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Jovens, Vulnerabilidade e Violência: Outra História é Possível? |
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* Assistente Social, mestre pela UEL, profª do Centro Universitário de Maringá (CESUMAR) e Faculdade de Ciência e Letras de Paranavaí – FAFIPA. madalbello@hotmail.com |
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RESUMO: PALAVRAS CHAVE : Jovens, Vulnerabilidade, Violência, Projeto Viva a Vida
ABSTRACT: KEY WORDS: Youth, Vulnerability, Violence, Here‘s to Life Project INTRODUÇÃO A vulnerabilidade ao risco para violência entre os jovens e a elaboração de projetos sociais capazes de estabelecer um contraponto a esta questão têm se constituído em objeto de preocupação de vários estudiosos. (ZALUAR, 1994a, 1994 b; CASTRO et al, 2001; ABRAMOVAY et al, 2002). Diversos aspectos de ordem social, cultural e econômica interagem apontando os jovens como a categoria mais suscetível a diversos tipos de riscos 1, entre os quais se situa a violência. A juventude é um período em que os jovens se deparam com momentos de insegurança e indefinição, relacionados à desorganização de estruturas do mundo infantil e à construção de novas maneiras de se situar no mundo adulto. Influências tradicionais atribuídas à orientação familiar, ao contato e à socialização de experiências com gerações antecedentes contribuíam com maior intensidade para diminuir as angústias e incertezas deste momento de passagem. No entanto, de acordo com Jeolás apud Balandier (1999), nos dias de hoje, muitas destas referências encontram-se empobrecidas ou mesmo ausentes culturalmente, o que favorece a potencialização dos riscos vivenciados pelos jovens. A busca de identidade e referenciais baseados em valores consumistas tem sido marca de uma juventude que, ao se desvincular das orientações tradicionais, adota valores relacionados aos modismos instáveis e à socialização no interior de grupos, gangues ou galeras. Na visão de Balandier (1997), os dias de hoje apresentam características que se traduzem pelo excesso e embaralhamento de imagens, códigos e incertezas. Sendo assim, o jovem é levado a ser o produtor das suas próprias referências que se embasam em acontecimentos cotidianos e em necessidades imediatas. Entre os jovens que compõem as classes mais pobres da sociedade, a impossibilidade de satisfazer às necessidades de consumo, associadas a diversos estilos de roupas, acessórios, lazer e alimentação tornou-se mais uma forma de vulnerabilidade que pode contribuir para comportamentos violentos como único meio de acesso a estes bens pela atração por eles exercida e incessantemente alimentada pela mídia. De acordo com Sposito (2003), a gravidade da situação fez com que algumas iniciativas de ordem governamental fossem tomadas no sentido de atuar na controle da violência que atinge grande parte destes jovens. Muitos desses programas, segundo a autora, possuem caráter de contenção de um possível comportamento violento por parte de jovens em situação de vulnerabilidade social. A partir do final da década de 90, o crescimento das mortes por homicídios entre jovens levou à elaboração de projetos, pelo Ministério da Justiça, voltados para prevenção e redução da violência nas escolas e nos bairros, destinados principalmente a jovens moradores das periferias das grandes cidades. O formato assumido por estes programas tem por objetivo ocupar o tempo do jovem não preenchido pela escola. De acordo com Abramo (2003), diante dos perigos existentes na rua: assaltos, acidentes, narcotráfico, possibilidade do envolvimento com gangues e gravidez precoce, percebeu-se a necessidade de uma vida social para os jovens, além da convivência escolar, o que levou o poder público a buscar meios de oferecer os denominados espaços para os jovens. Ao referir-se a esses projetos, a autora coloca que uma das características assumidas por eles diz respeito a sua função de ‘guarda' e ocupação do tempo livre, visando à criação de ambientes seguros para que os jovens possam se desenvolver de forma a complementar a educação escolar. Podem proporcionar atividades destinadas ao reforço escolar, lazer, esporte, cultura e até mesmo à qualificação profissional. Em Londrina, o Projeto Viva a Vida, implantado a partir de 2001 em doze áreas periféricas da cidade, integra este conjunto de projetos e suas ações objetivam o atendimento, em contra turno escolar, de crianças e adolescentes de 7 a 14 anos que se encontram em situação de risco social, entre eles, o risco da violência. As atividades desenvolvidas pelo Projeto estão pautadas em uma proposta arte-educativa que se associa ao lúdico, dando ênfase a valores éticos e de estímulo à sensibilidade do indivíduo. Desenvolvido nas periferias de Londrina, nas quais predominam a pobreza e a violência, o Projeto Viva a Vida busca promover a educação para a cidadania por meio de atividades que se traduzem em um esforço concentrado pela socialização de experiências de produção em movimento e enriquecimento da perspectiva de vida, contrapondo-se ao cotidiano empobrecido, às ilusões compensatórias e à contemplação passiva que estão na base da indústria cultural 2 Foi delimitado, como universo deste estudo, uma das unidades do Projeto Viva a Vida situada próxima a um assentamento periférico, cujos índices de violência apresentam-se como um dos maiores da cidade de Londrina. Assim, este trabalho de pesquisa buscou estudar a atuação do Projeto Viva a Vida em face do contexto de violência vivenciado por jovens e suas mães. Foram considerados, como sujeitos da pesquisa, doze jovens na faixa etária de 12 a 14 3 anos residentes no assentamento e que freqüentam o Projeto há pelo menos um ano; e suas mães, totalizando vinte e quatro pessoas entrevistadas. O nome do assentamento, assim como o da unidade do Projeto Viva a Vida em questão foram omitidos com o intuito de assegurar a integridade física dos sujeitos que compuseram o universo da pesquisa. Para a análise do conteúdo das entrevistas foram organizados dois eixos de análise. O primeiro voltado para as mudanças de comportamento sob a ótica dos jovens e de suas mães após a inserção no projeto e o segundo, para as perspectivas futuras almejadas pelos sujeitos da pesquisa após o período de passagem pelo projeto. Projeto Viva a Vida: mudanças e desafios de um projeto em curso Mudanças de Comportamento Neste item serão tratadas as mudanças atribuídas ao Projeto Viva a Vida, relacionadas ao comportamento de jovens em situação de vulnerabilidade para a violência. No discurso das mães, ao se referirem aos motivos pelos quais matricularam os filhos no Projeto Viva a Vida, ficava explícita a opinião de que o jovem que freqüenta o projeto “não fica na rua à toa” e ocupa-se com o aprendizado de coisas boas, como são as atividades de capoeira, artes plásticas, dança, entre outras que lá são desenvolvidas. Por trás desta idéia, estava sempre presente, embora nem sempre explicitada, a preocupação com a violência e com a má influência do crime organizado que atua no assentamento e que tem os jovens entre suas principais vítimas. É o que fica evidente nos trechos das entrevistas abaixo citadas: Eu matriculei ele [filho] para ele não ficar na rua à toa aprendendo o que não deve. O projeto [Projeto Viva a Vida] tira o tempo da criança ficar na rua (mãe/38 anos-B). Durante o período de acompanhamento das atividades no projeto, alguns coordenadores afirmaram não haver envolvimento de crianças ou jovens participantes do projeto com atividades ilícitas, como aquelas associadas ao tráfico de drogas. Entretanto, no decorrer das entrevistas, foi possível constatar o envolvimento de dois jovens em atividades como roubo e tráfico de drogas. É o que pode ser constatado nas falas abaixo: Eu roubo ainda com a molecada. Eles chamam eu, aí eu entro e pego as coisas e se o dono da casa reagir, a gente bate, espanca ele (Jovem/masc/12 anos G1).
Outro jovem, entretanto, relata ter passado por mudanças desde a inserção no projeto.
O projeto se constituiu também em um espaço de lazer e entretenimento para as mães. Diante do convívio com situações de cerceamento da liberdade provocadas pela violência no assentamento, muitas mães se restringem a permanecer no ambiente doméstico. Atividades como conversar com um vizinho ou caminhar pelo assentamento podem ser motivos de risco. Neste sentido, o projeto era visto como um local de lazer, socialização, respeito e troca de experiências. Às vezes, a gente chega nervosa lá [na reunião do projeto] e aí ‘interte' nas brincadeiras, dá risada, conversa... Então é bom! (Mãe/40 anos-H) O desenvolvimento da capacidade de resolver conflitos sem o uso da violência se constituiu em um importante exercício para as mães e jovens que freqüentam o projeto. Ao participar de uma reunião, uma mãe testemunhou a importância dos pais ou responsáveis discutirem conjuntamente as dificuldades encontradas na educação dos filhos: A gente faz grupo e acaba saindo resultado bom. Nas reuniões, a gente fica sabendo alguma coisa lá daquela mãe, o que ela está passando. Porque julgar é fácil, mas a gente nunca sabe o que aquela mãe tá passando com aquele filho. (Mãe/30 anos-K) . Educar os filhos por meio de agressões físicas é uma prática que começou a ser revista no ambiente doméstico. Grande parte das mães entrevistadas revelou adotar outras formas de se dirigir aos filhos, quando eles cometem erros. Uma das mães assim se expressou: A surra deixa ela [filha] mais revoltada. Vai ficando revoltada e às vezes acaba até indo embora de casa, então eu evito bater. (Mãe/30 anos-K) Percebe-se assim um trabalho desenvolvido pelo projeto no sentido de apresentar às mães outras formas de educar os filhos, que não por meio da violência. Conversar, dar conselhos, ou mesmo adotar outras formas de punição como o castigo foram alternativas apontadas pelas mães em substituição à prática da agressão física. Eu aprendi no projeto que tem mãe que bate nos filhos de mangueira, de pau... Assim você está expulsando os seus filhos da sua casa e de perto de você. Então, você sentando e conversando com seu filho é melhor! (Mãe/39 anos-F) Ao mudar a forma de tratar o filho, uma mãe relatou a melhora de comportamento do jovem, que se apresenta mais obediente em casa. Este fato demonstra uma maior aceitação das regras e normas colocadas, o que conseqüentemente contribui para que a agressão física seja menos utilizada como forma de educação dos filhos: Eu batia muito neles [filhos] agora eu não bato mais. Espancava eles demais. Qualquer coisinha já tava batendo. Agora eu converso, falo: “Não faz isso que não tá certo”. Aí eles falam: “Tá bom mãe, eu não vou fazer” e não fazem. (Mãe/38 anos-G) É importante lembrar, entretanto, que o ato de bater nos filhos, apesar de estar sendo revisto, ainda é uma forma de violência bastante presente no ambiente doméstico dos jovens sujeitos desta pesquisa: É, tem que bater umas vezes para não acostumar, mas depois tem que conversar, pôr de castigo. Eu não apanho. Ela [mãe] me batia assim, quando eu merecia, quando era muito sério, mas agora ela conversa mais. (Jovem/fem/13 anos-F1)
No trabalho desenvolvido pelo projeto, foi possível perceber um esforço para estreitar os vínculos familiares. É o que fica explicito neste depoimento : Eu nunca tinha chegado nela e falado: “ô filha, ficou bom, ficou bonito”. Eu não tinha prestado a atenção ainda nos trabalhinhos que ela fazia. Aí, teve uma exposição de trabalhinhos deles e eu fui ver. Você precisa ver a felicidade dela com aquelas bonecas. (Mãe/30 anos-L) Associadas ao trabalho desenvolvido junto às mães, outras iniciativas do projeto foram citadas pelos jovens como sendo responsáveis pelas mudanças de comportamento por eles engendradas. São elas: proporcionar a eles tempo para que vivenciem, de forma lúdica e reflexiva, a fase da vida pela qual estão passando e possibilitar a convivência em um ambiente onde são reconhecidos independentemente da classe social à qual pertencem. Depois que a gente volta do projeto, a gente volta mais calmo. Porque na rua a gente se sente estranho, os outros olham pra gente na rua, assim... Às vezes ficava muito tempo na rua, não tomava nem banho, só lavava o pé e ia dormir. (Jovem/masc/12) A convivência com “boas amizades” conquistadas no Projeto Viva a Vida foi citada como contribuição para um comportamento diferenciado daquele apresentado quando o jovem convive com “moleques de rua”, “bandidinhos” ou “más companhias ”. Os colegas gritam ele o dia inteiro, quando ele tá lá em casa. Não os moleques bandidinho, não. É tudo gente legal, tudo de família boa. (Mãe/42 anos-L) Ao se depararem com situações de conflito nas relações de amizade, alguns jovens revelaram estar adotando outras estratégias para lidar com situações conflituosas entre colegas que não a violência. Ao serem insultados, ameaçados ou provocados para brigas, eles ignoram o ocorrido em alguns casos, evitando assim, muitas vezes, o emprego da força física. Nossa, já fiz tanta coisa na minha vida! Agora sou um moleque sossegado. [...] Agora eu fico quieto, eles mexem comigo e falam: ”se ele falar alguma coisa, a gente mete bala”, mas eu fico até quieto assim, sabe? Mexer com esses negócios não dá certo não. (Jovem/ masc/13 anos-H1) Situações envolvendo um “esbarrão” ou “um olhar meio torto” são apontadas pelos jovens como motivos de brigas, seja com os colegas ou irmãos. No entanto, duas mães e um jovem, ao reconhecerem o papel desempenhado pelo projeto, assim relatam: Ninguém podia nem olhar para ele que ele já tava querendo bater. Agora, depois que ele foi no projeto ele melhorou, parou com as encrencas! (Mãe/32 anos-A) De acordo com os depoimentos acima citados foi possível constatar que foram muitas as mudanças proporcionadas pelo Projeto Viva a Vida na vida dos jovens e suas mães. Estreitamento dos vínculos familiares, melhora da auto-estima, desenvolvimento de estratégias para lidar com os conflitos pessoais que não o uso da violência foram os principais pontos positivos levantados pelos entrevistados após a inserção no projeto. Os jovens e suas mães associaram ainda a influência do Projeto Viva a Vida em relação às expectativas futuras, após deixarem de freqüentar o projeto. Perspectivas Futuras A qualificação profissional constitui uma das principais preocupações entre os sujeitos entrevistados. Quando indagados sobre as expectativas futuras, tanto os jovens como suas mães, consideraram o Projeto Viva a Vida como parte de um processo, que dará acesso a cursos de qualificação profissional e, possivelmente, ao trabalho. Em Londrina, entre os cursos voltados para a educação para o trabalho, os mais citados foram: a) Guarda Mirim - instituição de cunho filantrópico, que possui uma filosofia voltada para a educação disciplinar para o trabalho. Ao final do curso a entidade busca a inserção dos jovens em órgãos públicos e empresas; b) Programa de orientação profissional (POP), mantido pela prefeitura municipal de Londrina, o programa compõe duas das catorze unidades do Projeto Viva a Vida. Entre as atividades desenvolvidas foram citadas o artesanato e a marcenaria; c) Escola Profissional Social do Menor de Londrina (EPESMEL), de cunho filantrópico, é mantida com recursos das taxas de estacionamento recolhidas da Zona Azul, na região central de Londrina e de doações. Artes-gráficas, tipografia, marcenaria e costura industrial estão entre os cursos oferecidos. Ao relatarem suas perspectivas em relação ao tipo de trabalho, mães e jovens assim se expressam: Eu vou pra outro projeto, lá na Epesmel. Eu quero fazer curso de informática também. (Jovem/masc/12 anos-A1)
Entre os motivos levantados para a busca de trabalho remunerado está a independência financeira. Para as mães, o fato dos filhos adquirirem bens com recursos próprios significa uma desobrigação com gastos para suprir o consumo dos jovens. É o que pode ser observado a partir da fala abaixo: Quero arrumar um serviço pra trabalhar e ganhar um dinheiro e só. Não sei em que, mas qualquer coisa que desse pra trabalhar e ganhar dinheiro para poder comprar as coisas que eu gosto já estava bom. (Jovem/masc/ 12 anos-G1)
O acesso ao trabalho é visto também como uma questão moral, pois quem não trabalha, na visão das mães, está mais vulnerável a diversos riscos como o uso de drogas e a violência. A seguir, uma mãe destaca a importância da escola e do Projeto Viva a Vida, vistos como caminhos a serem trilhados para a vida profissional. O que eu quero é que ele tenha uma profissão, que ele seja um bom filho, que ele não se envolva com coisas erradas .. (Mãe/38 anos-I) A formação escolar dos jovens foi ainda valorizada por duas mães, que almejam para eles o ingresso em um curso superior, como o de medicina. Embora não explicito, fica aí subentendido o desejo de que os filhos sejam valorizados e prestigiados. Eu quero que ele estude até terminar, até entrar numa faculdade e sair com um diploma, uma profissão, ou médico ou qualquer outra profissão [...]. (Mãe/38 anos-I)
De acordo com Carmo (2001), é flagrante a desigualdade de oportunidades, quando se pensa no sistema de acesso às universidades públicas no país. A entrada nos cursos universitários públicos e gratuitos mais concorridos mostra-se um futuro quase impossível para os jovens das classes de renda baixa. Diferente das falas das mães, entre os jovens entrevistados não houve referência aos estudos como garantia de acesso ao mercado de trabalho. A dedicação aos estudos, assim como o ingresso em uma universidade são representados por eles como um futuro distante. Segundo Carmo (2001) a resistência dos jovens pobres aos estudos, ocorre muitas vezes porque a passagem pela escola aparentemente trouxe poucas mudanças em suas vidas. Tendo por base os resultados do processo de escolarização, é possível analisar que eles desmentem a ilusão e o desejo de ascensão social das classes economicamente desfavorecidas. Assim, finaliza o autor, torna-se compreensível que a classe média ou a classe alta manifestem seu apego aos valores escolares : para elas a escola dá objetivamente condições de satisfazer expectativas, mesmo que parcialmente. (CARMO, 2001:20) Por outro lado, a conquista de um trabalho remunerado apareceu entre as principais preocupações dos jovens sujeitos desta pesquisa. Muitos jovens, além da busca de cursos profissionalizantes, citaram como alternativa profissional a dança, a capoeira e o teatro. Associadas à programação do Projeto Viva a Vida, estas atividades são vistas por jovens e mães como possibilidade de ocupação que trarão, além de rendimento financeiro, reconhecimento e prestígio social. Eu gosto mais de dança. Porque eu quero ser dançarina. Eu gosto de dançar. (Jovem/ fem/ 13 anos-F1).
Percebe-se, assim, que os jovens, a partir do contexto em que vivem, procuram alternativas profissionais que possibilitem melhorar de vida, por meio da busca de qualificação profissional e de alguma forma de trabalho. Uma das jovens entrevistadas expressou a intenção de ser doméstica, equiparando-se a sua mãe: Eu quero trabalhar de limpar a casa, de ser doméstica igual a minha mãe. (Jovem/fem/14 anos-J1) Ao se referirem às perspectivas futuras, os jovens em relação às mães, se mostram mais lúcidos ou conscientes das chances que o futuro lhes apresenta. De acordo com Lima (2002), muitos jovens trabalhadores, pertencentes às camadas populares, tendem a se conformar com aquilo que lhe é oferecido. Grande parte dos jovens sente-se privilegiada por estar empregada, o que os difere daqueles que estão fora do mercado de trabalho. Assim, dedicam-se às suas atividades para não serem demitidos ou substituídos por outros mais dispostos a fazerem tudo. É como se os jovens tivessem que se adequar à realidade, procurando sobreviver para não serem excluídos do mercado de trabalho, mesmo que, para isso, eles tenham que desistir de sonhos e projetos futuros. Ainda não estão desiludidos ou perderam totalmente o encanto, mas parecem acomodados, tendo que deixar de “fazer o que gosta” e passar a “gostar do que faz”. (LIMA, 2002: 191) CONSIDERAÇÕES FINAIS O Projeto Viva a Vida aqui analisado apresenta-se como uma importante iniciativa no enfrentamento da violência decorrente, em grande parte, do tráfico de drogas presente no assentamento no qual reside grande parte dos jovens que o freqüentam. Ao voltar-se para o atendimento de crianças e adolescentes, o projeto oferece uma alternativa para a convivência saudável entre seus participantes, contrapondo-se à violência e às ações criminosas comandadas pelas quadrilhas do tráfico de drogas. As atividades desenvolvidas pelo projeto têm se constituído em um espaço seguro de lazer para os jovens na medida em que faz com que eles permaneçam menos tempo na rua expostos às ações de quadrilhas e de traficantes. O projeto foi apontado por jovens e mães como um espaço que tem provocado mudanças de comportamento, em contraposição a atitudes de intolerância e agressividade. Tem ainda despertado nos jovens perspectivas futuras relacionadas a atividades profissionais como forma de se sustentar e obter algum tipo de rendimento. Ao mencionar as mudanças e desafios do Projeto Viva a Vida, é importante destacar que o alcance das iniciativas almejadas pelo projeto conjuga-se à necessidade da atuação efetiva do Estado no sentido de implantar e manter uma política ampla e continuada de proteção social capaz de diminuir a vulnerabilidade ao risco da violência que tem nos jovens suas principais vítimas.
BIBLIOGRAFIA ABRAMO, W. H. Cenas juvenis : punks e darks no espetáculo urbano . São Paulo: ANPOCS, 1994. ABRAMOVAY, M. et al (Orgs.). Juventude, violência e vulnerabilidade na América Latina : desafios para políticas públicas. UNESCO, Brasília, 2002. BALANDIER, G. O Contorno: Poder e Modernidade . In: O Imaginário na modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand, 1997. CARMO, P. S. Juventude no singular e no plural. Cadernos Adenauer II, São Paulo, n. 06, dez. 2001. CASTRO, M. G. (Org.). Cultivando vidas desarmando violências . Brasília: UNESCO, 2001. JEOLÁS, L. S. O Jovem e o imaginário da aids - o bricoleur de suas práticas e representações. Tese (Doutorado) – PUC-SP, São Paulo, 1999. LIMA, M. E. M. S. L. Representações Sociais dos Jovens sobre o trabalho: entre fazer o que gosta e gostar do que faz (Mestrado)-UEL, Londrina, 2002. SPOSITO, M. Trajetórias na constituição de políticas públicas de juventude no Brasil. In: FREITAS, M. V; PAPA, F. C. Políticas públicas: juventude em pauta . São Paulo : Cortez, 2003. ZALUAR, A. Cidadãos não vão ao paraíso . São Paulo: Escuta, 1994a. ________. Condomínio do diabo . Rio de Janeiro: Revan-UFRJ, 1994b. Documento Analisado Secretaria municipal de Cultura. Outra Historia é Possível: Projeto Viva a Vida . Londrina, 2002 .
NOTAS [1]De acordo com Jeolás (1999) diversas áreas do conhecimento de ordem social, psicológica e epidemiológica relacionam a adolescência e a juventude a diversos tipos de risco como morte no trânsito, uso de drogas e tentativas de suicídio. [2]Outra Historia é Possível: Projeto Viva a Vida (2002) [3] 14 anos é a idade limite de permanência dos jovens no projeto. [4] Este jovem foi assassinado um mês após a concessão desta entrevista.
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