a formação de sua personalidade. A Unidade dos Irmãos Boêmios 1 , igreja que frequentava, considerava a educação um dos instrumentos mais eficazes para garantir a unidade de sua instituição. Esta influência forneceu-lhe os princípios religiosos necessários para seu sacerdócio, bem como, para sua vocação para a pedagogia. Os irmãos Boêmios assumiram a educação como um problema de toda a sua comunidade. Nesta linha prosseguiu Comênio, para quem os problemas da Unidade dos Irmãos e da educação popular se fundiam com os problemas de sua nação. Ele transferiu os ideais da Unidade, especialmente nos anos de exílio, para os objetivos e conteúdos da reforma de toda a humanidade (Gasparin, 1994, p. 30-31). Preocupado com as questões de seu tempo, Comênio não se omitiu em dedicar à velhice um capítulo especial em uma de suas obras mais importantes, a Deliberação Universal acerca da reforma das coisas humanas. Subdividida em sete partes, foi na Pampaedia (Educação Universal), concluída em 1645, que Comênio lançou um olhar diferenciado para a velhice. Por se tratar de um educador, não se absteve em enquadrar a velhice como uma fase de extrema importância da existência humana, onde se fala do ponto mais alto da sabedoria humana, do modo de atingir felizmente o termo da vida mortal e do feliz ingresso na vida imortal ou seja, da fruição da vida. (Comênio, 1971, p. 333). Comênio procurou indicar no capítulo XIV da Pampaedia, intitulado A Escola da Velhice, como os velhos deveriam se comportar nesta fase da vida, demonstrando que a existência humana não se esgotaria nela. Esta fase da vida humana exigiria regras de conduta próprias e específicas. Ao olhar para um indivíduo e uma sociedade que desprezava a velhice, Comênio procurou conceituá-la nos seguintes termos: A velhice é a última parte da vida humana, aquela que vai declinando e se avizinha da morte. Que também a velhice é uma escola e que os velhos devem ser sujeitos às leis da disciplina, mostram-no as seguintes razões: Em primeiro lugar, porque toda a vida presente uma escola propedêutica, onde nos preparamos para a Academia eterna. Ora, a velhice é uma parte desta vida presente; portanto, é uma parte da escola; portanto, é uma escola. (1971, p. 333) Para Comênio a vida humana era uma escola, e, se a velhice fazia parte da vida humana, esta deveria também ser uma escola. Os indivíduos teriam que aprender com ela e se preparar para nela entrar. A disciplina para os velhos, iria garantir uma melhor convivência humana entre os indivíduos da mesma ou com outras faixas etárias. O aprendizado necessariamente teria que estar presente nesta fase da vida para que o indivíduo desfrutasse dela sem dor e nem pesar. Ao afirmar que a velhice é (...) uma parte da vida humana (...), deixou explícito que dela não se poderia escapar e nem ao menos negá-la. Ao fazer parte da existência humana, o homem proposto por Comênio deixaria de ser fragmentado, passando a ser um homem integral, composto por três fases: a infantil, a adulta e a madura. O amadurecimento do homem se daria em cada fase da sua existência, sendo a fase da velhice o ápice deste amadurecimento. Segundo Comênio, a educação do homem na velhice se daria à partir de uma série de elementos, os quais garantiriam a existência de uma infra-estrutura para não deixar este velho na ociosidade. Por consequência, é necessário que tenha os seus preceptores, as suas regras, as suas tarefas, os seus estudos e a sua disciplina, para que, também para os velhos, continuar a viver seja progredir (...). Ora, a velhice é a mais débil das idades. Logo, não deve ser abandonada e privada de sustentáculos (Comênio, 1971, p. 333). Percebe-se que tal qual a criança, o velho também deveria ter o seu preceptor e dar continuidade aos estudos. Não poderia significar o fim de tudo, mas, um momento em que o homem iria [...] precaver-se a tempo para que as ações de toda a vida se não tornem inúteis (Comênio, 1971, p.333). Esta deveria significar continuidade e progressão, livre da ociosidade e da falta de ocupação. Para isso, a educação do idoso ocorreria à partir de metas, meios e método para atingi-la. Quanto às metas, de uma maneira mais explícita, direi: na escola da velhice, deve ensinar-se aos velhos, e estes devem aprender, qual o modo como possam, saibam e queiram: I. Fruir retamente da vida já vivida. II. Continuar a agir retamente durante o resto da vida. III. Rematar retamente
toda a vida mortal e entrar alegremente na vida eterna (Comênio,
1971, p. 335). Preocupado com as diferenças existentes nesta fase da vida, Comênio procurou distinguí-la em três classes: Ao dividir a velhice em momentos diferenciados, Comênio demonstrou que a velhice possuia etapas diferenciadas, cujo comportamento e atitude eram diferentes. Não seria possível vê-lo como um ser totalmente homogêneo, mas, passível de se transformar ao longo de sua vida. Os meios para atingir a educação dos velhos, são (...) os mesmos que
nas outras escolas: os exemplos, os preceitos e a prática constante,
mas no seu mais elevado e último grau (Comênio, 1971, p.
338). (...) É preciso antes de mais nada, ensinar a conviver, isto é, ensinar os indivíduos a tornarem-se públicos, a viverem permanentemente em contato com os outros. Mas esta consideração pelo outro é algo também novo. Quem é o outro a quem se deve respeitar? Paulatinamente, nos textos e, sobretudo, na realidade, o outro se universaliza até transformar-se em todos com que se convive (Figueira, 1998, p.5). Para cada classe distinta, deveria ser adotado um método específico. E foi justamente no método que Comênio dedicou-se com mais afinco. Para ele o método seria infalível se não fosse confuso, bem adequado e dominado completamente para cada coisa. 3 (Gasparin, 1994, p. 144) Neste sentido, a velhice robusta deveria se dedicar à gozar os frutos da vida passada. O método a ser seguido deveria ser: Quanto à velhice robusta, deveria esta dedicar-se a empregar o seu tempo na religião, na gravidade dos costumes e a cultivar bons pensamentos. Ora, todo o homem, sobretudo se for fiel e piedoso e sensato e velho, tendo já compreendido e desprezado as vaidades do mundo, persuadido de que está também na condição de um Imperador, desejará morrer de pé (...) (Comênio, 1971, p.345). Nesta fase caberia ao homem saber virtuosamente (reconhecer e emendar os erros da vida), falar virtuosamente (instruir os outros nos bons conselhos) e agir virtuosamente (fazer somente o que convêm). Tudo o que for feito deveria ser na base da seriedade, ou seja, pensar apenas em coisas santas. Por isso, no lugar do espírito crítico, colocará a fé; no lugar do conhecimento de muitas e variadas coisas, colocará a ignorância da maior parte dessas coisas; no lugar da prudência, colocará a simplicidade; no lugar da eloquência, colocará o silêncio (Comênio, 1971, p. 346). Uma vez tomadas estas precauções, caberia ao velho dedicar-se exclusivamente a Deus, movimentando-se em meio as suas criaturas. Por isso, a hora de aquietar se aproximou. Foi a partir deste parâmetro que Comênio determinou uma cisão na vida deste indivíduo velho. Já não deveria mais dedicar-se às coisas terrenas ou depender dos homens e das opiniões humanas 4 . A última classe, a dos decrépitos, restaria a tarefa de acolher a morte e entrar na vida imortal. Para que isto acontecesse com maior tranquilidade, o indivíduo não deveria temer a morte, na mesma medida em que não temeu a vida. Para estes, a melhor indicação seria utilizar ilustrações que os lembrassem de crânios de mortos, sepultura ou sepulcros. Estas imagens os fariam recordar que este seria o seu fim. Estariam eles aprendendo a morrer bem, isentos das marcas do pecado. Nesta fase, só restaria ao homem velar pela sua vida, que aos poucos estaria se esvaindo. A morte deixaria de ser um fantasma, para se tornar a companheira mais fiel do velho decrépito. Ao se encontrar nesta fase da velhice, o próprio homem estaria esperando pela morte de uma forma satisfatória. 3 ASPECTOS CONCLUSIVOS A proposta efetuada por Comênio no século 17, é muito parecida com a proposta apresentada no século 20 pelos intelectuais contemporâneos. A diferença principal situa-se no fato de que Comênio defende o desenvolvimento da espiritualidade como a questão central. Independente desta incompatibilidade, tanto Comênio, quanto os intelectuais contemporâneos, dividem a mesma opinião no tocante a educação dos idosos. Esta seria a varinha de condão para a conquista de uma velhice feliz, onde o envelhecimento dos valores, das atitudes e dos comportamentos, provoca o retraimento da participação, a não solicitação a desempenhar papéis nas diversas atividades da comunidade. E para a atualização permanente desses valores, atitudes e informações não existe outro meio que o da educação, concebida como um processo de socialização permanente através dos meios de comunicação, da participação nas atividades culturais, de lazer, na co-educação com outras idades e, até mesmo, na escola (Pereira, 1980, p. 10). A educação permanente reverteria o quadro colocado até então, pois, a sociedade tinha a tendência de ... concentrar o estudo na primeira parte da vida, o trabalho na segunda e o lazer na terceira. Essa atividade se opõe ao princípio básico de desenvolvimento que pressupõe um processo de educação permanente, no qual o equilíbrio social e o crescimento intelectual são pontos importantes (Salgado, 1977, p. 21). As propostas efetuadas por Comênio não extrapolam o caráter individual, este é o limite de seu momento histórico. A educação do idoso seria feita à partir da conduta de cada indivíduo, pois, a sociedade do seu tempo ainda não estava madura o suficiente para assumir trabalhos coletivos com esta faixa etária. Todavia, a contribuição de Comênio à compreensão da velhice é inegável. Ao incluir na Pampaedia um capítulo sobre a velhice, deixou evidente que a educação não poderia deixar de lado os indivíduos velhos. Esta deveria ser também uma preocupação da sociedade burguesa que estava se consolidando, e, principalmente dos próprios idosos. Este capítulo da Escola da Velhice, como o próprio título sugere, é um momento da vida em que o indivíduo deve adotar comportamentos, atitudes e valores que são próprios desta idade, e, que, esta idade merece uma atenção especial por parte da sociedade. Comênio, que parece estar tão distante, deixou as suas marcas ao se preocupar com a velhice. O século 17 que vivenciava o amadurecimento da sociedade burguesa, ainda não estava pronto para enquadrar esta faixa etária em seu movimento histórico. Foi necessário mais dois séculos, quando a velhice se tornou uma questão social, para que a educação dos idosos tornasse uma realidade, e, que se encontra ainda em amadurecimento. NOTAS
2 Convém ressaltar que Comênio escreve a Pampaedia na metade do século 17, momento este em que ainda havia um forte predomínio da crença religiosa. De um lado está uma interpretação divina da vida e, de outro, uma humanização da história. Em função deste fato, a vida eterna é caracterizada como o alvo a ser alcançado pelos velhos. [volta] 3 Esta postura diante do método não foi uma criação exclusiva de Comênio. A sociedade passou a ser ordenada pelo “fazer a ti mesmo” e por “aquilo que conquistares”, requerendo novos projetos para formação do indivíduo. O método deixou de ser um caminho a ser percorrido para lograr um determinado resultado. Tornou-se subordinado ao objetivo que se queria alcançar. Por conseguinte, a opção por um ou outro método estava subordinado à concepção de homem e mundo do autor. [volta] 4 Nota-se aí a influência do humanismo sobre o seu pensamento, já que admitia as opiniões humanas.[volta] ABSTRACT The objective of this article is to identify the educational purpose for the elderly as presented by professor Comênio in the 17th century, taking into consideration that educating this age level is the most viable alternative for facing the social problems that are the result of the aging process. It is the responsabilty of professionals, including social workes, to develop programs for the eldery, analysing the educational programs presented in other historical periods, in order to enlarge the horizons of knowledge and present new forms of intervention in view of the demands presented. Key-words: Aging; elderly; education; history. BIBLIOGRAFIA BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. A realidade Incômoda. São Paulo: Difusão Européia do Livro. 1970. Vol. I. BERNAL, J. D. História Social de La Ciencia. La Ciencia en La História. Barcelona : Ediciones Península, 1979. v. I COMÊNIO, J. A. Pampaedia - Educação Universal. Trad. Joaquim Ferreira Gomes. Coimbra : Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1971. FIGUEIRA, F. G. Erasmo. De Pueris. Apresentação. Revista InterMeio. Encarte Especial. Número 3, 1998. GASPARIN, J. L. Comênio ou da Arte de Ensinar Tudo a Todos. Campinas : Papirus, 1994. GASPARIN, J. L. Comênio. A emergência da modernidade na educação. São Paulo : Vozes, 1997. PEREIRA, J. V. Educação para a participação. In: Cadernos da Terceira Idade. São Paulo : SESC, p. 10, 1980. SALGADO, M. A. Escola Aberta para Idosos. Uma Abordagem sócio-educativa. Cadernos da Terceira Idade, v. 1, n. 1, p. 19-24, abr. 1977. |