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A Participação dos Usuários nas Pré Conferências e na VII Conferência Municipal de Assistência Social em Londrina/PR em 2007
Márcia Pastor *
Silvia Maria Solci *
Maria Inez Barboza
Marques *
Rosangela
Eduardo Revoredo Benatti ** |
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* Docentes do Departamento de Serviço Social da
Universidade Estadual de Londrina ** Discentes do curso de Serviço Social da
Universidade Estadual de Londrina |
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RESUMO:
O presente artigo apresenta resultados parciais da
Pesquisa "A participação dos usuários na formulação e avaliação
da Política de Assistência Social em Londrina através dos Centros Regionais de
Assistência Social", desenvolvida pelo Departamento de Serviço Social da
Universidade Estadual de Londrina. Discute a participação dos usuários nas
pré-conferências municipais de Assistência Social de
Londrina; bem como o processo eleitoral dos representantes dos usuários durante a VII Conferência Municipal de
Assistência Social, realizada em 2007. PALAVRAS
CHAVE:
Política de assistência social; gestão democrática;
participação popular; conselhos; conferências. ABSTRACT: The present article shows the partial results of the
Social Work policy evaluation formulation users' participation in Londrina,
through the Social Work Regional Centers', developed buy the Social Work School
of the State University of Londrina. It discusses the participation of the
users in the municipal pre-conferences in KEY WORDS: Social work policy; democratic management; popular participation; councils; conferences Introdução No final dos anos oitenta, com a
mobilização social em torno do fim do regime militar e da elaboração da nova
Carta Constitucional, vemos ser consignado o anseio por uma forma de gestão
pautada na descentralização das políticas sociais. A assistência social teve
sua legislação complementar aprovada em 1993 através da Lei nº 8.742, que ficou
conhecida como Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS). Uma das modalidades de participação
indicadas pela LOAS foi a constituição dos Conselhos de Assistência Social nas
esferas federal, estadual e municipal, que deveriam ser compostos pelo poder
público, pelas instituições prestadoras de serviços assistenciais e pelos
representantes dos usuários e da sociedade civil. Outra forma de participação
proposta foi a realização periódica de conferências, cuja organização ficaria a
cargo dos Conselhos e dos órgãos gestores, também nos três níveis de governo. Em 2004 houve a promulgação da
Política Nacional de Assistência Social, que ratificou a necessidade da relação
democrática entre Estado e sociedade civil, especialmente através da inserção
do controle social e da participação cidadão/usuário como alguns de seus eixos
estruturantes. O município de Londrina, localizado
na região norte do Estado do Paraná, destaca-se pelo seu pioneirismo na execução
da política pública de assistência social. A implantação de espaços
participativos data da década de 90 do século XX: Londrina teve o primeiro
Conselho Municipal de Assistência Social (CMAS) do Paraná, criado em 1995. Os avanços e desafios registrados na
trajetória desta política nos anos mais recentes motivaram a proposição da
pesquisa "A participação dos usuários na formulação e avaliação da política de
assistência social em Londrina através dos Centros Regionais de Assistência
Social CRAS". Iniciada em 2006 e desenvolvida por uma equipe de discentes e
docentes do Departamento de Serviço Social da Universidade Estadual de
Londrina, esta pesquisa teve a oportunidade de acompanhar as pré-conferências e
a Conferência Municipal em 2007, bem como o processo eleitoral para o sétimo
mandato do Conselho Municipal (Gestão 2007-2009). No ano de Neste trabalho iremos apresentar,
sucintamente, alguns resultados correspondentes à participação dos
usuários nas pré-conferências municipais de Assistência Social de Londrina; ao
processo eleitoral dos
representantes dos usuários e os dados iniciais sobre o primeiro semestre de
atuação do Conselho Municipal de Assistência Social (2007). Quanto aos procedimentos
metodológicos adotados, a pesquisa acima mencionada vem procedendo a revisão
bibliográfica sobre política de assistência social, gestão democrática,
participação e cidadania. Concomitantemente, tem coletado dados em documentos como: planos
municipais de assistência social, relatórios, normatizações emanadas das
instâncias gestoras municipal e federal, etc. Realizou também observação direta
nas pré-conferências e na 7ª Conferência Municipal de Assistência Social, além
de acompanhamento às reuniões do CMAS, durante o segundo semestre de 2007. As
reuniões da equipe de pesquisa vêm discutindo as informações coletadas à luz do
referencial teórico, visando aprimorar o estudo a respeito do processo de
gestão democrática da política de assistência social municipal, tentando
identificar se as práticas implementadas sinalizam para uma participação mais
qualificada da população destinatária desta política. A Política de Assistência Social e a
construção de espaços de participação No final do século XX a sociedade
brasileira vivenciou a luta pela democratização depois de duas décadas de
autoritarismo e de espoliação. A associação das reivindicações por democracia e
por cidadania já apontava para a interdependência entre essas duas categorias,
expressando a necessidade de se adotar medidas que amenizassem as crescentes
desigualdades sociais. Foi somente a partir da Constituição
Federal de 1988 que a Assistência Social passou a compor o tripé da Seguridade
Social, conferindo-lhe o caráter de política de proteção social articulada as
demais políticas sociais. Com a publicação da Lei Orgânica da
Assistência Social (Lei nº. 8.742, de 07/12/1993 - LOAS), pudemos
testemunhar os esforços para a construção da assistência social enquanto
política pública, de responsabilidade do Estado e como direito de cidadania. A
exigência de novos instrumentos, tais como Planos, Conferências, Conselhos e
Fundos de Assistência Social nas três esferas governamentais já indicavam a
implantação de uma gestão compartilhada com a sociedade, pautada nos marcos da
democratização. Dentre os instrumentos propostos
pelo sistema descentralizado e participativo da Assistência Social encontram-se
os conselhos. De acordo com Raichelis (1998), os conselhos são concebidos como
instância deliberativa e compostos paritariamente entre governo e sociedade
civil. São espaços por natureza democráticos, cuja ação deve pautar-se pela
publicização de forma a dar visibilidade aos interesses coletivos (por vezes,
contraditórios) e viabilizar a construção de consensos. Por isso, constituem-se
em espaços de estímulo ao debate público e de consolidação dos mecanismos de
publicização, pois "[...] significam uma experiência em gestão no que se
refere ao desenho de uma nova institucionalidade nas práticas sociais de
distintos atores da sociedade civil e do Estado" (RAICHELIS, 1998, p. 34). É preciso mencionar que a
democratização da gestão ganhou novo impulso com a IV Conferência Nacional de
Assistência Social realizada em dezembro de 2003, em Brasília/DF, que debateu a
Política Nacional de Assistência Social (que viria a ser aprovada em
setembro/2004) e deliberou
sobre a construção do Sistema Único de Assistência Social (promulgado em
julho/2005). A
Política Nacional de Assistência Social aponta como um dos grandes desafios "a
criação de mecanismos que garantam a participação de usuários nos Conselhos e
Fóruns enquanto sujeitos e não mais como sub-representados" (PNAS, 2004, p.
59). Em decorrência da Política Nacional
de Assistência Social PNAS, em 2005 foi aprovado o Sistema Único de Assistência
Social - SUAS, que constitui-se em um modelo de gestão descentralizada e
participativa de ações socioassistenciais, priorizando a família e seus membros
em serviços, programas e projetos (CRESS, 2007, p. 594). A partir do SUAS, os serviços
socioassistenciais são organizados tendo como base as referências: vigilância
social, proteção social e defesa social e institucional. A primeira refere-se a
pessoas em risco ou vulnerabilidade pessoal, ou seja, redução de capacidade
pessoal com deficiência ou em abandono (CRESS, 2007, p. 595). A "[...] proteção
básica e especial deve garantir as seguintes seguranças: sobrevivência,
convívio e acolhida" (SOUZA, 2004, P.76). A terceira referência garante aos
usuários o acesso aos seus direitos: atendimento digno, atencioso e respeitoso;
direito à informação, a um serviço de qualidade, à convivência familiar, dentre
outros (CRESS, 2007, p.596). Os eixos estruturantes do SUAS são:
Dando continuidade ao processo
participativo no âmbito da política de assistência social, em 2007 o Ministério
do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, juntamente com o Conselho Nacional
de Assistência Social, elaborou um documento intitulado "Orientações Gerais para
o processo de Realização das Conferências Municipais de Assistência Social As Conferências Municipais,
Estaduais, do Distrito Federal e Nacional de Assistência Social, realizadas em
2005, deliberaram sobre as estratégias e metas necessárias à implantação do
SUAS em 10 (dez) anos. (...) o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS),
após convocação da VI Conferência Nacional de Assistência Social, apresenta
orientações para o processo de organização das Conferências Municipais de
Assistência Social. (...) As conferências municipais serão realizadas até 31 de
julho de 2007. Cabe ressaltar que as conferências regionais não substituem as
conferências municipais. Através da Orientação mencionada,
foi possível constatar que a V Conferência Nacional de Assistência Social,
realizada em 2005, apresentou o resultado da pesquisa: "Fotografia da
Assistência Social no Brasil na perspectiva do SUAS": Direitos dos Usuários dos
Serviços Socioassistenciais, tendo como referência as seguranças, contidas na
PNAS/2004: Segurança de Acolhida; Segurança Social de Renda; Segurança do
Convívio ou Vivência Familiar, Comunitária e Social; Segurança do
Desenvolvimento da Autonomia Individual, Familiar e Social; Segurança de Sobrevivência
a Riscos Circunstanciais. Assim, o item c, do anexo II do documento,
relacionado aos Direitos dos Usuários dos Serviços Socioassistenciais citados
acima, prevê: c) direito do usuário dos serviços
socioassistenciais em ter reconhecido e exercido seu direito como cidadão: ter
reconhecimento de seus direitos e responsabilidades; ter reconhecida a
importância da sua intervenção na vida pública e no acesso a oportunidades para
o exercício protagonismo e da cidadania; ter possibilidade de avaliar o serviço
recebido, contando com espaço de escuta para expressar sua opinião; ter acesso
ao registro dos seus dados se assim o desejar; receber informações sobre como e
onde manifestar seus direitos e requisições sobre o atendimento
socioassistencial; ter acesso à
participação em fóruns, conselhos, movimentos sociais e organizações
comunitárias; ter reconhecimento da importância de sua intervenção na vida
pública, de seus direitos e responsabilidades; ter reconhecidos seus direitos e
responsabilidades, a importância da intervenção na vida pública e do acesso a
oportunidades para o exercício do protagonismo e da cidadania. (ANEXO II
grifo nosso) A Política de
Assistência Social em Londrina A Secretaria Municipal de Ação
Social de Londrina foi instituída em janeiro de 1993 (ou seja, onze meses antes
da promulgação da Lei Orgânica da Assistência Social). Em conformidade com a
LOAS, Londrina foi a primeira cidade do Estado do Paraná a implantar o Conselho
Municipal de Assistência Social, através da Lei Municipal nº 6.007, de dezembro
de 1994, que instituiu também o Fundo Municipal e a Conferência Municipal de
Assistência Social. Em abril/1995 foi realizada 1ª
Conferência Municipal de Assistência Social. Mais de 500 participantes que
elegeram o primeiro CMAS de Londrina, composto por vinte e seis membros (treze
representantes da sociedade civil e treze do poder público). A II Conferência Municipal de
Assistência Social ocorreu em 1997, no início de uma nova administração na qual
o Conselho não obteve dos poderes executivo e legislativo municipal a autonomia
e o respeito necessários ao desempenho de suas funções, o que pôde ser
comprovado inclusive com a redução do financiamento destinado à assistência
social (PASTOR, 2006). Ainda assim, o CMAS conseguiu
indicar na III Conferência Municipal (1999) a implantação de um programa de
renda familiar mínima, o que só se efetivou em anos posteriores. O movimento dinâmico que marca o
processo de gestão refletiu-se na IV Conferência Municipal realizada em 2001,
quando a assistência social voltou a ter centralidade no âmbito municipal.
Houve não só o reconhecimento dos canais institucionais de participação social
como também o CMAS alcançou um patamar de autonomia sem precedentes (PASTOR,
2006). Cabe registrar, entretanto, que
ainda permaneciam algumas pendências na efetivação desta política publica, dentre
as quais constavam a ampliação da participação direta dos usuários da
Assistência Social no respectivo Conselho e em outras instâncias deliberativas
e o estabelecimento de um percentual orçamentário que garantisse a provisão de
recursos para a execução desta política pública, com vistas a superar o risco
da descontinuidade das ações desenvolvidas. Por isso, um eixo essencial para a
objetivação da democratização na Política de Assistência Social é a ampliação e
o fortalecimento dos espaços que viabilizem a participação social. Visando aprofundar tais espaços,
merece destaque a V Conferência Municipal de Assistência Social, realizada nos
dias 03 e 04/10/2003 na qual estiveram presentes mais de 800 participantes.
Esta foi precedida por dez pré-conferências regionais promovidas pelos CRASs
(já instituídos e em funcionamento), que contaram com grande participação dos
usuários, além da realização de mais cinco pré-conferências por segmentos, que
ao todo envolveram aproximadamente 1.200 pessoas durante os meses de agosto e
setembro/2003. Em 2005, vinte e oito
pré-conferências foram realizadas, envolvendo mais de mil e duzentas pessoas
que discutiram, em suas comunidades, a política municipal de Assistência
Social, e que foram incentivadas a participar da VI Conferência. Apesar de se
observar nesta Conferência uma maior participação de usuários da assistência
social, um dos desafios indicados foi a necessidade da ampliação da
participação destes mesmos usuários, inclusive em condições de deliberar
juntamente com os demais participantes. No ano de 2007 um grande avanço pode
ser constatado com a realização de cinqüenta e uma Pré-Conferências Municipais
de Assistência Social, organizadas pelos doze Centros de Referência de
Assistência Social CRAS, localizados em diversos bairros e distritos rurais
de Londrina. Durante os meses de maio e junho/2007, 3.240 cidadãos participaram
destas pré-conferências. Tais números podem ser visualizados
na tabela abaixo: Tabela nº 1: Evolução
do número de participantes nas pré-conferências de assistência social em
Londrina no período 2003-2007
O processo de organização das pré-conferências da
Assistência Social no município de Londrina e a participação dos usuários A Política Nacional de Assistência
Social aponta como um dos grandes desafios "a criação de mecanismos que
garantam a participação de usuários nos Conselhos e Fóruns enquanto sujeitos e
não mais como sub-representados" (PNAS, 2004, p. 59). Sendo assim, em Londrina, a Lei nº
6.007, de 23 de dezembro de 1994 que previa a criação do Conselho Municipal da
Assistência Social e a Conferência Municipal, foi alterada através da Lei
10.211 de 27 de Abril de 2007. As alterações realizadas foram significativas,
pois contemplaram as diretrizes da Política Nacional na perspectiva do Sistema
Único de Assistência Social SUAS. Entre as mudanças, é possível destacar a
previsão da realização das pré-conferências e da participação de usuários no
Conselho Municipal de Assistência Social. O Artigo 6º passou a vigorar da
seguinte forma: Art.
6º O artigo 6º, da
Lei nº 6.007, de 23 de dezembro de 1994, passa a vigorar com a seguinte
redação: "Art. 6º Os delegados da Conferência Municipal de Assistência Social, usuários e representantes da sociedade
civil organizada, serão eleitos nas pré-conferências regionais e nas reuniões
próprias das instituições convocadas para este fim específico, sob a orientação
do Conselho Municipal de Assistência Social, anteriores à realização da
Conferência, garantida a participação de, no mínimo, um representante delegado
de cada instituição/organização com direito à voz e voto". (Lei 10.211 de 27 de
abril de 2007 - grifo nosso). A partir de então, o Conselho
Municipal da Assistência Social, composto por vinte e oito membros, de acordo
com o Art. 7º, passou a contar com a seguinte organização: I-Quatorze
representantes da sociedade civil, eleitos na Conferência Municipal de
Assistência Social, oriundos dos seguintes segmentos:
a.
seis
representantes dos serviços não governamentais sócio-assistenciais em
funcionamento no Município, sempre primando pela territorialidade e pela
diversidade, sendo: a.1)
quatro representantes dos serviços não governamentais sócio-assistenciais de
proteção social básica, e a.2)
dois representantes dos serviços não governamentais sócio-assistenciais de
proteção social especial.
b.
cinco representantes dos usuários da
assistência social;
c.
dois
representantes das organizações profissionais afetas à área; e d. um representante das organizações e/ou movimentos da sociedade civil organizada, sem fins lucrativos e sem predefinição específica.
II -Quatorze representantes do
Poder Executivo Municipal, dos quais, no mínimo seis da Secretaria Municipal de
Assistência Social. (Lei
10.211, de 27 de abril de 2007, grifo nosso). A partir desse marco legal e de toda
a mobilização histórica que foi se processando com a perspectiva de uma gestão
democrática e participativa, em 27 de abril de 2007, o Conselho Municipal da
Assistência Social publicou o Edital de Convocação nº 001/2007
CMAS/Londrina/PR indicando a realização da VII Conferência Municipal da
Assistência Social para os dias 29 e 30 de junho do mesmo ano. Com relação à participação de
usuários no Conselho Municipal da Assistência Social, a redação do Edital foi
publicada da seguinte forma: "Os representantes dos usuários da Assistência
Social indicarão seus delegados nas Pré-Conferências a serem realizadas nas
regiões do município de Londrina. Cada Pré-Conferência indicará 01 (um)
delegado titular e 01 (um) delegado suplente". Pastor, Lustri e Andrean (2007),
esclarecem que "[...] um eixo essencial para a objetivação da democratização na
Política de Assistência Social é a ampliação e o fortalecimento dos espaços que
viabilizem a participação social". É importante destacar que o Conselho
Municipal da Assistência Social de Londrina, em parceria com a Secretaria
Municipal de Assistência Social, a Prefeitura Municipal de Londrina e o
PROVOPAR/Londrina, publicou uma cartilha com o título "Proteção Social" que foi
distribuída em todas as pré-conferências. Utilizando uma linguagem simplificada,
o material contribuiu para compreensão por parte dos usuários sobre alguns
conceitos, tais como: proteção social, assistência social, conferência
municipal, SUAS e outros. Como exemplo, é possível mencionar o conceito de
pré-conferência publicado: Pré-conferencia é uma reunião onde
as pessoas das comunidades participam para pensar e falar sobre as necessidades
da sua região e o que é preciso fazer para que elas sejam atendidas. É também
um momento de falar o que já foi feito para melhorar ainda mais essas
comunidades. Ela acontece antes de uma reunião maior que vai fazer essa
discussão para o município inteiro, que é a Conferência Municipal da
Assistência Social (CMAS, 2007). Com base em Martins et al (2007)
cabe esclarecer que em Londrina existem doze Centros de Regionais de
Assistência Social CRAS, "que organizam a rede socioassistencial,
georeferenciando as famílias que são usuárias da Política de Assistência
Social". Através desses Centros Regionais de Assistência Social, foram
realizadas 51 pré-conferências que culminaram na VII Conferência Municipal da
Assistência Social. "As pré-conferências foram
realizadas em todas as seis regiões do município: norte, sul, leste, oeste,
centro e rural, respeitando os territórios locais de cada área de abrangência
dos CRAS, para que todos os usuários tivessem acesso e garantia do direito de
participação". (Martins et al, 2007) Em todas as seis regiões a
participação nas pré-conferências foi bastante significativa, conforme
ilustrado na tabela abaixo: Tabela nº 2 Número total de participantes nas pré-conferências por
região
A mesma fonte divulga que, desse
total de 3.240, foram eleitos 51 delegados titulares e 51 suplentes. Além
desses, por interesse próprio, inscreveram-se mais 306 usuários que também
desejavam participar da VII Conferência Municipal da Assistência Social. Se nas
Conferências anteriores, os usuários somente podiam ser "sub-representados", a
partir de então, passam a eleger 51 delegados titulares e 51 suplentes. A equipe da pesquisa "A participação
dos usuários na formulação e avaliação da política de assistência social em
Londrina através dos Centros Regionais de Assistência Social", composta por
discentes e docentes do curso de Serviço Social/UEL, acompanhou a realização de
25 pré-conferências, o que significa 50% do número total das pré-conferências
relacionadas à proteção básica, visto que uma das pré-conferências foi
realizada junto à rede de proteção especial. A partir das observações "in loco"
e dos registros elaborados, esta equipe vem sistematizando informações a
respeito da participação dos usuários, algumas quais apresentamos a seguir. No que se refere à metodologia
utilizada, cabe também destacar que a equipe elaborou um roteiro básico para
observações nas pré-conferências, com cinco itens: 1 - identificação
(território, local e data); 2 - participantes, (coordenadores, representantes
de entidades/movimentos, número de usuários), 3 - desenvolvimento (conteúdo
abordado e a dinâmica utilizada); 4 - participação dos usuários (espontaneidade
nas expressões, criticidade, participação no grupo, escolha dos delegados); 5 -
Outras informações (Linguagem utilizada, local apropriado, infra-estrutura). Através das informações coletadas foi possível
constatar a representação total de trinta e duas entidades, considerando as
governamentais, não governamentais e não definidas pela equipe. O gráfico
abaixo demonstra a participação significativa de 50% por parte das entidades
não governamentais nas 25 pré-conferencias em que docentes e discentes
estiveram presentes. Gráfico nº 1 - Número de entidades
governamentais, não governamentais e não definidas:
Das 32 entidades representadas nas
25 pré-conferências acompanhadas, a equipe anotou que compareceram dez
entidades da rede proteção social básica, cinco da proteção social especial,
seis da área da educação, três entidades com vínculo religioso, cinco ligadas a
movimentos sociais e associações, uma ligada à saúde e uma visitante (de outro
município), além das três entidades não identificadas. Gráfico nº 2 - Entidades presentes
nas pré-conferências
Com relação à participação
específica dos usuários da Assistência Social, a equipe analisou anotações
realizadas em cada relatório das pré-conferências onde se fez representar e
levantou informações que demonstram alguns pontos positivos e negativos que
podem contribuir como apontamentos para processos posteriores. Os seguintes
pontos foram considerados positivos:
·
[...]
Embora poucos se expressassem, a maioria estava atenta;
·
[...]
A coordenadora do grupo estimulava respostas;
·
[...]
Várias pessoas demonstraram experiência de participação;
·
[...]
Ocorreu um bom nível de debate, através da participação espontânea;
·
[...]
Foi possível perceber que a população está mais esclarecida quanto aos seus
direitos;
·
[...]
Os poucos que participaram, o fizeram efetivamente;
·
[...]
Poucos usuários participaram ativamente, porém demonstraram-se bastante
críticos, discutindo e questionando. Quanto aos pontos negativos, é
possível considerar que vários se relacionam a questões como inadequação do
espaço físico, falta de equipamento de som e metodologia utilizada pela equipe
organizadora:
·
[...]
A reunião em plenária, sem divisão de grupos dificultou a participação
espontânea;
·
[...]
Em alguns locais a acústica estava muito ruim e isso prejudicava a
participação;
·
[...]
Em alguns momentos, a linguagem técnica dificultou a compreensão;
·
[...]
Algumas pessoas apresentaram dificuldades ao se expressarem;
·
[...]
Após esforço por parte da coordenadora do grupo, responderam as questões;
·
[...]
Alguns argumentaram que a realização da pré-conferência de nada adiantaria,
pois a situação "deles" mudava muito pouco;
·
[...]
Pareciam ter medo;
·
[...]
As mulheres estavam preocupadas com o horário pela necessidade de preparar o
almoço;
·
[...]
Haviam usuários exaltados, realizando reivindicações pertinentes ao Conselho
Tutelar e ao transporte para os moradores dos sítios. Ao analisar frases como: "Alguns
argumentaram que a realização da pré-conferência de nada adiantaria, pois a
situação "deles" mudava muito pouco e [...] Pareciam ter medo", fica evidente a
importância desse primeiro exercício de participação efetiva com direito a voz
e voto em um processo que visa capacitar para o controle social os próprios usuários
da política de Assistência Social. É pertinente destacar ainda que
durante as discussões, os usuários se referiram a problemas relacionados a
outras políticas, conforme anotação realizada pela equipe: "As reivindicações
saíram do foco da assistência social para áreas como saúde, educação e
segurança e outros". Tais questões merecem destaque, pois
além das discussões específicas da área da Assistência Social sobre os direitos
já conquistados, os desafios e as ações prioritárias para o biênio 2007-2009,
também foram levantadas necessidades relacionadas a outras políticas sociais.
Ainda foi reivindicado, em CRAS da zona rural, maior oportunidade de
participação em diferentes reuniões nos Conselhos Distritais. Isso nos leva a
considerar que tais pré-conferências constituíram-se também em formas de
expressão de outras demandas vivenciadas pelos usuários da Assistência Social. Das pré-conferências à VII Conferência Municipal de Assistência Social:
um caminho O processo de realização das 51
pré-conferências de assistência social de Londrina culminou com a indicação de
51 delegados titulares e 51 suplentes para participarem da mesma. Além dessa
participação com direito a voz e voto -, tais delegados poderiam se
candidatar a cinco vagas no Conselho Municipal de Assistência Social - CMAS
(Gestão 2007-2009), representando o segmento dos usuários, conforme
regulamentação específica aprovada naquele mesmo ano (Lei nº. 10.211, de 27 de
abril de 2007). O caráter inédito desta iniciativa e
o aprendizado proporcionado pelas pré-conferências levaram à proposição de
reuniões com os referidos delegados e suplentes para esclarecimento sobre a
dinâmica da Conferência Municipal e quanto ao papel do CMAS. Na segunda quinzena do mês de
junho/2007, foram realizadas três reuniões preparatórias com os delegados e
suplentes eleitos nas pré-conferências. A primeira delas ocorreu na região
central da cidade e contou com 26 participantes. Em outra reunião, realizada no
âmbito de abrangência do CRAS SUL B, estiveram presentes 26 pessoas, incluindo,
além de delegados e suplentes, outros observadores oriundos nas
pré-conferências da região. O CRAS NORTE A sediou o terceiro encontro, que
contou com a participação de 16 delegados e suplentes. O conteúdo abordado nestas reuniões
preparatórias versou sobre os objetivos e a dinâmica da Conferência Municipal;
o papel, a composição e as funções do Conselho Municipal de Assistência Social
e, especialmente, como seria o processo de eleição dos membros da sociedade
civil para o referido conselho. Ao tomarem conhecimento mais
detalhado sobre o processo eleitoral, os delegados e suplentes advindos das 51
pré-conferências entenderam melhor que todos eles poderiam se candidatar para o
Conselho, mas que somente 5 titulares e 5 suplentes seriam eleitos. Em todas as
reuniões, este foi o ponto mais debatido. Questionou-se porque somente cinco e
não seis vagas para conselheiros/usuários, já que existem seis regiões na
cidade (norte, sul, leste, oeste, centro e rural). Além disso, a representação
por região poderia ser ainda mais comprometida, uma vez que poderia haver mais
de um conselheiro eleito por região. Em duas das reuniões preparatórias,
os próprios usuários sugeriram que todos os delegados (de todas as regiões) se
encontrassem pouco antes do início da VII Conferência Municipal, para discutir
entre eles o registro de candidatura ao Conselho. Já na reunião da zona norte da
cidade, os participantes fizeram um encaminhamento diferente visando garantir a
representatividade da região: ficou decidido que somente um delegado da região
norte se candidataria a conselheiro. Outro ponto polêmico sobre o
processo eleitoral também foi levantado: cada delegado, independente do
segmento representado, votaria em 14 candidatos da sociedade civil para compor
o próximo CMAS. Isso gerou apreensão, uma vez que a
maioria das pessoas candidatas seriam desconhecidas dos usuários bem como
eles próprios, usuários, também seriam desconhecidos dos demais delegados.
Foi apontado ainda, o receio em anular o
voto, devido ao tamanho da cédula e ao número diferenciado de vagas por segmento. Os usuários presentes nestas três
reuniões preparatórias concluíram que seria "difícil escolher a pessoa certa
porque não conheceram com antecedência os candidatos"; porém, mesmo com tais
limitações, os participantes avaliaram como de grande importância sua
participação tanto na VII Conferencia quanto no CMAS. Cabe ainda mencionar o seguinte
comentário realizado por uma usuária em uma das reuniões acima referidas: "Moro
em Londrina há 36 anos e somente agora estamos tendo oportunidade de
participar". Deve-se considerar, que a
implementação de espaços que favoreçam a participação popular constituem-se
ainda em uma forma privilegiada de aprendizado, "aprendizado este que pode
inclusive ser rejeitado por atores que, por jamais terem praticado a
negociação, não teriam porque acreditar nela" (AVRITZER, 1996, p. 113). Com o tema: "Compromissos e
responsabilidades para assegurar a proteção social pelo Sistema Único de
Assistência Social SUAS", realizou-se nos dias 29 e 30 de junho de Dos 51 delegados/usuários eleitos
nas pré-conferências 47 fizeram-se presentes na VII Conferência; destes 17 se
candidataram às 10 vagas no CMAS. A seguir iremos apresentar os eleitos,
indicando suas respectivas regiões e sua condição no Conselho
(titular/suplente): Tabela
nº 3: Relação dos usuários eleitos para o CMAS Londrina gestão 2007/2009
Os conselheiros da sociedade civil
eleitos na VII Conferência e os conselheiros representantes do setor
governamental tomaram posse no dia 13 de julho de 2007. Como as reuniões do
CMAS tem periodicidade quinzenal, foram realizadas onze reuniões durante o
segundo semestre de 2007. Um dos dados observados nesta
pesquisa foi a frequência dos conselheiros nas reuniões. Comparamos a
frequência dos conselheiros representantes dos usuários, em relação aos demais
conselheiros da sociedade civil, conforme demonstrado no gráfico abaixo: Gráfico nº 3
Frequência dos segmentos da sociedade civil nas reuniões do CMAS no período de
julho a dezembro/2007.
Um dado surpreendente revelado foi o
baixo percentual de participação dos conselheiros representantes dos usuários
(43,64%). Enquanto os demais segmentos tiveram uma média de 85,80% de
assiduidade, os cinco conselheiros/usuários - mesmo com a substituição dos
titulares pelos respectivos suplentes não conseguiram atingir nem metade
deste índice. Sem dúvida, as explicações para esta
situação merecem ser investigadas detalhadamente, visto que os esforços para a
consolidação da participação dos usuários na gestão da política de assistência
social em Londrina devem continuar sendo executados. Esta será, sem dúvida, a
próxima etapa a ser desenvolvida nesta pesquisa. O desafio é fazer com que isso seja
um processo contínuo. Ter esta compreensão sobre o
processo histórico é essencial para balizar os avanços alcançados, ainda que
limitados pelos marcos estruturais da ordem capitalista. Considerações Finais As sistematizações iniciais
apresentadas neste estudo demonstraram que a política de Assistência Social em
Londrina vem ampliando progressivamente os espaços de participação da sociedade
civil. Isso pôde ser verificado através das pré-conferências realizadas em 2007
e da viabilização do acesso dos usuários dos serviços sócio-assistenciais ao
principal conduto de proposição e deliberação sobre a política de assistência
social no âmbito municipal, o Conselho Municipal de Assistência Social. Tais experiências vêm se traduzindo
em fonte de constante aprendizado, que certamente ainda produzirá resultados
significativos tanto para a academia como para a própria sociedade. Bibliografia AVRITZER,
L. A moralidade da democracia: ensaios em teoria habermasiana e teoria
democrática. São Paulo: Perspectiva, 1996. CONSELHO MUNICIPAL DA ASSISTENCIA
SOCIAL DE LONDRINA. Edital
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Introduz alterações na Lei nº 6.007, de 23 de dezembro de 1994, que dispõe
sobre a criação do Conselho Municipal da Assistência Social, e dá outras
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social: um estudo a partir das pré-conferências municipais de Assistência
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construção democrática. São Paulo: Cortez, 1998. SOUZA,
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2005. Dissertação (Mestrado I | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||