RESUMO:
O presente trabalho é resultado de uma pesquisa exploratória que teve por objetivo identificar as representações sociais da aids construídas por assistentes sociais e discutir a repercussão de tais representações na prática profissional dos sujeitos pesquisados. A análise dos dados revelou que a aids é representada como uma doença incurável, transmissível, que causa sofrimento e medo e que leva à morte rapidamente. Constatou-se, ainda, uma forte associação da doença a comportamentos sexualmente "repreensíveis".
PALAVRAS CHAVE: Assistentes Sociais – Aids – Representações sociais.
ABSTRACT:
This work is the result of an exploratory research with the objective to identify social representations of AIDS elaborated by social workers and to discuss about the repercussions of the social representations in the professional practice of the interviewees. The data analysis revealed that AIDS is represented as an uncurable transmittable illness, which causes suffering and fear and leads to a rapid death. It verifies, still, a strong association between the illness and "reprehensible" sexual behavior.
KEY WORDS: Social Workers – Aids – Social Representations.
INTRODUÇÃO
Um dos acontecimentos marcantes das últimas décadas, no campo da saúde, refere-se ao reconhecimento, em 1981, nos Estados Unidos, mais precisamente nas cidades de São Francisco e Nova York, da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), mais conhecida como aids.
A doença, identificada inicialmente em grupos sociais específicos, tem apresentado um quadro epidemiológico bastante complexo, assumindo grande proporção e apresentando-se como um dos mais sérios problemas de Saúde Pública.
No Brasil ela foi identificada pela primeira vez em 1982. Pode-se deduzir, com base em estudos sobre sua história e o período de latência do HIV, que sua introdução no país deve ter ocorrido no final da década de 70. Sua difusão, em princípio, centro-se nas principais áreas metropolitanas da região Sul e Sudeste. Em seguida, iniciou-se um processo de disseminação da doença para as demais regiões do país.
Desde seu surgimento, a aids tem se configurado uma presença marcante no mundo contemporâneo (Madeira, 1998), suscitando mobilizações as mais variadas, quer seja no universo consensual, aquele correspondente às atividades intelectuais da interação cotidiana, ou ainda no universo reificado, aquele onde circulam as ciências e o pensamento erudito em geral.
A epidemia, cujas dimensões psicossociais mostraram-se tão relevantes quanto seu aspecto biológico propriamente dito, associada, ainda, à ausência de referenciais, sobretudo clínicos, que marcou seu início, levou a construções e qualificações marcantes da doença. Segundo Sontag (1989), a aids proporcionou uma excelente oportunidade para a metaforização, ela adquiriu um extraordinário poder de evocar imagens e interpretações.
O fato é que, nos últimos vinte anos, a humanidade, num misto de incredulidade, pasmo e medo, foi obrigada a conviver com uma nova doença, responsável por uma série de mudanças não apenas no campo biomédico, mas também no campo político, social e cultural.
Outro importante aspecto a ser considerado refere-se à prevenção da doença. Ela exige esforços no que se refere à superação das abordagens tradicionais na saúde, cuja ênfase é dada ao aspecto clínico.
Minayo (1998) pontua que qualquer ação de tratamento, de prevenção ou de planejamento deveria estar atenta aos valores, atitudes e crenças dos grupos a quem a ação se dirige. Em concordância com a referida autora, entende-se, ainda, que os grupos que conduzem tais ações, notadamente os profissionais de saúde, também devem ser objeto de atenção e estudos. No entanto, os profissionais que trabalham com portadores de HIV/Aids, seja no âmbito da assistência ou da prevenção, estão entre os que menos atenção têm recebido por parte das pesquisas. Destaca-se aqui o trabalho de Alain Giami e Claude Veil (1997), Enfermeiras frente a aids, que tratou das representações sociais de um grupo de enfermeiras e assistentes sociais sobre a aids, estudo desenvolvido entre 1989 e 1991, na França.
Diante do exposto, o presente trabalho elegeu como objeto de estudo a Aids, enfocada sob a perspectiva da Teoria das Representações Sociais e estabeleceu como objetivos identificar as representações sociais construídas por assistentes sociais que atuam na rede básica de saúde de Campina Grande – PB e discutir a repercussão das representações identificadas na prática profissional de tais sujeitos sociais.
Considerando-se que as representações sociais, conforme Oliveira (1996), funcionam como um sistema de interpretação da realidade que rege as relações dos indivíduos com o seu meio social e que estas determinam e são determinadas pelas práticas, numa relação dialética, sendo essenciais para compreensão dos determinantes dos comportamentos e das práticas sociais, justifica-se a importância de conhecê-las e explicitá-las.
METODOLOGIA
O estudo compreendeu uma pesquisa exploratória com abordagens quanti-qualitativas fundamentado na Teoria das Representações Sociais (Moscovici, 1978), priorizando a fala dos sujeitos como fonte de informação. O universo da pesquisa foi composto por trinta e quatro assistentes sociais que atuam na rede básica de saúde de Campina Grande – PB.
As informações foram obtidas por meio da técnica de Associação Livre de Palavras, que consiste em se pedir aos sujeitos envolvidos no estudo que, a partir de um termo indutor, evoquem palavras ou expressões que lhes venham imediatamente à lembrança. Tal técnica, segundo Sá (1996), possibilita colocar em evidência a saliência dos elementos das representações. Neste estudo o termo indutor foi a palavra Aids.
Também se aplicou junto aos sujeitos da pesquisa uma entrevista semi-estruturada dividida em duas partes: a primeira privilegiando questões específicas que permitiram traçar o perfil sócio-demográfico dos sujeitos pesquisados; e a segunda parte composta de questões mais abrangentes acerca do objeto de estudo e que possibilitou a identificação das representações sociais dos sujeitos pesquisados sobre a Aids.
Para tratamento e análise do material coletado utilizou-se a estatística descritiva com cálculo de freqüência simples e a análise de conteúdo temática categorial que consiste, conforme Bardin (1977), em descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação.
A análise de conteúdo seguiu as seguintes etapas: a) constituição do corpus; b) composição das unidades de análise e c) a categorização.
Da análise dos dados emergiram 6 categorias, 16 subcategorias e 835 unidades de análise temática.
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Partindo-se da premissa de que as categorias representam a decomposição máxima das falas das entrevistadas e, por extensão, expressam o conteúdo das representações sociais por elas construídas, apresenta-se, a seguir, a análise das categorias que foram agrupadas de acordo com as dimensões das representações sociais. Segundo Moscovici (1978), as representações sociais se compõem de três dimensões: informação, campo de representação ou imagem e atitude.
Para Moscovici (1978), a informação relaciona-se com a organização dos conhecimentos que um grupo possui a respeito de um objeto social. Assim, as três primeiras categorias apresentadas dispõem sobre os conhecimentos que os sujeitos pesquisados têm sobre a Aids.
Categoria 1: Descrições da Aids. Esta categoria é composta pelas subcategorias Orgânica e Simbólica e sua análise nos permite identificar que a Aids é descrita pelos sujeitos pesquisados como uma doença infecto-contagiosa, que destrói as defesas do doente, uma doença incurável e transmissível, um grande mal, um mistério, uma coisa ruim, um verdadeiro horror.
Partindo-se da compreensão de que as representações sociais são elaboradas socialmente, que elas circulam nas comunicações estabelecidas entre os indivíduos, fazendo parte de uma lógica cultural e de valores presentes na sociedade, quer sejam latentes ou manifestos, é possível, de certa forma, justificar a presença de tais elementos na representação social da Aids, visto que estes foram os aspectos da doença mais realçados em seus anos iniciais. A análise de tal categoria permite identificar, na representação dos sujeitos pesquisados, elementos atrelados a conceitos presentes no universo reificado como também elementos atrelados a conceitos presentes nas comunicações do senso comum, do universo consensual.
Categoria 2: Formas de transmissão. Nesta categoria as subcategorias Sexual e Sanguínea emergiram com maior número de unidades de análise no discurso dos sujeitos. Tais dados permitiram vislumbrar noções que sustentam o discurso social sobre a Aids: uma doença sexualmente transmissível e que tem a via sanguínea como importante modo de transmissão.
É importante registrar que a referência ao sexo como principal forma de transmissão da Aids, por parte das entrevistadas, traz subjacente a idéia de que a contaminação sexual está ligada a práticas sexuais "repreensíveis". Ela é referida àqueles que têm múltiplos parceiros, aos que são sexualmente promíscuos.
Com relação à Categoria 3 – Causas da Aids – as unidades de análise foram agrupadas em três subcategorias: Social, Comportamental e Psicológica. A subcategoria que agrupou maior número de unidades de análise foi a Social. Nela estão presentes várias questões que, segundo as entrevistas, seriam causas da Aids, como exemplo a pobreza, o uso de drogas e a prostituição.
Segundo Bastos (2000), a pobreza está, de fato, associada a alguns fatores que se constituem em barreiras ao processo de mudanças que minimizem os riscos de contaminação pelo HIV. Entre estas barreiras, inclui-se: a indisponibilidade de recursos essenciais à prevenção, dificuldades de acesso a serviços de prevenção e tratamento e menor escolaridade, entre outros.
A segunda dimensão das representações sociais – campo de representação ou imagem – engloba tanto os juízos formulados sobre o objeto representado quanto às asserções sobre ele. Segundo Moscovici (1978, p. 69), esta dimensão "remete-nos a idéia de imagem, de modelo social, ao conteúdo concreto e limitado das proposições atinentes a um aspecto preciso do objeto da representação".
A quarta e quinta categorias permitem identificar a imagem da Aids e do portador de HIV/Aids presente nas representações do grupo pesquisado.
A Categoria 4 – Efeitos da Aids – foi a categoria que apresentou o maior número de unidades de análise, com destaque para a subcategoria Físico/Orgânico. Estas unidades de análise apresentam uma riqueza de imagens construídas pelos sujeitos da pesquisa sobre o portador de HIV/Aids. Este é visto como vítima de um grande sofrimento, de uma degradação física intensa. Ressalta-se que a morte também aparece com destaque nesta categoria.
Moscovici (1978) afirma que as representações sociais, apesar de modificáveis, dinâmicas, possíveis de serem transformadas no cotidiano, apresentam aspectos permanentes e duráveis. Tal noção é comprovada na permanência da representação Aids/Morte mesmo em meio a todo avanço terapêutico obtido ao longo dos mais de vinte anos de epidemia.
A análise da Categoria 5 – Atribuição/Vulnerabilidade – permitiu identificar que os sujeitos pesquisados associam a aids a alguns grupos e práticas específicas. Apesar da noção de grupo de risco ter sido abolida no contexto da aids, pode-se identificar que esta representação parece persistir ainda hoje na sociedade e está presente na representação social da aids junto ao grupo pesquisado. Em termos práticos representações permeadas por tal noção contribuem para a formulação de preconceitos e estigmas em relação à aids.
Moscovici (1978) diz que a dimensão atitude – terceira dimensão das representações sociais – reflete as orientações negativas ou positivas em relação ao objeto socialmente representado. Para ele a atitude é a mais freqüente das três dimensões das representações sociais e talvez a mais importante.
A noção de atitude compreende um sistema de disposições cognitivas de um indivíduo em face de um objeto ou situação cujo conteúdo ele avalia com vistas a uma tomada de decisão ou posição e a uma ação.
Partindo-se da compreensão de que na noção de sentimento também está implícita uma tomada de posição – favorável/desfavorável; positivo/negativo – a categoria Sentimentos foi incluída na dimensão atitudinal das representações sociais.
A análise da Categoria 6 – Sentimentos – possibilitou verificar que a Aids subsidia sentimentos positivos e negativos entre os sujeitos da pesquisa. Entre os sentimentos positivos destaca-se a solidariedade. Entretanto o medo aparece com o sentimento negativo mais referido pelas entrevistadas.
Conforme Madeira (1998), a representação social de um objeto não é uniforme, ela leva as marcas do sujeito e das relações que o vão constituindo, no tempo e no espaço. É preciso considerar o concreto no qual o sujeito que representa se situa e as transformações que nestas relações, vão orientando comunicações e condutas. Sendo assim, a presença de elementos de oposição, tais como Medo/Solidariedade evidenciam que as representações sociais não são homogêneas e tampouco partilhadas uniformemente por todos os membros de um grupo.
Alguns estudiosos asseveram que objetos estranhos evocam medo porque eles ameaçam o sentido de ordem das pessoas. Muito embora a Aids já tenha sido identificada há mais de vinte anos, percebe-se que os sujeitos pesquisados não a concebem como uma realidade, a aids ainda lhes parece um objeto bastante distante. É difícil saber se esse estranhamento está ligado a processos psicológicos ou ainda ao pouco conhecimento acerca do objeto, o que o torna de certa forma estranho.
Sá (1998) faz considerações pertinentes acerca da questão. Para ele, o caráter estranho e ameaçador, próprio da doença, de modo geral, responde pela sua extrema capacidade de gerar representações.
Entretanto, o medo tende a mobilizar a discriminação e o preconceito, podendo também produzir formas de distanciamento e comportamentos defensivos que impeçam a emergência de empatia para com as vítimas da Aids, conforme verificado em estudos de Giami; Veil (1997).
O presente estudo nos indica a permanência nas representações identificadas de elementos – sexo, medo, morte, preconceito, entre outros – cultivados ao longo da evolução sócio-histórica da epidemia da Aids de modo consensual e hegemônico.
Isto nos leva a perceber que, de forma geral, as representações sociais da Aids, e mesmo de um outro objeto representacional, são produzidas na comunicação cotidiana, confirmando o que diz Moscovici (1978, p. 41): "elas circulam, cruzam-se e se cristalizam incessantemente através de uma fala, um gesto, um encontro, em nosso universo cotidiano".
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os achados deste estudo revelaram que a aids é representada como uma doença de transmissão sexual e sanguínea e incurável. Ela é vista pelos sujeitos pesquisados como um mal que leva à morte, causando sofrimento e medo. Foi identificada uma forte associação da doença a comportamentos "repreensíveis", sobretudo em relação à sexualidade. A noção de grupo de risco ainda se faz presente na representação social da doença junto ao grupo pesquisado.
Com base na premissa de que as representações sociais têm como função guiar as condutas e as práticas, vimos com certa ressalva tais resultados, pois tais sujeitos podem estar, na verdade, contribuindo para fortalecer uma imagem desfavorável da aids, de forma a contribuir para que estereótipos se perpetuem socialmente, podendo, ainda, favorecer a adoção de condutas que venham a se constituir em barreiras para as ações preventivas e, assim, favorecer a disseminação da doença.
O estudo aqui apresentado, ao trazer à tona uma forma de conhecimento socialmente elaborado e compartilhado acerca de um objeto tão relevante quanto a aids, revelando formas de pensar e explicar este objeto vem corroborar a compreensão de que as ações de prevenção da aids não podem ser simplesmente impostas aos sujeitos que as executam. É preciso considerar os vários elementos – valores, crenças, sentimentos, conhecimentos – que se inscrevem na constituição das representações que estes sujeitos detêm, visto que estas são e serão sempre reproduzidas, tanto nas comunicações, como também nas práticas.
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