REVISTA DO GT DE LITERATURA ORAL E POPULAR DA ANPOLL

Revista Boitat‡ Ž uma publica�‹o semestral, de acesso livre, do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-Gradua�‹o em Letras e Lingu’stica (ANPOLL)

 

GT LITERATURA ORAL E POPULAR

 BIæNIO 2020/2022

 COORDENADORA

Profa. Dra.DŽlcia Pombo

Secretaria Estadual de Educa�‹o do Par‡

delciauab@gmail.com

 

 

VICE-COORDENADORA

Profa. Ma. Dia Favacho

PPGED-UEPA

favachodia1@gmail.com

 

 

 

SECRETçRIO

Profa. Dr. Alexandre Ranieri Ferreira

SEDUC/UFPA

alexandre_ranieri@hotmail.com

 

 

 

 

 

 


IDADE MƒDIA

ORALIDADE E PERFORMANCE

 

 

Dados Internacionais de Cataloga�‹o na Publica�‹o (CIP)

Bibliotec‡rio: Marcos Moraes – CRB: 9/1701

 

 

Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL [recurso eletr™nico] / Universidade Estadual de Londrina - n. 31, v. 1, jan. /jun., 2021. – Londrina: UEL; Bras’lia: ANPOLL, 2021.

 

Semestral

Requisitos do sistema: Adobe Reader.

Modo de acesso: < http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/index>

ISSN: 1980-4504

 

1. Literatura oral 2. Oralidade 3. Cultura popular 4. Manifesta�›es art’tisticas I. Ferreira, Alexandre Ranieri. II. Fernandes, Frederico Augusto Garcia III. Universidade Estadual de Londrina. IV. Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica. V. T’tulo: Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL

 

CDD: 808.5

CDU: 82

 

 

êndice para o cat‡logo sistem‡tico:

1.

2.

Oralidade

Cultura popular

82



 

EXPEDIENTE

 

EDI‚ÌO

Dr. Alexandre Ranieri Ferreira (UFPA)

Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes (UEL)

 

 

EDITORIA ASSISTENTE

Dra. Mauren Pav‹o Przybylski da Hora Vidal (IFBaiano)

Dra. AndrŽa Bet‰nia da Silva (UNEB)

 

 

ORGANIZA‚ÌO

Dr. Nerivaldo Alves Araœjo (UNEB)

Dr. Jo‹o Evangelista do Nascimento Neto (UNEB)

 

 

COMISSÌO EDITORIAL

Dra. Anna Christina Bentes

Universidade Estadual de Campinas

 

Dra. Ana Lœcia Liberato Tettamanzy

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Dra. Berenice Araceli Granados V‡squez

Universidad Nacional Aut—noma de MŽxico

 

Dra. Cl‡udia Neiva de Mattos

Universidade Federal Fluminense

 

Dra. Edil Silva Costa

Universidade Estadual da Bahia

 

Dr. Eudes Fernando Leite

Universidade Federal da Grande Dourados

 

Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes

Universidade Estadual de Londrina

 

Dr. J. J. Dias Marques

Universidade do Algarve (Portugal)

 

Dr. Jorge Carlos Guerrero

University of Ottawa (Canada)

 

Dr. JosŽ Guilherme dos Santos Fernandes

Universidade Federal do Par‡ 

 

Dra. Josebel Akel Fares

Universidade Estadual do Par‡

 

Dra. Lisana Bertussi

Universidade de Caxias do Sul

 

Dra. Maria do Socorro Galv‹o Sim›es

Universidade Federal do Par‡

 

Dra. Maria Incoronata Colantuono

Universitat Aut˜noma de Barcelona

 

Dr. M‡rio Cezar Silva Leite

Universidade Federal de Mato Grosso

 

Dr. Ronald Ferreira da Costa

Professor do Instituto Federal do Paran‡

 

Dr. S’lvio Renato Jorge

Universidade Federal Fluminense

 

Dra. Vanderci de Andrade Aguilera

Universidade Estadual de Londrina

 

Dra. Vera Lœcia Medeiros

Universidade Federal do Pampa

 

 

PARECERISTAS DESTE NòMERO

Dra. Ana Lœcia Liberato Tettamanzy

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Dra. Claudia Freitas Pantoja

Faculdades Integradas do Vale do Iva’

 

Dra. Cristiane de Assis Portela

Universidade de Bras’lia

 

Dr. Dejair Dion’sio

Universidade Estadual do Centro-Oeste

 

Dra. Edil Silva Costa

Universidade Estadual da Bahia

 

Dr. Eudes Fernando Leite

Universidade Federal da Grande Dourados

 

Dra. Eumara Maciel dos Santos

Universidade Federal do Oeste da Bahia

 

Dra. Francisca Pereira dos Santos

Universidade Federal do Cariri

 

Dr. JosŽ Henrique de Freitas Santos

Universidade Federal da Bahia

 

Dra. Laura Regina dos Santos Dela Valle

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Dra. L�nia M‡rcia Mongelli

Universidade de S‹o Paulo 

 

Dra. Maria Nilda de Carvalho Mota

Universidade do Estado de S‹o Paulo

 

Dra. Maria Ygnez Ayala

Universidade Federal da Para’ba

 

Dra. S™nia Pascolati Vido

Universidade Estadual de Londrina

 

Dra. Yara Frateschi Vieira

Pontif’cia Universidade Cat—lica de S‹o Paulo

 

 

PROJETO E ENSAIO VISUAL

JŽssica Araœjo Dantas

 

REVISÌO

Sylvia Calandrini



 

SUMçRIO

 

EDITORIAL

Um convite ˆ roda da cultura popular

 Nerivaldo Alves Araœjo, Jo‹o Evangelista do Nascimento Neto ...................................................5

 

DOSSIæ

Corporeidade vocal e a pesquisa acad�mico-art’stica

Vagner de Souza Vargas ..................................................................................................................9

 

O Saci centen‡rio: uma an‡lise mitocr’tica do Saci Perer� – Resultado de um inquŽrito

Andriolli Costa................................................................................................................................26

 

A literatura de cordel como reinvindica�‹o do direito ˆ Literatura

Let’cia Fernanda da Silva Oliveira.................................................................................................37

 

O Rap ind’gena dos Br™ McÕs: a constru�‹o argumentativa da pol�mica

Rubens Damasceno-Moraes, Vanessa Martins Le‹o ....................................................................46

 

Tamo junto, favela! A arte perifŽrica como um mŽtodo educacional

Ana Carolina de Souza Silva.........................................................................................................60

 

A pintura Ž um sil�ncio? A arte perifŽrica como um mŽtodo educacional

Vanessa Tavares da Silva..............................................................................................................71

 

Midiartivismo em tempo de pipa: mœsica, poesia e arte a favor do ativismo social

Ricardo Oliveira de Freitas............................................................................................................83

 

Pontes sobre o rio Capiberibe e o mar

Ana Cristina Marinho....................................................................................................................96

 

ÒMovimento CultÓ do Rio de Janeiro e os discursos sobre o coco de Pernambuco

Genilson Leite da Silva, Bruno Rodolfo Martins........................................................................107

 

Testemunhos da cat‡strofe: mem—rias do trauma em Vozes de Tchern—bil

Joyce Rodrigues Silva Gon�alves................................................................................................117

 

Rap e resist�ncia: necropol’tica e escala em Os meninos correm

Everton Brito. Karina Souza, Lucas CafŽ, Maria Thereza Azevedo...........................................128

 

PoŽticas Orais, corpo-mem—ria e o ritmo das narrativas de mestres e mestras contadores de hist—rias tradicionais

Luciene Santos, Margarida Corsi, Lana Lula Amorin.................................................................139

 

CONVIDADO

A poŽtica do retalho

Jo‹o Evangelista do Nascimento Neto........................................................................................151

 

ENTREVISTA

Breve prosa com Ariano Suassuna ou A hist—ria do homem que levou os cantadores ao teatro e mostrou outros rumos para a cantoria
AndrŽia Bet‰nia da Silva ...........................................................................................................168

 

Um convite ˆ roda da cultura popular

 

 

 

O dossi� AS MANIFESTA‚ÍES DA CULTURA POPULAR E SEUS MòLTIPLOS DIçLOGOS se d‡ em uma roda, cujos membros brincantes, nesse espa�o, se d‹o as m‹os criando um c’rculo infinito, forte e colaborativo. Nessa roda, enquanto uma pessoa est‡ no centro, cantando, contando e performatizando sua hist—ria, seu enredo, as demais coparticipam num giro de saberes, sorrisos, corpos e vozes.

Nesse dossi�, tornamos pœblica uma sŽrie de estudos e viv�ncias org‰nicas sobre manifesta�›es da cultura popular. Aqui, cultivamos a pluralidade de saberes e sabores que nascem, crescem e resistem em meio ao povo e por ele. Esses conhecimentos se formam por uma multiplicidade de vozes, de pensamentos; se constituem vivos nos corpos que resistem ao tempo, ˆs lutas e tentativas de apagamento.

Essa roda da cultura Ž sem fim, porque se alimenta da vida cotidiana do povo. Enquanto houver povo, haver‡ cultura, que se manifestar‡ por meio da palavra, ressignificada e personificada na palavra-letra, na palavra-voz, mas tambŽm na palavra-corpo, na palavra-tinta, na palavra-barro...

Por meio da palavra Ž que o ser se faz homem e mulher, mas Ž por meio da cultura que esse homem e essa mulher se fazem gente. Por isso, fazemos um convite ˆ leitura desse dossi�. Ele n‹o Ž mais um arquivo, daqueles que escondem papŽis, conhecimentos. Os textos que comp›em esse acervo ganham for�a se lidos n‹o s— com os olhos mas, num movimento circular-sinestŽsico, se forem sentidos com o corpo, se suas vozes forem ouvidas, o gosto dos seus sentidos forem saboreados, porque cultura existe para ser degustada, e que nossos pelos se ericem diante de suas pot�ncias, e os nossos cora�›es jubilem frente a alma desse ente vivo.

Esse dossi� Ž uma declara�‹o pœblica em defesa da cultura popular, que brota em lugares subalternizados, mas que se espalha por onde quer e como quer, encontrando novos cultivos, outros agricultores. N—s, seres humanos, somos aqueles e aquelas que aram essa terra, o espa�o humano, onde se faz cultura todos os dias e, por ela, se vive e se transforma a vida, e se muda o mundo:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


A cultura Ž o instrumento do ser pensante, brincante e sentinte. As reflex›es e atos que dela surgem v�m em forma de dan�a, de riso, de for�a, do olhar e do tocar; brota da admira�‹o e, por conseguinte, da tomada de consci�ncia, individual e coletiva, respectivamente, por isso mesmo, o espa�o cultural Ž sempre lugar de rememora�‹o e celebra�‹o, mesmo que disso resulte indigna�‹o, resist�ncia e luta. Assim, nesse dossi�, entram tambŽm na roda:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


ƒ que o povo luta com a sua voz, com as suas marchas, mas tambŽm com seu bailar, sua pintura, seus sonhos, sorrisos e l‡grimas. Por isso, a roda, que se forma nesse dossi�, Ž movimento cont’nuo, que muda de cad�ncia, conforme o tema, mas nunca perde o ritmo; alterna a melodia, sem desfocar a performance; e toda essa cinesia simboliza a vida e a humanidade em seu estado mais pleno:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Nesses artigos, vemos mœltiplos corpos, vozes; belezas t‹o distintas, tra�os fortes das gentes que fazem a cultura popular nos espa�os pœblicos, privados, nos livros e m’dias. A palavra G-E-N-T-E, sin™nimo de P-O-V-O, parece significar algo t‹o amorfo, mas, na verdade, n‹o h‡ dicion‡rio que consiga, atŽ hoje, atribuir sentido definitivo a elas; n—s, povo-gente, n‹o somos sem forma, pelo contr‡rio, temos v‡rios aspectos, diversas fisionomias. N‹o h‡ molde que nos encaixe e nos aprisione, porque nos (re)adequamos ˆ vida, ao contexto e ao pretexto. ƒ desse modo que a roda da cultura popular se amplia, recebendo novos brincantes:

 

Quem encerra essa roda/nœmero da Revista Boitat‡ Ž Ariano Suassuna, com sua fala/canto em BREVE PROSA COM ARIANO SUASSUNA OU A HISTîRIA DO HOMEM QUE LEVOU OS CANTADORES AO TEATRO E MOSTROU OUTROS RUMOS PARA A CANTORIA.

Dessa forma, os di‡logos presentes nesse dossi� s‹o excertos de manifesta�›es diversificadas, que se revelam numa profus‹o de sons, cores e sabores. S‹o discursos de autoconhecimento e da compreens‹o do outro. S‹o modos de vida e formas de a�‹o que precisam ser conhecidas e experenciadas.

Por fim, vamos ˆ roda!

 

Nerivaldo Alves Araœjo

https://orcid.org/0000-0001-9423-3603

 

Jo‹o Evangelista do Nascimento Neto

https://orcid.org/0000-0003-4937-7311

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DOSSIæ

 

Corporeidade vocal e a pesquisa acad�mico-art’stica

 

Vocal Corporeity and Academic-Artistic Research

 

Vagner de Souza Vargas[1]

https://orcid.org/0000-0002-6350-9256

 


Resumo:
Abordagens investigativas relacionadas aos processos criativos nas mais distintas linguagens art’sticas t�m se desenvolvido com diferentes �nfases ao longo do tempo. O objetivo deste artigo Ž o de apresentar uma proposta de trabalho de campo na pesquisa acad�mica em artes c�nicas, na qual foi desenvolvido um tipo de processo criativo, com o intuito de refletir sobre as interfaces entre aspectos corporais e vocais na pesquisa acad�mico-art’stica. Este trabalho demonstrou uma possibilidade outra para o desenvolvimento do trabalho de campo, assim como tambŽm reafirma a necessidade de que a grande ‡rea das artes como um todo se permita a divulgar outras abordagens para a pesquisa acad�mica.

Palavras-Chave: Metodologia da Pesquisa. Corporeidade Vocal. Corpo-Voz. Processo Criativo. Pesquisa Acad�mico-Art’stica.

 

 

Abstract: Investigative approaches related to creative processes in the most distinct artistic languages have emerged with different approaches, especially nowadays. The aim of this article is to present a proposal for field work in academic research, in which a kind of creative process was developed, with the purpose of reflecting about the interfaces between body and vocal aspects in academic-artistic research. This work has demonstrated another possibility for the development of field work, as well as reaffirming the need for the great area of the arts - as a whole - to be allowed to disseminate other approaches to academic research.

Keywords: Research Methodology, Vocal Corporeity, Body-Voice, Creative Process, Academic-Artistic Research.

 

 

Introdu�‹o

 

A pesquisa acad�mica em artes performativas possui abordagens metodol—gicas, em acordo com as suas especificidades de ‡rea, estabelecidas ao longo dos anos (CARREIRA et al., 2006). Entretanto, em acordo com as necessidades contempor‰neas, alguns artistas-pesquisadores sentem o desejo de desenvolverem suas investiga�›es por vias metodol—gicas que n‹o necessariamente venham ao encontro dos seus anseios conforme os mŽtodos tradicionalmente desenvolvidos o fazem.

Neste sentido, urge a necessidade em se propor abordagens para o desenvolvimento da investiga�‹o acad�mica de um modo geral, propiciando perspectivas que hibridizem, borrem fronteiras entre as metodologias tradicionais e/ou que possibilitem se desenvolver por meios outros[2]. Mas, potentes em viabilizar reflex›es que contribuam ˆ produ�‹o acad�mica e art’stica. Estas abordagens outras encontram em suas caracter’sticas, par‰metros e desenvolvimentos, os elementos essenciais para se legitimarem em si, constituindo-se como perspectivas alternativas ˆ pesquisa acad�mica, em especial, ˆs pesquisas em artes performativas (PRENDERGAST, 2003; 2014; PARKER-STARBUCK; MOCK, 2011; KERSHAW; NICHOLSON, 2011; KERSHAW, 2012; AALTONEN; BRUNN, 2014; VARGAS et al., 2019). Apesar de haver muitas abordagens metodol—gicas para as pesquisas acad�micas na grande ‡rea das ci�ncias humanas, este artigo focar‡ suas reflex›es para o contexto das pesquisas em artes performativas.

O objetivo deste artigo Ž o de apresentar uma proposta de trabalho de campo na pesquisa acad�mica em artes performativas, na qual foi desenvolvido um tipo de processo criativo por um ator[3], com o intuito de refletir sobre as interfaces entre aspectos corporais e vocais em sua investiga�‹o. Neste texto, tambŽm ser‡ relatada esta perspectiva sobre como trazer um processo criativo que trabalhe aspectos relacionados ˆs viv�ncias corporais e vocais no trabalho em artes performativas por meio de uma etapa de empiria em uma investiga�‹o acad�mica, ou como chamada por Vargas (2018), acad�mico-art’stica, pois se prop›e a hibridizar quaisquer linhas separat—rias que possam dividir a pesquisa entre estas ‡reas.

Antes de mais nada, para ler este texto, h‡ de se faz�-lo como um convite a observar como um ator se utilizou de uma proposta tŽcnica, associando corpo e voz, sonoridade e corporeidade, ou, como Ž mencionado por Vargas (2018): Òcorpo-vozÓ – vide p. 85 – e Òcorporeidade vocalÓ – vide p. 23 –, para desenvolver uma pesquisa acad�mica, na qual a sua pr‡tica como investiga�‹o no trabalho de campo tambŽm envolveu um processo criativo. Por se tratar de um artigo no qual se explanar‡ sobre alguns procedimentos adotados durante o trabalho feito ao longo de um doutoramento, neste texto, em certos momentos, os relatos ser‹o escritos em primeira pessoa, como um convite ’ntimo e intencional de trazer quem o esteja a ler para perto de reflex›es t‹o particulares desenvolvidas na tese de Vargas (2018).

Este texto tambŽm se prop›e a oferecer um outro modus[4] de se pensar e efetuar o trabalho de campo em pesquisas que envolvam processos art’stico-criativos. Talvez, a descri�‹o dos procedimentos adotados no estudo que serve de mote para a escrita deste artigo possa oferecer algum ru’do ˆqueles que n‹o est‹o acostumados a transgredir as propostas de metodologias das pesquisas tradicionalmente efetuadas no meio acad�mico. Entretanto, justamente por este motivo, muitos artistas-pesquisadores t�m optado por buscar maneiras outras para o desenvolvimento dos trabalhos emp’ricos em suas investiga�›es, de modo que estejam em acordo com seus anseios, como Ž o caso dos estudos publicados por Prendergast (2003; 2014), Parker-Starbuck e Mock (2011), Kershaw e Nicholson (2011), Kershaw (2012), Aaltonen e Brunn (2014), Vargas (2018) e Vargas et al. (2019). Por outro lado, para a leitura do texto deste artigo, tambŽm convido o(a) leitor(a) a um olhar afetuoso, uma vez que a descri�‹o de um processo criativo, mesmo que tenha sido desenvolvido com o intuito de suscitar reflex›es, tambŽm Ž um ato de desnudamento do artista que se prop›e a relat‡-lo, expondo suas fragilidades, vulnerabilidades e dilemas ao longo deste processo.

 

Etapas de uma composi�‹o no processo criativo: conceitos necess‡rios

 

Os processos criativos em artes performativas podem ser realizados com distintas abordagens, conforme aprouver ˆs necessidades dos trabalhos que as(os) artistas estiverem desenvolvendo. Neste momento do texto, faz-se importante ressaltar que, apesar de a discuss‹o deste artigo estar focada a partir da perspectiva do trabalho de ator, por se tratar de uma tem‡tica relacionada ˆs reflex›es sobre corpo e voz, o que aqui ser‡ exposto tambŽm serve ˆs perspectivas de trabalhos de artistas em dan�a, —pera, performance art, mœsica, circo, burlesque, dragging e demais artes, as quais ser‹o englobadas dentro da terminologia Òartes performativasÓ apenas por uma quest‹o de facilidade de escrita textual a este artigo. AlŽm disso, tambŽm Ž necess‡rio enfatizar que, apesar de este artigo centrar suas abordagens falando sobre uma perspectiva para atores, por se tratar de uma discuss‹o que pode ser ampliada ˆs diversas artes, quando estiver falando sobre estes aspectos para atores, todas as reflex›es e propostas aqui tratadas tambŽm podem ser expandidas e reverberadas ˆs demais artes performativas.

Nesse sentido, ao se propor uma abordagem investigativa acad�mico-art’stica, na qual o processo criativo em artes se desenvolva como parte essencial dos procedimentos de investiga�‹o, podemos pensar todo o contexto de pesquisa como um processo de composi�‹o. No caso deste artigo, permito-me tra�ar um paralelo com as reflex›es propostas por Bonfitto (2009, p. 142) sobre o ator-compositor, ao considerar que

H‡, alŽm disso, especificidades ligadas ao ator-compositor. A partir do conhecimento dos elementos que envolvem a pr‡tica de seu of’cio, e utilizando-se da a�‹o f’sica como eixo dessa pr‡tica, ele adquire a possibilidade de deixar de ser somente uma pe�a da engrenagem que constitui a obra teatral, assim como pode superar a condi�‹o de Òconsumidor de tŽcnicasÓ de interpreta�‹o. [...]. O ator adquire um valor de instrumento potente, capaz de oferecer inœmeras possibilidades de resolu�‹o para os processos c�nicos.

O enlace feito com o que Ž destacado acima, a partir de Bonfitto (2009), se refere a pensar a pesquisa acad�mico-art’stica em artes performativas como um processo para alŽm do desenvolvimento de tŽcnicas. Nesse sentido, os artistas-pesquisadores, ao avan�arem em um processo criativo de pesquisa nesta ‡rea, devem estar abertos a este processo buscando que o fornecimento de elementos estŽtico-reflexivos e poŽticos durante esses vivenciamentos em pesquisa, lhes possibilite subs’dios necess‡rios ˆ amplia�‹o das discuss›es pertinentes aos seus trabalhos. Este direcionamento se refere a um modus particular desta especificidade de ‡rea em desenvolver seus estudos, pedagogias, achados e reflex›es. Neste caso, a composi�‹o parte de um princ’pio no qual o artista ir‡ pensando, elaborando, vivenciando e refletindo sobre cada etapa antes e durante o seu trabalho de campo, encontrando elementos que servir‹o como disparadores reflexivos a serem desenvolvidos a posteriori. O ator se p›e como parte ativa neste processo em busca dos subs’dios que lhe conduzir‹o ao caminho das reflex›es relacionadas ˆ sua investiga�‹o, tudo isso ao longo do processo criativo, compondo o seu trajeto de pesquisa de campo por meio de sua corporeidade[5].

Quando nos propomos a desenvolver uma investiga�‹o acad�mico-art’stica em artes performativas por meio de uma proposta metodol—gica focada no trabalho corporal e vocal para atores, de maneira conjunta e indissociada, h‡ de se perceber que as reflex›es oriundas desse processo ser‹o permeadas profundamente por viv�ncias e experimenta�›es corporais e vocais. As experi�ncias desse processo potencializar‹o as pr—ximas etapas da pesquisa proposta. Ao se refletir sobre elementos relacionados a quest›es corporais e vocais ao longo do processo criativo, necessitamos conceber esses aspectos tambŽm englobando saberes sens’veis do corpo humano. Sobre isso, apesar de Aleixo (2010) n‹o desenvolver uma tese sobre o que venha a ser um saber sens’vel, explicando seus meios e compondo um arcabou�o epistemol—gico para tanto, este autor refere alguns elementos importantes de serem trazidos ˆ discuss‹o aqui proposta, quando diz que

O acesso aos mœltiplos procedimentos do trabalho vocal para o exerc’cio de cria�‹o poŽtica, uma vez que experimentados e assimilados praticamente – ou seja, como um saber sens’vel do corpo, como algo que Òeu sei porque posso realizarÓ – amplia as possibilidades do ator pesquisar, improvisar e criar poŽticas vocais, bem como compreender e propor formas ampliadas de rela�‹o com a fala e com o texto em cena, alŽm de dominar distintos modos objetivos de abordagem de estilos e propostas da linguagem teatral (ALEIXO, 2010, p. 104).

Desse modo, partindo destes disparadores de ind’cios reflexivos expostos acima, podemos pensar no trabalho corporal e vocal de maneira ampliada. Esta acep�‹o, conduz o ator a considerar esta abordagem como um aprofundamento nos elementos que comp›em a corporeidade vocal. Esta corporeidade vocal aqui Ž compreendida como sendo fruto de uma interrela�‹o entre aspectos corporais – relacionados a experi�ncias e exerc’cios f’sicos/estŽticos/expressivos – e vocais – relacionados tambŽm a experi�ncias e exerc’cios espec’ficos pensando nas estruturas vocais e correlatas. Corpo e voz sendo assim indissociados, expandem a concep�‹o de voz ao todo corporal, um imenso fluxo de rela�›es entre o som em cada parte de seu corpo, descobrindo possibilidades e se deixando aberto ˆ cria�‹o poŽtica da voz enquanto corpo e do corpo enquanto voz, resultando em uma corporeidade vocal.

Nesse sentido, refletir sobre o processo criativo sob a via da corporeidade vocal, permite potencializar n‹o apenas experi�ncias e viv�ncias que fornecer‹o subs’dios a serem desenvolvidos ao longo do processo, mas, tambŽm, a assumir este aspecto como integrante de um processo de saber sens’vel. Este processo potencializa a corporeidade vocal a desempenhar um papel como disparadora de significa�›es. Ao longo de seu processo criativo, caber‡ ao ator ir mesclando, experimentando, pesquisando e vivenciando possibilidades e, neste ’nterim, ir selecionando caminhos e experi�ncias que estejam lhe fomentando reflex›es relacionadas ˆ sua investiga�‹o (VARGAS, 2018). Associo a isso o que Bonfitto (2009, p. 140-141) refere ao falar sobre as escolhas metodol—gicas de trabalho dos atores:

A utiliza�‹o de materiais de diferentes naturezas dever‡ gerar, por sua vez, a necessidade de inserir transi�›es entre esses materiais. A busca de sentido de cada material e das poss’veis transi�›es entre eles envolve, dessa forma, uma compet�ncia espec’fica do ator. Utilizando-se de v‡rios materiais, o ator poder‡ selecion‡-los somente a partir das percep�›es resultantes de uma experimenta�‹o pr‡tica. Ele dever‡ ser capaz de perceber quais os materiais adequados, que produzem ÒsentidoÓ a partir da execu�‹o de suas a�›es.

Com o intuito de ir gerando sentidos e significa�›es ao longo de seu processo criativo durante a pesquisa de campo, em sua pr‡tica como investiga�‹o, o ator dever‡ compor um modus que lhe permita organizar os elementos trabalhados, assim como, tambŽm, em constituir meios para recuper‡-los e expandi-los a cada dia de trabalho. Uma possibilidade para este tipo de composi�‹o se refere ˆ cria�‹o de partituras corporais e vocais. Neste caso, o termo ÒpartituraÓ ao qual me aproximo Ž aqui empregado tomando por base o que fora referido por Barba (2010, p. 62) como sendo:

O desenho geral da forma de uma sequ�ncia de a�›es e ao desenvolvimento de cada uma das a�›es (in’cio, ‡pice, conclus‹o); ˆ precis‹o dos detalhes de cada a�‹o e de seus desdobramentos (sats, mudan�as de dire�‹o, varia�›es de velocidade); ao dinamismo e ao ritmo: a velocidade e a intensidade que regulavam o tempo (no sentido musical) de uma sŽrie de a�›es. Era a mŽtrica das a�›es com suas micro pausas e decis›es, o alterar-se de a�›es velozes e lentas, acentuadas e n‹o acentuadas, caracterizadas por uma energia vigorosa e macia; ˆ orquestra�‹o das rela�›es entre as v‡rias partes do corpo (m‹os, bra�os, pernas, pŽs, olhos, voz, rosto).

O que esse autor descreve no trecho acima se refere a uma maneira de organizar movimentos, a�›es f’sicas e vocais dentro de uma sequ�ncia fixada (no sentido de poder ser rememorada e resgatada em cada dia de trabalho) pelo ator ao longo de seus treinamentos. A elabora�‹o dessas a�›es deve obter um certo grau de precis‹o n‹o apenas no que diz respeito ˆ sua execu�‹o, mas para que, por meio desse processo, o ator possa ir percebendo as nuances e sutilezas de cada aspecto que pode estar no entre cada a�‹o. Esses procedimentos s‹o realizados ao longo dos momentos em que os atores se p›em nas salas de ensaio/trabalho/estœdios desenvolvendo exerc’cios e experi�ncias que lhes permitam a abertura e a disponibilidade para a identifica�‹o de matrizes corporais e vocais que ser‹o integradas, elaboradas em sequ�ncias posteriormente organizadas em movimentos, sons e a�›es (VARGAS, 2018). Quando se situa esta possibilidade como integrante de uma etapa ˆs pesquisas acad�mico-art’sticas em artes performativas, deve-se ter em mente que haver‡ a necessidade em se tra�ar hip—teses de partida, objetivos e quest›es iniciais que servir‹o como primeiros passos antes do processo criativo em si como trabalho de campo dessa investiga�‹o. Esta abordagem, utilizando-se de partituras corporais e vocais, requer um per’odo prolongado durante o trabalho de campo, uma vez que, segundo Barba (2010, p. 63):

Uma partitura s— come�ava a viver depois de ter sido fixada e repetida muitas vezes. A partitura era a manifesta�‹o objetiva do mundo subjetivo do ator. [...]. A partitura era a busca da ordem para dar espa�o ˆ Desordem. [...]. A elabora�‹o compreendia as mudan�as de ritmo e de dire�‹o no espa�o, a fixa�‹o das micro pausas entre uma a�‹o e outra e um novo arranjo das v‡rias partes do corpo (bra�os, pernas, express›es faciais), que era diferente do material origin‡rio. [...]. Durante suas improvisa�›es, o ator ia pescar materiais de onde destilar (elaborar) em seguida uma partitura. Teria sido estœpido pescar com redes furadas e deixar que os peixes fugissem quando chegassem ˆ superf’cie.

Para o ator-pesquisador que se proponha a realizar um trabalho nessa perspectiva, n‹o basta apenas organizar as a�›es em uma ordem espec’fica. Ele precisa compreender em seu corpo, em sua corporeidade, os caminhos que transpassam cada uma delas, permitindo que essa disposi�‹o ou justaposi�‹o em ordenamento fomente possibilidades de gerar material criativo de trabalho di‡rio. Cada fragmento contŽm um mundo, uma constela�‹o de possibilidades instigantes. A cada dia de trabalho, sentidos e significados surgem e se potencializam na medida em que o ator se compreende e se entrega ˆ experimenta�‹o de possibilidades. No entre-espa�o desse processo, existe um fio condutor que pode ser chamado de subpartitura (VARGAS, 2018). Segundo Barba (2010, p. 64), subpartitura Ž:

O modo em que o ator via, ouvia, sentia o cheiro e reagia dentro de si, ou seja, como ele contava a hist—ria da improvisa�‹o para si mesmo atravŽs de a�›es. Essa hist—ria interior comportava ritmos, sons, melodias, sil�ncios e suspens›es, perfumes e cores, figuras isoladas e montes de imagens contrastantes, uma enchente de a�›es interiores que se manifestavam em precisas formas din‰micas. A subpartitura Ž um elemento tŽcnico que pertence ˆ particular l—gica criativa de cada ator.

Partitura e subpartitura s‹o conceitos interligados, porŽm com distintas especificidades. Sobre esse assunto, Barba (2010, p. 65) ainda afirma que

A subpartitura Ž um apoio interno, um pilar escondido que o ator esbo�a para si e que n‹o tenta representar. N‹o deve ser confundido com o significado que a partitura vai assumir para quem a observa. Sem a subpartitura, aquilo que o ator apresenta n‹o Ž mais a cria�‹o de uma corrente subjetiva de rea�›es, uma linha org‰nica guiada por uma coer�ncia interna, mas gesticula�‹o, movimento e deslocamentos casuais.

Por este motivo, ao se utilizar da cria�‹o de partituras e subpartituras durante o seu processo criativo, em uma investiga�‹o enfocando a corporeidade vocal, h‡ de se estar aberto a extrapolar a pura execu�‹o de tŽcnicas. Nesse sentido, devemos buscar nas inter-rela�›es do corpo-voz as sensa�›es, experi�ncias, sentidos, significados, emo�›es e vivenciamentos que conduzam a possibilidades reflexivas, as quais servir‹o de vias de acesso aos caminhos a que esta etapa da investiga�‹o se abrir‡. Este tipo de abordagem requer que as tŽcnicas sejam ultrapassadas em prol de que o artista-investigador se permita e se entregue ˆ cria�‹o.

Entretanto, tambŽm gostaria de enfatizar que processos criativos que se utilizem dos aspectos relacionados ˆ cria�‹o de partituras corporais e vocais fazem parte de diversas abordagens metodol—gicas nas pesquisas acad�mico-art’sticas em artes performativas. Este artigo n‹o est‡ expondo alguns destes elementos como uma inova�‹o metodol—gica. Mas, sim, com o intuito de propiciar um enlace com o que ser‡ apresentado mais a diante neste texto, ressaltando a singularidade da proposta que ser‡ brevemente descrita e, assim, expor os referenciais que a legitimam tambŽm como uma perspectiva outra ˆ pesquisa acad�mico-art’stica contempor‰nea. PorŽm, nesse contexto, como poderia o ator conduzir e desenvolver seu processo criativo ao longo do trabalho de campo?

 

Um experimento poŽtico-teatral

 

O que ser‡ dito como sendo um experimento poŽtico-teatral no texto deste artigo parte da concep�‹o feita por Vargas (2018, p. 32), ao referir que este procedimento Òenvolveu a cria�‹o de uma partitura c�nica a partir do texto Prometeu Acorrentado, de ƒsquiloÓ. Segundo este autor descreve nesta parte de sua tese, o experimento poŽtico-teatral envolve a cria�‹o e adapta�‹o de movimenta�›es corporais, vocais e suas inter-rela�›es com a corporeidade, a fim de se criar um fragmento de cena que n‹o necessite ter as mesmas concep�›es ligadas ˆ dramaturgia liter‡ria, situa�›es cotidianas, nem muito menos ˆ utiliza�‹o em encena�›es. Esse experimento se refere a um modus operandi de que os atores disp›em para gerarem matrizes de trabalho e vivenciarem sensa�›es que poder‹o ou n‹o ser utilizadas ao longo dos seus processos criativos. Esses materiais de trabalho sobre si fornecem subs’dios para que o ator possa expandir suas reflex›es para outros contextos e quest›es n‹o necessariamente relacionados ao trabalho que est‡ realizando naquele momento. TambŽm considero que esta abordagem seja uma maneira pela qual os atores consigam buscar elementos de reflex‹o para quaisquer quest›es a partir das rela�›es que estabelecem com a sua corporeidade por meio de um modus peculiar de ir desenvolvendo o processo criativo e a pr—pria compreens‹o de seu trabalho (VARGAS, 2018).

O experimento poŽtico-teatral Ž um procedimento compreendido de muitas nuances durante o processo criativo, sendo uma delas a cria�‹o da partitura c�nica. Esse Ž um tipo de pesquisa de campo, na qual o pr—prio campo Ž o corpo do ator, sua corporeidade, ou seja, as maneiras pelas quais experiencia, vivencia e se relaciona com as experi�ncias ao longo desse processo, resultam em reflex›es que n‹o compartimentalizam o corpo, mas o potencializam como elemento disparador de possibilidades. Este aspecto permite ao ator conduzir sua pesquisa, considerando o corpo como um ente global de rela�›es, ou seja, assumindo-o como/em corporeidade (VARGAS, 2018). Apesar de estar frisando que o experimento poŽtico-teatral desenvolvido por Vargas (2018) tenha sido efetuado com o intuito de aprofundar reflex›es sobre corporeidade de maneira ampliada, suas possibilidades como procedimento vi‡vel ˆ investiga�‹o sobre quest›es relacionadas ˆ sonoridade e voz n‹o devem ser esquecidas, nem muito menos a sua intr’nseca rela�‹o com o corpo do ator, com sua corporeidade. Esta proposta de trabalho permite conceber uma perspectiva de desenvolvimento das partituras corporais e vocais, pensando-as como elementos estŽticos, poŽticos, imbricados, vivenciados de maneira insepar‡vel, potencializando corpo, voz, emo�›es, sentimentos e sensa�›es como matrizes un’ssonas e/ou dissonantes em atividade.

Entretanto, faz-se necess‡rio ressaltar que este tipo de abordagem n‹o visa apenas descrever procedimentos, processos e vivenciamentos durante a pesquisa de campo. Estas descri�›es s‹o importantes de serem feitas e, de certa maneira, tambŽm legitimam, registram e fornecem elementos para se compreender n‹o apenas os procedimentos adotados e escolhas ao longo do trabalho de campo, mas tambŽm, poss’veis evid�ncias que estar‹o surgindo para compor o arcabou�o de reflex›es futuras ˆs pr—ximas etapas da pesquisa em quest‹o. Mas, para alŽm disso, este tipo de proposta de trabalho de campo possui caracter’sticas de pesquisa espec’ficas das artes performativas. Desse modo, tambŽm possibilita que artistas-pesquisadores desta especificidade de ‡rea conduzam suas investiga�›es encontrando meios que venham ao encontro das maneiras pelas quais eles desenvolvem seus processos de significa�‹o, reflex‹o e legitima�‹o das potencialidades evidenciadas em suas pesquisas. Para alŽm das descri�›es dos procedimentos e vivenciamentos ao longo da pesquisa de campo, neste tipo de abordagem, a amplia�‹o dos disparadores reflexivos, surgidos ao longo do processo, se faz necess‡ria como catalisadora das discuss›es propostas nos objetivos da investiga�‹o que esteja sendo desenvolvida.

Por este motivo, com o intuito de avan�ar a discuss‹o proposta neste artigo e exemplificar o que vem sendo exposto neste texto, logo a seguir, ser‹o brevemente descritos alguns princ’pios sobre como se desenvolveu uma parte da proposta realizada por Vargas (2018) para se trabalhar com arquŽtipos vocais, associados a ressonadores corporais. Esta divis‹o textual se faz importante para que, quem estiver a ler, possa dispor de subs’dios que lhe propicie uma leitura mais fluida sobre quando o experimento poŽtico-teatral for descrito. Nesse sentido, possibilitar-se-‡ que se percebam as reflex›es poss’veis sobre como pensar em um tipo de dramaturgia da corporeidade vocal, configurando-se como uma peculiaridade que se expande ˆ tŽcnica e se desenvolve por meio de um mergulho estŽtico ao longo do processo criativo.

 

ArquŽtipos vocais e o experimento poŽtico-teatral

 

A proposta de trabalho com arquŽtipos vocais surge a partir de terap�uticas desenvolvidas em um tipo de pr‡tica espec’fica de voz-terapia, conforme apresentada por Stein (2009), na qual a autora descreve detalhadamente exerc’cios de voz-terapia por meio de arquŽtipos e as tŽcnicas relacionadas a estes procedimentos. Nessas atividades, foram estipulados e elencados quatro arquŽtipos – Crian�a, Amante, Guerreiro e M‹e – associados a ressonadores localizados em certas partes do corpo. O acionamento sonoro de cada um desses arquŽtipos na parte do corpo relacionada com o ressonador espec’fico de cada um deles, desencadeia sentimentos/emo�›es/sensa�›es com localiza�›es corporais espec’ficas e acionadas a partir de uma vibra�‹o sonora da voz no ressonador associado a cada arquŽtipo em espec’fico (VARGAS, 2018, p. 94).

Devido ao fato de a tŽcnica sobre os arquŽtipos vocais ser uma proposta singular e que requer especifica�›es sobre a sua adapta�‹o a partir do que fora descrito por Stein (2009), por uma quest‹o de espa�amento textual, esta tŽcnica em espec’fico n‹o ser‡ detalhada neste artigo, uma vez que o objetivo deste texto se foca mais no que Ž poss’vel apreender a partir do experimento poŽtico-teatral em si e n‹o em uma das tŽcnicas que propiciaram o seu desenvolvimento. Contudo, caso seja de interesse do(a) leitor(a) em perceber como a tŽcnica dos arquŽtipos vocais foi adaptada a uma proposta de trabalho nas artes performativas, a tese de doutoramento de Vargas (2018) contŽm elementos aprofundados sobre esta abordagem e o trabalho de Stein (2009) descreve, em detalhes, os procedimentos relacionados ˆ voz-terapia.

Segundo Vargas (2018, p. 95), neste tipo de abordagem, Òos indiv’duos t�m possibilidades de se relacionarem de maneira diferente com as suas sonoridades e descobrir possibilidades ainda n‹o vivenciadas por meio de outras tŽcnicasÓ. Cabe ainda frisar que Vargas (2018) se utilizou dos arquŽtipos vocais como uma das abordagens tŽcnicas durante o desenvolvimento de seu experimento poŽtico-teatral. Entretanto, este autor deixa claro que esta foi uma escolha particular, o que n‹o significa que outros artistas-investigadores possam empregar tŽcnicas e abordagens diferentes, caso desejem desenvolver suas investiga�›es se utilizando de um experimento poŽtico-teatral. Nesse sentido, antes de descrever sobre o experimento poŽtico-teatral em si, logo abaixo, ser‹o explicitados, brevemente, os quatro arquŽtipos escolhidos que foram trabalhados por Vargas (2018), nos quais a voz era dinamizada, associada a ressonadores corporais espec’ficos, propiciando experi�ncias emocionais/estŽticas que serviram de matrizes para o processo criativo que ser‡ descrito logo a seguir neste texto.

a) O ArquŽtipo da Crian�a

Todas as emo�›es vivenciadas nesses exerc’cios eram percebidas e associadas ˆs suas localiza�›es nos ressonadores de cabe�a, relacionados a determinadas vozes agudas. Segundo Vargas (2018, p. 95) relata em seu trabalho: ÒEsse processo me permitia descobrir sensa�›es emotivas que os sons das vozes desvelavam e a localiza�‹o corp—rea de onde eles poderiam ser acessadosÓ.

b) O ArquŽtipo do Amante

No trabalho com este arquŽtipo, a voz era deslocada para a parte superior tor‡cica, devendo explorar todas as possibilidades dos ressonadores presentes nesse local. Estes exerc’cios pretendiam investigar sonoridades n‹o mais agudas. Mas, agora, de extens‹o mediana, buscando o encontro desses sons com as emo�›es que poderiam ser associadas nessa regi‹o do corpo. Segundo Vargas (2018, p. 95), os Òexerc’cios utilizados envolviam sentimentos relacionados ao amor e ˆ afetividade, aliados ˆ responsabilidade e ao poderÓ.

c) O ArquŽtipo do Guerreiro

Esta etapa do trabalho envolvia exerc’cios nos quais o impulso vocal deveria partir da regi‹o diafragm‡tica de maneira din‰mica e expansiva, deixando as sonoridades da’ emergidas, reverberarem ao longo de todo corpo, observando as sensa�›es e emo�›es que despertavam. Segundo Vargas (2018, p. 96), ÒEsse arquŽtipo Ž acessado por meio de movimentos e ritmos fortes em uma constante rela�‹o com o ch‹o e a baseÓ.

d) O ArquŽtipo da M‹e

Os trabalhos associados a este arquŽtipo propunham exerc’cios que envolviam o deslocamento do centro de resson‰ncia da voz para a por�‹o infra umbilical. Segundo Vargas (2018, p. 96), ÒAs emo�›es aqui trabalhadas, bem como das matrizes corp—reas que esses sons nos remetem, forneciam ind’cios para o acesso de matrizes de trabalho relacionadas a sentimentos de conforto, melancolia, saudade, separa�‹o, amor, generosidade, acolhimento, prote�‹o e sensa�›es de introspec�‹oÓ.

 

O experimento poŽtico-teatral: criando partituras e subpartituras

 

Durante os treinamentos diariamente realizados ao longo do trabalho de campo, matrizes corporais e vocais, que estavam relacionadas aos arquŽtipos vocais escolhidos para serem o foco de trabalho, foram sendo fixadas, assim como suas localiza�›es corp—reas e as emo�›es ali registradas. Essas matrizes serviam como elementos para a cria�‹o da partitura f’sica e vocal, assim como tambŽm para o seu resgate e desenvolvimento do trabalho a cada dia de pesquisa.

Com o intuito de situar o(a) leitor(a) no contexto da fala e no momento vivenciado pela personagem do texto ÒPrometeu AcorrentadoÓ, uma simples e breve descri�‹o se faz necess‡ria para expor alguns aspectos emotivos que o ator considerou como envolvidos na cena e que foram trabalhados por meio das partituras corporais e vocais. O trecho escolhido para come�ar a ser encaixado nas partituras trabalhadas foi uma parte de uma fala da personagem Prometeu que, ap—s doar a chama do conhecimento e esperan�a aos mortais, Ž condenado por Zeus a ficar acorrentado no alto de um penedo por toda a eternidade. Diariamente, um corvo vem a este local para comer o f’gado de Prometeu ao longo do dia. Ë noite, o corvo vai embora e o f’gado se regenera, para, durante o amanhecer seguinte, iniciar o mart’rio di‡rio de Prometeu por toda a eternidade. O fragmento de texto escolhido conta exatamente o momento em que Prometeu, ap—s receber a condena�‹o divina por ter doado a chama do conhecimento aos humanos, est‡ sendo carregado atŽ o alto do penedo, preso em correntes e, ent‹o, lamenta a sua situa�‹o, temendo a chegada do corvo, pois a noite est‡ acabando. PorŽm, se faz importante salientar que Vargas (2018) tambŽm esclarece que optou pelo texto ÒPrometeu AcorrentadoÓ como uma escolha particular, em conson‰ncia com os argumentos acima expostos sobre as particularidades de escolhas deste autor para o desenvolvimento deste trabalho.

A partir do momento em que o trecho do texto j‡ havia sido escolhido e a partitura b‡sica de matrizes f’sico-vocais j‡ estava elencada, foram inclu’das as pr‡ticas com os arquŽtipos vocais direcionando-os para esse contexto. A partitura corporal-vocal foi dividida em seis momentos: 1. A subida ao penedo, 2. Preso ˆs correntes, 3. Lamento, 4. Revolta contra Zeus, 5. Medo do tŽrmino da noite, 6. Chegada do corvo[6]. Com o intuito de simplificar a escrita deste artigo e facilitar a sua leitura, o que aqui Ž denominado como sendo uma partitura corporal-vocal, engloba os conceitos de partitura e subpartitura mencionados anteriormente neste texto.

Dependendo da frase do texto, foi utilizado um arquŽtipo vocal diferente. Esta tambŽm foi uma escolha particular como investigador, no intuito de verificar como o tr‰nsito da voz pelas localiza�›es corporais de cada arquŽtipo, poderiam conduzir diferentes emo�›es/sensa�›es/experi�ncias que a personagem Prometeu poderia sentir/vivenciar/experienciar durante essa fala. Neste caso, o contexto da personagem Prometeu foi situado dentro das escolhas de condu�‹o tŽcnica para a partitura e subpartituras. Mas, as sinestesias vivenciadas ao longo deste processo criativo extrapolam quaisquer personagens, fornecendo elementos reflexivos ao ator, independentemente de uma rela�‹o com texto e personagem. Apesar de, neste caso, o ator se referir a quest›es relacionadas ˆ personagem, o que ele ia percebendo/vivenciando/experienciando ao longo do processo, lhe fornecia elementos reflexivos a serem desenvolvidos em seu trabalho como ator-pesquisador para alŽm de situa�›es espec’ficas a este texto e personagem. As reflex›es suscitadas ao longo deste processo se configuram como inst‰ncias potentes, catalizadoras de subs’dios ˆs pr—ximas etapas da investiga�‹o. Esta perspectiva, se refere a um modus particular que alguns artistas podem ter para conduzir e elaborar as maneiras pelas quais compreendem, se questionam, refletem e discutem sobre assuntos espec’ficos de/em sua ‡rea do conhecimento.

Na composi�‹o da partitura corporal-vocal, Vargas (2018) optou por trabalhar a passagem da localiza�‹o f’sica de um arquŽtipo vocal para outro de maneira cont’nua. Esta op�‹o foi adotada para que a cria�‹o n‹o se transformasse apenas em uma demonstra�‹o tŽcnica somente pass’vel de compreens‹o por aqueles que conhecem esse processo de trabalho. Muito embora estes procedimentos tenham acontecido durante um per’odo emp’rico de investiga�‹o de um ator, por meio de um tipo de processo criativo, com objetivos e direcionamentos relacionados ao que motivou tal pesquisa, o que est‡ exposto na frase anterior vem ao encontro de ressaltar que estes procedimentos tambŽm podem ser efetuados pensando em matrizes para tambŽm serem utilizadas quando de um evento teatral per se. Nesse sentido, as partituras e subpartituras foram encadeadas simultaneamente, sem impedir o fluxo e continuidade do desenvolvimento das a�›es. Conforme dito acima, esta foi uma escolha particular, o que n‹o impede a outros atores de organizarem suas partituras e subpartituras de maneiras distintas das como foram efetuadas no trabalho de Vargas (2018). Logo abaixo, alŽm de serem descritos momentos deste processo criativo, tambŽm ser‹o expostas algumas percep�›es e reflex›es que foram surgindo ao longo do trabalho de campo, com o intuito de trazer ao texto deste artigo a ilustra�‹o alargada sobre como um artista que desenvolveu um trabalho de pr‡tica como investiga�‹o, conduziu seus catalizadores de reflex›es que viriam a seguir em sua pesquisa.

Entretanto, gostaria de ressaltar que as pr—ximas partes deste texto ser‹o escritas em primeira pessoa, pois se tratam de descri�›es particulares, realizadas durante o experimento poŽtico-teatral, conforme dito anteriormente. Esta abordagem Ž feita com o intuito de compartilhar detalhes deste procedimento. Mas, afinal, como foi dividido o experimento poŽtico-teatral e como foi vivenciado pelo ator-pesquisador que o desenvolveu?

 

A subida ao penedo[7]

 

Esse momento se referia ˆ subida de Prometeu ao penedo, j‡ condenado, sendo carregado pelos seus algozes. Para essa sequ�ncia, foi criado um movimento de subida, em que Prometeu caminha sentindo o peso das correntes e as dores pelas torturas que est‡ passando. O som que conduz esse movimento Ž grave, em lamenta�‹o, fazendo refer�ncia aos lamentos das tragŽdias gregas. Esta sonoridade foi trabalhada tendo como origem as emo�›es oriundas da regi‹o pr—xima da base infra umbilical, relacionada ao ArquŽtipo da M‹e. A op�‹o por esse arquŽtipo vocal, associado a esse ressonador corporal, para esse momento da personagem, se deu em fun�‹o de ele estar relacionado a sentimentos de dor, melancolia e sofrimento.

Durante os trabalhos di‡rios, as percep�›es sinestŽsicas[8] forneceram importantes subs’dios para a identifica�‹o e fixa�‹o de matrizes corporais e vocais que podem ser dinamizadas em outros momentos. Considero que essas percep�›es s‹o muito importantes para despertar a compreens‹o do ator sobre como operacionalizar seus momentos criativos, ao se entregar a esse tipo de proposta metodol—gica. Como exemplo disso, descrevo aqui algumas percep�›es surgidas durante o processo:

Ao trabalhar o ArquŽtipo da M‹e, sentia uma resson‰ncia grave, muito forte, na altura da crista il’aca, me trazendo uma sensa�‹o de dor que desperta muitas emo�›es e o choro de maneira que ainda n‹o consigo control‡-lo. Conforme vou colocando o som nesse ressonador, vou conseguindo criar o clima da caminhada do Prometeu (VARGAS, 2018, p. 105).

Ao longo do processo de vivenciamento das experi�ncias perpassadas pelo som em intr’nseca rela�‹o com a minha corporeidade, ao trabalhar esses aspectos com este ressonador vocal, associado ao ArquŽtipo da M‹e, percebi que as sensa�›es do som nessa regi‹o de resson‰ncia permitiam que as emo�›es fossem expandidas em larga escala. Esta percep�‹o me pareceu ser uma boa alternativa a se trabalhar com o objetivo de abordar situa�›es enfrentadas pelas personagens das tragŽdias gregas. AlŽm disso, essa resson‰ncia de som grave trazia refer�ncias sobre como acredito que poderia ser um tipo de aplica�‹o dessa fala dentro dos aspectos cl‡ssicos de melopeia[9], presentes em muitos textos de teatro grego da Idade Antiga.

 

Preso ˆs correntes[10]

 

Essa sequ�ncia Ž bem r‡pida e se d‡ no momento em que Prometeu termina de fazer o movimento em espiral de subida ao penedo e tem seus bra�os presos ˆs correntes, sentindo o cansa�o de tal atividade e o peso de sua senten�a. Ent‹o, Prometeu cai e fica de c—coras durante a pr—xima fala. Nesse momento, utilizei o ArquŽtipo do Guerreiro, pois sentia que era um breve instante de luta, tentativa de mostrar sua for�a e resist�ncia, mesmo que rapidamente. Entretanto, neste fragmento textual, Prometeu aceita sua condi�‹o e sua pena, deixando-se prender. Esse momento Ž realizado em uma fra�‹o de segundos. Mas, a for�a que impulsiona e conduz todos esses movimentos, surge a partir do impulso sonoro suscitado pelo acionamento do ArquŽtipo do Guerreiro. Este tipo de impulso sonoro, associado ao ArquŽtipo do Guerreiro, parte de contra�›es e relaxamentos din‰micos e intensos das musculaturas envolvidas nos movimentos de apoio diafragm‡tico, trazendo um tipo de vigor ao momento que se est‡ experienciando.

 

Lamento[11]

 

Nesta parte, inicia a fala de Prometeu propriamente dita. Enquanto ele est‡ agachado, permanece lamentando sua situa�‹o e o que lhe ocorreu. Inicialmente, foi utilizado o ArquŽtipo da M‹e, com a mesma localiza�‹o do ressonador corporal utilizada durante A subida ao penedo. PorŽm, quando Prometeu come�a a questionar os deuses sobre o seu aprisionamento, o foco de resson‰ncia foi deslocado para a regi‹o diafragm‡tica, associada ao ArquŽtipo do Guerreiro, pois, durante o processo criativo, considerei essa situa�‹o como um momento de revolta, resist�ncia e demonstra�‹o de for�a da personagem que merecia ser trabalhado desta maneira. O deslocamento da voz por estas localiza�›es corporais, associadas aos arquŽtipos, foi assim registrado:

Logo que comecei a trabalhar essa partitura do Prometeu, fiquei com receio de trabalhar em cima de apenas um arquŽtipo, pois acredito que ele sinta muitas coisas enquanto conta a sua hist—ria, passando por m‡goa, dor, sofrimento, raiva, revolta, amor e solid‹o por exemplo. Talvez, se eu transitar pelos arquŽtipos consiga imprimir outros coloridos ˆ minha voz, desbravando emo�›es que est‹o localizadas em algumas partes do meu corpo (VARGAS, 2018, p. 106).

Suscitado por essas sensa�›es, com o intuito de verificar como faria para Prometeu sentir a dor localizada na regi‹o do f’gado, desloquei o foco de resson‰ncia para o ressonador corporal associado ao ArquŽtipo da Crian�a. Este direcionamento foi assumido, pois, nesse momento da fala, ao longo dos vivenciamentos do processo criativo, considerei que a personagem se sentia fragilizada, enfraquecida, impotente e a voz de cabe�a, sendo conscientemente falhada, lhe aumentava a sensa�‹o de sofrimento e solid‹o. Enquanto a sequ�ncia de movimentos ia descendo e voltando, ao agachar, considerei que Prometeu ia sentindo o peso das correntes, causando-lhe dor e o fazendo retornar ao lamento anterior. Sobre essa situa�‹o, cito o seguinte:

No momento em que o Prometeu sente a dor da chaga no f’gado, comecei a buscar essa dor f’sica e me surgiu um som agudo de grito. Desloquei a voz para o ArquŽtipo da Crian�a, pois nesse local se pode trabalhar com os sons agudos de maneira mais f‡cil. Ao trabalh‡-los em staccato, encontrei a sensa�‹o de sofrimento que a personagem sente nesse momento e, quando fa�o a voz deslizar pelo meu corpo, por cada um dos arquŽtipos, atŽ voltar para o da M‹e, consigo perceber todo o sofrimento dele (VARGAS, 2018, p. 106).

Ao longo dessa sequ�ncia, trabalhei a voz para ir se deslocando entre os ressonadores atŽ atingir o foco de resson‰ncia na regi‹o do ArquŽtipo da M‹e, pois considero que a personagem volte a ficar melanc—lica e triste, lamentando sua situa�‹o. Dessa maneira, ao longo do processo criativo, este foi um meio experienciado que propiciou tais sensa�›es de maneira mais efetiva. Antes de partir para o pr—ximo momento, Prometeu come�a a se levantar. Para este ’nterim, a motiva�‹o que o conduzia foi trabalhada de maneira a estar associada ˆ regi‹o do ArquŽtipo do Amante. Entretanto, em fun�‹o disso, aqui, os sentimentos trabalhados est‹o relacionados a aspectos do amor, da entrega, da responsabilidade, da compaix‹o, que geram sofrimentos. Sobre essa transi�‹o, saliento as seguintes descri�›es feitas ao longo do processo:

Quando Prometeu vai falar sobre o que fez e do seu castigo, sinto que deve ser algo que ele aceite, que n‹o questione, pois ama tanto aos mortais, quanto aos deuses. Mas, aqui, vou explorar o trabalho do ArquŽtipo do Amante, encarando as emo�›es associadas a essa regi‹o, pelo lado que causam dor e sofrimento, pois, durante os treinamentos, costumo trabalhar esse arquŽtipo apenas pela sua outra faceta (VARGAS, 2018, p. 106).

No œltimo grito de lamento da personagem, antes de falar sobre Zeus, tambŽm houve a op�‹o por se trabalhar o ArquŽtipo do Guerreiro, porŽm sob outra perspectiva. Agora, ao invŽs da for�a, foi trabalhado o impulso vindo dessa regi‹o, mas como uma impot�ncia da personagem frente ˆ situa�‹o. Durante os treinamentos di‡rios, envolvidos no processo criativo, considerei que esse impulso me ajudava a deslocar a voz para a regi‹o do ArquŽtipo do Amante para o momento em que Prometeu fala sobre o seu amor aos homens, conforme foi exposto em:

Procuro maneiras de transitar com a voz pelos diversos ressonadores. Como percebo que o Prometeu passa por muitas emo�›es durante essa cena, quero criar possibilidades para trabalhar os arquŽtipos de diversas formas. Quando ele fala no amor que ele tem pelos mortais, estou em busca das emo�›es do ArquŽtipo do Amante, relacionadas ao Rei, Imperador e o seu amor incondicional ˆqueles que acreditam nele (VARGAS, 2018, p. 107).

A passagem para o pr—ximo momento come�ava ap—s Prometeu falar sobre a situa�‹o de estar preso em correntes no alto do penedo. Com o intuito de vivenciar essas sensa�›es da passagem, os movimentos e a voz foram trabalhados de maneira a mostrar e vivenciar a sua dor f’sica e emocional. Para tanto, foi realizada a mesma transi�‹o entre os arquŽtipos feita antes, com o impulso surgindo da regi‹o diafragm‡tica, associada ao ArquŽtipo do Guerreiro, chegando ˆ regi‹o da cabe�a, associada ao ArquŽtipo da Crian�a, atŽ voltar ˆ regi‹o infra umbilical associada ao ArquŽtipo da M‹e. Desse modo, foi trabalhada a passagem de v‡rias emo�›es da personagem, intrinsecamente associadas ˆs movimenta�›es corporais e vocais experienciadas neste momento da partitura. Ao longo do processo, foi poss’vel observar que este procedimento me auxiliou a preparar a personagem ao pr—ximo momento da fala.

 

Revolta contra Zeus[12]

 

Esse Ž um momento bastante breve, quando Prometeu percebe alguma movimenta�‹o pr—xima ao penedo. A personagem aproveita a possibilidade de estar sendo ouvido por alguŽm para, ent‹o, expressar a sua revolta contra Zeus. Aqui, foram trabalhados o ArquŽtipo do Guerreiro e as emo�›es associadas a essa regi‹o. Como Prometeu est‡ preso em correntes, com o intuito de vivenciar esta sensa�‹o, os movimentos foram trabalhados por meio de impulsos leves, vindos da regi‹o diafragm‡tica. As dificuldades sentidas em trabalhar com o ArquŽtipo do Guerreiro foram descritas ap—s um dos dias de treinamento da seguinte maneira:

Tenho muita dificuldade em trabalhar o ArquŽtipo do Guerreiro, pois o excesso de impulso diafragm‡tico me faz perder o controle da voz, podendo faz�-la ficar muito aguda e n‹o acho que trabalhar essa energia de for�a, revolta e coragem com sons muito agudos tenham a ver com o Prometeu. S— consigo segurar o tom da voz, pois puxo a energia do Guerreiro para a base e os movimentos n‹o me deixam levar pelo tom da voz (VARGAS, 2018, p. 107).

Apesar de ser um momento r‡pido, a sequ�ncia vocal e corporal da Revolta contra Zeus, me permitiu trabalhar em cima de uma dificuldade pessoal em lidar com o fluxo de energia associado ao ArquŽtipo do Guerreiro. AlŽm disso, tambŽm possibilitava dar �nfase a um pequeno momento da fala da personagem em que ela protesta contra a sua senten�a.

 

Medo do tŽrmino da noite[13]

 

Nesta parte da partitura, ap—s vir da transi�‹o pelo ArquŽtipo do Guerreiro, rapidamente, deslocava o centro energŽtico para o ressonador associado ao ArquŽtipo do Amante, pois, ao longo dos treinamentos di‡rios que envolveram o processo criativo, considerei que esta me foi a via mais efetiva para trabalhar o momento em que Prometeu fala de seu amor aos mortais. Quando a personagem escuta algum som se aproximando, considero que este seja o seu œltimo instante de medo neste trecho do texto, pois Prometeu sabe que o corvo se aproxima para comer o seu f’gado. Essa sequ�ncia de movimentos foi conduzida pela voz trabalhada na regi‹o associada ao ArquŽtipo da Crian�a. Como esse arquŽtipo foi trabalhado em menor propor�‹o que os outros durante a constru�‹o das partituras e subpartituras desse fragmento de texto, nesse r‡pido momento em que a personagem teme a chegada do animal que lhe tortura diariamente, aproveitei para encaixar esse arquŽtipo durante essa transi�‹o. Essa escolha foi feita com o intuito de que, apesar ser um deus e de compreender a sua pena, considero que, neste momento, Prometeu pudesse mostrar sua fragilidade e o quanto sofria tambŽm pelas dores f’sicas causadas pelo corvo. Nesse sentido, ao longo do processo, o ressonador associado ao ArquŽtipo da Crian�a parecia ser o mais adequado para potencializar estas sensa�›es neste momento da fala.

 

Chegada do corvo[14]

 

Esse era o œltimo momento da partitura corporal-vocal criada para o experimento poŽtico-teatral. Na verdade, esse momento se referia a uma œltima experimenta�‹o feita para o trabalho dos ressonadores associados a arquŽtipos na voz com essa personagem. PorŽm, neste fragmento da fala, resolvi pontuar o final da partitura. Quando o corvo chega para comer o f’gado do Prometeu, ao invŽs de buscar um som relacionado a algum dos ressonadores associados aos arquŽtipos trabalhados, optei por criar uma espŽcie de fermata para o sil�ncio. Entretanto, apesar de n‹o estar emitindo som, a condu�‹o do movimento se deu pelo acionamento energŽtico a partir do ArquŽtipo da Crian�a, associado ˆ sensa�‹o de medo, temor e dor. Essa op�‹o surgiu ap—s alguns improvisos durante os treinamentos, conforme descrito abaixo:

Hoje, eu queria definir o final da partitura, mas n‹o sabia que som deixar para o momento em que o corvo come o f’gado do Prometeu pela œltima vez nessa fala. Deixar um grito sair, poderia ser uma op�‹o. Tentei faz�-lo vindo da regi‹o do corpo associada a cada um dos arquŽtipos vocais, mas eles n‹o coincidiam com o movimento que o meu corpo estava fazendo. Ent‹o, ao tentar experimentar o ArquŽtipo da Crian�a para esse final, em uma das repeti�›es, n‹o consegui emitir som, s— uma vibra�‹o do ar, senti como se fosse s— um fluxo energŽtico e, da’, surgiu o final da minha sequ�ncia, com todas as emo�›es que o sil�ncio precisava gritar nesse instante (VARGAS, 2018, p. 108).

A experi�ncia do final dessa partitura permitiu explorar outra possibilidade de acesso aos arquŽtipos associados aos ressonadores vocais: a n‹o emiss‹o sonora. Contudo, percebi que esse ind’cio vinha apenas a ressaltar que existem ainda muitos caminhos para se descobrir no trabalho por meio de arquŽtipos na voz, inclusive, para a utiliza�‹o de exerc’cios que permitam a explora�‹o de n‹o-sons, de sons n‹o-oralizados, de um habitat de sentidos que se libertam dos sons, mas que podem se fazer sentir por quem esteja convivenciando esse momento. A percep�‹o de que o ato de n‹o emitir um som tambŽm poderia ser acionado nesses ressonadores, associando essa informa�‹o aos arquŽtipos ali trabalhados, tambŽm me propiciou evidenciar a possibilidade de expressar textos n‹o-oralizados, mas vivos em lat�ncia energŽtica de sensa�›es, imagens, vontades, emo�›es, sinestesias, subtextos. Esse fato tambŽm chamou a aten�‹o para a exist�ncia de uma vida pulsante em um entre-espa�o n‹o expresso por sons, o que me instigou mais a investigar sobre como seriam essas potencialidades presentes em n‹o-sons, nos sil�ncios. Ainda h‡ que se adentrar aos entre-espa�os por onde as rela�›es de/entre corporeidades se expandem para alŽm do som, mas, ainda assim, potentes em vibra�›es em corporeidade. Investiga�›es estas que ficaram para trabalhos futuros, j‡ que n‹o s‹o o foco dos procedimentos descritos no texto deste artigo. Entretanto, no que tange ˆ reflex‹o da tese desenvolvida por Vargas (2018), h‡ um denso aprofundamento sobre aspectos relacionados ao subtexto, inconsciente e o sil�ncio como inst‰ncias vivas relacionadas a aspectos intr’nsecos ˆ corporeidade. PorŽm, estes ser‹o assuntos para serem ampliados em artigos futuros e que foram densamente desenvolvidos na tese de doutorado de Vargas (2018).

 

Considera�›es finais

 

A breve descri�‹o feita neste artigo sobre o experimento poŽtico-teatral efetuado por Vargas (2018) ilustra uma perspectiva poss’vel para um tipo de etapa de trabalho de campo na pesquisa acad�mico-art’stica em artes performativas. Esta perspectiva elucida a possibilidade de profissionais destes campos do conhecimento desenvolverem processos criativos como fontes de matrizes que lhes fornecer‹o subs’dios para avan�arem ˆs etapas seguintes de suas pesquisas. Desse modo, sem se ater necessariamente ˆs metodologias tradicionais de pesquisa acad�mica em artes performativas, os artistas destas ‡reas podem legitimar e constituir meios outros ˆ efetiva�‹o de suas investiga�›es, partindo de seu pr—prio contexto de trabalho em arte, como artistas, em seus processos de cria�‹o.

Este tipo de pr‡tica como investiga�‹o em artes requer um robusto arcabou�o te—rico-pr‡tico, com o intuito de estabelecer par‰metros, criar pontes, borrar possibilidades e abrir caminhos coerentes ˆ proposi�‹o metodol—gica de maneira diferenciada das tradicionalmente empregadas no meio acad�mico. Conforme dito anteriormente, este artigo n‹o visa trazer ˆ tona uma inova�‹o metodol—gica no campo das artes performativas, tampouco deslegitimar outras metodologias de pesquisa. H‡ uma grande diversidade de possibilidades metodol—gicas para a realiza�‹o de pesquisas nesta especificidade de ‡rea. O trabalho desenvolvido por Vargas (2018) vislumbra uma possibilidade outra para este campo do conhecimento, como tambŽm, ilustra uma perspectiva sobre como um ator mergulha em seu processo criativo, com o intuito de buscar disparadores reflexivos a elementos que extrapolam a etapa emp’rica em si.

AlŽm disso, a reafirma�‹o de pesquisas acad�mico-art’sticas que se desenvolvam a partir de abordagens metodol—gicas que se distinguem de alguma maneira das tradicionais, assim como tambŽm de sua publica�‹o e divulga�‹o, corroboram para o fortalecimento e estabelecimento de possibilidades outras ˆs pesquisas no contexto contempor‰neo. Mas, para que isso seja poss’vel, avaliadores e consultores de peri—dicos espec’ficos de ‡rea, assim como acad�micos que orientam e conduzem pesquisas nas universidades e centros de investiga�‹o/cria�‹o art’stica, necessitam estar abertos e dispon’veis a estas possibilidades outras, distintas das tradicionalmente realizadas e publicadas. Desse modo, alŽm de se estar consolidando outras perspectivas e caracter’sticas destas especificidades de ‡reas do conhecimento, se est‡ contribuindo para ressaltar suas singularidades, sem que isso signifique minimizar critŽrios de qualidade cient’ficos, acad�micos e art’sticos.

No que tange aos aspectos relacionados ˆ corporeidade vocal, neste artigo fica evidenciada uma proposta singular em se experienciar possibilidades vocais por meio de uma perspectiva estŽtica que se prop›e a desenvolver pr‡ticas corporais e vocais de maneira indissociada. AlŽm disso, neste texto, a partir do trabalho de Vargas (2018), tambŽm fica evidenciada uma maneira particular para artistas dessa ‡rea descreverem seus percursos de pesquisa, metodologias, pedagogias e reflex›es ao longo dos processos criativos. Com isso, tambŽm considero poss’vel vislumbrar esta abordagem como um tipo de proposta diferenciada ao trabalho criativo dos profissionais das artes performativas.

Trabalhar poŽticas relacionadas ˆ corporeidade vocal suscita que as(os) artistas se entreguem a experienciar e vivenciar situa�›es criativas para alŽm das tŽcnicas previamente adquiridas e/ou desenvolvidas. Desenvolver investiga�›es na perspectiva da corporeidade vocal propicia englobar as reflex›es de maneira a n‹o desvincular as pedagogias, processos de significa�‹o e matrizes reflexivas oriundas das percep�›es e viv�ncias integradas entre corpo e voz. Esta abordagem requer uma genu’na e sincera disponibilidade aos processos inerentes ao ato criativo. Produzir conhecimento a partir dos contextos dos processos criativos de artistas, contribui para o espraiamento, progresso, desenvolvimento e divulga�‹o de peculiaridades caracter’sticas a este of’cio. AlŽm disso, este tipo de abordagem tambŽm exp›e maneiras diferenciadas de se operacionalizar o conhecimento e suas reverbera�›es poss’veis no campo da pesquisa acad�mico-art’stica.

 

 

Refer�ncias

 

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[Recebido em  17 out 2020 – Aceito em 17 set 2020]

 


 


O Saci centen‡rio: uma an‡lise mitocr’tica de Saci Perer� – resultado de um inquŽrito

 

 

The 100-year-old Saci: a mythocrytic analyses on Saci Perer� – result of an inquiry

 

 

Andriolli Costa [15]

https://orcid.org/0000-0002-8589-27

 

 

Resumo: Este trabalho revisita o livro O Saci Perer� – Resultado de um InquŽrito, organizado por Monteiro Lobato em 1918. O InquŽrito conta com mais de 70 depoimentos que d‹o a ver vers›es plurais do mais brasileiro dos mitos: o saci – duende negro, com heran�a europeia e ind’gena. Partindo do levantamento da Narrativa Can™nica e do reconhecimento do lastro simb—lico do Nome do mito, o trabalho d‡ in’cio a uma an‡lise mitocr’tica fundamentada na vertente arquetipol—gica da Teoria Geral do Imagin‡rio, buscando evidenciar as constela�›es simb—licas que emergem da obra. Tensionando leituras de que o texto evocaria imagens racistas e demonizadas, a partir da an‡lise encontramos agrupamentos referentes aos mitologemas do Ind’gena, do P‡ssaro, do Escravo, do Transgressor, do Dem™nio e do Her—i, que evidenciam uma complexidade inata no mito enquanto aquele que hesita entre aliado e castigador, entre aparentado do diabo e eleito de Deus, entre desvio mantenedor do status quo e inspira�‹o para a liberdade.

Palavras-chave: Saci; Imagin‡rio; Folclore; Mito; Monteiro Lobato.

 

Abstract: This article revisits the book O Saci Perer� – resulto of an inquiry, organized by Monteiro Lobato in 1918. The Inquiry counts on more than 70 testimonials that gives us plural versions of the most Brazilian of the myths; the saci - a black and legless imp with a red cap inherited from the European gnomes and with indigenous origin. Starting with the identification of the Canonical Narrative and the recognition of the symbolic coverage of the Name of the myth, this works develops a mythocritic analysis based on the archetypological aspect of the General Theory of the Imaginary, seeking to highlight the symbolic constellations that emerge from the ouvre. Tensioning readings that the text would evoke racist and demonized images, through the analysis weÕve found the following mythologems: the Indigenous, the Bird, the Slave, the Transgressor, the Demon and the Hero, which show an innate complexity in the myth as that who hesitates between ally and punisher, between the devil and the elect of God, between the deviation used to maintain the status quo and the inspiration for freedom.

Keywords: Saci; Imaginary; Folklore; Myth;  Monteiro; Lobato.

 

 

Introdu�‹o

 

O ano era 1917 quando Monteiro Lobato usou das p‡ginas que dispunha no Estadinho, suplemento do jornal O Estado de S. Paulo, para fazer uma convocat—ria. O escritor j‡ ganhara notoriedade anos antes com a publica�‹o de artigos que consolidavam a imagem do caipira enquanto um parasita da terra e ep’tome do atraso, seja devido a pr‡ticas de cultivo antiquadas (como a coivara), pela suposta pregui�a ou pelo modo de vida ÒpacatoÓ. Afeito a pol�micas e sempre de dedo em riste, entretanto, Lobato retornava desta vez ˆ tem‡tica interiorana para encontrar nela n‹o mais o bode expiat—rio da conjuntura brasileira, mas sua panaceia. Buscava, para tanto, realizar um inquŽrito. ÒSobre o futuro presidente da Repœblica? N‹o. Sobre o saciÓ (LOBATO, 2008, p. 36). Ambos, a obra e o mito que a inspirou, ser‹o objeto deste estudo.

Muitos compreendem a campanha lobatiana, que trouxe o duende perneta como estandarte, mero reflexo de seus arroubos nacionalistas. E h‡ motivos para isso. No mais puro deboche, o autor dedica o InquŽrito, por um lado, ˆ Òsaudosa Tia EsmŽriaÓ e a todas as pretas velhas contadoras de hist—rias; por outro, ao bairro do Trianon, regi‹o que elegeu como substrato da goma europeia na capital paulista. No mesmo per’odo, o autor j‡ se demonstrava desgostoso com o estrangeirismo que invadia o Brasil nos modos, no vocabul‡rio, e especialmente na arte. Revolta-se especialmente com est‡tuas de duendes barba�udos, encapotados para o frio sob o sol tupiniquim – reflexo do que julgava ser uma covarde estŽtica nacional. Para Lobato, dever’amos assumir nossos motivos, com imagens n‹o de an›es nibelungos, mas de curupiras, papagaios, macacos ou, Ž claro, de sacis (LOBATO, 2008, p. 29).

Seria uma incorre�‹o, entretanto, limitar o lan�amento do InquŽrito ˆ busca pela valoriza�‹o do nacional – especialmente tendo em vista a pesada cr’tica lobatiana ao caipira e sua admira�‹o ˆ modernidade, ˆ indœstria e aos Estados Unidos. O que a explica, portanto? Uma resposta poss’vel pode ser encontrada nas ra’zes simb—licas do imagin‡rio. ƒ de se lembrar que est‡vamos no ‡pice da Grande Guerra, a primeira atŽ ent‹o. As promessas de progresso permanente da tecnologia, que nos levaria ao apogeu da evolu�‹o humana, se concretizavam em forma de carnificina. O mito de Prometeu, que trazia as promessas do fogo e da TŽcnica para o homem, se convertia na desumanidade f‡ustica daquele que perdeu sua alma na busca pelo sucesso (DURAND, 1998, p. 256).

Essa rela�‹o de descrŽdito moment‰neo com o progresso maquin’stico est‡ manifesta na abertura do InquŽrito, j‡ publicado na forma de livro. Nela, percebemos que, ˆ brutalidade cometida pelas na�›es ditas civilizadas, Lobato buscou um contraponto no saci e em tudo o que derivava a partir dele (o interior, a natureza, a pilhŽria e, Ž claro, a liberdade).

Quem se afoutasse a abrir uma folha sorvia sangue dos telegramas ˆ se�‹o livre. Um engulho. Foi quando surgiu o Saci, e veio com suas diabruras aliviar-nos do pesadelo. Por v‡rias semanas alvorotaste meio mundo, oh infernal maroto, e desviaste a nossa aten�‹o para quadro mais ameno que o trucidar dos povos. Bendito sejas! Est‡s perdoado de muitas travessuras por haveres interrompido, por um momento, em nossa imagina�‹o, a hedionda sess‹o permanente de horror, aberta pelo sinistro 2 de agosto de 1914, de execrabil’ssima mem—ria (LOBATO, 2008, p. 27).

No total, foram mais de 70 depoimentos recebidos para o projeto que se tornaria publica�‹o. Certas cartas traziam um incontido deboche, outras poucas uma cren�a velada. A maioria recordava com nostalgia as lembran�as da meninice encantada pelas hist—rias do mito. O mŽtodo do InquŽrito coletivo, diferente do ensaio individual, favoreceu a pluralidade de imagens. Por certo que h‡ um recorte de classe imediato entre os informantes – no m’nimo na quest‹o da alfabetiza�‹o, j‡ que os relatos foram enviados por escrito – s— que ainda assim abre-se espa�o para imagens que independem da vis‹o de mundo de um œnico autor. Assim, por certo que o racismo e a eugenia manifestam abertamente nas correspond�ncias de Lobato e de modo latente na sua fic�‹o (HABIB, 2003) n‹o devem ser ignorados. No entanto, a for�a simb—lica que d‡ forma ao saci antecede e muito as elocubra�›es do autor sobre ra�a.

Neste trabalho, filiado ˆ Teoria Geral do Imagin‡rio, revisitamos Saci Perer� – Resultado de um InquŽrito pouco ap—s o centen‡rio de sua publica�‹o para buscar na obra cultural as respostas que apenas a mitocr’tica pode oferecer: quais imagens simb—licas constelam a partir do saci no InquŽrito? Como elas s‹o dinamizadas por uma sociedade marcadamente racista e que sa’a h‡ apenas tr�s dŽcadas da aboli�‹o da escravatura? E, acima de tudo, Ž poss’vel a partir da obra compreender o porqu�, mesmo um sŽculo depois, o saci permanece sendo um dos mais mitos mais famosos do pa’s?

A ÒmitodologiaÓ durandiana, como ele mesmo a batiza, se centra no estudo do mito enquanto imagin‡rio manifesto e busca analisar as redund‰ncias da imagem em uma obra cultural, que se repete para melhor impregnar e persuadir (DURAND, 1998). Compreendendo o mito como a narrativa, o mitologema como seu esqueleto e os mitemas como as menores partes narrativas que constituem o mito (DURAND, 2012), o percurso consiste em identificar e organizar os mitologemas e mitemas para a partir deles orientar a an‡lise. Assim, perseguiremos a presa m’tica no texto do InquŽrito para tirar suas consequ�ncias em uma an‡lise que, embora n‹o ignore as controvŽrsias envolvendo a biografia do autor, a tensione para encontrar no pr—prio texto seus sentidos epif‰nicos.

 

 

O InquŽrito

 

J‡ consolidado na imprensa paulista, com quem colaborava frequentemente com artigos provocantes que movimentavam a audi�ncia, Lobato passou a insistir na tem‡tica do saci em um artigo publicado no dia 24 de janeiro de 1917. O gancho para o assunto foi trazido por um companheiro de reda�‹o: Manuel Lopes de Oliveira Filho, o Manequinho Lopes. O bi—logo, hoje considerado ÒpaiÓ do Parque Ibirapuera, era tambŽm articulista do jornal e, segundo Lobato, um grande investigador da l’ngua Tupi e das culturas populares. Lopes buscou plasmar a figura do duende brasileiro em Òbarro do Po‡Ó[16], oferecendo o motivo perfeito para o texto lobatiano: a falta de representa�›es art’sticas dos mitos brasileiros.

Figura 1 – Saci de Manequinho Lopes

Fonte: ESTADÌO, 1917, p. 4.

 

Se o medo e a escurid‹o, reflete Lobato, foram capazes de gerar tanto os deuses gregos imortalizados pelos aedos quanto a corte das fadas em sonhos preservados pela dramaturgia de Shakespeare; no Brasil, que em nada lhes devia no quesito da fant‡stica popular, faltava ainda o envolvimento dos artistas para abra�ar de vez essa cultura. N‹o apenas por desinteresse, mas por falta de acesso. Afinal, justifica o autor, se era comum encontrar tomos dos mais variados dedicados ˆ mitologia celta nas bibliotecas pœblicas, o mesmo n‹o pode ser dito dos livros sobre nosso folclore que raramente conspurcavam o nobre ambiente livresco. Para manter a honestidade do registro, Lobato recomendava ir ao povo. ÒAfundar na ro�a para uma consulta ao grande livro n‹o escrito da crendice popularÓ (LOBATO, 2008, p. 32).

Talvez aos olhos de hoje a assertiva de Lobato possa parecer banal. No entanto, Ž preciso lembrar que na Žpoca, especialmente nos peri—dicos dominados por uma elite intelectual altamente excludente, tudo aquilo ligado ao folcl—rico era abordado pela perspectiva do ex—tico, pouco mais que um folhetim de curiosidades. Basta ver, por exemplo, aquele que Ž considerado um dos primeiros artigos de jornal no qual o mito do Saci Perer� Ž mencionado. Publicado em 1859 no Correio Paulistano, o texto j‡ se coloca na defensiva, justificando-se o tempo todo. O pedido de desculpas ao mesmo tempo em que apascenta o pœblico, menospreza de in’cio todo o conteœdo das narrativas que investiga

Respeit‡vel leitor, vener‡vel cr’tico de testa enrugada e olhar inspirado, n‹o vos revoltais contra as hist—rias populares que vou come�ar a escrever. S‹o cren�as err™neas e muitas vezes c™micas as do povo, mas nem por isso destitu’das de interesse; recreiam a imagina�‹o, acalmam por vezes os cuidados do esp’rito e s‹o para muitos recorda�‹o doce do passado (CORREIO PAULISTANO, 1859, p. 2).

Se o Correio j‡ antecipava cr’ticas, Lobato n‹o esperava menos pol�mica quando trouxe a tem‡tica ao Estad‹o meio sŽculo depois. E se alguns leitores se mostraram ultrajados com um jornal ÒsŽrioÓ gastar tinta e papel com Òt‹o grosseira supersti�‹o popular, dessas que dep›e contra os nossos crŽditos de civilizados perante as na�›es estrangeirasÓ (LOBATO, 2008, p. 35), muitos outros se envolveram com a narrativa j‡ nost‡lgica. O interesse havia sido despertado.

Lobato (2008, p. 37) encontrou no Perer� – tido por ele como a mais original de nossas cria�›es populares – o protagonista perfeito para sua campanha. Encantado resultante do imagin‡rio do ind’gena, do negro e do europeu, defendia Lobato, o saci era a s’ntese da cultura brasileira. O mito, explica ele, Òvem do aut—ctone que lhe deu o nome atual, corruptela de ‚aa cy perereg[17]. Sofreu o influxo do africano, passando de caboclinho a molecote. Modificou-se por injun�‹o da ps’quica portuguesa. O mesti�o meteu nele muita coisa de seuÓ (LOBATO, 2008, p. 38). Estudar o saci, desta forma, era estudar o Brasil

O inquŽrito se consolidou a partir de cartas dos leitores que deveriam responder a uma trinca de perguntas orientadoras.

a) Sobre a sua concep�‹o pessoal do Saci; como a recebeu na sua inf‰ncia; de quem a recebeu; que papel representou tal crendice na sua vida, etc.;

b) Qual a forma atual da crendice na zona em que reside;

c) Que hist—rias e casos interessantes, passados ou ouvidos sabe a respeito do Saci.

Nem todos se valeram deste expediente, chegando a enviar mœsicas, poemas ou relatos de mem—ria – em hist—rias escutadas na inf‰ncia pela voz de mucamas, amas de leite, ex-escravos ou funcion‡rios da fazenda. Outros abra�aram o empreendimento e foram a campo conversar com caboclos, boiadeiros, parentes mais velhos. Retratos de distin�‹o de classes entre quem contava e quem ouvia, por um lado, mas por outro um resumo da din‰mica do folclore – transmitido pela oralidade, mas fixado por lastros simb—licos ainda mais poderosos mobilizados pelo imagin‡rio.

A participa�‹o foi consider‡vel e gerou um livro publicado em 1918. No total, a publica�‹o contou com 73 depoimentos, incluindo um assinado pelo pr—prio Saci e redigido por Lobato. O grosso das correspond�ncias vinha de S‹o Paulo e interior, mas tambŽm houve depoimentos enviados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Outros, em seus relatos, mencionavam tambŽm os estados de Goi‡s, Mato Grosso e Paran‡, e um leitor, de maneira ampla, a regi‹o Nordeste. Uma amostragem concentrada – focada nos leitores do jornal paulista – mas que j‡ demonstrava a for�a do mito pelo territ—rio nacional.

O envolvimento do pœblico n‹o foi obra do acaso. O saci movimenta emo�›es que v‹o muito alŽm da nostalgia, e remete a imagens ancestrais que nos ligam nacionalmente enquanto brasileiros e, em sentido amplo, enquanto g�nero humano. ƒ isso que percebemos em nossa Mitocr’tica.

 

 

Primeiros passos

 

Nos estudos do mito Ž importante ter como ponto de partida dois elementos distintos: o reconhecimento da narrativa can™nica e a identifica�‹o do nome verdadeiro que o mito assume. Nomear Ž conhecer. S‹o esses elementos que ser‹o tensionados pela mitocr’tica – por meio da identifica�‹o dos mitologemas e organiza�‹o de mitemas redundantes – para que enfim o mito ent‹o se revele.

A narrativa can™nica, como sugere Eunice Gomes, n‹o Ž um resumo de textos sobre o mito, mas aquilo que o sistematiza (GOMES, 2011). Seria algo como um modelo padr‹o, um tipo ideal weberiano, que forma sua representa�‹o hegem™nica. Esta imagem Ž constru’da tendo por base n‹o apenas o senso comum, mas tambŽm a influ�ncia midi‡tica, em um processo de retroalimenta�‹o no qual o texto cultural se torna mais coerente, menos arracional, e de mais f‡cil compartilhamento.

No caso do mito do saci, o c‰none fala de um moleque negrinho, de uma perna s—, que pratica todo o tipo de diabruras, mas sem nunca ser verdadeiramente mal. O saci carrega por vezes um cachimbo, veste carapu�a vermelha – a fonte dos seus poderes m‡gicos – e se desloca por meio de um redemoinho. Interessante notar que falar de saci Ž, imediatamente, falar em modos de sua captura. Mesmo hoje a grande atividade escolar de celebra�‹o do folclore costuma ser uma ca�a ao saci.

O S’tio do Picapau Amarelo, sŽrie infantil escrita por Lobato entre 1920 e 1947 – e que contou com inœmeras adapta�›es audiovisuais – institucionalizou um desses mŽtodos: o uso da peneira para cont�-lo e o roubo da carapu�a para desempoder‡-lo. Aquele que toma a carapu�a do saci ganha poder sobre ele, e, tendo-o preso, pode chantage‡-lo para que realize os desejos de seu captor. ÒA for�a dele est‡ na carapu�a, como a for�a de Sans‹o estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapu�a de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno escravoÓ (LOBATO, 2005, p. 18, grifo nosso).

Com o tempo, a narrativa can™nica vai sofrendo tamanho influxo cultural que pode paulatinamente se afastar dos mitologemas originais, perdendo mitemas em um processo de esvaziamento e desbastamento. No n’vel m‡ximo da estereotipia, temos apenas a casca do mito, um nome que nada mais diz, uma imagŽtica sem lastro de sentido. Num momento anterior a este, quando apenas um mitema Ž valorado enquanto os demais s‹o suprimidos, diz-se que o mito sofreu heresia – termo usado em seu sentido etimol—gico, como a Òescolha de uma œnica vis‹oÓ (DURAND, 2010, p. 144).

A for�a da m’dia na constru�‹o desta narrativa can™nica desbastada se mostra quando o pr—prio lastro da adapta�‹o original vai se perdendo nos v‡rios n’veis de massifica�‹o da mensagem. Monteiro Lobato evidentemente se inspirou no material colhido em seu InquŽrito para compor sua vers‹o liter‡ria do Saci no Picapau Amarelo, publicado tr�s anos depois. Ainda assim, precisou fazer escolhas. Na obra infantil, o saci tem costume de chupar sangue dos cavalos. Traz as m‹os furadas como duendes portugueses e carrega ainda muito de demon’aco, marcadamente pelo temor a objetos religiosos e ao cheiro de enxofre. Nas subsequentes adapta�›es televisivas, o duende brasileiro perdeu muito de sua refer�ncia religiosa, deixou o cachimbo de lado, foi destitu’do do furo nas m‹os e tornou-se mais moleque do que diabrete.

Por vezes, um mito est‡ mobilizando mitemas t‹o distintos – ou ordenados em constela�›es t‹o diferentes – que pode carregar falsamente um nome, enquanto escamoteia outro (DURAND, 1998, p. 247). No InquŽrito encontramos uma sŽrie de varia�›es alŽm do tradicional Perer�, atribu’das a onomatopeias do canto de p‡ssaros: Saci CeperŽ, Saci Cerer�, Saci Trique, Saci Siriri, Saci Serumperer�, Saci Perereca, Saci Sater�, Saci Mofera, Saci Saper�, Saci Sader�, Saci Patar�, Saci Sia-Teresa.

Lobato (2008), todavia, aceita mais a sugest‹o de Manequinho Lopes: viria do Tupi ‚aa cy perereg, olho mau saltitante, mas salienta que a etimologia n‹o ficou comprovada. O nome, no caso, indicaria que o duende possui Òolhos doentesÓ e, portanto, sempre vermelhos. Curioso Ž perceber que a vis‹o, sempre ligada ˆ percep�‹o e a capacidade de discernir Ž falha nesta interpreta�‹o do saci, fazendo com que as fronteiras entre certo e errado n‹o fossem facilmente distingu’veis para ele.

A miopia, por outro lado, tambŽm prejudica a ag�ncia. Algo que n‹o percebemos na etimologia proposta por Teodoro Sampaio. ÒNegrinho irrequieto e malŽfico, tendo um dos olhos doente (�a-�y) e outro muito vivo e buli�oso (�a-perer�)Ó (SAMPAIO, 1901, p. 311.) Diferente do Perer� de Lopes, o Saperer� carregaria em si a dualidade do olho bom e do mau. Como as l’nguas ind’genas s‹o baseadas na oralidade, n‹o na escrita, isso quer dizer que o texto escrito exige forma fixa, enquanto o oral permite que os v‡rios entendimentos coexistam ao mesmo tempo e na mesma hist—ria.

H‡ ainda outra sugest‹o de origem aut—ctone: deriva�‹o do mito Guarani do Yasy YaterŽ que, conforme Juan Ambrosetti, significa Òfragmento da luaÓ. N‹o a lua rom‰ntica e acalentadora, mas masculina, enganosa e sedutora. Os primeiros registros tanto de Saci, quanto de Yasy s‹o contempor‰neos; datam da segunda metade do sŽculo XIX. Imposs’vel afirmar com certeza qual mito antecedeu o outro, ainda que o consenso indique a origem ind’gena. No entanto, apesar da proximidade dos nomes, o processo de deriva�‹o – com supress‹o de mitemas e acrŽscimo de outros – gerou mitos completamente distintos. Ambrosetti (1894, p. 135), ao descrever o mito do YaterŽ, o faz com os seguintes termos:

Um an‹o loiro, bonito, que anda coberto por um sombreiro de palha e levando um bast‹o de ouro em sua m‹o. Seu of’cio Ž o de roubar os meninos de colo, que leva para o monte, lambe, brinca com eles e logo os abandona envoltos em trepadeiras. [...]. N‹o falta quem assegure que ele rouba tambŽm as mulheres bonitas, que s‹o igualmente abandonadas, e que o filho que nasce desta uni‹o, com o tempo, tambŽm ser‡ um Yasy YaterŽ.

            N‹o se pode ignorar que o duende Guarani ser descrito como loiro rende, de imediato, o qualificativo de ÒbonitoÓ, enquanto a feiura Ž frequentemente atribu’da ao saci. Neste relato, em espec’fico, n‹o se fala da cor de sua pele; mas Ž frequentemente descrita como p‡lida feito o satŽlite terrestre. J‡ no pr—prio InquŽrito, beleza Ž um atributo mencionado apenas uma vez quando atribu’da ao saci, enquanto que ÒfeioÓ ou Òhorr’velÓ – de maneira expl’cita e impl’cita – s‹o recorrentes. No depoimento 59 temos um exemplo desta feiura para o informante: cara quadrada de preto velho, nariz chato, olhos vermelhos e embriagados, orelhas enormes, l‡bios grossos, boca torta de fumante (LOBATO, 2008, p. 298). S‹o as mobiliza�›es do mitologema do Escravo – onde constelam imagens ligadas ˆ ra�a, ˆ captura, ˆ servid‹o for�ada quando a carapu�a Ž tomada.

Em um trabalho pioneiro, Renato Queiroz comparou todos os adjetivos e qualificadores ligados ao saci no texto fonte organizado por Lobato com uma pesquisa de campo que desenvolveu no interior de S‹o Paulo cerca de 70 anos ap—s a publica�‹o do InquŽrito. Levanta com isso o argumento para sua cr’tica introdut—ria: o InquŽrito, enquanto campanha organizada por um ve’culo de imprensa, oferece um recorte elitista dos depoimentos. Para ele, o mito se ajustava perfeitamente aos interesses ideol—gicos de setores da classe dirigente da Žpoca no sentido de discriminar simultaneamente negros e caipiras. As refer�ncias ao Saci e suas a�›es reproduziriam a maior parte dos estere—tipos depreciativos com os quais s‹o definidos os negros na sociedade brasileira. A pr—pria falta de perna indicaria essa defici�ncia como mais um elemento de desaforo (QUEIROZ, 1987, p. 70).

Por outro lado, em seu trabalho de campo que buscava um recorte caipira, Queiroz encontra varia�›es que julga consider‡veis nas descri�›es do mito. O duende continua negro, mas menos demon’aco e animalesco. E Òn‹o cont�m qualquer refer�ncia ao Ôfartum peculiar aos negrosÕ e muito menos ao odor de enxofre, que tanto incomodavam os olfatos sens’veis dos informantes de Monteiro LobatoÓ (QUEIROZ, 1987, p. 75).

O antrop—logo se questiona como foi poss’vel que um diabrete preto, perneta e migrante rural acolhesse tanta simpatia em uma sociedade t‹o profundamente marcada pelo preconceito racial, seguidora de princ’pios crist‹os e ‡vida pela urbaniza�‹o (QUEIROZ, 1995, p. 142). Para ele, a resposta foi uma paulatina domestica�‹o do saci, que se tornou mais moleque, perdendo tra�os assustadores e diab—licos, num processo que exploramos ao refletir sobre a narrativa can™nica. Em seu racioc’nio, entre imagens de bandido, malandro e buf‹o, o saci continua refletindo o mesmo lugar destinado aos negros nas narrativas. A dignidade e respeitabilidade permaneceriam, assim, Òexclusivas aos brancosÓ (QUEIROZ, 1995, p. 147).

Outro ponto de interesse na pesquisa de Queiroz est‡ na forma como sugere a rela�‹o do mito do saci com a popula�‹o negra. Esta liga�‹o se daria fundamentalmente por uma perspectiva utilitarista. Presume ele que os escravos Òtivessem grande interesse em manipular a figura do moleque travesso, atribuindo ˆs suas peraltagens uma sŽrie de ocorr�ncias – pequenos furtos, quebra de utens’lios etc. – pelas quais, n‹o fosse o Saci, acabariam sendo mais seriamente responsabilizados e punidosÓ (QUEIROZ, 1987, p. 92).

A an‡lise materialista de Queiroz certamente Ž v‡lida, mas cabem ressalvas. Primeiramente, por ignorar o valor simb—lico das narrativas, como se as a�›es concretas estivessem descoladas de uma movimenta�‹o do mito no imagin‡rio – ou como se o imagin‡rio n‹o tivesse consequ�ncias concretas. Para alŽm disso, esteve ausente tambŽm na sua leitura o fato de que o mito n‹o Ž est‡tico, mas din‰mico. Ao analisar qualquer mito dŽcadas ap—s um primeiro estudo, a degrada�‹o ou incorpora�‹o de mitemas Ž inerente ao objeto. Quem se domesticou foi o saci ou a sociedade? O racismo n‹o desapareceu, Ž claro, mas escamoteia seu rosto.

Vale apontar: o depoimento que abre o InquŽrito Ž assinado por uma mulher de fam’lia negra e prolet‡ria, que incorpora no texto refer�ncias raciais que hoje percebemos racistas (LOBATO, 2008, p. 41). Em diversos depoimentos, os depoentes entrevistam informantes de classes pobres, v‡rios negros, e incorporam o relato em linguagem direta, mimetizando a oralidade e a pros—dia dos informantes. E mesmo esse grupo atribui descri�›es recorrentes no que diz respeito ao mito: feiura, fedor, apar�ncia animalesca, etc. Um exemplo ilustrador de uma realidade da Žpoca: o racismo n‹o era um pecado da elite que assinava o Estad‹o, mas uma condi�‹o de tal maneira imbricada no pensamento que emergia em todas as inst‰ncias do social, nas ci�ncias, na elite branca e no proletariado negro.

O racismo d‡ forma ao registro, mas ser‡ que tambŽm afeta os mitologemas, as estruturas que fundamentam o mito? N‹o seria essa uma redu�‹o ao mitologema do Escravo? Veremos a seguir.

 

 

A mitocr’tica

 

Na investiga�‹o dos relatos do InquŽrito, relacionamos os seguintes mitologemas: o Ind’gena, o P‡ssaro, o Dem™nio, o Her—i, o Transgressor e o j‡ abordado Escravo. A refer�ncia ao saci ind’gena, cuja origem Tupi-Guarani exploramos acima, aparece no texto apenas nos textos introdut—rios escritos por Lobato ou nos introitos de Manequinho Lopes, ambas tentativas de racionalizar o mito. Entretanto, encontramos alguns entrecruzamentos espa�ados com os mitemas evocados pelo Yasy: em especial o do Sequestro e da Sedu�‹o. O depoimento 10 Ž o œnico que fala de um saci mais sexualizado, tentador de mo�as, mas sem refer�ncias a gravidez (LOBATO, 2008, p. 75). Por outro lado, os verbos ÒatrairÓ, ÒsumirÓ e ÒarrastarÓ para o mato repetem-se ao longo do texto, sendo aquele que sofre a a�‹o um grupo de crian�as, animais e, em uma œnica men�‹o, as ÒcrioulasÓ (LOBATO, 2008, p. 354). Atravessamentos entre Saci e Yasy se mostram claramente no depoimento 53, em que o duende Ž descrito como negro, mas com cabelos cor de ouro e portando um peda�o de pau.

No mitologema do P‡ssaro, encontramos a for�a da origem ornit—loga. Oito depoimentos falam sobre o saci se transformar em p‡ssaro, numa forma frequentemente ligada ˆ tristeza e melancolia, a um castigo ou ao envelhecimento. Ao observar os sons atribu’dos ao saci, curioso Ž perceber que, com exce�‹o do depoimento 70, o cantar do p‡ssaro Ž sempre descrito como lamentoso, transmitindo toda sua dor, enquanto o assovio do duende, em nove das dez vezes em que Ž mencionado, Ž descrito como zombeteiro, estridente e desafiador.

            Enquanto o saci ave chora de tristeza, o saci Transgressor diverte-se ˆs gargalhadas e assovios. Mais do que um buf‹o, Ž um profanador, e concentra a�›es vinculadas ao rompimento de proibi�›es e de interditos. Seu habitat s‹o as encruzilhadas, ou as estradas que percorre sempre nos hor‡rios de transi�‹o – tabus frequentes no imagin‡rio popular. Saci circula ˆs desoras, nas horas mortas ou nas Òhoras de ave MariaÓ[18], alŽm de perseguir quem trabalha em dias santos. O rompimento da interdi�‹o Ž sua norma, mas tambŽm sua maldi�‹o. ƒ filho de Jabiru com mulher que casa tr�s vezes ou afilhado de mulher separada (depoimento 24) – reflexo das imagens que um casamento desquitado gerava sobre a figura feminina. Glut‹o, devora canjica rapidamente apenas para regurgit‡-la na panela dos homens (LOBATO, 2008, p. 235). Beberr‹o incorrig’vel, seca as adegas de vinho e depois as preenche novamente com urina (LOBATO, 2008, p. 43). Uma mobiliza�‹o t’pica do arquŽtipo do Trickster.

Para Queiroz, o trickster assume muitas vezes o papel do bobo da corte. Um personagem a quem Ž institu’do o direito de romper a norma, quebrando apar�ncias e ultrapassando barreiras que ninguŽm da sociedade ousaria cruzar. Entretanto, por meio desse processo cat‡rtico que o trickster representa, a ordem seria na verdade refor�ada. ÒE ainda com o mŽrito de revelar aos seus integrantes a desordem que poderia se instaurar caso as normas, os c—digos e os interditos viessem a se dissolverÓ (QUEIROZ, 1991, p. 98). Seria este o caso do saci?

John Roberts, em um livro dedicado a compreender a distin�‹o entre o trickster divino dos nativos africanos para o trickster profano dos negros da di‡spora, indica que o trajeto antropol—gico do contexto da escravid‹o gerou transforma�›es na forma como o arquŽtipo Ž mobilizado (ROBERTS, 1993). Sua chave de leitura Ž a escassez: na çfrica, escassos eram os recursos, fazendo que ali se proliferassem hist—rias em que a astœcia era o caminho para atingir a sobreviv�ncia e a bonan�a. J‡ nos Estados Unidos escravagista, a falta era de liberdade. A astœcia, ent‹o, era a arma para resistir ˆ opress‹o. Nesse contexto, o trickster assumiria um outro papel arquet’pico para as popula�›es em restri�‹o de liberdade: o de Her—i.

Quatro vezes o saci Ž chamado de Òher—iÓ pelos depoentes, sendo um deles o Her—i das capoeiras – no sentido de matas (LOBATO, 2008, p. 274) e em outro como o Her—i da sexta-feira, indicando a rela�‹o com os per’odos de transi�‹o (LOBATO, 2008, p. 348). Mas isso pouco diz. Quando olhamos para as fun�›es estabelecidas pelo saci nas narrativas do InquŽrito, percebemos uma rela�‹o bem mais complexa. Saci Ž o guardi‹o dos segredos, Ž o protetor da Flor de Samambaia – capaz de realizar o desejo de quem a encontrar (LOBATO, 2008, p. 250). ƒ ainda um doador de riquezas, um ente que auxilia no casamento e na resolu�‹o de causas perdidas com muito mais facilidade que os santos, ocupados demais com assuntos celestes (LOBATO, 2008, p. 295). Saci profano Ž saci pr—ximo, terrestre, capaz de agir por n—s.

            ƒ especialmente exemplar o relato em que uma ex-mucama relembra quando era obrigada a fazer cafunŽ na cabe�a de sua ama enquanto esta rezava o ter�o. Acarinhada na cabe�a, a mulher acabava sempre dormindo no meio do processo, e a escrava era obrigada a aguardar que ela acordasse para continuar velando sua ora�‹o. Certa vez, em meio a um cochilo, a ama foi visitada em sonho por um saci que pregou nela uma solene bofetada. Desde ent‹o, conta, a mulher nunca mais dormiu no ter�o. Tempos depois, a negra assumiu: Òo saci foi essa m‹o que est‡ aqui!Ó (LOBATO, 2008, p. 187). Respiros de liberdade em um contexto de restri�‹o, soprados pelos ventos de mudan�a do duende.

O imagin‡rio da noite faz concentrar no saci v‡rios elementos que transparecem no InquŽrito: orelhas de morcego; olhos como dos bichos noturnos; dentes pontiagudos e unhas enormes como fera. Em algumas vers›es, seu pŽ termina em uma garra de corvo, recuperando o aspecto da ave de mau agouro. Em outras, pŽs, chifres e barbas de bode far‹o eco aos dem™nios europeus. Por outro lado, n‹o Ž apenas aos seres da noite que o saci Ž comparado. Os leitores descrevem o saci como sendo esperto como caxinguel�, mais r‡pido que veado, e com vis‹o mais precisa que da coruja. S‹o met‡foras comparativas, Ž claro, n‹o descri�›es f’sicas, mas com isso percebemos tra�os positivos tambŽm presentes no relato.

A peneira, que na narrativa can™nica se tornou o grande objeto da captura do saci, quase n‹o Ž mencionada no InquŽrito. Quem faz as vezes de artefato Ž um ros‡rio bento – tanto de contas quanto um improvisado, feito de capim. A peneira s— captura se for de cruzeta, ou seja, se trouxer uma cruz segurando as tramas da palha. Enfim, percebemos, o que Ž capaz de tirar a liberdade do saci n‹o Ž nada alŽm do componente religioso.

            Essa avers‹o, que mobiliza o mitologema do Dem™nio, traz contradi�›es curiosas. V‡rios relatos o descrevem como filho do dem™nio, parente do diabo, alcoviteiro do dem™nio ou como Òsatan‡s regeneradoÓ. No entanto, Ž igualmente comum dizer que o mito Ž incapaz de qualquer maldade grande. Mais ainda, um dos depoimentos mais conhecidas diz que o saci era um dem™nio que fugiu do inferno e que recebeu do pr—prio Deus uma carapu�a capaz de torn‡-lo invis’vel para que possa continuar mantendo dist‰ncia das hostes infernais (LOBATO, 2008, p. 129). O fato inquieta um depoente, que manifesta: ÒComo dindinha conciliava sua fŽ cat—lica e suas rela�›es com o capetinha?Ó (LOBATO, 2008, p. 295).

Ocorre que o caboclo sempre teve uma rela�‹o dual com o dem™nio na narrativa oral. Era este o grande pai da maldade, mas era ao mesmo tempo um inimigo tr‡gico cuja derrota sempre estava assinalada. H‡ todo um ciclo de hist—rias do Diabo Logrado na literatura oral (CASCUDO, 2012). O dem™nio, pai da mentira e senhor da astœcia, acabava enganado pelo her—i. Era o povo que atestava assim sua pr—pria capacidade e intelig�ncia – desde que, Ž claro, conhecedor da tradi�‹o.

 

 

Considera�›es finais

 

Ao reintegrar os mitemas que circundam o mito do saci, percebemos que, nos termos de Gilbert Durand, a an‡lise feita por Renato Queiroz leva o mito ˆ heresia. Amputa-o n‹o da perna, mas de todos os outros mitemas que n‹o os ligados ˆ negritude e escravid‹o. O saci Ž descrito no livro como feio, insidioso, bestial, mas tambŽm como inteligente, veloz, amigo, protetor. Amaldi�oado e aparentado do dem™nio, Ž tambŽm aben�oado pelo alt’ssimo. Castiga os negros, mas tambŽm os vinga. Com sua magia, capaz de invadir qualquer buraco de fechadura, Ž imune ˆs regras. Rompe suas correntes e a dos que enxergam nele imagens de seus pr—prios anseios de liberta�‹o.

Quando a luta Ž dif’cil, disfar�a-se de p‡ssaro e vai chorar suas dores nas brenhas. Mas logo volta, recupera o riso e faz ecoar bem alto seu deboche aos poderosos. Quem pode derrot‡-lo Ž somente o povo, dotado de astœcia e tradi�‹o. Ainda assim, ele sempre volta.

Elemento importante tambŽm Ž a perna que falta. Nunca descrita como defici�ncia, mas como peculiaridade. Verbos ligados ao saltar, pular, correr s‹o dos mais populares aos ligados ao saci. O œnico pŽ gera uma rela�‹o de homologia com o redemoinho e o furac‹o, que tambŽm tocam o solo em um œnico ponto. Sua aus�ncia Ž tambŽm seu poder.

Cascudo (2012) nos lembra que a carapu�a do saci Ž s’mbolo de liberdade no Ocidente desde a Roma antiga, quando o pilŽu vermelho – artefato sagrado da deusa Libertas – era oferecido aos escravos que ganhavam liberta�‹o. Tempos depois, o objeto seria apropriado pelos grandes movimentos libert‡rios, como a Revolu�‹o Francesa e a Guerra Civil Americana. No entanto, muito antes disso, os duendes, gnomos e trasgos j‡ vestiam o gorro encarnado. S‹o, afinal, livres enquanto for�as da natureza. N‹o Ž por acaso que para escravizar um saci Ž preciso tomar sua carapu�a. Sua grande fonte de magia Ž a liberdade.

Por que o saci permanece atual? Por que ainda hoje comunica com tantos brasileiros? Ora, os poderes estabelecidos podem ser outros, mas as din‰micas de domina�‹o e subordina�‹o permanecem evidentes. As classes prolet‡rias e os grupos negros e marginalizados continuam ˆ merc� de uma elite cientificista, economicista e racista. Os ventos que o saci comanda sopram hoje por todo o Brasil. ƒ ele, afinal, este her—i trapaceiro que chora por n—s, mas tambŽm sabe rir. Que rompe com o estabelecido e que pode atŽ trazer o caos, mas com a certeza de que com ele tambŽm vem a mudan�a.

 

 

Refer�ncias

 

AMBROSETTI, Juan B. Materiales para el estudio del folk-lore misionero. Revista del Jardin Zoologico, 1894.

 

CASCUDO, Lu’s da C‰mara. Dicion‡rio do Folclore Brasileiro. 12. ed. S‹o Paulo: Global, 2012.

 

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DURAND, Gilbert. As estruturas antropol—gicas do imagin‡rio: introdu�‹o ˆ arquetipologia geral. 4. ed. S‹o Paulo, Martins Fontes, 2012.

 

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GOMES, Eunice. A cat‡strofe e o imagin‡rio dos sobreviventes: quando a imagina�‹o molda o social. Jo‹o Pessoa: Ed. UFPB, 2011.

 

HABIB, Paula. Eis o mundo encantado que Monteiro Lobato criou: ra�a, eugenia e na�‹o. 175f. Disserta�‹o (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciencias Humanas, Campinas, SP. 2003.

 

LOBATO, Monteiro. O Saci-Perer� - Resultado de um inquŽrito. S‹o Paulo: Globo, 2008.

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QUEIROZ, Renato. Um mito bem brasileiro: estudo antropol—gico sobre o Saci. S‹o Paulo: Polis, 1987.

 

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ROBERTS, John W. From trickster to badman - The black folk hero in slavery and freedom. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1993.

 

SAMPAIO, Teodoro. O Tupi na Geographia Nacional. S‹o Paulo: Typ. da Casa Eclectica, 1901.

[Recebido: 30 dez 2020 – Aceito: 18 mar 2021]


 

 

A Literatura de Cordel como reivindica�‹o do direito ˆ Literatura

 

 

Cordel Literature as a claim to the right to Literature

 


Let’cia Fernanda da Silva Oliveira[19]

https://orcid.org/0000-0003-1821-37

 

 

Resumo: O presente artigo prop›e a discuss‹o de dois cŽlebres ensaios do soci—logo Antonio Candido analisando a Literatura de Cordel e a fun�‹o social que esta desempenha. As reflex›es propostas pelo cr’tico liter‡rio abordam importantes quest›es como as desigualdades sociais e a literatura como forma de humanizar o homem. Sendo sempre associada ˆs belas artes, a literatura foi constantemente reafirmada como uma espŽcie de saber elevado e forma de edifica�‹o do homem, mas o que pretendemos demonstrar Ž que mesmo nas culturas populares, como a Literatura de Cordel, quando os poetas tomam a voz e reivindicam a literatura como forma de frui�‹o para as camadas mais populares, este direito Ž acessado por todos e n‹o apenas pelas classes mais elevadas. Abordando especificamente o contexto em que esta literatura surge no Brasil, o come�o do sŽculo XX, demonstramos como os poetas foram fundamentais para que o seu pœblico de leitores/ouvintes pudesse desfrutar da arte e usufru’-la como um bem.

Palavras-chave: Literatura de Cordel; Antonio Candido; Direito ˆ literatura; Frui�‹o; Humaniza�‹o.

 

Abstract: This article proposes the discussion of two renowned essays written by the sociologist Antonio Candido in contraposition to Cordel Literature and the social role that it performs. The thoughts proposed by the literary critic address important questions such as social inequities and the literature as a way to humanize men. Always associated with the fine arts, literature was constantly reaffirmed as a type of superior knowledge and a form of edifying men, but what we intend to demonstrate is that even in popular cultures, such as Cordel Literature, when poets own the voice and reclaim literature as a method of enjoyment for the most popular classes, than this right is accessed by everyone and not just by the upper classes. Addressing specifically the context in which this literature emerges in Brazil, the beginning of the 20th century, we intend to demonstrate how the poets were fundamental so that their audience of readers/listeners could enjoy art and consume it as a good.

Keywords: Cordel Literature; Antonio Candido; Right to literature; Enjoyment; Humanization.

 

 

A literatura como parte dos direitos humanos

 

Em seu famoso ensaio ÒO direito ˆ literaturaÓ, publicado em 2004, Antonio Candido trabalha a importante quest‹o dos direitos humanos, elencando entre estes o direito ˆ literatura. Vivendo em tempos de reflex‹o acerca das injusti�as sociais e a insensibilidade demonstrada frente a essa quest‹o, n‹o parece uma desconex‹o com a realidade pensar sobre como a literatura pode tambŽm fazer parte dos direitos humanos. Se acreditamos que precisamos transformar a realidade e romper com o antigo estado das coisas, seria um debate prof’cuo este que reflete sobre como a frui�‹o liter‡ria Ž tambŽm um direito. Conceder o acesso ˆ literatura seria, portanto, mais uma forma de diminuir as desigualdades sociais.

Como afirma o autor, pensar nos direitos humanos faz com que consideremos indispens‡vel ao outro aquilo que tambŽm Ž indispens‡vel para n—s. E ao considerarmos esse pensamento, a literatura Ž mais um bem a ser reivindicado entre tantos outros tidos como indispens‡veis, ou incompreens’veis, pois esses s‹o aqueles que n‹o podem ser negados a ninguŽm. S‹o os bens capazes de garantir a sobreviv�ncia, n‹o apenas f’sica, mas tambŽm mental, espiritual. Para Candido (2004, p. 173),

O fato Ž que cada Žpoca e cada cultura fixam os critŽrios da incompressibilidade, que est‹o ligados ˆ divis‹o da sociedade em classes, pois inclusive a educa�‹o pode ser instrumento para convencer as pessoas de que o que Ž indispens‡vel para uma camada social n‹o o Ž para outra.

Esse par‡grafo evidencia que o debate sobre o acesso ˆ literatura n‹o pode ser desvencilhado da reflex‹o sobre direitos humanos, pois seriam as classes altas que definiriam o acesso das classes menos favorecidas ˆs artes, fazendo, ent‹o, com que os direitos humanos fossem desrespeitados em mais uma de suas vertentes. ƒ importante relembrar e reafirmar que as elites s‹o sempre vistas como detentoras do saber, em que est‹o inseridos os indiv’duos que podem criar conhecimentos e, dessa forma, aumentar ainda mais o pr—prio poder.

            ƒ importante ressaltar ainda que o ensaio de Candido n‹o aborda especificamente a literatura popular, apresentando exemplos referentes apenas ao ‰mbito can™nico, mas, ao descrever a sua vis‹o do que Ž a literatura, Ž percept’vel que a sua defini�‹o abrange textos antes desprezados pelo c‰none. Para o soci—logo, seriam textos liter‡rios Òtodas as formas de cria�›es de toque poŽtico, ficcional ou dram‡tico em todos os n’veis de uma sociedadeÓ (CANDIDO, 2004, p. 174). Ent‹o, o autor parte para um debate fundamental de seu ensaio: o fato de que n‹o h‡ qualquer homem ou povo que consiga viver sem a literatura, respons‡vel por confirmar a humanidade do homem.

            A literatura seria capaz de humanizar e de ser respons‡vel por enriquecer tanto o indiv’duo como o grupo. Essa humaniza�‹o Ž definida por Candido (2004, p. 180) como Òo exerc’cio da reflex‹o, a aquisi�‹o do saber, a boa disposi�‹o para com o pr—ximo, [...] a percep�‹o da complexidade do mundo e dos seresÓ. Ela Ž um meio eficaz de transmitir conhecimentos, mas tambŽm uma forma de trazer a sensibilidade ˆ tona, fazendo com que o indiv’duo seja capaz de refletir e ser emp‡tico com o outro. Muitas vezes a literatura ser‡ capaz de mostrar uma realidade diferente daquela em que o leitor vive e, portanto, ser‡ capaz de transport‡-lo, ainda que momentaneamente, para outro universo.

Candido apresenta, ent‹o, outra importante reflex‹o e que se faz necess‡ria para os prop—sitos deste artigo. O autor aponta que a rela�‹o da literatura com os direitos humanos pode ser vista sob dois vieses: o primeiro, em que a literatura seria uma necessidade universal que deve ser satisfeita, pois neg‡-la seria Òmutilar a nossa humanidadeÓ (CANDIDO, 2004, p. 186); o segundo, a literatura atua como um instrumento de desmascaramento, pelo fato de permitir que haja foco na restri�‹o dos direitos ou na falta deles. O autor conclui, ent‹o, que nesses dois vieses ela se encaixaria na luta pelos direitos humanos.

            A divis‹o social brasileira seria respons‡vel por impedir que as classes sociais mais baixas n‹o possam ter acesso ˆs obras can™nicas da mesma maneira que as classes dominantes. A literatura escrita acaba sendo um privilŽgio de pequenos grupos, por diversos motivos, cabendo ˆs classes mais baixas apenas as formas consideradas populares.

Outro importante ensaio do soci—logo Antonio Candido, e complementar ˆ discuss‹o deste primeiro que citamos, Ž ÒA literatura e a forma�‹o do homemÓ, publicado em 2002, em que o autor discute a fun�‹o da obra liter‡ria dentro de uma sociedade e aborda mais uma vez como se d‡ a humaniza�‹o do homem por meio da literatura.

A literatura, principalmente quando enxergada de maneira purista, muitas vezes, foi retratada como um meio de edifica�‹o do homem, mas n‹o Ž esse o sentido que Candido buscou apontar em suas reflex›es, pelo contr‡rio. A edifica�‹o seria respons‡vel por afastar o homem de uma humanidade veross’mil, criando a ideia de um funcionamento liter‡rio pr—ximo aos manuais de virtude e boa conduta. A literatura, ent‹o, seria necess‡ria para mostrar que existe uma complexidade em torno de si pr—pria.

Paradoxos, portanto, de todo lado, mostrando o conflito entre a ideia convencional de uma literatura que eleva e edifica (segundo os padr›es oficiais) e a sua poderosa for�a indiscriminada de inicia�‹o na vida, com uma variada complexidade nem sempre desejada pelos educadores. Ela n‹o corrompe nem edifica, portanto; mas, trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em sentido profundo, porque faz viver (CANDIDO, 2002, p. 84-85).

Para Candido, a necessidade universal da fantasia se manifestaria em todos os instantes poss’veis da vida humana, haja vista que Ž praticamente imposs’vel pensar em qualquer indiv’duo que passe muito tempo sem ter qualquer tipo de alegoria em sua mente, ou fora dela. E, sendo assim, a literatura Ž uma resposta a essa imagina�‹o inesgot‡vel:

A literatura propriamente dita Ž uma das modalidades que funcionam como resposta a essa necessidade universal, cujas formas mais humildes e espont‰neas de satisfa�‹o talvez sejam coisas como a anedota, a adivinha, o trocadilho, o rif‹o. Em n’vel complexo surgem as narrativas populares, os cantos folcl—ricos, as lendas, os mitos. No nosso ciclo de civiliza�‹o, tudo isto culminou de certo modo nas formas impressas, divulgadas pelo livro, o folheto, o jornal, a revista: poema, conto, romance, narrativa romanceada (CANDIDO, 2002, p. 80).

ƒ poss’vel ent‹o refletir e concluir que a literatura traz em si muitas possibilidades, sendo capaz de tanto humanizar quanto desumanizar. O mais importante de todos esses questionamentos sobre a possibilidade de humanizar de fato, Ž que sendo a literatura indissoci‡vel da forma�‹o do homem n‹o haveria como ela n‹o causar nenhum tipo de afeta�‹o na forma�‹o da personalidade de qualquer indiv’duo. Somos afetados pelos textos liter‡rios de diversas formas, n‹o apenas quando falamos dos textos mais eruditos. A literatura e a arte est‹o nas pequenas coisas que nos rodeiam, possibilitam a frui�‹o da realidade de uma maneira necess‡ria em qualquer civiliza�‹o.

 

 

Um breve retrospecto sobre o surgimento da Literatura de Cordel

 

Refletindo especificamente sobre a Literatura de Cordel e o seu advento, n‹o Ž absurdo afirmar que o fazer poŽtico dos poetas vai de encontro ao pensamento que Candido defende nestes ensaios. Enquanto o romance moderno foi constru’do sobre bases que priorizam a leitura individual e o isolamento do leitor, gerado tambŽm a partir da segrega�‹o do romancista, como afirma Walter Benjamin em ÒO narradorÓ, quando se trata de narrativas populares, como Ž o cordel, espera-se que o pœblico receptor fa�a o oposto, haja vista que o consumo dos folhetos esteve sempre estritamente ligado ˆ oralidade e ˆs leituras pœblicas. O que comprova tambŽm que o autor se equivocou ao afirmar que a arte de narrar estava em vias de extin�‹o, pois, se para Benjamin (1994) tais narradores n‹o seriam relevantes dentro da literatura can™nica, a Literatura de Cordel comprova que os narradores orais sobrevivem e se reinventam na cultura popular.

ƒ tambŽm importante salientar que n‹o Ž apenas a cultura popular que Ž influenciada pela literatura can™nica, pois o inverso tambŽm acontece. A literatura escrita tambŽm se apropria e se alimenta da literatura popular, o que promove toda uma circularidade de influ�ncias. Ou seja, os narradores orais continuam sendo indispens‡veis para todo o sistema liter‡rio.

Pensar e pesquisar a Literatura de Cordel Ž, de certa forma, revisitar alguns conceitos da teoria liter‡ria, como autoria[20] e originalidade[21], e atŽ mesmo repensar o pr—prio termo literatura. ƒ pertinente considerar que as narrativas populares foram marginalizadas, sendo atŽ mesmo consideradas como uma espŽcie de paraliteratura, uma vis‹o bastante preconceituosa, que marginalizava e rebaixava essas exist�ncias culturais divergentes. Obviamente esse tipo de postura consistia numa reafirma�‹o da superioridade da literatura considerada can™nica, ocorrendo isso inclusive dentro do meio acad�mico.

A Literatura de Cordel brasileira se configura como uma express‹o cultural popular, que traz em si diversos tipos de sapi�ncias e utilidades. Faz parte de sua estrutura, ent‹o, o resultado de trocas culturais entre os imagin‡rios das culturas que formaram o Brasil, fazendo assim com que hist—rias tradicionais vindas do contexto ibŽrico fossem remodeladas e ganhassem novos contornos especificamente brasileiros. Era comum que os folhetos fossem usados para retratar fatos que ocorriam exatamente naquele momento hist—rico. ƒ imposs’vel, portanto, pensar a exist�ncia dessa tradi�‹o cultural sem pensarmos tambŽm na transmiss‹o oral e na mem—ria coletiva, pois ambas s‹o de fundamental import‰ncia para que muitas narrativas ibŽricas n‹o tenham se apagado no decorrer de sŽculos. Pelo contr‡rio, permaneceram t‹o fortes e ecoando nas mentes nordestinas, que quando s‹o transpostas pelos cordelistas ganham ainda mais for�a.

Os versos dos cordelistas buscavam aproximar o pœblico leitor/ouvinte de suas cria�›es, e, por isso, ocorre tambŽm a identifica�‹o desse pœblico com o que estava ali sendo retratado. Os folhetos s‹o capazes tanto de trazer hist—rias maravilhosas, em que se vencia a fome e a seca, ou ent‹o mostravam como fazer o pobre, Òamarelinho[22]Ó, vencer os ricos. Traziam tambŽm em si os preceitos cat—licos, muito respeitados e seguidos na Žpoca, respons‡veis por causar uma impossibilidade eterna ˆs mulheres, pois elas jamais seriam t‹o virtuosas como a Virgem Maria.

As penas ferozes de autores como Leandro Gomes de Barros[23], o mais importante cordelista pioneiro, traziam tambŽm em si muitas cr’ticas ao momento social e hist—rico em que viviam. N‹o se conformavam com a Proclama�‹o da Repœblica, com os novos impostos, e tambŽm n‹o viam com bons olhos os pequenos progressos femininos da Žpoca, assim como algumas mudan�as trazidas pela Belle ƒpoque.

Os poetas pioneiros eram descendentes dos cantadores que os precediam, haja vista que essa Ž uma tradi�‹o secular. Muitos deles sendo apenas semiletrados, faziam da memoriza�‹o uma grande aliada do fazer poŽtico, pois diferentemente do que muitas vezes se pensa, n‹o Ž apenas por inven�‹o que criam seus versos, h‡ um extenso trabalho com a mem—ria na pr‡tica dos cordelistas. AlŽm disso, traduziam para os versos os anseios populares, pois tinham contato direto com seu pœblico. N‹o escreviam de maneira afastada, como o romancista moderno.

[...] o cantador nordestino, herdeiro e deposit‡rio do fluxo lent’ssimo da tradi�‹o como mem—ria convertida em descoberta, representa um ponto de chegada de materiais err‡ticos que t�m atravessado como meteoritos o firmamento de sistemas culturais inclusive muito distantes, para depois serem reutilizados por uma vontade art’stica em que a coletividade se realiza com gosto e f—rmulas pr—prias. (PELOSO, 1996, p. 78).

A escolha pela an‡lise desse per’odo em espec’fico, as primeiras dŽcadas do sŽculo XX, se fez oportuna por ser o momento em que a import‰ncia dos cordelistas era ainda maior. ConvŽm relembrar que era um momento em que ainda n‹o existia f‡cil acesso ao r‡dio, e a TV ainda estava longe de existir. Sendo assim, as œnicas formas de entretenimento e informa�‹o que existiam de maneira escrita eram, respectivamente, os livros e os jornais. Cabia aos poetas transpor esses textos para versos, pois somente assim a popula�‹o poderia ter acesso a tais conhecimentos.

O fato de os folhetos serem feitos com um material barato, para serem estendidos nas feiras, fez tambŽm com que fosse uma literatura menos afastada do seu pœblico leitor/ouvinte do que a literatura can™nica, que tem como caracter’stica o leitor solit‡rio. AlŽm disso, ainda que a maior parte da popula�‹o fosse analfabeta, por se tratar de uma literatura oral, feita para ser lida em voz alta, todos podiam ter acesso a essas hist—rias, n‹o mais apenas aqueles que eram os detentores do saber, os que sabiam ler.

 

 

O cordel ˆ luz de Candido

 

ƒ poss’vel pensar a problem‡tica que envolve as reflex›es propostas por Antonio Candido no contexto da Literatura de Cordel interpretando, ent‹o, os cordelistas como verdadeiros protagonistas de uma extensa reivindica�‹o do direito ˆ literatura. Cumpriam, no contexto em que estavam inseridos, o papel de atores sociais, sendo de fundamental import‰ncia para garantir que a popula�‹o pudesse alcan�ar a literatura e a frui�‹o, direitos que antes lhes eram negados, por diversos motivos.

Ent‹o, se a literatura can™nica n‹o pode ser aproveitada plenamente por todas as camadas da popula�‹o, Ž por meio dos processos criativos dos poetas e as suas habilidades de transposi�‹o de hist—rias que a frui�‹o ser‡ alcan�ada. Sendo o acesso a livros dif’cil, seja pela linguagem ou pelo valor financeiro, ent‹o seria por meio de folhetos de cordel que a imensa maioria da popula�‹o nordestina conseguiria conhecer muitas narrativas e preencher a sua pr—pria necessidade de fantasia. Mais do que nunca a literatura passa a ser uma forma de conhecimento e n‹o apenas de divertimento, pois os versos dos cordelistas s‹o capazes de levar o pœblico leitor/ouvinte a lugares inimagin‡veis, bem como trazer not’cias do que acontecia no Brasil e no mundo. Preenche, ent‹o, o que Antonio Candido assinala como a necessidade universal de fantasia.

No œltimo t—pico de ÒO direito ˆ literaturaÓ, Candido (2004, p. 191) conclui que

a luta pelos direitos humanos abrange a luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes n’veis da cultura. A distin�‹o entre cultura popular e cultura erudita n‹o deve servir para justificar e manter uma separa�‹o in’qua, como se do ponto de vista cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunic‡veis, dando lugar a dois tipos incomunic‡veis de fruidores. Uma sociedade justa pressup›e o respeito aos direitos humanos, e a frui�‹o da arte e da literatura em todas as modalidades e em todos os n’veis Ž um direito inalien‡vel.

Baseando-nos neste par‡grafo, Ž poss’vel estabelecer que, ainda que ao elaborarem seus versos e que isso fa�a parte de uma ampla reivindica�‹o do que aqui chamamos de direito ˆ literatura, essa reivindica�‹o n‹o poderia se encerrar apenas na Literatura de Cordel. ƒ poss’vel afirmar que, dentro do contexto em que escolhemos analisar aqui, a exclus‹o era inevit‡vel, justamente por se tratar de um contexto em que a popula�‹o nordestina estava extremamente desfavorecida frente ao Sul do pa’s, que abrigava a capital do Brasil.

Ao trazer o debate sobre o Regionalismo, em ÒA literatura e a forma�‹o do homemÓ, Candido (2002) demonstra que a literatura pode ser usada tanto para humanizar quanto para desumanizar, e com a Literatura de Cordel isso n‹o seria diferente. Um grande exemplo Ž que as mulheres muitas vezes foram grandes v’timas das cr’ticas dos cordelistas, pois o que se cobrava delas eram posturas inating’veis. Uma mulher digna deveria se espelhar em Maria, a virgem m‹e de Jesus, Cristo, a mulher reconhecida por Deus como perfeita. Isso pode ser visto em ÒOs mart’rios de GenovevaÓ (ATAêDE, s. d., p. 2-3):

Genoveva era dotada

De intelig�ncia e engenho

Nas fei�›es dela se lia

O mais perfeito desenho

A natureza em orn‡-la

Se esmerou e fez empenho

 

AlŽm dessas qualidades

Em tudo era preciosa

Modesta e trabalhadora

Cort�s e religiosa

Gra�as a educa�‹o

De sua m‹e extremosa

 

Quando estava em ora�›es

Ajoelhada entre os pais

Parecia ser um anjo

Das regi›es divinais

Que tinha baixado a terra

Para exemplo dos mortais.

Se ela n‹o figura nos versos como modelo para todas as mulheres, ir‡ lhes caber a representa�‹o oposta a essa. Muitas vezes utilizando estere—tipos existentes naquela sociedade, os poetas retratavam as mulheres com comportamento destoante do que era socialmente aceito: eram perversas e capazes de desonrar o homem. Em se tratando da mulher negra, esse quadro era ainda mais violento, pois dentro do contexto liter‡rio do cordel, ali n‹o caberia qualquer representa�‹o positiva. Em ÒO Bataclan modernoÓ, Ata’de tece cr’ticas ˆs mudan�as sociais vividas pelas mulheres:

Mundo velho desgra�ado

Teu povo precisa de um freio,

Para ver se assim melhora

Este costume t‹o feio

De uma mo�a seminua

Andar mostrando na rua

O sovaco a perna o seio.

 

De primeiro uma donzela

Andava bem prevenida,

Se acaso ia um passeio

Se encontrava ela vestida

Hoje essa mesma donzela

A moda obrigou a ela,

Sair pra rua despida (ATAêDE, 1953, p. 1)[24].

ƒ por meio das cr’ticas dos poetas que ocorre tambŽm o que Candido chamou de desmascaramento, pois quando tecem cr’ticas ao governo, como faz Leandro Gomes de Barros, por exemplo, seu pœblico leitor/ouvinte consegue perceber que est‹o sendo v’timas de engana�›es e abusos. Para Marques (2014, p. 55), ÒEra, portanto, atravŽs das lentes sat’ricas do(s) poeta(s) popular(es) que o sertanejo via e entendia aquele mundo prenhe de novidades e mudan�as inusitadasÓ. O exemplo pode ser visto nas seguintes estrofes, em que Barros busca denunciar a realidade em que os nordestinos estavam vivendo. Em ÒUm pau com formigasÓ, o poeta tece uma de suas denœncias acerca das mudan�as vivenciadas no novo sŽculo:

Chamam este sŽculo das luzes

Eu chamo o sŽculo das brigas

A Žpoca das ambi�›es

O planeta das intrigas

Muitos cachorros num osso

Um pau com muitas formigas.

 

Ent‹o depois da repœblica

Tudo nos causa terror

Cacete n‹o faz estudo

Mas tem carta de doutor

A cartucheira Ž a lei

O rifle governador (BARROS, 1912, p. 1).

            As cr’ticas tambŽm podem ser vistas em ÒO imposto e a fomeÓ:

Disse o imposto – isso Ž nada,

O Brasil est‡ todo exposto,

Enquanto existir governo

Reina a fome e o imposto,

Os presidentes de Estados

Dizem – morram os desgra�ados

Ficando n—s Ž tudo gosto.

[...]

Justi�a em ti n‹o h‡ mais

Creio que morreu de desgosto,

A lei ficou como —rf‹o

Sem pai, sem m‹e, sem encosto,

O car‡ter foi embora

S— conhecemos agora

Pol’tica, fome e imposto (BARROS, 1909, p. 2-3).

ƒ poss’vel perceber como Leandro Gomes de Barros se empenhava em fazer suas denœncias, ultrajado pelos impostos excessivos, pela fome e pela misŽria. Em conson‰ncia com o que afirmou Candido, seus versos eram capazes de despertar a reflex‹o em seu pœblico, fazendo com que pudessem perceber a complexidade do mundo em que viviam, de uma maneira ainda mais pungente. Era por meio da s‡tira que seus versos se mostravam ainda mais ferinos.

 

 

Conclus‹o

 

            Neste artigo, buscamos justapor os ensaios de Antonio Candido ˆ Literatura de Cordel, mostrando como a necessidade de literatura e fantasia Ž universal e atinge todas as camadas sociais. No come�o do sŽculo XX, a literatura can™nica era negada ao povo nordestino, assim como o direito ˆ frui�‹o, algo t‹o desejado pelas classes sociais mais elevadas. Negar esse direito seria negar tambŽm a humanidade daquelas pessoas.

            Ao tomar para si a voz, fazendo com que um integrante do povo pudesse finalmente ser ouvido, o cordelista passa a representar tambŽm os anseios de seu pœblico leitor/ouvinte, haja vista que seu sucesso tambŽm dependia desse di‡logo direto com seu pœblico. O poeta de cordel Ž uma figura muito sens’vel, pois lhe cabe perceber muitas nuances da realidade em que habita.

Sendo assim, sob essas novas lentes, criadas pelos versos dos poetas, o nordestino passava a perceber a pr—pria realidade de uma outra forma, pois o poeta era capaz de fazer com que, ao finalmente se enxergarem de alguma forma representadas na literatura, essas pessoas pudessem tambŽm resistir e reexistir, frente a todas as agruras cotidianas que as cercavam.

 

 

Refer�ncias

 

ATAêDE, Jo‹o Martins de. (A Bibliografia PrŽvia de Sebasti‹o Nunes Batista, considera Leandro Gomes de Barros o autor do poema) O Bataclan moderno, Juazeiro do Norte, Editor JosŽ Bernardo da Silva, 1953.

 

_________. Os mart’rios de Genoveva. S. l.: s. n., s. d.

 

BARROS, Leandro Gomes de. O imposto e a fome/O homem que come vidro/O reino da Pedra Fina. Recife, PE: s.n., 1909.

 

_________. Um Pau com Formigas/ Conclus‹o de Riach‹o com Turbana. Recife, PE: s.n., 1912.

 

BENJAMIN, Walter. O narrador: Considera�›es sobre a obra de Nikolai Leskov. In: _________. M‡gica e tŽcnica, arte e pol’tica: ensaios sobre literatura e hist—ria da cultura. Obras escolhidas. 7. ed. S‹o Paulo: Brasiliense, 1994, v. 1. p. 197-221.

 

CANDIDO, Antonio. A literatura e forma�‹o do homem. In: CANDIDO, Antonio. Textos de Interven�‹o. S‹o Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2002. p. 81-90.

 

_________. O direito ˆ literatura. In: CANDIDO, Antonio. V‡rios Escritos. S‹o Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004. p. 171-193.

 

MARQUES, Francisco C. A. Um pau com formigas ou O mundo ˆs avessas: a s‡tira na poesia popular de Leandro Gomes de Barros. S‹o Paulo: Edusp/Fapesp, 2014.

 

OLIVEIRA, Let’cia Fernanda da Silva. De m‡rtir a meretriz: figura�›es da mulher na Literatura de Cordel (1900-1930). Disserta�‹o de Mestrado. Assis-SP: UNESP, 2017.

 

PELOSO, Silvano. O canto e a mem—ria: Hist—ria e utopia no imagin‡rio popular brasileiro. S‹o Paulo: çtica, 1996.

 

 

[Recebido: 15 ago 2020 – 19 set 2020]


 

 

O  RAP ind’gena dos Br™ McÕs: a constru�‹o argumentativa da pol�mica

 

 

The Br™ McÕs indigenous RAP: the argumentative construction of polemics

 

 

Rubens Damasceno-Morais[25]

https://orcid.org/0000-0001-6245-6394

 

Vanessa Martins Le‹o[26]

https://orcid.org/0000-0002-8486-5735

 

 

Resumo: Neste artigo, diante de um exemplo da modalidade argumentativa pol�mica (AMOSSY, 2017), e pela perspectiva da argumenta�‹o em contexto de intera�‹o (PLANTIN, 2008, 2011; GRçCIO, 2013) mostramos, por meio de uma pesquisa de cunho qualitativo, as funcionalidades das desqualifica�›es da tese advers‡ria e da pessoa ou do grupo que representa o Oponente, bem como da impolidez verbal, materializada em palavr›es, ironia e amea�as (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006; GRAHAM, HARDAKEKER, 2017; DECLERCQ, 2003). Para tanto, analisamos um coment‡rio e algumas respostas a esse coment‡rio, postados na m’dia social Youtube, os quais dialogam com os discursos e os recursos semi—ticos que circulam pelo clipe de Eju Orendive, do grupo de rap de (re)exist�ncia ind’gena Br™ MCÕs. A partir desses excertos, percebemos que, de um lado, aqueles que se posicionam contra a demarca�‹o de terras ind’genas, velando o racismo, e, do outro lado, os que defendem os direitos dos povos origin‡rios se debru�am sobre um debate polarizado e violento voltado n‹o para um acordo, mas, sim, com a inten�‹o de provocar a ades‹o de um Terceiro, segundo a perspectiva dialogal da argumenta�‹o (PLANTIN, 2016).

Palavras-chave: Pol�mica; Rap Ind’gena; Resist�ncia; Racismo.

 

Abstract: In the face of an example of the controversial argumentative modality (AMOSSY, 2017), and using the argumentation perspective in the interaction context (PLANTIN, 2008, 2011; GRçCIO, 2013), by means of a qualitative research, we show the disqualifications of the opposing thesis and the person or group that represents the Opponent, as well as verbal impoliteness, materialized in swearing, irony and threats functionalities (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006; GRAHAM and HARDAKEKER, 2017; DECLERCQ, 2003). Therefore, we analyze a comment and responses, posted on the Youtube, which dialogue with the speeches and semiotic resources circulating in the videoclipe Eju Orendive, by the indigenous rap group Br™ MC's. From these excerpts, we realize that, on the one hand, those who stand against the demarcation of indigenous lands, guarding racism and, on the other hand, those who defend the rights of indigenous peoples focus on a polarized and violent debate aimed at for an agreement, but, with the intention of provoking the adhesion of an audience, according to the dialogical perspective of the argumentation (PLANTIN, 2016).

Keywords: Polemics; Indigenous Rap; Resistance ; Racism.

 

 

 

 

Rap Ž compromisso. N‹o Ž viagem.

(Sabotage, 2000)

 

O Br™ MCÕs Ž o primeiro grupo de rap ind’gena do Brasil. Seus integrantes s‹o da etnia Guarani-Kaiow‡ e habitam as aldeias Jaguapirœ e Boror—, localizadas na cidade de Dourados, oeste do Mato Grosso do Sul. O videoclipe do rap Eju Orendive[27], composi�‹o do grupo, postado no YouTube, mobilizou opini›es de internautas, que expressaram seus posicionamentos em coment‡rios. Tais coment‡rios trazem ˆ tona discursos de dois grupos politicamente polarizados[28]. De um lado, encontram-se os usu‡rios identificados como de esquerda, que se alinham com as causas dos povos ind’genas e, ent‹o, legitimam discursivamente a arte musical de (re)exist�ncia por eles produzida. Do outro lado, encontram-se aqueles denominados de direita, os quais, apoiando-se em estere—tipos, materializam discursos racistas e, portanto, tomam o rap dos jovens de Dourados como apropria�‹o e como perda de cultura. Diante desse cen‡rio, este artigo se empenha em analisar as estratŽgias lingu’sticas e argumentativas que esses usu‡rios utilizam para construir seus posicionamentos na plataforma virtual. Nesse sentido, busca-se responder aos seguintes questionamentos: como se constr—i a modalidade argumentativa pol�mica (a dicotomiza�‹o, polariza�‹o e desqualifica�‹o), nos coment‡rios dos internautas? Destaca-se, nesse contexto, alguma estratŽgia argumentativa na constru�‹o dos discursos e contradiscursos (im)polidos? Para tanto, utilizamos a teoria da argumenta�‹o do discurso, com foco na pol�mica, de Amossy (2011, 2017), bem como os estudos sobre (im)polidez de Culpeper (2011) e Kerbrat-Orecchioni (2006) e a teoria dialogal da argumenta�‹o, com foco nos papŽis de atua�‹o de Plantin (2008, 2016) e Gr‡cio (2013). AlŽm disso, em fun�‹o do viŽs interdisciplinar dessa pesquisa, utilizamos os apontamentos de Chang (2005) para falar sobre o rap e do decolonialista Quijano (2005) para falar sobre assuntos hist—ricos que atravessam e constituem as identidades ind’genas.

Charaudeau (2014) destaca que as m’dias sociais s‹o uma das principais esferas da atividade social, em que os discursos pol’ticos v�m ˆ tona. Ademais, Cabral e Lima (2017) afirmam que o advento e a massifica�‹o dessas plataformas provocaram mudan�as comportamentais nas pessoas, sendo que uma dessas mudan�as diz respeito ao modo de elas se organizarem em grupos, com usu‡rios que possuem interesses em comum, e ao modo de enxergarem o outro, ou seja, de enxergarem aqueles que se posicionam de modo antag™nico. Seguindo esse caminho, Cabral, Marqiesi e Seara (2015) apontam que esse contexto, que possibilita a livre participa�‹o em discuss›es bem como a cria�‹o de identidades, de perfis fakes, chancela ˆs pessoas a exposi�‹o mais espont‰nea e, atŽ mesmo, agressiva de suas opini›es. Assim, um v’deo de rap ind’gena, publicado no Youtube, com coment‡rios abertos para todos os usu‡rios, pode se converter em terreno fŽrtil para a materializa�‹o de discursos pol�micos.

De acordo com Amossy (2017), a pol�mica Ž um debate em torno de uma quest‹o da atualidade, de interesse pœblico, que comporta os anseios das sociedades mais ou menos importantes numa dada cultura. As marcas dessa modalidade argumentativa, de acordo com a autora, s‹o: a dicotomiza�‹o e a polariza�‹o. A dicotomiza�‹o emerge quando posi�›es antitŽticas se constroem e se excluem mutuamente. A polariza�‹o, por sua vez, est‡ interligada ao plano da estrutura actancial – adiante, explicado com apoio em Gr‡cio (2013) –, que envolve a atua�‹o do Proponente, do Oponente e do Terceiro. De acordo com Plantin (2008, 2016) s‹o esses papŽis que sustentam o debate que op›e duas posi�›es dicot™micas. Dessa forma, a polariza�‹o se comp›e de um defensor da posi�‹o proposta (Proponente), de um opositor dessa posi�‹o (Opositor) e de um ouvinte-espectador da confronta�‹o (Terceiro). Surge, ent‹o, um Òn—sÓ diante de um ÒelesÓ e, nessa rela�‹o, os procedimentos mais atenuados consistem em desqualificar a palavra do outro e, geralmente, em desqualificar a pessoa ou o grupo que ele representa, por meio da viol�ncia verbal e da manifesta�‹o das emo�›es (pathos).

Este estudo se divide, ent‹o, em cinco partes. A primeira, na qual desvelamos nossos objetivos iniciais. A segunda, em que falamos sobre a rela�‹o existente entre o rap e grupos identit‡rios marginalizados (de forma breve, dado o espa�o limitado de que dispomos neste artigo), tais como, os negros e os ind’genas. Na terceira, por sua vez, nos empenhamos em mostrar os aspectos da modalidade argumentativa pol�mica, a dicotomiza�‹o, a polariza�‹o e a desqualifica�‹o, proposta por Amossy (2017), bem como apontamos como esse œltimo aspecto, ou seja, a desqualifica�‹o, se desdobra em (im)polidez ou agressividade verbal, conforme Culpeper (2011). Na se�‹o seguinte, apresentamos o corpus e empreendemos a an‡lise dos dados mostrando como a pol�mica se constr—i em torno de um coment‡rio e de respostas a esse coment‡rio do v’deo Eju Orendive, dos Br™ MCÕs. Por fim, tecemos nossas considera�›es finais relacionando-as com a nossa proposta inicial.

 

(Re)existir e lutar contra o racismo: a alian�a entre o rap e grupos marginalizados

 

De acordo com Chang (2005), a cultura do hip hop nasceu no bairro do Bronx, em Nova Iorque, em meados da dŽcada de 1960, em meio a implanta�‹o de pol’ticas recessivas que prejudicaram, principalmente, dois grupos marginalizados: os negros e os mesti�os dos EUA. Diante desse cen‡rio, emergiu o movimento Zulu Nation, encabe�ado pelos DJs Afrika Bambaataa, Grandmaster Flash e Kool Herc, respons‡veis por reunir jovens desses grupos identit‡rios em torno de eventos de mœsica, de dan�a e de artes visuais. Souza (2005) aponta que esse movimento resultou na cultura hip hop, composta pelo rap (sigla para rhythm and poetry), pelo break (dan�a) e pelo grafitte (artes visuais). O rap, pela jun�‹o de um MC (mestre de cerim™nias) e de um DJ (disk jokey), se constitui como um g�nero poŽtico-musical que, por meio de seus enunciados, traz ˆ tona o cotidiano dos moradores das favelas e das periferias, denunciando as situa�›es de desigualdade e de preconceito que lhes interpelam.

O rap emergiu no Brasil, na dŽcada de 1980, na cidade de S‹o Paulo. Nesse per’odo, S‹o Paulo, de modo semelhante ˆ Nova Iorque, era tomada por constru�›es de moradias irregulares, habitadas, em maioria, pela popula�‹o negra. Em meio a um contexto de pobreza e de abandono, os ’ndices de criminalidade e as taxas de homic’dio inflaram (SILVA, 2013). Diante desse cen‡rio conturbado, em meados de 1980, o rap consciente emergiu a partir de nomes como Thaide e DJ Hum. No entanto, foi com o grupo Racionais MCÕs que o raio-X do Brasil veio ˆ tona.

O primeiro grupo de rap ind’gena brasileiro, por sua vez, surgiu em 2009, quando os jovens Bruno Veron, Clemersom Batista, Kelvin Peixoto e Charlie Peixoto, da etnia Guarani-Kaiow‡, se uniram para formar o Br™ MCÕs. Seus versos denunciam o cotidiano das aldeias Jaguapirœ e Boror—, localizadas na cidade de Dourados, oeste do Mato Grosso do Sul, onde a pobreza, a viol�ncia, os v’cios e o preconceito atravessam seus moradores. De acordo com dados do site G1[29], em junho de 2019, as reservas ind’genas de Dourados registraram em mŽdia um assassinato a cada dois dias e meio. A reportagem aponta ainda que, Òsegundo o MPF, n‹o somente essas reservas, mas tambŽm as comunidades ind’genas do sul do estado est‹o vivenciando uma escalada sem precedentes nos ’ndices de criminalidade, muito em fun�‹o do consumo exagerado de drogas e ‡lcool, ao passo em que o policiamento ostensivo e repressivo n‹o acompanha esse cen‡rioÓ.

A partir dessa exposi�‹o, Ž poss’vel perceber que os contextos de g�nese do rap estadunidense, brasileiro e ind’gena brasileiro apresentam entrecruzamentos. Nos tr�s casos, o

g�nero poŽtico-musical emergiu em periferias e favelas, espa�os permeados por situa�›es de pobreza e de viol�ncia. Ademais, entrecruzamentos, tambŽm, podem ser apontados entre as hist—rias dos grupos identit‡rios que d‹o voz a esses versos, uma vez que a sociedade brasileira se ergueu com o sangue dos negros e dos ind’genas. Desde a trajet—ria de coloniza�‹o, ind’genas e negros foram violentados, f’sica e psicologicamente, sob a justificativa da civiliza�‹o, da moderniza�‹o e da salva�‹o, uma vez que foram considerados selvagens, rudes e pag‹os e deveriam, portanto, ser ÒdomadosÓ. Diante desse cen‡rio, o racismo e a situa�‹o de pobreza, aos quais esses grupos s‹o submetidos, desvelam-se como condi�›es s—cio-hist—rica e discursivamente constru’das (QUIJANO, 2005; MOURA, 2004).

 

A modalidade de argumenta�‹o pol�mica e os aspectos da (im)polidez lingu’stica

 

Para embasar a an‡lise do corpus em quest‹o, uma vez que estamos diante de uma pesquisa qualitativa, seguimos a teoria da argumenta�‹o no discurso de Ruth Amossy (2011, 2017), com �nfase na modalidade pol�mica. De acordo com a autora, a argumenta�‹o Ž tecida na materialidade lingu’stica em uma situa�‹o concreta de comunica�‹o. Desse modo, o locutor, projetando a imagem de seu alocut‡rio e adequando-se ˆs normas do g�nero do discurso em quest‹o, lan�a m‹o de recursos lingu’sticos e de estratŽgias discursivas a fim de tecer sua teia argumentativa. Nesse sentido, a autora destaca que ÒŽ na espessura da l’ngua que se forma e se transmite a argumenta�‹oÓ (AMOSSY, 2011, p. 131-132), apontando que o discurso, com a inten�‹o de persuadir, segue uma ou mais modalidades argumentativas. Dentre as possibilidades de estratŽgias argumentativas, a autora destaca: a modalidade demonstrativa, segundo a qual o locutor apresenta uma tese fundamentada, por meio de discurso monologal ou dialogal, a um audit—rio a fim de conquistar sua ades‹o; a modalidade negociada, em que os parceiros, com diferentes opini›es, se empenham para encontrar uma solu�‹o comum para o problema que lhes apetece; e a modalidade pol�mica, caracterizada pela presen�a de participantes com posicionamentos antitŽticos, em total desacordo, no qual um ataca a tese do outro e, atŽ mesmo, a pr—pria figura do outro a fim de provocar a ades‹o de um terceiro. No tocante ˆ pol�mica, a autora destaca ainda que, apesar de julgamentos precipitados que a ela atribuem valores negativos, para o analista do discurso, a pol�mica se mostra Òrica de ensinamentos na medida em que ela revela muitas coisas sobre a sociedade e a Žpoca na qual o discurso pol�mico circulaÓ (AMOSSY, 2017, p. 49). Isso acontece porque a modalidade pol�mica gira em torno de temas atuais[30], que circulam pelo espa�o pœblico.

Amossy (2017, p. 49) afirma ainda que Òa primeira marca da pol�mica como debate da atualidade Ž uma oposi�‹o de discursoÓ, de modo que a exist�ncia de posicionamentos antitŽticos Ž essencial para a emerg�ncia dessa modalidade argumentativa. Assim, de acordo com a autora, o que modaliza a pol�mica Ž a atividade de materializar argumentos a favor de sua tese e contra a tese oposta, ou seja, diante desse cen‡rio, cabe a ambas as partes da intera�‹o construir a fundamenta�‹o de suas proposi�›es bem como a justificativa de suas contraposi�›es. Nesse sentido, Amossy (2017), baseando-se em Marc Angenot, traz ˆ tona a dupla estratŽgia que tangencia a pol�mica que seria a demonstra�‹o da tese e a refuta�‹o e desqualifica�‹o da tese antag™nica. A partir de ent‹o, Amossy afirma que a especificidade da pol�mica dentro do campo da argumenta�‹o ret—rica Ž definida pela dicotomiza�‹o, pela polariza�‹o e pela desqualifica�‹o e, de forma secund‡ria, n‹o obrigat—ria, pela viol�ncia verbal e pelo pathos.

A dicotomiza�‹o, portanto, como aponta Dascal (2008), leva o debate a n’veis extremos, uma vez que, nesse caso, as partes n‹o se empenham em desenvolver um acordo, ou estabelecer um meio termo, para o problema em quest‹o. Amossy (2017, p. 55) coloca, ent‹o, que a pol�mica se diferencia das Òintera�›es argumentativas ordin‡rias porque ela tende sistematicamente para uma dicotomiza�‹o que dificulta a busca de acordo entre as partes advers‡riasÓ. No caso deste trabalho, por exemplo, os participantes que apontam argumentos a favor dos direitos dos povos ind’genas e os participantes que, embasados em estere—tipos, argumentam a favor do desenvolvimento econ™mico do pa’s, velando o racismo, n‹o se empenham nessa discuss‹o para balancear os posicionamentos, e, assim, ao final, atingir um consenso, pois, eles t�m, aqui, objetivos outros.

Para melhor explicar o processo de polariza�‹o, Amossy (2017) prop›e a diferencia�‹o entre actantes e atores. Segundo Plantin (2008), os atores s‹o os sujeitos concretos da enuncia�‹o e os actantes, por sua vez, est‹o interligados a modalidades discursivas espec’ficas que envolvem um Proponente e um Oponente em face de um Terceiro. Esses papŽis argumentativos, de acordo com o autor, se definem a partir de tr�s atos: propor, opor-se e duvidar. Cabe, aqui, ent‹o ressaltar que o campo do Proponente se comp›e de diferentes atores, de diferentes grupos sociais, ou seja, se comp›e de diferentes vozes, e o mesmo se d‡ com o campo do Proponente; Ž a jun�‹o de participantes t‹o diversos que faz a polariza�‹o dif’cil de ser solucionada. Nesse sentido, Gr‡cio (2013), retomando os pressupostos de Plantin, traz ˆ tona a no�‹o de perspectiva�‹o de pontos de vista, que se d‡ quando proponentes e oponentes verticalizam suas diverg�ncias em uma intera�‹o argumentativa. Tal verticaliza�‹o Ž not—ria, por exemplo, em um ambiente virtual, em que uma pol�mica se constitui. Isto posto, Amossy (2017, p. 56) destaca que Òa divis‹o actancial entre advers‡rios tomados numa rela�‹o antitŽtica de tipo conflitual explica que a pol�mica instaura uma opera�‹o de polariza�‹oÓ, ou seja, a pol�mica instaura um Òn—sÓ diante de um ÒelesÓ.

Em outras palavras, em contextos polarizados, o Proponente para se autoafirmar, diante de um audit—rio (Terceiro), desqualifica seu Oponente, atribuindo-lhe valores negativos. Uma das estratŽgias utilizadas para tal consiste no ataque da palavra do outro, Òseja pela reformula�‹o orientada, seja pela ironia, seja pela modifica�‹o dos prop—sitosÓ (AMOSSY, 2017, p. 59). AlŽm disso, outras estratŽgias utilizadas para desqualifica�‹o da pessoa dizem respeito ao silenciamento, ˆ exclus‹o e, em casos extremos, ˆ diaboliza�‹o do outro. Declerq (2003, p. 18) assinala que a pol�mica Ònos confronta com essa for�a incontrol‡vel que estimula a ter raz‹o sobre o outro, a assegurar sua autoridade sobre ele, a submet�-lo, a elimin‡-lo, se necess‡rioÓ. Enquanto isso, a demoniza�‹o, que divide os grupos entre o bem e o mal, resulta na reprova�‹o total e na desumaniza�‹o do advers‡rio. A partir de ent‹o, Ž poss’vel perceber que, para se posicionar de modo veemente, o locutor deixa transparecer, em seu discurso, marcas de subjetividade. ÒA emo�‹o Ž um resultado da implica�‹o do locutor no seu discurso. O engajamento emocional se faz acompanhar de uma tentativa de tocar o cora�‹o dos leitores/espectadoresÓ (AMOSSY, 2017, p. 62) e apresenta, inexoravelmente, um funcionamento discursivo (PLANTIN, 2011). Em suma, Ž poss’vel afirmar que a viol�ncia verbal e outras formas de emo�‹o, marcadas linguisticamente nos discursos, s‹o estratŽgias que visam, por meio da elimina�‹o e do descrŽdito lan�ado ao Oponente e a sua tese, provocar a ades‹o de um Terceiro.

Culpeper (2011, p. 23) concebe a viol�ncia ou impolidez lingu’stica como Òuma atitude negativa para comportamentos espec’Þcos ocorrendo em contextos espec’ÞcosÓ. Desse modo, Cunha (2019) aponta que a impolidez envolve a viola�‹o de Ònormas sociais de comportamentoÓ, e o interactante que avalia o comportamento do outro como impolido v�-se na posi�‹o de alguŽm cuja face – Òimagem do eu delineada em termos de atributos sociais aprovadosÓ (GOFFMAN, 1967, p. 5) – foi ofendida. Cabral e Lima (2017) observam que as manifesta�›es de viol�ncia parecem ser mais veementes nos contextos das m’dias sociais. Nessa esteira, Cabral, Marquesi e Seara (2015) afirmam que, nesses contextos, os interactantes se escondem por detr‡s da m‡quina e de perfis fakes, o que lhes assegura a preserva�‹o da identidade e a aus�ncia de risco de agress‹o f’sica. Segundo essas autoras, as redes sociais d‹o aos usu‡rios maior liberdade para expor pontos de vista pol�micos e, atŽ mesmo, para agredir outros. Na mesma dire�‹o, Graham e Hardaker (2017) observam que o anonimato pode garantir a muitos usu‡rios a possibilidade de serem mais sinceros e, por vezes, mais agressivos.

Como j‡ apresentado acima, Ž objetivo deste artigo Ž estudar a pol�mica em coment‡rios do v’deo Eju Orendive, do grupo de rap ind’gena Br™ MCÕs, postados no Youtube. Dentre os coment‡rios realizados e as respostas a ele direcionadas, escolhemos, para an‡lise, o coment‡rio com mais engajamento, ou seja, o coment‡rio que obteve maior nœmero de respostas. Esse corpus, por sua vez, comp›e o corpo deste artigo, por meio de imagens, de prints da tela do Youtube. A partir dessa materialidade, buscamos, ent‹o, desvelar como se constroem, nesse contexto, os aspectos da modalidade argumentativa pol�mica, isto Ž, a dicotomiza�‹o, a polariza�‹o e a desqualifica�‹o. Ademais, nos empenhamos em mostrar como, nesse caso, a desqualifica�‹o do discurso e da figura ou do grupo que representa o Oponente se desdobra em discursos (im)polidos e atravessados por viol�ncia verbal. Em outras palavras, a seguir, debru�amos esfor�os sobre as estratŽgias argumentativas e lingu’sticas, a desqualifica�‹o materializada em (im)polidez e viol�ncia/agressividade verbal (xingamentos, ironia e amea�a), utilizadas pelos usu‡rios durante essa intera�‹o virtual.

 

A pol�mica em coment‡rios do videoclipe Eju Orendive

 

O Youtube Ž uma m’dia social, fundada em 2005, que tem como funcionalidade principal o compartilhamento de v’deos gratuitos entre os usu‡rios da rede. Os v’deos ali postados podem ser compartilhados em outras m’dias sociais, bem como podem receber ÒlikesÓ ou ÒdislikesÓ; essa mesma fun�‹o, tambŽm, est‡ dispon’vel para os coment‡rios. Os coment‡rios[31], por sua vez, dependendo dos temas que circulam pelo v’deo em quest‹o, se tornam um espa�o aberto para o debate em que os usu‡rios exp›em livremente seus posicionamentos. A partir do momento em que um coment‡rio Ž postado, outras pessoas t�m a op�‹o de respond�-lo refutando ou defendendo a opini‹o que foi exposta. Nessa esteira, Amossy (2017) destaca que as redes sociais constituem a pra�a pœblica do sŽculo XXI. No entanto, nessa pra�a, de acordo com Cabral e Lima (2017), o que pauta as intera�›es Ž mais o conflito do que a harmonia. Dessa forma, o Youtube, apesar de n‹o ter como foco principal a discuss‹o, tornou-se uma arena prop’cia ˆ argumenta�‹o pol�mica, em que um Proponente prop›e uma tese que Ž atacada por um Oponente, diante de um audit—rio.

O Youtube se destaca por ter se tornado uma plataforma requisitada para o lan�amento e para a divulga�‹o de videoclipes de grandes nomes e de nomes em ascens‹o (KLICKPAGES, 2019). O videoclipe da mœsica Eju Orendive, do grupo de rap ind’gena Br™ MCÕs, foi postado na m’dia no dia 28 de setembro de 2010, no canal Cufatvddos. A produ�‹o (Captura de Tela 1 e Captura de Tela 2) Ž composta por imagens dos integrantes do Br™ (Bruno Veron, Clemersom Batista, Kelvin Peixoto e Charlie Peixoto), da etnia Guarani-Kaiow‡, vestidos ˆ moda dos rappers americanos (com bonŽs, cal�as largas e camisetas), bebendo cerveja, pintando os rostos com urucum e cantando seus versos rimados sobre o cotidiano das aldeias que habitam, Jaguapirœ e Boror—, localizadas na cidade de Dourados, oeste do Mato Grosso do Sul. As aldeias Jaguapirœ e Boror— constituem um espa�o interpelado por mil’cias, formadas pelos pr—prios ind’genas, ataques de diversas ordens devido a quest›es de demarca�‹o de terras e pela aus�ncia da seguran�a pœblica. De acordo com levantamento da Procuradoria[32] da Repœblica de Dourados, nessas terras, a taxa de homic’dios foi de 101,1 por 100 mil habitantes, entre os anos de 2012 a 2014. No Brasil, a taxa mŽdia Ž de 29,2 homic’dios por 100 mil habitantes

                        Captura de Tela 1                                       Captura de Tela 2

 

      Fonte: Youtube, 2020.                                             Fonte: Youtube, 2020.

Isto posto, buscamos, a seguir, desvelar como a pol�mica e os componentes que a constituem (polariza�‹o, dicotomiza�‹o e desqualifica�‹o), em conson‰ncia com Amossy (2017), se constroem pelo coment‡rio e pelas respostas escolhidas para a an‡lise. Dessa forma, Ž nosso objetivo mostrar, tomando como ponto de partida essa materialidade lingu’stica, a partir do conceito da dicotomiza�‹o, como duas opini›es divergentes se excluem mutuamente. Enquanto isso, no tocante ˆ polariza�‹o, trazendo ˆ tona o funcionamento dos papŽis da argumenta�‹o (PLANTIN, 2008), buscamos esbo�ar como se posicionam o Proponente e o Oponente, ou seja, delimitamos quais discursos o Proponente defende e o Oponente refuta. Seguindo esse caminho, esmiu�amos o motivo pelo qual os interactantes utilizam a desqualifica�‹o do discurso do advers‡rio e da figura ou do grupo que o representa. Nesse sentido, mostramos como a (im)polidez e a viol�ncia verbal, em conson‰ncia com Culpeper (2008), por meio de ironia, palavr›es, xingamentos e amea�a, s‹o utilizadas, nesse contexto pol�mico, como estratŽgias argumentativas e lingu’sticas, diante de um Terceiro.

Dito isso, analisando a materialidade lingu’stica de Eju Orendive[33], Ž poss’vel detectar discursos relacionados a religi›es crist‹s: Ò[...] Sempre pe�o a Deus / Que ilumine o seu caminho / E o meu caminhoÓ; ao racismo: Ò[...] Voc� n‹o consegue me olhar / E se me olha n‹o consegue me ver / [...] Aquele boy passou por mim / Me olhando diferenteÓ; ˆ viol�ncia: Ò[...] Por que n—s matamos e morremos? / Em cima desse fato a gente canta / êndio e ’ndio se matando / Os brancos dando risadaÓ; a um desejo por mudan�a e por equidade: Ò[...] Vamos mostrar para os brancos / Que n‹o h‡ diferen�a e podemos ser iguaisÓ; e ao rap como experi�ncia art’stica de resist�ncia: ÒAqui o meu rap n‹o acabou / Aqui o meu rap est‡ apenas come�ando / Eu fa�o por amor / Escute, faz favorÓ.

Os coment‡rios que s‹o aqui analisados foram publicados h‡ 5 anos. Para desvelar como a modalidade argumentativa pol�mica sobre eles se desdobra, utilizamos prints da tela do Youtube, e, por quest›es Žticas da pesquisa, omitimos a identidade dos usu‡rios. O coment‡rio abaixo recebeu 17 likes, nenhum dislike e 56 respostas:

Print de Tela 1 (Excerto 1)

Fonte: Youtube, 2020.

A partir de ent‹o, mostramos como os usu‡rios materializam suas opini›es caminhando para um cen‡rio de dicotomiza�‹o e de polariza�‹o, ou seja, para uma situa�‹o em que os pontos de vista se excluem e apontam para um ÒeuÓ diante de um Òn—sÓ. Dessa forma, para iniciar a an‡lise, apontamos como o posicionamento do Proponente, aqui, tambŽm chamado de Usu‡rio 1, Ž constru’do. Tra�ando esse caminho, a partir do coment‡rio Òêndios, querendo sempre mais terras demarcadas para viver como pessoas que n‹o s‹o ’ndios. Faz um rap com esse tema bombaÓ, fica evidente que o Usu‡rio 1 se posiciona, explicitamente, contra uma das quest›es centrais para os povos ind’genas, que Ž a demarca�‹o. Nesse sentido, ao afirmar que os ind’genas querem terras para Òviver como pessoas que n‹o s‹o ’ndiosÓ, o Usu‡rio 1 desvela que sua opini‹o, extremamente racista, est‡ atrelada a uma imagem cristalizada, estereotipada, acerca dessas identidades e, dessa forma, ele desconsidera Òas trajet—rias de viol�ncia outras que levaram, quase sempre de forma compuls—ria, as sociedades e os povos ind’genas ˆs suas formas de vida atuaisÓ (NASCIMENTO, 2018, p. 1421).

As primeiras respostas, direcionadas ao Usu‡rio 1 j‡ confirmam, por sua vez, a insurg�ncia de uma situa�‹o de oposi�‹o, ou seja, de dicotomiza�‹o, caracter’stica imprescind’vel, de acordo com Amossy (2017), para a modalidade argumentativa pol�mica. A dicotomiza�‹o, aqui, por sua vez, aparece atrelada ˆ desqualifica�‹o do discurso e da figura do outro, por meio da (im)polidez ou viol�ncia verbal, como mostramos a seguir, a partir do Excerto 2.

Print de Tela 2 (Excerto 2)

 

Fonte: Youtube, 2020

Na primeira resposta, Òfica caladinhoÓ, o conflito come�a a ser delineado por meio da desqualifica�‹o, caracter’stica tambŽm essencial para a pol�mica de acordo com Amossy (2017), direcionada ao Usu‡rio 1 e ao seu argumento. O fato de o Usu‡rio 1 ter respondido Òn‹o to afimÓ mostra, no entanto, que ele mantŽm a inten�‹o de n‹o aderir ao posicionamento do outro e, dessa forma, a dicotomiza�‹o, ou seja, a presen�a de ideias antitŽticas, come�a a se constituir. Na resposta seguinte, a desqualifica�‹o Ž delineada pela (im)polidez, a partir de estratŽgias lingu’sticas, ou seja, a partir das escolhas lexicais pelos termos ÒbabacaÓ e Òot‡rioÓ, por parte do Usu‡rio 3, que imprimem ˆ intera�‹o um car‡ter violento. Nesse momento, cabe aqui ressaltar que a (im)polidez verbal Ž uma estratŽgia utilizada pelo locutor para angariar a ades‹o do audit—rio, no entanto, ela n‹o Ž obrigat—ria para a qualifica�‹o de dada modalidade argumentativa como pol�mica (CULPEPER, 2011; AMOSSY, 2017). Esse movimento de ades‹o, porŽm, pode ser, inicialmente, desvelado a partir dos likes que a resposta recebeu, sendo que 19 usu‡rios clicaram nessa op�‹o. Ademais, considerando o que j‡ foi exposto acerca da intera�‹o, Ž poss’vel observar a transpar�ncia de uma situa�‹o polarizada, uma vez que o Usu‡rio 1 comp›e o campo Proponente, pois, diante dos discursos que circulam no v’deo, ele exp›e sua tese e os Usu‡rio 2 e Usu‡rio 3 comp›e o campo Oponente, pois responderam ao Usu‡rio 1, apresentando uma posi�‹o contr‡ria (PLANTIN, 2008).

AtŽ esse momento, no entanto, o posicionamento do Oponente fora demonstrado de modo impl’cito por meio da desqualifica�‹o materializada em viol�ncia verbal. A tese oposta, que se apoia no fato de as terras ind’genas serem deles um direito adquirido, come�a a ser, efetivamente, discursivamente constru’da, a partir dos coment‡rios a seguir:

Print de Tela 3 (Excerto 3)

 

Fonte: Youtube, 2020.

No excerto 3, o Usu‡rio 4, do campo Oponente, inicia a constru�‹o de uma tese contr‡ria ˆ do Usu‡rio 1, ao apontar que a demarca�‹o Ž um ato de repara�‹o hist—rica, uma vez que os povos ind’genas s‹o os donos origin‡rios dessas terras (ÒA terra Ž deles por direitos! Eles estavam aqui antesÓ). O Usu‡rio 1, por sua vez, destaca que a defesa de uma posi�‹o se d‡ em fun�‹o da falta de informa�‹o, assim, desqualificando e descreditando a tese oposta (ÒO que mais chama a aten�‹o Ž a falta de informa�‹o dos que me criticam porque falei a verdadeÓ). Nesse momento, ao afirmar que as ONGs ÒgringasÓ se filiam ˆ luta pela demarca�‹o, porque t�m interesses econ™micos relacionados ˆ explora�‹o das terras ind’genas, ele lan�a m‹o de um discurso alinhado ao discurso da extrema direita, embasado em fake news, que come�ava a se inflamar pelo pa’s (ÒAs demarca�›es est‹o criando um outro pa’s dentro do Brasil, comandado por ONGs gringas que s— querem explorar nosso pa’sÓ). Esses coment‡rios foram realizados h‡ 5 anos, em 2015, ano em que o pedido de impeachment da presidente Dilma Rouseff, filiada ao PT (Partido dos Trabalhadores), partido considerado de esquerda/centro-esquerda, foi acolhido pela C‰mara dos Deputados. A partir de ent‹o, como assinalado por Amossy (2017), Ž poss’vel perceber como a pol�mica nos revela fatos sobre o contexto s—cio-hist—rico de um momento espec’fico em dado espa�o f’sico.

O confronto direita vs. esquerda, tambŽm, veio ˆ superf’cie nesse espa�o discursivo, como Ž poss’vel perceber nos coment‡rios a seguir:

 

Print de Tela 4 (Excerto 4)

Fonte: Youtube, 2020

 

No Excerto 4, os Usu‡rio 1 e Usu‡rio 6 se posicionam imprimindo descrŽdito ˆ opini‹o alheia, sendo que, para tanto, se utilizam do recurso argumentativo da desqualifica�‹o que, nesse caso, adquire as faces da (im)polidez e agressividade verbal que se materializa por meio dos recursos lingu’sticos do palavr‹o e da ironia. O Usu‡rio 6, do campo Oponente, na tentativa desqualificar o Usu‡rio 1, chama-o de Òcria bolsonaristaÓ, dando a entender que, de acordo com sua perspectiva, ser esse um motivo de desdŽm (ÒPerder tempo com cria bolsonarista? Nem fodendoÓ). Aqui, a op�‹o pelo recurso lingu’stico do palavr‹o (nem fodendo) imprime o tom de (im)polidez ˆ comunica�‹o.

O Usu‡rio 1, em resposta, elabora um argumento, debru�ando-se no recurso da ironia, tambŽm muito empregado pela direita conservadora, que diz respeito ao fato de as pessoas de esquerda serem contradit—rias por fazerem o uso da tecnologia (ÒFalou o usu‡rio de internet que tem conta no Google e falam mal dos capitalistas...Ó). O racioc’nio, por eles utilizado, Ž de que as pessoas de esquerda s‹o socialistas e n‹o devem usufruir da tecnologia que Ž uma ferramenta criada pelo capitalismo. Isto posto, o Usu‡rio 7, do campo Oponente, surge no espa�o discursivo e utiliza como estratŽgia argumentativa a desqualifica�‹o da tese advers‡ria por meio apresenta�‹o de fontes externas, apresentando um link do site Pragmatismo Pol’tico. Nesse caso, a ironia d‡ o tom de (im)polidez e evidencia que essa intera�‹o n‹o Ž pac’fica, mas, sim, agressiva, intolerante. Um n‹o quer convencer o outro. Os interactantes virtuais buscam vencer uma ÒbatalhaÓ, diante de um Terceiro.

 

 

 

 

Print de Tela 5 (Excerto 5)

Fonte: Youtube, 2020.

 

No excerto 5, Ž poss’vel observar mais uma vez a desqualifica�‹o materializada em (im)polidez em a�‹o. O Usu‡rio 8, no in’cio de sua exposi�‹o, se refere ao seu opositor chamando-o de Òan‡cefaloÓ e, dessa forma, alŽm de atingir o outro, ele atinge tambŽm a tese advers‡ria, dando a entender que somente uma pessoa sem cŽrebro defenderia esse posicionamento. O Usu‡rio 1, em resposta, caminha pelas mesmas trilhas e desqualifica a imagem do Oponente ao se expressar de maneira (im)polida e agressiva, utilizando uma express‹o pejorativa: Òburro ignorante de merdaÓ. Ademais, ainda nessa seara, ele acusa o Oponente de se esconder por tr‡s de um perfil fake. Dito isso, ele faz o uso da estratŽgia da corre�‹o gramatical/ortogr‡fica para desqualificar a tese oposta e, para endossar o descrŽdito, ele finaliza a resposta fazendo uma amea�a velada ao advers‡rio (ÒO correto Ž acŽfalo seu burro ignorante de merda, fake de araque que nem coragem de colocar o nome tem! [...] Um nick de merda desses... Onde vc mora? Quem sabe eu possa ter a oportunidade de te mostrar minha mao maciaÓ).

O Usu‡rio 8, diante desse cen‡rio de impolidez lingu’stica e amea�a, revela que a viol�ncia verbal Ž inerente a pessoas fracas que precisam atacar as outras, diante da escassez de argumentos. (ÒT’pico Perde o argumento, apela para a fraqueza da amea�a. Mostra bem a que veio. FracoÓ). Isto posto, o Usu‡rio 1, irredut’vel diante de seu posicionamento, se empenha mais uma vez em desqualificar o usu‡rio por meio de palavras com sentido pejorativo e palavr‹o como ÒburroÓ e ÒmerdinhaÓ e da express‹o Òmach‹o da internetÓ.

A partir de ent‹o, Ž poss’vel perceber que os dois grupos polarizados – de um lado, aqueles que legitimam o rap ind’gena como uma arte de resist�ncia, os considerados de esquerda, e, do outro, os usu‡rios de direita, que, por meio de discursos preconceituosos e baseados em estere—tipos, deslegitimam os direitos desses povos – se empenham na constru�‹o de argumentos opostos, interpelados por (im)polidez lingu’stica, aqui, materializada em palavr›es, ironias e amea�a, porŽm n‹o chegam a um consenso, pois a prefer�ncia por esses recursos tem como alvo a ades‹o do audit—rio.

 

 

Considera�›es finais

 

A modalidade pol�mica, proposta por Amossy (2017), se caracteriza pela presen�a da dicotomiza�‹o, da polariza�‹o e da desqualifica�‹o, diante de uma situa�‹o conflitual de debate. Nessa situa�‹o, a exposi�‹o de argumentos e de contra argumentos, por parte dos interactantes, n‹o tem como objetivo final um acordo, mas, sim, a ades‹o de um Terceiro, ou seja, a ades‹o de um audit—rio (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005). A partir da materialidade lingu’stica analisada, ou seja, do corpus em quest‹o, percebemos que os participantes dessa intera�‹o, na constru�‹o de seus posicionamentos, diante de um Terceiro, lan�am m‹o de estratŽgias argumentativas e lingu’sticas como a desqualifica�‹o por meio da (im)polidez ou da agressividade verbal, que ganham forma por meio de palavr›es, xingamentos, ironia e amea�a, como tentamos mostrar na an‡lise apresentada.

Tendo em vista as caracter’sticas da modalidade argumentativa pol�mica, Cunha (2019, p. 7) ressalta que, nesse caso, o Òcomportamento violento ou impolido exerce fun�›es importantes, n‹o devendo ser entendido como uma degeneresc�ncia da intera�‹o ou como uma ruptura irracional de acordos, contratos ou quadros que subjazem ˆ intera�‹oÓ (COSER, 1982; LOCHER; BOUSFIELD, 2008). Ademais, para Cabral e Lima (2017), a viol�ncia constitui uma estratŽgia eficaz quando a inten�‹o do locutor Ž desqualificar o interlocutor. Essas autoras destacam, apoiando-se em Culpeper (2011), a import‰ncia de palavras de sentido pejorativo, palavras de baixo cal‹o, entre outras aparecerem de forma marcada no discurso dos interactantes. A viol�ncia se d‡, portanto, pela linguagem, o que endossa o posicionamento de Culpeper (2011) e de Cabral e Lima (2017) a respeito da marca�‹o lingu’stica da impolidez, principalmente, nas redes sociais, onde as intera�›es se d‹o, em maioria, por meio da linguagem verbal.

 

 

Refer�ncias

 

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[Recebido: 22 jul 2020 – Aceito: 19 set 2020]


 

Tamo junto, Favela! A arte perifŽrica como um mŽtodo educacional

 

 

WeÕre in together, Favela! Peripheral art as an educational method


 

 

Ana Carolina de Souza Silva

https://orcid.org/0000-0001-5099-1058

 


Resumo: Neste trabalho, apresentamos alguns resultados de uma pesquisa realizada no[34] Centro de Estudos Lexicais e Terminol—gicos (Centro LexTerm) da Universidade de Bras’lia. TambŽm divulgamos alguns relatos de experimenta�›es vivenciadas em institui�›es educacionais e em casas de cultura do Distrito Federal. A primeira pr‡tica trata de uma experi�ncia educacional e Ž de car‡ter mais cient’fico-especulativo; a segunda envolve, fundamentalmente, a poesia e a performance. Nosso objetivo Ž, a partir da estŽtica art’stica das periferias, verificar estratŽgias eficazes que buscam resgatar uma popula�‹o marginalizada e em condi�‹o de vulnerabilidade, alŽm de tornar acess’veis conteœdos fundamentais em busca de conscientiza�‹o e justi�a social. Dessa forma, constatamos que, mesmo em condi�‹o de subalternidade, o povo perifŽrico n‹o Ž passivo, uma vez que rejeita os saberes do opressor, assim como resgata e forja saberes pr—prios. Pelo exposto, podemos observar a import‰ncia de trabalhar a arte com narrativas e linguagem que contemplem a realidade de falas perifŽricas.

Palavras-chave: Periferia; Linguagem; Arte;  Pol’tica;  Educa�‹o.

 

Abstract: In this work, we present some results of a research carried out at the Center for Lexical and Terminological Studies (LexTerm Center) of the University of Bras’lia. We also publish some reports of experiments experienced in educational institutions and in cultural houses in the Federal District. The first practice deals with an educational experience and has a more scientific-speculative character; the second fundamentally involves poetry and performance. Our objective is, based on the artistic aesthetics of the peripheries, to verify effective strategies that seek to rescue a marginalized and vulnerable population, in addition to making fundamental content accessible in search of awareness and social justice. Thus, we find that, even in a condition of subordination, the peripheral people are not passive, since they reject the knowledge of the oppressor, as well as rescue and forge their own knowledge. From the above, we can observe the importance of working art with narratives and language that contemplate the reality of peripheral speech.

Keywords: Periphery;  Language;  Art;  Politics; Education.

 

 

 

 

 

 

 

Considera�›es iniciais

Minha gera�‹o av— Ž come�o, minha gera�‹o filha Ž meio e minha gera�‹o neta Ž come�o de novo (BISPO DOS SANTOS, 2019, p. 27).

 

Dona Julita, minha v—, nascida no sert‹o da Ema, no munic’pio de Pianc— (PB), Ž uma mulher sisuda de 93 anos. Ela casou-se aos 18 anos para poder sair de casa. Minha bisa, Aurora, foi uma mulher abandonada pelo biso em 1983. Essas mulheres muito t�m a contar, mas trarei foco especial a Dona Julita, pois Ž minha maior inspira�‹o nessa trajet—ria educacional, acad�mica, pol’tica, art’stica, ativista e existencial.

Vov—, a mando de bisa Aurora, teve de abandonar os estudos logo cedo para poder cuidar dos irm‹os mais novos. Mas n‹o s—. As m‹ozinhas pequenas que sonhavam decodificar as letrinhas tiveram que catar bolas de algod‹o para garantir a subsist�ncia da fam’lia. Hoje, vov— conta essa hist—ria com muito rancor e l‡grimas nos olhos. Era 1967 quando ela e o v™ Jo‹o chegam ao Distrito Federal – depois de tentar a vida em S‹o Paulo − e, achando espa�o para existir na capital, se juntam a tantas e tantos outras (os) Severinas (os) nas vilas operacionais em busca do sustento. Foi sustenta�‹o capitalizada. Vov— limpou casas e vov™ ergueu muros.

A maioria dos trabalhadores optou por continuar na regi‹o, mesmo que o plano fosse de que todos retornassem aos seus estados ap—s a constru�‹o de Bras’lia. Nas vilas operacionais, um novo termo foi criado para designar esses trabalhadores: candangos. Segundo Tavares (2009), essa terminologia Ž de natureza pejorativa. O termo ÒcandangoÓ Ž africano (quimbundo[35]); ele foi usado pelos portugueses para se referir aos negros no per’odo colonial. No contexto da constru�‹o de Bras’lia, uma das hip—teses levantadas por Tavares, a partir de sua investiga�‹o, Ž a de que o termo fora inspirado no nome de um cachorro que habitava o Pal‡cio do Catetinho. Tendo Kubitschek sabido disso, chamava os oper‡rios – em especial os nordestinos – de tal forma. Outra hip—tese Ž a de que o termo Òoper‡rioÓ era designado aos trabalhadores de maior prest’gio (como arquitetos e engenheiros) e ÒcandangoÓ ˆ m‹o de obra explorada nas jornadas de trabalho (TAVARES, 2009).

Depois da constru�‹o, nordestinas (os), mineiras (os) e goianas (os) foram erradicados do ÒlarÓ a partir da campanha da senhora Vera Prates[36] e realocados a cerca de 30km de dist‰ncia do centro. Como diria o rapper X, a Ceil‰ndia Ž resultado de Òsangue, suor e l‡grimasÓ[37]; essa fala confirma a dificuldade dos moradores em se estabelecerem na Regi‹o Administrativa – doravante RA. Isso ocorre n‹o somente por serem despejados, contra a pr—pria vontade, de seus lares que ficavam pr—ximos a Bras’lia, mas tambŽm por terem diversas limita�›es que impediam sua dignidade enquanto pessoas. A luta dos candangos que constru’ram a capital foi em prol da garantia de Òum peda�o de ch‹oÓ, como afirma o cantor X.

ÒPau que nasce torno, nunca se endireitaÓ, Ž o que dizem. Com o destino manco, vov— seguia sua travessia ˆs cegas. Como Ž poss’vel uma pessoa analfabeta sobreviver diante de uma cidade urbanizada, diante de uma capital nacional, diante de uma complexa burrocracia? Sem ao menos assinar o pr—prio nome?

Dos destinos que a vida tem, eu, calanga, nasci no cerrado. Vejo a hist—ria de Dona Julita como o ponto inicial para mostrar que pau que nasce torno pode ser modificado e que cada passo dessa peregrina foi essencial para construir uma narrativa diferenciada. N‹o se trata da regra, mas da exce�‹o. No entanto, foram necess‡rias apenas duas gera�›es ˆ frente das de Dona Julita para que o pau fosse forjado em caneta. E caneta ativa.

 

Comunidade e pol’ticas aut™nomas

 

Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas

(MENDES, 2005).

 

Dona Julita e Seu Jo‹o chegaram ao Distrito Federal com seus cinco filhos ainda pequenos. Eles estavam em um territ—rio desconhecido e diante de uma complexa configura�‹o de culturas. O natural Ž que, a tudo que nos pare�a estranho, haja repuls‹o. Mas, mesmo diante da misŽria comum a todos, estava tambŽm um forte instinto de sobreviv�ncia entre esses seres greg‡rios.

Vivemos resqu’cios da coloniza�‹o. Uma das estratŽgias de domina�‹o est‡ em controlar e distribuir de forma desigual os direitos b‡sicos. çgua, alimenta�‹o, saœde, lazer, transporte e educa�‹o s‹o apenas alguns dos direitos garantidos a qualquer cidad‹o em territ—rio nacional, mas essa garantia torna-se ironia quando observamos a realidade. Como bem afirma a poeta Meimei Bastos (2017),

mas, mais ensino mŽdio pra qu�?

se no fundamental os menor j‡ t‹o se perdendo

na falta do professor.

o corre na esquina

Ž o plano de exterm’nio,

manuten�‹o da opress‹o

E como as comunidades sobrevivem diante da neglig�ncia do Estado? Podemos pensar na Ceil‰ndia e na campanha de erradica�‹o que ocorreu em 1970. Ao chegarem ao novo territ—rio, n‹o havia sequer ‡gua encanada dispon’vel para a comunidade, de forma que as fam’lias recorriam a po�os e nascentes, tendo de caminhar alguns quil™metros carregando baldes de ‡gua na cabe�a. A Caixa dÕçgua, monumento da cidade, Ž um marco hist—rico para a RA, pois foi sinalizada como um direito ˆ cidadania.

A nossa sociedade n‹o Ž igualit‡ria. Os direitos s‹o escolhidos a alguns e pincelados nos jogos de privilŽgios. Como afirma a intelectual Sueli Carneiro (2005), essa estrutura social hierarquizada Ž baseada em par‰metros raciais e de classe. Nessa conjuntura, negar a educa�‹o aos marginalizados Ž o trato de manuten�‹o das desigualdades. A educa�‹o Ž a chave de acesso a cidadania, a igualdade, ao mercado de trabalho. Esse plano de exclus›es Ž um plano genocida.

Vov— sobreviveu, mam‹e tambŽm, assim como tantas e tantos outros que n‹o tiveram o direito de estudar. Mam‹e saiu precocemente da escola para poder ajudar financeiramente em casa. Essa hist—ria Ž plural. A maioria na Ceil‰ndia (34,1%) tem o primeiro grau incompleto. Estou na exce�‹o. Se o desejo foi de mudar a hist—ria desse ciclo peregrino, ele n‹o foi consciente, mas, por ironia ou n‹o, formei-me professora. Pensava eu, desde o trabalho de conclus‹o de curso da gradua�‹o, desde a produ�‹o de minhas poesias para publica�‹o, em cortar o problema pela raiz. E, nessa constitui�‹o, compreendo-me comunicadora. Arte-educadora. Gri™.

ƒ na conclus‹o de curso que decido trabalhar com um grupo pouco explorado no Instituto de Letras da Universidade de Bras’lia: os quilombos. Mas n‹o relatava os quilombos rurais, tradicionalmente conhecidos pelas pr‡ticas ancestrais, a cultura de subsist�ncia e o modo alternativo de viver uma economia em comunidade. Tratava do quilombo em um espa�o urbano, com maioria negra vivendo, tambŽm, a partir do esp’rito de comunidade. Esse territ—rio Ž chamado favela, periferia, quebrada, gueto. Nesse ’nterim, eu escolhi meu quilombo, a Ceil‰ndia.

Chamar a periferia de quilombo Ž resgatar uma simbologia de resist�ncia e luta. Nesses espa�os, alguns dispositivos s‹o utilizados a fim de garantir a resist�ncia e sobreviv�ncia diante da condi�‹o de despejados. O que na periferia representa fortemente essa luta Ž a cultura Hip Hop[38]. Para nossa pesquisa, focamos em um elemento: o rap. Ao longo da investiga�‹o, percebia que os cantores traziam analogias da Ceil‰ndia enquanto um espa�o de resist�ncia, tendo como refer�ncia o quilombo. Esse aquilombamento ocorre quando a periferia se identifica como um corpo negro escravizado em busca de liberta�‹o. A exemplo, vejamos a letra do grupo ceilandense Sobrevivente de Rua:

Pois somos um desde a Revolta dos Mal�s

A uni‹o do povo em um povo s—

Quando existir o que vai reduzir o opressor a p—

Um salve a todos os levantes, insurgentes, populares

N—s somos um desde o Quilombo dos Palmares[39]

Esse material precioso foi utilizado como mŽtodo de educa�‹o lingu’stica em minha experi�ncia acad�mica. Escolhi uma escola[40] de Ensino Fundamental II para pensar o contexto urbano de Ceil‰ndia em uma perspectiva quilombista[41], uma vez que essa tomada de consci�ncia contribui para apropria�‹o do termo dentro de uma nova concep�‹o, uma transforma�‹o na l’ngua. Isso porque, com a transforma�‹o lingu’stica, h‡ expressamente uma modifica�‹o nas pr‡ticas e cultura do povo. Levar materiais como letras de rap que valorizam a cultura, os saberes, a realidade e a particularidade lingu’stica de uma comunidade, ent‹o, contribui para a conscientiza�‹o e emancipa�‹o de um povo.

Quando os saberes de um povo s‹o negados, desmoralizados e inferiorizados, culturas s‹o mortas. Em contraposi�‹o, quem est‡ no lugar de domina�‹o tem seus saberes supervalorizados, e quem quer que queira sobreviver diante do caos social deve seguir as regras de quem Ž posto como senhor. Vov— n‹o estudou, como consequ�ncia, muito pelejou. Mam‹e n‹o concluiu a educa�‹o b‡sica e teve sŽrias consequ�ncias no mercado de trabalho. Minha gera�‹o (filha) precisou de cada passo das ancestrais para segurar um diploma de educa�‹o superior. Muito foi superado, mas Ž imposs’vel seguir essa trajet—ria sozinha.

A no�‹o de comunidade dentro das favelas faz com que n—s, os moradores, a partir do que temos, contribuamos uns com os outros. Seja o p‹o, uma roupa em desuso, um dinheirinho para a passagem, um conhecimento e ombro amigo, essa dan�a coletiva Ž fundamental para a exist�ncia de nossos territ—rios marginalizados. O que eu tinha em m‹os era o conhecimento formal, uma veia art’stica latejante e a necessidade de distribuir a consci�ncia pelas esquinas de meu quilombo. Felizmente, na Ceil‰ndia, a cultura Ž pulsante. Espa�os como o Jovem de Express‹o, a Casa Akotirene e o Sarau VA s‹o ambientes que disponibilizam atividades culturais para nossa comunidade. Em todos esses locais, h‡ o momento do palco aberto, ocasi‹o em que o microfone e o palco est‹o dispon’veis para que pessoas compartilhem sua arte, seja ela a poesia, a mœsica, a dan�a, ou mesmo uma fala de consci�ncia.

Foi no palco aberto que permiti que minha arte fosse publicada. AtŽ ent‹o, n‹o me entendia como artista, mas era bom ver a rea�‹o das pessoas ao ouvirem minha palavra que, a princ’pio, muito t’mida, queria dizer algo. Muitos artistas relatam que a oportunidade de compartilhar sua arte cura. Comigo n‹o foi diferente. Mas quanto mais eu pegava no microfone, mais sentia o peso da responsabilidade em minha fala. Como costumamos dizer, o microfone Ž como uma arma. Com essa consci�ncia, procurava e ainda procuro elaborar poesias e performances que estejam de acordo com a justi�a social, que denunciem as mazelas cometidas, sobretudo, contra a popula�‹o negra e que elevem nosso povo no sentido de contribuir com nossa autoestima.

Dessa forma, a poesia Ž uma arma sutil de combate, Ž um livro, Ž consci�ncia. ƒ no microfone que quebro o sil�ncio de gera�›es. Digo o que as minhas de antes n‹o puderam dizer e desafio o opressor a refletir sobre seu lugar. O sil�ncio Ž adoecedor. Ele Ž imposto em qualquer rela�‹o hierarquizada, seja chefe e empregado, professor e aluno, pobre e rico, branco e preto, homem e mulher. Quem quebra o sil�ncio cura a si e aos ouvintes que se identificam com o conteœdo da fala. Quanto mais representativas forem a forma e conteœdo da fala, mais pol’tica e comunit‡ria se torna a a�‹o do verso.

A linguagem Ž perifŽrica, o conteœdo Ž desalienante. Portanto, busco relatar um mundo que n‹o corresponda aos padr›es capitalistas, patriarcais e crist‹os, para quebrar com a hegemonia colonial europeia. ƒ preciso contar a hist—ria por outra perspectiva. Chimamanda Ngozi Adichie j‡ nos chama a aten�‹o do perigo da hist—ria œnica. Como ela afirma, Òmostre um povo como uma coisa, uma coisa s—, sem parar, e Ž isso que esse povo se tornaÓ (ADICHIE, 2009, p. 12).

A hist—ria do Brasil Ž contada de forma que o povo pindor‰mico[42] e o povo africano s‹o carregados de preconceitos. Para Adichie (2009), os estere—tipos s‹o problem‡ticos por serem concep�›es incompletas que tomam nossa dignidade, nossa humanidade. Os r—tulos que carregamos s‹o de selvagens, inferiores, desumanizados, bestiais, ignorantes, coitados, tutelados, sœditos. Quanto a isso, j‡ nos chama a aten�‹o o mestre quilombola Ant™nio Bispo dos Santos:

No plano individual, as pessoas afro-pindor‰micas foram e continuam sendo taxadas como inferiores, religiosamente tidas como sem almas, intelectualmente tidas como menos capazes, esteticamente tida como feias, sexualmente tidas como objeto de prazer, socialmente tidas como sem costumes e culturalmente tidas como selvagens. Se a identidade coletiva se constitui em di‡logo com as identidades individuais e respectivamente pelos seus valores, n‹o Ž preciso muita genialidade para compreender como as identidades coletivas desses povos foram historicamente atacadas (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 37).

O argumento do colonizador, ao atacar a cultura de povos afro-pindor‰micos, Ž o de que Žramos (e ainda somos) um povo sem hist—ria, sem civiliza�‹o. ƒ preciso questionar qu‹o equivocado o conceito de civiliza�‹o pode ser. Ser‡ mesmo que uma rela�‹o de explora�‹o com a terra e seus recursos naturais, assim como uma rela�‹o violenta com povos e animais que habitam a terra pode ser constitu’da como civiliza�‹o? O desequil’brio na produ�‹o e no consumo configura civiliza�‹o? Escrever configura civiliza�‹o?

Ao que diz respeito ˆ hist—ria, s— tem direito ˆ sua quem tem o dom’nio da escrita. No senso comum, a hist—ria do Brasil come�a em 1500, quando o colonizador come�a a escrev�-la com uma —tica vampiresca e distorcida. A escrita ser‡ o saber que legitima a concep�‹o de desenvolvimento. Por traz desse quiproqu— est‡ uma estratŽgia perfeita que autoriza a domina�‹o de uns sobre outros. N‹o basta que os saberes leg’timos sejam brancos, masculinos e crist‹os (ou seja, eurocentrados), tambŽm devem ser escritos? O grafocentrismo nada mais Ž do que uma pol’tica genocida de l’nguas e culturas de povos que n‹o correspondem ao povo europeu.

A linguagem que utilizamos na periferia Ž diversa. Gosto de como a intelectual LŽlia Gonzalez a categorizava, colocando-a como o pretogu�s, que Ž esse portugu�s da gente, sincretizado, modificado, Ž a Òmarca de africaniza�‹o do portugu�s falado no BrasilÓ (GONZALEZ, 1988, p. 70). O signo Ž latino, mas a ess�ncia Ž carregada de pindoramas e africanidades. Essa linguagem Ž o nosso pretogu�s e nos representa. Ela est‡ viva. Concluo este t—pico com a sabedoria de Bispo, quando diz:

Muitos s‹o os autores que escreveram sobre a trajet—ria dos povos afro-pindor‰micos e sobre a sua import‰ncia para a hist—ria do Brasil. Portanto, o que vamos falar pode ser encontrado em v‡rias bibliografias. Poder’amos aqui fazer refer�ncias a v‡rias delas, mas n‹o ser‡ necess‡rio, porque a trajet—ria desses povos transp›e qualquer texto cient’fico ou liter‡rio. Ela Ž vis’vel e palp‡vel materialmente e pode ser sentida imaterialmente, tanto quando olhamos para o passado e fazemos refer�ncia aos nossos ancestrais, como hoje quando visitamos as comunidades da atualidade e dialogamos com as suas organiza�›es e manifesta�›es culturais (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 38).

 

A arte perifŽrica engajada

 

Miss‹o cumprida ent‹o palmas pra n—is mesmo
Periferia a’ palmas pra n—is mesmo
A todos os maloqueiros palmas pra n—is mesmo
[43].

A can�‹o acima Ž do grupo de rap Viela 17. Trata-se de rap da Ceil‰ndia, rap de quebrada, rap que salva vidas. O rap, o funk, o samba, s‹o sons que ecoam em periferias como a Ceil‰ndia; s‹o educadores de um povo. Como diriam Cidinha e Doca, ÒO povo tem a for�a, precisa descobrir / Se eles n‹o fazem nada, faremos tudo daquiÓ[44]. Mas qual a import‰ncia de considerar tal discurso dentro das periferias? ƒ poss’vel que essas narrativas contribuam na educa�‹o formal?

A arte da periferia Ž engajada. A tomada de consci�ncia dos moradores Ž vivida na pr‡tica ao sentirmos, no cotidiano, a aus�ncia do Estado. A representatividade nos espa�os de poder Ž m’nima, se pensarmos em termos estat’sticos. Maioria negros, maioria mulheres, maioria pobres, e essa maioria continua a ocupar os espa�os minorizados. No entanto, como j‡ mencionado anteriormente, a periferia se mantŽm pela coletividade e esp’rito de luta. Como bem j‡ declarava o professor Abdias do Nascimento:

A continuidade dessa consci�ncia de luta pol’tico-social se estende por todos os Estados onde existe significativa popula�‹o de origem africana. O modelo quilombista vem atuando como ideia-for�a, energia que inspira modelos de organiza�‹o din‰mica desde o sŽculo XV. Nessa din‰mica quase sempre heroica, o quilombismo est‡ em constante reatualiza�‹o, atendendo exig�ncias do tempo hist—rico e situa�›es do meio geogr‡fico (NASCIMENTO, 2019, p. 282).

Um exemplo muito evidente disso Ž a escritora negra Carolina Maria de Jesus e suas denœncias dentro de um minœsculo quarto de despejo. Os quartos de despejo s‹o mœltiplos, as denœncias mais ainda, plurais e singulares, pois, como diria Gog, Òperiferia Ž periferia em qualquer lugarÓ[45]. Os males daqui s‹o como os de l‡. Nas dores nos encontramos, tra�amos estratŽgias e sobrevivemos. TambŽm nos encontramos nos amores de sermos verdadeiramente coletivos, soci‡veis.

Nas periferias do Distrito Federal, h‡ diversas vozes, sobretudo de mulheres negras, que s‹o muito inspiradoras. Essas vozes s‹o est’mulos para a luta de emancipa�‹o de um grupo t‹o marginalizado. Apesar dos recortes de cor e g�nero, Ž poss’vel crer que, com o empoderamento da base, toda uma estrutura pode ser melhor equilibrada. Isso porque o modelo triangular hier‡rquico social pressiona os que est‹o no topo (homens brancos, hŽteros, cat—licos, ricos) a ceder, voluntariamente ou n‹o, espa�o ˆs (aos) que est‹o chegando. Estamos chegando e, como diz a can�‹o de BKÕ, Rael, Emicida, Rincon Sapi�ncia, Djonga e Mano Brown, Òo cŽu Ž o limiteÓ:

Melhor irem se acostumando
V‹o ter que se adaptar
Os pretos com o din gastando
Sem se preocupar
E pra contrariar seus planos
Nas grades n‹o vamos ficar
Unidos, se fortificando
Ei, quem vem l‡[46]

Consideramos did‡tica essa arte que se manifesta como instrumento de luta e discurso ideol—gico: a arte dos ocultos. Um bom exemplo de mission‡ria nas periferias do Distrito Federal Ž Meimei Bastos. Ela Ž poeta, atriz e arte-educadora, idealizadora do Slam[47] Quebrada. O trabalho de Meimei se estende a todos os cantos da capital. Das periferias aos espa�os de poder, tive a oportunidade de acompanhar esse encargo enquanto poeta em locais como o Imagin‡rio Cultural (Samambaia), o Complexo Cultural (Samambaia), o CCBB (Plano Piloto), a Universidade de Bras’lia (Plano Piloto) e o Jovem de Express‹o (Ceil‰ndia).

O Slam Quebrada me deu a oportunidade de competir no campeonato nacional (Slam BR) em dezembro de 2018. Essa foi uma porta aberta para que eu me lan�asse enquanto poeta e performer. Na disputa nacional, percebo que a multiplicidade discursiva no Slam BR Ž impressionante e o esp’rito de luta Ž quase uma regra. A maioria dos participantes s‹o negros e negras de periferias de 18 estados brasileiros. Vejo nesse evento uma forma de disseminar a literatura da quebrada que ecoa em vozes desocultadas.

Esse movimento Ž pol’tico e aut�ntico. A linguagem Ž representativa e busca o reconhecimento, a alteridade. Em meu trabalho enquanto poeta e arte-educadora, procuro levar comigo mulheres como Meimei Bastos e Thabata Lorena, para citar alguns exemplos. Abaixo, segue um trecho do poema de Meimei Bastos (2017, p. 19) que utilizei no projeto Parada Sociocultural[48]:

aqui, no cumprimentar

n—s olha nos —i,

d‡ bom dia pra tia,

pro menor na quina,

pra mina da padaria,

pro tio do verdur‹o.

n‹o tem bisu errado,

n‹o tem de querer ser,

pois n—s

j‡ Ž

Outro projeto o qual tive a oportunidade de participar foi o bip – bRASêLIA iNSPIRA pOESIA[49]. Foram selecionados poemas de artistas do/no Distrito Federal que falassem, em suas narrativas, sobre como Ž viver nessa regi‹o; como resultado, foi publicada uma antologia poŽtica. Para alŽm da publica�‹o, foram idealizados saraus para que artistas e seus poemas fossem apresentadas (os) ˆs escolas pœblicas nas regi›es administrativas Cruzeiro, Candangol‰ndia e Nœcleo Bandeirante. Paralelamente, trabalhei como poeta e mestre de cerim™nias, o que me deu a oportunidade de uma intera�‹o mais ’ntima com as (os) alunas (os). Sempre que as (os) questionava se gostavam de poesia, elas (es) diziam que n‹o. Essa resposta autom‡tica Ž o reflexo da ideologia que se tem de que poesia Ž literatura de elite, dif’cil de ser compreendida, chata, entre outros estere—tipos. Mas bastava que eu perguntasse se as (os) alunas (os) gostavam de rap e a grande maioria levantava as m‹os em alegria.

A palavra rap advŽm da sigla em ingl�s rhythm and poetry[50] (ritmo e poesia), ou seja, a poesia est‡ nos emaranhados do rap. Recursos como mŽtrica, rima e linguagem figurada podem ser facilmente encontrados nas can�›es. A exemplo, a cantora e compositora Thabata Lorena:

Eu n‹o sou a tal, nem sou aquela

Sou mais uma menina que sobe a favela

S— pago um pau pra ela

Minha ama de leite

Favela[51]

Enquanto educadora, s‹o essas as narrativas que considero primordiais no processo de ensino e aprendizagem nas periferias. Dentro da cultura das quebradas, a l’ngua Ž carregada de particularidades e as express›es utilizadas pelos falantes s‹o, cotidianamente, aceitas nos contextos de fala.

A forma altamente violenta e impositiva do colonizador, ao chegar nesse territ—rio nacional, desconsiderou todo o saber ancestral e cultural de povos pindor‰micos e africanos. Essas marcas se apresentam na contemporaneidade. Afro-pindor‰micos s‹o sempre colocados ˆ margem e s‹o inferiorizados dentro das rela�›es verticais na sociedade. Sobretudo, ˆs mulheres negras, foram atribu’das as fun�›es maternas. Somos as m‹es de toda uma popula�‹o, cuidamos de nossos filhos e dos filhos alheios nas casas de luxo. Temos um papel primordial de base e, por sermos base, somos desqualificadas.

Eu, mulher negra e perifŽrica, m‹e, procuro quebrar esse ciclo. De vov— analfabeta, de m‹e domŽstica: filha educadora. Eu educo a favela com poesia e denœncia. De qualquer forma, reconhe�o que trabalhar com jovens de escola pœblica de periferia Ž desafiador e extremamente delicado. Reflito sobre os dados da Infopen[52] divulgados em 2014, que destacam que o perfil da popula�‹o carcer‡ria Ž constitu’do por 31% de cativos entre 18 e 24 anos, sendo 67% de cor negra; e 53% t�m o Ensino Fundamental incompleto. A maioria dos crimes cometidos Ž por tr‡fico (27%) e roubo (21%), sendo o tempo total das penas da popula�‹o prisional condenada entre 4 e 8 anos (26% dos casos). Por isso, em meu processo de conclus‹o na gradua�‹o, a escolha por uma institui�‹o de Ensino Fundamental na Ceil‰ndia n‹o foi ocasional.

A escola selecionada fez parte de meu hist—rico escolar. Enquanto ceilandense e negra, pude vivenciar pr‡ticas de exclus‹o na institui�‹o quando cursara o Ensino Fundamental II. Compreender a experi�ncia vivida nessa pesquisa, no caso, dependeu da combina�‹o com experi�ncias passadas. Diante da profiss‹o que tive possibilidades de exercer, posso perceber a responsabilidade social que carrego. Voltar ˆ Ceil‰ndia, agora em condi�‹o de professora, Ž retribuir todo o conhecimento adquirido em minha caminhada.

Observo o material did‡tico dispon’vel, que Ž decepcionante. A gram‡tica tradicional ainda Ž a mais utilizada na institui�‹o. Essa gram‡tica Ž de car‡ter preconceituoso em rela�‹o ˆs variantes que fogem do padr‹o do portugu�s e tem a necessidade de estabelecer par‰metros em busca de um uso idealizado da l’ngua, ocorr�ncia arcaica que se inicia desde os gregos antigos (MARTELOTTA, 2016, p. 45).

Esse atributo se reflete atŽ hoje em nossa l’ngua. Sempre que se aponta um portugu�s ÒerradoÓ Ž por estar fora dos padr›es de um portugu�s idealizado e elitizado, chamado portugu�s culto. Se observarmos mais criticamente, Ž averigu‡vel que a quest‹o da erudi�‹o da l’ngua est‡ ligada ˆs rela�›es de poder. Efetivamente as classes altas s‹o as que t�m mais contato com estruturas ÒcorretasÓ (MARTELOTTA, 2016, p. 47) e, portanto, s‹o tambŽm as classes com mais oportunidades e privilŽgios.

Para compreender o funcionamento da l’ngua, Ž preciso assimil‡-la ao contexto com o todo (MARTELOTTA, 2016, p. 63). Trata-se de uma an‡lise mais aprofundada que a gram‡tica faz; trata-se da pr‡xis e, por isso, considero a linguagem perifŽrica essencial e significativa nessa pesquisa.

E onde est‹o, nas escolas, materiais did‡ticos que se relacionam com a realidade dos alunos? Onde est‹o os materiais que acompanham o movimento, a mudan�a, a din‰mica na linguagem deles? Onde est‹o, ao menos, as pr‡ticas que contemplam o universo dos jovens perifŽricos?

Professor, me refiro a voc�: se parar para repensar na sala de aula, perceber‡ o qu‹o desprendido est‡ o material disponibilizado para os aprendizes. E n‹o Ž preciso refletir muito profundamente para compreender que suas pr‡ticas tambŽm est‹o. ƒ vulgar e desumano culpar apenas a institui�‹o de ensino, assim como o material did‡tico. O ju’zo come�a olhando para si mesmo, no qu‹o compromissado socialmente est‡ ao entrar em uma sala de aula para come�ar esse culto, que Ž o ensinamento.

 

Considera�›es finais

 

a real Ž que eles t�m medo

do formigueiro se ati�ar,

da gente se armar de conhecimento.

eles t‹o ligado que quando n—s

respirar n—s,

eles morrem sem ar

(BASTOS, 2017, p. 47).

 

A voz da periferia Ž som que ecoa e cura. N—s falamos, e a tradi�‹o da oralidade vem dos de antes, de ontem. Dandara falou, Carolina Maria de Jesus falou, minha av— falou. Hoje eu falo. As pr—ximas falar‹o. ƒ sentando no ch‹o e ouvindo que aprendemos. A minha arte Ž a palavra. AtravŽs dela me curo, curo os de antes, curo quem vir‡. E a partir dessa cura, procuro ser uma refer�ncia de ancestral curada.

O corpo que se move na favela Ž um corpo pol’tico. Mover-se Ž um ato pol’tico em si. Se pensarmos sobre as estratŽgias genocidas, quando nos movimentamos, estamos agindo contra a colonialidade exterminadora. Cada corpo Ž um arquivo, pois contŽm mem—ria, contŽm hist—ria, contŽm narrativas.

Como a palavra por si s— n‹o d‡ conta, a performance vai ecoar na vibra�‹o de cordas vocais. ƒ no grito, Ž no rito, Ž no canto, Ž nas louva�›es. A performance mostrar‡ o potencial de toda essa oralidade que carregamos em nossa mem—ria, em nosso DNA, em nossos costumes que o colonizador foi incapaz de exterminar. Se estamos vivos, algo deve ser aprendido conosco. E o lixo fala, e numa boa, fala muito bem[53]. Todo mundo se entende, e com isso estamos sobrevivendo, vivendo, mantendo nossa hist—ria.

Como diriam Bernadino-Costa e Grosfoguel (2016), mesmo em condi�‹o de subalternidade, n‹o somos sujeitos passivos, uma vez que podemos rejeitar os saberes do opressor, assim como resgatar e forjar nossos pr—prios saberes. Que busquemos, n—s, os favelados, enaltecer nossos conhecimentos, produzir e compartilhar saberes, elevar nossa autoestima.

Vov— Ž minha escola. Mam‹e Ž minha escola. Homens e mulheres educadores que passaram em minha trajet—ria s‹o minha escola. A terra Ž minha escola. A mœsica Ž minha escola. A periferia Ž minha escola. Nossa fala Ž ancestral, tem poder, objetivos e Ž coletiva, org‰nica[54]. Nosso saber Ž vivo. Sigamos juntos. Subamos juntos. Tamo junto, favela!

 

Refer�ncias

 

ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma hist—ria œnica. S‹o Paulo: Editora Schwarcz, 2009.

 

BASTOS, Meimei. Um verso e Mei. Rio de Janeiro: Mal�, 2017.

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BISPO DOS SANTOS, Ant™nio. As fronteiras entre o saber org‰nico e o saber sintŽtico. In. Tecendo redes antirracistas: çfricas, Brasis, Portugal / organiza�‹o Anderson Ribeiro Oliva. 1» ed. Belo Horizonte: Aut�ntica Editora, 2019.

 

BISPO DOS SANTOS, Ant™nio. Invas‹o e coloniza�‹o. In: _________. Coloniza�‹o, quilombos: modos e significados. Bras’lia: Instituto Nacional de Ci�ncia e Tecnologia de Inclus‹o no Ensino Superior e na Pesquisa – INCTI, 2015, p. 25-46

 

CARNEIRO, A. Sueli. A constru�‹o do outro como n‹o-ser como fundamento do ser. 2005. 339 p. Tese de doutorado (Doutorado em Educa�‹o). Universidade de S‹o Paulo. S‹o Paulo.

 

GONZALEZ, LŽlia. A Categoria Pol’tico-Cultural de Amefricanidade. Revista Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, n. 92/93, p. 69-82, 1988.

_________. Racismo e sexismo na cultura brasileira. Revista Ci�ncias Sociais Hoje. Anpocs, 1984, p. 223-244.

 

MARTELOTTA, M‡rio Eduardo. Conceitos de gram‡tica. In: _________. Manual de lingu’stica. S‹o Paulo: Contexto, 2016, p. 43-70.

MENDES, Roberto. Massemba. S‹o Paulo: Atra�‹o, 2005. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=RQFQXhJJmKU. Acesso em 11 de outubro de 2019.

 

NASCIMENTO, Abdias. Documento 7. In: _________. O quilombismo: documentos de uma milit‰ncia pan-africanista. S‹o Paulo: Editora Perspectiva; Rio de Janeiro: Ipeafro, 2019.

TAVARES, B. Na quebrada a parceria Ž mais forte: Juventude hip-hop: relacionamentos e estratŽgias contra a discrimina�‹o na periferia do Distrito Federal. Bras’lia, 2009. Dispon’vel em < http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/3833/1/2009_BreitnerLuizTavares1.pdf> Acesso: 12 out.2019.

 

TEPERMAN, Ricardo. Se liga no som: as transforma�›es do rap no Brasil. Enigma: S‹o Paulo, 2015.

 

 

[Recebido: 23 jul 2020 – Aceito: 24 set 2020]


 

A pintura Ž um sil�ncio? Ou qual a voz da pintura?

 

 

Is a painting silence? Or whatÕs the voice of a painting?

 

 

Vanessa Tavares da Silva[55]

https://orcid.org/0000-0003-4943-6166

 

 

Resumo: Neste trabalho, examinaremos o processo pict—rico e a pintura a partir da perspectiva que relaciona literatura e oralidade. Para tanto, apresentaremos os procedimentos do artista visual brasileiro Eduardo Berliner em uma de suas pinturas, Leda e o Cisne, com a qual o artista retoma um dos mitos gregos. De modo amplo, tomam-se os estudos da oralidade como o resgate de um ponto fundamental do estabelecimento das rela�›es entre os seres e o mundo, que, embora invis’vel, Ž vigente. Assim, verificar-se-‡, por meio dos desvios estabelecidos nas an‡lises, os procedimentos e a pintura de Berliner como locus de vig�ncia de aspectos prim‡rios da oralidade, assim como quest›es da performance e do mito, trazendo ˆ tona mais uma via de compreens‹o da pintura, sendo ela tambŽm possibilidade de espa�o de resist�ncia ˆ rela�‹o com o mundo somente pela via da raz‹o. Tomamos como base o pensamento de Walter Ong (1998), Paul Zumthor (1993) e Michele Simonsen (1987), entre outros autores, cujas vis›es nos auxiliaram na perspectiva de uma compreens‹o mais ampla sobre a pintura e os procedimentos que a envolvem, dando-nos a perceber a presen�a da oralidade, tambŽm nessa esfera, de modo a ampliar a apreens‹o sobre as rela�›es entre a humanidade e o mundo.

Palavras-chave: Pintura; Oralidade; Desvio; Processo criativo.

 

Abstract: We will examine the pictorial process and painting relating literature and orality. We will address the procedures of the Brazilian visual artist Eduardo Berliner (1978) and one of his paintings, Leda and the Swan (2015), in which the artist takes up one of the Greek myths. Broadly speaking, the studies of orality are seen as the retrieval of a fundamental feature in the establishment of relations between human beings and the world, which, although invisible, is in force. Thus, through the deviations established in the analyses, we will establish Berliner's procedures and painting as the validity locus of primary aspects of orality, as well as issues of performance and myth, bringing to light yet another way of understanding a painting, which is also the possibility of a space of resistance to the relationship with the world only through reason. We draw from the thoughts of Walter Ong, Paul Zumthor and Michele Sominsen, among other authors, whose visions have helped us build a broader understanding of painting and its procedures, giving us insight into the presence of orality, also in this sphere, in order to broaden our perception of the relationship between humanity and the world.

Keywords: Painting; Orality; Deviation; Creative process.

 

 

 

 

Introdu�‹o

 

Os objetos, hoje, objetam. No futuro, objetos e gestos revestir-se-‹o porventura da dignidade perdida. A palavra amor, um peda�o de p‹o, a letra A, deixar‹o assim de ser acidentes mortais da vida quotidiana. Dessacralizados, voltar‹o a ser t‹o decisivos como a mais ’nfima pincelada que o pintor realizou no quadro. E cada uma destas pinceladas revelar‡ a estrutura do mundo.

Ernesto Sousa

O que, no jogo de tens‹o provocado por formas e cores, Ž poss’vel ser ouvido? No presente estudo, desenvolver-se-‡ a tentativa de estabelecer e/ou reconhecer elementos com os quais possamos compreender e apreender a produ�‹o pict—rica do artista brasileiro Eduardo Berliner na esfera do que as perguntas que aqui orbitam permitem como possibilidade de resposta.

O que h‡ como pano de fundo, alŽm das detec�›es dos tra�os de oralidade, Ž a compreens‹o ou o desvelamento do papel da arte (seja ela liter‡ria ou pict—rica) de superar os achatamentos e simplifica�›es advindos do projeto moderno de civiliza�‹o, que privilegia a raz‹o como medida de compreens‹o e defini�‹o de mundo.

A partir da pergunta feita por Ernesto Sousa, que intitula um de seus textos publicado em 1968, Oralidade, futuro da arte?, o autor lan�a, para o futuro, uma perspectiva da totalidade das coisas, de n—s mesmos e dos outros, na qual as rela�›es n‹o mais se dariam a partir de suas funcionalidades e essa possibilidade residiria, possivelmente, na retomada daquilo que foi abandonado ou simplesmente esquecido (SOUSA, 2011 p. 41-42). Foi a partir da pergunta do autor que surgiram as duas indaga�›es que intitulam este texto num aparente paradoxo. O pr—prio estudo se dar‡ como possibilidade de resposta, ao evidenciar o existente que n‹o Ž percebido pela via do vis’vel: a oralidade.

 

 

Eduardo Berliner e os pontos disparadores para a investiga�‹o

 

O artista tem uma produ�‹o que passa a figurar no cen‡rio nacional e internacional desde meados de 2008, ano da aquisi�‹o do Pr�mio CSI Marcantonio Vila�a. Depois disso, foi convidado para expor na 29» Bienal Internacional de S‹o Paulo, em 2010, e tem mantido uma produ�‹o constante, participando de importantes mostras e exposi�›es individuais e coletivas, dentro e fora do pa’s.

A perspectiva adotada para o engendramento das quest›es levantadas se d‡, tambŽm, a partir do car‡ter processual, algo evidente na pintura do artista em quest‹o. Embora o car‡ter processual seja inerente a toda e qualquer produ�‹o, n‹o necessariamente art’stica, referimo-nos aqui ˆ sua evid�ncia como mais uma das pistas que reiteram o sentido de determinadas obras. Num breve retrospecto, notamos no Romantismo, que negava fatores como a racionalidade e a representa�‹o, o aparecimento do car‡ter processual e tomamos como exemplo as pinturas de Turner (1775-1851). No Impressionismo, o car‡ter processual passa a ganhar mais evid�ncia e n‹o nos faltam exemplos, como as pinturas de Monet (1840-1926), Renoir (1841-1919) e Morisot (1841-1895). Seguimos nos deparando com a evid�ncia da processualidade nas obras ao longo de outros movimentos art’sticos, assim como nas Vanguardas Art’sticas Europeias do in’cio do sŽculo XX e, do mesmo modo, seguimos com esta detec�‹o para momentos importantes como a Action Painting norte-americana na dŽcada de 1950, movimento que nos direciona para a ideia de performatividade como um dado do aspecto processual na pintura.

O ponto de partida para este estudo envolve o que o pr—prio artista diz sobre seu processo em v’deos recentes sobre sua produ�‹o. Neste ponto, estabeleceremos rela�›es entre algumas de suas falas e aspectos da oralidade, advindos do pensamento de Walter Ong e de Paul Zumthor. Em seguida, faremos o paralelo entre a pintura, em linhas gerais, desde o processo e a evid�ncia da processualidade em sua materialidade, atŽ as possibilidades de frui�‹o e a performatividade, segundo Zumthor, estabelecendo a ideia de jogo como uma estrutura ampla. Por fim, a partir da pintura Leda e o Cisne, organizaremos, em princ’pio, uma leitura formal para, a partir dela, seguirmos evidenciando, com mais amplitude, suas possibilidades de sentido.

 

 

Pintura como g�nero: desvio

 

A pintura Ž um sil�ncio? O modo mais comum e restrito de resposta, ou seja, a partir de um olhar meramente funcional, seria: sim, a pintura n‹o fala. Ela nasce como pintura, para ser pintura e, portanto, atua nessa esfera da linguagem, a da visualidade. A essa possibilidade de explica�‹o, Ž necess‡ria a abertura da superf’cie de compreens‹o, sendo a pintura, tambŽm, algo que comp›e o mundo, faz parte do campo gerador de sentidos numa din‰mica que pode nos levar ˆ totalidade das coisas, na qual os sentidos se interpenetram, s‹o atravessados uns pelos outros e se complementam. Neste estudo, ser‡ restitu’da ˆ pintura a face que a compreens‹o de mundo, apenas pela via da raz‹o, abrevia.

Para tanto, a ideia de desvio ser‡ dada pela tomada de emprŽstimo da concep�‹o de romance de Bakhtin (1998) para ent‹o encontrarmos na pintura de Berliner, por essa mesma via, as marcas da oralidade prim‡ria a partir do pensamento de Walter Ong (1998). Para Bakhtin: Òo romance Ž o œnico g�nero por se constituir, e ainda inacabado. [...]. A ossatura do romance enquanto g�nero ainda est‡ longe de ser consolidada, e n‹o podemos ainda prever todas as suas possibilidades pl‡sticasÓ (BAKHTIN, 1998, p. 397). A ideia Ž a de nos atermos a um tipo de pintura ˆ qual essa defini�‹o caiba, salientando a prematuridade de tom‡-la como definitiva, j‡ que a presente pesquisa n‹o toma como base um amplo aspecto investigativo. Por ora, com base na extens‹o deste estudo, a converg�ncia entre a concep�‹o de romance de Bakhtin e uma poss’vel defini�‹o pict—rica, se dar‡ a partir do que Nicolas Bourriaud indica como um dos pontos de conquista da pintura moderna e que, na concep�‹o do autor, Ž fundamental para a compreens‹o das rela�›es entre arte e vida na contemporaneidade; segundo ele,

A primeira luta da pintura moderna consistiu, evidentemente, em conquistar sua autonomia expressiva, mas tal reivindica�‹o n‹o passava do prelœdio de uma luta de morte contra a nova ideologia do trabalho: a arte moderna se d‡ pelo objetivo de constituir um espa�o dentro do qual o indiv’duo possa finalmente manifestar a totalidade de sua experi�ncia e inverter o processo desencadeado pela produ�‹o industrial, a qual reduz o trabalho humano ˆ repeti�‹o de gestos imut‡veis numa linha de montagem controlada por um cron™metro (BOURRIAUD, 2011, p. 13).

O que nos leva a compreender a pintura como espa�o de acontecimentos que n‹o s‹o previamente calculados, como uma atividade n‹o submetida a uma l—gica decorrente de opera�›es correlatas a outros tipos de trabalho e que, no limite, converge com um modo de conceber a vida, ligado aos movimentos nela engendrados, pr—ximo das experi�ncias vividas. ƒ neste ponto que se inicia a possibilidade de deslocamento daquilo que Walter Ong evidencia como pr—prio do modo como se d‡ a formula�‹o do conhecimento na cultura oral, pois

Na aus�ncia de categorias anal’ticas aperfei�oadas, que dependem da escrita para organizar o conhecimento distante da experi�ncia vivida, as culturas orais conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento como uma refer�ncia mais ou menos pr—xima ao cotidiano da vida humana, assimilando o mundo estranho, objetivo, ˆ intera�‹o imediata, conhecida de seres humanos (ONG, 1988, p. 53).

Esse aspecto mais direto nos aproxima da concep�‹o de totalidade, distanciando-nos de designa�›es e, portanto, do modo, apenas, funcional das coisas. Ainda assim, tudo pode ÒfuncionarÓ, mas a diferen�a, nesse sentido, reside na intera�‹o com a amplitude de possibilidades que n—s, os outros, as coisas e toda a sorte acontecimentos, portanto, oferecem cotidianamente de modo direto e n‹o previamente calculados. Num movimento de maior amplitude, podemos nos reencontrar com a Òdignidade perdidaÓ, conforme Souza (2011) aponta.

 

 

Sil�ncio

 

No caso de Berliner Ž a consci�ncia da intransponibilidade entre o diz’vel e o vis’vel (entre a compreens‹o oral e a coisa em si) que far‡ que ele busque outra sintaxe visual, cuja narrativa vai impregnar a imagem n‹o mais pela ideia da forma como f™rma, mas atravŽs da forma que se transmuta constantemente pela metamorfose.

Marcio Doctors

 

Em um v’deo, Eduardo Berliner fala sobre o tempo em seu processo de prepara�‹o para o trabalho. Para ele, a pintura tem in’cio antes mesmo que algo passe a figurar em suas telas, que, em geral, s‹o de grandes dimens›es. Nessa extens‹o de tempo, o artista fala sobre o cessar gradativo dos di‡logos internos e do ru’do do mundo, que passam a dar lugar ao processo como agente e, assim, segue na constitui�‹o pict—rica. Segundo o artista: Òa partir de um ponto o processo age como coautor; o processo conta uma hist—ria em paralelo, que n‹o Ž linear [...] Ž uma pinturaÓ. Sobre parte de seu repert—rio, ele comenta: Òcostumo trabalhar coletando, registrando minhas percep�›es do mundo: coisas que eu vejo, coisas que eu ou�oÓ[56].

Dado esse est‡gio, o que se instaura em suas pinturas s‹o elementos do mundo, os que o artista coleta no transcorrer dos dias, assim como os que residem em sua mem—ria. A partir da movimenta�‹o processual e do sil�ncio no ato criativo, esses elementos se reorganizam na tela, seguindo a ordem constitutiva da linguagem. Estabelecem-se, ent‹o, novos jogos de sentido.

As vozes cotidianas dispersam as palavras no leito do tempo, ali esmigalham o real; a voz poŽtica os reœne num instante œnico – o da performance –, t‹o cedo desvanecido que se cala; ao menos, produz-se essa maravilha de uma presen�a fugidia mas total. [...]. A voz poŽtica Ž, ao mesmo tempo, profecia e mem—ria [...]. A mem—ria, por sua vez, Ž dupla: coletivamente, fonte de saber; para o indiv’duo, aptid‹o de esgot‡-la e enriquec�-la. Dessas duas maneiras, a voz poŽtica Ž mem—ria (ZUMTHOR, 1993, p. 139).

Em coment‡rios sobre seu processo de cria�‹o, notamos que a mem—ria Ž tambŽm um dos grandes agentes e Ž poss’vel observar o paralelo acerca do que Ong (1998, p. 50) nos diz sobre o car‡ter das formula�›es nas tradi�›es orais, j‡ que

N‹o h‡ nada para retroceder fora da mente, pois a manifesta�‹o oral desapareceu t‹o logo foi pronunciada. Por conseguinte, a mente deve avan�ar mais lentamente, mantendo perto do foco de aten�‹o muito daquilo com que j‡ se deparou. A redund‰ncia, a repeti�‹o do j‡ dito, mantŽm tanto o falante quanto o ouvinte na pista certa.

Nesse sentido, poder-se-ia pensar na pintura como um modo de fixar o aspecto fugidio da mente; entretanto, trata-se de uma compreens‹o apressada. Embora estejamos falando sobre aspectos processuais, ou seja, os que antecedem a imagem final, Ž poss’vel tambŽm compreender o car‡ter indeterminado e incerto daquilo que se apresenta na pr—pria pintura. Segundo Blanchot (1987, p. 84), ÒCada obra, cada momento da obra, volta a p™r tudo em quest‹o, e aquele que deve apenas ater-se-lhe, n‹o se atŽm, portanto, a nada. Seja o que for que ele fa�a, a obra retira-o do que ele faz e do que podeÓ. Ou seja, uma pintura pode ser um tipo de experi�ncia diversa a cada vez que com ela nos defrontamos. Assim, conectamo-nos com seu aspecto de totalidade, pois j‡ n‹o nos ver’amos mais, em rela�‹o a ela, a partir de trajetos prŽ-definidos, tendo o aspecto fugidio como uma constante, desde o que antecede o pr—prio processo, atua na processualidade e se faz presente na obra finalizada.

 

 

Pintura e performatividade

 

Como dito inicialmente, a processualidade passou a figurar no campo dos sentidos e nos interessa pens‡-la como um aspecto que guarda em si um dado performativo. De modo bastante elementar, pensaremos no dado performativo como o conjunto dos gestos que geram determinada obra, aqui, no caso, a pintura. Para tanto, tomaremos de emprŽstimo o sentido de performance como jogo de Zumthor. Em suas palavras: ÒA performance Ž jogo, no sentido mais grave, sen‹o no mais sacral, deste termoÓ (ZUMTHOR, 1993, p. 240), e esta defini�‹o implica uma estrutura de compreens‹o mais complexa, que abrange o conjunto de gestos ora mencionados, percept’veis, tambŽm, a partir de uma visualidade.

Em A letra e a Voz, livro publicado em 1993, Zumthor apresenta quest›es relativas ao texto e ˆ imagem, referindo-se ˆs iluminuras, atestando a correspond�ncia e a complementariedade entre as dimens›es visuais e auditivas e, novamente, tomamos tal perspectiva para vislumbrarmos as possibilidades relacionais com a pintura, compreendendo aspectos da recep�‹o na estrutura complexa de jogo mencionada anteriormente:

O di‡logo visualizado, por oposi�‹o ao texto que constitui materialidade em seu lugar, volta-se para a ordem sensorial. Restitui o olho as condi�›es emp’ricas, concretas, das percep�›es ÒnaturaisÓ. O artista n‹o disp›e de meios para fazer escutar a voz; mas pelo menos cita a intencionalidade naquele contexto, confiando ao olho a tarefa de sugerir ao ouvido a realidade sonora (ZUMTHOR, 1993, p. 125).

A respeito das pinturas no modo como hoje as concebemos, Zumthor (1993, p. 125) afirma que a diferen�a de procedimentos entre elas e as imagens medievais reside na Òaus�ncia da narrativa expl’citaÓ. Em outra passagem, o autor relaciona a pintura ˆ oralidade, retomando as palavras de um trovador medieval:

A pintura – explica no sŽculo XIII Richart de Fournival para justificar a ilustra�‹o de seu Bestiaire dÕamour – tem por virtude tornar presentes as coisas comemoradas... como o faz a palavra pronunciada, no momento em que se escuta; o texto de Richart Ž claro e n‹o faz refer�ncia ˆ escritura, mas somente ˆ percep�‹o auditiva. No tri‰ngulo da express‹o, a imagem tem sua parte ligada com a voz. A imagem tambŽm s— se comunica na performance (ZUMTHOR, 1993, p. 127, grifos do autor).

Retomando a no�‹o de desvio, seguimos com o autor no caminho que sugere sua frase: A imagem tambŽm s— se comunica na performance, a partir de suas considera�›es em Performance, recep�‹o e leitura, publicado em 2007, ao nos dizer sobre o olhar versus ler:

O olhar n‹o p‡ra de escapar ao controle, registra, sem distinguir sempre, os elementos de uma situa�‹o global, a cuja percep�‹o se associam estreitamente os outros sentidos. A vista direta gera assim uma semi—tica selvagem, cuja efic‡cia provŽm mais da acumula�‹o das interpreta�›es do que de sua justeza intr’nseca. O latim medieval designava pelo termo signatura o resultado dessa atividade do olho humano. Signatura implica que o olhar transforma em signum o que ele percebeu. O objeto dessa percep�‹o Ž speculum, palavra-chave das culturas medievais: um reflexo emana disto e, como reflexo, exige a interpreta�‹o (ZUMTHOR, 2007, p. 72, grifos do autor).

Embora descreva tal ciclo para falar do que se perdeu em pot�ncia na leitura de um texto simplesmente decodificando-o, saltando a etapa do olhar e indo diretamente para a no�‹o a que corresponde aquele conjunto de caracteres, talvez seja poss’vel, ainda, verificar tal circularidade diante de uma pintura, experienciando-a em sua completude.

A compreens‹o da arte, liter‡ria ou pict—rica, como evento, um acontecimento em meio ˆ vida que nos atravessa em sua complexidade sinestŽsica, que nos recobra sobre as coisas em sua totalidade e n‹o em suas finalidades, como apregoou Ernesto Souza, parece ser inevit‡vel. Faz sentido, ent‹o, recuperar a abertura da defini�‹o bakhtiniana de romance, cujas ra’zes se encontram no modo de vida do medievo (BAKHTIN, 1998) para pensar a pintura, assim como as no�›es zumthorianas medievalistas e prŽ-textuais, recuperando assim o que a autoridade do poder pela racionalidade nos fez esquecer.

 

 

Leda e o Cisne na tradi�‹o da pintura: mito, lenda e tradi�‹o oral

 

Na tradi�‹o oral, haver‡ tantas variantes menores de um mito quantas forem as repeti�›es dele, e a quantidade de repeti�›es pode aumentar indefinidamente.

Walter Ong

Leda e o Cisne foi um tema repercutido com intensidade e Ž poss’vel vislumbrarmos a for�a dessa reverbera�‹o no salto desde a sua origem na oralidade atŽ seus desdobramentos contempor‰neos. Entretanto, este n‹o Ž o modo mais adequado de se perceber a produ�‹o acerca de tal lenda, como um ponto que repercute, sendo ela o origin‡rio de tantas produ�›es em diversos meios, no tempo e no espa�o.

O modo mais adequado reside em, ao percebermos tal produ�‹o como repeti�‹o, voltarmo-nos ao seu princ’pio, ou seja, ˆquilo que, da pr—pria lenda, ressoa na frequ�ncia da vida. Segundo Simonsen (1987, p. 5, grifos da autora), ÒO mito est‡ entre os principais g�neros narrativos populares representados na Europa, juntamente com a gesta ou saga, o conto, a lenda e a anedotaÓ.

O mito, ligado a um ritual, tem um conteœdo cosmog™nico ou religioso. Simboliza as cren�as de uma comunidade, e os acontecimentos fabulosos que ele narra s‹o tidos como ver’dicos. [...]. A lenda, relato de acontecimentos tidos como ver’dicos pelo locutor e seu audit—rio, Ž localizada: as defini�›es de tempo e de lugar integram o relato (SIMONSEN, 1987, p. 6, grifo da autora).

Assim, vemos que a longevidade do tema se deve ˆ constata�‹o da presen�a da cultura oral, em concomit‰ncia ˆ cultura quirogr‡fica, como uma constante, ainda que seja poss’vel notarmos os diferentes n’veis de influ�ncia de uma sobre a outra. E Ž essa const‰ncia, ou seja, a pr—pria vida, que mantŽm ativo o que reside na lenda. Segue abaixo uma breve vers‹o:

OS AMORES DE ZEUS

O rei dos deuses n‹o se dedicava apenas a desgra�ar os homens. TambŽm procurava fazer as mortais felizes, sobretudo aquelas que lhe agradavam... e foram muitas. Embora fosse casado com a deusa Hera, Zeus teve inœmeras aventuras amorosas. Sua leg’tima esposa era ciument’ssima e n‹o gostava nem um pouco das escapulidas do marido. Quando vinha a saber que ele tinha ido visitar uma mortal, ficava louca de raiva. Sua c—lera s— se aplacava quando ela se vingava da mortal ou dos filhos que essa mulher tivera com o deus. Hera estava sempre de olho em Zeus, que fazia de tudo para escapar ˆ sua vigil‰ncia.

Zeus gostava de assumir a apar�ncia de algum bicho a fim de evitar a desconfian�a de suas bonitas v’timas. Usou dessa artimanha para se aproximar da bela Leda. A jovem acabara de se casar com T’ndaro, rei da Lacedem™nia. Zeus se transformou em cisne e, fingindo-se perseguido por uma ‡guia, refugiou-se junto da jovem rainha, que o acolheu em seus bra�os. Aproveitando-se dessa terna prote�‹o, ele se uniu a ela e lhe deixou dois ovos de tamanho incomum. De um nasceram dois g�meos, Castor e P—lux; do outro, duas irm‹s, Clitemnestra e Helena. Essa uni‹o permaneceu secreta, e T’ndaro acreditou que tinha dado quatro filhos ˆ sua jovem esposa (POUZADOUX, 2001, p. 16).

Foram muitos os artistas que retrataram Leda e o Cisne, como Leonardo da Vinci, Tintoretto, Giovanni Boldini, Matisse, CŽzanne e tantos outros. Apesar da pluralidade iconogr‡fica suscitada pelo tema, atravŽs do tempo e de diferentes momentos art’sticos, o destaque Ž para tr�s obras, a partir das quais – Figuras 1, 2 e 3, todas de mesmo t’tulo: Leda e o cisne – ser‹o salientados apenas alguns aspectos para, a partir deles, observarmos, no item subsequente, a pintura feita por Eduardo Berliner. Na obra do franc�s Albert-Ernest Carrier-Belleuse (1824 -1887), escultor franc�s – Figura 1 – temos ainda muito da gestualidade e dos padr›es cl‡ssicos da representa�‹o. Na tela de Vicente do Rego Monteiro (1899-1970), pintor brasileiro – Figura 2 – a din‰mica Ž intensa tanto na espacialidade, quanto nos aspectos pict—ricos, e nos revela, em sua figura�‹o, o car‡ter er—tico da lenda. Em A Leda e o Cisne de Cy Twombly (1928-2011), artista norte-americano – Figura 3 –, nos deparamos com a pura intensidade com que se apresentam os aspectos gr‡ficos, entremeados por delicadas passagens crom‡ticas.

 

Figura 1 – Leda e o Cisne (1870)

Albert-Ernest Carrier-Belleuse, terracota fundida, Altura (sem base): 14 1/2 pol. (36,8 cm), Metropolitan Museum of Art, NY.

 

 

Figura 2 – Leda e o Cisne (1947)

Vicente do Rego Monteiro, —leo sobre tela, 50 x 65 cm.

 

Figura 3 – Leda and the Swan (1962)

Cy Twombly, —leo, l‡pis e crayon sobre tela, 190,5 x 200 cm. MoMA, NY.

 

Leda e o Cisne de Berliner

O erotismo Ž um dos aspectos da vida interior do homem.

Georges Bataille

Figura 4 – Leda e o Cisne (2015)

Eduardo Berliner, —leo sobre mdf, 170 x 170 cm.

 

 

Na pintura de fundo escuro, nota-se a vibra�‹o de uma cena. As pinceladas s‹o marcadas e vigorosas, geram movimento. As figuras, em tons mais claros, saltam em primeiro plano e tal contraste tambŽm gera certa movimenta�‹o. S‹o ao todo – em princ’pio – quatro elementos que brotam do fundo escuro: uma figura humana feminina e tr�s cisnes; um deles de corpo inteiro, cujo bico invade a boca da figura humana, ao mesmo tempo em que Ž segurado por ela pelo pesco�o. Dos outros dois cisnes s— se v� a cabe�a no canto direito e inferior da tela, ambas surgindo de uma massa mais escura e densa. Na figura feminina, h‡ o movimento compositivo das pinceladas, mas, ao mesmo tempo, nota-se a rigidez que beira ˆ figura�‹o de um boneco. Na parte dos cabelos dessa figura, Ž poss’vel enxergar tambŽm a cabe�a de mais um cisne, que, no caso, seria o quarto. Seguindo em observa�‹o por este ponto pelo fundo da tela, d‡ para perceber a continuidade de seu corpo, sugerida pelas nuances disformes do plano escuro. Observando a parte inferior da pintura, na saia de Leda, Ž poss’vel perceber as duas m‹os da figura se tocando pelas extremidades dos dedos, sendo a da direita uma espŽcie de rastro do processo pict—rico, atestando o car‡ter dœbio, j‡ que seria esta a mesma m‹o a segurar a figura de um dos cisnes pelo pesco�o. O car‡ter de dubiedade aparece, pelo menos, duas vezes em toda a pintura.

Um dos aspectos principais da lenda, intensamente explorado nos exemplos anteriores, Ž o er—tico. Ë primeira vista, Ž poss’vel atestar a aus�ncia de tal aspecto na vers‹o de Berliner. Quando o artista fala sobre suas produ�›es, Ž recorrente a afirma�‹o de que, ao sobrepor uma coisa ˆ outra, a pintura n‹o Ž mais sobre nenhuma delas, mas sobre uma terceira coisa.

Ainda assim, ao manter o t’tulo, invariavelmente somos levados ˆ lenda e ao seu teor. Esse Ž o ponto em que somos colocados num jogo com os sentidos, compreendendo e percebendo a pintura para alŽm de seu car‡ter representativo, tal como diz Marcio Doctors ao compreender a produ�‹o do artista: ÒQuando percebi que a quest‹o de Eduardo Berliner na pintura era a radicalidade do vis’vel, entendi, ent‹o, o que me atra’a na sua obra: diante da realidade e do real n‹o h‡ recuo poss’vel. [...] a arte Ž em pot�ncia; n‹o representa nada [...]Ó (DOCTORS, 2015, s. p).

Retomando Ernesto Sousa, pelo menos nessa situa�‹o, Ž como se o objeto n‹o objetasse. N‹o h‡ aqui a representa�‹o do car‡ter er—tico, mas seu pr—prio teor. Na pintura de Berliner, Leda est‡ vestida e de branco, mas, na face escura que percorre o fundo de toda a ‡rea pict—rica, constitu’da por pinceladas densas, vigorosas e agitadas, ela Ž o pr—prio cisne, o cisne, por sua vez, Ž Leda. Eles fundem-se na escurid‹o da tela, no espa�o interdito da pintura. Nessa repeti�‹o do mito, na cena aparecem Òas cren�as de uma comunidade, e os acontecimentos fabulosos que ele narra s‹o tidos como ver’dicoÓ (SIMONSEN, 1987, p. 6). Retornamos, ent‹o, a um ponto do que j‡ foi dito acerca da lenda e do mito, redimensionando-o para o que pulsa no caso de Leda e o Cisne, agora, segundo Bataille:

O erotismo Ž, de forma geral, infra�‹o ˆ regra dos interditos: Ž uma atividade humana. Mas ainda que ele comece onde termina o animal, a animalidade n‹o deixa de ser o seu fundamento. Desse fundamento a humanidade se desvia com horror, mas ao mesmo tempo o conserva (BATAILLE, 1987, p. 62).

Desse modo, o teor er—tico n‹o est‡ representado, como no caso das vers›es da lenda de Monteiro e Carrier-Belleuse; ele Ž o que se apresenta na vertigem e radicalidade dos gestos, na massa densa de tinta espalhada pela tela, na sensualidade de cada pincelada. Apresenta-se, ent‹o, cada elemento, tomando de emprŽstimo o termo de Derrida (apud Deleuze), em seu aspecto ÒfiguralÓ – quando, mesmo n‹o abrindo m‹o da figura�‹o, como foi o caso na vers‹o de Cy Twombly, op›e-se ao figurativo (DELEUZE, 2007). Nesse sentido, a escassez de vida da figura humana, e do mesmo modo no cisne negro, revela o ponto m‡ximo do er—tico, segundo Bataille, a pr—pria morte na fus‹o com o outro, j‡ que ÒO sentido œltimo do erotismo Ž a fus‹o, a supress‹o do limiteÓ (BATAILLE, 1987, p. 85).

 

 

 

Considera�›es finais

 

Qual a voz da pintura? Tudo o que nos atravessa, depreendendo de seu campo e, simultaneamente, convergindo para ele. Esta Ž a sua voz e ela, entre outras nuances, comp›e a esfera da linguagem de uma cultura, ainda que esta se perceba como sendo Òda escritaÓ, nos movimentos mais e menos sutis da vida. O fato Ž que os aspectos da oralidade e da escrita coabitam e, em n’veis distintos, alteram-se mutuamente, num processo cont’nuo de transforma�‹o nas qualidades de ambos. Isso tudo pode ser invis’vel.

Neste estudo, ainda que de modo incipiente, tratou-se de compreender aspectos da oralidade pela via da pintura e isso nos indica a possibilidade de amplia�‹o do campo desses estudos. Ao mesmo tempo, ampliaram-se tambŽm as possibilidades de recep�‹o, compreens‹o e an‡lise do campo pict—rico.

Embora tenhamos considerado uma pintura de Berliner em espec’fico, notamos que, em sua produ�‹o como todo, o artista retrata situa�›es aparentemente banais; no entanto, suas configura�›es – paleta crom‡tica, aspectos gestuais, espacialidade, sobreposi�›es e justaposi�›es – apresentam a radicalidade com que seus temas nos s‹o apresentados, desvelando o aspecto vertiginoso e lim’trofe. Em suas pinturas Ž poss’vel observar estruturas que se repetem, que se sobrep›em, numa formula�‹o visual mais ÒagregrativaÓ do que Òanal’ticaÓ (ONG, 1998). ƒ como se aquilo que sabemos se intensificasse (ou entrasse em xeque) na contund�ncia que ganha ao tornar-se pintura, seja com golpes sutis ou n‹o de presen�a, jogando com o que pens‡vamos ter apreendido do mundo atŽ ent‹o.

Nas p‡ginas finais de A letra e a voz, Paul Zumthor fala sobre a necessidade da quebra do ciclo hegem™nico que a ÒliteraturaÓ passa a exercer na era cl‡ssica, primeiro na Europa e depois na AmŽrica, servindo ao Estado. Contrap›e essa situa�‹o ao papel do texto poŽtico medieval como tendo sido œtil (ZUMTHOR, 1993). Finalizo com suas palavras, compreendendo a equival�ncia da express‹o discurso liter‡rio como correspondente ˆ pintura, assim como as demais formas de arte, quando diz que Ònada impedir‡ o discurso liter‡rio, ainda que contra os sujeitos que o proferem, de visar a uma totalidade, e esta, o mais das vezes, de ser recuperada e identificada a uma OrdemÓ (ZUMTHOR, 1993, p. 284).

 

Refer�ncias

 

BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradu�‹o Antonio Carlos Viana. Porto Alegre: L&M Editores, 1987.

 

BAKHTIN, Mikhail. Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance. In: Quest›es de literatura e de estŽtica: a teoria do romance. Tradu�‹o Aurora Farnoni Bernadini et al. S‹o Paulo: Editora UNESP, 1998. p. 397-428.

 

BOURRIAUD, Nicolas. Formas de vida: a arte moderna e a reinven�‹o de si. Tradu�‹o DorothŽe Bruchard. S‹o Paulo: Martins Fontes, 2011.

 

BLANCHOT, Maurice. O espa�o liter‡rio. Tradu�‹o çlvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1987.

DELEUZE, Gilles. L—gica da sensa�‹o. Tradu�‹o Roberto Machado et al. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

 

DOCTORS, Marcio. Eduardo Berliner | A presen�a da aus�ncia. Rio de Janeiro: Site da Galeria Casa Tri‰ngulo, 2015. Dispon’vel em: https://www.casatriangulo.com/pt/artista/9/eduardo-berliner/texto/137/a-presenca-da-ausencia-marcio-doctors/ Acesso em: 13 ago. 2020.

 

ONG, Walter. Oralidade e cultura escrita: a tecnologiza�‹o da palavra. Tradu�‹o Enid Abreu Dobr‡nszky. Campinas: Papirus, 1998.

 

POUZADOUX, Claude. Contos e lendas da mitologia grega. Tradu�‹o Eduardo Brand‹o. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 2001.

 

SIMONSEN, Michele. O conto popular. Tradu�‹o Lu’s Claudio de Castro e Costa. S‹o Paulo: Martins Fontes, 1987.

 

SOUSA, Ernesto de. Oralidade, futuro da arte? e outros textos. S‹o Paulo: Escrituras Editora, 2011. p. 23-42.

 

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz. Tradu�‹o Am‡lio Pinheiro, Jerusa Pires Ferreira. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 1993.

 

_________. Performance, recep�‹o, leitura. Tradu�‹o Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: Cosac Nayf, 2007.

 

 

V’deos

 

ARTE! Brasileiros - Eduardo Berliner fala sobre ÒCorpo em MudaÓ. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=6DFgwbCWBZc Acesso em: 9 ago. 2020.

 

Trecho do programa de tv sobre arte contempor‰nea, CATçLOGO, de Marcos Ribeiro, dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=YER6ZYUyAFQ Acesso em: 9 ago. 2020.

 

 

Imagens

 

Figura 1 Leda e o Cisne - escultura da cole�‹o do Metropolitan Museum of Art NY. Dispon’vel em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/206819 . Acesso em: 8 ago. 2020.

 

Figura 2 LEDA e o Cisne. In: ENCICLOPƒDIA Itaœ Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. S‹o Paulo: Itaœ Cultural, 2020. Dispon’vel em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2506/leda-e-o-cisne. Acesso em: 8 ago. 2020. Verbete da EnciclopŽdia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

 

Figura 3 Leda e o Cisne de Cy Twombly. Dispon’vel em: https://www.moma.org/collection/works/80083 Acesso em: 10 ago. 2020.

 

Figura 4 A imagem da pintura do artista Eduardo Berliner est‡ em seu portf—lio, publicizado pela Casa Tri‰ngulo, galeria de arte que o representa. O material est‡ dispon’vel em: https://www.casatriangulo.com/media/pdf/EB_portfolio2019.pdf Acesso em: 10 ago. 2020.

 

 

[Recebido: 15 ago 2020 – Aceito: 15 out 2020]

 

 


 

Midiartivismo em Tempos de pipa: mœsica, poesia e arte a favor do ativismos social

 

 

Mediartivism in Tempo de pipa: music, poetry and art as social activism

 

 

Ricardo Oliveira de Freitas[57]

 

 

Resumo: O texto apresenta discuss‹o te—rica e conceitual acerca do fen™meno do midiartivismo, um neologismo formado pelas palavras m’dia, arte e ativismo, que pode ser traduzido como qualquer a�‹o ou iniciativa que faz uso de express›es em arte e recursos de m’dia a favor de uma causa, sempre social e pol’tica, quando exp›e problemas e prioridades de determinado grupo ou comunidade. Para tanto, realiza uma leitura cr’tica da narrativa audiovisual e poŽtica, Tempo de Pipa, de Breno Silva, integrante de coletivos de arte e m’dia atuantes na periferia de Salvador, Bahia. O videoclipe Ž ilustrativo das a�›es midiartivistas e insurgentes que eclodem nas muitas periferias pelo Brasil afora, resultantes da participa�‹o de diversos artistas intimamente ligados a coletivos art’sticos criados nos œltimos anos, alŽm de ser fruto do trabalho colaborativo e do associativismo que integra artistas, eles pr—prios, marcados por tra�os e recortes de minoridade e pelo comprometimento com produ�›es contra-hegem™nicas que inspiram resist�ncia, dissid�ncia e transforma�‹o.

Palavras-chave: Midiartivismo; Coletivos; Tempo de Pipa.

 

 

Abstract: This paper aims to present a theoretical and conceptual discussion about the phenomenon of midiartivism, a neologism formed by the words media, art and activism, which can be translated as any action or initiative that uses expressions in art and media resources in favor of a cause, always social and political, when it exposes problems and priorities of a certain group or community. For this reason, the paper performs a critical reading of the audiovisual and poetic narrative, Tempo de Pipa, by Breno Silva, a member of art and media collectives working on the outskirts of Salvador, Bahia. The video is illustrative of a midiartivist action, since it is a product resulting from the participation of several artists closely linked to artistic collectives created in recent years in the most diverse peripheries throughout Brazil, in addition to being the result of the collaborative work and the associativism that integrates artists, themselves, marked by minority traces and by their commitment to against hegemonic productions that inspire resistance, insurgence, dissent and transformation.

Keywords: Midiartivism; Collectivs; Tempo de Pipa.

 

 

 

Introdu�‹o

 

da boca pra fora reproduzo minha vis‹o

de fora pra dentro nem sempre quem bate esquece

a morte aqui Ž viva

e o otimismo Ž a œltima coisa que aparece[58]

(SILVA, 2020).

 

Em julho de 2020, foi lan�ado o videoclipe do rap mœsica-poesia Tempo de Pipa, de Breno Silva[59]. Seria mais uma das muitas novas produ�›es que alimentam o panorama musical baiano, n‹o fosse o fato de tanto a mœsica como o videoclipe terem sido produzidos atravŽs daquilo que tem tomado corpo entre integrantes de grupos e comunidades desprivilegiadas no Brasil nos œltimos anos: o trabalho colaborativo, o associativismo, a arte e a m’dia a favor da causa social e pol’tica feitas pelas m‹os de muitos sujeitos.

Tempo de Pipa Ž resultado da participa�‹o de diversos artistas intimamente ligados a coletivos art’sticos, tais como o selo BalanÕagulha, o Coletivo PŽ Descal�o e o Corvo Vermelho Produ�›es, que fazem a produ�‹o executiva e a distribui�‹o do trabalho. A pr—pria constitui�‹o do produto Ž caracter’stica da a�‹o de coletivos. Tempo de Pipa Ž composto pelas vozes de Breno Silva e Sued Nunes; pela poesia de Breno Silva; pela fotografia de Gabriel Moreno, Jomar Fonseca e Thiancle Carvalho; pela montagem de Thiancle Carvalho e pela produ�‹o do mesmo Breno Silva e Marvin Pereira.

Meu interesse pelo videoclipe deve-se ao fato de ser produto resultante do trabalho coletivo, isto Ž, ser fruto do fen™meno de prolifera�‹o de coletivos, de grupos de artistas ou de artistas individuais que utilizam recursos de m’dia e express›es em arte para exporem suas causas, tornando pœblicas suas demandas, seus problemas e suas prioridades, quando constroem narrativas contra-hegem™nicas sobre si.

Tempo de Pipa tambŽm Ž ilustrativo da import‰ncia dos coletivos, do trabalho colaborativo, dentro de um projeto de produzir midiartivismo, que vem criando frutos a partir de 2010, em Sussuarana, bairro da periferia de Salvador; num primeiro momento, com a cria�‹o do coletivo M’dia ƒtnica, e, logo depois, com o surgimento do coletivo Sarau da On�a, desfocando a aten�‹o sobre o l—cus tradicional de produ�‹o de cultura e arte na cidade (Orla e Centro) para a regi‹o da Pen’nsula, periferia de Salvador.

O texto ora apresentado, fruto da pesquisa que venho desenvolvendo desde 2017 sobre midiartivismo, presta-se a contribuir para uma discuss‹o te—rica e conceitual acerca do fen™meno, a partir da leitura cr’tica da narrativa audiovisual e poŽtica de Tempo de Pipa. Para tanto, sigo o que foi estabelecido por Penafria (2009), ao assumir que, aqui, n‹o fa�o uma an‡lise audiovisual, mesmo que esse tipo de metodologia apare�a como elemento de apoio ˆ leitura cr’tica e ˆ discuss‹o te—rica e conceitual, que Ž o que realmente veremos.

 

 

Midiartivismo: arte e a m’dia a favor do ativismo social

 

Midiartivismo Ž qualquer a�‹o ou iniciativa que faz uso de express›es em arte e recursos de m’dia a favor de uma causa. O termo Ž um neologismo formado pelas palavras m’dia, arte e ativismo, que, de modo geral, traduz toda produ�‹o em arte que utiliza recursos de m’dia, a fim de tornar pœblica uma ou muitas quest›es de interesse de determinado grupo ou comunidade – quando fala ˆ sociedade e aos seus dirigentes. Por isso, o midiartivismo tambŽm pode ser entendido como uma express‹o pol’tica que toma formas art’sticas e midi‡ticas; ou, ainda, uma express‹o art’stica e midi‡tica que toma forma como a�‹o pol’tica.

Para Rui Mour‹o, arte e o ativismo possuem caracter’sticas distintas. Ao passo que arte Ž da ordem do simb—lico, o ativismo Ž da ordem da realidade – j‡ que intervŽm, mesmo que atravŽs de a�›es simb—licas, diretamente, na vida, na exist�ncia. Ao passo que a arte se constr—i atravŽs de a�›es individuais, devido ˆ preocupa�‹o com as quest›es relativas aos aspectos da autoria, o ativismo Ž sempre uma a�‹o coletiva, feita por muitas m‹os, mentes, corpos e vozes – pois, se a arte reinterpreta o mundo, o ativismo existe para transform‡-lo. Entretanto, como lembra o autor, h‡ muitas zonas de converg�ncia, elos e tra�os de comunh‹o entre uma e outra esfera, como quando tanto a arte como o ativismo Òse posicionam no mundo sonhando com outros mundosÓ (MOURÌO, 2015, p. 54).

Isto Ž, ambos se afirmam segundo uma pr‡xis t‹o idealista quanto idealizada, criando representa�›es que na sua exposi�‹o pœblica pretendem reverbera�›es exteriores ao que efetivamente criam. Algumas dessas reverbera�›es, pela assumida interse�‹o art’stica/ativista, s‹o j‡ chamadas de ÒartivistasÓ (MOURÌO, 2005, p. 54).

A m’dia, o terceiro elemento no tripŽ do midiartivismo, participa, nesse jogo comparativo e dicot™mico, como o elemento aglutinador das disparidades, ao romper e subverter com os limites entre um dom’nio e outro. Afinal, como lembra o mesmo Mour‹o (2015, p. 54):

Come�ando por uma perspectiva alargada, do tipo hol’stico, que entre inclusive em aspetos semiol—gicos, podemos desde logo desestruturar os argumentos categ—ricos que separam as ‡guas entre o dom’nio da arte e o dom’nio do ativismo, colocando quest›es como: Operando arte e ativismo com simbolismos, que fronteira separa o simb—lico que permanece apenas no simb—lico – se tal Ž poss’vel – do simb—lico que intervŽm no real? N‹o ser‡ sempre a partir de intersubjetividades simb—licas – via conceitos, imagens, palavras, objetos ou atos – que tanto procedemos ˆ compreens‹o e representa�‹o (incluindo art’stica), como atuamos no real (incluindo o ativismo)? AtŽ que ponto as diferen�as ao n’vel das categoriza�›es culturais do simb—lico n‹o derivam de meras conven�›es de posicionamento assumido e permitido em cada enquadramento definido num determinado momento e contexto? Enquadramento que sendo definido simultaneamente ao n’vel individual e coletivo – categorias psicoculturais parte e resultado uma da outra –, consequentemente problematiza o que na cria�‹o art’stica Ž produ�‹o individual ou no ativismo se faz apenas pelo coletivo.

O artivismo tem sido, corriqueiramente, traduzido como as express›es que fazem uso do corpo como suporte para expressar ou comunicar, a depender da interpreta�‹o que se faz de determinada a�‹o ativista. Como se concretiza atravŽs de performances, quase sempre ef�meras e moment‰neas, o uso de recursos de m’dia tem sido recorrente. Essas tecnologias (de informa�‹o e comunica�‹o) servem tanto ao registro da iniciativa, ao manterem a imortalidade da a�‹o e performance, como se prestam a elemento da obra em seus termos tŽcnicos, propriamente.

Apesar de tomar como objeto uma obra videogr‡fica, produzida a partir de uma poesia cantada, musicada e interpretada, considero que, Tempo de Pipa n‹o Ž menos uma ode ao corpo e ˆ performance; sendo, ele pr—prio, o v’deo, o corpo que performa e, por isso, m’dia e multiarte.

Ž que n—s t‡ sem sorte desde quando inventaram o termo,

n—s inventa arte enquanto vive pra suportar o medo

que minha escrita desabafa, eu n‹o minto

mas n‹o diz tudo que penso, Ž meu —dio resumido

(SILVA, 2020).

O midiartivismo pode ser entendido como um conjunto de pr‡ticas que se afastam de modos cl‡ssicos do fazer pol’tico institucionalizado. N‹o s‹o coletivos formados a partir da comunh‹o de ideologias, mas, t‹o somente, das articula�›es, negocia�›es, compartilhamentos, afinidades, do amor pela arte e por determinada causa. Ao produzirem arte cr’tica ˆs cl‡ssicas representa�›es divulgadas pela pol’tica institucional, os coletivos e artistas midiartivistas redesenham as no�›es de pol’tica e de mercado.

ƒ um novo mercado que surge no bojo da ascens‹o dos grupos e comunidades subalternizadas e do fortalecimento dos nov’ssimos movimentos sociais, express‹o que tem sido utilizado para nomear recentes mobiliza�›es sociais e pol’ticas com forte repercuss‹o na m’dia[60].

Tanto como os coletivos de arte, os nov’ssimos movimentos sociais caracterizam-se pelas manifesta�›es aut™nomas e apartid‡rias e, por isso, assemelham-se ˆ experi�ncia dos coletivos, no que confere autonomia a seus militantes (PEREZ; SOUZA, 2017).

Esse novo mercado tambŽm considera a efemeridade da obra e sua perpetua�‹o atravŽs de uma obra de Òsegunda m‹oÓ, no mais das vezes, atravŽs do registro da a�‹o ou performance.

No caso de Tempo de Pipa, como ocorre com a poesia e com a mœsica, de modo geral, a obra se perpetua atravŽs do videoclipe que comp›e uma outra obra – agora, acrescida de elementos visuais que participam do conjunto estŽtico e semi—tico constituintes da pauta tema central da obra basilar.

No caso espec’fico da a�‹o pol’tica, o midiartivismo se afasta das formas institucionalizadas do fazer pol’tico ao promover encontros regidos menos por raz›es ideol—gicas e mais pelo compartilhamento de emo�›es, sentimentos e prazeres estŽticos. A no�‹o de nova forma de se fazer pol’tica, novos usos de novas e velhas m’dias, novas express›es em arte e um novo mercado art’stico e midi‡tico aponta para a import‰ncia do midiartivismo ao construir novos rumos para as experi�ncias do sens’vel.

Como arte interessada, o midiartivismo produz t‡ticas conceituais, simb—licas e estŽticas, numa perfeita combina�‹o entre arte e pensamento[61]. AlŽm disso, o midiartivismo tem como qualidade o fato de agir no ‰mbito da cultura. Por isso, Ž correto afirmar que as pr‡ticas midiartivistas s‹o sempre interven�›es culturais, assim como pr‡ticas sociais comunicativas, elaboradas por artistas-ativistas[62].

 

 

Coletivos: o associativismo no uso das m’dias radicais alternativas

 

Coletivos s‹o grupos de pessoas que se reœnem, produzem e elaboram a�›es e pensamento em torno de um tema, criando um tipo de associativismo. O termo Ž sempre autodesignativo e se caracteriza pelo fato de traduzir as Ònovas formas de mobiliza�‹o, distantes das organiza�›es burocr‡ticas e hier‡rquicasÓ (PEREZ; SOUZA, 2017, p. 3). Essas mobiliza�›es s‹o tanto sociais como culturais e art’sticas e prezam pela multiplicidade de pautas, pela horizontalidade e pela participa�‹o antiautorit‡ria, liberal, igualit‡ria e progressista.

A presen�a em m’dia Ž outra caracter’stica importante nas a�›es organizadas pelos coletivos. Como precisam expor suas causas junto ˆ esfera pœblica pol’tica, a esfera de visibilidade midi‡tica surge como importante, sen‹o a principal, aliada.

Por isso, Ž correto afirmar que o uso e abuso dos recursos de m’dia Ž uma a�‹o t‡tica para ocupa�‹o da esfera pœblica pol’tica a partir da participa�‹o em sua base ampliada, a m’dia.

A cria�‹o de coletivos n‹o Ž um fen™meno novo, como veremos adiante. Entretanto, a emerg�ncia desses grupos no atual cen‡rio brasileiro e, por que n‹o dizer, global, tem uma particularidade: ela surge no bojo do debate sobre as identidades dissidentes e minorit‡rias, trazido na esteira da alavancada dos estudos Žtnico-raciais, de g�nero, dos estudos da interseccionalidade como sistema de opress‹o, dos estudos queer, dos estudos culturais, dos estudos decoloniais, da amplia�‹o do acesso ˆs TICs (Tecnologias de Informa�‹o e Comunica�‹o), do uso e abuso das m’dias digitais, do expressivo mergulho das sociedades globais na rede mundial de computadores, do fortalecimento dos movimentos sociais, da amplia�‹o do debate LGBTQIA+ na m’dia, da ascens‹o das identidades n‹o bin‡rias, do combate ao racismo como condi�‹o elementar, da positiva�‹o dos guetos, das favelas, morros, corti�os e terreiros, da cria�‹o dos novos e nov’ssimos movimentos sociais. Como afirma Arturo Escobar (2005), esses estudos criam um espa�o enunciativo cujo ponto de coincid�ncia Ž a problematiza�‹o da colonialidade em suas diferentes formas.

John Downing, em entrevista a Patr’cia Cavalli, define m’dia radical alternativa como caracterizada por tipos de m’dias n‹o convencionais. O autor credita ˆs m’dias n‹o convencionais e alternativas o poder de transformar realidades pol’ticas, econ™micas e sociais. A m’dia radical, ainda segundo ele, Ž uma forma de democracia, j‡ que a dignidade do cidad‹o n‹o Ž s— ter direito ˆ educa�‹o e saœde, mas, tambŽm, ˆ arte e ˆ comunica�‹o ou, ainda, ˆ m’dia (CAVALLI, 2009). Nesses termos, Downing apresenta uma defini�‹o muito valiosa do que poder ser considerado uma m’dia – defini�‹o essa que perpassa uma amplitude de suportes, ve’culos, express›es, sensibilidades e experi�ncias estŽticas.

M’dia Ž, entretanto, um conceito bastante amplo para Downing. N‹o apenas o r‡dio, a televis‹o, o jornal e o cinema constituem o universo das m’dias, mas tambŽm as can�›es populares, incluindo a’ a vitalidade da mœsica negra de v‡rios pa’ses; a dan�a afro-americana; o grafite praticado pelas gangues de jovens, principalmente na cultura hip-hop norte-americana, na antiga Uni‹o SoviŽtica e na NigŽria; o vestu‡rio (que ele chama de m’dias t�xteis), sobretudo os trajes mais na Guatemala durante a ditadura militar, as arpilleras das mulheres chilenas durante o regime militar, as colchas sul-americanas usadas como comunica�‹o clandestina, os broches e buttons de lapela; os adesivos de para-choques; o rock de garagem; o teatro popular, incluindo o teatro de rua de nosso Augasto Boal; [...] os filmes e v’deos populares e/ou pol’ticos, incluindo a experi�ncia da TV Maxabomba do Rio de Janeiro; a Internet radical; a tev� comunit‡ria e de acesso pœblico; a culture-jamming (utiliza�‹o desviante dos s’mbolos culturais oficiais como oposi�‹o ˆ finalidade a que se destinam), etc. (MACHADO, 2002, p. 13).

Downing (2002) lembra que muitas m’dias s‹o alternativas. Sobretudo, no que n‹o s‹o controladas por blocos monol’ticos criados por grandes organiza�›es comprometidas com os interesses do capitalismo. Mas, para ser radical, Ž preciso que se manifeste contra as for�as de opress‹o, que permitam que seus usu‡rios possam vislumbrar a liberdade e expressar suas ideias. Ela deve ser, sobretudo, combativa, no que se op›e a um modelo hegem™nico de produ�‹o. Por isso, a m’dia radical alternativa sempre se diferir‡ da m’dia alternativa, pura e simplesmente, j‡ que Ž uma express‹o de subvers‹o, dissid�ncia, dissen�‹o, de questionamento e cr’tica ao status quo, ˆs press›es e constru�›es hegem™nicas. A m’dia radical Ž, pois, sempre contra-hegem™nica.

Por hegemonia, entendo o proposto por Antonio Gramsci, quando penso o midiartivismo como express‹o de arte e m’dia a favor de causas contra-hegem™nicas. Para Gramsci (2004), a hegemonia pode ser definida por um movimento pol’tico majorit‡rio, que preza pela manuten�‹o do sistema capitalista e que organiza a sociedade em torno do dom’nio cultural e da lideran�a mantida atravŽs de —rg‹os de informa�‹o e da cultura. A contra-hegemonia, por sua vez, seria a perspectiva oposta de futuro, que defende o engajamento das massas e a contesta�‹o pelas massas, ao invŽs da subordina�‹o pura e simplesmente.

Nesses termos, o midiartivismo seria um conjunto de a�›es e iniciativas a favor das causas dos grupos e das comunidades n‹o hegem™nicas, minorit‡rias, subalternizadas, desprestigiadas, desprivilegiadas, desfavorecidas – o que nos remete, mais uma vez, ˆ ideia da alternatividade como proposta por Downing (2002).

A ideia de tornar pœblicas causas, problemas e prioridades de determinado grupo ou comunidade coloca em cena a no�‹o de esfera pœblica pol’tica e de visibilidade midi‡tica. Esfera pœblica, como conceito proposto por Habermas (1984), Ž o espa�o social da representa�‹o (pœblica), que deve ser gerido pela argumenta�‹o, discurso, publicidade e privacidade e que funciona como mediador e lugar de conversa e influ�ncia entre o Estado e a esfera privada. A defini�‹o do conceito Ž ilustrativa da import‰ncia da ocupa�‹o dessa esfera, que Ž sempre pol’tica, j‡ que Ž lugar de visibilidade de demandas, da exposi�‹o de problemas e de prioridades. A esfera de visibilidade midi‡tica assume, assim, o importante papel de tornar acess’vel o debate pœblico, funcionando como uma ponte entre sociedade civil, sistema pol’tico, cultura e pol’tica (MAIA, 2002).

 

 

A arte engajada e arte desinteressada

 

A participa�‹o de coletivos de arte e artistas na esfera pœblica e de visibilidade midi‡tica nos afasta da ideia da arte contemplativa, daquela arte que transmite emo�›es, mas que nada diz. TambŽm permite questionar se h‡, de fato, uma arte que nada diz, que Ž puramente contemplativa, mas, n‹o necessariamente comunicativa, interpretativa. Nesse sentido, pode-se afirmar que toda arte, no que fala para fora de quem a produz, do artista, do autor, Ž sempre marcada por tra�os de intencionalidade. Por isso, ouso mesmo dizer que todo fazer estŽtico, toda arte Ž, por excel�ncia, pol’tica, j‡ que est‡ em constante di‡logo com o mundo fora da obra. Por isso, Ž sempre uma arte atuante (MOURÌO, 2015).

Ent‹o sigo no contra-ataque dividindo

com quem soma

multiplicando os versos sem subtrair o que amo

fa�o jus aos que se foram e me inspiro em quem t‡ chegando

(SILVA, 2020).

Essas produ�›es n‹o s‹o inŽditas no cen‡rio brasileiro da arte e da m’dia. Artistas e grupos de artistas integrantes de grupos e comunidades subalternizadas falam das suas prioridades desde h‡ muito tempo, sem considerarmos a cultura popular como a cristaliza�‹o das manifesta�›es do povo sobre a totalidade das inst‰ncias que regem suas vidas. O samba, os grupos de escolas de samba, os nordestinos, o teatro popular etc. s‹o exemplos. Na dŽcada de 1970, express›es mais conceituais de arte, com experi�ncias mais incisivas de grupos de artistas produzindo artivismo com uso do corpo como suporte para a performance, v‹o dando forma ao que hoje reconhecemos como coletivos, ao ocuparem a cena midi‡tica, o mainstream do espet‡culo, o showbusiness, a indœstria cultural, mesmo quando eram alternativos, underground[63]. Mas, a peculiaridade dessas produ�›es e iniciativas Ž que elas ocorrem na esteira do fortalecimento dos movimentos sociais e identit‡rios e da paradoxal amea�a ˆs democracias com a ascens‹o do conservadorismo promovido pela extrema-direita. Por isso, aliadas ao uso de express›es art’sticas nas pr‡ticas pol’ticas contempor‰neas, essas express›es, a�›es, iniciativas revelam-se cr’ticas, questionadoras, expressivas, potentes, revoltosas e insurgentes.

Ao ser utilizada como recurso para promover o ativismo sempre social e, por isso, pol’tico, a arte alcan�a o patamar de arte interessada em oposi�‹o ˆ ideia de arte desinteressada, da arte que n‹o quer dizer nada, da arte que fala por si, da arte pela arte. Por isso, mais uma vez, se transforma em arte engajada, em arte a favor de uma causa, por isso, uma arte pol’tica.

Parte dessas causas n‹o diz respeito apenas ao que est‡ fora da obra, fora da arte. Muitas vezes, Ž a pr—pria express‹o ou linguagem art’stica a merecedora de reconhecimento. Afinal, muitas das express›es que emergem com os coletivos e artistas militantes s‹o express›es, atŽ ent‹o, invisibilizadas. S‹o artistas e coletivos que problematizam as pr—prias linguagens art’sticas, muitas vezes, tradicionais, assim como as normas sobre ser e estar no mundo.

A utiliza�‹o de inœmeras linguagens e plataformas para explicitar, comentar e expressar vis›es do mundo e de produzir pensamento cr’tico, multiplica o espectro do artivismo a partir do qual Ž poss’vel intervir poŽtica e performativamente e construir espa�os de comunica�‹o e de opini‹o no campo pol’tico – arte de rua, a�›es diretas, performances, v’deo-art, r‡dio, culture jamming, hacktivism, subvertising, arte urbana, manifestos e manifesta�›es ou desobedi�ncia civil, entre outras. [...] Que conex›es se buscam entre poŽticas e performances no espa�o pœblico e no ciberespa�o? E de que modo o artivismo encontra no mundo digital um territ—rio amig‡vel para se tornar viral e simultaneamente para se construir como um arquivo de documenta�‹o performativa pol’tica? (RAPOSO, 2015, p. 5).

S‹o express›es que falam das coisas das minorias, dos grupos e comunidades minorit‡rias, desprestigiados, desfavorecidas, desprivilegiadas, subalternizadas, que questionam as for�as hegem™nicas e tudo o que est‡ inclu’do dentro dessas for�as: binarismos, naturaliza�›es, normatiza�›es relativas ao g�nero, ˆs sexualidades, ˆ ra�a, ˆ classe, ˆs religiosidades, aos regionalismos. Por isso, Ž sempre um movimento dissidente, insurgente, j‡ que rompe, quebra com as normas, atŽ ent‹o, vigentes.

A incerteza Ž a aliada mais sincera de quem luta pra viver do pr—prio sonho

O bra�o armado do Estado corrompe

Eles se alimentam do nosso sangue

(SILVA, 2020).

 

 

A arte e a m’dia que educam

 

A pr‡ticas de midiartivismo tambŽm est‹o a favor do ensino e da aprendizagem, da transforma�‹o pela educa�‹o, pela arte educadora. A exposi�‹o de uma causa tambŽm pode ser interpretada com uma aula, como um compartilhamento de informa�‹o, mas, sobretudo, como processo de aprendizagem no qual compet�ncias, habilidades, vis›es de mundo, comportamentos, cren�as, conhecimentos ou valores s‹o transmitidos. Por isso, o midiartivismo Ž sempre uma milit‰ncia formativa e pedag—gica, uma a�‹o e uma pr‡tica educativa.

O midiartivismo reorganiza as no�›es atŽ ent‹o concebidas de arte, das possibilidades de usos da m’dia e, sobretudo, de mercado e pol’tica.

O artivismo se transforma em midiartivismo quando a a�‹o e performance que, na maioria das vezes, somente existem enquanto est‹o sendo realizadas, passam a se materializar atravŽs do registro, quando passam a ser mediadas pelo uso de tecnologias de m’dia (v’deos, fotografias, textos, ‡udio). Nesse sentido, importante chamar a aten�‹o para a import‰ncia da legendagem das performances como orientadoras da frui�‹o, do sens’vel e da experi�ncia estŽtica, fen™meno muito parecido com o que foi pensado por Walter Benjamin (2018) em rela�‹o ˆ legenda das fotografias.

Em Tempo de Pipa, a transforma�‹o da poesia e da mœsica em videoclipe tambŽm chama a aten�‹o para o poder do v’deo de possibilitar a perenidade da obra e para as discuss›es em torno da tradu�‹o da obra como obra de segunda monta – momento em que o debate sobre o registro como elemento de interfer�ncia na obra vem ˆ tona, questionando o status do registro nas performances como recurso de uma metalinguagem ou de uma arte de segunda ordem.

 

 

Tempo de Pipa: poesia musical videografada

 

No caso da mœsica, como em Tempo de Pipa, Ž a letra a norteadora semiol—gica do que se quer dizer, falar para o mundo. N‹o diferentemente de outras express›es, para o caso da mœsica, as imagens, est‡ticas ou em movimento, registros dos shows ou divulgadoras do trabalho, como no caso dos videoclipes e dos ‡lbuns visuais, servem como constru�‹o semi—tica do que se quer anunciar. A favela e sua juventude com tudo o que t�m de negativo e positivo: mazelas, tristezas, alegrias e criatividade.

H‡ uma linguagem Òfavel’sticaÓ em Tempo de Pipa que, de certo modo, une a favela daqui, da Bahia, com as favelas de l‡, do Brasil. Faz parecer que favela Ž uma coisa s—, seja no Rio de Janeiro, seja em S‹o Paulo, seja no Recife, seja em Salvador ou, ouso mesmo dizer, seja no mundo. Afinal, os mecanismos de exclus‹o reservados aos grupos e comunidades desfavorecidas, n‹o por caso, moradores de ‡reas empobrecidas, s‹o parte de um projeto pol’tico nacional, constru’do no seio da cultura fundante do processo civilizat—rio brasileiro. Mas, s— faz parecer, j‡ que, mesmo que haja uma comunh‹o em termos dos problemas e prioridades e, por extens‹o, das causas, h‡ especificidades m’nimas e particulares na favela daqui que s— dizem respeito ˆ favela daqui. Os tra�os de regionalismos tambŽm contribuem para dizer que essa favela que fala para o mundo Ž a favela de c‡, da Bahia. ÒBota ™taÓ, Òfaz mais falta do que babaÓ[64]. Mas, Ž na universalidade particular, traduzida pela escuta dos Racionais, e na recusa ˆ B’blia, tida como universalidade totalizadora, que o poeta diz ter entendido o que Ž divino e humanidade.

minha quebrada foi batizada por nome de bicho

bicho esse que n—s num v� desde o pr—prio batismo

sussuarana Ž veloz por instinto

mas os menino aprendeu a correr ouvindo zuada de tiro

ou da m‹e que t‡ gritando preocupada com o filho

e se cachorro latir de madrugada

tambŽm Ž aviso

(SILVA, 2020).

Tempo de Pipa Ž rap, mœsica-poesia-v’deo para ser ouvido, lido e visto[65].

O v’deo tem in’cio com uma cena em que a pipa est‡ no ch‹o, ou melhor, na laje, no ch‹o da laje. Afinal, Òpra ser pipa, tem que subir na lajeÓ.

O v’deo tem quatro minutos e quarenta e oito segundos de dura�‹o.

A pipa costura o que est‡ sendo cantado, declamado, dito. Ela somente subir‡ no quarto e œltimo minuto do v’deo, quando fecha o videoclipe num enquadramento que toma o rolo de linha, a linha estendida pro cŽu e a pipa solta no ar no meio do casario de alvenaria sem reboco, com tijolos expostos e, ao longe, os conjuntos de apartamentos. A perman�ncia da pipa na laje Ž, assim, o fio condutor da poesia.

Enquanto Breno vai preparando a sua subida, ÒbotanuÓ a sua pipa no ar, o enredo vai se desenrolando. Ora na laje, ora nos becos, escadas e vielas.

O cen‡rio Ž sempre Sussuarana. Breno fala de dentro da comunidade, a partir da comunidade. Ao fundo, ora floresta (morada da on�a que deu nome ao bairro), ora casas de alvenaria, ora os conjuntos habitacionais, tipo os Òb� Žne ag‡Ó – BNH, as Òco‡biÓ – COHAB e os conjuntos habitacionais das caixas e previd�ncias dos sindicatos de trabalhadores, os famosos Òap�Ó – apartamentos, que se espalharam pelo Brasil nos anos de 1960 e 1970.

O cen‡rio do v’deo Ž cr’tica social que combina imagem e poesia. Ouso dizer que mesmo a mœsica d‡ um tom melanc—lico ˆs rimas, fazendo parte dessa combina�‹o. A pipa, nesse sentido, conduz a narrativa n‹o somente atravŽs da imagem, mas, tambŽm, atravŽs da palavra.

Nesse sentido, Tempo de Pipa Ž ilustrativo da iniciativa midiartivista, pois congrega as mais variadas formas e manifesta�›es e express›es art’sticas em articula�‹o com um produto audiovisual, portanto, midi‡tico, promovendo a�›es absolutamente distanciadas das formas institucionalizadas do fazer pol’tico.

ƒ m’dia e arte, midiarte, a favor das causas e das cr’ticas sociais. ƒ arte protesto, n‹o necessariamente panflet‡ria, j‡ que n‹o Ž instrumento de mera propaga�‹o de uma de uma ideologia, mas, sobretudo, manifesta�‹o.

A transforma�‹o da mœsica em videoclipe tambŽm chama a aten�‹o para o poder do v’deo de possibilitar a perenidade da obra e a tradu�‹o da obra como obra de segunda monta – momento em que as discuss›es sobre o registro como elemento de interfer�ncia na obra v�m ˆ tona, questionando o status do registro nas performances como recurso de uma metalinguagem ou de uma arte de segunda ordem.

A distopia retratada tanto na letra como na mœsica (atravŽs da batida e do andamento lentos) e no v’deo (na conjun�‹o entre cen‡rios, tomadas e planos) projeta um futuro descrente em —bvia refer�ncia ao afropessimismo como elemento conceitual marcador e interventor (SEXTON, 2016), recorr�ncia nos discursos sobre a condi�‹o de ser negro e negra no mundo. A rima em que Breno diz: Òbala perdida virou mais, mais que amigo, agora Ž quase, quase, um ente queridoÓ, Ž ilustrativa disso que parece apontar para a desesperan�a. Mas, a pipa que sobe no final do v’deo mostra outra atitude.

Sobre a pipa [...] quando a gente tem a pipa... tem aquela coisa m’tica da inf‰ncia que Ž poder voar. A gente deposita na pipa o que a gente n‹o pode. A pipa pode fazer uma coisa que.... isso d‡ uma ideia de liberdade, nŽ? Poder subir e fazer o que a gente gosta, o que a gente deseja, o que a gente quer, o que a gente merece, entende? Ent‹o, esse lance, nŽ, essa coisa de subir Ž muito mais ligada a isso, entendeu? Por que eu falo: Ôe os pivete sabe que pra ser pipa, tem que subir na laje, sem esfor�o n‹o tem dom, tem que ter coragemÕ, entendeu? ent‹o, Ž nesse sentido, nŽ? Sem esfor�o n‹o te dom, sem for�a de vontade, voc� n‹o vai pra lugar nenhum. ƒ a mesma coisa para colocar uma pipa no ar. Se voc� n‹o fizer esfor�o dela subir, ent‹o... voc� tambŽm n‹o consegue colocar ela no ar (SILVA, 2020)[66].

            Tempo de Pipa, ao combinar cenas em preto e branco com cenas coloridas, d‡ o tom do discurso que marcar‡ produ�‹o audiovisual como oscilando entre a luta a favor da mudan�a e a constata�‹o de que nada mudar‡. Parece pessimista, mas, n‹o Ž. Exemplo disso Ž o fato de apresentar as lajes, os espa�os acima e sobre os telhados. A c‰mera quase nunca est‡ dentro de algum lugar. Seu lugar Ž o espa�o aberto, o ar livre. As lajes e os espa�os acima do telhado muito se assemelham ao des’gnio da pipa: subir. N‹o, necessariamente, para escapar do algo ou alguŽm. Mas, t‹o somente, para chegar ao alto, ao lugar de poder, de prest’gio. A c‰mera, ao optar por tomadas de baixo para cima, refor�a a for�a grandiosa de Breno e Sued, representantes da juventude negra e perifŽrica, que tomam a cena e que mesmo quando parecem cair, sobem. ƒ quase como o trecho da poesia que fala da tia que queria alho para temperar o —dio, mas, acabou cortando cebola e transbordou em l‡grima.

Tempo de Pipa faz isso bem, j‡ que, como a�‹o midiartivista, o v’deo-poesia-musical confere poder e visibilidade ˆ causa da coletividade organizada. Por isso, Tempo de Pipa funciona como m’dia radical alternativa, aos moldes do defendido por Downing (2002) j‡ que informa, comunica e constr—i discursos contra-hegem™nicos.

 

O artista ativista Breno Silva (1) e a cantora Sued Nunes (2) em cenas do v’deo Tempo de Pipa

 

 

 

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=xZlWWOmHwFw

 

 

Conclus‹o

 

Grupos contra-hegem™nicos, atravŽs das mais diversas estratŽgias discursivas e suportes, como as m’dias, com poesia, mœsica e v’deo, promovem um tipo de Òm’dia geral de pequena escala e sob muitas formas diferentes – que expressa uma vis‹o alternativa ˆs pol’ticas, prioridades e perspectivas hegem™nicasÓ (DOWNING, 2002, p. 21).

Ao realizar produ�›es que utilizam poesias, vozes, mœsicas, v’deos e viv�ncias para comunicar pautas, num tipo de estŽtica ativista e insurgente, os coletivos e artistas subvertem normas e ide‡rios cristalizados sobre o que Ž movimento social, arte e m’dia.

A estŽtica da dissens‹o Ž tambŽm a Žtica da resist�ncia, para usar termos caros a Rui Mour‹o (2015). ƒ uma estŽtica ativista e pol’tica. Por isso, o artivismo n‹o se limita apenas ˆs quest›es do ‰mbito da pol’tica, mas, sobretudo, ˆ Žtica e ˆs estŽticas.

Tempo de Pipa, por exemplo, ao fazer midiartivismo, produz, atravŽs do audiovisual e de toda a sorte de express›es de criatividade, estŽtica voltada tanto para o prazer da frui�‹o e entretenimento como para o fazer pol’tico.

ƒ necess‡ria aten�‹o especial a esses novos movimentos e tipos de produ�‹o, frutos da contra conduta e da subvers‹o dos que se munem de armas estŽticas para fazer ecoar suas vozes [...]. O advento da Internet intensifica essas novas configura�›es pol’ticas, mais libert‡rias e n‹o menos eficientes, permitindo o surgimento de novas vozes, que incidem sobre a liberdade de novos corpos e subjetividades. Essa nova forma de fazer pol’tica [...] quase sempre Ž considerada estranha e deslegitimada por quem somente acredita na maneira autorit‡ria e burocr‡tica do fazer pol’tico (FREITAS, 2019, p. 258).

O midiartivismo quebra paradigmas e contribui para o aniquilamento dos discursos excludentes. ƒ m’dia e arte que v�m das quebradas para quebrar paradigmas e revelar a beleza do que foi considerado in—spito por muito tempo, a partir da reitera�‹o e perpetua�‹o de discursos que encontravam respaldo nos meios de comunica�‹o hegem™nicos e nos sistemas institucionalizados cl‡ssicos da educa�‹o. ƒ o levante das dissid�ncias que n‹o permitem que sejam silenciadas e se nutrem de estratŽgias para vencer o apagamento, a marginaliza�‹o e o alijamento. ƒ a arte que Òextrapola os limites do quadro, da moldura e atŽ mesmo das paredes do museu [...] para se instalar na realidade absoluta, na vida cotidianaÓ (FREITAS, 2007, p. 86). ƒ o artivismo que se conecta com seus pœblicos. ƒ o midiartivismo a favor da transforma�‹o, que reestrutura rela�›es de poder e reorganiza as esferas de poder, privilŽgio e prest’gio.

esse poema n‹o tem fim

Ž eterno, eu digo

(SILVA, 2020)

 

Refer�ncias

 

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade tŽcnica. Porto Alegre: LP&M Editores, 2018.

 

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[Recebido: 11 ago 2020 – Aceito: 19 set 2020]


 

Pontes sobre o rio Capiberibe e o mar

 

 

Brigdes over the Capiberibe river and the sea

 

 

Ana Cristina Marinho[67]

https://orcid.org/0000-0003-2645-6113

 

 

 

Resumo: O artigo busca construir uma cartografia de duas editoras/livrarias que publicavam/comercializavam cole�›es de livros populares em finais do sŽculo XIX e in’cio do XX: a Livraria Portugueza, localizada na cidade do Porto, e a Livraria Contempor‰nea, localizada na cidade de Recife, Pernambuco. Nesse mapa, encontramos dois comerciantes portugueses e um terceiro personagem, o poeta, editor e comerciante de livros Leandro Gomes de Barros, que viveu na cidade de Recife e manteve, nas duas primeiras dŽcadas do XX, uma intensa atividade ligada ao livro e ˆ leitura, caracterizando-se como um agente liter‡rio. O encontro desses tr�s personagens possibilita discuss›es sobre a escrita, a leitura e a comercializa�‹o de livros no in’cio do sŽculo XX, no Brasil e em Portugal. O percurso te—rico foi norteado por discuss›es sobre a hist—ria do livro e da leitura encontradas em Abreu (1999), Chartier (1997), Anselmo (1991) e Ven‰cio (2005), alŽm de estudos sobre cartografias liter‡rias de Fernandes (2012), Cury (2007), Harley (1990) e Martin-Barbero (2004).

Palavras-chave: Leandro Gomes de Barros; Livraria Contemporanea; Livraria Portugueza; Edi�›es populares.

 

 

Abstract: The article seeks to build a cartography of two publishers/bookstores that published/marketed collections of popular books in the late 19th and early 20th centuries: Livraria Portugueza, located in the city of Porto, and Livraria Contempor‰nea, located in the city of Recife - Pernambuco. On this map, we find two Portuguese traders and a third character, the poet, editor, and book trader Leandro Gomes de Barros, who lived in the city of Recife and maintained, in the first two decades of the 20th, an intense activity linked to books and reading, being characterized as a literary agent. The meeting of these three characters allows discussions about writing, reading, and selling books in the early 20th century, in Brazil and Portugal. The journey was guided by discussions about the history of books and reading (Abreu, 1999; Chartier, 1997; Anselmo, 1991; Ven‰cio, 2005), in addition to studies on literary cartography (Fernandes, 2012; Maria Zilda Cury, 2007; Harley, 1990; Martin-Barbero, 2004).

Key-Words: Leandro Gomes de Barros; Livraria Contemporanea; Livraria Portugueza; Popular Editions.

 

 

 

 

 

Neste texto, busco refazer os caminhos de uma editora do Porto, a Livraria Portugueza, que publicava livros de cordel e os enviava para o Brasil, j‡ em finais do sŽculo XIX e in’cio do sŽculo XX. Nessa mesma Žpoca, criava-se e consolidava-se no Brasil a literatura de folhetos, diferente em v‡rios aspectos da literatura de cordel portuguesa. As obras impressas pelo editor portugu�s Joaquim Maria da Costa, e enviadas a Pernambuco, eram vendidas na Livraria Contemporanea, de Ramiro Moreira da Costa, casa frequentada pela elite pernambucana e tambŽm pelo poeta Leandro Gomes de Barros. Seguirei os passos de dois editores de livros ÒpopularesÓ e um propriet‡rio de livraria que exerciam suas atividades no per’odo que vai de 1883 (data mais antiga de publica�‹o de obras pela Livraria Portugueza a que tive acesso) a 1918 (ano da morte de Leandro Gomes de Barros).

Quando iniciei a pesquisa nos arquivos da Biblioteca Nacional do Porto, n‹o esperava me ÒencontrarÓ com o poeta Leandro Gomes de Barros, antigo conhecido dos estudos sobre tradi�›es orais e populares que fazem parte da minha trajet—ria como pesquisadora e professora de literatura na Universidade Federal da Para’ba.[68] Inquietavam-me, naquele ano de 2013, as discuss›es veiculadas em jornais e revistas, e tambŽm em ambientes de discuss‹o acad�mica (congressos, semin‡rios) sobre os Ònovos escritoresÓ de literatura brasileira que circulavam em diferentes espa�os, participavam de feiras liter‡rias e estabeleciam rela�›es diferenciadas com as editoras, o mercado, o pœblico e a cr’tica.

Para Maria Zilda Cury, Ž poss’vel falar em novas cartografias liter‡rias, nesses primeiros anos do sŽculo XXI, pois os escritores assumem a postura de agentes culturais, Òtransitando por espa�os que n‹o o estritamente liter‡rio, o que, inevitavelmente, interfere na escrita de seus textosÓ (CURY, 2007, p. 7). Pensando na literatura de folhetos no Brasil, chamada por M‡rcia Abreu de um g�nero editorial e n‹o apenas um g�nero liter‡rio (ABREU, 1999), essas Ònovas geografias narrativasÓ n‹o me pareciam t‹o novas assim. Os poetas populares, nas primeiras dŽcadas do sŽculo XX, eram agentes culturais, viajantes perform‡ticos, sobreviventes do verso e da lira.

No estudo sobre a Tipografia S‹o Francisco (1940-1972), em Juazeiro do Norte- CE, Rosilene Melo evidencia o quanto a hist—ria das tipografias populares est‡ ligada ˆs estratŽgias de sobreviv�ncia criadas pelos poetas e editores, em um mercado que sofre tanto influ�ncias econ™micas quanto religiosas, familiares e afetivas (MELO, 2010). A literatura de folhetos no Brasil acompanhou os caminhos da estrada de ferro, do algod‹o e da borracha, mas tambŽm os caminhos da fŽ, do misticismo, do encantamento pelo verso que transformaram pequenas cidades, como Juazeiro do Norte, em grandes centros de distribui�‹o de folhetos de cordel.

No Nordeste brasileiro surgiram, ainda nas quatro primeiras dŽcadas do sŽculo XX, tipografias em cidades como Areia, Itabaiana, Guarabira e CatolŽ do Rocha-PB, Novas Russas-CE e Currais Novos-RN. Em Juazeiro do Norte, a Tipografia S‹o Francisco, posteriormente Lira Nordestina, se configurou como a maior editora popular, sobrevivendo durante 30 anos e agregando em torno da produ�‹o e venda de folhetos poetas, cantadores, dan�adores de coco e reisado, praticantes de umbanda e candomblŽ, astr—logos, curandeiros, rezadores, artistas da madeira, da palha, do barro.

Se fosse poss’vel desenhar novos mapas culturais no Brasil, a partir da trajet—ria de poetas e vendedores de folhetos, as cidades de BelŽm (Editora Guajarina), Juazeiro do Norte (Tipografia S‹o Francisco), Campina Grande (Tipografia Estrela da poesia) e S‹o Paulo (Editora Prelœdio) estariam muito mais pr—ximas da cidade de Recife, lugar escolhido por Leandro Gomes de Barros para editar seus folhetos, do que os estados vizinhos do Rio Grande do Norte e Alagoas.

            A constru�‹o de territ—rios se d‡ a partir de interesses comerciais, pol’ticos, mas tambŽm simb—licos, afetivos, emocionais. As fronteiras geogr‡ficas ou pol’ticas n‹o podem ser refer�ncias para a delimita�‹o de territ—rios culturais. Hoffman (1999) considera a desterritorializa�‹o como marca dominante nas produ�›es liter‡rias da œltima dŽcada do sŽculo XX. Personagens em tr‰nsito, poetas transformados em agentes culturais, configuram o que a autora chama de Ònovos n™madesÓ. Pensando na experi�ncia dos poetas e editores da literatura de folhetos no Brasil, essas viv�ncias n™mades n‹o representam nenhuma novidade, como pudemos perceber ao longo da pesquisa.

A abordagem cartogr‡fica, que aqui busco seguir, toma a historiografia n‹o como uma sucess‹o de fatos, eventos, e sim como uma Òjustaposi�‹o de textos, mapasÓ, enfatizando Òo processo de constru�‹o das rela�›es de poder presente nos textosÓ (FERNANDES, 2012). Para Frederico Fernandes,

Enquanto a abordagem sincr™nica culturalista guia-se pela tens‹o dicot™mica, na qual os vetores ideol—gicos de forma�‹o cultural s‹o intensificados, a abordagem cartogr‡fica Ž uma an‡lise descritiva e interventiva que considera os efeitos de subjetividade dos agentes envolvidos na performance (FERNANDES, 2012, p. 151).

Essa an‡lise Òdescritiva e interventivaÓ busca interligar sujeitos e objetos, na tentativa de construir novos mapas da cultura pois, segundo Martin-Barbero (2004), a cartografia n‹o precisa representar apenas fronteiras, pode representar encontros, rela�›es, interc‰mbios. E Ž nesse sentido do encontro e dos interc‰mbios que caminha a minha escrita, numa tentativa de ligar a cidade do Porto ˆ cidade do Recife, a vida de livreiros, editores e tip—grafos dessas duas cidades, ao percurso de poetas populares. Tr�s sujeitos se cruzam nessa hist—ria: Joaquim Maria da Costa, editor da Livraria Portugueza, na cidade do Porto; Ramiro Moreira da Costa, portugu�s emigrado para Recife, propriet‡rio da Livraria Contempor‰nea e Leandro Gomes de Barros, poeta e editor de folhetos, um dos respons‡veis pela cria�‹o do g�nero literatura de cordel no Brasil.

 

 

Um Costa de l‡ e outro de c‡

           

A Editora de Joaquim Maria da Costa, sucessor dos Machado & Costa, estava localizada no Largo dos Loyos, 55-56, Porto. A Livraria Portugueza vendia cole�›es de entremezes, fados, contos populares, Òlindos livrinhos em versos amorosos e cartas amorosas em prosa e versoÓ. Em um folheto de 1902 aparece o seguinte anœncio: ÒLinda Collec�‹o de livrinhos amorososÓ; Linda Collec�‹o de OraculosÓ; ÒLivrinhos de Canticos ReligiososÓ; ÒCollec�‹o de contos modernosÓ; ÒLinda Collec�‹o de testamentosÓ. Em 1903, a editora passou a vender tambŽm ÒAlmanachs e Reportorios Sarago�anos para o annoÓ e ÒHist—rias e contos recreativos para o povoÓ. Publicava ainda a Colec�‹o de fados modernos (1893 a 1897) que teve em torno de 16 nœmeros. Na quarta-capa do folheto ÒBrados de Comisera�‹o a favor das almas do purgat—rioÓ (s/d) encontramos a seguinte indica�‹o das atividades desenvolvidas pela Livraria Portugueza:

NÕeste estabelecimento h‡ um variad’ssimo sortimento de comp�ndios adoptados em todos os lyceus, collegios, aulas e escolas oficiais e particulares do reino; livros de missa e semana santa, desde o pre�o de 160 reis atŽ 9$000 reis; obras m’sticas aprovadas pelas autoridades eclesi‡sticas; literatura hist—rica e cl‡ssica, de direito e medicina; uma abundante collec�‹o de romances dos melhores autores e a pre�os reduzidos; bom sortido de obras recreativas e populares; obras theatraes; dramas, comedias, scenas e poesias c™micas; livros em branco, cartilhas, pautas, traslados, almanachs e report—rios de todos os autores, hist—rias e contos em prosa e verso para o povo; Alphabetos, taboadas, methodo fac’limo, catecismo, Manual Enciclophedico; impressos para as escolas e professores de instru�‹o primaria. Grande desconto para revender. Pedidos a Joaquim Maria da Costa, com dire�‹o acima mencionada.

AlŽm dos cordŽis publicados pela Livraria Portugueza, tive acesso a textos e cole�›es de hist—rias populares publicados por outros casas como a Typographia de Antonio Alvarez Ribeiro (Officina de Antonio Alvarez Ribeiro; Tipografia da viœva Alvarez Ribeiro & Filhos); o Bazar Feniano - Livraria de Antonio da Silva Santos & C», que depois passa para Diamantino da Silva Cardoso, j‡ no sŽculo XX; a Livraria Chardron de Lello & Irm‹o; a Livraria Lello e irm‹o; a Typographia Gandra e Filhos; a Livraria de J. E. da Cruz Coutinho e a Livraria Civiliza�‹o, de Eduardo da Costa Santos. O pesquisador Arnaldo Saraiva tambŽm menciona, no seu livro Folhetos de cordel e outros da minha cole�‹o, outras 16 livrarias/tipografias/oficinas da cidade do Porto que editavam cordŽis (SARAIVA, 2006).

Selecionei uma cole�‹o editada por Ramiro Moreira da Costa para acompanhar o percurso desses livros: a Cole�‹o de Hist—ria Populares. Os livros dessa cole�‹o eram impressos na Typographia a vapor de Arthur JosŽ de Souza & Irm‹o, Largo de S. Domingos, 66-67 (ou 74-76). Cada t’tulo da cole�‹o era vendido, em 1904, por 60, 80 ou 100 reis. Segundo Giselle Martins Ven‰ncio,

As cole�›es criadas pelas casas editoriais europeias podem ser consideradas o principal instrumento de afirma�‹o do poder dos editores marcando uma verdadeira ruptura no processo de publica�‹o de livros desenvolvido atŽ ent‹o. A cria�‹o de cole�›es populares foi, justamente, o que permitiu aos editores o estabelecimento de um comando editorial atravŽs do qual eles passaram a estabelecer as normas do mercado (VENåNCIO, 2005, p. 5).

No percurso feito pela pesquisadora, trilhando os Òcaminhos da cole�‹o Biblioteca do Povo e das EscolasÓ, e que envolve tr�s livreiros/editores – David Corazzi, Lisboa; Francisco Alves, Rio de Janeiro e Gualter Rodrigues, Cear‡ –, Ž poss’vel Òconhecer aspectos da hist—ria dos livros, desvendando, pelo menos em parte, a din‰mica cultural que se estabelecia entre a Europa e as diversas regi›es do Brasil no sŽculo XIXÓ (VENåNCIO, 2005, p. 5). Seguindo esse mesmo caminho, tento tra�ar uma cartografia da produ�‹o e comercializa�‹o de folhetos de cordel, de finais do sŽculo XIX atŽ as primeiras duas dŽcadas do sŽculo XX, levada pela m‹o do poeta Leandro Gomes de Barros. Mas, antes, sigo a refazer o percurso que me trouxe de volta para o Brasil.

Tive acesso a 29 t’tulos da Cole�‹o de Hist—rias Populares, o mais antigo deles datado de 1891. T’tulos como as Òverdadeiras hist—riasÓ da Princesa Magalona, da Imperatriz Porcina, de Jo‹o de Calais, do infante D. Pedro de Portugal, do Imperador Carlos Magno, passando pela ÒVerdadeira Malicia e maldade das mulheres e a malicia dos homensÓ (1901) e chegando ˆ ÒHist—ria curiosa e engra�ada do Preto e o Bugio Ambos no Matto, discorrendo sobre a arte de ter dinheiro sem ir ao Brasil e acrescentado com o engra�ado Tango AmericanoÓ e ÒO velho, o rapaz e o burro e as can�onetas – o sonhoÓ (1897).

A editora tambŽm publicava a Bibliotheca de Leituras Populares, que reunia obras mais voltadas para hist—rias de crimes, venturas e desventuras amorosas, milagres de santos, Òmon—logos para amadores dram‡ticosÓ, entre outros t’tulos. E ainda, segundo informa�›es de Arnaldo Saraiva, a cole�‹o de contos populares portugueses – 16 t’tulos publicados desde o ano de 1885.

Joaquim Maria da Costa, no folheto ÒBreves no�›es de Hist—ria InglezaÓ, escreve a seguinte advert�ncia:

Advert�ncia do editor aos leitores dos livrinhos

Quando me resolvi publicar a ÒBibliotheca da Hist—ria de todos os povosÓ n‹o tive em mira lucros a auferir de tal publica�‹o, mas t‹o somente divulgar o mais poss’vel pelas classes menos abastadas, que n‹o conhecem as l’nguas estrangeiras umas breves no�›es, ou pequeno resumo da ÒHist—ria das grandes na�›es do mundoÓ para instru�‹o n‹o s— dos portugueses, mas dos filhos da outras na�›es que desejem aperfei�oar-se no nosso idioma. Os portuguezes encontrar‹o nÕesta amena leitura o conhecimento dos principaes factos dos povos que atŽ hoje mal conheciam, e aos estrangeiros servir-lhe-‡ de est’mulo ao estudo quando desejem dedicarse ˆ l’ngua portuguesa, pois que ao mesmo tempo que se habilitam, pelo estudo, a uma l’ngua estranha, utilizam e recordam os feitos heroicos dos seus antepassados. Se o Editor dÕesta interessante collec�‹o de livrinhos uteis, poder conseguir o que intenta, julgar-se-‡ bem pago do pequeno servi�o que julga prestar ‡quelles que desejam instruir-se, preenchendo com esta publica�‹o uma lacuna que desde h‡ muito se sentia na literatura portuguesa. Porto, 1 de mar�o de 1903. O editor, Joaquim Maria da Costa.

Foi a partir dos anos 1845 que come�aram a surgir as sŽries e cole�›es populares em Portugal, destinadas Òˆ vulgariza�‹o de um modelo massificado da Òboa literaturaÓ, de conhecimentos œteis ou de formas de comportamento social e moralÓ (PINTO; MONTEIRO, 2013, p. 206). A abertura do mercado e a possibilidade de os editores ganharem dinheiro com a comercializa�‹o de obras parecia desagradar aos intelectuais e literatos, mas garantiu o sustento de muitas fam’lias e contribuiu para a profissionaliza�‹o desses mesmos trabalhadores.

Os Òlivrinhos uteisÓ que chegavam ˆs Òclasses menos abastadasÓ atravessaram o mar e chegaram ˆs m‹os de outro livreiro portugu�s. Nesse mesmo folheto de 1903 aparece a informa�‹o de venda das obras editadas na Livraria Portugueza para a êndia, çfrica, EUA (Calif—rnia) e Brasil. No Brasil o Òdep—sito geralÓ de livros era a Òlivraria do snr. Ramiro Moreira Costa & C», em PernambucoÓ.

E chego ao nosso segundo viajante, atraco no cais do porto, em Recife, e caminho atŽ a rua 1¼ de Mar�o, onde estava localizada a Livraria Contemporanea de Ramiro Moreira da Costa. Em 1890, j‡ aparecem not’cias sobre caixas enviadas a Ramiro Costa em vapores que chegavam de Lisboa ao porto do Recife (Jornal A prov’ncia, 21 de janeiro de 1890). A livraria vendia materiais para escrit—rio, instrumentos musicais, tinta e typos, brinquedos, impressos, ferragens, papel, livros, pratos de porcelana, pinturas de artistas franceses, charutos, imagens sacras, fotografias, m—veis, bolsas escolares...

Sobre a vida movimentada do estabelecimento, d‹o conta as seguintes not’cias publicadas tambŽm no jornal A prov’ncia:

- Exposi�‹o do Òretrato do grande chefe abolicionista e republicano cearence Jo‹o CordeiroÓ, feito por Libanio Amaral (15 de maio de 1890);

- Exposi�‹o Peitoral de Cambar‡ – quadro com a Òfotografia do suntuoso estabelecimento Agrico Industrial do Parque Pelotense [...] onde funciona a importante f‡brica do precioso medicamento denominado Peitoral de Cambar‡Ó (18 de janeiro de 1891);

- Exposi�‹o de um Ògrande quadro das fotografias do atelier Frederico RamosaÓ (2 de junho de 1891);

- Anœncio ˆ procura de professor para atuar no engenho da Gamelleira, tendo a livraria como local de contato (21 de janeiro de 1900).

            Chama a aten�‹o uma exposi�‹o de um quadro de Òsuntuoso estabelecimentoÓ que poderia funcionar para atrair compradores para um remŽdio que seria vendido, futuramente, no mesmo estabelecimento loja. A presen�a de anœncios para a contrata�‹o de professores tambŽm evidencia o importante papel desempenhado pela livraria no campo da instru�‹o e forma�‹o de novos leitores e leitoras.

Ramiro Moreira da Costa viveu 76 anos, entre idas e vinda a Portugal para cuidar da saœde e dos neg—cios. Chegou ao Brasil em 1878, desembarcando no Maranh‹o, onde foi comerciante durante algum tempo. Depois, em 1888, instalou a Livraria Contemporanea na cidade do Recife que passa, a partir de 1905, a aparecer nas not’cias de jornal com o nome de Ramiro Moreira da Costa & Filho. Nesse per’odo, o local, mais do que um ponto de venda, era um ponto de encontro de intelectuais, a exemplo do que acontecia no Rio de Janeiro, como demostram os estudos sobre livrarias, tipografias e editoras de Hallewell (1985), Abreu e Schapochnik (2005) e Ven‰ncio (2005), para citar apenas alguns nomes.

Ramiro Costa participou da vida cultural e de neg—cios da cidade do Recife. Foi suplente da comiss‹o fiscal do Banco Popular, eleito em 1891; em 1900 possu’a 20 a�›es da Companhia Tethys de seguros mar’timos e terrestres; foi procurador do senhor JosŽ Gon�alves Dias, propriet‡rio de Òf‡brica de surragem, compra e venda de solla, sita a rua da Palma, n. 97Ó (A prov’ncia, 16 de maio de 1900); fez parte da comiss‹o de ‡rbitros da Alf‰ndega de Pernambuco Òpara o fim de resolver sobre as quest›es que forem suscitadas acerca da classifica�‹o de mercadoriasÓ, na Classe 19 – Papel e suas aplica�›es (A prov’ncia, 14 de mar�o de 1901); juiz por devo�‹o Òda tradicional festa do senhor Bom-Jesus do Bom-Fim a realizar-se no dia 01 de janeiro de 1906 na cidade de OlindaÓ; acionista da Companhia Industrial Fia�‹o e Tecidos de Goyanna, em 1906, neg—cio que passa a ser de um dos seus filhos; membro da Junta administrativa da Santa Casa de Miseric—rdia do Recife, 1916, e, por fim, integrante da Comiss‹o Pro-P‡tria criada em fun�‹o da Òsitua�‹o melindrosa de Portugal diante da declara�‹o de guerra feita pela AlemanhaÓ (A prov’ncia, 20 de mar�o de 1916). Temos aqui apenas alguns exemplos da atua�‹o de Ramiro Costa na cidade de Recife e tambŽm em Goyanna (atual Goiana-PE), nas duas primeiras dŽcadas do sŽculo XX.

Durante o vel—rio do seu filho, Eugenio de Almeida Costa, morto aos 36 anos, compareceram Òassocia�›es religiosas, membros de associa�›es ma�™nicas, alto comercio, funcion‡rios pœblicos estaduais e federaisÓ (A prov’ncia, 09 de agosto de 1921). Talvez esse seja um bom resumo dos espa�os ocupados pelo comerciante e da atua�‹o do Costa de c‡, durante as cinco dŽcadas em que viveu na cidade do Recife.

 

E eis que surge o poeta

 

Construir uma cartografia de editores, impressores e livreiros das cidades do Porto e do Recife me levou a um encontro inusitado com o poeta Leandro Gomes de Barros, encontro este que terminou por me trazer de volta ˆs quest›es que me inquietavam, naquele ano de 2013: sobre os Ònovos escritoresÓ que circulavam em feiras e exposi�›es, recebiam cach�s para participarem de eventos culturais e acad�micos, chamados de verdadeiros agentes culturais. Seguindo os passos de Ramiro da Costa, atravŽs dos jornais dispon’veis na Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como descrito anteriormente, eis que me deparo com a seguinte not’cia: ÒEnviado pelo seu autor o sr. Leandro Gomes de Barros, recebemos ontem um exemplar de sua edi�‹o de versos sobre ÔA Morte do dr. JosŽ MariannoÕ. Gratos.Ó (Jornal de Recife, 20 de junho de 1912).

Leandro Gomes Barros, assim como o Ramiro Moreira da Costa que comunicava ao Jornal as novidades que chegavam ˆ sua livraria, tambŽm anunciava suas novas produ�›es. Em 16 de novembro de 1915, o mesmo jornal noticia um opœsculo do poeta, tomando por tema a morte do D. Luiz Raymundo da Silva Brito, arcebispo de Olinda. No dia 31 de maio de 1916, temos a seguinte not’cia:

 

Um protesto

Veio ontem ao nosso escrit—rio o sr. Leandro Gomes de Barros, autor de numerosos versos populares, tais como ÒA vassourinhaÓ e tantos outros e declarou-nos protestar contra o sistema de alguns indiv’duos venderem livros de versos com o seu nome. Entre outros citou o nome do Sr. Sim‹o Francisco Marques, que assim procedeu no Amazonas.

 

            Protestos semelhantes tambŽm foram feitos pelo poeta Gon�alves Dias, como comprovam os estudos de Marisa Lajolo: o poeta se queixava na imprensa sobre a distribui�‹o no Brasil de exemplares da edi�‹o de seus poemas intitulados ÒContosÓ, publicados em 1857 pelo tipografo/editor alem‹o Brockhaus, pois o contrato com a editora s— permitia a distribui�‹o do livro na Europa (LAJOLO, 2005).

            A participa�‹o de Leandro no mundo das editoras e livrarias n‹o se restringia ˆ edi�‹o e venda de folhetos. ƒ poss’vel afirmar que ele administrava, com a ajuda da filha Rachel, que assinava muitos dos seus folhetos como uma forma de garantir a originalidade da c—pia, um completo sistema de produ�‹o e comercializa�‹o. O poeta se inseria nas brechas do sistema (capitalista, globalizado) que envolvia, alŽm da escrita, a edi�‹o, publica�‹o e venda de livros; a participa�‹o nas redes de socializa�‹o da cidade de Recife e de outras cidades; o envio de notas para os jornais e as viagens constantes ˆs cidades de Juazeiro do Norte-CE, Para’ba e Rio Grande do Norte, alŽm de cidades do interior dos estados de Pernambuco. A imagem do poeta popular com sua mala de livros debaixo do bra�o, vendendo em feiras de pequenas cidades do sert‹o, n‹o parece compor, por completo, a figura do Leandro Gomes de Barros que venho tentando desenhar.

            Em 23 de agosto de 1917, o poeta enviou ao jornal A prov’ncia o folheto ÒO p‹o e a batataÓ. Essa primeira not’cia que encontrei me conduziu a uma sŽrie de outras notas publicadas em jornais de Pernambuco e do Cear‡. No jornal O rebate (Juazeiro do Norte), de 28 de novembro de 1909, publica o cordel ÒLucta do diabo com Antonio SilvinoÓ. A partir dessa publica�‹o, localizei outros 6 poemas, todos publicados numa se�‹o intitulada Lyra Popular:

 

- A crea�‹o do mundo, em 19 de dezembro de 1909;

- As capas de uma viœva, em 16 de janeiro de 1910;

- Ciume de duas noivas, em 23 de janeiro de 1910;

- O padre de Joazeiro, em 06 de fevereiro de 1910;

- A proclama�‹o dos banhos, em 20 de fevereiro de 1910;

- As lagrimas de Antonio Silvino por Tempestade, em 6 de mar�o de 1910.

 

            O folheto ÒLucta do diabo com Antonio SilvinoÓ, publicado no jornal com um total de 26 estrofes, est‡ dispon’vel na Cole�‹o Cordel, da Funda�‹o Casa de Rui Barbosa, numa vers‹o com 40 estrofes. Nesse folheto tambŽm consta o poema ÒVingan�a dÕum filhoÓ. Foi publicado ainda nessa cole�‹o o folheto ÒAs lagrimas de Antonio Silvino por TempestadeÓ.

            Sobre o jornal O Rebate sabemos que foi impresso em Juazeiro do Norte-CE entre os anos de 1909 e 1911, com edi�›es semanais, geralmente aos domingos. Fundado pelo padre Joaquim de Alencar Peixoto, tambŽm diretor e redator-chefe do jornal, tinha como prop—sitos contribuir para a autonomia pol’tica de Juazeiro, naquela Žpoca subordinado ao Crato, e defender o Padre C’cero, um dos principais motivadores e apoiadores do peri—dico. Assis Daniel Gomes analisa os poemas publicados na se�‹o Lyra Popular, nos anos de 1909 e 1910, e enumera os principais temas e poetas que ocuparam as p‡ginas do jornal (GOMES, 2013). Leandro Gomes de Barros estava entre os primeiros, com 48% das cita�›es.

A publica�‹o do folheto ÒO padre de JoazeiroÓ, em 06 de fevereiro de 1910, evidencia um tra�o do poeta que difere dos muitos outros folhetos nos quais a defesa do clero jamais aparecia. Talvez como parte das estratŽgias do poeta para se inserir na cultura letrada, o tom Ž bastante ameno e h‡ mesmo uma defesa do padre contra todos que o acusavam de se aproveitar da fŽ e devo�‹o dos pobres com fins pol’ticos:

No sert‹o do Cear‡

Apareceu um pastor

E qual outro Christo, nosso

Ador‡vel Salvador,

ƒ um anjo de bondade

Enviado do Senhor.

 

ƒ um pastor exemplar

O padre do Joazeiro

D‹o-lhe esmola e d‡ esmola

E n‹o Ž interesseiro

Tudo que faz Ž de gra�a

N‹o aprecia dinheiro.

[...]

A uns quinze dias passados

Disse-me um velho romeiro

Que est‡ suspenso de ordem

Por n‹o ser interesseiro

Os padres detestam elle

Por n‹o gostar de dinheiro.

[...]

Elle Ž desses que detestam

A maldita corrup�‹o

Julga que a gra�a de Deus

ƒ o verdadeiro p‹o

E o homem lucra tudo

Se ganhar a salva�‹o.

            As not’cias veiculadas nos peri—dicos chamam a aten�‹o para uma rede de sociabilidade que coloca o poeta em contato com as chamadas elites intelectuais da cidade de Recife e tambŽm do Juazeiro do Norte, alŽm de profissionais liberais e comerciantes em geral. Vejamos os que dizem os estudos mais recentes sobre a obra do poeta e sobre a literatura de folhetos do Nordeste.

Sobre o campo liter‡rio que envolve a literatura de cordel, evidencio os estudos da pesquisadora Bruna Paiva de Lucena que vem discutindo, desde a sua disserta�‹o de mestrado, defendida em 2010, esses lugares de disputa. No seu livro PoŽticas a cŽu aberto: o cordel e a cr’tica liter‡ria, Lucena (2018) tece cr’ticas ˆ Òconcep�‹o escriptoc�ntricaÓ da literatura brasileira e a forma como a cr’tica liter‡ria, em especial as obras de Silvio Romero, JosŽ Ver’ssimo, Afr‰nio Coutinho e Antonio Candido, lida com a presen�a/aus�ncia das literaturas de tradi�‹o oral na vida cultural do pa’s.

            Lucena (2018), no cap’tulo I – Fora do Prumo, discorre ainda sobre as estratŽgias de resist�ncia utilizadas pelos/as escritores/as Òno ‰mbito das poŽticas perifŽricas e popularesÓ. Menciona, a partir dos questionamentos de Judith Butler (posicionalidade estratŽgica) e James C. Scott (resist�ncia cotidiana), formas de resist�ncia presentes nas pr‡ticas dos/as escritores/as da literatura de cordel, que, para alguns setores do Òmeio eruditoÓ, podem parecer formas de submiss‹o.

Acredito que as pr‡ticas de Leandro Gomes de Barros, as estratŽgias utilizadas pelo poeta para conseguir Òviver de poesiaÓ, n‹o adquiram esse car‡ter de submiss‹o, mesmo quando aparecem em meios eruditos. O tr‰nsito entre os Òlocais da culturaÓ (BHABHA, 2005) por onde transitava revela, talvez, muito mais uma inser�‹o pelas bordas, com a inten�‹o de fazer parte do centro, do que uma submiss‹o, mesmo que estratŽgica. Leandro ocupa os jornais, as livrarias, os locais de prest’gio, ao mesmo tempo que vende seus folhetos nas feiras, viaja pelos interiores com sua mala e Òcompra brigaÓ na rua com aqueles que vendem seus poemas por Òdebaixo do balc‹oÓ.

Um escritor que vive da venda de seus folhetos, que circula por v‡rias cidades do Nordeste, que publica versos em um jornal de Juazeiro do Norte-CE, n‹o parece se encaixar no perfil tra�ado por alguns pesquisadores e repetido infinitas vezes nos estudos sobre a chamada poesia popular. Vejamos a biografia presente no site da Funda�‹o Casa de Rui Barbosa:

Sua atividade poŽtica o obriga a viajar bastante por aqueles sert›es para divulgar e vender seus poemas e tal fato Ž comentado por seus contempor‰neos, Jo‹o Martins de Ata’de e Francisco das Chagas Baptista [...]. Foi um dos poucos poetas populares a viver unicamente de suas hist—rias rimadas, que foram centenas. Leandro versejou sobre todos os temas, sempre com muito senso de humor.[69]

            Nascido na cidade de Pombal-Parahyba, em 1865, mas criado atŽ os quinze anos na cidade de Teixeira, Ž poss’vel afirmar que a forma�‹o de escritor passa pela m‹o de padres da Igreja Cat—lica (era sobrinho do Padre Vicente Xavier de Farias), de poetas/cantadores da cidade, como Francisco Romano, Germano da Lagoa e Silvino Pirau‡, de frequentadores das livrarias, tipografias e reda�›es de jornais e do mercado S‹o JosŽ, na cidade de Recife, sem falar nos trilhos do trem. Como sabemos, a Rede Ferrovi‡ria do Nordeste (antiga Great Western of Brazil Ry) unia os estados do Rio Grande do Norte, Para’ba, Pernambuco e Alagoas. Nesse mapa est‹o interligadas as cidades de Recife, Fortaleza, Teresina e depois BelŽm, que passou a ser um centro de produ�‹o e distribui�‹o de folhetos no Brasil.

As andan�as de Leandro Gomes pelos sert›es sempre aparecem nas notas biogr‡ficas. O que nunca aparece Ž a sua atua�‹o no meio intelectual da cidade de Recife, o conv’vio entre os Òhomens de letrasÓ, as conversas na Livraria Contemporanea, visitas ˆs bibliotecas e gabinetes de leitura (disso n‹o tenho not’cia, mas quero poder imaginar que, de fato, aconteciam).

ƒ poss’vel desenhar um mapa de percurso do poeta na cidade do Recife: da rua 1¼ de Mar�o, onde se localizava a Livraria Contemporanea, para o Mercado S‹o JosŽ eram 7 minutos a pŽ; o Gabinete Portugu�s de Leitura ficava a 2 minutos da Livraria e a C‰mara Municipal, onde funcionou a Biblioteca Provincial (no per’odo de 1875 a 1930), a 14 minutos, com uma passagem pela ponte Santa Isabel, œltima ponte sobre o rio Capibaribe.

Leandro Gomes de Barros, que escrevia, imprimia e vendia seus folhetos, tambŽm fazia suas performances nos mercados e esta�›es de trem, conversava com intelectuais da cidade, pagava anœncios de suas produ�›es nos jornais e denunciava Òalguns indiv’duos [por] venderem livros de versos com o seu nomeÓ, como pudemos acompanhar nesse estudo. Ruth Terra informa que o poeta vendia seus folhetos nas ruas de Recife, nos bares do largo das Cinco Pontas, nas esta�›es de trem e dentro dos trens (TERRA, 1983). Essa informa�‹o parece ter contaminado todas as outras a�›es do poeta, como se vender folhetos na rua e nas esta�›es de trem o impossibilitasse de tambŽm publicar seus versos em jornais e participar de ciclos de conversa e trocas de experi�ncias de leitura em locais frequentados pela elite intelectual da cidade. Um pœblico urbano, com pr‡ticas de sociabilidade que envolvem os gabinetes de leitura, as bibliotecas, as livrarias, parece n‹o fazer parte da hist—ria da literatura de cordel. E essa imagem vai se propagando nos v‡rios estudos sobre o g�nero.

Por fim, retomo a discuss‹o sobre cartografias e mapas na tentativa de imprimir mais alguns versos a essa narrativa. Para Harley (1990), a cartografia nunca Ž apenas o desenho de mapas – ela Ž a fabrica�‹o de mundos. E j‡ que eu posso fabricar mundos, mas n‹o sem muito esfor�o e apoiada em alguma documenta�‹o, imagino um mundo separado por um oceano, mas unido por poetas e cantadores, tip—grafos e homens de neg—cio.[70] Conversas na Livraria Contemporanea, visitas aos jornais e tipografias, calorosos debates em pra�as pœblicas. As trocas culturais, nesse mundo globalizado do sŽculo XIX, como afirma Jean-Yves Mollier (2008), desafiam as fronteiras que n—s mesmos, pesquisadores desse sŽculo XXI, insistimos em levantar. E se, no g�nero editorial cordel, BelŽm fica bem mais perto de Recife do que a Parahyba, o Porto fica logo ali.

 

 

Refer�ncias

 

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[Recebido: 29/12/2020 – Aceito: 29/12/2020]


 

ÒMovimento cultÓ do Rio de Janeiro e os discurso sobre o coco de Pernambuco

 

 

ÒMovimento cultÓ  in Rio de Janeiro and discourses about coco de Pernambuco

 

 

Genilson Leite da Silva [71]

https;//orcid.org/0000-0002-7098-7125

 

Bruno Rodolfo Martins [72]

https;//orcid.org/0000-0002-6480-3676

 

 

Resumo: Este artigo trata das tens›es, pr‡ticas, discursos, entre pessoas, lugares e disputas de narrativas, em torno do que Ž chamado genericamente de cultura popular. Como recorte, identificamos o circuito de rodas culturais existente na cidade do Rio de Janeiro – chamado aqui de ÒMovimento cultÓ – como express‹o t’pica dessas tens›es, e que, de alguma forma, reatualiza as rela�›es de poder j‡ demarcadas pelos folcloristas do pa’s desde o in’cio da Repœblica. Como exemplo, analisamos uma dessas tens›es relacionada ao Coco realizado nessas rodas, que fez emergir embates demarcados por quest›es de cultura, ra�a, origem nativa e tradi�‹o. Caracteriza-se por pesquisa etnogr‡fica e tem como procedimento de coleta de dados a netnografia e observa�‹o participante, como t‡ticas para dar conta das quest›es relacionadas ˆ contemporaneidade. A partir disso, identificou-se relatos de como esse Movimento reproduz o projeto colonial impl’cito das din‰micas pr—prias das elites dominantes diante dos grupos dominados. Por fim, transforma essa cultura popular em produto de consumo da elite para si pr—pria, em que se extingui, a cada dia, sua for�a pol’tica, seus aspectos de resist�ncia cultural e a participa�‹o de populares, visto o pre�o de mensalidade das aulas e dos ingressos para os shows, deixando seus criadores fora da roda.

Palavras-chaves: Movimento Cult; Rodas Culturais; Coco; Projeto colonial; Indœstria Cultural.

 

Abstract: This article deals with tensions, practices, discourses, between people, places and narrative disputes, around what is generically called popular culture. As an excerpt, we identified the circuit of cultural circles existing in the city of Rio de Janeiro - here called ÒMovimento CultÓ - as a typical expression of these tensions, and that, in some way, refreshes the power relations already demarcated by the country's folklorists since the beginning of the Republic. As an example, we analyzed one of these tensions related to Coco carried out on these wheels, which caused clashes deriving due to issues of culture, race, native origin and tradition. It is characterized by ethnographic research and its data collection procedure is netnography and participant observation, as tactics to deal with issues related to contemporaneity. Based on that, reports were identified of how this Movimento reproduces the colonial project implicit in the dynamics of dominant elites in the face of dominated groups. Finally, it transforms this popular culture into an elite consumer product for itself, where its political strength, its aspects of cultural resistance and the participation of the people are extinguished every day, given the price of tuition for classes and tickets for school. the shows, leaving their creators out of the roda.

Keywords: Movimento Cult; Cultural Rodas; Coco; Colonial project; Cultural Industry.

 

 

Reflex›es iniciais sobre ÒMovimento CultÓ e o circuito das rodas culturais

 

Ritualisticamente, alguns grupos ÒculturaisÓ se alternam em dias previamente marcados todos os meses do ano para a realiza�‹o de rodas em espa�os pœblicos: uns fazem rodas de Coco, outros de Jongo ou Samba de Roda, entre outros brinquedos populares. Ou, como dito em 2014, por um integrante de um desses grupos: Òfazemos tudo, mas, nossa especialidade Ž jongoÓ. Seus integrantes se conhecem e se revezam muitas vezes participando da roda de outros grupos, para ÒfortalecerÓ essa rede.

Para o pœblico desavisado, essas rodas s‹o express›es m‡ximas de uma suposta Òcultura brasileiraÓ que podem ser contempladas, apreciadas, participadas e em alguma medida, consumidas. S‹o oportunidades œnicas para se ter acesso a elas no modo delivery: Òsem sair de casaÓ. Nesse sentido, (1) sendo brinquedos populares locais da cidade ou do estado, n‹o seria preciso se deslocar para as periferias de onde s‹o nativas, nem ter contato com as comunidades locais e tradicionais que as praticam e mantŽm seus sentidos pol’ticos de resist�ncia cultural vivos; e (2) sendo brinquedos de outros estados, n‹o seria preciso viajar para poder ÒcurtirÓ, ÒcomentarÓ ou ÒcompartilharÓ.

A exist�ncia e a estrutura�‹o do ÒCircuito de Rodas CulturaisÓ pela cidade do Rio de Janeiro (e em algumas cidades pr—ximas), o que satiricamente chamamos aqui de ÒMovimento CultÓ, exemplifica algumas tens›es t’picas e hist—ricas fomentadas pela academia e por folcloristas pelo pa’s, diante das culturas populares, tradicionais, folcl—ricas, enfim, pelas culturas dos outros, das pessoas exclu’das e marginalizadas pelo sistema social vigente. Sobretudo, pela forma como se colocam habilitados a desenvolver/realizar pr‡ticas que fazem parte da mem—ria de um povo, apropriando-se do que foi/Ž ferramenta de resist�ncia e usando como simples atividade de lazer ou produto a ser vendido no mercado do ex—tico. Em alguma medida, traz elementos novos, em especial, as quest›es conjunturais, como as escassas pol’ticas pœblicas de editais, ou o que chamamos de ÒmodinhaÓ pelo que Ž popular e afro-ind’gena das regi›es Norte e Nordeste[73] do Brasil.

No in’cio dos anos 2000, surgem alguns grupos que poder’amos chamar de Òparafolcl—ricosÓ, considerados aqui como grupos que trabalham com propaga�‹o, divulga�‹o e/ou a comercializa�‹o das ditas manifesta�›es Òfolcl—ricasÓ ou Òcultura popularÓ brasileira. Esses grupos, ainda vale destacar, s‹o independentes de institui�›es, pois, apesar de terem estudantes universit‡rios, n‹o est‹o vinculados a nenhuma universidade.

Nesse sentido, Ž importante para esta an‡lise a exist�ncia da Cia Folcl—rica do Rio[74], vinculada ˆ Escola de Educa�‹o F’sica e Desportos – EEFD da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em atua�‹o na cidade bem antes dos anos 2000, e que influenciou e influencia ainda a forma�‹o desses outros grupos, mesmo que indiretamente: uns seguindo o modelo de a�‹o da mesma, alguns outros se contrapondo ou se descobrindo nesse processo de constru�‹o de um coletivo. Mas algo em comum pode demonstrar uma certa unidade nesses grupos: a maioria de seus integrantes estudaram na UFRJ, e alguns, com mais �nfase, passaram pelos cursos da EEFD, tiveram contato com a Cia. (seja por aulas, eventos ou apresenta�›es), e outros compuseram durante algum tempo (ou ainda comp›em) o corpo da mesma.

Podemos supor que, antes dos anos 2000, a conjuntura n‹o favorecia a cria�‹o desse tipo de grupo parafolcl—rico independente; afinal, se desde a dŽcada de 1980 j‡ havia a Cia Folcl—rica, por que s— na virada do mil�nio haveria esse Ògosto pelo ex—ticoÓ e essa vontade de montar e compor um grupo? Em outro caminho mais contundente, por que a aus�ncia de gosto pelo ex—tico natural da regi‹o pr—pria do Sudeste? Seguimos com a provoca�‹o: cad� a Folia de Reis, Cl—vis, Bate-bolas, Mineiro-pau, Congada, Batuque de umbigada? N‹o, os universit‡rios do Sudeste nunca pensaram na extin�‹o dessas manifesta�›es pr—prias dos estados do Sudeste, discursos vazios e sem a�‹o efetiva e que s— servem as manifesta�›es do Norte ou Nordeste do pa’s, t’pico da academia para ter acesso direto ao objeto de pesquisa.

ƒ bem mais que um gosto do ex—tico ou uma preocupa�‹o com a suposta extin�‹o de um brinquedo popular qualquer. Trata-se, uma vez mais, como dizem Simas e Rufino (2020), do Òprojeto colonialÓ em curso, que preza a mortandade e todos os seus caminhos. Pensar que essas a�›es s‹o mortais n‹o Ž nenhum exagero. Os mesmos autores insistem na necessidade de ÒencantamentoÓ do mundo, no retorno aos modos de viver que se direcionam para a vida.

E, aqui, se trata da vida das popula�›es negra, ind’gena, perifŽrica, favelada, escolhidas para serem marginalizadas pelo sistema social que vivemos, e que sempre foi alvo desse ÒprojetoÓ, tanto no sentido do genoc’dio, como no sentido do Òsemioc’dioÓ, que silencia modos de comunicar, vis›es de mundo, linguagens e palavras, como diz SodrŽ (2005, p. 4). Mas essas culturas de que tanto se quer ÒvivenciarÓ s‹o produzidas por essas popula�›es, e sempre o fizeram enquanto t‡tica de resist�ncia, enquanto Òpol’tica de vidaÓ, em busca de manter o ÒencantamentoÓ do mundo e de si mesmas. Justamente, por essas e outras quest›es, Simas e Rufino (2020, p. 15) escrevem que Òo exterm’nio e a subalterniza�‹o secular de princ’pios comunit‡rios e de pr‡ticas rituais contr‡rias ao padr‹o dominante s‹o um dos componentes da pol’tica de mortandade e do desencantamento do mundoÓ.

N‹o basta(ria) a aprecia�‹o estŽtica do outro, tampouco a avalia�‹o etnoc�ntrica e arrogante de uma salvaguarda emergencial de um brinquedo igualmente avaliado como em perigo de deixar de existir, exigindo uma a�‹o supostamente consciente do Òpovo do sulÓ[75] em cuidar dessas manifesta�›es culturais afro-ind’genas do Norte e do Nordeste. E, aqui, esse ÒcuidadoÓ Ž nada menos que ocupar espa�os culturais, pol’ticos e pedag—gicos que devem/deveriam estar ocupados pelas popula�›es tradicionais que mant�m esses brinquedos de resist�ncia desde a cria�‹o dos mesmos.

A tese recorrente e que traduz essa situa�‹o Ž a premissa de que a cultura popular Ž do povo, logo, para qualquer pessoa se servir dela, desconsiderando as desigualdades sociais e raciais que estruturam a sociedade, permitindo o acesso, o estudo e, como vemos, a reprodu�‹o ˆ vontade e descompromissada com as autorias tradicionais por pessoas de classe mŽdia e com oportunidades de classe correspondentes; enquanto os agentes culturais de raiz continuam desfavorecidos – como antes, e agora, somando-se a tais concorr�ncias nas disputas por seus pr—prios lugares (usurpados) de direito.

Carlos Brand‹o percorre uma linha similar e denuncia as desigualdades das rela�›es de poder nessa expans‹o do popular, e v� como ÒenganoÓ a ideia de circularidades proposta por pesquisadores como NŽstor Garc’a Canclini, Peter Burke ou Renato Ortiz.

Em tempos em que convivemos com conceitos como culturas h’bridas, hibridiza�‹o de culturas ou circularidade de/entre culturas, um prov‡vel engano poderia ocorrer ao estabelecermos como uma panfolcloriza�‹o todo o complexo trabalho de cria�‹o cultural dos diferentes sujeitos e povos negros ao longo de nossa hist—ria, esquecendo que uma parte importante do que consideramos ÒeruditoÓ em nossas realiza�›es art’sticas mais diversas Ž tambŽm, e em boa medida, resultado do trabalho de suas m‹os e mentes (BRANDÌO, 2009, p. 725).

Para o autor, esse engano desconsidera a forma como a cultura popular Ž capturada pelas elites, que a ressignifica, e retiram seu pertencimento aos populares. Nesse processo, s‹o expropriadas pela elite, passando a receber um r—tulo de erudito ou cl‡ssico como forma de desvaloriza�‹o e desqualifica�‹o do popular. Entre os jarg›es que poderiam resumir essa quest‹o est‡ o que diz: Òa cultura negra Ž boa, desde que n‹o praticada por pessoas negrasÓ.

Waldenyr Caldas comenta sobre um processo de Òfetichiza�‹o da culturaÓ do outro e nos diz que

uma das formas de a classe dominante manter seu poder sobre as demais classes sociais Ž por meio da produ�‹o e do consumo da cultura diferenciados. Ela n‹o deve, segundo sua pr—pria ideologia de classe dominante, consumir os mesmos produtos das classes subalternas. E realmente n‹o os consome (CALDAS, 2008, p. 82).

N‹o Ž ˆ toa esse crescimento oportuno de grupos e de ocupa�›es de espa�os pœblicos, assim como a vontade de viver da/s cultura/s apresentada/s por seus componentes, e as adapta�›es realizadas pelos mesmos diante dos brinquedos para conseguir isso.

Continuamos enf‡ticos no tratamento dessa quest‹o: o circuito do ÒMovimento CultÓ vem ocasionando para as manifesta�›es tradicionais/culturais intensas transforma�›es que as descaracterizam e deformam suas pr‡ticas, n‹o s— por romper com seus processos ritual’sticos, mas por criar novos processos que buscam Òsofistic‡-lasÓ a ponto de descaracteriz‡-las. Vemos a imposi�‹o de uma estŽtica que expropria as pr‡ticas a ponto de criar grau de valor, em que se Ž legitimada pela uniformiza�‹o e n‹o pela capacidade de improvisa�‹o, criatividade, espontaneidade, individualidade, coletividade, cooperatividade ou pertencimento.

Afinal, para que Òsofistic‡-laÓ? Esse termo indica que essas culturas precisariam se tornar acess’veis ˆ sensibilidade das elites, e que seus produtores originais deveriam adaptar-se para que as mesmas sejam dignas de serem consumidas. Nesse sentido, o que trazemos para pauta Ž o reconhecimento de que o circuito do ÒMovimento CultÓ n‹o seria apenas um espa�o de manipula�‹o do popular, espa�o de uma vontade ing�nua e um desejo ut—pico, mas tambŽm um espa�o de comercializa�‹o da cultura.

Essa Òconcorr�nciaÓ, t’pica da estrutura comercial, se mostra ÒdeslealÓ, pois nivela agentes culturais que est‹o desigualmente posicionados na estrutura social, diante das disputas de editais e suas correspond�ncias burocr‡ticas, complexas para esses pr—prios universit‡rios, quanto mais para os grupos tradicionais que tiveram pouco acesso a um ensino de qualidade, ou ainda em condi�›es desfavor‡veis para se organizarem para tais empreitadas, ou mesmo estarem sujeitos a vulnerabilidade social. Proporcionalmente a isso, tambŽm surgem pessoas entre esses grupos parafolcl—ricos se autointitulando mestres e mestras dessa ou de outra tradi�‹o, ou de v‡rias(!).

Importa salientar que essa Òsofistica�‹oÓ est‡ a servi�o desse Òprojeto colonialÓ e de base capitalista que, logo, busca retirar dessas manifesta�›es seu poder libert‡rio e sua autonomia, com o intuito de manter os privilŽgios e as hierarquias sociais baseadas nas desigualdades de ra�a, cultura e origem produzidas pelos herdeiros da col™nia. Com isso, ÒelevarÓ as culturas populares ˆ categoria de eruditas est‡ mais relacionado com o processo de esfolia�‹o, que vem despir essas culturas de seu car‡ter pol’tico, eliminando assim qualquer possibilidade de emancipa�‹o e independ�ncia de seus produtores originais, transformando-a por fim em mero produto a ser consumido, domesticando-as.

Zezito de Araœjo demonstra que, para serem reconhecidas ou simplesmente apresentadas para a sociedade, essas culturas s‹o estigmatizadas e estereotipadas. Em termos gerais, destaca que

ao se folclorizar a cultura, folcloriza-se com ela, o indiv’duo e o grupo racial. [Isso faz] parte de um mecanismo hist—rico de produ�‹o do homem-espet‡culo ou espetaculoso, do ser ex—tico e leviano, e, como tal incorporado ˆ dimens‹o n‹o-sŽria (ARAòJO, 2011, p. 4).

Transforma-se numa cultura sem valor, mas com pre�o. Algo que pode ser comprado, usado e descartado. Quando traduzimos isso para seus praticantes tradicionais, Ž a morte que se estabelece, seja simb—lica ou f’sica. N‹o seria uma preocupa�‹o urgente a vida dessas pessoas?

A reflex‹o pertinente de Michel Nicolau (2005, p.141-142) demonstra tr�s Òmodos de se matar a culturaÓ, e ambas se retroalimentam muitas vezes: um modo Ž ÒexotizarÓ a cultura, no qual se perde a heran�a, por n‹o conseguir se reproduzir; outro modo Ž ÒdesprezarÓ a cultura, provocando esquecimento e isolamento, devido a sua n‹o inclus‹o no sistema social; e uma outra Ž ÒpadronizarÓ, passando pela perda de identidade, se adequando ao sistema, mas perdendo suas caracter’sticas pr—prias de cria�‹o. Em suma, sob essa mesma l—gica, as culturas podem ser coisificadas e mortas, e as pessoas que a produzem, tambŽm.

Esse esc‡rnio ocorre na mesma din‰mica escancarada que tornou o mito da democracia racial como uma verdade tanto para negros, quanto para brancos. Muitas vezes, grupos e mestres populares, assim como povos e comunidades tradicionais, de forma paradoxal, s‹o em certo ponto ÒgratosÓ a esses praticantes que ÒlevantamÓ a bandeira da Òcultura popularÓ, n‹o a deixando acabar(!?).

 

 

O espet‡culo das ruas no caminho de uma indœstria cultural (?)

 

A busca por inser�‹o numa sociedade na qual tudo Ž espetacularizado, em que transforma�›es impostas de fora para dentro dessas tradi�›es culturais, em que as mesmas s‹o praticadas com outros prop—sitos por pessoas tambŽm de fora das tradi�›es, atribuindo valores alien’genas ˆs mesmas, se torna o fundamento desse tipo de Movimento.

Essa sociedade se torna um local onde o irreal assume o topo de uma hierarquia a servi�o de uma Òsociedade do espet‡culoÓ, onde o espelho reflete imagens turvas e essas imagens devem ser reproduzidas em grande escala (ADORNO, 2002). Problematizamos essa reprodu�‹o pelo fator da hierarquiza�‹o e as normas de conduta prŽ-determinada.

O fato de oferecer ao pœblico uma hierarquia de qualidades em sŽrie serve somente ˆ qualifica�‹o mais completa. Cada um deve-se portar, por assim dizer, espontaneamente, segundo o seu n’vel, determinado a priori por ’ndices estat’sticos, e dirigir-se ˆ categoria de produtos de massa que foi preparada para o seu tipo (ADORNO, 2002, p. 172).

Essa busca por uma padroniza�‹o (seja de uma dan�a, mœsica, figurinos etc.) nada mais Ž que uma tentativa de se encaixar como um produto aos olhos da indœstria cultural. Para alcan�ar tal status, perde-se e abre-se m‹o de pr‡ticas antigas, rituais, c—digos e identidades. Silencia-se as subjetividades, a criatividade, a espontaneidade e a capacidade de improvisa�‹o dos indiv’duos envolvidos. Cria-se um espa�o onde a tŽcnica Ž sistem‡tica, espa�o onde o improviso n‹o Ž permitido, e por fim, a diversidade tem um exemplar a seguir.

Fica n’tida a viol�ncia simb—lica, uma vez que os s’mbolos e c—digos de povos e comunidades tradicionais sucumbem diante dessas demandas; t�m a forma de viol�ncias psicol—gicas, uma vez que essas refer�ncias tradicionais, frente ˆs suas necessidades, veem suas pr‡ticas cotidianas gerando renda a terceiros, enquanto as mesmas sub-existem financeiramente.

A viol�ncia da sociedade industrial opera nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indœstria cultural podem estar certos de serem jovialmente consumidos, mesmo em estado de distra�‹o. Mas cada um destes Ž um modelo do gigantesco mecanismo econ™mico que desde o in’cio mantŽm tudo sob press‹o, tanto no trabalho quanto no lazer que lhe Ž semelhante (ADORNO, 2002, p. 175).

Acreditamos na capacidade transformadora da cultura popular e reduzi-la a um produto nesse contexto Ž o mesmo que desvalorizar toda hist—ria de vida e resist�ncia de praticantes da mesma como matriz geradora; Ž transformar a cultura em algo descart‡vel como todo e qualquer produto desenvolvido atualmente pelo sistema capitalista, conforme a obsolesc�ncia programada.

 

 

O Coco dos cariocas (?)

 

Ater-se ˆs quest›es pura e simplesmente estŽtica Ž apenas mais uma forma de alienar os dominados para que esses n‹o percebam o que realmente ocorre. Seguindo uma linha reflexiva objetivada pelo Òprojeto colonialÓ, podemos observar que alguns aspectos que caracterizam as rodas e eventos de Coco do Rio de Janeiro apresentam ou buscam apresentar caracter’sticas que, de certa forma, tentam manter uma (suposta) estŽtica similar ao que ocorre no Nordeste. O que ao nosso olhar soa como uma estereotipa�‹o: uma constru�‹o de personagens que se fazem presentes no imagin‡rio do sudestino.

H‡ nesses movimentos, a din‰mica de trazer refer�ncias tradicionais (na pessoa de mestres e mestras, ou outras pessoas envolvidas com tradi�›es do Coco) para o Rio e promover com essas uma Òturn�Ó onde essas refer�ncias s‹o levadas a v‡rios lugares ou a grupos, para passar seus conhecimentos aos sudestinos aventureiros desbravadores da cultura, que colaboram com Òcontribui�›es simb—licasÓ, Òvolunt‡riasÓ ou ÒconscientesÓ, em que, depois de arcar com algumas despesas, tal montante dessas contribui�›es ser‡ entregue a essa refer�ncia mestra. Podemos questionar ainda por que o valor da aula ou oficina oferecida por essas refer�ncias, via de regra, Ž sempre um valor inferior ao pago pela pessoa participante? H‡ nessas pr‡ticas os resqu’cios do que Taussig (2010, p. 15) denomina de Òfetichismo da mercadoriaÓ, que para ele Òpode ser interpretado como o que transforma pessoas em coisas e coisas em pessoasÓ.

Avaliamos nesse sentido que, para alŽm da pr—pria cultura tradicional ser adaptada e servida como produto, as refer�ncias tradicionais s‹o tambŽm coisificadas, colocadas num contexto de presta�‹o de servi�os, perdendo poder de negocia�‹o, sendo intermediadas por terceiros, como que empres‡rios ou produtores de artistas de elite, que tomam para si boa parte do montante – sem, contudo, a premissa de um acordo que formalizasse isso. Mestres e mestras s‹o tratados quase como uma propriedade desse ou daquele grupo, que se coloca como intermedi‡rio entre outros grupos, pessoas interessadas e institui�›es com pot�ncia de realizar algum contrato.

Outra quest‹o que chama a nossa aten�‹o Ž a prepotente capacidade – ou seria t’pico exerc’cio de poder – desses grupos em legitimar qual nordestino pode ou n‹o falar sobre, ou questionar essa din‰mica. A exemplo disso, apresentamos a an‡lise de dados recolhidos nas redes sociais. Neles, observamos a tens‹o criada entre esses grupos parafolcl—ricos do Rio de Janeiro e um nordestino, que, de passagem pela cidade no ano de 2018, questiona as din‰micas e o modo do fazer Coco dos grupos cariocas.

Visamos captar essas tens›es como resultado da mercantiliza�‹o da cultura e como retrato do Òprojeto colonialÓ, atravŽs do processo de deslegitima�‹o ou desqualifica�‹o de seu discurso. Um t’pico exemplo que transforma as tradi�›es populares em ÒcoisaÓ produto, como tambŽm seus praticantes tradicionais – que podem atŽ ter voz, mas n‹o ser‹o escutados.

A partir desse recorte, observamos que os grupos do Rio de Janeiro foram taxativos em desqualificar o discurso desse nordestino pernambucano, Ednaldo, hoje assumindo o nome social Caetana da Silva devido ao processo de transi�‹o de g�nero a qual est‡ passando. Ela reivindicava quest›es relacionadas aos fundamentos presentes na estrutura e nos rituais existentes na manifesta�‹o. Acredita-se que essas reivindica�›es expressariam uma disputa de territ—rio e nicho de mercado, uma vez que a mesma era uma potente concorrente do grupo parafolcl—rico Zanzar[76], que ministra suas aulas e oficinas de Òcultura popularÓ no Circo Voador, ao lado da Fundi�‹o Progresso, local onde Caetana ministra suas oficinas de dan�as e ritmos pernambucanos.

Caetana se autolegitima atravŽs do discurso de ter viv�ncia com mestres e mestras de Coco e Maracatu de Pernambuco, alŽm de ser nativa do mesmo estado. Segundo ela, nos ÒeventosÓ dos grupos do Rio h‡ uma descaracteriza�‹o da manifesta�‹o no que diz respeito aos rituais, estrutura e fun�‹o. J‡ os grupos do Rio apontam um essencialismo na argumenta�‹o de Caetana, junto ao desejo de se autodenominar mestra e dona da cultura nordestina. Como em todas as tens›es, h‡ um pouco de verdade em cada um dos lados. Por um lado, vemos uma pessoa nordestina que vem para o Sudeste na esperan�a de sobreviver de apresenta�›es, aulas e oficinas de dan�a popular, porŽm a mesma fora alertada sobre a import‰ncia de ÒfecharÓ com esses grupos para poder transitar de forma harm™nica entre os mesmos e ainda Òfazer uma granaÓ. Por outro, temos os grupos ÒcriativosÓ que inventam movimentos, toques e rituais estranhos ao Coco, descaracterizando-o.

Os Cocos no Nordeste, mais precisamente de Pernambuco, mesmo ˆs vezes denominados Coco de roda, t�m uma estrutura aberta, na qual quem brinca Ž livre para transitar pelo espa�o e essa mesma liberdade Ž dada a tocadores, diluindo a rigidez de papel fixo para os mesmos. Outro aspecto importante na brincadeira Ž a falta de uma coreografia ou de movimentos Òmuito elaboradosÓ, o que estimula a criatividade dos brincantes, assim como tambŽm se torna algo mais convidativo e envolvente. A insistente batida dos pŽs no ch‹o, o trupŽ, dialoga com o ritmo dos tambores e nos remete a uma rela�‹o com a natureza e as ancestralidades afro-ind’gena. A dan�a Ž marcada por pisadas firmes no ch‹o que reverbera por todo o corpo que se posiciona projetado para terra como um tipo de rever�ncia e conex‹o com a terra.

J‡ no Rio de Janeiro, a manifesta�‹o acontece em um espa�o restrito com delimita�‹o do mesmo em formato de c’rculo e com casal solista. Observamos nessas rodas de Coco uma din‰mica de ÒcompraÓ semelhante ˆ da capoeira, na qual os participantes que pretendem substituir uma das pessoas no centro, ou o casal, precisa, ritualisticamente, saldar os instrumentos ou os tocadores, e posteriormente aquele a quem se deseja substituir. Os movimentos s‹o constru’dos tendo como influ�ncia os movimentos dos Cocos nortistas e nordestinos. Observa-se uma abordagem genŽrica dos gestos, uma vez que esses mesclam as diferentes express›es da manifesta�‹o existente no Norte e Nordeste.

Nos grupos do Rio, os movimentos s‹o amplos com grandes deslocamentos dentro do c’rculo, e percebe-se tambŽm uma coreografia complexa que exige grande habilidade de seus participantes, fatores esses que projetam na roda uma perspectiva de palco, onde o casal solista Ž protagonista de um espet‡culo e cada integrante tem um papel definido que pode ser revezado. Logo, a conex‹o com a terra, espiritualidades e ancestralidades afro-ind’genas passam a ser secund‡rias em rela�‹o ˆ quest‹o estŽtica ali posta, h‡ uma preocupa�‹o estŽtica sobre o melhor ÒfigurinoÓ, o melhor posicionamento dos bra�os, o melhor trupŽ, a performance atlŽtica. Os saltos e uma horizontalidade do corpo que desvirtuam a rela�‹o do contato e conex‹o com a terra, interferindo assim no fluxo de energia. H‡ tambŽm pouco di‡logo com o ritmo: n‹o se dan�a para e nem com a mœsica.

Os aspectos que distinguem uma manifesta�‹o da outra as colocam em rela�‹o de contraponto ou conflito entre ancestralidade e show, entre o encantamento e a performance atlŽtica, que se faz presente nos objetivos daqueles que os praticam. No Rio, a delimita�‹o espacial, a constru�‹o c�nica e a inclus‹o de roupas estereotipadas do tipo Òroupas de ir para rodaÓ, onde as mulheres vestem saias de chita, cada vez mais coloridas e rodadas e os homens ficam mais ˆ vontade denotam uma performance que sofre grandes influ�ncias das din‰micas vivenciadas nas aulas de outros estilos de dan�a e de teatro, extraindo das manifesta�›es populares, no caso do Coco, sua dimens‹o pol’tica e social em nome de um suposto resgate, que n‹o passa de um desservi�o. Um des-encantamento.

 

 

Considera�›es nem t‹o finais

 

O relato aqui apresentado foi constru’do a partir de observa�›es dos eventos nas rodas e de conversas e tens›es que se passaram nas redes sociais e de nossa experi�ncia enquanto pesquisadores, mas tambŽm como brincadores n‹o tradicionais preocupados com as tradi�›es e seus brincadores. Durante esse per’odo, percebemos o grande fluxo de pessoas que se interessam pelas culturas populares nordestinas e logo procuram desvirtuar suas potencialidades pol’ticas e sociais por interesse pr—prio ou por modinha. Criam grupos que disputam os poucos editais ofertados pelas Secretarias de Cultura, tomando na Òm‹o grandeÓ as poucas chances de grupos e mestres tradicionais em ter acesso a algum recurso que minimamente permitiria aos mesmos desfrutar de transporte e alimenta�‹o para participa�›es em eventos.

Durante esse per’odo de experi�ncia visitando mestres e grupos tradicionais, o que foi percebido aqui no Rio de Janeiro Ž que esses universit‡rios Òguardi›esÓ da Òcultura popularÓ raramente est‹o dispostos para as manifesta�›es do sudeste, exceto samba, carnaval e jongo; t‹o escassa quanto Ž sua disposi�‹o para se deslocar para regi›es mais distantes da cidade, como tambŽm ˆ Baixada Fluminense. Comumente, esses se limitam a percorrer o circuito de roda que tem sua varia�‹o entre o Centro do Rio e a Zona Portu‡ria (Lapa, Rua do Lavradio, Pra�a XV, Cais do Valongo, Largo da Prainha, Pedra do Sal, Pra�a Mau‡) e o subœrbio (limitado entre MŽier e Madureira), ou alguns eventos espor‡dicos em datas comemorativas como no caso da festa tradicional do Boi Brilho de Lucas, em Parada de Lucas, ou do Quilombo de S‹o JosŽ no Vale da Serra, em Valen�a, no interior do estado. Em rela�‹o a esses dois œltimos, o primeiro disponibiliza ™nibus saindo da Lapa para o transporte ida e volta, gratuitamente, para quem desejar ir para a festa, que Ž tambŽm espa�o de apresenta�‹o desses mesmos grupos. O segundo virou um evento anual que tem atŽ empresa de turismo oferecendo pacotes de viagem para aprecia�‹o da festa, onde esses grupos de universit‡rios se digladiam para fazer parte da festa com a finalidade de expor seu ÒtrabalhoÓ para a comunidade do ÒMovimento CultÓ e ganhar notoriedade que posteriormente render‡ alunos e apresenta�›es financiadas.

Para n—s, ficam ainda algumas quest›es renitentes: ser‡ que esse modelo de grupo parafolcl—rico serve ˆ resist�ncia cultural, enquanto colaboradores potentes dos grupos, mestres e mestras tradicionais, ou ser‹o aqueles que padronizam, folclorizam e enquadram as tradi�›es ˆs regras sociais dominantes, aos fetiches da elite, ao comŽrcio do ex—tico?

Seria mais c™modo a esses grupos se organizarem para ÒbrincarÓ, do que para apoiar grupos tradicionais? Ou seria, na verdade, mais conveniente?

Ou continuam se vangloriando de supostas influ�ncias salvacionistas que os mesmos estariam promovendo com suas a�›es (de pesquisa e montagem de espet‡culos[77]) entre os grupos tradicionais?

O circuito de rodas culturais do ÒMovimento CultÓ promove algum ÒencantamentoÓ, no sentido que Simas e Rufino (2020) indicam? Aplicam uma Òpol’tica de vidaÓ para, com ou pelos grupos tradicionais, ou participam construindo ainda mais invisibiliza�‹o, padroniza�‹o e morte, ocupando os lugares daqueles outros que as criaram e as mantiveram desde sempre?

 

 

Refer�ncias

 

ADORNO, Theodor W. Indœstria cultural e sociedade, 1903‐1969. S‹o Paulo: Paz e Terra, 2002.

 

ARAòJO, Z. de. Folcloriza�‹o e Significado Cultural do Negro. 2011. Dispon’vel em: www.ideario.org.br/neab/kule2/Textos%20kule2/Zezito.pdf Acesso em: 13 mai. 2020.

 

BRANDÌO, Carlos. Rodrigues. Voca�‹o de criar: anota�›es sobre a cultura e as culturas populares. In: Caderno de pesquisa, v.39, n 138, 2009, p. 715-746.

 

CALDAS, Waldenyr. Cultura. 5. ed. S‹o Paulo: Global, 2008.

 

COMPANHIA FOLCLîRICA DO RIO-UFRJ. ÒHist—ricoÓ. 2020. Dispon’vel em: https://www.eefd.ufrj.br/ciafolc/hist%C3%B3rico Acessado em: 27 dez. 2020.

 

GRUPO ZANZAR. ÒSobre o Grupo zanzarÓ. 2020. Dispon’vel em: https://web.facebook.com/notes/1499954830074166/ Acessado em: 31 dez. 2020.

 

NICOLAU, Michel. Diversidade cultural no sistema ONU: um lugar para cultura. In: BRANT, L. (org.). Diversidade Cultural: globaliza�‹o e culturas locais: dimens›es, efeitos e perspectivas. S‹o Paulo: Escrituras; Instituto Pensarte, 2005, p. 131-148. (Democracia Cultural;1)

SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Encantamento (sobre pol’tica de vida). Rio de Janeiro; M—rula Editorial, 2020.

 

SODRƒ, M. A verdade seduzida: por um conceito de cultura no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

 

TAUSSIG, Michael. The devil and commodity fetishism in South America. Chapel Hill: TheUniversity of North Carolina Press, 2010, pp. xi – xiv; xv-xvii; 3-38. (Tradu�‹o em portugu�s: TAUSSIG, Michael. O diabo e o fetichismo da mercadoria na AmŽrica do Sul. S‹o Paulo: Editora da Unesp, 2010, p. 11-15; 17-20; 23-69).

 

 

[Recebido: 31 dez 2020 – Aceito :18 mar 2021]

 


 

Testemunhos da cat‡strofe: mem—rias do trauma em Vozes de Tchern—bbil

 

 

Catastrophy testimonies: memories of trauma in Voices from Chernobyl

 

 

Joyce Rodrigues Silva Gon�alves[78]

https://orcid.org/0000-0003-4643-1810

 

 

Resumo: Este artigo tem como objetivo realizar uma breve an‡lise da obra de Svetlana AleksiŽvitch, Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, a partir da perspectiva dos estudos memorial’sticos. O livro reœne relatos orais de pessoas que vivenciaram, direta ou indiretamente, a maior cat‡strofe tecnol—gica do sŽculo XX, ocorrida na usina de Tchern—bil, na ent‹o Uni‹o das Repœblicas Socialistas SoviŽticas em abril de 1986. O g�nero testemunho permite que sejam ouvidas as mem—rias traum‡ticas de pessoas comuns, como camponeses, residentes das aldeias no entorno da usina nuclear, donas de casa, m‹es e pais de fam’lias, bem como de profissionais ligados ˆ produ�‹o de energia em Tchern—bil, como engenheiros, f’sicos nucleares, professores, bombeiros e militares soviŽticos.

Palavras-chave: Hist—ria; Oralidade; Cat‡strofe; Testemunho; Tchern—bil.

 

Abstract: This article aims to conduct a brief analysis of the book of Svetlana AleksiŽvitch, Voices from Chernobyl: the oral history of a nuclear disaster, from the perspective of memorialistic studies. The work gathers accounts of oral speech from people who experienced, directly or indirectly, the greatest technological catastrophe of the 20th century, that occurred at the Chernobyl nuclear power plant, in the Union of Soviet Socialist Republics, in April 1987. The testimony genre allows the memories of ordinary people, such as peasants, residents of the villages around the nuclear power plant, housewives, mothers and fathers of families, as well as professionals related to energy production in Chernobyl, as engineers, nuclear physicists, teachers, firefighters and Soviet military.

Key-words: History; Orality; Catastrophe; Testimony; Chernobyl.

 

 

Escolhi o g�nero das vozes das pessoasÉ espreito e ausculto meus livros nas ruas, atr‡s das janelas. Nelas, pessoas reais contam os principais acontecimentos de seu tempo: a guerra, a queda do impŽrio socialista, Tchern—bil, e todos eles conservam na palavra a hist—ria do pa’s, a hist—ria comum. Tanto a antiga, como a mais recente. E cada um guarda a hist—ria de seu pequeno destino humano.

Svetlana AleksiŽvitch, autora bielorrussa, se dedicou ˆ escrita de testemunhos traum‡ticos, registrando em suas obras as mem—rias de centenas de pessoas que vivenciaram as guerras e as demais tragŽdias soviŽticas. AleksiŽvitch afirma, em seu discurso proferido na Academia Sueca, Estocolmo, na ocasi‹o do recebimento do pr�mio Nobel de literatura em 2015, que a mem—ria do povo soviŽtico Ž uma mem—ria sempre traum‡tica, que a hist—ria da (s) na�‹o (›es) soviete (s) nunca foi tranquila, e que a isso essas pessoas est‹o familiarizadas: ÒA mem—ria nos inspira. N—s sempre vivemos no terror, somos capazes de viver no terror; Ž o nosso habitat. E nisso, o nosso povo n‹o tem rivais...Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 227).

Na obra Hist—ria, Mem—ria, Literatura: o testemunho na era das cat‡strofes, M‡rcio Seligmann-Silva (2003) avalia que o sŽculo XX Ž considerado um per’odo catastr—fico, uma vez que ocorreram v‡rias revolu�›es, duas guerras mundiais, tragŽdias humanas, pol’ticas e tecnol—gicas. Em Cat‡strofe e representa�‹o, Seligmann-Silva e Nestrovski (2000) reœnem ensaios que tecem considera�›es a prop—sito dos limites da linguagem, do pensamento e da imagina�‹o na representa�‹o da cat‡strofe nas artes. A Žtica da representa�‹o Ž um ponto crucial, principalmente na estŽtica da recep�‹o, uma vez que a cr’tica das artes, e aqui privilegiamos a literatura, exerce seu papel tambŽm em rela�‹o ˆs escritas de si, em que a voz narrativa se coloca em primeira pessoa, como nos g�neros autobiogr‡ficos, memorial’sticos. A obra de Svetlana AleksiŽvitch Ž constitu’da por testemunhos, em que os lembradores se colocam a rememorar suas experi�ncias traum‡ticas. A despeito de esses sujeitos n‹o escreverem suas pr—prias mem—rias, concederam entrevistas ˆ autora para que ela o fizesse.

Embora a pequena cidade de Tchern—bil seja localizada na Ucr‰nia, as consequ�ncias da explos‹o do reator nœmero quatro de sua usina nuclear se estenderam por grande parte da Europa, particularmente e de modo mais intenso pela Bielorrœssia, j‡ que a cidade se localiza muito pr—ximo ˆ fronteira com esse pa’s. Os impactos do desastre na popula�‹o vulner‡vel v‹o desde os danos f’sicos, psicol—gicos, sociais, atŽ o desamparo dos direitos humanos, que foram, de modo geral, negligenciados.

Svetlana AleksiŽvitch utiliza em suas obras a tŽcnica da metodologia oral, do discurso falado atravŽs dos testemunhos que recolhe de pessoas comuns. Em Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, os relatos nos permitem ter uma no�‹o do que essas pessoas sentiram ao vivenciar tamanha tragŽdia e os impactos dela desde sua deflagra�‹o atŽ os dias atuais, j‡ que a Òzona de exclus‹oÓ, extens‹o territorial no entorno da usina, est‡ permanentemente condenada. ƒ sua Òterra envenenadaÓ. Sendo a autora uma das pessoas atingidas pelo desastre de Tchern—bil, ainda que indiretamente, no cap’tulo inicial da obra em an‡lise ela tece suas pr—prias considera�›es acerca do que significou o incidente e como suas vidas foram definitivamente mudadas a partir de ent‹o. A primeira rea�‹o foi um emudecimento diante do fato tr‡gico: ÒEntre o momento em que aconteceu a cat‡strofe e o momento em que come�aram a falar dela, houve uma pausa. Um momento de mudez. E todos se lembram dele...Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 41).

O sil�ncio que se instaurou Ž perfeitamente compreens’vel, considerando que em situa�›es traum‡ticas Ž normal que as pessoas fiquem em estado de choque, que n‹o saibam nem mesmo como reagir. Ademais, aquelas que, mesmo perplexas, poderiam vislumbrar alguma explica�‹o, que poderiam de algum modo elaborar o trauma, n‹o encontravam meios para tal. A ci�ncia, a literatura, a filosofia tambŽm n‹o as possibilitavam uma sistematiza�‹o racional da cat‡strofe, o que explica o porqu�

[C]alaram-se os fil—sofos e escritores, expulsos de seus canais habituais da cultura e da tradi�‹o. Naqueles primeiros dias, era mais interessante conversar n‹o com cientistas, funcion‡rios ou militares com muitas medalhas, e sim com os velhos camponeses. Gente que vivia sem Tolst—i e DostoiŽviski, sem internet, mas cuja consci�ncia de algum modo continha uma nova imagem de mundo. E ela n‹o se destruiu (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 42).

Os camponeses, pessoas simples em sua maioria, tambŽm n‹o sabiam ao certo o que havia ocorrido, mas o impacto em suas vidas foi tamanho que alterou seus destinos. A maioria foi evacuada dois, tr�s dias depois, umas e outras acabaram retornando ˆ revelia das orienta�›es do Estado. Mesmo as que emigraram tiveram a saœde seriamente comprometida, fam’lias destru’das, planos arruinados. ƒ esse o principal enfoque da obra de Svetlana: ÒEu quero narrar a hist—ria de forma a n‹o perder de vista o destino de nenhum homemÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 50).

Em Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, a autora privilegia mem—rias que s‹o, simultaneamente, individuais e coletivas. Do ponto de vista do coletivo, importa dizer que as reflex›es de Maurice Halbwachs (2004) em seu livro A mem—ria coletiva contribu’ram imensamente para a compreens‹o das quest›es sociais que comp›em a mem—ria. Para o te—rico franc�s, a mem—ria aparentemente mais particular remete a um grupo. O indiv’duo carrega em si a lembran�a, mas est‡ sempre em intera�‹o com a sociedade, seus grupos e institui�›es. ƒ no contexto dessas rela�›es que nossas lembran�as s‹o constru’das. Como na�‹o, o pensamento coletivo predominou durante muito tempo entre os soviŽticos: Ò[M]as isso Ž tambŽm a imagem da barb‡rie, essa falta de medo pela pr—pria vida. N—s sempre falamos Òn—sÓ e n‹o ÒeuÓ: Òn—s mostraremos o hero’smo soviŽticoÓ, Òn—s revelaremos o car‡ter soviŽticoÓ para o mundo todo! (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 333).

Do ponto de vista individual, Svetlana AleksiŽvitch permite que hist—rias particulares sejam conhecidas, que sejam contados destinos conduzidos pela cat‡strofe. O pensamento individual surge mesmo nas amarras do coletivo: Ò[D]epois de Tchern—bil, sente-se isso. N—s temos aprendido a dizer ÔeuÕ. Eu n‹o quero morrer! Eu tenho medo!Ó [Nat‡lia Roslova, presidenta do Comit� Mulheres de Moguilov] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 334).

O primeiro dos relatos na obra de Svetlana Ž de Liudmila Ign‡tienko, esposa gr‡vida de um dos primeiros bombeiros que foram enviados ao reator para tentar apagar o inc�ndio ap—s a explos‹o. A mulher descreve como tudo aconteceu e como se deram as duas semanas seguintes, em que viu o esposo se esvanecer rapidamente em um hospital de Moscou em consequ�ncia da s’ndrome aguda radiativa. A descri�‹o Ž chocante, carregada de horror. Ap—s a morte do marido, a esposa encontra nos sonhos uma alternativa para sobreviver, neles ela se encontra novamente com seu amado e com a filha que nascera morta em raz‹o da radia�‹o a que esteve exposta enquanto acompanhava e cuidava do homem. Liudmila confessa: ÒAssim vou vivendo. Vivo ao mesmo tempo num mundo real e irreal. N‹o sei onde me sinto melhorÓ, e completa: ÒAs pessoas n‹o querem ouvir falar da morte. Dos horrores [...] Mas eu falei do amor, como eu ameiÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 37-38).

A fuga da realidade Ž bastante recorrente ao longo do livro e se mostra de diversos modos. A pr—pria autora reconhece: ÒA realidade resvala, n‹o cabe no homemÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 49). H‡ um relato interessante que exemplifica esse resvalamento do real, em que a voz que testemunha o desastre se coloca alŽm da realidade, que parece viver uma vida imagin‡ria, surreal:

E eu me lembro do duende. Ele vive h‡ muito tempo aqui comigo, n‹o sei exatamente onde, saiu do forno. De capuz preto e roupa preta com bot›es brilhantes. N‹o tem corpo, mas se move. Durante um tempo eu pensei que fosse meu marido que vinha me ver. Veja s—... Mas n‹o. ƒ um duendezinho... Vivo sozinha e n‹o tenho com quem falar, de modo que ˆ noite eu conto para mim mesma o dia que passou. [Maria Fed—tovna Vel’tchko, cantora popular e contadora de hist—rias] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 210).

A alucina�‹o surge, nesse caso, como consequ�ncia do trauma vivido e da solid‹o p—s-cat‡strofe. Ali‡s, muitas pessoas vivenciaram/vivenciam a solid‹o p—s-Tchern—bil, pois v‡rias perderam suas fam’lias ou acabaram se isolando de algum modo.

Ap—s o per’odo inicial em sil�ncio, os atingidos pela cat‡strofe come�aram a retomar o fato e elaborar suas mem—rias traum‡ticas. Mas, afinal,

[P]ara que as pessoas recordam? Para restabelecer a verdade? A justi�a? Para se libertar e esquecer? Ou por que compreendem que participaram de um evento grandioso? Por que buscam no passado alguma prote�‹o? E, alŽm disso, a recorda�‹o Ž uma coisa muito fr‡gil, ef�mera, n‹o Ž um conhecimento exato, Ž uma suposi�‹o do homem sobre si mesmo. Isso ainda n‹o Ž conhecimento, Ž apenas sentimento. [...]. Para que as pessoas recordam? ƒ a minha pergunta. Mas eu falei com voc�, pronunciei algumas palavras. E compreendi alguma coisa... Agora n‹o sinto t‹o sozinho. Mas o que acontece com os outros?Ó [Piotr S., psic—logo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 55-57).

O relato acima Ž bastante consciente da dificuldade da assimila�‹o dos fatos; considerando-se que foi proferido por um psic—logo, Ž perfeitamente compreens’vel. Mas, como a testemunha j‡ sinalizara em sua fala, como as pessoas lidam com suas pr—prias lembran�as, de modo geral, Ž algo problem‡tico a ponto de se questionarem: Ò[E]nt‹o, o que Ž melhor: lembrar ou esquecer?Ó [Evgu�ni Aleks‡ndrovitch Br—vkin, professor da Universidade Estatal de G—mel] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 131).

H‡ uma rela�‹o intr’nseca entre lembran�a e esquecimento. O sujeito que rememora est‡ sempre colocando em evid�ncia uma mem—ria selecionada, consciente ou inconscientemente, enquanto recha�a outras partes das experi�ncias vividas. Quando o lembrador n‹o se d‡ conta desse movimento, Ž como se houvesse uma amnŽsia decorrente do trauma vivenciado. O relato abaixo exemplifica essa falha da mem—ria, uma lacuna que pode ser considerada em termos neurol—gicos e tambŽm psicol—gicos/psicanal’ticos:

[E]u me esqueci de tudo. S— lembro que estive ali, mas n‹o me recordo de mais nada. Eu me esqueci de tudo. No terceiro ano depois da desmobiliza�‹o, aconteceu uma coisa na minha mem—ria... Nem os mŽdicos entendem... N‹o consigo sequer contar dinheiro, me perco. Perambulo de um hospital a outro... J‡ contei isso, ou n‹o? [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 104).

Trauma e amnŽsia est‹o, portanto, frequentemente e intimamente relacionados, assim como as Òlembran�as encobridorasÓ, sinalizadas por Sigmund Freud et al. (1969) como uma forma de escamotear mem—rias traum‡ticas ao se rememorar fatos mais triviais do passado.

Algumas pessoas tinham a no�‹o da contribui�‹o que seria prestar seus testemunhos para a hist—ria oficial: Ò[L]embrar? Eu quero e n‹o quero lembrar. Se os cientistas n‹o sabem nada, se os escritores n‹o sabem nada, ent‹o os ajudaremos com a nossa vida e a nossa morteÓ [K‡tia P.] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 147). Outras precisavam contribuir consigo mesmas: ÒN‹o me pergunte. N‹o vou dizer. N‹o vou falar nada sobre isso... N‹o, eu posso conversar com voc� para tentar entender, se for poss’velÓ [Nina Kovaliova, esposa de um liquidador] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 269).

Por outro lado, houve aqueles que sentiam necessidade de testemunhar suas experi�ncias traum‡ticas, como Nikolai Kalœguin (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 65): Ò[E]u quero testemunhar. Isso aconteceu h‡ dez anos e todo dia se repete comigo. Agora mesmo. Carrego isso sempre comigo. N‹o sou escritor, n‹o saberia como contar... Mas sou testemunhaÓ. Observamos nessa fala que o trauma se repete na mem—ria, que n‹o foi elaborado nem superado. No caso desse personagem, a fatalidade maior se concretizou na morte da filha, motivo pelo qual o homem se revolta e reitera: Ò[E]u quero testemunhar, a minha filha morreu por culpa de Tchern—bil. E ainda querem nos calarÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 68). Percebemos nesse discurso que houve um silenciamento imposto pelos respons‡veis pela tragŽdia e pelo pr—prio Estado, por isso a import‰ncia da hist—ria oral para preencher as lacunas da hist—ria oficial.

Um motivo muito comum que leva alguŽm a testemunhar sobre determinado acontecimento Ž a consci�ncia da finitude da vida. Ë medida que o tempo passa, sente-se a necessidade de revelar algo importante, principalmente quando se trata de um fato hist—rico, como Ž o caso do acidente em quest‹o. Os documentos com registros sobre o desastre de Tchern—bil foram destru’dos por v‡rias raz›es: primeiro porque, burocraticamente, os papŽis oficiais na Uni‹o SoviŽtica s— eram arquivados durante tr�s anos, depois porque eram radiativos, e, por œltimo, porque houve a reestrutura�‹o do exŽrcito e a dissolu�‹o das unidades administrativas e militares depois da Perestroika. PorŽm, alguns conjecturavam uma circunst‰ncia muito plaus’vel: Ò[Ž] poss’vel que tenham sido destru’dos para que ninguŽm soubesse a verdade. E n—s somos testemunhas. Mas em breve morreremosÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 117).

AlŽm da omiss‹o de documentos, houve tambŽm omiss‹o de verdades. As autoridades diziam que estava tudo sob controle, enquanto os habitantes de aldeias ao redor de Tchern—bil recebiam alt’ssimas dosagens de radia�‹o. Algumas comunidades foram evacuadas, outras n‹o. Os camponeses continuaram a cultivar, colher e consumir normalmente os alimentos que plantavam. Muitos deles foram persuadidos a permanecerem em suas casas, pois eram tambŽm m‹o de obra para o Estado.

N‹o apenas pessoas comuns, que viviam no campo e em pequenas aldeias foram enganadas, tambŽm militares tiveram informa�›es omitidas enquanto serviam ao Estado, alguns foram enviados para o trabalho em Tchern—bil ap—s o acidente sem ao menos terem conhecimento disso, apenas foram convocados e encaminhados. Um dos militares que testemunha na obra de Svetlana afirma que n‹o os informavam sequer os valores das doses radiativas que estavam recebendo durante o trabalho: Ò[o]s roentgen que nos tocavam eram segredo militar. [...]. Nem sequer ao partirmos disseram quanto... Cachorros! Filhos da putaÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 68). V‡rias denœncias da mesma natureza s‹o encontradas ao longo das narrativas na obra em an‡lise.

Havia ainda controvŽrsias entre cientistas sobre os riscos que corriam os militares em servi�o. Alguns afirmavam que n‹o havia problema nenhum, outros alertavam para o mal que faria a exposi�‹o ˆ radia�‹o. Uns acreditavam que estavam seguros, outros sabiam do perigo e das prov‡veis consequ�ncias.

De fato, era plenamente compreens’vel que as pessoas fossem facilmente ludibriadas pelas autoridades, e atŽ mesmo que n‹o acreditassem, quando eram advertidas, no perigo a que estavam sujeitas com a alta radia�‹o, uma vez que estavam lidando com um inimigo invis’vel:

A culpa Ž da radia�‹o ou de quem? Como ela Ž? Vai ver, mostraram-na em algum filme. Voc� viu? Ela Ž branca ou o qu�? De que cor? Uns contam que ela n‹o tem cor nem cheiro, outros contam que Ž negra. Como a terra! Se n‹o tem cor, Ž como Deus: est‡ em todo lugar, mas ninguŽm v�. Querem nos assustar. As ma�‹s est‹o penduradas nas ‡rvores e as folhas tambŽm, as batatas est‹o crescendo no campo... O que eu penso Ž que n‹o houve nenhum Tchern—bil, que inventaram isso tudo. Enganaram as pessoas [Anna Petr—vna Bad‡ieva, residente na zona contaminada] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 83).

Podemos observar no trecho acima a descren�a naquilo que n‹o Ž materializado, no que n‹o Ž visto a olhos nus, o que acentuou o perigo das part’culas radiativas. Para a personagem, se a vida continua seguindo seu curso normalmente, ent‹o n‹o houve cat‡strofe, est‡ tudo certo. Em outro relato percebemos tambŽm essa necessidade de materializa�‹o do perigo. Duas idosas garantem ter visto o monstro da radia�‹o:

Pois olhe: est‡ vendo aquela casa ali meio constru’da? Os moradores a abandonaram e foram embora. Por medo. Uma noite dessas fomos ver por dentro. Olhamos pela janela. E ali estava, debaixo de uma viga, a radia�‹o. Com uma cara ruim e olhos de fogo! Negra, negra! (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 317).

Tal fala soa como uma alucina�‹o, uma neurose traum‡tica, como descrita pela psican‡lise de Freud et al. (1969) em seu texto O mecanismo ps’quico do esquecimento. Esse mesmo mecanismo pode ser observado no caso do relato da mulher que v� um duende em casa. Enfim, cada um encontra uma forma para conduzir suas experi�ncias traum‡ticas, seja para lembr‡-las ou para esquec�-las, ainda que atravŽs de uma puls‹o de morte, que seria uma solu�‹o e, para uns, atŽ mesmo uma b�n�‹o: Ò[D]e alguns Deus se apieda, mas a mim ainda n‹o concedeu a morte. Continuo vivaÓ [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 71).

A morte, ali‡s, Ž um tema predominante nos relatos reunidos na obra de AleksiŽvitch e estava presente entre indiv’duos de todas as faixas-et‡rias, inclusive os natimortos. Como consequ�ncia do desastre aumentaram os ’ndices de abortos, tanto espont‰neos quanto induzidos, e houve um grande desequil’brio entre as taxas de natalidade e mortalidade na regi‹o no per’odo p—s-cat‡strofe.

Alguns soldados que estiveram nas guerras em que a Uni‹o das Repœblicas Socialistas SoviŽticas lutou afirmam que a tragŽdia de Tchern—bil se equipara ˆ situa�‹o bŽlica. Ë medida que as pessoas iam morrendo em decorr�ncia de doen�as desencadeadas pela radiatividade, os enfermos j‡ imaginavam seus momentos finais: Ò[N]‹o est‡ claro como vou morrer. Se eu pudesse escolher a minha morte, seria uma morte comum. N‹o como as de Tchern—bil. A œnica coisa que sei Ž que com o meu diagn—stico n‹o se dura muito. [...]. Estive no Afeganist‹o. Ali a coisa era mais f‡cil. Com uma bala... [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 120).

A imin�ncia da morte pairava sobre todo o povo de Tchern—bil, atŽ mesmo as crian�as tinham consci�ncia disso. Uma das testemunhas relata uma cena que presenciou em um ™nibus, em que um menino n‹o cedeu seu lugar a um idoso, que o repreendeu dizendo: ÒÔQuando voc� for velho, tambŽm n‹o v‹o te ceder o lugarÕ. ÔEu nunca vou ficar velhoÕ, respondeu o menino. ÔE por qu�?Õ. ÔTodos n—s vamos morrer logoÕÓ [L’lia Kuzmenkova, professora] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 299).

Um dos cap’tulos finais de Vozes de Tchern—bil Ž dedicado ao coro de crian�as e adolescentes que a autora entrevistou em um hospital, e os relatos s‹o profundamente tristes, tr‡gicos. Um adolescente conta como v‡rios de seus amigos e colegas de tratamento j‡ se foram e se mostra resignado com a morte iminente:

Mas como me aborrecem essas paredes cinza do hospital. Como estou fraco ainda. [...]. E a minha chega. Ontem ela (a m‹e) pendurou um ’cone na enfermaria. Cochicha alguma coisa naquele canto, se p›e de joelhos. Todos se calam: professores, mŽdicos, enfermeiras. Acham que eu n‹o suspeito de nada. Que n‹o sei que vou morrer em breve (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 348-349).

Em v‡rios dos testemunhos orais podemos observar a perspectiva infantil da morte, como uma crian�a que sabia que o av™ estava morrendo e queria ver como Ž que sua alma sairia voando. As brincadeiras frequentemente giravam em torno da cat‡strofe da usina: Ò[E]u tenho um irm‹ozinho pequeno. Ele adora brincar de Tchern—bil. Constr—i um abrigo, cobre de areia o reator. Ou ent‹o se veste de espantalho e corre atr‡s de todo mundo: Uh-uh-uh! Eu sou a radia�‹o!Ó ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 348). Na escola desenhavam a Tchern—bil submersa no caos do acidente nuclear, ainda que pouco ou nada fosse dito sobre a quest‹o. O sil�ncio sobre a cat‡strofe nas escolas era uma realidade, uma vez que havia falta de informa�›es para repasse, censura do Estado e atŽ mesmo um bloqueio psicol—gico que impedia que as pessoas em Tchern—bil conversassem entre si sobre o desastre. Geralmente falavam sobre o fato com estrangeiros, jornalistas e parentes que n‹o residiam na zona contaminada.

As mem—rias de crian�as s‹o realmente impactantes, das mais singelas ˆs mais tr‡gicas e desoladoras. Viam tudo que possu’am ser enterrado em grandes buracos, suas casas com todos os seus pertences, livros, brinquedos:

[E]enterram tudo com areia e barro e comprimem. No lugar da aldeia fica um campo liso. A nossa casa est‡ enterrada l‡. E a escola, o soviete local. E tambŽm o meu herb‡rio e dois ‡lbuns de selos, que eu sonhava em buscar. Eu tinha uma bicicleta. Tinham acabado de comprar para mim (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 346).

O desastre significou uma guerra at™mica, desde a movimenta�‹o de pessoas na regi‹o atŽ a luta pela vida. Alguns utilizavam a express‹o Òcampo de concentra�‹oÓ, Òcampo de Tchern—bilÓ para se referirem ao territ—rio contaminado pelos elementos qu’micos radiativos. Ò[...] hoje a guerra Ž outra. No dia 26 de abril de 1986, n—s sobrevivemos a uma guerra. Uma guerra que n‹o terminouÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 120). Os militares e todos os que serviram em Tchern—bil foram considerados por muitos como her—is:

Eu os considero her—is, e n‹o v’timas de guerra, de uma guerra que Ž como se n‹o tivesse acontecido. Chamam de acidente, de cat‡strofe. Mas foi uma guerra. AtŽ os nossos monumentos de Tchern—bil parecem militares [Serguei Vass’lievitch S—boliev, diretor da Associa�‹o Republicana Escudo para Tchern—bil] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 222).

Assim como acontece em um cen‡rio de guerra, as pessoas serviam, muitas voluntariamente, outras por press‹o. Contudo, n‹o recusavam a miss‹o, atŽ mesmo cientistas se dispuseram ao trabalho bra�al, como conta uma testemunha ˆ Svetlana:

[S]ou engenheiro qu’mico, doutor em ci�ncias qu’micas, e me obrigaram a abandonar o emprego de respons‡vel por um laborat—rio qu’mico num importante complexo industrial. E como me utilizaram? P›em nas minhas m‹os uma p‡. Esse foi praticamente o meu œnico instrumento. Foi aqui que nasceu o aforismo: contra o ‡tomo, a p‡ [Ivan Jm’khov] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 247).

Aqueles que sobreviveram ˆ cat‡strofe tiveram que lidar, como se n‹o bastasse o trauma imensur‡vel do desastre e as condutas de guerra, com o preconceito e a discrimina�‹o. Ò[A]s pessoas t�m medo de n—s. Dizem que somos contagiosos. Por que Deus nos castigou?Ó [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 74). O fato de terem sido altamente expostos ˆ radia�‹o os tornou um povo t—xico:

Pod’amos ter ido embora daqui mas considerei com meu marido e decidimos ficar. Temos medo das outras pessoas. Aqui ao menos s‹o todos de Tchern—bil. N‹o assustamos um ao outro; se alguŽm oferece ma�‹s ou pepinos do seu jardim, da sua horta, n—s pegamos e comemos. N‹o escondemos os alimentos com vergonha no bolso para depois jog‡-los fora. Todos n—s temos a mesma lembran�a, a mesma sorte. Em qualquer outro lugar, em qualquer parte n—s somos estranhos. Apestados. Olham para a gente de rabo de olho. Com receio. As pessoas nos chamam Ògente de Tchern—bilÓ, Òcrian�as de Tchern—bilÓ, Òevacuados de Tchern—bilÓ. J‡ estamos acostumados [NadiŽjda Burakova, habitante do povoado urbano de J—iniki] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 290).

Podemos observar no relato supracitado que os danos foram muito alŽm de f’sicos, psicol—gicos e materiais, mas tambŽm foram morais, afetaram a vida humana, social, e atŽ ’ntima. Sabendo da impot�ncia sexual masculina como uma das sequelas da alta radia�‹o, um jornalista tentou tratar do assunto com alguns militares que atuaram no acidente; entretanto, nenhum deles se abriu para falar sobre a quest‹o; conseguiu somente confid�ncias de algumas mulheres que os conheciam:

[O]lhe, agora mesmo estavam sentados aqui com voc�s uns rapazes (elas riem), pilotos. Uns caras de dois metros. Cheios de medalhas. Para os sovietes eles s‹o bons, mas para a cama n‹o prestam [Serguei Vass’lievitch S—boliev, diretor da Associa�‹o Republicana Escudo para Tchern—bil] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 222).

O fantasma da consequ�ncia ’ntima, sexual, cercava os homens que trabalharam diretamente no acidente nuclear, pois as mulheres, tendo conhecimento disso, n‹o desejavam se unir a eles para namorar nem casar:

[G]ostei de uma garota: ÒVamos namorar?Ó. ÒPara qu�? Voc� agora Ž um dos de Tchern—bil. Quem vai querer casar com voc�?Ó. Conheci outra garota. Nos beijamos, namoramos. A coisa estava ficando sŽria. ÒVamos nos casarÓ, eu propus. E ela me perguntou algo mais ou menos assim: ÒSer‡ que voc� pode? Est‡ em condi�›es?Ó. Eu iria embora daqui, e certamente ainda vou. Mas tenho pena dos meus pais... [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 115).

Tchern—bil passou a ser considerada como doen�a:

[U]m dia, morreu inesperadamente uma jovem gr‡vida. Sem diagn—stico algum, nem sequer o patologista deu o diagn—stico. Uma menina se enforcou. Do quinto ano. Assim, sem mais nem menos. Os pais ficaram loucos. O diagn—stico era o mesmo para todos: Tchern—bil, quando acontecia algo, todos diziam: Tchern—bil... [Nina Konstant’novna, fil—loga, professora] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 165).

AlŽm de diagn—stico mŽdico, Tchern—bil passou a servir tambŽm como justificativa para os problemas da na�‹o, assim como as guerras. A cat‡strofe trouxe novamente as medidas extremas por parte do governo, redistribui�‹o e racionamento: Ò[a]gora surgia a possibilidade de jogar tudo na conta de Tchern—bil. ÔSe n‹o fosse Tchern—bil...ÕÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 335).

A cat‡strofe criou um povo, surgiu um novo grupo: Ò[o] mundo se dividiu: h‡ os de Tchern—bil, n—s; e h‡ voc�s. O resto dos homensÓ [Nikolai J‡rkovi, professor] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 172).

A metodologia de coleta de informa�›es e testemunhos utilizada por Svetlana AleksiŽvitch proporciona a exposi�‹o de v‡rios casos, crendices e supersti�›es, o que Ž comum na hist—ria oral. Essas vozes reunidas formam um ÒcoroÓ, como denominado pela pr—pria autora em alguns cap’tulos do livro. Muitas ressoam a religi‹o e a fŽ, um suporte comum e efetivo para a sobreviv�ncia daqueles que recorrem ˆ cren�a e se apegam a ela.

O humor, apesar de contradit—rio, ˆs vezes, se tornava tambŽm um modo de escapismo, uma espŽcie de fuga da realidade cruel em que Òo povo de Tchern—bilÓ estava inserido. H‡ certo estranhamento quando refletimos sobre um fato tr‡gico ser ou n‹o ris’vel, mas anedotas eram comuns entre a popula�‹o da regi‹o. H‡ um epis—dio c™mico que exemplifica a possibilidade de Òrir para n‹o chorarÓ:

[C]hora quem n‹o labora... Veja uma ucraniana que vende no mercado umas ma�‹s grandes e vermelhas. Ela grita: ÒComprem ma�‹s! Ma�‹s de Tchern—bil!Ó. AlguŽm a aconselhou: ÒN‹o diga, mo�a, que Ž de Tchern—bil. Assim ninguŽm vai comprarÓ. ÒQue nada! Compram sim, e como! Uns levam para a sogra, outros para o chefeÓ [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 78).

Ao mesmo tempo, as pessoas enxergavam a beleza e o horror que as rodeava. As terras soviŽticas no entorno de Tchern—bil s‹o descritas no livro como paisagens belas: Ò[E] essa mesma beleza era o que fazia daquele horror algo ainda mais pavoroso. O homem tinha que abandonar aqueles lugaresÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 136). Alguns dos testemunhos registrados pela autora lamentam que as pessoas n‹o puderam mais desfrutar dos prazeres cotidianos, como nadar nas ‡guas l’mpidas de seus rios, ou colher flores e frutos dos seus bosques.

O que percebemos nos registros de Svetlana AleksiŽvitch Ž que houve muita neglig�ncia e desordem por parte das autoridades e dos respons‡veis pela condu�‹o do caso: Ò[N]‹o escreva sobre as maravilhas do hero’smo soviŽtico. TambŽm houve, Ž verdade. Mas primeiro voc� deve falar da neglig�ncia e da desordem, depois das proezasÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 111), e que, apesar da disposi�‹o ao sacrif’cio que o povo demonstrou, o descaso do governo Ž o que tiveram em troca:

[S]omos pobres, sobrevivemos de donativos. O comportamento do Estado, por outro lado, Ž de pura vigarice, abandonou essa gente por completo. Depois que morrem, inscrever‹o o nome delas em ruas, escolas ou alguma unidade militar, mas s— depois que morrerem (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 216).

[E] nas sess›es da comiss‹o governamental, informava-se de maneira simples e habitual que: Òpara tal coisa deve-se perder duas ou tr�s vidas; para outra, uma vidaÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 220).

Nem mesmo ˆ beira da morte era comum o arrependimento por ter servido a p‡tria em Tchern—bil: Ò[U]ma vez eu lhe perguntei: ÔVoc� agora se arrepende de ter ido?Õ. E ele moveu a cabe�a, dizendo: Ôn‹oÕÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 359).

A censura era uma constante em rela�‹o ao acidente nuclear. Jornalistas, cinegrafistas, fot—grafos eram recha�ados durante sua atua�‹o, tinham seus instrumentos de trabalho confiscados: Ò[E]ra proibido filmar a tragŽdia, s— se podia filmar o hero’smo!Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 219). Assim como todas as inst‰ncias sociais eram controladas pelo governo, tambŽm a medicina e outras ci�ncias eram submissas ˆ pol’tica, por isso geralmente se omitiam as informa�›es mais pol�micas e a verdade sobre os ’ndices de radiatividade na regi‹o.

Mesmo em meio ˆ cat‡strofe, a cultura de privilŽgios continuava reinando. Um relato de Vozes de Tchern—bil denuncia um caso de desamparo de uns em favor de outros, que tinham prioridade por serem ricos:

[V]�m ˆ minha mem—ria alguns fragmentos. Cenas. Um presidente de colcoz retira em dois caminh›es todas as suas coisas, a sua fam’lia, os m—veis; e o respons‡vel do Partido exige um carro para eles. Exige justi�a. Eu sou testemunha de que por v‡rios dias n‹o conseguiam sequer retirar de l‡ as crian�as da creche. N‹o havia transporte (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 159-160).

Houve em torno do desastre nuclear muitos mitos. As consequ�ncias da tragŽdia eram difundidas entre as pessoas locais e as que n‹o residiam na regi‹o. O imagin‡rio Ž sempre um espa�o fŽrtil, e, diante de um fato como esse, a mitologia passou a fazer parte do cotidiano popular:

[O]s jornais e as revistas competem entre si para ver quem escreve as coisas mais terr’veis, e esses horrores agradam, sobretudo ˆqueles que n‹o os viveram. Todo mundo leu algo sobre os cogumelos do tamanho de uma cabe�a humana, mas ninguŽm os encontrou. Como os p‡ssaros de duas cabe�as (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 173).

Mitologias ˆ parte, mudan�as de fato aconteceram tanto na paisagem, quanto no car‡ter nacional:

[N]‹o apenas a paisagem mudou, pois onde antes se estendiam campos, cresceram novamente bosques e arbustos, mas tambŽm o car‡ter nacional mudou. Todos est‹o depressivos. O sentimento Ž de estarem irremediavelmente condenados. Para uns, Tchern—bil Ž uma met‡fora, um s’mbolo. Para n—s, Ž a nossa vida. Simplesmente a vida (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 291).

A cat‡strofe de Tchern—bil gerou um trauma mais amplo, alŽm dos aspectos f’sicos, psicol—gicos e sociais, surgiu um trauma da cultura:

Por que se escreve t‹o pouco sobre Tchern—bil? Os nossos escritores continuam a escrever sobre a guerra, sobre os campos de trabalho stalinistas, mas calam sobre Tchern—bil. H‡ um, dois livros e acabou-se. Voc� acha que Ž mera casualidade? O acontecimento ainda est‡ ˆ margem da cultura. ƒ um trauma da cultura. E a œnica resposta Ž o sil�ncio. Fechamos os olhos como crian�as pequenas e acreditamos que assim nos escondemos, que o horror n‹o nos alcan�ar‡ [Evgu�ni Br—vkin, professor universit‡rio] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 130).

Como j‡ sinalizado por Svetlana em seu discurso na Academia sueca na cerim™nia do pr�mio Nobel de literatura, a cultura da tragŽdia Ž inerente ao povo soviŽtico. Outro relato de uma testemunha tambŽm chama a aten�‹o para a quest‹o quando reflete Ò[s]obre o destino da cultura russa, sobre a sua inclina�‹o para o tr‡gico. Sem a sombra da morte, n‹o se podia entender nada. S— sobre a base da cultura russa seria poss’vel entender a cat‡strofe. S— a nossa cultura estava preparada para entende-laÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 296).

Embora o povo soviŽtico estivesse sempre acostumado ˆ cultura da tragŽdia, houve um estado de choque decorrente do desastre de Tchern—bil, uma impot�ncia coletiva diante do trauma: Ò[M]e incomoda a minha experi�ncia como professora. [...] Eu me sinto impotente. H‡ cultura antes de Tchern—bil, e nenhuma cultura depois de Tchern—bil. [...] onde est‹o os nossos escritores, os nossos fil—sofos?Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 283).

Quando lidamos com testemunhos de viol�ncia, com lembran�as traum‡ticas, Ž comum nos depararmos com o discurso do indiz’vel. Faltavam palavras para descrever as experi�ncias, a l’ngua n‹o d‡ conta de traduzir a mem—ria, como afirma Giorgio Agamben sobre a tragŽdia da Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Em sua obra O que resta de Auschwitz, Agamben (2008, p. 11) observa as dificuldades dos testemunhos de guerra em que Òtrata-se de narrar Ôo que aconteceuÕ e de afirmar que Ôo que aconteceuÕ n‹o faz parte do narr‡velÓ. Algumas testemunhas encontram outras formas de express‹o quando o discurso n‹o Ž poss’vel ou suficiente: Ò[P]or que me tornei fot—grafo? Porque me faltam as palavrasÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 298).

Apesar das experi�ncias do horror e do trauma, houve um aprendizado da humanidade depois do desastre. Na concep�‹o de uma testemunha entrevistada por Svetlana AleksiŽvitch: Ò[N]‹o s— n—s, mas toda a humanidade se tornou mais s‡bia depois de Tchern—bil. Amadureceu, entrou em outra idadeÓ [Guen‡di Gruchev—i, deputado bielorrusso] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 185).

As pessoas, geralmente, passam a refletir mais sobre sua exist�ncia quando ocorrem desastres como em Tchern—bil. ƒ poss’vel reconhecer em situa�›es extremas a efemeridade da vida e a import‰ncia do registro dos fatos hist—ricos, pois esses normalmente se consolidam como verdades do mundo e entram para a Hist—ria oficial, como exemplifica o excerto abaixo:

[E]u sonhava! Lamentava n‹o estar l‡ em 1917 ou em 1941. Hoje penso de outra forma: eu n‹o quero viver a hist—ria, no tempo hist—rico. A minha pequena vida ficaria imediatamente sem defesa. Os grandes acontecimentos a esmagariam sem sequer not‡-la. Sem se deter. Depois de n—s, restar‡ apenas a hist—ria. Restar‡ Tchern—bil. E onde est‡ a minha vida? O meu amor? (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 270).

Apesar da consci�ncia da finitude de suas vidas an™nimas, alguns se apegam ˆ cren�a na hist—ria, de modo que esperam a justi�a com o passar do tempo: Ò[E]u creio na hist—ria. No julgamento da hist—ria. Tchern—bil n‹o terminou, apenas come�aÓ [Vass’li NesterŽnko, ex-diretor do Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ci�ncias da Belarœs] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 328).

As imagens apocal’pticas de Tchern—bil s‹o como uma vers‹o tecnol—gica de fim do mundo. N‹o obstante, Svetlana AleksiŽvitch pondera sobre a possibilidade de incidentes catastr—ficos como esse se repetirem:

Antes de tudo, em Tchern—bil se recorda a vida Òdepois de tudoÓ: objetos sem o homem, paisagem sem o homem. Estradas para lugar nenhum, cabos para parte alguma. Voc� se pergunta o que Ž isso: passado ou futuro? Algumas vezes parece que estou escrevendo o futuro (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 51).

Podemos concluir que a contribui�‹o da tŽcnica de coleta de testemunhos orais Ž fundamental para preencher as lacunas da hist—ria oficial, que frequentemente n‹o privilegia alguns discursos populares importantes. A tentativa de silenciamento e exclus‹o das vozes que denunciam os horrores e as injusti�as de uma na�‹o encontra resist�ncia quando esses sujeitos marginalizados social e culturalmente encontram um lugar de fala como o que oferece a obra de Svetlana AleksiŽvitch.

 

Refer�ncias

 

AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz. Trad. Selvino J. Assmann. S‹o Paulo: Boitempo, 2008.

 

ALEKSIƒVITCH, Svetlana. Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear. Trad. Sonia Branco. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 2016.

 

FREUD, Sigmund; STRACHEY, James; FREUD, Anna, STRACHEY, Alix; TYSON, Alan; SALOMÌO, Jayme. Edi�‹o Standard brasileira das obras psicol—gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. 24v.

 

HALBWACHS, Maurice. A mem—ria coletiva. Trad. Beatriz Sidou. S‹o Paulo: Centauro, 2004.

 

SELIGMANN-SILVA, M‡rcio (org.). Hist—ria, mem—ria, literatura: o testemunho na era das cat‡strofes. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

 

SELIGMANN-SILVA, M‡rcio; NESTROVSKI, Arthur (org.). Cat‡strofe e representa�‹o. S‹o Paulo: Escuta, 2000.

 

 

[Recebido: 21 jul 2020 – Aceito: 25 set 2020]


 

Rap e resist�ncia: necropol’tica e escala em Os meninos correm

 

 

Rap and Resistance: Necropolitics and Scale in Os meninos correm

 

 

Everton Santos de Brito[79]

https://0000-0002-2182-1700

 

Karina Figueredo Souza[80]

https://0000-0002-5704-9767

 

Lucas Santos CafŽ[81]

https://0000-0003-2654-0788

 

Maria Thereza de Oliveira Azevedo[82]

https://0000-0003-2912-2346

 

Resumo: Este artigo se prop›e a um exerc’cio de an‡lise do poema oral Os meninos correm da rapper Pacha Ana, para refletir sobre o mal-estar do tempo presente e as possibilidades de resist�ncia pela oralidade. O conceito de escala foi desenvolvido pela sociolingu’stica e, neste artigo, nos baseamos na colet‰nea organizada por E. Summerson Carr e Michael Lempert sobre o tema. A no�‹o de escala contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica, buscando compreender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a sociedade como elementos din‰micos. Na discuss‹o, um di‡logo com as epistemes decoloniais e afro-diasp—ricas, sobretudo, a partir das reflex›es do professor Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.

Palavras chave: Resist�ncia; Escala; Necropol’tica; Rap; Os meninos correm.

 

Abstract: Exercise in the analysis of the oral poem Os meninos correm from Pacha Ana, to reflect on the discomfort of the present time and the possibilities of resistance, that's what it proposes this article. The concept of scale developed by sociolinguistics, based on the collection organized by E. SummersonCarr and Michael Lempert on the topic, is the reference for the analysis. The notion of scale contributes to the understanding that reality is not static, seeking to understand things, processes, events, history, society as dynamic elements. In the discussion, a dialogue with the decolonial and afro-diasporic epistemes, above all, based on the reflections of Professor Achille Mbembe and the concept of necropolitics.

Key words: Resistance; Scale; Necropolitics; Rap; Os meninos correm.

 

 

Os meninos correm da bala, da vala, da farda

Pacha Ana

 

 

Ela apruma o corpo, levanta a cabe�a com altivez, ergue o bra�o direito para o alto, em posi�‹o de luta, como se estivesse se preparando para uma guerra. Os cabelos com um volumoso dread agigantam a sua figura no palco. No antigo pelourinho da cidade, na Pra�a da Mandioca, centro hist—rico de Cuiab‡, capital do estado de Mato Grosso, Ana Gabriela Santana, a rapper Pacha Ana evoca seus ancestrais para falar/batalhar do/no tempo presente. A palavra Ž sua arma. Sua voz ecoa na pra�a: ÒOs meninos correm da bala, da vala, da fardaÓ. ƒ a competi�‹o de poesia falada, o Slam[83] do Capim Cheiroso que entrecruza periferias e centro redesenhando novas linhas de comunica�‹o com a cidade. A artista mato-grossense, mulher, negra, MC, rapper, poeta, cantora e compositora, tem se destacado no cen‡rio nacional e h‡ tempos se debru�a nesta tem‡tica da denœncia/resist�ncia, buscando inspira�›es e aprendizagem na pr—pria experi�ncia hist—rica do povo negro, sobretudo, das mulheres pretas.

Neste artigo,[84] optamos por trazer o poema Os meninos correm de Pacha Ana[85] para propor um exerc’cio de an‡lise a partir da no�‹o de escala, desenvolvida pela sociolingu’stica, tendo como refer�ncia a colet‰nea organizada por E. Summerson Carr e Michael Lempert sobre o tema, em di‡logo com epistemes decoloniais[86] e afro-diasp—ricas, sobretudo, a partir das reflex›es do professor Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.

 

 

 

O rap e as oralidades urbanas

 

Muitas s‹o as pr‡ticas da oralidade, da performance, da palavra, seja escrita nos muros ou falada/cantada em forma de rap, que ocupam os espa�os da cidade para discutir/escancarar a pol’tica de exterm’nio de algumas popula�›es. No Brasil, essas express›es nos alertam principalmente sobre as pol’ticas de morte e os genoc’dios enfrentados pelas popula�›es negras. O rap, por exemplo, reverbera nos coletivos que se organizam de v‡rias maneiras, seja em forma de batalhas ou slams ou mesmo em apresenta�›es nas ruas, em shows. O RAP (rhythm and poetry) tem resson‰ncia das narrativas orais africanas e remete ˆ tradi�‹o dos griots[87]. ÒA for�a da palavra oral da di‡spora africana funciona como um mecanismo deposit—rio de conhecimentos preservados que os colonizadores interditam no discurso oficialÓ (CARVALHO, 2014, p. 325). Retomando a tradi�‹o africana da oralidade, o rap surgiu nos bairros jamaicanos na dŽcada de 1960 e foi levado para os bairros pobres de Nova Iorque, no come�o da dŽcada de 1970. No Brasil, o rap foi disseminado em S‹o Paulo, na dŽcada de 1980, nas dan�as de break entre os integrantes do movimento hip-hop.

As narrativas do rap normalmente s‹o relatos de viol�ncia, discrimina�‹o, exclus‹o e injusti�a social contra grupos historicamente subrepresentados e postos em situa�‹o de marginalidade. Essa manifesta�‹o da literatura oral urbana Ž considerada pelo historiador Robin Kelley como uma Òarma poderosa na luta pela liberta�‹o negraÓ (KELLEY, 2002, p. 11). Est‡ fundamentado em uma ÒpoŽtica da luta e da experi�ncia vividaÓ (KELLEY, 2002, p. 9), uma forma de resist�ncia cultural para lidar com Òas condi�›es da vida di‡ria, das opress›es quotidianas, da sobreviv�nciaÓ (KELLEY, 2002, p. 11). O rap ganhou for�a nos espa�os perifŽricos das cidades brasileiras e acabou por criar especificidades, poŽticas singulares a partir do lugar onde se manifesta.

 

 

O mal-estar do tempo presente

 

No tempo presente, o que qualificamos como um mal-estar pode ser percebido a partir da intensifica�‹o de certo repert—rio afetivo: discursos-afetivos de —dio, xenofobia, racismos, misoginia, homofobia, incivilidade, intoler‰ncias, viol�ncias e tantas outras atrocidades naturalizadas, que segregam, ceifam vidas, todavia, s‹o elevadas ˆ condi�‹o de normalidade. Boa parte desse mal-estar Ž causada pela dissemina�‹o das ideias neoliberais de desempenho, competi�‹o, hiperconcorr�ncia, sucesso e hiperindividualismo que produzem discursos de —dio e buscam destruir poss’veis pr‡ticas de solidariedade.

Os discursos fascistas v�m recheados de clich�s que se amparam em fundamentalismos religiosos, apagamento e silenciamento hist—rico, memoric’dio, epistemic’dio da diversidade de saberes, g�neros e sexualidades que divergem do conceito de fam’lia tradicional, na qual, o pilar Ž o homem branco, produzindo assim, ideologias e pr‡ticas t—xicas que n‹o s‹o defens‡veis eticamente. Apoiam-se na inven�‹o de um passado m’tico para legitimar um ideal de pureza de ra�a e cren�a, ligado tambŽm ao ideal de fronteiras, que s‹o ao mesmo tempo fronteiras geogr‡ficas e simb—licas, revelando uma sociedade atrelada a uma sŽrie de dicotomias classificat—rias, sendo a classifica�‹o racial a mais importante delas, pois, como afirma An’bal Quijano, Òa racializa�‹o das rela�›es de poder entre as novas identidades sociais e geoculturais foi o sustento e a refer�ncia legitimadora fundamental do car‡ter eurocentrado do padr‹o de poder, material e intersubjetivoÓ (QUIJANO, 2009, p. 107).

A diversidade de ideias, a manifesta�‹o da pluralidade de epistemes assusta os indiv’duos dessa sociedade causadora do mal-estar, justamente, porque desestabiliza discursos hegem™nicos e hierarquias estabelecidas nos processos de domina�‹o. Na tentativa de perceber possibilidades e desvios diante da sensa�‹o de incapacidade, de paralisia que este cen‡rio imp›e, nos propomos ao exerc’cio de observar um modo de resist�ncia que se d‡ pela oralidade do rap. Assim, buscamos construir uma reflex‹o a partir de uma narrativa que pode ser uma alternativa para alertar sobre esses tempos n‹o como o fim do mundo, o fim dos caminhos e a perda das esperan�as, mas como denœncia e resist�ncia na busca de uma sociedade mais humana, diversa e plural. Ao observarmos o poema oral Os meninos correm, escrito para ser falado, nos detivemos na sua forma, utilizando o conceito de escala, para perceber uma poŽtica de resist�ncia.

 

 

Escala e a constru�‹o de sentidos na forma

 

               A escala Ž um conceito que veio da geografia e foi desenvolvido na antropologia lingu’stica e na sociolingu’stica, na tentativa de buscar outras formas de observa�‹o dos objetos. Para o sociolinguista Jan Blommaert: ÒTeorizar envolve a explora�‹o de novas imagens e met‡foras, capazes de nos ajudar a imaginar objetos de forma distinta, a v�-los como diferentes, objetos que exigem abordagens anal’ticas diferentesÓ (BLOMMAERT, 2007, p. 1).

               Assim, a partir da compreens‹o do conceito de escala, apresentado na obra Scale – Dicourse and Dimensions of Social of Social Life[88] pelos organizadores E. Summerson Carr e Michael Lempert, podemos dizer que se trata da forma�‹o do sentido que possu’mos de real e de concretude, pois a no�‹o de escala n‹o possui um car‡ter hegem™nico. Os autores salientam que o mundo material n‹o Ž prŽ-configurado, h‡ na materialidade do mundo um complexo trabalho de constru�‹o semi—tica, envolvendo signos lingu’sticos e n‹o lingu’sticos. (CARR; LEMPERT, 2016). Entre outras acep�›es, a no�‹o de escala contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica, buscando entender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a sociedade como elementos din‰micos. Esta constru�‹o n‹o-est‡tica amplia a possibilidade de nos relacionarmos com o objeto de an‡lise. (CARR; LEMPERT, 2016). A compreens‹o de escala sugere movimento e an‡lise – ampliar os referenciais e se manter aberto se torna uma necessidade de um trabalho escalar. Movimento escalar Ž um movimento produtor de sentidos, sendo que o nosso processo de significa�‹o Ž sempre escalar, uma vez que para atribuir significados daquilo que Ž real ou material sempre fazemos proje�›es (CARR; LEMPERT, 2016). As met‡foras, por exemplo, s‹o uma proje�‹o escalar. Produ�‹o de narrativas s‹o sempre proje�›es escalares. Fen™menos escalares s‹o sempre fen™menos relacionais, assim toda empreitada relacional Ž comparativa. Analogias, totaliza�›es, sistemas classificat—rios e estere—tipos s‹o relacionais, portanto escalares. O sentido n‹o Ž definitivo, assim, ao nos lan�armos ao exerc’cio de propormos novas proje�›es, obteremos resultados completamente diferentes. Para os autores Òn‹o h‡ escalas ideologicamente neutras, e pessoas e institui�›es que se destacam nos exerc’cios escalares geralmente refor�am as distin�›es que os ordenaramÓ (CARR; LEMPERT, 2016, p. 3. Tradu�‹o nossa).[89]

Pensando, ent‹o, na rela�‹o entre as imagens disparadas pelo poema Os meninos correm de Pacha Ana e as que constru’mos a partir do contato com a obra de Achile Mbembe, realizamos um exerc’cio de an‡lise da estrutura do poema, dentro de uma perspectiva escalar. Como defendem Carr e Lempert (2016, p. 3. Tradu�‹o nossa):

as escalas nas quais os atores sociais se baseiam para organizar, interpretar, orientar e agir em seus mundos n‹o s‹o dadas, mas s‹o constru’das – e um tanto trabalhosas. Escalar n‹o Ž simplesmente assumir ou afirmar ÒgrandezaÓ ou ÒpequenezÓ por meio de c‡lculo. Pelo contr‡rio, [...] as pessoas usam a linguagem para dimensionar o mundo ao seu redor. [...]. Embora as coisas possam ser grandes, por analogia, a cria�‹o de escala sempre implica em distin�›es, entre a grandeza da costela de uma baleia e a pequenez de um m‡rmore, por exemplo. Como um esfor�o inerentemente relacional e comparativo, o dimensionamento pode assim conectar e atŽ confinar o que Ž geograficamente, geopoliticamente, temporalmente ou moralmente Òpr—ximoÓ, ao mesmo tempo em que distingue essa proximidade da que est‡ ÒdistanteÓ. Da mesma forma, hierarquias em escala s‹o os efeitos dos esfor�os para classificar, agrupar e categorizar muitas coisas, pessoas e qualidades em termos de graus relativos de eleva�‹o ou centralidade. Por exemplo, pense em como uma entidade ou dom’nio parece abranger outro, como em mapas que subordinam localidades de ordem superior, unidades administrativas ou do modo como se pensa os estados-na�‹o, as comunidades ÒacimaÓ.[90]

 

 

Os meninos correm – escala e necropol’tica – um di‡logo poss’vel.

 

Os meninos correm

Os meninos correm,

Os meninos correm almejando tudo,

almejando o mundo,

pensando que a pressa Ž a solu�‹o pra tudo,

mas n‹o Ž n‹o.

Eles correm por medo,

correm em segredo,

correm na contram‹o.

Os meninos correm por causa do atraso, correm pra n‹o ser um fardo, e isso nem Ž um caso isolado.

Os meninos correm,

alguns porque gostam,

outros s— porque precisam mesmo.

Inclusive, os meninos correm mas nem todos chegam mais cedo.

Ali‡s, alguns nem chegam.

Isso porque os meninos correm, mas a pol’cia tambŽm

e todo dia quando ele sai, a m‹e pede amŽm

pra que nada, nem ninguŽm

tire o seu maior bem.

Ela reza:

ÒOromima, oromimayor, oromimayor, iabadoai�i�o

Oromima, oromimayor, oromimayor, iabadoai�, i�o

Ai, ai oxum, ora i�

Ai, ai oxum, ora i�Ó

Isso porque os meninos correm,

mas se for de madrugada e ele for preto

j‡ Ž suspeito!

Parece que ser escuro Ž defeito.

Os meninos correm da bala, da vala, da farda,

COMO SE AINDA EXISTISSE SENZALA!

Se vive atŽ os 21, Ž lucro.

Isso Ž culpa de um sistema fajuto,

onde alguns meninos correm e chegam,

outros, deixam m‹es em luto.

(Pacha Ana, fevereiro de 2017)

 

Pacha Ana, fazendo uso do seu lugar de fala – entendendo que lugar de fala tambŽm Ž a fala de lugar –, por meio da oralidade, olha para uma popula�‹o que se situa ˆ margem, para atravŽs do afeto nos aproximar de corpos silenciados, identificados como ÒsuspeitosÓ por um estado de exce�‹o permanente. Os meninos correm traz uma possibilidade de reflex‹o sobre os processos de retirada de direitos, exterm’nios de popula�›es racializadas[91] o poder sobre a vida, para construir, assim, um contra discurso. Mbembe (2016, p. 123) afirma que: Òmatar ou deixar viver constituem os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania Ž exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implanta�‹o e manifesta�‹o de poderÓ. E ainda diz que Òa soberania Ž a capacidade de definir quem importa e quem n‹o importa, quem Ž Ôdescart‡velÕ e quem n‹o ŽÓ (MBEMBE, 2016, p. 135), sendo que t�m se caracterizado como descart‡veis os seres humanos do sul global, ou seja, os n‹o europeus, que foram classificados como inferiores a partir de um processo de naturaliza�‹o de rela�›es sociais que visavam atender os poderosos interesses articulados com a consolida�‹o do capitalismo/colonialismo/patriarcado.

No poema, a utiliza�‹o da palavra ÒcorremÓ, numa escala de repeti�‹o, sugere distintas imagens, que percorrem desde a leveza do simples ato de correr, do imagin‡rio de meninos que flertam com a inf‰ncia e a liberdade, atŽ o peso da realidade de alguns corpos que precisam correr para n‹o morrer ou que s‹o mortos enquanto est‹o correndo. Pacha Ana, ao trazer uma ora�‹o/sauda�‹o de matriz africana, construindo uma alus‹o a vozes das m‹es pretas, utiliza proje�›es escalares de ancestralidade, racialidade, temporalidade, espiritualidade. Demarca um lugar, sugere um ritmo, uma sonoridade, invoca corpos portadores de saberes ancestrais, tradi�›es orais, propondo olhares para uma cultura que vem sendo historicamente perseguida, constantemente desvalorizada e violentamente silenciada. Grosfoguel (2014) afirma que a expans‹o colonial europeia significou o genoc’dio e o epistemic’dio de ind’genas, africanos e de mulheres. AlŽm disso, o colonialismo realizou um enorme memoric’dio, sendo que a estrutura de conhecimento que domina as universidades de todo o mundo est‡ atrelada ˆ estrutura imperialista colonial de poder. O homem ocidental, europeu, branco, heterossexual, crist‹o, Ž quem decide o que Ž o melhor para as demais popula�›es de todo mundo. Nesses processos, ele despreza, invisibiliza, destr—i e assassina sociedades inteiras, suas culturas e seus saberes. Segundo Grosfoguel, autores homens, brancos, de cinco pa’ses formam os c‰nones da ci�ncia desenvolvida em qualquer universidade do mundo. Isso revela um racismo e um sexismo epistemol—gico iniciado com a modernidade e o colonialismo. Dessa forma, para descolonizar o pensamento Ž necess‡rio dialogar com uma diversidade epist�mica, buscando enriquecer a maneira de ver o mundo. Ouvir a voz dos colonizados, estabelecer di‡logos com saberes e epistemes ancestrais constituem caminhos poss’veis para a descoloniza�‹o do conhecimento. O pensamento e os saberes compartilhados por Pacha Ana, uma mulher negra, por meio do poema Os meninos correm, se colocam na contram‹o da coloniza�‹o e da permanente colonialidade. A ancestralidade evocada pela poetisa nos faz dialogar com mœltiplas epistemes, mœltiplos saberes, sobretudo saberes que foram esmagados pela modernidade. Pacha Ana se coloca na contram‹o da sociedade do mal-estar n‹o por dar voz ˆ ancestralidade, mas por aprender com ela e, assim, tornar-se/ser tambŽm essa ancestralidade.

No trecho em que, optando por destacar o verso com letras maiœsculas, sugere um grito, uma aten�‹o maior: ÒCOMO SE AINDA EXISTISSE SENZALA!Ó observamos uma escala emocional-ir™nica e hist—rica, que exp›e uma indigna�‹o pulsante, descrevendo o cen‡rio que questiona. Em outro fragmento identificamos escalas classificat—rias e de ironia: Òmas se for de madrugada e ele for preto / j‡ Ž suspeito! / Parece que ser escuro Ž defeitoÓ, que evidencia a pol’tica de exterm’nio de corpos negros. Numa escala cr’tica, o trecho ÒSe vive atŽ os 21, Ž lucroÓ, situa a realidade destes corpos que est‹o ˆ margem, sinalizados, marcados para morrer. Pudemos identificar ainda outras proje�›es escalares dentro do poema, como por exemplo: escalas de indigna�‹o, como no trecho ÒIsso Ž culpa de um sistema fajuto, onde alguns meninos correm e chegam, outros, deixam m‹es em lutoÓ; metaf—ricas, como em Òcorrem na contram‹oÓ e Òcorrem para n‹o ser um fardoÓ; bem como pol’tico-cr’ticas, em ÒEles correm por medo, correm em segredoÓ e ÒIsso porque os meninos correm, mas a pol’cia tambŽmÓ.

ÒA cada vinte e tr�s minutos um jovem negro Ž assassinado no BrasilÓ[92]. ÒExŽrcito dispara 80 tiros em carro de fam’lia no Rio e mata mœsicoÓ[93]. Ò75% das v’timas de homic’dio no Pa’s s‹o negrasÓ[94]. ÒAssassinatos de jovens negros no Brasil aumentam 429% em 20 anosÓ[95]. Quando nos deparamos com alguns dados sobre a viol�ncia e a criminalidade no Brasil, colocamo-nos diante de informa�›es alarmantes, tanto pelo conteœdo, quanto pela dimens‹o midi‡tica a qual esse conteœdo Ž submetido. Que corpos ÒmerecemÓ viver? Que corpos ÒmerecemÓ morrer? Quem tem o poder de decis‹o? O poema Os meninos correm discute essas quest›es e exp›e poss’veis respostas, ainda que numa perspectiva ir™nica, a essas perguntas.

            Na obra Discurso sobre o Colonialismo, AimŽ CŽsaire reflete sobre os diversos ÒnazismosÓ cometidos contra povos n‹o europeus, sobretudo os que existiram durante todo o per’odo de coloniza�‹o e escraviza�‹o das popula�›es negras, apontando que esses ÒnazismosÓ sempre foram aceitos pela popula�‹o europeia:

no fundo o que n‹o Ž perdo‡vel em Hitler n‹o Ž o crime em si, o crime contra o homem, n‹o Ž a humilha�‹o em si, sen‹o o crime contra o homem branco, Ž a humilha�‹o do homem branco, e haver aplicado na Europa procedimentos colonialistas que atŽ agora s— concerniam aos ‡rabes da ArgŽlia, aos coolies da êndia e aos negros da çfrica (CƒSAIRE, 2010, p. 21).

Dialogando com CŽsaire e Frantz Fanon, Mbembe (2016) observa que o estado de exce�‹o n‹o foi fundado com o nazismo, pois ele existiu anteriormente para as popula�›es negras. A escravid‹o moderna seria um exemplo de estado de exce�‹o, ou melhor, um estado de terror duradouro. E esse terror duradouro, identificado por Mbembe, simboliza a realidade de boa parte dos negros e das negras brasileiras. AtravŽs do cruzamento dos dados do IBGE sobre a popula�‹o negra no Brasil e o poema de Pacha Ana, podemos afirmar que os negros vivem em um estado de exce�‹o cont’nuo, um mundo de morte, de mortos-vivos, que, segundo o autor, n‹o pode ser explicado sen‹o pela perspectiva da necropol’tica. As novas formas de matar, de fazer de vivos mortos-vivos, n‹o podem ser elucidados pelo biopoder, uma vez que, esta quest‹o Ž uma pol’tica de morte, um ideal de exterm’nio que acompanha as popula�›es negras desde a coloniza�‹o.

A necessidade de olharmos para os corpos negros Ž ressaltada quando olhamos os dados, por exemplo, divulgados pelo Atlas da Viol�ncia 2019, produzido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econ™mica Aplicada), e que publica estudos e dados relacionados ao ’ndice de viol�ncia no Brasil. Segundo este estudo:

Em 2017, 75,5% das v’timas de homic’dios foram indiv’duos negros (definidos aqui como a soma de indiv’duos pretos ou pardos, segundo a classifica�‹o do IBGE, utilizada tambŽm pelo SIM), sendo que a taxa de homic’dios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de n‹o negros (brancos, amarelos e ind’genas) foi de 16,0. Ou seja, proporcionalmente ˆs respectivas popula�›es, para cada indiv’duo n‹o negro que sofreu homic’dio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos (IPEA, 2019, p. 49).

Correr brincando, correr para chegar ˆ escola, correr para pegar o ™nibus, correr por esporte, correr para n‹o morrer, correr para n‹o ser eliminado. Pacha Ana nos conecta com O Genoc’dio do negro no Brasil, uma das primeiras obras escritas por um intelectual negro brasileiro, visando o combate ao racismo e ˆ discrimina�‹o racial em nosso pa’s. Abdias do Nascimento (2016) detalha como, historicamente, no Brasil, foi se formando e se construindo um processo de um Òracismo mascaradoÓ. Segundo ele, o processo come�a com a rejei�‹o da hist—ria dos africanos e seus descendentes, passando pelo mito da benevol�ncia do branco portugu�s para com o negro e das poss’veis Òcontribui�›esÓ do branco civilizado para com o negro ÒincivilizadoÓ. Para Abdias, na constru�‹o desse Òracismo mascaradoÓ, houve atŽ quem dissesse que a escravid‹o e outras atrocidades cometidas contra o negro, seria um mal necess‡rio para o processo de civiliza�‹o dos mesmos. Neste ponto, voltamos ˆ reflex‹o proposta por CŽsarie (2010), de que ao longo do processo de coloniza�‹o sempre foi permitido e aceito assassinar n‹o europeus, sobretudo, negros.

Influenciado por Frantz Fanon, Nascimento (2016) denuncia a exist�ncia do racismo no Brasil, enfatizando a desvaloriza�‹o da mulher e do homem negro em nosso pa’s, o branqueamento racial e cultural, a persegui�‹o ˆ cultura africana, a bastardiza�‹o da cultura afro-brasileira e todas as estratŽgias de genoc’dio do negro e sua cultura em terras tupiniquins. Segundo o autor, o racismo camuflado existente no Brasil Ž muito mais nocivo que o Òracismo declaradoÓ existente na sociedade estadunidense, pois Ž sustentado pelo mito da Òdemocracia racialÓ; o racismo ˆ brasileira se esconde, se camufla, finge n‹o existir. O que dificulta a cria�‹o de mecanismos para combat�-lo, contribuindo para um estado de terror duradouro para as popula�›es negras.

Walter Mignolo afirma que a colonialidade era a pauta oculta ou o lado ÒescuroÓ da modernidade. Segundo o autor, pensar o conceito de colonialidade j‡ Ž um ato descolonizador, pois Ž preciso partir de um olhar decolonial para observar a barb‡rie existente por tr‡s do discurso civilizat—rio. ÒAssim, ocultadas por tr‡s da ret—rica da modernidade, pr‡ticas econ™micas dispensavam vidas humanas, e o conhecimento justificava o racismo e a inferioridade de vidas humanas, que eram naturalmente consideradas dispens‡veisÓ (MIGNOLO, 2017, p. 1). Dessa forma, a partir da vis‹o de Mignolo, podemos pensar que por tr‡s do discurso de progresso e de desenvolvimento, est‹o pr‡ticas discursivas e representa�›es que tiram vidas, dizimam mem—rias e exterminam culturas. Autores decoloniais como Ram—n Grosfoguel, An’bal Quijano e Walter Mignolo v‹o concordar que a principal tarefa dos te—ricos decoloniais Ž quebrar com a colonialidade existente no mundo, a colonialidade est‡ travestida de globaliza�‹o/modernidade:

H‡ um fato na cultura de toda a AmŽrica, e na da AmŽrica Latina em particular, que envolve o mundo inteiro hoje em sua globalidade e que precisa ser reconhecido, questionado, debatido e evacuado: a colonialidade do poder. Esse Ž o primeiro passo para a democratiza�‹o da sociedade e do Estado; da reconstitui�‹o epistemol—gica da modernidade; da busca por uma racionalidade alternativa (QUIJANO, 2014, p. 767. Tradu�‹o nossa)[96]

Quebrar com a colonialidade significa utilizar a diversidade epist�mica.

Em ambos os casos, a geopol’tica e a corpo-pol’tica (entendidas como a configura�‹o biogr‡fica de g�nero, religi‹o, classe, etnia e l’ngua) da configura�‹o de conhecimento e dos desejos epist�micos foram ocultadas, e a �nfase foi colocada na mente em rela�‹o ao Deus e em rela�‹o ˆ raz‹o. Assim foi configurada a enuncia�‹o da epistemologia ocidental, e assim era a estrutura da enuncia�‹o que sustentava a matriz colonial. Por isso, o pensamento e a a�‹o descoloniais focam na enuncia�‹o, se engajando na desobedi�ncia epist�mica e se desvinculando da matriz colonial para possibilitar op�›es descoloniais – uma vis‹o da vida e da sociedade que requer sujeitos descoloniais, conhecimentos descoloniais e institui�›es descoloniais (MIGNOLO, 2017, p. 6).

 

 

Concluindo: os meninos ainda correm

 

Utilizando o conceito de escala para realizar um exerc’cio de an‡lise do rapper poema oral Os meninos correm, em di‡logo com os conceitos de necropol’tica e decolonialidade, acreditamos que o poema se apresenta como uma resist�ncia ao mal-estar que atravessa a nossa sociedade. Como, por exemplo, as possibilidades apresentadas de diferentes imagens para uma mesma palavra ÒcorremÓ ampliam o nosso olhar, nossa forma de nos relacionarmos com a obra e, principalmente, ao que ela convoca, possibilitando questionamentos, propondo uma desestabiliza�‹o de sentidos prŽ-concebidos.

A poetisa rapper Pacha Ana prop›e um esfor�o de denunciar essa necropol’tica que atravessa o tempo presente, apresentando uma forma de poema falado que questiona as normas criadas ou constru’das culturalmente para excluir, subalternizar e dar prosseguimento ˆ l—gica colonial que sustenta o atual padr‹o de poder mundial. A partir de Os meninos correm, entendemos que Ž poss’vel ressignificar as normas e os discursos que qualificam o mal-estar, revelando que nada Ž eterno, absoluto e universal.

Se a colonialidade, as ideias neoliberais, o machismo, o racismo, a heterossexualidade compuls—ria nos obriga a ter determinados comportamentos, se as categorias de domina�‹o constru’das pelo homem branco (ocidental, hŽtero, crist‹o) nos faz conviver com esse mal-estar, o poema tal como novas/outras epistemes pode apoiar na constru�‹o de questionamentos aos discursos e as pr‡ticas de domina�‹o hegem™nicas. Se as categorias de domina�‹o foram socialmente constru’das, se narrativas contam e constroem narrativas, podemos construir contranarrativas, outros discursos que tragam problemas que nos ap—iem em nossos processos de resist�ncia. N‹o se trata de Òdar vozÓ aos corpos oprimidos e sim de pluralizar nossas refer�ncias e dialogar com diferentes epistemologias, n‹o apenas como fonte de pesquisa, mas como produtora de saberes que historicamente foram desconsiderados. Descolonizar Ž aprender e falar com o outro subalternizado. As tens›es propostas aqui tiveram como inten�‹o sulear a inquieta�‹o de pensarmos outros cen‡rios poss’veis e criar possibilidades de desestabilizar o pensamento hegem™nico que insiste em se manter como verdade œnica e curso natural da hist—ria. Criar resist�ncia Ž tambŽm desestabilizar o olhar colonial que assola o Brasil, determinando os espa�os que as popula�›es negras devem ocupar na sociedade.

Deste modo, o exerc’cio de an‡lise do poema Os meninos correm, combinando o conceito de necropol’tica de Achile Mbembe com a no�‹o de escala para observar estas obras que povoam a oralidade urbana, podem trazer ˆ tona a constru�‹o de uma contra narrativa. Neste caso, a resist�ncia est‡ contida tambŽm na forma do poema refor�ando a possibilidade de cria�‹o de outros modos de exist�ncia.

 

 

Refer�ncias

 

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MIGNOLO, Walter. Colonialidade: o lado mais escuro da modernidade. S‹o Paulo: Revista Brasileira de Ci�ncias Sociais. RBCS, Vol. 32, n. 94, junho/2017.

 

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QUIJANO, An’bal. Colonialidade do poder e classifica�‹o social. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (Org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Edi�›es Almedina SA, 2009.

 

 

[Recebido: 14 out 2020 – Aceito: 19 set 2020]

 

 


PoŽticas Orais, corpo-mem—ria e o ritmo das narrativas de mestres e mestras contadores de hist—rias tradicionais

 

 

Oral Poetics, memory-body and the rhythm from narratives of masters storytellers of traditional stories

 

 

Luciene Souza Santos[97]

https://orcid.org/0000-0002-6751-1070

 

Margarida da Silveira Corsi[98]

https://orcid.org/0000-0002-5216-8660

 

Lana Lula Amorim[99]

https://orcid.org/0000-0003-3784-4357

 

 

Resumo: O presente artigo versa sobre a literatura oral e a sua rela�‹o com a mem—ria, por meio da voz de mestres e mestras da tradi�‹o, guardi›es da arte de contar hist—rias. A mem—ria aqui apresentada nasce das viv�ncias e necessidades de comunidades que tambŽm as transmitem entre gera�›es. Uma mem—ria pass’vel de sofrer mudan�as geradas pelo tempo e pelas mœltiplas vozes que a transmitem de um ouvido a outro, de um espa�o-tempo a outro. O texto reflete ainda sobre a import‰ncia do corpo enquanto lugar de mem—ria, engendrado em seus ritos, rituais e narrativas e compreende a literatura oral sob novas perspectivas paradigm‡ticas e epistemol—gicas. Por fim, esse trabalho tem seu foco tambŽm na compreens‹o de que Ž escutando os contadores de hist—rias, com suas narrativas de vida e contos de tradi�‹o que a leitura da palavra, compreendida aqui como palavra no mundo e com o mundo, que a transmiss‹o de saberes pelas vias da oralidade acontece. Esses mestres e mestras carregam consigo o papel de salvaguardar e dar movimento ˆs mem—rias hist—ricas e saberes coletivos, construindo as culturas e rompendo as lacunas, que ainda existem, entre o passado e o presente, entre a escrita e a oralidade.

Palavras-chave: PoŽticas orais. Corpo-mem—ria. Contadores de hist—rias tradicionais.

 

 

Abstract: This article argues about oral literature and its relation with memory through the voice of tradition masters, guardians of the storytelling art. The memory presented here arises from the experiences and needs of communities that also transmit them among generations. A memory liable to undergo changes generated by time and by the multiple voices that transmit it from one ear to another, from one space-time to another. The text also reflects about the importance of the body as a place of memory, engendered in its rites, rituals and narratives and comprises oral literature under new paradigmatic and epistemological perspectives. Finally, this work also focuses on understanding that it is listening to storytellers with their life narratives and traditional talesthat the reading word, understood here as the word in the world and with the world, that the knowledge transmission through oral routes happens. These masters has the important role of safeguarding and movementing historical memories and collective knowledge, building cultures and bridging the gaps that still exists, between the past and the present, between writing and orality.

Keywords: Oral Poetics; Memory-body; Traditional storytellers.

 

 

O papel da mem—ria enquanto resultado do entrela�amento das experi�ncias cotidianas e o seu lugar nas pr‡ticas dos contadores de hist—rias

 

Era uma vez uma mulher que, ao amamentar, entoou a primeira can�‹o de ninar, plantando, no pequeno recŽm-nascido, a semente do desejo de ouvir a voz que traz conhecimentos, viv�ncias, medos e prazeres. N‹o muito distante dali, um velho pajŽ narrava aos curumins lendas sobre Tup‹, Jaci e Guaraci. Do outro lado da montanha, um anci‹o africano contava, aos mais jovens, hist—rias da m‹e-çfrica. O que eles t�m em comum? Esses tr�s contadores – de modo semelhante aos repentistas, cantadores, griots, rakugokas, anci›es de tribos ind’genas ou av—s urbanas – guardam na mem—ria viv�ncias, tradi�›es, mitos, cren�as e, de modos singulares, transmitem seus conhecimentos e li�›es aos ouvintes, como se lhes entregassem um tesouro precioso que deve ser guardado, mas tambŽm dividido.

A literatura oral est‡ ligada ˆ voz e ˆ mem—ria. Ela nasce das viv�ncias e necessidades de comunidades que tambŽm as transmitem de boca em boca para ouvidos atentos e sedentos de conhecimento e fantasia. Narrada ou cantada oralmente, ela torna-se suscept’vel ˆs mudan�as impostas pelo tempo e pelas mœltiplas vozes que a transmitem de um ouvido a outro, de um espa�o a outro, de uma comunidade a outra.

Muitos g�neros da oralidade s‹o compostos em versos, como as narrativas cordelizadas, estruturadas em sextilhas, septilhas ou dŽcimas, que comprovam a afirma�‹o de que Òo ritmo das frases, as partes finais ou iniciais semelhantes facilitam tremendamente a memoriza�‹oÓ (LUYTEN, 1992, p. 8). A memoriza�‹o depende de muitos aspectos da narra�‹o. A escolha das palavras, a musicalidade e a concis‹o dos elementos contribuem para que o narrador/contador guarde e transmita as li�›es e os encantamentos das narrativas.

Silva (2009) argumenta que as hist—rias orais s‹o formadas na base da mem—ria popular, sem determinar autoria, tempo, espa�o, sem atribuir nomes pr—prios. ƒ na Òvoz murmuranteÓ da oralidade que os contos populares, romances sertanejos, cantigas, x‡caras ganham vida e s‹o transmitidos de boca em boca, atravŽs dos tempos e espa�os. Assim tambŽm argumenta Oliveira (2012, p. 52), ao afirmar que as narrativas populares

conectam o homem com o seu mundo concreto, descrevem as vicissitudes e os caminhos seguidos ou por trilhar, mostram claramente a possibilidade de interven�‹o no real, na medida em que a palavra ÒvoaÓ de boca a ouvido, perpetuando a voz de um povo.

Deposit‡rios de um tesouro imenso, os contadores de hist—rias transmitem aos ouvintes um conjunto de ideias, fatos e sonhos, atravŽs de contos, lendas, provŽrbios, ditados populares, can�›es e f‡bulas, provenientes do passado long’nquo, quando a mem—ria era o modo primordial de preservar e transmitir hist—rias, cren�as e valores. Passadas de gera�‹o em gera�‹o, essas narrativas v‹o ganhando contornos pr—prios, de acordo com as necessidades das gera�›es, comunidades e estilos dos contadores de hist—rias. Assim,

as tradi�›es populares como bens culturais imateriais s‹o flu’dos e din‰micos, transformam-se continuamente, absorvendo elementos de outras culturas atravŽs dos mais variados meios. A pr—pria palavra tradi�‹o, do latim traditio, tradere, implica uma a�‹o de entregar, de transmitir, de levar e de trazer de um lugar a outro (OLIVEIRA, 2012, p. 50).

Esse levar de um espa�o a outro ou de um ouvido a outro Ž majestosamente exercido por contadores de hist—rias, cantadores de repente, recitadores de poesias orais. Narradores que transmitem as tradi�›es e hist—rias de suas na�›es, e tambŽm de terras long’nquas, associando viv�ncias, cren�as e culturas, que servem de exemplo para as viv�ncias dos ouvintes. S‹o estas viv�ncias, saberes e sonhos que tornam poss’veis hist—rias de peixes m‡gicos, m‡quinas voadoras, bois misteriosos, mo�as transformadas em touros, pedras em mo�as, curumins em p‡ssaros, assim como de vaqueiros, cangaceiros ou beatos imbu’dos de imensa coragem.

AlŽm da import‰ncia da mem—ria, que permite ao contador de hist—rias transmitir oralmente fatos e mitos, o tempo da narra�‹o Ž tambŽm um elemento primordial da tradi�‹o oral. H‡ um complexo fio da mem—ria que perpassa por diferentes modalidades de tempo. Por exemplo, as express›es ÒEra uma vezÓ, ÒCerta vezÓ, remetem ao tempo m’tico, da imagina�‹o, um passado indefinido que permite ao narrador contar hist—rias inimagin‡veis. H‡ o tempo hist—rico, que pode relatar oralmente fatos vivenciados pelo narrador, que, confiante em sua mem—ria e em suas viv�ncias, relata-as aos seus descendentes.

Outro tempo poss’vel Ž o tempo familiar que permite aos descendentes contarem a seus filhos e netos hist—rias de seus antepassados, como aquelas que o pracinha da Segunda Guerra trouxe na sua bagagem de experi�ncias. ƒ poss’vel tambŽm falar em tempo pessoal, que diz respeito ao tempo dos nossos pais ou dos pais de nossos pais, que frequentemente afirmam ÒNo meu tempo...Ó para enfatizar todo g�nero de mudan�as ocorridas desde suas inf‰ncias. Todas estas modalidades de tempo remetem a narra�›es orais que transmitem experi�ncias vividas, ouvidas ou hist—rias ficcionais.

Nas narrativas orais tambŽm percebemos um espa�o vol‡til que Ž marcado em express›es como ÒNum lugar muito distanteÓ, ÒNum certo reinoÓ, que permitem ao ouvinte a experi�ncia cat‡rtica de criar o lugar ideal ou relacion‡-lo ao seu espa�o particular. Assim tambŽm ocorre com rela�‹o ˆ composi�‹o dos perfis das personagens que, atravŽs de express›es como ÒHavia uma mulherÓ, nos liberta da obrigatoriedade de um perfil fixo de mulher e nos permite cri‡-lo em nossa imagina�‹o, a partir de nossas viv�ncias, cren�as e desejos.

Na acep�‹o de Zumthor (2018), a narra�‹o de uma hist—ria comporta muito mais que aspectos verbais. A enuncia�‹o oral associa-se ˆ voz, ˆ entona�‹o, aos gestos, ˆs pausas, ˆs express›es faciais, aos movimentos do corpo de quem narra, os quais chegam a quem ouve como elementos da trama, contribuindo para a significa�‹o do texto narrado ou cantado. Tudo isso est‡ implicado na performance da narra�‹o, Òœnico modo vivo de comunica�‹o poŽticaÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 33), que nos permite experimentar a vida enquanto contamos ou ouvimos uma hist—ria. Lembremos ainda que, para Zumthor (2018, p. 18),

Nas poŽticas transmitidas pela voz [...], a autonomia relativa do texto, em rela�‹o ˆ obra, diminui muito: [...] todo lugar da obra se investiria dos elementos perform‡ticos, n‹o textuais, como a pessoa e o jogo do intŽrprete, o audit—rio, as circunst‰ncias, o ambiente cultural e, em profundidade, as rela�›es intersubjetivas, as rela�›es entre a representa�‹o e o vivido.

Para definir o conceito de performance, o medievalista recorre a suas leituras e pesquisas e conclui que precisamos considerar diversos aspectos, dentre os quais, destacamos: a necessidade de Òum acontecimento oral e gestualÓ; Òa ideia de presen�a de um corpoÓ; Òa energia propriamente poŽticaÓ marcada nas sensa�›es de contadores e ouvintes; a no�‹o de espa�o que se torna poss’vel atravŽs do corpo (ZUMTHOR, 2018, p. 36-38).

Conforme Oliveira (2012, p. 48), Ž preciso considerar as fases Òprodu�‹o, transmiss‹o (comunica�‹o), recep�‹o, conserva�‹o e repeti�‹oÓ de hist—rias para encontrar as vozes sibilantes deste processo que vai da oralidade ˆ escrita. Est‡gios trabalhados por Zumthor (2018, p. 60), respectivamente, acerca da oralidade, como: forma�‹o, transmiss‹o, recep�‹o, conserva�‹o e reitera�‹o. De acordo com Zumthor (2018), se a forma�‹o se opera pela voz, a transmiss‹o se d‡ quando um personagem, usando voz e gesto, recorre a palavra, que ser‡ recebida por outro personagem por meio da audi�‹o e da vis‹o, processos unidos pela performance do discurso, copresen�a geradora do prazer. A conserva�‹o est‡ a cargo da mem—ria, Òmas a mem—ria implica, na Ôreitera�‹oÕ, incessantes varia�›es recriadorasÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 61), o que o autor chama de mov�ncia.

Contadores s‹o n™mades por excel�ncia – ou porque viajam de um pa’s a outro, de uma cidade a outra, de uma fazenda a outra, enfim, de um espa�o a outro; ou porque cruzam a linha do imagin‡rio, buscando outra atmosfera poss’vel que lhes permita e nos permita segui-los de um mundo a outro. Muitas hist—rias chegam atravŽs de homens e mulheres que v‹o de fazenda em fazenda, de cidade em cidade, narrando suas hist—rias maravilhosas que nos convidam a abrir nossas portas e almas. Essas narrativas nos incitam e nos levam a acolher essas palavras como um tesouro precioso e a aprender com elas que o estrangeiro/desconhecido pode ser um amigo que ainda n‹o encontramos. Elas nos ensinam que Ž preciso abrir nossos cora�›es para novas aventuras, novos conhecimentos, novas culturas (BRICOUT, s.d).

Aceitar o convite da voz narrativa funciona como entrar num mundo desconhecido, pertencente a outro, imergindo em outra atmosfera, como dos mitos e hist—rias ind’genas ou africanos, do mundo maravilhoso de cavaleiros de prata, pav›es misteriosos, mo�as invis’veis, melancias encantadas, mulheres douradas, pr’ncipes valentes, homens lobos, curupiras, caiporas, mapinguaris, mulas sem cabe�a, botos que se transformam em homens, sereias com cantos hipn—ticos.

Silva (2009, p. 233) afirma que Òo folclore e a literatura oral est‹o na base da literatura de muitos lugaresÓ, confirmando o ideal de que a oralidade fornece ˆs narrativas orais populares, assim como aos g�neros consagrados pela cr’tica, um repert—rio precioso de hist—rias. De acordo com Cascudo (1984, p. 24),

Todos os autos populares, dan�as dram‡ticas, as jornadas dos pastoris, as louva�›es das lapinhas, Chegan�as, Bumba-meu-boi, Fandango, Congos, o mundo sonoro e policolor dos reisados, aglutinando saltos de outras representa�›es apagadas da mem—ria coletiva, resistindo numa figura, num verso, num desenho coreogr‡fico, s‹o elementos vivos da literatura oral.

Foi tambŽm no imagin‡rio popular que surgiram as primeiras hist—rias narradas pela voz de contadores e transmitidas de gera�‹o em gera�‹o atŽ um dia serem recolhidas por alguŽm, passando a serem transmitidas de forma impressa, possibilitando o contexto da leitura silenciosa. A partir da’, Òo narrador passa a ser essa voz que, representada na brancura da p‡gina, aspira a concretude na intera�‹o com o leitorÓ (PORTELA, 2009, p. 748). Entretanto, este narrador carrega, frequentemente, tra�os da enuncia�‹o oral, assegurando elementos da performance de vozes ancestrais. Zumthor (2018, p. 70-71), ao tratar da leitura, afirma que a compreens‹o das palavras necessita de Òuma interven�‹o corporal, sob forma de uma opera�‹o vocal: seja aquela da voz percebida, pronunciada ou ouvida ou de uma voz inaud’vel, de uma articula�‹o interiorizadaÓ.

De acordo com Oliveira (2012), Ž na oralidade que a pr—pria literatura can™nica tem sua origem. Toda fic�‹o e toda poesia podem ter origem na voz de um contador de hist—rias, que criou, ouviu ou presenciou um acontecimento, contou e aumentou fatos (ficcionais, mitol—gicos, hist—ricos) e os transmitiu a outro alguŽm que fez o mesmo e assim por diante, ad aeternum. Isso prova que a literatura impressa serviu-se e serve-se ainda da fic�‹o oral, especialmente no que tange aos mitos e lendas reescritos em diversos g�neros e suportes da literatura. Mas a literatura oral est‡ viva entre n—s. As manifesta�›es orais de diversos g�neros fazem parte de nossa exist�ncia. Nas tribos, nas pequenas cidades ou nos grandes centros, testemunhamos inœmeros exemplos e contadores e contadoras de hist—rias, que possibilitam diversas formas de Òcorpo-a-corpo com o mundoÓ e de rupturas da Òclausura do corpoÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 71.77).

Os aspectos art’sticos e etnogr‡ficos do texto oral reafirmam seu valor estŽtico e cultural. S‹o narrativas que comportam imagens sem‰nticas relacionadas a determinadas culturas, comprovando o valor da mem—ria e da voz como elementos imprescind’veis na transmiss‹o de conhecimentos culturais, hist—ricos, sociais e art’sticos. Todos estes aspectos fortalecem a import‰ncia de contar e ouvir hist—rias, nos dias de hoje e antigamente, e reiteram a necessidade de recuperar e recolher hist—rias que s‹o ou foram contadas por homens e mulheres cheios de palavras, gestos e cultura.

 

 

Corpo-mem—ria e a performance dos narradores orais

 

Certa tarde, na vida que dan�a ou na dan�a que vive, ouvi um tambor, segui seu chamado e fui encantada. O encanto veio das letras que brotam das pedrinhas miudinhas, que constituem o ch‹o de um viver atento, vibrante, agradecido, que sabe ouvir o que Ž e o que j‡ foi, que sabe agradecer os que j‡ viveram e que, por isso, ainda vivem (Lara Say‹o).

Enquanto grupos sociais, os indiv’duos buscaram seus meios de se organizar e de construir ou reconstruir os modos de ser e estar no mundo. Os lugares, as hist—rias, os saberes e fazeres d‹o o tom e o sabor a tudo aquilo que vai se constituindo e dando sentido ao que h‡ no mundo. AtravŽs das formas como os indiv’duos interferem e tambŽm transformam esses espa�os, sejam eles f’sicos ou simb—licos, Ž que vai se inscrevendo a hist—ria da humanidade. Nesse locus da historicidade Ž onde se aloca a fundamental import‰ncia da palavra, seja ela escrita ou falada para a transmiss‹o, compreens‹o e apreens‹o dos saberes sociais.

No entanto, Ž fundamental compreender que os estudos da palavra, aqui referidos, assumem uma natureza representativa para alŽm das compreens›es do que epistemologicamente se disp™s os estudos da literatura tradicionalmente. Somente na compreens‹o da leitura em di‡logo com outras linguagens e da elabora�‹o do sentido dela no mundo, Ž que se torna poss’vel adentrar no campo das poŽticas orais. E nesse sentido, entram as quest›es da palavra escrita, mas tambŽm sua rela�‹o com os cantos, as dan�as, os ritmos, os gestos e, sobretudo, a voz.

O estudo da voz nas poŽticas orais amplifica a certeza de um reconhecimento duplo para as quest›es da literatura oral: primeiro a elucida�‹o de que essas poŽticas n‹o estavam centradas especificamente nos estudos liter‡rios, mas na sua intersec�‹o e di‡logo entre v‡rias ‡reas, interligando e compreendendo sua dimens‹o estŽtica, enquanto norteadora da exist�ncia de uma no�‹o a respeito do performativo-liter‡rio que ali surge. E a segunda trata especificamente sobre a import‰ncia do corpo inscrito na literatura. Um corpo que tem historicidade, que se move e movimenta, criando uma espŽcie de rito de si, composto de uma escritura e permitindo-se ler, ˆ medida que transmite saberes oriundos de suas viv�ncias, mem—rias e saberes.

A no�‹o de corpo como lugar de mem—ria, representa o reconhecimento das dimens›es estŽticas e perform‡ticas da palavra, uma vez que os aspectos art’sticos dos movimentos f’sicos e das express›es corporais v‹o se agregando e entrela�ando em diferentes nuances aos aspectos sem‰nticos da palavra escrita, atŽ se perpetrarem numa nova compreens‹o do corpo como lugar de mem—ria. Isso, para os contadores de hist—rias orais, se evidencia na expressividade latente de suas narrativas. Sobre essa sem‰ntica poŽtica, Zumthor (2007, p. 78) elucida:

Nesse sentido, pode-se dizer que o discurso poŽtico valoriza e explora um fato central, no qual se fundamenta, sem o qual Ž inconceb’vel: em uma sem‰ntica que abarca o mundo (Ž eminentemente o caso da sem‰ntica poŽtica), o corpo Ž ao mesmo tempo o ponto de partida, o ponto de origem e o referente do discurso. O corpo d‡ a medida e as dimens›es do mundo; o que Ž verdade na ordem lingu’stica, na qual, segundo o uso universal das l’nguas, os eixos espaciais direita/esquerda, alto/baixo e outros s‹o apenas proje�‹o do corpo sobre o cosmo. ƒ por isso que o texto poŽtico significa o mundo. ƒ pelo corpo que o sentido Ž a’ percebido.

O lugar da poŽtica inscrita no corpo Ž o ponto de partida para se compreender um universo que se abre no campo epist�mico dos estudos das poŽticas orais, e, adentrar nos seus signos e significados, Ž inicialmente repensar o poder da palavra poŽtica. AlŽm disso, Ž fundamental analisar nesse jogo, a rela�‹o lœdica do corpo-poesia com as formas narrativas que deles se extraem. Isso porque, atravŽs da performance em si, os narradores ou contadores de hist—rias v‹o transmitindo suas leituras, suas hist—rias e seus saberes, transmutando em mem—rias coletivas, o que antes era compreendido apenas como experi�ncias individuais ou de um determinado grupo.

O texto poŽtico Ž, portanto, ressignificado, ˆ medida que a fus‹o corpo-palavra-leitura se estabelece na compreens‹o de que o texto est‡ em todas as coisas e lugares e que ele dialoga com o corpo e sua corporeidade, estabelecendo essa rela�‹o da palavra escrita com a palavra falada. Expressa nos ritos e rituais, a palavra escrita est‡, portanto, atrelada a seus significados, mas para alŽm deles, se agrega tambŽm ˆs mœltiplas linguagens do corpo e dos seus ritmos. Sobre isso, Derrida (2008, p. 14) discute a respeito da necessidade de uma ruptura do logocentrismo na escrita, e enfatiza:

Em todos os casos, a voz Ž o que est‡ mais pr—ximo do significado, tanto quando este Ž determinado rigorosamente como sentido (pensado ou vivido) como quando o Ž, com menos precis‹o, como coisa. Com respeito ao que uniria indissoluvelmente a voz ˆ alma ou ao pensamento do sentido significado, e mesmo ˆ coisa mesma [...], todos significantes, e em primeiro lugar o significante escrito, seria derivado. Seria sempre tŽcnico e representativo. N‹o teria nenhum sentido constituinte. Esta deriva�‹o Ž a pr—pria origem da no�‹o de ÒsignificanteÓ. A no�‹o de signo implica sempre, nela mesma, a distin�‹o do significado e do significante, nem que fossem no limite, como diz Saussure, como as duas faces de uma œnica folha. Tal no�‹o permanece, portanto, na descend�ncia deste logocentrismo que Ž tambŽm um fonocentrismo: proximidade absoluta da voz e do ser, da voz e do sentido do ser, da voz e da idealidade do sentido.

AlŽm de uma proposta de disruptura com a supremacia do texto escrito, essa concep�‹o vem reivindicar a necessidade de um questionamento que a literatura necessita e prescreve a respeito do lugar da palavra no ‰mbito das poŽticas orais e isso subverte e transcende a pr—pria no�‹o de literatura, alŽm de abrir as portas para o fortalecimento dos estudos da literatura oral na contemporaneidade. Nesse prisma, encontra-se a no�‹o de corpo como rito, uma vez que a palavra pode ser lida para alŽm do texto escrito, atravŽs da gestualidade e da performance que o narrador das literaturas orais representa, a partir de suas narrativas. Se para Derrida (2008) n‹o existe o fora do texto, a leitura do texto nunca se encerra em si mesma e est‡ sempre aberta ˆ leitura do outro e de outros textos.

A quest‹o do texto, nesse sentido, se resolve no di‡logo com o corpo enquanto palavra, pleno de toda a sua historicidade. ƒ iluminada a no�‹o do corpo como performance da palavra, uma vez que, partindo da premissa de que, se n‹o existe nada fora do texto, n‹o existe tambŽm nada fora do corpo. Nesse sentido, a gestualidade assume sua import‰ncia na compreens‹o dos textos das poŽticas orais, j‡ que Ž atravŽs da voz, dos cantos, dos ritmos, das express›es que se encontra o tom da literatura oral. Sobre isso, Zumthor (2007, p. 77), explica:

E nesse sentido que se diz, de maneira paradoxal, que se pensa sempre com o corpo: o discurso que alguŽm me faz sobre o mundo (qualquer que seja o aspecto do mundo de que ele me fala) constitui para mim um corpo-a-corpo com o mundo. O mundo me toca, eu sou tocado por ele; a�‹o dupla, revers’vel, igualmente v‡lida nos dois sentidos. Essa ideia, eclipsada durante um certo tempo, renasce hoje, em uma espŽcie de volta ao recha�ado, e, sem dœvida, ligado ao conjunto de fen™menos contempor‰neos que se embrulham sob o termo duvidoso de p—s-modernidade. A generaliza�‹o, hoje, da ideia de performance Ž uma das consequ�ncias.

Sobre esse conjunto de fen™menos contempor‰neos a que se refere Zumthor, debru�a-se a import‰ncia dos estudos da mem—ria e sua rela�‹o com a literatura oral. Legar ˆ hist—ria da literatura a import‰ncia das narrativas enquanto compreens‹o de mundo ao redor se faz necess‡rio nos estudos contempor‰neos, uma vez que a presen�a do narrador e suas hist—rias esteve, vez por outra, envolvida com a no�‹o de tradi�‹o, como sin™nimo daquilo que Ž passado, obsolescente ou, como prop›e a concep�‹o benjaminiana de narrador, um conhecimento acabado em si e que deve ser transmitido ˆs futuras gera�›es em suas formas mais puras, fixas e im—veis.

Ao contr‡rio, ouvir as hist—rias dos narradores na contemporaneidade, buscando os sentidos de sua historicidade latente, mas em conson‰ncia com sua mov�ncia, Ž o legado que as literaturas orais na p—s-modernidade deixam para os estudos liter‡rios. E nessa compreens‹o, se forem agregadas as quest›es das literaturas orais de origem africana, Ž poss’vel enriquecer ainda mais essa perspectiva de valor de sua historicidade e valora�‹o de mem—rias hist—ricas e sociais. Sobre a dimens‹o estŽtica da cria�‹o liter‡ria africana, RisŽrio (1996, p. 24) assertivamente destaca que

A riqueza da cria�‹o textual na çfrica Ž um fato indisput‡vel. A menos que uma inten�‹o ideol—gica expl’cita tente rasurar programaticamente a exist�ncia milenar do texto criativo naquele continente, como na Žpoca em que fantasias racistas de calibre variado se esfor�aram para expurgar o negro da esfera da espŽcie humana. Ali‡s, aqueles que um dia pretenderam expulsar o negro do c’rculo da humanidade, ou quando nada, confin‡-lo a um compartimento subterr‰neo desta, tipo dernier Žchelon da espŽcie, tiveram diante de si, como obst‡culo intranspon’vel, a for�a e a finura das produ�›es estŽticas africanas.

Com essa cr’tica assertiva em rela�‹o ˆ recep�‹o do texto liter‡rio e ao reconhecimento da riqueza cultural que os estudos liter‡rios legaram do continente africano, RisŽrio corrobora a import‰ncia da valoriza�‹o das narrativas transmitidas pelos contadores de hist—ria orais de origem africana. Esses s‡bios transmissores das suas origens, atravŽs de pr‡ticas perform‡ticas da conta�‹o de hist—rias, atravŽs das literaturas, dan�as, cantos e ritmo, encontram-se ainda hoje por todo o mundo, exercendo a miss‹o de transmiss‹o dos saberes seculares t‹o fundamentais, mas incipientemente valorizados e reconhecidos para a humanidade.

De fato, n‹o se pretende aqui adentrar a conceitua�‹o das tem‡ticas dos gri™s, especificamente, no sentido de ampliar a conceitua�‹o do termo, nem tampouco problematizar a fundo tais atribui�›es e fun�›es, apesar de t‹o importantes e fundamentais para a hist—ria da humanidade, porŽm a inten�‹o de traz�-los ˆ discuss‹o Ž lan�ar luz ˆ import‰ncia da palavra – escrita e falada – africana, na compreens‹o dos estudos da literatura oral, uma vez que os povos de origem africana s‹o identificados e definidos como os mestres e mestras da palavra oral, portanto est‹o sempre associados ao reconhecimento da import‰ncia das poŽticas orais.

Enfim, a partir dessas reflex›es, apreende-se a import‰ncia do corpo enquanto lugar de mem—ria, engendrado em seus ritos, rituais e narrativas, uma vez que sendo compreendida a literatura oral sob novas perspectivas paradigm‡ticas e epistemol—gicas, se compreende tambŽm a import‰ncia da ressignifica�‹o do corpo como rito, corpo enquanto leitor do mundo, uma vez que a palavra, seja ela escrita ou falada, est‡ no mundo e que antes de tudo, Ž a partir do corpo que se chega a ela. Nesse sentido, se refaz a compreens‹o da leitura da palavra, a leitura da escrita e a conson‰ncia de ambas com a leitura da palavra-corpo-escrita.

 

 

Um estudo da mem—ria a partir das narrativas orais: os mestres contadores de hist—rias da tradi�‹o e seu papel na transmiss‹o da cultura

 

Os pequenos sonhos, dizem os habitantes da floresta de Elgon, na çfrica Central, n‹o t�m grande import‰ncia. Mas, se uma pessoa tiver um Òsonho grandeÓ, toda a comunidade deve ser reunida para ouvi-lo. Ent‹o, como um elgoni sabe que foi um sonho grande? Ao acordar, h‡ um sentimento instintivo sobre a sua significa�‹o para o grupo – mant�-lo em segredo Ž um pensamento que nunca ocorre (Clyde W. Ford[100]).

Os sentidos on’ricos dos povos elgoni descrevem claramente um cen‡rio permeado de mem—rias. Dessas mem—rias que v‹o se recriando, ˆ medida que s‹o contadas, que s‹o trocadas, que s‹o repassadas, como num conto, como num canto, como num sonho. No amplo sentido te—rico, os estudos de mem—ria abarcam o campo cient’fico global que envolve e intersecciona os estudos da psicologia, da hist—ria, das linguagens, do corpo e suas rela�›es com o tempo-espa�o em que est‹o inseridos. Reconhecer, o que aqui interessa a respeito desses estudos, os da mem—ria social dos povos, a partir de uma perspectiva problem‡tica da hist—ria, explicam de certo modo, as concep�›es do que vem a ser a mem—ria coletiva e quais s‹o os seus lugares simb—licos e espaciais. Sobre isso, Candau (2019, p. 157) elucida:

A fun�‹o identit‡ria desses lugares fica expl’cita na defini�‹o que Ž dada a eles pelo historiador: Òtoda unidade significativa de ordem material ou ideal, da qual a vontade dos homens ou o trabalho do tempo fez um elemento simb—lico do patrim™nio memorial de uma comunidade qualquerÓ. Um lugar de mem—ria Ž um lugar onde a mem—ria trabalha.

Essa premissa vem complementar a no�‹o de que se existem lugares de mem—ria, sejam eles f’sicos ou simb—licos e imagŽticos-afetivos, a tradi�‹o poŽtica nos remeteria a esses lugares, a partir de seus mitos, narrativas lend‡rias, ritos e rituais. No entanto, Candau (2019, p. 164) traz ˆ luz a discuss‹o de que as mem—rias est‹o sempre em movimento em rela�‹o ˆ sua historicidade e para que n‹o recaia no equ’voco de querer mant�-la em conserva�‹o, elas devem obedecer um princ’pio de afirma�‹o de si mesma, mas sendo compreendidas como um Ò projeto inacabadoÓ, sem a ideia on’rica de conservar os fatos tais quais aconteceram, nem de se refazer o passado, uma vez que a mem—ria coletiva s— se constitui a partir de uma mov�ncia ativa, permeada de historicidade, estabelecendo as fronteiras, mas perfazendo as lacunas entre passado e presente.

Le Goff (1990) entende a narra�‹o ou o ato narrativo como um ato mnem™nico fundamental, ou seja, narrar hist—rias Ž, em si, uma maneira de dialogar, gerir e experimentar as mem—rias, sejam elas individuais ou coletivas. Imergido pelas no�›es do tempo, cabe estabelecer a que dist‰ncia temporal essas mem—rias se constituem na dialŽtica distin�‹o entre o tempo presente e os acontecimentos do passado. ƒ din‰mica, pois essa distin�‹o se refaz ˆ medida da reciprocidade existente nesses di‡logos dos tempos. Sobre isso, Le Goff (1990, p. 205) define:

A distin�‹o passado/presente que aqui nos ocupa Ž a que existe na consci�ncia coletiva, em especial na consci�ncia social hist—rica. Mas torna-se necess‡rio, antes de mais nada, chamar a aten�‹o para a pertin�ncia desta posi�‹o e evocar o par passado/presente em outras perspectivas, que ultrapassam as da mem—ria coletiva e da Hist—ria.

A import‰ncia da mem—ria, a partir das perspectivas da transmiss‹o dos saberes do passado, Ž a de que os narradores e mestres da oralidade definidos como seus principais difusores refazem e salvaguardam um passado ancestral, permeado de saberes tradicionais em conson‰ncia com as concep�›es dos estudos da mem—ria, da literatura oral e todas as suas possibilidades de di‡logo. Sobre isso, Abib (2017, p. 89) explica:

Talvez, uma das caracter’sticas mais marcantes das manifesta�›es oriundas do universo da cultura popular, em qualquer parte do mundo, e que nos remetem a essa l—gica diferenciada que busquei analisar, sejam justamente as formas de transmiss‹o de seu passado – que carrega a mitologia ancestral e os saberes tradicionais do grupo – atravŽs de tr�s elementos fundamentais presentes nesse universo: a mem—ria, a oralidade e a ritualidade.

Isso quer dizer das mem—rias individuais e da maneira como elas v‹o se configurando como coletivas e partilhadas, atravŽs dos processos como a oralidade e os rituais dos narradores, fortalecendo a import‰ncia das tradi�›es, oriundas do passado, mas n‹o perdendo de vista a no�‹o de cultura em movimento e tradi�‹o n‹o-est‡tica, como prop›em Lopes e Simas (2020, p.75), que, ao explicarem o mito da vida, morte e ressurrei�‹o, trazem claramente essa no�‹o de tradi�‹o em movimento. Uma vez que a pr—pria vida se reinventa, reinventam-se tambŽm as tradi�›es, os saberes e as hist—rias que se contam delas. Nesse sentido, fica translœcida a no�‹o de que Ž atravŽs de mitos como esse que a

poderosa s’ntese da ideia de morte como condi�‹o necess‡ria para que exista a vida, comporta uma fabulosa variante de leitura e mostra como os saberes africanos normalmente se referem a uma ideia de tradi�‹o que n‹o Ž est‡tica. Nas culturas orais, o conhecimento se fundamenta no ato de se transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha condi�›es de colocar mais um elo em uma corrente din‰mica e mut‡vel (LOPES; SIMAS, 2020, p. 75).

Passado e presente se fundem nessa din‰mica. Ainda assim, Ž substancial a representa�‹o das tradi�›es para a constru�‹o de uma compreens‹o maior, que abarque rigorosamente os conceitos das culturas, essas sendo compreendidas no plural, tal e qual mandam as quest›es dos tempos contempor‰neos, uma vez que as identidades s‹o representadas como mœltiplas (HALL, 2006), tambŽm as culturas pertencentes delas s‹o pluralizadas. Mas a import‰ncia da tradi�‹o, como heran�a, como legado, como estrato e ponto de partida dessas culturas, n‹o pode ser negada, esquecida e perdida na dan�a do tempo. Por esses caminhos, os da tradi�‹o, Ž que se explicam a import‰ncia das narrativas e principalmente dos narradores na tarefa de transformar os saberes individuais em experi�ncias de mem—rias coletivas. Sobre isso, entende-se que,

De fato, cada vez que no interior de um grupo restrito as mem—rias individuais querem e podem se abrir facilmente umas ˆs outras, como nos casos em que existe uma Òescuta compartilhadaÓ visando os mesmos objetos (por exemplo, monumentos, comemora�›es, lugares que ter‹o o papel de Òponto de apoioÓ, de Òsementes da recorda�‹oÓ), percebe-se ent‹o uma focaliza�‹o cultural e homogeneiza�‹o parcial das representa�›es do passado (CANDAU, 2019, p. 46).

Retoma-se assim, a quest‹o das poŽticas orais e a sua interrela�‹o com a perspectiva da mem—ria, como se amarrasse o fio de uma colcha de retalhos, na intersec�‹o entre as poŽticas orais com a mem—ria e a tradi�‹o cultural e suas nuances existentes em conc—rdia com a palavra escrita e inscrita no corpo. ƒ na import‰ncia ambivalente na elabora�‹o das mem—rias, dentro do espa�o lœdico do tempo, que se estabelece a rela�‹o entre mem—ria e as poŽticas orais. Desse encantamento entre ambas, percebe-se que ÒMem—ria e poesia se encontram no jogo de cria�‹o do mundo. Jogo do tempo: do que Ž, do que foi e do que ser‡, que ao se mostrar no canto do poeta, instaura uma Žpoca hist—ricaÓ (ABIB, 2014, p. 94).

Assim, e por fim, Ž na escuta das hist—rias dos narradores, das hist—rias da vida, da leitura da palavra, compreendida aqui como palavra no mundo e com o mundo, Ž que nasce e cresce a import‰ncia do contador de hist—rias e de todos os mestres da tradi�‹o que t�m a miss‹o da transmiss‹o de saberes pelas vias da oralidade. Esses que est‹o certamente a servi�o de algo maior, o de salvaguardar e dar movimento ˆs mem—rias hist—ricas e saberes coletivos, construindo as culturas e rompendo as lacunas, que ainda existem, entre o passado e o presente, entre a escrita e a oralidade, num bonito jogo simb—lico de vida, morte e ressurrei�‹o.

 

 

Refer�ncias

 

ABIB, Pedro Rodolpho Jungers. Capoeira Angola: cultura popular e o jogo dos saberes na roda. 2. ed. Salvador: EDUFBA, 2017.

 

BRICOUT, Bernadette. EPISODE 1: La ClŽ des contes (58min). LA COMPAGNIE DES AUTEURS, par Matthieu Garrigou-Lagrange. France Culture. s.d. Dispon’vel em: https://www.franceculture.fr/emissions/la-compagnie-des-auteurs/contes-14-la-cle-des-contes. Acesso em: 13 jul. 2020.

 

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DERRIDA, Jaques. Gramatologia. Trad. M’riam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. S‹o Paulo: Ed. Perspectiva, 2008.

 

_________. Gramatologia. Trad. Miriam Schnaiderman e Renato J. Ribeiro. S‹o Paulo: Perspectiva, 1973.

 

HALL, Stuart. A identidade cultural na p—s-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

 

LE GOFF, Jacques. Hist—ria e Mem—ria. Trad. Bernardo Leit‹o. Campinas: Ed. UNICAMPI, 1990.

 

LOPES, Nei; SIMAS, Luiz Ant™nio. Filosofias Africanas: uma introdu�‹o. 2. ed. Rio de Janeiro: Civiliza�‹o Brasileira, 2020.

 

LUYTEN, Joseph M. O que Ž Literatura popular. 5. edi�‹o. S‹o Paulo: Brasiliense, 1992.

 

OLIVEIRA, Carlos Jorge Dantas de. A Forma�‹o da Literatura de Cordel Brasileira, Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela (USC), 2012. 381f. Tese de Doutorado (Programa de Doutorado em Teoria da Literatura e Literatura Comparada – Faculdade de Filologia, Universidade de Santiago de Compostela – 2012).

 

PORTELLA, Mirtes Maria de Oliveira. Entre a letra e a voz: o espa�o do leitor no conto de tradi�‹o oral. In: CELLI – Col—quio de Estudos Lingu’sticos e Liter‡rios 3, 2007, Maring‡. Anais... Maring‡, 2009, p. 749-760.

 

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ZUMTHOR, Paul. Performance, Recep�‹o, Leitura. (1990). Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: UBU Editora, 2018.

 

_________. Performance, Recep�‹o, Leitura. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. 2. ed. rev. e ampl. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

 

[Recebido:16 fev 2021– Aceito: 16 mar 2021]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONVIDADO

 


A poŽtica do retalho

 

 

The poetic of retail

 

 

Jo‹o Evangelista do Nascimento Neto[101]

https://orcid.org/0000-0003-4937-7311

 

 

Resumo: Neste artigo, discute-se a constru�‹o de leituras tendo como analogia uma colcha de retalhos. A partir de cada retalho – constela�‹o, rizoma, intertextualidade, arquivo e semiologia –, Ž poss’vel tra�ar os percursos de compreens‹o do texto, tendo como exemplo o Auto da Compadecida, obra que alinhava tra�os da cultura popular e seu di‡logo interartes. Essa poŽtica da leitura aqui apresentada constitui-se somente enquanto uma das mœltiplas possiblidades de intera�‹o com o texto liter‡rio. Cada leitor, certamente, costurar‡ seu cobertor de leituras.

Palavras-chave: PoŽtica; Leitura; Popular.

 

 

Abstract: In this article, the construction of readings is discussed using a patchwork quilt as an analogy. From each patch: constellation, rhizome, intertextuality, archive and semiology, it is possible to trace the paths of understanding the text, taking, as an example, the Auto da Compadecida, a work that aligned traits of popular culture, and its interart dialogue. This poetics of reading presented here constitutes only one of the multiple possibilities of interaction with the literary text. Every reader will, of course, sew their blanket of readings.
Keywords: Poetics; Reading; Popular.

 

 

Como fazer uma coberta de taco (ou colcha de retalhos)

 

Material necess‡rio:

 

- Peda�os de panos os mais variados poss’veis;

- Linha de costura;

- Agulha;

- Tesoura.

 

Instru�›es:

 

Ap—s ter ˆ m‹o todos os materiais, separa os retalhos de pano e, com a tesoura, acerta os peda�os para que fiquem com tamanhos semelhantes. Depois, com linha e agulha, costura um peda�o a outro para materializar-se, enfim, a coberta. O tamanho dela depende de sua escolha em ser ela para cobrir uma cama de casal ou de solteiro, o que pode ser medido no pr—prio leito. O toque final Ž feito costurando-se as extremidades do cobertor, a fim de n‹o desfiar ou rasgar. A’ est‡ pronta a coberta, muito usada no ver‹o por ser leve, alŽm de deixar o ambiente agrad‡vel por suas multicores.

 

 

De como uma coberta de taco pode ter rela�‹o com as leituras

 

Ler Ž um processo cont’nuo e de car‡ter somat—rio. A leitura, termo genericamente usado no singular, na verdade, Ž feita de leituras. Se um homem Ž resultado de suas leituras, essas surgem em decorr�ncia das mœltiplas escritas, de inœmeros textos que se assomam ˆs leituras da vida, ˆs leituras do Outro e de Si.

Para se fazer uma coberta de taco, Ž necess‡rio adquirir uma sŽrie de retalhos. Do mesmo modo, para se estabelecer um homem, Ž preciso ver o mosaico de leituras que o constru’ram.

Esse artigo constitui-se em um processo de costura, dia ap—s dia, quando da apropria�‹o de cada retalho, de cada texto, unido a outro artesanalmente, com linha e agulha, como Ž o racioc’nio humano. Este texto representa as semelhan�as afetivas do leitor com suas refer�ncias de vida, suas escolhas liter‡rias, assim como a costureira estabelece uma rela�‹o afetuosa com a colcha que elabora com o esfor�o de suas m‹os.

Cada taco, cada retalho somado a outro representa a multiplicidade de ÒeusÓ que permeiam o leitor, que habitam o escritor. O resultado final da coberta, bela por sua variedade, Ž a analogia ao leque de leituras de um ser humano.

O homem contempor‰neo Ž o ser detentor de uma identidade mœltipla, l’quida, p—s-moderna. Esse homem fragmentado, esse ser estilha�ado, ao contr‡rio do que os mais tradicionais podem supor, n‹o deve ser visto com desvantagem; ao contr‡rio, a vida humana Ž um sucessivo catar de fragmentos, um constante trabalho de alfaiataria. O que est‡ rasgado pode ser novamente costurado. Se o retalho est‡ desgastado, pode ser cerzido. O homem Ž um ser inacabado, em constru�‹o. Cada retalho que adquire em sua vida pode ser acrescido a seu cobertor. Essa manta n‹o precisa ter tamanho exato, determinado. ƒ sempre poss’vel adicionar mais um taco a ela.

O narrador, nesse instante, pede licen�a ao leitor para usar a 1» pessoa do singular, j‡ que ele falar‡ de si pr—prio. Assim, o ÒeleÓ deve ceder espa�o ao ÒeuÓ, para particularizar aquilo que relata pela sua mem—ria, o instrumento de que disp›e, para descrever o que sente, quem Ž, mesmo, felizmente, sendo um produtor inacabado, ainda h‡ mais para trilhar, e pretende, com �xito, acrescentar mais tacos ˆ colcha da sua vida.

 

 

1¼ retalho: a constela�‹o

 

Eu inicio o relato, em primeira pessoa, citando ÒO menino que carregava ‡gua na peneiraÓ, de Manoel de Barros:

Tenho um livro sobre ‡guas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava ‡gua na peneira.
A m‹e disse que carregar ‡gua na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irm‹os.
A m‹e disse que era o mesmo que catar espinhos na ‡gua
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em desprop—sitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

 

[...]

 

A m‹e reparava o menino com ternura.
A m‹e falou: Meu filho voc� vai ser poeta.
Voc� vai carregar ‡gua na peneira a vida toda.
Voc� vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas v‹o te amar por seus desprop—sitos.[102]

Carregar ‡gua na peneira, criar peixe no bolso, costurar peda�os de panos. A priori, atividades v‹s, sem fins pr‡ticos ou de pouca valia. Mas pensa dessa forma quem nunca sentiu o prazer de levar a ‡gua na peneira e molhar-se com ela, refrescando-se num dia quente de ver‹o. Quem considera um ato insano criar um peixe no bolso, n‹o experimentou a satisfa�‹o de peg‡-lo e senti-lo perto, sempre junto, como um amigo que est‡ ali ˆ m‹o para todo intento. Aquele que pondera ser loucura costurar tacos de panos sem fim, n‹o pressente que de meros peda�os de restos de tecidos pode surgir uma colcha capaz de aquecer alguŽm numa noite mais fria.

Eu persigo os desprop—sitos da literatura, encanto-me com eles, seduzo-me por eles. Pela literatura, Ž poss’vel olhar alŽm, porque se pode enxergar para dentro. AtravŽs do texto liter‡rio, eu tambŽm cato os espinhos na ‡gua que levo em minha peneira (creio que todos os seres humanos possuem suas peneiras com ‡gua para levar por sua vida, mas alguns a abandonam no meio do caminho). Eu sei que o mundo contempor‰neo, com sua velocidade, seu tempo reduzido, exige, de cada um, praticidade, mas eu insisto em parar, muitas vezes, para recolher tais espinhos, mesmo furando os dedos, da peneira que levo, em meio ˆ ‡gua que dela escorre e que torno a encher. N‹o me esquivo da tarefa de pegar os espinhos, nem do trabalho de buscar remŽdio para sarar as feridas, paradoxalmente, na mesma peneira e com a mesma ‡gua.

Esses desprop—sitos enchem a alma, conduzem a vida, e d‹o olhos de lince. Olhar para o interior Ž o mais dif’cil tipo de vis‹o que existe. Olhar para dentro Ž enxergar a si pr—prio, com todas as suas idiossincrasias, reconhecendo os seus ÒeusÓ. Ao ver intrinsecamente, eu aprendo a ver melhor o Outro.

Da’, com agulha e linha, eu costuro a minha coberta. Todo dia, eu junto a ela um retalho diferente do outro que juntei anteriormente. Diferentemente de PenŽlope, ao esperar seu amado, a coberta n‹o Ž desfeita, mas acrescida, complementada. O cobertor Ž um emaranhado de tecidos, como o cŽu Ž uma profus‹o de estrelas. Ao olhar a ab—bada celeste, n‹o sei quando uma estrela est‡ viva, ou ali apenas Ž o seu brilho que chega atŽ mim, mas ela, a estrela, aproxima-se, lan�a sua luz, deixa seu rastro.

Olhar estrelas no cŽu tem rela�‹o com fazer uma coberta de taco. Perceber as inœmeras estrelas que habitam o firmamento, observar sua luz, determinar cada origem, Ž t‹o desprop—sito quanto procurar a origem de cada retalho. ƒ por isso que a literatura se prop›e aos desprop—sitos. A ci�ncia esquiva-se daquilo que, para ela, Ž irracional, procura provar e comprovar suas teorias, seus tratados. A literatura busca o ser, aposta no sentir. Nesses desprop—sitos, eu me lan�o, eu me perco no meio das estrelas, eu me absorvo por entre os peda�os de pano. Ao perder-me, encontro-me, para perder-me novamente, a fim de conhecer outras facetas de mim mesmo.

Para Maurice Blanchot, a Constela�‹o nasce daquilo que n‹o Ž conhecido, do espa�o da pr—pria obra. E falo de estrelas e assemelho-as ˆ literatura. Esse vazio deixado por toda obra Ž o espa�o a ser preenchido pelo leitor. Sou eu, leitor, que preciso seguir os rastros de luz deixados pelos textos, que s‹o fachos n‹o lineares, s‹o luzes que fazem ziguezagues, que se entrela�am com outras fa’scas, como os textos fazem rela�›es a outros textos, como leituras da contemporaneidade dizem sobre textos medievais, assim como as p‡ginas escritas podem falar tanto do homem, dialogar comigo, sobre mim. Para o autor,

a ess�ncia da literatura escapa a toda determina�‹o essencial, a toda afirma�‹o que a estabilize ou mesmo que a realize; ela nunca est‡ ali previamente, deve ser sempre reencontrada ou reinventada. (BLANCHOT, 2005, p. 294).

Como os peda�os de pano precisam ser reinventados para tornarem-se, juntos, mas sem ordem a ser seguida, sem estabelecimento de come�o ou fim, apenas uma combina�‹o aleat—ria, uma colcha; as estrelas s‹o reinventadas pelo rastro que deixa no cŽu. A literatura deixa seus rastros. O leitor segue-os, refazendo os caminhos, abrindo picadas, forjando estradas. Muitos desses caminhos n‹o s‹o abertos pelo escritor, mas pelo pr—prio leitor, ao seguir os rastros que ficam, ao sair ˆ procura dos retalhos, mas tambŽm seguindo sua intui�‹o, seus anseios, enxergando-se atravŽs dos rastros, materializando-se na jun�‹o de cada taco de pano, no processo de coautoria do texto: ÒA leitura Ž opera�‹o, Ž obra que se cumpre suprimindo-se, que se prova confrontando-se com ela mesma e se suspende ao mesmo tempo que se afirmaÓ (BLANCHOT, 2005, p. 357-358).

A leitura Ž um estar em movimento ao permanecer est‡tico. Um devir interior, que promove a transforma�‹o do mundo. Meu mundo se suprime, comprime-se diante do texto, mas expande-se, num processo contr‡rio, como o universo o faz (ou fez um dia, segundo alguns cientistas). ƒ o inverso do reverso de mim, aben�oado pelos deuses da literatura, plainando sobre mim, a sussurrar em meus ouvidos cantos poŽticos de amor, louvores ˆ inquietude de meu ser, mas tambŽm amaldi�oado pelos dem™nios que habitam em mim, que voam sob minhÕalma, defenestrando meus sonhos, enxertando novos ideais. Ler um texto Ž sentir as palavras com o cora�‹o divino ressoarem na pele com prazer diab—lico.

Segundo Roland Barthes,

Texto de prazer: aquele que contenta, enche, d‡ euforia; aquele que vem da cultura, n‹o rompe com ela, est‡ ligado a uma pr‡tica confort‡vel da leitura. Texto de frui�‹o: aquele que p›e em estado de perda, aquele que desconforta (talvez atŽ um certo enfado), faz vacilar as bases hist—ricas, culturais, psicol—gicas do leitor, a consist�ncia de seus gestos, de seus valores e de suas lembran�as, faz entrar em crise sua rela�‹o com a linguagem (BARTHES, 2010, p. 20-21).

Para o te—rico, a Babel liter‡ria Ž benquista, bem-vinda, recebida com festa, com gl—rias. O texto de prazer abre espa�o para o texto de frui�‹o. Um deixa o leitor acomodado, o outro cutuca, incomoda, tira o sono. O primeiro nina o leitor em suas p‡ginas, o segundo tira-lhe o sono. H‡ textos que exercem as duas fun�›es: eles apresentam-me os meus deuses e diabos cotidianos. Esses textos n‹o podem ser classificados genericamente, dependem do olhar pessoal de cada leitor. E assim, vai-se fazendo a literatura, com linha de algod‹o mercerizado ou linha mista (mais usadas em costuras) e uma agulha para acolchoar (que costura com mais precis‹o e rapidez), ideologias s‹o questionadas, novos pensamentos costurados, entrela�ados a tantas outras ideias, alegrias somadas a tristezas vividas. Assim sou eu, assim Ž o ser humano, assim Ž a literatura, a mais perfeita cria�‹o do imperfeito homem.

 

 

2¼ retalho: o rizoma

 

O manguezal Ž um ecossistema costeiro, que transita entre os ambientes terrestre e marinho. Existe nas regi›es tropicais e subtropicais, Ž poss’vel encontr‡-lo em foz de rios. No mangue, encontram-se vegeta�‹o t’pica e vida animal em abund‰ncia, aves, peixes, mam’feros, rŽpteis e invertebrados, como os apreciados siris e caranguejos. Seu solo Ž rico em nutrientes, por isso as ‡rvores desenvolvem-se com facilidade, mas, com solo lodoso, as plantas precisam adaptar-se, para tal, utilizam-se de ra’zes aŽreas, para facilitar a oxigena�‹o, mas bem fincadas no ch‹o.

Na bot‰nica, as ra’zes que se fasciculam s‹o chamadas de rizomas. Os rizomas funcionam como —rg‹os de reprodu�‹o dos vegetais. Da raiz principal, surgem outras ra’zes em diferentes dire�›es, fazendo brotar outras plantas. Em um momento, ao leigo, Ž dif’cil perceber qual a raiz principal, j‡ que outras germinam dela. Assim Ž a raiz da vegeta�‹o do manguezal. Ela Ž um emaranhado de ra’zes, que se confundem umas as outras. Num mangue, n‹o h‡, ˆ primeira vista, como estabelecer uma separa�‹o. O mangue resiste pela uni‹o de sua vegeta�‹o, pela for�a de suas ra’zes que, juntas, s‹o mais fortes. O mangue resiste ˆ ‡gua e ao solo arenoso, fluido. O manguezal Ž um local de reprodu�‹o de v‡rias espŽcies animais e vegetais, atuando como manuten�‹o do equil’brio da natureza. O mangue Ž for�a vital, seus rizomas, com mœltiplas entradas, geram outras vidas, sustentam exist�ncias. A ‡rvore Ž o que se v�, aquilo que se contempla majestosa, mas ela nada seria sem a sua raiz, principalmente numa regi‹o de manguezal.

Uma colcha de retalhos Ž como um manguezal. Cada peda�o de pano, rizom‡tico, une-se a outro, tambŽm rizom‡tico, formando um todo onde cada parte ainda Ž percept’vel, mas indissoci‡vel. Numa coberta de taco, os elementos, de tamanhos diferentes, de cores peculiares, de estampas espec’ficas, simbolizam aquilo que o mangue evidencia: a uni‹o das diferen�as. Conforme Jœlia Kristeva, Òtodo texto Ž um mosaico de cita�›es, todo texto Ž absor�‹o e transforma�‹o de outro textoÓ (KRISTEVA, 1974, p. 64). Todo texto Ž, portanto, como as ra’zes de um manguezal, ou como uma colcha de retalhos.

Uma coberta de taco Ž um texto, mœltiplo em sua unidade, formada por rizomas, seguindo o conceito de Gilles Deleuze e FŽlix Guattari. Para os autores,

uma das caracter’sticas mais importantes do rizoma talvez seja a de ter sempre mœltiplas entradas [...]. Ele n‹o Ž feito de unidades, mas de dimens›es, ou antes de dire�›es movedi�as.

[...]

Um rizoma n‹o come�a nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 22. 37).

Um texto rizom‡tico remete o leitor a outros textos que o direcionam a demais leituras, numa estrutura fascicular intermin‡vel. Meu contato com um rizoma se deu por intermŽdio da microssŽrie O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, que foi ao ar em 1999, pela Rede Globo. Com quatro cap’tulos, a adapta�‹o do texto teatral, Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, escrito em 1955 e encenado pela primeira vez em Recife no ano de 1957, acenou para mim como um intertexto que pulsava vida, que possu’a for�a e falava aos meus ouvidos, tocava na minha alma.

Percebi, durante os quatro cap’tulos da sŽrie, a Literatura de Cordel emergindo das vozes de cada personagem. Em cada situa�‹o narrada, o cheiro do sert‹o nordestino passeava por meu corpo, subia as minhas narinas, chegava ao meu cŽrebro. Mas cada texto de cordel usado por Suassuna, em sua pe�a, tambŽm evoca outros textos. O pr—prio autor paraibano deixa-se tomar, em sua pena, por obras portuguesas, como as do autor Gil Vicente, ou de resqu’cios cavalheirescos de Miguel de Cervantes, ou ainda do humor social de Moli�re. Ë adapta�‹o, para a televis‹o e posteriormente para o cinema, ainda se acresce William Shakespeare. Enfim, o rizoma se faz com o di‡logo sem come�o estabelecido, sem fim aparente, como as ra’zes de um manguezal, como os tecidos que formam uma colcha de retalhos.

 

 

3¼ retalho: a intertextualidade

 

Se fosse poss’vel resumir o Auto da Compadecida em uma s— palavra, esta seria, certamente, a intertextualidade. Os textos de cordŽis, fonte primeira de inspira�‹o do autor, ajudam na tem‡tica de cada ato da pe�a.

O folheto O dinheiro (O testamento do cachorro), de Leandro Gomes de Barros, possui, como enredo, as peripŽcias de um dono para sepultar seu c‹o com um ritual fœnebre. O texto, de cunho religioso e moralizante, esfor�a-se por associar a imagem da avareza e da gan‰ncia como os males da humanidade:

O dinheiro neste mundo

N‹o h‡ for�a que o debande,

Nem perigo que o enfrente,

Nem senhoria que o mande.

Tudo est‡ abaixo dele

S— ele Ž quem Ž grande.

[...]

Eu j‡ vi narrar um fato

Quer fiquei admirado,

Um sertanejo me disse

Que nesse sŽculo passado

Viu enterrar um cachorro

Com honras de um potentado.

(BARROS, 2005, p. 1. 5).

Por dinheiro, que constava no testamento deixado pelo c‹o, o Vig‡rio da par—quia e o Bispo concordam com a celebra�‹o estapafœrdia. O enterro teve ladainha e encomenda�‹o do corpo. Segundo o narrador, nem todo ser humano tinha o privilŽgio de tantas honrarias em seu sepultamento. Aqui, a Igreja Ž condenada por seus desvios. Embora n‹o haja um desejo de destruir a institui�‹o, seus membros s‹o expostos ao rid’culo, a fim de haver um conserto desses que deveriam ser os guias espirituais do povo.

            Ariano Suassuna adapta o folheto de Leandro Gomes de Barros acrescendo a ele a celebra�‹o do fŽretro em latim, como exig�ncia da esposa do padeiro:

JOÌO GRILO: ƒ Chic—, o padre tem raz‹o. Quem vai ficar engra�ado Ž ele e uma coisa Ž benzer o motor do Major Ant™nio Moraes e outra Ž benzer o cachorro do Major Ant™nio Moraes.

PADRE (m‹o em concha no ouvido): Como? [...]. E o dono do cachorro de quem voc�s est‹o falando Ž Ant™nio Moraes? [...]. N‹o vejo mal nenhum em se aben�oar as criaturas de Deus (SUASSUNA, 2004, p. 23-24).

Suassuna intensifica a denœncia contra o clero, pois, para o autor, a religi‹o Ž um meio de reforma social. Protestante convertido ao catolicismo, o teatr—logo condena os v’cios humanos, atribuindo-lhes as causas da degeneresc�ncia Žtica e moral humana.

Em A hist—ria do cavalo que defecava dinheiro, tambŽm de Leandro Gomes de Barros, a hist—ria se passa entre dois compadres, de situa�‹o financeira bastante distinta. O pobre vinga-se do rico por sua sovinice, vendendo-lhe um cavalo que defeca moedas:

Na cidade de MacaŽ

Antigamente existia

Um duque velho invejoso

Que nada o satisfazia

Desejava possuir

Todo objeto que via

Esse duque era compadre

De um pobre muito atrasado

Que morava em sua terra

Num rancho todo estragado

Sustentava seus filhinhos

Na vida de alugado

[...]

Foi na venda de l‡ trouxe

Tr�s moedas de cruzado

Sem dizer nada a ninguŽm

Para n‹o ser censurado

No fiof— do cavalo

Foi o dinheiro guardado.

(BARROS, 2006, p. 1-2).

Como forma de puni�‹o pela sovinice, o compadre pobre ati�a a cobi�a do amigo, vendendo-lhe o animal que ÒdescomeÓ dinheiro, em seguida, uma rabeca que ressuscita mortos. Desse modo, obtŽm sua vingan�a e livra-se do vizinho avaro.

No Auto da Compadecida, o cavalo foi trocado, por quest›es de montagem teatral, por um gato. A rabeca transforma-se em gaita e utilizada na cena em que Severino de Aracaju intenta matar Grilo e seu companheiro Chic—:

GRILO: Agora vou dar uma punhalada na barriga de Chic—.

CHICî: Na minha, n‹o!

GRILO: Deixe de moleza, Chic—. Depois eu toco na gaita e voc� fica vivo de novo! [Murmurando, a Chic—.] A bexiga, a bexiga! (SUASSUNA, 2004, p. 113).

A artimanha para enganar Severino n‹o d‡ certo. Embora iludido em ver o Padre C’cero, e retornar ˆ vida, o cabra do Capit‹o mata Grilo, dando origem ao œltimo ato da pe�a, o julgamento das personagens.

No texto O Castigo da soberba, an™nimo, o bar‹o e sua esposa s‹o julgados por sua avareza, tendo seus atos expostos no julgamento celestial. Os dois personagens, no folheto, encarnam os sete pecados capitais, sendo defendidos por Nossa Senhora:

(Alma) – ÒRainha, M‹e Amorosa,

Esperan�a dos mortais,

Quem recorre a vosso nome

Sei que n‹o desamparais,

Eu, pegando em vossos pŽs

Sei que n‹o largo eles mais.Ó

 

(Maria) – ÒPois, alma, demora a’,

Enquanto eu vou consultar,

Fazer pedido a meu Filho,

Ver se eu posso te salvar,

Ver se teus grandes pecados

Tem grau de se perdoar.Ó

(C‹o) – ÒComo esta tal Maria

Eu mesmo nem nunca vi:

Uns pedem por interesse,

Pedem porque Ž pra si,

Mas ela pede Ž pros outros,

N‹o se enjoa de pedir...Ó

(MOTA, 1955, p. 175).

A alma consegue a justifica�‹o atravŽs da sua advogada de defesa, Nossa Senhora, que intercede junto ao juiz, Jesus Cristo, a fim de obter a reden�‹o de seu cliente, o homem. O C‹o, promotor nesse julgamento, Ž envergonhado e n‹o logra �xito em seus intentos.

No texto suassuniano, a cena do julgamento dura todo o terceiro (e œltimo) ato da pe�a. Todos os personagens ficam diante do juiz Manuel que, negro, ainda encontra espa�o para discutir quest›es de discrimina�‹o racial:

 

De repente, Jo‹o ajoelha-se, como que levado por uma for�a irresist’vel e fica com os olhos fixos fora. Todos v‹o-se ajoelhando vagarosamente. O Encourado volta rapidamente as costas, para n‹o ver o Cristo que vem entrando. ƒ um preto retinto, com uma bondade simples e digna nos gestos e nos modos. A cena ganha uma intensa suavidade de iluminura. Todos est‹o de joelhos, com o rosto entre as m‹os.

ENCOURADO: [de costas, grande grito, com o bra�o ocultando os olhos] Quem Ž? ƒ Manuel?

MANUEL: Sim, Ž Manuel, o Le‹o de Jud‡, o Filho de Davi. Levantem-se todos, pois v‹o ser julgados (SUASSUNA, 2004, p. 136-137).

O ato do julgamento conta com Jo‹o Grilo intermediando a pondera�‹o feita pelo Encourado para cada rŽu, a saber: o Padre, o Bispo, o Padeiro e sua Esposa. Severino livra-se do inferno por seu passado de sofrimento. E Grilo consegue retornar ao sert‹o, angariando uma segunda oportunidade de remiss‹o.

A personagem da pe�a fora retirada do folheto Proezas de Jo‹o Grilo, de Jo‹o Ferreira de Lima. Retratado como um garoto sem atributos f’sicos, mas dotado de uma grande intelig�ncia. Grilo doutora-se em realizar golpes, transformando-se no mais famoso p’caro do Nordeste:

Jo‹o grilo foi um ente

Que nasceu antes do dia

Criou-se sem formosura

Mas tinha sabedoria

E morreu depois das horas

Pela arte que fazia.

[...]

Jo‹o Grilo tinha um costume

Pra toda parte que ia

Era alegre e satisfeito

No conv’vio da alegria

Jo‹o Grilo fazia gra�a

Que todo mundo sorria.

(LIMA, 1979, p. 1. 5).

O Grilo, de Suassuna, ap—s sair de Portugal, integrou-se ao Nordeste do Brasil, povoando o imagin‡rio brasileiro. Suas hist—rias s‹o contadas, seus feitos repassados por jovens e velhos, por ricos e pobres. O riso que surge do rosto de quem ouve concorre com a alegria que nasce do semblante do contador. O c™mico existente nos contos, diversos folhetos, hist—rias infantis, pe�a de teatro, mantŽm vivo, no leitor/espectador, o desejo de uma vida mais justa.

H‡, no sert‹o brasileiro, uma rela�‹o ’ntima com o medievo. As hist—rias relatadas, os ÒcausosÓ vivenciados, ainda exercem uma intimidade com costumes cristalizados na cultura local. Essa manuten�‹o de um pensamento, de certos costumes pode ser vista no texto de Suassuna:

A medievalidade se faz notar ainda, em Suassuna, atravŽs da tŽcnica do teatro Žpico crist‹o, com suas modalidades espec’ficas e seus personagens estereotipados. [...] sendo a cultura popular nordestina acentuadamente medievalizante, aquela marca atua como uma espŽcie de fonte para o pr—prio romanceiro, onde o aspecto religioso se refor�a n‹o s— por causa da religiosidade popular da regi‹o como tambŽm pela op�‹o pessoal da cren�a do autor, convertido ao catolicismo na maturidade (VASSALLO, 1993, p. 29-30).

 

Esse tom moralizante proporciona um discurso, muitas vezes, manique’sta. H‡ o certo e o errado, o bem e o mal. Esse discurso, muito recorrente no medievo, encontra altos ecos ainda em v‡rios lugares do Nordeste.

O texto de Suassuna, suas fontes no cordel e sua influ�ncia do catolicismo popular remetem ˆ discuss‹o empreendia por Deleuze e Guattari (1977, p. 25. 28) ao defenderem que

Uma literatura menor n‹o Ž a de uma l’ngua menor, mas antes a que uma minoria faz em uma l’ngua maior.

[...]

As tr�s caracter’sticas da literatura menor s‹o de desterritorializa�‹o da l’ngua, a ramifica�‹o do individual no imediato-pol’tico, o agenciamento coletivo de enuncia�‹o. Vale dizer que ÒmenorÓ n‹o qualifica mais certas literaturas, mas as condi�›es revolucion‡rias de toda literatura no seio daquela que chamamos de grande (ou estabelecida).

O Auto da Compadecida faz parte de uma discuss‹o sobre literatura universal e literatura regional. A concep�‹o de literatura menor Ž atribu’da levando-se em considera�‹o, como afirmaram Deleuze e Guattari, quest›es ideol—gicas, pol’ticas e lingu’sticas. O lugar de onde se fala Ž importante para o estabelecimento de uma classifica�‹o. O Nordeste Ž um lugar ideologicamente de subalternidades. Mesmo Suassuna, um erudito, Ž um escritor regional, segundo o c‰none, por ter ÒcedidoÓ ˆ literatura popular.

Politicamente, o sert‹o ainda Ž visto como um lugar de coronŽis, cujo povo segue dominado, n‹o pensa, n‹o produz cultura. Todas as express›es feitas pelo sertanejo surgem como subcultura, reinando no campo do folclore, de uma tradi�‹o est‡tica, portanto, morta.

Toda classifica�‹o Ž arbitr‡ria. Todo hermetismo revela uma incompletude, uma insatisfa�‹o. Um texto n‹o cabe em uma caixa, n‹o se sente c™modo em um cofre. Os folhetos de cordel ou a pe�a Auto da Compadecida s‹o textos regionais, mas n‹o somente isso, tambŽm se constituem obras nacionais, mas tambŽm n‹o s‹o apenas isso. Um texto Ž o tudo e Ž o nada:

a obra somente Ž obra quando ela se converte na intimidade aberta de alguŽm que a escreveu e de alguŽm que a leu, o espa�o violentamente desvendado pela contesta�‹o mœtua do poder de dizer e do poder de ouvir (BLANCHOT, 1987, p. 29).

Uma obra Ž um comp�ndio com lacunas a serem preenchidas pelo leitor. Esse que n‹o respeita, necessariamente, as nomea�›es e classifica�›es oficiais. Literatura menor, universal, nacional, homoer—tica, de g�nero, Žtnica. Talvez nomenclaturas que defendam um espa�o de fala, mas tambŽm que excluem tantas outras. Para o leitor, para mim, leitor, o texto Ž um mundo a ser descoberto, um espa�o que precisa ser nomeado. Sou eu, leitor, quem o fa�o. As palavras est‹o ali, mas Ž preciso Òpenetrar surdamenteÓ nesse ambiente ˆ espera do que h‡ por vir. ƒ imprescind’vel entregar-se a este mundo, a este tempo. Nesse instante, n‹o importam c‰nones, classifica�›es s‹o indiferentes. ƒ a obra, sou eu e o mundo a desvendar.

 

 

4¼ retalho: o arquivo

 

O mundo processa uma sŽrie de informa�›es, produz conhecimentos que precisam ser guardados. Existe armazenamento para tudo na contemporaneidade. Em uma empresa, a vida de cada funcion‡rio Ž arquivada. Na Igreja, h‡ o rol de membros de seus fiŽis. No clube, existe a rela�‹o de associados com suas informa�›es pessoais. Para cada livro publicado no Brasil, uma c—pia Ž envida para a Biblioteca Nacional. Enfim, o arquivo Ž lugar de lembran�a e de esquecimento. Representa o est‡tico, o imut‡vel. ƒ a mem—ria e a tradi�‹o, o espa�o do tempo perdido.

Cada retalho Ž um arquivo em potencial. Cada taco fez parte de uma pe�a espec’fica de pano, que foi utilizado para a confec�‹o de uma roupa, cujas sobras foram relegadas a segundo plano. Mas atŽ chegar ao abandono, teve impressa em si a ideia de tecido, o prot—tipo de uma roupa. Ao ser utilizado em uma colcha de retalhos, adiciona a si mais uma impress‹o, somada a tantas outras de diversos tacos.

Por isso, n‹o compreendo o arquivo como algo morto, inerte. H‡, certamente, a possibilidade de um conhecimento estar engavetado, abandonado, esquecido, mas o arquivo Ž, alŽm disso, e talvez o mais importante, o lugar de onde se pode dispor de saberes.

Eu recorro ˆ mem—ria, enquanto arquivo individual ou coletivo, para ativar conhecimentos. Ao faz�-lo, tal conhecimento Ž re-elaborado, re-visto. O car‡ter de passividade n‹o se sustenta. O pr—prio livro pode ser compreendido como um arquivo: ÒUm texto s— Ž um texto se ele oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composi�‹o e a regra de seu jogo. Um texto permanece, ali‡s, sempre impercept’vel. (DERRIDA, 2005, p. 7).

Enquanto arquivo que, talvez nunca se mostre, o livro precisa ser tocado por mim, leitor, e vice-versa, n‹o para dissec‡-lo, mas para que eu, enquanto leitor, busque o meu saber, encontre as respostas para os meus questionamentos e, inclusive, suscite outras dœvidas sobre mim e sobre o mundo.

            Os arquivos s‹o um dep—sito em estado de lat�ncia. O arquivista Ž quem lhe d‡ sentido. O livro Ž um ser ˆ espera do encontro. O dom’nio do arquivo est‡ nas m‹os de quem o ordena, daquele que o consulta. O livro foge do poder de seu autor, escapa por entre seus dedos. Ao autor, cabe o escrever, o finalizar a escrita. Sou eu, leitor, quem a continuo:

O dom’nio do escritor n‹o est‡ na m‹o que escreve [...]. O dom’nio Ž sempre obra da outra m‹o, daquela que n‹o escreve, capaz de intervir no momento adequado, de apoderar-se do l‡pis e de o afastar. Portanto, o dom’nio consiste no poder de parar de escrever, de interromper o que se escreve, exprimindo os seus direitos e sua acuidade decisiva no instante (BLANCHOT, 1987, p. 15-16).

Crendo nessa concep�‹o de arquivo, como algo que exerce duas for�as concomitantes, de um lado, a for�a intr’nseca, que mantŽm a tradi�‹o, do outro, a extr’nseca, que promove o novo, Ž que percebo no Auto da Compadecida um arquivo vivo, impregnado da presen�a de textos diversos, de Žpocas diferentes, que dialogam com a pe�a teatral do autor paraibano.

Ler o texto de Suassuna Ž deparar-me com a influ�ncia do texto vicentino. Assim como o autor lusitano, Ariano Suassuna apoia seu texto na r’gida moral crist‹ medieval. H‡ uma rela�‹o entre a ÒtrilogiaÓ da Barca com o Auto, quando do julgamento dos personagens por seus atos cometidos por toda a vida. Em Gil Vicente, no entanto, reina um cristianismo oficial, n‹o cedendo espa�o para inser�›es de cren�as populares, como no texto brasileiro.

O onzeneiro, a alcoviteira, o fidalgo, o sapateiro s‹o exemplos de classes sociais representadas nÕO Auto da Barca do Inferno. NÕO Auto da Barca do Purgat—rio, tem-se personagens da classe popular, como um pastor, uma mexeriqueira, um blasfemador. Aqui, o purgat—rio, espa�o intermedi‡rio entre o cŽu Ž o inferno, Ž o caminho do meio, a via alternativa para a senten�a divina. J‡ nÕO Auto da Barca da Gl—ria, as personagens pertencentes ˆ aristocracia, Papa, Bispo, Duque, s‹o perdoadas mediante arrependimento.

Nesses textos, cada personagem personifica um pecado capital. Tais falhas precisam ser expurgadas do seio da sociedade, como meio de reeducar o ser humano. A religi‹o como forma de ensino, elemento de repress‹o do mal que habita o ’ntimo do homem. H‡ toda uma constru�‹o, em Gil Vicente, para amedrontar os espectadores de suas pe�as. Diabos, inferno e purgat—rio, seres e espa�os m’ticos que povoam o imagin‡rio medieval e que se materializam na vida cotidiana daquele per’odo:

Comen�a a declara�‹o e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de expirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per for�a havemos de passar em um de dous batŽis que naquele porto est‹o, scilicet, um deles passa pera o para’so e o outro pera o inferno: os quais batŽis tem cada um seu arrais na proa: o do para’so um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro (VICENTE, 1965, p. 27).

O cŽu, o inferno e o purgat—rio tambŽm s‹o evocados no Auto da Compadecida. Mas em Suassuna, tais espa�os j‡ foram impregnados pelo catolicismo popular, permeados de influ�ncias do espiritismo, bem como das culturas negra e ind’gena:

O catolicismo popular se exprime mediante elementos culturais, e as culturas populares, por meio de elementos religiosos. A simbiose, em alguns casos, Ž t‹o forte que n‹o Ž f‡cil distinguir o que pertence ˆ religi‹o do que pertence ˆ cultura (GOIS, 2004, p. 11).

No Auto, Ž durante o julgamento que Jo‹o Grilo exercita toda sua ret—rica. Convence Manuel a enviar os rŽus para o Purgat—rio, Severino Ž direcionado ao cŽu e ele, autor de todas as mentiras e trapa�as de Tapero‡, usa de um discurso de autopuni�‹o para garantir a miseric—rdia da Compadecida:

A COMPADECIDA: Jo‹o foi um pobre como n—s, meu filho. Teve de suportar as maiores dificuldades, numa terra seca e pobre com a nossa. N‹o o condene.

[...]

Pe�o-lhe ent‹o, muito simplesmente, que n‹o condene Jo‹o. [...]. D�-lhe ent‹o outra oportunidade.

MANUEL: Como?

A COMPADECIDA: Deixe Jo‹o voltar.

MANUEL: Voc� se d‡ por satisfeito?

JOÌO GRILO: Demais. [...] (SUASSUNA, 2004, p. 170. 172).

O Amarelo ludibria as divindades, e seu retorno ao sert‹o promete mais picardias, j‡ que justificava seus atos pela m‡ distribui�‹o de renda no pa’s, pela n‹o efetiva�‹o de uma vida crist‹, quando ele, o pr—ximo, era esquecido, humilhado por uma sociedade excludente.

A constru�‹o da personagem Jo‹o Grilo segue o prot—tipo do her—i picaresco, ou anti-her—i, que sobrevive ˆs custas de seus pequenos golpes. O p’caro n‹o pensa em um futuro distante, preocupa-se com o hoje, pois carece alimentar-se. Como est‡ ˆs margens da sociedade, o anti-her—i vinga-se de quem o exclui trapaceando, mentindo. N‹o segue uma moral espec’fica, nem regras r’gidas, o p’caro a tudo subverte em nome de uma sobrevida di‡ria. O Lazarillo de Tormes, texto an™nimo espanhol do sŽculo XVI, traz ao mundo o prot—tipo de p’caros que se seguem ao longo da literatura burlesca mundial:

Vuestra Merced debe saber primero que todos me llaman L‡zaro de Tormes, hijo de TomŽ y de Antona PŽrez, de Tejares, pueblo de Salamanca. Mi nacimiento fue dentro del r’o Tormes y por esta raz—n tomŽ mi apellido. Mi padre trabajaba en el molino de agua que hab’a en aquel r’o, desde hac’a m‡s de quince a–os. Y ocurri— que all’ le lleg— a mi madre una noche la hora de traerme al mundo, y naci yo. De manera que con verdad me puedo decir nacido en el r’o (LAZARILHO DE TORMES, 1994, p. 09).

L‡zaro n‹o possui for�a bruta, nem autonomia financeira. S— pode usar a intelig�ncia e a perspic‡cia. O intrigante Ž ter que alimentar uma mentira com outra mentira. Ao ser descoberto, resta-lhe fugir e recome�ar seu ciclo de picardias.

No texto teatral de Suassuna, Grilo Ž o p’caro que habita o sert‹o nordestino. V� a vida como um palco, onde precisa atuar para sobreviver. Conforme Derrida (2005, p. 12), Òa escritura j‡, Ž, portanto, encena�‹oÓ, por isso mesmo, a vida, que imita a arte em diversos momentos, deve adaptar-se ˆs mais diferentes situa�›es. Grilo Ž o resultado do meio em que vive:

JOÌO GRILO: Muito pelo contr‡rio, ainda hei de me vingar do que ele e a mulher me fizeram quando estive doente. Tr�s dias passei em cima de uma cama para morrer e nem um copo dÕ‡gua me mandaram. [...] a qualquer hora acerto com o patr‹o! Eu conhe�o o ponto fraco do homem, Chic—! (SUASSUNA, 2004, p. 26).

A vingan�a Ž o œnico caminho a trilhar, visto que Ž o œnico que conhece. Ao conviver com avaros, ego’stas, hip—critas, torna-se tambŽm um, por meio de um refor�o negativo. O Amarelo age, no fim das contas, como um daqueles que trapaceia, pois v� nisso a œnica forma de viver e suportar as agruras do mundo em que vive.

De todas as formas, a avareza Ž o pecado capital mais combatido em textos com p’caros. Pela avareza, os homens perdem as suas almas, afastam-se da divindade, separam-se da religi‹o. Pela sovinice, Harpag‹o, da obra O Avarento, de Moli�re, promove casamentos arranjados para seus filhos, comanda um regime de conten�‹o de despesas em casa, racionando a comida, escondendo seu tesouro. ƒ conhecido por todos pela sua mesquinhez, como afirma seu servo:

MESTRE TIAGO: Senhor, j‡ que assim quereis, dir-vos-ei francamente que tro�am de v—s por toda a parte; que vos lan�am, de todos os lados, mil zombarias e que s— ficar‹o satisfeitos quando vos derem um pontapŽ; e inventam, constantemente, hist—rias sobre a vossa mesquinhice. [...]. Enfim, quereis saber? N‹o se vai a lado nenhum que n‹o se ou�a dizer de v—s o pior poss’vel. Sois o motivo de tro�a e de risos de todos, e s— vos tratam por avarento, mesquinho, desprez’vel usur‡rio (MOLIéRE, 1971, p. 62).

O Padeiro e sua Esposa s‹o os maiores sovinas que Tapero‡ j‡ viu. Exploram seus empregados, Grilo e Chic—, que, por sua vez, buscam explorar a quem encontram. Mas h‡ avareza em outros personagens do Auto da Compadecida. O Padre e o Bispo guerreiam pelo testamento do cachorro. Severino invade a vila e saqueia a todos. Pela avareza, o autor observa os outros pecados aproximarem-se do homem e tomarem conta de seu esp’rito. Da avareza do casal de patr›es, surge o sentimento de vingan�a de Grilo, que s— possui sua mente e sua voz como armas para combater os mais fortes:

JOÌO GRILO: î homem sem vergonha! [Chic—][103] Inda pergunta? Est‡ esquecido que ela [A mulher do padeiro][104] deixou voc�? Est‡ esquecido da explora�‹o que eles fazem conosco naquela padaria do inferno? Pensam que s‹o o c‹o s— porque enriqueceram, mas um dia h‹o de me pagar. E a raiva que eu tenho Ž porque quando estava doente, me acabando em cima de uma cama, via passar o prato de comida que ela mandava para o cachorro. AtŽ carne passada na manteiga tinha. Para mim nada, Jo‹o Grilo que se danasse. Um dia eu me vingo (SUASSUNA, 2004, p. 39).

O final do texto de Ariano Suassuna aponta para uma poss’vel remiss‹o de Jo‹o Grilo, mas ele retorna mais pobre do cŽu do que quando fora julgado. Na verdade, nesse instante, o autor est‡, atravŽs do Palha�o, o narrador e condutor da pe�a, chamando a aten�‹o do expectador, para que este poss’vel Grilo que esteja no recinto afaste-se de uma vida de picardias.

Esses retalhos, acrescidos ˆ colcha do Auto da Compadecida, s‹o exemplos de um arquivo que se pretende m—vel, dialogando com outros tacos, conversando com o leitor.

Em cada retalho montado, um rastro estelar me chega aos olhos. Em cada imbricamento de textos, uma nova raiz fasciculada gera outras conex›es textuais, musicais, visuais, enfim, prazerosamente, abro o arquivo e retiro dele a coberta de taco do Auto da Compadecida, com ela, tantos outros ecos de tantas outras hist—rias em desprop—sitos sem fim.

 

 

5¼ retalho: a semiologia

 

Segundo Blanchot (1987, p. 12),

A obra liter‡ria Ž solit‡ria: isso n‹o significa que ela seja incomunic‡vel, que lhe falte o leitor. Mas quem a l� entra nessa afirma�‹o da solid‹o da obra, tal como aquele que a escreve pertence ao risco dessa solid‹o.

O texto liter‡rio, solit‡rio por natureza, pode aproximar-se de outras linguagens. Dentre essas, a cinematogr‡fica. Pelo olhar do cinema, a literatura ganha outros olhares, novas sensa�›es, outros pœblicos. O Auto da Compadecida Ž um dos textos do sŽculo XX mais recorridos ˆ grande tela. Pelas lentes das c‰meras, Grilo e seus companheiros recebem interpreta�›es pela caneta dos roteiristas e adquirem semblantes conhecidos em todo o pa’s e tambŽm fora dele.

A primeira adapta�‹o f’lmica, A Compadecida, foi dirigida por George Jonas e estrelada por Regina Duarte, Antonio Fagundes e Armando Bogus. ƒ a adapta�‹o mais parecida com o texto liter‡rio e seu roteiro foi escrito pelo pr—prio Suassuna, que acompanhou toda a filmagem, aprovando-a.

Mas de todas as tr�s adapta�›es, essa, de 1969, Ž a que possui o enredo mais arrastado, j‡ que h‡ uma tentativa clara de fazer teatro no cinema. Todas as a�›es da pe�a s‹o transpostas para a pel’cula, mas o time do humor no teatro n‹o segue o mesmo tempo na frente das c‰meras.

A segunda adapta�‹o, de 1987, foi dirigida por Roberto Farias. Intitulada Os Trapalh›es no Auto da Compadecida, foi protagonizada pelo quarteto de humoristas famoso na televis‹o e no cinema com seus filmes leves e de riso frouxo.

Com a inten�‹o de agradar a cr’tica, Ariano Suassuna foi convidado por Renato Arag‹o para coassinar o roteiro da adapta�‹o, que mantŽm a figura do Palha�o, como o narrador que unifica os tr�s enredos: a morte do cachorro, o gato que descome dinheiro e o Julgamento Final. Contudo, o pœblico n‹o assimilou o filme estar associado a um texto ÒsŽrioÓ. Apesar de ter sido exibido, inclusive em Portugal, foi uma das menores bilheterias dos Trapalh›es, embora tenha recebido boas cr’ticas.

O texto de Suassuna foi adaptado para a televis‹o em parte, inserido em novelas, montado para o teatro incont‡veis vezes. Tem trechos de seu texto utilizado em livros did‡ticos como exemplo de literatura dram‡tica. Sua linguagem leve Ž assimilada com facilidade pelos leitores e espectadores.

Em 2000, por meio de uma redu�‹o da microssŽrie exibida um ano antes, estreou nos cinemas brasileiros O Auto da Compadecida[105], dirigida por Guel Arraes. Protagonizada por Fernanda Montenegro, Matheus Nachtergaele, Selton Melo, Marco Nanini e outros, a pel’cula foi uma das mais vistas naquele ano.

Guel Arraes e os roteiristas Adriana Falc‹o e Jo‹o Falc‹o acrescentam ao texto de Suassuna trechos de O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, alŽm de personagens de outras pe�as do autor paraibano, como Torturas de um cora�‹o. O roteiro Ž ‡gil e prende o espectador atravŽs do riso gerado pelas astœcias de Grilo e pela covardia de Chic—.

Essa œltima adapta�‹o Ž a mais popular de todas. Embora suavize o discurso manique’sta do texto liter‡rio, mantŽm com este um di‡logo constante, respeitando as diferen�as de signos que os constituem.

Tais filmes tambŽm contribuem para formar a colcha de retalhos com suas especificidades. Cada roteiro, cada leitura do diretor, cada interpreta�‹o dos autores n‹o reduz, como muitos cr’ticos pensam, a obra liter‡ria ou por que o filme n‹o mantŽm uma pretensa fidelidade, sendo devedor da literatura. Ao contr‡rio, conversa com esta. N‹o h‡ o superior e o inferior, h‡ os diferentes, e o ser‹o sempre, como cada retalho de pano Ž um do outro. Para Robert Stam,

N—s ainda podemos falar em adapta�›es bem feitas ou mal feitas, mas desta vez orientados n‹o por no�›es rudimentares de ÒfidelidadeÓ mas sim, pela aten�‹o ˆ Òtransfer�ncia de energia criativaÓ, ou ˆs respostas dial—gicas espec’ficas, a ÒleiturasÓ e Òcr’ticasÓ e Òinterpreta�›esÓ e Òre-elabora�‹oÓ do romance original, em an‡lises que sempre levam em considera�‹o a lacuna entre meios e materiais de express‹o bem diferentes (STAM, 2006, p. 51).

Retomo agora a coberta de taco que venho cosendo diligentemente. Escolho cada retalho, os mais variados, somo-o a outros. Nessa colcha, somam-se livros, pe�as de teatro, contos, mœsicas, filmes. Nessa profus‹o de cores, escritas e sons, todos coexistem unidos entre si, sem a pretens‹o de estabelecer hierarquias.

 

 

6¼ retalho: o retalho por vir

 

Em Edward W. Said, encontro a afirma�‹o:

Longe de serem algo unit‡rio, monol’tico ou aut™nomo, as culturas, na verdade, mais adotam elementos ÒestrangeirosÓ, alteridades e diferen�as do que os excluem conscientemente (SAID, 1995, p. 46).

Todo retalho que li, seja o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, sejam O Avarento, de Moli�re, ou O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, ou ainda as Barcas de Gil Vicente, ou O dinheiro, O cavalo que defecava dinheiro, O castigo da soberba, folhetos de cordŽis, sejam A Compadecida, Os Trapalh›es no Auto da Compadecida, O Auto da Compadecida, filmes brasileiros. Sejam Derrida, Foucault, Blanchot, em tudo que leio, vejo uma manifesta�‹o cultural. O homem Ž um ser que produz cultura em tudo que faz.

Se creio nisso, abomino a ideia de cultura superior dominando as outras, mas acredito no embate cultural, numa ‰nsia constante de tomada de lugar entre os expoentes culturais.

Defendo um maior espa�o para as culturais subalternizadas, ditas populares, mas tambŽm visualizo as constantes trocas culturais. Vejo que o Eu quer estabelecer-se, mas observo que isso se d‡ em conson‰ncia com o Outro, para formar, muitas vezes o N—s, o Tu, o Eles.

A semelhan�a se d‡ por meio da diferen�a, porque cada homem Ž um ser que se conhece, outro que se d‡ a conhecer e muitos seres estranhos povoando os espa�os vazios da exist�ncia. Espa�os muitas vezes ocupados pela literatura, que Ž a materializa�‹o desses seus que vagueiam por a’ ˆ procura da plenitude do Nada.

Cresci em meio aos livros, mas a maior li�‹o que aprendi Ž que os livros Ž que est‹o dentro de mim. Eu sou uma colcha de retalhos, eu sou um homem feito de peda�os, belos tacos que, unidos, formam o que sou. N‹o me sinto formado, n‹o pretendo ser o dono da verdade, j‡ que as creio mœltiplas, e persigo-as e as uso, uma hoje, outra amanh‹. E disponho de cada retalho, e retomo meus retalhos, e me leio, ˆ procura daquilo que sou e tambŽm do que nunca virei a ser.

Estou aqui, eu, ˆ espera dos pr—ximos retalhos, dos textos de frui�‹o, das leituras de prazer. Espero fazer minhas conex›es constelat—rias, meus enxertos rizom‡ticos. Eu, assim como o menino de Manuel de Barros, levo ‡gua na peneira, molhando-me nela, sentindo-a, sentindo-me.

Encontro-me aqui, nesse instante, com um peda�o de colcha, inacabada, uma sŽrie de retalhos, agulha e linha nas m‹os.

 

 

Refer�ncias

 

BARROS, Leandro Gomes de. O cavalo que defecava dinheiro. Fortaleza: Tupynanquim, 2006.

 

_________. O dinheiro (O testamento do cachorro). Fortaleza: Tupynanquim, 2005.

 

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. 5. ed. S‹o Paulo: Perspectiva, 2010.

 

BLANCHOT, Maurice. O espa�o liter‡rio. Trad. çlvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

 

_________. O livro por vir. Trad. Leyla Perrone-MoisŽs. S‹o Paulo: Martins Fontes, 2005.

 

MOTA, Leonardo. Castigo da soberba. In: _________. Violeiros do Norte. Rio de Janeiro: Editora a Noite, 1955.

 

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, FŽlix. Mil plat™s – capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Trad. AurŽlio Guerra Neto e CŽlia Pinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995.

 

DELEUZE, Gilles, GUATTARI, FŽlix. Kafka – por uma literatura menor. Trad. Julio Guimar‹es. Rio de Janeiro: imago, 1977.

 

DERRIDA, Jacques. A farm‡cia de Plat‹o. Trad. RogŽrio da Costa. S‹o Paulo: Iluminuras, 2005.

 

_________. Mal de arquivo: uma impress‹o freudiana. Trad. Cl‡udia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumar‡, 2001.

 

GOIS, Jo‹o de Deus. Religiosidade popular. S‹o Paulo: Edi�›es Loyola, 2004.

 

KRISTEVA, Julia. Introdu�‹o ˆ seman‡lise. S‹o Paulo: Perspectiva, 1974.

 

LAZARILLO de Tormes. Madrid: Santillana/Universidad de la salamanca, 1994.

 

LIMA, Jo‹o Ferreira de. Proezas de Jo‹o Grilo. S‹o Paulo: Luzeiro, 1979.

 

MOLIéRE. O Avarento. Lisboa: Editorial Verbo, 1971.

 

STAM, Robert. Teoria e pr‡tica da adapta�‹o: da fidelidade ˆ intertextualidade. Ilha do Desterro, Florian—polis, n. 51, jul./dez. 2006, p. 19-53.

 

SAID, Edward. W. Cultura e imperialismo. Trad. Denise Bottman. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. Ed. comemorativa de 50 anos. Rio de Janeiro: Agir, 2004.

 

VASSALO, L’gia. O sert‹o medieval: origens europŽias do teatro de Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993.

 

VICENTE, Gil. Obras de Gil Vicente. Porto: Lello & Irm‹o, 1965.

 

 

[Recebido: 23 ago 2021]

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ENTREVISTA


Breve prosa com Ariano Suassuna ou A hist—ria do homem que levou os cantadores ao teatro e mostrou outros rumos para a cantoria

 

 

Brief prose with Ariano Suassuna or The story of the man who took singers to the theater and showed other directions for singing

 

 

AndrŽa Bet‰nia da Silva (Pesquisadora)

https://orcid.org/0000-0003-3316-0812

 

Ariano Suassuna (Colaborador/em mem—ria)

 

 

Ariano Suassuna, poeta, romancista e dramaturgo, segundo sua pr—pria defini�‹o, n‹o apenas era um homem do sert‹o como fez desse espa�o seu lugar escolhido como representa�‹o do povo brasileiro. Essa entrevista, realizada em sua casa, em Recife, Pernambuco, no dia 24 de maio de 2013, apenas 1 ano antes de sua partida, como parte da pesquisa desenvolvida sobre a cantoria de improviso, revela como atuava junto aos poetas populares alŽm das fronteiras do campo liter‡rio, ficcional, e em que medida (embora imensur‡vel) sua proximidade desde crian�a, ainda em Tapero‡, na Para’ba, com as pr‡ticas populares o motivou a agir como um estandarte, cuja fl‰mula atra’a aten�‹o de pœblicos t‹o distintos, ecoando pelos quatro cantos sua escrita que bebia em fontes orais.

A conversa que ora se apresenta Ž resultado do desafio de entrevistar um homem paradoxal, em v‡rios sentidos, com conhecimento t‹o vasto e tempo t‹o diminutivo para o que n‹o lhe despertava paix›es. Se tive acesso ao senhor Ariano, vi em seus olhos o menino Ariano, caminhando com seus sonhos, inquieto e inquietante desde sempre.

 

 

AndrŽa – Boa tarde. Agrade�o a disponibilidade e a gentileza para a cess‹o dessa entrevista. Fa�o um doutorado no qual pesquiso os Festivais de Violeiros e estudo a partir do pŽ de parede quais s‹o as transforma�›es que v‹o surgindo atŽ que a gente chegue nos Festivais de Violeiros. Todas as pessoas que eu entrevistei atŽ agora apontam o senhor como uma das primeiras pessoas a ter promovido um evento de violeiros no teatro, no Teatro Santa Isabel.

 

Ariano – Eu acho que uma das primeiras n‹o. Eu acho que foi a primeira [risos], n‹o Ž? Pra promover cantador assim, no teatro, eu acho que fui o primeiro.

 

AndrŽa* – Ent‹o, eu estou aqui justamente hoje para a gente conversar sobre isso.

 

Ariano – Pode ser.

 

AndrŽa – Eu queria que o senhor me falasse sobre a sua rela�‹o com a cantoria, sobre o que lhe motivou.

 

Ariano – Minha filha, para come�ar, j‡ que voc� fez refer�ncia a essa primeira mostra dos cantadores aqui, eu vou come�ar por a’. Eu tive uma surpresa porque eu j‡ conhecia a tradi�‹o do romanceiro, principalmente por causaÉ Primeiro porque como sertanejo eu vi um desafio de viola com um dos maiores cantadores que o Brasil, o Nordeste e o Brasil tiveram, que foi Ant™nio Marinho, que era um grande, um grande cantador. E ele escrevia tambŽm folhetos, era um poeta popular. E eu vi, eu vi, tive a sorte de ver aos sete ou oito anos de idade, por a’, eu vi um desafio de violeiros com Ant™nio Marinho, l‡ na minha terra, em Tapero‡, no sert‹o da Para’ba. Mas depois eu peguei l‡ na biblioteca de meu pai livros sobre cantadores. Papai, meu pai era um grande admirador da poesia popular nordestina. Ele tinha uma mem—ria muito boa, sabia de cor v‡rios, muitos versos. E por isso ele se tornou amigo de um pesquisador, hoje meio esquecido, mas que eu tenho feito tudo para restaurar, trazer nova luz sobre o trabalho dele, ele se chamava Leonardo Mota, era cearense e ele era muito amigo de meu pai. Ele dedicou um dos livros dele, Sert‹o Alegre, ele dedicou a cinco pessoas, entre as quais foi meu pai. E ele, no corpo do livro, ele cita meu pai como uma das fontes em que ele se baseava, ele diz, ele fala da mem—ria do meu pai, ele disse que o meu pai forneceu a ele muitos versos. Ent‹o, eu atravŽs dos livros de meu pai eu tinha tomado conhecimento dessa tradi�‹o do romanceiro popular do Nordeste. Depois eu vim muito menino estudar no Recife, fiquei por aqui, fui ficando, vim morar aqui aos 15 anos. Eu vim estudar aos 10, mas depois, quando estava com 15 anos, a minha fam’lia toda se mudou para c‡. Ent‹o, eu n‹o tive mais contato nenhum e eu pensava que a tradi�‹o tinha se extinguido. A’, quando foi em 1946, eu fiz uma viagem ao sert‹o do Cear‡ e l‡ tive a oportunidade de conhecer um grande cantador pernambucano, de S‹o JosŽ do Egito, chamado Dimas Batista. Ele era um dos tr�s irm‹os Batista que eram cantadores. Eram tr�s irm‹os, todos os tr�s cantadores: Lourival, que era o mais velho, Dimas e Otac’lio, que era o mais mo�o. A’ eu fiz amizade com Dimas, fiquei deslumbrado com o talento extraordin‡rio de Dimas e alŽm do mais com a pessoa, que ele era uma pessoa extraordin‡ria, acima do comum, um camarada tranquilo, calmo, gigante, alto, ele era alto e forte, com esse jeito manso de gigante manso. Ent‹o, eu me impressionei com a rapidez do improviso de Dimas, fiquei encantado. Ele cantou sozinho, n‹o cantou em dupla. Mas a’ eu, por intermŽdio dele, eu tive conhecimento desses dois irm‹os dele que existiam e outros cantadores, ele me falou de muita gente e eu fiquei impressionado. A’, nesse tempo eu era do primeiro ano na Faculdade de Direito do Recife. A’, quando eu cheguei aqui, de volta, eu pertencia ao diret—rio, a’ falei com o pessoal do diret—rio e resolvemos trazer, fazer essa cantoria no Santa Isabel. Ent‹o, eu trouxe tr�s poetas, que eram os tr�s irm‹os Batista e mais um, um poeta popular que n‹o improvisava, mas escrevia folhetos, ele se chamava Manoel de Lira Flores. Ent‹o, fizemos essa cantoria e teve uma repercuss‹o enorme no munic’pio, o Teatro Santa Isabel ficou lotado. Ent‹o, um cantador que tinha muito senso de organiza�‹o, ele se chamava Rogaciano Leite, era de S‹o JosŽ do Egito, ele a’, animado com essa cantoria que eu fiz, resolveu fazer o primeiro Congresso, o primeiro Festival de Violeiros daqui, foi dois anos depois dessa cantoria. Eu fiz essa cantoria em setembro de 1946 e Rogaciano Leite organizou o primeiro Festival no Santa Isabel, onde eu tinha feito, s— que, a princ’pio, causou uma estranheza muito grande. O diretor quase n‹o permite, t‡ entendendo? Quase n‹o permite, mas a’ depois do sucesso com a cantoria e coisa etc., abriu o caminho e a’ ainda tivemos outra sorte porque Dr. Arraes, que era um sertanejo como eu e gostava de cantoria, era Secret‡rio da Fazenda do governo aqui de Pernambuco. A’, Dr. Arraes bancou o festival, a Secretaria da Fazenda pagou as despesas e fez o I Congresso, que foi extraordin‡rio! Foi um sucesso enorme tambŽm. E ent‹o, da’ em diante, depois ele organizou o segundo, dois anos depois, eu n‹o tenho certeza, depois a’... A’ espalhou-se. Depois desse primeiro congresso, inclusive, ele, Rogaciano Leite, viajou com Dimas, Dimas e Otac’lio. Acho que Lourival n‹o foi, n‹o. N‹o tenho certeza, mas foram para o Rio de Janeiro e foram recebidos na Academia Brasileira de Letras, e Manuel Bandeira escreveu um pequeno poema sobre os dois, tanto que t‡ publicado nos livros dele hoje. Eu me lembro que ele disse: ÒSa’ de l‡ convencidoÉÓ Ent‹o, voc� v� por a’ que teve uma repercuss‹o imediata. E outra coisa, outra coisa que foi muito importante do ponto de vista do prest’gio do cantador nos meios intelectuais foi o fato curioso. N‹o sei se voc� sabe, mas na Žpoca parnasiana tinha-se o costume de eleger o pr’ncipe dos poetas brasileiros. O primeiro, se eu n‹o me engano, foi Olavo Bilac, que foi escolhido como pr’ncipe dos poetas brasileiros. Quando ele morreu, parece que se escolheu Alberto de Oliveira. Quando Alberto de Oliveira morreu, escolheram um paulista chamado Guilherme de Almeida. A’, quando Guilherme de Almeida morreu, come�ou a haver um movimento para se eleger Drummond, a’ Drummond escreveu um artigo dizendo que ele n‹o merecia, n‹o, que quem merecia era Leandro Gomes de Barros, nŽ? E isso deu uma... Ele saltou de mais de mil folhetos e disse: ÒEsse Ž um poeta do povo brasileiro mesmoÓ. A’ ele fez essa cita�‹o que eu achei muito boa.

 

AndrŽa – Quais as motiva�›es que o senhor tinha naquela Žpoca, quando participava do Movimento Estudantil, para promover esse Encontro de Cantadores? Porque atŽ ent‹o n‹o era algo frequente. AtŽ ent‹o, levar os cantadores para o teatro n‹o era poss’vel.

 

Ariano – N‹o, n‹o, isso n‹o havia, n‹o. E eu lhe n‹o contei isso, mas j‡ tenho contado a’, em outras ocasi›es, o diretor do teatro a princ’pio recusou. Ele disse para mim: ÒMas voc� quer trazer pro palco do Teatro Isabel, onde j‡ foram recitar seus versos Castro Alves, Tobias Barreto, onde Joaquim Nabuco fez seu discurso, voc� quer trazer cantador de viola? A’ eu disse: ÒDoutor, eu gostaria de ouvir a opini‹o, eu n‹o digo de Joaquim Nabuco, eu n‹o sei, n‹o [riso]. Mas Castro Alves e Tobias Barreto, eu tenho certeza de que eles iriam gostarÓ, est‡ certo? A’, ele fez assimÉ porque metade da renda ia ser dada aos cantadores e a outra metade ia ser dada ao abrigo dos cegos que tinha aqui. Ele ent‹o disse: ÒEu vou ressalvar a minha responsabilidadeÓ. Veja como era considerado um ato nocivo, vergonhoso, ele ia se envergonhar. A’, ele botou assim: ÒDeferido, tendo em vista a destina�‹o filantr—pica de metade da rendaÓ. Quer dizer, ele achou que podia sem se manchar, ele podia deferir, mas por causa da destina�‹o filantr—pica do abrigo dos cegos.

 

AndrŽa – Influenciou o fato de seu pai, h‡ muitos anos, ter levado os cantadores para o Pal‡cio do Governo da Para’ba?

 

Ariano – Sim, sim, eu tinha conhecimento desse fato, nŽ? E foi uma das coisas que me abriu o caminho.

 

AndrŽa – Mas eu fico imaginando se naquela Žpoca havia uma proximidade entre os estudantes da universidade e a cultura popular.

 

Ariano – Sim.

 

AndrŽa – O senhor se lembra quais eram os objetivos daquele per’odo?

 

Ariano – Olha, isso a’, o que eu posso dizer, inclusive sem vangloria, porque n‹o fui eu, para mim n‹o era assim, n‹o. Isso, isso para mim foi decorrente do trabalho de Herm’nio Borba Filho, que era o diretor do Teatro de Estudantes. Ele era mais velho do que n—s, ele era dez anos mais velho do que eu, Herm’nio. Entrou na faculdade de Direito para a gente organizar, reorganizar o Teatro do Estudante de Pernambuco. Pois bem, Herm’nio, eu digo sempre, voc� veja, essa diferen�a de dez anos hoje n‹o Ž nada porque um homem de 80 anos e um homem de 70, eles conversam de igual para igual. Mas no tempo eu tinha 18 anos e ele tinha 28, era uma diferen�a enorme, est‡ entendendo? Ele j‡ era casado, j‡ tinha um emprego, j‡ tinha uma estrada longa e tinha uma bela biblioteca em casa e ele era um grande leitor. Era um grande leitor e era hermen�utico, quer dizer, foi a primeira pessoa que eu encontrei assim, um escritor, um autor, um diretor de teatro que eu encontrei que dava ˆ literatura popular uma import‰ncia muito grande, ˆ cultura popular, ˆ poesia popular, uma import‰ncia muito grande, e ele, por sua vez, j‡ se mirava no exemplo de Garcia Lorca, n‹o Ž? Que era um alt’ssimo poeta, como voc� sabe.

 

AndrŽa – Claro!

 

Ariano – E ele era muito interessado em teatro. Organizou um teatro ambulante, l‡ na Espanha, tanto que a gente organizou um tambŽm, seguindo o exemplo de Lorca e a gente colocou o mesmo nome, o nome do grupo dele era La Barraca, porque ele andava com uma barraca ambulante. Ent‹o, a gente conseguiu uma barraca aqui, fizemos o grupo com o nome de A Barraca em homenagem a ele. Estreamos no dia do anivers‡rio da morte dele, do Lorca, nŽ? Para protestar contra a morte dele, j‡ era tarde, mas protestamos e para prestar uma homenagem de gratid‹o a ele por essa inspira�‹o que ele tinha nos dado. E voc� sabe que Lorca tem um livro de poemas chamado Romanceiro Cigano, quer dizer, onde ele fez com o Romanceiro Cigano o mesmo que a gente pretendia fazer aqui com o Romanceiro Popular, est‡ certo?

 

AndrŽa – Que interessante!

 

Ariano – Ent‹o, foi nesse exemplo que n—s nos baseamos e que n—s come�amos essa jornada. Termino como comandante e alguma saudade.

 

AndrŽa – E, a partir disso, o senhor vai influenciando algumas pessoas.

 

Ariano – ƒ sim.

 

AndrŽa – Conversei com o Br‡ulio Tavares e ele disse que s— passou de fato a valorizar a cultura popular quando ele teve acesso ˆs suas obras.

 

Ariano – ƒ. Ele tem dito isso em outras ocasi›es e eu acho muito engra�ado. Eu n‹o sei se lhe mostrei isso, Samarone[106]. Ele disse que aos 18 anos, ele foi para...

 

AndrŽa – Para Belo Horizonte.

 

Ariano – Para Belo Horizonte estudar Cinema, n‹o Ž?

 

AndrŽa – Isso.

 

Ariano – No in’cio, ele n‹o ligava pra nada. Depois, a’ ele s— ligava pro cinema de Godard, essas coisas. Bom, a’ ele disse que ficava chateado de ter nascido em Campina Grande. Ele diz: ÒMas, meu Deus, com tanto lugar interessante [riso] para eu nascerÓ, ele disse ÒTinha tanto lugar interessante para eu nascer, eu fui nascer em Campina GrandeÓ. Ele dizia que olhava jumento na feira ou um matuto com chapŽu de couro, carregadores carregando um balaio de ovos l‡, a’ ele a’ disse que foi quando ele leu A Pedra do Reino e disse que era o pai dele que estava aqui no Recife come�ou a escrever para ele: ÒOlha que coisa interessanteÓ!

 

AndrŽa – Isso mesmo que ele conta!

 

Ariano – A’ come�ou a mandar entrevistas minhas e outras coisas, a’ ele disse que comprou o romance dÕA Pedra do Reino, a’ ele disse: ÒQuando eu comprei, que abri, eu voltei para a Para’baÓ e ele disse: ÒEu descobri, por causa dÕA Pedra do Reino que a Para’ba era a GrŽcia antigaÓ, eu achei —timo! Que a Para’ba, ela tinha tudo, tinha uma mitologia, tinha tudo aquilo l‡. Foi uma das declara�›es que me deixaram mais orgulhoso, foi essa de Br‡ulio.

 

AndrŽa – E ele fala isso extremamente emocionado, nŽ?

 

Ariano – ƒ.

 

AndrŽa – Ele diz ÒA obra de Ariano foi a obra que mudou a minha vida. AtŽ ent‹o, ser nordestino para mim era um peso. Eu fugia disso. E por isso eu procurava Cinema, eu procurava as influ�ncias que eram estrangeiras e negava tudo que tinhaÓ. E a’, a partir disso, ele come�a a se envolver tambŽm com os Festivais de Violeiros de Campina Grande. E ele come�a a fazer um trabalho muito parecido com o seu, inclusive. O Movimento Estudantil de l‡ da Žpoca se aproxima, os cantadores convocam os estudantes e eles come�am a organizar.

 

Ariano – Muito bom.

 

AndrŽa – Ent‹o, de 1974 atŽ 1980, mais ou menos, eles ficam ˆ frente juntamente com os cantadores. S— que tem uma entrevista com JosŽ Alves Sobrinho.

 

Ariano – Sim.

 

AndrŽa – Tem uma entrevista com ele, nos anos 80, na qual ele aponta o seu evento de 1946, mas a’ ele diz que Rogaciano teria feito um Congresso em 1946, em Fortaleza.

 

Ariano – Ah, eu n‹o sei. N‹o sabia.

 

AndrŽa – E depois ele teria feito um aqui.

 

Ariano – Ah, n‹o sabia, n‹o. N‹o sabia, n‹o. Eu s— tomei conhecimento de Rogaciano em 1948.

 

AndrŽa – Do daqui, n‹o Ž?

 

Ariano – ƒ. Ele trouxe, inclusive, uma coisa que me comoveu muito. Ele trouxe o Cego Aderaldo e eu conheci o Cego Aderaldo pessoalmente, que para mim era uma figura m’tica, n‹o Ž? A’, eu estive no Cear‡ agora, h‡ pouco tempo, n—s estamos fazendo um document‡rio nos estados do Nordeste, promovido pelo SESC e eu comprei essa hist—ria que, inclusive, o cego Aderaldo, alŽm do grande cantador que era, o Cego Aderaldo, ele era o que eu sonhei ser, est‡ entendendo? Ele era o dono, ele tinha um circo. Tinha um circo e ele, alŽm de cantador, ele era um ator, ele tinha o dom’nio do palco que eu nunca vi uma coisa daquela. E ele cantava uma mœsica tocando viola ou viol‹o, eu n‹o lembro bem porque ele tocava viola, viol‹o e rabeca. A’, chamava-se A gargalhada. A’, ele cantava uma quadra, e a’ ele, no ritmo do acompanhamento do bai‹o com o qual ele acompanhava cada quadra, ele come�ava a rir, uma risada propositadamente artificial, est‡ entendendo? E, pois bem, n‹o dava vinte segundos, ninguŽm no teatro se aguentava, todo mundo estava rindo com ele. Era uma coisa extraordin‡ria! Ele dizia assim [canta] ÒMinha comadre borboleta/ Meu compadre gafanhoto/ Venha ver compadre grilo/ T‡ dando com os pŽs nos outros. Vai-te embora Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o, vai-te embora Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o, vai-te embora Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o, vai-te embora, vaiÓ. E ele, a’, dava uma gargalhada ÒHahaha!Ó, mas, olhe, era engra�ad’ssimo isso. Ele tinha uma garganta forte, n‹o tinha essa besteira com ele, n‹o. Muito bom! E eu tive a alegria de conhecer o Cego Aderaldo apresentado por Rogaciano Leite.

 

AndrŽa – Nesse evento que aconteceu no Santa Isabel havia uma disputa entre os cantadores ou eles eram apenas convidados?

 

Ariano – N‹o, n‹o. Eu n‹o gosto muito disso n‹o, est‡ entendendo?

 

AndrŽa – Sim.

 

Ariano – Eu gosto mais de ver cantoria, ent‹o, eu n‹o fiz... Num Congresso que se faz isso, cada dupla tem que ser assim, porque tem que mostrar muito, cada dupla tem tantos minutos. Todo mundo que j‡ ouviu uma cantoria sabe, a cantoria tem altos e baixos. Vai esquentando e a fraca aproveita incidentes, o que Ž uma coisa muito boa. Severino Pinto, por exemplo, tava cantando um dia e ele disse: ÒEu sou Severino Pinto/ Grande cantador do espa�oÓ, na hora em que ele disse isso, o galo cantou [riso] no poleiro da fazenda. E ele disse ÒMeu galo, n‹o cante agora/ Me deixe eu cantar sossegado/ Que o pai que arremeda o filho/ ƒ muito mal-educadoÓ [risos]. Como o nome dele era Pinto, n‹o Ž? A’, quer dizer, ent‹o, a cantoria tem isso. E se voc� estabelece um hor‡rio, voc� pode pegar 20, 10 minutos de cantoria ruim. Por acaso os nossos cantadores n‹o estavam muito bem e pode ser um grande cantador e se sair mal, compreendeu? Ent‹o, eu n‹o fiz isso, n‹o, eu fiz uma cantoria. L‡ o cantador cantava ˆ vontade, est‡ entendendo? O cantador cantava ˆ vontade e eram tr�s irm‹os, ent‹o, n‹o tinha isso, n‹o. E todos os dois, Dimas e Otac’lio, tinham uma admira�‹o muito grande pelo Lourival, que era o mais velho, eles consideravam Lourival o maior. Eu, pessoalmente, gostava mais do Dimas, eu achava Dimas... Lourival tinha um improviso bom, extraordin‡rio, mas o Dimas era um cantador mais seguro e eu achava mais igual, t‡ me entendendo? E ele era mais, n‹o sei, mais profundo, talvez, do que Lourival. Pois bem, ent‹o, eles cantaram. Agora, inclusive teve uma coisa muito interessante porque Ž aquilo que eu digo do aproveitamento do momento. Porque apareceram tr�s ou quatro estudantes paulistas l‡, e eu n‹o sei se eles ficaram se sentindo diminu’dos pelo sucesso que os cantadores estavam fazendo l‡ e eles tinham bebido tambŽm e resolveram entrar no palco para fazer isso que hoje se chamaria uma performance.

 

AndrŽa – Nossa!

 

Ariano – Est‡ entendendo?

 

AndrŽa – Sim.

 

Ariano – Ent‹o, a’ entraram os dois no palco. E eu n‹o sei se voc� j‡ viu essa porcaria, eu j‡ vi mais de uma vez. Aconteceu o seguinte: entrava um assim, em pŽ, e ficava em pŽ assim, com as m‹os no bolso, est‡ entendendo? O outro vinha por tr‡s, abra�ava ele assim, passava os bra�os aqui por baixo assim, ent‹o, ficava ele pra frente e os bra�os do que estava atr‡s. E a gra�a era a gesticula�‹o n‹o ter nada a ver com o que a boca estava dizendo. Bom, quando eles terminaram l‡, a’ a plateia ficou assim meio fria, mas aplaudiu assim educadamente e friamente. Isso a’ foi que eles n‹o sabiam com quem tavam mexendo. Lourival, que era o sujeito mais sem vergonha do mundo, a’ eles come�aram a cantar um estilo que chamam Gemedeira porque entre o sexto e o sŽtimo verso a pessoa faz Òai, ai, ui, uiÓ ou ent‹o, Òai, ai meu DeusÓ. Pois bem, a’ ele fez um verso, atŽ achei que estava numa posi�‹o meio estranha, a’ disse... Eles cantaram v‡rios, eu me lembro dessa Sextilha em que ele disse assim... Sim, porque teve um momento em que os estudantes l‡ viram que n‹o estava fazendo sucesso e eles resolveram apelar, a’ deram uma banana assim, deram uma banana para o pœblico. O pœblico a’ ficou acanhado. Ent‹o, Lourival disse assim: ÒO de tr‡s dava banana/ O da frente discursava/ Quanto mais um se enxeria/ Mais o outro se encostava/Atr‡s ainda tinha um jeito/Ai, ai, meu Deus/ Na frente Ž que eu n‹o ficavaÓ [risos]. Rapaz, foi umÉO teatro quase veio abaixo na hora. Quer dizer, esse era um momento que, esse era um grande momento da cantoria, nŽ? Quando aproveita-se o que aconteceu ali e a’ o pessoal v� que Ž improvisado mesmo.

 

AndrŽa – Claro! Muitos cantadores t�m apontado a presen�a do balaio, que o senhor deve conhecer.

 

Ariano – Hein?

 

AndrŽa – O senhor conhece o balaio? A estrutura que os cantadores levam escrita, que n‹o Ž improvisada, Ž decorada, e apresentam como se fosse cantoria?

 

Ariano – Sim, sim, sim. N‹o sabia que chamava-se balaio, n‹o.

 

AndrŽa – ƒ, eles chamam de balaio. E os cantadores t�m apontado isso como possibilidade de enfraquecimento da cantoria porque iria para um Festival ou para um pŽ de parede sem o improviso, que Ž o que caracteriza esse tipo de produ�‹o. Ent‹o, ˆ medida que o balaio vai sendo introduzido, voc� vai colocando uma produ�‹o escrita no lugar de uma produ�‹o oral.

 

Ariano – No da improvisa�‹o, n‹o Ž?

 

AndrŽa – ƒ. Isso de fato tem mudado muito. Eu tenho visto que a cantoria tem mudado muito de uns tempos para c‡, tanto no formato quanto na performance.

 

Ariano – Eu n‹o vou, eu n‹o vou a congresso de cantadores, n‹o, que eu n‹o gosto. Eu n‹o gosto. Inclusive por isso, pelo artificialismo e depois tem outra coisa que eles fazem que eu tenho horror, Ž uma tal de uma Poesia Matuta, compreende? Que n‹o era uma tradi�‹o do cantador nem da poesia popular. Pelo contr‡rio. Isso foi introdu�‹o de poeta de classe mŽdia queÉ Olha, eu acho isso uma falta de respeito ao povo, est‡ entendendo? Voc� repare bem. Em primeiro lugar, a linguagem, e eu estou falando aqui de teatro de modo geral. A linguagem escrita n‹o corresponde ˆ linguagem falada, Ž outra coisa, est‡ certo? Nem a pronœncia. A linguagem escrita tem muita coisa de conven�‹o, n‹o Ž?

 

AndrŽa – Sim.

 

Ariano – Tem muita coisa que Ž conven�‹o. Pois bem, se eu entrar com um personagem de uma pe�a de teatro, eu digo, eu pronuncio como todo nordestino, eu n‹o digo ÒN—sÓ. Eu digo ÒN—isÓ, n‹o Ž verdade? Pois bem, se ele me bota como personagem apesar de eu dizer ÒN—isÓ, eles colocam l‡ ÒN-—-sÓ e acento. E quando Ž um homem do povo eles querem botar ÒN-o-i-sÓ com acento, ÒN—isÓ, ÒN—is vaiÓ, entendeu? Isso Ž uma falta de respeito, uma discrimina�‹o contra o povo, porque eu n‹o conhe�o ninguŽm no Nordeste que diga ÒN—sÓ a n‹o ser padre e pastor protestante [risos]. N‹o Ž? Padre e pastor protestante dizem ÒJesus na cruz cercado de luzÓ [risos]. N‹o Ž? Mas gente normal, n‹o. N‹o Ž? Diz ÒJesuis na cruiz cercado de luizÓ. Mas quando Ž um homem do povo eles botam o ÒiÓ, est‡ entendendo? Pois bem, na poesia matuta que eles fazem assim. Aqui tem um rapaz talentoso, muito talentoso, mas eu n‹o gosto do que ele faz. Eu t™ dizendo isso porque ele sabe, ele atŽ j‡ declarou isso. Ele se chama Jessier Quirino. Eu n‹o gosto, n‹o. Pois bem, nos congressos de cantadores deram para botar essa tal Òpoesia matutaÓ. Quem inventou isso foi um pernicioso, um maranhense pernicioso chamado Catulo da Paix‹o Cearense. Apesar de se chamar Catulo da Paix‹o Cearense, ele era maranhense [risos]. Pois bem, esse camarada foi quem inventou isso. Agora voc� veja, n—s t’nhamos aqui um grande poeta popular, Idelette[107] deve conhecer, n‹o Ž? Ele Ž paraibano como eu e mora em Pernambuco como eu. Ele se chama JosŽ Costa Leite. Pois bem, ele Ž um grande poeta e um grande gravador. Ele faz as gravuras dos pr—prios folhetos, Ž ele que faz. Pois bem, JosŽ Costa Leite, ele fez um folheto baseado em um poema de Catulo da Paix‹o Cearense. E ele corrigiu os erros todinhos de Catulo. Que li�‹o, n‹o Ž? Est‡ vendo? O poeta popular de verdade, ele escreve da maneira que ele acha mais correta, n‹o pode sair melhor a coisa porque ele n‹o sabe, mas procurar deliberadamente o erro...

 

AndrŽa – ƒ. O que a gente acaba aprendendo Ž que a oralidade Ž feia, n‹o Ž?

 

Ariano – ƒ.

 

AndrŽa – E que a escrita Ž que Ž bonita porque Ž polida, Ž recortada.

 

Ariano – ƒ, Ž, exatamente. Agora o que Ž pior Ž deturpar a escrita partindo de uma falsa interpreta�‹o da linguagem falada. Quando eu encenei o Auto da Compadecida, eu chamava aten�‹o para isso, procure um erro de Portugu�s e n‹o tem. Eu acho que Ž errado a pessoa mudar a letra da linguagem popular. A pessoa tem que atingir o esp’rito, mas tambŽm de uma forma que aquilo ali se esconda e ninguŽm note, que ninguŽm saiba.

 

AndrŽa – Compreendo. Naquela Žpoca, no teatro, qual era o pœblico que foi ver essa cantoria? O senhor lembra?

 

Ariano – N‹o, n‹o sei, n‹o. Porque inclusive eu pedi, como eu disse, a ajuda do diret—rio e fizemos. N—s combinamos isso e fizemos com entrada paga, que era pra dar pros cantadores. Mas n—s mesmos, os estudantes, sa’mos vendendo. Eu me lembro bem, vendi para toda gente da minha fam’lia, a’ era o normal, mas vendi para os vizinhos todos, compraram e foi muita gente de v‡rios tipos. Agora tinha muito estudante.

 

AndrŽa – Nessa Žpoca, os cantadores cantavam muito com a bandeja, n‹o Ž?

 

Ariano – ƒ. N‹o. A cantoria normal era com a bandeja.

 

AndrŽa – O pŽ de parede?

 

Ariano – ƒ. L‡ n‹o. L‡ n‹o foi, n‹o. Porque fizemos com entrada paga na bilheteria do teatro mesmo. E encheu o teatro, encheu literalmente. Sobrou gente. Foi muito bom!

 

AndrŽa – A partir disso, o senhor continuou tendo iniciativas deste tipo?

 

Ariano – N‹o. Eu fiz isso por entusiasmo, est‡ certo? Mas quando apareceu Rogaciano, eu fiquei muito aliviado e eu disse: ÒVoc� agora v‡ em frenteÓ. E eu n‹o organizei mais, n‹o.

 

AndrŽa – Mas o senhor se d‡ conta de como isso foi importante para mudan�as dentro do sistema da cantoria?

 

Ariano – Hoje estou mais ou menos consciente, na Žpoca n‹o tive medida, n‹o. Eu fiquei muito feliz de ver aquele povo que foi naquele dia gostar, comprar entrada e aplaudir os cantadores.

 

AndrŽa – Mas foi realmente uma atitude muito desafiadora.

 

Ariano – Foi.

 

AndrŽa – Tirar os cantadores do lugar onde eles costumavam se apresentar e mudar para um lugar de elite, que era o teatro.

 

Ariano – Foi. Mas sempre sou assim. Ainda hoje, n‹o sou mais aquele estudante, n‹o, mas eu ainda hoje tomo essa decis‹o. Olha, essa decis‹o, que eu tive de sair com o meu circo, que eu fundei um circo, ligado ˆ secretaria, sa’ pelo sert‹o. Foi uma decis‹o corajosa, na verdade, porque eu n‹o sabia. Primeiro diziam que o jovem n‹o ia me ligar por estar viciado pela cultura de massas. E eu queria que voc� visse como Ž, Ž assim de gente.

 

AndrŽa – Eu vi sua apresenta�‹o em Vit—ria da Conquista.

 

Ariano – Ah, voc� viu.

 

AndrŽa – Eu vi o entusiasmo dos meninos.

 

Ariano – ƒ sempre assim.

 

AndrŽa – Sempre lotado.

 

Ariano – E isso foi uma decis‹o desafiadora do mesmo jeito que foi a do Festival em 1946.

 

AndrŽa – Como Ž que essa cantoria tem influenciado diretamente a sua obra? Eu n‹o digo a cantoria em si, mas esses elementos da cultura popular.

 

Ariano – Olha, voc� veja, por exemplo, eu uso, ainda hoje, eu tenho grande admira�‹o pelo ritmo do Martelo agalopado. Ainda hoje eu uso. Eu escrevi a’ por 1900 e quanto? N‹o sei. 1958 ou 1960, eu escrevi um Martelo agalopado em homenagem a Cam›es, est‡ certo? Em homenagem a Cam›es. E ent‹o, eu uso, eu sou poeta, alŽm de romancista e dramaturgo, eu sou poeta e como poeta eu uso muito, eu uso Soneto, que Ž uma forma italianizante, mas que foi introduzida na literatura de l’ngua portuguesa por Cam›es, nŽ? Ele tinha grande admira�‹o por Petrarca. Ent‹o, na minha poesia mais l’rica, eu uso o Soneto. Mas eu gosto muito da forma fixa, coisa que depois da Semana de Arte Moderna Ž considerado arcaico, mas eu gosto muito, est‡ certo? Eu gosto muito. Eu gosto muito do verso musical, nisso sou o oposto de meu amigo e grande poeta, que era Jo‹o Cabral de Mello Neto. Ele tinha horror ˆ musicalidade na poesia. E eu, eu s— gosto de poesia musical. Quer dizer, tenho grande admira�‹o por Lorca, e Lorca era um poeta de uma musicalidade, inclusive tocava piano e compunha, n‹o Ž? Era amigo do maior compositor espanhol do sŽculo XX, que foi Leonel de Faglia, ele era amic’ssimo, os dois fizeram juntos o trabalho de pesquisa do Cancioneiro Espanhol, n‹o Ž? Pois bem, e eu ent‹o, pegueiÉ Veja bem, eu acho a forma, a forma Žpica, o g�nero Žpico da poesia. Isso na poesia de l’ngua portuguesa no sŽculo de Cam›es Ž a oitava, que ele herdou da poesia italiana tambŽm, Cam›es. Ent‹o, voc� v� aquela forma usada nÕOs Lus’adas era a oitava. Eu acho o Martelo, como ritmo, como g�nero e como forma muito mais bonito do que a oitava, est‡ certo? ƒ bonito. E eu uma vez, eu peguei os versos de Dante e traduzi. Em vez de usar o terceto, a Divina ComŽdia Ž escrita em tercetos. Eu, em vez de usar o terceto, eu peguei mais de um terceto e juntei e fiz um Martelo. No meu entender, ficou mais bonito [riso]. N‹o Ž que eu seja melhor poeta do que Dante, n‹o, Ž que o ritmo do Martelo Ž mais bonito. E ent‹o, eu passeiÉ Ainda hoje eu uso. Eu sustento sempre queÉ Olha, para mim tem uma coisa que o pessoal diz que eu sou arcaico e diz que o sert‹o Ž uma coisa localizada e eu sou um localista. E sou. Agora, acontece que eu acho que, aquilo que Paulo diz, eu acho que o ser humano Ž o mesmo aqui, na China, nos idos do sŽculo XIII, ou agora, ou no futuro. Outro dia um camarada me disse: ÒArianoÓ disse ele, disse a’, por a’: ÒAriano precisa tomar conhecimento do fato de que o homem sertanejo n‹o anda mais a cavalo, n‹o. Anda de motoÓ. A’, eu disse: ÒE ele precisa tomar conhecimento de que ande de moto ou ande a cavalo Ž o mesmoÓ. Me diga uma coisa, o homem que anda de moto sofre? Sofre. Tem ciœme? Tem. Se apaixona? Se apaixona. Ele Ž o mesmo homem. O fato de andar de moto ou a cavalo n‹o interessa, n‹o. Isso Ž somente um ve’culo de se andar, nŽ?

 

AndrŽa – Inclusive, o vaqueiro tem feito o aboio hoje com moto, n‹o usa mais o cavalo em todos os lugares, mas ele continua fazendo o aboio.

 

Ariano – Ele continua fazendo o aboio e continua sendo o mesmo ser humano. Se eu pinto o vaqueiroÉ Pois bem, baseado nisso, eu acho que o Brasil Ž o sert‹o do mundo, t‡ certo? O nordeste Ž o sert‹o do Brasil e o sert‹o Ž o osso do Nordeste. T‡ certo? Ent‹o, eu fiz um... Eu vou dizer para voc� ouvir o ritmo do Martelo. Vou ver se eu sei decorado, se eu digo decorado: ÒO Galope sem freio dos cavalos/ Os punhais reluzentes do canga�o/ As primas e bord›es no seu transpasso/ O pipoco do rifle e seus estralos/ O sino com seus toques de badalo/ E as on�as com seus olhos amarelos/ O lajedo que Ž trono e que Ž castelo/ O ressono do mundo ŽÉ/ O vento sai, o sol e a madrugada/ E eu tiro no galope do MarteloÓ. T‡ vendo? N‹o Ž um ritmo bonito?

 

AndrŽa – ƒ sim.

 

Ariano – Eu acho. E um ritmo Žpico.

 

AndrŽa – Os cantadores dizem que o Martelo agalopado Ž o vestibular do cantador.

 

Ariano – E Ž.

 

AndrŽa – Que Ž o g�nero mais dif’cil.

 

Ariano – ƒ mais do que isso, Ž o doutorado.

 

AndrŽa – ƒ um doutorado [risos]. ƒ verdade.

 

Ariano – [risos]

 

AndrŽa – J‡ estamos terminando, eu queria aproveitar para lhe agradecer e falar da import‰ncia da sua contribui�‹o para o meu trabalho e para os estudos sobre cultura popular. E s— para finalizar: o senhor possui material dessa Žpoca? Alguma fotografia, qualquer coisa que remeta a esse per’odo que eu poderia ver?

 

Ariano – Eu n‹o tenho, n‹o. Agora, um jornal aqui chamado Jornal Pequeno, voc� pode encontrar na biblioteca, eu levei os cantadores, porque eu queria fazer propaganda da cantoria. Ent‹o, uns dois dias antes ou um antes, eu n‹o me lembro bem, eu acho que foi uns dois dias antes, eu n‹o me lembro bem, eu levei os cantadores ao Jornal Pequeno na reda�‹o e eles tiraram fotografia dos cantadores e deram not’cia da cantoria. E tem palavras minhas l‡, n‹o me lembro se tem...

 

AndrŽa – Muit’ssimo obrigada!

 

Ariano – Certo. Obrigado. Eu fico muito contente tambŽm.

 

 

[Recebida 21 dez 2021]

 



[1] Doutor em Educa�‹o, Ator, Licenciado em Teatro. E-mail: vagnervarg@gmail.com

[2] Ao longo deste texto, as palavras outro(s), outra(s), em alguns momentos, ser‹o utilizadas em it‡lico com o intuito de ressaltar uma �nfase a algum aspecto diferenciado e amplo sobre o que se est‡ abordando na discuss‹o em determinado momento do texto. Esse recurso tambŽm Ž utilizado para ressaltar que estas palavras n‹o ser‹o utilizadas somente como pronomes indefinidos. Quando forem indicadas em it‡lico, estas palavras representar‹o um convite a quem l� este texto para refletir sobre possibilidades distintas das atŽ ent‹o desenvolvidas sobre o aspecto exposto naquele momento da discuss‹o desse artigo. O emprego deste recurso em it‡lico a essas palavras tambŽm foi feito com o intuito de que quem esteja a ler este artigo, as considere em it‡lico como um tipo de provoca�‹o ˆ reflex‹o desapegada das maneiras habituais como se depara com a leitura de um texto.

[3] Como a discuss‹o deste artigo se dar‡ a partir da pesquisa realizada por um ator, apenas por uma quest‹o de simplifica�‹o de escrita, ao longo deste texto, quando forem mencionadas quest›es que possam ser extrapoladas e relacionadas ˆs(aos) profissionais das artes performativas, ser‹o referidos os termos ÒatorÓ ou ÒatoresÓ. Entretanto, as discuss›es aqui propostas n‹o se limitam somente a designa�›es de g�nero para profissionais desta ‡rea que se identifiquem com o g�nero masculino. Sempre que for indicado ÒatorÓ ou ÒatoresÓ, o texto tambŽm estar‡ fluindo as reflex›es para o g�nero feminino, n‹o-bin‡rie, etc. Neste sentido, convido a quem leia este texto que o fa�a substituindo as terminologias relacionadas a g�nero para maneira como melhor se identificar.

[4] Este outro modus ser‡ explicado adiante neste texto, quando forem mencionados os procedimentos relacionados ao Experimento PoŽtico-Teatral, realizado por Vargas (2018).

[5] Sempre que o termo ÒcorporeidadeÓ for referido neste texto, ele estar‡ em acordo com as premissas defendidas no trabalho de Vargas (2018), dentre as quais, de maneira geral, se pode dizer que a corporeidade evoca um modus particular em se relacionar com suas percep�›es sinestŽsicas, estando atento aos processos significativos advindos ao longo deste processo no qual o corpo se apresenta com o campo emp’rico catalisador de reflex›es em por vir.

[6] VARGAS, Vagner. Demonstra�‹o tŽcnica da partitura corporal-vocal, referente ao experimento poŽtico-teatral, baseado no texto Prometeu Acorrentado, de ƒsquilo, j‡ com a organiza�‹o dos arquŽtipos vocais associados aos ressonadores corporais. Dispon’vel em: <https://youtu.be/dWLD-mCpBB4>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[7] VARGAS, Vagner. A subida ao penedo. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: < https://youtu.be/GAaEOquU_Kc>. Acesso em:15 jun. 2020.

[8] Quando me referir neste texto ao termo ÒsinestesiaÓ e suas variantes, estarei concebendo-o de acordo com o que Vargas (2018, p. 151) refere ao dizer que sinestesia Òcompreende um conjunto geral de percep�›es e sensa�›es interligadas por todos processos sensoriais. [...] oportunizando uma vis‹o mais ampla ao leitor sobre como o sistema sensorial/afetivo/emocional/volitivo influi no processo de significa�‹oÓ.

[9] Segundo Arist—teles (2007, p. 35-36), ÒA melopeia ou composi�‹o Ž a parte da arte musical que, entre os gregos, referia-se ˆ composi�‹o mel—dica. Esta parte, pela falta de documentos, Ž a que menos conhecemos; nela a mœsica estava subordinada ˆ poesia. A melodia Ž uma sequ�ncia de sons musicais dispostos por ordem tal que logram criar um sentido satisfat—rio ao ouvido e ao esp’ritoÓ.

[10]VARGAS, Vagner. Preso ˆs correntes. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: <https://youtu.be/crDbkXcmQh0>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[11] VARGAS, Vagner. Lamento. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/CkEyIZedQR4>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[12]VARGAS, Vagner. Revolta contra Zeus. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: <https://youtu.be/3yXJm372J7s>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[13]VARGAS, Vagner. Medo do tŽrmino da noite. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/B7lmnbh4z6k>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[14]VARGAS, Vagner. Chegada do corvo. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/tGQl66EacuY>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[15] Doutor em Comunica�‹o e Informa�‹o pela UFRGS, mestre em Jornalismo pela UFSC. Pesquisador de p—s-doutorado da UNEB. Contato: andriolli_costa@hotmail.com.

 

[16] Cidade da regi‹o metropolitana de S‹o Paulo de onde veio o barro.

[17] Quem sugere a etimologia a Lobato Ž Manequinho Lopes, possivelmente influencia por O Tupi na Geografia Nacional, de Theodoro Sampaio, cuja segunda edi�‹o foi lan�ada em 1914.

[18] Conforme a tradi�‹o portuguesa, o arcanjo apareceu para Nossa Senhora ˆs 18h. Por isso sempre nesse hor‡rio o sino soava e os trabalhos eram interrompidos.

[19] Universidade Estadual Paulista ÒJœlio de Mesquita FilhoÓ – UNESP

[20] Diferentemente da vis‹o can™nica do termo e da maneira como concebemos o pl‡gio atualmente, a autoria dentro do Cordel Ž enxergada de uma maneira intrinsicamente diversa, ao menos no come�o do sŽculo XX. Em um contexto em que a repeti�‹o de hist—rias tradicionais era algo n‹o apenas natural, como tambŽm desejado pelo pœblico leitor/ouvinte, cabia aos poetas e editores revisitarem essas narrativas. Impondo-lhes, por vezes, pequenas modifica�›es. Podemos concluir que Ž um conceito muito mais flex’vel na literatura popular do que nos romances, por exemplo, em que uma atitude como essa poderia gerar disputas judiciais.

[21] Pensar a originalidade tambŽm envolve a quest‹o de revisita�‹o de textos antigos, portanto a verdadeira originalidade no contexto do cordel estaria em conseguir produzir uma obra com linguagem pr—xima a de seus leitores/ouvintes e da realidade em que viviam. Dessa forma, seria poss’vel que o pœblico se identificasse com suas cria�›es e se sentisse parte de suas narrativas (cf. OLIVEIRA, 2017, p. 52).

[22] Seria o personagem arquet’pico Pedro Malasartes, que pode tambŽm figurar no Cordel sob outras alcunhas. A sua arma secreta Ž o ÒquengoÓ, a intelig�ncia, e aparece denominado como ÒamarelinhoÓ, por causa do Òf’sico disforme e comprometido pelo ancil—stomo, pela s’filis e pela defici�ncia alimentar do trabalhador das usinas e das planta�›esÓ (MARQUES, 2014, p. 248).

[23] Nascido em Pombal-PB. Viveu a maior parte de sua vida morando em Recife, cidade em que se fixou e iniciou a sua produ�‹o de cordŽis. Barros conseguiu o feito de viver exclusivamente da venda de seus cordŽis, o que justifica tambŽm a sua vast’ssima produ�‹o. Suas obras permanecem no imagin‡rio coletivo nordestino atŽ os dias de hoje (OLIVEIRA, 2017).

[24] Apesar de o folheto ser referenciado como de autoria de Jo‹o Martins de Ata’de, a Bibliografia PrŽvia de Sebasti‹o Nunes Batista considera Leandro Gomes de Barros o autor do poema. Essa mudan�a de autoria ocorreu a partir do momento em que Ata’de comprou todo o esp—lio de Barros, a partir de ent‹o Ata’de passa a assinar os folhetos do autor como se fossem de sua autoria.

[25] Professor doutor e pesquisador da Universidade Federal de Goi‡s – UFG.

[26] Mestra em Estudos lingu’sticos pela Universidade Federal de Goi‡s – UFG.

[27] O videoclipe foi publicado em 28 de setembro de 2010, no Youtube, no canal Cufatvddos. AtŽ a produ�‹o deste artigo, o v’deo trazia 416.452 visualiza�›es e 889 coment‡rios. O acesso foi em 30 de junho de 2020.

[28] Bobbio (1995) apresenta instigante estudos sobre as diferen�as entre esquerda e direita.

[29] Dispon’vel em: <https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2019/06/16/em-junho-reserva-indigena-de-dourados-registra-media-de-um-assassinato-a-cada-dois-dias-e-meio.ghtml> Acesso em: 30 jun. 2020.

[30] Vide trabalhos de Cabral e Lima (2018).

[31] Por se tratar de um videoclipe de dom’nio pœblico, essa pesquisa n‹o foi submetida ao Comit� de ƒtica.

[32] Refer�ncia processual na Justi�a Federal de Dourados: 5000780-70.2017.4.03.6002.

[33] Devido ˆ limita�‹o de espa�o, n‹o incluiremos o anexo, com a letra integral da mœsica.

[34] Doutoranda no Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica pela Universidade de Bras’lia. Mestre em Lingu’stica pelo Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica pela Universidade de Bras’lia. Graduada em Letras Portugu�s do Brasil como Segunda L’ngua pela Universidade de Bras’lia. Professora na rede de ensino privado do Distrito Federal. Poeta, performer e atriz.

[35] L’ngua de origem banto falada em Angola pelos ambundos.

[36] Campanha de Erradica�‹o de Invas›es – C.E.I. (1970).

[37] Fala do document‡rio ÒRap, o canto da Ceil‰ndiaÓ de Adirley Queir—s, 2005.

[38] Os principais elementos que comp›em o Hip Hop s‹o o DJ (mœsico), o break (dan�a), o grafite (arte visual), o rap (poesia), o MC (mestre de cerim™nias) e a consci�ncia.

[39] ÒTodos somos umÓ, faixa 5 do CD ÒAqui vamos n—sÓ (2015) do grupo Sobreviventes de Rua.

[40] Por quest›es Žticas, n‹o ser‡ citado neste trabalho o nome da institui�‹o de ensino, assim como a identidade dos alunos, por motivos de resguardo. Cito que, para a realiza�‹o deste trabalho, foi concedida a autoriza�‹o por parte do diretor e vice-diretor da escola.

[41] O quilombismo se estruturava em formas associativas que tanto podiam estar localizadas no seio de florestas de dif’cil acesso, o que facilitava sua defesa e organiza�‹o econ™mico-social pr—pria, como tambŽm assumiram modelos de organiza�‹o permitidos ou tolerados, frequentemente com ostensivas finalidades religiosas (cat—licas), recreativas, beneficentes, esportivas, culturais ou de aux’lio mœtuo [...] rede de associa�›es, irmandades, confrarias, clubes, gr�mios, terreiros, centros, tendas, afoxŽs, escolas de samba, gafieiras foram e s‹o os quilombos legalizados pela sociedade dominante; do outro lado da lei, erguem-se os quilombos revelados que conhecemos. [...]. A este complexo de significa�›es, a esta pr‡xis afro-brasileira, eu denomino de quilombismoÓ (NASCIMENTO, 2019, p. 281-282).

[42] ÒPindorama (Terra das Palmeiras) Ž uma express‹o tupi-guarani para designar todas as regi›es e territ—rios da hoje chamada AmŽrica do SulÓ (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 20).

[43] Mœsica ÒS— curto o que Ž bomÓ, produzida no ano de 2004 em parceria com Look e VadiosLocus.

[44] Mœsica ÒRap da felicidade (Eu s— quero Ž ser feliz)Ó, produzida em 1995.

[45] Mœsica ÒBras’lia PeriferiaÓ produzida em 1994 do CD ÒDia a Dia da PeriferiaÓ.

[46] Single ÒO cŽu Ž o limiteÓ, lan�ada em 2018 no canal YouTube da Devasto Prod.

[47] Campeonato de poesia falada.

[48] Projeto financiado pelo Fundo de Apoio ˆ Cultura do Distrito Federal que visibilizava levar a arte a paradas de ™nibus de periferias como o Recanto das Emas e o Riacho Fundo II. Poesia, mœsica, grafite e dan�a foram algumas das manifesta�›es que se aproximaram do perifŽrico que enfrenta o transporte coletivo prec‡rio do Distrito Federal diariamente.

[49] Projeto apresentado ao Fundo de Apoio ˆ Cultura do Distrito Federal em 2017 e contemplado no edital macrorregional.

[50] Esse movimento surge no distrito do Bronx (Nova Iorque). ƒ uma iniciativa de negros, descendentes de africanos escravizados que foram trazidos ˆs AmŽricas, e de latinos que migraram para os Estados Unidos no p—s-Segunda Guerra em busca de melhores condi�›es de vida (TEPERMAN, 2015).

[51] Mœsica ÒFavelaÓ do CD ÒNovidades AncestraisÓ.

[52] O Infopen Ž respons‡vel pelo levantamento de informa�›es estat’sticas do sistema penitenci‡rio brasileiro.

[53] Refer�ncia ˆ intelectual LŽlia Gonzalez ao criticar a l—gica de domina�‹o em que negros e negras s‹o considerados (as) domestic‡veis, imposs’veis de falarem por si, por carregarem atributos de infantilidade, isso tudo por estarmos no lixo da sociedade brasileira. Assim, a autora conclui que Ž preciso assumir a pr—pria fala e afirma: Òo lixo vai falar, e numa boaÓ (GONZALEZ, 1984, p. 225).

[54] Esses saberes est‹o muito relacionados aos saberes ancestrais que dizem respeito a ser, em contraposi�‹o aos saberes sintŽticos, que envolvem ter. Como o pr—prio mestre quilombola Bispo dos Santos afirma: ÒEu n‹o preciso de Karl Marx e de outros acad�micos: preciso de minha gera�‹o av—, aquela que veio antes de mim e que me move. Essa l—gica Ž organizada em come�o, meio e come�o. Minha gera�‹o av— Ž come�o, minha gera�‹o filha Ž meio e minha gera�‹o neta Ž come�o, de novoÓ (BISPO DOS SANTOS, 2019, p. 27).

[55] Doutoranda do PPG em Letras da Universidade Estadual de Londrina. Mestre em Cultura Visual pela FAV/Universidade Federal de Goi‡s. Professora do Departamento de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina.

[56] Trecho do programa de TV sobre arte contempor‰nea, CATçLOGO, cria�‹o do diretor Marcos Ribeiro. Produzido pela TV Imagin‡ria Produ�›es, Ž uma realiza�‹o do canal de TV a cabo CANAL BRASIL. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=YER6ZYUyAFQ Acesso em: 8 ago. 2020.

[57] Doutor em Comunica�‹o e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Professor Titular Pleno da UNEB/Campus I, Professor Permanente do Programa de P—s-gradua�‹o em Estudos das Linguagens – PPGEL/UNEB.

[58] Todos textos que aparecem alinhados ˆ direita s‹o trechos da poesia Tempo de Pipa, de Breno Silva (2020). Mantive a escrita do texto como encontrada no v’deo disponibilizado no Youtube.

[59] Agrade�o ao Breno Silva, autor da poesia e idealizador do v’deo, pelas contribui�›es compartilhadas na pequena e r‡pida Òentrevista bate-papoÓ concedida atravŽs da rede social Instagram, em agosto de 2020.

[60] Cf. Day (2005); Gohn (2008).

[61] Cf. Rosas (2005).

[62] Segundo Gon�alves (2012, p. 181), o termo foi criado pelo coletivo norte-americano Critical Art Ensemble, em 1996.

[63] Viajou Sem Passaporte, 3N—s3 e Tupi N‹o D‡ s‹o alguns desses grupos.

[64] Partida de futebol informal entre jogadores amadores em campo improvisado.

[65] Mesmo que se reconhe�a que o videoclipe possui tra�os de produ�›es convencionais, em seus termos tŽcnicos, vale ressaltar que o interesse pela produ�‹o reside no fato de essa ter sido produzida na l—gica do associativismo, por muitos coletivos, e de ser assinada por diretores e artistas com larga experi�ncia na atua�‹o em coletivos. Considero que a singularidade desse tipo de produ�‹o n‹o reside, necessariamente, no uso dos seus recursos tŽcnicos, mas, sobretudo, nas suas possibilidades de narrar hist—rias, apresentar paisagens e empregar corpos muitas vezes exclu’dos disso que aqui estamos a tratar como produ�›es convencionais, produtos da grande m’dia. Para quem tem interesse na discuss‹o acerca da presen�a das for�as e dos fluxos hegem™nicos em produtos e produ�›es tidas como contra-hegem™nicas, indico a leitura de Freitas (2009).

[66] Entrevista a mim concedida em agosto de 2020.

[67] Professora do Departamento de Letras Cl‡ssicas e Vern‡culas e do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras da UFPB.

[68] A pesquisa aqui apresentada foi feita durante o est‡gio de p—s-doutorado, realizado sob a supervis‹o do professor Francisco Topa, na Universidade do Porto, entre setembro de 2013 e agosto de 2014.

[69] Cole�‹o Cordel. Dispon’vel em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/. Acesso em: 29 dez. 2020.

[70] N‹o tive acesso a pesquisas que tratem da atua�‹o das mulheres nesse campo, mas fica aqui o convite para futuras investiga�›es.

[71] Mestre em Arte, Cultura e Cogni�‹o (UERJ). Bacharel em Dan�a (UFRJ) e Licenciando em Educa�‹o F’sica pela mesma. Contato: genilson.leite@hotmail.com

[72] Mestre em Rela�›es Etnicorraciais (CEFET-Maracan‹), Especialista em Hist—ria da çfrica e da Di‡spora Africana no Brasil (FIS) e em G�nero e Sexualidade (UERJ). Bacharel e Licenciado Pleno em Educa�‹o F’sica (UFRJ). Atualmente Ž professor da SME-PCRJ. Contato: capoeiranomade@yahoo.com.br

[73] Destaca-se que h‡ uma prefer�ncia pelas manifesta�›es populares da cultura afro-ind’genas do Norte e Nordeste brasileiro com exce�‹o do jongo, que Ž o ÒritmoÓ mais pedido e œnico de origem no Sudeste, e que isso pode ter rela�‹o com o trabalho disseminador do Mestre Darcy do jongo, que com seu grupo ÒJongo da SerrinhaÓ levou o jongo para o centro do Rio e para os palcos do Brasil e do exterior, assim como tambŽm gravou CDs, CD-livro, produziu material audiovisual. A mais, somos ÒagraciadosÓ por grupos de Samba de roda e AfoxŽ (BA), Coco (PE, AL), Maracatu (PE), Tambor de crioula, Bumba-meu-boi e Cacuri‡ (MA) e os grupos mistos que como o j‡ citado Òfaz tudoÓ.

[74] Conforme consta na p‡gina da EEFD, no item ÒHist—ricoÓ da Cia Folcl—rica, ela Òfoi fundada em 1987 pela professora Eleonora Gabriel, na Escola de Educa�‹o F’sica e Desportos (EEFD). Este projeto originou-se do Grupo de Dan�as Folcl—ricas da UFRJ, fundado pela professora S™nia Chemale na dŽcada de 70Ó (COMPANHIA FOLCLîRICA RIO-UFRJ, 2020, p. 1).

[75] Express‹o utilizada por nordestinos para se referirem ˆs pessoas das regi›es Sudeste e Sul do pa’s, com um tom de tratamento igualmente genŽrico dado por esses ao povo nordestino.

[76] Em sua p‡gina do facebook, o Grupo Zanzar (2020, p. 1) descreve o seguinte: ÒCom quatorze anos de exist�ncia, o Zanzar Ž um grupo de mœsica e dan�as populares brasileiras que trabalha as linguagens das culturas populares tradicionais (coco, jongo, carimb—, cavalo-marinho, maracatu, cirandas e frevo, entre outros), sendo formado por mœsicos e brincantes [É] e promove mensalmente, na œltima quinta feira, ˆs 20h, uma Roda de Coco aberta e gratuita nos Arcos da LapaÓ. E finaliza exaltando que recria Òestas manifesta�›es dentro de uma linguagem pr—pria e original que valoriza e se inspira nesta rica brasilidadeÓ.

[77]A Cia. Folcl—rica (2020, p. 1), ao ir a campo para montar um espet‡culo, relata que ÒatravŽs dessa iniciativa surgiu a oportunidade de conhecer e incentivar v‡rios grupos tradicionais como o grupo de Cirandeiros de Tarituba (Paraty)Ó, e que Òap—s o incentivo e o intenso trabalho realizado pela Companhia junto ˆ comunidade, os taritubenses reativaram o grupo de dan�as e, mais tarde, lan�aram um CD–livro sobre sua culturaÓ. Defende ainda essa a�‹o como Òuma contribui�‹o essencial de um projeto acad�mico realizado dentro de uma universidade pœblicaÓ.

[78] Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, doutoranda em Letras/Estudos liter‡rios, ‡rea de concentra�‹o Teoria da Literatura e Literatura Comparada.

[79] Graduado em Artes C�nicas (UNESPAR-FAP). Mestrando em Estudos de Cultura Contempor‰nea, Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPGECCO-UFMT). Membro da Solta Cia de Teatro de Cuiab‡ – MT, do Coletivo ˆ Deriva e do Grupo de Pesquisa Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e transversalidades. Professor colaborador da MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.

[80] Graduada em Comunica�‹o Social – R‡dio e TV (UFMT). Mestranda em Estudos de Cultura Contempor‰nea, Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPG-ECCO/UFMT), Membro do Grupo de Pesquisa Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e transversalidades, do In-Pr—prio Coletivo e Coordenadora das çreas TŽcnicas da MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.

[81] Graduado em Hist—ria pela Universidade Federal do Rec™ncavo da Bahia. Mestre em Hist—ria pela Universidade Federal da Bahia. Cursa doutorado em Hist—ria na UFMT. Professor EBTT de Hist—ria no Instituto Federal do Mato Grosso.

[82] Pesquisadora Associada do Programa  de P—s-Gradua�‹o em Estudos de Cultura Contempor‰nea da UFMT. Doutora em Artes Ci�ncias pela USP.

[83] Slams ou poetry slams s‹o encontros de poesia falada (spoken word) e perform‡tica, geralmente em forma de competi�‹o, em que um jœri popular, escolhido espontaneamente entre o pœblico, d‡ nota aos slammers (os poetas), levando em considera�‹o principalmente dois critŽrios: a poesia e o desempenho.

[84] Este artigo teve in’cio na disciplina Performatividades discursivo-afetivas do mal-estar na contemporaneidade, ofertada pela professora doutora Branca Falabella Fabr’cio, no Programa de P—s-gradua�‹o em Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGEL-UFMT).

[85] Nasceu em Rondon—polis (MT). Seu nome art’stico (Pacha) Ž derivado do Quechua, a l’ngua antiga dos povos incas e prŽ-incas, significa ÒmundoÓ ou ÒuniversoÓ. Pacha tem uma grande atua�‹o no segmento da poesia, Ž tricampe‹ do slam estadual mato-grossense, foi semifinalista na Copa Brasileira de Poesia – SlamBR em 2017 e finalista em 2018. Atualmente, em turn� pelo Sesc no projeto ÒA Arte da PalavraÓ, viajando por 7 estados e 14 cidades brasileiras, com o espet‡culo ÒFaces: A Poesia Negra Em Mim, Em N—sÓ. Em suas letras, aborda o empoderamento da mulher, do povo preto, a espiritualidade no AxŽ e suas viv�ncias di‡rias. Em 2017, foi contemplada no edital da SEC de Cultura de Cuiab‡ que viabilizou seu primeiro disco ÒOmo Oy‡Ó, lan�ado em setembro de 2018 (Texto fornecido pela pr—pria artista).

[86]A cr’tica ou o pensamento decolonial ou descolonial Ž uma tentativa de incluir a AmŽrica no pensamento p—s-colonial, uma vez que os autores p—s-coloniais n‹o estudavam ou n‹o se interessavam pelos estudos dos processos de coloniza�‹o e domina�‹o espanhola e portuguesa na AmŽrica. A aten�‹o da cr’tica p—s-colonial se restringia aos pa’ses de l’ngua inglesa, mais especificamente a êndia e alguns pa’ses do Oriente MŽdio que foram colonizados pela Inglaterra. Diferente do pensamento p—s-colonial, a cr’tica decolonial vai levar em considera�‹o o di‡logo com mœltiplas epistemes, buscando o pluralismo de ideias e a diversidade epistemol—gica. A proposta decolonial Ž que se insira a AmŽrica Latina nas discuss›es p—s-coloniais, mas, mais do que isso, que se parta da pr—pria AmŽrica Latina e de sua diversidade epistemol—gica para entender suas quest›es. Para Grosfoguel (2014), existe uma pluralidade de vis›es e diversas formas de pensar no interior da cr’tica decolonial, afirmando que se fosse œnica ou se existisse uma œnica forma de pensar, seria mais uma reprodu�‹o do pensamento colonial, como em certa medida, foi a cr’tica p—s-colonial. Sendo assim, n‹o existe um modelo œnico na cr’tica decolonial, muito menos a nega�‹o ou o desmerecimento de algumas epistemologias europeias importantes para compreender a quest‹o da domina�‹o e da subalternidade.

[87] Os griots s‹o considerados guardi›es da hist—ria e da mem—ria que por meio da oralidade transmitem suas hist—rias e seus conhecimentos. Muitos s‹o cantadores.

[88] Escala – Discurso e Dimens›es do Social da Vida Social (Tradu�‹o nossa).

[89] Òthere are no ideologically neutral scales, and people and institutions that come out Òon topÓ of scalar exercises ofen reinforce the distinctions that so ordained them.Ó

[90] Òthat the scales that social actors rely upon to organize, interpret, orient, and act in their worlds are not given but made—and rather laboriously so. For to scale is not simply to assume or assert ÒbignessÓ or ÒsmallnessÓ by way of a ready-made calculus. Rather, [...] people use language to scale the world around them. [...]. Although things can be made big though analogy, scale-making always also entails drawing distinctions, between the bigness of a whaleÕs rib and the smallness of a marble, for instance. As an inherently relational and comparative endeavor, scaling may thus connect and even confate what is geographically, geopolitically, temporally, or morally ÒnearÓ while simultaneously distinguishing that nearness from that which is ÒfarÓ. Similarly, scaled hierarchies are the efects of eforts to sort, group, and categorize many things, people, and qualities in terms of relative degrees of elevation or centrality. Tink, for example, of the way one entity or domain seems to encompass another, as with maps that subordinate localities within higher order administrative units, or of the way nation-states are commonly thought to hover ÒaboveÓ communities.Ó

[91] Termo usado por Quijano (2009) ao denunciar a classifica�‹o social a partir da ideia de ra�a como principal motor do atual padr‹o de poder mundial.

[92] Dispon’vel em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295. Acesso em: 10 nov. 2019.

 [93]Dispon’vel em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/04/militares-do-exercito-matam-musico-em-abordagem-na-zona-oeste-do-rio.shtml. Acesso em: 10 nov. 2019.

[94] Dispon’vel em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,75-das-vitimas-de-homicidio-no-pais-sao-negras-aponta-atlas-da-violencia,70002856665. Publicada dia 05/06/2019. Acesso em: 10 nov. 2019.

[95] Dispon’vel em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/assassinatos-de-jovens-negros-no-brasil-aumentam-429-em-20-anos/. Publicada dia 17/04/2019. Acesso: 10 nov. 2019.

[96] ÒHay um hecho en la cultura de AmŽrica toda, y enla de AmŽrica Latina en particular, que implica a todo el mundo de hoy em suglobalidad y que precisa ser reconocido, puesto en cuesti—n, debatido y evacuado: la colonialidad del poder. Ese es el primer paso endirecci—n de la democratizaci—n de la sociedad y del Estado; de la reconstituci—n epistemol—gica de la modernidad; de la bœsqueda de una racionalidad alternativa.Ó

[97] Possui gradua�‹o em Licenciatura em Letras Vern‡culas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (1999), Mestrado em Educa�‹o pela Universidade Federal da Bahia (2005) e Doutorado em Programa de P—s-Gradua�‹o em Educa�‹o pela Universidade Federal da Bahia (2013). Atualmente Ž professora adjunta da Universidade Estadual de Feira de Santana e Contadora de Hist—rias. Coordena o Programa de P—s-gradua�‹o Mestrado Profissional em Letras /PROFLETRAS/UEFS e Ž l’der do Grupo de Estudos e Pesquisas em PoŽticas Orais/UEFS. Tem experi�ncia na ‡rea de Educa�‹o, com �nfase em Pol’tica Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: Conta�‹o de Hist—rias, Leitura, Literatura Infantil e Juvenil, Forma�‹o do Leitor e EaD. 

[98] Possuo gradua�‹o em Letras pela Universidade Estadual de Maring‡ (1996), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho (2001) e doutorado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho (2007). Sou professora ASSOCIADO C e fa�o parte do quadro permanente da Universidade Estadual de Maring‡. Tenho experi�ncia na ‡rea de Letras, com �nfase em Literatura e Cinema e ensino de L’nguas, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura comparada, literatura e outras artes, ensino de literatura, leitura e letramento texto liter‡rio, intera�‹o verbal, l’nguas estrangeiras modernas. Atuo na P—s-gradua�‹o do Profletras, Mestrado profissional em Letras, ministrando a disciplina Leitura do texto liter‡rio. Participo do grupo de pesquisa ÒRessignifica�›es do passado na AmŽrica: processos de leitura, escrita e tradu�‹o de g�neros h’bridos de hist—ria e fic�‹o – vias para a descoloniza�‹oÓ. Com P—s-doutorado intitulado ÒLa dame aux CamŽlias – romance, drama, —pera, filme, cordel: releituras comparadas do perfil de uma cortes‹Ó, na UNIOESTE/Cascavel, sob tutoria do Professor doutor Gilmei Francisco Fleck; em parceria com a UniversitŽ Lyon 2, sob tutoria da Professora Doutora Maria da Concei�ao Coelho Ferreira.

[99] Mestranda em Estudos Liter‡rios pela UEFS (Bolsista Capes). Pedagoga pela Universidade Federal da Bahia (2007). Trabalhou como arte-educadora no Espa�o Cultural Pierre Verger entre os anos de 2010-2016, nas ‡reas de Cultura Digital e incentivo ˆ leitura, tendo recebido o PrŽmio Pontos de Leitura (2012). Ministra oficinas de escrita e leitura, tendo participado da exposi�‹o "As aventura de Pierre Verger" (2015). Trabalhou como pedagoga no Programa de Inform‡tica na Educa�‹o Especial da OSID, orientando projetos de pessoas com defici�ncia, durante os anos de 2005 a 2007. Durante dois anos foi bolsista de Inicia�‹o cient’fica PIBIC, nas ‡reas de gest‹o educacional e educa�‹o e diversidade. Atua como pesquisadora e professora, principalmente nos seguintes temas: educa�‹o e diversidade - inform‡tica educativa - arte-educa�‹o - educa�‹o e cultura.

 

[100] FORD, W. Clyde. O her—i com rosto africano: mitos da çfrica. S‹o Paulo: Summus, 1999.

[101] Possui gradua�‹o em Licenciatura em Letras Vern‡culas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (1998), mestrado em Literatura e Diversidade Cultural pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2006) e doutorado em Letras pela Pontif’cia Universidade Cat—lica do Rio Grande do Sul (2014). Atualmente Ž professor Titular A da Universidade do Estado da Bahia e professor do Mestrado Profissional em Letras da Universidade do Estado da Bahia, atuando, ainda como Diretor do Departamento de Ci�ncias Humanas, Campus V, da UNEB. Tem experi�ncia na ‡rea de Letras, com �nfase em Letras, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura e outras artes, identidade, afrodescend�ncia e cultura. 

 

[102] Dispon’vel em: www.poetriz.wordpress.com/2006/01/11/0-menino-que-carregava-agua-na-peneira/ Acesso em: 3 jan. 2012, ˆs 15h.

[103] AcrŽscimo nosso.

[104] AcrŽscimo nosso.

[105] Dispon’vel em: www.atualfilmes.onsugar.com/Download-O-Auto-da-Compadecida-6193160. Acesso em: 15 nov. 2010, ˆs 16h.

[106] Dirige-se ao jornalista e escritor Samarone Lima, seu assessor de imprensa, presente em sua casa no momento da entrevista.

[107] Refer�ncia ˆ pesquisadora Idelette Muzart-Fonseca dos Santos.