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Moradores da Poligonal Primavera: Implicações de uma ocupação irregular
Patricia Palmeira Gonçalves *
Sandra Maria Almeida Cordeiro ** |
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* Graduada ** Mestre |
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RESUMO: O presente artigo Tem por objetivo apresentar as implicações de uma ocupação irregular, em área de Fundo de Vale, situada na região Norte de Londrina, denominada Poligonal Primavera. Alvo de atuação do Programa Habitar Brasil BID. O principal eixo de análise é a exclusão social. O trabalho retrata a exclusão urbana, as formas de enfrentamento do Estado, define brevemente o Programa Habitar Brasil e através da história de vida de um morador, apresenta as implicações da moradia irregular. A história de vida nos dá elementos para compreender o processo de exclusão a que os moradores estão submetidos que tem como resultado a degradação ambiental e a baixa qualidade de vida dos moradores como principais expressões desse processo. PALAVRAS CHAVE: Exclusão social, exclusão urbana, degradação ambiental. ABSTRACT: The present work aims to present the
implications of an irregular occupation in the Fundo do Vale area, located in KEY WORDS: Social exclusion; urban exclusion; environmental degradation. Introdução Segundo dados do censo demográfico realizado em
2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE), e recontado a
pedido do Ministério das Cidades, no Brasil 78% da população mora em centros
urbanos. A intensa urbanização e a crescente pauperização, resulta no
surgimento da questão urbana. Diante disso é necessário pensar no processo de exclusão social e na
urbanização para compreender a exclusão urbana a que grande parte da população
é submetida, não tendo acesso à moradia digna. A exclusão social é um fenômeno que atinge grande parte da população
brasileira. Além da exclusão econômica, essa população é excluída na dimensão
política, social e cultural. Segundo Sposati: Este processo deve ser
entendido como exclusão, isto é, uma
impossibilidade de poder partilhar, o que leva à vivência da privação, da
recusa, do abandono e da expulsão, inclusive com violência, de um conjunto
significativo da população daí ser esta uma exclusão social e não pessoal.
Não se trata de um processo individual, embora atinja pessoas, mas de uma
lógica que está presente nas várias formas de relações econômicas, sociais,
culturais e políticas da sociedade brasileira. Essa situação de privação
coletiva é que se está entendendo por exclusão social. Ela inclui pobreza,
discriminação, subalternidade, não eqüidade, não acessibilidade, não
representação pública. (SPOSATI APUD WANDERLEY, 1997, p.
78). Segundo Dupas (2000),
as recentes transformações socioeconômicas, ao gerarem uma massa de pessoas
supérfluas para o sistema, redirecionam as discussões sobre os problemas
sociais decorrentes. Segundo ele a preocupação, anteriormente, era com as condições
de exploração nas quais a inserção se dava, e atualmente se transformou na
dificuldade de encontrar formas de inserção quaisquer que sejam elas. A esse mesmo respeito
afirma Pereira (2005), que a exclusão era uma categoria inexistente na época da
questão social original, em que mesmo o trabalhador pior qualificado e mais
desprotegido socialmente era indispensável ao sistema. Ele afirma que o novo
dessa situação é a redundância, para o processo produtivo, de consideráveis
parcelas da população do planeta, e a impossibilidade de tratá-las pelos
antigos métodos de gestão social próprios do Estado Social, ora em
reestruturação. Para Nascimento (2000),
ao longo da história recente do Brasil, a década de 1980, caracterizada do
ponto de vista político, pela superação da ditadura militar, foi socialmente
marcada não pela redução da desigualdade mas pela inversão do processo de
diminuição do número de pobres, tornando estáveis as áreas consideradas como
bolsões de pobreza. Segundo Véras (1999), a
exclusão social vem apresentando novos contornos no contexto contemporâneo, no
qual favelas loteamentos clandestinos, entre outras habitações populares
subnormais, como os assentamentos urbanos, aparecem como testemunhas dessa
dinâmica excludente o que pode gerar as mobilizações intra-urbanas. Dores ( 2005) diz que a
disparidade social é apresentada sob diferentes aspectos: pobreza como fonte de
exclusão; área metropolitana- local de perspectiva de vida, ou seja, um
ambiente propício para arrumar emprego e ter uma vida melhor, mas ao chegarem
nesse ambiente, os migrantes deparam-se com as realidades e dificuldades que
terão de enfrentar, as quais, na maioria dos casos, levam a degradação social
de suas famílias, que buscam outras alternativas de sobrevivência, e assim se
incorporam ao bloco da exclusão. A partir disso pode-se
perceber que a exclusão social e a exclusão urbana são fenômenos ligados e que
interferem entre si. Rolnik retrata essa
questão, no trecho a seguir: Essa situação de exclusão é
muito mais do que a expressão da desigualdade de renda e das desigualdades
sociais: é agente de reprodução dessa desigualdade. Em uma cidade dividida
entre a porção legal, rica e com infra-estrutura e a ilegal, pobre e precária,
a população que está em situação desfavorável acaba tendo muito pouco acesso a
oportunidades de trabalho, cultura e lazer. Simetricamente, as oportunidades de
crescimento circulam nos meios daqueles que já vivem melhor, pois a
sobreposição das diversas dimensões da exclusão incidindo sobre a mesma população
fazem com que a permeabilidade entre as duas partes seja muito pequena.(Rolnik,
2002, p.54) A produção das cidades se dá de forma desigual. Rodrigues (2003) aborda
essa questão e afirma que a produção desigual das cidades se deve a diferente
capacidade de pagar tanto pela casa/
terreno, quanto pelos serviços e equipamentos sociais. Segunda a autora a terra, diferente de outras mercadorias é um bem que
se valoriza sem trabalho, por isso a terra tem sido um dos repositórios mais
comuns e importantes de acumulação de riquezas. Historicamente, o acesso à
terra tem sido um acesso excludente e desigual. Ainda segundo ela, outro fator que favorece o não acesso à terra é a
condição de valorização peculiar da terra. Isso ocorre porque é um mercado
imperfeito, porque cada terreno tem uma valorização única, não há como se
produzir dois terrenos iguais a preços competitivos; o mercado não é
transparente, não se conhece todos os terrenos que estão em oferta para a
compra e venda, há negócios que se fazem de indivíduos para indivíduos. A cidade é produzida socialmente e apropriada individualmente. As áreas
que possuem mais equipamentos de consumo coletivos são as áreas que possuem o
valor mais alto no mercado imobiliário. Outro aspecto é a especulação imobiliária que se refere , segundo
Rodrigues (2003), à retenção deliberada de lotes, para a valorização. A esse
respeito Rodrigues afirma: Estranha contribuição para a produção social das
cidades: os proprietários que deixam a terra vazia, ociosa, sem nenhum uso,
apropriam-se de uma renda produzida socialmente. Assim os que mais precisam
usufruir de uma cidade com equipamentos públicos e serviços tem que morar em
áreas afastadas. Dessa forma, evidencia-se que é no espaço urbano que o processo de
exclusão social tem seus efeitos mais expressivos, materializados na formação
de favelas, loteamentos clandestinos e assentamentos urbanos, bem como de
outras formas de ilegalidade de ocupação do solo. Essas formas de ocupação irregulares são denominadas, subnormalidade
habitacional. O IBGE( 1991, apud Cordeiro, 2006), segue os seguintes critérios,
para identificar aglomerados subnormais: ocupação ilegal da terra, ou seja,
construção em terrenos de propriedade alheia ( pública ou particular), no
momento atual ou em período recente. Os aglomerados ainda devem apresentar pelo
menos uma das seguintes características:Urbanização fora dos padrões vigentes-
refletida por vias de circulação estreitas e de alinhamento irregular, lotes de
tamanhos e formas desiguais e construções não- regularizadas por órgãos
públicos; precariedade de serviços públicos essenciais. Dessa forma, os aglomerados subnormais, segundo o IBGE, podem ser
enquadrados em: invasão, loteamento irregular ou clandestino em áreas invadidas,
e loteamentos irregulares ou clandestinos regularizados em período recente.
Portanto, o que caracteriza um aglomerado subnormal é a ocupação desordenada,
ocorrida sem que tenha havido posse da terra ou título de propriedade. Nesse crescente processo de urbanização, presenciado
nas cidades de porte médio emergiram, pricipalmente e de forma avassaladora, as
aglomerações subnormais, desprovidas de serviços urbanos e de infra-estrutura
básica. Assim as formas de moradia precárias surgem como alternativas a essa
parcela da população desempregada, bem como aos migrantes( provinientes tanto
do meio urbano quanto rural) que buscam, nas cidades maiores ou que apresentam
perspectiva de crescimento, melhores condições de emprego e moradia. As
aglomerações subnormais acabam, dessa forma perpetuando as desigualdades
sociais no espaço intra-urbano (BRASIL, 2004). No caso de Londrina, cidade planejada na década de
1930, para atender um determinado número de habitantes (cerca de 20 mil),
ocorreram inúmeras alterações no espaço urbano, por conta da sua condição de
pólo regional, apresentando crescimento no setor de comércio e serviços, e
exercendo, assim, um poder maior de atração populacional. Porém, foi nas
décadas de 1950/1960 que surgiram os primeiros registros de favelas, localizadas
nas áreas periféricas do centro histórico inicial, próximas à linha férrea
(atual Avenida Leste-Oeste, próxima às ruas adjacentes do quadrilátero
central). A cidade passou a receber considerável contingente populacional em
razão das atividades desenvolvidas para atender a demanda do sistema
ferroviário, necessitando, dessa forma, readaptar seu planejamento urbano para
conduzir a ordenação de sua ocupação pela população que chegava à cidade,
proveniente tanto da zona rural como da urbana, a qual via em Londrina a imagem
de uma cidade de progresso. Na década de 1960, elaborou-se o Plano Diretor de
Desenvolvimento Urbano, visando a organizar a ocupação espacial de Londrina,
quando ela passa a ser considerada a segunda maior cidade do Estado do Paraná,
pelo seu desenvolvimento industrial, comercial e de serviços, e pela
significância no crescimento populacional. Nas décadas subseqüentes, com uma população em torno
de 400 mil habitantes, Londrina passa a ser vista como uma cidade que convive
com situações urbanas problemáticas, principalmente nas questões sociais,
tornando-se exemplo de rápidas transformações na malha urbana. Tal
característica permanece até os dias mais recentes, à qual se acrescenta um
elevado grau de disparidades sociais associadas à questão da violência, o que
evidencia um contingente populacional crescente que não consegue sequer atingir
o nível de pobreza, sendo considerado como o mais miserável e excluído (COHAB-LD, 2002). Por esse quadro, verifica-se que a cidade de Londrina
apresentou, nestes últimos dez anos, um crescimento significativo no número de
habitações destinadas à população mais carente, principalmente para atender
aquelas famílias que buscavam a cidade como forma de solucionar seus problemas,
mas foram forçadas a ocupar terrenos
públicos ou privados, por não conseguirem ingressar no mercado de trabalho,
evidenciando o fenômeno das aglomerações subnormais. Diante do agravamento da exclusão
urbana, o poder público local toma diversas providências. No âmbito das políticas públicas,
identificaram-se os programas habitacionais e sociais que foram e estão sendo
implantados na cidade de Londrina, em especial no bairro em estudo, como formas
de reduzir a disparidade social. Entre esses programas, destaca-se o Programa Habitar Brasil BID, que conta com
recursos da União e do BID, e está subdividido em: subprograma de
Desenvolvimento Institucional (DI) e subprograma de Urbanização de
Assentamentos Subnormais (UAS), através da COHAB-LD. Mediante a elaboração do Plano Estratégico
Municipal para Assentamentos Subnormais (PEMAS/LD) é que esses programas vêm
sendo executados pela COHAB-LD, com objetivo declarado de viabilizar a
implantação de projetos direcionados ao atendimento da demanda habitacional da
população pobre da cidade e a busca da redução dos índices de violência. Para
a implantação do Programa Habitar Brasil
BID, foi realizado um levantamento da situação das áreas subnormais urbanas,
representadas pelas favelas, assentamentos urbanos e ocupações irregulares. A
equipe responsável por estes levantamentos contava com a participação do IPPUL,
COHAB-LD e Secretaria de Obras do Município de Londrina. A partir dos dados obtidos, foi elaborada
uma classificação das áreas subnormais, o que permitiu a avaliação das ações do
poder público e a implantação de políticas de controle de novas ocupações
(COHAB, 2001). Certos critérios foram levados em conta para a escolha das áreas
a serem contempladas com esse projeto, e no processo de seleção foram
escolhidos aglomerados subnormais, entre os quais se priorizou a remoção de
famílias que se encontravam em área de Preservação Permanente (APP), bem como
as que apresentavam risco social associado à renda da família. De
acordo com o resultado obtido, a Poligonal Primavera ficou classificada em
terceiro lugar, mostrando urgência na atuação dos órgãos responsáveis pela
implantação dos programas, uma vez que foi caracterizada como um dos bairros
mais carentes e que apresenta o maior número de famílias em situação de
vulnerabilidade social. Segundo Cordeiro ( 2006) a política de
habitação compreende, hoje uma concepção de desenvolvimento urbano integrado,
na qual a habitação não se restringe à casa, mas também abrange o direito à
infra-estrutura, ao saneamento ambiental, à mobilidade e ao transporte
coletivo, a equipamentos e serviços urbanos e sociais, buscando garantir o
direito à cidade. Em 2003, o governo Luiz Inácio da Silva cria o
Ministério das Cidades, que passa a ser responsável pela política de
desenvolvimento urbano. Essa política adota um modelo participativo e
democrático. Em outubro do mesmo ano, foi realizada a Conferência Nacional das
Cidades, que resultou no Conselho das Cidades e na aprovação das diretrizes
para a nova Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU) (BRASIL, 2004). A PNDU segundo Cordeiro (2006), vem ao encontro da
Constituição Federal, que considera a habitação um direito dos cidadãos, e do
Estatuto das Cidades[1]
(BRASIL, 2002), que preconiza a função social da propriedade. A PNDU tem como principais diretrizes: o direito à
moradia, o acesso à moradia digna que garanta padrão mínimo de habitabilidade,
infra-estrutura, saneamento ambiental, mobilidade, transporte coletivo,
equipamentos, serviços sociais e urbanos, a garantia da função social da
propriedade urbana, a questão habitacional como política de Estado, a gestão
democrática e a integração da política urbana com as demais políticas sociais e
ambientais (BRASIL, 2004). O desenvolvimento sustentável é o balizador do
planejamento urbano. O desenvolvimento sustentável, segundo Bezerra (2002),
apresenta-se através da adoção de um modo de planejar que enfatiza a eqüidade
social, que procura elevar as condições de vida da população, numa perspectiva
de desenvolvimento, preocupada com as gerações futuras. Nessa perspectiva, ao
enfoque urbano incorporou-se o ambiental. Ainda segundo a autora, é necessário, ao se considerar
desenvolvimento urbano, compreender as possibilidades e limitações do ambiente
urbano. É necessário que se identifique a sustentabilidade desse ambiente no
processo de desenvolvimento. Assim, a questão urbana, que, por muito tempo, teve,
pelo poder público, enfoque monetário, passa a ter a preocupação com a
sustentabilidade e maior eqüidade social. Segundo Bezerra (2002), na perspectiva de desenvolvimento
sustentável, adota-se um modo de planejar que enfatiza a eqüidade social,
procurando elevar as condições de vida da população. Programa Habitar Brasil e a
Poligonal Primavera O Programa Habitar Brasil é
realizado com recursos do BID, conforme contrato firmado entre a República
Federativa do Brasil e esse Banco, com contrapartida da União e do agente
executor. O Programa compreende ações
de produção do moradias, saneamento básico, construção de equipamentos comuns e
públicos, pavimentação, recuperação de área degradada, trabalho de mobilização
comunitária, educação sanitária e ambiental e geração de renda. Em Londrina, o Programa
Habitar Brasil/ BID II está sendo executado pela COHAB-Ld e Prefeitura Municipal. É o segundo projeto que
o município operacionaliza, e tal processo vem ocorrendo desde julho de 2006,
no Fundo de Vale do Conjunto Aquiles Stenghel e Luiz de Sá, numa região
denominada Poligonal Primavera. Nesta região, o Projeto beneficiará 419
famílias, das quais 249 são alvo de remanejamento para novas unidades
habitacionais. O investimento total será de R$ 7.496.220,00. A contrapartida
municipal, os recursos somam R$ 2.996.220,00. A Poligonal Primavera se
localiza na Zona Norte de Londrina, no Fundo de Vale dos Conjuntos Aquiles Stenghel,
Maria Cecilia e Luiz de Sá. O Fundo de Vale possui uma
extensão de 122.294.36 m², e por ele passa um importante afluente do Ribeirão
Jacutinga, denominado Córrego Sem Dúvida, que abastece parte da população do
município vizinho de Ibiporã. A ocupação aconteceu em
agosto de 1996, quando famílias sem opção de moradia, decidiram, por seus
próprios meios, resolver as suas necessidades de habitação. Segundo o Projeto
de Participação Comunitária, em setembro do mesmo ano, a Prefeitura promoveu
uma ação de reintegração de posse contra essa população, considerada pelo poder
público como invasores, sendo essa suspensa em junho de 1997, vislumbrando a
possibilidade de uma negociação com as famílias que ocupavam a área. No ano de Segundo dados desse
levantamento, o Fundo de Vale ocupado apresentava índices de consolidação e
urbanização, pois, como se comprovou, foi instalada rede de água, iluminação
pública, telefone. Na época 64,67% das famílias residiam a mais de três anos no
local. Verificou-se que o padrão
construtivo predominante nas residências é de alvenaria, correspondendo a
72,15% do total, o que demonstra a consolidação e o tempo que as famílias
residem no local. A modalidade de construção mais comum é a auto-construção,
correspondendo a 76,34% do total. Das 334 moradias
pesquisadas, 58,68% podem ser classificadas em ótimas e boas condições
de habitabilidade, compondo-se aqui as moradias que possuem mais de 40m²,
divididas internamente, com quarto, sala, cozinha e banheiro, sendo a grande
maioria de alvenaria. Desse total, 127, ou seja, 38,01% foram consideradas ruins e precárias; destas, 76 possuem
apenas 01 cômodo, e 29 possuem banheiros externos, muitas delas construídas com
pedaços de madeira velha, latas, cobertas com retalhos de telhas de cimento
amianto e lonas. Em relação ao perfil socio
econômico o levantamento demonstra que existe um grande número de famílias
chefiadas por mulheres, representando 46%. A maior parte da população é
composta por jovens, 44% tem de Em relação a renda
familiar, aproximadamente 88% das famílias recebem de A exclusão do mercado do
trabalho fica expressa nos dados, que demonstram que 20% da população está
desempregada, 25% trabalham como autônomos e apenas 30% estão formalmente empregados
com registro em carteira.O ramo de atividades dos chefes de família se enquadra
principalmente na prestação de serviços, tais como: pedreiros, serventes,
serviços gerais, encanador, soldador, diaristas, domésticas, costureira, etc. A população sofre com a
falta de equipamentos sociais, tais como: centro de educação infantil e
contra-turno escolar. Esses dados nos permite
avaliar e ilustram situação de exclusão ao
qual essa população se encontra. A história do morador
Para compreender melhor
como se deu a ocupação e suas implicações nas vidas das famílias foi realizado
no ano de 2007 uma entrevista com um
morador da área. Sua história de vida nos dá elementos para verificar a
situação de exclusão e as implicações da ocupação. Para Strobeck(2004),
descrever a história de vida é pensar na subjetividade do individuo, é pensar
uma história que possa ler os códigos das culturas dos próprios indivíduos, por
meio da maneira como eles falam, por meio das expectativas que eles tinham no
momento da fala, ou seja, é pensar os horizontes possíveis que se delineiam
para eles na prática cotidiana, como a possibilidade de viver certos prazeres,
certas vontades, quanto aos obstáculos de realizar certas propostas. O critério de escolha do
morador foi o tempo de residência no local, esse será identificado com o nome
ficticio de José, reside no local a doze anos, sendo um dos primeiros a ocupar
a área. Sr. José tem 44 anos, possui o ensino fundamental incompleto, tendo
estudado até a 7ª série. É casado, autônomo e pais de dois filhos, um de doze e
outro de quatorze anos. Um ponto significativo a
ser evidenciado é que o tempo de moradia de José na área é a mesma que a idade
do filho mais novo, mostrando que são acontecimentos atrelados. Ele nos relata que sempre
morou de aluguel, o fator fundamental para que
participasse da ocupação foi o encarecimento do aluguel, numa época em
que o País enfrentava uma recessão econômica e aumento da inflação . A motivação principal da
ocupação, foi a insuficiência de renda para arcar com o valor do aluguel. Assim
tem sido a história da maioria dos moradores da Poligonal. O ponto em comum das
histórias é exatamente o fato de não possuir condições financeiras para arcar
com os custos de uma moradia regular. O morador relata que a área
foi ocupada por estar sendo inutilizada pelo poder público e as famílias terem
necessidade de um abrigo. Percebe-se a falta da informação em relação à áreas
de preservação permanente. Pois, relata que o local havia se transformado em
depósito de lixo, e já que o poder público não dava outro destino para o local
,as pessoas decidiram ocupar, aqui percebemos a inoperância do poder público em
relação a áreas de preservação permanente. No relato do morador também
pudemos perceber a presença de atravessadores e especuladores , pois Sr. José relata
que alguns se aproveitaram da situação, ocupando o terreno e logo passavam
a comercializar. Segundo ele, vendiam
para lucrar, mas os moradores que permaneceram, assim o fizeram pela
necessidade de uma moradia. Pelas informações
relatadas, no início da ocupação, foi possível perceber que as famílias
passaram por muitas dificuldades, dentre elas a falta de infra-estrutura do
local. O processo de produção capitalista no meio urbano traz transformações
complexas e rápidas que alteram o espaço social, econômico, político e
ambiental. É visível o impacto dessas transformações, assim como suas
consequências para o meio ambiente, principalmente nessas regiões de ocupações
irregulares. O morador relata, em
relação à energia elétrica e à água, que a população improvisava, usando
lamparina e a mina d água presente no local. Observa-se que as
conquistas em relação à infra-estrutura são advindas da própria população que
se organizou e reivindicou suas necessidades junto ao poder público. O aumento
da infra-estrutura no local, segundo os moradores, foi um fator que contribuiu
para o aumento da crença que permaneceriam no local. A esse respeito, Rolnik (2002) afirma que os
assentamentos precários são também objeto de investimentos pela gestão pública
cotidiana que incorpora lentamente essas áreas à cidade, regularizando,
urbanizando, dotando de infra-estrutura, mas nunca eliminando a precariedade e
as marcas da diferença em relação às áreas que já nascem regularizadas Ainda
segundo a autora, essa dinâmica tem grande rentabilidade política, pois, dessa
forma, o poder público estabelece uma base política popular, quase sempre de
natureza clientelista, uma vez que a população vê as melhorias como favores,
que servem como moeda de troca eleitoral. Outro fator detectado nas
ocupações irregulares é a autoconstrução, ou seja, moradias edificadas sem
parâmetros técnicos, que são erguidas pelos próprios moradores. No levantamento
realizado pela COHAB em 2005, os dados apontam que 76% das familias utilizaram
essa modalidade de construção, assim como Sr. José que relata que construiu sua
casa com ajuda de amigos. O morador relata também que
na época da invasão o então Prefeito, José Belinati, incentivou os moradores a
permanecerem na área, imprópria para a habitação, pois como vimos apresenta
risco para os moradores e para o meio ambiente, entre outros. Rolnik (2002) aborda esse tema, afirmando que, na
gestão, a cidade irregular é tolerada e até disseminada. Segundo ela, do ponto
de vista político, é desejável que isso ocorra à medida que torna a população
que reside nessas áreas mais vulnerável a barganhas eleitorais, clientelistas e
fisiológicas, pois usa-se da chegada da infra-estrutura para barganha de votos.
Portanto, a exclusão territorial se dá nos
níveis de gestão e dos processos decisórios. Segundo a autora, o fato das
elites, historicamente, governarem para si mesmas, abrindo espaços de
extralegalidade negociada como resposta à pressão das camadas populares,mostra
que a democratização da gestão urbana é a única possibilidade de inversão dessa situação. Com relação ao meio
ambiente conforme diagnóstico realizado pelo município, o fundo de vale
apresenta fortes agressões em decorrência da mudança da cobertura vegetal, dos
aterros, lançamentos de esgotos e resíduos sólidos, captação dos esgotos e
efluentes lançados. O diagnóstico conclui que o risco social está diretamente
ligado à questão de renda e faz interface direta com a degradação ambiental. Sr. José relata que os
moradores sofrem bastante com a questão das enchentes no local. Outro aspecto
negativo são os animais, que transitam no local e nas residências, por estarem
muito próximas da mata e do córrego. O morador também deixa
claro a relação de afetividade que estabeleceu com o local e com vizinhança.
Apesar dos problemas afirma que gosta de morar na área, principalmente porque
não há violência. Considerações
finais A história do Sr. José relata justamente
essa exclusão que os moradores sofrem. Ilustra a falta de alternativa para a
habitação, que leva à busca por alternativas improvisadas, porém demonstra o
processo de organização dessa comunidade em torno das melhorias necessárias no
bairro, com a construção de laços de solidariedade entre os membros dessa
comunidade e a ligação desta com o espaço em que reside. Por outro lado, também
observamos a falta de informação da população e o poder público com
posicionamentos que visam à manutenção da condição de exclusão da mesma. Porém,
também se observa, como apresentado pelo Sr. José, a expectativa de alcance de
uma vida melhor, vislumbrando a melhoria de vida da família. Essa história ilustra a de muitos
moradores de ocupações irregulares, demonstrando a gravidade do problema
habitacional nos dia de hoje, e induz a uma reflexão sobre as necessidades de
uma política habitacional que atenda aos moradores de áreas irregulares. A existência de uma política habitacional
que atenda prioritariamente a população de baixa renda e que tenha visão mais
ampla da questão da habitação se faz necessária. Esta deve vislumbrar a
necessidade do planejamento urbano, que contemple a habitação, que se preocupe
com a infra-estrutura urbana, que tenha em vista o desenvolvimento sustentável,
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