RESUMO: Este artigo, com base em pesquisa bibliográfica, discute as representações sociais e a alteridade em suas relações com a pobreza, assim como a possibilidade de discutir a questão da positividade concreta. A positividade concreta foi estudada usando a estrutura teórica de Cynthia Sarti, que pensa a pobreza não apenas como carência, mas um sistema complexo que envolve estratégias coletivas e qualidades individuais na luta pela sobrevivência.
PALAVRAS CHAVE: Representação social, alteridade, pobreza.
ABSTRACT: This article, based on a bibliographical research, discusses the social representation and alterity in their relation with poverty, as well as, the possibility of discussing the question of the concrete positivity. Concrete positivity is estudied using the theoretical framework of Cynthia Sarti, who views poverty not only in terms of lack of goods and services, but as a complex system which envolves colletive strategies and individual qualities in life struggle.
KEY WORDS: Social representation, alterity, poverty
Importa-nos falar de positividade concreta uma vez que queremos dar a possibilidade da pobreza ser descrita pelos seus atores principais: os pobres; assim como eles são, como pensam, como enfrentam as incertezas da vida e, principalmente, como se organizam. Na literatura acerca da pobreza, o pobre frequentemente era tratado como objeto: ele "aparecia" atrás de números, de estatísticas, de gráficos, enfim, falava-se de uma pobreza, seus agravamentos e conseqüências, mas esquecia-se de dar voz, ouvidos e possibilidade de mostrar o rosto dos protagonistas que se situam nessa condição de pobreza.
A pobreza, tida como reduto da classe perigosa, era vista ora como um problema, ora como um temor, características marcantes de uma alteridade. As raras tentativas das elites de amenizar a situação de pobreza não era uma sensibilidade aos pobres, mas uma forma de proteger-se, de sentirem-se seguras diante de pessoas cujo sinônimo beirava à desordem, o vício. Uma vez que essa era a representação que se tinha da pobreza, procurou-se, principalmente, através da filantropia, uma tentativa de lidar com esse "problema" social.
De certa forma, é importante pensar que a compreensão do fenômeno da pobreza requer que se discutam não somente as condições de privação à qual lhe é atribuída, mas também os processos implicados seja na sua privação, como também, no seu enfrentamento.
Por que representações sociais? Leite (2005) citando Jodelet, nos diz que
[...] na vida prática, e em relação ao mundo que nos rodeia, precisamos ter conhecimentos que permitam situarmo-nos e conduzirmo-nos nele, dominá-lo física e intelectualmente, identificar e resolver problemas por ele colocados. Mas, ao mesmo tempo, trata-se de um mundo compartilhado com outros, nos quais nos apoiamos, e de modo convergente ou conflituoso, para compreendê-lo, geri-lo ou enfrentá-lo (LEITE, 2005, p. 363).
Ao se falar de representações sociais, é importante destacar as idéias de Moscovici. Segundo este autor, a representação é uma preparação para a ação. Por sua vez, a representação como uma construção simbólica, surge após um acolhimento em paradigmas prévios. Dois são os processos fundamentais que possibilitam o processo de familiarização: a objetivação (reproduzir um conceito em uma imagem) e a ancoragem (atribuir um significado, uma inteligibilidade a um objeto)[2].
A representação social como uma simbolização do objeto comporta traços sociais característicos do sujeito (LEITE, 2002), o que significa que o conteúdo das representações sociais é afetado pela construção simbólica do sujeito (suas características e condições sociais em que se encontram), que re-organiza as suas idéias acerca do objeto. Como observa o mesmo autor (LEITE, 2005) "o fato de os conteúdos das representações sociais trazerem em si atributos do sujeito demonstra que elas não são meros reflexos passivos do exterior em sua mente [...]" (p. 365).
Como dizia Sá (1998), "[...] para gerar representações sociais o objeto deveria ter suficiente "relevância cultural" ou "espessura social" [...]" (p. 45). Buscar uma compreensão acerca das representações sociais da pobreza é de alguma forma entender como a pobreza é representada e neste sentido como ela é discutida seja através das políticas públicas ou das filantropias[3]. Como exemplo de interesses sociais para colocar em prática medidas intervencionistas, observava Valladares (1991): "[...] o que os médicos haviam diagnosticado como o foco das epidemias era também, e sobretudo aos olhos da elite política nacional, o berço do vício e do crime"[...] (p. 86).
Um outro ponto que queremos destacar é sobre a alteridade. Para Jodelet, a alteridade tende a excluir quem tem algo de proximidade, aquilo que incomoda. A alteridade surge a partir de uma representação. Com efeito, a reflexão sobre a alteridade se manifesta a partir das lacunas que o trabalho de construção social da realidade abre na experiência humana, com o agravamento de sentimentos e posturas excludentes de uma representação. Apesar de ser tomada numa relação, a alteridade se dá a partir do sujeito que encerra e não daquele que é encerrado:
[...] a alteridade não aparece como atributo que pertenceria à essência do objeto visado, mas sim como uma qualificação que lhe atribuída do exterior. É um substantivo que se elabora no seio de uma relação social e em torno duma diferença [...] (JODELET apud ARRUDA, 2002, p. 50).
Paralelo a isto há de se destacar que a mesma autora afirma que "[ ...] produção da alteridade associa, num mesmo movimento, uma construção e uma exclusão [...]" (JODELET apud ARRUDA, 2002, p. 52). De certo modo, há de associar tal idéia como a forma que a pobreza foi representada, uma vez, que o "especialista" em sua respectiva prática de observação, fazia uma "leitura" da realidade da vida dos pobres a partir de sua própria convicção ou da representação da pobreza com a qual vivenciava[4].
A pobreza que emergia a partir de um espaço marcado por um desordenamento social e, por conseqüência, reduto da vadiagem e dos diferentes vícios, era uma ameaça à segurança pessoal e à manutenção da ordem social. O discurso da "educação" dos pobres foi a justificação da presença dos agentes que buscavam ordenar e direcionar o comportamento dos moradores que viviam naquela realidade, designando o que podemos chamar de gestão filantrópica da pobreza.
Neste sentido, em se tratando da abordagem acerca da pobreza, com seus respectivos sinais de marginalização, é que se pode associar à alteridade numa forma específica de relação social[5].
Afinal o que é pobreza? Como caracterizar um indivíduo que vivencia esta condição? Tratemos, pois, inicialmente a partir da idéia de Soares (2003), buscar uma conceituação para este termo:
[...] esse conceito foi instrumentalizado para fins de quantificar o tamanho da pobreza em determinada população. Quase sempre esse "corte" é feito por um valor monetário ou renda disponível que um indivíduo ou uma família recebem em dado período. Esse valor é que constitui a chamada "linha de pobreza" e costuma ser associado ao custo de uma "cesta básica" de alimentos ou de um conjunto de "necessidades básicas". Os estudos internacionais mais conhecidos a respeito definem como pobres aqueles que recebem abaixo de um valor ("a linha de pobreza") suficiente para comprar apenas uma cesta básica de alimentos. Outros órgãos internacionais, como o Banco Mundial, consideram como pobre aquele que vive com menos de um dólar diário (p. 43-44).
Neste sentido, a pobreza como se refere Soares (2003) parte do pressuposto de uma renda ou valor monetário para delimitar quem está ou não inserido na situação de pobreza, ou seja, são consideradas pobres as pessoas cuja renda familiar[6] per capita é considerada inferior à linha de pobreza, tendo como referência, o valor definido a refletir o custo das necessidades básicas, levando em consideração um determinado momento e lugar.
Amplia-se a este conceito a observação de Sarti (2007) sobre a pobreza e os pobres: "[...] vivem em bairros periféricos, exercem ocupações com baixa qualificação profissional, estão entre os que têm baixa escolaridade, recebem as mais baixas remunerações"[...] (p. 12).
Mais do que uma privação de bens materiais o conceito de pobreza se estende a uma condição de privação de direitos, onde as regras do mercado que passam a organizar a vida social dos trabalhadores (os pobres), são pautadas num discurso capitalista que, por sua vez, excludente daqueles que não têm a qualificação exigida, formando uma massa de pobres sem trabalho. Como evidencia Telles (1993):
[...] a pobreza não é simplesmente fruto de circunstâncias que afetam determinados indivíduos (ou famílias), desprovidos de recursos que o qualifiquem para o mercado de trabalho. O pauperismo está inscrito nas regras que organizam a vida social. É isso que permite dizer que a pobreza não é apenas uma condição de carência, passível de ser medida por indicadores sociais. É antes de mais nada uma condição de privação de direitos, que define formas de existência e modos de sociabilidade [...] (p. 13).
Telles (2001) chama a atenção que a pobreza contemporânea ganha novas proporções à medida que emergem novos excluídos, fruto, principalmente, da reestruturação produtiva e da incapacidade[7] do Estado em intervir frente à economia de mercado, a fim de fortalecer as políticas públicas que trata dos problemas de agravamento da situação de pobreza.
[...] se a pobreza brasileira é (e sempre foi) espantosa e só vem aumentando sob o efeito conjugado de recessão econômica, reestruturação produtiva e desmantelamento dos serviços públicos, o que impressiona é o modo como é figurada como problema e não diz respeito aos parâmetros que regem a vida em sociedade e que não põem em questão as regras da equidade e justiça nas relações sociais. Hoje, no Brasil, nossa velha e persistente pobreza ganha contemporaneidade e ares de modernidade por conta dos novos excluídos pela reestruturação produtiva [...] (TELLES, 2001, p.118).
A Pobreza como caráter multifacetado, perpassa àquilo que a literatura costuma chamar de reduto da criminalidade e da desordem. Era preciso desde já intervir neste espaço desprivilegiado, impondo restrições a partir de um aparato legal a fim de conter as ramificações da pobreza e toda conseqüência que dela ocorre. Designou-se gestão filantrópica da pobreza, o processo de gerenciar a pobreza, num mero sentido de intervir, conduzir tal situação e não em criar condições de diminuição da mesma. Como observava Adorno (1990) ao se referir à filantropia: "[...] prestar socorro e assistência aos pobres sem que isso se convertesse em direito à pobreza [...]" (p. 17).
Resgatar o discurso sobre a pobreza implica considerar, além das abordagens tidas como excludentes, uma vez que "vista de fora" já se impunha conotações negativas, como lugar de miséria, insalubridade, aspectos estes tão freqüentes no discurso médico higienista[8] do século XIX, como se procurava, da mesma forma, manter a ordem social e o controle da classe trabalhadora, onde emergia em paralelo às chamadas classes perigosas[9], submetendo-os a uma sociedade ordenada pelo trabalho e pelo funcionamento regular da ordem contratual.
Por fim, vale retomar o pensamento de Telles (1993) acerca das formas representadas da pobreza e por conseqüência como foi estudada ou pensada nas medidas de intervenção, desmistificando a associação pobreza e criminalidade, bem como tentar percebê-la como algo externo e estranho, como lembra a mesma autora, uma vez que escapou à potência civilizadora da modernização:
[...] se existe alguma relação entre pobreza e criminalidade, esta relação está configurada em uma sociedade que rompe, o tempo todo, com o que se poderia chamar, talvez com alguma imprecisão, de um pacto social implícito que constrói um sentido de pertinência e dá uma medida de plausibilidade à vida em sociedade [...] (TELLES, 1993, p.19).
Como afirmava Jodelet (apud ARRUDA, 2002) "[...] pouco ainda foi dito sobre a experiência vivida pelos que estão expostos à situação de serem colocados em posição de alteridade, e sobre a exclusão que resulta dela" (p. 65). A positividade concreta não exclui ou ignora a "falta", a "carência" no mundo social dos pobres, não obstante, falar de positividade concreta é reconhecer e difundir o que muitas vezes não é evidenciado e reconhecido por parte de estudiosos que abordam o tema da pobreza ou também de pessoas que mesmo fora do mundo acadêmico lidam com a questão da pobreza.
Neste sentido, vamos levantando questões e dúvidas, enfim, criamos possibilidade de revelar qualidades e atributos dos pobres a partir de suas experiências familiares e sociais, indo à "contramão" do que se costumou "naturalizar" da condição de pobreza e dos que participam desta realidade. Como dizia Telles (1993), "[...] num registro e no outro, a pobreza é transformada em natureza, resíduo que escapou à potência civilizadora da modernização e que ainda tem que ser capturado e transformado pelo progresso [...]" (p.10).
De fato, como se não bastasse a luta pela sobrevivência diante das difíceis condições materiais que enfrentam, somam-se "[...] as experiências subjetivas de opressão, permanente e estrutural, que marca sua existência, a cada ato vivido, a cada palavra ouvida [...]" (SARTI, 2007, p.12).
Contrapondo a isto, funda-se nas relações entre os pobres um código de lealdades e obrigações mútuas próprio das relações familiares, tendo no plano moral algo que estabeleça a igualdade entre pobres e não-pobres, e onde os pobres podem mesmo ser superiores. Como dizia Sarti (2007) a honra que perpassa as relações entre os pobres, não estando associada à posição social, vincula-se à virtualidade moral, como propósito de afirmação de si mediante o olhar do outro, sendo o trabalho um dos instrumentos fundamentais dessa afirmação seja no âmbito pessoal, seja no âmbito social.
Uma primeira tentativa de expor uma idéia acerca dos pobres, a partir de uma aproximação, é reafirmar as palavras de Sarti (2007) onde "[...] falou-se mais da pobreza do que do pobre; ao se denunciar o sistema, elidiu-se o sujeito[...]" (p.36). Como a mesma autora reforça, nas diferentes e multifacetadas imagens que foram construídas e representadas pelas ciências sociais brasileiras acerca da pobreza, "[...] percebe-se uma identificação por contrastes, fazendo dos pobres um "outro" que muitas vezes diz mais de quem se fala, num mecanismo de tipo projetivo" (SARTI, 2007, p.35). Com efeito, este outro-objeto, permanece distante, sem voz, sem rosto, um número que poderia entrar nas estatísticas que servirão, por exemplo, para ilustrar sua situação de pobreza. Podemos dizer que este distanciamento traz como conseqüência:
[...] o resultado acaba sendo a desatenção para a vida social e simbólica dos pobres no que ela representa como positividade concreta, a partir da qual se define o horizonte de sua atuação no mundo social e a possibilidade de transposição dessa atuação para o plano propriamente político (SARTI, 2007, p.36).
Quando nos referimos à sensibilidade, nos opomos à piedade. O termo "sensibilidade" - aqui empregado, vem ao encontro de uma indignação moral. Afinal, os pobres têm consciência da dificuldade e sentem o peso da exclusão que a própria conotação negativa que o termo "pobre" carrega. Sarti (2007) ao falar do valor moral do trabalho[10] mostra como que o trabalho é condição da autonomia moral, uma afirmação positiva da pessoa, como também destaca que o valor moral atribuído ao trabalho compensa as desigualdades sofridas socialmente. Neste sentido, vivem esta sensibilidade a partir de uma reciprocidade: "[...] o mundo é traduzido pelos pobres em termos de uma relação permanente, em que se dá, se recebe e se retribui..." (SARTI, 2007, P. 111).
Reconhece, por sua vez, que esta sensibilidade não é fácil. primeiro, porque é uma tarefa árdua, uma vez que os pobres inseridos numa sociedade competitiva e individualista, introjetam esses valores e buscam dentro do possível, sair da condição em que se encontram. Em segundo lugar, não se deve esquecer da situação de precariedade e da constante dificuldade de sobrevivência, que faz com que cada um defenda individualmente as oportunidades que são aparecidas.
No entanto, pela própria experiência de vida, dos problemas enfrentados cotidianamente, se compadecem com a dor alheia, como também percebem o esforço de melhorar de vida. Este, por sua vez, diz respeito a um projeto familiar, amparado num vínculo de reciprocidades. Quando os pais não conseguem concretizar tal propósito, lançam suas expectativas nos filhos. Para isso, procuram na educação um meio de conquistas. Por outro lado, quando sobressai um propósito meramente particular, Sarti (2007), aponta um rompimento com as regras de reciprocidade, caracterizando o que ela chama de subir na vida:
[...] o projeto de ascensão, quando concebido nos termos individualistas da razão prática, faz romper as fronteiras do mundo dos pobres, não pelo ganho mais elevado, mas porque rompe a cadeia de obrigações entre os iguais, configurando não um projeto de melhorar de vida, mas um projeto de subir na vida (p. 94, grifo da autora).
Quando nos referimos à sensibilidade e à organização da pobreza, destacamos atributos de uma classe social que faz, muitas vezes, desses atributos, uma possibilidade de ajuda mútua, companheirismo e laços de amizade que se estendem além do parentesco, fortalecendo o que Sarti evidencia como confiança[11].
Leite (2005), em alguns dos seus trabalhos mostra como esta organização, nas classes atingidas pela pobreza, é ignorada ou despercebida, uma vez que o foco de percepção de pessoas não atingidas por tal pobreza só consegue enxergar a carência, a falta e o abandono. Por outro lado, mesmo com todas as adversidades do cotidiano, há manifestações de uma positividade que supera as dificuldades:
[...] mobilizaram-se e organizaram-se para fazer frente aos "intermediários" que lhes compravam, a baixos preços, plásticos, garrafas, papel, etc., revendendo-os a empresas de reciclagem. Nesse processo, constituíram uma cooperativa[12] [...] (LEITE, 2005, p.399).
Embora o assunto sobre a pobreza tenha sido abordado por estudiosos de diferentes campos de atuação (economistas, assistentes sociais, sociólogos, etc.), e os problemas que cercam a pobreza (os problemas decorrentes da pobreza e os problemas de ordem social que geram a pobreza), pouco se fala em soluções para o não agravamento da situação de pobreza, bem como, daquilo que aqui tratamos como positividade concreta da pobreza.
Segundo Stotz (2005), podemos perceber enquanto aspecto semelhante que:
[...] quando se fala de pobreza, sem uma definição adequada, que seja aceita pela maioria, não há também a possibilidade de um consenso em torno de quem deve ser considerado eventualmente beneficiário de uma política de combate à pobreza" (p. 54).
Apesar de reconhecer que a pobreza, entre outras coisas, é marcada pela falta, pela carência, pelo difícil acesso ao exercício da cidadania, a pobreza também possui outras referências. Tratar da positividade concreta é colocar em evidência que há entre os pobres uma sensibilidade com as condições de vida do próximo, suas angústias e seus sofrimentos diante das adversidades da vida, compreendendo que "[...] o dar e o receber, no universo simbólico dos pobres, envolvem a vida dos indivíduos em sua totalidade [...]" (SARTI, 2007, p. 139). É tratar das diferentes formas de organização que faz com que os pobres consigam, numa relação comunitária, lutar por seus direitos, por condições dignas de trabalho, de moradia e de sustento de suas famílias.
Segundo Sarti (2007), "[...] há solidariedade, um sentimento fundado num identidade de situação, que se manifesta fundamentalmente através do valor da reciprocidade [...]" (p. 136). Há de se perceber que, suscitando a positividade concreta, aqui proposta a partir da sensibilidade e organização, os pobres se fazem presentes com seus anseios, seus sonhos, tendo a possibilidade de pensar por si mesmo, a partir de sua realidade familiar e social, e não como um objeto de intervenção e pré-ocupação de quem os representava para ordená-lo e educá-lo. Como observava Telles (1993), "[...] a pobreza é encenada como algo externo, um mundo propriamente social, como algo que não diz respeito aos parâmetros que regem as relações sociais" (p.10).
A dificuldade encontrada é que o termo positividade concreta, pelo menos no que diz respeito a experiências ou formas de abordagem da pobreza que resgatam aspectos positivos da convivência dos pobres, é pouco difundido na literatura acerca desta temática. Quando autores abordam tal tema quase sempre os aspectos da positividade concreta ficam implícitos nas experiências registradas. Conferir, por exemplo, o estudo de Sarti (2007), Leite (2005) e Borsoi (2005). Veremos, a partir destes autores que, ao pobre é permitido pensar e elaborar seus projetos de melhorar de vida. Do mesmo modo, perceber que os pobres, a partir da sua realidade e de sua concepção moral, têm uma forma de representar a família e a vida social (relação com o outro-vizinhança, e com o trabalho). No caso de Borsoi (2005), lembramos que a ênfase é dada aos pobres e trabalhadores que vêem na fábrica uma possibilidade de concretizar um sonho fora dela. Como a própria autora evidencia
[...] assim, seguem nas fábricas na esperança de construírem o próprio caminho longe delas. Ninguém quer continuar operário, ninguém sequer se denomina assim. Sabem-se explorados, e embora muitos se sintam colaboradores da produção, lá onde dizem que estão "todos no mesmo barco", é o "trabalho mais liberto" que buscam, porque com isso imaginam conquistar também uma "vida menos presa" (BORSOI, 2005, p. 248).
Queremos, com essa reflexão, discutir como a pobreza foi representada e, por conseqüência, o tratamento recebido por tal representação e suas formas de exclusão, bem como, perceber que além das carências que a pobreza carrega, há algo que fica despercebido e que precisa ser mais valorizado na vida dos pobres.
ADORNO, Sérgio. A gestão filantrópica da pobreza urbana. São Paulo em Perspectiva. São Paulo, Fundação SEADE, v. 4, n. 2, 9-17, abr./jun./ 1990.
BORSOI, Izabel Cristina Ferreira. O sonho: "O trabalho mais liberto"; Considerações Finais. In: ____. O modo de vida dos novos operários: quando o purgatório se torna paraíso. Fortaleza: Ed. UFC, 2005. p. 234-48.
CASTEL, Robert. A insegurança social? O que é ser protegido. Petrópolis: RJ, Vozes, 2005.
JODELET, Denise. A alteridade como produto e processo psicossocial. In: ARRUDA, Angela (Org.). Representando a alteridade. 2. ed. Petrópolis:Vozes, 2002. p. 47-67.
LEITE, Izildo Corrêa. A Teoria das Representações Sociais e sua contribuição para análise dos dados primários. In: ______. Desconhecimento, piedade e distância: representações da miséria e dos miseráveis em segmentos sociais não atingidos pela pobreza. 2002. Tese (Doutorado em Sociologia) Faculdade de Ciências e Letras (Campus de Araraquara). Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho". Cap. 2, p. 123-38.
_____. Representando a miséria e os miseráveis: desconhecimento, piedade e distância. Idéias. Campinas (SP), IFCH/ Unicamp, v. 12, n.1, p. 357-410, 2. sem. 2005 b.
ROCHA, Sônia. Pobreza no Brasil: afinal de que se trata? 3. ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006.
SÁ, Celso Pereira de. A construção do objeto de pesquisa em representações sociais. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1998.
SARTI, Cynthia Andersen. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2007.
SOARES, Laura Tavares R. O desastre social. Rio de Janeiro. Ed. Record, 2003.
TELLES, Vera da Silva. Pobreza e cidadania: dilemas do Brasil contemporâneo. Caderno CRH. Salvador, n.19, 8-21, jul./dez. 1993.
VALLADARES, Lícia. Cem anos pensando a pobreza (urbana) no Brasil. In: BOSCHI, Renato R. (Org.). Corporativismo e desigualdade: a construção do espaço público no Brasil. Rio de Janeiro/São Paulo: IUPERJ/Vértice, 1991.
_____. A gênese da favela carioca: a produção anterior às ciências sociais. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 15, n. 44, p. 5-34, out./2000.
VÉRAS, Maura Pardini Bicudo. Por uma sociologia da alteridade: estranhos e estrangeiros em São Paulo. In: BERNARDO, Teresinha & TÓTORA, Silvana (Org.). Ciências Sociais na atualidade: percursos e desafios. São Paulo: Cortez, 2004.
[1] Artigo produzido a partir das discussões na disciplina "Cultura, Identidade e Cultura", ministrada pelo Prof. Dr. Izildo Corrêa Leite, do programa de pós-graduação em Política Social, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).
[2] Conferir Leite (2002, p.131-133). Sobre Moscovici e as diferentes expressões em referência às Representações Sociais, ver Leite (2002, p. 126).
[3] Segundo Adorno (1990), no que diz respeito à filantropia, "[...] tratava-se de materializar estratégias que conciliassem prevenção, contenção e assistência. Tais eram os propósitos da filantropia higiênica na sua cruzada civilizatória, em sua intenção de reconstruir os vínculos perdidos entre alguns indivíduos e a sociedade" (p. 9).
[4] Como observava Valladares (2002), "[...] as favelas eram visitadas esporadicamente, observadas de fora, na maioria das vezes com um olhar condenador. Seus moradores só apareciam em fotos, inexistindo como informantes nos textos que foram legados" (p. 18).
[5] "[...] o selo da diferença (cor, raça, deficiência) passa a ser utilizado, dentro de determinada cultura, como exótico ou daquilo que é fonte de mal-estar ou ameaça [...]" (VÉRAS, 2004, p. 156).
[6] É importante lembrar que para Rocha (2006) "[...] tomou-se como ponto de partida um critério de renda, especificamente de renda familiar, tendo em vista que a pobreza deve ser entendida no âmbito da família, unidade solidária do consumo e rendimento, e não a partir do valor da renda individual [...]" (p. 175).
[7] Contrapondo a idéia de Telles, poderíamos dizer que se trata não de uma "incapacidade" do Estado, mas de uma "desresponsabilização", uma vez que há possibilidades de estudo técnico e recursos materiais suficientes, por parte do Estado, para o enfrentamento da pobreza.
[8] "Assim como ocorrera em alguns países europeus, foi a questão sanitário-higienista que, propiciou no Brasil, o despertar para as precárias condições de vida de amplos segmentos da população vivendo nos centros urbanos impulsionados pela indústria [...] " (VALLADARES, 1991, p. 84).
[9] Segundo Valladares (1991), "[...] a expressão "classes perigosas" se referia basicamente àqueles fora do universo fabril; mais especificamente àqueles que eram criminosos, delinqüentes ou simplesmente vagabundos e desordeiros que viviam entre o cortiço e a rua, tentando impor a desordem" (p. 87). Podemos observar em relação às classes perigosas, a seguinte idéia de Castel (2005), "[...] o proletariado industrial desempenhou este papel no séc. XIX: classes trabalhadoras, classes perigosas. É que naquela época os proletários, mesmo trabalhando, na maioria das vezes, não estavam inscritos nas formas estáveis de emprego. Eles importavam à periferia das cidades industriais uma cultura rural descontextualizada, percebida pelos urbanos como uma incultura, viviam na precariedade permanente do trabalho e do habitat, condições pouco propícias para estabelecer relações familiares estáveis e desenvolver costumes respeitáveis [...]" (p. 56).
[10] Segundo Sarti (2007), "o valor moral do trabalho, com o benefício que dele decorre, não se inscreve, então, apenas dentro de uma lógica do cálculo econômico do mercado. Através do trabalho, os pobres constroem uma idéia de autonomia moral, atualizando valores masculinos como a disposição e a força (não só física, mas moral), que fazem do homem homem" (p. 95, grifo da autora).
[11] Observa Sarti (2007), que "[...] há entre os pobres da periferia, uma tendência a estreitar os laços de vizinhança, em detrimento dos parentes de sangue, exceto se esses também se concentrarem na localidade, compartilhando a vida cotidiana. O que define um vizinho possa ser mais que um parente é a confiança" (p. 116, grifo da autora).
[12] Referente ao documentário "Lugar de toda Pobreza". Para um melhor detalhamento deste documentário, consultar Leite (2005, p.357-430).