Informação e Cidadania [1]
Cibele Martins *

    * Bacharel em Ciências Sociais com especialização em Gestão no Terceiro Setor. É gerente da organização sem fins lucrativos Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Implantes. bemartins@terra.com.br

RESUMO:
Esta reflexão tem o objetivo de contribuir para a discussão sobre os desafios para o Brasil alcançar as metas desejáveis de uma sociedade da informação para todos os cidadãos, fortalecendo a democracia no país. Destaca o papel das ONG’s no processo de construção da informação para a cidadania. E, para isso, procura traçar um olhar sobre a informação em dois aspectos: no primeiro o da sociedade como um todo - como aproveitar todo o potencial da informação para uma maior participação cidadã e para o desenvolvimento sustentável da sociedade; e no segundo o da organização - como as organizações obtêm e utilizam a informação para o aperfeiçoamento das suas atividades na sociedade contemporânea.

PALAVRAS CHAVE :  Informação, cidadania, democracia.

ABSTRACT:
This work aims to contribute to the discussion on the challenges Brazil faces to reach the desirable targets of a society of information for all citizens, strengthening democracy in the country. The article highlights the role of NGOs in the process of constructing information for citizenship. In order to do this, the work looks at information in two aspects: the first focuses on society as a whole – how to make the best use of the potential of information to allow greater citizen participation and the sustainable development of society; the second involves organizations – how organizations obtain and use information to improve their activities in contemporary society. 

KEY WORDS: Information, citizenship, democracy.


Introdução

Nos anos 90, o boom da internet viabilizado pelas estruturas de redes telefônicas, proporcionou ao acesso a esse serviço um status estratégico para o desenvolvimento social, econômico e político das nações. Para Rifkin, J (2001), estamos na Era do Acesso, na qual produtores e compradores vão dando lugar a fornecedores e usuários, gerando uma mudança profunda nas relações sociais.

Cada vez mais ouvimos falar da informação [2] , da sua explosão e da efervescência de tecnologias super modernas que ficam obsoletas rapidamente, tais são os investimentos em inovação para munir essa revolução. Porém, no Brasil muitas vezes informações relevantes que necessitamos não são encontradas, por não estarem disponibilizadas ou por não estarem sistematizadas, o que dificulta o seu acesso.

Parece que o mundo da tecnologia, do acesso fácil à informação, pertence a uma minoria dominante, que compete acirradamente na esfera econômica. O alto nível de competição do mercado, faz com que as empresas invistam fortunas para se manter atualizadas tecnologicamente e garantir a ampliação constante dos espaços que ocupam no mundo globalizado, alcançados através do conhecimento acumulado que as suas estruturas lhes permitiram conquistar. Porém, as informações que produzem, na maioria das vezes, são usadas por elas mesmas, para a melhoria das suas capacitações e também canalizadas nas suas campanhas publicitárias.

No que concerne aos órgãos públicos, podemos dizer que produzem as informações de base e estatísticas para a sua governabilidade, as quais são socializadas e disponibilizadas à sociedade, inclusive por exigência da lei. Essas informações são essenciais para o desenvolvimento social, político e econômico do país mas, por serem muito abrangentes, não são voltadas para necessidades regionais nem para públicos específicos. Muitas vezes ainda, são disponibilizadas em sistemas não muito ágeis para buscas mais apuradas. Sabemos que há esforços para a modernização dos sistemas governamentais em meios eletrônicos visando uma administração mais transparente e eficaz, porém, as mudanças são muito lentas.

A sociedade civil organizada também produz um volume de informações enorme. Entretanto, a grande diversidade de perfis institucionais que abarca, faz com que a informação seja organizada e disseminada de uma forma não planejada, perdendo a objetividade da sua utilização.

Diante desse quadro, nos perguntamos: como fazer para assegurar que os benefícios da “sociedade da informação” cheguem realmente a todos os cidadãos?

 A democratização da informação

 No seu artigo “Informação para a cidadania e o desenvolvimento sustentável”, Ladislau Dowbor analisa esta questão e propõe o esforço dos diversos atores sociais para que a informação disponível seja bem organizada e distribuída, potencializando o seu uso adequado por toda a sociedade, constituindo-se, desta maneira, em um instrumento de cidadania e de racionalidade do desenvolvimento social.

O autor afirma que os sistemas de informações disponíveis no Brasil não são feitos para a participação cidadã. Não havendo um processo sistêmico, o que ocorre “não é a falta de informação, mas sim da sua racionalidade” (DOWBOR: 2003).O volume de informações desnecessárias e sensacionalistas é muito grande. A informação socialmente organizada, porém, é escassa. Ela deve ser direcionada aos diversos atores sociais que participam do processo de desenvolvimento social e, portanto, organizada para esta finalidade. Isto permitiria que os cidadãos, empresas, funcionários públicos e sociedade civil tomassem atitudes e decisões bem informadas.

Segundo Dowbor, uma quantidade significativa de informações relevantes já existe, dentre os exemplos cita o Mapa da Exclusão Social, e os serviços de informação do IBGE, SEADE e DIEESE. O desafio, portanto, é desenvolver metodologias de sistematização, aperfeiçoar capacidades gerenciais, para possibilitar o acesso da informação certa no momento certo.

Mas qual é a informação certa a que o autor se refere? São as informações para a cidadania e o desenvolvimento sustentável, ou seja, as que visam uma melhor qualidade de vida, de maneira sustentável e com democracia. Somente cidadãos bem informados têm condições de exigir de fato os seus direitos. “A informação aparece como uma condição chave da construção de processos democráticos de tomadas de decisão” (DOWBOR: 2003).O caminho a seguir compreende claramente que a informação desejada é para a sociedade civil,  para as pessoas que a compõem. O Estado e a empresa são meios, e devem atender às necessidades dos cidadãos, que por sua vez, bem informados, poderão exigir a qualidade dos produtos e serviços prestados à sociedade.

O autor traduz de forma inusitada como os papéis são trocados quando se trata da relação entre a sociedade civil de um lado e Estado e empresas do outro, quanto à produção e apropriação da informação. Normalmente a produção de informação é vista como um processo construído “de baixo para cima”: A sociedade civil fornece as informações para o Estado e as empresas, que se colocam num nível superior ao dela, excluindo os seus membros de participarem do processo decisório nas suas esferas. “O eixo central, portanto consiste em entender que é a sociedade civil no seu conjunto que deve ser adequadamente informada, para que possa participar ativamente das decisões sobre os seus destinos”. (DOWBOR: 2003).

O papel dos diversos atores sociais: Estado, Empresa e Sociedade Civil são evidenciadas pelo autor, que vê, porém a falta de articulação entre os mesmos como uma questão a ser resolvida e chama a atenção para a necessidade de se criar uma coesão entre os mesmos.

 A pouca produtividade sistêmica dos diferentes atores resulta da falta de articulação, da segmentação das iniciativas, da ausência de um foco que articule as informações em torno a um resultado prático, que é a geração de uma cidadania informada e participativa. (DOWBOR: 2003).

 Sobre os instrumentos, merece ser mencionada que no sistema proposto por Dowbor, se insere a idéia de estruturas de bancos de dados descentralizados, leves e interativos, evitando uma cultura organizacional com foco na competição e no individualismo.

O processo de construção da informação para a cidadania e o desenvolvimento sustentável é bastante complexo, pois todos os segmentos da sociedade estão envolvidos. Integrar as partes em rede, levar a informação organizada para os cidadãos é uma proposta desafiante, mas para o autor é vital dentro da perspectiva da sociedade do conhecimento.

Para a sua melhor compreensão, podemos relacionar a reflexão aqui apresentada sobre Informação para a cidadania, com a linha do pensamento do Desenvolvimento Social Local (DSL), da qual Ladislau Dowbor é um dos expoentes, em nível nacional e internacional, que foi incluída nas abordagens sobre o Terceiro Setor, na dissertação de mestrado de Deivis Perez Bispo dos Santos (SANTOS: 2004).

Deivis explica que os objetivos do DS estão voltados para a construção de democracias mais participativas, para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos e para o desenvolvimento sustentável das comunidades.

O seu foco central é o desenvolvimento social local, como uma via possível para se combater as conseqüências da economia globalizada, que diminuiu consideravelmente os espaços de participação e as conquistas dos direitos dos cidadãos, segundo Henzel Henderson (apud SANTOS:2004) uma dos principais teóricos dessa proposta.

A cultura da cooperação é outro ponto fundamental do Desenvolvimento Social Local, e que é entendida como a cooperação efetiva entre os diversos segmentos sociais: governo, empresas e sociedade civil, que juntos são responsáveis pelo desenvolvimento social.

Deivis ainda se refere a uma questão crucial, colocada por Dowbor, que é a necessidade de se reconstruir ou estruturar a relação entre a sociedade civil e as macro-organizações, tanto estatais quanto privadas, que nos dirigem. É interessante para a nossa análise a proposta de Dowbor sobre o papel do terceiro setor como articulador e organizador das forças sociais.  Daí a sua importância dentro do processo de construção da informação para a cidadania e o desenvolvimento sustentável na articulação para a integração das redes de informação já existentes, aproveitando as capacidades instaladas no país, visando o seu aperfeiçoamento e melhor aproveitamento.

A importância de se compartilhar o conhecimento, visando o seu aprimoramento e o seu uso por todos os cidadãos também é uma preocupação de Hélio da Silva, na sua tese de doutorado “O Marketing da Era da Comunicação”, que enfatiza a necessidade de se fortalecer o uso das tecnologias para viabilizar uma “administração mercadológica sustentável”. (SILVA: 2003)

Todos devem participar dos esforços para o desenvolvimento de redes que possibilitem a criação do conhecimento coletivo no lugar de um sistema unilateral que seleciona e controla a informação que deve ser circulada. Trata-se do grande desafio para se harmonizar um sistema global e local que atenda aos interesses de toda a sociedade.

A maneira como a informação circula atualmente na sociedade, com um alto nível de desenvolvimento tecnológico, pode ser comparada a forma de circulação da mercadoria no sistema capitalista, que determina o que deve ser produzido e por quem deve ser consumido. No seu estudo, Helio Silva reconhece essa analogia entre a informação e a mercadoria e propõe a reordenação da dinâmica mercadológica a fim de atender os interesses da coletividade:  

Deve-se reordenar a dinâmica mercadológica para, em lugar de privilegiar interesses individuais, atender demandas coletivas. A isto denominamos administração mercadológica baseada na cultura da comunicação. O advento de uma cultura da comunicação se apóia em um sistema comunicacional circular  e colaborativo que permita a construção do conhecimento por meio de trocas em que todos ganhem. Nesse caso, não existe um ator único que manipula a informação de acordo com seu interesse por meio de signos: o foco é o conjunto da sociedade. Isto significa permitir que a informação circule de forma viva e orgânica e que todos os atores insiram e retirem conteúdos.(SILVA: 2003; p. 52).

 A estruturação de redes tecnológicas de comunicação é proposta pelos autores citados com um papel fundamental para viabilizar a democratização da informação. Vale apresentar o conceito de rede de Manuel Castells, para a melhor compreensão desse termo: 

Rede é um conjunto de nós interconectados. Nó é o ponto no qual a curva se entrecorta. Concretamente o que um nó é depende do tipo de redes concretas de que falamos. São mercados de bolsas de valores e suas centrais de serviços auxiliares avançados na rede de fluxos financeiros globais. São conselhos nacionais de ministros e comissários europeus da rede política que governa a União Européia. São campos de coca de papoula, laboratório clandestino, pistas de aterrissagem secretas, gangues de rua, instituições financeiras para lavagem de dinheiro, na rede de tráfico de drogas que invade as economias, sociedades e estados no mundo inteiro. São sistemas de televisão, estúdios de entretenimento, meios de comunicação gráfica, equipes para cobertura jornalística e equipamentos móveis gerando, transmitindo e recebendo sinais na rede global da nova mídia no âmago da expressão cultural e da opinião pública, na era da informação. (CASTELLS, 1999:498) 

Prosseguindo ainda pela visão de Castells, o autor aponta o fundamento ético da empresa em rede, criando inclusive para a sua análise a terminologia “espírito do informacionalismo”, em homenagem a Max Weber, referindo-se a sua obra clássica “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”. O essencial é compreender que na era da informação não deve haver espaço para imposições de direitos e obrigações, pois a amplitude cultural e de valores, o dinâmico intercâmbio de conhecimento, o modo e a rapidez para tomada de decisões estratégicas, o alcance de distâncias sem fronteiras, enfim os fatores que estão envolvidos nesse novo padrão de relacionamento em rede, conduzem a um código cultural sem rigidez.  

Mas , sem dúvida, há um código cultural comum nos diversos mecanismos da empresa em rede. É composto de muitas culturas, valores e projetos que passam pelas mentes e informam as estratégias dos vários participantes das redes, mudando no mesmo ritmo que os membros da rede e seguindo a transformação organizacional e cultural das unidades da rede. É de fato uma cultura, mas uma cultura do efêmero, uma cultura de cada decisão estratégica, uma colcha de retalhos de experiências e interesses, em vez de uma carta de direitos e obrigações (CASTELLS: 2003; p.258) 

Reconhecer a nova dimensão da informação na sociedade contemporânea nos remete a uma complexa reflexão. Para Gabriel Cohn  a informação sempre foi importante para a reprodução do sistema capitalista, a diferença agora é que a informação tem um papel de "sobredeterminação" do conjunto, uma vez que influencia na "modelagem" do próprio sistema e não apenas na sua reprodução.

A concepção da informação hoje está além de considerá-la um produto, o relevante é a "seleção dos elementos que se integrarão à forma do objeto e lhe conferirão valor como ente dotado de significado" (COHN: 2001). Mesmo se configurando numa mercadoria a informação nesse contexto está sob o comando de outra lógica, a da diferença e distinção - a lógica da linguagem, em oposição à lógica da similaridade e equivalência, até então presente no sistema capitalista. Tudo que está fora do sistema de significados é desconsiderado e excluído. "O recorte da diferença" é o fator primordial nessa visão sobre a informação. 

Antes de falar de conteúdos, configurações, significados cabe procurar a operação fundamental, aquela sem a qual não há onde dirigir o olhar: o recorte da diferença. Nesse sentido, é a própria diferença de que se automatiza, dispensando qualquer referência a conteúdos a serem ordenados. Tudo se resume na capacidade de recortar o mundo (o conjunto ilimitado e indiferenciado de objetos e eventos) e de estabelecer a diferença entre o que importa e o indiferente (no sentido exato do termo). (COHN: 2001; p.6) 

A Gestão da Informação nas Organizações 

Como as organizações devem buscar e usar a informação neste novo contexto social  "sobredeterminado" pela informação, é uma preocupação quando pensamos no gerenciamento das informações com as quais lidamos na nossa rotina diária de trabalho.

Este tema é abordado por Chum Wei Choo, que imprime à sua teoria sobre a organização do conhecimento, uma visão holística.

Na organização do conhecimento, os serviços de informação não se limitam a responder o que as pessoas querem saber, mas sim o porque e como elas usam a informação. Esses serviços são entendidos como “atividades que agregam valor à informação”, e desta forma contribuem para que os membros da organização tomem melhores decisões e tenham melhor percepção das situações. Para o autor, a organização do conhecimento “é aquela que possui informações e conhecimentos que a tornam bem informada e capaz de percepção e discernimento” (WEI CHOO:1998)

Como as organizações buscam e usam a informação é uma pergunta difícil, uma vez que a informação permeia quase todas as atividades das mesmas. É preciso entender os processos organizacionais e humanos que levam a transformação da informação em percepção, conhecimento e ação.

Segundo Wei Choo, estudos atuais em administração e teoria organizacional distinguem três arenas sobre o uso da informação que têm papel estratégico no desenvolvimento das empresas, são elas: criação do significado, construção do conhecimento e tomada de decisões.

Na organização do conhecimento é ressaltada em primeiro plano a importância em compreender que as três arenas citadas são atividades que se desenvolvem de maneira interligadas, dentro de um processo social. A visão holística da busca e uso da informação proposta pelo autor analisa como elas se alimentam mutuamente, não devendo, assim, serem consideradas processos independentes de informação organizacional, como normalmente são. 

Num nível geral, podemos visualizar a criação de significado, a construção do conhecimento e a tomada de decisões como três camadas concêntricas, em que cada camada interna produz os fluxos de informação para a camada externa adjacente... A informação flui do ambiente exterior  e é progressivamente assimilada para permitir a ação da empresa.  (WEI CHOO:1998; p.30)   

Primeiro o significado da informação é construído socialmente, através da interpretação sobre o ambiente da organização. Nesta fase, de criação do significado, as pessoas devem filtrar e selecionar qual informação é importante, e através das suas experiências e troca de idéias chegarem a um consenso sobre a sua interpretação. O principal desafio é resolver a ambigüidade das informações do ambiente externo. Nesta visão, na qual o conhecimento é considerado uma atividade, e não um objeto fora do contexto organizacional e das ralações humanas, a pergunta é diferente. Ao invés de que conhecimento a organização precisa adquirir?, perguntamos “como estão mudando os sistemas de conhecimento e de ação, e como a organização deve responder a isso?

Na próxima etapa, a construção do conhecimento, o processo de informação se dá através da conversão do conhecimento. Os indivíduos através do diálogo ou de meios de comunicação formais, trocam os seus conhecimentos e articulam o saber intuitivo.

A qualidade do conhecimento construído será definida pela diversidade de capacitações que irá gerar - desenvolvimento de novos produtos e processos, inovações e a disseminação do conhecimento, inclusive para o ambiente externo à organização. Vale mencionar que o conhecimento construído pela organização também é resultado do seu relacionamento com clientes, fornecedores e parceiros, a que o autor se refere como conexão do conhecimento.

A transformação do conhecimento em valor não acontece somente dentro da organização. A interação com fornecedores, parceiros e clientes é importante para a sua realização.

Na tomada de decisão, após o processamento e a análise da informação, com parâmetros em critérios estabelecidos por consenso, vão se delinear as opções que a organização têm para decidir por um único caminho estratégico. Quando as três formas de uso da informação aqui apresentadas se complementam e se inter-relacionam, a organização é apta a manter um ciclo contínuo, que o autor denomina ciclo do conhecimento. 

A organização do conhecimento liga os três processos de uso estratégico da informação - a criação de significado, a construção do conhecimento e a tomada de decisões - num ciclo contínuo de aprendizagem e adaptação que podemos chamar de ciclo do conhecimento  (WEI CHOO: 1998; 51)   

Apesar da teoria de Wei Choo focar as organizações empresariais, devemos considerar a importância da sua visão para as organizações sem fins lucrativos.

Compreender o conhecimento como uma atividade se opõe à idéia de entendê-lo como um objeto, que o autor cita como a coisificação do conhecimento” que pressupõe que o mesmo possa ser fornecido por terceiros, especialistas ou extraído de documentos, como uma aquisição para responder algo que a organização precisa saber.

Em oposição a essa interpretação, o conhecimento organizacional deve ser compreendido como fruto de um processo de uso da informação através do qual a organização “constrói significados comuns sobre suas ações e sua identidade; descobre, partilha e aplica novos conhecimentos; e empreende ações padronizadas por meio da busca, avaliação e seleção de alternativas” (WEI CHOO:1998;p. 26).

Portanto, a idéia do uso da informação somente para atender necessidades, não permite o seu entendimento mais abrangente o que enriquece os processos de aprendizagem, inovação e ação. 

Considerações Finais 

Evidenciando o papel do terceiro setor como articulador das redes de informação já existentes, no processo de construção da informação para a cidadania, sugerido por Dowbor, vale destacar que no Brasil as ONG’s têm um lugar de liderança no provimento de acesso comunitário à Internet, que vem sendo realizado desde a década de 80, através da parceria entre o setor acadêmico e essas organizações.

Várias ONG’s trabalham para disseminar  a  informática e internet entre as instituições do terceiro setor, visando o  seu alcance pela população mais carente, de acordo com a publicação Sociedade da informação no Brasil. 

O desenvolvimento histórico da Internet no Brasil foi marcado, desde seus primórdios no final da década de 80, por estreita aliança entre o setor acadêmico e as ONGs, destacando-se a cooperação entre a RNP e o Ibase, que culminou com o esforço de abertura de serviços Internet para quaisquer interessados, ocorrida em 1995. Mais recentemente, várias ONGs se têm dedicado a esforços de disseminação de informática e Internet entre instituições do Terceiro Setor e especialmente entre a população mais carente. Dentre elas, vale destacar o VivaRio, o CDI e a Rits. (TAKAHASHI: 2000)  

Outras organizações que contribuem para sensibilizar os setores públicos na implantação das suas políticas poderiam ser citadas através de importantes iniciativas para se evitar que o Brasil se transforme num país de “info-excluídos”.

Projetos governamentais, como por exemplo, a implantação dos Telecentros, coordenada pelo MDIC – Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, também direcionam seus esforços para dar suporte e infra-estrutura para a adequação da tecnologia e os conteúdos da informação às diversidades sociais e culturais dos usuários brasileiros.

Portanto, muitas são as iniciativas que desbravaram e estão pavimentando esse caminho, muitas vezes em condições precárias que exigiram e exigem muita determinação.

Como buscar, produzir, organizar, controlar, divulgar e disseminar a informação corretamente e de maneira ágil, não é tarefa fácil nem para as grandes empresas do mercado. No Brasil, com a sua dimensão geográfica e desigualdades sociais, a Informação encontra muitos obstáculos em qualquer setor, os quais se agravam quando voltados para atividades de natureza social – como  escassez de verba, de profissionais capacitados, falta de apoio político e  características dos usuários bem mais complexas.

Para que a informação cumpra o seu papel de agente transformador na consolidação de uma sociedade com mais qualidade de vida, desenvolvimento sustentável e democracia, estimular a capacitação em gestão da informação das ONGs é de suma importância :

As iniciativas para a universalização da informação envolvem ações por parte do Estado, do setor empresarial e da sociedade civil, não esquecendo que além das ONG’s, também têm papel de destaque nesse processo as instituições de ensino e os meios de comunicação. A construção de uma sociedade com cidadãos informados e participativos requer a união desses setores na direção de um sistema produtivo e eficaz, que articule as informações, fomentando o conhecimento da sociedade e, conseqüentemente, influenciando o seu potencial de desenvolvimento.

É um constante desafio, mas é certo que o Brasil já possui no seu universo de organizações um acúmulo de conhecimento e força que pode, gradativamente, viabilizar a criação de um sistema de informação que efetivamente contribua para a consolidação da cidadania e do desenvolvimento sustentável do país. 

 

BIBLIOGRAFIA  

BARRETO, Aldo de Albuquerque. A Eficiência Técnica e Econômica e a Viabilidade  de Produtos e Serviços de Informação.–., Brasília,v.25,n.3, p.405-414, set/dez, 1996

COHN, Gabriel. A Forma da Sociedade da Informação. In: DOWBOR, Ladislau; IANNI, Octavio; RESENDE, Paulo Edigar; SILVA, Helio (orgs). Desafios da Comunicação. Petrópolis: Vozes, 2001. Pág.3. 

DOWBOR, Ladislau. Informação para a Cidadania e o Desenvolvimento Sustentável, 2003. 

DOWBOR, Ladislau. Resenha (2003)  de: RIFKIN, J. o.SP:Makron Books.2001.Sociedade e Construção da Cidadania Contemporânea.SP.Revista Unicsul,Ano 8,nº 10, p.273-275, dez/2003 aqui você deve citar RIFKIN: 2003  e não Dawbor,– além disso no texto você citou 2001). 

MARTINS, Cibele e all. Indicadores Sociais: Construção e Participação da Comunidade. Trabalho de Conclusão do Curso de Pós-Graduação Latu-Sensu em Gestão no Terceiro Setor. Faculdade Senac de Educação Ambiental. São Paulo, abril/2005. 

SANTOS, Deivis Perez Bispo. Formação de Educadores para o Terceiro Setor. Dissertação de Mestrado ,  2004

 SILVA, Helio. O Marketing na Era da Comunicação – Tese de Doutoramento.  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 2003.  

TAKAHASHI, Tadao. Sociedade da Informação no Brasil – Livro Verde. Edição BR: Ministério da Ciência e Tecnologia, Brasília,  2000. 

WEI CHOO, CHUN. A Organização do Conhecimento – Como as Organizações usam a Informação para criar significado, construir conhecimento e tomar decisões.  Editora Senac, São Paulo, 1998. 

 NOTAS

[1] Este artigo é uma adaptação do texto de minha autoria inserido no Trabalho de Conclusão de Curso de Pós-Graduação em Gestão no Terceiro Setor da Faculdade Senac de Educação Ambiental, intitulado  Indicadores Sociais: Construção e Participação da Comunidade. O referido TCC foi uma produção coletiva partilhada com Letícia Beringhs Baroni, Miriam Ribeiro Biancardi e Suely Fontes Valente, sob a orientação do Prof. Dr. Helio César Silva. (MARTINS: 2005).

[2] Há muitas definições para informação. Para o nosso propósito pode ser adequada a de Aldo Barreto,  : “estruturas significantes com a competência de gerar conhecimento no indivíduo, em seu grupo, ou na sociedade”. Podemos assim estabelecer, ainda segundo Barreto,  “uma relação entre informação e conhecimento, que só se realiza, se a informação é percebida e aceita como tal, colocando o indivíduo em um estágio melhor, consciente consigo mesmo e dentro do mundo onde se realiza a sua odisséia individual”. (BARRETO: 1996)

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