| Cuidadora de Portador de Transtorno Mental. Um Foco de Análise |
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* Assistente Social do Hospital Regional Vale do Ivaí-PR, Pós-graduada em Serviço Social e Gestão de Políticas Sociais, em 2004. Aluna do curso de Mestrado em Serviço Social e Política Social da UEL adarlyrosana@uol.com.br ** Mestre em Serviço Social , Professora do Departamento de Serviço Social da UEL |
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RESUMO: PALAVRAS CHAVE: cuidadora, transtorno mental e reforma psiquiátrica
ABSTRACT: KEY WORDS: caretaker, mental upset, reforms psychiatric INTRODUÇÃO As indagações do tema Saúde Mental e Mulher Cuidadora, compõe um universo de experiência profissional que remete à importância do papel da mulher frente à dinâmica da família e da sociedade. Trazemos a discussão para contexto do portador de transtorno mental, por ser este o espaço de construção de ações interventivas e investigativas, e, de experiência e reflexão sobre o tema. Destacamos as diferentes faces da mãe/mulher enquanto cuidadora de portador de transtorno mental. Primeiramente, a dimensão humana, que Carrasco (2002, p. 115), define como sendo "aspectos tão essenciais para a vida como o alimento mais básico", carregado de subjetividade e por vezes relegado ao segundo plano, são necessidades de afeto e relações, de carinho e cuidados, que compõem o ser. Abordamos a face econômica vinculada às ações compositoras do provimento no plano material, tanto do portador de transtorno mental como da própria cuidadora. E também, as relações que a cuidadora estabelece com grupos sociais, que entendemos ter uma ação obstacularizadora no seu contexto, face às limitações temporais, e/ou também discriminatórias do meio social. As reflexões apontadas dão direção para analisar as condições e os significados que sustentam o papel de cuidadora de portador de transtorno mental. Fundamentação teórico-metodológica Saúde mental, o portador de transtorno mental e a família Compreendendo que os fenômenos do mundo social, estão relacionados com a sua época histórica, o pressuposto ressaltado por Rosa (2003), aponta que também o transtorno mental depende da época histórica e que cada sociedade cria seu procedimento específico de abordar o fenômeno da loucura. Abordar transtornos mentais, a psiquiatria, e, a loucura, são temas que datam da antiguidade, remetem às pessoas que falavam de modo incompreensível, ou apresentavam comportamentos desviantes do convencional, sendo associadas a possuidores de poderes divinos, que quando exacerbados eram assistidos por sacerdotes e, havendo grande tolerância por parte do meio social. A partir dos séculos XVII e XVIII, com a queda do regime feudal, instauração e posterior consolidação da ordem burguesa, juntamente com a ideia construída através das instituições, fundamentada nos princípios iluministas de superação dos dogmas religiosos, vão sendo instituindo uma nova concepção de Estado, com poder soberano e caracterizado com função mais reguladora e protetora. Assim, Rosa (2003, p.42), ilustra que, a "autonomia e autodeterminação se impõem na ordem burguesa, para ocupar o lugar da cultura tradicional, em que o sagrado, o mito e o encantamento do mundo predominavam". A expansão do Mercantilismo trouxe modificações nas formas de produção e organização do trabalho, o individuo passa ser o centro da sociedade, portanto livre e igual, e as pessoas com comportamentos desviantes, não são mais aceitos, e, do ponto de vista da racionalidade, passam a ser vistos como desqualificados do ponto de vista moral, improdutivos e perigosos. Souza (2000), afirma que foi a partir de 1793, com Philipe Pinel que a loucura passou a ser objeto de intervenções terapêuticas, a loucura ganhava status de doença, isolava-se os pacientes e criava-se um espaço de tratamento de caráter terapêutico e higienista, fundamentado basicamente na ideia da reeducação. Segundo Menezes (1996, p. 43), os distúrbios psiquiátricos ainda não são bem compreendidos em sua natureza, e as causas de diversas doenças não são conhecidas, chamando a atenção para:
No Brasil atualmente segundo dados do Ministério da Saúde, e, a Associação Brasileira de Psiquiatria dizem que:
Junto com o aumento da população acometida pelos transtornos mentais, incluindo a esquizofrenia, o desenvolvimento da ciência se volta segundo Kaplan (1997, p. 439), para três áreas principais como sendo: os avanços de técnicas de imagens cerebrais, as pesquisas significativas em drogas psicoativas atípicas, que possam ser mais efetivas na redução dos sintomas negativos da esquizofrenia, além do aumento do interesse pelos fatores psicossocias que afetam tais indivíduos principalmente aquele que interfiram o início, recaída e resultado do tratamento. A partir de 1992, com a realização da II Conferência Nacional de Saúde Mental, se inicia processo de desarticulação do modelo hospitalocêntrico, baseado na exclusão social, sendo assumido enquanto política atual de saúde mental. Desta maneira a gestão e operacionalização assumem como proposta principal, a desinstitucionalização psiquiátrica que se sustenta no tratamento por equipes multidisciplinares, e onde a relação da família com o portador de transtorno mental ganha ênfase como parte importante dos novos procedimentos terapêuticos. Com a promulgação da Lei nº. 10.216 de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, há a incorporação oficial às políticas públicas do princípio da internação como último recurso. Busca-se acabar com os grandes asilos, valorizar o tratamento perto de onde o paciente vive, são exemplos os chamados serviços residenciais terapêuticos vinculados aos CAPS, NAPS (Centros ou Núcleos de Atenção Psicossocial), os ambulatórios especializados, leitos psiquiátricos em hospitais gerais, hospitais dia, etc. As incertezas do campo da psiquiatria, onde os conhecimentos das emoções, do pensamento e da mente humana, são ainda limitados, somado ao caráter debilitante do transtorno mental, principalmente entre os portadores de esquizofrenia, transforma as relações vivenciadas no contexto familiar de modo adverso e podem aumentar significativamente o estresse emocional do grupo familiar, pois segundo Vallada (1996, p.126): A esquizofrenia é a doença que mais desperta e interesse em psiquiatria. (...) Trata-se de um distúrbio bastante frequente, afetando cerca de 1% da população geral em diferentes culturas. (...) indivíduos são acometidos já na adolescência ou no início da fase adulta, tornando-se parcial ou completamente inválidos, improdutivos e dependentes de familiares e da sociedade como um todo. A emergência de um transtorno mental no grupo familiar é gerador de ansiedade e tensão, que passa por reorganização, na tentativa de busca de alternativas, onde o Estado constitui-se como agente possível de divisão deste encargo de cuidado, além de possibilitar a superação da carga emocional e material que a doença acarreta. Segundo Vasconcelos (2002, p.270), o portador de transtorno mental, quase nunca se reconhece como um "doente", apesar de sofrer psiquicamente, tornando assim imposta a sua condição de "paciente" que necessita de tratamento. Diante da condição de dependência, imposta pela doença mental, o portador de transtorno mental necessita de acompanhamento permanente e, consequentemente de atores que assumam tal cuidado. Atores estes que na área da saúde se transformam em cuidadores e, são cada vez mais necessários, dentro desta perspectiva de reabilitação fora do espaço asilar, estimulado pelos movimentos de desintitucionalização. A problematização do cuidar/cuidado domiciliar relacionado à complexidade dos transtornos mentais, que carece de uma reflexão mais atenta do pesquisador, refere-se à retirada do Estado do processo de assistência em geral, dentro do espectro do neoliberalismo, especificamente da área da saúde mental, relacionado com a cronicidade da enfermidade mental, sua dependência e provimento . Tais aspectos forçam os familiares na busca de estratégias de enfrentamento destas questões, se direcionando para a esfera doméstica, recaindo sobre o mundo da mulher historicamente reconhecida como figura familiar responsável pelo cuidado. Rosa (2003, p. 277) ressalta que:
Assim cabem as mães, as parceiras, ou quando muito, as irmãs, tias, ou, até mesmo às avós, assumirem este papel de protagonista do cuidado, ainda que conviva com atitudes, muitas vezes ambivalente por parte do portador de transtorno mental (agride a pessoa que cuida). Tal dedicação vem atribuída a conceitos simbólicos de mistificação da maternidade, que objetivam não dar visibilidade a sobrecarga emocional, a divisão sexual do trabalho, e tampouco a gratuidade do trabalho feminino, e contribui para reforçar a construção de mecanismos de manutenção da mulher na esfera doméstica (privada). Wanderley (1998, p. 09), afirma que "a prática de cuidar não é nova. Nova é a discussão pública acerca da função social de cuidar", onde a figura responsável pelo cuidado ganha novo contorno e visibilidade, permitindo a emergência de espaços de discussão do reconhecimento da sua dimensão social e pública deste processo. Segundo Carrasco (2002), a crescente participação das mulheres no trabalho de mercado deu visibilidade à tensão entre o tempo de cuidados e as exigências do trabalho mercantil, que permitiram descortinar um outro conflito "mais profundo presente nos fundamentos do sistema social e econômico: a tensão existente entre dois objetivos contraditórios, a obtenção de lucros e o cuidado da vida humana". (p.11 e 12).
Metodologia de Pesquisa A metodologia é de natureza qualitativa, pautada nos seguintes procedimentos: Revisão de literatura bibliográfica, no sentido da construção da base conceitual-teórica para sustentar, ordenar e analisar dados da realidade empírica. A pesquisa de campo foi delimitada para o Hospital Regional Vale do Ivaí, na cidade de Jandaia do Sul - Pr, que, tem como finalidade desenvolver tratamento aos portadores de transtornos mentais, usuários do Sistema Único de Saúde - SUS. Os sujeitos da pesquisa foram familiares, que acompanham o paciente com diagnóstico de esquizofrenia, por ser este, dentre os transtornos mentais o que apresenta cronicidade e gera dependência irrestrita. Diagnóstico de pelo menos 05 (cinco) anos, em função de que o transtorno leva a um comprometimento que requer acompanhamento constante de um cuidador. Os familiares totalizaram 11 (onze) sujeitos de pesquisa sendo aqueles que acompanham semanalmente em visitas, os pacientes que foram internados nos meses de julho e agosto de 2004. No conjunto dos 11 familiares, todos são do sexo feminino, critério definido para os sujeitos serem do sexo que historicamente, pela construção social de Gênero, ficaram marcadas como responsáveis naturais relacionados ao cuidado de pessoas doentes. Os dados empíricos foram coletados através de entrevistas conduzidas por um roteiro de questões norteado pela busca de abordar o significado e as condições de ser cuidadora e ser cuidadora no plano individual e social de vida. Para a análise temática, eixos permitiram agrupar elementos, ideias ou expressões em torno de um conceito e relacioná-lo em suas características comuns, que são: Ser cuidadora seu Significado e Condição, e Ser Cuidadora Relação com o Plano Individual e Social da Vida, que vem dar resposta ao tema e objetivo do estudo em questão.
Resultados e discussão Ser cuidadora significados e condição Segundo Wanderley (1998, p. 12), o resgate e a valorização do papel da família, podem servir, para ampliação da discussão à cerca de ações que possam desencadear novas formas de suporte público ao cuidado domiciliar.
Contrapondo a este enfoque, o esforço familiar e comunitário, focado no discurso do cuidado humanizado e feito por amor dentro da perspectiva voluntária pautada no trabalho doméstico feminino gratuito, não deve significar desresponsabilidade do papel do Estado enquanto gerador e articulador de políticas públicas pautadas no enfrentamento e na busca de efetivas soluções. Visão que caracteriza o cuidado domiciliar como parte natural da vida feminina, resposta ao significado de ser cuidadora que comparam o cuidador a figura da mãe, trazendo reproduzidas características que circulam ideologicamente no meio social como femininas, respaldadas nas diferenças biológicas, como a capacidade de ter paciência.
O significado de cuidar com o providenciar de condições de sobrevivência física, ressaltando o lado prático do cuidado no que se refere à alimentação, vestuário e a medicação vêm associados às características relacionadas aos aspectos da maternagem, que se constitui num mito, coloca a mulher respaldada em atos de renúncia e sacrifício da individualidade em prol do grupo familiar.
Viezzer (1989, p. 130), contrapõe ressaltando que:
A visão de mundo do grupo estudado, esta comprometida, na lógica ideologicamente construída que reafirma a mulher, enquanto responsável exclusiva, do cuidado para com os filhos, restringindo-a ao papel de mãe. Rosa (2003, p. 285) fundamenta que:
Identificar o significado de ser cuidadora como amparador, alguém que comparado a uma relação de simbiose, o PTM vive através da vida do cuidador, desta maneira apresentam em seus depoimentos uma preocupação e um medo de adoecer ou virem a falecer.
Rosa (2003, p. 299 e 290) revela que:
Os conceitos de "amor materno" revelados na pesquisa são naturalizados culturalmente e, aparecem cristalizados. A tia, do PTM também, assume o cuidado de mãe como intrínseco ao papel feminino, sempre nesta postura de obrigação e de associar também a questão de missão no enfoque religioso.
Conforme Viezzer (1989):
Rosa (2003, p. 290) destaca que "prestar cuidado a um PTM adulto, com transtorno mental grave, embora implique uma série de atividades que homogeneízam o cotidiano de diversos cuidadores" podem ser também heterogênea partindo do pressuposto das "diferentes formas como se manifesta o transtorno mental, que se pode tornar parcial e integralmente de pendente de cuidados de outra pessoa". O tempo dedicado ao PTM tem sido integral, pois, dado à característica de dependência própria dos portadores de esquizofrenia, que apresentam uma gama variada de comportamentos alterados, que chegam a ser de risco pessoal e social, as cuidadoras, falam da constante vigilância que mantêm sobre seus enfermos.
Segundo Valada (1996, p. 129):
Valada (1996, p. 129 ) esclarece que os pacientes com diagnóstico de esquizofrenia apresentam "entre os sintomas característicos da fase aguda da doença, destacam-se os delírios, alucinações, alterações formais do pensamento e do afeto". E que estes podem apresentam também "conteúdos delirantes variados (incluindo persecutórios, grandiosos, hipocondríacos de referência)". Sendo assim, as cuidadoras apontam a necessidade de manter-se alerta, durante período integral, aos cuidados aos seus PTM.
O cuidado se revela diurtunamente, as cuidadoras têm seu sono interrompido por levantar-se para observar ou ir buscar o PTM que sai, devido o quadro de sintomas como foi apresentado no depoimento do S3 e S6 respectivamente:
Também Rosa (2003, p. 287) faz referência aos:
As preocupações são constantes, acarretam sobressaltos e levam ao cansaço que o ato de cuidar de PTM impõe no cotidiano, ultrapassando o cuidado físico, o provimento, chega ao ponto máximo de responsabilidade de mantê-lo sob vigilância, protegê-lo de possíveis tentativas de suicídio.
Segundo Botega (1996, p. 222), seus estudos comprovam que este tipo de comportamento suicida é de frequência relevante entre portadores de transtorno da esquizofrenia:
O cuidado torna-se uma função dentro do grupo familiar específica e solitária, ficando evidenciado que é uma tarefa difícil de dividir, mas esporadicamente o auxilio de acompanhar nos períodos de internação, no tratamento ambulatorial, torna-se uma parceria no transcorrer do ato de cuidar.
As cuidadoras trouxeram uma realidade comum de solidão com a responsabilidade sobre a pessoa portadora de transtorno mental. Deixando evidente que não contam com ajuda direta de outro membro da família.
Rosa (2003, p. 329) esclarece que:
Com o agravamento da situação mental, diante da manifestação clara da possibilidade de perda de controle do PTM, ou seja, em situações específicas, consideradas de risco, as cuidadoras afirmaram poderem contar com algum suporte na rede de parentesco, sendo então auxiliadas com transporte, visitas ou apoio financeiro.
O isolamento enquanto sintomatologia do transtorno mental, bem como os episódios de agitação ou de agressividade , contribui na limitação relacional estreita, não só do PTM como do cuidador principal, pois além do caráter estigmatizante, a loucura afasta as pessoas, seja pelo medo, ou pela falta de controle comportamental. Rosa (2003, p. 327), afirma que:
A ausência de aliados na função de divisão de tarefas no cuidado, principalmente dentro da rede de parentesco, a hospitalização pode significar um espaço de refúgio às cuidadoras, que então transfere a sua função de prestadora de cuidados, por tempo determinado, ao hospital psiquiátrico, como possibilidade de oxigenação, revigoramento de forças, de descanso. Segundo Rosa (2003, p. 321) estas instituições, "figura como um lugar de segurança, abrigo, guarda, um lugar que se sabe onde o PTM está (...) tendo a sensação de que está cuidando dele". Destaca-se, também, que a ausência da divisão do cuidado prestado ao PTM, e o fato deste estar relacionado como sendo uma responsabilidade, assumidamente, exclusiva do mundo feminino consagra e reproduz a tradicional divisão sexual do trabalho.
O cuidado é apontado pelas pesquisadas, não como um trabalho, mas como tarefa de quem não tem trabalho, de quem tem tempo livre, ou está sempre disponível para o cuidado pela afetividade ou pelo direcionamento natural sem uma contextualização social, histórica e cultural.
O trabalho realizado na esfera privada se caracteriza como tempo não mercantilizado, relegado ao limbo do não-econômico, como se as atividades exclusivamente econômicas fossem independentes, ou pudessem deixar à margem o tempo socialmente desvalorizado para a sua realização. As cuidadoras apontaram que a principal fonte de provimento das necessidades dos PTM é oriunda dos benefícios sociais, sendo que 08 (oito) sujeitos recebem aposentadoria por invalidez ou auxílio doença, 01 (um) recebe seguro desemprego, e ainda 02 (dois) que não têm nenhuma fonte pessoal. Desta forma constatamos que as fontes de provimentos tanto do PTM, como os do sustento da cuidadora se complementam e se misturam como a própria relação de cuidado.
Segundo Wanderley (1998, p. 18):
Das 11 (onze) cuidadoras (06) seis apontaram como forma de provimento para seu sustento à aposentadoria, (03) três eram pensionistas e duas recebem salários, engajadas no mercado informal e em atividades próximas do local onde vivem, o que permitem uma mobilidade para um eventual socorro ao PTM.
Os aspectos relevantes enunciados neste eixo temático permitem apontar que se mantém arraigada às construções sociais de gênero, que historicamente associa as atividades da esfera doméstica à responsabilidade exclusiva do universo feminino. A introjeção destes conceitos culturais estão, de tal maneira cristalizados, que impossibilitam o desenvolvimento de um olhar diferente, crítico, por parte das próprias cuidadoras para o em torno de sua a realidade vivenciada. O dia-a-dia envolvido por períodos indefinidos de tempo no desgastante relacionamento emocional familiar oriundo da própria patologia esquizofrênica, durante longos períodos de tempo, vulnerabilizam o grupo estudado de tal forma, que reforça conceitos de subalternidade e submissão, também no campo de gênero. Desta maneira, as cuidadoras em questão, parte da grande maioria da população, vulnerabilizadas pelas adversas condições sócio-econômicas, transformadas em objeto de políticas públicas focalistas de fundamentação liberal, são levadas a trazer pra si a responsabilidade sobre os indivíduos incapacitados e dependentes, bem como seu controle e cuidado domiciliar. A desvalorização e o não reconhecimento do trabalho realizado na esfera privada, ou seja, os serviços domésticos e o cuidado ao PTM, pelas próprias mulheres, fomentam a manutenção da dicotômica relação entre espaço privado e público. Na verdade ficou absolutamente claro que tal perspectiva, não chegou a fazer parte da indagação a respeito do assunto.
Ser cuidadora e a relação com o plano individual e social Os conteúdos nos remetem a Viezzer (1989, p. 95), quando afirma que: "desde sempre os seres humanos usaram a fé e a razão para buscar a verdade e orientar suas atividades", somando a isto, o protagonismo complexo do transtorno mental, as incertezas da psiquiatria, a predominância do baixo nível de escolaridade entre os sujeitos pesquisados, e vinculação dos mesmos a esfera privada, parece ser, os principais justificadores desta restrita participação social. Assim a condição individual e social, em que a cuidadora aparece inserida nos permite afirmar que o transtorno mental , pela sua característica de tornar os indivíduos incapacitados e dependentes de cuidados intermitentes , na maioria das vezes , modifica e compromete não só a autonomia pessoal do PTM, como também a do cuidador.
A vida voltada para o mundo familiar e doméstico ao agregar a tarefa de cuidar não modifica em nada, ou seja, efetivamente os processos de socialização vividos por estas mulheres, tornaram-nas responsáveis pelo cuidado no meio familiar, e, representantes exclusivas do espaço doméstico.
Os aspectos culturais aparecem cristalizados onde as próprias cuidadoras mencionam terem vivido sempre voltadas para o espaço doméstico, onde introjetaram este espaço como seu, enquanto grupo feminino, não fazendo parte de seu imaginário outro que não este. Como bem evidencia Segnini (2003, p.38), as mulheres:
Além deste aspecto cultural que desvaloriza e invisibiliza o cuidado, marginaliza-o e o mantém na esfera privada, acarreta repercussões econômicas e sociais ao longo da existência feminina. Com o envelhecimento, a mulher passa de cuidadora a demandatária de cuidados, ou seja, segundo Saraceno (1995, p.225 e 226), a divisão entre a responsabilidade pública e responsabilidade privada relacionadas com as necessidades e com os direitos a serem reconhecidos fundamentam-se na divisão do trabalho entre os sexos que são percebidos através do sistema de garantias sociais. A autora sublinha que a posição feminina na divisão do trabalho a vulnerabiliza pela sua dependência privada:
Rosa (2003, p. 281) lembra que "o projeto do cuidador sofre metamorfose", conforme a aquisição e acumulo de experiência no manejo do PTM, a partir do momento em que o mesmo se apropria dos recursos do meio e toma conhecimento que o transtorno mental é incurável, nos termos médicos atuais podendo demandar mais ou menos envolvimento do cuidador no provimento de cuidado. A realidade apontada pelas cuidadoras ao cuidado cotidiano do PTM grave, compromete a autonomia das cuidadoras conforme já foi descrito, pois compromete integralmente o espaço temporal, na vigilância dos mesmos, recorrendo por vezes à internação integral. Segundo Rosa (2003, p.323):
Nos tempos atuais, em que as relações sociais estão ou pretendem estar fundamentadas em princípios de cidadania, onde indivíduos, coletividade e Estado, constroem espaços de convivência de reafirmações de direitos, as desigualdades de gênero se mantêm expressiva e, torna-se visível na fase da idade avançada da vida das mulheres, em que as limitações são maiores. Segundo Soares (2003 p. 93):
Por outro lado, as mudanças econômicas, culturais e sociais vão provocando, ao longo da história, e dando um contorno diferente ao ato de cuidar, dando-lhe reconhecimento de sua dimensão social e pública. O que Carrasco (2002, p.24), destaca e nos chama a atenção é que:
A participação das cuidadoras em atividades extra-familiares retrataram limitações em tais atividades, pois a negação do transtorno mental, pelo PTM, e sua consequente recusa em ser cuidado ou de assumir o comando do seu próprio tratamento, tende a comprometer a individualidade da cuidadora, que se vê absorvida temporal e emocionalmente.
Wanderley (1998, p.18) ressalta:
Informações repassadas pelas cuidadoras apontam que a participação social se faz de modo limitado, ocasionado pela dependência própria do transtorno mental, já amplamente discutido, e, quando é possível ocorrer o direcionamento não ultrapassa as atividades de cunho religioso:
A ínfima participação social parece estar associada ao cansaço acumulado de tantos anos de dedicação ao cuidado do PTM, que se torna desgastante, bem como, a relação com o envelhecimento deste grupo, que fez menção a necessidade de serem cuidados também. Abre-se a perspectiva de um investimento mais significativo e de abrangência para o cuidado com as cuidadoras.
Considerações finais Pautar o cuidado, sob o enfoque de gênero, permitiu dimensionar o tamanho do peso que as atividades de cuidados realizados a partir do lar, têm em nossas sociedades consideradas modernas e industrializadas. Apesar do aumento significativo de bens e serviços, as estratégias de vida das pessoas continuam a fundamentam-se no suporte da figura feminina na esfera doméstica, seja na prestação de serviço ou de cuidado. A proposta trazida pela Reforma psiquiátrica prevendo o engajamento familiar enquanto protagonista no processo não vem acompanhado de suporte necessário que lhe dê sustentação, no que se referem ao novo espaço, novas funções e novas responsabilidades. O contexto do PTM grave fica reafirmado pelo isolamento e dependência, à necessidade do cuidado irrestrito no contexto familiar, cabendo aí, a partir do indicativo da Reforma Psiquiátrica, aos familiares assumirem o cuidar, que se efetiva, numa realidade complexificada pelas vulnerabilidades sócio-culturais e econômicas. O Serviço Social engajado na área de Saúde Mental, a de se colocar evidenciando, não só os direitos de cidadania do PTM, mas transcendendo os aspectos referentes à pessoa enferma psiquicamente, dando visibilidade também, aos direitos sob enfoque de gênero, de inclusão social da cuidadora e do cuidador familiar.
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