| Os Jovens na Interface da Violência
e das Drogas: |
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* Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina betopeixoto@hotmail.com |
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RESUMO: PALAVRAS CHAVE : Juventude; Violência; Drogas; Homicídios; Acidentes de Trânsito ABSTRACT: KEY WORDS: Youth, Violence, Drugs, Deaths INTRODUÇÃO Esse artigo é fruto do resultado final de um projeto de iniciação científica vinculado ao Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina e financiado pela PIBIC/CNPq entre agosto de 2003 a julho de 2004, cujo foco foi analisar os dados referentes à violência por causas externas entre jovens em Londrina. Nesse sentido, foram abordados os óbitos por causas externas no ano de 2003, por ser este o último ano de referência, possibilitando uma análise mais delimitada e, portanto, com maior profundidade, além de possibilitar estabelecer a relação existente entre essas mortes e o uso de drogas lícitas e ilícitas. Entre as questões sociais da atualidade, o fenômeno da violência vem ocupando um lugar de destaque na sociedade, sendo um fenômeno social que atravessa as fronteiras de classe, raça ou cultura, criando, assim, um sentimento de medo e impotência generalizado. O crescimento da violência em Londrina vem afetando todos os seguimentos da sociedade. Tal crescimento enseja a discussão de que, não só Londrina, mas o país, estaria passando por uma nova epidemia social e por um dos mais graves problemas de saúde pública a ser enfrentado. Nas últimas décadas, as mais variadas manifestações de violência física são representados com crescente intensidade, como um dos principais problemas nas grandes cidades, gerando diversas interpretações, tanto no plano da existência cotidiana, quanto no da interpretação sociológica, embora no senso comum, as ações violentas acabem sendo sistematicamente explicadas de forma reducionista e automática. Entretanto a distribuição das mortes violentas não é homogênea em nenhum sentido: nem quanto aos grupos etários, nem quanto ao gênero, nem quanto às regiões do país. Nesse sentido a violência fatal e os acidentes não se apresentam como um fenômeno totalizante e homogêneo, devendo ser compreendidos em suas especificidades. Dentre as mortes consideradas "evitáveis ou mortes por causas externas" este trabalho analisa os casos de homicídio e os acidentes de trânsito, envolvendo jovens com óbitos ocorridos na cidade de Londrina no período de 01 de janeiro de 2003 até 31 de dezembro de 2003. A ênfase dada aos homicídios e os acidentes de trânsito se deu pois estas são as categorias, que apresentam as maiores prevalências de morte por causas externas na faixa etária de 15 a 24 anos aqui analisada. Os homicídios, sobretudo, em crescente ascensão nos grandes centros urbanos, como Londrina, revelam um nível altíssimo de tensão social e foram os maiores responsáveis pelo aumento dos dados sobre morte no país. Nesse sentido, diversos aspectos de ordem social, cultural e econômica interagem apontando os jovens como uma categoria mais suscetível a diversos tipos de risco, entre os quais está o da violência relacionada aos homicídios. Essa vulnerabilidade da juventude em relação à violência é constatada também em Londrina, confirmando a tese de alguns autores (Adorno (2002), Minayo (2003), Abramovay (2002), Zaluar (1994)) que apontam a juventude como a principal vítima da violência. Durante a pesquisa foi realizado um levantamento bibliográfico sobre os temas juventude, violência e drogas a fim de se unir materiais documentais e dados quantitativos e qualitativos que poderiam ajudar a compreender a relação entre os jovens, a violência e as drogas em Londrina. A instituição que melhor apresentou estrutura e dados de relevância que pudessem contemplar a pesquisas foi o IML (Instituto Médico Legal) de Londrina, tendo sido enviado um ofício ao mesmo, prontamente atendido, solicitando autorização para realização da pesquisa. O IML de Londrina foi escolhido pelo fato de ser a instituição que emite todos os laudos de necropsia por mortes de causas externas de Londrina e região. Além disso, em anexo aos laudos estão todos os respectivos Boletins de Ocorrência - B.O. das referidas mortes e, também, os resultados dos exames de toxicologia (quando solicitados e realizados) Foram analisados todos os laudos de necropsia referentes aos óbitos ocorridos no ano de 2003, juntamente com os B. O. e os resultados das pesquisas toxicológicas. Num total analisado de 740 laudos de necropsia, apenas três laudos não estavam disponíveis provavelmente por encontrarem-se perdidos entre os arquivos ou sendo utilizados por funcionários do IML. A partir desses 740 foram preenchidas 376 fichas catalográficas, sendo descartados os laudos de necropsia referentes a óbitos por morte natural, moradores de outras cidades e que não tiveram Londrina como local de óbito, mas tiveram os laudos emitidos pelo IML de Londrina, e os que não se referiam a moradores de Londrina. As fichas preenchidas contemplavam os seguintes dados: data de nascimento; idade; sexo; estado civil; cor da pele; profissão; escolaridade; bairro de residência; cidade de residência; número do laudo; número do boletim de ocorrência; delegacia; data do óbito; resumo do boletim de ocorrência; local do óbito; cidade do óbito; pesquisa toxicológica; exames complementares; psicoestimulantes e derivados barbitúricos; dosagem alcoólica; causa morte. Infelizmente nem todos os laudos trazem todos estes dados, muitos sendo preenchidos de forma incompleta. Para análise do material foi criado um banco de dados informatizado no programa Microsoft Acces 2000, sendo sistematizado um total de 347 registros. Destes, foram descartados os que não tiveram a cidade de Londrina como local de óbito, perfazendo um total de 329. Deste total, forma encontrados: · 99 laudos de acidentes de trânsito - esta categoria corresponde fundamentalmente aos casos com veículo a motor (95% desses registros) e demais acidentes de transporte, segundo Waiselfisz (1998). · 187 laudos de homicídios ou outras violências - esta categoria corresponde a homicídios e lesões provocadas por outras pessoas; morte derivadas por lesões de arma de fogo, explosivos, meios ignorados, sem especificações se foi acidental ou intencional (Waiselfisz, 1998). Conforme sugestão de Waiselfisz (1998), não foram consideradas outras categorias integrantes das denominadas causas externas, por serem de difícil tipificação em relação a uma situação de violência, como os envenenamentos acidentais, quedas acidentais, acidentes causados por fogo e chama, outros acidentes (causados por corrente elétrica, afogamento, alimentos, etc.). Ainda por sugestão deste autor, trabalhei com a faixa etária de 15 a 24 anos. Já os dados referentes a suicídios não foram analisados devido ao fato de não terem os jovens (15 a 24 anos) como suas principais vítimas. A análise foi elaborada a partir da comparação e compreensão de dados e bibliografia sobre o tema existentes no Brasil. A MULTIDIMENSIONALIDADE DA VIOLÊNCIA E OS JOVENSÉ consenso entre diferentes autores a predominância de estudos sobre violência que apontam os jovens como o grupo etário com maior prevalência de vítimas por causas externas. Os estudos de Minayo (2003), Waiselfisz (1998), Mello Jorge et al (1997), Souza (1994) e Zaluar (1994), todos reforçam a tendência de um crescimento acentuado da violência neste grupo. Todos colocam os jovens pobres e do sexo masculino no topo das estatísticas sobre mortes por causas externas, sobretudo no caso dos homicídios. Assim pensar em causalidades unívocas para explicar a violência urbana é alternativa há muito descartada. As teses que sustentavam as relações de causalidade única entre pobreza, delinquência e violência estão hoje bastante contestadas em inúmeros estudos. Para Zaluar (1995), a pobreza perdeu seu sinal positivo mais forte e adquiriu claramente o sentido negativo de falta. A imagem da pobreza como algo negativo é reforçado pelo senso comum e pela mídia, cuja capacidade de traduzir os fatos com uma ressonância diferente de um simples rumor localizado, dá novos contornos ao problema. Para a autora, por um lado, no plano do senso comum, a idéia de que a pobreza gera crime e violência tenta legitimar o discurso que faz desta idéia a justificativa tanto para a repressão violenta às classes populares, quanto para os que a utilizam na retórica de defesa da política social voltada para o atendimento aos setores mais pobres da população. Por outro lado, se parte da mídia tem feito um trabalho sério e responsável, ao colocar a violência em debate, há os que se identificam com a fabricação do medo, muitas vezes buscando uma maior audiência movidos por interesses financeiros. Alguns, inclusive, estão convencidos de possuir a missão de serem porta-vozes da desgraça alheia. Nesse meio, há ainda as respostas imediatistas relativas à violência como o reforço da idéia da criminalização da juventude pobre, o populismo punitivo, a construção da imagem do bandido cruel e facínora ou do bandido herói, com total ausência de análise crítica da complexa situação social que envolve as violências nas suas várias faces. Outro elemento importante a ser considerado para se compreender a violência crescente entre os jovens brasileiros pobres, principalmente com relação aos homicídios, é a dimensão que tomou o tráfico de drogas em nosso país. Zaluar (1997) analisa a violência pulverizada existente, atualmente, entre jovens no Rio de Janeiro, mostrando como a participação em grupos organizados do tráfico de drogas lhes possibilita demonstrar força e agressividade e adquirir um tipo de passaporte para a aceitação social. O que se torna particularmente verdadeiro nas favelas em que o crime organizado vem exercendo forte atração no meio dos jovens carentes, por significar maneira fácil e rápida de se ganhar dinheiro, prestígio e poder, em contraposição à pobreza imperante ali, entre seus pais, que só conseguem sobreviver às custas de árduo trabalho e de muitos sacrifícios, sem gratificações condizentes. Para estes jovens, a entrada num grupo ligado ao tráfico representa garantia de lugar - de aceitação social - no interior de uma sociedade que, certamente, os ignora e a eles não reserva lugar algum. A aceitação social ocorre às custas da violência e da morte prematura, na maioria dos casos. Estudos que enfocam o tráfico de drogas demonstram que suas atividades estimulam a competição individual desenfreada, com pouco ou nenhum limite institucional nas conquistas e na resolução dos conflitos interpessoais (Zaluar et al. 1994). Quando se aborda a temática das drogas é preciso distinguir claramente o consumo do tráfico, pois embora possam estar entrelaçadas, cada uma dessas atividades leva a conseqüências diferentes. Fica fácil compreender, através dos vários estudos apresentados, a multidimensionalidade da violência que faz dos jovens brasileiros as maiores vítimas de mortes violentas. No entanto, há difusão, pela imprensa e no senso comum, de uma visão preconceituosa que mostra apenas face da realidade e transforma os jovens, sobretudo os pobres, em autores da criminalidade. É preciso não cair na armadilha de estereotipar os jovens como os grandes protagonistas da violência no país, para que esse assunto não fique reforçado de preconceitos e explicado de forma reducionista e automática. A juventude entendida como uma categoria sócio histórica e cultural só pode ser pensada no plural com determinações de classe, gênero, raça/etnia, dentre outras. Deve-se, portanto, desmistificar a fato da juventude ser tratada apenas como "problema social", evidenciando também os dados que apontam serem os jovens pobres e negros as principais vítimas da violência, principalmente de grupos de extermínios (Adorno, 2002). Além disso, faz-se necessário considerar os jovens, efetivamente, como sujeitos e incorporá-los como capazes de formular questões significativas, de propor ações relevantes, de sustentar uma relação dialógica com outros atores sociais e de contribuir para a solução de problemas sociais, e não apenas ignorá-los nas pesquisas e nos projetos a eles dirigidos. O "MAPA DA VIOLÊNCIA" DE LONDRINA Nos homicídios Dos 187 casos de morte por homicídio em Londrina, verificou-se que 171 (92%) morreram por causa do uso da arma de fogo, 10 vítimas (5% dos óbitos) por causa do uso de arma branca e outras 06 vítimas (3%) foram espancadas ou agredidas até a morte. Faz-se necessário ressaltar que nas faixas etárias jovens (15 a 24 anos) em 100% dos casos (91 óbitos) o meio empregado para causar a morte das vítimas foi a arma de fogo. Esses dados confirmam a posse de arma, principalmente entre os jovens, como fator de risco e vulnerabilidade à violência, justificando, assim, o empenho de recentes campanhas de desarmamento realizadas no país. Ainda entre os jovens, a arma de fogo carregada na cintura e exposta para que todos a observem é símbolo de intimidação à população local, de conquista da integração social e de garantia de respeito para o jovem pobre e estigmatizado (Dal Bello, 2003). Nos Acidentes de Trânsito verificou-se que entre as vítimas, em todas as faixas etárias, 23 (23%) sofreram colisão entre carros como causa morte, outros 26 (26%) estavam de moto, tendo colidido ou caído, 37 (38%) foram vítimas de atropelamento e outras 04 (4%) foram vítimas de quedas de bicicleta. Se analisadas as faixas etárias mais (acho que sem querer eu inseri esta linha aqui e não sei tirar) jovens (15 a 24 anos), evidencia-se que 13 vitimas (43%) estavam de moto, 09 (30%) estavam de carro e sofreram algum tipo de colisão, 06 (20%) foram atropeladas e 02 (7%) tiveram como causa morte a queda de bicicleta. A escassez de dados detalhados sobre local de óbito por homicídios em Londrina levou a necessidade de elaboração de um "Mapa da Violência" em Londrina, para evidenciar os principais pontos críticos da cidade em relação à violência. Contemplou-se nessa pesquisa 187 homicídios dos 193 registrados pela polícia civil de Londrina. A dificuldade para sistematizar esses dados foi grande já que Londrina apresenta uma quantidade de Bairros, Vilas, Jardins, Conjuntos, Patrimônios, Distritos, Parques e Residenciais quase que intermináveis. Além disso, muito dos dados coletados junto aos Laudos de Necropsia no IML de Londrina e aos Boletins de Ocorrência não traziam bairros como local do óbito, mas apenas ruas. Para sistematizar esses dados foi utilizada a lista telefônica "Aqui 2003/2004" e para a divisão por bairros, foi seguido o modelo do "Orçamento Participativo" desenvolvido pela Prefeitura Municipal de Londrina que divide a cidade por bairros por região e por macro-regiões.
Fonte: IML - Londrina.
Fonte: IML - Londrina Os dados referentes a Acidentes de Trânsito não foram sistematizados de forma que apresentassem os locais de óbito devido à forma como esses se apresentaram, quase sempre deixando de especificar os bairros, trazendo somente a cidade, nome da rodovia, estrada, ou rua. Já os referentes a Suicídios não foram analisados devido ao fato de não terem os jovens (15 a 24 anos) como suas principais vítimas, sendo 3 óbitos nessa faixa etária. OS DADOS DA VIOLÊNCIA EM LONDRINA: MORTES POR CAUSAS EXTERNAS ENTRE JOVENS Dos 193 homicídios registrados pela Polícia Civil na cidade de Londrina no ano de 2003, foram analisados 187 laudos referentes a essas mortes. No ano de 2003, Londrina apresentou uma taxa de óbitos por homicídios de 41 em cada 100.000 habitantes. Já na população jovem essa taxa se eleva a 112, isto é, entre os jovens a taxa é quase três vezes maior do que na população em geral. Dos laudos de necropsia analisados foram encontrados 99 laudos de vítimas de acidentes de trânsito ocorridos na cidade de Londrina no ano de 2003. Em relação aos acidentes de trânsito a taxa de óbitos por 100.000 habitantes ficou em 22 óbitos para cada 100.000 habitantes em todas as faixas etárias e esse número vai para 37 quando verificado a taxa somente entre as faixas etárias mais jovens (14 a 25 anos). Verificou-se que faixa etária com a maior incidência de mortes por homicídios foi a faixa etária de 15 a 19 anos (46 mortes ou 24%) seguida da outra faixa etária jovem, de 20 a 24 anos (45 mortes ou 23%). Se somarmos essas duas faixas etárias conclui-se que quase 50% (47% ou 91 mortes) das mortes por homicídios na cidade de Londrina no ano de 2003 teve a juventude como grande vítima da violência. Já entre os acidentes de trânsito verificou-se que faixa etária com a maior incidência de mortes foi a faixa etária de 20 a 24 anos (18 mortes ou 19%), seguida da faixa etária com idade de 60 anos ou mais (14 óbitos ou 14%) e bem de perto da faixa etária jovem de 15 a 19 anos (13% ou 12 óbitos) dos óbitos por Acidentes de Trânsito. Se somarmos as duas faixas etárias mais jovens (15 a 19 e 20 a 24 anos) conclui-se que 32%, ou 30 óbitos nas 99, por acidentes de trânsito na cidade de Londrina no ano de 2003 teve a juventude como vítima da violência. Esses dados demonstram que a mortalidade por homicídios e acidentes de trânsito em Londrina ocorrem, na sua maioria, entre os jovens, fato que, como afirma Mello Jorge e Latorre (1994), evidencia uma grande perda na população economicamente ativa, população esta extremamente importante para o crescimento da nação. Já se segundo Souza, a incidência de mortes por violência, em especial os homicídios, em idades mais jovens reasseguram a este grupo como o principal responsável por anos potenciais de vida perdidos (APVPs).
Fonte: IML - Londrina Já sobre o sexo das vítimas os dados demonstram que entre as vítimas de homicídios na cidade de Londrina no ano de 2003, 172 eram do sexo masculino (92%) e 15 do sexo feminino (8%). E entre as vítimas de acidentes de trânsito 80 eram do sexo masculino (81%) e 19 do sexo feminino (19%). Quando analisadas as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos) das vítimas de homicídios, verifica-se que a porcentagem de vítimas do sexo masculino aumenta, passando de 92% para 94% (87 óbitos) e do sexo feminino diminui, passando de 8% para 4% (4 óbitos) Mas em relação às vítimas de acidentes de trânsito, verifica-se que a porcentagem de vítimas do sexo masculino diminui, passando de 81% para 77% (23 óbitos), conseqüentemente a porcentagem de mulheres vítimas de acidentes de trânsito aumenta, passando de 19% para 23% (7 óbitos). Esses números revelam que a mortalidade por homicídios e acidentes de trânsito na cidade de Londrina no ano de 2003 em todas as faixas etárias é sempre superior na população masculina, evidenciando uma relação de 11,6 vítimas masculinas para cada morte feminina, entre os homicídios, e 4:1 nos acidentes de trânsito. Quando é verificada essa relação entre as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos) percebe-se um aumento entre as mortes masculinas vítimas de homicídios, sendo que essa relação chega a 21 mortes masculinas para cada morte feminina e nos acidentes de trânsito esta relação cai para 3 mortes masculinas para cada morte feminina entre os acidentes de trânsito. Outro dado relevante constatado é o que diz respeito à raça\etnia (cor de pele) das vítimas onde entre as vítimas de homicídios a grande maioria das vítimas eram brancas (130 óbitos ou 69%), seguida da a cor parda (50 óbitos ou 27%) e apenas 6 (3%) das vítimas são de cor negra e 1 (1%) de cor amarela. Entre as vítimas de acidentes de trânsito, verificou-se que a grande maioria das vítimas eram brancas (79 óbitos ou 80%), aparecendo em segundo lugar a cor parda (15 óbitos ou 15%) e apenas uma vítima era da cor negra (1%) e 4 (4 %) eram da cor amarela. Na faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos), verifica-se uma alta entre as vítimas da cor branca, passando de 69% para 73% (66 óbitos) e diminuindo a porcentagem de vítimas da cor parda, passando de 27% para 24% (22 óbitos), sendo que as vítimas de cor negra se mantiveram com o mesmo percentual (3% ou 3 vítimas) e não tendo vítimas com a cor de pele amarela. Nessas faixas etárias, entre as vítimas de acidente de trânsito, verifica-se uma alta entre as vítimas da cor branca, passando de 80% para 87% (26 óbitos) e diminuindo a porcentagem de vítimas da cor parda, passando de 15% para 10% (22 óbitos), sendo que as de cor negra não aparecem nessas faixas etárias e as de cor parda representaram 3% das vítimas (1 óbito). Um exame mais próximo desses dados revela que a porcentagem de negros que morrem por homicídios é 3 vezes maior que a dos negros que morrem por acidentes de trânsito. A porcentagem de brancos que morrem por acidentes de trânsito é maior que a de mortos por homicídios, ficando em 80 % e 69 % respectivamente. Quando verificada a faixa etária dos 15 aos 24 anos, evidencia-se uma pequena porcentagem de negros que morreram por homicídio, mas nenhuma prevalência de óbitos entre eles nos acidentes de trânsito. E nessa mesma faixa etária, dentre essas duas causas de morte, as vítimas de cor amarela só aparecem nos acidentes de trânsito. Analisando a escolaridade das vítimas verificou-se que entre as vítimas de homicídios a grande maioria tinha baixa escolaridade, sendo que 50% (95 óbitos) não tinham o Ensino Fundamental completo. Do total, 20% das vítimas (38 óbitos) tinham o Ensino Fundamental completo, 6% (11 óbitos) tinham o Ensino Médio incompleto, 9% (16 óbitos) tinham o Ensino Médio concluído. 2% eram analfabetos (4 óbitos), 2% (3 óbitos) somente alfabetizados e apenas 1% (1 óbito) tinha o Ensino Superior completo. Entre as vítimas de acidentes de trânsito, verificou-se, igualmente, que a maioria tinha baixa escolaridade, sendo que 43% (42 óbitos) não tinham o Ensino Fundamental completo. Do total de vítimas, 14% (14 óbitos) tinham Ensino Fundamental completo, 5% (5 óbitos) tinham o Ensino Médio incompleto, 12% (12 óbitos) tinham o Ensino Médio concluído, 4% (4 óbitos) tinham superior incompleto, 3% (3 óbitos) eram analfabetos, 2% (2 óbitos) somente alfabetizados e, em relação ao Ensino Superior, apenas 1% (1 óbito) o tinha concluído. Nas faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos) das vítimas de homicídios, verifica-se uma pequena prevalência entre as vítimas que tinham o Ensino Fundamental incompleto (51% ou 46 óbitos) e uma minoria entre vítimas analfabetas e somente alfabetizadas ficando em 2% (1% para cada item). Houve, também, um aumento entre vítimas com o Ensino Fundamental incompleto, passando de 20% para 24% (22 óbitos) e com o Ensino Médio incompleto, passando de 6% para 11% (10 óbitos). Apresentou-se também uma redução em relação às vítimas com Ensino Médio completo, passando de 9% para 7%, e com o Ensino Superior completo, passando de 1% para 0%. Quando analisado as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos), das vítimas de acidentes de trânsito, verifica-se uma diminuição entre as vítimas que tinham o Ensino Fundamental incompleto passando, de 43% para 37%, não havendo vítimas somente alfabetizadas e 3% das vítimas eram analfabetas. Houve, também, uma pequena prevalência entre vítimas com o Ensino Médio completo passando de 12% para 20%, não havendo também vítimas com Ensino Superior completo e 10% tinham o Ensino Superior incompleto. Evidenciou-se um nível de escolaridade mais elevado para as vítimas de acidente de trânsito, demonstrando uma baixa escolaridade mais acentuada entre as vítimas de homicídios, principalmente quando se analisa somente a faixa etária de 15 a 24 anos. Já entre as vítimas de acidentes de trânsito percebe-se um pequeno aumento no nível de escolaridade das vítimas que tinham entre 15 e 24 anos em relação a todas as faixas etárias. Outro dado que se apresentou pertinente foi o que diz respeito a profissão das vítimas onde verificou-se que entre as vítimas de homicídios, 14 encontravam-se desempregadas. Porém, o item, onde essa expressão foi encontrada nos laudos, se referia à profissão das vítimas e não se a mesma se encontrava empregada, não podendo, portanto, esses dados corresponderem ao total de desempregados. As profissões das vítimas são, na sua grande maioria, profissões consideradas de baixa renda, sendo que só uma delas contemplava a necessidade do Ensino Superior. Em relação à profissão das vítimas de acidentes de trânsito, na cidade de Londrina no ano de 2003, verificou-se que 4 estavam desempregadas. As profissões encontradas foram, na grande maioria, profissões consideradas de baixa renda, sendo que apenas uma delas contemplava a necessidade do Ensino Superior e 5 eram aposentadas. Foram também encontradas profissões mais rentáveis como: gerente de assistência técnica, auxiliar de enfermagem, projetista, técnico em informática, autônomo. Além dessas profissões, foram vítimas de acidentes de trânsito 7 estudantes. Quando analisadas as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos), das vítimas de homicídios, verifica-se que o perfil de profissões se assemelha ao total de todas as idades para essa causa morte. Do total de 14 vítimas consideradas desempregadas, todas se encontravam na faixa etária jovem (15 a 24 anos). É também nessa faixa etária que se encontram as duas vítimas consideradas desocupadas e dentre essas vítimas não há nenhuma profissão que exija o Ensino Superior. Entre as profissões encontradas, nesta faixa etária, em grande parte, são profissões de baixa renda. Evidenciou-se também que as 8 vítimas de homicídios consideradas somente estudante se encontravam na faixa etária de 15 a 24 anos. Ainda nessas faixas etárias, mas agora em relação às vítimas de acidentes de trânsito, verifica-se que o perfil de profissões se assemelha ao total de todas as idades. Dentre essas vítimas não há nenhuma profissão que exija o Ensino Superior. Dentre as profissões encontradas, estão, em grande parte, aquelas consideradas de baixa renda: Foram consideradas somente estudantes 4 vítimas, na faixa etária de 15 a 24 anos, e 1 aposentada. A VIOLÊNCIA POR HOMICÍDIOS E ACIDENTES DE TRÂNSITO E SUA CORRELAÇÃO COM AS DROGAS: UMA ANÁLISE DOS DADOSA fim de verificar a real existência da correlação entre consumo de álcool e drogas ilícitas / tráfico de drogas e as mortes por homicídios e acidentes de trânsito em Londrina no ano de 2003, foram analisados os Boletins de Ocorrência (B. O.) e as pesquisas toxicológicas das respectivas mortes. Os Boletins de Ocorrência são emitidos pelas Delegacias que atendem as ocorrências e a pesquisa toxicológica, no IML de Londrina, consiste na coleta de material sanguíneo das vítimas que é enviado para Curitiba, com um pedido de análise que pode conter a dosagem alcoólica e a pesquisa de psicoestimulantes e derivados barbitúricos, a escolha de ambas ou uma das análises fica por conta do Médico Legista que emite o laudo de necropsia. Constatou-se que, entre as vítimas de homicídios, dos 187 laudos 151 apresentavam pesquisa toxicológica, representando 81% dos óbitos. Há casos em que não é possível a realização da pesquisa toxicológica: quando o corpo é encontrado em estado de decomposição/putrefação ou quando a vítima fica internada. Nesse sentindo, no ano de 2003, 12 vítimas ficaram internadas e 2 foram achadas em estado de decomposição/putrefação. Já entre as vítimas de acidentes de trânsito, verificou-se que dos 99 laudos, 41 apresentavam pesquisa toxicológica, representando 41% dos óbitos. Quando analisadas as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos), verifica-se que foi realizado o exame toxicológico em 77 (85%) das 91 vítimas. Das vítimas que não foram realizadas os exames, 04 ficaram internadas e 01 corpo foi achado em decomposição. Já na analise das faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos) das vítimas de acidentes de trânsito, verifica-se que foi realizado o exame toxicológico em 15 (50%) das 30 vítimas. Das vítimas que não foram realizadas os exames, apenas 6 ficaram internadas.
Analisando as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos), entre as vítimas de homicídios, verifica-se que o exame toxicológico de psicoestimulantes e derivados barbitúricos foram realizados em 67 que corresponde a 74% das vítimas. Desses 67 exames apenas 1 (1%) apontou positivo para psicoestimulantes e derivados barbitúricos e 66 (99%) deram negativo. Já entre as vítimas de acidentes de trânsito, nas faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos), verifica-se que o exame toxicológico de psicoestimulantes e derivados barbitúricos só realizado em 3 vítimas que corresponde a 10% das vítimas. Desses 3 exames nenhuma apontou resultado positivo para psicoestimulantes de derivados barbitúricos.
Para dosagem alcoólica em todas as faixas etárias foram realizados 151 exames de dosagem alcoólica que corresponde a 81% das vítimas de homicídios. Desses 151 exames 41 (27%) deram resultados positivos para dosagem alcoólica com uma média de 14,4 decigramas de álcool por litro de sangue e, 110 (73%) deram resultados negativos. Nos acidentes de trânsito foram realizados apenas 55 exames de dosagem alcoólica, o que corresponde a 56% das vítimas. Desses 55 exames 17(27%) deram resultados positivos para dosagem alcoólica com uma média de 19,1 decigramas de álcool por litro de sangue e, 41 (71%) deram resultados negativos. Quando analisadas as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos) verifica-se que foi realizado exame em um total de 77 das vítimas de homicídios, correspondendo a 85%. Dessas 77 análises, 17 (22%) deram positivo para dosagem alcoólica com uma média de 12,2 decigramas de álcool por litro de sangue. As 60 análises restantes (78%) deram negativas. Quando analisadas as faixas etárias mais jovens (15 a 24 anos), entre as vítimas de acidentes de trânsito, verifica-se que foi realizado um total de 15 exames de dosagem alcoólica, correspondendo a 50% das vítimas. Dessas 15 análises, 06 (40%) deram positivo para dosagem alcoólica com uma média de 18,3 decigramas de álcool por litro de sangue. As 09 análises restantes (60%) deram resultado negativo.
Entre as vítimas de homicídios e acidentes de trânsito, em qualquer uma das faixas etárias, não houve resultado positivo para ambos os testes, o de psicoestimulantes e derivados barbitúricos e o de dosagem alcoólica. Vale a pena ressaltar que entre as 05 (4%) vítimas com resultados positivos para psicoestimulantes e derivados barbitúricos, todas dizem respeito às drogas ilícitas, sendo que para 04 óbitos foi apontada a presença de elementos que podem estar presentes tanto na cocaína como no "crack", e um outro óbito aponta, além da presença desses elementos, a presença de maconha no sangue. A relação entre as drogas lícitas, nesse caso o álcool, e as mortes por homicídios e acidentes de trânsito se mostra mais significativa, confirmando o que Deslandes (2003) já havia dito: ao contrário do que imagina o senso comum, o álcool é a substância mais ligada às mudanças de comportamento provocadas por efeitos psicofarmacológicas que desencadeiam a violência. Entre os mortos por homicídios em todas as faixas etárias, 27 % das vítimas que fizeram o exame de toxicologia se encontravam sob o efeito do álcool, entre os óbitos por acidentes de trânsito essa porcentagem é ainda maior chegando a 29%. Das 05 vítimas de homicídios que deram resultados positivos para psicoestimulantes e derivados barbitúricos, 20% estavam na faixa etária de 10 a 14 anos, um índice muito mais alto que aquele apresentado anteriormente para a todas as faixas etárias. Como afirma Deslandes (2003), a literatura sobre drogas e violência confere atenção especial, além da juventude, ao grupo de crianças e adolescentes que é reconhecido como extremamente vulnerável ao consumo e a dependência de drogas - "os meninos (as) em situação de rua". Nesse sentido se faz necessário, também segundo Deslandes, o reconhecimento de que, em um cenário de exclusão e violência, o uso de drogas desempenha muitos papéis: o de afirmação de uma identidade de grupo, o de recreação, para amenizar a fome e o medo, sendo visto, enfim, como um sedativo para o sofrimento. Quando passamos a analisar os dados entre as faixas etárias jovens, de 15 a 24 anos, se encontram 20% dos resultados positivos para psicoestimulantes e derivados barbitúricos entre as vítimas de homicídios. Nessas faixas etárias a porcentagem dos resultados positivos para dosagem alcoólica diminuiu de 27%, para todas as idades, para 22% entre as faixas etárias mais jovens. Já entre os jovens vítimas de acidentes de trânsito, o álcool aparece em 40% dos exames de dosagem alcoólica, mostrando que, o como afirma Deslandes: "O uso de substâncias, com destaques para as bebidas alcoólicas, e correlacionando de forma causal" à perda de reflexos, discernimento e a outros efeitos orgânicos e mentais que podem ser responsáveis pelos acidentes de trânsito, envolvendo diferentes protagonistas, seja na condição de condutores de veículos, seja na de pedestres" (Deslandes, 2003). É importante frisar que os exames toxicológicos apontam para uma porcentagem pequena, mas eles não são pedidos em todos os óbitos. Quando analisados os B.O., e as referências aí encontradas sobre as vítimas, é que se pode entender a correlação dessas mortes com o tráfico de drogas, cujos altos índices vem sendo apontados pela Secretaria de Segurança da cidade. Em 20 Boletins de Ocorrência se pode apreender informações sobre a correlação entre os óbitos por homicídios e o fato das vítimas serem usuárias ou envolvidas com tráfico de drogas. Em 17 B.O. foram encontrados relatos que se referem a mortes durante assaltos com possíveis "motivações econômicas". No contexto de dependência das drogas, a chamada "motivação econômica", pode estar relacionada, segundo Deslandes (2003), à prática de crimes para conseguir comprar drogas. Mas esta é uma explicação superficial do complexo universo que constitui o mercado de drogas, no qual há um sólido vínculo entre violência e criminalidade. Além desses casos a briga entre gangues, que geralmente são por ponto de tráfico de drogas, foi relatada em outros 03 B.O. Ainda referente aos dados encontrados nos relatos dos B.O., merece ser ressaltado o fato de 11 homicídios, cometidos em 2003, terem como local de óbito bares ou lanchonetes da cidade. Esses locais são pontos onde o consumo de bebidas alcoólicas se faz com grande facilidade sem encontrar restrições legais. Entre as vítimas de homicídios nas faixas etárias de 15 a 24 anos, a única cujo resultado foi positivo para teste de psicoestimulantes e derivados barbitúricos portava um "charuto" de fumar crack, a droga que mais aparece citada em todos os B.O. Nos B.O. das vítimas de homicídios entre 15 e 24 anos (91 óbitos), 03 apontaram envolvimento das vítimas em assaltos (como vítimas ou autores), outros 15 denunciaram o envolvimento com drogas (consumo ou tráfico), além de mais 02 que evidenciaram a briga entre gangues por pontos de tráfico, ressaltando a relação das drogas ilícitas com as mortes por homicídios na cidade de Londrina em 2003. Entre estes B.O. pode-se ainda assinalar que 09 apresentam bares ou lanchonetes como locais de óbito, evidenciados nessa pesquisa como locais possíveis de aumento da vulnerabilidade dos jovens à violência. CONSIDERAÇÕES FINAIS A violência e o consumo de drogas são fenômenos sociais que atravessam as fronteiras de classe, raça ou cultura e a correlação destes problemas com os jovens se faz cada vez mais freqüente em diferentes áreas do conhecimento. A bibliografia sobre juventude e violência aponta para o fato de serem os jovens brasileiros as vítimas preferências da violência, ao invés dos seus autores. Além deste estereótipo de violência atribuído, sobretudo, aos jovens de camadas populares urbanas, observa-se, igualmente, a atribuição generalizada do uso de drogas às práticas de violência. Nesse sentido este trabalho buscou, através da analise do perfil da vítima e de outros dados relevantes verificar essa correlação entre as mortes por causas externas e o consumo de drogas. Para se obter o perfil dos jovens vítimas de homicídios em Londrina no ano de 2003, foi necessário analisar laudos de necropsia e B.O. que não se encontravam informatizados, organizados em arquivos pouco apropriados para dados de tamanha importância. Em alguns laudos de necropsia faltavam dados e a pesquisa toxicológica não foi pedida em muitos casos, sem as devidas justificativas, prejudicando a análise dos dados. Os B. O., que, em quase toda a sua totalidade, apresentavam falta de dados e informações básicas, que muito poderiam ajudar nas pesquisas e na resolução e investigação dos casos. Segundo Minayo (1999), o perfil dos jovens que são vítimas de violência, no caso de homicídios no Brasil, como já analisado por outros autores (Mello Jorge (1197); Souza (1994)) é o seguinte: "(...) baixa escolaridade, baixa renda, baixa qualificação profissional; sexo masculino, cor negra ou mulata" (Minayo (1999)). O perfil das vítimas de homicídios jovens em Londrina foge um pouco do perfil nacional principalmente em relação à raça/etnia (cor da pele), onde as principais vítimas jovens tem a cor branca, evidenciando, como explica Zaluar (1994), que não são nem os aspectos raciais nem os culturais, isoladamente, que explicam o comportamento das vítimas. No restante, o perfil continua praticamente o mesmo: baixa escolaridade, baixa qualificação profissional, sexo masculino. Já entre as vítimas de acidentes de trânsito Minayo apresenta o perfil das vítimas como sendo na maioria pedestres na faixa de vinte a 29 anos e idosos, mas também na idade escolar de cinco a quatorze anos. Em Londrina as faixas etárias mais vulneráveis são as de 15 a 24 anos e acima dos 60 anos, sendo na faixa etária de 15 a 24 anos, a maioria motoqueiros. Em comparação aos homicídios, em Londrina, o perfil de óbitos por acidentes de trânsito não muda muito, apresentando um aumento no nível de escolaridade e qualificação profissional, mas continuando com baixa escolaridade e baixa qualificação profissional, e o número de jovens brancos com relativa alta entre as vítimas além de serem a maioria do sexo masculino. Em Londrina os bairros que mais se apresentaram suscetíveis à violência entre os jovens, nesse caso os homicídios, foram aqueles que apresentam maior densidade populacional, sem planejamento habitacional, considerados bairros periféricos, de assentamento, confirmando o que é discutido por Minayo: "Tal fenômeno é mais intenso nas áreas urbanas de maior densidade populacional" (Minayo, 1999). Segundo Castro e Abramovay (2002) os jovens de periferia apresentam descontentamento por sua exclusão social agravada, circunstancialmente de forma violenta, buscam reconhecimento e valorização como cidadãos. Os dados obtidos apresentaram algumas relevâncias que apontam a vulnerabilidade juvenil em relação à violência. Falhas estruturais que não proporcionam à população jovem condições para uma boa escolarização e conseqüente profissionalização. Este acirramento da questão social se expressa no aprofundamento da violência estrutural. Esta, embora se fundamente na economia, reflete-se também na dinâmica das forças políticas e afeta os valores culturais do país. (Minayo, 1999). Mas a questão principal que se apresentou, cuja inquietação justificou esse projeto, foi a necessidade de verificar a correlação direta entre consumo de álcool e de drogas e ilícitas (e/ou o envolvimento com o tráfico), e a violência. Nesse sentido, tratando-se da relação das drogas com maior vulnerabilidade para a violência, compartilhou-se do conceito de Deslandes (2003) para quem a participação na compra, venda e distribuição de drogas, constitui sem dúvida, uma das condições de maior vulnerabilidade entre os adolescentes e jovens. Sendo que o consumo, principalmente do álcool, se mostrou presente entre as mortes por homicídios e acidentes de trânsito em Londrina no ano de 2003. os usuários dependentes de substâncias lícitas ou ilícitas, uma vez sob condições de estigmatização, podem desenvolver comportamentos mais agressivos como resposta às pressões que sofrem (Deslandes, 2003). Pode-se observar igualmente a necessidade de se analisar as informações contidas nos B. O para se saber se os jovens mortos por homicídios estavam ligados ao tráfico, uma vez que os laudos do Instituto de Medicina Legal só permitem saber se as vítimas tinham feito uso de drogas, através dos exames toxicológicos, nem sempre solicitados, conforme já apontado. Mas a Secretaria de Segurança do município afirma que 70% ou 90% dos jovens que morrem por homicídios na cidade estão envolvidos no tráfico (Folha de Londrina, 19/12/2002). Pesquisa da UNESCO para toda a América Latina e Brasil também aponta nesta direção (Waiselfisz, 2004). Os exames dos B. O. é que nos permitiram melhor apreender dados para o caso de Londrina. Entretanto, infelizmente, os B.O. não são preenchidos com todos os dados, ficando muitas informações incompletas. O comportamento violento de alguns jovens, e também sua condição de vítima, frente às condições sociais, as quais foi relegado, se manifestam ainda por meio de sua incursão em quadrilhas de tráfico de drogas e esta incursão, principalmente para jovens habitantes de áreas periféricas, tem se apresentado como uma alternativa que oferece facilidade na obtenção de dinheiro, em contraste com o contexto de pobreza vivenciado por muitos desses jovens (Zaluar, 1994). Além da violência ligada ao tráfico de drogas, muitos jovens se deparam, ainda, no contexto em que vivem, com situações particulares de violência determinadas pela precariedade das condições de sobrevivência. Situação esta que se prolifera e se agrava com as transformações trazidas com o progresso urbano-tecnológico no município de Londrina (Dal Bello, 2003). Com essas conclusões emerge uma pauta de demandas imbricadas para as análises das relações entre drogas e violências. Além das questões estruturais aqui apontadas, Deslandes ressalta também, por um lado, o exame atento das motivações pessoais e das características psíquicas dos sujeitos e, por outro lado, o contexto cultural e comunitário, a condição de gênero e de geração, as relações familiares e a situação de estigmatização sofrida pelos jovens das periferias urbanas (Deslandes, 2003). Nesse sentido, não se deve desprezar os contextos das diferentes comunidades, da sinergia do comércio, legal e ilegal, nem da responsabilidade que o Estado deve assumir e o papel que lhe é cabido no sentido de prevenir a violência de forma que não afete as faixas etárias cada vez mais jovens, conforme pode-se perceber neste trabalho.
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