REVISTA DO GT DE LITERATURA ORAL E POPULAR DA ANPOLL

Revista Boitat‡ Ž uma publica�‹o semestral, de acesso livre, do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-Gradua�‹o em Letras e Lingu’stica (ANPOLL)

 

GT LITERATURA ORAL E POPULAR

 BIæNIO 2020/2022

 COORDENADORA

Profa. Dra. DŽlcia Pombo

Secretaria Estadual de Educa�‹o do Par‡

delciauab@gmail.com

 

 

VICE-COORDENADORA

Profa. Ma. Dia Favacho

PPGED-UEPA

favachodia1@gmail.com

 

 

 

SECRETçRIO

Profa. Dr. Alexandre Ranieri Ferreira

SEDUC/UFPA

alexandre_ranieri@hotmail.com

 

 

 

 

 

IDADE MƒDIA

ORALIDADE E PERFORMANCE

 

 

 

Dados Internacionais de Cataloga�‹o na Publica�‹o (CIP)

Bibliotec‡rio: Marcos Moraes – CRB: 9/1701

 

 

Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL [recurso eletr™nico] / Universidade Estadual de Londrina - n. 32, v. 2, jul. /dez., 2021. – Londrina: UEL; Bras’lia: ANPOLL, 2021.

 

Semestral

Requisitos do sistema: Adobe Reader.

Modo de acesso: < http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/index>

ISSN: 1980-4504

 

1. Literatura oral 2. Narrativas orais 3. Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense (IFNOPAP) I. Ferreira, Alexandre Ranieri. II. Fernandes, Frederico Augusto Garcia III. Universidade Estadual de Londrina. IV. Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica. V. T’tulo: Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL

 

CDD: 808.5

CDU: 82

 

 

êndice para o cat‡logo sistem‡tico:

1.

2.

Oralidade

Cultura popular

82




 

EXPEDIENTE

 

EDI‚ÌO

 

Dr. Alexandre Ranieri Ferreira (UFPA)

Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes (UEL)

 

 

EDITORIA ASSISTENTE

 

Dr. Alexandre Ranieri Ferreira (UFPA)

 

 

ORGANIZA‚ÌO

 

Dra. Maria do Socorro Sim›es

 

 

COMISSÌO EDITORIAL

 

Dra. Anna Christina Bentes

Universidade Estadual de Campinas

 

Dra. Ana Lœcia Liberato Tettamanzy

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Dra. Berenice Araceli Granados V‡squez

Universidad Nacional Aut—noma de MŽxico

 

Dra. Cl‡udia Neiva de Mattos

Universidade Federal Fluminense

 

Dra. Edil Silva Costa

Universidade Estadual da Bahia

 

Dr. Eudes Fernando Leite

Universidade Federal da Grande Dourados

 

Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes

Universidade Estadual de Londrina

 

Dr. J. J. Dias Marques

Universidade do Algarve (Portugal)

 

Dr. Jorge Carlos Guerrero

University of Ottawa (Canada)

 

Dr. JosŽ Guilherme dos Santos Fernandes

Universidade Federal do Par‡ 

 

Dra. Josebel Akel Fares

Universidade Estadual do Par‡

 

Dra. Lisana Bertussi

Universidade de Caxias do Sul

 

Dra. Maria do Socorro Galv‹o Sim›es

Universidade Federal do Par‡

 

Dra. Maria Incoronata Colantuono

Universitat Aut˜noma de Barcelona

 

Dr. M‡rio Cezar Silva Leite

Universidade Federal de Mato Grosso

 

Dr. Ronald Ferreira da Costa

Professor do Instituto Federal do Paran‡

 

Dr. S’lvio Renato Jorge

Universidade Federal Fluminense

 

Dra. Vanderci de Andrade Aguilera

Universidade Estadual de Londrina

 

Dra. Vera Lœcia Medeiros

Universidade Federal do Pampa

 

 

PARECERISTAS DESTE NòMERO

 

Dr. Alexandre Ranieri Ferreira

Universidade Federal do Par‡

 

Dra. Berenice Araceli Granados V‡squez

Universidad Nacional Aut—noma de MŽxico

 

Dra. Claudia Freitas Pantoja

Faculdades Integradas do Vale do Iva’

 

Dr. Dejair Dion’sio

Universidade Estadual do Centro-Oeste

 

Dra. DŽlcia Pombo

Secretaria Estadual de Educa�‹o

 

Dra. Francisca Pereira dos Santos

Universidade Federal do Cariri

 

Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes

Universidade Estadual de Londrina

 

Dra. Laura Regina dos Santos Dela Valle

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Dra. L�nia M‡rcia Mongelli

Universidade de S‹o Paulo 

 

Dra. Maria do Socorro Galv‹o Sim›es

Universidade Federal do Par‡

 

Dra. Maria Incoronata Colantuono

Universitat Aut˜noma de Barcelona

 

Dra. Mauren Pav‹o da Hora Vidal

Instituto Federal Baiano

 

 

 

 

REVISÌO

 

Dos autores

 

 



 

 

SUMçRIO

 

EDITORIAL

 

IFNOPAP: uma nascente de hist—rias

Alexandre Ranieri Ferreira, Maria do Socorro Sim›es ...................................................................5

 

CONVIDADO

 

IFNOPAP em mem—rias: come�o e meio

Alexandre Ranieri Ferreira...............................................................................................................8

 

DOSSIæ

 

Corpo-velho: reflex›es sobre o envelhecimento feminino em narrativas orais da Matintaperera

Andressa Araœjo, Rafaella Costa, Maria do Socorro Sim›es, Rubenil da Silva Oliveira ..............17

 

O maravilhoso amaz™nico, uma poŽtica da alteridade

Sylvia Maria Trusen........................................................................................................................29

 

SE‚ÌO LIVRE

 

Intertextos de Romeu e Julieta nos folhetos nordestinos

Weber Firmino Alves, Naelza de Araœjo Wanderley ....................................................................39

 

O estatuto m’tico e a dimens‹o argumentativa em narrativas de enterro produzidas em comunidades quilombolas

Emanuel Fontel, Regina Cruz, Benedita Borges, Thaynara Paix‹o................................................52

 

Oralidade e quadrinhos: possibilidades pedag—gicas

Alberto Ricardo Pessoa, Cristiano Clemente de Souza..................................................................64

 

Paisagem religiosa: o catolicismo popular e as companhias de reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG

F‡bio Martins, Leonel Brizolla Monastirsky..................................................................................71

 

Poesia in concert: a palavra de volta ˆ rua

Kaedmon Sellberg Soares...............................................................................................................85

 

Vozes poŽticas e (re)exist�ncias quilombolas do grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Ant™nio Cardos-BA

Eliziane Santos e Santos, Renailda Ferreira Cazumb‡................................................................102

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

APRESENTA‚ÌO

IFNOPAP: uma nascente de hist—rias

 

 

            Um dossi� tem‡tico com o Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense Ž de uma responsabilidade muito grande. O IFNOPAP Ž um projeto importante para os estudos das PoŽticas Orais. Com quase 30 anos de exist�ncia, uma infinidade de Teses, Disserta�›es, TCCÕs e artigos cient’ficos ele talvez seja mais que um projeto, um adjetivo, gent’lico, como a professora Socorro Sim›es; capit‹ desde batel que flutua entre rios, florestas, espa�os e ciberespa�os chama-nos. Somos todos Ifnopapianos de muitos costados.

E, em mais essa viagem do IFNOPAP, come�amos com algumas mem—rias de Alexandre Ranieri que entrou quase que por acaso no projeto e nunca mais saiu. O texto IFNOPAP em mem—rias: come�o e meio Ž recheado de emo�‹o e carinho, alŽm de demonstrar a maneira como o projeto perpassa o percurso acad�mico do convidado.

O primeiro artigo deste dossi� assinado por Andressa Ramos, Rafaella Costa e Rubenil Oliveira em parceia com a professora Socorro Sim›es Corpo-velho: reflex›es sobre o envelhecimento feminino em narrativas orais da Matintaperera traz a lume uma quest‹o relevante aos dias de hoje: o padr‹o de beleza associado ao corpo feminino, sempre julgado e pressionado, ao passo que, em tempos de pandemia, os corpos velhos sofreram mais que outros o descaso de pol’ticas pœblicas e a indiferen�a dos jovens. Portanto, publicar este artigo que desbanca os estere—tipos em torno do corpo feminino envelhecido a partir de narrativas orais amaz™nicas de Matintaperera Ž (re)humanizar esses corpos subalternizados que retomam sua condi�‹o de sujeito ora discriminados nessa modernidade cada vez mais l’quida, egoc�ntrica e narcisita.

O pr—ximo artigo do dossi� assinado pela professora Sylvia Maria Trusen da Universidade Federal do Par‡, O maravilhoso amaz™nico, uma poŽtica da alteridade, faz uso das narrativas do projeto publicadas no ÒAbaetuba conta...Ó destacando a categoria da alteridade, muitas vezes esquecida e engolida pela arrog‰ncia do ego, para a leitura das narrativas do Imagin‡rio Amaz™nico.

Mas n‹o Ž s— o IFNOPAP que Ž feito de hist—rias. Recebemos, nesta edi�‹o, tambŽm artigos de outras paragens, outros nortes, prenes de diversidade. E essa viagem come�a pelos folhetos de cordel nordestinos e suas vers›es de uma obra prima da Literatura mundial: Intertextos de Romeu e Julieta nos folhetos nordestinos de Weber Firmino Alves e Naelza de Araœjo Wanderley trata da rela�‹o entre esses textos do imagin‡rio popular e a hist—ria imortalizada por William Shakespeare.

Voltando ao norte o artigo de Emanuel Fontel, Regina Cruz, Benedita Borges, Thaynara Paix‹o intitulado O estatuto m’tico e a dimens‹o argumentativa em narrativas de enterro produzidas em comunidades quilombolas mergulha nas comunidades quilombolas do Estado do Par‡ para desvelar o estatuto m’tico das narrativas de enterro.

Saindo mais uma vez do norte e voltando ao nordeste, mais especificamente ˆ Para’ba, os autores Alberto Ricardo Pessoa e Cirstiano Clemente de Souza analisam uma rela�‹o que, para algumas pessoas n‹o parece clara, mas que vai se tornando a medida em que lemos o artigo Oralidade e quadrinhos: possibilidades pedag—gicas. Pensando nisso os autores exploram essas possibilidades que os quadrinhos proporcionam ao estudo da oralidade.

Descendo do nordeste ao sudeste, da Para’ba a Minas Gerais, F‡bio Martins, Leonel Brizolla Monastirsky nos transportam ˆ paisagem religiosa criada pelo catolicismo popular  da campanha de reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro no artigo Paisagem religiosa: o catolicismo popular e as companhias de reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG. E nessa viagem que empreendemos lendo o texto nos faz ÒverÓ as paisagens sonoras e gustativas que ajudam a compor a religiosa.

Descendo um pouco mais, ao Sul, no norte do Paran‡, em Londrina, Kaedmon Selberg Soares em Poesia in concert: a palavra de volta ˆ rua trata do agrupamento Poesia in concert e a sua reincorpora�‹o no Festival Liter‡rio de Londrina (Londrix), ressaltando a import‰ncia social do evento para a cidade e relembrando outros tempos do Bar Valentino.

Saindo do norte do Paran‡, nossa viagem termina em Ant™nio Cardoso na Bahia onde Renailda Ferreira Cazumb‡ e Eliziane Santos e Santos tratam das hist—rias e vida dos mestres e mestras do Grupo Ra’zes do Samba e seus sambadores e sambadeiras no artigo Vozes poŽticas e (re)exist�ncias quilombolas do Grupo Ra’zes de Toco de Ant™nio Cardoso – BA.

Esperamos que a vigem por todos esses lugares e pessoas e seres e hist—rias seja prof’cua e encante aos leitores da mesma forma que nos encantou como revista.

 

 

Maria do Socorro Sim›es

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONVIDADO

 

 

 

 

 

 

 

 

IFNOPAP em mem—rias: come�o e meio

 

 

Memory IFNOPAP: beginning and middle

 

 

Alexandre Ranieri Ferreira[1]

https://orcid.org/0000-0002-3689-9682

 

 

 

Resumo: Tratar da minha rela�‹o com o IFNOPAP (O imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense) Ž simplesmente mesclar boa parte da minha vida pessoal e acad�mica. Falar do meu percurso acad�mico Ž iniciar com o projeto IFNOPAP, ter em mente que boa parte dessa viv�ncia se deve a ele e que n‹o existe um fim em que se possa dizer que a minha rela�‹o com o projeto h‡ de acabar. As mem—rias que apresento neste artigo demonstram a import‰ncia da minha rela�‹o com o projeto e a professora Socorro Sim›es que desembocou em desdobramentos v‡rios sem os quais tantas outras conquistas acad�micas n‹o seriam poss’veis.

Palavras-Chave: IFNOPAP; Acad�mico; Mem—rias.

 

Abstract: Dealing with my relationship with IFNOPAP (The Imaginary in Popular Oral Narrative Forms of the Amazonian Paraense) is simply mixing a most of my personal and academic life. To talk about my academic path is to start with the IFNOPAP project, keeping in mind that a good part of this experience is due to it and that there is no end in which it can be said that my relationship with the project will end. The memories I present in this article demonstrate the importance of my relationship with the project and Professor Socorro Sim›es ended up in several developments without which so many other academic achievements would not be possible.

Keywords: IFNOPAP; Academic; Memories.

 

 

Um come�o

 

Nos idos dos anos 2004 retornava a Universidade Federal do Par‡ de pois de passar tr�s longos anos afastado e cursando Processamento de Dados no Centro Universit‡rio do Par‡ (CESUPA). Na realidade, as poucas aulas, a pouca intimidade com os colegas de turma e as poucas possibilidades de emprego no ano de 1999 me fizeram procurar outra forma�‹o e melhores oportunidades. Era uma forma�‹o particularmente dif’cil para alguŽm pouco apegado a nœmeros. Mas os anos que passei l‡ me ensinaram mais do que eu achava que aprenderia e me presenteariam com amigos que atŽ hoje cultivo.

Terminado o curso, n‹o satisfeito com a forma�‹o em computa�‹o, decidi fazer uma p—s-gradua�‹o em Marketing na Universidade da Amaz™nia (UNAMA). Como as aulas eram a noite e apenas uma semana por m�s, decidi retornar ao curso de letras. Para explicar as minhas aus�ncias em detrimento do curso, conversei com a professora Germana Sales, professora de Literatura Portuguesa. Quando ela soube da minha forma�‹o, imediatamente me convidou a conhecer a professora Socorro Sim›es e o projeto Multiletras.

Em pouco tempo constru’ o site do projeto, organizei obras e ajudei a coordenador o primeiro encontro do projeto. Desde ent‹o muitas outras propostas se seguiram, criando logomarcas para projetos, sites e prestando consultoria em inform‡tica a v‡rias pessoas que me procuravam. Outros projetos se seguiram mas acredito que a minha grande virada acad�mica se deu no ano de 2005 quando fui convidado a fazer parte da equipe do Encontro IFNOPAP (O Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense) em Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arar’.

            Foi a partir daquele momento que percebi o que queria ser: pesquisador. O trabalho era ‡rduo, cansativo, ˆs vezes desorganizado, mas n‹o consigo imaginar que hoje estaria onde estou se n‹o tivesse participado daquele evento.

            Olhava embasbacado a pessoas como Josebel Akel Fares, Frederico Fernandes, M‡rio Cezar Leite, Arion Rodrigues, Ana Suelly dentre outros. Eu os olhava, admirava e queria um dia poder dividir uma mesa com eles.

            Naquele ano, a alegria foi tanta que alŽm de escrever uma pe�a bem humorada sobre as agruras que vivemos, escrevi um texto em homenagem ao evento e ˆ professora Socorro Sim›es. Foi a primeira vez que me imaginei pesquisador, estudante de Mestrado e posteriormente de Doutorado, professor universit‡rio e quem sabe um dia apresentando ou dividindo mesas com aqueles que tanto admirava.

            No ano seguinte, em 2006: Ponta de Pedras. Foi quando tive oportunidade de reencontrar o professor Willi Bolle, que conhecera durante o CIELLA, rever Fred, M‡rio, Josebel e conhecer Edil Costa.

            Em 2007 retornamos ˆs origens e partimos em dire�‹o a Bragan�a. Agora como estudante da p—s em L’ngua Portuguesa: uma abordagem textual seguimos pelos mesmo caminhos e como sempre ajudamos aqueles que mais precisavam. Levamos o conhecimento de todos esses grandes nomes ˆs cidades de Bragan�a e Capanema.

            Em 2008, j‡ no mestrado, fomos a mosqueiro. Levamos n‹o apenas conhecimento, mas ajuda de parceiros como o PROPAZ. A emo�‹o veio com a gratid‹o das pessoas atendidas.

            No ano de 2009 vistamos as ilhas ao redor de BelŽm e mais uma vez pude comprovar que de pouco serve o conhecimento acad�mico se ele n‹o puder ser compartilhado com a sociedade.

 

 

Um meio[2]

 

            AlŽm do projeto MultiLetras, tive oportunidade de trabalhar no projeto LAPEL e colaborei em outros como o Ou�a os Mitos e Rotas do Mito. Durante as reuni›es do projeto Ou�a os Mitos tive contato com o CD-ROM Caleidosc—pio amaz™nico: uma aventura em imagens e cores feito com recursos da UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) e da UNAMAZ (Associação de Universidades Amazônicas). Minha primeira impress‹o foi de profundo fasc’nio, de tal forma que, quando comecei meus estudos de doutorado sob a orienta�‹o do professor Dr. Frederico Fernandes na Universidade Estadual de Londrina (UEL), n‹o pensei em outro objeto de estudo que n‹o fosse aquele CD-ROM.

Obtive uma c—pia do material e durante alguns dias li, reli, escutei e re-escutei cada uma daquelas historietas completamente fascinado, porque me via em muitas delas. Reencontrava em cada uma delas o passado, a inf‰ncia, parentes, amigos, Camet‡, BelŽm e vov—, em meio ˆs personagens que j‡ estavam no meu subconsciente e com quem me deparei com prazer frente a uma proposta que eu nunca havia visto.

Naquele mesmo ano, recebi outro convite da mesma professora para fazer parte da equipe de organiza�‹o do IX Encontro IFNOPAP. Fomos ao Maraj—, e, entre as cidades de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari, entrei em contato com o mundo acad�mico das poŽticas orais. Conheci professores que reencontrei em todos os encontros posteriores, fiz amizades para toda a vida, mas, principalmente, me reaproximei do (ou me reencontrei com o) cotidiano de algumas comunidades t‹o pr—ximas geograficamente e t‹o distantes de mim atŽ ent‹o, como na noite em que sentei com alguns professores em um bar em frente ao trapiche de Soure, onde estava ancorado o barco da nossa comitiva. O professor Frederico Augusto Garcia Fernandes, que viria a ser meu orientador no doutorado, conversava com um senhor de uma maneira bem amig‡vel e pr—xima, quando me viu e disse: Òvenha c‡, sente aqui. Voc� quer conhecer a narrativa oral da Amaz™nia, ent‹o sente aqui...Ó. E foi mais um momento de revela�‹o: passamos boa parte da noite escutando hist—rias de fogo-f‡tuo, matintas, carro�as fantasmas, mulheres cheirosas e tantas outras que me fizeram quebrar um ritual quase ÒsagradoÓ que me levava todas as noites ˆ Praia do Pesqueiro, para conversar, beber e paquerar.

Foi naquele momento que o Òmenino da Inform‡ticaÓ que namorava com livros impressos durante os tempos de greve na universidade virou um homem. Naquele instante, vi outra beleza, nem mais nem menos bonita que a do livro impresso, nem mais nem menos bonita que a do CD-ROM, mas que emprestava boa parte dela a um e a outro. Vi a beleza, ainda com todos os ÒdedosÓ que atŽ hoje tenho sobre o assunto, brotar ante os meus olhos e, em especial, ante aos meus ouvidos, e eu me perguntava como ÒaquiloÓ foi parar ÒnaqueleÓ lugar, como aquele cancioneiro foi parar naquele disco compacto, daquela forma, naquele formato e com qual objetivo.

N‹o apenas o CD mas as hist—rias que deram origem ˆs vers›es animadas em flash num outro formato, retextualizadas, reoralizadas e que agora atendiam a um objetivo e pœblico diverso. Por isso mergulhei nas narrativas originais. Escutei as grava�›es, procurei saber um pouco melhor sobres os pesquisadores que haviam coletado aquelas narrativas, mas tambŽm os narradores orais. Procurei imergir naquele universo t‹o distante de mim pesquisando nos arquivos do projeto IFNOPAP.

Aprofundei-me no estudo dos mŽtodos de coleta e transcri�‹o, analisando com cuidado os objetivos, de tal forma que pude entender as inten�›es de um projeto pioneiro no Estado do Par‡ e que enfrentou grandes resist�ncias atŽ tornar-se umas das maiores refer�ncias em oralidade no Norte do pa’s.

Neste momento, analisei os mŽtodos utilizados pelo IFNOPAP com base, em especial, mas n‹o exclusivamente, no documento fornecido pela coordena�‹o do Projeto: Achegas para tŽcnica e Žtica da coleta (1994). O documento Ž dividido em tr�s partes: Òa prop—sito do entrevistadorÓ, Òa prop—sito do informanteÓ e Òa prop—sito da grava�‹oÓ. O œltimo item divide-se em ÒantesÓ, ÒduranteÓ e ÒdepoisÓ da entrevista.

O que primeiro chamou aten�‹o nesta espŽcie de Òpequeno manualÓ elaborado pelo IFNOPAP foi o nome dado a ele: ÒachegasÓ, que, segundo Vilhena, era um termo muito usado pelos folcloristas para publica�›es curtas – de cerca de tr�s laudas datilografadas – e indicava Òque o autor pretendia apresentar hip—teses gerais sobre um problema, aproximar-se ligeiramente de um assunto, ou somente acrescentar algumas informa�›es a um debateÓ (VILHENA, 1997, p.177). O termo, outrora utilizado para aqueles pequenos artigos, foi bem empregado para esse documento – tambŽm em tr�s laudas – que trata de maneira geral de algumas (poucas) regras para a coleta de narrativas.

Segundo a professora Maria do Socorro Sim›es, em entrevista concedida para mim no dia 06 de janeiro de 2014, as achegas foram feitas em parte com base na intui�‹o dos professores que participavam do projeto, e em parte com mŽtodos cient’ficos orientados pelo professor Cristophe Golder, que, na Žpoca, acabara de defender a sua tese de doutorado em semi—tica pela UniversitŽ de Franche-ComtŽ, cujo tema versava sobre o bumba-meu-boi do Maranh‹o.

Pensando nisso, no livro BelŽm conta... (1995), o depoimento da pesquisadora T‰nia Pereira me chamou aten�‹o:

Mais um pouco de conversa e vem o aceite, a abertura da porta, quase um ritual. Chegamos ˆ sala, ˆ sua vida, ˆs suas hist—rias. Mais um pouco e estaremos em sua cozinha, com o copo dÕ‡gua, o cafezinho, atŽ o almo�o. E escutamos uma infinidade de hist—rias, entremeadas pela apresenta�‹o de um filho, de um vizinho, Òquase-parenteÓ. Nem todos s‹o assim. Existem aqueles que insistem em manter alheia, aos nossos olhos, a sua intimidade. N‹o tem import‰ncia: seu santu‡rio ser‡ sempre respeitado. Basta-nos a maneira, h‡ uma ambiguidade: n‹o somos um deles. Somos intrusos em seu ninho. Mas, de repente, nos sentimos como que fazendo parte do seu mundo (SIMÍES; GOLDER, 1995, p.180).

            Dessa imers‹o pude entender o percurso movente que fez com que aquelas narrativas sa’ssem do cancioneiro popular, fossem gravadas em arquivos sonoros que dessem outra dimens‹o ao oral, depois fossem transcritas de acordo com critŽrios preestabelecidos e posteriormente reescritas apagando grande parte de tra�os latentes de oralidade. Depois disso novas vozes trabalhadas e com forte apagamento de tra�os regionais as recontariam em portugu�s, ingl�s, franc�s e espanhol.

            As imagens, os sons de fundo e as anima�›es representavam um novo ponto de vista de tŽcnicos e colaboradores e as suas percep�›es acerca das lendas e mitos recontadas, mas que ao mesmo tempo guardavam com os originais estreita rela�‹o arquet’pica de tal forma que n‹o se poderia negar tal rela�‹o. Ao mesmo tempo que tambŽm n‹o se poderia dizer que  n‹o seria um produto novo.

Outro aspecto importante desse estudo foi o de discutir dois temas caros aos estudos das poŽticas orais: o uso das tecnologias na coleta de campo e a adapta�‹o de narrativas a outros meios. Desde o uso dos primeiros gravadores – talvez, desconfio, desde o uso da caneta e do papel na presen�a do informante – que se discute o uso de equipamentos que proporcionem o registro da performance – Òrealiza�‹o poŽtica plenaÓ, segundo Zumthor (2005, p.87) – oral e/ou gestual. As discuss›es versam desde a maneira como us‡-los atŽ necessidade de us‡-los. Sabendo que essa discuss‹o est‡ longe de ser esgotada, trago-a ˆ luz aqui, bem como discuto o processo de adapta�‹o das narrativas orais a outras m’dias distintas e suas especificidades.

O meu fazer como pesquisador, portanto, aproximou-se muito mais ao do antrop—logo, na medida em que

a escrita etnogr‡fica configura-se na pr—pria tr’ade autor/tradutor/texto na conforma�‹o da pr‡tica investigativa ao oportunizar a sistematiza�‹o de seus pensamentos interiores e a constru�‹o de a�›es est‡veis em rela�‹o ˆ cultura e ˆ sociedade pesquisada (ECKERT & ROCHA, 2005, p.04).

Se, para o mercado e para a m’dia que o serve, o popular n‹o interessa como tradi�‹o que perdura, para o acad�mico, a m’dia Ž uma maneira que aquele tem de se perpetuar, um novo caminho que percorre para se manter vivo, transmutando-se do oral para o digital.

Aquele livro partiu do acad�mico e das rela�›es deste com o popular para adentrar o campo das novas tecnologias. Por isso, tratei dos mŽtodos de coleta, passei pelos de grava�‹o – dando um breve mergulho na quest‹o das m’dias – e de transcri�‹o, para poder chegar, enfim, ao processo de produ�‹o do CD-ROM. Para seguir esse percurso, n‹o poderia ter melhor objeto de pesquisa, visto que tive ˆ minha disposi�‹o todo o acervo IFNOPAP e sua documenta�‹o dispon’vel, sem a qual minha tese de doutorado e meu livro n‹o existiriam.

O pr—prio ÒdesenvolvimentoÓ da arte popular se d‡ a partir de transforma�›es (CANCLINI, 2015, p.366). Portanto, uma pretensa morte dela seria um grande contrassenso. O ambiente acad�mico e o novo suporte s‹o, portanto, espa�os de transforma�‹o do popular.

N‹o existem grupos de indiv’duos propriamente folcl—ricos; o que h‡ s‹o situa�›es mais ou menos prop’cias para que o homem participe de um comportamento folcl—rico (BLANCH, 1988, p.29 apud CANCLINI, 2015, p.220). Somos capazes de nos integrar a diversas pr‡ticas sociais, e as aqui citadas e muitas outras est‹o em nosso cotidiano, e podemos perceb�-las como uma experi�ncia estŽtica ou fazer de conta que elas n‹o existem como tal.

Todavia, se o pesquisador em campo precisa de espontaneidade e deseja uma proximidade maior com o Etnotexto que pretende estudar, a melhor forma de fazer a entrevista – que nesse caso n‹o seria mais uma entrevista – Ž atravŽs da conviv�ncia o mais pr—ximo poss’vel da comunidade, sem aux’lio do gravador, deixando que a pr—pria mem—ria do pesquisador se confunda com a da comunidade, selecionando os fatos que o seu inconsciente assimile e deixe aflorar no papel.

Isso comprova que a oralidade amaz™nica ainda vive em som, imagem e movimento, expandindo seus horizontes e influenciando outros meios que fazem uso dela para criar algo novo. E ainda que esses novos meios concorram por espa�o com os antigos na vida das pessoas, um acaba fazendo uso do outro num processo de retroalimenta�‹o constante num ciclo e num reciclo ininterruptos.

Nesse sentido, as narrativas que haviam come�ado um processo de desenraizamento passaram por processos de reenraizamento por onde passaram, seja nos meios acad�micos ou escolares por onde circularam os ‡udios e transcri�›es, seja nos lares ou demais lugares por onde passaram as c—pias dos CD-ROM.

O desenvolvimento moderno n‹o apaga as culturas populares tradicionais, porque essa amplia�‹o modernizadora n‹o conseguiu extinguir o folclore, e os estudos mostram que nas œltimas dŽcadas as culturas tradicionais se desenvolveram, transformando-se (CANCLINI 2015, p. 215). Por outro lado, as culturas camponesas e tradicionais n‹o representam a maior parte da cultura popular, e os meios eletr™nicos s‹o, em parte, respons‡veis por isso, bem como o turismo, as migra�›es, a religiosidade, dentre outros (CANCLINI, 2015, p.218).

O popular n‹o se concentra nos objetos, porque Ž um mecanismo de escolha, e mesmo de inven�‹o, projetado em dire�‹o ao passado para legitimar o presente (BLACHE, 1988, p.27 apud CANCLINI, 2015, p.219). E, falando da influ�ncia interacionista e etnometodol—gica: todos os objetos s‹o dramatiza�›es din‰micas da experi�ncia coletiva (CANCLINI, 2015, p.219).

O Caleidosc—pio, dessa forma, Ž a encena�‹o n‹o de uma, mas de v‡rias experi�ncias coletivas agrupadas, concentrando o popular num patrim™nio de bem est‡vel, voltado para o passado para legitimar o presente.

As pessoas de hoje n‹o precisam menos dos mitos do que as de outrora (ZUMTHOR, 2010). No entanto, a aldeia (comunidade), que antes era um espa�o restrito e limitado pela geografia, agora Ž outra, uma ÒAldeia GlobalÓ, lugar (ou n‹o-lugar) do ÒtudoaomesmotempoagoraÓ, na qual o tempo cessou e o espa�o desapareceu. O CD-ROM Ž essa materialidade que, mesmo afastada do Etnotexto, ecoa os tambores de tribos distantes, ainda que os escutemos na solid‹o dos nossos computadores (MCLUHAN, 1969).

Nesse sentido, a produ�‹o de um objeto midi‡tico, como o Caleidosc—pio Amaz™nico, Ž pertinente na medida em que n‹o se exime do popular em prol do acad�mico ou tecnol—gico. Essas inst‰ncias n‹o s‹o antag™nicas e, portanto, n‹o se excluem mutuamente, ao contr‡rio, funcionam como complementares na contemporaneidade. Com a legitima�‹o cada vez mais presente do ambiente digital, quem procura separ‡-las e n‹o admite a possibilidade da rela�‹o ecum�nica entre elas n‹o est‡ valorizando a cultura em si, e cai na armadilha do logocentrismo.

Claro que, se tivŽssemos um ecumenismo maior, desde as primeiras fases do projeto, talvez tivŽssemos um objeto cultural mais pr—ximo do Etnotexto que busca representar. Mas esse produto novo n‹o seria uma espŽcie de Etnotexto em si?

Da mesma forma que n‹o podemos dizer que as comunidades s‹o apenas aquelas que vemos nos bairros pobres, interiores pequenos, grupos exclu’dos etc., n‹o podemos dizer que n‹o h‡ Etnotexto alŽm desses ambientes. O que h‡ s‹o pontos de vista e formas distintas de valoriza�‹o das narrativas.

Foi tambŽm gra�as a esse trabalho de doutorado que pude conhecer grandes colegas na UEL e compartilhar conhecimentos nos v‡rios Semin‡rios Brasileiros de PoŽticas Orais como Ana Liberato e Mauren Pav‹o.

O est‡gio doutoral em Coimbra tambŽm foi outra experi�ncia enriquecedora. Em 2015 pude ter contanto com os pesquisadores do Grupo de Materialidades da Literatura e coorienta�‹o do professor Manuel Portela. O per’odo prof’cuo de troca de saberes enriqueceu a minha tese de doutorado atravŽs de novas teorias e novas perspectivas com colegas de v‡rias partes do mundo.

Depois de retornar, em 2016 defendi minha tese de doutorado que em 2018 seria lan�ada em livro sob o t’tulo Caleidosc—pio amaz™nico: a oralidade em som, imagem e movimento com o selo da editora Paka-Tatu. Nesse mesmo ano iniciei a minha gest‹o como Coordenador do Grupo de Trabalho de Literatura Oral e popular.

Em 2019 fui convidado, por sugest‹o da professora Socorro a compor a equipe tŽcnica da Feira Pan-amaz™nica do Livro e suas multivozes. Na ocasi‹o dividi uma mesa redonda com Mauren Pav‹o e pudemos falar das rela�›es entre oralidade e media�‹o.

Nesse mesmo ano durante a gest‹o do GT, com ajuda (ou talvez muito mais que isso) de DŽlcia Pombo (vice-coordenadora) e Dia Favacho (Secret‡ria) realizamos o Quinto semin‡rio Brasileiro de PoŽticas Orais em Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari entre os dias 13 e 16 de novembro, com apoio do Campos da UFPA de Soure, do Campus da UEPA de Salvaterra e da Prefeitura Municipal de Cacheira do Arari. Em parceira com o IFNOPAP, n‹o pude deixar de relembrar o meu primeiro evento ifinopapiano em que estive nessas tr�s cidades. Foi um desafio para todos n—s que alŽm de todas as dificuldades dos anos estranhos que atŽ hoje vivemos, n‹o t’nhamos um barco de apoio t‹o tradicional nos encontros coordenados pela professora Socorro.

Durante o evento fizemos uma singela homenagem a Socorro Sim›es, com uma mesa redonda da qual participei na companhia de Frederico Fernandes, Eder Jaster, Josebel Akel e Ana Zuelly. Tive a miss‹o de representar alguns aspectos da vida pessoal dela. Depois de nossas falas a performance de Eder Jaster, a entrega de flores e a leitura de uma homenagem feita pro professor Silvio Augusto de Oliveira Holanda (in memorian) deixou a todos bastante emocionados.

Em 2021 dei uma entrevista ao Jornal Di‡rio do Par‡ a prop—sito do Halloween, e dentre outras coisas usei como refer�ncias as hist—rias de assombra�‹o do presentes no corpus do INFOPAP. Neste mesmo ano, em dezembro, agora como como secretario do GT organizamos um grande evento on-line, devido ˆs restri�›es da pandemia, de poŽticas orais com a presen�a de grandes nomes, como a professor Ana Pizarro do Chile.

 

 

Sem Fim

 

Pensar em futuro acad�mico sem pensar que o IFNOPAP esteja direta ou indiretamente presente n‹o faz parte dos meus planos. Toda vez que imagino algum projeto de pesquisa envolvendo alunos de inicia�‹o cient’fica ou atŽ mesmo um poss’vel p—s-doutorado, n‹o consigo pensar que o acervo ou a experi�ncia adquiridas com o projeto n‹o possam estar presentes.

AtŽ hoje, como colaborador do Portal Brasileiro de PoŽticas Orais ainda me dedico a alimentar o site com arquivos do projeto, tentando fazer com aqueles arquivos t‹o valiosos aos estudos culturais n‹o se percam de alguma forma.

O IFNOPAP parece fazer parte de mim de tal forma que qualquer esbo�o de projeto come�a ou termina com ele presente em minha mente. As vezes penso, em meio a devaneios, continuar o projeto de alguma forma e n‹o deixar que o legado da professora Socorro Sim›es se perca na dobras do tempo. Este Ž um projeto que mesmo dando origem a dezenas de trabalhos de conclus‹o de curso, disserta�›es e teses ainda tem muito a oferecer ˆ comunidade acad�mica.

 

 

Refer�ncias

 

Acervo IFNOPAP. BelŽm: UFPA, 1994.

 

CANCLINI, Nestor Garcia. La modernidad despuŽs de la posmodernidad. In: BELLUZO, Ana Maria de Moraes (Org.). Modernidade: vanguardas art’sticas na AmŽrica Latina. S‹o Paulo: UNESP, 1990. p.201-37.

 

CAUNE, Jean. Cultura e comunica�‹o: converg�ncias te—ricas e lugares de media�‹o. S‹o Paulo: UNESP, 2014.

 

ECKERT, Cornelia e ROCHA, Ana Luiza Carvalho da. O tempo e a cidade. Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2006.

 

MCLUHAN, Marshall. A gal‡xia de Gutenberg. S‹o Paulo: Nacional, 1972.

 

MORAES, Eneida de. Aruanda e banho de cheiro. BelŽm: Cejup, 1990.

 

PELEN, Jean-No‘l. Mem—ria da literatura oral: a din‰mica discursiva da literatura oral: reflex›es sobre a no�‹o de etnotexto. Projeto Hist—ria. S‹o Paulo, v.22, p.49-77, 2001.

 

RANIERI, Alexandre. Caleidosc—pio amaz™nico: a oralidade em som, imagem e movimento. Tese de doutorado defendida em 21 de maio de 2015 pela Universidade Estadual de Londrina. Sob orienta�‹o do Prof. Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes.

 

______, Alexandre. Caleidosc—pio amaz™nico: a oralidade em som, imagem e movimento. Paka-Tatu: BelŽm, 2018.

 

SIMÍES. Maria do Socorro. Entrevista. [06/01/2014]. Entrevistador: Alexandre Ranieri. BelŽm: [s. n.], 2014. Grava�‹o digital 1h30min estŽreo.

 

______,  Maria do Socorro; GOLDER, Christophe. BelŽm conta... BelŽm: CEJUP, 1995.

 

VILHENA, Luis Rodolfo. Projeto e Miss‹o: o movimento folcl—rico brasileiro 1947-1964. Rio de Janeiro: Funarte/Funda�‹o Getulio Vargas, 1997.

 

ZUMTHOR, Paul. Introdu�‹o ˆ poesia oral. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

 

 

[Recebido: 10 dez 21]


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DOSSIæ

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Corpo-velho: reflex›es sobre o envelhecimento feminino em narrativas orais da Matintaperera

 

 

Old body: reflections on female aging in the oral narratives of Matintaperera

 

Andressa de Jesus Araœjo Ramos[3]

https://orcid.org/0000-0002-1113-443X

 

Maria do PerpŽtuo Socorro Galv‹o Sim›es[4]

https://orcid.org/0000-0001-7678 -2895

 

Rafaella Contente Pereira da Costa[5]

https://orcid.org/0000-0001-6692-7763

 

Rubenil da Silva Oliveira[6]

https://orcid.org/0000-0001-9846-4695

 

 

Resumo: De acordo com Lesnoff-Caravaglia (1984), o cen‡rio atual ensina e conserva a deprecia�‹o da mulher idosa, iniciando com a representa�‹o da mulher velha nas hist—rias tradicionais como bruxas, feias e malvadas. A anci‹ Ž, conforme Salgado (2002), universalmente ofendida e enxergada como uma carga. ƒ parcela de uma maioria invis’vel cujas dificuldades emocionais, econ™micas e f’sicas continuam, em sua maioria, ignoradas. Contudo, os resultados de nossa pesquisa no acervo do ÒO Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia ParaenseÓ (IFNOPAP) apontam para uma nova tradu�‹o do envelhecimento feminino, atravŽs das narrativas orais da Matintaperera, que n‹o vem carregada de imagens negativas, preconceituosas e nem estereotipadas, pois trazem hist—rias de mulheres velhas que continuam se divertindo, cantando, dan�ando, desejando e sendo desejadas, n‹o est‹o isoladas da sociedade e nem habitam em cavernas, mas que buscam e valorizam o contato com o outro. Em vista disso, este trabalho reflete sobre o envelhecimento feminino em narrativas da Matintaperera. Trata-se de uma pesquisa bibliogr‡fica, com abordagem qualitativa, cuja metodologia consistiu em: a) revis‹o da literatura; b) o estudo da velhice; c) o exame das narrativas orais da Matintaperera; d) sele�‹o de dois contos da Matinta; e) an‡lise liter‡ria das narrativas escolhidas.

Palavras-Chaves: Corpo-velho; Velhice; Feminino; Narrativas Orais; Matintaperera.

 

 

Abstract: According to Lesnoff-Caravaglia (1984), the current scenario educates and conserves the depreciation of the elderly woman, beginning with her representation in traditional stories as witches, ugly, and wicked. According to Salgado (2002), the elderly woman is universally reviled and considered a burden. She is part of an invisible majority whose emotional, financial, and physical difficulties are mostly ignored. However, the findings of our research in the collection "The Imaginary in Popular Oral Narrative Forms of the Paraense Amazon (IFNOPAP)" point to a new translation of female aging via Matintaperera's oral narratives, one that is not laden with negative, prejudiced views and stereotypes because they bring stories of old women who continue to have fun, singing, dancing, wishing and being desired. Women who are not isolated from society and do not live in caves but seek and value contact with others As a result, this research focuses on female aging in Matintaperera narratives. It is a bibliographic study with a qualitative approach, which employs the following methodology: a) literature review; b) study of old age; c) examination of Matintaperera's oral narratives; d) selection of two Matinta tales; and e) literary analysis of the chosen narratives.

Keywords: Old body; Old age; Female; Oral narratives; Matintaperera.

 

 

Introdu�‹o

 

            A professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de P—s-gradua�‹o em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ci�ncias Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mirian Goldenberg em sua obra Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade (2008) salienta que na cultura brasileira atual, certo padr‹o de corpo Ž um bem, talvez o mais cobi�ado pelos sujeitos das classes mŽdias urbanas e tambŽm das classes mais humildes, que o percebem como um importante meio de ascens‹o social. Nesse sentido, o corpo Ž um capital, que alŽm de f’sico Ž simb—lico, econ™mico e social. Desde que seja um f’sico Ò[É] sexy, jovem, magro e em boa formaÓ (GOLDENBERG, 2008, p. 15).

            A apologia ˆ forma perfeita foi, nas palavras de Goldenberg (2008), uma das mais terr’veis fontes de insatisfa�‹o feminina no sŽculo XX. A compuls‹o pelo emagrecimento virou, efetivamente, uma epidemia. E, a procura pelo corpo pleno foi entendida como uma regress‹o no processo de emancipa�‹o da mulher.

            Dados da Žpoca comprovam, conforme Goldenberg (2008), que a brasileira se tornou campe‹ na tentativa de ter um corpo impec‡vel. A revista Time destacou esse fato, trazendo na capa a imagem da apresentadora, cantora e dan�arina brasileira Carla Perez, acompanhada da seguinte legenda: ÒA mania pela cirurgia pl‡stica: as mulheres latino-americanas est‹o esculpindo seus corpos como nunca antes - nos moldes da Calif—rnia. Seria isso um imperialismo cultural?Ó (GOLDENBERG, 2008, p. 52, tradu�‹o nossa)[7]. Segundo o cirurgi‹o pl‡stico Pedro Nery Bersan que publicou uma not’cia no Jornal do Estado de Minas, em 2019, o Brasil ocupa o 2¼ lugar no ranking mundial de Cirurgia Pl‡stica, ficando atr‡s somente dos Estados Unidos. O recente estudo da Sociedade Internacional de Cirurgia Pl‡stica e EstŽtica (Isaps) demonstrou que os brasileiros efetuaram cerca de 2,5 milh›es de procedimentos em 2017, correspondendo a 10,4% das cirurgias estŽticas mundiais.

            Desse modo, em uma cultura em que o corpo Ž um capital no mercado do casamento, no mercado sexual e no mercado profissional, o f’sico gordo, envelhecido ou fora de forma Ž, como ressalta Goldenberg (2008), rejeitado por muitos e, principalmente, pelas mulheres brasileiras que apresentam um verdadeiro pavor de envelhecer. Isso acontece, na verdade, porque ela foi destinada a ser, na vis‹o do homem, um objeto sexual e a partir do momento, no qual se torna envelhecida e feia perde o seu espa�o, o qual foi determinado pela sociedade, tornando-se assim Ò[...] um monstrum que suscita repulsa e atŽ mesmo medoÓ (BEAUVOIR, 2018, p. 129, grifo da autora). Para o poeta l’rico e sat’rico romano Hor‡cio:

A aparecia da mulher idosa Ž hedionda: ÒTeu dente Ž preto. Uma antiga velhice cava rugas em tua fonte...teus seios s‹o fl‡cidos como as mamas de uma jumentaÓ. Ela cheira mal: ÒQue suor, que horr’vel perfume se desprende, por todo lado, dos seus membros fl‡cidosÓ (BEAUVOIR, 2018, p. 128-129).

            Contudo, os resultados de nossas investiga�›es no acervo do IFNOPAP revelaram uma nova tradu�‹o[8] da velhice feminina, que n‹o vem carregada de preconceitos e nem de estere—tipos, mas de novidade, contemporaneidade e liberdade, uma vez que as mulheres velhas[9] descritas nos contos analisados n‹o s‹o assustadoras, nem usam roupas rasgadas e nem realizam o mal, como nas narrativas tradicionais. Mas s‹o mulheres comuns, capazes de se apaixonar, de encantar as pessoas, sentir desejos e n‹o vivem isoladas em casa ou em cavernas, alŽm de apreciarem o contato com o Outro.

            Em vista disso, o objetivo geral deste trabalho foi refletir sobre o envelhecimento feminino em narrativas da Matintaperera, recolhidas pelo IFNOPAP. Para tanto nos amparamos nos estudos de Beauvoir (2018), Mucida (2018), Goldenberg (2008), (2017), Zimerman (2007), Vieira (2007), Viana (2013), Salgado (2002), entre outros. A metodologia consistiu, primeiramente, em uma revis‹o da literatura, depois um estudo sobre a velhice e/ou envelhecimento, em seguida, o exame das narrativas orais da Matintaperera, ap—s isso, selecionamos quatro contos da Matinta e, por fim, a an‡lise liter‡ria das narrativas escolhidas.

            Este artigo, alŽm desta Introdu�‹o e das Considera�›es Finais, apresenta duas se�›es. A primeira, intitula-se ÒVelhas, bruxas e Matintas: reflex›es sobre o envelhecimento femininoÓ reflete sobre a associa�‹o entre a mulher velha e a bruxa, para isso, fizemos um resgate hist—rico da representa�‹o feminina, na fase de transi�‹o do mundo medieval ao mundo moderno. AlŽm disso, nessa se�‹o tambŽm apresentamos a associa�‹o que Ž feita entre a velha e o mito da Matintaperera. A segunda se�‹o, por sua vez, designada ÒA velhice no imagin‡rio nas formas narrativas orais populares da amaz™nia paraenseÓ apresenta a an‡lise liter‡ria de dois contos da Matinta, recolhidos pelo IFNOPAP.

 

 

Velhas, bruxas e matintas: reflex›es sobre o envelhecimento feminino

 

            Beauvoir (2018) acentua que tanto na Antiguidade quanto no folclore, a mulher velha foi constantemente associada a uma feiticeira. Fran�ois Rabelais retrata a sibila de Panzoust com caracter’sticas de uma anci‹ em condi�‹o deplor‡vel, visto que estava Ò[...] malvestida, malnutrida, desdentada, remelosa, curvada, nariz escorrendoÓ (BEAUVOIR, 2018, p. 158). Essa aproxima�‹o entre a mulher velha e a bruxa foi constru’da no passado e vem carregada, de acordo com Vieira (2007), de preconceitos e estere—tipos.

            A bruxa Ž imaginada como sendo uma Ò[...] mulher, velha, cansada, solteira, de cabelos brancos, com uma verruga no nariz e possuidora de uma risada assombrosaÓ (VIEIRA, 2007, p. 01). Essa representa�‹o negativa da bruxa pode ser confirmada no Dicion‡rio, que a define como uma Ò[É] mulher muito feia e/ou azeda e mal-humoradaÓ (HOUAISS, 2009, p. 333). Neste sentido, os livros infanto-juvenis costumam narrar hist—rias onde existe uma fada boa e formosa, ˆs vezes loira, e uma bruxa m‡ e monstruosa.

            Como vimos, a bruxa Ž descrita, na maioria das hist—rias tradicionais, como uma velha de apar�ncia assustadora e que realiza o mal. PorŽm tambŽm encontramos narrativas, nas quais ela Ž vista como alguŽm est‡ sempre doente, que apresenta Ò[...] alguma defici�ncia f’sica, idosa, mentalmente perturbadaÓ (VIEIRA, 2007, p. 01-02).

            As bruxas, no fim da Idade MŽdia e in’cio da Idade Moderna foram perseguidas pela Igreja Cat—lica porque, de acordo com Viana (2013), efetivaram um pacto com o Belzebu, atravŽs do qual desprezavam o catolicismo. Esse movimento de persegui�‹o religiosa e social ficou conhecido como a ÒCa�a ˆs bruxasÓ que durou Ò[É] aproximadamente tr�s sŽculos, come�ando em 1450 e terminando em 1750 com a ascens‹o do IluminismoÓ (VIEIRA, 2007, p. 02). Na realidade, as bruxas n‹o apareceram automaticamente, mas foram

[...] fruto de uma campanha de terror realizada pela classe dominante. Poucas dessas mulheres realmente pertenciam ˆ bruxaria, porŽm, criou-se uma histeria generalizada na popula�‹o, de forma que muitas das mulheres acusadas passavam a acreditar que eram mesmo bruxas e que possu’am um Òpacto com o dem™nioÓ. (VIEIRA, 2007, p. 02).

            No livro Malleus Maleficarum (O Martelo das Bruxas ou O Martelo das feiticeiras), Heinrich Kraemer e James Sprenger explicavam que as bruxas se aliavam, conforme Viana (2013), aos diabos em sabats, orgias e ritos de profana�‹o aos sinais do cristianismo. Seres diab—licos eram convocados em preces que combinavam frases crist‹s com voc‡bulos e sinais hereges. Os inquisidores do sŽculo XV revelam que as bruxas deliberavam seus sacrilŽgios atravŽs de contrato expl’cito de lealdade, concebido no coito carnal com os diabos. O voto sacrilŽgio poderia ser realizado em ritual pœblico ou em qualquer hora em segredo. Em troca de sua alma, as bruxas ganharam poderes que eram usados para causar problemas temporais. 

            Para Kramer e Sprenger todas as bruxas entregavam-se, segundo Viana (2013), de corpo e alma ˆ pr‡tica do mal. As aparentes bruxas eram reconhecidas por um grupo de aspectos f’sicos e comportamentais e incriminada de entregarem-se, constantemente, a todo tipo de atos libidinosos com ’ncubo e sœcubos. As crian�as cujas m‹es, por justifica�‹o de algum distœrbio passional ou mental, ofertavam o filho, cegamente, desde o ventre, ao Dem™nio, eram a todo momento, atŽ a sua morte, propensas ˆ perpetra�‹o da bruxaria. Normalmente, todas as crian�as n‹o batizadas estavam em perigo, pois as bruxas as consumiam ou ofereciam a Lœcifer.

            Kramer e Sprenger confessavam que as bruxas exterminavam, nos estudos de Viana (2013), os animais e arruinavam as planta�›es. Eram capazes de seduzir animais e homens unicamente com um sinal de m‹os ou com o olhar. Elas tambŽm recorriam a feiti�os ou amuletos, que eram guardados sempre em locais discretos ou secretos. Acreditava-se que, atravŽs delas, os dem™nios seriam capazes de produzir raios, tempestades comuns e de pedras; levar a infecundidade aos animais e aos seus donos; intoxicar rios e po�os; exterminar lavouras com a utiliza�‹o de lagartas daninhas ou grandes nuvens de gafanhotos. As bruxas tinham poder de se metamorfosear em animais, como cachorro, gato, lobo e serpente, e de transformar homens em feras. Para Kramer e Sprenger, todas as doen�as do corpo, atŽ mesmo a lepra ou a epilepsia, poderiam ser, nas palavras de Viana (2013), promovidas pelas bruxas. Elas tambŽm usavam ervas que deixavam os homens alegres, tristes, tontos ou loucos. Com ajuda diab—lica, elas podiam, pois, afetar os sujeitos de todas as formas poss’veis, desgra�ando-os em suas profiss›es, em sua reputa�‹o, em seu corpo, em seu intelecto e em suas vidas.

            Vieira (2007) destaca que quando revivemos o contexto hist—rico da Idade MŽdia, vemos que bruxas poderiam ser as parteiras, as enfermeiras e as suas auxiliares. Dominavam e compreendiam o uso de plantas medicinais para a cura de enfermidades e epidemias nas comunidades em que moravam e, regularmente, possu’am um alto poder social. Elas eram, constantemente, a œnica esperan�a de atendimento mŽdico para mulheres e indiv’duos carentes financeiramente. Elas foram, por um longo tempo, mŽdicas sem t’tulo. Aprendiam o of’cio umas com as outras nas noites das igrejas e repassavam esse conhecimento para suas descendentes, vizinhas e confidentes. O semi—logo, antrop—logo e fil—sofo colombiano Jesœs Mart’n-Barbero ressalta que:

Eram as mulheres que presidiam as vig’lias, as reuni›es das comunidades alde‹s ao cair da tarde, nas quais se conservaram alguns modos tradicionais de transmiss‹o cultural. Vig’lias em que, junto ao relato de contos de terror e de bandidos, faz-se a cr™nica dos sucessos das aldeias, transmite-se uma moral de provŽrbios e partilham-se receitas medicinais que reœnem um saber sobre as plantas e o ciclo dos astros. A bruxa representa, junto com os levantes, segundo Michelet, um dos modos de express‹o fundamentais da consci�ncia popular (MARTêN-BARBERO apud VIEIRA, 2007, p. 02).

            Na verdade, essas mulheres concebidas como bruxas n‹o estavam, segundo Vieira (2007), utilizando poderes sobrenaturais para produzir suas po�›es, o que muitos assistiam como a pr‡tica de bruxaria eram na realidade, os in’cios do que atualmente conhecemos como aromaterapia, fitoterapia e farmacologia domŽstica. Ali‡s quem de n—s nunca foi curado de uma gripe com um chazinho feito pela nossa av—? Para essas senhoras, a produ�‹o de tais Òpo�›esÓ n‹o era um simples modo de colocar todos os elementos juntos, acompanhar as instru�›es e aguardar o resultado. Essas senhoras estavam, mesmo que inconscientemente, experimentando suas Òpo�›esÓ, elas possu’am oportunidades para pensar/estudar e obter conhecimento com seus erros e acertos. Em uma vis‹o patriarcal, era muita informa�‹o para uma mulher. AlŽm dessa poss’vel intimida�‹o ao dom’nio da ordem simb—lica, a ocorr�ncia dessas mulheres utilizarem seus saberes para a elimina�‹o de epidemias que por acaso sucediam em seus vilarejos, desencadeou a Ò[...] ira da institui�‹o mŽdica masculina em ascens‹o, que viu na Inquisi�‹o uma maneira de eliminar suas concorrentesÓ (VIEIRA, 2007, p. 02). Lamentavelmente, muito sobre medicina natural que hoje poderia salvar vidas foi exterminado quando Ò[...] essas mulheres foram queimadas nas fogueiras ou enforcadas. Percebo que n‹o somente os corpos foram ali queimados, mas tambŽm seus manuscritos, ervas, po�›es, e seus conhecimentos anotadosÓ (VIEIRA, 2007, p. 02).

            Carvalho (2013) salienta que Russel e Alexander asseguram que bruxas existem, e que nos dias de hoje a bruxaria Ž reconhecida como religi‹o. Portanto devemos denunciar uma imagem formada pela Inquisi�‹o e repassada atravŽs do tempo no imagin‡rio, alŽm disso a estudiosa salienta que precisamos deixar claro que h‡ alguns grupos com particularidades normalmente alusivas ˆ bruxaria, mas que n‹o s‹o: o curandeiro que realiza magia com o intuito de derrotar bruxaria, a possess‹o que Ž a carga interna de maus esp’ritos, e a obsess‹o que Ž o repente externo e f’sico por maus esp’ritos.

            Em resumo, a transforma�‹o da feiti�aria em algo ruim foi, no entendimento de Carvalho (2013), um profundo processo de mudan�a da sociedade e da religi‹o pag‹, mesmo que de forma gradativa ocorreu em toda a Europa Ocidental. Santo Agostinho, como grande l’der crist‹o afirmava que Ò[...] a magia, a religi‹o e a feiti�aria pag‹s eram obras inventadas pelo diabo e ao referenciar deuses pag‹os, ciente ou n‹o do feito estavam na verdade invocando dem™niosÓ (CARVALHO, 2013, p.173). Essa justificativa utilizada pelo Santo e pela Igreja converteu n‹o cat—licos em efetivos monstros confiantes da recŽm-nascida divindade, que corria perigos diante da amea�a cruel, por isso deveria ser destru’da para Ò[É] n‹o atrapalhar a salva�‹o do mundo, pois a pr‡tica de feiti�aria era um crime contra a sociedade e contra Deus. (CARVALHO, 2013, p.173).

            Josebel Akel Fares (1997) acentua que os termos Bruxas e Feiticeiras aparecem, em alguns autores, com significados distintos e estes, essencialmente, coabitam na indissociabilidade da natureza, ou n‹o, dos artif’cios m‡gicos. Na vis‹o de alguns estudiosos, a feiti�aria Ž:

[É] uma pr‡tica aprendida, n‹o Ž inata. As feiticeiras estudam o uso dos elementos animais, minerais e vegetais para elaborara seus fluidos, ungŸentos, ch‡s que receitam para aqueles que as procuram, n‹o importam se os remŽdios curam feridas ou abrem chagas (FARES, 1997, p. 138).

            Por outro lado, as Bruxas, na concep�‹o de alguns autores, estudados por Fares (1997) possuem, igualmente, a faculdade de elaborar receitas m‡gicas, entretanto este dom Ž inato, isto Ž, nasce com elas. Neste estudo, assim como Fares (1997), consideramos os voc‡bulos (bruxas e feiticeiras) como sin™nimos, pois ambas se descobrem e mudam de trajet—ria, e aqui s‹o pensadas como sujeitos que Ò[É] desenvolvem pr‡ticas m‡gicas, seja para ajudar esp’ritos demon’acos incorporados, seja por dom heredit‡rio, seja por estudiosos e experimenta�›esÓ (FARES, 1997, p. 138 – 139).

            Como observamos, a mulher velha foi historicamente e culturalmente comparada a uma bruxa europeia, descrita como Ò[...] enrugada, vesga, ˆs vezes, desdentada ou com alguns cacos negros espalhados pela boca babosa, verruga peluda no queixo protuberante ou na ponta do enorme nariz aduncoÓ (SOUZA, 1995, p. 14). AlŽm desse aspecto amedrontador, a anci‹ tambŽm foi constantemente associada a alguŽm que est‡ com uma doen�a muito grave, podendo morrer a qualquer momento. Essa associa�‹o entre a velha e a bruxa faz com que tanto a mulher como a velhice sejam vistas de forma negativa e estereotipada. No caso da mulher isso acontece porque no patriarcado, sob domina�‹o masculina, o corpo feminino foi limitado, segundo Cesidio e Boris (2007) a ser um objeto sexual, uma vez que seu corpo era sujeitado ao prazer e ao desejo do homem. No casso da velhice isso ocorre porque n‹o fomos ensinados a conceber a senesc�ncia como um processo natural, pois vivemos em

[...] uma cultura em que os jovens e adultos procuram ignorar a realidade do envelhecimento gradual de cada um. Com o progresso moderno, diminu’mos o valor do envelhecer, n‹o consideramos o idoso como detentor de extensos e s—lidos conhecimentos, talentos e experi�ncias que podem auxiliar as gera�›es futuras. (GUIMARÌES, 2007, p. 14).

            Sobre a aproxima�‹o entre as mulheres velhas e as bruxas podemos mencionar o mito da Matintaperera[10]. Essa lenda conta a hist—ria de uma anci‹ que se metamorfoseia em p‡ssaro durante a noite. A maioria das narrativas cl‡ssicas dessa personagem apresentam uma vis‹o distorcida, negativa e preconceituosa dessa entidade e, sobretudo, da velhice feminina que a coloca como sendo uma mulher de apar�ncia assustadora, debilitada e doente, que realiza o mal devorando as crian�as e trazendo epidemias e enfermidades as comunidades locais.

 

Figura1 - Imagem do rosto da Matintaperera com tratamento digital

 

 

Fonte: (COSTA, 2013, p. 91)

           

              Na cultura ind’gena, a Matintaperera Ž concebida, de acordo com Carvalho (2014), como uma perigosa feiticeira, ou melhor, como uma bruxa velha que, na juventude, cometeu graves pecados e, por conta disso, precisa cumprir o fado. Cumprir o fado significa efetivar o destino que foi estabelecido por intermŽdio de uma for�a sobrenatural. Os indiv’duos que cumprem um fado, nas palavras de Carvalho (2014), s‹o julgados como sujeitos que efetivaram Ò[É] um pacto com o dem™nio em troca de alguma vantagem ou vingan�as pessoais, recebendo por isso uma puni�‹o, como a de se transformarem em animais durante a noiteÓ (CARVALHO, 2014, p. 225). C‰mara Cascudo, por sua vez, defende que a Matinta Ž o nome de

[...] uma pequena coruja, que se considera agourenta. Quando, a horas mortas da noite, ouvem cantar a mati-taper�, quem a ouve e est‡ dentro de casa, diz logo: Matinta, amanh‹ podes vir buscar tabaco. ÒDesgra�ado – deixou escrito Max. J. Roberto, profundo conhecedor das coisas ind’genas – quem na manh‹ seguinte chega primeiro ˆquela casa, porque ser‡ ele considerado como o mati. A raz‹o Ž que, segundo a cren�a ind’gena, os feiticeiros e pajŽs se transformavam neste p‡ssaro para se transportarem de um lugar para o outro e exercer suas vingan�as. Outros acreditam que o mati Ž uma maaiua, e ent‹o o que vai ˆ noite gritando agoureiramente Ž um velho ou uma velha de uma s— perna, que anda aos pulosÓ (CASCUDO, 2012, p. 442).

            Contudo, os resultados de nossas investiga�›es das narrativas orais da Matintaperera, recolhidas pelo IFNOPAP revelaram uma nova tradu�‹o da velhice feminina, que n‹o vem carregada de preconceitos e nem de estere—tipos, mas de novidade, contemporaneidade e liberdade.  Nesse sentido, na pr—xima se�‹o apresentamos a an‡lise de dois contos da Matintaperera, ambos recolhidos pelo IFNOPAP, retiradas da colet‰nea de textos Abaetetuba contaÉ, que refletem sobre a representa�‹o da velhice feminina.

 

 

 

A velhice no Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense

 

Ò[É] tornavam a contar que essa velha era Matintaperera

(SIMÍES; GOLDER, 1995c, p. 20).

 

            Come�amos, pois, esta se�‹o de an‡lise liter‡ria com fragmento do conto ÒFiu! Fiu!Ó, narrado por Manoel da Fonseca e recolhido pelo Projeto IFNOPAP, que revela hist—ria de Dona Laura, uma mulher de 70 anos que se transformava em Matintaperera, visto que Ò[É] L‡, tinha uma velha chamada Laura, uma velha, uma velha, assim, de uns 70 anos, sabe? E essa velha, tornavam a contar que essa velha era MatintapereraÓ (SIMÍES E GOLDER, 1995c, p. 20, grifo nosso). Percebeu-se, neste trecho de narrativa, que a palavra velha comparece cinco vezes, confirmando assim a intensa rela�‹o entre a personagem e a senesc�ncia.

            A velhice retratada na maioria das hist—rias tradicionais da Matintaperera Ž caracterizada, geralmente, pela presen�a acentuada de adjetivos negativos, que contribuem para uma vis‹o preconceituosa e estigmatizada do envelhecimento feminino. Consoante Ribeiro (2007), Arist—teles concebia a senesc�ncia como uma quarta idade, determinada pela senilidade[11], degenera�‹o e doen�a, colocando a senectude nos 50 anos de idade. Hip—crates relacionou a senioridade ao ÒInvernoÓ aos 56 anos. S�neca (4-65 D.C.) tambŽm considerou a velhice numa vis‹o negativa, como uma enfermidade incur‡vel.

            Ribeiro (2007) salienta ainda que na Idade Renascentista e na Idade MŽdia, a compreens‹o negativa do envelhecimento continuou a manifestar-se: a mulher velha era concebida como bruxa e cœmplice de agentes demon’acos, e os velhos no coletivo, eram enxergados como submissos e escravos dos mais fortes. Nesta Žpoca, Santos (2008) evidencia que se destacava, especialmente a juventude e a formosura das mulheres juvenis.

            Contudo, veremos nesta se�‹o uma nova tradu�‹o do envelhecimento feminino, atravŽs das narrativas orais da Matintaperera, recolhidas pelo IFNOPAP, que revelam hist—rias de mulheres comuns, que envelheceram, mas que continuam passeando, se divertindo, cantando, dan�ando, se apaixonando, amando, desejando e sendo desejadas, n‹o est‹o isoladas e nem escondidas em cavernas, mas que buscam e valorizam o contato com o outro (alteridade).  

            Voltando ao conto ÒFiu! Fiu!Ó, o narrador conta que, certo dia, Dona Laura ficou doente de   uma febre muito forte que levou muitos sujeitos a —bito e como era costume dos mais velhos socorrer quem estivesse enfermo, Raimundo terminou de fazer a farinha no final da tarde, umas seis e meia e decidiu ir do trabalho direto ˆ casa da velha Laura para prestar socorro. PorŽm, no meio do caminho algo inusitado aconteceu, ela pulou: Ò[É] Pah! E suspendeu a bunda pra cima e a saia, e acendeu a bunda pro lado dele e fez assim: -Fiu, Matintaperera! A’, ela se endireitou e disse: - Agora vai contar, ouviste?Ó (SIMÍES E GOLDER, 1995c, p. 21). Neste conto, observamos que Raimundo se surpreende com uma idosa cheia de energia, vitalidade e muita sensualidade. A velha demonstrou ainda n‹o se preocupar com o julgamento da sociedade em rela�‹o ao seu corpo envelhecido, dado que quando viu Raimundo n‹o escondeu seu corpo e nem o rejeitou, mas o aceitou e o exibiu, provando a ele e a todos que o seu corpo-velho n‹o Ž feio, o que Ž rid’culo Ž o preconceito em rela�‹o a ele. Nesta narrativa, tambŽm Ž poss’vel fazermos uma reflex‹o em torno da sexualidade feminina na velhice, uma vez que foi estabelecido um prot—tipo que a velha Ž um sujeito assexuado e isso Ž uma cren�a que n‹o se sustenta.

            Carmen Salgado (2002) salienta que a cultura hispano-americana, especialmente, assimila a sexualidade da mulher velha como fonte de risibilidade, apresentando-se como c™mica e inapropriada. Esse preconceito acontece, em geral, ao igualar equivocadamente a sexualidade feminina a sua potencialidade reprodutiva. Essa discrimina�‹o para com a anci‹ est‡ profundamente associada ao Ò[...] sexismo e Ž a extens‹o l—gica da insist�ncia de que as mulheres valem na medida em que s‹o atrativas e œteis ao homemÓ (SALGADO, 2002, p.12). Dentro desta situa�‹o, isto Ž, na persist�ncia das mulheres de serem atraentes a aproxima�‹o delas com a velhice resulta aterrorizante e assustadora e terr’vel, pois elas t�m sido Ò[...] socializadas e treinadas para temer a velhice. Negando o pr—prio processo de envelhecimentoÓ (SALGADO, 2002, p.12).

            PorŽm, Araœjo e Carlos (2018) destacam que a sexualidade n‹o se restringe ao ato sexual em si, mas sim em uma combina�‹o de prazer, cumplicidade e amor entre dois indiv’duos, como modo de percep�‹o de seu corpo e do outro. Dependendo da maneira como a velhice Ž concebida e das transforma�›es que ela pode sofrer em inœmeros aspectos da vida, o sexo nesse est‡gio pode sim promover liberdade e garantir o prazer. E, para isso Ž necess‡rio que a velha use sua criatividade para alcan�ar novas maneiras de satisfa�‹o.

            O conto, intitulado ÒFi—te!Ó, narrado por Joana dÔArc nos revela a hist—ria de uma velha, que surgiu no meio do trajeto da viagem de um grupo de mœsicos a bordo de uma canoa, pedindo carona, os quais atenderam o seu pedido. Depois de colocarem a idosa na canoa, eles sa’ram, foram remando, remando e de repente, ÒEla virou a bunda pra cima e deu um assobio. – Fi—te! Matintaperera. Ela fezÓ (SIMÍES E GOLDER, 1995c, p. 175). Como podemos observar nesta narrativa, a mulher velha n‹o est‡ isolada da sociedade e nem do mundo e muito menos est‡ deitada em casa deprimida, esperando a morte chegar, mas est‡ querendo, assim como todo mundo, passear, viajar, se divertir, caminhar, estar entre os velhos, mas tambŽm entre os jovens, entre os mœsicos. A mulher velha, nesta narrativa, quer andar de canoa, participar de eventos, apresenta�›es, shows, amar e ser amada, desejar e ser desejada, dar e receber carinhos. Desse modo, este conto nos revela que a mulher na velhice n‹o deixou de ter os mesmos sentimentos da juventude e nem Ž inœtil porque deixou de ter filhos, ela continua Ò[...] cantando, dan�ando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo tabus etcÓ (GOLDENBERG, 2017, p. 11).

            Como podemos observar, anteriormente, as duas narrativas orais da Matintaperera nos revelam hist—rias de mulheres velhas que n‹o s‹o seres repugnantes e assustadores que realizam o mal, fazendo alus‹o ˆs bruxas europeias, mas que trazem uma nova tradu�‹o da velhice feminina, pois elas se tratam de velhas agitadas, animadas e que valorizam o contato com o outro.

            As velhas dos contos ifnopapianos n‹o sentem vergonha de seus corpos envelhecidos, mas os revelam, sem medo, sem tabu, o que traz reflex›es importantes em rela�‹o a velhice e a sexualidade. AlŽm disso, notamos nos contos que as idosas n‹o querem apenas estar apenas com pessoas da idade delas, mas querem conversas com outras velhas e tambŽm com jovens, adolescentes e crian�as para trocar experi�ncias, pois elas t�m muito o que falar e ensinar, comprovando assim que a velhice n‹o interfere nas rela�›es sociais e na sexualidade, n‹o querem tambŽm ficar ÒpresasÓ em casa, mas sair, viajar, passear, namorar e se divertir.

            Conhecer essas hist—rias de Matintapereras, representadas por mulheres velhas Ž importante, pois nos revelam um novo olhar sobre a velhice feminina, para n‹o cairmos nos erros de acharmos que as velhas de hoje (sŽculo XXI) s‹o as mesmas de outrora, isso est‡ mudando, pois elas n‹o est‹o em cavernas, n‹o est‹o ÒtrancadasÓ em casa. Elas s‹o de uma nova gera�‹o que, segundo Goldenberg (2017), modificou comportamentos e conceitos, que tornou a sexualidade natural e prazerosa, que criou variados arranjos amorosos e conjugais, que legitimou modernas formas de fam’lia e que expandiu as chances de ser m‹e, pai, av™ e av—.

 

 

Considera�›es finais

 

            Este artigo objetivou refletir sobre o envelhecimento feminino em narrativas da Matintaperera, recolhidas pelo IFNOPAP. Para tanto tivemos com referencial te—rico os estudos de Beauvoir (2018), Mucida (2018), Goldenberg (2008), (2017), Zimerman (2007), Viana (2013), Vieira (2007), Salgado (2002), entre outros.

            Consideramos ter alcan�ado nosso objetivo geral, uma vez que apresentamos a an‡lise liter‡ria de dois contos da Matintaperera, da colet‰nea Abaetetuba contaÉ que revelaram uma nova tradu�‹o da mulher na velhice, que n‹o vem repleta de preconceitos e nem de estere—tipos, mas de novidade, contemporaneidade e liberdade, uma vez que elas s‹o descritas como mulheres comuns, como todos n—s, capazes de se apaixonar, de encantar as pessoas, sentir desejos e que n‹o vivem isoladas, mas que apreciam o contato com o Outro.

            Nesta pesquisa fizemos importantes reflex›es sobre a aproxima�‹o que se estabeleceu historicamente e culturalmente entre a velhice e a bruxa, trazendo o pensamento de Beauvoir (2018), os estudos de Viana (2013) e Vieira (2007) sobre a representa�‹o de mulher velha no per’odo de transi�‹o entre o mundo medieval para o moderno, bem como as contribui�›es te—ricas de Carvalho (2013) sobre a no�‹o que temos hoje de bruxaria. AlŽm disso, tambŽm discorremos sobre rela�‹o entre a velhice, a bruxa e Matintaperera, apresentando as defini�›es da personagem.

            Acreditamos que esta pesquisa trar‡ importantes contribui�›es ao estudo da velhice feminina, pois em nossas investiga�›es nos Reposit—rios Institucionais on-line das renomadas Universidades verificamos que existem pouqu’ssimos trabalhos sobre esse tema na ‡rea de Ci�ncias Humanas, sobretudo, nos Cursos de Doutorado em Letras (Literatura) e essa car�ncia acaba se tornando algo extremamente preocupante, pois nos impede de desenvolvermos nossa fun�‹o social, enquanto liter‡rios que Ž o de humanizar os sujeitos atravŽs dos textos liter‡rios, conforme afirma Ant™nio Candido (1989). Desse modo, este estudo, alŽm de nos ajudar a desenvolvermos nossa fun�‹o social enquanto liter‡rios nos possibilitar‡ entendermos a mulher velha para alŽm de suas representa�›es f’sicas, dado que o envelhecer n‹o pressup›e apenas mudan�as corporais, mas tambŽm psicol—gicas, sociais, econ™micas, pol’ticas e culturais.

 

 

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[Recebido: 16 abr 21 - Aceito: 16 mai 21]

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O maravilhoso amaz™nico, uma poŽtica da alteridade

 

The Amazonian Marvellous, Poetics of Alterity

 

 

Sylvia Maria Trusen[12]

https://orcid.org/0000-0003-4248-929X

 

 

Resumo: De modo geral, as pesquisas em torno das narrativas tradicionais de fundo maravilhoso assentam-se sobre a dicotomia real x fabuloso, natural x sobrenatural, veross’mel x inveross’mel, conforme lemos nas postula�›es de Todorov (1975), Bessi�re (1974), Max LŸthi (1992), Hetmann (1982), dentre outros. Contudo, quando tais teoriza�›es s‹o confrontadas com o corpus narrativo de tradi�‹o m’tica e oral, recolhido na Amaz™nia Paraense, elas revelam-se insuficientes para tratar da recep�‹o do maravilhoso neste territ—rio, uma vez que tais narrativas n‹o se escoram na antinomia assinalada acima.  Partindo de tal constata�‹o, elegeu-se a categoria da alteridade, conforme proposi�‹o de Victor Bravo, sugerindo, assim, poss’vel clave para o estudo do que nomeia-se aqui maravilhoso amaz™nico. Desse modo, revistando os textos consagrados em torno do g�nero, tais como o Introdu�‹o ˆ literatura fant‡stica (T. Todorov), Das europŠische VolksmŠrchen (M. Luthi), Le rŽcit fantastique (I. Bessi�re), por um lado, e, por outro, a recolha de narrativas da Amaz™nia paraense efetivada pelo Projeto O Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense, o artigo destaca a categoria da alteridade como termo de import‰ncia central para a leitura de tais narrativas.

Palavras-Chave: Maravilhoso, Alteridade, Amaz™nia

 

Abstract: In general, the research of the traditional narratives with a background of the Marvellous are based on the real dichotomy x fabulous, natural x supernatural, verossimel x unlikely, as we read in the postulations of Todorov (1975), Bessi�re (1974), Max LŸthi (1992), Hetmann (1982), among others. However, when such theories are confronted with the narrative corpus collected in the Amazon Region of Par‡, they are insufficient to deal with the reception of the marvellous in this territory, since such narratives do not stand in the antinomy indicated above. Starting from this observation, the category of alterity was chosen, according to Victor Bravo's proposition, thus suggesting a possible key to its study. Thus, reviewing the established texts around the genre, such as Introduction to fantastic literature (T. Todorov), Das europŠische VolksmŠrchen (M. Luthi), Le rŽcit fantastique (I. Bessi�re), on the one hand, and, on the other, another, the collection of narratives from the Par‡ Amazon carried out by the Project O Imagin‡rio nas Formas Oral Narrativas Populares da Amaz™nia Par‡, the article highlights the category of alterity as a term of central importance for the reading of such narratives.

Keywords: Marvellous, Alterity, Amazon

 

O t’tulo dado a este trabalho coloca a quem o escreve e, possivelmente, a quem o l�, diante de pelo menos duas indaga�›es – o que o autor deste texto compreende por maravilhoso amaz™nico, e qual o elo vislumbrado com o que se denomina poŽtica da alteridade.

O termo maravilhoso, recorrente na teoriza�‹o que se debru�a sobre as fronteiras da literatura do fant‡stico (TODOROV, 1975)  ou, de modo mais abrangente, do ins—lito (GARCIA, 2012) Ž frequentemente invocado para tratar de uma multiplicidade de formas art’sticas – n‹o s— liter‡rias (SCHUHL, 1969) – que por si s— demandaria uma vasta revis‹o bibliogr‡fica, inexequ’vel nos limites de um artigo. Schuhl (1969) j‡ o anotou, advertindo que para dar conta de sua magnitude haveria que se enveredar por sendas t‹o diversas como as do maravilhoso religioso, feŽrico, ut—pico, m’tico, cient’fico, etc. Todorov (1975), de modo mais conciso, referiu-se a tr�s modos de representa�‹o do maravilhoso na literatura – o ex—tico, o hiperb—lico e o intelectual – ao passo que I. Chiampi (1980) teorizou acerca do realismo maravilhoso estabelecendo as balizas para a distin�‹o do realismo m‡gico.

Face ˆ amplitude dos estudos e diante das mœltiplas configura�›es que o g�nero pode assumir, importa aqui ater-se apenas aos trabalhos cuja leitura torna-se necess‡ria para compreens‹o do que se designa maravilhoso amaz™nico. Inevit‡vel no percurso deste texto Ž o Introdu�‹o ˆ literatura fant‡stica, obra na qual o fant‡stico Ž descrito como g�nero evanescente, provisoriamente sustentado sobre as hesita�›es das personagens (e, por extens‹o, do leitor impl’cito), diante de uma realidade, tornada a seus olhos inveross’mil ou inacredit‡vel. O maravilhoso, por conseguinte, constituiria g�nero, em que se encena o sobrenatural sem que os fen™menos descritos despertem qualquer rea�‹o de assombro por parte do leitor.

No fim da hist—ria fant‡stica, o leitor, quando n‹o a personagem, toma, contudo, uma decis‹o, opta por uma ou outra solu�‹o saindo desse modo do fant‡stico. Se ele decide que as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os fen™menos descritos, dizemos que a obra se liga a um outro g�nero: o estranho. Se ao contr‡rio, decide que se devem admitir novas leis da natureza pela quais o fen™meno pode ser explicado, entramos no g�nero maravilhoso. (TODOROV, 1975, p. 42)

Para Todorov, portanto, o maravilhoso, como g�nero liter‡rio delimitado pelo fant‡stico, depende da presen�a ou nega�‹o da credulidade (por parte da personagem e/ou leitor)  diante de fen™meno ins—lito.

Tal descri�‹o do fant‡stico, vale assinalar, deve bem mais ao ensaio freudiano, ÒO EstranhoÓ (FREUD, 1996a), do que admite seu tratado. Conquanto o linguista e pensador bœlgaro fa�a refer�ncia expl’cita ao artigo de 1919, a men�‹o pouco revela do fato de que boa parte de sua fundamenta�‹o erige-se sobre este trabalho de Freud. Com efeito, deve-se primeiramente ao psicanalista, em seu estudo sobre a novela de Hoffmann, a diferencia�‹o entre o maravilhoso feŽrico e o estranho, tomando por base o contraste com a realidade constru’da pelo leitor. Assim, se o texto freudiano j‡ assinalara que Òo reino da fantasia depende, para seu efeito, do fato de que o seu conteœdo n‹o se submete ao teste de realidade Ò (FREUD, 1996, p. 266), ele antecipa muito das proposi�›es de Todorov.  Em ambos, entretanto, a descri�‹o do maravilhoso comparece sob a clave do fabuloso, extraordin‡rio, daquilo que n‹o se submete aos critŽrios de veracidade - aspecto que pode ser lido em uma variedade de textos te—ricos produzidos a respeito, particularmente no continente europeu. Assim tambŽm, por exemplo, o do su’�o Max LŸthi ao distinguir os elementos constitutivos do conto maravilhoso (MŠrchen)[13], que observa.

No conto maravilhoso (MŠrchen), o her—i que encontra um animal, planta, ou astro falante, n‹o demonstra nem medo nem espanto. Isto, n‹o porque o animal ou planta falante lhe fosse familiar; eles n‹o integram seu habitat natural. Nada indica que ele soubesse da exist�ncia de tais animais falantes. Mas ele n‹o se admira, e n‹o teme: o sentimento para o extravagante lhe falta. Para ele, tudo parece pertencer ˆ mesma dimens‹o. (1992, p. 10) [14]

Assim, no�›es tais como fabuloso, extraordin‡rio, sobrenatural s‹o termos recorrentes na literatura que aborda esse g�nero descrito na regi‹o lim’trofe do fant‡stico, como se l� tambŽm, dentre outros, em Hetmann (1982) e Bessi�re (1974).

O problema, porŽm, como j‡ se assinalou anteriormente (TRUSEN, 2015) Ž que tais categorias operam a partir de conven�›es extremamente vari‡veis e cada vez mais deslizantes na contemporaneidade. Se a vasta literatura medieval, com suas ilhas venturosas, seus objetos m‡gicos e protetores sugerem em seu amplo espectro a cren�a fincada no mirabilia (LE GOFF, 1994), a compila�‹o de narrativas amaz™nicas, no outro extremo temporal e geogr‡fico, igualmente testemunha a incorpora�‹o do maravilhoso ao mundo prosaico e cotidiano.

Assim, considera�›es como as de Hetmann que, citando a Polivka e Bolte afirma que o conto maravilhoso (MŠrchen) Òs‹o hist—rias extraordin‡rias n‹o ancoradas nas condi�›es de vida real, e que ouvimos com maior ou menor prazer, embora as consideremos inacredit‡veisÓ (1982, p. 12), conquanto sejam apropriadas no contexto europeu, pouco auxiliam na compreens‹o das narrativas do maravilhoso amaz™nico.

A imprecis‹o de seus termos deriva basicamente de dois fatores – o primeiro deles porque se referem a um conjunto de textos que passou por percurso que se vem assinalando, em outros trabalhos (TRUSEN, 2012), como processo de domestica�‹o e alijamento do maravilhoso ao ‰mbito dos lares burgueses quando, a partir do surgimento do pensamento ilustrado, assiste-se a crise da cosmologia crist‹ que ter‡, como efeito mais imediato, a emerg�ncia do sujeito racional como entidade privilegiada para o conhecimento das coisas no mundo. Efetivamente, pontua, igualmente a respeito, David Roas:

A rejei�‹o ao sobrenatural se traduziu tambŽm em condena�‹o de seu uso liter‡rio e estŽtico. As perspectivas ilustradas da segunda metade do sŽculo XVIII enalteceram os conceitos de verossimilhan�a e mimese como armas fundamentais para desterrar a presen�a do sobrenatural e do maravilhoso dos textos liter‡rios. (ROAS, 2006, p. 24) [15]

Explica-se, assim, que as teoriza�›es em torno do ins—lito terminem, majoritariamente, a referir-se ao conto maravilhoso, mediante sua identifica�‹o e circunscri�‹o a —rbita do moralizante, anotando nele fei�‹o resignat—ria.

Ele [o conto maravilhoso] usa o universo dos fantasmas e da n‹o-coincid�ncia do acontecimento com a realidade evidente, n‹o para romper nossos v’nculos com essa realidade, mas para nos assegurar (nos tranquilizar) da nossa capacidade e da validade dos meios (a moral, as leis da conduta e do conhecimento de nosso dom’nio pr‡tico) (BESSIéRE, 1974, p. 57)

A afirma�‹o parece, como visto, respaldar-se em certa compreens‹o do maravilhoso que o vincula muito fortemente ˆ fun�‹o que o g�nero desempenharia. Nesse sentido, ele estaria voltado n‹o tanto para a ruptura com o que rodeia e ordena o mundo para o homem – algo que, segundo a autora, seria bem mais percept’vel na literatura fant‡stica – mas destinado ˆ harmonizar, ou melhor, a ajustar o indiv’duo ao seu meio ambiente.

Postura bem similar Ž a que lemos no ensaio de Rosie Jackson:

As fantasias que penetram no reino do ÔmaravilhosoÕ s‹o as œnicas que tem sido toleradas e que tem alcan�ado uma ampla dissemina�‹o social. A cria�‹o de mundos secund‡rios atravŽs do mito religioso, a magia ou a fic�‹o cient’fica se baseia em mŽtodos ÔlegalizadosÔ - a religi‹o, a magia, a ci�ncia – para o estabelecimento desses outros mundos, que s‹o compensat—rios, pois preenchem uma lacuna a partir de uma apreens‹o da atualidade como algo desordenado e insuficiente (...). Sua base novelesca d‡ a entender que o universo Ž, em œltima inst‰ncia, um mecanismo autorregulado no qual a bondade, a estabilidade e a ordem acabar‹o por impor-se.  Essas fantasias, pois, servem para estabilizar a ordem social ao minimizar a necessidade de interven�‹o humana em um mecanismo c—smico organizado segundo um principio de benevol�ncia. (JACKSON, 2002, p. 144)

ƒ, pois, nesse sentido que se vem sustentando ser necess‡rio distinguir entre o uso, vale dizer, a instrumentaliza�‹o que a cultura ocidental, em muitos momentos, empreendeu do maravilhoso, e a poŽtica que lhe Ž pr—pria. Assim, por exemplo, a an‡lise da compila�‹o, realizada pelos Irm‹os Grimm, evidencia que o emprego do g�nero a servi�o de uma dada concep�‹o de lar, implicou n‹o s— a domestica�‹o do maravilhoso, mas que, igualmente, significou, muitas vezes, redu�‹o da pot�ncia que lhe Ž pr—pria. Em outros termos, resultou no confinamento de um conjunto de procedimentos criativos, cuja ordena�‹o Ž de ordem inversa ao cogito racional, a um territ—rio frequentemente relacionado ao Òera uma vezÓ dos contos recolhidos e ajustados ˆ mentalidade burguesa crist‹, nos moldes da fam’lia dos sŽculos XVIII e XIX.

Essa observa�‹o cr’tica a certa teoriza�‹o sobre o maravilhoso, se Ž talvez pertinente no contexto europeu, faz-se t‹o mais urgente quando confrontada com certo repert—rio de narrativas amaz™nicas, igualmente atravessas pelo mirabilia.

A urg�ncia dessa releitura resulta, porŽm, de um segundo fator. A conceitua�‹o do maravilhoso identificando-o, ora a um tempo perdido, ora ao aparecimento do que n‹o se subjuga ˆ esfera do que se concebe por natural, pouco ou nada se coaduna com as narrativas ouvidas e/ou lidas em textos que transcrevem para o impresso o repert—rio do imagin‡rio amaz™nico. A refer�ncia aqui Ž particularmente aos relatos coligidos pelo projeto integrado IFNOPAP (O Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense), nas cole�›es SantarŽm conta...., Abaetetuba conta...., BelŽm conta...., Bragan�a conta.... , dentre outras, realizado na regi‹o norte do pa’s. Com efeito, ao leitor que se disponha a folhear algumas delas, logo se evidenciar‡ a dificuldade para o estudioso brasileiro de manejar tais narrativas a partir de claves de leitura t‹o pouco afeitas como as forjadas no continente europeu. N‹o s— a indefini�‹o de tempo e lugar Ž revertida em favor da localiza�‹o geogr‡fica do que se narra, mas sobretudo a oposi�‹o real x irreal, natural x sobrenatural Ž completamente suspensa em prol da alian�a entre termos considerados antag™nicos, pelo pensamento ocidental moderno.

Que quando a minha m‹e saiu do quarto. A’, ela apareceu gr‡vida, s— que j‡ nasceu j‡ diferente, j‡ um pouco, sabe? Muita coisa ela j‡ trouxe. Eu queria que tu o visses, rapaz (..). Era jito aquele, aquela [boquinha] [16] digo, boquinha, sabe. Tinha tudo, aqueles leros do boto, aquele jeito, tudo .  (SIMÍES; GOLDER, 1995, p. 24)

O fragmento acima, retirado da narrativa contada por Manoel da Fonseca foi transcrito por Concei�‹o Vasconcelos e encontra-se na colet‰nea Abaetetuba conta....., que reœne causos, relatos, em narrativas do nordeste paraense, no munic’pio de Abaetetuba, localidade situada ˆs margens do rio Maratau’ra, afluente do Tocantins. Nela, se leem os ind’cios da gravidez de mulher seduzida por figura recorrente nas hist—rias da regi‹o, que, como a Cobra Grande, emprenha as mulheres. Se aqui a concep�‹o pelo golfinho Ž sugerida com naturalidade, em outras, a palavra do narrador certifica a veracidade do relato.

Bom, ent‹o a minha palavra que eu vi, Ž isso (...) . Agora, os antigos diziam que existia esse navio encantado, entre vŽspera de S‹o Jo‹o, [que o navio aparecia]. Muita gente, teve gente que quis atirar, mas n‹o teve coragem, porque dizem, assim, se atirassem desencantava. Mas, temiam n‹o desencantar, nŽ?  (SIMÍES; GOLDER, 1995, p. 99)

Ambos os fragmentos servem para ilustrar n‹o s— o fŽrtil imagin‡rio da regi‹o, mas tambŽm para sublinhar a recorrente marca de testemunhos – amigos, familiares, o pr—prio narrador – e/ou  locais e situa�›es, de modo a certificar o ouvinte e prov‡vel leitor de que o narrado corresponde ˆ verdade dos fatos. Contudo, se o registro da autenticidade se faz necess‡rio, Ž porque ele se tece na fronteira com a suposta (in)credulidade do interlocutor. Resulta da’ um curioso liame entre a percep�‹o de que aquilo que se narra Ž extraordin‡rio, porŽm cr’vel, dado que Ž verdadeiro, como asseguram seus narradores. De todo modo, invocada a confiabilidade, tais narrativas parecem contradizer a literatura sobre o maravilhoso que opera a partir das antinomias aqui assinaladas.

Esta rela�‹o peculiar entre o campo do natural e do sobrenatural faz assomar ˆ mem—ria certa descri�‹o do maravilhoso na literatura do continente americano. No pr—logo do El reino de este mundo, Carpentier postula sua teoria do maravilhoso americano em que se entretece uma dada percep�‹o do continente, cedida pelos primeiros cronistas, com uma reinven�‹o da escrita latino americana, como bem o anotou o estudo de Irlemar Chiampi (1980). Com efeito, no manifesto, Carpentier procurando definir os meandros dessa elabora�‹o sincrŽtica, tra�ada a partir da conjun�‹o da hist—ria haitiana com o universo do mirabilia, tambŽm prop›e as balizas para uma escritura para o continente, demarcada pelo encontro entre o pr—prio e o alheio.

Havia respirado a atmosfera criada por Henri Christophe, monarca de incr’veis realiza�›es, muito mais surpreendentes que as de todos os surrealistas, muito afeitos a tiranias imagin‡rias, ainda que n‹o padecidas. A cada passo encontrava-me com o real maravilhoso [grifo do autor]. Mas, pensava, ademais, que essa presen�a e vig�ncia n‹o era privilŽgio œnico do Haiti, sen‹o patrim™nio da AmŽrica inteira (É). (CARPENTIER, 1975, p. 55) [17]

Tentador, portanto, resgatar a conceitua�‹o do escritor cubano para compreender as narrativas da regi‹o amaz™nica brasileira, em que se nota a indistin�‹o entre o terreno do excepcional e do ordin‡rio, entre o fabuloso e o ver’dico. Contudo, um r‡pido exame logo identificar‡ a impossibilidade do nexo. O conceito proposto por Carpentier deriva de uma proposta ontol—gica para a AmŽrica, n‹o s— resultante do entrela�amento entre mito e hist—ria, como tambŽm deriva de perspectiva realista, cedida pelo extraliter‡rio (o real maravilhoso caracter’stico da realidade haitiana (CHIAMPI, 1980. p. 37 e passim). As narrativas a que se faz alus‹o aqui n‹o encenam a conjun�‹o pleiteada por Carpentier entre mito e hist—ria – embora suspendam as rela�›es de antinomia – tampouco constituem elabora�›es ficcionais de um escritor particular, mediatizadas por uma dada perspectiva do real. Parece-lhe, todavia, ser caracter’stica a presen�a de elementos do maravilhoso, fortemente fincadas em figuras m’ticas (Boto, Cobra Grande, Matintaperera, Nau encantada, dentre outros) que revelam uma rela�‹o espec’fica com o espa�o – a floresta e os rios.

Outrossim, essas narrativas que aqui nomeia-se maravilhoso amaz™nico denotam marcas de testemunho em relatos que admitem, como forma discursiva inversa ˆ racionalidade moderna, a rela�‹o harmoniosa, isto Ž, n‹o excludente entre contr‡rios, mediante metamorfoses que assumem ora a forma humana, ora a animal.

E, finalmente, um terceiro aspecto a ser considerado Ž que muitas das figuras m’ticas a’ presentes situam-se na intersec�‹o entre natureza e civiliza�‹o, a exemplo da Cobra Grande e do Boto, resultante de sua natureza errante entre rios e vilarejos.

A dire�‹o da argumenta�‹o aqui, conduz, como se v�, ˆ no�‹o de alteridade, operador com que o pensamento filos—fico do sŽculo XX e a psican‡lise, a partir de Freud, e sobretudo desde Lacan (SPIELMANN, 2000), t�m destacado a rela�‹o n‹o excludente entre pares contr‡rios (Mesmo/Outro, Civiliza�‹o/Natureza, Raz‹o/Loucura, Dentro/Fora, Masculino/Feminino, Natural/Sobrenatural). Efetivamente, se o termo oriundo do latim altarǐtas aponta para as rela�›es de contraste (HOUAISS,  2001) ele designa n‹o s— o que Ž diverso, mas sobretudo a rela�‹o entre dois seres ou entidades distintas ou supostas como tal. Nesse sentido,  a Òalteridade Ž o contr‡rio da identidade, como o outro Ž o contr‡rio do mesmo. Poder-se-ia fazer disto um princ’pio: toda coisa sendo id�ntica a si mesma (princ’pio da identidade) Ž tambŽm diferente de todas as outras (princ’pio da alteridade)Ó. (COMTE-SPONVILLE, 2011, p. 53). [18] Donde, a no�‹o de alteridade, significando e abrangendo a ideia da diferen�a efetiva-se dialogicamente – isto Ž, na rela�‹o entre termos opostos, mas n‹o excludentes, uma vez que o Outro s— pode ser apreendido como tal em rela�‹o ao Mesmo. Compreendida a alteridade, portanto, como categoria imprescind’vel para o entendimento das rela�›es humanas no campo inter e intrasubjetivo, ela passou a ocupar lugar central n‹o somente entre os cientistas sociais, mas tambŽm no meio psicanal’tico e nos estudos liter‡rios. Concernente a esses œltimos, cabe aqui assinalar os nomes de Octavio Paz e o de Victor Bravo, com os quais pretende-se, por fim, estabelecer o la�o final entre o que se designou maravilhoso amaz™nico e uma poŽtica pr—pria, enunciadora da alteridade humana e liter‡ria.

O cr’tico liter‡rio venezuelano em obra que est‡ ainda aguardando tradu�‹o para o portugu�s e urgente reedi�‹o, partindo da no�‹o de alteridade dada pelo poeta e pensador mexicano, bem como dos estudos de Foucault, observa que a cultura judaico-crist‹ operou, no Ocidente, por um sistem‡tico repœdio ˆs formas culturais que se antagonizaram ˆ raz‹o, ou para usar a terminologia do autor, ˆs formas do Mesmo. Com efeito, na obra citada por Bravo, Conjunciones y Disyunciones, O. Paz, tratando das polival�ncias abrigadas sob a picardia, aponta para o problema da met‡fora e as faces que a comp›e – o lugar da civiliza�‹o e o princ’pio da realidade, por um lado, e, por outro, o territ—rio do desgoverno, e o princ’pio do prazer. Nesse sentido, anota o poeta e ensa’sta mexicano, a picardia, e a gargalhada, que dela resulta, ordenam uma s’ntese que traduz duas caras – o Eu e o Outro [19] – que nos (des)governam. Nesse sentido, a picardia desvelaria e simultaneamente mascararia os segredos, face ao nosso dia-a-dia do mundo civilizado.

L�-lo Ž participar de um segredo. Em que consiste este segredo? Este livro nos ensina nossa outra cara, a oculta e inferior. O que digo deve entender-se literalmente: falo da realidade que est‡ abaixo da cintura e que a roupa nos cobre. Refiro-me a nossa cara animal, sexual: ao cu e aos —rg‹os genitais (PAZ, 1969, p. 12) [20]  

Se Ž bem verdade que o problema foi abordado bem anteriormente por Freud, em Os chistes e sua rela�‹o com o inconsciente,  este enlace p›e em relevo a articula�‹o Mesmo/Outro, Civiliza�‹o/Natureza, indicando a din‰mica de alteridade, a mesma que serve ao cr’tico Victor Bravo para pensar a literatura do fant‡stico e do maravilhoso.

O drama de toda cultura Ž o intento de reduzir o irredut’vel, a alteridade, ˆ tranquilidade ideol—gica do Mesmo, da Identidade. A alteridade parece ser o insuport‡vel. A ordem que toda cultura de alguma maneira sacraliza Ž a inten�‹o de reduzir a alteridade ˆs formas do Mesmo. (BRAVO, 1985, p. 16) [21]

Assim, se a alteridade assinala a rela�‹o n‹o excludente entre pares antin™micos, ela aponta igualmente para a din‰mica subjacente ˆ dolorosa experi�ncia humana de saber-se racional, sujeito da cultura, e, simultaneamente, Outro – ser primitivo, intuitivo, desgovernado - malgrado os ditames da raz‹o.

H‡, todavia, assinala o Los poderes de la ficci—n (BRAVO, 1985) formas liter‡rias que p›em a descoberto, de modo mais ou menos flagrante, tanto a alteridade humana, como aquela que constitui o pr—prio discurso liter‡rio, em seu processo mimŽtico de reproduzir e simultaneamente desrealizar o mundo emp’rico. Com efeito, se o texto liter‡rio sobrevive no t�nue liame entre a representa�‹o especular das coisas circundantes e a encena�‹o de sua pr—pria espessura liter‡ria, o fant‡stico e o maravilhoso, para Bravo, constituem os modos discursivos que mais evidenciam a alteridade pr—pria do homem e das narrativas por ele produzidas. Dito em outros termos, se a literatura vive da complexa e tensa rela�‹o com a realidade que lhe Ž exterior, entre representar-se a si pr—pria e o representar o mundo, o texto fant‡stico Ž o que exp›e de modo mais inquietante a possiblidade de transgress‹o entre essas fronteiras. Contudo, como pondera o venezuelano em seu debate com o Introdu�‹o ˆ literatura fant‡stica de Todorov, se o fant‡stico deriva da experi�ncia lim’trofe entre esses territ—rios, o maravilhoso Ž o lugar da alteridade como espet‡culo.

Quando o limite persiste e um ‰mbito outro se p›e em cena sem atender ˆs verossimilhan�as das certezas do real e sem penetrar estas certezas e question‡-las, quando o limite persiste deslindando o ‰mbito outro do ‰mbito do real, estamos em presen�a do maravilhoso. Poderia dizer-se que no fant‡stico o outro Ž uma irrup�‹o, e, no maravilhoso, um espet‡culo. [22] (Bravo, 1985, p. 244)

Nesse sentido, a no�‹o de fronteira, como eixo no qual se deparam no�›es tidas como antag™nicas e apartadas pela civiliza�‹o - por exemplo, natural e sobrenatural, real e fabuloso, ver’dico e inverid’co – adquire relev‰ncia na argumenta�‹o de V. Bravo que eleva o problema da alteridade como conceito a partir do qual Ž poss’vel pensar esses g�neros liter‡rios. Nesta outra  proposi�‹o, o maravilhoso Ž redimensionado e pensado para alŽm dos antagonismos constatados nas teoriza�›es forjadas pelo pensamento europeu.

Assim, se o maravilhoso Ž o tema do mundo ˆs avessas, universo outro que desde o per’odo medieval manifesta-se como pot�ncia de insurrei�‹o, o maravilhoso que se apresenta em narrativas m’ticas ao norte do pa’s, que aqui nomeamos como maravilhoso amaz™nico, ao suspender as rela�›es de antinomia pr—prias da ciliviza�‹o moderna, que reduzem  e solapam a alteridade humana sob as formas do Mesmo, deve ser pensado sob a clave da alteridade. Suas narrativas, efetivamente, conciliando o sobrenatural e o natural, o animal e o humano, a natureza e a civiliza�‹o, tecidas que s‹o para alŽm da fronteira, representam uma poŽtica da alteridade. E, para n‹o encerrar, poder-se-ia ademais acrescentar que, em sendo o inconsciente o lugar por excel�ncia da alteridade – pois nele os contr‡rios n‹o se excluem (FREUD, 1996b)-, tais narrativas encenam a resist�ncia do inconsciente ˆ toda forma de subjuga�‹o. Mas isso j‡ Ž outra hist—ria. 

 

Refer�ncias

 

BESSIéRE, I.  Le rŽcit fantastique. Paris: Larousse, 1974.

 

BRAVO, V. Los poderes de la ficci—n. Caracas: Monte çvila, 1985.

 

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FREUD, S. O estranho. Edi�‹o Standard Brasileira das Obras Psicol—gicas Completas de Sigmund Freud, Vol. XVII. Trad. sob dir. de Jayme Salom‹o. Rio de Janeiro: Imago, 1996a. p. 235-273. (T’tulo original: The standart edition of the complete psychological works of Sigmund Freud)

 

FREUD, S. A interpreta�‹o dos sonhos. Edi�‹o Standard brasileira. Trad. do ingl�s e do alem‹o sob dire�‹o de Jayme Salom‹o. Rio de Janeiro : Imago, 1996b.  24 v. V. IV (T’tulo original The standard edition of the complete psychological Works of Sigmund Freud)

 

GARCêA, F. Quando a manifesta�‹o do ins—lito importa para a cr’tica liter‡ria. In: BATALHA, M; GARCêA, F. (Org.). In: ______. Vertentes te—ricas e ficcionais do ins—lito. Rio de Janeiro: CaetŽs, 2012, pp. 13-29.

 

HETMANN, F. Traumgesicht und Zauberspur. Frankfurt a. Main: Fischer, 1982.

 

HOUAISS, A. Dicion‡rio Houaiss da L’ngua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

 

JACKSON, R. ÔLo ocultoÕ de la cultura. In: ROAS, D. (org.). Teor’as de lo fant‡stico.  Madrid : Arco Libros, 2002. p. 141-152.

 

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L†THI, M. Das europŠische VolksmŠrchen. 9 ed. TŸbingen: Francke, 1992

 

PAZ,  O. Conjunciones y Disyunciones. Joaqu’n Mortiz : MŽxico D.F., 1969.

 

ROAS, D. De la maravilla al horror. Los inicios de lo fant‡stico en la cultura espanola. Pontevedra: Mirabel, Editorial, 2006.

 

SIMÍES, M. ; GOLDER, C. Abaetetuba conta.... BelŽm: CEJUP; Universidade Federal do Par‡, 1995.

 

SPIELMANN, E.  ÔAlteridadeÕ: desde Sartre atŽ Bhabha: um surf para a hist—ria do conceito. Revista Brasileira de Literatura Comparada, Salvador, n. 05, p. 19-28, 2000.

 

TODOROV, T. Introdu�‹o ˆ literatura fant‡stica. Trad. de Maria Clara Correa Castello  S‹o Paulo: Perspectiva, 1975. (T’tulo original: Introduction ˆ la littŽrature fantastique)

 

TRUSEN, S. Encantos do Honorato: O Duplo e o Medo na narrativa ÒEncanto DobradoÓ da colet‰nea Abaetetuba conta. Vertentes do fant‡stico no Brasil. Rio de Janeiro : Dialogarts, 2015, v.1, p. 221-232.

 

______.   S. ÒDo enredo de um nome: MŠrchen, Maere, Maerl”nÓ. Revista FronteiraZ. S‹o Paulo, n. 9, p. 53-62, Dezembro 2012. Dispon’vel em [https://revistas.pucsp.br/index.php/fronteiraz/article/view/13010/9510] Acesso em: 03 maio 2018.

 

[Recebido: 20 dez 21 – Aceito: 20 jan 21]


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SE‚ÌO LIVRE


 

Intertextos de Romeu e Julieta nos folhetos nordestinos

 

 

Intertexts of Romeo and Juliet in northeastern leaflets

 

 

Weber Firmino Alves[23]

https://orcid.org/0000-0001-9012-9112

 

            Naelza de Araœjo Wanderley[24]

            https://orcid.org/0000-0002-3622-7317

 

Resumo: As adapta�›es constituem um fen™meno longevo que remonta ˆ GrŽcia antiga, quando os poetas iniciaram a pr‡tica da releitura dos mitos, com a liberdade de modific‡-los e introduzir inova�›es. Semelhantemente, os cordelistas nordestinos, ao adaptarem narrativas can™nicas para os versos populares dos folhetos, assumiram o papel de ÒtradutoresÓ de uma tradi�‹o liter‡ria que passa a ser escrita em uma linguagem mais pr—xima do povo. Assim, o presente artigo discute a presen�a do intertexto de Romeu e Julieta em folhetos nordestinos, incorporando adapta�›es dos textos-fonte. A leitura dos textos estabelece uma compara�‹o com os intertextos desse amor contrariado nos cordŽis de Jo‹o Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra, Sebasti‹o Marinho e StŽlio Torquato Lima, a partir das ideias de Abreu (2004), Hutcheon (2013), Kristeva (2005), Rougemont (1988), entre outros. Faz-se uma avalia�‹o da constru�‹o do enredo de Romeu e Julieta na tradi�‹o liter‡ria, com vistas a perceber nas adapta�›es para o romanceiro nordestino, suas diverg�ncias e semelhan�as, compreendendo-se que as adapta�›es n‹o s‹o c—pias, mas funcionam como produ�›es distintas, assumindo importantes fun�›es sociais no contexto da cultura-alvo, principalmente a de socializar um texto universal para a cultura local.

Palavras-Chave: Amor contrariado; Romeu e Julieta; Literatura; Cordel.

 

Abstract: Adaptations are a long-lived phenomenon that dates back to ancient Greece, when poets began the practice of re-reading myths, with the freedom to modify them and introduce innovations. Similarly, Northeastern poets, by adapting canonical narratives to the popular verses of the leaflets, assumed the role of ÒtranslatorsÓ of a literary tradition that is now written in a language closer to the people. Thus, this article discusses the presence of the Romeo and Juliet intertext in northeastern leaflets, incorporating adaptations from the source texts. Reading the texts establishes a comparison with the intertexts of this forbidden love in the cordel booklets of Jo‹o Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra, Sebasti‹o Marinho and StŽlio Torquato Lima, based on the ideas of Abreu (2004), Hutcheon (2013), Kristeva (2005), Rougemont (1988), among others. An evaluation of the construction of the plot of Romeo and Juliet in the literary tradition is made, with a view to realizing in the adaptations for the Northeastern flyers, their divergences and similarities, understanding that the adaptations are not copies, but function as distinct productions, assuming important social functions in the context of the target culture, mainly that of socializing a universal text for the local culture.  

Keywords: Forbidden love; Romeo and Juliet; Literature; Cordel booklets.

 

 

Introdu�‹o

 

A hist—ria de Romeu e Julieta Ž conhecida como a grande narrativa ocidental do amor rom‰ntico e retrata o sentimento puro de afei�‹o entre dois jovens de fam’lias rivais que se apaixonam e p›em em xeque a tradi�‹o de —dio entre suas fam’lias. Embora seja conhecida muito mais pela pe�a de Shakespeare, a constru�‹o dessa hist—ria ocorreu ao longo de v‡rios sŽculos atŽ tomar a forma proposta pelo bardo ingl�s. Entretanto, as adapta�›es do enredo n‹o se encerraram na literatura inglesa, pois continuam sendo (re)elaboradas atravŽs de recontos que s‹o apresentados ao pœblico em diferentes suportes e linguagens.

Entre esses recontos encontram-se as adapta�›es elaboradas por cordelistas nordestinos, os quais tambŽm se interessaram pela tem‡tica da hist—ria desses amantes, sobretudo pelo aspecto de contrariedade da realiza�‹o amorosa. Em um processo de recorte, inven�‹o e adapta�‹o, estes ÒtradutoresÓ do povo colocaram no papel o produto de suas leituras, adaptando a trama ao contexto da regi‹o e ˆ linguagem de seu pœblico leitor.

 

 

Romeu e Julieta e a tem‡tica do sofrimento amoroso

 

A palavra amor Ž um substantivo cuja defini�‹o evoca conceitos diversos, seja devido ˆ diversidade do objeto a quem o dirigimos, ou mesmo devido ˆs inten�›es de quem o experimenta. O verbo amar, seu derivado, pode designar, no uso cotidiano, desde o sentimento de afei�‹o por um familiar, um carinho fraterno, ou mesmo a atra�‹o er—tica. A literatura se apropriou deste sentimento como tema de suas produ�›es art’sticas porque, enquanto manifesta�‹o do fazer humano, a arte reflete nossas experi�ncias.

A cl‡ssica hist—ria de Romeu e Julieta remonta a uma tradi�‹o liter‡ria que tematiza o amor a partir de suas contrariedades, sendo herdeira de diversos enredos cuja trama culmina na morte dos amantes, sob a Žgide de que ÒŽ melhor morrer do que n‹o amarÓ. Na tradi�‹o latina, temos ci�ncia do poema P’ramo e Tisbe, de Ov’dio, publicado na sua Metamorfoses, uma hist—ria que se acredita fazer parte do conjunto de narrativas que inspiraram a composi�‹o romejulietiana[25].

Esse mito latino explica a cor avermelhada da amora em face de que, perante uma amoreira plantada junto ao sepulcro do rei Nine, matou-se pelo amor um casal de jovens apaixonados. Os jovens s‹o vizinhos na Babil™nia, se apaixonam e fazem votos de casar, mas os seus pais pro’bem o enlace amoroso, impedindo-os atŽ de conversarem. Diante disso, trocam apenas gestos e olhares, atŽ descobrirem uma fenda no muro de suas casas, por onde secretamente trocam declara�›es de amor e sentem o h‡lito um do outro. Ent‹o, pela fenda, os amantes marcam um encontro noturno no sepulcro do rei Nino. Tisbe chegou primeiro, mas acabou se escondendo numa gruta pr—xima diante da chegada de uma leoa ainda com o sangue da presa na boca, em dire�‹o ˆ fonte para saciar sua sede. A fera rasgou o len�o ca’do da jovem, deixando-o embebecido de sangue. Ao chegar na fonte, P’ramo entendeu que sua amada teria sido tragada por uma fera e resolveu tirar sua pr—pria vida com sua espada, culpando-se da morte de Tisbe. Por sua vez, chegando junto ˆ amoreira, estranhando a mudan�a na cor da amora que, de branca se tornara escura como o sangue, gritou ao ver o corpo de P’ramo. Desesperada, a jovem decide tambŽm se juntar na morte ao seu amado, conforme registra Ov’dio (2016, p.120):

Teu amor, tua m‹o te h‹o dado a morte!
Eu tambŽm tenho m‹os (exclama a triste),
Eu tambŽm tenho amor capaz de extremos,
Que esfor�o me dar‡ para seguir-te.
Sim, eu te seguirei, serei chamada
Da tua desventura a causa, a s—cia.
Ai! S— podia a morte separar-nos...
Mas n‹o, nem ela mesma nos separa.
î v—s, dai terno ouvido ˆs preces de ambos,
M’seros pais de m’seros amantes,
Que une por lei do Fado Amor, e a Morte;
Deixai que o mesmo tœmulo os encerre.

E tu, ‡rvore, tu, que est‡s cobrindo
Agora um s— cad‡ver miserando,
Logo dois cobrir‡s. Sinais conserva
Da tragŽdia que v�s, e por teus frutos
Difunde sempre a cor de luto, e m‡goa,
Monumento fatal do negro caso.

            A composi�‹o dram‡tica do poema constr—i um clima de sensibilidade e pureza entre os amantes, despertando no leitor a compreens‹o de que, em face do imposs’vel, quando contrariado, o puro amor n‹o teme e prefere a morte. De tristeza, os alvos frutos da amoreira se tornaram rubros de negra cor, umedecidos pelo sangue dos amantes para nunca mais serem como antes. Finalmente, os pais do casal aceitam reunir as cinzas dos dois numa mesma urna e, apenas na morte, o casal termina junto.

            Encontra-se, pois, estabelecido o enredo que passa a se caracterizar pela composi�‹o dos seguintes elementos: jovens apaixonados; oposi�‹o do amor dos familiares; ruptura entre a proibi�‹o parental; estratŽgia dos amantes em romper a separa�‹o; aparente morte de um dos amantes; suic’dio do sobrevivente; consequente suic’dio do amante aparentemente morto. Em todos os casos, o derramamento do pr—prio sangue caracteriza a express‹o dos amantes, pois viver sem amor Ž a pior de todas as tragŽdias.

No Oriente, a hist—ria de Laila e Kais (Laila e Majnun), uma lenda popular ‡rabe de tradi�‹o oral que remonta ao sŽculo VII, foi registrada em mais de oito mil versos, pelo poeta Nizami em 1188, por encomenda do soberano Shirvanshah. A trama conta sobre a paix‹o proibida de dois jovens, as afli�›es da separa�‹o e a consequente dor da perda. Essa hist—ria de amor da literatura persa foi amplamente utilizada como fonte de inspira�‹o por escritores ao longo dos sŽculos, fazendo parte do conjunto de hist—rias cl‡ssicas de amores condenados que estabelecem rela�‹o com o enredo de Romeu e Julieta.

Seguindo a tradi�‹o tem‡tica do sofrimento amoroso, na Idade MŽdia, sobretudo na pena dos trovadores, a ideia do amor cort�s se revelava como a contempla�‹o de um objeto superior, perante quem o poeta se submete, numa condi�‹o de vassalagem, experimentando o prazer de amar e sofrer. Acerca disso, Rougemont (1988, p. 63) escreve:

Que Ž a poesia dos trovadores? A exalta�‹o do amor infeliz. Em toda a l’rica e na l’rica de Petrarca e Dante h‡ somente um tema: o amor; n‹o o amor feliz, pleno ou satisfeito (esse espet‡culo nada pode engendrar), mas, ao contr‡rio, o amor perpetuamente insatisfeito; enfim, h‡ apenas dois personagens: o poeta, que oitocentas, novecentas ou mil vezes repete seu lamento, e uma bela, que sempre diz n‹o.

Observemos que as tramas com o tema do sofrer por amor possuem exatamente em seus conflitos a raz‹o de ser da hist—ria, pois os autores encontrados n‹o representam necessariamente algo objetivamente insuport‡vel, mas os entes renunciam em nome da felicidade. Assim, o tema das narrativas de amor contrariado Ž exatamente a separa�‹o dos amantes, mas em nome da paix‹o e do amor que lhes atormenta, raz‹o pela qual esse sentimento Ž exaltado e transfigurado, mesmo em preju’zo da felicidade e da pr—pria vida. As tramas de amor contrariado, ent‹o, retratam amores correspondidos que enfrentam dificuldades para se concretizarem. Konder (2007, p.119) destaca, remetendo-se a Agnes Heller que, na obra Shakespeare, os amores s‹o sempre correspondidos. O estudioso, contudo, destaca que, ao longo da produ�‹o shakespeariana,

[...] estavam sendo criadas novas condi�›es hist—ricas, nas quais a abertura para o di‡logo n‹o podia ficar limitada a algo vis’vel e tinha de admitir a legitimidade da suspeita do cora�‹o na rela�‹o com os outros, no confronto da minha subjetividade com a subjetividade deles. Nem os que amavam, nem os que queriam entender o que era o amor podiam recorrer a esquemas ÒfatalistasÓ. O amor, em especial, passava a exigir a participa�‹o efetiva dos sujeitos diferentes, movendo-se dos dois lados; ele passava a exigir o espa�o necess‡rio para que cada sujeito pudesse fazer suas op�›es, tomar suas iniciativas.

Rougemont v� em Romeu e Julieta, de Shakespeare, a tragŽdia cort�s que representa a mais bela ressurrei�‹o do mito de Trist‹o e Isolda, ainda anterior ˆ adapta�‹o da pe�a de Wagner. O estudioso desconsidera, contudo,  que a composi�‹o da pe�a shakespeariana possui tr�s vers›es italianas: Il Novellino, de Masuccio Salernitano, de 1476, com a novela 33, que descreve a hist—ria de Mariotto e Giannozza, dois jovens amantes da nobreza, cujo amor Ž proibido pelo —dio de suas fam’lias; Historia novellamente ritroata di due nobili amanti, de Luigi da Porto, de 1530, com tra�os romejulietianos, pois a trama ocorre em Verona, as fam’lias s‹o chamadas de Montecchi e Cappelletti, divergindo no fato de que a mo�a se apaixona primeiro e Ž mais oferecida; Romeo e Giulietta, escrita em 1554 por Matteo Bandello, bispo e poeta do sŽculo XVI, compondo um conjunto de novelas, cuja escrita se enquadra no que atualmente denominamos conto, visto que o texto original possui uma escrita corrida, numa narrativa curta de œnico cl’max e desfecho.

Na Inglaterra, Shakespeare tambŽm n‹o foi o primeiro a adaptar a narrativa romejulietiana, pois, em 1559, Arthur Brooke publicou um longo poema com 3020 versos, intitulado A tr‡gica hist—ria de Romeu e Julieta. A pe�a de Shakespeare aproveita deste poema a trama da tragŽdia e informa�›es sobre a It‡lia e os h‡bitos culturais e sociais do pa’s. Entretanto, faz mudan�as que ultrapassam a transmuta�‹o do enredo, pois Brooke estabelecia um axioma moralizante de que a desobedi�ncia dos amantes teria sido a causa de sua tragŽdia, mas o dramaturgo ingl�s retira a responsabilidade deles e transfere para o —dio das duas fam’lias. Heliodora (2014, p.98) argumenta:

Copiando a trama muito fielmente de um poema moralizante do ingl�s Arthur Brooke, que tivera imenso sucesso, em vez de condenar os dois jovens pelo imperdo‡vel pecado de desobedi�ncia aos pais, Shakespeare os faz v’timas da luta entre suas fam’lias, e escreve n‹o apenas uma grande hist—ria de amor como tambŽm uma grave denœncia contra a guerra civil, ilustradas na pe�a por meio do conflito entre os MontŽquio e os Capuleto.

Outra diferen�a na composi�‹o est‡ associada ˆ dura�‹o dos fatos, pois Shakespeare comp›e a a�‹o em cinco dias – do conhecimento do casal ao suic’dio, ao passo que, no poema de Brook, o casal permanece casado por seis meses. Quando a vers‹o de Shakespeare (2017) Ž comparada com a de Bandello (2012), Ž poss’vel perceber tambŽm significativas distin�›es: no desfecho da novela, Romeu se suicida com veneno e a jovem apela para a morte e morre repentinamente de dor; por sua vez, na pe�a shakespeariana, Romeu se envenena e a jovem se suicida com o punhal do seu amante, aproximando-se da teia significante de P’ramo e Tisbe. Ao final, tanto Shakespeare quanto Bandello informam da reconcilia�‹o das fam’lias, sendo que a novela bandelliana prev� que tal paz n‹o durou muito tempo depois. A vers‹o shakespeariana concebe um final de paz duradoura e a fala do pr’ncipe de Verona culpa o —dio das fam’lias e a condescend�ncia do poder do Estado.

            A seguir, ent‹o, examinaremos o modo como o romanceiro nordestino se apropriou do enredo romejulietiano, oferecendo uma nova composi�‹o adaptada ao cordel.

 

 

Adapta�›es de Romeu e Julieta para os cordŽis nordestinos

 

Na GrŽcia antiga, os poetas realizavam releitura dos mitos, com a liberdade de modific‡-los. S—focles, por exemplo, entre outras mudan�as, altera o nome da m‹e de ƒdipo, introduz a enigm‡tica esfinge e a peste. Essas inova�›es eram adapta�›es que chamavam a aten�‹o do pœblico, sem a preocupa�‹o de fidelidade total ao texto-fonte. Linda Hutcheon (2013, p. 23-24) diz que os adaptadores narram hist—rias ao seu pr—prio modo, asseverando que:

Eles utilizam as mesmas ferramentas que os contadores de hist—rias sempre utilizaram, ou seja, eles tornam as ideias concretas ou reais, fazem sele�›es que n‹o apenas simplificam, como tambŽm ampliam e v‹o alŽm, fazem analogias, criticam ou mostram seu respeito, e assim por diante. As hist—rias que contam, entretanto, s‹o tomadas de outros lugares, e n‹o inteiramente inventadas. Tal como as par—dias, as adapta�›es t�m uma rela�‹o declarada e definitiva com textos anteriores, geralmente chamados de Òfontes; diferentemente das par—dias, todavia, elas costumam anunciar abertamente tal rela�‹oÓ

Adaptar um texto significa traduzi-lo para um suporte, g�nero ou linguagem diferente. A deprecia�‹o que ainda nutrimos pelas adapta�›es Ž produto da valoriza�‹o rom‰ntica da originalidade e do g�nio criativo, bem como do pr—prio apego que f‹s t�m pela fidelidade ˆs fontes. Contudo, as adapta�›es s‹o fundamentais ˆ cultura ocidental, de modo que as hist—rias s‹o sempre recontadas por suportes diferentes. Hutcheon (2013, p. 27) afirma:

Trabalhar com adapta�›es significa pens‡-las como obras inerentemente ÒpalimpsestuosasÓ [...] assombradas a todo instante pelos textos adaptados. Se conhecemos esse texto anterior, sentimos constantemente sua presen�a pairando sobre aquele que estamos experienciando diretamente. Quando dizemos que a obra Ž uma adapta�‹o, anunciamos abertamente sua rela�‹o declarada com outra(s) obra(s). ƒ isso que GŽrard Genette (1982, p. 5) entende por um texto em Òsegundo grauÓ, criado e ent‹o recebido em conex‹o com um texto anterior. Eis o motivo pelo qual os estudos de adapta�‹o s‹o frequentemente estudos comparados.

ƒ assim que o enredo romejulietiano chega ao Nordeste do Brasil na pena de cordelistas que assumem o papel de contar para o povo a cl‡ssica hist—ria de amor adaptada nos versos dos folhetos. Ao menos quatro cordŽis nordestinos realizaram adapta�›es da narrativa de Romeu e Julieta, em tempos diferentes, sob os seguintes t’tulos: Romance de Romeu e Julieta (1975), atribu’do a Jo‹o Martins de Athayde (Para’ba); Romeu e Julieta (2001), de Maria Ilza Bezerra (Piau’); Romeu e Julieta em cordel (2011), de Sebasti‹o Marinho (Para’ba); Romeu e Julieta: William Shakeaspere (2012), de StŽlio Torquato Lima (Cear‡). A recep�‹o no Nordeste do enredo de amor contrariado lembra os diversos casos no locus sertanejo de conflitos familiares com numerosas mortes.

Assim como Shakespeare, Bandello e tantos outros foram adaptadores, os poetas populares assumem esse compromisso, trazendo para o verso as narrativas de outros, fazendo refer�ncia ou n‹o ˆs fontes de sua composi�‹o. Ariano Suassuna (1973 apud SUASSUNA, 2012, p.176) comenta esse papel do cantador nordestino:

O cantador nordestino n‹o se detŽm absolutamente diante dessas considera�›es: apropria-se tranquilamente dos filmes, pe�as de teatro, not’cias de jornal e mesmo dos folhetos dos outros. Que importa o come�o, se, no final, a obra Ž sua? Ele, depois de tudo, acrescentou duas ou tr�s cenas, torceu o sentido de tr�s ou quatro outras, de modo que a obra resultante Ž nova. N‹o era assim que procediam Moili�re, Shakespeare, Homero e Cervantes? [...] Os cantadores procedem do mesmo jeito. H‡ mesmo, uma palavra que entre eles, indica o fato, o verbo versar, que significa colocar em verso a hist—ria em prosa de outro. Quando Shakespeare escreveu Romeu e Julieta n‹o fez mais do que versar as cr™nicas italianas de Luigi Dal Porto e Bandello.

Tradicionalmente, os cordŽis se apresentam mais atrativos do que os textos em prosa para o pœblico leitor por serem escritos em versos compostos num padr‹o que favorece as leituras coletivas em voz alta, pois, conforme Abreu (2004), fazendo refer�ncia ˆs palavras do poeta Manoel dÕAlmeida Filho, o povo nordestino se acostumou a ler o verso como quem canta.

Ainda segundo essa autora, as adapta�›es de textos cl‡ssicos realizadas pela literatura de cordel n‹o ocorrem aleatoriamente, mas seguem um certo padr‹o que caracteriza a composi�‹o e a recep�‹o dos folhetos. H‡ um certo padr‹o no processo de adapta�‹o dos textos eruditos, pois, de modo geral, os cordelistas escolhem narrativas que sejam pr—ximas do que se convencionou denominar Òromances de cordelÓ, um subg�nero de folheto nordestino com 24 ou mais p‡ginas, com narrativas ficcionais, tematizadas entre o amor e a luta, privilegiando hist—rias semelhantes ˆs narrativas tradicionais da literatura popular.

Os folhetos nordestinos, publicados desde a segunda metade do sŽc. XIX tornaram os homens pobres na posi�‹o de autores, leitores, editores e cr’ticos de composi�›es poŽticas, envolvendo pessoas simples no mundo das letras, pelo viŽs da composi�‹o e recep�‹o dos versos. Foi assim que Romeu e Julieta, como diversas outras narrativas can™nicas, chegaram ao Nordeste, pelo viŽs da recep�‹o dos cordelistas, como destaca Abreu (2004, p. 200):

A distin�‹o entre a composi�‹o e a recep�‹o de folhetos nordestinos e a produ�‹o e a leitura de obras liter‡rias eruditas fica clara quando se examinam vers›es para folheto de narrativas eruditas, fato relativamente comum no interior da literatura de folhetos, em que h‡ vers›es de A Escrava Isaura, de Bernardo Guimar‹es, de Ubirajara, Iracema, A Viuvinha, de JosŽ de Alencar, de Amor de Perdi�‹o, de Camilo Castelo Branco, de Paulo e Virg’nia, de Bernardin de Saint Pierre, de Romeu e Julieta, de Shakespeare, de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, para citar apenas alguns exemplos.

Segundo Abreu (2004), a recep�‹o e nova composi�‹o dos poetas leva em conta a sele�‹o de narrativas eruditas com enredos, cujo tema central envolve, basicamente, o amor e a luta, variando entre os tr�s nœcleos tem‡ticos seguintes: mulheres virtuosas perseguidas por perversos apaixonados; amores contrariados; e enfrentamentos entre poderosos e valentes. As adapta�›es romejulietianas se enquadram, certamente, nos romances de amor contrariado.

Ademais, a estudiosa afirma que a sele�‹o e adapta�‹o dos textos can™nicos para o cordel segue os seguintes critŽrios: semelhan�a de enredo com os romances tradicionais dos folhetos; transposi�‹o da prosa para o verso setiss’labos (padr‹o dos folhetos); adequa�‹o da sintaxe e do lŽxico; desembara�amento da trama com a reestrutura�‹o do enredo, reduzindo personagens e a�›es; caracteriza�‹o sucinta das personagens com poucos atributos f’sicos e morais, basicamente para identific‡-las no enredo como boas ou m‡s, vil›es ou her—is, etc.; por vezes, faz-se a altera�‹o do enredo para adequar ao final dos paradigmas do cordel, qual seja, a felicidade dos apaixonados; apresenta�‹o dos sentimentos mais por a�›es do que por descri�›es. AlŽm disso, geralmente, os folhetos privilegiam o tipo de narrador-onisciente, com o papel preponderante de interpretar as atitudes dos personagens e fazer ju’zo de valor Žtico e moral, pois as hist—rias t�m um car‡ter exemplar.

Semelhantemente, os quatro cordŽis romejulietianos constroem a narrativa de forma l’rica, de modo que Ž poss’vel reconhecer os aspectos destacados por Abreu (2004). Quando comparados, percebemos que os cordŽis possuem um enredo cuja estrutura b‡sica pode ser resumida assim: inimizade entre as proles; amor ing�nuo entre os filhos dos patriarcas; a igreja como medianeira na reconcilia�‹o; casamento secreto entre os namorados/rivais; morte do primo de Julieta; ex’lio de Romeu; acordo secreto da morte de Julieta; m‡ comunica�‹o com Romeu; morte do conde P‡ris; suic’dio dos jovens.

 

 

CordŽis nordestinos: intertextos de Romeu e Julieta

 

A produ�‹o liter‡ria dialoga com outras produ�›es art’sticas, culturais e do pr—prio universo da literatura. Kristeva (2005) v� o texto como um mosaico de cita�›es, retomando sempre outros textos, seja pela vincula�‹o, a retomada expl’cita, um ato leg’timo ou a ilegalidade do pl‡gio.

A intertextualidade admite a forma�‹o de uma grande rede de textos que sempre retoma produ�›es anteriores, cujos fios se encontram com outros, formando um grande mosaico caleidosc—pico e multidimensional. Assim, a cria�‹o art’stica Ž tanto individual como coletiva, pois a mem—ria do artista tambŽm se comp›e de cita�›es, lembran�as e esquecimentos involunt‡rios ou n‹o.

Os quatro cordŽis romejulietianos dialogam intertextualmente com a tradi�‹o europeia da qual s‹o herdeiros, mas, ao faz�-lo, reconstroem o prototexto original, adaptando ao novo contexto de produ�‹o. Tal processo de reescritura Ž muito mais percebido sob a pena do cordel mais antigo de Athayde, devido ao seu v’nculo com a tradi�‹o amparada na cultura de conflitos parentais do in’cio do sŽculo XX no sert‹o nordestino.

Do ponto de vista do suporte, Athayde e Ilza Bezerra, mant�m a publica�‹o no modelo tipogr‡fico do folheto de cordel. Por outro lado, os cordŽis de Marinho e Lima foram publicados em livros por editoras de divulga�‹o nacional, respectivamente, a Nova Alexandria e o ArmazŽm da Cultura.

Quanto ˆ fonte de adapta�‹o, os tr�s cordŽis recentes de Bezerra, Lima e Marinho apresentam-se claramente identificados com a pe�a de William Shakespeare[26], conforme se pode perceber, a seguir:

Vasculhando alfarr‡bios

Desbotados na gaveta,

Deparei-me com a obra

Maior de todo planeta:

ƒ a shakespeariana

De Romeu e Julieta (MARINHO, 2011, p.13)

 

AtravŽs desta hist—ria

Resgatarei a leitura

De um drama muito antigo,

Famoso em sua candura,

Porque o cordel Ž arte

E valoriza a cultura.

As personagens do drama

Comoveram muita gente

Por mostrar um grande amor

Profundo e contundente,

Criadas por Shakespeare

Pra se amar eternamente (BEZERRA, 2011, p.1)

 

N‹o h‡ em todo o planeta

Algo que ven�a o amor,

Que Ž belo qual borboleta,

Forte qual mar em furor.

ƒ o que mostra a historieta

De Romeu e Julieta.

Shakespeare Ž seu autor. (LIMA, 2012, p.70)

            No caso do cordel de Athayde, n‹o encontramos nenhuma indica�‹o textual que relacione o texto com a obra de Shakespeare. Todavia, desde que Ariano Suassuna (2018) adaptou o cordel de Athayde para sua pe�a A hist—ria do Amor de Romeu e Julieta: imita�‹o Brasileira de Matteo Bandello, referenciou, pelo pr—prio t’tulo, o conto italiano como sendo a fonte usada por Athayde. O texto de Athayde, porŽm, n‹o nos permite ter tanta certeza disso, embora possamos inferir, pelas duas primeiras sextilhas, que o autor tenha conhecido a hist—ria atravŽs do cinema ou de alguma encena�‹o teatral:

Vou  contar  neste  romance

a  desdita  de  Romeu

na  sua  curta  exist�ncia

de  tudo  que  padeceu

foi a lenda mais tocante

que  a  nossa  imprensa  escreveu

Essa  hist—ria  Ž  conhecida

em  quase  toda  na�‹o

no teatro e no cinema

tem  causado  sensa�‹o

deixando  amarga  lembran�a

no mais brutal cora�‹o. (ATHAYDE, 1975, p.1)

            A poesia de Athayde estabelece uma teia intertextual produtiva que ultrapassa os limites da linguagem verbal dos textos fundantes e chega a outros universos semi—ticos, visto que o pr—prio poeta admite que esta hist—ria j‡ foi traduzida para outras m’dias, como o teatro e o cinema, e j‡ ÒŽ conhecida em quase toda na�‹oÓ.

Athayde (1975) incorpora altera�›es significativas, como o ju’zo de valor negativo para a fam’lia Capuleto (ra�a tirana), em detrimento ˆ descri�‹o positiva da fam’lia MontŽquio (fam’lia honesta e humana). Assim, esta representa o bem e a honra, valores exaltados na Žtica nordestina, enquanto aquela retrata a impiedade e o autoritarismo.

No conto de Bandello, n‹o h‡ essa dicotomia moralista retratada no romanceiro popular, de modo que um amigo de Romeu, embora reconhe�a o afeto de MontŽquio pelo filho, descreve a sua dureza e apego aos bens materiais: Ò[...] voc� Ž – deixe-me ser sincero – cort�s, virtuoso, am‡vel e de boa cultura, o que muito valoriza sua juventude. AlŽm disso, œnico filho de um pai cuja grande riqueza Ž de todos conhecida; Ž poss’vel que ele seja avaro e o repreenda se voc� esbanja os seus dotesÓ (BANDELLO, 2012, p.19).

            O enredo athaydiano desenvolve o conflito das duas fam’lias, acrescentando uma tragŽdia n‹o apresentada em nenhuma das tradi�›es romejulietianas. No cordel, MontŽquio foi preso por Capuleto e assistiu o assassinato brutal de sua esposa, que ainda tinha Romeu nos bra�os. A composi�‹o deste conflito aumenta o drama, pois n‹o houve qualquer miseric—rdia do tirano Capuleto:

Montequio inda pediu

mas ele n‹o atendeu,

disse o duque a um carrasco

esse logo obedeceu

dos bra�os da propria m‹e,

foi arrancado Romeu. [...]

Ali tirou um punhal

Que na cinta carregava

Cravou-o no peito da jovem

Dizendo: eu bem que jurava;

O punhal ia rangindo

Com a for�a que ele botava

Disse ela: senhor duque

seu cora�‹o Ž perverso

tenha d— do meu filhinho

que ainda fica no ber�o;

ele calcou no punhal

que sumiu-se atŽ no ter�o (ATHAYDE, 1975, p.4-5)[27]

            Na continuidade da narrativa, MontŽquio retira o punhal da esposa e jura que seu filho haver‡ de vingar-se do algoz inimigo. Como se n‹o bastasse o assassinato a m‹o armada, Capuleto arrastou pela cidade o corpo da esposa de MontŽquio e mandou jog‡-la no mar, privando-lhe atŽ de um enterro digno.

AlŽm disso, a presen�a de Romeu no baile de m‡scaras da fam’lia Capuleto Ž retratada de forma diferente. No conto, Romeu Ž reconhecido e tolerado sem troca de ofensas, sobretudo por ser muito jovem. Na vers‹o de Athayde, o jovem MontŽquio comparece com o punhal para vingar-se, conforme incumb�ncia do pai. Entretanto, ao se apaixonar por Julieta, Romeu Ž obrigado a fazer uma escolha entre o amor de seu pai e o da jovem Capuleto, numa tens‹o cuja escolha pesa a balan�a contra o c—digo de Žtica nordestino, conforme descreve o poeta:

Por fim falou o mancebo:

escuta, loura crian�a

do castelo do meu pai

vim tomar uma vingan�a;

e arrastando um punhal

aos pŽs da mo�a lhe lan�a

Diante a tua beleza

eu sinto o peito chagado

pelos teus olhos azuis

tornei-me escravizado

e te confesso sem pejo

Por ti, vivo apaixonado

Teu pai matou minha m‹e

Quando eu era pequenino,

E eu ving‡-lo jurei

Mas a for�a do destino

Fez com que tudo acabasse

Ante o teu porte divino

Serei perjuro e jamais

Ao meu pa’s voltarei

Aos teus pŽs palida imagem

Como escravo viverei

Juro-te em nome dos cŽus

Que junto a ti morrerei (ATHAYDE, 1975, p.15,16)

            A decis‹o de Romeu est‡ tomada e n‹o h‡ retorno, raz‹o pela qual o cordelista emite seu parecer, apresentando um ju’zo de valor com base na Žtica sertaneja para a qual a desonra ˆ fam’lia Ž uma atitude imperdo‡vel e, diante da qual, o eu l’rico esquece a abnega�‹o dos jovens apaixonados e execra:

 

Quem possui este romance

conhece bem o que leu,

a esposa de Montequio

em que condi�‹o morreu

tambŽm conhece a misŽria,

e covardia de Romeu. [...]

Romeu fez como saguim

que se ilude com careta

bastou ver no peito dela

um ramo de violeta

foi perguntar logo seu nome

lhe dissera; Ž Julieta

Nas condi�›es que ele estava

n‹o tinha mais um rodeio

era vingar-se de tudo

fingindo como um passeio

n‹o tinha o que perguntar

quem Ž bonito nem feio

Mas ele n‹o fez assim

depois que se achou na sala

viu Julieta dan�ando

fez tudo pra namor‡-la

inda ela sendo uma deusa

ela devera odi‡-la

Romeu foi falso a seu pai

por isto teve castigo

como faltou-lhe a coragem

para enfrentar o perigo

casou-se com a pr—pria filha

do seu fatal inimigo (ATHAYDE, 1975, p.30,31)

O enredo athaydiano construiu a imagem de um MontŽquio vitimado para, ao final, emitir um ju’zo de valor sobre a tomada de atitude de Romeu ao renunciar a vingan�a em nome do amor ˆ filha do inimigo. A composi�‹o de cordelista certamente considera o sil�ncio que o enredo bandelliano realiza em rela�‹o ˆ esposa de MontŽquio, pois, no conto, a fam’lia Capuleto Ž composta por um casal e a sua filha, mas isso n‹o sucede na fam’lia MontŽquio, em que apenas o pai e o filho s‹o retratados. Certamente, essa Ž uma das raz›es porque Bandello Ž tido como fonte de Athayde e n‹o Shakespeare, para quem a m‹e de Romeu morreu devido ao seu ex’lio em M‰ntua.

Na vers‹o de Athayde, Romeu n‹o Ž apresentado como um her—i, assim como acontece nas vers›es cl‡ssicas ou mesmo no romanceiro popular dos outros cordŽis. Aqui, ele Ž tratado como um traidor dos seus progenitores, alguŽm que renegou o seu sangue. No dizer de Oliveira (2019, p.1003), Ž o cordel Òassumindo o papel de correia transmissora de alguns valores culturais nordestinosÓ. O estabelecimento de uma moral n‹o Ž plena novidade dos romances nordestinos, pois, conforme Oliveira (2019, p.998), os autores europeus j‡ o faziam:

Brooke pregava em seu poema que a desobedi�ncia de Julieta foi a causa deflagradora da tragŽdia dos dois jovens, uma vez que Julieta n‹o quis ouvir os conselhos da m‹e. Com seu poema, Brooke deixa para os jovens a li�‹o de que o ato de n‹o obedecer ˆs ordens dos pais pode gerar consequ�ncias amargas e irrevers’veis. Esse tom moralizante foi relutado por Shakespeare em sua pe�a que retirou a responsabilidade da tragŽdia das m‹os de Julieta, transferindo-a para as duas fam’lias nobres e o seu eterno —dio.

No cordel de Lima (2012), a moral da narrativa Ž pronunciada no in’cio e no final do cordel, exaltando o poder do amor que une o casal na morte e pacifica a rela�‹o entras fam’lias rivais:

N‹o h‡ em todo o planeta

Algo que ven�a o amor,

Que Ž belo qual borboleta, 

Forte qual mar em furor.

ƒ o que mostra a historieta

De Romeu e Julieta.

Shakespeare Ž seu autor. [...]

Mas, no fim, o amor ganhou

pois o —dio ali morreu

E a verdade floresceu

Mesmo sendo borboleta,

Nenhuma for�a excedeu

Ao amor, neste planeta

Diz Shakespeare, n‹o eu,

Na hist—ria que escreveu

De Romeu e Julieta.Ó (LIMA, 2012, p.70,74).

Na narrativa de Bezerra (2011), a moral aparece tambŽm no final do romance, enfatizando as consequ�ncias do —dio e o modo como a paz selou-se:

E a que ponto chega o —dio

Ficou marcado no instante.

A Maldi�‹o teve o fim

Selou-se a paz doravante.

Isto serviu de li�‹o. (BEZERRA, 2011, p.31)

O tempo da narrativa Ž semelhante em todos os cordŽis, tal como em Shakespeare cuja a�‹o transcorre num per’odo de cinco dias, quando os jovens se conhecem, se casam, consumam o amor, Romeu foge e acabam se encontrando no sepulcro com a morte.

No cordel de Lima (2012), o casal se conhece na festa, com Romeu mascarado e oculto, resolvem se casar e a morte de Teobaldo n‹o Ž desenvolvida, como um elemento da composi�‹o que potencializou o conflito das fam’lias, apenas exilando Romeu, sem qualquer comprometimento de Julieta. Nos folhetos de Bezerra (2011) e de Marinho (2011), por outro lado, Romeu Ž reconhecido por Teobaldo no baile de m‡scaras, mas Capuleto reconhece a virtude do jovem MontŽquio e tolera sua presen�a, orientando o sobrinho a nada fazer, tendo em vista que o rapaz se mostrava virtuoso e educado. Em todos os cordŽis, Romeu mata Teobaldo apenas ap—s a provoca�‹o deste, que chega a matar Mercœrio, amigo do jovem MontŽquio.

Entretanto, apenas os cordŽis de Bezerra (2011) e de Marinho (2011) desenvolvem o drama de Julieta entre o primo morto e o marido exilado, exaltando ainda mais a natureza do conflito familiar e desencadeando a angœstia da mo�a. Na vers‹o de Bezerra (2011), a senhora Capuleto, relacionava o sofrimento de Julieta ˆ morte do Teobaldo, e promete que Romeu pagaria, sem saber, contudo, que a jovem chorava pela saudade do seu esposo.

Somente no cordel de Marinho (2011), aparece a senhora MontŽquio, apelando ao pr’ncipe para n‹o estabelecer a pena capital a Romeu devido ˆ morte de Teobaldo, tal como requeria a senhora Capuleto. Tal constru�‹o estabelece uma forte distin�‹o do car‡ter narrativo de Athayde, para quem a morte da senhora MontŽquio no in’cio do folheto Ž elemento fundamental do conflito entre os rivais.

Cabe ainda registrar que as œltimas estrofes dos cordŽis de Bezerra e Marinho encerram em forma de acr—stico, um carimbo de autoria caracter’stico do cordel.

 

 

Considera�›es finais

 

êtalo Calvino (1993, p.11) define um cl‡ssico como Òum livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizerÓ. No que pese a diversidade de reescrituras de Romeu e Julieta, Ž poss’vel consider‡-lo o grande enredo do ocidente, com o qual qualquer narrativa de amor proibido ser‡ sempre comparada. Sendo assim, n‹o Ž de se estranhar que os poetas populares tenham encontrado raz›es para ÒtraduzirÓ Romeu e Julieta para o cordel.

Enfatizamos, porŽm, que as adapta�›es dos cordŽis demonstram a liberdade dos autores em contar ao seu modo a trama. Contudo, do ponto de vista do enredo, foi poss’vel perceber muito mais liberdade no texto de Athayde, sobretudo pela incorpora�‹o de fatos e temas que permitem a identifica�‹o do pœblico leitor dos folhetos com o texto. Entretanto, n‹o se percebe o mesmo processo criativo nos demais textos aqui estudados, que se mostram mais propensos a cristalizar a hist—ria de Shakespeare.

 

 

Refer�ncias

 

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[Recebido: 16 ago 21- Aceito: 16 set 21]


 

O estatuto m’tico e a dimens‹o argumentativa em narrativas de enterro produzidas em comunidades quilombolas

 

 

The mythical status and the argumentative dimension in buried treasure narratives produced in quilombola communities

 

Emanuel da Silva Fontel[28]

https://orcid.org/0000-0002-7805-6464

 

Regina CŽlia Fernandes Cruz[29]

https://orcid.org/0000-0003-3985-1024

 

Benedita do Socorro Pinto Borges[30]

https://orcid.org/0000-0002-8188-9563

 

Thaynara Thays Ferreira Paix‹o[31]

https://orcid.org/0000-0002-7363-8406

 

Resumo: Neste artigo, discutimos como a constru�‹o de mitos se articula ˆ dimens‹o argumentativa em narrativas orais, mais especificamente em narrativas de enterro, as quais habitam o imagin‡rio da cultura quilombola e se referem ao enterramento de um tesouro por entidades m’ticas, que, considerando as qualidades dos indiv’duos da comunidade, revelam-lhe n‹o s— a exist�ncia da riqueza, mas tambŽm o local onde ela est‡ enterrada e as instru�›es necess‡rias ao resgate. O corpus analisado tem sido estudado por Borges (em andamento) e foi coletado em oito comunidades quilombolas do Baixo Tocantins - PA: Itabatinga, Itapocu, Laguinho, Mola, Taxizal, Tom‡zia, Frade e Laguinho. As bases te—rico-metodol—gicas fundamenta-se na Teoria da Argumenta�‹o no Discurso (AMOSSY, 2016, 2020), que prop›e a no�‹o de dimens‹o argumentativa como um efeito de sentido projetado pelo enunciador, que pretende n‹o a ades‹o expl’cita do enunciat‡rio a uma tese, mas t‹o somente lhe alterar os modos de ver e de sentir; na no�‹o de mito proposta por Chau’ (2020); nos estudos acerca das narrativas de enterro desenvolvidos por Fernades (2007). As an‡lises demonstram que enunciador e narrador mobilizam opera�›es argumentativas e ret—ricas para divulgar e estimular valores Žticos e morais importantes para a sobreviv�ncia e resist�ncia da comunidade.

Palavras-chave: Narrativa oral; Narrativa de enterro em comunidade quilombola; Estatuto m’tico; Dimens‹o argumentativa; Aspectos ret—ricos.

Abstract: This research aims to discuss how the construction of myths is articulated with the argumentative dimension in oral narratives, more specifically in buried treasure narratives. They inhabit the imagination of quilombola culture and refer to the burial of a treasure by mythical entities, which, considering the qualities of the individuals in the community, reveal the existence of wealth, the place where it is buried and the necessary instructions for its rescue. The analyzed corpus has been studied by Borges (in progress) and was collected in eight quilombola communities in Baixo Tocantins - PA: Itabatinga, Itapocu, Laguinho, Mola, Taxizal, Tom‡zia, Frad and Laguinho.  The theoretical-methodological bases subscribe to the Theory of Argumentation within Discourse (AMOSSY, 2016, 2020), which proposes the notion of argumentative dimension as an effect of meaning projected by the enunciator, who intends not to explicitly persuade the enunciatee to a thesis, but only to change their ways of seeing and feeling; to the notion of myth proposed by Chau’ (2020); and to studies about burial narratives developed by Fernades (2007). The analyzes demonstrate that both enunciator and narrator mobilize argumentative and rhetorical operations to disseminate and encourage ethical and moral values ​​that are important for the communityÕs survival and resistance.

Keywords: Oral narrative; Buried treasure narrative in a quilombola community; Mythical status; Argumentative dimension; rhetorical aspects.

 

 

Introdu�‹o

 

A narrativa de enterro[32] caracteriza-se como um g�nero discursivo que comp›e as pr‡ticas orais cotidianas de certas comunidades. Fernandes (2007), em trabalho seminal, coletou e analisou v‡rias formas narrativas orais no Pantanal sul-mato-grossense. Entre essas formas, est‹o as aqui denominadas narrativas de enterro  quilombola[33], que t�m sido estudadas, no ‰mbito da Universidade Federal do Par‡, por Borges (em andamento) e por Fontel (em andamento)[34]. Parte desse estudo j‡ se encontra publicado em Borges et. al. (2020). O corpus analisado foi coletado na regi‹o do Baixo Tocantins no Estado do Par‡, onde se encontram as comunidades remanescentes de quilombo: Itabatinga, Itapocu, Laguinho, Mola, Taxizal, Tom‡zia, Frade e Laguinho. Parte desse material Ž exposto no presente artigo.

Nas narrativas de enterro quilombola, verificamos a presen�a de um narrador que lan�a m‹o de v‡rias estratŽgias argumentativas com diferentes fun�›es, como a de produzir uma inst‰ncia discursiva cujo status garante a autoridade daquilo que enuncia. Desse modo, pode-se atribuir ao narrador um ethos afian�ador das suas credenciais para contar hist—rias nas quais o enunciat‡rio possa crer. A constru�‹o desse estado de cren�a n‹o pleiteia explicitamente a ades‹o a nenhuma tese. Muitas vezes h‡ investimentos em afetos e em sentimentos possivelmente despertados no enunciat‡rio, adentrando, em virtude disso, no dom’nio do pathos. Assim, o narrador n‹o parece, stricto sensu, pretender persuadir ou convencer o enunciat‡rio, mas apenas alterar o seu estado de cren�a. Nos casos sob an‡lise, parece pretender retirar o enunciat‡rio de um estado de poss’vel descren�a e desconfian�a acerca da veracidade da exist�ncia de um tesouro que foi enterrado por uma entidade m’tica na comunidade e lev‡-lo a um estado de cren�a na exist�ncia do referido tesouro, o que configura, nos termos de Amossy (216, 2020), a formula�‹o de uma dimens‹o argumentativa, entendida como a configura�‹o que um discurso assume quando os objetivos de convencer ou persuadir n‹o atendem a um objetivo program‡tico, isto Ž, n‹o s‹o primeiramente constitu’dos para fazer com que o interlocutor adira a uma tese espec’fica. A busca de ades‹o a teses Ž, por assim dizer, acidental ou secund‡ria. Nesses casos, afirma a autora, o mais importante para o enunciador Ž alterar os modos de ver e de sentir do enunciat‡rio (AMOSSY, 2020).

Nesse processo Òde fazer crerÓ nas narrativas de enterro, entram discursivamente em cena uma sŽrie de entidades m’ticas associadas a explica�›es de base sobrenatural, atuando, dessa maneira, no plano simb—lico e constituindo, portanto, um mito (CHAUê, 2020), que t�m em vista revelar e certificar a exist�ncia do tesouro enterrado. O conhecimento do narrador acerca da exist�ncia tanto do tesouro quanto das entidades que o gerenciam e das condi�›es que elas imp›em ao escolhido para que ele tenha acesso ˆs riquezas o credenciam a dar conselhos e ensinamentos de ordem Žtica e moral, a fim de garantir a exist�ncia, o bom funcionamento e a resist�ncia da comunidade quilombola

Adiante, situamos o g�nero discursivo objeto do presente estudo, a no�‹o de estatuto m’tico e apresentamos ainda uma an‡lise poss’vel para as estratŽgias utilizadas pelo enunciador com vista a sensibilizar o enunciat‡rio relativamente a determinados valores morais e Žticos.

 

 

O g�nero narrativa de enterro

 

Nesta se�‹o, apresentamos os diferentes significados e a estrutura narrativa desse g�nero nos termos de Fernandes (2007). Em Borges et. al (2020) e em Paix‹o; Borges; Cruz (2020) tanto os significados quanto a estrutura est‹o amplamente explicados e exemplificados, raz‹o por que n‹o procederemos de igual modo. Remetemos esses trabalhos ao leitor interessado no tema.

As narrativas de enterro caracterizam-se como uma narrativa oral cujo tema central Ž a saga de uma pessoa em busca de um tesouro encantado, o qual foi revelado por meio de uma for�a sobrenatural (FERNANDES, 2007). O pioneiro nos estudos sobre o tema foi Fernandes (2007), que coletou e registrou v‡rias narrativas orais no Pantanal sul-mato-grossense, entre elas, as narrativas de enterro. O nome enterro foi dado pelos pantaneiros, pois geralmente o tesouro perdido est‡ escondido debaixo da terra, o que tambŽm simboliza a rela�‹o do enunciador com o espa�o onde ele habita.

Apesar de caracterizarem-se como varia�›es de uma mesmo g�nero discursivo, dada a apenas relativa estabilidade dos enunciados (BAKHTIN, 2011) e dividirem a mesma estrutura formal – o que foi comprovado no estudo de Borges et. al. (2020) –  as narrativas de enterro coletadas no pantanal e as narrativas de enterro coletadas em comunidades quilombolas s‹o diferentes no que se refere a alguns aspectos do conteœdo tem‡tico, o que pode ser justificado pelas diferen�as hist—ricas e sociais de seu contexto de produ�‹o.

O ponto comum entre as duas Ž que a aus�ncia de bancos para dep—sito do dinheiro justificava o enterro, porŽm, cada uma dessas narrativas apresenta motiva�›es diferentes para que ele acontecesse. Segundo Fernandes (2007), nas narrativas de enterro pantaneiras s‹o citados fatos hist—ricos locais, como, por exemplo, a Guerra do Paraguai. Algumas fazem men�‹o ˆ Žpoca das miss›es.

As comunidades quilombolas do Baixo Tocantins foram constru’das por meio de um processo hist—rico-social iniciado no tempo da escravid‹o. Atualmente, essas comunidades remanescente, apesar de n‹o serem mais constitu’das por escravos, tentam manter sua identidade e culturas preservadas. As mem—rias desse passado s‹o recorrentes nas narrativas coletadas nas comunidades.

O g�nero discursivo em estudo pode ser definido, de forma geral, como uma narrativa em que um tesouro enterrado Ž revelado a uma pessoa por meio de acontecimentos sobrenaturais. Fernandes (2007) classificou as narrativas de enterro em quatro categorias, considerando a varia�‹o de significados: o protoconto, a explicativa, a descritiva e o logro.

Etimologicamente, protoconto pode significar Òconto inacabadoÓ, porŽm o verdadeiro sentido dessa categoria de narrativa de enterro n‹o se refere a uma hist—ria acabada, mas sim em gesta�‹o, posto que se desenvolve ˆ medida que a hist—ria transcorre. Segundo Fernandes (2007, p. 287), o protoconto traz em seu significado certa aproxima�‹o com o conto maravilhoso, porque em ambos ÒŽ ressaltada a prova�‹o do escolhido e do her—iÓ. O her—i do conto maravilhoso passa por percal�os e prova�›es atŽ a resolu�‹o dos problemas.  Dessa mesma forma, nas narrativas de enterro quilombolas, o escolhido enfrenta algumas dificuldades atŽ encontrar e desenterrar o tesouro.

Na narrativa do tipo explicativa, h‡ a inser�‹o de elementos que s‹o encontrados em mitos e lendas, com o objetivo de explicar a exist�ncia do enterro. Ou seja, quando um fen™meno incompreens’vel acontece, lan�a-se m‹o de explica�›es do imagin‡rio popular para explic‡-lo. Nas narrativas pantaneiras, Fernandes (2007) observou que o mito M‹e de Ouro era mencionado para explicar manifesta�›es de enterro. J‡ nas narrativas de enterro quilombolas encontramos a hist—ria do Pretinho, que, segundo a narradora, Ž antiga. A apari�‹o desse ser, que faz alus‹o ˆ lenda do saci, j‡ faz parte do imagin‡rio da comunidade e Ž usada para justificar a exist�ncia de um tesouro encantado.

 AlŽm disso, como afirma Borges (em adamento), os relatos de apari�‹o de um ser com a mesma cor de pele dos moradores produzem uma identifica�‹o e assumem uma posi�‹o de autoridade ao orientar os indiv’duos para atitudes e valores que estimulam a resist�ncia do povo negro.

A narrativa do tipo descritiva, por sua vez, tem como finalidade descrever elementos do enterro, ou suas partes, geralmente a marca�‹o, a manifesta�‹o e a prova�‹o. Nessa categoria de narrativa, n‹o h‡ um enredo propriamente dito. O foco Ž explicar os detalhes do enterro, como: o local do tesouro, os tipos de manifesta�›es que podem acontecer e as prova�›es pelas quais o escolhido pode passar.

AlŽm da classifica�‹o das narrativas de enterro de acordo com seu significado, Fernandes (2007) identificou que a estrutura formal desse g�nero poderia ser composta de atŽ seis partes: origem, anuncia�‹o, manifesta�‹o, marca�‹o, prova�‹o e desenlace.

A parte denominada origem transporta a narrativa ao eixo da temporalidade, (FERNANDES, 2007). A origem revela a proced�ncia da riqueza enterrada, no caso das narrativas quilombolas, geralmente Ž resgatado o tempo da escravid‹o.

Outra parte da estrutura definida por Fernandes (2007) Ž a anuncia�‹o: revela�‹o do enterro ao escolhido, por meio de sonhos, vis›es, vozes, dentre outros.

H‡ casos ainda em que, quando o tesouro n‹o Ž revelado por meio de sonhos ou vis›es, o pr—prio enterro se revela ao escolhido. Nesse caso, trata-se da manifesta�‹o, que tambŽm est‡ diretamente relacionada ˆ liga�‹o existente entre o narrador e a terra, pois se acredita que, quando o ouro entra em contato com a terra, torna-se encantado e demonstra vontade pr—pria ao se revelar a quem se sup›e ser merecedor dele, declara Fernandes (2007).

A marca�‹o Ž outra parte da estrutura da narrativa de enterro que pode acontecer de duas maneiras distintas: geograficamente, situa�‹o em que o dono do enterro conta ao escolhido onde est‡ o tesouro; ou simbolicamente, quando o escolhido, para quebrar o encanto do tesouro, marca, ou seja, batiza o enterro, acendendo uma vela, pingando gotas do pr—prio sangue etc.

A quinta parte da estrutura Ž chamada de prova�‹o e acontece quando o escolhido passa por testes para provar que Ž merecedor do tesouro. A honestidade e a moralidade do escolhido s‹o testadas, especialmente em casos em que o tesouro deve ser dividido.

Finalmente, o desfecho da hist—ria se d‡ no desenlace, o qual pode ser positivo ou negativo. Essa parte revela o que aconteceu com o escolhido e o enterro: o �xito, com a retirada do enterro e a obten�‹o da riqueza; a perda, que pode ocorrer porque o escolhido n‹o teve coragem suficiente para passar pela prova�‹o ou quando Ž enganado por alguŽm que rouba seu tesouro.

Fernandes (2007) destacou que esse g�nero discursivo expressa um anseio coletivo, transmite valores, costumes e preceitos morais dos indiv’duos de uma comunidade. A estrutura formal da narrativa Ž percebida pelo narrador, o qual, por meio da consci�ncia lingu’stica, movimenta suas partes de forma criativa, gerando atualiza�›es. Segundo o autor:

Por consci�ncia lingu’stica compreende-se a assimila�‹o, no ‰mbito textual, de elementos constitutivos de uma narrativa pelo ouvinte-leitor e do modo como eles se apresentam na reatualiza�‹o do texto, quando o ouvinte-leitor torna-se narrador. A consci�ncia lingu’stica capacita o narrador a articular e a associar motivos, invariantes e vari‡veis na atualiza�‹o de um arquŽtipo. (FERNANDES, 2007, p. 229).

Em resumo, as narrativas de enterro podem apresentar quatro diferentes significados, que s‹o: protoconto, o qual apresenta certa semelhan�a com o conto maravilhoso; a narrativa explicativa, que utiliza os mitos e lendas como comprova�‹o da exist�ncia do enterro; a descritiva, a qual tem como finalidade descrever e detalhar algumas partes da estrutura da narrativa;  o logro, narrativa na qual o desfecho da hist—ria se d‡ com o roubo do tesouro. Sua estrutura pode ser constitu’da de atŽ seis partes: origem, anuncia�‹o, manifesta�‹o, marca�‹o, prova�‹o e desenlace.

Desse modo, constatamos que a narrativa de enterro de cada comunidade possui uma identidade pr—pria, que vai ao encontro dos seus valores e costumes, no entanto, essas diferentes narrativas parecem encontrar-se no alinhavado produzido pelos diferentes aspectos m’ticos que as atravessam. A se�‹o seguinte apresenta uma breve discuss‹o te—rica acerca no�‹o de mito, na qual este artigo se baseou.

 

 

Estatuto m’tico da narrativa de enterro

 

Um caix‹o ÒaluminadoÓ, uma galinha choca e o Pretinho[35] s‹o alguns dos elementos sobrenaturais presentes nas narrativas.

Visto que a pr—pria defini�‹o de narrativa apresenta um car‡ter fant‡stico – quando a revela�‹o se d‡ exclusivamente ou por meio de sonhos e vis›es (anuncia�‹o), ou por meio de apari�›es sobrenaturais (manifesta�‹o) –, fica evidente o estatuto m’tico das narrativas de enterro. Para compreender esse estatuto, devemos levar em considera�‹o a necessidade intrinsecamente humana de tentar entender e explicar os fatos e os fen™menos incompreendidos, o que resulta na cria�‹o de mitos. Segundo Chau’ (2000):

Um mito Ž uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da ‡gua, dos ventos, do bem e do mal, da saœde e da doen�a, da morte, dos instrumentos de trabalho, das ra�as, das guerras, do poder etc.).

A palavra mito vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo (contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo (conversar, contar, anunciar, nomear, designar) (CHAUê, 2000, p. 32).

A defini�‹o acima descrita se mostra pertinente para o entendimento da presen�a do mito na narrativa de enterro, pois, de fato, entidades m’ticas s‹o mobilizadas para justificar a origem do tesouro. Chau’ (2000) afirma, ainda, que o mito:

tem como fun�‹o resolver, num plano simb—lico e imagin‡rio, as antinomias, as tens›es, os conflitos e as contradi�›es da realidade social que n‹o podem ser resolvidas ou solucionadas pela pr—pria sociedade, criando, assim, uma segunda realidade, que explica a origem do problema e o resolve de modo que a realidade possa continuar com o problema sem ser destru’da por ele  (CHAUê, 2000, p. 396).

No entanto, na narrativa de enterro, n‹o Ž a inten�‹o de resolver Òconflitos e contradi�›es da realidade socialÓ que justifica o emprego de elementos m’ticos e lend‡rios, mas sim o intuito de explicar o enterro de um tesouro. Observamos que a pr—pria men�‹o ao enterro j‡ revela o seu lugar na dimens‹o do fant‡stico.

Dessa forma, consideramos relevante a explica�‹o de Benjamin (1987) sobre a narrativa:

Cada manh‹ recebemos not’cias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em hist—rias surpreendentes. A raz‹o Ž que os fatos j‡ nos chegam acompanhados de explica�›es. Em outras palavras: quase nada do que acontece est‡ a servi�o da narrativa, e quase tudo est‡ a servi�o da informa�‹o (BENJAMIN, 1987, p. 203).

A liberdade de poder ler o mundo conforme suas cren�as permite aos moradores das comunidades onde os dados foram coletados utilizar o extraordin‡rio, o m’tico para explicar os acontecimentos do mundo real.

Segundo Campbell (1990, p. 25), Ž preciso pensar os mitos de forma incorporada ˆ vida, pois Òa mitologia tem muito a ver com os est‡gios da vida, com as cerim™nias de inicia�‹o, quando voc� passa da inf‰ncia para as responsabilidades do adulto, da condi�‹o de solteiro para a de casado. Todos esses rituais s‹o ritos mitol—gicosÓ. Esses rituais s‹o not—rios em toda a trajet—ria do escolhido: na anuncia�‹o e na manifesta�‹o do tesouro; na marca�‹o simb—lica (batismo do tesouro); na prova�‹o, na qual o escolhido passa por provas que exigem que ele demonstre sua coragem (seguir uma galinha choca que sai da boca de um pote, por exemplo) ou honestidade (dividir a riqueza com alguŽm).

AlŽm disso, os elementos e objetos das narrativas de enterro quilombolas que recebem essa segunda camada, situada no campo m’tico, fazem parte da identidade cultural e dos costumes da comunidade: ‡rvores, igarapŽs, tachos, fornos, bilhas. De acordo com LŽvi-Strauss (1993):

cada mitologia local, confrontada com uma determinada hist—ria e com um determinado meio ecol—gico, muito nos ensina acerca da sociedade de que provŽm, exp›e-lhe as for�as motrizes, esclarece o funcionamento, o sentido e a origem das cren�as e costumes /.../ (LƒVI-STRAUSS, 1993, p. 174).

Diante do exposto, fica evidente, portanto, que as narrativas de enterro est‹o diretamente ligadas ao m’tico. A pr—pria defini�‹o desse g�nero discursivo e os objetos mencionados no enredo das hist—rias est‹o inseridos no campo do fant‡stico.

A se�‹o seguinte apresenta nove segmentos de v‡rias narrativas que comp›em o corpus da pesquisa. Com base neles, busca-se demonstrar como o estatuto m’tico atua na configura�‹o da dimens‹o argumentativa do g�nero sob an‡lise.

 

 

Mitos e constru�‹o da dimens‹o argumentativa em narrativas de enterro quilombolas: um exerc’cio de an‡lise

 

Nesta se�‹o, discutimos a caracteriza�‹o de uma dimens‹o argumentativa com base na maneira como algumas categorias ret—ricas aliam-se a aspectos articulados ao que temos denominado de estatuto m’tico das narrativas de enterro quilombolas. Nessa articula�‹o, entidades m’ticas interv�m tendo em vista alterar o estado de cren�a do enunciat‡rio. Discutiremos ainda as maneiras como as narrativas de enterro contribuem para a transmiss‹o e a fomenta�‹o de princ’pios e de valores morais ˆ comunidade.

Na prova�‹o, que corresponde a uma das partes da estrutura formal dessas narrativas, o escolhido deve enfrentar situa�›es que causam medo ou realizar um pedido que o ser sobrenatural determinou como condi�‹o para ser merecedor do tesouro. Bom car‡ter, coragem, honestidade, lealdade e esperteza s‹o algumas das virtudes que o escolhido deve apresentar para receber a recompensa. Ali‡s, a coragem Ž a caracter’stica mais exigida como comprova�‹o de merecimento do tesouro. Observemos o segmento da narrativa Maldi�‹o:

SEGMENTO 01

quando a alma vem dizer pras pessoa nŽÓ (+) que t‡ o dinheiro se a pessoa for l‡ n‹o tiver medoÕ ele tira o dinheiro e fica rico.

Para descrever o racioc’nio presente nesse trecho, podemos aplicar o Òmodelo entimem‡ticoÓ, proposto por Amossy (2020, p. 150) e abaixo exemplificado. Segundo a autora, por meio desse quadro, pode-se reconstituir um racioc’nio silog’stico a partir dos entimemas que se encontram subsumidos no discurso:

 

Quadro 1. Modelo entimem‡tico aplicado ao segmento da Prova de coragem

Premissa maior (ausente)

ƒ preciso n‹o ter medo para conseguir tirar o dinheiro e ficar rico.

Premissa menor

Se o escolhido n‹o tiver medo.

Òse a pessoa for l‡ n‹o tiver medoÓ

Conclus‹o

Logo, conseguir‡ tirar o dinheiro e ficar‡ rico.

Òele tira o dinheiro e fica ricoÓ

    Fonte: Elaborado pelos autores com base no modelo de Amossy (2020).

 

De acordo com Amossy (2020), o silogismo pode ser definido, de maneira ampla, como todo racioc’nio dedutivo; Ž constitu’do de duas premissas – premissa maior e premissa menor – e de uma conclus‹o. Conforme explica Fiorin (2018, p. 17), Arist—teles dividia os racioc’nios entre necess‡rios e prefer’veis (ou prov‡veis).

O racioc’nio necess‡rio Ž Òaquele cuja conclus‹o decorre necessariamente das premissas colocadas, ou seja, sendo verdadeiras as premissas, a conclus‹o n‹o pode n‹o ser v‡lidaÓ (FIORIN, 2018, p. 17). Do ponto de vista aristotŽlico, o tipo perfeito de racioc’nio necess‡rio era o silogismo demonstrativo. Podemos utilizar, a t’tulo de exemplifica�‹o, o cl‡ssico ÒTodos os homens s‹o mortaisÓ (premissa maior); ÒS—crates Ž um homemÓ (premissa menor); ÒLogo, S—crates Ž mortalÓ (conclus‹o).

Os racioc’nios prefer’veis s‹o Òaqueles cuja conclus‹o Ž poss’vel, prov‡vel, plaus’vel, mas n‹o necessariamente verdadeira, porque as premissas sobre as quais ela se assenta n‹o s‹o logicamente verdadeirasÓ (FIORIN, 2018, p. 18). Um exemplo desse tipo de racioc’nio Ž o silogismo dialŽtico ou ret—rico. Emprestamos o exemplo utilizado pelo autor:

 

Todo professor Ž dedicado.

Ora, AndrŽ Ž professor.

Logo, AndrŽ Ž dedicado.

(FIORIN, 2018, p. 18)

 

ƒ prov‡vel, Ž poss’vel que AndrŽ seja um professor dedicado, mas n‹o Ž logicamente verdadeiro. Desse modo, Òa admiss‹o de certas premissas e, portanto, de determinadas conclus›es depende de cren�as e de valoresÓ (FIORIN, 2018, p.18). Os racioc’nios prefer’veis s‹o estudados pela ret—rica, enquanto os racioc’nios necess‡rios pertencem ao campo da l—gica.

O entimema, por sua vez, corresponde a um silogismo truncado que se utiliza do impl’cito, na medida em que o enunciador pode ocultar tanto a premissa maior quanto a conclus‹o, supondo que, mesmo n‹o sendo enunciadas, ser‹o deduzidas pelo ouvinte.

Retornando ao exemplo do modelo entimem‡tico, podemos afirmar que Ž prov‡vel, ou seja, Ž poss’vel que o escolhido, se n‹o tiver medo, consiga tirar o tesouro enterrado e ficar rico, porŽm, n‹o Ž logicamente prov‡vel. TambŽm podemos provar que se trata de algo plaus’vel se utilizarmos uma prova dentro do pr—prio g�nero discursivo: a narrativa com significado de logro, em que o escolhido, mesmo apresentando coragem, ao final, se n‹o for esperto o suficiente, pode ter seu tesouro roubado. Essa reconstru�‹o tambŽm demonstra que pathos, compreendido como as emo�›es que o enunciador tenta gerar no enunciat‡rio e logos, que, grosso modo, corresponde ao eixo que articula a raz‹o ˆ linguagem, s‹o muitas vezes indissoci‡veis no funcionamento discursivo (AMOSSY, 2020).

Nem todos os ensinamentos e valores que podem ser transmitidos por meio das narrativas de enterro s‹o expostos explicitamente. ƒ o que demonstra o segmento 2, que apresenta um trecho da narrativa Prova de coragem. Como sugere o t’tulo, o enredo Ž voltado para a demonstra�‹o de coragem do escolhido:

 

SEGMENTO 02

e a’ falaro pra ele OLHA se tu trazer o pac�ro (++) corajusoÕ (+) se tu n‹o conseguir tirar com pac�ro c� v‹o/ c� v‹o apanh‡Õ /.../ agora se tu desist’ num vai ficar por issoÕ vai acontecer alguma cuisa contingoÕ (Borges em andamento)

 

De acordo com o segmento 02, o escolhido poderia convidar um parceiro que apresentasse coragem suficiente para ir atŽ o fim da empreitada. A desist�ncia implicaria puni�‹o: eles iriam ÒapanharÓ, ou seja, seriam castigados fisicamente, e, ainda mais, aconteceria algo que a ÒvozÓ – Ž como o narrador denomina esse ser sobrenatural – n‹o especifica (Òvai acontecer alguma cuisa contigoÓ). Diferentemente do que apresenta o segmento 02, no segmento 03, a prova�‹o Ž anunciada pelo ser sobrenatural. Nessa narrativa, a ÒvozÓ somente diz que ele e o parceiro devem ser corajosos. O narrador continua a hist—ria dizendo que o escolhido optou por ir sozinho retirar o dinheiro. O segmento 3, abaixo, apresenta a estrutura narrativa correspondente ˆ prova�‹o na narrativa Prova de coragem.

 

SEGMENTO 03

a’ chegu l‡ come�u a cavarÕ (+) a’ le/ ele t‡ pensando que Ž s— chegar e cavar que num tinha um movimento daqui alguma cuisa estranha nŽÓ (++) /.../ a’ veio uma vozÕ (+) cava pra c‡ pra esquerda ele falava a’: (+) mais pra direitaÕ (++) a’: ele come�u ver o neg—cio mu::ito aqui ele ficou com medoÕ ele come�u quer� sa’ ele falou n‹oÕ tu vai t�/ tu vai t� que terminar o selvi�o (+) /.../ ele pensava que num era assim (Borges em andamento)

 

O narrador afirma que o escolhido tinha uma ideia equivocada de como seria essa retirada do dinheiro (Òele t‡ pensando que Ž s— chegar e cavarÓ; Òele pensava que num era assimÓ). A prova�‹o aconteceu de duas formas: uma prova de obedi�ncia, a ÒvozÓ dando instru�›es de onde cavar para encontrar o dinheiro; uma prova de coragem, na qual algo que o escolhido viu (Òele come�u a ver o neg—cioÓ) lhe causou medo.

A seguir, no segmento 04, temos o desenlace tambŽm da narrativa Prova de coragem.

 

SEGMENTO 04

DEIXARO ele vimÕ (+) e a’ ele veio (++) passu a nuite inteira com dor de cabe�a e eu sei que atŽ huje i:/ ele t‡ meio mais doido como diz do que bemÕ (Borges em andamento)

 

Ap—s v‡rias tentativas de desist�ncia, enfim, o escolhido consegue ir embora do local do enterro, porŽm, a puni�‹o foi aplicada. Por n‹o ter sido corajoso para finalizar a miss‹o, o escolhido teve dor de cabe�a a noite inteira, o que, aparentemente, causou-lhe doen�as mentais desde ent‹o.

Diante desse cen‡rio, devemos buscar entender de que maneira essa narrativa, mesmo sem pretens‹o expl’cita de busca de ades‹o a uma tese, apresenta uma Òmoral da hist—riaÓ. Podemos encontrar a argumentatividade desse g�nero discursivo investigando o Òn‹o ditoÓ ou Òo poder do expl’citoÓ, de acordo com Amossy (2020).

 

O impl’cito contribui para a for�a da argumenta�‹o na medida em que empenha o alocut‡rio a completar os elementos ausentes [...] [e] refor�a a argumenta�‹o ao apresentar, sob uma forma indireta e velada, as cren�as e opini›es que constituem suas premissas incontestadas. (AMOSSY, 2020, p. 178-179.).

 

Nesse viŽs, os ensinamentos compartilhados pela hist—ria contada ser‹o constru’dos pelo ouvinte a partir de seus pr—prios valores e cren�as. Os excertos da narrativa Prova de coragem, apresentados no segmento 04, permitem inferir que Ž preciso ter coragem para passar pelas prova�›es e alcan�ar sucesso. Isso se aplica tanto ˆ miss‹o de desenterrar um tesouro encantado quanto a outros percal�os da vida.

O excerto 05, a seguir, pertence ˆ narrativa O caix‹o aluminado. Em suma, trata-se de uma escolhida que v� um caix‹o ÒaluminadoÓ (iluminado) e Ž chamada por alguŽm para buscar uma riqueza. Amedrontada, conta para o marido, o qual vai ao lugar marcado tentar retirar, entretanto, n‹o encontra nada. Ao final da hist—ria, ocorre o seguinte:

 

                                      SEGMENTO 05

o cara veio no SONHO delaÕ (+) e disse olha ERA PRA TI n‹o era pra eleÕ (++) ent‹o era pra ti ir s— tu ir buscar e num ia te acontecer nadaÕ agora tu n‹o fica com nadinhaÕ nem tu e nem ele (Borges em andamento)

 

A escolhida n‹o cumpriu a regra segundo a qual somente o escolhido pode retirar a riqueza. Observamos essa condi�‹o em v‡rias narrativas, quando o tesouro se manifesta na presen�a de escolhido e some na presen�a de outras pessoas. A puni�‹o para a infra�‹o de regras Ž a perda do tesouro (Òtu n‹o fica com nadinhaÓ).

Abaixo, no segmento 06, apresentamos outro trecho da narrativa O fogo, na qual a escolhida tambŽm n‹o teve coragem de retirar o tesouro e contou para outras pessoas sobre a exist�ncia dele.

 

SEGMENTO 06

e faziam tipo uma RIMPADA assim no punho da redeÕ a’ vov— (+) ficava assimÕ dizia assim tu vai apanharÕ pra ti tudo tu conta pros outro (+) pra O QUæ tu saber tu n‹o contar pro outroÕ (Borges em andamento)

 

AlŽm da falta de coragem para buscar o tesouro, a escolhida infringiu outra regra frequentemente imposta como prova�‹o nas narrativas de enterro: n‹o se deve contar para ninguŽm o segredo que envolve o local onde o tesouro est‡ enterrado, a n‹o ser que seja permitido pelo dono da rel’quia. Dessa forma, com base nos segmentos 05 e 06, o enunciat‡rio deve alterar a sua vis‹o de mundo, entendendo a import‰ncia moral do ensinamento, segundo o qual Ž importante saber guardar segredos.

O segmento 07, apresentado a seguir, faz parte da narrativa Ambi�‹o:

 

 

                                      SEGMENTO 07

falaru que o dinheiro era pra ele com paulo pintoÕ que era irm‹o do tio roxo (++) e a’ o papai usou a imbi�‹o e disse que o/ ele ia convidar o manŽ borge que era irm‹o dele nŽÓ /.../  e quando ele chegou l‡:Õ (+) o dinheiro j‡ num estava maisÕ j‡ tinha/ sumidoÕ (Borges em andamento)

 

Nessa narrativa, tambŽm Ž poss’vel observar a transmiss‹o de princ’pios morais; nesse caso, a honestidade e a desambi�‹o. O dinheiro deveria ser dividido entre o protagonista e outro personagem que tambŽm foi considerado merecedor do tesouro. PorŽm, como diz o narrador, ele usou a Òambi�‹oÓ e chamou outra pessoa para retirar o tesouro com ele. Por ter agido contra a determina�‹o de quem lhe doou o dinheiro, tornou-se indigno de retirar o referido tesouro (Òo dinheiro j‡ num estava maisÓ).

No segmento 08, exposto a seguir, temos um trecho da narrativa Bico de vela:

 

                                      SEGMENTO 08

disque o homem enganou ela (0.36) DEU OUTRAS MOEDA e ficou com aquelas (+) e ela nu/ num se lucrou de nada (2.33) (j‡) pensouÓ (Borges em andamento)

 

ƒ interessante observarmos que a escolhida, mesmo passando por todas as prova�›es (ter coragem e batizar o tesouro), perde as moedas de ouro no final. A escolhida perdeu o tesouro para alguŽm mais esperto, dessa forma, o narrador alerta: a prud�ncia e a desconfian�a em rela�‹o a pessoas pr—ximas devem permanecer sempre agu�adasÓ (FERNANDES, 2007, p. 300).

AlŽm disso, tambŽm Ž poss’vel perceber, no trecho supracitado, o apelo ao pathos inscrito de forma impl’cita como uma estratŽgia de sensibiliza�‹o do ouvinte. Toda essa hist—ria pode suscitar uma resposta emocional do interlocutor, porŽm, isso Ž mais percept’vel no trecho: Òela num se lucrou de nadaÓ, seguido do convite da narradora ˆ reflex‹o: Òj‡ pensou?Ó. De acordo com Amossy (2020, p. 208), a emo�‹o pode ser constru’da no discurso a partir de enunciados que carregam emo�›es e Òque levam a uma determinada conclus‹o afetivaÓ. Nesse contexto, tendo em considera�‹o todo o enredo que leva ao logro da escolhida, podemos chegar a uma conclus‹o: ele [o homem que enganou a mulher] n‹o foi justo. Nessa narrativa, s‹o mobilizados a compaix‹o pela escolhida e o sentimento de injusti�a.

Benjamin (1987, p. 200) declara que a narrativa:

 

tem sempre em si, ˆs vezes de forma latente, uma dimens‹o utilit‡ria. Essa utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugest‹o pr‡tica, seja num provŽrbio ou numa norma de vida. [...] O extraordin‡rio e o miraculoso s‹o narrados com a maior exatid‹o, mas o contexto psicol—gico da a�‹o n‹o Ž imposto ao leitor. Ele Ž livre para interpretar a hist—ria como quiser, e com isso o epis—dio narrado atinge uma amplitude que n‹o existe na informa�‹o. (BENJAMIN, 1987, p. 200-203)

 

Diante do exposto, conclu’mos que as narrativas de enterro podem ser uma fonte de transmiss‹o e fortalecimento de cren�as e valores, ˆs vezes t‡citos, compartilhados por uma comunidade.

Mais uma vez, a dimens‹o argumentativa se mostra constitutiva das narrativas de enterro, visto que Amossy (2020, p. 12) define a argumentatividade, tambŽm presente no enunciado, como algo Òque convida o outro a compartilhar modos de pensar, de ver e de sentirÓ. Por outro lado, s‹o recorrentes os elementos m’ticos que atuam nessa dimens‹o. A alma que vem dizer algo; a voz espectral que exige uma prova de coragem; uma galinha choca; o pretinho que se assemelha ao saci-perer�; o cara que, em sonho, revela o local do tesouro, mas exige a manuten�‹o do segredo e do mistŽrio, entre outros, s‹o elementos que, ao intervirem diretamente nas a�›es narradas, instituem claramente um estatuto m’tico para as narrativas de enterro de tesouro em comunidades quilombolas.

 

 

Considera�›es finais

 

Nesse estudo, analisamos um aspecto espec’fico da narrativa de enterro - o car‡ter m’tico - usado pelo narrador como estratŽgia que autoriza considerar a exist�ncia de uma dimens‹o argumentativa nesse g�nero do discurso, que, embora n‹o apresente um car‡ter tipicamente persuasivo, na medida em que nele o enunciador n‹o exige do enunciat‡rio a ades‹o expl’cita a uma tese, sutilmente busca encaminhar a comunidade onde circula o g�nero a desenvolver valores Žticos e morais primordiais para a sobreviv�ncia e resist�ncia da comunidade.

No caso espec’fico das narrativas de enterro quilombolas, a fomenta�‹o de valores morais e Žticos como a coragem, a capacidade de guardar segredos e a honestidade, tematizados nesse g�nero discursivo, s‹o estratŽgias que parecem tentar encaminhar os indiv’duos para as regras legais de sobreviv�ncia em sociedade e estimular neles a capacidade de resistir tanto no mundo real quanto no imagin‡rio.

 

 

Refer�ncias

 

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[Recebido: 28 set 21 - Aceito: 28 out 21]


 

 

 

 

 

 

 

Oralidade e quadrinhos: possibilidades pedag—gicas

 

 

Orality and comics: pedagogical possibilities

 

 

Alberto Ricardo Pessoa[36]

https://orcid.org/0000-0002-0231-3778

 

Cristiano Clemente de Souza[37]

https://orcid.org/0000-0003-0868-7663

 

 

Resumo: A proposta do artigo Ž apresentar possibilidades pedag—gicas que promovam o ensino da oralidade por meio das Hist—rias em Quadrinhos. A Justificativa deste estudo se deve ao fato dos quadrinhos serem uma m’dia que tem como pœblico primordial a crian�a e adolescente e por ter um discurso verbal e n‹o verbal do qual apresenta um espa�o sonoro prop’cio para o estudo da oralidade. Apresentamos o conceito de oralidade, os elementos das hist—rias em quadrinhos pertinentes para o estudo da oralidade e possibilidades pedag—gicas no intuito de complementar as estratŽgias de ensino e aprendizagem do professor da educa�‹o b‡sica.

Palavras-chave. Oralidade; Hist—ria em quadrinhos; Par‰metros Curriculares Nacionais; EstratŽgias de ensino; Discurso verbal e n‹o verbal.

 

Abstract: The purpose of the article is to present pedagogical possibilities that promote the teaching of orality through Comics. The justification for this study is due to the fact that comics are a medium whose primary audience is children and teenagers and because they have a verbal and non-verbal speech which presents a sound space suitable for the study of orality. We present the concept of orality, the relevant elements of the comic books to the study of orality and pedagogical possibilities in order to complement the teaching and learning strategies of the basic education teacher.

Keywords: Orality; Comics; National Curriculum Parameters; Teaching Strategies; Verbal and non-verbal speech.

 

 

Introdu�‹o

 

A educa�‹o brasileira sofreu ao longo dos anos com discrep‰ncias sociais, econ™micas e tecnol—gicas, oriundas de pol’ticas pœblicas equivocadas e descaso administrativo.

Enquanto algumas escolas se apresentam com infraestrutura capaz de oferecer a melhor experi�ncia de ensino para um aluno igualmente capaz de se desenvolver, h‡ institui�›es e comunidades que se encontram em condi�›es prec‡rias no que se refere a produzir um ambiente prop’cio de aprendizagem.

Dentro deste contexto, os Par‰metros Curriculares Nacionais (PCNs), a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) e mais recentemente os Objetivos de Desenvolvimento Sustent‡vel (ODS) se colocam como um eixo norteador no intuito de dirimir essa discrep‰ncia e que coloca o professor como ator mediador deste processo educacional de tantas vari‡veis.

O pr—prio docente muitas vezes se encontra em sua jornada trabalhista atuando em escolas e comunidades com possibilidades distintas de ensino e aprendizagem. O cen‡rio do ensino remoto emergencial, decorrente da pandemia oriunda do COVID-19 apenas intensificou a sensa�‹o de desigualdade educacional e da necessidade de uma revis‹o pol’tica e de interesse pœblico em considerar a educa�‹o como quest‹o priorit‡ria no Brasil.

Ë partir deste contexto, n—s docentes/pesquisadores devemos pelos mais diversos meios, inclusive na apresenta�‹o de artigos, debater estratŽgias de ensino e aprendizagem poss’veis em um ambiente educacional t‹o desigual, n‹o cabendo aqui dizer como um docente deve ou n‹o ministrar a sua aula, mas criar uma rela�‹o interpessoal de pesquisa, emitindo e recebendo da comunidade acad�mica apontamentos acerca da educa�‹o.

Assim, uma das estratŽgias de ensino que consideramos pertinente Ž o do uso de produtos de f‡cil acesso pelo docente e discente, que se caracteriza pela boa receptividade mœtua, baixa dificuldade em obter tal material, o baixo custo do mesmo e potencialidade como material complementar para a rela�‹o interpessoal de ensino.

As hist—rias em quadrinhos s‹o uma das poucas m’dias que t�m a crian�a e adolescente como public-alvo. No cotidiano brasileiro, as revistas de hist—rias em quadrinhos geralmente est‹o posicionadas em bancas de jornais na parte de baixo de prateleiras, propondo f‡cil acesso para o seu pœblico ser capaz de pegar o produto e escolher de forma aut™noma, diferente de outros tipos de m’dia que geralmente quem pode acessar e apresentar ˆ crian�a Ž o adulto.

Esta autonomia da crian�a no simples ato de poder pegar e escolher as hist—rias em quadrinhos, agregado ao fato de ainda ter um baixo custo propicia ao docente possibilidades de trabalho com material de boa aceita�‹o n‹o somente pelo aluno mas a comunidade estudantil em seu entorno.

As hist—rias em quadrinhos s‹o formadas por uma mir’ade de discursos verbais e n‹o verbais conectadas por signos dos quais amparados pelo arcabou�o imagin‡rio do leitor apresentam infinitas possibilidades de estudos em torno da oralidade.

Outro ponto positivo que as hist—rias em quadrinhos possuem no seu uso para o ensino da oralidade Ž o fato de seu conteœdo ser em sua maioria, baseado em personagens da cultura pop e assim, se ramificar para diferentes produtos como filmes, jogos, pe�as de teatros e atŽ mesmo marcas licenciadas para aplica�‹o em diferentes formas de consumo que formam novos discursos que s‹o assimilados dentro do espa�o da oralidade e que o docente e discente podem se beneficiar.

 

 

A concep�‹o de hist—rias em Quadrinhos

 

            A ci�ncia acerca do que s‹o hist—rias em quadrinhos Ž de suma import‰ncia para o docente que pretende utilizar enquanto estratŽgia complementar de ensino, uma vez que dever‡ explicar, selecionar exemplos, manusear materiais e principalmente, criar uma interlocu�‹o com o discente que ao contr‡rio do professor, possui em seu cotidiano a m’dia, hist—rias e personagens, sejam pelos pr—prios quadrinhos ou por outros meios de comunica�‹o e linguagem.

            Um exemplo comum Ž o docente utilizar o cartoon e a caricatura como hist—rias em quadrinhos. Scott McCloud (1995 p.9) afirma que as hist—rias em quadrinhos s‹o imagens pict—ricas, concretas ou abstratas das quais em justaposi�‹o e em sequ�ncia se prop›e a se comunicar com o receptor. Ou seja, nesse caso a caricatura e o cartoon n‹o se aplicam pois eles n‹o possuem a premissa de comunicar com textos verbais e n‹o verbais em sequ�ncia.

Quando o leitor consegue realizar uma leitura fluida, a narrativa dos quadrinhos atinge a sua completude, pois se eliminam as fronteiras entre a leitura verbal e a visual, procedendo-se a uma leitura œnica. Essa linguagem Ž aut™noma e oferece ao seu leitor uma gama de elementos a serem observados separadamente como tipografia, desenhos, perspectiva, onomatopŽias, narrativa, oralidade e dependendo do g�nero que se apresenta, diferentes formas de leitura de uma mesma hist—ria. (PESSOA, p.15, 2010)

Eisner (2005, p.10) aproxima ainda mais as hist—rias em quadrinhos dos estudos orais quando alega que os quadrinhos estruturam-se conforme disposi�‹o impressa de arte e bal›es em sequ�ncia, ou seja, o bal‹o, para Eisner Ž um elemento essencial e dentro da estrutura da linguagem, o bal‹o de texto simula di‡logos e estruturas orais que estimulam o imagin‡rio do leitor e refrata no seu cotidiano.

 

 

A Oralidade e hist—rias em quadrinhos

 

A capacidade de articula�‹o oral enquanto forma de se comunicar Ž a primeira a ser desenvolvida, antes mesmo do indiv’duo ter idade para a vida escolar. A habilidade de constru�‹o de textos verbais e n‹o verbais s‹o auxiliados por tecnologias como a escrita e a rela�‹o entre textos por linguagens como as hist—rias em quadrinhos.

O ensino dos g�neros orais Ž por muitas vezes negligenciado na educa�‹o, muito em parte pela pr—pria natureza do espa�o educacional que por si s— Ž um espa�o sonoro e por assim dizer, repleto de manifesta�›es orais que podem se confundir com bagun�a, falta de concentra�‹o ou de aproveitamento escolar. O docente acaba por privilegiar g�neros textuais como uma estratŽgia disciplinar ou de condu�‹o da aula, uma vez que em muitas institui�›es o sil�ncio em sala de aula ainda Ž considerado um item importante para o aprendizado.

Assim, os alunos acabam em seu desenvolvimento apresentando dificuldades em relacionar a oralidade, seja ela formal ou informal com g�neros textuais, deixando-os com marcas de oralidade no discurso. Ao mesmo tempo, o indiv’duo apresenta problemas de oralidade em apresenta�‹o de semin‡rios ao ler o material de apoio, como slides e textos complementares ˆ apresenta�‹o de maneira ap‡tica, sem a aplica�‹o de entona�‹o, pausa, alongamento, respira�‹o, postura comunicacional perante o seu pœblico e tempo de leitura.

As hist—rias em quadrinhos s‹o em sua grande maioria baseadas em personagens que possuem arquŽtipos nas hist—rias de tradi�‹o oral e que possuem di‡logos com contextos considerados de natureza universal, o que facilita o seu uso para estratŽgias de ensino focados na oralidade.

As hist—rias de tradi�‹o oral est‹o presentes em praticamente todas as civiliza�›es, desde os tempos remotos. Elas s‹o testemunhos, ver’dicos ou n‹o, que s‹o transmitidos em forma de contos, provŽrbios, baladas, entre outras. Dessa maneira, os contos tradicionais que conhecemos foram recolhidos por pesquisadores que fizeram seu registro escrito, por vezes fidedigno, ˆs vezes, nem tanto, para que as mesmas n‹o se perdessem ao longo do tempo e se tornassem conhecidas por outras regi›es e atŽ mesmo na�›es distintas. (Sç SILVA, MAI e WANZELER p.79, 2018)

Neste contexto, as hist—rias em quadrinhos apresentam algumas caracter’sticas em sua constru�‹o que podem beneficiar o estudo da oralidade, pois apesar de ser em um primeiro momento um material textual, ele Ž bastante sonoro.

Nos quadrinhos, a representa�‹o da fala na escrita ganhou um estudo particularmente pertinente ˆ nossa discuss‹o. Eguti (2001) mostrou que os quadrinhos possuem mecanismos pr—prios de representa�‹o da oralidade. Todos os elementos da l’ngua oral abordados aqui teriam um recurso correspondente. O turno Ž representado com o aux’lio dos bal›es. O contorno do bal‹o - tracejado, tr�mulo ou outro - indica �nfase ou tom de voz alto. A fala dos personagens Ž indicada por meio de uma seta, chamada de ap�ndice (em Eguti, 2001) ou rabicho (em Vergueiro, 2005a), que vai na dire�‹o do personagem. As onomatopŽias indicam os sons (n‹o falados pelos personagens). (RAMOS, p.06, 2006)

O primeiro olhar do uso das hist—rias em quadrinhos como estratŽgia complementar do ensino da oralidade se d‡ pelos seus elementos estruturais. O conectivo entre o texto verbal e n‹o verbal, o bal‹o de texto se comporta como uma veicula�‹o de di‡logo entre personagens, ou ainda entre leitor e personagem. Para tanto, o bal‹o de texto se apresenta de diferentes morfologias, com o intuito de enfatizar emo�›es, entona�›es, altura da fala dentre outras indica�›es que remetem ˆ fala.

As onomatopŽias s‹o outro elemento pertinente ao estudo da oralidade pelas hist—rias em quadrinhos, uma vez que elas complementam a paisagem sonora de uma determinada cena, ilustram um som de um golpe, um impacto, funcionamento de uma determinada tecnologia entre outros.

Por meio de onomatopŽias, o narrador das hist—rias orais consegue passar de forma realista, vigorosa e convincente a carga emotiva que est‡ por tr‡s do gesto da personagem, dando a ideia aproximada da dramaticidade da cena. (ALCOFORADO, 2008, p. 69-70)

O texto verbal das hist—rias em quadrinhos s‹o repletos de exemplos de discursos extra’dos da oralidade, tanto em sua esfera informal quanto formal, uma vez que sua aplica�‹o reside na interpreta�‹o oral de seus respectivos personagens. A natureza intr’nseca das hist—rias em quadrinhos Ž o ato de dialogar. Os letristas, profissionais respons‡veis pela editora�‹o e aplica�‹o dos textos nas artes, procuram explorar elementos que refor�am o car‡ter sonoro, tais como o uso de exclama�›es, palavras ou express›es em negrito, com tipografias ou cores diferenciadas para determinados personagens.

A anatomia expressiva, bem como os rostos ressaltam a dramaticidade do texto verbal, bem como enquadramentos de cenas. O estilo de desenho ressalta um discurso formal ou ir™nico.

Por fim, Ž importante destacar a natureza da cria�‹o de personagens e hist—rias que em muitos casos remontam a tradi�‹o oral de contar hist—rias. Todos esses elementos podem, portanto, servir de subs’dios para a transposi�‹o do aprendizado de g�neros orais.

 

 

Possibilidades Pedag—gicas

 

ƒ recomendado ao docente que o trabalho com oralidade seja constante e progressivo, ou seja, que se inicie da sensibiliza�‹o, perpassando pela oralidade informal atŽ os g�neros orais mais formais e tŽcnicos, aprofundando o tema gradativamente. Consideramos que o mesmo deve ser feito em rela�‹o ˆs hist—rias em quadrinhos.

Entendemos que a troca de refer�ncias de hist—rias em quadrinhos entre alunos e professor Ž uma experi�ncia muito enriquecedora, uma vez que todos os atores envolvidos ir‹o aprender acerca de hist—rias, personagens, publica�›es e o professor, enquanto agente mediador de processo j‡ pode estabelecer com essa sensibiliza�‹o trabalhar alguns conceitos de oralidade, estimulando o ato da conversa�‹o, da espera, do saber escutar o outro, de promover o ato de contar hist—rias ou das raz›es que os motivam para gostar ou detestar um determinado personagem entre outros. No espa�o da escola, outros agentes podem colaborar com a pr‡tica da oralidade enquanto meio de ensino e aprendizagem.

(...) os profissionais envolvidos nas atividades de leitura podem ser bibliotec‡rios, professores, pedagogos, escritores, volunt‡rios etc. os quais devem trabalhar em conjunto com planejamento e discuss›es sobre o assunto, com intuito de observar um excelente resultado no desempenho dos leitores. (CORRæA, p.184, 2017)

Outra possibilidade que envolve quadrinhos e oralidade Ž a pr‡tica da leitura dram‡tica, ou seja, a leitura para o pœblico de uma hist—ria em quadrinhos. O docente pode iniciar promovendo uma leitura de uma hist—ria, de prefer�ncia curta e rica de di‡logos, com conectivos, palavras em negritos, bal‹o de texto em formas variadas e personagens com discursos orais distintos.

O ato de contar hist—rias Ž atribu’do, em grande parte dos casos, a alguŽm com maior experi�ncia, como sendo uma atividade que merece aten�‹o e trato refinados, fazendo com que o ouvinte prenda sua aten�‹o ˆquilo que est‡ sendo contado. Esse fator de experi�ncia maior Ž refor�ado por Benjamin (1994, p. 200), quando diz que Òo narrador Ž um homem que sabe dar conselhosÓ, ou seja, sendo possuidor de viv�ncias maiores, aquele que narra assume a propriedade de passar a experi�ncia socialmente compartilhada aos outros membros do grupo. (HAERTER, BARBOSA JòNIOR e BUSSOLETTI, p.91, 2017)

A leitura pode iniciar pelo professor e depois ser compartilhada entre os alunos. Essa pr‡tica ir‡ estimular a rela�‹o entre leitura e discurso e por ser uma atividade lœdica, cabe ao docente gerenciar o espa�o de fala de cada um. A leitura dram‡tica pode ser realizada com quadrinhos impressos, slides ou ainda em dispositivos m—veis.

Outra atividade que atua na rela�‹o entre oralidade e escrita Ž o de recriar di‡logos nas hist—rias em quadrinhos. O Docente pode apresentar hist—rias com bal›es de texto em branco e solicitar que o aluno, baseado nas representa�›es visuais n‹o verbais como as express›es dos personagens, que escreva di‡logos com elementos pertinentes aos textos nos quadrinhos, tais como palavras em negrito, exclama�›es, frases com marcas de oralidade entre outros. O di‡logo reescrito pode servir de base para uma varia�‹o da leitura dram‡tica, pois desta vez podemos observar a leitura a partir de um texto criativo e autoral, o que faz com que o discurso ou a forma que o aluno faz a leitura do texto seja mais espont‰nea e assertiva.

As hist—rias em quadrinhos podem servir de escopo para a produ�‹o de semin‡rios, que envolvam a leitura ou discuss‹o de uma hist—ria, ou um tema que possua subs’dios para um debate entre alunos.

O mŽtodo para implanta�‹o dessas atividades Ž, justamente, apresentar pr‡ticas de leituras, com tarefas que podem ser desenvolvidas de diversas maneiras, tanto em voz alta como em sil�ncio absoluto, individual ou em grupo, na sala de aula ou na biblioteca, com a utiliza�‹o de diferentes recursos para criar um maior envolvimento do leitor com as hist—rias, tais como: mœsicas, ilustra�›es de livros, dramatiza�‹o com a representa�‹o do modo de agir dos personagens, material audiovisual (KUHLTHAU, 2006). ConvŽm ressaltarmos que as atividades devem ser adequadas ˆs diferentes faixas et‡rias. (CORRæA, p.184, 2017)

O escopo da hist—ria pode ser relacionado com a comunidade fandom dos personagens e com isso ser proposto a cria�‹o de v’deos, podcasts ou resenha orais, sobre o quadrinho em quest‹o. O aluno passa de leitor a criador de conteœdo a partir das hist—rias em quadrinhos. Neste caso o docente pode avaliar se o uso de tecnologias de grava�‹o audiovisual Ž vi‡vel para o espa�o educacional do qual ele e os alunos est‹o inseridos propicia o desenvolvimento dessa atividade.

ƒ poss’vel tambŽm construir os di‡logos a partir de situa�›es elaboradas em um storyboard, por exemplo, desse modo compreender como o contexto interfere diretamente no texto, pois este Ž decorrente daquele. Posteriormente seria poss’vel representar a cena criada, seja ela um anœncio, comercial, ou esquete, ressaltando como o texto muda de acordo com a finalidade, regi‹o, tempo, circunst‰ncia e outras situa�›es onde seja necess‡ria a articula�‹o entre o que ocorre e o que Ž falado.

Por fim, consideramos a cria�‹o de hist—rias em quadrinhos e seu respectivo ato de ler e apresentar a hist—ria como um ponto relevante na pr‡tica da oralidade, uma vez que o aluno ir‡ criar narrativas com marcas de oralidade para construir di‡logos para a trama e apresentar essa hist—ria para receptores como alunos e professores. A leitura e recep�‹o ir‹o trazer ao aluno uma compreens‹o acerca de sua assertividade textual e oral, apontamentos que ir‹o estimular o aprimoramento do texto produzido e apresentar o aluno n‹o apenas como um ator que aprende, mas como um ator que possui conteœdo e est‡ disposto a compartilhar com a comunidade educacional do qual o mesmo est‡ inserido.

 

 

Considera�›es

 

O artigo apresenta uma proposta de uso de hist—rias em quadrinhos como estratŽgia complementar de ensino de oralidade na educa�‹o b‡sica, abordando desde a sensibiliza�‹o do aluno ao contexto das hist—rias em quadrinhos atŽ o estudo da oralidade a partir de quadrinhos escritos e produzidos pelos pr—prios alunos. Para fundamentar nossa proposta, apresentamos aqui autores que ressaltam o quanto Ž importante o ensino de oralidade e hist—rias em quadrinhos na educa�‹o b‡sica, alŽm de pesquisadores que refletiram em concord‰ncia com o autor deste artigo acerca do uso dos quadrinhos para ensinar oralidade.

Dentro do contexto do uso das hist—rias em quadrinhos e oralidade, Ž importante que o docente esteja aberto a compreender os elementos constituintes das HQÕs, tanto no contexto da leitura quanto da cria�‹o. N‹o solicitamos que o docente saiba desenhar ou escrever quadrinhos, mas que, a partir do conhecimento da linguagem, narrativa e constru�‹o de uma hist—ria em quadrinhos seja capaz de gerenciar e apresentar estratŽgias criativas, que o utilize para ensinar oralidade e os g�neros orais para criar quadrinhos.

Solicitamos ainda que o ensino da oralidade seja pensado como um ato frequente e de evolu�‹o ao longo do per’odo letivo, e n‹o como uma aula isolada ou um t—pico a ser estudado. A oralidade Ž um processo vivo de aprendizado, do qual o discente apresenta um conhecimento anterior ˆ escola e ao ato de escrever ou desenhar. A oralidade n‹o deve ser negligenciada em nome de uma suposta ordem disciplinar. Sil�ncio n‹o Ž sin™nimo de aten�‹o ou de aula bem sucedida.

O mesmo pode ser recomendado em rela�‹o ˆs hist—rias em quadrinhos. Apesar de ser primordialmente um meio de entretenimento, n‹o devemos subestimar o seu potencial educacional, tanto na quest‹o da leitura, escrita verbal e n‹o verbal, bem como na sua potencialidade, enquanto uma linguagem sonora, a de apresentar potencialidades no uso da oralidade.

N‹o cabe aqui ponderar como ou quais ferramentas o docente da educa�‹o b‡sica deve utilizar para realizar o seu trabalho a contento. Apesar de buscarmos refletir o uso das hist—rias em quadrinhos e oralidade em mœltiplos contextos sociais, entendemos que o Brasil Ž um pa’s que tem na educa�‹o um dos maiores indicativos discrepantes no que se refere ˆ condi�›es igualit‡rias de ensino e aprendizagem.

O que objetivamos enquanto pesquisadores Ž apresentar propostas e ideias que podem ser aproveitadas e debatidas na comunidade acad�mica e desenvolvidas em sala de aula. O artigo n‹o apresenta resultados por n‹o ser um relato de experi�ncia. Entendemos o artigo como uma proposta pedag—gica, da qual pode ser incorporada e adaptada ao docente dentro do seu contexto e realidade de trabalho em seu espa�o educacional.

 

 

Refer�ncias

 

ALCOFORADO, Doralice F. Xavier; ALBçN, Maria del Ros‡rio Suarez. Contos populares brasileiros. Bahia; Recife: Fund. Joaquim Nabuco; Ed. Massangana, 2001.

 

CORRæA, Jean Pereira. Experi�ncia com a literatura de Cordel como atividade de est’mulo ˆ leitura no ambiente escolar. In: Boitat‡, Londrina, n. 23, jan-jul 2017.

 

EISNER, Will. Narrativas Gr‡ficas de Will Eisner. S‹o Paulo: Devir, 2005.

 

HAERTER , Leandro. BARBOSA JòNIOR, HŽlcio Fernandes e BUSSOLETTI, Denise Marcos. A conta�‹o de hist—rias como elemento de resist�ncia em comunidades quilombolas. In: Boitat‡, Londrina, n. 23, jan-jul 2017.

 

MCCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. 2» edi�‹o. S‹o Paulo: Makron Books, 2005.

 

PESSOA, Alberto Ricardo. As hist—rias em quadrinhos nas aulas de l’ngua portuguesa como instrumento de leitura e de produ�‹o autoral. Tese (Doutorado em Letras) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2010.

 

RAMOS, Paulo. ƒ poss’vel ensinar oralidade usando hist—rias em quadrinhos? In: Revista Interc‰mbio, Volume XV. S‹o Paulo: LAEL/PUC-SP, 2006.

 

Sç SILVA, Roberv‰nia de Lima S‡ Silva. MAI ƒrica de C‡ssia, WANZELER, Zaline do Carmo dos Santos. Literatura e Cinema: As fun�›es narrativas de PROPP em duas vers›es do conto A Bela Adormecida e suas implica�›es para o contexto escolar. In:   Boitat‡, Londrina, n. 26, ago.- dez. 2018.

 

 

[Recebido: 01 jun 21 - Aceito: 01 jul 21]


 

Paisagem religiosa: o catolicismo popular e as companhias de reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG

 

 

Religious landscape: popular catholicism and the company of kings and the company of the Baby Jesus of Carmo Do Rio Claro, MG

 

 

F‡bio Martins[38]

https://orcid.org/0000-0003-4290-4086

 

Leonel Brizolla Monastirsky[39]

https://orcid.org/0000-0003-1853-8960

 

 

Resumo: No munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG evidencia-se a express‹o do catolicismo popular, com destaque para um sistema cultural religioso e inœmeras pr‡ticas de religiosidade vinculadas ao calend‡rio litœrgico. A partir da observa�‹o das Companhias de Reis e do Menino Jesus buscou-se identificar as diversas pr‡ticas de religiosidade popular e a espacialidade dos s’mbolos e manifesta�›es religiosas. Ainda focou-se na identifica�‹o e interpreta�‹o da simbologia que as sustentam. Como metodologia adotou-se a pesquisa de campo - com a observa�‹o participante e a realiza�‹o de entrevistas. O conceito de paisagem religiosa foi contemplado na perspectiva da Geografia Cultural como pressuposto para se pensar as Companhias de Reis e do Menino Jesus enquanto um sistema de cren�a religiosa, permeada por c—digos, s’mbolos e signos que revelam pr‡ticas hist—ricas, viv�ncias, mem—rias individuais e coletivas para ser preservadas.

Palavras-chave: Paisagem; Religiosidade; Manifesta�›es religiosas; Catolicismo popular; Geografia Cultural.

 

Abstract: In the munic’pality of Carmo do Rio Claro-MG, the expression of popular Catholicism is evident, with emphasis on a religious cultural system and numerous practices of religiosity linked to the liturgical calendar. From the close observation of the Company of Kings and the Company of the Baby Jesus, we sought to identify the various practices of popular religiosity and the spatiality of symbols and religious manifestations. It also focused on identifying and interpreting the symbolism that underpins them. Field research was adopted as a methodology - with participant observation and the conducting of interviews. The concept of religious landscape was considered from the perspective of Cultural Geography as a presupposition for thinking about the Company of Kings and the Company of Baby Jesus as a system of religious belief, permeated by codes, symbols and signs that reveal historical practices, experiences, as well as individual and collective memories to be preserved.

Keywords: Landscape; Religiosity; Religious Manifestations; Popular Catholicism; Cultural Geography.

 

 

Introdu�‹o

 

A presen�a das manifesta�›es de religiosidade do catolicismo popular na paisagem de Carmo do Rio Claro-MG[40], se configura desde a funda�‹o do munic’pio, dos cinco grupos de Companhias de Reis, quatro ternos de Congo, um terno de Mo�ambique, alŽm de grupos de homens rezadores para almas. Atualmente, apenas quatro grupos de Companhias mant�m suas atividades, sendo tr�s Companhias no per’metro urbano: Companhia do Menino Jesus e duas Companhias de Reis (Estrela da Guia e Estrela do Oriente), alŽm de uma Companhia de Reis no distrito rural das Tr�s Barras. 

Com a significativa redu�‹o dessas manifesta�›es de religiosidade popular e a representatividade dessa tradi�‹o cultural no estado e no pr—prio munic’pio, como elemento integrante da paisagem tem-se sua presen�a durante o ciclo natalino, em locais como pra�as, igrejas, ruas, estradas, casas, na jornada dos foli›es.

A presente pesquisa tem como objetivo identificar as diversas pr‡ticas de religiosidade popular e a espacialidade que assume os s’mbolos e manifesta�›es religiosas. A escolha da tem‡tica e do recorte espacial justificam-se pela identifica�‹o de uma multiplicidade de saberes e pr‡ticas populares envolvendo a religiosidade.  Adotou-se como aporte metodol—gico a pesquisa de campo durante o per’odo de 25 de dezembro de 2018 a 27 janeiro de 2019, atravŽs da observa�‹o participante e entrevistas semiestruturadas.

O trabalho de campo permite captar subjetividades, significados, sentidos e caracter’sticas socioculturais. Uma das pr‡ticas de pesquisa qualitativa mais difundida Ž a observa�‹o participante ou participativa, em que existe media�‹o, a�‹o dial—gica e elabora�‹o conjunta entre o pesquisador com os interesses da comunidade ou grupo, Òenvolvendo tomadas de decis›es sobre uso de recursos, demanda ou ado�‹o de pol’ticas pœblicas.Ó (HEIDRICH, 2016, p. 25).

Na primeira se�‹o faz-se uma discuss‹o te—rico-conceitual da paisagem religiosa pela perspectiva da Geografia Cultural. Na segunda se�‹o revela-se a paisagem religiosa desde a funda�‹o do munic’pio mineiro mantendo viva uma sŽrie de tradi�›es, como as Companhias de Reis e do Menino Jesus. A terceira se�‹o aborda na paisagem a religiosidade popular atrelada ao catolicismo.

 

 

A paisagem religiosa na geografia cultural

 

As pesquisas da geografia cultural, p—s 1970, abordam Ò[...] o simbolismo de coisas e objetos na paisagemÓ enfatizando aspectos materiais e imateriais da cultura. (ROSENDAHL, 2012, p. 29-31). De acordo com Claval (1999, p. 14), a paisagem Ž como objeto de interpreta�‹o, pois Òcarrega a marca da cultura e serve-lhe de matrizÓ, assim como, Ž moldada e projetada pelas convic�›es religiosas.

Contudo, Òa religi‹o influencia, enfim, os ritmos de vida de todos pelos calend‡rios e as festas que institui. Ela cria para os sacerdotes e religiosos, g�neros de vida espec’ficos.Ó E, a partir de 1976, em Yi-Fu Tuan destaca Ò[...]o peso das representa�›es religiosasÓ, com intuito do conhecimento acerca da Òl—gica profunda das ideias, das ideologias ou das religi›es para ver como elas modelam a experi�ncia que as pessoas t�m no mundo e como influem sobre sua a�‹o.Ó (CLAVAL, 1999, p. 53).

A paisagem descrita por Dardel (2015, p. 32) circunscreve Òa inser�‹o do homem no mundo, lugar de um combate pela vida, manifesta�‹o de seu ser com os outros, base de seu ser social.Ó

A paisagem Ž um conjunto, uma converg�ncia, um momento vivido, uma liga�‹o interna, uma impress‹o que une todos os elementos. [...] A paisagem se unifica em torno de uma tonalidade afetiva dominante, perfeitamente v‡lida, ainda que refrat‡ria a toda redu�‹o puramente cient’fica. Ela coloca em quest‹o a totalidade do ser humano, suas liga�›es existenciais com a terra, ou se preferimos, sua geograficidade original: a terra como lugar, base e meio de sua realiza�‹o. (DARDEL, 2015, p. 31).

A Escola de Berkeley trouxe as qualidades simb—licas da paisagem, que sustentam seu significado social, como um texto Ò[...] a ser lido e interpretado como documento socialÓ, uma imagem cultural, que pode ser revelada enquanto configura�‹o de s’mbolos e signos atravŽs de diversos meios e superf’cies [...]Ó. (COSGROVE; JACKSON, 2011, p. 137).

Geertz (2012) prop›e a an‡lise de cren�as e pr‡ticas religiosas enquanto um sistema cultural, do qual o conceito semi—tico de cultura se adapta.

E sabendo-se que a paisagem conforme Torres (2013) est‡ em constante transforma�‹o e repleta de elementos simb—licos, sua leitura de mundo se estabelece a partir da experi�ncia de cada indiv’duo que interage com ela, Ò[...] seja no plano da materialidade das coisas que os seres humanos constroem/desconstroem e organizam no espa�o, seja no plano da imaterialidade; dos sentidos e significados atribu’dos a cada elemento constituinte da paisagemÓ. (p. 95).

As paisagens segundo Torres (2013) cont�m hist—rias e discursos, expressos em mem—rias individuais e coletivas de valores constru’dos ao longo do tempo, alŽm de confirmarem-se no subjetivo de cada indiv’duo, as paisagens tornam-se elos de contato a partir de experi�ncias de coletividade.

Os discursos decorrentes da paisagem e presentes nela podem estar contidos em uma ou mais formas simb—licas (arte, mito, religi‹o, linguagem), o que garante o sentido atribu’do a cada paisagem. Portanto, numa observa�‹o estŽtica da paisagem que considere apenas os subs’dios materiais vis’veis, elementos do sagrado podem passar despercebidos, o que inviabiliza ou minimiza o potencial do estudo da paisagem religiosa. (idem, p. 98).

Kozel (2012) destaca a paisagem pelos mœltiplos elementos (visuais, sonoros, odor’feros, palat‡veis e t‡cteis), sendo estes, portadores de significados por aqueles que os vivenciam. Portanto, h‡ Òinœmeras maneiras de represent‡-la, uma vez que tambŽm s‹o inœmeras as percep�›es, valores e significa�›es de quem vive e capta essa paisagem.Ó (p. 68).

Cada paisagem Ž produto e produtora de cultura, e Ž possuidora de formas e cores, odores, sons e movimentos, que podem ser experienciados por cada pessoa que nela se insira, ou abstra’do por aquele que l� pelos relatos e/ou imagens. Nesse sentido, Ž por meio da paisagem que os elementos que integram no espa�o Ôsaltam aos olhosÕ do ser humano, Ôgritam aos seus ouvidosÕ, e envolvem-no nas suas dimens›es sens’veis. (KOZEL, 2012, p. 69).

Desse modo, a reflex‹o posta por esses autores possibilita a compreens‹o da paisagem das Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG enquanto um sistema de cren�a religiosa permeada por c—digos, s’mbolos e signos, que se revelam atravŽs das viv�ncias, mem—rias individuais e coletivas.

 

 

Paisagem religiosa em Carmo do Rio Claro-MG

 

O processo hist—rico de forma�‹o cultural em Carmo do Rio Claro-MG, desenvolveu-se em face a uma paisagem marcada por serras, vales, ribeir›es, cachoeiras, alŽm do Rio Grande (Jetic‡) e do Rio Sapuca’. Conforme Grilo (1996, p. 11-14), a paisagem revela-se pela linguagem poŽtica e geogr‡fica:

Vemos l‡ no alto. Depois de um breve descanso do esfor�o de subida, calmamente fiquemos de pŽ e olhemos a nossa volta. Se apontarmos o nosso bra�o direito para o lado onde o sol est‡ nascendo, veremos ˆ nossa frente bem aqui embaixo, ao pŽ da serra a cidade est‡ acordando... Um pouco a direita e seguindo para o norte, que Ž tudo o que vemos ˆ nossa frente, h‡ uma superf’cie prateada e recortada: s‹o as ‡guas da represa de Furnas que chegam atŽ perto da cidade. Depois das ‡guas, cresce a silhueta escuro-azulada das serras; come�am bem a frente, como Serra da Tromba e v‹o se espichando na dire�‹o do nosso bra�o esquerdo (para Oeste), como Serra do Ferreira, Serra do Tabuleiro e Serra dos Pinheiros, bem longe, na dire�‹o de Alpin—polis... Ali, ao pŽ do Tabuleiro e dos Pinheiros, h‡ um represamento especial das ‡guas. Hoje n‹o d‡ pra perceber que Ž um rio, mas Ž um rio represado, e um rio muito importante para n—s: o Sapuca’.

Enquanto isso, vamos olhar na dire�‹o do nosso bra�o esquerdo: aqui embaixo, bem ao lado da cidade, come�a uma outra serra formada por duas sequ�ncias: a da Rapadura e do Santana. Dirige-se sempre para o oeste inclinando um pouco a norte: parece que vai se encontrar com a dos Pinheiros l‡ longe, j‡ perto da Ventania.

Entre estas, e na mesma dire�‹o, fica, portanto, uma regi‹o baixa, alongada, com pouca eleva�‹o, v‡rios c—rregos pequenos que, daqui do alto, quando os vemos, parecem fiozinhos de prata. Podemos chamar a esta ‡rea de vale e talvez pudŽssemos dar-lhe o nome de Vale do ItapichŽ, pois este Ž seu principal ribeir‹o. TambŽm segue na dire�‹o da Serra da Ventania e morre l‡, aos seus pŽs.

Olhando, ao contr‡rio, na dire�‹o de nosso bra�o direito (leste) vemos em primeiro lugar o pr—prio prolongamento da serra em que estamos, que Ž hoje chamada de Tormenta. Logo depois dela, mais ‡gua, mais represa. A’ tambŽm est‡ o Rio que n‹o vemos, o Sapuca’...Para alŽm das ‡guas, podemos ver um pouco emba�ados os prolongamentos dos morros e as regi›es mais planas que formam os campos. De um lado, os morros e as regi›es mais planas que formam os campos, os Campos Gerais, o Campo do Meio e outros...Temos de virar de costas. Vamos apontar agora o nosso bra�o esquerdo na dire�‹o do sol nascente e dando as costas a Serra da Tromba e a cidade. Bem a nossa frente (Sul) logo ao pŽ da serra em que estamos, podemos ver uma ponta da represa que depois se prolonga em dois fios de ‡gua: Ž onde o Rio Claro, que vem mais do sul, se encontra com o Santa QuitŽria, que vem quase beirando a Serra da Rapadura. Hoje desaparecem juntos na represa; antes, desaguavam juntos no Rio Sapuca’, formando a barra do Rio Claro. Depois se estendem outros morros, outras serras, outras pontas de represa – uma delas, bem ao longe, Ž a do Rio Mo�ambo ou Muzambo – outras, mais pr—ximas s‹o as do Correnteza, do Cavaco etc.

Nesta paisagem t‹o rebuscada de morros, serras, rios e c—rregos de Carmo do Rio Claro-MG reverbera-se manifesta�›es de religiosidade popular vinculadas aos calend‡rios litœrgico e c’clico, pautado em celebra�›es - missas, novenas, prociss›es, comemora�›es e festejos.

Identificou-se a seguinte organiza�‹o das atividades religiosas e per’odos em um calend‡rio litœrgico (Quadro 01): entre os meses de dezembro e janeiro contempla-se o ciclo de comemora�›es natalinas que se encerra com a festa da epifania; entre os meses de fevereiro, mar�o e abril, contempla-se o per’odo de quarenta dias da quaresma, alŽm das celebra�›es da semana santa; j‡ entre os meses de junho a novembro, contemplam-se as celebra�›es e ou comemora�›es mensais: Corpus Christi (junho), padroeira do munic’pio Nossa Senhora do Carmo (julho), Bom Jesus dos Aflitos do Itacy (agosto), Nossa Senhora Aparecida (outubro) e finados (novembro). (INFORMA‚ÌO VERBAL[41]).

 

Quadro 01- Calend‡rio Litœrgico

Celebra�›es e Manifesta�›es de Religiosidade em Carmo Do Rio Claro (MG)

 

ATIVIDADE

PERêODO

LOCAL

DEZEMBRO

Novenas de Natal

Durante todo o m�s de dezembro

Casa das fam’lias

Apresenta�‹o dos Grupos de Companhias de Reis e do Menino Jesus

25 de dezembro a 06 de janeiro - per’odo que pode se estender em fun�‹o das demandas de promessas

Casa das fam’lias (devotos de Santos Reis)

Missa da Passagem de Ano

òltimo dia do m�s de dezembro

Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia

JANEIRO

Festejo de chegada dos grupos de Companhia de Reis e do Menino Jesus

Dia 06 de janeiro

Participa�‹o dos grupos Companhias nas missas.

Chegada das Companhias de Reis: Sal‹o de festa Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e do Menino Jesus: Lar do Idoso Frederico Ozana

FEVEREIRO - MAR‚O - ABRIL

Quaresma

 

40 dias

V‡rias localidades: atividades que se iniciam na Quarta-Feira de Cinzas e se estendem atŽ a comemora�‹o da P‡scoa

Quarta-feira de Cinzas

Ap—s os festejos de carnaval entre os meses de fevereiro ou mar�o

Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia: celebra�›es com a un�‹o e distribui�‹o de cinzas

Vias Sacras

40 dias durante a quaresma: quartas e sextas

Pelas ruas da cidade ou dentro da Igreja

Prociss‹o Penitencial

Todas as sextas durante a quaresma

Ruas da cidade: 5 horas da manh‹

Prociss‹o Domingo de Ramos

Durante a Semana Santa

Capela N. Sr. dos Passos atŽ a Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima

Prociss‹o do Dep—sito

Segunda-feira ˆ noite - Semana Santa

Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos Passos (por homens) e de N. Sr.» das Dores (por mulheres) as suas Capelas de origem

Vig’lia

Segunda-feira ˆ noite - Semana Santa

Capela N. Sr. dos Passos

Prociss‹o do Encontro

Quarta-feira ˆ noite - Semana Santa

Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos Passos (por homens) e de N. Sr. a. das Dores (por mulheres) atŽ a Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima

Institui�‹o da Eucaristia e Missa de Lava PŽs

Quinta-feira ˆ noite - Semana Santa

Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima

Ato de Penit�ncia

Quinta-feira ˆ noite - Semana Santa

Subida da Serra da Tormenta

Via Sacra dos Jovens

Sexta-feira da paix‹o Semana Santa

Subida da Serra da Tormenta

Prociss‹o das Velas: Jesus morto com os esquifes

Sexta-feira da paix‹o - Semana Santa

A imagem de Jesus morto com os esquifes sai da Igreja Matriz e faz um percurso em torno da Pra�a Cap. Pedro Tito Pereira com retorno ˆ Matriz

Missa de Aleluia

S‡bado ap—s sexta-feira da Paix‹o de Cristo

Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo e Sagrada Fam’lia

Prociss‹o da Ressurrei�‹o

Domingo de manh‹ ap—s S‡bado de Aleluia

Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo: Missa na Capela do Senhor dos Passos com prociss‹o atŽ a Matriz Senhora de Carmo

Sagrada Fam’lia: ruas do bairro Jardim AmŽrica

JUNHO

Celebra�›es de Corpus Christi

Comemorado no m�s de junho 60 dias ap—s a P‡scoa

Igreja Matriz Nossa Senhora de Carmo e Sagrada Fam’lia: confec�‹o de tapetes art’sticos para prociss‹o nas ruas pr—ximas ˆs igrejas

JULHO

Comemora�›es padroeira Nossa Senhora do Carmo: prociss‹o e festejos

16 de julho

Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo:

Prociss‹o de Nossa Senhora do Carmo pelas ruas da cidade; alŽm de festa de barraca armada na pra�a em frente ˆ Igreja

AGOSTO

Celebra�›es e festejos Bom Jesus dos Aflitos do Itacy

29 de julho a 06 de agosto

 

Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos: Novena e missas do Bom Jesus dos Aflitos, distrito do Itacy, fluxo de 30 a 50 mil devotos

OUTUBRO

Nossa Senhora Aparecida

15 de outubro

Subida da serra da tormenta atŽ a capelinha Nossa Senhora Aparecida; Celebra�›es de missas nas matrizes Nossa Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia

NOVEMBRO

Finados

O2 de novembro

Visita�‹o aos tœmulos no cemitŽrio municipal de Carmo do Rio Claro (MG)

Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor

 

Existem ainda, as pr‡ticas de religiosidade que acontecem semanalmente, como as missas nos bairros e na zona rural, o ter�o dos homens, grupos de ora�›es, catequese e visita�‹o da capelinha M‹e Rainha nas casas dos devotos (Quadro 2).

 

Quadro 02- Atividades de Religiosidade que acontecem durante todo o ano

ATIVIDADE

LOCAL

Missas semanais nas Igrejas Matrizes

Igreja Matriz Nossa Senhora de Carmo e Sagrada Fam’lia

Missas com celebra�›es nos bairros

Capela Nosso Senhor dos Passos, Jacuba, Ros‡rio, Porto, Bananal, S‹o Benedito e Nosso Senhor dos Aflitos

Ter�o dos homens

Segunda-feira Par—quia Sagrada Fam’lia e quarta-feira Par—quia Nossa Senhora do Carmo

Grupos de ora�›es

Segunda-feira: Par—quia Sagrada Fam’lia; Quarta-feira: Capela do Hospital (S‹o Vicente de Paulo) e sexta-feira: Capela S‹o Benedito

Visita�‹o uma vez por m�s da capelinha M‹e Rainha Nossa Senhora de Schoenstatt

Casas de devotos

Catequese

Par—quia Nossa Senhora do Carmo funciona de segunda a sexta com hor‡rios espec’ficos

Par—quia Sagrada Fam’lia: Primeira etapa (eucaristia), quarta-feira ˆs 17:30. Segunda etapa (crisma) domingo ˆs 18:00

Missas rurais

Par—quia Sagrada Fam’lia: quinta-feira em um bairro rural.

Par—quia Nossa Senhora do Carmo: quarta-feira em um bairro rural

Missas setoriais (bairros)

Par—quia Nossa Senhora do Carmo celebra na segunda-feira e no s‡bado missas nos bairros

Grupo de Jovens

Encontro semanal ˆs quintas-feiras ˆ noite ap—s a missa

Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor

 

As diversas pr‡ticas de religiosidade configuram a paisagem de Carmo do Rio Claro, h‡ cerca de um sŽculo e meio, por meio de elementos simb—licos materiais e imateriais que carregam consigo elos de uma tradi�‹o em celebra�›es e festejos, experienciados de forma coletiva ou individual em face de distintas espacialidades.

As espacialidades (imagem 1) vivenciadas pelas pr‡ticas de religiosidade do catolicismo popular vinculam-se a nove locais - igrejas matrizes: Nossa Senhora do Carmo, situada no centro da cidade e a Sagrada Fam’lia, situada no bairro Rua Nova; Capela Nosso Senhor dos Passos, situada aos ÔpŽs da Serra da TormentaÕ e a Capela de Nossa Senhora Aparecida no alto da Serra da Tormenta; Igreja do Ros‡rio e Igreja S‹o Benedito nos bairros do Ros‡rio e S‹o Benedito; Centro de Forma�‹o S‹o JosŽ situado no bairro Cora�‹o Eucar’stico; Capela do Hospital S‹o Vicente de Paulo situado no bairro Santo Ant™nio; e o CemitŽrio Municipal situado no bairro Rua Nova.

A capela Nosso Senhor dos Passos, constru’da em estilo colonial aos pŽs da Serra da Tormenta no ano de 1860, constitui-se a edifica�‹o mais antiga do munic’pio e abriga a imagem de Nosso Senhor dos Passos que faz parte da prestigiada Prociss‹o do Encontro realizada durante a semana santa.

No centro da cidade fica a igreja matriz Nossa Senhora do Carmo, onde h‡ mais de um sŽculo ocorre a maior parte das celebra�›es e ritos religiosos, como as prociss›es do Encontro e do Senhor Morto, que na semana santa reœnem milhares de fiŽis em caminhada pelas ruas da cidade, alŽm das celebra�›es de Corpus Christi e a festa em louvor a Nossa Senhora do Carmo.

Uma espacialidade Ž evidenciada na quarta-feira da semana santa, quando realizam a prociss‹o do Encontro. Enquanto a imagem sacra de Nosso Senhor dos Passos Ž carregada por homens que partem da Capela Nosso Senhor dos Passos com destino ˆ igreja matriz Nossa Senhora do Carmo, a imagem de Nossa Senhora das Dores paralelamente Ž carregada atŽ aquela, por mulheres da Igreja de Nossa Senhora do Ros‡rio.

 

A prociss‹o de Jesus Morto com os Esquifes acontece na noite da sexta-feira da semana santa (da paix‹o). Popularmente conhecida como prociss‹o das Velas, os fiŽis, empunhando suas velas acesas, conduzem ora�›es e cantos penitenciais fœnebres de alus‹o a Jesus Morto. Ap—s a prociss‹o, a imagem de Jesus Morto adentra a igreja Nossa Senhora do Carmo onde as pessoas fazem suas rever�ncias ˆ imagem.

 No m�s de julho, comemora-se o anivers‡rio da padroeira do munic’pio com festejos de barraca em frente ˆ igreja matriz, alŽm da prociss‹o, na qual os fiŽis proferem hinos de louvor ˆ imagem de Nossa Senhora do Carmo. 

A Igreja Nossa Senhora do Ros‡rio e S‹o Benedito, atŽ meados de 1990, realizavam pr‡ticas vinculadas ˆ religiosidade de matrizes africanas, como a Congada e o Mo�ambique, quando existiam ternos de congo e Mo�ambique que sa’am em cortejo pelas ruas da cidade ao encontro do seu rei e da sua rainha. A chegada destes grupos acontecia na pra�a localizada em frente ˆ Igreja do Ros‡rio, entre o cruzeiro e a igreja, dan�avam e cantavam sincronizados ˆ sonoridade dos instrumentos percussivos e das latinhas com pedrinhas e sementes amarradas nas pernas. A pra�a tambŽm era palco de outras celebra�›es dedicadas ˆ Nossa Senhora do Ros‡rio, onde se realizava a prociss‹o pelo bairro, missas e o festejo.

Ainda na pra�a em frente ˆ Igreja do Ros‡rio atŽ a dŽcada de 1990, durante o ciclo natalino, no dia 06 de janeiro, acontecia o rito de chegada (imagem 2) do grupo de Companhia de Reis Estrela da Guia para celebrar o dia dos Santos Reis. Arcos de bambu, fitas e correntes de papŽis coloridos enfeitavam a pra�a, de modo que a paisagem se transformava no palco de consagra�‹o de mais um ciclo de jornada completado pelos foli›es.

Nos meses de junho ou julho a pra�a do Ros‡rio era decorada com bandeirinhas. Ali acontecia a festa junina com a apresenta�‹o de quadrilhas. TambŽm era comum nesse per’odo a pr‡tica de ter�os dedicados aos santos cat—licos, como S‹o Jo‹o e Santo Ant™nio. Em v‡rias casas da cidade erguiam-se mastros de bambu, com lim›es espetados em suas varetas. No seu topo, colocava-se a imagem de um santo, que era decorada com flores de pl‡stico ao seu redor.

No cruzeiro localizado em frente ˆ Igreja do Ros‡rio e em outros, realiza-se a pr‡tica de descarte de imagens de santos quebrados, devido ˆ tradi�‹o popular de que o descarte incorreto traz castigos. O cruzeiro tambŽm era o local de onde partiam na madrugada, no per’odo da quaresma, um grupo de homens, os cantadores para as almas. Acompanhados de um instrumento percussivo de madeira, matraca, cantavam na frente de algumas casas para as almas de pessoas j‡ falecidas. Existia a cren�a de que n‹o se podia observar esse rito, sobre o risco de visualizar imagens das almas dos falecidos.

Na Serra da Tormenta, todos os anos, milhares de fiŽis realizam a subida atŽ seu cume, onde encontra-se localizada a capela dedicada ˆ Nossa Senhora Aparecida, para os agradecimentos, ora�›es e dep—sito de objetos pelas gra�as alcan�adas.

No ano de 2006, ocorreu a constru�‹o da Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e com isso as principais atividades religiosas, ritos e celebra�›es, passaram a acontecer de forma paralela nas duas par—quias.

O Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos atrai no m�s de agosto um fluxo de 30 a 50 mil pessoas, para as celebra�›es de missas e novenas. Parte dos fiŽis atravessa de balsa a represa de Furnas, para visitar o santu‡rio e depositar objetos ˆs gra�as alcan�adas.

As manifesta�›es ligadas ao catolicismo de Carmo do Rio Claro-MG fazem-se presentes no calend‡rio litœrgico durante todo o ano, de modo que milhares de fiŽis (re)vivem pr‡ticas de fŽ dedicadas a distintos santos em diferentes espacialidades. Nesse contexto, marcado pelas manifesta�›es de religiosidade popular, aprofundar-se-‡ nas Companhias de Reis e do Menino Jesus.

 

 

Uma paisagem religiosa pelo catolicismo popular: as Companhias de Reis e do Menino Jesus

1.Tendo, pois, Jesus nascido em BelŽm de Jud‡, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a JerusalŽm. 2. Perguntaram eles: ÔOnde est‡ o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos ador‡-loÕ. 3. A essa not’cia, o rei Herodes ficou perturbado e toda JerusalŽm com ele. 4. Convocou os pr’ncipes dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o Cristo. 5. Disseram-lhe: ÔEm BelŽm, na Judeia, porque assim foi escrito pelo profeta: 6. E tu, BelŽm, terra de Jud‡, n‹o Žs de modo algum a menor entre as cidades de Jud‡, porque de ti sair‡ o chefe que governar‡ Israel, meu povoÕ. 7. Herodes, ent‹o, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a Žpoca exata em que o astro lhes tinha aparecido. 8. E, enviando-os a BelŽm, disse: ÔIde e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado, comunicai-me, para que eu tambŽm v‡ ador‡-loÕ. 9. Tendo eles ouvido as palavras do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi precedendo atŽ chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou. 10. A apari�‹o daquela estrela os encheu de profunda alegria. 11. Entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua m‹e. Prostrando-se diante dele, o adoraram. Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e mirra. 12. Avisados em sonhos de n‹o tornarem a Herodes, voltaram para sua terra por outro caminho.Õ (MATHEUS II: 1-12). 

Ap—s um ano de espera, Ž chegada a hora! J‡ nasceu o menino Deus. Os instrumentos que se encontravam adormecidos em um cantinho de suas moradas reavivam-se: a sanfona volta a respirar as melodias da devo�‹o; a caixa sente aos poucos o despertar de sua coura�a animal, que ressuscita ao esticar/estralar/receber o pulsar das batidas, que emergem em comunh‹o com o cora�‹o daqueles que insistem em reviver esta tradi�‹o; o chocalho se contorce ao guizo movimento repetitivo; o pandeiro se revolta ao trepidar de um ritmo frenŽtico a sentir o contato das m‹os que o movimenta de um lado a outro, num zigue-zague sonoro; os encordoamentos aos poucos aproximam dedos e corpos em busca da afina�‹o perfeita, que dar‡ ritmo aos diferentes timbres de vozes ˆqueles que est‹o em prontid‹o: Ž chegada a hora!

Tr�s Reis preparam-se novamente para sair em jornada. Guiados pela estrela do oriente v‹o em busca do Menino Deus, da esperan�a e da fŽ. Revelam-se atravŽs do objeto sagrado: a bandeira, e seguem sempre ˆ frente acompanhados por cantadores e basti›es que fazem alus‹o aos guardas de Herodes em disfarce, com a miss‹o de matar o recŽm-nascido em BelŽm de Jud‡.

A paisagem sonora dos transeuntes/autom—veis/p‡ssaros/ ou do sil�ncio noturno cede espa�o aos anjos que cantam na gl—ria: Ž chegada a hora! Assim, a paisagem se transforma em face de uma melodia caracter’stica, da qual o gingado da sanfona, aliado ˆ batida da caixa anuncia: Ž chegada a hora! Ao longe, a popula�‹o avista a chegada dos Reis Santos que s‹o escoltados pelo colorido dos adere�os/roupagens dos foli›es. Basti›es sussurram em meio a performances corporais, e s‹o observados por devotos em janelas/portas/cal�adas de suas moradas.

As portas abertas se fazem c—digo ˆ recep�‹o: d‡ licen�a patr‹o/d‡ licen�a patroa, Ž chegada a hora! Em sil�ncio, junto ao representante da morada, Tr�s Reis Santos adentram na busca pelo Menino Deus; mœsicos cantadores v‹o se acomodando. Encontramos o menino Deus: Ž chegada a hora da adora�‹o! O s’mbolo do arrependimento se revela na figura dos basti›es, que em nome dos Tr�s Reis Santos proferem adora�›es e ofertas simb—licas: ouro, incenso e mirra na forma de trovas.

Mas a troca de ofertas vai alŽm; e os instrumentos musicais anunciam: Ž chegada a hora de ben�‹o ˆs fam’lias! Em nome dos Tr�s Reis Santos, vozes germinam solo-conjunto; embaixador-poeta-criador atento aos detalhes profere versos em forma de cantos: b�n�‹os, pedidos e agradecimentos; e assim os salutares de vozes encaixam-se em seis tonalidades distintas. Na paisagem ’ntima da morada, devotos acompanhados de emo�›es distintas, expressam l‡grimas em face de olhares enobrecidos: reveladores testemunhos de sœplicas e gra�as. Completadas as sauda�›es: Ž chegada a hora da despedida. Um instante, pois Tr�s Reis Santos ainda ter‹o que visitar os c™modos da morada, neste ’ntimo sobrep›em-se b�n�‹os a objetos e fotografias dos entes familiares.

ƒ chegada a hora: pagamento de promessas! A retribui�‹o de uma gra�a pode se configurar atravŽs de um banquete: cafŽ, almo�o ou janta. A paisagem neste momento se mistura entre as melodias de sons, devo�‹o, aromas. Card‡pios variados exibem a diversidade de texturas/cores/sabores/paladares. Alimentos que despertam gratid‹o daqueles que em suas jornadas s‹o contemplados com a fartura e la�os de sociabilidade, reveladores de trocas simb—licas: alimentos para corpo em contrapartida ao alimento para a alma: fŽ/b�n�‹os ofertadas aos familiares. Tr�s Reis Santos agradecem e v‹o embora descansar para mais um dia de caminhada.

Ap—s cumprido mais um ciclo de jornada Ž chegada a hora dos festejos! Encontraram o menino Deus! A sociedade carmelitana, reunida, aguarda a chegada dos viajadores. Bingos, leil›es, comidas, bebidas e mœsica comp›em a paisagem; arcos de bambu adornados por correntes coloridas de papel que s‹o rompidos, simbolizam as dificuldades superadas em cada dia desta longa jornada que abre caminho a BelŽm.  ƒ chegada a hora: eis que vieram ador‡-lo! Ali est‡ o Menino Deus! Viva o Menino Deus! Na orla do altar, a musicalidade embriagada de emo�‹o toma conta dos viajadores que proferem versos e prosas atravŽs de cantos/adora�›es ao Menino Deus! Salve, Salve: Pastores e Foli›es! Eis que foi cumprida nossa miss‹o; Ž chegada a hora do retorno e atŽ o ano... se Deus quiser!

Esta paisagem religiosa indica um mundo c—smico, santificado no tempo sagrado das festas, tempo m’tico, tempo litœrgico, ou seja, um tempo circular, revers’vel, recuper‡vel, indefinidamente repet’vel, ÒespŽcie de eterno presente m’tico que o homem emprega periodicamente pela linguagem dos ritos.Ó (ELIADE, 2018, p. 64).

As Folias ou Companhias de Reis s‹o constru�›es cosmol—gicas do catolicismo popular orientadas pelo nascimento de Cristo e pela Epifania, de modo a reproduzir a viagem dos Tr�s Reis Magos, guiados por uma estrela para a adora�‹o do menino Jesus em BelŽm. Brand‹o (1977) destaca que as Folias de Reis s‹o formadas por um grupo de precat—rios que saem em jornada no ciclo natalino de 25 de dezembro a 6 de janeiro, composta por mœsicos, instrumentistas, bandeiristas e palha�os - os foli›es v‹o de casa em casa apresentando suas cantorias, levando b�n�‹os ˆs fam’lias de devotos e recolhendo esmolas. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fen™meno religioso conforme Pereira e Torres (2016) abarca a experi�ncia humana em extratos f’sicos materiais e simb—licos, e, funde o mundo dos sentidos com o mundo da imagina�‹o. Assim, tem-se Òespacialidades f’sicas, como templos, igrejas, santu‡rios, sinagogas, mesquitas, terreiros e demais constru�›es diversasÓ; como tambŽm espacialidades n‹o materiais: Òdiscursos, narrativas, mitos, sistemas teol—gicos, mœsicas, sons etcÓ. Tais espacialidades podem estar em movimento Ò[...] como as peregrina�›es, as romarias, as v‡rias jornadas espirituais ou comportamentos rituaisÓ. (p. 98).

A Companhia do Menino Jesus, presente no munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG desde o ano de 1929, possui, inclusive, adapta�›es em sua estrutura e rito em rela�‹o ˆs Companhias de Reis. Os personagens presentes s‹o: Sime‹o, tr�s reizinhos e os pastores-cantadores que carregam o orat—rio com o menino Jesus (presŽpio andante) atŽ a casa dos fiŽis.

O espa�o sagrado que se constitui em torno dos referenciais e simbologias divide-se segundo Gil Filho (2008) em tr�s espacialidades: concreta de express›es religiosas, do pensamento religioso e das representa�›es simb—licas. Na espacialidade concreta tem-se o espa�o sagrado recebendo as pr‡ticas religiosas. Na espacialidade das representa�›es simb—licas projeta-se o plano da linguagem aos referenciais religiosos e na espacialidade de pensamento religioso articula o plano sens’vel ao do conhecimento religioso. 

            Estas espacialidades podem ser observadas em Carmo do Rio Claro em uma das falas da entrevista realizada em 2019 com um dos foli›es:

No evangelho existe uma pequena descri�‹o, o que nos Ž transmitido Ž que suas viagens tiveram in’cio no dia primeiro de janeiro e que sa’ram cada um de suas terras guiados por um sinal. Viajaram o dia todo e no final daquele primeiro dia eles se encontraram, se conheceram, dormiram e no segundo dia perceberam que apesar de serem de diferentes regi›es e sem estabelecer nenhuma comunica�‹o anterior, tinham o mesmo objetivo e receberam os mesmos sinais. Do segundo ao quarto dia em suas caminhadas, foram conhecendo suas diferen�as e o que cada um poderia oferecer para o outro. No quinto dia avistaram JerusalŽm, uma cidade grandiosa, sede do poder, o que chamou a aten�‹o dos Tr�s Reis. Vislumbrados acreditavam que o Rei do mundo s— poderia estar por ali, esquecendo-se do humilde sinal, a estrela que os guiava atŽ ent‹o, e foram atŽ a cidade de JerusalŽm. A partir da’ encontramos no evangelho de Matheus, o relato de que chegando atŽ a cidade, Herodes n‹o sabia do que se tratava, mandou que os Tr�s Reis seguissem viagem, pois ali n‹o existia nenhum outro rei alŽm dele, e pediu que sua guarda os acompanhasse. A partir do momento em que deixaram a cidade de JerusalŽm para tr‡s com a ilus‹o da claridade, conseguiram avistar novamente o sinal da simplicidade, a luz da estrela que os guiavam em sua viagem. Completando o sexto dia, chegaram atŽ BelŽm, uma cidade pobrezinha onde encontraram e adoraram o Menino Jesus. Esta caminhada do dia 01 ao dia 06 Ž uma caminhada de aprendizado, partilha. Assim como em nossas vidas, eles tiveram seus deslizes deixando se ofuscar pela grandeza de JerusalŽm, mas voltaram seu olhar novamente para a simplicidade do projeto de Deus para n—s. (INFORMA‚ÌO VERBAL, 2019).

Gil Filho (2008) tambŽm sugere quatro inst‰ncias de an‡lise aos estudos de fen™menos religiosos, sendo, a Òpaisagem religiosaÓ com sua materialidade, exterioridade e express‹o do sagrado; o Òsistema simb—lico culturalÓ com seu referencial conceitual, a l—gica simb—lica e o contexto religioso; as Òescrituras e tradi�›es sagradasÓ com as constru�›es epistemol—gicas, seu registro e transmiss‹o; e o Òsentimento religiosoÓ como a experi�ncia pessoal do sagrado.

Nesse sentido, compreende-se que as manifesta�›es de religiosidade popular: Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG, constituem elementos caracter’sticos de subjetividades presentes na paisagem religiosa local. As Companhias, atreladas ao calend‡rio litœrgico (natal/epifania), expressam-se atravŽs de peregrina�›es (espacialidades em movimentos em meio as ruas, casas, igrejas) permeadas por distintos momentos: ritos, performances, rela�›es de sociabilidades e trocas simb—licas.

 

 

Considera�›es finais

 

Desde os fins do sŽculo XVIII, o processo de forma�‹o e desenvolvimento hist—rico-cultural do munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG se consolidou diante de um sistema cultural religioso alicer�ado em valores e preceitos do catolicismo. Inœmeras pr‡ticas de religiosidade popular vinculadas ao calend‡rio litœrgico, se consagram h‡ mais de dois sŽculos e seu reflexo faz-se presente na paisagem. Para Torres (2013), a paisagem Ž reflexo da rela�‹o direta com o ser humano, no plano material ou imaterial, pois comp›em-se de discursos e formas simb—licas - arte, mito, religi‹o e linguagem. Segundo Torres (2013) e Kozel (2012) o conceito de paisagem configura-se pela tr’ade: olhar/sentir/ouvir e perpassa por diferentes aspectos sensitivos - formas, cheiros, sons, texturas, cores, sabores, movimentos -, com os quais os indiv’duos percebem e atribuem significados a cada elemento constituinte.

 

 

Refer�ncias

 

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[Entregue: 15 jul 21 – Aceito: 15 ago 21]


 

Poesia in concert: a palavra de volta ˆ rua[42]

 

Poesia in concert: the word back on the street

 

 

 

Kaedmon Sellberg[43]

https://orcid.org/0000-0002-4185-2598

 

 

Resumo: O Poesia in Concert Ž um evento londrinense que data da dŽcada de 1990 e ocorre atŽ hoje. S‹o apresenta�›es com mœsica e poesia feito, inicialmente, pelo agrupamento de poetas e artistas M‡rio Bortolotto (dramaturgo), Rodrigo Garcia Lopes (poeta), Maur’cio Arruda Mendon�a (poeta) e S’lvio DemŽtrio (mœsico). Em 2009 o evento retorna, com o mesmo nome, inserido no festival liter‡rio de Londrina, Londrix, com a frente de Christine Vianna, professora e musicista da banda Benditos Energœmenos. Entre 1990 e 2009, h‡, naturalmente, uma transforma�‹o do contexto social, hist—rico, pol’tico, no ‰mbito nacional e londrinense, que motiva estratŽgias diferentes de inser�‹o do Poesia in Concert no espa�o pœblico. O artigo se prop›e a estudar, comparativamente e brevemente, os dois momentos do Poesia in Concert e suas rela�›es com o espa�o pœblico de Londrina. Em termos curtos, observa-se uma atualiza�‹o do sentido do evento para a cidade e para seus agentes, embora ainda se mantenha como espa�o de oposi�‹o ao status quo. A pesquisa foi feita a partir do levantamento de refer�ncias culturais, de entrevistas e aporte te—rico.

Palavras-Chave: Poesia; Mœsica; Performance; Londrina; Poesia in Concert

 

Abstract (Times New Roman, 12, bold): Poesia in Concert is an artistic event in Londrina, PR – Brazil, dating from the 1990s that still takes place to this day. It revolves around presentations with music and poetry performed, initially, by the group of poets and artists M‡rio Bortolotto (playwright), Rodrigo Garcia Lopes (poet), Maur’cio Arruda Mendon�a (poet) and S’lvio DemŽtrio (musician). After a break in the mid-90s, the event returns in 2009, with the same name, inserted in the literary festival of Londrina, Londrix, being Christine Vianna, vocalist of the band Benditos Energœmenos, the main poet/singer. Between 1990 and 2009, there is, of course, a transformation within the social, historical, political context, at national and regional level, which motivates different strategies of insertion in the public space. The article aims to study, comparatively and briefly, the two moments of Poesia in Concert and its relations with the public space of Londrina. In short terms, Poesia in Concert and its meaning have been updated for current literary and artistic needs, educating the public to artistic expression less common in the mainstream market. The research was based on the survey of cultural references, interviews and theoretical contribution.

Keywords: Poetry; Music; Performance; Londrina; Poesia in Concert;

 

 

Introdu�‹o

 

O Poesia in Concert, iniciado em 1993, foi um agrupamento de poetas, dramaturgos e mœsicos de Londrina: Mario Bortolotto (1962, ator, diretor, dramaturgo, escritor), Rodrigo Garcia Lopes (1965, poeta, mœsico, tradutor), Mauricio Arruda Mendon�a (1964, dramaturgo, poeta, mœsico, tradutor) e S’lvio DemŽtrio (1970, jornalista, professor universit‡rio, mœsico) que, embora n‹o estivesse ligado ˆs produ�›es art’sticas, tinha um programa na R‡dio Uel da Žpoca. O agrupamento lia poemas de diferentes origens (autorais, tradu�›es, nacionais) acompanhados de mœsica, frequentemente, blues, MPB e rock. O primeiro momento do Poesia termina em 1994, seguido de um hiato atŽ a incorpora�‹o oficial do evento, retomado pela atriz, poeta, cantora, professora Christine Vianna, no Londrix (festival liter‡rio de Londrina) em 2009. Durante esse per’odo, concertos isolados aconteceram com a mesma proposta: poema e mœsica. A dificuldade metodol—gica de tra�ar uma linha temporal, contextual e coesa, Ž a de discutir se essas express›es independentes compartilhavam do mesmo significado social. Esteticamente, v�-se a coes‹o.

O que este artigo prop›e Ž:

a)     apresentar o Poesia in Concert nos dois momentos citados, atravŽs de entrevistas coletadas, v’deos assistidos, apresenta�›es analisadas;

b)    comparar as duas express›es, localizar diferen�as e padr›es, que situem a import‰ncia social do evento na hist—ria de Londrina;

Para a realiza�‹o do artigo, alŽm de levantamentos de refer�ncias bibliogr‡ficas sobre Londrina e sobre o Poesia in Concert da dŽcada de 80 e 90, foram entrevistados M‡rio Bortolotto, Rodrigo Garcia Lopes, S’lvio DemŽtrio e Cristiane Vianna, em 2018. Maur’cio n‹o p™de ser entrevistado devido a um problema de saœde, infelizmente. Ao longo do artigo, cita�›es das entrevistas ser‹o colocadas entre aspas. Todas as entrevistas estar‹o dispon’veis em link nas refer�ncias. Os v’deos usados para an‡lise podem ser encontrados no canal ÒCemitŽrio de Autom—veisÓ, dispon’vel no Youtube. Link nas refer�ncias.

A partir daqui, apresento o Poesia in Concert que explora a dimens‹o sonora da palavra com a fun�‹o de levantar bandeira pol’tica e cultural: fazer a palavra voltar para a rua, como dir‡ Rodrigo Garcia Lopes. O autor observava que a palavra permaneceu na torre de marfim do poeta (como diz o ditado) por muito tempo. Entretanto, h‡ diferentes formas de interpretar a Òtorre de marfimÓ em 1990: a ditatura militar, que dŽcadas antes foi a principal fonte de censura liter‡ria; o pr—prio circuito liter‡rio, que era um ciclo privilegiado de escolarizados atŽ a segunda metade do sŽculo XX; ou, ainda, o espa�o que ocupava a literatura nas universidades em rela�‹o ao espa�o pœblico. Por pœblico, entende-se o bar, a rua, a esquina da pra�a.

H‡ diversas Òtorres de marfimÓ que enclausuraram a palavra liter‡ria no Brasil atŽ 1990. O ponto comum entre todas as torres Ž a Òpalavra liter‡ria em distanciamento socialÓ em rela�‹o ˆ rua. Ou seja, a palavra liter‡ria n‹o participava da estŽtica do Òpapo furadoÓ, da conversa de meio-fio, da conversa desengon�ada do bar. N‹o participava da inevitabilidade do som. A p‡gina era educada demais para se impor dessa forma. A palavra na rua evoca a circunst‰ncia biol—gica, corporal, presencial – o som da cidade, a mœsica tocada, a performance. Nesse sentido, o argumento do Poesia in Concert Ž que na palavra Òdo distanciamento socialÓ h‡ um sil�ncio comum ao livro. Para bem ou para mal, a mobilidade do objeto impresso fragmenta o significado do texto conforme Ž lido em diferentes contextos, a partir de diferentes leitores. Por isso a brincadeira do Òdistanciamento socialÓ da palavra que o Poesia, desde 1993, quis fazer retornar ˆ rua. Quando a palavra Ž solta na performance sonora, o contexto Ž da aglomera�‹o, os significados se aproximam porque se aproximam as pessoas.

Quem eram os atores e as influ�ncias do Poesia in Concert, portanto? Como se pode antecipar, inserir a poesia liter‡ria no espa�o pœblico Ž do campo da margem, da juventude, da sensa�‹o e do corpo, que encontra ‰ncora na literatura beatnik e simbolista, representada por Arthur Rimbaud. Essa foi, de fato, a bagagem que Mario Bortolotto e Rodrigo Garcia Lopes trouxeram ao Poesia. Rodrigo estava nos Estados Unidos entre 1990 e 1992, no Arizona, cursando o mestrado Humanidades Interdisciplinares, que resultar‡ no comp�ndio de entrevistas, em forma do livro Vozes & vis›es: panorama da arte e da cultura norte americanas hoje, publicado no Brasil pela Editora Iluminuras em 1996. Entre os entrevistados est‹o William Burroughs, John Cage, Allen Ginsberg, Thom Gunn, Wanda Coleman, Amiri Baraka, nomes associados ˆ arte de vanguarda, ao beatnik, ao blues, ˆ cultura afrodescendente americana. Outros nomes citados por Rodrigo Garcia Lopes, porŽm n‹o entrevistados para o livro, s‹o David Lynch e Francis Ford Coppola.

Amigo de tradu�‹o do Rodrigo, Maur’cio Mendon�a de Arruda, hoje dramaturgo premiado internacionalmente, traduziu com ele Sylvia Plath, Poemas (1990) e Iluminuras (1994), obra do Arthur Rimbaud. Vale a pena mencionar tambŽm a antologia Trilha Forrada de Folhas – Nenpuku Sato, um Mestre de Haikai no Brasil (1999), do poeta japon�s Nenpuku Sato, o introdutor do haikai no Brasil. Paulo Leminski bebeu dessa fonte.

J‡ Mario Bortolotto traz consigo o teatro, o Chiclete com Banana, que a partir de 1987 ser‡ chamado CemitŽrio de Autom—veis. Na dŽcada de 1990, o grupo j‡ era premiado e reconhecido em S‹o Paulo e S‹o JosŽ dos Campos. Nessa mesma Žpoca sentia-se a necessidade de advogar pela cena local, conforme complementa Mario Bortolotto, pois a efervesc�ncia oitocentista que tinha levantado o teatro decaiu a partir dos anos 90. O mesmo ocorria com a literatura londrinense. Os nomes art’sticos de Londrina iam muito bem entre grupos art’sticos. O que faltava era realmente, tornar a arte da rua, torn‡-la uma experi�ncia do pœblico.

Cito tr�s trechos para os amarrar em seguida:

Ao pensar sobre os sons de uma cidade, muitos ambientes sonoros emergem aos nossos ouvidos. Certamente, os sons da cidade, diretamente ligados a sua morfologia e sua arquitetura, nunca foram ou ser‹o os mesmos, seja em T—quio, Londres ou Londrina, pois, como o observa o ge—grafo FrŽderic Roulier (1999), Òos tipos de economia, os comportamentos sociais, a tecnologia e a densidade populacional induzem varia�›es que fazem com que cada cidade possua uma identidade sonoraÓ ou Òpaisagens sonorasÓ caracter’sticas. (CARNEIROS DOS SANTOS, 2011, p. 83, negritos meus)

 

As vanguardas hist—ricas e a p—s-vanguarda da segunda metade sŽculo XX deixaram uma grande li�‹o sobre dissolu�‹o de fronteiras entre literatura e outras artes, em que a performance se tornou uma importante refer�ncia para a cr’tica. (FERNANDES, 2017, p. 104, negritos meus)

 

Ora, nestes fen™menos festivos, por um lado aplica-se o ajuntamento (endoidecimento) e, por outro, a pluralidade de cada um. O imagin‡rio est‡ na ordem do dia e com ele a multiplicidade de sentidos que cada pessoa d‡ ˆ sua exist�ncia. (MAFFESOLI, 2002, p. 84, negritos meus)

De cima abaixo, observa-se uma rela�‹o entre arquitetura urbana, f’sica, concreta, tambŽm abordada como uma estrutura abstrata, no sentido de um comportamento art’stico, ideol—gico. De acordo com Frank (1979, p. 13), h‡ um espa�o de fazer arte e literatura que ocorre em fun�‹o do seu espa�o arquitet™nico, social e vice-versa. Ambos estabelecem uma identidade – e, para este artigo, usarei o termo afinidade – entre mem—ria (passado) e cria�‹o (presente). A simbiose se processa em fen™meno liter‡rio. A afinidade entre arquitetura e literatura ser‡ o ponto-comum para o espa�o do Poesia in Concert em 1993. Qual era o espa�o londrinense?

Londrina experienciava um refluxo da efervesc�ncia cultural da dŽcada de 80: o teatro era reconhecido. A mœsica sofria os voos de um MPB que discutiu com o recŽm finado ufanismo ditatorial. A literatura tinha contato com: Paulo Leminski, o inutens’lio curitibano e com a influ�ncia das tradu�›es e entrevistas de beatniks, simbolistas, vanguardistas e poemas minimalistas (haikai). Era uma linguagem que flertava com a dramaturgia londrinense de Bortolotto. Inclusive, essa linguagem fazia mais a cara dos bares do que dos teatros tradicionais. O PROTEU (Projeto Experimental de Teatro Universit‡rio, criado em 1978) era o teatro Òdiferent‹oÓ, levou o papel principal da boemia londrinense, alternativo em rela�‹o a valores mercadol—gicos e engajado na consolida�‹o do FILO (Festival Internacional de Londrina). O PROTEU influencia os nomes importantes da hist—ria da arte em Londrina e tambŽm o teatro da vanguarda de S‹o Paulo. Por exemplo, CemitŽrio de Autom—veis ser‡ o nome da importante Vila Cultural em Londrina, inaugurada em 2007 por Christine Vianna via PROMIC (Programa Municipal de Incentivo ˆ Cultura).

Ou seja, o Teatro em Londrina dos anos 80 e dos anos 90 n‹o tinha do que se envergonhar. Em um festival de teatro em S‹o JosŽ dos Campos, o grupo teatral CemitŽrio de Autom—veis e a Cia. Dram‡tica Bombom pra Que se Pirulito tem Pauzinho Pra se Chupar, tambŽm de Londrina, ganharam 10 dos Ò12 ou 13Ó pr�mios (Mario n‹o se recorda). ÒSobrou pro resto do Brasil tr�s pr�miosÓ, conta M‡rio em uma entrevista de 1990 na TV Tropical de Londrina, dispon’vel nas refer�ncias do artigo. J‡ o pœblico londrinense era um pouco recalcado na dŽcada final. Lotar um teatro de 200 pessoas era muito dif’cil.

Partindo dessa conjectura que, em matŽria de literatura e de mœsica n‹o era muito diferente, nota-se uma presen�a cultural de peso em contraste com um pœblico escasso. O espa�o art’stico de Londrina se organizava, socialmente e esteticamente, em torno de uma certa bo�mia e da performance. ƒ um terreno fŽrtil para saudar a nostalgia de Rodrigo que um pouco antes estava nos Estados Unidos traduzindo seus poemas em bares com acompanhamentos de mœsicos no Arizona. ÒEu voltei de l‡ querendo fazer coisas em LondrinaÓ, o poeta conta. J‡ se observa um deslocamento estŽtico dos beatniks norte-americanos e suas poesias bo�mias para dentro da arquitetura londrinense. Caso se mergulhe um pouco mais na experi�ncia estŽtica beatnik, observa-se uma poesia que andava com o jazz estadunidense dos anos 50 e 60.

Rodrigo traz sua experi�ncia estadunidense ao Brasil, cuja predomin‰ncia estŽtica era o movimento neorrealista da dŽcada de 30, ecoada pelo engajamento necess‡rio (sempre) de artistas locais, brasileiros. H‡ uma pequena barreira, embora n‹o insuper‡vel, entre uma tradi�‹o liter‡ria que gostaria de subjugar a pura Òarte pela arteÓ vanguardista (como de M‡rio, Rodrigo e Maur’cio) e ainda educar o pœblico ˆ arte. Aqui, Rodrigo faz sua tarefa social e art’stica: des-criptografar a ‡urea escol‡stica de um poema, torn‡-lo do bar, da rua, da boca, em oposi�‹o ˆ sacralidade dada ˆ palavra por uma modernidade conservadora. ƒ sua flexibiliza�‹o da cultura da escrita.

Finalmente, j‡ em termos geogr‡ficos, a Òpoesia da RuaÓ pode ser compreendida como uma Òpoesia da Humait‡Ó. Em 1990, na longa extens‹o entre as ruas Prefeito Ferreira Lima e Humait‡, havia repœblicas de jovens de maioria universit‡ria. TambŽm se encontram bares que convidavam ˆ experi�ncia bo�mia. AlŽm dessas ruas, na Av. Bandeirantes, havia o Bar Valentino, palco principal das apresenta�›es do Poesia in Concert. Curiosamente, hoje o Bar Valentino se encontra na Prefeito Faria Lima. Mais abaixo se encontram as imagens.

Portanto, h‡ um duplo jogo sem‰ntico em Òpoesia da RuaÓ. Na sem‰ntica da rua conotativa, um imagin‡rio de protesto aos espa�os aristocr‡ticos, elitizados, um espa�o pensado pela sua mobilidade social. Na sem‰ntica da rua denotativa, embora n‹o seja uma regra, a rua era localizada geograficamente entre a Prefeito Faria Lima-Huma’ta-Av. Bandeirantes, onde se encontrava a maioria dos atores sociais do evento Poesia in Concert.

Nessa rela�‹o conotativa-denotativa, encontra-se a tal presen�a arquitet™nica-estŽtica da rua. Composto de sujeitos art’sticos e universit‡rios, a poesia voltou ˆ rua na Prefeitura Ferreira Lima com a Humait‡ e foi atŽ ao Bar Valentino, na Žpoca presente na av. Bandeirantes, nœmero 61. Como contam S’lvio DemŽtrio e Mario Bortolotto, os espet‡culos no bar estavam lotados. Era de um relativo sucesso, de loucura, de encher a casa do Bar Valentino, de deixar gente do lado de fora, de levar essas apresenta�›es para fora de Londrina, atŽ Curitiba. No sentido de ressignificar uma realidade social, o Poesia in Concert de 1993 foi bem-sucedido.

 

 

Fora do Valeco

 

O Valeco ou O Bar Valentino era sofisticado, escreveu Mario Bortolotto. ÒEra o bar que a rapaziada do Grupo Proteu adotou e l‡ sempre estava cheio de atores, mœsicos, artistas pl‡sticos, etc. E s— tocava jazz de trilha sonora, alŽm da melhor macarronada da cidadeÓ.

 O Bar Valentino, hoje na rua Prefeito Faria Lima, 486, antigamente na avenida Bandeirantes, 61, era um espa�o para pessoas art’sticas, talvez tanto quanto a Vila Cultural CemitŽrio de Autom—veis seja hoje. Toda a ‡rea entre a rua Humait‡ e a Ferreira Lima era contemplada pela juventude, aglutinada com antigas repœblicas da rua Humait‡. ÒDe manh‹, pra vir pra UEL, eles vinham de carona. Ficavam pedindo caronaÓ, conta S’lvio DemŽtrio. Eram lugares menos gourmetizados, com tradi�‹o bo�mia, acess’vel.

 

Extens‹o Prefeito Faria Lima e Huma’ta

 

 

Fonte: Google Maps de Londrina, 2022

 

            No c’rculo vermelho ˆ esquerda do leitor, pr—ximo ˆ Rodovia Celso Garcia, encontra-se a UEL (Universidade Estadual de Londrina). No c’rculo vermelho central, na rua Prefeito Faria Lima e ao lado da Universidade Positivo, encontra-se hoje o Bar Valentino. No bal‹o ˆ direita, a rua Humait‡, que termina na Avenida Higien—polis, uma das avenidas principais de Londrina. No c’rculo vermelho ˆ direita, o antigo espa�o do Valentino. Entre o espa�o intelectual de Londrina (UEL) e um dos espa�os centrais do ponto de vista comercial (Av. Maring‡, Av. Higien—polis, Av. Bandeirantes), havia extens‹o colonizada por repœblicas e espa�os marginais (bares, adegadas) cruzando essas extremidades, observada na linha preta. J‡ o lago Igap—, um dos pontos importantes de lazer da cidade, cruza essa via de cima a baixo. N‹o Ž dif’cil imaginar como esse tr‡fego geogr‡fico influenciava na opera�‹o social desse per’odo, desses artistas, dessa juventude.

Como atŽ 2005 o Bar Valentino era localizado na avenida Bandeirantes, o fluxo de caronas e de pessoas exigia subir a Humait‡ em dire�‹o ˆ Higien—polis e, em seguida, descer uma das ruas perpendiculares atŽ a rotat—ria da Bandeirantes. M‡rio e S’lvio contam sobre uma agita�‹o naquele espa�o. M‡rio conta ainda uma experi�ncia pessoal:  

ÒEu gostava muito de l‡, embora o meu poder aquisitivo n‹o me permitisse desfrutar do whisky do lugar, mas eu tinha alguns amigos gar�ons que conseguiam traficar algumas doses pra mim. Eu ficava sentado no muro l‡ fora e os copos de whisky se materializavam nas minhas m‹os. [...] Era foda!Ó

 

Extens‹o Prefeito Faria Lima e Humait‡

Grifo rosa: Humait‡ ao Bar Valentino (ponto vermelho)

Fonte: Google Maps de Londrina, 2022

 

Nesse espa�o, jovens nascidos entre 1960 e 1970 viviam o rescaldo da abertura do pa’s ap—s o fim da ditadura. Por conta da explora�‹o comercial e da reabertura, essa juventude convivia com a m’dia estadunidense no Brasil. Havia, claro, nomes brasileiros ganhando peso – a influ�ncia da literatura beatnik j‡ aparecia em Paulo Leminski, por exemplo. S’lvio DemŽtrio menciona alguns brasileiros como art’sticos aut�nticos avessos ao mercado de reprodutibilidade. Havia, tambŽm, influ�ncias de cinema, mœsica e atŽ quadrinhos.

 

 

Fonte: MatŽria na Folha de Londrina, 1 Set 1993, arquivada e emprestada por Silvio Demetr’o

Reportagem Os Insatisfeitos

MatŽria reporta juventude londrinense em 1993

 


Em uma matŽria publicada na Folha de Londrina em 1¼ de setembro de 1993, a manchete ÒOs InsatisfeitosÓ descreve a situa�‹o de autoflagelo de uma garota de 21 anos, uma tentativa de suic’dio, suavizada pela pr—pria entrevistada: ÒAcho que estava s— tentando chamar a aten�‹o, n‹o queria realmente morrerÓ. Seguido de testemunhos de denominados ÒinsatisfeitosÓ, a matŽria chega atŽ S’lvio Ricardo DemŽtrio, 24 anos, estudante de jornalismo, Òsolit‡rio divertidoÓ, cuja insatisfa�‹o fora descrita como sin™nimo de uma inquieta�‹o interna, uma insatisfa�‹o com o social como se o questionasse. ÒQuem Ž novo e est‡ esperando alguma coisa Ž insatisfeito. S— os que n‹o esperam nada Ž que est‹o satisfeitos.Ó ÒI CanÕt Get No SatisfactionÓ, mœsica dos Rolling Stones foi citada para descrever sua sensa�‹o, de quem via em Paulo Coelho e Duran Duran acomoda�‹o cultural.

Logo abaixo, o cartunista Angeli continua o assunto da insatisfa�‹o, expressando no�›es da vida bo�mia paulistana entre 1980 e 1990. H‡ uma tirinha com dois personagens seus dessa Žpoca: os velhos hippies, Wood & Stock, refer�ncia ao festival Woodstock da dŽcada de 60. Esses e outros personagens expressariam tra�os da sua personalidade:

ÒEu sou recluso, quase n‹o saio de estœdio. Sou uma pessoa deslocada, me sinto contemplador e n‹o um cara participativo; n‹o compactuo com o mundo e isso ati�a o meu senso cr’tico. As pessoas positivas demais n‹o tem [sic] gra�a. Eu acho que todo alegre no fundo Ž um paranoico, alguŽm que perdeu o senso cr’tico.Ó

 

A matŽria (meio sensacionalista, meio tendenciosa) Ž vista, aqui, como registro de temas e de pensamentos dos jovens de 1993, que criavam seu pr—prio discurso social, estŽtico, ideol—gico, sobre seus comportamentos. A insatisfa�‹o Ž linha vertebral, um descontentamento com o sistema social e pol’tico. Em s’ntese, um status quo que n‹o valia a pena ser vivido. S’lvio DemŽtrio cita v‡rias influ�ncias para Òos insatisfeitosÓ: Sam Shepard Ž citado como influ�ncia do pœblico e dos artistas do Poesia in Concert, j‡ que suas pe�as de teatro relatavam personagens sintom‡ticos de um sonho americano falho, de uma fratura no ideal da fam’lia americana. N‹o surpreende que Mario Bortolotto, em 2017 e 2016, tenha dirigido as pe�as Oeste Verdadeiro (True West, de 1980) e ÒCrian�a EnterradaÓ (Buried Child, de 1977), no Teatro e Bar CemitŽrio de Autom—veis em S‹o Paulo[44]. J‡ nos filmes, assim como viu-se a inten�‹o do Rodrigo Garcia Lopes em ter um cara-a-cara com Francis Ford Coppola, Silvio cita O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish, de 1983), do mesmo diretor, cujo personagem central Ž um jovem l’der de gangue de uma fam’lia desajustada. E o filme Condenados pelo V’cio (Barfly, de 1987) inspirado no alter ego de Charles Bukowski, Henry Chinaski, um alco—lico em Los Angeles, do diretor Barbet Schroeder.

Uma mœsica de Barfly, para citar uma influ�ncia pr‡tica, foi usada como acompanhamento musical durante um dos eventos do Poesia in Concert. Essas e outras refer�ncias menores marinavam, como caldos, a experi�ncia juvenil. Por exemplo, como conta S’lvio, houve umas decis›es Òsem no�‹oÓ e t’picas de uma juventude em busca de criar uma afinidade com a insatisfa�‹o. Decis›es como: Òvou embora daqui porque t™ cansado; puts, cara, isso n‹o se faz. Mas era assim que as coisas funcionavam.Ó. A aventura pessoal, o dizer ÒsimÓ ˆ vida que, como veremos mais tarde, j‡ estava registrada em Rimbaud, Nietzsche, beatniks, compartilhada pelos personagens dos filmes.

Eram as influ�ncias brasileiras no Poesia in Concert mais h’bridas que as influ�ncias estadunidenses, pois nossos brasileiros eram n™mades. O Poesia n‹o tinha uma inten�‹o regionalista; isso seria um ufanismo do per’odo anterior ao qual o Poesia queria marcar oposi�‹o, a ditadura militar nacionalista. S’lvio conta, a princ’pio, uma forma�‹o musical do Hermano Reis, Grupo DÕAlma e outros nomes do universo violon’stico brasileiro. Mais tarde, o conv’vio com Mario traria uma mœsica ligada ao universo da gera�‹o beat: jaz bepop, blues, trilha sonora do filme Paris, Texas (1984). De Londrina, atŽ Bernardo Pellegrini e o Bando do C‹o Sem Dono, embora n‹o participasse diretamente do evento, dialogava com ele. Um poema musicalizado pelo Rodrigo, trabalhado junto com o S’lvio, com slides de blues, foi gravado pelo Bernardo nos anos 90. As letras da mœsica, assim como o estilo do Bando, mais uma vez, colocam em evid�ncia a caracter’stica bo�mia do som e das experi�ncias de vida.

 

 

Dentro do Valeco

 

Segundo um documento publicado pelo site da Prefeitura de Londrina, na primeira p‡gina:

No come�o da dŽcada de 80, segundo Jo‹o Henrique Bernardi, o Valentino era o local para onde iam as pessoas que acompanhavam o movimento teatral da cidade quando uma pe�a nova estreava, sendo cen‡rio da rivalidade entre os maiores grupos de teatro de Londrina. O bar ainda passou pelas m‹os de outro dono, Marcos Marangoni, atŽ chegar aos donos atuais, Valdomiro e Rosangela ChammŽ, que est‹o ˆ frente da administra�‹o do Valentino desde 1991. Em 25 anos de hist—ria, o bar foi segunda casa dos bo�mios da cidade de todas as ra�as, cren�as e op�›es sexuais, foi palco de pe�as de teatro, shows musicais de todos os estilos, atividades do FILO, exposi�›es de artistas pl‡sticos, lan�amentos de livros e CDs, mostras de v’deo. Foi inspira�‹o para mœsicas, poemas, livro, curta-metragens, hist—rias em quadrinhos. Recebeu visitantes ilustres, como Paulo Leminsky [sic], Glauco, Angeli, C‡ssia Eller e diversos mœsicos e atores que se apresentaram na cidade. O Valentino n‹o Ž apenas palco, mas Personagem da hist—ria cultural de Londrina. (LONDRINA.PR.GOV.BR, p. 01)

Fonte: MatŽria na Folha de Londrina, 7 Abr 1993, arquivada e emprestada por Silvio Demetr’o

 

Poesia in Concert

Reportagem de evento no bar Valentino


            Londrina contava com um teatro que efervesceu a cidade, uma literatura em torno da marginalidade beatnik (mesmo que a literatura tenha ficado abandonada, como as not’cias de 1993 mostram), MPB, rock e jazz, um espa�o bo�mio para artistas. No Bar Valentino, o Poesia in Concert cola estes fragmentos art’sticos em um caldo coeso. Veja, por exemplo, um dos concertos que se chamava ÒPalavra cantada Ž palavra voandoÓ. A performance trazia, por exemplo, Mario Bortolotto com textos do Bukowski, em seguida tradu�›es de Rimbaud, e, mais tarde, inclusive Maur’cio com sua influ�ncia japonesa, o haikai. Uma verdadeira ÒJam PoetryÓ, como conta Silvio, pois envolve geleia, gosma, de misturas e sons de costura. AtŽ coisas improvisadas. Billy Holliday foi cantada, alŽm de outras experi�ncias de solid‹o do gueto americano. Essa geleia, que de um ponto de vista historiogr‡fico atŽ pertence a um nœcleo relativamente est‡vel de influ�ncias, encontra uma Òcontradi�‹oÓ do ponto de vista cr’tico liter‡rio.

 

A reportagem acima cita refer�ncias marginais (Leminski, Sylvia Plath, gera�‹o beat: Burroughs, Kerouac) em rela�‹o ao c‰none tradicional. Mais curioso Ž que, em certos momentos da cr’tica liter‡ria, essas refer�ncias degeneraram a cultura e a poesia can™nica americana. Par‡grafos depois – assim como na outra not’cia da Folha – introduz-se uma compara�‹o com nomes aceitos pelo c‰none, como os trovadores do sŽculo medieval e os gregos. A reportagem e os convidados pareiam comunidades culturais e estil’sticas, aparentemente, vistas como ant’teses. A Folha escreve Òsalmo e rapÓ e ÒAllen Ginsberg, por exemplo, ser‡ recitado como se fosse um salmoÓ.

O nivelamento entre dois estados distintos de cr’tica (a gera�‹o marginal e os trovadores, os rapsodos) Ž selado pelo Poesia in Concert enquanto uma Òreconquista de um lugar para a poesia na cidadeÓ. Assim fica registrado o impacto do Poesia em m’dia pœblica: a flexibiliza�‹o da trova para margem, a concilia�‹o da progressista gera�‹o beat com a tradi�‹o do rapsodo. Na dŽcada de 90 londrinense, essa afinidade poŽtica condizia com um pœblico que intelectualizava o marginal e marginalizava a canonicidade, como discurso cr’tico ˆs bases morais da ditadora, dos discursos c’vicos, ufanistas.

Essa afinidade poŽtica, entretanto, j‡ era comum no circuito cr’tico. Em uma entrevista com Burroughs, Rodrigo questiona o autor sobre seu processo de autor marginal ˆ institucionaliza�‹o liter‡ria. Burroughs responde: ÒDe certa forma isso Ž verdade. Eu sou os Estados Unidos da AmŽrica!Ó (LOPES, 1996, p. 13), o mesmo Burroughs que, segundo Rodrigo Garcia Lopes, Òfoi um dos escritores do sŽculo 20 que mais levou adiante o Ôdesregramento gradual e racional de todos os sentidosÕ proposto por RimbaudÓ[45] Outra afinidade entre o movimento cr’tico e o movimento art’stico do Poesia in Concert est‡ Anna Balakian, no livro O Simbolismo, publicado inicialmente em 1967, e publicado no Brasil pela editora Perspectiva em 1985. A literatura de Rimbaud ocorre pelo afastamento do liter‡rio, com suas aventuras pessoais: ÒRimbaud foi, na verdade, o œnico que escolheu a chamada Ôfuga da literaturaÕÓ (BALAKIAN, 1985, p, 49). Rimbaud voa para a realidade, em oposi�‹o ao her—i simbolista de Villiers, Ax‘l, que se isola na ina�‹o e no sonho da torre de m‡rmore liter‡ria.  O tipo de viagem pessoal que encontra nos beatniks uma solu�‹o agrad‡vel – tornar a viagem (a perambula�‹o na rua, o deslocamento social) um processo liter‡rio, bem ao jeito da an‡lise de Frank (1979, p. 13). A arquitetura da cidade, nesse sentido, passa a ser um espa�o para o liter‡rio do sŽculo XX. A experi�ncia de viagem transforma-se em viagem liter‡ria.

Rapidamente, aponto a institucionaliza�‹o de Burroughs como um processo liter‡rio da cr’tica americana que, p—s dŽcada de 60, n‹o conseguiria mais fingir que os Estados Unidos pertencia apenas aos subœrbios (LOPES, 1996, p. 15). Isso seria ser c™modo com o neoconservadorismo que viria nos anos Ronald Reagan duas dŽcadas depois. Em dire�‹o a an‡lise de uma performance do Poesia in Concert, cito uma entrevista feita com Michael Maffesoli (2012, p. 166), no qual o autor explica:

ƒ por isso que o pensamento cr’tico n‹o me parece mais ser um pensamento contempor‰neo. ƒ dif’cil de dizer, eu sei. Quando pensamos como intelectuais, pensamento cr’tico Ž a grande tradi�‹o moderna do sŽculo XIX. O que quer dizer cr’tica? Em grego, krimeia, Ž a balan�a do juiz. Pesam-se as coisas e retŽm-se o que precisa reter, jogando-se fora o que n‹o presta. Marx dizia que o intelectual Ž o cŽrebro, o prolet‡rio Ž o vento, querendo dizer com isso que o prolet‡rio agia, mas era necess‡rio o cŽrebro que lhe desse ˆ luz. Atualmente, parece-me prevalecer uma posi�‹o afirmativa da exist�ncia. O pensamento cr’tico Ž o pensamento do n‹o; o pensamento afirmativo, ali‡s, nietzschiano, Ž o pensamento do sim. Dizer sim ˆ vida. Ao passo que no pensamento cr’tico observam-se bem as formas de perfei�‹o, as formas de submiss‹o, as formas de explora�‹o, etc., mas apesar de tudo existe o desejo de viver essa vida. O drama Ž que existe uma discrep‰ncia, um fosso enorme entre o pensamento intelectual e o vivido social em geral, e em particular no que tange ˆs novas gera�›es. Para mim, todo o meu trabalho, tal como disse no meu livro A raz‹o sens’vel (um livro de epistemologia) tem sido o de mostrar que Ž preciso desenvolver a exist�ncia de um pensamento, que n‹o seja um pensamento do exterior e cr’tico, mas que seja um pensamento do interior, que acompanha a vida.

No livro Elogio ˆ Raz‹o Sens’vel (1998), Maffesoli discute uma forma de Òpensamento org‰nicoÓ, ou pensamento do ventre[46], no qual o corpo p—s-moderno, em ruptura com o pensamento cr’tico, escol‡stico, vive um ÒprŽ-modernoÓ, uma organicidade ÒarcaicaÓ (ou, chamadas assim apenas em rela�‹o ao pensamento moderno) a fim de dar for�a a esse ventre. De acordo com Maffesoli (1998, p. 64-65), a organicidade remete para o vivente e para as for�as que o animam. O que vive tende a se reunir, a conjugar os elementos d’spares. ƒ quando Òo conjunto todo se sustentaÓ que h‡ vida. A observa�‹o ressoa n‹o apenas com a organiza�‹o de elementos d’spares da cr’tica liter‡ria no Poesia in Concert, como tambŽm com uma atitude espec’fica da juventude da Žpoca: uma intelectualiza�‹o (ent‹o, afinal, um pensamento cr’tico) das experi�ncias do ventre, do corpo, da sensa�‹o. Dar o ventre ˆ palavra – corporific‡-la em pœblico.

De volta ao Bar Valentino, o deslocamento social para aquele Òambiente de BurroughsÓ buscava flexibilizar uma cr’tica e um processo liter‡rio que n‹o poderia ser vivida na ina�‹o e no sonho de Ax‘l. Nietzscheanamente falando, o dizer ÒsimÓ ao desregramento da vida, j‡ prenunciado na aventura pessoal de Rimbaud, precisava imergir na rua. Logo, pensar o Bar Valentino enquanto espa�o do ventre n‹o Ž ignorar o pensamento cr’tico. Ao contr‡rio, Ž pensar os fen™menos do Poesia in Concert como articuladores cr’ticos, intelectuais, n‹o apenas da experi�ncia ditatorial, mas tambŽm como um espa�o de cr’ticos sobre a cr’tica liter‡ria tradicional.

Gostaria, portanto, de analisar uma performance do Poesia in Concert da dŽcada de 90 dispon’vel no link a seguir, o qual sugiro acessar antes de avan�ar o texto: <https://www.youtube.com/watch?v=Ar2W0QdCl48>.

Em seguida, deixo um link, apenas para compara�‹o, da mesma performance sendo ensaiada: <https://www.youtube.com/watch?v=H0qhVvquy3Q&t>   

Sobre o equipamento do palco, Ònada muito sofisticado em termos de equipamentoÓ, Mario e Rodrigo dizem. Microfones e um viol‹o. A balada em quest‹o Ž entre country e blues, tŽcnicas de slides do viol‹o e um som descontra’do. Nada grave, nada melanc—lico, um pouco texano, um pouco relaxado. Um pouco daquela Òmœsica de barÓ mesmo.

Rodrigo est‡ prestes a ler uma tradu�‹o de Lawrence Ferlinghetti (precursor dos beatniks), ÒSometime During Eternity...Ó. Destaco aqui uma frase de Leminski que Rodrigo confidenciou a mim ÒCantar Ž apenas a maneira mais bonita de dizerÓ. Assim como os slides do viol‹o, haver‡ uma escorregada – entre dizer e cantar – durante a performance e, propositalmente, obscurecida sobre seu ponto exato de transi�‹o. Ou seja, Rodrigo propositalmente quer obscurecer a tŽcnica de sua voz, se Ž canto ou se est‡ dizendo. Escreverei um asterisco (*) a fim de transcrever os momentos de imprecis‹o. Entre par�nteses est‡ a interven�‹o de Rodrigo no poema, ou seja, partes que n‹o correspondem a uma tradu�‹o, correspondem a marca de oralidade perform‡tica.

Rodrigo segura um papel na m‹o. Come�a:

Era uma vez

Durante a eternidade

Uns carinhas entram em cena

e um deles

Que pinta meio tarde no peda�o

ƒ um tipo de um carpinteiro, meio bicho grilo

Vindo de algum lugar careta, tipo... Galileia

E o cara come�a a delirar e dizer que ele Ž o ÒO caraÓ – o ÒO caraÓ

E que t‡ em liga�‹o direta com a figura que fez o cŽu e a terra

E que o sujeito que aprontou essa com a gente Ž o papai dele

E tem mais: o carinha diz que tudo isso est‡ escrito nos rolos de pergaminho

que os br—ders dele mocozaram em algum canto do mar morto

*H‡ muito tempo atr‡s...

E que v‹o ficar assim perdidos durante milhares e milhares e milhares de anos

*1947, pra ser exato

E mesmo assim, ninguŽm t‡ nem a’ pra o que ele diz

A’ dizem assim pra ele, nŽ (pro Jesus, obviamente, que Ž a figura toda): *bixo, voc� Ž quente

E penduram o cara numa cruz pra ele esfriar a cabe�a

E desse dia em diante todo mundo entra numas e come�a a fazer modelitos dessa cruz, que o cara t‡ pregado, e ficam cantando embaixo dela pedindo pra ele ([come�a a gaguejar]) descer dali [ca�oa a ora�‹o rab’nica, fazendo sons guturais, incompreens’veis] e entrar pro grupo e tirar um som tambŽm, j‡ que ele Ž o fera, o cara quente, o... (tal, nŽ, o cara) que tem que mandar a ver (mesmo, nŽ, porque se n‹o for Jesus, hoje em dia, eu n‹o sei quem Ž), se n‹o, nada v�

s— que dali o cara n‹o desce nem a pau

Fica ali pendurad‹o, fica ali frio, ali na dele, dando um time (meu Òtime!Ó [abre os bra�os imitando a crucifica�‹o]

E, tambŽm, segundo informam as œltimas not’cias das ag�ncias internacionais, vindo de fontes nada fidedignas, como sempre

realmente – morto

Na performance, h‡ palavras marginais, misturas entre ingl�s e portugu�s, uma caracter’stica da urbanidade brasileira – que tambŽm resgata um estilo vanguardista de Oswald de 22. O nomadismo de informa�‹o, citado por S’lvio, alŽm de refer�ncias art’sticas, traz refer�ncias lingu’sticas aportuguesadas. Observa-se, tambŽm, inser�›es subjetivas de Rodrigo entre um verso e outro do poema de Ferlinghetti, quando, por exemplo, ca�oa o termo ÒtimeÓ ao simular a gravidade do Cristo na Cruz: ÒMeu, time!Ó (imita a crucifica�‹o). Entre uma palavra e outra h‡ o blues: a aten�‹o desfoca, acidentalmente/escorregadiamente, daquela sem‰ntica liter‡ria, ficcional, para a atmosfera bo�mia do bar, da rua: as conversas paralelas, o tr‰nsito dos carros, o ru’do dos garfos e pratos, o relacionar-se com a espuma da cerveja e beb�-la enquanto alguŽm assopra a fuma�a do cigarro e o country-blues os imerge no bar. Quase n‹o se sente que se trata de uma conversa sobre a b’blia – ent‹o volta-se ˆ narrativa, ao eu-l’rico que, localizado naquele espa�o com qual se relacionam, marca sua presen�a como membro do espa�o.

A linguagem perform‡tica antropomorfiza a boemia e o viol‹o como quem diz: ÒArthur Rimbaud era como n—s. N—s existimos com os gregos antigos. O blues foi inventado em uma lira deitada de trovador que fumou algum —pio; se perdeu em hero’na encontrada no bar da av. Bandeirantes, nœmero 61, banheiro do sŽculo XX. E a santifica�‹o de Cristo Ž um assunto para os slides dos negros – porque, como a rua e como o blues, a cruz somos todos n—s. Jesus, afinal, era da margem e foi a�oitado. Era grunge. Era da parte de baixo do continente americano. Era de Londrina. Era do Valeco.Ó

ƒ o limiar cr’tico por onde nasce o Poesia in Concert: viver o arca’smo do ventre com a experi�ncia dionis’aca sonora, grega, da maneira de um trovador. Nesta performance, h‡ o fen™meno cr’tico-liter‡rio que, atŽ hoje, faz parte da heran�a cultural de Londrina: ser cr’tica, ser liter‡ria, e ainda assim sentir a pulga atr‡s da orelha quando se trata do c‰none.

Conforme explica Rodrigo, n‹o havia nada acad�mico. Nada formal. Nada intencional. Era uma maneira natural como viam a cultura: sincr™nica, ver todos os poetas como absolutamente contempor‰neos e, por isso, n‹o haveria necessidade de deslocar Shakespeare de um poeta contempor‰neo brasileiro. ƒ a vis‹o sincr™nica que herda de Ezra Pound, sobretudo a vis‹o da poesia produzida atŽ hoje como um manancial, como uma fonte rica, himalaia, como um topo que pode ser escalado por v‡rios lugares. Nesta perspectiva de um manancial, Rodrigo acaba recuperando a oralidade – traduz, por exemplo, o poema O Navegante (The Seafarer), poema anglo-sax‹ (antes da l’ngua inglesa) com mais de 900 anos de idade. ƒ curioso, portanto, a perspectiva do Rodrigo de observar o Poesia in Concert como uma produ�‹o nada acad�mica. Pois, embora n‹o tenha nascido pela Academia, os discursos e deslocamentos se tornaram pontualmente cr’ticos de um sistema de vida ufanista, tradicionalista, Òdos bons costumes, dos bons valoresÓ.

O poema de volta ˆ rua deve perder o car‡ter escol‡stico para vocalizar a for�a do ventre – o ÒdeslizeÓ entre falar e cantar, como critŽrio estŽtico, seria o que localizaria o poema na vanguarda ou no cl‡ssico, talvez, entre a universidade e o mercado massivo. Enfim, Ž importante que o poema esteja nos bares para embebedar seu ventre. ƒ importante que se torne pœblico para evitar, nos momentos de distanciamento social, ser monopolizado pelo processo acad�mico.

 

 

Legado e conclus‹o

 

Trata-se de uma lei social bem conhecida: todas as coisas tendem a debilitar-se. Perde-se mem—ria da efervesc�ncia fundadora. O choque amoroso torna-se tŽdio conjugal, a energia revolucion‡ria metamorfoseia-se em partido pol’tico institucional, o dinamismo juvenil dos come�os inverte-se em repetitividade mon—tona. AtŽ mesmo a intui�‹o criativa de um pensamento inovador tende a tornar-se sistema est‡tico com os seus dogmas e o seus c‹es de guarda zelando, ciosamente, pela rigidez doutrinal (MAFFESOLI, 2002, p. 22)

Os criadores do Poesia in Concert saem de Londrina no final da dŽcada de 90. Depois dos anos 2000, Rodrigo, M‡rio e Maur’cio permaneceram artistas com estŽticas performativas. M‡rio participa de dois grupos, Trovadores do Mioc‡rdio e o Jazz Poetry. O Trovadores trabalha com um DJ que providencia camas sonoras para as leituras. Costuma trabalhar com temas. Em setembro do ano da conclus‹o deste trabalho (2018), pretendiam comemorar o anivers‡rio de Nick Cave. J‡ no Jazz Poetry, os escritores escolhem o jazz que acompanha textos autorais. Rodrigo desabafa sobre as apresenta�›es contempor‰neas do Poesia em Londrina: Òa œnica coisa que parece repetitiva e sem criatividade Ž que Ž sempre o bluesÓ, conta.

Hoje, o Valentino, na Rua Prefeito Faria Lima, passou a ser visto como um lugar menos da margem, mais elitizado – de fato, em Londrina de 2018, os espa�os das coisas marginais, viscerais e espont‰neas s‹o outros. Outras s‹o, tambŽm, as estŽticas do ÒmarginalÓ. A Vila Cultura CemitŽrio de Autom—veis Ž o espa�o principal, onde, inclusive, acontecem a maioria dos encontros de Poesia in Concert.

Christine Vianna, porta-voz do Benditos Energœmenos (banda de poema e mœsica blues, inicialmente fazia leituras de poemas brasileiros, inclusive fora do Brasil, atŽ, ultimamente, investir em trabalhos autorais) era pœblico do Poesia in Concert em 1990. Aproximou-se da mœsica atravŽs do Poesia. Em 2009, reinsere o Poesia na pauta londrinense celebrando o anivers‡rio da cidade de 75 anos, que acontece em 10 de dezembro. Apresenta o show no Museu de Arte, em julho e, em novembro, na Vila Cultural. A partir de 2010, o incorpora ao Londrix, que planeja as apresenta�›es do Poesia principalmente na Vila Cultural (j‡ aconteceu, tambŽm, na Concha Acœstica, em Londrina, em 2012).

O festival liter‡rio de londrina, Londrix, discute a palavra atravŽs de v‡rios ‰ngulos: confraterniza�‹o com escritores, oficinas, palestras, leituras, lan�amentos de livros. Christine resolveu retomar o Poesia in Concert neste contexto de tate‡-lo, de perceb�-lo, de expandir a experi�ncia com a palavra. A diferen�a Ž que, anexado ao Londrix, o espa�o Ž tambŽm de um pensamento conscientemente cr’tico (uma vez que o festival Ž organizado, principalmente, por nomes da Universidade Estadual de Londrina). Nesse festival, de experi�ncia cr’tica e de experi�ncia do ventre da palavra, a vida de bar Ž mais limitada.

Entenda: na dŽcada de 90, o Poesia in Concert era um evento do bar. Um lugar de comŽrcio, aberto cotidianamente, no qual o pœblico vai e vem com liberdade. Com a inser�‹o do evento em um festival e um espa�o cultural espec’fico, no qual a experi�ncia direta da boemia no bar Ž restrita, a palavra-voz do Poesia sofre outra experi�ncia sociol—gica. N‹o corre o risco, como era o caso do Poesia em 90, de um cliente despreparado entrar no bar e por acaso sentir o h‡lito alco—lico de Rimbaud. H‡ boemia e h‡ bebidas na Vila Cultural, mesmo assim. O que ocorre Ž que quase 40 anos depois da ditadura, as necessidades cr’ticas da literatura s‹o outras.

Com a inser�‹o do Poesia in Concert em um festival liter‡rio, o equipamento e as possibilidades aumentam com o investimento monet‡rio. Christine relatou o nœmero de bandas locais, por exemplo, que se empenham em trazer novas materialidades sonoras ˆ palavra. Bonus Trash, com punk rock e performances energŽticas, quase esquizofr�nicas, como se a ansiedade man’aca ganhasse pernas. Outras bandas locais, como Radicais Livresü que em parceria com o Benditos, sonorizaram poemas de Herman Schmitz, curitibano naturalizado londrinense. Dentro de um festival liter‡rio, s‹o v‡rias as conversas liter‡rias, v‡rias as refer�ncias e, conforme avan�am os anos e as percep�›es – e os poetas – Ž natural que se notem novas performances montadas. Inclusive novos objetivos.

Se antes o Poesia in Concert queria questionar o conceito de liter‡rio, hoje quer assegurar uma educa�‹o pol’tica sobre o conceito. Christine, como professora e musicista, usou o projeto para levar poemas londrinenses ˆs escolas. Alunos vinham pedir os poemas apresentados, ela conta a experi�ncia. ÒVoc� canta, professora? N‹o canto, eu falo.Ó – agora Ž o trajeto contr‡rio. O foco se torna questionar o conceito de ÒmœsicaÓ e ÒsomÓ pela for�a liter‡ria. Nesse percurso, a educa�‹o retira o aluno apenas da experi�ncia do ventre para inseri-lo ˆ experi�ncia cognitiva (um objetivo que, na presente dŽcada, parece mais adequado).

Antes o discurso fazia oposi�‹o ˆ ufanismo ditatorial e ˆ pris‹o da palavra acad�mica; hoje, as necessidades de oposi�‹o s‹o outras. Christine reitera: as redes de literatura de massa n‹o trabalham o diferencial; e o diferencial desconstr—i uma estrutura de realidade fixa. Cabe ˆ vanguarda, que est‡ ˆ frente na quest‹o cultural, mostrar coisas que s‹o produzidas ˆ margem da rede de massa.

Nesse sentido, n‹o Ž preciso mais recitar Burroughs, Kerouac, Leminski; todos esses nomes v‹o muito bem e obrigado. O atual Òlevantar bandeiraÓ Ž levantar o nome de um autor independente para o conhecimento pœblico. Esse Ž o novo prop—sito do Poesia in Concert: fundamentar um espa�o de arte independente, e disseminar a mesma arte independente entre os espa�os londrinenses, um circuito de divulga�‹o e fundamenta�‹o da arte local.

Observe uma diferen�a de resposta de palco: em uma apresenta�‹o relatada por Christine com o Benditos em Curitiba, havia 800 pessoas, espa�o lotado. Era uma homenagem a Paulo Leminski. Um b�bado, talvez drogado, subiu no palco e abaixou a cal�a. Segundo a autora, ele ficou assim, meio de quatro. Aquilo foi constrangedor, desconcentrou, tirou a aten�‹o do show para o mo�o – e o que fazer, ent‹o? O show n‹o podia parar, conta Christine. Se a poesia n‹o enla�a o pœblico, ele se perde; voc� tem que prender aten�‹o com o fluxo. ÒEu abaixei no mesmo n’vel que eleÓ, ela diz. ÒE fiz o poema pra eleÓ. Ele ficou calmo; estava agitado... e acredito que tenha sido envolvido pela poesia – Òeu olhei pra eleÓ, e as pessoas aplaudiram muito.

Ë diferen�a dos mœsicos, poetas e tradutores universit‡rios, recŽm-formados, que atuaram no primeiro Poesia in Concert para um pœblico de bar, o contexto escolar de Christine contextualiza a literatura inicialmente com formar e educar, menos preocupada com o ÒdesregrarÓ dos sentidos. ƒ question‡vel se a resposta de palco do primeiro Poesia ao b�bado teria sido acalm‡-lo.

Assim, menos preocupada com o discurso de uma Òpalavra no barÓ, h‡ um discurso mais apegado ˆ palavra enquanto um direito humano de Antonio Candido. Inclusive, literatura pensada como ativismo pol’tico e manuten�‹o de espa�o para os direitos humanos. Nesse sentido, no Poesia in Concert atual h‡ uma ideologia da raiz, que parte, por exemplo, dos poemas e do blues americanos, ressaltados nas figuras Amiri (1996, p. 44-47) e Wanda (1996, p. 113-116), entrevistadas por Rodrigo Garcia Lopes. Embora nos dois Poesias haja diferentes rela�›es sociol—gicas com Londrina, o evento permanece como um espa�o para discursar um processo cr’tico da literatura contr‡rio ˆ cifra monet‡ria da literatura de massa.

O sentido do Poesia in Concert (Òpalavra que retorna ˆ ruaÓ) Ž um sentido que se ressignificou conforme as necessidades sociol—gicas da ÒpalavraÓ e da ÒruaÓ mudaram. Antes, levar a palavra para rua e para o bar. Agora, lev‡-la ˆs escolas. Quando vestida de elite, dar-lhe roupas da rua; quando se tornar marginalizada demais, reivindicar uma palavra que resguarda direitos humanos. Se a palavra for monetizada pelos recursos de massa, educar ao diferencial, educar ˆ palavra enquanto um outro. Ora, assim como Burroughs foi institucionalizado pela cr’tica norte-americana, a qu’mica efervescente do Poesia marginal se transformou em uma matŽria-prima. Agora, o que fazer com um Burroughs que j‡ Ž vendido atŽ em lojas de rodovi‡rias? Responder com aqueles que raramente conseguem uma prateleira.

A literatura, a palavra, participam dos processos de lucro. ƒ indubit‡vel. A Forbes publica anualmente uma lista com 10 escritores de fic�‹o norte-americana milion‡rios. A palavra Ž comercializada em forma de Facebook, WhatÕs App e Tweets globalmente compartilhados. E, com o racioc’nio relativista p—s-moderno, haver‡ discuss›es intermin‡veis sobre o que existe ou n‹o de literatura nisso. A palavra gira um capital consider‡vel. O que o cr’tico liter‡rio e o empres‡rio t�m em comum Ž querer entender quais palavras s‹o mais capitalistas do que vanguardistas. Entre os dois momentos do Poesia, Rodrigo Garcia e o Benditos Energœmenos quiserem abordar a palavra pelo sentido contr‡rio ˆ mare.

Embora os sentidos e as proje�›es do Poesia in Concert tenham sido atualizados, observa-se um espa�o londrinense para se opor ao sentido mainstreem da palavra. Talvez seja essa a maior heran�a de colocar a palavra na rua. Conhecer aquele que, no centro da cidade ou na periferia, Ž o outro.

 

 

Refer�ncias

 

BALAKIAN, Anna. O Simbolismo. Tradu�‹o JosŽ Bonif‡cio. S‹o Paulo: Editora Perspectiva, 1985.

BULIK, Linda. Entrevista com Michel Maffesoli. In: SANTOS, Volnei Edson dos. (Org.). O tr‡gico e seus rastros. Londrina: EDUEL, 2012

CARNEIRO DOS SANTOS, F‡tima. Vozes da cidade: por uma escuta que inventa. In: EWALD, Felipe GrŸne... [et al.]. Cartografias da voz: poesia oral e sonora: tradi�‹o e vanguarda S‹o Paulo: Letra e Voz; Curitiba: Funda�‹o Arauc‡ria, 2011.

 

FERNANDES, Frederico. O caso Londrix: subjetividade, territorializa�‹o e pol’tica na poesia de Maur’cio Arruda Mendon�a. Estudos de literatura brasileira contempor‰nea, n. 52, p. 102-121, set./dez. 2017.

 

FRANK, Ellen Eve. Literary Architecture: Essays Toward a Tradition: Walter Pater, Gerard Manley Hopkins, Marcel Proust, Henry James. Berkeley University of California Press, 1979.

 

MAFFESOLI, Michel. Entre o bem e o mal: comp�ndio de subvers‹o p—s-moderna. Tradu�‹o de Joana Chaves. Lisboa: Instituto Piaget, 2002.

 

___________. Elogio ˆ raz‹o sens’vel. Tradu�‹o de Albert Christophe Migueis Stuckenbruck. Petr—polis: Vozes, 1998.

 

LOPES, Rodrigo Garcia. Vozes & vis›es: panorama da arte e da cultura norte americanas hoje. S‹o Paulo: Editora Iluminuras, 1996.

 

ZUMTHOR, Paul. Escritura e Nomadismo. Tradu�‹o de Jerusa Pires Ferreira e S™nia Queiroz. S‹o Paulo: Ateli� editorial, 1995.

 

___________. Performance, recep�‹o, leitura. Tradu�‹o de Suely Fenerich. S‹o Paulo: EDUC, 2000.

 

Refer�ncias digitais

 

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Canal CemitŽrio de Autom—veis no Youtube. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/user/cemiterioautomoveis> Acesso em: 27 Jul 2018

 

Valentino Londrina Poesia in Concert. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=H0qhVvquy3Q&t> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Poesia in Concert 01. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=tIy0OEMNABY> Acesso em: 4 Jul 2018

 

Poesia in Concert 02. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=84CEnYt6oug> Acesso em: 4 Jul 2018

 

Poesia in Concert 03. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=pZ8dq0HVwFQ> Acesso em: 4 Jul 2018

 

Poesia in Concert 04. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=VhzqaZVJGDE> Acesso em: 6 Jul 2018

Poesia in Concert 05. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=iwjNapgt1Uc&t> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Poesia in Concert 06. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=Ar2W0QdCl48&t> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Poesia in Concert 07. Dispon’vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=mWQVuw3AoRA> Acesso em: 6 Jul 2018

 

Resumo debate cultura em Londrina. Dispon’vel em <https://www.youtube.com/watch?v=hfLs-pmZWm0> Acesso em: 22 Jun 2018

 

Pasta com entrevistas realizadas.

Dispon’vel em: <https://1drv.ms/u/s!AknHzGD3Drz3gdYOg8ti2RsNAdRBqA?e=eltDAg> Acesso em: 4 de Maio de 2021

 

 

 

[Recebido: 04 mai 2021 – Aceito: 04 jun 2021]

 

 


 

 

Vozes poŽticas e (re)exist�ncias quilombolas do Grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Ant™nio Cardoso - BA

 

Poetic voices and quilombola (re)existences of the Ra’zes do Samba de Tocos Group by Ant™nio Cardoso – BA

 

Renailda Ferreira Cazumb‡[47]

https://orcid.org/0000-0002-3396-1962

 

Eliziane Santos e Santos[48]

https://orcid.org/0000-0001-9685-0066

 

 

Resumo: A vida e as hist—rias dos mestres e mestras, sambadores e sambadeiras do grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Antonio Cardoso - BA resguardam um precioso manancial poŽtico e narrativo corporificado em sambas e hist—rias tradicionais do grupo. Nesse sentido, este artigo pretende visibilizar a intera�‹o e a recolha das vozes do repert—rio cultural oral e os referenciais ancestrais afro-brasileiros a partir do levantamento e registro do seu repert—rio oral. Fruto das a�›es da pesquisa ÒVozes ancestrais quilombolas em contos e narrativas do grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Antonio Cardoso – BAÓ, este estudo concentra-se em acessar as narrativas de cunho oral e autobiogr‡ficas dos mestres do samba rural. O aporte te—rico-metodol—gico se fundamenta na teoria de Benjamin (1994), nas concep�›es de Costa (2015) acerca dos narradores tradicionais, em Ferraroti (1988), sobre o mŽtodo autobiogr‡fico, e nas concep�›es de HampatŽ B‰ (1977) a respeito da tradi�‹o oral em comunidades africanas. O manancial narrativo insere os sambadores/sambadeiras do Ra’zes do Samba de Tocos dentre os guardi›es das vozes ancestrais que reencenam as (re)exist�ncias negras no interior da Bahia.

 Palavras-Chave: Ra’zes do Samba de Tocos; Vozes poŽticas tradicionais; (Re)exist�ncias.

 

Abstract: The life and stories of mestres and mestras, sambadores and sambadeiras of the group Ra’zes do Samba de Tocos by Antonio Cardoso - BA traditional knowledge constitute precious poetic and narrative source embodied in sambas and traditional stories by the group. In this sense, this article intends to make visible the interaction and collection of the voices of the oral cultural repertoire and the Afro-Brazilian ancestral references from the survey and registration of their oral repertoire. It is the result of the research actions of the project Cacimba de hist—rias: vidas e saberes dos contadores de hist—rias tradicionais de cidades do interior da Bahia, (UEFS/ UFSB/UNILAB), study focuses on accessing the oral and autobiographical narratives of the masters of rural samba. The theoretical and methodological contribution is based on Benjamin's theory (1994), on Costa's (2015) conceptions about traditional narrators, Ferraroti's (1988) theory about the autonomy of the autobiographical method, and HampatŽ B‰'s (1977) conceptions about oral tradition in African communities. The narrative source inserts the sambadores/sambadeiras of the Ra’zes do Samba de Tocos among the keepers of ancestral voices that re-enact black (re)existences in the interior of Bahia.

Keywords: Ra’zes do Samba de Tocos; Traditional poetic voice; (Re)existences.

 

 

Introdu�‹o

 

Neste artigo socializamos parte dos resultados da pesquisa ÒVozes ancestrais quilombolas em contos e narrativas do grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Antonio Cardoso - BAÓ (FAPESB/2019-2020), na qual realizamos o levantamento do repert—rio cultural de cunho oral advindo dos mestres e mestras sambadeiras integrantes do Grupo Ra’zes do Samba de Tocos, da comunidade quilombola situada no munic’pio de Ant™nio Cardoso, estado da Bahia. Interessadas em investigar a preserva�‹o e a visibiliza�‹o dos saberes populares provindos dos narradores tradicionais do Rec™ncavo Baiano, interagimos com o grupo por reconhecermos o processo de silenciamento e marginaliza�‹o desse conhecimento no ‰mbito da educa�‹o formal, assim como o poss’vel apagamento desse acervo cultural na sociedade moderna.

Neste sentido, focalizamos as vozes poŽticas das sambadeiras e sambadores, por meio do interc‰mbio de saberes entre a comunidade tradicional, que Ž o campo emp’rico da nossa pesquisa, e os espa�os acad�micos envolvidos. Neste percurso, interagimos com o Mestre Saturnino Dias Neri, de cognome Mestre Satu, e com as sambadeiras Ant™nia Neri e Valdemira Sena de Almeida, Dona Mira, integrantes do grupo de samba tradicional na comunidade quilombola de Tocos, atravŽs da Entrevista Narrativa. Tais a�›es resultaram no levantamento e registro das hist—rias contadas – vers›es originais de contos populares e de sambas rurais – de forma individual e coletiva pelos sambadores, situados no estudo como narradores tradicionais e que revelaram um manancial poŽtico tradicional a ser reconhecido como repert—rio das reexist�ncias negras no contexto das comunidades quilombolas do interior da Bahia.

O mestre e as sambadeiras, atores da pesquisa em quest‹o, foram situados a partir da concep�‹o de narradores tradicionais, adotada durante o processo de investiga�‹o. Para tanto, essa movimenta�‹o fundamentou-se na teoria de Walter Benjamim a respeito de quais tra�os caracterizam um narrador tradicional. Segundo o fil—sofo alem‹o:

Assim definido, o narrador figura entre os mestres e os s‡bios. Ele sabe dar conselhos: n‹o para alguns casos, como o provŽrbio, mas para muitos casos, como o s‡bio. Pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que n‹o inclui apenas a pr—pria experi�ncia, mas em grande parte experi�ncia alheia. O narrador assimila ˆ sua subst‰ncia mais ’ntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom Ž poder contar sua vida; sua dignidade Ž cont‡-la inteira. O narrador Ž o homem que poderia deixar a luz t�nue de sua narra�‹o consumir completamente a mecha de sua vida (BENJAMIM, 1994, p. 221).

AlŽm da defini�‹o da figura do narrador tradicional, que popularmente conhece e possui o acervo dos saberes, buscou-se, de antem‹o, compreender qual a funcionalidade desse indiv’duo para a sociedade. Segundo Edil Costa (2015, p.06): ÒO papel dos narradores tradicionais Ž o de interpreta�‹o e recria�‹o da mem—ria ancestral que herdaram e, a seu modo, preservamÓ. Sendo assim, chegamos atŽ Mestre Satu, Dona Ant™nia e Dona Mira, um trio de anci›es que representam a sua comunidade e resguardam saberes coletivos. Ouvimos e aprendemos com o mestre e as sambadeiras sobre a import‰ncia da preserva�‹o desse manancial cultural, pois que tais saberes, segundo esses sujeitos, est‹o se tornando raros na contemporaneidade.

 

 

A perspectiva metodol—gica autobiogr‡fica

 

O Grupo Ra’zes do Samba de Tocos Ž liderado pelo Mestre Satu e se constitui como grupo h‡ cerca de 16 anos, a partir dos encontros entre vizinhos, amigos e familiares que se reuniam de forma frequente a fim de celebrar as datas religiosas como as novenas, a festa de Reisado (o Rei, segundo denominam) e as festas para os caboclos – manifesta�›es estas sempre regadas com rezas, cantigas e sambas que variam em suas mœltiplas modalidades, como o samba coco, o cantado e o pisado. O grupo Ž formado principalmente por camponeses e camponesas que vivem na regi‹o da antiga fazenda de Tocos, munic’pio de Ant™nio Cardoso, no interior da Bahia, a 30 km de Feira de Santana, o qual tem como principal atividade econ™mica a produ�‹o agr’cola, especialmente do fumo, milho e feij‹o (SESC, 2014). Para alŽm do l’der, integram esse coletivo Roque da Viola, Afonso das Virgens, Ant™nio Luiz, Manoel Concei�‹o, Dona Ant™nia, Dona Edilma e Dona Maria de Lourdes.

Mestre Satu, Dona Ant™nia e Dona Mira participam desta pesquisa por integrarem especialmente uma comunidade afro-brasileira, na qual est‡ concentrada a cultura negra ancestral de forma muito potente atravŽs, sobretudo, da mem—ria e da oralidade. Esse aspecto torna-se relevante ao considerarmos a concep�‹o do etn—logo e fil—sofo malin�s Amadou HampatŽ B‰ sobre a rela�‹o da oralidade com a forma�‹o das sociedades africanas, a saber:

Quando falamos de tradi�‹o em rela�‹o ˆ hist—ria africana, referimo-nos ˆ tradi�‹o oral, e nenhuma tentativa de penetrar a hist—ria e o esp’rito dos povos africanos ter‡ validade a menos que se ap—ie nessa heran�a de conhecimentos de toda espŽcie, pacientemente transmitidos de boca a ouvido, de mestre a disc’pulo, ao longo dos sŽculos. Essa heran�a ainda n‹o se perdeu e reside na mem—ria da œltima gera�‹o de grandes deposit‡rios, de quem se pode dizer s‹o a mem—ria viva da çfrica (HAMPATE Bå, 1977, p. 1).

A contribui�‹o de um dos maiores pensadores africanos do sŽculo XX para que a oralidade fosse reconhecida como uma fonte significativa e especialmente leg’tima de circula�‹o de conhecimento hist—rico foi a fundamenta�‹o indispens‡vel para o desenvolvimento desta pesquisa. Pensar na hist—ria e na cultura pertencentes aos diversos povos africanos Ž falar de oralidade e mem—ria e, portanto, n‹o haveria via mais simb—lica para nosso estudo do que a de adentrar em uma comunidade quilombola afro-brasileira atravŽs das manifesta�›es de cunho oral em toda a sua multiplicidade, a fim de acessar e fazer o levantamento dos seus saberes presentes nas mem—rias do grupo.

Ao se referir ao saber tradicional dos narradores enquanto um acervo resultante de toda a trajet—ria de vida desses indiv’duos, o autor supracitado Walter Benjamim (1944) nos apresenta um importante recurso para a gera�‹o de dados de pesquisa: os relatos autobiogr‡ficos.

A fim de alcan�ar estes materiais, adotamos a perspectiva metodol—gica autobiogr‡fica e nos embasamos nas concep�›es do soci—logo Franco Ferraroti em rela�‹o ˆ autonomia do mŽtodo (auto)biogr‡fico, com base na etnografia, e considerando as pr‡ticas e saberes de alguns dos integrantes do grupo Ra’zes do Samba de Tocos. Segundo aquele que foi descrito como pai da sociologia italiana moderna: Ò(...) o nosso sistema social encontra-se integralmente em cada um dos nossos atos, em cada um dos nossos sonhos, del’rios, obras, comportamentos. E a hist—ria deste sistema est‡ contida por inteiro na hist—ria da nossa vida individualÓ (FERRAROTTI, 1988, p. 26). Dessa forma, tencionamos partir da investiga�‹o das hist—rias individuais do Mestre Satu, da Dona Ant™nia e da Dona Mira a fim de, para alŽm dos relatos de suas viv�ncias, abranger narrativas que dialoguem com a mem—ria de Tocos enquanto uma coletividade. Para isso, foi utilizado um dispositivo de produ�‹o e an‡lise de dados de pesquisas, qual seja, a Entrevista Narrativa:

 

Idealizada por Fritz SchŸtze como um dispositivo para compreender os contextos em que as biografias foram constru’das, os fatores que produzem mudan�as e motivam ˆs a�›es dos portadores da biografia, essa entrevista produz textos narrativos sobre as experi�ncias das pessoas, expressando maneiras como os seres humanos vivem o mundo por meio de hist—rias pessoais, sociais e coletivas. Ela tem como objetivo incentivar a produ�‹o de uma narrativa pelo depoente (MOURA; NACARATO, 2017, p. 17).

Este dispositivo tende, na verdade, a promover uma ruptura com o padr‹o de entrevistas estruturadas ou semiestruturadas e oferta uma maior flexibilidade para que o entrevistado tenha a fluidez necess‡ria para transitar por diversos temas de seu interesse, sem que uma sequ�ncia de perguntas limite suas narrativas. Ademais, propicia n‹o apenas o levantamento de hist—rias pessoais como tambŽm a an‡lise do contexto no qual o indiv’duo est‡ inserido, considerando os atravessamentos de idade, g�nero, ra�a, etnia, classe social e momento hist—rico.

Dessa forma, a nossa entrevista narrativa ocorreu de forma coletiva e on-line no dia 26 de maio de 2021, atravŽs da plataforma digital Google Meet, assim configurando as adapta�›es que j‡ estavam previstas desde o in’cio da pesquisa devido ˆs restri�›es consequentes da pandemia de COVID-19. De antem‹o, foi elaborado um material com algumas quest›es disparadoras apenas para nos guiar durante a entrevista, mas o conteœdo real foi conduzido pelos mestres e pelas mestras que, com pouco tempo de grava�‹o, j‡ se sentiam ˆ vontade para fazer da mem—ria o seu principal orientador. Em sequ�ncia ao trabalho de intera�‹o com os mestres da comunidade de Tocos, o movimento foi registrar todo o material coletado, que variou desde os relatos autobiogr‡ficos atŽ vers›es de contos populares e letras de samba.

No processo de entrevista aos mestres h‡ muitos detalhes da performance oral e narrativa que, infelizmente, apenas a escrita n‹o Ž capaz de captar. Os corpos desses contadores tradicionais narram significativamente, bem como o olhar, os gestos, o riso e outros elementos contribuem para uma compreens‹o mais ampla do que est‡ sendo narrado e cantado. Portanto, dentro de todas as limita�›es dos textos escritos, buscamos transpor para as letras algumas dessas manifesta�›es, decis‹o que tornou o processo de transcri�‹o um dos mais ‡rduos de toda a pesquisa. Traremos, no corpo da an‡lise, trechos das narrativas com o mestre e sambadeiras, a fim de potencializar o texto escrito com a riqueza do manancial poŽtico-narrativo do grupo.

 

 

As vozes poŽticas do Ra’zes do Samba de Tocos: ancestralidade e reexist�ncia

 

Nossa inten�‹o n‹o Ž a de dar voz ao grupo de sambadores e narradores tradicionais, pois cremos que nosso percurso se concentra em dialogar e aprender com o grupo, ponderando que a voz j‡ pertence aos narradores e s‹o sua fonte de vida e reexist�ncias. A Entrevista Narrativa coletiva concedida a n—s pelo Mestre Satu, pela Dona Ant™nia e pela Dona Mira foi organizada de forma a promover a socializa�‹o de narrativas, ap—s pedirmos licen�a para adentrar ao espa�o da ancestralidade do grupo. Nas conversas, os sambadores nos revelaram, no primeiro momento, a sua identidade enquanto indiv’duos; em sequ�ncia, como sujeitos imersos em um determinado grupo e, por fim, enquanto mestres da tradi�‹o popular do Rec™ncavo Baiano. A t’tulo de exemplo desse movimento tem-se o relato do Mestre Satu acerca da origem do seu nome, portanto, do come�o da sua hist—ria de vida: 

Saturnino Dias Neri, meu apelido Ž Satu, Mestre Satu e meu nome Ž Saturnino Dias Neri. Meu pai me contou um neg—cio do nascimento era que os pai pra registrar os fi tinha que v� um livro, um almanaque de pensamento que era pra escolher o nome dos meninos quando nascia, ai escolhia, fulano nasceu nim tal m�s ai botava o nome, quer dizer que era um pensamento que as pessoa tinha, iai botaram meu nome Satu, Saturnino e botaram o apelido Satu e Ž, acho que Ž bem pouco que tem aqui no munic’pio porque  o povo n‹o, hoje tudo Ž pensando como eles quer fazer, antes dos meninos nascer j‡ t‡ com nome marcado nŽ: Òvou botar fulano de tal, isso e aquilo outroÓ. Papai e mam‹e se reuniram e botaram Saturnino (Mestre Saturnino Neri).

Nascido e criado no munic’pio de Ant™nio Cardoso, o Mestre Satu Ž filho de Jovina Neri de Souza e Is’dio Dias de Souza, e possui oito irm‹os, dentre os quais sete s‹o mulheres e um homem. A mem—ria muito viva Ž um dos tra�os que nos saltaram aos olhos durante a intera�‹o com o Mestre Satu, no auge dos seus 79 anos: cantador, contador e rezador, ele nos narrou hist—rias completas da sua inf‰ncia e juventude, per’odo este marcado especialmente pelo trabalho manual nas ro�as:

Era tudo devagar, mas dava pra passar, dava pra divertir, a gente ia trabalhava mais os pais, mais as m‹es, a vaidade era passear mais os amigo. j‡ era tudo marcado e a ida era marcada, ali a gente n‹o podia sair pra ir pra canto nenhum, era tudo dominado, escravizado. Quando terminava o servi�o iam pra ro�a, ia pisar milho, catar baxeiro, sentar pra amarrar fumo, era um bocado de coisa. Iai quando terminava de tarde Ž: Òv‹o pra ro�a fazer a rocinha de voc�sÓ, ai a gente vinha fazer a rocinha da gente, prantava um feij‹ozinho, prantava um pezinho de fumo, n‹o tinha munturo naquele tempo, a gente ia pros matos, pros morros pra pegar folha de Gravat‡ pra fazer os munturo, a gente n‹o podia sair numa estrada se n‹o fosse acompanhado que naquele tempo a pol’cia pegava, os inspeto pegava (sinal de lavar as m‹os) e ajeitava l‡, ai ia levar pros pais chegava l‡ entregava pros pais. Mai, mai! eu n‹o tenho tristeza por isso n‹o, gostei muito, eu prantava meu fumo, prantava meu feij‹o, n‹o vendia, mas dava pra gente cumer, quando eu peguei a me entender, a’ eu peguei, plantei minha ro�a, prantando minha farinha e levando pra Anguera pra vender pra eu comprar roupa pra vestir, chapŽu sapato... (Mestre Saturnino Neri).

A mem—ria da inf‰ncia e juventude do Mestre Satu demonstra como a explora�‹o pode ser relativizada no meio das comunidades afro-brasileiras. Apesar de reconhecer a grande sobrecarga de trabalho presente no seu cotidiano e no dos seus pares, ao empregar termos como ÒescravizadosÓ e ÒdominadosÓ, o mestre afirma que n‹o sente remorsos ou tristeza ao se recordar do passado, e que dava para se divertir. Dessa forma, podemos refletir que, apesar de em nenhum momento o Mestre ter abordado de forma literal as quest›es raciais, esse discurso se revelou atravŽs da sua fala e do relato de como os seus corpos foram estruturalmente controlados e destinados, quase que integralmente, ao labor e ˆ subsist�ncia – enquanto o lazer, as brincadeiras e o aspecto lœdico, que deveria predominar durante sua inf‰ncia, foram elementos distantes da realidade desse sujeito e das outras crian�as do seu entorno.

Na vida do Mestre Satu essa problem‡tica n‹o se restringe aos primeiros anos de sua vida, mas segue ao longo de sua trajet—ria, visto que ele afirma, nos desdobramentos finais da entrevista, n‹o dominar a linguagem escrita devido ˆs suas jornadas de trabalho. Essa tem‡tica surgiu enquanto fal‡vamos da literatura de cordel, muito bem representada na comunidade por Ant™nio Ribeiro da Concei�‹o, nacionalmente reconhecido como Mestre Bule-Bule. Outras poss’veis literaturas poderiam ter feito parte das suas vidas e da mem—ria do grupo, conforme Dona Mira nos revela: ÒVou dizer, eu n‹o sei l�, n‹o sei l�, guardo tudo na minha cabe�aÓ. Essa declara�‹o ensejou o mestre a contar tambŽm a sua experi�ncia e a forma com que a necessidade de trabalhar para sustentar seus doze filhos o impediu de dedicar o seu tempo aos estudos, ˆ escrita e aos livros:

Meu tempo n‹o dava pra eu l� esse neg—cio de cordel, meu cordel era rancar toco pra criar meus fio, aqui em Cruz das Almas pra c‡, eu rancava toco ai em S‹o Gon�alo, Santa Matibiri, Concei�‹o de Feira, esses pau tudo, a gente sa’a daqui com uma mochila nas costas pra ir trabalhar, rancar toco, cortar lenha pra poder criar os filhos, mas gra�as a Deus meus fi ta criado e eu tambŽm n‹o perdi a minha disposi�‹o, a minha vontade, sou feliz, hoje eu sou o que eu n‹o esperava, meus filho n‹o me d‡ dor de cabe�a, todo mundo tem seu trabalhozinho pra trabalhar, todo mundo tem seu larzinho pra colocar, tem seu motorzinho, ent‹o eu tenho alegria (Mestre Saturnino Neri).

Ainda nesse contexto Ž poss’vel trazer para a discuss‹o os relatos das viv�ncias da Ant™nia Lima Neri, sambadeira e companheira do Mestre Satu h‡ mais de cinco dŽcadas, alŽm de m‹e de doze filhos que, segundo ela, foram criados com muito esfor�o e trabalho: Ò(...) tudo nesses bracinhos capinando terra, prantando mandioca, batata, fumo, pisando milho pra fazer cuscuz, mucunz‡ pra criar, criei. Gra�as a Deus eu t™ reagindo ainda, pareceu um sambinha a’ nois samba nŽ, gra�as a Deus, t™ arrependida n‹oÓ. Em rela�‹o aos estudos, Dona Ant™nia afirma que tambŽm n‹o domina as letras, entretanto, lista uma sŽrie de outros saberes que ela possui: Ò(...) sei fazer um caruru, um vatapazinho de S‹o Cosme, sambar, trabalhar de enxada, fazer beiju no forno, isso a’ eu sei ne, e passearÓ.

Ademais, tambŽm conseguimos fazer o levantamento das narrativas da Valdemira Sena de Almeida, filha de Valeriana Sena e Firmino Gon�alves, viœva de Adolfo Paulino dos Santos e que se apresenta pelo apelido Dona Mira. As falas dessa sambadeira nos trouxeram resultados bastante enriquecedores, pois, ao fazer relatos de sua inf‰ncia, ela estabeleceu um panorama do modo com o qual tanto ela como seus pares foram introduzidas no samba e nas tradi�›es populares da comunidade quilombola de Tocos:

A gente ia pro samba, minha m‹e botava a gente pra ir pra uma reza, a gente ia mais ela, chegava l‡ o pessoal botava uma esteira no ch‹o, as m‹es falava "voc�s tem que ficar aqui comigo, atŽ terminar a reza" a gente ficava l‡, quando terminava a reza ia cantar o rei, ia cantar o rei a gente ficava l‡ de junto do Rei tambŽm cantando, parmeando e tudo, a’ as amiga falava Òo samba n‹o d‡ pra gente que o povo t‡ sambando caboclo, bora cantar roda, a gente saia pra cantar rodaÓ (Dona Mira Almeida).

O munic’pio de Ant™nio Cardoso possui antigas tradi�›es populares e de refer�ncia africana que s‹o indispens‡veis para a preserva�‹o da cultura sertaneja no estado da Bahia, sendo estas, muitas vezes, pautas da nossa entrevista narrativa. De acordo com Edil Costa (2016, p. 54): ÒSendo a Bahia um forte reduto de afrodescendentes, sabemos que a contribui�‹o de povo africanos na nossa forma�‹o cultural Ž ineg‡velÓ. Assim, o mestre e as sambadeiras autoras da nossa pesquisa expuseram relatos das celebra�›es e fazeres culturais, como as rodas de Samba Rural, a festa do Reisado, as cantigas que nascem e circulam nesses meios festivos, assim como as comidas t’picas que fazem parte do saber ancestral das mulheres da comunidade e os contos populares que tambŽm comp›em o acervo da cultura oral e de cunho afrodescente.

A respeito de sua inser�‹o no universo do samba, o Mestre Satu confirma que, na comunidade de Tocos, isso ocorre de forma muito natural (assim como narrado acima pela Dona Mira), j‡ que a maior parte das crian�as se inicia na pr‡tica acompanhando os pais e, dali em diante, elas n‹o deixam mais a roda. Ademais, o Mestre ainda traz em sua coloca�‹o uma cr’tica ˆs novas gera�›es que, segundo ele, n‹o se interessam mais por aprender as tradi�›es como em seu tempo de juventude:

A dan�a a gente mesmo aprende, s— bastava o vento tocar, marminino! O samba tambŽm, hoje que ninguŽm quer nada mais, (...) n‹o aguentava v� um camarada tocar. Eu fazia samba aqui (...) eu fazia samba esse mundo todo. Em Feira de Santana meu mestre foi Gon�alo Barbosa, cumpanheiro, os dois cumpanheiros de encontro era Francisco e Jo‹o Quente, e a’ a gente ia fazendo festa nesse Brasil todo, daqui a gente cantava, eu e Jo‹o cantava, Francisco tocava viol‹o e eu tocava o pandeiro e Jo‹o tocava o pandeiro, naquele tempo n‹o tinha marca�‹o. O primeiro sanfoneiro que tinha aqui era Simpl’cio e tinha o Roque Gasparino que era violeiro tambŽm, tocava viola e esse Mudesto e o Simpl’cio era quem fazia as festas da gente e era direto! A gente n‹o passava um s‡badu dendi casa n‹o, pouca hora ele chamava, ou muntado ou andando. Era reza direto e samba, era samba atŽ 8 hora atŽ 9 hora do dia (Mestre Saturnino Neri).

A festa de Reisado tratava-se do movimento mobilizador da comunidade e partia de um grupo formado, geralmente, pelos familiares, amigos e vizinhos que se organizavam com o objetivo de visitar, de surpresa, a casa um dos outros e festejar com mœsica, dan�a e bebidas – a�‹o denominada por eles de Òroubar reisÓ. Essa tradi�‹o integra o repert—rio das Festas Natalinas e Ž realizada em um per’odo que se estende do dia 24 de dezembro atŽ o dia 6 de janeiro. Dona Mira relata como era a experi�ncia da festa de Reis:

ƒ mintira que o Rei era l‡ em sua casa, a gente marcava que era longe pra voc� n‹o ir, (...) quando era de noite a gente fazia, pegava as coisas botava no saco: era bolacha, a�œcar, cafŽ, bibida, xarope. [...]. Num tinha um dia, todo santo dia a gente cantava rei na casa do povo, hoje quetou por causa dessa impidemia, tudo caro, e a gente sambava sabe como era que a gente sambava? Era sanfona e rapa culŽ e o prato de fronte que a gente fazia rei. Os homi com uma foice fazendo ten ten ten terenren tocanu (som dos instrumentos) com a foice, culŽ, enxada, tudo que viesse a gente pegava tudo, prato de pranta (...) a’ que era um samba gostoso, a gente sambava atŽ de manh‹ (Dona Mira).

Para alŽm do relato acima, tanto o Mestre como as sambadeiras entoaram versos e cantaram as cantigas que comumente faziam parte dessa festividade, no momento da chegada e da sa’da do Reis, respectivamente, os quais alegravam a festividade:

Dona da Casa vim lhe ver, vim lhe ver, vim lhe ver

Uma garrafa de cacha�a/ Pra me dar pra eu beber

 

Oh Dona da casa me d� licen�a

Que eu vou sambar na varanda

Com um chapŽu na cabe�a/ E meu fac‹o numa banda

 

Oh gente vamos embora

Que aqui n‹o fica ninguŽm

S— fica o dono da casa

Encostado com seu bem

 

S‹o Cosme e S‹o Dami‹o

Sua casa cheira 

Cheira cravo e cheira rosa

Cheira a flor de laranjeira

Diante desse cen‡rio, considerando a pot�ncia das manifesta�›es corp—reas e musicais nas comunidades quilombolas em um ‰mbito geral, e especificamente na comunidade investigada, torna-se vi‡vel estabelecer as poss’veis rela�›es entre o samba rural e a arte de contar hist—rias. Segundo Vivian Rocha:

A mœsica Ž uma linguagem art’stica universal porque, ainda que expressa em diferentes idiomas, tem a capacidade de produzir sensa�›es nos ouvintes: de enlevo, de medo, de suspense, de alegria, de tristeza (...). ƒ uma forma de comunica�‹o que se utiliza de sons. Os elementos constituintes da linguagem musical: o ritmo, a melodia, o timbre e a harmonia s‹o utilizados para comunicar ideias, sentimentos e sensa�›es aos ouvintes (ROCHA, 2010, p. 209).

Dessa forma, a pesquisa em quest‹o buscou demonstrar qual o papel das letras dos sambas e da corporeidade na difus‹o e perpetua�‹o das hist—rias, das viv�ncias e das tradi�›es do grupo Ra’zes do Samba de Tocos. Neste caminho, interessou-nos a pesquisa de Paul Zumthor (2010) sobre a predomin‰ncia da vocalidade das narrativas tradicionais; o autor enfatiza que foi por meio de lendas, mitos, hist—rias, contos e reminisc�ncias que determinados povos se situaram e se estabeleceram no/com o mundo. A partir dessa abordagem, Ž poss’vel ent‹o acessar o patrim™nio cultural e os saberes da tradi�‹o afro-brasileira, especialmente das suas cantigas, sendo algumas delas registradas a seguir:

O sapato que eu usei/ No lixo eu j‡ joguei/ N‹o importo que tu use/ Daquele que eu j‡ usei/ Meu anel de trinca trinca/ Bateu na pedra trincou/ Quem achar n‹o jogue fora/ Quebre- se dizia amor

Oh Deolina, oh Deolina, oh Deolina/ Qual Ž a mo�a que n‹o pode namorar? (2x) / Mulher bonita voc� vai se casar (2x) / J‡ me casei deixei pra namorar (2x) / Oh Deolina, oh Deolina, oh Deolina

A partir das letras dessas cantigas supracitadas, foi poss’vel compreender a relev‰ncia dessas manifesta�›es musicais para a circula�‹o e resguardo da cultura/tradi�‹o de cunho oral da comunidade de Tocos. ƒ muito comum em alguns espet‡culos de conta�‹o de hist—rias, ou atŽ mesmo em determinados contos, haver a presen�a da mœsica em meio ˆs narrativas. No caso desse grupo Žtnico em quest‹o, os sambas n‹o apenas se fundem ˆ conta�‹o, como s‹o a pr—pria conta�‹o. A t’tulo de exemplo, tem-se a primeira cantiga, que, segundo Dona Mira, nasceu como uma forma de afronta ou resposta ˆs jovens que ÒroubavamÓ os parceiros umas das outras, e atŽ mesmo o quarto samba, que apresenta uma verdade abertamente disseminada durante a entrevista em rela�‹o ao matrim™nio.

Na casa do Mestre Satu, cen‡rio no qual os mestres se encontravam no per’odo em que a entrevista narrativa se desenvolveu, e apesar das limita�›es da imagem devido ao formato adotado durante a ida a campo (on-line, via Google Meet) foi poss’vel notar a presen�a de imagens de diversos santos do Catolicismo, simbologia essa que foi confirmada pelo Mestre Satu e pela Dona Ant™nia que se declararam cat—licos praticantes. Nesse ’nterim, tornou-se bastante relevante ponderar as cren�as dos sujeitos entrevistados e perceber que o sincretismo religioso Ž presente na comunidade de Tocos.

Dona Mira n‹o se autodeclarou praticante de nenhuma religi‹o espec’fica, no entanto, ao longo de suas falas foi poss’vel constatar que a fŽ da sambadeira incorpora, em concomit‰ncia, elementos pertencentes tanto ˆs pr‡ticas cat—licas como aos rituais advindos das religi›es afro-brasileiras. A t’tulo de exemplo, h‡ o relato da anci‹ sobre uma promessa feita aos santos g�meos S‹o Cosme e S‹o Dami‹o: ÒCosme e Dami‹o Ž um menino que cura todas as feridas, se ele prometer, ele d‡. Eu fui me operar, me operei me peguei, oh eu n‹o sabia se eu tinha vida, me operei pedi a Bom Jesus da Lapa e a Santa B‡rbara que era pra eu chegar nos pŽs dele, de joelho, pra cumprir minha promessaÓ.

AlŽm da forte fŽ nos santos cat—licos, Dona Mira tambŽm demonstrou ser iniciada na Umbanda ao relatar receber Caboclo n‹o s— nas rodas de samba, mas tambŽm em atividades cotidianas e no trabalho na ro�a. Ademais, a sambadeira tambŽm narrou, com detalhes, um ritual de purifica�‹o do qual fez parte. No entanto, nessa ocasi‹o, as letras do Samba de Caboclo n‹o foram expostas, pois tanto Mestre Satu como Dona Ant™nia julgaram melhor n‹o entoar os cantos. Sobre isso, Adil Costa (2016, p. 57) chama a aten�‹o de que Ò(...) atŽ hoje, assumir a publicamente sua perten�a ao candomblŽ Ž tabu para os iniciadosÓ. Assim, ficamos atentas aos sentidos estabelecidos pelo grupo, mas sem impor a nossa vis‹o. A fus‹o de elementos pertencentes a variadas cren�as em um indiv’duo dialoga tambŽm com a concep�‹o de Edil Costa acerca da multiplicidade presente nas culturas que emergem a partir da influ�ncia de outras: Ò[...] pois quando se trata de culturas mesti�as, como Ž o caso da cultura afrodescendente, inevitavelmente se est‡ abordando produ�›es culturais fronteiri�as (Ibidem, p. 51).

No decorrer desta pesquisa, nos interess‡vamos muito a coleta, o registro e a cataloga�‹o dos poss’veis contos populares que nos fossem narrados; no entanto, os mestres se estenderam na conta�‹o das hist—rias autobiogr‡ficas. O Mestre Satu afirma que seu pai n‹o lhe contava hist—rias, pois Òa gente era mais andeiro, tinha reza a gente sa’a pra rezar, chegava l‡ ensinava as meninas cantar roda e tal, os meninos oiando e a gente rezando, terminava de rezar fazia uma roda de samba ia tomar uma birinight e prontoÓ. J‡ Dona Mira enfatiza que n‹o conhece muitas hist—rias, mas que o seu falecido marido detinha um repert—rio vasto que, inclusive, foi transmitido a um dos seus filhos.

Entretanto, para alŽm dos sambas que s‹o hist—rias musicalizadas, coletamos quatro contos que, segundo a classifica�‹o do folclorista brasileiro Lu’s da C‰mara Cascudo (1898-1986), enquadra-se como causos. Segundo a classifica�‹o do Sistema Aarne-Thompson, que divide os contos em tr�s grandes grupos (a saber: contos de animais, contos de fadas propriamente ditos e facŽcias e anedotas, sendo todos esses subdivididos em demais categorias), as narrativas coletadas durante a entrevista com os narradores populares da comunidade de Tocos s‹o classificadas como contos com opositor sobrenatural, que est‡ englobado no segundo grupo supracitado. A seguir h‡ o registro da transcri�‹o original:

Eu fui numa festa na Pedra Branca e vim de l‡ pra c‡ de noite, eu Francisco e Jo‹o Quente, cheguei l‡ em Margarida, l‡ na casa de Arlindo, ali encostado a Jo‹o de Luca. Tinha um pŽ de caju denda baixada e a gente vinha de l‡ de Lourdes, tr�s pra quatro horas da manh‹ que a gente n‹o amanheceu o dia, e vem dois p‡ssaro branco de l‡ pra c‡, a’ Francisco disse ÒŽ a cavalaÓ, a’ ela gritou: Òcavala, cavala, cavalaÓ. Oh nossa senhora, minha gente, pelo amor de Jesus que eu n‹o t™ contando mentira. A gente disparou, ela no ar desapareceu, e eu cheguei em casa bati na porta, bati na porta, vea j‡ tava dormindo, deu trabalho de abrir a porta e Francisco mais Jo‹o eu n‹o sei aonde foi parar (Mestre Saturnino Nery).

 

Ele some, o lobisomem Ž uma pessoa. Minha m‹e j‡ viu e eu j‡ vi tambŽm, quando eu tava parida desse menino a’ oh, de Paulo. A’ eu tava com a panela no fogo, e eu fui que a casa era pequenininha, s— tinha uma, assim, uma parede e o fog‹o era assim de junto. A’ Adolfo saiu eu fui botar um Andu no fogo e fui oiar essa panela. Quando eu fui oiar a panela eu vi um neg—cio e fez vup, quando fez vup eu fechei a porta, quando eu fechei a porta o lobisomem saiu de debaixo do fog‹o, dirrubou a panela do andu, aonde eu achei mais comida pra comer? Quando ele chegou e perguntou o que foi ele viu l‡ no ch‹o a panela no ch‹o, quebrou e ficou sem comer, foi dormir com fome e quando Ž no outro dia de manh‹ cedo que ele levanta vai ver o pelo do lobisomem l‡ no arame (Dona Mira).

 

Minha m‹e tambŽm contava que o lobisomem dirrubou ele com um tacho de beiju na cabe�a com o menino no bra�o. Ele veio da casa de farinha com um chalŽ vermei, que antigamente tinha esses chalŽ, pegava o chale e jogava em cima do menino, pegava o tacho e botava na cabe�a e sa’a e ia embora umas dez hora da noite sozinha, a lua bonita que lobisomem gosta de lua bonita. Ela saiu e ÒOh cumadi, eu vou pra casa que fulano de tal ta me esperando e eu t™ com os meninos em casa, a’ ela pegou o tacho botou na cabe�a, o beiju, pegou o menino jogou no ombro e foi se embora. Quando chegou adiante o lobisoni mutuo ela e ela pegou o tacho do beiju e jogou na cabe�a do lobisomi e o lobisomi querendo lascar ela e quederrei quederrei quederrei, gente! a’ saiu um homem: ÒOh fulana de tal ta ali gritando vai ver o que ta acontecendoÓ. Quando falou vou pegar o fac‹o e a faca de cortar fumo, oxe! ele se mandou. Quando ela chegou, que ela j‡ sabia que era um lobisomi, quando ela chegou na casa do candidato o’a o dente com o chale, com um peda�o da coisa do chale no dente. Ai a mulher disse assim ÒOh cumadi ValŽria o que a senhora vem fazer uma hora dessa aqui? ÒN‹o, eu vim ver um neg—cio que me pegou ontem di noite, fulano de tal t‡ ai? T‡, t‡ deithado. Chama ele a’ pra eu ver, pra conversar com ele. A’ quando ele levantou ela oiou, ela oiou e viu o dente do cara com um peda�o de chale na boca. Dest‡ camarada, eu vou te pegar no caminho ainda de novo, tu me dirrubo, mai tu j‡ ta marcado, vai me pagar. Quando foi quatro dia ele morreu (Dona Mira).

 

 

Considera�›es finais

 

A intera�‹o com os mestres e mestras, sambadores e sambadeiras pertencentes ˆ comunidade de Tocos permitiu percebermos que a vocalidade e a mem—ria s‹o os principais propiciadores de circula�‹o das tradi�›es populares. Na localidade quilombola de Tocos permanece o reconhecimento de que a tradi�‹o dos sambas, festas e celebra�›es tradicionais esteja passando por um processo de escassez, caso estas sejam comparadas com outras Žpocas em que eram mais cultivadas, sobretudo, entre os mais jovens.

De tal modo, ressaltamos a import‰ncia do levantamento e do registro feitos atravŽs da pesquisa de recolha das cantigas e dos contos, assim como das hist—rias de vida de tr�s anci›es atravŽs da Entrevista Narrativa. O legado poŽtico e cultural do grupo indica uma contribui�‹o importante para as gera�›es mais jovens, que podem aprender com os sambas, com os cantos e com as hist—rias tradicionais reencenadas no presente. 

 

 

Refer�ncias

 

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BENJAMIM, Walter. O narrador: considera�›es sobre a ora de Nikolai Leskov. In: Magia e tŽcnica, arte e pol’tica: ensaios sobre literatura e hist—ria da cultura. S‹o Paulo: Brasiliense, 1994, p. 197-221.

 

COSTA, Adil Silva. Tradi�›es orais e afrodescend�ncia. In: Sete estudos de literatura e cultura popular. Salvador: EDUNEB, 2016, p. 49-78.  

 

DE MOURA, J—nata Ferreira de; NACARATO, Adair Mendes. A entrevista narrativa: dispositivo de produ�‹o e an‡lise de dados sobre trajet—rias de professoras. Cadernos de Pesquisa, S‹o Lu’s, v. 24, n. 1, p. 15-30, jan./abr. 2017.             

 

FERRAROTTI, Franco. Sobre a autonomia do mŽtodo biogr‡fico. In: NîVOA, Ant—nio; FINGER, Matthias (Orgs.) O mŽtodo (auto)biogr‡fico e a forma�‹o. Lisboa: MinistŽrio da Saœde. Depart. de Recursos Humanos da Saœde/Centro de Forma�‹o e Aperfei�oamento Profissional, 1988, p. 17-34.

 

ROCHA, Vivian Munhoz. Aprender pela arte a arte de narrar: educa�‹o estŽtica e art’stica na forma�‹o de contadores de hist—rias. 2010. 343f. Tese (doutorado em Artes) – Escola de Comunica�›es e Artes da Universidade de S‹o Paulo, S‹o Paulo, 2010. 

 

SESC Santana Catarina - Ra’zes do Samba de Tocos (BA) circula SC no Sonora Brasil. Dispon’vel em: https://www.sesc-sc.com.br/blog/cultura/raizes-do-samba-dehttps://www.sesc-sc.com.br/blog/cultura/raizes-do-samba-de-tocos--ba--circula-sc-no-sonora-brasiltocos--ba--circula-sc-no-sonora-brasil. Acesso em: 02 mai.  2021.

 

ZUMTHOR, Paul. Introdu�‹o ˆ poesia oral. Tradu�‹o Jerusa Pires Ferreira, Maria Ines de Almeida, Maria Lucia Diniz Pochat. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

 

 

[Recebido:16 ago 21 - Aceito: 16 set 21]

 



[1]  Doutor em Estudos Liter‡rios pela Universidade Federal de Londrina. Porfessor da Secretaria Estadual e tutor EAD na Universidade Federal do Par‡.

[2] Alguns trechos deste cap’tulos foram retirados da minha tese de doutorado Caleidosc—pio amaz™nico: a oralidade em som imagem e movimento defendida em 2016 na Universidade Estadual de Londrina.

[3] Doutoranda em Estudos Liter‡rios pelo Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras da Universidade Federal do Par‡ (PPGL-UFPA), vinculada ˆ linha de pesquisa Literatura, mem—ria e identidade. E-mail: adjaramos@gmail.com

[4] Doutora em Letras (Letras Vern‡culas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Professora permanente do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras, BelŽm, PA. Coordenadora do Programa de Estudos Geo-BioCulturais da Amaz™nia –Campus Flutuante, da Universidade Federal do Par‡ (UFPA). E-mail: galvao@ufpa.br

[5] Doutora em Letras – ‡rea de concentra�‹o em Estudos Liter‡rios (UFPA). Professora da Universidade Rural da Amaz™nia (UFRA) e vice-coordenadora do projeto de pesquisa e extens‹o PoŽticas Orais e Pensamento Decolonial (LANMO/UNAM) E-mail: rafaellacontente@gmail.com

[6] Doutor em Letras – ‡rea de concentra�‹o em Estudos Liter‡rios (UFPA). Professor Adjunto I de Literaturas de
L’ngua Portuguesa (UFMA). Professor permanente do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras de Bacabal
(PPGLB). L’der do Grupo de Pesquisa em Literatura, Negritude e Diversidade (GEPELIND). Vice-l’der do Grupo de Pesquisa em Literatura, enuncia�‹o e cultura (LECULT). E-mail: rubenoliveira50@hotmail.com/
rubenil.oliveira@ufma.br

 

[7] ÒThe plastic surgery craze: latin american women are sculping their bodies as never before - along California lines. Is this cultural imperialism?Ó (GOLDENBERG, 2008, p. 52, tradu�‹o nossa).

[8] Neste estudo entendo a tradu�‹o n‹o como um trabalho entre l’nguas distintas ou iguais, mas como um ato interpretativo, que produz transforma�‹o, baseado em um jogo de diferen�as, isto Ž, como os narradores do IFNOPAP compreendem a figura da Matintaperera. Para tanto, pautamo-nos no pensamento do espanhol Jorge Larrosa em sua obra La Experiencia de la Lectura: estudios sobre literatura y formaci—n (1996).

[9] Neste artigo empregamos a palavra ÒvelhaÓ, pois acreditamos, assim como Zimerman (2007), que o termo n‹o carrega nada de pejorativo. Pelo contr‡rio: pejorativo Ž substituir o nome velha por eufemismo, como se a velha fosse uma irregularidade ao ser escondida. Na realidade, o que precisa ser mudado n‹o Ž a maneira de se cham‡-la, mas sim o jeito de trat‡-la.

[10] Nos estudos sobre a Matintaperera existes distintas grafias para a personagem estudada, tais como, ÒMatinta pereraÓ, ÒMatinta pereiraÓ e ÒMatintapereraÓ. Para este trabalho adotamos a escrita da palavra ÒMatintapereraÓ de Silva Junior (2014), pois acreditamos que seus objetivos de pesquisa se aproximam dos nossos.

[11] A senilidade refere-se, de acordo com Mucida (2018), ˆs patologias do envelhecimento.

[12] Doutorado em Letras pela Pontif’cia Universidade Cat—lica do Rio de Janeiro, Brasil(2006). Professor Associado II da Universidade Federal do Par‡ , Brasil

[13] Em outros trabalhos, j‡ se anotou os problemas envolvidos no traslado do termo MŠrchen, algumas vezes traduzidos para o portugu�s  por conto de fadas, outras, por conto maravilhoso. Optou-se por esta œltima variante, em raz‹o da etimologia do termo. (TRUSEN, 2012)

[14] Trad nossa de ÒIm MŠrchen zeigt der Held, der sprechenden Tieren, Winden oder Gestirnen begegnet, weder Verwunderung noch Angst. Dies nicht, weil ihm das sprechende Tier oder Gestirn von Haus aus vertraut wŠre; es gehšrt durchaus nicht zu der ihm gewohnten Umwelt, nichts deutet an, dass er von der Existenz solcher sprechenden Tiere auch nur gehšrt hat. Aber er verwundert sich nicht, und fŸrchtet sich nicht: das GefŸhl fŸr das Absonderliche fehlt ihm. Ihm scheint alles zur selben Dimension zu gehšren.Ò

[15] Trad nossa de ÒEl rechazo de lo sobrenatural se tradujo tambiŽn en la condena de su uso literario y estŽtico. Las perspectivas ilustradas de la segunda mitad del siglo XVIII enarbolaron los conceptos de verosimilitud y m’mesis como armas fundamentales para la presencia de lo sobrenatural y lo maravilloso de los textos literarios.Ó

[16] Conforme nota explicativa, o projeto procurou manter tanto quanto poss’vel os ’ndices de oralidade, utilizando-se, quando necess‡rio, dos colchetes para indicar express›es ou palavras que suscitaram dœvida por parte do transcritor.

[17] Trad nossa de : Hab’a respirado la atmosfera creada por Henri Christophe, monarca de incre’ble empe–os, mucho m‡s sorprendente que todos los reyes inventados por los surrealistas, muy afectos a tiran’as imaginarias, aunque no padecidas.  A cada paso hallaba lo real maravilloso [grifo do autor]. Pero pensaba, adem‡s. que esa presencia y vigencia de lo real maravilloso no era privilegio œnico de Haiti, sino patrimonio de la AmŽrica entera (...)Ó

 

[18] Trad. nossa de CÕest le contraire de lÕidentitŽ, comme lÕautre est le contraire du m�me. On pourrait en faire un principe : toute chose Žtant identique ˆ soi (principe dÕidentitŽ) est aussi diffŽrente de toutes les autres (principe dÕaltŽritŽ).

[19] No original, ÒLa carcajada es un s’ntesis (provisional) entre el alma y el cuerpo, el yo y el otro.Ó(PAZ, 1969, p. 15)

[20] Trad. nossa de ÒLeerlo es participar en el secreto. ÀEn quŽ consiste ese secreto? Este libro nos ense–a nuestra otra cara, la oculta e inferior. Lo que digo debe entenderse literalmente: hablo de la realidad que est‡ debajo de la cintura y que la ropa cubre. Me refiero a nuestra cara animal, sexual: al culo y los —rganos genitales. Ò

[21] Trad. nossa de ÒEl drama de toda cultura (....) es el intento de reducir lo irreductible, la alteridad, hacia la tranquilidad ideol—gica de lo Mismo, de la Identidad. La alteridad parece ser lo insoportable. El ÔordenÕ que toda cultura de alguna manera sacraliza, es el intento de reducir la alteridad hacia las formas de lo Mismo.Ó

[22] Trad nossa de ÒCuando el limite persiste y un ‡mbito ÔotroÕ se pone en escena sin atender a las verosimilitudes de las certezas de lo real, y sin penetrar estas certezas y cuestionarlas, cuando el l’mite persiste deslindando el  ‡mbito otro del ‡mbito de lo real, estamos en presencia de lo maravilloso. Podr’a decir-se que en lo fant‡stico lo otro es una irrupci—n y, en lo maravilloso, un espect‡culo. Ò

[23] Doutorando em Linguagem e Ensino pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).  Mestre em Literatura e Interculturalidade pela Universidade Estadual da Para’ba (2011). Professor efetivo do Instituto Federal de Educa�‹o, Ci�ncia e Tecnologia da Para’ba (IFPB).  Contato: prweberalves@gmail.com

[24] Doutora em Letras pela Universidade Federal da Para’ba (2005) e P—s-doutorado na ‡rea de Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (2007). Atualmente, Ž professora Associada da Universidade Federal de Campina Grande (UAEF/PPGCF/PPGLE/UFCG).. Contato: naelzanobrega@gmail.com

[25] Utilizaremos esse neologismo para se referir ˆ trama de Romeu e Julieta, considerando as mais diversas obras medievais que remontam ao mesmo enredo.

[26] A preocupa�‹o em contar a vers‹o do autor, certamente justifica a pouca modifica�‹o no enredo por estes autores.

[27] Foi preservada a escrita original dos cordŽis.

[28] Doutor em Estudos lingu’sticos pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor Associado da Universidade Federal do Par‡.

[29] Doutora em Ci�ncias Humanas pela UniversitŽ d'Aix-Marseille I – Fran�a. Professora Titular da Universidade Federal do Par‡. Bolsista Produtividade CNPq-PQ2. 

[30] Doutoranda em Letras – Lingu’stica do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras da Universidade Federal do Par‡.

[31] Graduanda da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Par‡

[32] As narrativas de enterro aqui analisadas t�m sido estudadas no contexto das a�›es propostas por dois projetos de pesquisa desenvolvidos no ‰mbito da Universidade Federal do Par‡. Um deles denomina-se Vozes da Amaz™nia, coordenado pela Profa. Dra. Regina CŽlia Fernandes Cruz. Nesse projeto, integram-se os planos de trabalho desenvolvidos por Thaynara Thays Ferreira Paix‹o, em n’vel de Inicia�‹o Cient’fica (PIBIC) e a pesquisa de doutorado de Benedita do Socorro Pinto Borges, que t�m coletado, transcrito e analisado as narrativas de enterro em localidades do Baixo-Tocantins. O outro projeto denomina-se Estrutura ret—rica de cr™nicas brasileiras e sua aplica�‹o no ensino, coordenado pelo Prof. Dr. Emanuel da Silva Fontel. A produtiva interlocu�‹o entre os pesquisadores tem permitido um debate em torno de como as narrativas de enterro incorporam as quest›es do cotidiano, tema central nas pesquisa que envolvem o g�nero cr™nica. Alguns trabalhos acad�micos, fundamentados, ˆ semelhan�a do presente artigo, na interface sociolingu’stica e Estudos do Texto e do Discurso, j‡ foram desenvolvidos com base na aproxima�‹o entre esses dois g�neros discursivos investigados nos projetos supramencionados.

[33] N‹o ignoramos que o voc‡bulo quilombola nesse contexto gera ambiguidades, no entanto, por economia lingu’stica, manteremos o termo, em vez de narrativa de enterro de tesouro em comunidade quilombola, que mais literalmente expressaria a fun�‹o desse g�nero discursivo.

[34] Em uma das a�›es do  projeto de pesquisa Estrutura ret—rica de cr™nicas brasileiras e sua aplica�‹o no ensino (em andamento), busca-se estabelecer um di‡logo entre as narrativas de enterro e as cr™nicas, considerando um ponto de conting�ncia entre esses dois g�neros, que Ž ˆ promo�‹o do debate da vida cotidiana.

[35] Entidade que guarda semelhan�a com o saci-perer�.

[36]  Doutorado em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil (2011), Professor Titular da Universidade Federal da Para’ba , Brasil.

[37] Professor de Ensino Fundamental II e MŽdio – Artes. Licenciatura em Artes Visuais - Centro Universit‡rio êtalo Brasileiro

 

[38] Doutorando no Programa de P—s-gradua�‹o em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, Mestre em Gest‹o do Territ—rio pelo PPGEO-UEPG, Especialista em Hist—ria, Arte e Cultura pelo PPGH-UEPG, Graduado (Bacharel e Licenciatura) em Artes Pl‡sticas pela UFU, Integrante dos grupos de pesquisa CNPQ: Geografia e Hist—ria: mem—ria social e patrim™nio cultural UEPG, Grupo de Pr‡ticas de Pesquisas Qualitativas em Geografia UEPG e do Nœcleo de Pesquisa em Pintura e Ensino UFU, Atua como professor de Artes pela Secretaria de Estado da Educa�‹o do Paran‡, Artista Visual, suas pesquisas abarcam os seguintes temas: Arte - Educa�‹o, Paisagem, Bens Culturais, Antropologia Visual e Folias de Reis.

[39] Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007), Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997), Especialista em Geografia Humana pela Unicentro (1991), licenciado em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984) e Bacharel em Administra�‹o de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984). Professor Associado da Universidade Estadual de Ponta Grossa: Programa de P—s-gradua�‹o em Geografia e Departamento de Geoci�ncias. çreas de atua�‹o: Geografia Social e Cultural, Geografia Hist—rica (mem—ria social, patrim™nio cultural, hist—ria da cidade, planejamento urbano e turismo). L’der do Grupo de Pesquisa (CNPq/UEPG): Geografia e Hist—ria: Patrim™nio Cultural e Mem—ria Social. Presidente da Associa�‹o de Preserva�‹o do Patrim™nio Cultural e Natural (APPAC). Membro do Conselho Municipal do Patrim™nio Cultural de Ponta Grossa (COMPAC) – UEPG.

 

[40] O munic’pio de Carmo do Rio Claro situa-se na mesorregi‹o Sul/Sudoeste do estado de Minas Gerais, a 363 quil™metros da capital Belo Horizonte e possui popula�‹o estimada pelo IBGE (2018) entorno de 21.180 habitantes.

[41] Entrevista concedida ao autor em 23/01/2019 com os membros das equipes pastorais do Conselho pastoral paroquial Sagrada Fam’lia e do Conselho pastoral paroquial Nossa Senhora do Carmo.

[42]  Artigo escrito inicialmente como relat—rio de inicia�‹o cient’fica entre 2017-2018, com bolsa CNPq.

[43]  Aluno de doutorado em Letras pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) desde 2021. E-mail para contato: kaedmon.sellberg@hotmail.com.

[44] Not’cia dispon’vel em: Òhttps://guia.folha.uol.com.br/teatro/2017/04/mario-bortolotto-dirige-texto-do-dramaturgo-americano-sam-shepard.shtmlÓ, publicada em 7 de Abril de 2017.

[45] Dispon’vel em: <https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,poeta-narra-encontro-com-william-burroughs,1125360> publicado

[46] Ò [...] percebemos que o importante hoje Ž o ventre, isto Ž, o emocional, as emo�›es, e n‹o o racional. ƒ por esta raz‹o que a palavra ÒhistŽrico" – n‹o numa acep�‹o pejorativa – mostra a import‰ncia do œtero, isto Ž, do ventre. Em grego, hysterus Ž o ventre.Ó  Dispon’vel em: < https://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-maffesoli-nao-e-mais-o-futuro-que-importa-e-sim-o-presente> publicado em

[47] Doutorado em Mem—ria pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Brasil(2016). Professora Adjunta A - Dedica�‹o Exclusiva da Universidade Estadual de Feira de Santana.

[48] Acad�mica do Curso de Licenciatura em Letras com L’ngua Portuguesa, ofertado pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em PoŽticas Orais na UEFS, com participa�‹o no Projeto de Pesquisa Cacimba de Hist—rias:vidas e saberes dos contadores de hist—rias tradicionais de cidades do interior da Bahia. Comp›e a atual gest‹o do Diret—rio Acad�mico de Letras JosŽ Jer™nimo de Moraes como diretora de viagens e eventos.