| Cuidados Paliativos: a visão de pacientes além de possibilidades terapêuticas |
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* Assistente Social, Coordenadora do Serviço Social do Hospital Erasto Gaertner, Especialista em Políticas Sociais – Temas Contemporâneos pela UEL. |
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Key words: cancer, palliative care, life quality. Diz a lei 8.080, de 19 de Setembro de 1990, em seu artigo 2º: “A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício” . Complementa o artigo 3º: “ A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País” . Num país, como o Brasil, onde as condições de vida da população são extremamente precárias, com necessidades básicas, de higiene, de alimentação, de educação, lazer, e outras, falar somente em saúde chega a ser contraditório. A saúde reflete a grave situação de pobreza, miséria, exclusão e seletividade existente no país. Deparamo-nos com sérios problemas na área da Saúde Pública, como o difícil acesso da população aos serviços especializados, a escassez de hospitais especializados que atendam pelo Sistema Único de Saúde, o que leva o cidadão doente a ficar horas em uma fila de espera e, ainda assim, não ter a garantia de receber um serviço de qualidade. Algumas doenças consideradas graves podem ser prevenidas e, quando detectadas precocemente, podem ser curadas, como é o caso do câncer. No entanto, a falta de programas de prevenção em linguagem clara, que possibilitem que as informações cheguem a todos os níveis sócio-econômicos, somada à dificuldade de compreensão sobre os fatores de risco e às precárias condições de sobrevivência da população, contribuem para que os pacientes portadores de câncer procurem orientação médica e tratamento com a doença num estágio muito avançado, o que dificulta sua remissão e traz sérias complicações ao paciente e a seus familiares, como debilidade física, mental, emocional e social. O câncer é considerado uma doença complexa que representa hoje a terceira maior causa de óbitos, perdendo apenas para as doenças cardiovasculares e para as causadas por fatores externos. Atualmente existem mais de duzentas doenças agrupadas sob o nome de câncer, todas resultantes do crescimento desordenado de alguma célula do corpo. Como todo corpo é formado por células, o câncer pode surgir em qualquer parte dele, em qualquer pessoa, independente da idade, do sexo, da cor, do país onde vive, ou da condição sócio-econômica. Por ter causas diversas e desconhecidas, é uma doença que assusta o seu portador e toda sua rede de relacionamento. Traz em sua história o estigma de uma época na qual não tinha cura. As associações feitas a ela relacionam-se ao sofrimento, à dor e, principalmente, à morte. Assim, a própria palavra câncer provoca medo e este medo impede ou retarda que as pessoas busquem informações concretas. Baseiam-se, dessa forma, em situações vivenciadas por elas ou por conhecidos. São, geralmente, situações nas quais o tratamento não obteve sucesso, seja pela agressividade do câncer, seja pela demora no início do tratamento especializado. Quando uma pessoa descobre que está com câncer, mesmo que o prognóstico seja positivo, surge uma expectativa relacionada à morte. O mesmo acontece com a sua rede de relacionamento, o que leva, muitas vezes, ao desnecessário isolamento social do paciente, quando as pessoas de seu convívio, por medo de contágio ou por não saberem lidar com a situação, afastam-se dele, no momento em que todo o apoio é necessário. A pessoa portadora de um câncer em estágio avançado apresenta vários sintomas, responsáveis pelo sofrimento e perda da qualidade de vida. Para que estes sintomas sejam sanados é necessária uma avaliação detalhada dos vários aspectos de sua vida, física, cultural, emocional, espiritual, social e econômica. Nesse momento é de suma importância que o paciente seja acompanhado por uma equipe multiprofissional, especializada, que servirá de suporte para ele e sua família. Deve receber o máximo de informação possível, tendo a liberdade de se comunicar com os membros da equipe sempre que necessário. Além disso, deve ser ouvido, entendido e respeitado. Deve ser levada em consideração toda a angústia vivida por ele, o medo da perda da família, da perda da força física, do seu papel social e principalmente o medo do desconhecido, a morte. Apesar do progresso tecnológico vivido pelo homem na área da saúde e, mais especificamente, na área oncológica, a falta de medidas curativas para a grande maioria dos casos de câncer ainda é fato. Para atender essa demanda cada vez maior de pacientes com câncer em estágio avançado, sem possibilidade de cura terapêutica, torna-se necessário uma preparação da equipe de saúde para lidar com a probabilidade, às vezes iminente, da morte. A medicina tem trabalhado em uma perspectiva de cura e entende a morte, muitas vezes, como uma falha, como o não cumprimento de seus objetivos. A morte é, no entanto, parte da condição do ser humano e assim deve ser encarada para que a pessoa, em estágio avançado de uma doença letal, tenha ao menos acesso ao tratamento paliativo necessário de forma a alcançar melhor qualidade de vida, mesmo que em seu período final. Em grande parte dos casos, os paciente chegam às instituições de tratamento especializado, já com a doença em estágio avançado, quando nada mais pode ser feito para a sua remissão. Isso não significa que o paciente não deva mais ser assistido pela equipe de saúde, pelo contrário, nesse momento o doente deve receber um tratamento tão qualificado quanto aqueles que buscam a remissão da doença. O atendimento destinado passa de curativo para paliativo e, sempre que possível, tenta eliminar os sintomas apresentados pelos pacientes, de forma a reduzir e aliviar sofrimentos desnecessários e oferecer maior conforto e segurança aos familiares. Sensibilizados pela necessidade de melhorar a qualidade dos atendimentos prestados pela instituição, em casos nos quais era detectada a impossibilidade de tratamento, profissionais do Hospital Erasto Gaertner, reuniram-se em 1993 e formaram um grupo denominado GISTO (Grupo Interdisciplinar de Suporte Terapêutico Oncológico). Este grupo assumiu a responsabilidade de atender os pacientes “terminais”, oferecendo um tratamento paliativo especializado, por meio do qual não somente os problemas de ordem física passaram a ser atendidos, como também, fatores de ordem psicológica, espiritual e social do paciente e de seus familiares.
O grupo interdisciplinar de suporte terapêutico oncológico - GISTO Nascido o GISTO, esta opção de atendimento tornou-se real e passou a ser praticada pelos profissionais do Hospital Erasto Gaertner. Mas nem sempre foi assim. Anteriormente, enquanto havia a possibilidade de obter sucesso na remissão da doença, todo tipo de atenção e tratamento eram dedicados aos pacientes. Infelizmente, no entanto, quando se detectava a impossibilidade terapêutica, destinava-se a eles apenas atendimentos esporádicos no pronto atendimento da instituição, usualmente incompatíveis com a condição social do paciente e com a evolução da doença. O atendimento atual se dá da seguinte forma: o médico especialista faz o encaminhamento ao GISTO através de um pedido de consulta, após ter esgotado todas as possibilidades de tratamento indicadas para o caso, acompanhado de um breve relatório no prontuário esclarecendo as razões do diagnóstico de FPTA (Fora de Possibilidades Terapêuticas Atuais). Os familiares são informados sobre o encaminhamento realizado e o atendimento prestado pelo GISTO. A seguir, o Grupo avalia cada caso encaminhado e decide a melhor forma de atendimento a ser oferecida: hospitalar, domiciliar ou ambulatorial. O atendimento ambulatorial é destinado aos pacientes que apresentam condições clínicas, sócio-econômicas, familiares, de locomoção e de companhia que lhes permitam comparecer aos controles periódicos no hospital. As consultas são agendadas previamente conforme a gravidade e intensidade dos sintomas. Quando ocorre o agravamento da doença e a impossibilidade de comparecer ao hospital a equipe passa a atendê-lo no domicílio. O atendimento domiciliar é direcionado aos pacientes que não possuem condições de deslocamento até o hospital, para que assim possam ficar em suas casas com seus familiares, recebendo a atenção e os cuidados necessários a partir das orientações e do apoio dos profissionais. A periodicidade dos atendimentos domiciliares é avaliada de acordo com a necessidade de cada caso. São realizados somente para pacientes residentes em Curitiba ou região Metropolitana por, no mínimo, dois membros da equipe a cada visita, objetivando observar as condições físicas e ambientais do paciente, as condições sócio-econômicas, orientar e improvisar as adaptações necessárias ao atendimento, fiscalizar as condições sanitárias do ambiente, esclarecer a importância da higiene, treinar os familiares no cuidado com o doente e avaliar a necessidade de assistência do paciente por outros membros da equipe. Após a primeira visita a equipe define as visitas subseqüentes, colocando-se à disposição para qualquer momento em que as orientações familiares se fizerem necessárias. O atendimento hospitalar é reservado aos pacientes cujos sintomas são de difícil controle ou apresentem sérios problemas sociais, psicológicos ou espirituais que demandem atendimentos diários dos membros da equipe. Após a solicitação médica ao Grupo para a realização deste tipo de tratamento, o paciente é atendido pela Assistente Social, que lhe repassa todas as informações referentes ao funcionamento do Grupo, levanta dados sobre sua condição sócio-econômica e familiar, seus possíveis cuidadores e as angústias, dúvidas e preocupações tanto do paciente como de seus familiares. Em seguida o paciente é encaminhado para uma consulta com a equipe de enfermagem, na qual são avaliados o quadro clínico atual e a necessidade ou não do atendimento domiciliar, Neste momento a Assistente Social apresenta para os demais participantes do Grupo os dados levantados na entrevista social. Com o parecer do Assistente Social e, já atendido pela enfermagem, o paciente é encaminhado ao médico que faz os encaminhamentos e procedimentos necessários como exames, internamento, medicamentos, além de reforçar o funcionamento do Grupo e detectar outras necessidades não verificadas pelos demais profissionais. Durante esses atendimentos a avaliação do paciente é completada de forma global pelas áreas de psicologia, nutrição, fisioterapia e voluntárias. Além destas equipes, quando necessário, o paciente é encaminhado para outros profissionais da instituição ou para os demais programas existentes. Os casos são sempre discutidos pelo Grupo que, em conjunto, decide a melhor forma de atendimento. O Grupo conta ainda com o apoio das voluntárias da Rede Feminina de Combate ao Câncer e com as doações realizadas pela comunidade. Lembramos que o paciente, quando se depara com o limite entre a vida e a morte, não deixa de ser humano e detém os mesmos direitos que qualquer outra pessoa. Deve ser visto em sua totalidade respeitando-se suas vontades, suas angústias e seu direito ao acesso à saúde pública. Mesmo que o seu tempo de vida seja breve, deve ser ouvido, atendido e respeitado. Qualquer seja o tratamento realizado, o paciente e seus familiares devem ser informados dos riscos e a terapêutica deve ser com eles discutida, para que eles não percam seu direito de participar ativamente das decisões que envolvem seu tratamento. Quando um paciente é encaminhado ao GISTO, para tratamento paliativo, deve ser informado sobre o Grupo, sobre o diagnóstico e prognóstico, para que possamos atendê-lo da melhor forma possível. Partindo deste pressuposto, surgiu nosso interesse nesse trabalho de pesquisa, para ouvirmos nossos pacientes, verificarmos suas necessidades e comprovarmos a importância, na visão do paciente, de uma equipe de cuidados paliativos em uma instituição oncológica. Esta pesquisa teve como objetivos específicos identificar os conhecimentos que os pacientes têm do GISTO; apreender o significado da doença do ponto de vista dos pacientes atendidos; analisar os significados do GISTO para seus usuários; contribuir para a ampliação dos recursos humanos e materiais utilizados pela equipe, visando melhorar os atendimentos prestados; adaptar as rotinas de atendimento às necessidades dos pacientes e familiares; e divulgar o trabalho da especialidade junto aos profissionais da área de saúde. Para atingirmos esses objetivos utilizamos a abordagem qualitativa e o procedimento de coleta de dados foi realizado por meio de entrevistas em profundidade. O universo foi constituído por seis pacientes atendidos pelo GISTO: dois atendidos em domicílio, dois em atendimento ambulatorial e dois internados. Dos entrevistados, três são atendidos pelo GISTO há dois anos, um há um ano, um há seis anos, e um há duas semanas. Nossa escolha para a análise dos dados recaiu sobre a técnica de análise temática. Para proteger a identidade e a privacidade dos entrevistados, eles serão nominados pelas letras A, B, C, D, E e F.
Os pacientes e suas falas Dos pacientes entrevistados, quatro foram orientados sobre o GISTO, um não se lembrava das informações recebidas e outro não havia recebido qualquer orientação. Muitas vezes essa informações devem ser fornecidas gradativamente para que o paciente tenha tempo para assimilá-las. A equipe deve respeitar o momento que está sendo vivenciado pelo paciente. A pergunta sobre como haviam sido encaminhados ao GISTO, obteve as seguintes respostas:
Os pacientes que utilizam a Saúde Pública encontram dificuldades de acesso ao tratamento especializado e, muitas vezes, deparam-se com a falta de mão de obra qualificada. Isso pode contribuir negativamente para o tratamento, uma vez que o paciente pode chegar ao hospital já com um câncer em estágio avançado e de difícil tratamento. Na fala da entrevistada “A” percebemos que a paciente ficou um ano sentindo dor de cabeça. Mesmo procurando auxílio médico devido às fortes dores, só foi encaminhada ao hospital após sua solicitação de realizar um RX. Antes disso, a paciente era medicada e atendida como uma paciente com hipertensão arterial. Isso nos mostra que alguns profissionais ainda se encontram despreparados para diagnosticar um câncer precocemente e encaminhar os pacientes para a realização de tratamento especializado.
O mesmo aconteceu com um outro dos entrevistados:
Quanto melhor for a comunicação entre equipe de saúde e paciente, melhor será o entendimento e colaboração do doente. Alguns pacientes seja por dificuldade própria, seja ela provocada pelo impacto do diagnóstico e do prognóstico, precisam receber informações gradativamente, respeitando-se o momento que está sendo vivenciado por ele. Cabe aos membros da equipe perceber a necessidade do paciente e procurar orientá-lo de forma clara, gradual e em linguagem acessível, incentivando sua participação. Embora o câncer seja uma doença associada à morte, é de grande importância que o paciente tenha respeitado o seu direito de tomar conhecimento do diagnóstico e do prognóstico. Todas as dúvidas levantadas por ele devem ser esclarecidas. Por um lado, para que as informações sejam aceitas pelo paciente e pelos familiares é necessário que haja uma relação de confiança entre eles e os profissionais que irão atendê-los, principalmente o médico. Por outro lado, o medo, a angústia, e a falta de confiança na equipe são provocados ou agravados pela falta de informação. Clareza nas informações gera confiança e confiança gera a compreensão e conseqüente aceitação das informações recebidas. Muitas pessoas têm receio até mesmo de pronunciar a palavra câncer, tamanho é o medo dos significados nela implicados. Isso foi vivido pela entrevistada “A”,
Os entrevistados “B” e “C” queixam-se da demora em receber o diagnóstico e da imprecisão quando a eles relatado:
A entrevistada “D”, demonstra não confiar nas informações repassadas pelo seu médico titular, por acreditar que o câncer pode estar em outros órgãos.
Ela continua
Outros já chegam cientes do diagnóstico.
Muitos pacientes desistem do tratamento antes mesmo de receberem alta hospitalar, por acreditarem que já estão curados ou ainda por se sentirem enfraquecidos e conseqüentemente num pior estado geral. O que lhes falta é a informação sobre os procedimentos e que suas reações podem desaparecer com o término do tratamento. Justamente por ser o câncer uma doença agressiva, o tratamento tem que ser tão agressivo quanto. Esta falta de informação das pessoas leva a desistência do tratamento, muitas vezes no momento que existe a possibilidade de cura. No entanto, sem o tratamento, a doença continua evoluindo. Normalmente quando o paciente não suporta mais os sintomas, ele procura o hospital, numa fase em que nada mais pode ser feito além do tratamento paliativo. Isso ocorreu com a entrevistada “A”.
O fato de ser o câncer uma doença que traz a associação com a dor, o sofrimento e a morte, evitar ou postergar a ciência do diagnóstico é uma maneira de adiar, para muitas pessoas, o face-a-face com estas associações dolorosas. Outros acreditam que o câncer, quando tocado ou tratado, tende a piorar. Assim crêem devido a experiências pelas quais presenciaram a debilidade de alguns pacientes, tomados por reações adversas ao tratamento, como náuseas, diarréias, vômitos, queda de cabelo, emagrecimento, entre outras. Algumas pessoas que presenciaram a morte de alguém submetido a um tratamento de câncer, cristalizaram a idéia de ter sido o tratamento que fez piorar o quadro do paciente. Na entrevista, “A”, apesar da paciente não falar abertamente sobre a doença, dá a perceber que associa o câncer à morte, mesmo porque o estigma da morte já se encontra por demais enraizado a esta doença.
“A” apresenta esperanças de melhorar, devido às várias vezes em que esteve muito mal e conseguiu melhorar. Para ela melhorar não é ficar curada e, sim, ficar sem dor. Transparece, em sua fala, um sentimento de conformismo.
Para a entrevistada “B”, descobrir que estava com câncer, foi igualmente uma sentença de morte:
Essa paciente conseguiu identificar sentimentos de negação, de revolta e de aceitação. Está tentando aceitar a doença como parte de sua vida. Em alguns momentos percebemos que a paciente usa a negação da doença como uma forma de enfrentamento. Com relação à morte a paciente presenciou a de algumas pessoas conhecidas que não estavam com câncer e isso fez com que refletisse sobre a morte. Para ela, o câncer significou também a perda da força de trabalho e, conseqüentemente, dificuldades financeiras.
O câncer é uma doença que acarreta alto custo social, pela perda da força de trabalho, pela necessidade de adquirir os medicamentos, ou ainda, por algum membro da família obrigar-se a deixar o trabalho para cuidar do doente, diminuindo com isso a renda familiar. Quando o paciente exerce uma atividade informal, não consegue o auxílio doença para substituir sua renda. Sem forças para continuar trabalhando, passa muitas vezes a depender dos familiares, ou ainda da colaboração de amigos. Para todos os entrevistados, o câncer representava a morte. No entanto, a história de vida do paciente, a cultura à qual ele pertence, as experiências vividas por ele com relação à doença, o tempo de instalação do câncer e a idade do paciente contribuem para a formação de sua visão sobre o câncer e sobre a morte. Alguns entrevistados temem, principalmente, o sofrimento nos últimos dias de vida. Outros relatam que pior que saber que possuem uma doença que não tem cura, é viver o isolamento social provocado pelo preconceito em relação a ela. A entrevistada “B”, mesmo ciente de que possui uma doença sem possibilidades de cura, percebe que a morte pode ocorrer com qualquer pessoa, independentemente de ter o câncer como causa.
Essa paciente relata ainda a dificuldade que enfrenta com relação ao preconceito.
Os entrevistados “C” e “D” falam da forma particular como enfrentam a doença:
Os entrevistados “C” e “F “ dizem de suas angústias:
Na fala da entrevistada “F”, também observamos queixa em relação ao preconceito.
A família é o primeiro contato social que as pessoas têm a partir do seu nascimento e, sendo assim, quando uma pessoa descobre que está com câncer, é usualmente na família que busca o primeiro apoio, a primeira forma de auxílio. O fato do câncer ser uma doença que causa pânico, que acarreta custos excessivos pela necessidade de aquisição de medicamentos, que implica em cuidados, é de fundamental importância que a família participe do tratamento e acompanhe o paciente em suas consultas. A família deve ser igualmente compreendida e atendida como um paciente que necessita de cuidados e atenção. Todos os aspectos da vida de um portador devem ser considerados, pois o câncer é uma doença que não atinge somente a pessoa, mas também toda a sua rede de relacionamentos. Por esta razão, o atendimento deve ser feito por uma equipe multidisciplinar, para que a pessoa possa ser entendida em sua totalidade, em seus aspectos físico, psíquicos, emocionais e sociais, o que possibilitará uma melhor qualidade de vida para o paciente e para os que o rodeiam. O paciente deve ser considerado como o principal membro da equipe de tratamento, pois a atitude dele em relação à doença pode contribuir consideravelmente para o sucesso do tratamento. O estado de ânimo e de enfrentamento devem ser continuamente observados e estimulados. As entrevistadas “A” e “B” contam da reação de seus familiares:
Por um outro lado, para a entrevistada “B”, o câncer fez com a comunicação com os filhos melhorasse.
O entrevistado “C” e a entrevistada “D” também fazem referência às reações de seus familiares.
O entrevistado “E” e a entrevistada “F” relatam:
O câncer é uma doença que, pela sua gravidade, debilita a vida física, emocional e social do doente. Debilita também os familiares, que modificam suas rotinas em função dos cuidados com o paciente. Isso ocorre principalmente quando um paciente não possui mais condições terapêuticas, quando o tratamento paliativo é o único indicado. Assim, o paciente torna-se mais fragilizado e pode apresentar uma grande confusão de sentimentos. Alterna sentimentos de esperanças, com sentimentos de incertezas com relação ao futuro. Por várias vezes, percebe que sua morte está próxima e teme a chegada dos últimos dias. Angustia-se também pelas situações que a doença provoca, como a incapacidade para o trabalho e o desgaste dos familiares. Atender um paciente portador de câncer requer uma equipe especializada, que perceba esse doente como único, respeitando-o e considerando todos os aspectos de sua vida. Um “doente terminal” requer da equipe, acima de tudo, comprometimento. A proposta do GISTO é a de controlar os sintomas do paciente, procurando oferecer uma melhor qualidade de vida a ele e a seus familiares. Muitas vezes, os receios não estão relacionados à dor física, mas às dificuldades financeiras, ao preconceito e isolamento social, ao medo da morte, ou às situações de sua vida que ficaram pendentes. Cabe à equipe, possibilitar o contato emocional e a expressão destes receios, na medida em que ouve o doente em suas queixas, treina-o e orienta-o, assim como à sua família, para o enfrentamento das dificuldades que, porventura, surgirem. Vejamos, por exemplo, o caso da paciente “A”. Após ter sido re-encaminhada ao Hospital Erasto Gaertner, ela foi atendida pelo GISTO. Todos os profissionais da equipe a atenderam, informando-a sobre o funcionamento do grupo e principalmente buscando alternativas para sanar sua principal queixa, a dor. Depois de verificada as situações sócio-econômica, familiar, psicológica e física, o Grupo passou a atendê-la em domicílio. A paciente agradece várias vezes por ter sido atendida pelo GISTO e associa ao Grupo a melhora de sua dor. Sobre o GISTO, a entrevistada “A” emite sua opinião:
Para a entrevistada “B”, a forma como ela é atendida pelo grupo, faz com que se sinta acolhida e importante,
São palavras do entrevistado “C” e “D”:
São falas dos entrevistados “E” e “F”, sobre o GISTO :
Em todas as entrevistas, pudemos perceber a satisfação dos pacientes com o atendimento realizado pelo GISTO. Todos encontraram no Grupo o que precisavam, alívio para dor, ou conforto e compreensão. Com essas declarações podemos dizer que o Grupo, apesar das dificuldades enfrentadas, vem cumprindo os objetivos aos quais se propôs, de melhorar a qualidade de vida do paciente, amenizando os fatores que o fazem sofrer.
Considerações Finais É contraditório falar em qualidade de vida, num país como o Brasil, no qual a situação de extrema pobreza, além de contribuir para o surgimento de doenças, dificulta o acesso ao precário sistema de saúde. No entanto, melhorar a qualidade de vida das pessoas doentes é, muitas vezes, possível na medida em que se modificam algumas atitudes da equipe que com elas se relaciona. São fundamentais atitudes que levem a melhorar a comunicação entre a equipe e o paciente, a oferecer conforto no momento necessário e a possibilitar o acesso aos seus direitos. O paciente, mesmo aquele além de possibilidades terapêuticas, continua um Ser Humano que merece ser respeitado em sua individualidade e em sua vontade e, principalmente, merece acesso a um serviço de saúde com qualidade, com profissionais especializados e comprometidos com a profissão que visam sanar ou diminuir as dificuldades enfrentadas por pacientes que se deparam com o limite entre a vida e a morte, com toda angústia e medo que essa situação provoca. É possível melhorar nosso atendimento reconhecendo que o paciente, mesmo debilitado, é portador de direitos e deveres, deve opinar, contribuir e participar ativamente do seu processo de tratamento. Melhorar a qualidade de vida é proporcionar aquilo que o paciente mais precisa, muitas vezes é somente oferecer informação, carinho, atenção e apoio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BIOÉTICA. Simpósio: Pacientes Terminais. Vol um nº 2, Brasília: Conselho Federal de Medicina, 1993. BIOÉTICA. Simpósio: O Ensino da Ética dos Profissionais de Saúde. V. 4, nº 1, Brasília: Conselho Federal de Medicina, 1996. BIOÉTICA. Simpósio: Eutanásia. Vol 7 nº 1, Brasília: Conselho Federal de Medicina, 1999. BRASIL, Lei 8.080 de 19 de Setembro de 1990. Dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. CARVALHO, Maria Margarida. M. J. de. Introdução à Psico-oncologia . São Paulo: PSY II, 1994. GOMES, Roberto. Oncologia Básica . Rio de Janeiro: Revinter, 1997. ROSS, Elizabet Kubker. Sobre a Morte e o Morrer . São Paulo: Martins Fontes, 1987. SCHULZE, Clélia Maria Nascimento (Org). Dimensões da Dor no Câncer: reflexões sobre o cuidado interdisciplinar em um novo paradigma de saúde . São Paulo: Editorial Robel, 1997. VANZIN, Arlete Spencer, NERY, Maria Elena da Silva. Câncer: problema de saúde pública e saúde ocupacional . Porto Alegre: RM&L Gráfica, 1997.
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