REVISTA DO GT DE LITERATURA ORAL E POPULAR DA
ANPOLL
Revista Boitat‡ Ž uma publica�‹o semestral, de
acesso livre, do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de
Pesquisa e P—s-Gradua�‹o em Letras e Lingu’stica (ANPOLL)
GT LITERATURA
ORAL E POPULAR
BIæNIO 2020/2022
COORDENADORA
Profa. Dra.DŽlcia Pombo
Secretaria Estadual de Educa�‹o do Par‡
delciauab@gmail.com
VICE-COORDENADORA
Profa. Ma. Dia Favacho
PPGED-UEPA
favachodia1@gmail.com
SECRETçRIO
Profa. Dr. Alexandre Ranieri Ferreira
SEDUC/UFPA
alexandre_ranieri@hotmail.com
IDADE MƒDIA
ORALIDADE E PERFORMANCE
Dados Internacionais de Cataloga�‹o na
Publica�‹o (CIP)
|
Boitat‡:
Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa
e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL [recurso eletr™nico] /
Universidade Estadual de Londrina - n. 31, v. 1, jan. /jun., 2021. –
Londrina: UEL; Bras’lia: ANPOLL, 2021. Semestral Requisitos do sistema: Adobe Reader. Modo de acesso: < http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/index> ISSN: 1980-4504 1.
Literatura oral 2. Oralidade 3. Cultura popular 4. Manifesta�›es art’tisticas
I. Ferreira, Alexandre Ranieri. II. Fernandes, Frederico Augusto Garcia III. Universidade Estadual de
Londrina. IV. Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e
Lingu’stica. V. T’tulo: Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular
da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica -
ANPOLL |
CDD: 808.5
êndice
para o cat‡logo sistem‡tico:
|
1. 2. |
Oralidade Cultura popular |
82 |
EXPEDIENTE
EDI‚ÌO
Dr. Alexandre Ranieri
Ferreira (UFPA)
Dr. Frederico Augusto
Garcia Fernandes (UEL)
EDITORIA ASSISTENTE
Dra. Mauren Pav‹o
Przybylski da Hora Vidal (IFBaiano)
Dra. AndrŽa Bet‰nia da
Silva (UNEB)
ORGANIZA‚ÌO
Dr. Nerivaldo Alves
Araœjo (UNEB)
Dr. Jo‹o Evangelista do
Nascimento Neto (UNEB)
COMISSÌO EDITORIAL
Dra. Anna Christina
Bentes
Universidade Estadual de
Campinas
Dra. Ana Lœcia Liberato
Tettamanzy
Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
Dra. Berenice Araceli
Granados V‡squez
Universidad Nacional
Aut—noma de MŽxico
Dra. Cl‡udia Neiva de
Mattos
Universidade Federal
Fluminense
Dra. Edil Silva Costa
Universidade Estadual da
Bahia
Dr. Eudes Fernando Leite
Universidade Federal da
Grande Dourados
Dr. Frederico Augusto
Garcia Fernandes
Universidade Estadual de
Londrina
Dr. J. J. Dias Marques
Universidade do Algarve
(Portugal)
Dr. Jorge Carlos Guerrero
University of Ottawa
(Canada)
Dr. JosŽ Guilherme dos
Santos Fernandes
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Josebel Akel Fares
Universidade Estadual do
Par‡
Dra. Lisana Bertussi
Universidade de Caxias do
Sul
Dra. Maria do Socorro
Galv‹o Sim›es
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Maria Incoronata
Colantuono
Universitat Aut˜noma de
Barcelona
Dr. M‡rio Cezar Silva
Leite
Universidade Federal de
Mato Grosso
Dr. Ronald Ferreira da
Costa
Professor do Instituto
Federal do Paran‡
Dr. S’lvio Renato Jorge
Universidade Federal
Fluminense
Dra. Vanderci de Andrade
Aguilera
Universidade Estadual de
Londrina
Dra. Vera Lœcia Medeiros
Universidade Federal do
Pampa
PARECERISTAS DESTE NòMERO
Dra. Ana Lœcia Liberato
Tettamanzy
Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
Dra. Claudia Freitas
Pantoja
Faculdades Integradas do
Vale do Iva’
Dra. Cristiane de Assis
Portela
Universidade de Bras’lia
Dr. Dejair Dion’sio
Universidade Estadual do
Centro-Oeste
Dra. Edil Silva Costa
Universidade Estadual da
Bahia
Dr. Eudes Fernando Leite
Universidade Federal da
Grande Dourados
Dra. Eumara Maciel dos
Santos
Universidade Federal do
Oeste da Bahia
Dra. Francisca Pereira dos
Santos
Universidade Federal do
Cariri
Dr. JosŽ Henrique de
Freitas Santos
Universidade Federal da
Bahia
Dra. Laura Regina dos
Santos Dela Valle
Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
Dra. L�nia M‡rcia
Mongelli
Universidade de S‹o Paulo
Dra. Maria Nilda de
Carvalho Mota
Universidade do Estado de
S‹o Paulo
Dra. Maria Ygnez Ayala
Universidade Federal da
Para’ba
Dra. S™nia Pascolati Vido
Universidade Estadual de
Londrina
Dra. Yara Frateschi
Vieira
Pontif’cia Universidade
Cat—lica de S‹o Paulo
PROJETO E ENSAIO VISUAL
JŽssica Araœjo Dantas
REVISÌO
Sylvia
Calandrini
SUMçRIO
EDITORIAL
Um
convite ˆ roda da cultura popular
Nerivaldo Alves Araœjo, Jo‹o Evangelista
do Nascimento Neto ...................................................5
DOSSIæ
Corporeidade vocal e a pesquisa acad�mico-art’stica
Vagner de Souza Vargas ..................................................................................................................9
O Saci centen‡rio: uma an‡lise mitocr’tica do Saci Perer�
– Resultado de um inquŽrito
Andriolli Costa................................................................................................................................26
A literatura de cordel como reinvindica�‹o do direito ˆ
Literatura
Let’cia Fernanda da Silva Oliveira.................................................................................................37
O Rap ind’gena dos Br™ McÕs: a constru�‹o argumentativa da
pol�mica
Rubens Damasceno-Moraes, Vanessa Martins
Le‹o ....................................................................46
Tamo junto, favela! A arte perifŽrica como um mŽtodo
educacional
Ana Carolina de Souza
Silva.........................................................................................................60
A pintura Ž um sil�ncio? A arte perifŽrica como um mŽtodo
educacional
Vanessa Tavares da Silva..............................................................................................................71
Midiartivismo em tempo de pipa: mœsica, poesia e arte a favor
do ativismo social
Ricardo Oliveira de Freitas............................................................................................................83
Pontes sobre o rio Capiberibe e o mar
Ana Cristina Marinho....................................................................................................................96
ÒMovimento CultÓ do Rio de Janeiro e os discursos sobre o
coco de Pernambuco
Genilson Leite da Silva, Bruno Rodolfo
Martins........................................................................107
Testemunhos da cat‡strofe: mem—rias do trauma em Vozes de Tchern—bil
Joyce Rodrigues Silva Gon�alves................................................................................................117
Rap e resist�ncia: necropol’tica e escala em Os meninos correm
Everton Brito. Karina Souza, Lucas CafŽ,
Maria Thereza Azevedo...........................................128
PoŽticas Orais, corpo-mem—ria e o ritmo das narrativas de
mestres e mestras contadores de hist—rias tradicionais
Luciene Santos, Margarida Corsi, Lana Lula
Amorin.................................................................139
CONVIDADO
A poŽtica do retalho
Jo‹o Evangelista do Nascimento
Neto........................................................................................151
ENTREVISTA
Breve prosa com Ariano Suassuna ou A hist—ria
do homem que levou os cantadores ao teatro e mostrou outros rumos para a
cantoria
AndrŽia
Bet‰nia da Silva
...........................................................................................................168
Um convite ˆ roda da cultura popular
O dossi� AS MANIFESTA‚ÍES DA
CULTURA POPULAR E SEUS MòLTIPLOS DIçLOGOS se d‡ em uma roda, cujos membros
brincantes, nesse espa�o, se d‹o as m‹os criando um c’rculo infinito, forte e
colaborativo. Nessa roda, enquanto uma pessoa est‡ no centro, cantando,
contando e performatizando sua hist—ria, seu enredo, as demais coparticipam num
giro de saberes, sorrisos, corpos e vozes.
Nesse dossi�, tornamos pœblica
uma sŽrie de estudos e viv�ncias org‰nicas sobre manifesta�›es da cultura
popular. Aqui, cultivamos a pluralidade de saberes e sabores que nascem,
crescem e resistem em meio ao povo e por ele. Esses conhecimentos se formam por
uma multiplicidade de vozes, de pensamentos; se constituem vivos nos corpos que
resistem ao tempo, ˆs lutas e tentativas de apagamento.
Essa roda da cultura Ž sem
fim, porque se alimenta da vida cotidiana do povo. Enquanto houver povo, haver‡
cultura, que se manifestar‡ por meio da palavra, ressignificada e personificada
na palavra-letra, na palavra-voz, mas tambŽm na palavra-corpo, na palavra-tinta,
na palavra-barro...
Por meio da palavra Ž que o
ser se faz homem e mulher, mas Ž por meio da cultura que esse homem e essa
mulher se fazem gente. Por isso, fazemos um convite ˆ leitura desse dossi�. Ele
n‹o Ž mais um arquivo, daqueles que escondem papŽis, conhecimentos. Os textos
que comp›em esse acervo ganham for�a se lidos n‹o s— com os olhos mas, num
movimento circular-sinestŽsico, se forem sentidos com o corpo, se suas vozes
forem ouvidas, o gosto dos seus sentidos forem saboreados, porque cultura existe
para ser degustada, e que nossos pelos se ericem diante de suas pot�ncias, e os
nossos cora�›es jubilem frente a alma desse ente vivo.
Esse dossi� Ž uma declara�‹o
pœblica em defesa da cultura popular, que brota em lugares subalternizados, mas
que se espalha por onde quer e como quer, encontrando novos cultivos, outros
agricultores. N—s, seres humanos, somos aqueles e aquelas que aram essa terra,
o espa�o humano, onde se faz cultura todos os dias e, por ela, se vive e se
transforma a vida, e se muda o mundo:
A cultura Ž o instrumento do
ser pensante, brincante e sentinte. As reflex›es e atos que dela surgem v�m em
forma de dan�a, de riso, de for�a, do olhar e do tocar; brota da admira�‹o e,
por conseguinte, da tomada de consci�ncia, individual e coletiva,
respectivamente, por isso mesmo, o espa�o cultural Ž sempre lugar de
rememora�‹o e celebra�‹o, mesmo que disso resulte indigna�‹o, resist�ncia e
luta. Assim, nesse dossi�, entram tambŽm na roda:
ƒ que o povo luta com a sua
voz, com as suas marchas, mas tambŽm com seu bailar, sua pintura, seus sonhos,
sorrisos e l‡grimas. Por isso, a roda, que se forma nesse dossi�, Ž movimento
cont’nuo, que muda de cad�ncia, conforme o tema, mas nunca perde o ritmo;
alterna a melodia, sem desfocar a performance; e toda essa cinesia simboliza a
vida e a humanidade em seu estado mais pleno:
Nesses artigos, vemos
mœltiplos corpos, vozes; belezas t‹o distintas, tra�os fortes das gentes que
fazem a cultura popular nos espa�os pœblicos, privados, nos livros e m’dias. A
palavra G-E-N-T-E, sin™nimo de P-O-V-O, parece significar algo t‹o amorfo, mas,
na verdade, n‹o h‡ dicion‡rio que consiga, atŽ hoje, atribuir sentido
definitivo a elas; n—s, povo-gente, n‹o somos sem forma, pelo contr‡rio, temos
v‡rios aspectos, diversas fisionomias. N‹o h‡ molde que nos encaixe e nos
aprisione, porque nos (re)adequamos ˆ vida, ao contexto e ao pretexto. ƒ desse
modo que a roda da cultura popular se amplia, recebendo novos brincantes:
Quem encerra essa roda/nœmero
da Revista Boitat‡ Ž Ariano Suassuna, com sua fala/canto em BREVE PROSA COM ARIANO SUASSUNA OU A HISTîRIA DO HOMEM QUE
LEVOU OS CANTADORES AO TEATRO E MOSTROU OUTROS RUMOS PARA A CANTORIA.
Dessa forma, os
di‡logos presentes nesse dossi� s‹o excertos de manifesta�›es diversificadas,
que se revelam numa profus‹o de sons, cores e sabores. S‹o discursos de
autoconhecimento e da compreens‹o do outro. S‹o modos de vida e formas de a�‹o
que precisam ser conhecidas e experenciadas.
Por fim, vamos ˆ
roda!
Nerivaldo Alves Araœjo
https://orcid.org/0000-0001-9423-3603
Jo‹o Evangelista do
Nascimento Neto
https://orcid.org/0000-0003-4937-7311
Corporeidade vocal e a pesquisa acad�mico-art’stica
Vocal Corporeity and
Academic-Artistic Research
Vagner de Souza Vargas[1]
https://orcid.org/0000-0002-6350-9256
Resumo: Abordagens investigativas relacionadas aos processos criativos nas mais
distintas linguagens art’sticas t�m se desenvolvido com diferentes �nfases ao
longo do tempo. O objetivo deste artigo Ž o de apresentar uma proposta de
trabalho de campo na pesquisa acad�mica em artes c�nicas, na qual foi desenvolvido um tipo de processo criativo, com
o intuito de refletir sobre as interfaces entre aspectos corporais e vocais na
pesquisa acad�mico-art’stica. Este trabalho demonstrou uma possibilidade outra
para o desenvolvimento do trabalho de campo, assim como tambŽm reafirma a
necessidade de que a grande ‡rea das artes como um todo se permita a divulgar outras
abordagens para a pesquisa acad�mica.
Palavras-Chave:
Metodologia da Pesquisa. Corporeidade Vocal. Corpo-Voz. Processo Criativo.
Pesquisa Acad�mico-Art’stica.
Abstract: Investigative approaches related
to creative processes in the most distinct artistic languages have emerged with
different approaches, especially nowadays. The aim of this article is to
present a proposal for field work in academic research, in which a kind of
creative process was developed, with the purpose of reflecting about the
interfaces between body and vocal aspects in academic-artistic research. This
work has demonstrated another possibility for the development of field work, as
well as reaffirming the need for the great area of the arts - as a whole - to
be allowed to disseminate other approaches to academic research.
Keywords: Research Methodology, Vocal
Corporeity, Body-Voice, Creative Process, Academic-Artistic Research.
Introdu�‹o
A pesquisa acad�mica em
artes performativas possui abordagens metodol—gicas, em acordo com as suas
especificidades de ‡rea, estabelecidas ao longo dos anos (CARREIRA et al.,
2006). Entretanto, em acordo com as necessidades contempor‰neas, alguns
artistas-pesquisadores sentem o desejo de desenvolverem suas investiga�›es por
vias metodol—gicas que n‹o necessariamente venham ao encontro dos seus anseios
conforme os mŽtodos tradicionalmente desenvolvidos o fazem.
Neste sentido, urge a
necessidade em se propor abordagens para o desenvolvimento da investiga�‹o
acad�mica de um modo geral, propiciando perspectivas que hibridizem, borrem
fronteiras entre as metodologias tradicionais e/ou que possibilitem se
desenvolver por meios outros[2]. Mas, potentes em viabilizar reflex›es que contribuam ˆ
produ�‹o acad�mica e art’stica. Estas abordagens outras encontram em
suas caracter’sticas, par‰metros e desenvolvimentos, os elementos essenciais
para se legitimarem em si, constituindo-se como perspectivas alternativas ˆ
pesquisa acad�mica, em especial, ˆs pesquisas em artes performativas
(PRENDERGAST, 2003; 2014; PARKER-STARBUCK; MOCK, 2011; KERSHAW; NICHOLSON,
2011; KERSHAW, 2012; AALTONEN; BRUNN, 2014; VARGAS et al., 2019). Apesar
de haver muitas abordagens metodol—gicas para as pesquisas acad�micas na grande
‡rea das ci�ncias humanas, este artigo focar‡ suas reflex›es para o contexto
das pesquisas em artes performativas.
O objetivo deste artigo
Ž o de apresentar uma proposta de trabalho de campo na pesquisa acad�mica em
artes performativas, na qual foi desenvolvido um tipo de processo criativo por
um ator[3], com o intuito de refletir sobre as interfaces entre
aspectos corporais e vocais em sua investiga�‹o. Neste texto, tambŽm ser‡
relatada esta perspectiva sobre como trazer um processo criativo que trabalhe
aspectos relacionados ˆs viv�ncias corporais e vocais no trabalho em artes
performativas por meio de uma etapa de empiria em uma investiga�‹o acad�mica,
ou como chamada por Vargas (2018), acad�mico-art’stica, pois se prop›e a
hibridizar quaisquer linhas separat—rias que possam dividir a pesquisa entre
estas ‡reas.
Antes de mais nada, para
ler este texto, h‡ de se faz�-lo como um convite a observar como um ator se
utilizou de uma proposta tŽcnica, associando corpo e voz, sonoridade e
corporeidade, ou, como Ž mencionado por Vargas (2018): Òcorpo-vozÓ – vide
p. 85 – e Òcorporeidade vocalÓ – vide p. 23 –, para
desenvolver uma pesquisa acad�mica, na qual a sua pr‡tica como investiga�‹o no
trabalho de campo tambŽm envolveu um processo criativo. Por se tratar de um
artigo no qual se explanar‡ sobre alguns procedimentos adotados durante o
trabalho feito ao longo de um doutoramento, neste texto, em certos momentos, os
relatos ser‹o escritos em primeira pessoa, como um convite ’ntimo e intencional
de trazer quem o esteja a ler para
perto de reflex›es t‹o particulares desenvolvidas na tese de Vargas (2018).
Este texto tambŽm se
prop›e a oferecer um outro modus[4] de se pensar e efetuar o trabalho de campo em pesquisas que
envolvam processos art’stico-criativos. Talvez, a descri�‹o dos procedimentos
adotados no estudo que serve de mote para a escrita deste artigo possa oferecer
algum ru’do ˆqueles que n‹o est‹o acostumados a transgredir as propostas de
metodologias das pesquisas tradicionalmente efetuadas no meio acad�mico.
Entretanto, justamente por este motivo, muitos artistas-pesquisadores t�m
optado por buscar maneiras outras para o desenvolvimento dos trabalhos
emp’ricos em suas investiga�›es, de modo que estejam em acordo com seus
anseios, como Ž o caso dos estudos publicados por Prendergast (2003; 2014),
Parker-Starbuck e Mock (2011), Kershaw e Nicholson (2011), Kershaw (2012),
Aaltonen e Brunn (2014), Vargas (2018) e Vargas et al. (2019). Por outro
lado, para a leitura do texto deste artigo, tambŽm convido o(a) leitor(a) a um
olhar afetuoso, uma vez que a descri�‹o de um processo criativo, mesmo que
tenha sido desenvolvido com o intuito de suscitar reflex›es, tambŽm Ž um ato de
desnudamento do artista que se prop›e a relat‡-lo, expondo suas fragilidades,
vulnerabilidades e dilemas ao longo deste processo.
Etapas de uma composi�‹o no
processo criativo: conceitos necess‡rios
Os processos criativos
em artes performativas podem ser realizados com distintas abordagens, conforme
aprouver ˆs necessidades dos trabalhos que as(os) artistas estiverem
desenvolvendo. Neste momento do texto, faz-se importante ressaltar que, apesar
de a discuss‹o deste artigo estar focada a partir da perspectiva do trabalho de
ator, por se tratar de uma tem‡tica relacionada ˆs reflex›es sobre corpo e voz,
o que aqui ser‡ exposto tambŽm serve ˆs perspectivas de trabalhos de artistas
em dan�a, —pera, performance art, mœsica, circo, burlesque, dragging
e demais artes, as quais ser‹o englobadas dentro da terminologia Òartes
performativasÓ apenas por uma quest‹o de facilidade de escrita textual a este
artigo. AlŽm disso, tambŽm Ž necess‡rio enfatizar que, apesar de este artigo
centrar suas abordagens falando sobre uma perspectiva para atores, por se
tratar de uma discuss‹o que pode ser ampliada ˆs diversas artes, quando estiver
falando sobre estes aspectos para atores, todas as reflex›es e propostas aqui
tratadas tambŽm podem ser expandidas e reverberadas ˆs demais artes
performativas.
Nesse sentido, ao se
propor uma abordagem investigativa acad�mico-art’stica, na qual o processo
criativo em artes se desenvolva como parte essencial dos procedimentos de
investiga�‹o, podemos pensar todo o contexto de pesquisa como um processo de
composi�‹o. No caso deste artigo, permito-me tra�ar um paralelo com as
reflex›es propostas por Bonfitto (2009, p. 142) sobre o ator-compositor, ao
considerar que
H‡, alŽm disso, especificidades ligadas
ao ator-compositor. A partir do conhecimento dos elementos que envolvem a
pr‡tica de seu of’cio, e utilizando-se da a�‹o f’sica como eixo dessa pr‡tica,
ele adquire a possibilidade de deixar de ser somente uma pe�a da engrenagem que
constitui a obra teatral, assim como pode superar a condi�‹o de Òconsumidor de
tŽcnicasÓ de interpreta�‹o. [...]. O ator adquire um valor de instrumento
potente, capaz de oferecer inœmeras possibilidades de resolu�‹o para os
processos c�nicos.
O enlace feito com o que
Ž destacado acima, a partir de Bonfitto (2009), se refere a pensar a pesquisa
acad�mico-art’stica em artes performativas como um processo para alŽm do
desenvolvimento de tŽcnicas. Nesse sentido, os artistas-pesquisadores, ao
avan�arem em um processo criativo de pesquisa nesta ‡rea, devem estar abertos a
este processo buscando que o fornecimento de elementos estŽtico-reflexivos e
poŽticos durante esses vivenciamentos em pesquisa, lhes possibilite subs’dios
necess‡rios ˆ amplia�‹o das discuss›es pertinentes aos seus trabalhos. Este
direcionamento se refere a um modus particular desta especificidade de
‡rea em desenvolver seus estudos, pedagogias, achados e reflex›es. Neste caso,
a composi�‹o parte de um princ’pio no qual o artista ir‡ pensando, elaborando,
vivenciando e refletindo sobre cada etapa antes e durante o seu trabalho de
campo, encontrando elementos que servir‹o como disparadores reflexivos a serem
desenvolvidos a posteriori. O ator se p›e como parte ativa neste
processo em busca dos subs’dios que lhe conduzir‹o ao caminho das reflex›es
relacionadas ˆ sua investiga�‹o, tudo isso ao longo do processo criativo,
compondo o seu trajeto de pesquisa de campo por meio de sua corporeidade[5].
Quando nos propomos a desenvolver uma investiga�‹o
acad�mico-art’stica em artes performativas por meio de uma proposta
metodol—gica focada no trabalho corporal e vocal para atores, de maneira
conjunta e indissociada, h‡ de se perceber que as reflex›es oriundas desse
processo ser‹o permeadas profundamente por viv�ncias e experimenta�›es
corporais e vocais. As experi�ncias desse processo potencializar‹o as pr—ximas
etapas da pesquisa proposta. Ao se refletir sobre elementos relacionados a
quest›es corporais e vocais ao longo do processo criativo, necessitamos
conceber esses aspectos tambŽm englobando saberes sens’veis do corpo humano.
Sobre isso, apesar de Aleixo (2010) n‹o desenvolver uma tese sobre o que venha
a ser um saber sens’vel, explicando seus meios e compondo um arcabou�o
epistemol—gico para tanto, este autor refere alguns elementos importantes de
serem trazidos ˆ discuss‹o aqui proposta, quando diz que
O acesso
aos mœltiplos procedimentos do trabalho vocal para o exerc’cio de cria�‹o
poŽtica, uma vez que experimentados e assimilados praticamente – ou seja,
como um saber sens’vel do corpo, como algo que Òeu sei porque posso realizarÓ
– amplia as possibilidades do ator pesquisar, improvisar e criar poŽticas
vocais, bem como compreender e propor formas ampliadas de rela�‹o com a fala e
com o texto em cena, alŽm de dominar distintos modos objetivos de abordagem de
estilos e propostas da linguagem teatral (ALEIXO, 2010, p. 104).
Desse modo, partindo destes disparadores de ind’cios reflexivos expostos
acima, podemos pensar no trabalho corporal e vocal de maneira ampliada. Esta
acep�‹o, conduz o ator a considerar esta abordagem como um aprofundamento nos
elementos que comp›em a corporeidade vocal. Esta corporeidade vocal aqui Ž
compreendida como sendo fruto de uma interrela�‹o entre aspectos corporais
– relacionados a experi�ncias e exerc’cios f’sicos/estŽticos/expressivos
– e vocais – relacionados tambŽm a experi�ncias e exerc’cios
espec’ficos pensando nas estruturas vocais e correlatas. Corpo e voz sendo
assim indissociados, expandem a concep�‹o de voz ao todo corporal, um imenso
fluxo de rela�›es entre o som em cada parte de seu corpo, descobrindo
possibilidades e se deixando aberto ˆ cria�‹o poŽtica da voz enquanto corpo e
do corpo enquanto voz, resultando em uma corporeidade vocal.
Nesse sentido, refletir sobre o processo criativo sob a via da
corporeidade vocal, permite potencializar n‹o apenas experi�ncias e viv�ncias
que fornecer‹o subs’dios a serem desenvolvidos ao longo do processo, mas,
tambŽm, a assumir este aspecto como integrante de um processo de saber sens’vel.
Este processo potencializa a corporeidade vocal a desempenhar um papel como
disparadora de significa�›es. Ao longo de seu processo criativo, caber‡ ao ator
ir mesclando, experimentando, pesquisando e vivenciando possibilidades e, neste
’nterim, ir selecionando caminhos e experi�ncias que estejam lhe fomentando
reflex›es relacionadas ˆ sua investiga�‹o (VARGAS, 2018). Associo a isso o que Bonfitto (2009, p. 140-141) refere ao falar sobre as
escolhas metodol—gicas de trabalho dos atores:
A utiliza�‹o de materiais de diferentes
naturezas dever‡ gerar, por sua vez, a necessidade de inserir transi�›es entre
esses materiais. A busca de sentido de cada material e das poss’veis transi�›es
entre eles envolve, dessa forma, uma compet�ncia espec’fica do ator. Utilizando-se
de v‡rios materiais, o ator poder‡ selecion‡-los somente a partir das
percep�›es resultantes de uma experimenta�‹o pr‡tica. Ele dever‡ ser capaz de
perceber quais os materiais adequados, que produzem ÒsentidoÓ a partir da
execu�‹o de suas a�›es.
Com o intuito de ir gerando sentidos e significa�›es ao longo de seu
processo criativo durante a pesquisa de campo, em sua pr‡tica como
investiga�‹o, o ator dever‡ compor um modus que lhe permita organizar os
elementos trabalhados, assim como, tambŽm, em constituir meios para
recuper‡-los e expandi-los a cada dia de trabalho. Uma possibilidade para este
tipo de composi�‹o se refere ˆ cria�‹o de partituras corporais e vocais. Neste
caso, o termo
ÒpartituraÓ ao qual me aproximo Ž aqui empregado tomando por base o que fora
referido por Barba (2010, p. 62) como sendo:
O
desenho geral da forma de uma sequ�ncia de a�›es e ao desenvolvimento de cada
uma das a�›es (in’cio, ‡pice, conclus‹o); ˆ precis‹o dos detalhes de cada a�‹o
e de seus desdobramentos (sats, mudan�as de dire�‹o, varia�›es de
velocidade); ao dinamismo e ao ritmo: a velocidade e a intensidade que
regulavam o tempo (no sentido musical) de uma sŽrie de a�›es. Era a mŽtrica das
a�›es com suas micro pausas e decis›es, o alterar-se de a�›es velozes e lentas,
acentuadas e n‹o acentuadas, caracterizadas por uma energia vigorosa e macia; ˆ
orquestra�‹o das rela�›es entre as v‡rias partes do corpo (m‹os, bra�os,
pernas, pŽs, olhos, voz, rosto).
O que esse autor descreve no trecho acima se refere a uma
maneira de organizar movimentos, a�›es f’sicas e vocais dentro de uma sequ�ncia
fixada (no sentido de poder ser rememorada e resgatada em cada dia de trabalho)
pelo ator ao longo de seus treinamentos. A elabora�‹o dessas a�›es deve obter
um certo grau de precis‹o n‹o apenas no que diz respeito ˆ sua execu�‹o, mas
para que, por meio desse processo, o ator possa ir percebendo as nuances e
sutilezas de cada aspecto que pode estar no entre cada a�‹o. Esses
procedimentos s‹o realizados ao longo dos momentos em que os atores se p›em nas
salas de ensaio/trabalho/estœdios desenvolvendo exerc’cios e experi�ncias que
lhes permitam a abertura e a disponibilidade para a identifica�‹o de matrizes
corporais e vocais que ser‹o integradas, elaboradas em sequ�ncias
posteriormente organizadas em movimentos, sons e a�›es (VARGAS, 2018). Quando
se situa esta possibilidade como integrante de uma etapa ˆs pesquisas
acad�mico-art’sticas em artes performativas, deve-se ter em mente que haver‡ a
necessidade em se tra�ar hip—teses de partida, objetivos e quest›es iniciais
que servir‹o como primeiros passos antes do processo criativo em si como
trabalho de campo dessa investiga�‹o. Esta abordagem, utilizando-se de
partituras corporais e vocais, requer um per’odo prolongado durante o trabalho
de campo, uma vez que, segundo Barba (2010, p. 63):
Uma partitura s— come�ava a viver depois de ter sido fixada
e repetida muitas vezes. A partitura era a manifesta�‹o objetiva do mundo
subjetivo do ator. [...]. A partitura era a busca da ordem para dar espa�o ˆ Desordem.
[...]. A elabora�‹o compreendia as mudan�as de ritmo e de dire�‹o no espa�o, a
fixa�‹o das micro pausas entre uma a�‹o e outra e um novo arranjo das v‡rias
partes do corpo (bra�os, pernas, express›es faciais), que era diferente do
material origin‡rio. [...]. Durante suas improvisa�›es, o ator ia pescar
materiais de onde destilar (elaborar) em seguida uma partitura. Teria sido
estœpido pescar com redes furadas e deixar que os peixes fugissem quando
chegassem ˆ superf’cie.
Para o ator-pesquisador que se proponha a realizar um
trabalho nessa perspectiva, n‹o basta apenas organizar as a�›es em uma ordem
espec’fica. Ele precisa compreender em seu corpo, em sua corporeidade, os
caminhos que transpassam cada uma delas, permitindo que essa disposi�‹o ou justaposi�‹o
em ordenamento fomente possibilidades de gerar material criativo de trabalho
di‡rio. Cada fragmento contŽm um mundo, uma constela�‹o de possibilidades
instigantes. A cada dia de trabalho, sentidos e significados surgem e se
potencializam na medida em que o ator se compreende e se entrega ˆ
experimenta�‹o de possibilidades. No entre-espa�o desse processo, existe um fio
condutor que pode ser chamado de subpartitura (VARGAS, 2018). Segundo Barba
(2010, p. 64), subpartitura Ž:
O modo em que o ator via, ouvia, sentia o cheiro e reagia
dentro de si, ou seja, como ele contava a hist—ria da improvisa�‹o para si
mesmo atravŽs de a�›es. Essa hist—ria interior comportava ritmos, sons,
melodias, sil�ncios e suspens›es, perfumes e cores, figuras isoladas e montes
de imagens contrastantes, uma enchente de a�›es interiores que se manifestavam
em precisas formas din‰micas. A subpartitura Ž um elemento tŽcnico que pertence
ˆ particular l—gica criativa de cada ator.
Partitura e subpartitura s‹o conceitos interligados, porŽm
com distintas especificidades. Sobre esse assunto, Barba (2010, p. 65) ainda
afirma que
A
subpartitura Ž um apoio interno, um pilar escondido que o ator esbo�a para si e
que n‹o tenta representar. N‹o deve ser confundido com o significado que a partitura
vai assumir para quem a observa. Sem a subpartitura, aquilo que o ator
apresenta n‹o Ž mais a cria�‹o de uma corrente subjetiva de rea�›es, uma linha
org‰nica guiada por uma coer�ncia interna, mas gesticula�‹o, movimento e
deslocamentos casuais.
Por este motivo, ao se
utilizar da cria�‹o de partituras e subpartituras durante o seu processo
criativo, em uma investiga�‹o enfocando a corporeidade vocal, h‡ de se estar
aberto a extrapolar a pura execu�‹o de tŽcnicas. Nesse sentido, devemos buscar
nas inter-rela�›es do corpo-voz as sensa�›es, experi�ncias, sentidos,
significados, emo�›es e vivenciamentos que conduzam a possibilidades
reflexivas, as quais servir‹o de vias de acesso aos caminhos a que esta etapa
da investiga�‹o se abrir‡. Este tipo de abordagem requer que as tŽcnicas sejam
ultrapassadas em prol de que o artista-investigador se permita e se entregue ˆ
cria�‹o.
Entretanto, tambŽm
gostaria de enfatizar que processos criativos que se utilizem dos aspectos
relacionados ˆ cria�‹o de partituras corporais e vocais fazem parte de diversas
abordagens metodol—gicas nas pesquisas acad�mico-art’sticas em artes
performativas. Este artigo n‹o est‡ expondo alguns destes elementos como uma
inova�‹o metodol—gica. Mas, sim, com o intuito de propiciar um enlace com o que
ser‡ apresentado mais a diante neste texto, ressaltando a singularidade da
proposta que ser‡ brevemente descrita e, assim, expor os referenciais que a
legitimam tambŽm como uma perspectiva outra ˆ pesquisa
acad�mico-art’stica contempor‰nea. PorŽm, nesse contexto, como poderia o ator
conduzir e desenvolver seu processo criativo ao longo do trabalho de campo?
Um experimento poŽtico-teatral
O que ser‡ dito como sendo um experimento poŽtico-teatral no
texto deste artigo parte da concep�‹o feita por Vargas (2018, p. 32), ao
referir que este procedimento Òenvolveu a cria�‹o de uma partitura c�nica a
partir do texto Prometeu Acorrentado, de ƒsquiloÓ. Segundo este autor
descreve nesta parte de sua tese, o experimento poŽtico-teatral envolve a
cria�‹o e adapta�‹o de movimenta�›es corporais, vocais e suas inter-rela�›es
com a corporeidade, a fim de se criar um fragmento de cena que n‹o necessite ter
as mesmas concep�›es ligadas ˆ dramaturgia liter‡ria, situa�›es cotidianas, nem
muito menos ˆ utiliza�‹o em encena�›es. Esse experimento se refere a um modus operandi de que os atores disp›em
para gerarem matrizes de trabalho e vivenciarem sensa�›es que poder‹o ou n‹o
ser utilizadas ao longo dos seus processos criativos. Esses materiais de
trabalho sobre si fornecem subs’dios para que o ator possa expandir suas
reflex›es para outros contextos e quest›es n‹o necessariamente relacionados ao
trabalho que est‡ realizando naquele momento. TambŽm considero que esta
abordagem seja uma maneira pela qual os atores consigam buscar elementos de
reflex‹o para quaisquer quest›es a partir das rela�›es que estabelecem com a
sua corporeidade por meio de um modus
peculiar de ir desenvolvendo o processo criativo e a pr—pria compreens‹o de seu
trabalho (VARGAS, 2018).
O experimento poŽtico-teatral Ž um procedimento compreendido
de muitas nuances durante o processo criativo, sendo uma delas a cria�‹o da
partitura c�nica. Esse Ž um tipo de pesquisa de campo, na qual o pr—prio campo
Ž o corpo do ator, sua corporeidade, ou seja, as maneiras pelas quais
experiencia, vivencia e se relaciona com as experi�ncias ao longo desse
processo, resultam em reflex›es que n‹o compartimentalizam o corpo, mas o
potencializam como elemento disparador de possibilidades. Este aspecto permite
ao ator conduzir sua pesquisa, considerando o corpo como um ente global de
rela�›es, ou seja, assumindo-o como/em corporeidade (VARGAS, 2018). Apesar de
estar frisando que o experimento poŽtico-teatral desenvolvido por Vargas (2018)
tenha sido efetuado com o intuito de aprofundar reflex›es sobre corporeidade de
maneira ampliada, suas possibilidades como procedimento vi‡vel ˆ investiga�‹o
sobre quest›es relacionadas ˆ sonoridade e voz n‹o devem ser esquecidas, nem
muito menos a sua intr’nseca rela�‹o com o corpo do ator, com sua corporeidade. Esta proposta de trabalho permite conceber uma perspectiva
de desenvolvimento das partituras corporais e vocais, pensando-as como
elementos estŽticos, poŽticos, imbricados, vivenciados de maneira insepar‡vel,
potencializando corpo, voz, emo�›es, sentimentos e sensa�›es como matrizes
un’ssonas e/ou dissonantes em atividade.
Entretanto, faz-se
necess‡rio ressaltar que este tipo de abordagem n‹o visa apenas descrever
procedimentos, processos e vivenciamentos durante a pesquisa de campo. Estas
descri�›es s‹o importantes de serem feitas e, de certa maneira, tambŽm
legitimam, registram e fornecem elementos para se compreender n‹o apenas os
procedimentos adotados e escolhas ao longo do trabalho de campo, mas tambŽm,
poss’veis evid�ncias que estar‹o surgindo para compor o arcabou�o de reflex›es
futuras ˆs pr—ximas etapas da pesquisa em quest‹o. Mas, para alŽm disso, este
tipo de proposta de trabalho de campo possui caracter’sticas de pesquisa
espec’ficas das artes performativas. Desse modo, tambŽm possibilita que
artistas-pesquisadores desta especificidade de ‡rea conduzam suas investiga�›es
encontrando meios que venham ao encontro das maneiras pelas quais eles
desenvolvem seus processos de significa�‹o, reflex‹o e legitima�‹o das
potencialidades evidenciadas em suas pesquisas. Para alŽm das descri�›es dos
procedimentos e vivenciamentos ao longo da pesquisa de campo, neste tipo de
abordagem, a amplia�‹o dos disparadores reflexivos, surgidos ao longo do
processo, se faz necess‡ria como catalisadora das discuss›es propostas nos
objetivos da investiga�‹o que esteja sendo desenvolvida.
Por este motivo, com o intuito de avan�ar a discuss‹o
proposta neste artigo e exemplificar o que vem sendo exposto neste texto, logo
a seguir, ser‹o brevemente descritos alguns princ’pios sobre como se
desenvolveu uma parte da proposta realizada por Vargas (2018) para se trabalhar
com arquŽtipos vocais, associados a ressonadores corporais. Esta divis‹o
textual se faz importante para que, quem estiver a ler, possa dispor de
subs’dios que lhe propicie uma leitura mais fluida sobre quando o experimento
poŽtico-teatral for descrito. Nesse sentido, possibilitar-se-‡ que se percebam
as reflex›es poss’veis sobre como pensar em um tipo de dramaturgia da
corporeidade vocal, configurando-se como uma peculiaridade que se expande ˆ
tŽcnica e se desenvolve por meio de um mergulho estŽtico ao longo do processo
criativo.
ArquŽtipos vocais e o experimento poŽtico-teatral
A proposta de trabalho
com arquŽtipos vocais surge a partir de terap�uticas desenvolvidas em um tipo
de pr‡tica espec’fica de voz-terapia, conforme apresentada por Stein (2009), na
qual a autora descreve detalhadamente exerc’cios de voz-terapia por meio de
arquŽtipos e as tŽcnicas relacionadas a estes procedimentos. Nessas atividades,
foram estipulados e elencados quatro arquŽtipos – Crian�a, Amante,
Guerreiro e M‹e – associados a ressonadores localizados em certas partes
do corpo. O acionamento sonoro de cada um desses arquŽtipos na parte do corpo
relacionada com o ressonador espec’fico de cada um deles, desencadeia
sentimentos/emo�›es/sensa�›es com localiza�›es corporais espec’ficas e
acionadas a partir de uma vibra�‹o sonora da voz no ressonador associado a cada
arquŽtipo em espec’fico (VARGAS, 2018, p. 94).
Devido ao fato de a
tŽcnica sobre os arquŽtipos vocais ser uma proposta singular e que requer
especifica�›es sobre a sua adapta�‹o a partir do que fora descrito por Stein
(2009), por uma quest‹o de espa�amento textual, esta tŽcnica em espec’fico n‹o
ser‡ detalhada neste artigo, uma vez que o objetivo deste texto se foca mais no
que Ž poss’vel apreender a partir do experimento poŽtico-teatral em si e n‹o em
uma das tŽcnicas que propiciaram o seu desenvolvimento. Contudo, caso seja de
interesse do(a) leitor(a) em perceber como a tŽcnica dos arquŽtipos vocais foi
adaptada a uma proposta de trabalho nas artes performativas, a tese de
doutoramento de Vargas (2018) contŽm elementos aprofundados sobre esta
abordagem e o trabalho de Stein (2009) descreve, em detalhes, os procedimentos
relacionados ˆ voz-terapia.
Segundo Vargas (2018, p. 95), neste tipo de abordagem, Òos
indiv’duos t�m possibilidades de se relacionarem de maneira diferente com as
suas sonoridades e descobrir possibilidades ainda n‹o vivenciadas por meio de
outras tŽcnicasÓ. Cabe ainda frisar que Vargas (2018) se utilizou dos
arquŽtipos vocais como uma das abordagens tŽcnicas durante o desenvolvimento de
seu experimento poŽtico-teatral. Entretanto, este autor deixa claro que esta
foi uma escolha particular, o que n‹o significa que outros
artistas-investigadores possam empregar tŽcnicas e abordagens diferentes, caso
desejem desenvolver suas investiga�›es se utilizando de um experimento
poŽtico-teatral. Nesse sentido, antes de descrever sobre o experimento
poŽtico-teatral em si, logo abaixo, ser‹o explicitados, brevemente, os quatro
arquŽtipos escolhidos que foram trabalhados por Vargas (2018), nos quais a voz
era dinamizada, associada a ressonadores corporais espec’ficos, propiciando
experi�ncias emocionais/estŽticas que serviram de matrizes para o processo
criativo que ser‡ descrito logo a seguir neste texto.
Todas as emo�›es
vivenciadas nesses exerc’cios eram percebidas e associadas ˆs suas localiza�›es
nos ressonadores de cabe�a, relacionados a determinadas vozes agudas. Segundo
Vargas (2018, p. 95) relata em seu trabalho: ÒEsse processo me permitia
descobrir sensa�›es emotivas que os sons das vozes desvelavam e a localiza�‹o
corp—rea de onde eles poderiam ser acessadosÓ.
No trabalho com este
arquŽtipo, a voz era deslocada para a parte superior tor‡cica, devendo explorar
todas as possibilidades dos ressonadores presentes nesse local. Estes
exerc’cios pretendiam investigar sonoridades n‹o mais agudas. Mas, agora, de
extens‹o mediana, buscando o encontro desses sons com as emo�›es que poderiam
ser associadas nessa regi‹o do corpo. Segundo Vargas (2018, p. 95), os Òexerc’cios
utilizados envolviam sentimentos relacionados ao amor e ˆ afetividade, aliados
ˆ responsabilidade e ao poderÓ.
Esta etapa do trabalho
envolvia exerc’cios nos quais o impulso vocal deveria partir da regi‹o
diafragm‡tica de maneira din‰mica e expansiva, deixando as sonoridades da’
emergidas, reverberarem ao longo de todo corpo, observando as sensa�›es e
emo�›es que despertavam. Segundo Vargas (2018, p. 96), ÒEsse arquŽtipo Ž
acessado por meio de movimentos e ritmos fortes em uma constante rela�‹o com o
ch‹o e a baseÓ.
Os trabalhos associados
a este arquŽtipo propunham exerc’cios que envolviam o deslocamento do centro de
resson‰ncia da voz para a por�‹o infra umbilical. Segundo Vargas (2018, p. 96),
ÒAs emo�›es aqui trabalhadas, bem como das matrizes corp—reas que esses sons
nos remetem, forneciam ind’cios para o acesso de matrizes de trabalho
relacionadas a sentimentos de conforto, melancolia, saudade, separa�‹o, amor,
generosidade, acolhimento, prote�‹o e sensa�›es de introspec�‹oÓ.
O experimento poŽtico-teatral: criando partituras e
subpartituras
Durante os treinamentos
diariamente realizados ao longo do trabalho de campo, matrizes corporais e
vocais, que estavam relacionadas aos arquŽtipos vocais escolhidos para serem o
foco de trabalho, foram sendo fixadas, assim como suas localiza�›es corp—reas e
as emo�›es ali registradas. Essas matrizes serviam como elementos para a
cria�‹o da partitura f’sica e vocal, assim como tambŽm para o seu resgate e desenvolvimento
do trabalho a cada dia de pesquisa.
Com o intuito de situar
o(a) leitor(a) no contexto da fala e no momento vivenciado pela personagem do
texto ÒPrometeu AcorrentadoÓ, uma simples e breve descri�‹o se faz necess‡ria
para expor alguns aspectos emotivos que o ator considerou como envolvidos na
cena e que foram trabalhados por meio das partituras corporais e vocais. O
trecho escolhido para come�ar a ser encaixado nas partituras trabalhadas foi
uma parte de uma fala da personagem Prometeu que, ap—s doar a chama do
conhecimento e esperan�a aos mortais, Ž condenado por Zeus a ficar acorrentado
no alto de um penedo por toda a eternidade. Diariamente, um corvo vem a este
local para comer o f’gado de Prometeu ao longo do dia. Ë noite, o corvo vai
embora e o f’gado se regenera, para, durante o amanhecer seguinte, iniciar o
mart’rio di‡rio de Prometeu por toda a eternidade. O fragmento de texto
escolhido conta exatamente o momento em que Prometeu, ap—s receber a condena�‹o
divina por ter doado a chama do conhecimento aos humanos, est‡ sendo carregado
atŽ o alto do penedo, preso em correntes e, ent‹o, lamenta a sua situa�‹o,
temendo a chegada do corvo, pois a noite est‡ acabando. PorŽm, se faz
importante salientar que Vargas (2018) tambŽm esclarece que optou pelo texto
ÒPrometeu AcorrentadoÓ como uma escolha particular, em conson‰ncia com os
argumentos acima expostos sobre as particularidades de escolhas deste autor
para o desenvolvimento deste trabalho.
A partir do momento em
que o trecho do texto j‡ havia sido escolhido e a partitura b‡sica de matrizes
f’sico-vocais j‡ estava elencada, foram inclu’das as pr‡ticas com os arquŽtipos
vocais direcionando-os para esse contexto. A partitura corporal-vocal foi
dividida em seis momentos: 1. A subida ao penedo, 2. Preso ˆs correntes, 3.
Lamento, 4. Revolta contra Zeus, 5. Medo do tŽrmino da noite, 6. Chegada do
corvo[6]. Com o intuito de simplificar a escrita deste artigo e
facilitar a sua leitura, o que aqui Ž denominado como sendo uma partitura
corporal-vocal, engloba os conceitos de partitura e subpartitura mencionados
anteriormente neste texto.
Dependendo da frase do
texto, foi utilizado um arquŽtipo vocal diferente. Esta tambŽm foi uma escolha
particular como investigador, no intuito de verificar como o tr‰nsito da voz
pelas localiza�›es corporais de cada arquŽtipo, poderiam conduzir diferentes
emo�›es/sensa�›es/experi�ncias que a personagem Prometeu poderia
sentir/vivenciar/experienciar durante essa fala. Neste caso, o contexto da
personagem Prometeu foi situado dentro das escolhas de condu�‹o tŽcnica para a
partitura e subpartituras. Mas, as sinestesias vivenciadas ao longo deste
processo criativo extrapolam quaisquer personagens, fornecendo elementos
reflexivos ao ator, independentemente de uma rela�‹o com texto e personagem.
Apesar de, neste caso, o ator se referir a quest›es relacionadas ˆ personagem,
o que ele ia percebendo/vivenciando/experienciando ao longo do processo, lhe
fornecia elementos reflexivos a serem desenvolvidos em seu trabalho como
ator-pesquisador para alŽm de situa�›es espec’ficas a este texto e personagem.
As reflex›es suscitadas ao longo deste processo se configuram como inst‰ncias
potentes, catalizadoras de subs’dios ˆs pr—ximas etapas da investiga�‹o. Esta
perspectiva, se refere a um modus particular que alguns artistas podem
ter para conduzir e elaborar as maneiras pelas quais compreendem, se
questionam, refletem e discutem sobre assuntos espec’ficos de/em sua ‡rea do
conhecimento.
Na composi�‹o da
partitura corporal-vocal, Vargas (2018) optou por trabalhar a passagem da
localiza�‹o f’sica de um arquŽtipo vocal para outro de maneira cont’nua. Esta
op�‹o foi adotada para que a cria�‹o n‹o se transformasse apenas em uma
demonstra�‹o tŽcnica somente pass’vel de compreens‹o por aqueles que conhecem
esse processo de trabalho. Muito embora estes procedimentos tenham acontecido
durante um per’odo emp’rico de investiga�‹o de um ator, por meio de um tipo de
processo criativo, com objetivos e direcionamentos relacionados ao que motivou
tal pesquisa, o que est‡ exposto na frase anterior vem ao encontro de ressaltar
que estes procedimentos tambŽm podem ser efetuados pensando em matrizes para
tambŽm serem utilizadas quando de um evento teatral per se. Nesse sentido, as partituras e
subpartituras foram encadeadas simultaneamente, sem impedir o fluxo e
continuidade do desenvolvimento das a�›es. Conforme dito acima, esta foi uma
escolha particular, o que n‹o impede a outros atores de organizarem suas
partituras e subpartituras de maneiras distintas das como foram efetuadas no
trabalho de Vargas (2018). Logo abaixo, alŽm de serem descritos momentos deste
processo criativo, tambŽm ser‹o
expostas algumas percep�›es e reflex›es que foram surgindo ao longo do trabalho
de campo, com o intuito de trazer ao texto deste artigo a ilustra�‹o alargada
sobre como um artista que desenvolveu um trabalho de pr‡tica como investiga�‹o,
conduziu seus catalizadores de reflex›es que viriam a seguir em sua pesquisa.
Entretanto, gostaria de ressaltar que as pr—ximas partes deste texto ser‹o
escritas em primeira pessoa, pois se tratam de descri�›es particulares,
realizadas durante o experimento poŽtico-teatral, conforme dito anteriormente.
Esta abordagem Ž feita com o intuito de compartilhar detalhes deste
procedimento. Mas, afinal, como foi dividido o experimento poŽtico-teatral e
como foi vivenciado pelo ator-pesquisador que o desenvolveu?
A subida ao penedo[7]
Esse momento se referia
ˆ subida de Prometeu ao penedo, j‡ condenado, sendo carregado pelos seus
algozes. Para essa sequ�ncia, foi criado um movimento de subida, em que
Prometeu caminha sentindo o peso das correntes e as dores pelas torturas que
est‡ passando. O som que conduz esse movimento Ž grave, em lamenta�‹o, fazendo
refer�ncia aos lamentos das tragŽdias gregas. Esta sonoridade foi trabalhada
tendo como origem as emo�›es oriundas da regi‹o pr—xima da base infra
umbilical, relacionada ao ArquŽtipo da M‹e. A op�‹o por esse arquŽtipo
vocal, associado a esse ressonador corporal, para esse momento da personagem,
se deu em fun�‹o de ele estar relacionado a sentimentos de dor, melancolia e
sofrimento.
Durante os trabalhos
di‡rios, as percep�›es sinestŽsicas[8] forneceram importantes subs’dios para a identifica�‹o e
fixa�‹o de matrizes corporais e vocais que podem ser dinamizadas em outros
momentos. Considero que essas
percep�›es s‹o muito importantes para despertar a compreens‹o do ator sobre
como operacionalizar seus momentos criativos, ao se entregar a esse tipo de
proposta metodol—gica. Como exemplo disso, descrevo aqui algumas percep�›es
surgidas durante o processo:
Ao trabalhar o ArquŽtipo
da M‹e, sentia uma resson‰ncia grave, muito forte, na altura da crista
il’aca, me trazendo uma sensa�‹o de dor que desperta muitas emo�›es e o choro
de maneira que ainda n‹o consigo control‡-lo. Conforme vou colocando o som
nesse ressonador, vou conseguindo criar o clima da caminhada do Prometeu
(VARGAS, 2018, p. 105).
Ao longo do processo de
vivenciamento das experi�ncias perpassadas pelo som em intr’nseca rela�‹o com a
minha corporeidade, ao trabalhar esses aspectos com este ressonador vocal,
associado ao ArquŽtipo da M‹e, percebi que as sensa�›es do som nessa
regi‹o de resson‰ncia permitiam que as emo�›es fossem expandidas em larga
escala. Esta percep�‹o me pareceu ser uma boa alternativa a se trabalhar com o
objetivo de abordar situa�›es enfrentadas pelas personagens das tragŽdias
gregas. AlŽm disso, essa resson‰ncia de som grave trazia refer�ncias sobre como
acredito que poderia ser um tipo de aplica�‹o dessa fala dentro dos aspectos
cl‡ssicos de melopeia[9], presentes em muitos textos de teatro grego da Idade
Antiga.
Preso ˆs correntes[10]
Essa sequ�ncia Ž bem
r‡pida e se d‡ no momento em que Prometeu termina de fazer o movimento em
espiral de subida ao penedo e tem seus bra�os presos ˆs correntes, sentindo o
cansa�o de tal atividade e o peso de sua senten�a. Ent‹o, Prometeu cai e fica
de c—coras durante a pr—xima
fala. Nesse momento, utilizei o ArquŽtipo do Guerreiro, pois sentia que
era um breve instante de luta, tentativa de mostrar sua for�a e resist�ncia,
mesmo que rapidamente. Entretanto, neste fragmento textual, Prometeu
aceita sua condi�‹o e sua pena, deixando-se prender. Esse momento Ž realizado
em uma fra�‹o de segundos. Mas, a for�a que impulsiona e conduz todos esses
movimentos, surge a partir do impulso sonoro suscitado pelo acionamento do ArquŽtipo
do Guerreiro. Este tipo de impulso sonoro, associado ao ArquŽtipo do
Guerreiro, parte de contra�›es e relaxamentos din‰micos e intensos das
musculaturas envolvidas nos movimentos de apoio diafragm‡tico, trazendo um tipo
de vigor ao momento que se est‡ experienciando.
Lamento[11]
Nesta parte, inicia a
fala de Prometeu propriamente dita. Enquanto ele est‡ agachado, permanece
lamentando sua situa�‹o e o que lhe ocorreu. Inicialmente, foi utilizado o ArquŽtipo
da M‹e, com a mesma localiza�‹o do ressonador corporal utilizada durante A
subida ao penedo. PorŽm, quando Prometeu come�a a questionar os deuses
sobre o seu aprisionamento, o foco de resson‰ncia foi deslocado para a regi‹o
diafragm‡tica, associada ao ArquŽtipo do Guerreiro, pois, durante o
processo criativo, considerei
essa situa�‹o como um momento de revolta, resist�ncia e demonstra�‹o de for�a
da personagem que merecia ser trabalhado desta maneira. O deslocamento da
voz por estas localiza�›es corporais, associadas aos arquŽtipos, foi assim
registrado:
Logo que
comecei a trabalhar essa partitura do Prometeu, fiquei com receio de trabalhar
em cima de apenas um arquŽtipo, pois acredito que ele sinta muitas coisas
enquanto conta a sua hist—ria, passando por m‡goa, dor, sofrimento, raiva,
revolta, amor e solid‹o por exemplo. Talvez, se eu transitar pelos arquŽtipos
consiga imprimir outros coloridos ˆ minha voz, desbravando emo�›es que est‹o
localizadas em algumas partes do meu corpo (VARGAS, 2018, p. 106).
Suscitado por essas
sensa�›es, com o intuito de verificar como faria para Prometeu sentir a dor
localizada na regi‹o do f’gado,
desloquei o foco de resson‰ncia para o ressonador corporal associado ao ArquŽtipo
da Crian�a. Este direcionamento foi assumido, pois, nesse momento da fala,
ao longo dos vivenciamentos do processo criativo, considerei que a personagem se sentia fragilizada,
enfraquecida, impotente e a voz de cabe�a, sendo conscientemente falhada, lhe
aumentava a sensa�‹o de sofrimento e solid‹o. Enquanto a sequ�ncia de
movimentos ia descendo e voltando, ao agachar, considerei que Prometeu ia
sentindo o peso das correntes, causando-lhe dor e o fazendo retornar ao lamento
anterior. Sobre essa situa�‹o,
cito o seguinte:
No momento em que o Prometeu sente a dor
da chaga no f’gado, comecei a buscar essa dor f’sica e me surgiu um som agudo
de grito. Desloquei a voz para o ArquŽtipo da Crian�a, pois nesse local
se pode trabalhar com os sons agudos de maneira mais f‡cil. Ao trabalh‡-los em staccato,
encontrei a sensa�‹o de sofrimento que a personagem sente nesse momento e,
quando fa�o a voz deslizar pelo meu corpo, por cada um dos arquŽtipos, atŽ
voltar para o da M‹e, consigo perceber todo o sofrimento dele (VARGAS,
2018, p. 106).
Ao longo dessa
sequ�ncia, trabalhei a voz para ir se deslocando entre os ressonadores atŽ
atingir o foco de resson‰ncia na regi‹o do ArquŽtipo da M‹e, pois
considero que a personagem volte a ficar melanc—lica e triste, lamentando sua
situa�‹o. Dessa maneira, ao longo do processo criativo, este foi um meio
experienciado que propiciou tais sensa�›es de maneira mais efetiva. Antes de
partir para o pr—ximo momento, Prometeu come�a a se levantar. Para este
’nterim, a motiva�‹o que o conduzia foi trabalhada de maneira a estar associada
ˆ regi‹o do ArquŽtipo do Amante. Entretanto, em fun�‹o disso, aqui, os
sentimentos trabalhados est‹o relacionados
a aspectos do amor, da entrega, da responsabilidade, da compaix‹o, que geram
sofrimentos. Sobre essa transi�‹o, saliento as seguintes descri�›es feitas ao
longo do processo:
Quando Prometeu
vai falar sobre o que fez e do seu castigo, sinto que deve ser algo que ele
aceite, que n‹o questione, pois ama tanto aos mortais, quanto aos deuses. Mas,
aqui, vou explorar o trabalho do ArquŽtipo do Amante, encarando as
emo�›es associadas a essa regi‹o, pelo lado que causam dor e sofrimento, pois,
durante os treinamentos, costumo trabalhar esse arquŽtipo apenas pela sua outra
faceta (VARGAS, 2018, p. 106).
No œltimo grito de
lamento da personagem, antes de falar sobre Zeus, tambŽm houve a op�‹o por se
trabalhar o ArquŽtipo do Guerreiro, porŽm sob outra perspectiva. Agora,
ao invŽs da for�a, foi trabalhado o impulso vindo dessa regi‹o, mas como uma
impot�ncia da personagem frente ˆ situa�‹o. Durante os treinamentos di‡rios, envolvidos no processo
criativo, considerei que esse impulso me ajudava a deslocar a voz para a regi‹o
do ArquŽtipo do Amante para o momento em que Prometeu fala sobre o seu
amor aos homens, conforme foi exposto em:
Procuro
maneiras de transitar com a voz pelos diversos ressonadores. Como percebo que o
Prometeu passa por muitas emo�›es durante essa cena, quero criar possibilidades
para trabalhar os arquŽtipos de diversas formas. Quando ele fala no amor que
ele tem pelos mortais, estou em busca das emo�›es do ArquŽtipo do Amante,
relacionadas ao Rei, Imperador e o seu amor incondicional ˆqueles que acreditam
nele (VARGAS, 2018, p. 107).
A passagem para o
pr—ximo momento come�ava ap—s Prometeu falar sobre a situa�‹o de estar preso em
correntes no alto do penedo. Com o intuito de vivenciar essas sensa�›es da
passagem, os movimentos e a voz foram trabalhados de maneira a mostrar e
vivenciar a sua dor f’sica e emocional. Para tanto, foi realizada a mesma
transi�‹o entre os arquŽtipos feita antes, com o impulso surgindo da regi‹o
diafragm‡tica, associada ao ArquŽtipo do Guerreiro, chegando ˆ regi‹o da
cabe�a, associada ao ArquŽtipo da Crian�a, atŽ voltar ˆ regi‹o infra
umbilical associada ao ArquŽtipo da M‹e. Desse modo, foi trabalhada a
passagem de v‡rias emo�›es da personagem, intrinsecamente associadas ˆs
movimenta�›es corporais e vocais experienciadas neste momento da partitura. Ao
longo do processo, foi poss’vel observar que este procedimento me auxiliou a
preparar a personagem ao pr—ximo momento da fala.
Revolta contra Zeus[12]
Esse Ž um momento
bastante breve, quando Prometeu percebe alguma movimenta�‹o pr—xima ao penedo.
A personagem aproveita a possibilidade de estar sendo ouvido por alguŽm para,
ent‹o, expressar a sua revolta contra Zeus. Aqui, foram trabalhados o ArquŽtipo
do Guerreiro e as emo�›es associadas a essa regi‹o. Como Prometeu est‡
preso em correntes, com o intuito de vivenciar esta sensa�‹o, os movimentos
foram trabalhados por meio de impulsos leves, vindos da regi‹o diafragm‡tica.
As dificuldades sentidas em trabalhar com o ArquŽtipo do Guerreiro foram
descritas ap—s um dos dias de treinamento da seguinte maneira:
Tenho muita
dificuldade em trabalhar o ArquŽtipo do Guerreiro, pois o excesso de
impulso diafragm‡tico me faz perder o controle da voz, podendo faz�-la ficar
muito aguda e n‹o acho que trabalhar essa energia de for�a, revolta e coragem
com sons muito agudos tenham a ver com o Prometeu. S— consigo segurar o tom da
voz, pois puxo a energia do Guerreiro para a base e os movimentos n‹o me
deixam levar pelo tom da voz (VARGAS, 2018, p. 107).
Apesar de ser um momento
r‡pido, a sequ�ncia vocal e corporal da Revolta contra Zeus, me permitiu trabalhar em cima de uma
dificuldade pessoal em lidar com o fluxo de energia associado ao ArquŽtipo
do Guerreiro. AlŽm disso, tambŽm possibilitava dar �nfase a um pequeno
momento da fala da personagem em que ela protesta contra a sua senten�a.
Medo do tŽrmino da noite[13]
Nesta parte da
partitura, ap—s vir da transi�‹o pelo ArquŽtipo do Guerreiro,
rapidamente, deslocava o centro energŽtico para o ressonador associado ao ArquŽtipo
do Amante, pois, ao longo dos treinamentos di‡rios que envolveram o
processo criativo, considerei que esta me foi a via mais efetiva para trabalhar
o momento em que Prometeu fala de seu amor aos mortais. Quando a personagem
escuta algum som se aproximando, considero que este seja o seu œltimo instante
de medo neste trecho do texto, pois Prometeu sabe que o corvo se aproxima para
comer o seu f’gado. Essa sequ�ncia de movimentos foi conduzida pela voz trabalhada
na regi‹o associada ao ArquŽtipo da Crian�a. Como esse arquŽtipo foi
trabalhado em menor propor�‹o que os outros durante a constru�‹o das partituras
e subpartituras desse fragmento de texto, nesse r‡pido momento em que a
personagem teme a chegada do animal que lhe tortura diariamente, aproveitei para encaixar esse
arquŽtipo durante essa transi�‹o. Essa escolha foi feita com o intuito de que,
apesar ser um deus e de compreender a sua pena, considero que, neste momento,
Prometeu pudesse mostrar sua fragilidade e o quanto sofria tambŽm pelas dores
f’sicas causadas pelo corvo. Nesse sentido, ao longo do processo, o ressonador
associado ao ArquŽtipo da Crian�a parecia ser o mais adequado para
potencializar estas sensa�›es neste momento da fala.
Chegada do corvo[14]
Esse era o œltimo
momento da partitura corporal-vocal criada para o experimento poŽtico-teatral.
Na verdade, esse momento se referia a uma œltima experimenta�‹o feita para o
trabalho dos ressonadores associados a arquŽtipos na voz com essa personagem.
PorŽm, neste fragmento da fala, resolvi
pontuar o final da partitura. Quando o corvo chega para comer o f’gado
do Prometeu, ao invŽs de buscar um som relacionado a algum dos ressonadores associados aos arquŽtipos trabalhados, optei por criar uma espŽcie de fermata
para o sil�ncio. Entretanto, apesar de n‹o estar emitindo som, a
condu�‹o do movimento se deu pelo acionamento energŽtico a partir do ArquŽtipo
da Crian�a, associado ˆ sensa�‹o de medo, temor e dor. Essa op�‹o surgiu
ap—s alguns improvisos durante os treinamentos, conforme descrito abaixo:
Hoje, eu queria definir o final da
partitura, mas n‹o sabia que som deixar para o momento em que o corvo come o
f’gado do Prometeu pela œltima vez nessa fala. Deixar um grito sair, poderia
ser uma op�‹o. Tentei faz�-lo vindo da regi‹o do corpo associada a cada um dos
arquŽtipos vocais, mas eles n‹o coincidiam com o movimento que o meu corpo
estava fazendo. Ent‹o, ao tentar experimentar o ArquŽtipo da Crian�a
para esse final, em uma das repeti�›es, n‹o consegui emitir som, s— uma
vibra�‹o do ar, senti como se fosse s— um fluxo energŽtico e, da’, surgiu o
final da minha sequ�ncia, com todas as emo�›es que o sil�ncio precisava gritar
nesse instante (VARGAS, 2018, p. 108).
A experi�ncia do final
dessa partitura permitiu explorar outra possibilidade de acesso aos
arquŽtipos associados aos ressonadores vocais: a n‹o emiss‹o sonora. Contudo, percebi que esse ind’cio vinha
apenas a ressaltar que existem ainda muitos caminhos para se descobrir no
trabalho por meio de arquŽtipos na voz, inclusive, para a utiliza�‹o de
exerc’cios que permitam a explora�‹o de n‹o-sons, de sons n‹o-oralizados, de um
habitat de sentidos que se libertam dos sons, mas que podem se fazer
sentir por quem esteja convivenciando esse momento. A percep�‹o de que o ato de
n‹o emitir um som tambŽm poderia ser acionado nesses ressonadores, associando
essa informa�‹o aos arquŽtipos ali trabalhados, tambŽm me propiciou evidenciar
a possibilidade de expressar textos n‹o-oralizados, mas vivos em lat�ncia energŽtica
de sensa�›es, imagens, vontades, emo�›es, sinestesias, subtextos. Esse fato
tambŽm chamou a aten�‹o para a exist�ncia de uma vida pulsante em um entre-espa�o
n‹o expresso por sons, o que me instigou mais a investigar sobre como seriam
essas potencialidades presentes em n‹o-sons, nos sil�ncios. Ainda h‡ que se
adentrar aos entre-espa�os por onde as rela�›es de/entre corporeidades se
expandem para alŽm do som, mas, ainda assim, potentes em vibra�›es em
corporeidade. Investiga�›es estas que ficaram para trabalhos futuros, j‡ que
n‹o s‹o o foco dos procedimentos descritos no texto deste artigo. Entretanto,
no que tange ˆ reflex‹o da tese desenvolvida por Vargas (2018), h‡ um denso
aprofundamento sobre aspectos relacionados ao subtexto, inconsciente e o
sil�ncio como inst‰ncias vivas relacionadas a aspectos intr’nsecos ˆ
corporeidade. PorŽm, estes ser‹o assuntos para serem ampliados em artigos
futuros e que foram densamente desenvolvidos na tese de doutorado de Vargas
(2018).
Considera�›es finais
A breve descri�‹o feita
neste artigo sobre o experimento poŽtico-teatral efetuado por Vargas (2018)
ilustra uma perspectiva poss’vel para um tipo de etapa de trabalho de campo na
pesquisa acad�mico-art’stica em artes performativas. Esta perspectiva elucida a
possibilidade de profissionais destes campos do conhecimento desenvolverem
processos criativos como fontes de matrizes que lhes fornecer‹o subs’dios para
avan�arem ˆs etapas seguintes de suas pesquisas. Desse modo, sem se ater
necessariamente ˆs metodologias tradicionais de pesquisa acad�mica em artes
performativas, os artistas destas ‡reas podem legitimar e constituir meios outros
ˆ efetiva�‹o de suas investiga�›es, partindo de seu pr—prio contexto de
trabalho em arte, como artistas, em seus processos de cria�‹o.
Este tipo de pr‡tica
como investiga�‹o em artes requer um robusto arcabou�o te—rico-pr‡tico, com o
intuito de estabelecer par‰metros, criar pontes, borrar possibilidades e abrir
caminhos coerentes ˆ proposi�‹o metodol—gica de maneira diferenciada das
tradicionalmente empregadas no meio acad�mico. Conforme dito anteriormente,
este artigo n‹o visa trazer ˆ tona uma inova�‹o metodol—gica no campo das artes
performativas, tampouco deslegitimar outras metodologias de pesquisa. H‡ uma
grande diversidade de possibilidades metodol—gicas para a realiza�‹o de
pesquisas nesta especificidade de ‡rea. O trabalho desenvolvido por Vargas
(2018) vislumbra uma possibilidade outra para este campo do
conhecimento, como tambŽm, ilustra uma perspectiva sobre como um ator mergulha
em seu processo criativo, com o intuito de buscar disparadores reflexivos a
elementos que extrapolam a etapa emp’rica em si.
AlŽm disso, a
reafirma�‹o de pesquisas acad�mico-art’sticas que se desenvolvam a partir de
abordagens metodol—gicas que se distinguem de alguma maneira das tradicionais,
assim como tambŽm de sua publica�‹o e divulga�‹o, corroboram para o
fortalecimento e estabelecimento de possibilidades outras ˆs pesquisas
no contexto contempor‰neo. Mas, para que isso seja poss’vel, avaliadores e
consultores de peri—dicos espec’ficos de ‡rea, assim como acad�micos que
orientam e conduzem pesquisas nas universidades e centros de
investiga�‹o/cria�‹o art’stica, necessitam estar abertos e dispon’veis a estas
possibilidades outras, distintas das tradicionalmente realizadas e
publicadas. Desse modo, alŽm de se estar consolidando outras
perspectivas e caracter’sticas destas especificidades de ‡reas do conhecimento,
se est‡ contribuindo para ressaltar suas singularidades, sem que isso
signifique minimizar critŽrios de qualidade cient’ficos, acad�micos e
art’sticos.
No que tange aos
aspectos relacionados ˆ corporeidade vocal, neste artigo fica evidenciada uma
proposta singular em se experienciar possibilidades vocais por meio de uma
perspectiva estŽtica que se prop›e a desenvolver pr‡ticas corporais e vocais de
maneira indissociada. AlŽm disso, neste texto, a partir do trabalho de Vargas
(2018), tambŽm fica evidenciada uma maneira particular para artistas dessa ‡rea
descreverem seus percursos de pesquisa, metodologias, pedagogias e reflex›es ao
longo dos processos criativos. Com isso, tambŽm considero poss’vel vislumbrar
esta abordagem como um tipo de proposta diferenciada ao trabalho criativo dos
profissionais das artes performativas.
Trabalhar poŽticas
relacionadas ˆ corporeidade vocal suscita que as(os) artistas se entreguem a
experienciar e vivenciar situa�›es criativas para alŽm das tŽcnicas previamente
adquiridas e/ou desenvolvidas. Desenvolver investiga�›es na perspectiva da
corporeidade vocal propicia englobar as reflex›es de maneira a n‹o desvincular
as pedagogias, processos de significa�‹o e matrizes reflexivas oriundas das
percep�›es e viv�ncias integradas entre corpo e voz. Esta abordagem requer uma
genu’na e sincera disponibilidade aos processos inerentes ao ato criativo.
Produzir conhecimento a partir dos contextos dos processos criativos de
artistas, contribui para o espraiamento, progresso, desenvolvimento e
divulga�‹o de peculiaridades caracter’sticas a este of’cio. AlŽm disso, este
tipo de abordagem tambŽm exp›e maneiras diferenciadas de se operacionalizar o
conhecimento e suas reverbera�›es poss’veis no campo da pesquisa
acad�mico-art’stica.
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[Recebido em 17 out 2020 – Aceito em 17 set
2020]
O Saci centen‡rio: uma an‡lise mitocr’tica de Saci Perer� – resultado de
um inquŽrito
The 100-year-old Saci: a mythocrytic analyses
on Saci Perer� – result of an inquiry
Andriolli Costa [15]
https://orcid.org/0000-0002-8589-27
Resumo: Este trabalho revisita o livro O Saci Perer� – Resultado de um
InquŽrito, organizado por Monteiro Lobato em 1918. O InquŽrito conta
com mais de 70 depoimentos que d‹o a ver vers›es plurais do mais brasileiro dos
mitos: o saci – duende negro, com heran�a europeia e ind’gena. Partindo
do levantamento da Narrativa Can™nica e do reconhecimento do lastro simb—lico
do Nome do mito, o trabalho d‡ in’cio a uma an‡lise mitocr’tica fundamentada na
vertente arquetipol—gica da Teoria Geral do Imagin‡rio, buscando evidenciar as
constela�›es simb—licas que emergem da obra. Tensionando leituras de que o
texto evocaria imagens racistas e demonizadas, a partir da an‡lise encontramos agrupamentos
referentes aos mitologemas do Ind’gena, do P‡ssaro, do Escravo, do
Transgressor, do Dem™nio e do Her—i, que evidenciam uma complexidade inata no
mito enquanto aquele que hesita entre aliado e castigador, entre aparentado do
diabo e eleito de Deus, entre desvio mantenedor do status quo e
inspira�‹o para a liberdade.
Palavras-chave: Saci; Imagin‡rio; Folclore; Mito; Monteiro Lobato.
Abstract: This
article revisits the book O Saci Perer� – resulto of an inquiry,
organized by Monteiro Lobato in 1918. The Inquiry counts on more than 70
testimonials that gives us plural versions of the most Brazilian of the myths;
the saci - a black and legless imp with a red cap inherited from the European
gnomes and with indigenous origin. Starting with the identification of the
Canonical Narrative and the recognition of the symbolic coverage of the Name of
the myth, this works develops a mythocritic analysis based on the
archetypological aspect of the General Theory of the Imaginary, seeking to
highlight the symbolic constellations that emerge from the ouvre. Tensioning
readings that the text would evoke racist and demonized images, through the
analysis weÕve found the following mythologems: the Indigenous, the Bird, the
Slave, the Transgressor, the Demon and the Hero, which show an innate
complexity in the myth as that who hesitates between ally and punisher, between
the devil and the elect of God, between the deviation used to maintain the
status quo and the inspiration for freedom.
Keywords:
Saci; Imaginary; Folklore;
Myth; Monteiro; Lobato.
Introdu�‹o
O ano era 1917 quando Monteiro Lobato usou das
p‡ginas que dispunha no Estadinho, suplemento do jornal O Estado de
S. Paulo, para fazer uma convocat—ria. O escritor j‡ ganhara notoriedade
anos antes com a publica�‹o de artigos que consolidavam a imagem do caipira
enquanto um parasita da terra e ep’tome do atraso, seja devido a pr‡ticas de
cultivo antiquadas (como a coivara), pela suposta pregui�a ou pelo modo de vida
ÒpacatoÓ. Afeito a pol�micas e sempre de dedo em riste, entretanto, Lobato
retornava desta vez ˆ tem‡tica interiorana para encontrar nela n‹o mais o bode
expiat—rio da conjuntura brasileira, mas sua panaceia. Buscava, para tanto,
realizar um inquŽrito. ÒSobre o futuro presidente da Repœblica? N‹o. Sobre o
saciÓ (LOBATO, 2008, p. 36). Ambos, a obra e o mito que a inspirou, ser‹o
objeto deste estudo.
Muitos compreendem a campanha lobatiana, que
trouxe o duende perneta como estandarte, mero reflexo de seus arroubos
nacionalistas. E h‡ motivos para isso. No mais puro deboche, o autor dedica o InquŽrito,
por um lado, ˆ Òsaudosa Tia EsmŽriaÓ e a todas as pretas velhas contadoras de
hist—rias; por outro, ao bairro do Trianon, regi‹o que elegeu como substrato da
goma europeia na capital paulista. No mesmo per’odo, o autor j‡ se demonstrava
desgostoso com o estrangeirismo que invadia o Brasil nos modos, no vocabul‡rio,
e especialmente na arte. Revolta-se especialmente com est‡tuas de duendes
barba�udos, encapotados para o frio sob o sol tupiniquim – reflexo do que
julgava ser uma covarde estŽtica nacional. Para Lobato, dever’amos assumir
nossos motivos, com imagens n‹o de an›es nibelungos, mas de curupiras,
papagaios, macacos ou, Ž claro, de sacis (LOBATO, 2008, p. 29).
Seria uma incorre�‹o, entretanto, limitar o
lan�amento do InquŽrito ˆ busca pela valoriza�‹o do nacional –
especialmente tendo em vista a pesada cr’tica lobatiana ao caipira e sua
admira�‹o ˆ modernidade, ˆ indœstria e aos Estados Unidos. O que a explica,
portanto? Uma resposta poss’vel pode ser encontrada nas ra’zes simb—licas do
imagin‡rio. ƒ de se lembrar que est‡vamos no ‡pice da Grande Guerra, a primeira
atŽ ent‹o. As promessas de progresso permanente da tecnologia, que nos levaria
ao apogeu da evolu�‹o humana, se concretizavam em forma de carnificina. O mito
de Prometeu, que trazia as promessas do fogo e da TŽcnica para o homem, se
convertia na desumanidade f‡ustica daquele que perdeu sua alma na busca pelo
sucesso (DURAND, 1998, p. 256).
Essa rela�‹o de descrŽdito moment‰neo com o
progresso maquin’stico est‡ manifesta na abertura do InquŽrito, j‡
publicado na forma de livro. Nela, percebemos que, ˆ brutalidade cometida pelas
na�›es ditas civilizadas, Lobato buscou um contraponto no saci e em tudo o que
derivava a partir dele (o interior, a natureza, a pilhŽria e, Ž claro, a
liberdade).
Quem se afoutasse a abrir uma folha
sorvia sangue dos telegramas ˆ se�‹o livre. Um engulho. Foi quando surgiu o
Saci, e veio com suas diabruras aliviar-nos do pesadelo. Por v‡rias semanas
alvorotaste meio mundo, oh infernal maroto, e desviaste a nossa aten�‹o para
quadro mais ameno que o trucidar dos povos. Bendito sejas! Est‡s perdoado de
muitas travessuras por haveres interrompido, por um momento, em nossa
imagina�‹o, a hedionda sess‹o permanente de horror, aberta pelo sinistro 2 de agosto
de 1914, de execrabil’ssima mem—ria (LOBATO, 2008, p. 27).
No total, foram mais de 70 depoimentos recebidos
para o projeto que se tornaria publica�‹o. Certas cartas traziam um incontido
deboche, outras poucas uma cren�a velada. A maioria recordava com nostalgia as
lembran�as da meninice encantada pelas hist—rias do mito. O mŽtodo do InquŽrito
coletivo, diferente do ensaio individual, favoreceu a pluralidade de imagens.
Por certo que h‡ um recorte de classe imediato entre os informantes – no
m’nimo na quest‹o da alfabetiza�‹o, j‡ que os relatos foram enviados por
escrito – s— que ainda assim abre-se espa�o para imagens que independem
da vis‹o de mundo de um œnico autor. Assim, por certo que o racismo e a eugenia
manifestam abertamente nas correspond�ncias de Lobato e de modo latente na sua
fic�‹o (HABIB, 2003) n‹o devem ser ignorados. No entanto, a for�a simb—lica que
d‡ forma ao saci antecede e muito as elocubra�›es do autor sobre ra�a.
Neste trabalho, filiado ˆ Teoria Geral do
Imagin‡rio, revisitamos Saci Perer�
– Resultado de um InquŽrito pouco ap—s o centen‡rio de sua publica�‹o
para buscar na obra cultural as respostas que apenas a mitocr’tica pode
oferecer: quais imagens simb—licas constelam a partir do saci no InquŽrito?
Como elas s‹o dinamizadas por uma sociedade marcadamente racista e que sa’a h‡
apenas tr�s dŽcadas da aboli�‹o da escravatura? E, acima de tudo, Ž poss’vel a
partir da obra compreender o porqu�, mesmo um sŽculo depois, o saci permanece
sendo um dos mais mitos mais famosos do pa’s?
A ÒmitodologiaÓ durandiana, como ele mesmo a
batiza, se centra no estudo do mito enquanto imagin‡rio manifesto e busca
analisar as redund‰ncias da imagem em uma obra cultural, que se repete para
melhor impregnar e persuadir (DURAND, 1998). Compreendendo o mito como a
narrativa, o mitologema como seu esqueleto e os mitemas como as menores
partes narrativas que constituem o mito (DURAND, 2012), o percurso consiste em
identificar e organizar os mitologemas e mitemas para a partir deles orientar a
an‡lise. Assim, perseguiremos a presa m’tica no texto do InquŽrito para
tirar suas consequ�ncias em uma an‡lise que, embora n‹o ignore as controvŽrsias
envolvendo a biografia do autor, a tensione para encontrar no pr—prio texto
seus sentidos epif‰nicos.
O InquŽrito
J‡ consolidado na imprensa paulista, com quem
colaborava frequentemente com artigos provocantes que movimentavam a audi�ncia,
Lobato passou a insistir na tem‡tica do saci em um artigo publicado no dia 24
de janeiro de 1917. O gancho para o assunto foi trazido por um companheiro de
reda�‹o: Manuel Lopes de Oliveira Filho, o Manequinho Lopes. O bi—logo, hoje
considerado ÒpaiÓ do Parque Ibirapuera, era tambŽm articulista do jornal e,
segundo Lobato, um grande investigador da l’ngua Tupi e das culturas populares.
Lopes buscou plasmar a figura do duende brasileiro em Òbarro do Po‡Ó[16],
oferecendo o motivo perfeito para o texto lobatiano: a falta de representa�›es
art’sticas dos mitos brasileiros.
Figura 1 – Saci
de Manequinho Lopes
Fonte:
ESTADÌO, 1917, p. 4.
Se o medo e a escurid‹o, reflete Lobato, foram capazes
de gerar tanto os deuses gregos imortalizados pelos aedos quanto a corte
das fadas em sonhos preservados pela dramaturgia de Shakespeare; no Brasil, que
em nada lhes devia no quesito da fant‡stica popular, faltava ainda o
envolvimento dos artistas para abra�ar de vez essa cultura. N‹o apenas por
desinteresse, mas por falta de acesso. Afinal, justifica o autor, se era comum
encontrar tomos dos mais variados dedicados ˆ mitologia celta nas bibliotecas pœblicas,
o mesmo n‹o pode ser dito dos livros sobre nosso folclore que raramente
conspurcavam o nobre ambiente livresco. Para manter a honestidade do registro,
Lobato recomendava ir ao povo. ÒAfundar na ro�a para uma consulta ao grande
livro n‹o escrito da crendice popularÓ (LOBATO, 2008, p. 32).
Talvez aos olhos de hoje a assertiva de Lobato possa
parecer banal. No entanto, Ž preciso lembrar que na Žpoca, especialmente nos
peri—dicos dominados por uma elite intelectual altamente excludente, tudo
aquilo ligado ao folcl—rico era abordado pela perspectiva do ex—tico, pouco
mais que um folhetim de curiosidades. Basta ver, por exemplo, aquele que Ž
considerado um dos primeiros artigos de jornal no qual o mito do Saci Perer� Ž
mencionado. Publicado em 1859 no Correio Paulistano, o texto j‡ se
coloca na defensiva, justificando-se o tempo todo. O pedido de desculpas ao
mesmo tempo em que apascenta o pœblico, menospreza de in’cio todo o conteœdo
das narrativas que investiga
Respeit‡vel
leitor, vener‡vel cr’tico de testa enrugada e olhar inspirado, n‹o vos
revoltais contra as hist—rias populares que vou come�ar a escrever. S‹o cren�as
err™neas e muitas vezes c™micas as do povo, mas nem por isso destitu’das de
interesse; recreiam a imagina�‹o, acalmam por vezes os cuidados do esp’rito e
s‹o para muitos recorda�‹o doce do passado (CORREIO PAULISTANO, 1859, p. 2).
Se o Correio j‡ antecipava cr’ticas, Lobato n‹o
esperava menos pol�mica quando trouxe a tem‡tica ao Estad‹o meio sŽculo
depois. E se alguns leitores se mostraram ultrajados com um jornal ÒsŽrioÓ
gastar tinta e papel com Òt‹o grosseira supersti�‹o popular, dessas que dep›e
contra os nossos crŽditos de civilizados perante as na�›es estrangeirasÓ
(LOBATO, 2008, p. 35), muitos outros se envolveram com a narrativa j‡
nost‡lgica. O interesse havia sido despertado.
Lobato (2008, p. 37) encontrou no Perer� – tido
por ele como a mais original de nossas cria�›es populares – o
protagonista perfeito para sua campanha. Encantado resultante do imagin‡rio do
ind’gena, do negro e do europeu, defendia Lobato, o saci era a s’ntese da
cultura brasileira. O mito, explica ele, Òvem do aut—ctone que lhe deu o nome
atual, corruptela de ‚aa cy perereg[17]. Sofreu o influxo do africano, passando
de caboclinho a molecote. Modificou-se por injun�‹o da ps’quica portuguesa. O
mesti�o meteu nele muita coisa de seuÓ (LOBATO, 2008, p. 38). Estudar o saci,
desta forma, era estudar o Brasil
O inquŽrito se consolidou a partir de cartas dos
leitores que deveriam responder a uma trinca de perguntas orientadoras.
a) Sobre a sua
concep�‹o pessoal do Saci; como a recebeu na sua inf‰ncia; de quem a recebeu;
que papel representou tal crendice na sua vida, etc.;
b) Qual a forma
atual da crendice na zona em que reside;
c) Que hist—rias
e casos interessantes, passados ou ouvidos sabe a respeito do Saci.
Nem todos se valeram deste expediente, chegando a
enviar mœsicas, poemas ou relatos de mem—ria – em hist—rias escutadas na
inf‰ncia pela voz de mucamas, amas de leite, ex-escravos ou funcion‡rios da
fazenda. Outros abra�aram o empreendimento e foram a campo conversar com
caboclos, boiadeiros, parentes mais velhos. Retratos de distin�‹o de classes
entre quem contava e quem ouvia, por um lado, mas por outro um resumo da
din‰mica do folclore – transmitido pela oralidade, mas fixado por lastros
simb—licos ainda mais poderosos mobilizados pelo imagin‡rio.
A participa�‹o foi consider‡vel e gerou um livro
publicado em 1918. No total, a publica�‹o contou com 73 depoimentos, incluindo
um assinado pelo pr—prio Saci e redigido por Lobato. O grosso das
correspond�ncias vinha de S‹o Paulo e interior, mas tambŽm houve depoimentos
enviados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Outros, em seus relatos,
mencionavam tambŽm os estados de Goi‡s, Mato Grosso e Paran‡, e um leitor, de
maneira ampla, a regi‹o Nordeste. Uma amostragem concentrada – focada nos
leitores do jornal paulista – mas que j‡ demonstrava a for�a do mito pelo
territ—rio nacional.
O envolvimento do pœblico n‹o foi obra do acaso. O
saci movimenta emo�›es que v‹o muito alŽm da nostalgia, e remete a imagens
ancestrais que nos ligam nacionalmente enquanto brasileiros e, em sentido
amplo, enquanto g�nero humano. ƒ isso que percebemos em nossa Mitocr’tica.
Primeiros passos
Nos estudos do mito Ž importante ter como ponto de
partida dois elementos distintos: o reconhecimento da narrativa can™nica e a identifica�‹o do nome verdadeiro que o mito assume. Nomear Ž conhecer. S‹o esses
elementos que ser‹o tensionados pela mitocr’tica – por meio da
identifica�‹o dos mitologemas e organiza�‹o de mitemas redundantes – para
que enfim o mito ent‹o se revele.
A narrativa can™nica, como sugere Eunice Gomes, n‹o Ž
um resumo de textos sobre o mito, mas aquilo que o sistematiza (GOMES, 2011).
Seria algo como um modelo padr‹o, um tipo ideal weberiano, que forma sua
representa�‹o hegem™nica. Esta imagem Ž constru’da tendo por base n‹o apenas o
senso comum, mas tambŽm a influ�ncia midi‡tica, em um processo de
retroalimenta�‹o no qual o texto cultural se torna mais coerente, menos
arracional, e de mais f‡cil compartilhamento.
No caso do mito do saci, o c‰none fala de um moleque
negrinho, de uma perna s—, que pratica todo o tipo de diabruras, mas sem nunca
ser verdadeiramente mal. O saci carrega por vezes um cachimbo, veste carapu�a
vermelha – a fonte dos seus poderes m‡gicos – e se desloca por meio
de um redemoinho. Interessante notar que falar de saci Ž, imediatamente, falar
em modos de sua captura. Mesmo hoje a grande atividade escolar de celebra�‹o do
folclore costuma ser uma ca�a ao saci.
O S’tio do Picapau Amarelo, sŽrie infantil
escrita por Lobato entre 1920 e 1947 – e que contou com inœmeras
adapta�›es audiovisuais – institucionalizou um desses mŽtodos: o uso da
peneira para cont�-lo e o roubo da carapu�a para desempoder‡-lo. Aquele que
toma a carapu�a do saci ganha poder sobre ele, e, tendo-o preso, pode
chantage‡-lo para que realize os desejos de seu captor. ÒA for�a dele est‡ na
carapu�a, como a for�a de Sans‹o estava nos cabelos. Quem consegue tomar e
esconder a carapu�a de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno
escravoÓ (LOBATO, 2005, p. 18, grifo nosso).
Com o tempo, a narrativa can™nica vai sofrendo tamanho
influxo cultural que pode paulatinamente se afastar dos mitologemas originais,
perdendo mitemas em um processo de esvaziamento e desbastamento. No n’vel
m‡ximo da estereotipia, temos apenas a casca do mito, um nome que nada mais
diz, uma imagŽtica sem lastro de sentido. Num momento anterior a este, quando
apenas um mitema Ž valorado enquanto os demais s‹o suprimidos, diz-se que o
mito sofreu heresia – termo usado em seu sentido etimol—gico, como
a Òescolha de uma œnica vis‹oÓ (DURAND, 2010, p. 144).
A for�a da m’dia na constru�‹o desta narrativa
can™nica desbastada se mostra quando o pr—prio lastro da adapta�‹o original vai
se perdendo nos v‡rios n’veis de massifica�‹o da mensagem. Monteiro Lobato
evidentemente se inspirou no material colhido em seu InquŽrito para
compor sua vers‹o liter‡ria do Saci no Picapau Amarelo, publicado tr�s
anos depois. Ainda assim, precisou fazer escolhas. Na obra infantil, o saci tem
costume de chupar sangue dos cavalos. Traz as m‹os furadas como duendes
portugueses e carrega ainda muito de demon’aco, marcadamente pelo temor a
objetos religiosos e ao cheiro de enxofre. Nas subsequentes adapta�›es
televisivas, o duende brasileiro perdeu muito de sua refer�ncia religiosa,
deixou o cachimbo de lado, foi destitu’do do furo nas m‹os e tornou-se mais
moleque do que diabrete.
Por vezes, um mito est‡ mobilizando mitemas t‹o
distintos – ou ordenados em constela�›es t‹o diferentes – que pode
carregar falsamente um nome, enquanto escamoteia outro (DURAND, 1998, p. 247). No
InquŽrito encontramos uma sŽrie de varia�›es alŽm do tradicional Perer�,
atribu’das a onomatopeias do canto de p‡ssaros: Saci CeperŽ, Saci Cerer�, Saci
Trique, Saci Siriri, Saci Serumperer�, Saci Perereca, Saci Sater�, Saci Mofera,
Saci Saper�, Saci Sader�, Saci Patar�, Saci Sia-Teresa.
Lobato (2008), todavia, aceita mais a sugest‹o de
Manequinho Lopes: viria do Tupi ‚aa cy
perereg, olho mau saltitante, mas salienta que a etimologia n‹o ficou
comprovada. O nome, no caso, indicaria que o duende possui Òolhos doentesÓ e,
portanto, sempre vermelhos. Curioso Ž perceber que a vis‹o, sempre ligada ˆ
percep�‹o e a capacidade de discernir Ž falha nesta interpreta�‹o do saci,
fazendo com que as fronteiras entre certo e errado n‹o fossem facilmente
distingu’veis para ele.
A miopia, por outro lado, tambŽm prejudica a ag�ncia.
Algo que n‹o percebemos na etimologia proposta por Teodoro Sampaio. ÒNegrinho
irrequieto e malŽfico, tendo um dos olhos doente (�a-�y) e outro muito vivo e
buli�oso (�a-perer�)Ó (SAMPAIO, 1901, p. 311.) Diferente do Perer� de Lopes, o
Saperer� carregaria em si a dualidade do olho bom e do mau. Como as l’nguas
ind’genas s‹o baseadas na oralidade, n‹o na escrita, isso quer dizer que o
texto escrito exige forma fixa, enquanto o oral permite que os v‡rios
entendimentos coexistam ao mesmo tempo e na mesma hist—ria.
H‡ ainda outra sugest‹o de origem aut—ctone: deriva�‹o
do mito Guarani do Yasy YaterŽ que, conforme Juan Ambrosetti, significa
Òfragmento da luaÓ. N‹o a lua rom‰ntica e acalentadora, mas masculina, enganosa
e sedutora. Os primeiros registros tanto de Saci, quanto de Yasy s‹o
contempor‰neos; datam da segunda metade do sŽculo XIX. Imposs’vel afirmar com
certeza qual mito antecedeu o outro, ainda que o consenso indique a origem
ind’gena. No entanto, apesar da proximidade dos nomes, o processo de deriva�‹o
– com supress‹o de mitemas e acrŽscimo de outros – gerou mitos
completamente distintos. Ambrosetti (1894, p. 135), ao descrever o mito do
YaterŽ, o faz com os seguintes termos:
Um
an‹o loiro, bonito, que anda coberto por um sombreiro de palha e levando um
bast‹o de ouro em sua m‹o. Seu of’cio Ž o de roubar os meninos de colo, que
leva para o monte, lambe, brinca com eles e logo os abandona envoltos em trepadeiras.
[...]. N‹o falta quem assegure que ele rouba tambŽm as mulheres bonitas, que
s‹o igualmente abandonadas, e que o filho que nasce desta uni‹o, com o tempo,
tambŽm ser‡ um Yasy YaterŽ.
N‹o
se pode ignorar que o duende Guarani ser descrito como loiro rende, de
imediato, o qualificativo de ÒbonitoÓ, enquanto a feiura Ž frequentemente
atribu’da ao saci. Neste relato, em espec’fico, n‹o se fala da cor de sua pele;
mas Ž frequentemente descrita como p‡lida feito o satŽlite terrestre. J‡ no
pr—prio InquŽrito, beleza Ž um atributo mencionado apenas uma vez quando
atribu’da ao saci, enquanto que ÒfeioÓ ou Òhorr’velÓ – de maneira
expl’cita e impl’cita – s‹o recorrentes. No depoimento 59 temos um
exemplo desta feiura para o informante: cara quadrada de preto velho, nariz
chato, olhos vermelhos e embriagados, orelhas enormes, l‡bios grossos, boca
torta de fumante (LOBATO, 2008, p. 298). S‹o as mobiliza�›es do mitologema do
Escravo – onde constelam imagens ligadas ˆ ra�a, ˆ captura, ˆ servid‹o
for�ada quando a carapu�a Ž tomada.
Em um trabalho pioneiro, Renato Queiroz comparou todos
os adjetivos e qualificadores ligados ao saci no texto fonte organizado por
Lobato com uma pesquisa de campo que desenvolveu no interior de S‹o Paulo cerca
de 70 anos ap—s a publica�‹o do InquŽrito. Levanta com isso o argumento
para sua cr’tica introdut—ria: o InquŽrito, enquanto campanha organizada
por um ve’culo de imprensa, oferece um recorte elitista dos depoimentos. Para ele,
o mito se ajustava perfeitamente aos interesses ideol—gicos de setores da
classe dirigente da Žpoca no sentido de discriminar simultaneamente negros e
caipiras. As refer�ncias ao Saci e suas a�›es reproduziriam a maior parte dos
estere—tipos depreciativos com os quais s‹o definidos os negros na sociedade brasileira.
A pr—pria falta de perna indicaria essa defici�ncia como mais um
elemento de desaforo (QUEIROZ, 1987, p. 70).
Por outro lado, em seu trabalho de campo que buscava
um recorte caipira, Queiroz encontra varia�›es que julga consider‡veis nas
descri�›es do mito. O duende continua negro, mas menos demon’aco e animalesco.
E Òn‹o cont�m qualquer refer�ncia ao Ôfartum peculiar aos negrosÕ e muito menos
ao odor de enxofre, que tanto incomodavam os olfatos sens’veis dos informantes
de Monteiro LobatoÓ (QUEIROZ, 1987, p. 75).
O antrop—logo se questiona como foi poss’vel que um
diabrete preto, perneta e migrante rural acolhesse tanta simpatia em uma sociedade
t‹o profundamente marcada pelo preconceito racial, seguidora de princ’pios
crist‹os e ‡vida pela urbaniza�‹o (QUEIROZ, 1995, p. 142). Para ele, a resposta
foi uma paulatina domestica�‹o do saci, que se tornou mais moleque, perdendo
tra�os assustadores e diab—licos, num processo que exploramos ao refletir sobre
a narrativa can™nica. Em seu racioc’nio, entre imagens de bandido, malandro e
buf‹o, o saci continua refletindo o mesmo lugar destinado aos negros nas
narrativas. A dignidade e respeitabilidade permaneceriam, assim, Òexclusivas
aos brancosÓ (QUEIROZ, 1995, p. 147).
Outro ponto de interesse na pesquisa de Queiroz est‡
na forma como sugere a rela�‹o do mito do saci com a popula�‹o negra. Esta
liga�‹o se daria fundamentalmente por uma perspectiva utilitarista. Presume ele
que os escravos Òtivessem grande interesse em manipular a figura do moleque
travesso, atribuindo ˆs suas peraltagens uma sŽrie de ocorr�ncias –
pequenos furtos, quebra de utens’lios etc. – pelas quais, n‹o fosse o Saci,
acabariam sendo mais seriamente responsabilizados e punidosÓ (QUEIROZ, 1987, p.
92).
A an‡lise materialista de Queiroz certamente Ž v‡lida,
mas cabem ressalvas. Primeiramente, por ignorar o valor simb—lico das
narrativas, como se as a�›es concretas estivessem descoladas de uma
movimenta�‹o do mito no imagin‡rio – ou como se o imagin‡rio n‹o tivesse
consequ�ncias concretas. Para alŽm disso, esteve ausente tambŽm na sua leitura
o fato de que o mito n‹o Ž est‡tico, mas din‰mico. Ao analisar qualquer mito
dŽcadas ap—s um primeiro estudo, a degrada�‹o ou incorpora�‹o de mitemas Ž
inerente ao objeto. Quem se domesticou foi o saci ou a sociedade? O racismo n‹o
desapareceu, Ž claro, mas escamoteia seu rosto.
Vale apontar: o depoimento que abre o InquŽrito
Ž assinado por uma mulher de fam’lia negra e prolet‡ria, que incorpora no texto
refer�ncias raciais que hoje percebemos racistas (LOBATO, 2008, p. 41). Em
diversos depoimentos, os depoentes entrevistam informantes de classes pobres,
v‡rios negros, e incorporam o relato em linguagem direta, mimetizando a
oralidade e a pros—dia dos informantes. E mesmo esse grupo atribui descri�›es
recorrentes no que diz respeito ao mito: feiura, fedor, apar�ncia animalesca,
etc. Um exemplo ilustrador de uma realidade da Žpoca: o racismo n‹o era um
pecado da elite que assinava o Estad‹o, mas uma condi�‹o de tal maneira
imbricada no pensamento que emergia em todas as inst‰ncias do social, nas
ci�ncias, na elite branca e no proletariado negro.
O racismo d‡ forma ao registro, mas ser‡ que tambŽm afeta
os mitologemas, as estruturas que fundamentam o mito? N‹o seria essa uma
redu�‹o ao mitologema do Escravo? Veremos a seguir.
A mitocr’tica
Na investiga�‹o dos relatos do InquŽrito, relacionamos
os seguintes mitologemas: o Ind’gena, o P‡ssaro, o Dem™nio,
o Her—i, o Transgressor e o j‡ abordado Escravo. A
refer�ncia ao saci ind’gena, cuja origem Tupi-Guarani exploramos acima, aparece
no texto apenas nos textos introdut—rios escritos por Lobato ou nos introitos
de Manequinho Lopes, ambas tentativas de racionalizar o mito. Entretanto,
encontramos alguns entrecruzamentos espa�ados com os mitemas evocados pelo
Yasy: em especial o do Sequestro e da Sedu�‹o. O depoimento 10 Ž
o œnico que fala de um saci mais sexualizado, tentador de mo�as, mas sem
refer�ncias a gravidez (LOBATO, 2008, p. 75). Por outro lado, os verbos
ÒatrairÓ, ÒsumirÓ e ÒarrastarÓ para o mato repetem-se ao longo do texto, sendo
aquele que sofre a a�‹o um grupo de crian�as, animais e, em uma œnica men�‹o,
as ÒcrioulasÓ (LOBATO, 2008, p. 354). Atravessamentos entre Saci e Yasy se
mostram claramente no depoimento 53, em que o duende Ž descrito como negro, mas
com cabelos cor de ouro e portando um peda�o de pau.
No mitologema do P‡ssaro, encontramos a for�a da
origem ornit—loga. Oito depoimentos falam sobre o saci se transformar em
p‡ssaro, numa forma frequentemente ligada ˆ tristeza e melancolia, a um castigo
ou ao envelhecimento. Ao observar os sons atribu’dos ao saci, curioso Ž
perceber que, com exce�‹o do depoimento 70, o cantar do p‡ssaro Ž sempre descrito
como lamentoso, transmitindo toda sua dor, enquanto o assovio do duende, em
nove das dez vezes em que Ž mencionado, Ž descrito como zombeteiro, estridente
e desafiador.
Enquanto
o saci ave chora de tristeza, o saci Transgressor diverte-se ˆs gargalhadas e
assovios. Mais do que um buf‹o, Ž um profanador, e concentra a�›es vinculadas
ao rompimento de proibi�›es e de interditos. Seu habitat s‹o as
encruzilhadas, ou as estradas que percorre sempre nos hor‡rios de transi�‹o
– tabus frequentes no imagin‡rio popular. Saci circula ˆs desoras, nas
horas mortas ou nas Òhoras de ave MariaÓ[18], alŽm de
perseguir quem trabalha em dias santos. O rompimento da interdi�‹o Ž sua norma,
mas tambŽm sua maldi�‹o. ƒ filho de Jabiru com mulher que casa tr�s vezes ou
afilhado de mulher separada (depoimento 24) – reflexo das imagens que um
casamento desquitado gerava sobre a figura feminina. Glut‹o, devora canjica
rapidamente apenas para regurgit‡-la na panela dos homens (LOBATO, 2008, p.
235). Beberr‹o incorrig’vel, seca as adegas de vinho e depois as preenche
novamente com urina (LOBATO, 2008, p. 43). Uma mobiliza�‹o t’pica do arquŽtipo
do Trickster.
Para Queiroz, o trickster assume muitas vezes o papel
do bobo da corte. Um personagem a quem Ž institu’do o direito de romper a
norma, quebrando apar�ncias e ultrapassando barreiras que ninguŽm da sociedade
ousaria cruzar. Entretanto, por meio desse processo cat‡rtico que o trickster
representa, a ordem seria na verdade refor�ada.
ÒE ainda com o mŽrito de revelar aos seus integrantes a desordem que poderia se
instaurar caso as normas, os c—digos e os interditos viessem a se dissolverÓ
(QUEIROZ, 1991, p. 98). Seria este o caso do saci?
John Roberts, em um livro dedicado a compreender a
distin�‹o entre o trickster divino dos nativos africanos para o trickster
profano dos negros da di‡spora, indica que o trajeto antropol—gico do contexto
da escravid‹o gerou transforma�›es na forma como o arquŽtipo Ž mobilizado
(ROBERTS, 1993). Sua chave de leitura Ž a escassez: na çfrica, escassos eram os
recursos, fazendo que ali se proliferassem hist—rias em que a astœcia era o
caminho para atingir a sobreviv�ncia e a bonan�a. J‡ nos Estados Unidos escravagista,
a falta era de liberdade. A astœcia, ent‹o, era a arma para resistir ˆ
opress‹o. Nesse contexto, o trickster assumiria um outro papel arquet’pico para
as popula�›es em restri�‹o de liberdade: o de Her—i.
Quatro vezes o saci Ž chamado de Òher—iÓ pelos
depoentes, sendo um deles o Her—i das capoeiras – no sentido de matas
(LOBATO, 2008, p. 274) e em outro como o Her—i da sexta-feira, indicando a
rela�‹o com os per’odos de transi�‹o (LOBATO, 2008, p. 348). Mas isso pouco
diz. Quando olhamos para as fun�›es estabelecidas pelo saci nas narrativas do InquŽrito,
percebemos uma rela�‹o bem mais complexa. Saci Ž o guardi‹o dos segredos, Ž o
protetor da Flor de Samambaia – capaz de realizar o desejo de quem a
encontrar (LOBATO, 2008, p. 250). ƒ ainda um doador de riquezas, um ente que
auxilia no casamento e na resolu�‹o de causas perdidas com muito mais
facilidade que os santos, ocupados demais com assuntos celestes (LOBATO, 2008,
p. 295). Saci profano Ž saci pr—ximo, terrestre, capaz de agir por n—s.
ƒ
especialmente exemplar o relato em que uma ex-mucama relembra quando era
obrigada a fazer cafunŽ na cabe�a de sua ama enquanto esta rezava o ter�o. Acarinhada
na cabe�a, a mulher acabava sempre dormindo no meio do processo, e a escrava
era obrigada a aguardar que ela acordasse para continuar velando sua ora�‹o.
Certa vez, em meio a um cochilo, a ama foi visitada em sonho por um saci que
pregou nela uma solene bofetada. Desde ent‹o, conta, a mulher nunca mais
dormiu no ter�o. Tempos depois, a negra assumiu: Òo saci foi essa m‹o que est‡
aqui!Ó (LOBATO, 2008, p. 187). Respiros de liberdade em um contexto de
restri�‹o, soprados pelos ventos de mudan�a do duende.
O imagin‡rio da noite faz concentrar no saci v‡rios
elementos que transparecem no InquŽrito: orelhas de morcego; olhos como
dos bichos noturnos; dentes pontiagudos e unhas enormes como fera. Em algumas
vers›es, seu pŽ termina em uma garra de corvo, recuperando o aspecto da ave de
mau agouro. Em outras, pŽs, chifres e barbas de bode far‹o eco aos dem™nios europeus.
Por outro lado, n‹o Ž apenas aos seres da noite que o saci Ž comparado. Os
leitores descrevem o saci como sendo esperto como caxinguel�, mais r‡pido que
veado, e com vis‹o mais precisa que da coruja. S‹o met‡foras comparativas, Ž
claro, n‹o descri�›es f’sicas, mas com isso percebemos tra�os positivos tambŽm
presentes no relato.
A peneira, que na narrativa can™nica se tornou o
grande objeto da captura do saci, quase n‹o Ž mencionada no InquŽrito.
Quem faz as vezes de artefato Ž um ros‡rio bento – tanto de contas quanto
um improvisado, feito de capim. A peneira s— captura se for de cruzeta, ou
seja, se trouxer uma cruz segurando as tramas da palha. Enfim, percebemos, o
que Ž capaz de tirar a liberdade do saci n‹o Ž nada alŽm do componente
religioso.
Essa
avers‹o, que mobiliza o mitologema do Dem™nio, traz contradi�›es curiosas.
V‡rios relatos o descrevem como filho do dem™nio, parente do diabo, alcoviteiro
do dem™nio ou como Òsatan‡s regeneradoÓ. No entanto, Ž igualmente comum dizer
que o mito Ž incapaz de qualquer maldade grande. Mais ainda, um dos depoimentos
mais conhecidas diz que o saci era um dem™nio que fugiu do inferno e que
recebeu do pr—prio Deus uma carapu�a capaz de torn‡-lo invis’vel para que possa
continuar mantendo dist‰ncia das hostes infernais (LOBATO, 2008, p. 129). O
fato inquieta um depoente, que manifesta: ÒComo dindinha conciliava sua fŽ
cat—lica e suas rela�›es com o capetinha?Ó (LOBATO, 2008, p. 295).
Ocorre que o caboclo sempre teve uma rela�‹o dual com
o dem™nio na narrativa oral. Era este o grande pai da maldade, mas era ao mesmo
tempo um inimigo tr‡gico cuja derrota sempre estava assinalada. H‡ todo um
ciclo de hist—rias do Diabo Logrado na literatura oral (CASCUDO, 2012). O
dem™nio, pai da mentira e senhor da astœcia, acabava enganado pelo her—i. Era o
povo que atestava assim sua pr—pria capacidade e intelig�ncia – desde
que, Ž claro, conhecedor da tradi�‹o.
Considera�›es finais
Ao reintegrar os mitemas que circundam o mito do saci,
percebemos que, nos termos de Gilbert Durand, a an‡lise feita por Renato
Queiroz leva o mito ˆ heresia. Amputa-o n‹o da perna, mas de todos os outros
mitemas que n‹o os ligados ˆ negritude e escravid‹o. O saci Ž descrito no livro
como feio, insidioso, bestial, mas tambŽm como inteligente, veloz, amigo,
protetor. Amaldi�oado e aparentado do dem™nio, Ž tambŽm aben�oado pelo
alt’ssimo. Castiga os negros, mas tambŽm os vinga. Com sua magia, capaz de
invadir qualquer buraco de fechadura, Ž imune ˆs regras. Rompe suas correntes e
a dos que enxergam nele imagens de seus pr—prios anseios de liberta�‹o.
Quando a luta Ž dif’cil, disfar�a-se de p‡ssaro e vai
chorar suas dores nas brenhas. Mas logo volta, recupera o riso e faz ecoar bem
alto seu deboche aos poderosos. Quem pode derrot‡-lo Ž somente o povo, dotado
de astœcia e tradi�‹o. Ainda assim, ele sempre volta.
Elemento importante tambŽm Ž a perna que falta. Nunca
descrita como defici�ncia, mas como peculiaridade. Verbos ligados ao saltar,
pular, correr s‹o dos mais populares aos ligados ao saci. O œnico pŽ gera uma
rela�‹o de homologia com o redemoinho e o furac‹o, que tambŽm tocam o solo em
um œnico ponto. Sua aus�ncia Ž tambŽm seu poder.
Cascudo (2012) nos lembra que a carapu�a do saci Ž
s’mbolo de liberdade no Ocidente desde a Roma antiga, quando o pilŽu vermelho
– artefato sagrado da deusa Libertas – era oferecido aos escravos
que ganhavam liberta�‹o. Tempos depois, o objeto seria apropriado pelos grandes
movimentos libert‡rios, como a Revolu�‹o Francesa e a Guerra Civil Americana.
No entanto, muito antes disso, os duendes, gnomos e trasgos j‡ vestiam o gorro
encarnado. S‹o, afinal, livres enquanto for�as da natureza. N‹o Ž por acaso que
para escravizar um saci Ž preciso tomar sua carapu�a. Sua grande fonte de magia
Ž a liberdade.
Por que o saci permanece atual? Por que ainda hoje
comunica com tantos brasileiros? Ora, os poderes estabelecidos podem ser
outros, mas as din‰micas de domina�‹o e subordina�‹o permanecem evidentes. As
classes prolet‡rias e os grupos negros e marginalizados continuam ˆ merc� de
uma elite cientificista, economicista e racista. Os ventos que o saci comanda
sopram hoje por todo o Brasil. ƒ ele, afinal, este her—i trapaceiro que chora
por n—s, mas tambŽm sabe rir. Que rompe com o estabelecido e que pode atŽ
trazer o caos, mas com a certeza de que com ele tambŽm vem a mudan�a.
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[Recebido: 30 dez
2020 – Aceito: 18 mar 2021]
A
Literatura de Cordel como reivindica�‹o do direito ˆ Literatura
Cordel
Literature as a claim to the right to Literature
Let’cia Fernanda da Silva Oliveira[19]
https://orcid.org/0000-0003-1821-37
Resumo: O presente artigo
prop›e a discuss‹o de dois cŽlebres ensaios do soci—logo Antonio Candido
analisando a Literatura de Cordel e a fun�‹o social que esta desempenha. As
reflex›es propostas pelo cr’tico liter‡rio abordam importantes quest›es como as
desigualdades sociais e a literatura como forma de humanizar o homem. Sendo
sempre associada ˆs belas artes, a literatura foi constantemente reafirmada
como uma espŽcie de saber elevado e forma de edifica�‹o do homem, mas o que
pretendemos demonstrar Ž que mesmo nas culturas populares, como a Literatura de
Cordel, quando os poetas tomam a voz e reivindicam a literatura como forma de
frui�‹o para as camadas mais populares, este direito Ž acessado por todos e n‹o
apenas pelas classes mais elevadas. Abordando especificamente o contexto em que
esta literatura surge no Brasil, o come�o do sŽculo XX, demonstramos como os
poetas foram fundamentais para que o seu pœblico de leitores/ouvintes pudesse
desfrutar da arte e usufru’-la como um bem.
Palavras-chave: Literatura de Cordel;
Antonio Candido; Direito ˆ literatura; Frui�‹o; Humaniza�‹o.
Abstract: This article proposes
the discussion of two renowned essays written by the sociologist Antonio
Candido in contraposition to Cordel Literature and the social role that it
performs. The thoughts proposed by the literary critic address important
questions such as social inequities and the literature as a way to humanize
men. Always associated with the fine arts, literature was constantly reaffirmed
as a type of superior knowledge and a form of edifying men, but what we intend
to demonstrate is that even in popular cultures, such as Cordel Literature,
when poets own the voice and reclaim literature as a method of enjoyment for
the most popular classes, than this right is accessed by everyone and not just
by the upper classes. Addressing specifically the context in which this
literature emerges in Brazil, the beginning of the 20th century, we intend to
demonstrate how the poets were fundamental so that their audience of
readers/listeners could enjoy art and consume it as a good.
Keywords: Cordel Literature;
Antonio Candido; Right to literature; Enjoyment; Humanization.
A literatura como parte
dos direitos humanos
Em seu famoso ensaio ÒO direito ˆ literaturaÓ,
publicado em 2004, Antonio Candido trabalha a importante quest‹o dos direitos
humanos, elencando entre estes o direito ˆ literatura. Vivendo em tempos de
reflex‹o acerca das injusti�as sociais e a insensibilidade demonstrada frente a
essa quest‹o, n‹o parece uma desconex‹o com a realidade pensar sobre como a
literatura pode tambŽm fazer parte dos direitos humanos. Se acreditamos que
precisamos transformar a realidade e romper com o antigo estado das coisas,
seria um debate prof’cuo este que reflete sobre como a frui�‹o liter‡ria Ž
tambŽm um direito. Conceder o acesso ˆ literatura seria, portanto, mais uma
forma de diminuir as desigualdades sociais.
Como afirma o autor, pensar nos direitos humanos
faz com que consideremos indispens‡vel ao outro aquilo que tambŽm Ž
indispens‡vel para n—s. E ao considerarmos esse pensamento, a literatura Ž mais
um bem a ser reivindicado entre tantos outros tidos como indispens‡veis, ou incompreens’veis, pois esses s‹o
aqueles que n‹o podem ser negados a ninguŽm. S‹o os bens capazes de garantir a
sobreviv�ncia, n‹o apenas f’sica, mas tambŽm mental, espiritual. Para Candido
(2004, p. 173),
O fato Ž que cada Žpoca e cada cultura
fixam os critŽrios da incompressibilidade, que est‹o ligados ˆ divis‹o da
sociedade em classes, pois inclusive a educa�‹o pode ser instrumento para
convencer as pessoas de que o que Ž indispens‡vel para uma camada social n‹o o
Ž para outra.
Esse par‡grafo evidencia que o debate sobre o
acesso ˆ literatura n‹o pode ser desvencilhado da reflex‹o sobre direitos
humanos, pois seriam as classes altas que definiriam o acesso das classes menos
favorecidas ˆs artes, fazendo, ent‹o, com que os direitos humanos fossem
desrespeitados em mais uma de suas vertentes. ƒ importante relembrar e
reafirmar que as elites s‹o sempre vistas como detentoras do saber, em que
est‹o inseridos os indiv’duos que podem criar conhecimentos e, dessa forma,
aumentar ainda mais o pr—prio poder.
ƒ
importante ressaltar ainda que o ensaio de Candido n‹o aborda especificamente a
literatura popular, apresentando exemplos referentes apenas ao ‰mbito can™nico,
mas, ao descrever a sua vis‹o do que Ž a literatura, Ž percept’vel que a sua
defini�‹o abrange textos antes desprezados pelo c‰none. Para o soci—logo,
seriam textos liter‡rios Òtodas as formas de cria�›es de toque poŽtico,
ficcional ou dram‡tico em todos os n’veis de uma sociedadeÓ (CANDIDO, 2004, p.
174). Ent‹o, o autor parte para um debate fundamental de seu ensaio: o fato de
que n‹o h‡ qualquer homem ou povo que consiga viver sem a literatura,
respons‡vel por confirmar a humanidade do homem.
A
literatura seria capaz de humanizar e de ser respons‡vel por enriquecer tanto o
indiv’duo como o grupo. Essa humaniza�‹o Ž definida por Candido (2004, p. 180)
como Òo exerc’cio da reflex‹o, a aquisi�‹o do saber, a boa disposi�‹o para com
o pr—ximo, [...] a percep�‹o da complexidade do mundo e dos seresÓ. Ela Ž um
meio eficaz de transmitir conhecimentos, mas tambŽm uma forma de trazer a
sensibilidade ˆ tona, fazendo com que o indiv’duo seja capaz de refletir e ser
emp‡tico com o outro. Muitas vezes a literatura ser‡ capaz de mostrar uma
realidade diferente daquela em que o leitor vive e, portanto, ser‡ capaz de
transport‡-lo, ainda que momentaneamente, para outro universo.
Candido apresenta, ent‹o, outra importante
reflex‹o e que se faz necess‡ria para os prop—sitos deste artigo. O autor
aponta que a rela�‹o da literatura com os direitos humanos pode ser vista sob
dois vieses: o primeiro, em que a literatura seria uma necessidade universal
que deve ser satisfeita, pois neg‡-la seria Òmutilar a nossa humanidadeÓ
(CANDIDO, 2004, p. 186); o segundo, a literatura atua como um instrumento de desmascaramento,
pelo fato de permitir que haja foco na restri�‹o dos direitos ou na falta
deles. O autor conclui, ent‹o, que nesses dois vieses ela se encaixaria na luta
pelos direitos humanos.
A
divis‹o social brasileira seria respons‡vel por impedir que as classes sociais
mais baixas n‹o possam ter acesso ˆs obras can™nicas da mesma maneira que as
classes dominantes. A literatura escrita acaba sendo um privilŽgio de pequenos
grupos, por diversos motivos, cabendo ˆs classes mais baixas apenas as formas
consideradas populares.
Outro importante ensaio do soci—logo Antonio
Candido, e complementar ˆ discuss‹o deste primeiro que citamos, Ž ÒA literatura
e a forma�‹o do homemÓ, publicado em 2002, em que o autor discute a fun�‹o da
obra liter‡ria dentro de uma sociedade e aborda mais uma vez como se d‡ a
humaniza�‹o do homem por meio da literatura.
A literatura, principalmente quando enxergada de
maneira purista, muitas vezes, foi retratada como um meio de edifica�‹o do
homem, mas n‹o Ž esse o sentido que Candido buscou apontar em suas reflex›es,
pelo contr‡rio. A edifica�‹o seria respons‡vel por afastar o homem de uma
humanidade veross’mil, criando a ideia de um funcionamento liter‡rio pr—ximo
aos manuais de virtude e boa conduta. A literatura, ent‹o, seria necess‡ria
para mostrar que existe uma complexidade em torno de si pr—pria.
Paradoxos, portanto, de todo lado,
mostrando o conflito entre a ideia convencional de uma literatura que eleva e edifica (segundo os padr›es oficiais) e a sua poderosa for�a
indiscriminada de inicia�‹o na vida, com uma variada complexidade nem sempre
desejada pelos educadores. Ela n‹o corrompe
nem edifica, portanto; mas, trazendo
livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal, humaniza em
sentido profundo, porque faz viver (CANDIDO, 2002, p. 84-85).
Para Candido, a necessidade universal da
fantasia se manifestaria em todos os instantes poss’veis da vida humana, haja
vista que Ž praticamente imposs’vel pensar em qualquer indiv’duo que passe
muito tempo sem ter qualquer tipo de alegoria em sua mente, ou fora dela. E,
sendo assim, a literatura Ž uma resposta a essa imagina�‹o inesgot‡vel:
A literatura propriamente dita Ž uma das
modalidades que funcionam como resposta a essa necessidade universal, cujas
formas mais humildes e espont‰neas de satisfa�‹o talvez sejam coisas como a
anedota, a adivinha, o trocadilho, o rif‹o. Em n’vel complexo surgem as
narrativas populares, os cantos folcl—ricos, as lendas, os mitos. No nosso
ciclo de civiliza�‹o, tudo isto culminou de certo modo nas formas impressas,
divulgadas pelo livro, o folheto, o jornal, a revista: poema, conto, romance,
narrativa romanceada (CANDIDO, 2002, p. 80).
ƒ poss’vel ent‹o refletir e concluir que a
literatura traz em si muitas possibilidades, sendo capaz de tanto humanizar
quanto desumanizar. O mais importante de todos esses questionamentos sobre a
possibilidade de humanizar de fato, Ž que sendo a literatura indissoci‡vel da
forma�‹o do homem n‹o haveria como ela n‹o causar nenhum tipo de afeta�‹o na
forma�‹o da personalidade de qualquer indiv’duo. Somos afetados pelos textos
liter‡rios de diversas formas, n‹o apenas quando falamos dos textos mais
eruditos. A literatura e a arte est‹o nas pequenas coisas que nos rodeiam,
possibilitam a frui�‹o da realidade de uma maneira necess‡ria em qualquer
civiliza�‹o.
Um breve retrospecto
sobre o surgimento da Literatura de Cordel
Refletindo especificamente sobre a Literatura de
Cordel e o seu advento, n‹o Ž absurdo afirmar que o fazer poŽtico dos poetas
vai de encontro ao pensamento que Candido defende nestes ensaios. Enquanto o
romance moderno foi constru’do sobre bases que priorizam a leitura individual e
o isolamento do leitor, gerado tambŽm a partir da segrega�‹o do romancista,
como afirma Walter Benjamin em ÒO narradorÓ, quando se trata de narrativas
populares, como Ž o cordel, espera-se que o pœblico receptor fa�a o oposto,
haja vista que o consumo dos folhetos esteve sempre estritamente ligado ˆ
oralidade e ˆs leituras pœblicas. O que comprova tambŽm que o autor se
equivocou ao afirmar que a arte de narrar estava em vias de extin�‹o, pois, se
para Benjamin (1994) tais narradores n‹o seriam relevantes dentro da literatura
can™nica, a Literatura de Cordel comprova que os narradores orais sobrevivem e
se reinventam na cultura popular.
ƒ tambŽm importante salientar que n‹o Ž apenas a
cultura popular que Ž influenciada pela literatura can™nica, pois o inverso
tambŽm acontece. A literatura escrita tambŽm se apropria e se alimenta da
literatura popular, o que promove toda uma circularidade de influ�ncias. Ou
seja, os narradores orais continuam sendo indispens‡veis para todo o sistema
liter‡rio.
Pensar e pesquisar a Literatura de Cordel Ž, de
certa forma, revisitar alguns conceitos da teoria liter‡ria, como autoria[20] e originalidade[21], e atŽ mesmo repensar o
pr—prio termo literatura. ƒ pertinente considerar que as narrativas
populares foram marginalizadas, sendo atŽ mesmo consideradas como uma espŽcie
de paraliteratura, uma vis‹o bastante preconceituosa, que marginalizava e
rebaixava essas exist�ncias culturais divergentes. Obviamente esse tipo de
postura consistia numa reafirma�‹o da superioridade da literatura considerada
can™nica, ocorrendo isso inclusive dentro do meio acad�mico.
A Literatura de Cordel brasileira se configura
como uma express‹o cultural popular, que traz em si diversos tipos de
sapi�ncias e utilidades. Faz parte de sua estrutura, ent‹o, o resultado de
trocas culturais entre os imagin‡rios das culturas que formaram o Brasil,
fazendo assim com que hist—rias tradicionais vindas do contexto ibŽrico fossem
remodeladas e ganhassem novos contornos especificamente brasileiros. Era comum
que os folhetos fossem usados para retratar fatos que ocorriam exatamente
naquele momento hist—rico. ƒ imposs’vel, portanto, pensar a exist�ncia dessa
tradi�‹o cultural sem pensarmos tambŽm na transmiss‹o oral e na mem—ria
coletiva, pois ambas s‹o de fundamental import‰ncia para que muitas narrativas
ibŽricas n‹o tenham se apagado no decorrer de sŽculos. Pelo contr‡rio,
permaneceram t‹o fortes e ecoando nas mentes nordestinas, que quando s‹o
transpostas pelos cordelistas ganham ainda mais for�a.
Os versos dos cordelistas buscavam aproximar o
pœblico leitor/ouvinte de suas cria�›es, e, por isso, ocorre tambŽm a
identifica�‹o desse pœblico com o que estava ali sendo retratado. Os folhetos
s‹o capazes tanto de trazer hist—rias maravilhosas, em que se vencia a fome e a
seca, ou ent‹o mostravam como fazer o pobre, Òamarelinho[22]Ó, vencer os ricos.
Traziam tambŽm em si os preceitos cat—licos, muito respeitados e seguidos na
Žpoca, respons‡veis por causar uma impossibilidade eterna ˆs mulheres, pois
elas jamais seriam t‹o virtuosas como a Virgem Maria.
As penas ferozes de autores como Leandro Gomes
de Barros[23],
o mais importante cordelista pioneiro, traziam tambŽm em si muitas cr’ticas ao
momento social e hist—rico em que viviam. N‹o se conformavam com a Proclama�‹o
da Repœblica, com os novos impostos, e tambŽm n‹o viam com bons olhos os
pequenos progressos femininos da Žpoca, assim como algumas mudan�as trazidas
pela Belle ƒpoque.
Os poetas pioneiros eram descendentes dos
cantadores que os precediam, haja vista que essa Ž uma tradi�‹o secular. Muitos
deles sendo apenas semiletrados, faziam da memoriza�‹o uma grande aliada do
fazer poŽtico, pois diferentemente do que muitas vezes se pensa, n‹o Ž apenas
por inven�‹o que criam seus versos, h‡ um extenso trabalho com a mem—ria na
pr‡tica dos cordelistas. AlŽm disso, traduziam para os versos os anseios
populares, pois tinham contato direto com seu pœblico. N‹o escreviam de maneira
afastada, como o romancista moderno.
[...] o cantador nordestino, herdeiro e
deposit‡rio do fluxo lent’ssimo da tradi�‹o como mem—ria convertida em
descoberta, representa um ponto de chegada de materiais err‡ticos que t�m atravessado
como meteoritos o firmamento de sistemas culturais inclusive muito distantes,
para depois serem reutilizados por uma vontade art’stica em que a coletividade
se realiza com gosto e f—rmulas pr—prias. (PELOSO, 1996, p. 78).
A escolha pela an‡lise desse per’odo em
espec’fico, as primeiras dŽcadas do sŽculo XX, se fez oportuna por ser o
momento em que a import‰ncia dos cordelistas era ainda maior. ConvŽm relembrar
que era um momento em que ainda n‹o existia f‡cil acesso ao r‡dio, e a TV ainda
estava longe de existir. Sendo assim, as œnicas formas de entretenimento e
informa�‹o que existiam de maneira escrita eram, respectivamente, os livros e
os jornais. Cabia aos poetas transpor esses textos para versos, pois somente
assim a popula�‹o poderia ter acesso a tais conhecimentos.
O fato de os folhetos serem feitos com um
material barato, para serem estendidos nas feiras, fez tambŽm com que fosse uma
literatura menos afastada do seu pœblico leitor/ouvinte do que a literatura
can™nica, que tem como caracter’stica o leitor solit‡rio. AlŽm disso, ainda que
a maior parte da popula�‹o fosse analfabeta, por se tratar de uma literatura
oral, feita para ser lida em voz alta, todos podiam ter acesso a essas
hist—rias, n‹o mais apenas aqueles que eram os detentores do saber, os que
sabiam ler.
O cordel ˆ luz de
Candido
ƒ poss’vel pensar a problem‡tica que envolve as
reflex›es propostas por Antonio Candido no contexto da Literatura de Cordel
interpretando, ent‹o, os cordelistas como verdadeiros protagonistas de uma extensa
reivindica�‹o do direito ˆ literatura. Cumpriam, no contexto em que estavam
inseridos, o papel de atores sociais, sendo de fundamental import‰ncia para
garantir que a popula�‹o pudesse alcan�ar a literatura e a frui�‹o, direitos
que antes lhes eram negados, por diversos motivos.
Ent‹o, se a literatura can™nica n‹o pode ser
aproveitada plenamente por todas as camadas da popula�‹o, Ž por meio dos
processos criativos dos poetas e as suas habilidades de transposi�‹o de
hist—rias que a frui�‹o ser‡ alcan�ada. Sendo o acesso a livros dif’cil, seja
pela linguagem ou pelo valor financeiro, ent‹o seria por meio de folhetos de
cordel que a imensa maioria da popula�‹o nordestina conseguiria conhecer muitas
narrativas e preencher a sua pr—pria necessidade de fantasia. Mais do que nunca
a literatura passa a ser uma forma de conhecimento e n‹o apenas de
divertimento, pois os versos dos cordelistas s‹o capazes de levar o pœblico
leitor/ouvinte a lugares inimagin‡veis, bem como trazer not’cias do que
acontecia no Brasil e no mundo. Preenche, ent‹o, o que Antonio Candido assinala
como a necessidade universal de fantasia.
No œltimo t—pico de ÒO direito ˆ literaturaÓ,
Candido (2004, p. 191) conclui que
a luta pelos direitos humanos abrange a
luta por um estado de coisas em que todos possam ter acesso aos diferentes
n’veis da cultura. A distin�‹o entre cultura popular e cultura erudita n‹o deve
servir para justificar e manter uma separa�‹o in’qua, como se do ponto de vista
cultural a sociedade fosse dividida em esferas incomunic‡veis, dando lugar a
dois tipos incomunic‡veis de fruidores. Uma sociedade justa pressup›e o
respeito aos direitos humanos, e a frui�‹o da arte e da literatura em todas as
modalidades e em todos os n’veis Ž um direito inalien‡vel.
Baseando-nos neste par‡grafo, Ž poss’vel
estabelecer que, ainda que ao elaborarem seus versos e que isso fa�a parte de
uma ampla reivindica�‹o do que aqui chamamos de direito ˆ literatura, essa
reivindica�‹o n‹o poderia se encerrar apenas na Literatura de Cordel. ƒ
poss’vel afirmar que, dentro do contexto em que escolhemos analisar aqui, a
exclus‹o era inevit‡vel, justamente por se tratar de um contexto em que a
popula�‹o nordestina estava extremamente desfavorecida frente ao Sul do pa’s,
que abrigava a capital do Brasil.
Ao trazer o debate sobre o Regionalismo, em ÒA
literatura e a forma�‹o do homemÓ, Candido (2002) demonstra que a literatura
pode ser usada tanto para humanizar quanto para desumanizar, e com a Literatura
de Cordel isso n‹o seria diferente. Um grande exemplo Ž que as mulheres muitas
vezes foram grandes v’timas das cr’ticas dos cordelistas, pois o que se cobrava
delas eram posturas inating’veis. Uma mulher digna deveria se espelhar em
Maria, a virgem m‹e de Jesus, Cristo, a mulher reconhecida por Deus como perfeita.
Isso pode ser visto em ÒOs mart’rios de GenovevaÓ (ATAêDE, s. d., p. 2-3):
Genoveva era dotada
De intelig�ncia e engenho
Nas fei�›es dela se lia
O mais perfeito desenho
A natureza em orn‡-la
Se esmerou e fez empenho
AlŽm dessas qualidades
Em tudo era preciosa
Modesta e trabalhadora
Cort�s e religiosa
Gra�as a educa�‹o
De sua m‹e extremosa
Quando estava em ora�›es
Ajoelhada entre os pais
Parecia ser um anjo
Das regi›es divinais
Que tinha baixado a terra
Para exemplo dos mortais.
Se ela n‹o figura nos versos como modelo para
todas as mulheres, ir‡ lhes caber a representa�‹o oposta a essa. Muitas vezes
utilizando estere—tipos existentes naquela sociedade, os poetas retratavam as
mulheres com comportamento destoante do que era socialmente aceito: eram perversas
e capazes de desonrar o homem. Em se tratando da mulher negra, esse quadro era
ainda mais violento, pois dentro do contexto liter‡rio do cordel, ali n‹o
caberia qualquer representa�‹o positiva. Em ÒO Bataclan modernoÓ, Ata’de tece
cr’ticas ˆs mudan�as sociais vividas pelas mulheres:
Mundo velho desgra�ado
Teu povo precisa de um freio,
Para ver se assim melhora
Este costume t‹o feio
De uma mo�a seminua
Andar mostrando na rua
O sovaco a perna o seio.
De primeiro uma donzela
Andava bem prevenida,
Se acaso ia um passeio
Se encontrava ela vestida
Hoje essa mesma donzela
A moda obrigou a ela,
Sair pra rua despida (ATAêDE, 1953, p. 1)[24].
ƒ por meio das cr’ticas dos poetas que ocorre
tambŽm o que Candido chamou de desmascaramento, pois quando tecem cr’ticas ao
governo, como faz Leandro Gomes de Barros, por exemplo, seu pœblico
leitor/ouvinte consegue perceber que est‹o sendo v’timas de engana�›es e
abusos. Para Marques (2014, p. 55), ÒEra, portanto,
atravŽs das lentes sat’ricas do(s) poeta(s) popular(es) que o sertanejo via e
entendia aquele mundo prenhe de novidades e mudan�as inusitadasÓ. O exemplo pode ser
visto nas seguintes estrofes, em que Barros busca denunciar a realidade em que
os nordestinos estavam vivendo. Em ÒUm pau com formigasÓ, o poeta tece uma de
suas denœncias acerca das mudan�as vivenciadas no novo sŽculo:
Chamam este sŽculo das luzes
Eu chamo o sŽculo das brigas
A Žpoca das ambi�›es
O planeta das intrigas
Muitos cachorros num osso
Um pau com muitas formigas.
Ent‹o depois da repœblica
Tudo nos causa terror
Cacete n‹o faz estudo
Mas tem carta de doutor
A cartucheira Ž a lei
O rifle governador (BARROS, 1912, p. 1).
As
cr’ticas tambŽm podem ser vistas em ÒO imposto e a fomeÓ:
Disse o
imposto – isso Ž nada,
O Brasil
est‡ todo exposto,
Enquanto existir
governo
Reina a
fome e o imposto,
Os
presidentes de Estados
Dizem
– morram os desgra�ados
Ficando
n—s Ž tudo gosto.
[...]
Justi�a
em ti n‹o h‡ mais
Creio que
morreu de desgosto,
A lei
ficou como —rf‹o
Sem pai,
sem m‹e, sem encosto,
O car‡ter
foi embora
S—
conhecemos agora
Pol’tica,
fome e imposto (BARROS, 1909, p. 2-3).
ƒ poss’vel perceber como Leandro Gomes de Barros
se empenhava em fazer suas denœncias, ultrajado pelos impostos excessivos, pela
fome e pela misŽria. Em conson‰ncia com o que afirmou Candido, seus versos eram
capazes de despertar a reflex‹o em seu pœblico, fazendo com que pudessem
perceber a complexidade do mundo em que viviam, de uma maneira ainda mais
pungente. Era por meio da s‡tira que seus versos se mostravam ainda mais ferinos.
Conclus‹o
Neste
artigo, buscamos justapor os ensaios de Antonio Candido ˆ Literatura de Cordel,
mostrando como a necessidade de literatura e fantasia Ž universal e atinge
todas as camadas sociais. No come�o do sŽculo XX, a literatura can™nica era
negada ao povo nordestino, assim como o direito ˆ frui�‹o, algo t‹o desejado
pelas classes sociais mais elevadas. Negar esse direito seria negar tambŽm a
humanidade daquelas pessoas.
Ao
tomar para si a voz, fazendo com que um integrante do povo pudesse finalmente
ser ouvido, o cordelista passa a representar tambŽm os anseios de seu pœblico
leitor/ouvinte, haja vista que seu sucesso tambŽm dependia desse di‡logo direto
com seu pœblico. O poeta de cordel Ž uma figura muito sens’vel, pois lhe cabe
perceber muitas nuances da realidade em que habita.
Sendo assim, sob essas novas lentes, criadas
pelos versos dos poetas, o nordestino passava a perceber a pr—pria realidade de
uma outra forma, pois o poeta era capaz de fazer com que, ao finalmente se
enxergarem de alguma forma representadas na literatura, essas pessoas pudessem
tambŽm resistir e reexistir, frente a todas as agruras cotidianas que as
cercavam.
Refer�ncias
ATAêDE,
Jo‹o Martins de. (A Bibliografia PrŽvia de Sebasti‹o Nunes Batista,
considera Leandro Gomes de Barros o autor do poema) O Bataclan moderno,
Juazeiro do Norte, Editor JosŽ Bernardo da Silva, 1953.
_________. Os mart’rios de Genoveva. S. l.: s. n., s. d.
BARROS, Leandro Gomes de. O imposto e a fome/O homem que come vidro/O reino da Pedra Fina. Recife, PE: s.n., 1909.
_________. Um Pau com Formigas/ Conclus‹o de Riach‹o com Turbana. Recife, PE:
s.n., 1912.
BENJAMIN,
Walter. O narrador: Considera�›es sobre a obra de Nikolai Leskov. In: _________.
M‡gica e tŽcnica, arte e pol’tica: ensaios sobre literatura e hist—ria da
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O direito ˆ literatura. In: CANDIDO, Antonio. V‡rios Escritos. S‹o Paulo: Editora 34; Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2004. p. 171-193.
MARQUES,
Francisco C. A. Um pau com formigas ou O
mundo ˆs avessas: a s‡tira na poesia popular de Leandro Gomes de Barros.
S‹o Paulo: Edusp/Fapesp, 2014.
OLIVEIRA,
Let’cia Fernanda da Silva. De m‡rtir a
meretriz: figura�›es da mulher na Literatura de Cordel (1900-1930).
Disserta�‹o de Mestrado. Assis-SP: UNESP, 2017.
PELOSO,
Silvano. O canto e a mem—ria:
Hist—ria e utopia no imagin‡rio popular brasileiro. S‹o Paulo: çtica, 1996.
[Recebido:
15 ago 2020 – 19 set 2020]
O RAP ind’gena dos Br™ McÕs: a constru�‹o
argumentativa da pol�mica
The Br™ McÕs indigenous
RAP: the argumentative construction of polemics
Rubens Damasceno-Morais[25]
https://orcid.org/0000-0001-6245-6394
Vanessa Martins Le‹o[26]
https://orcid.org/0000-0002-8486-5735
Resumo: Neste artigo, diante de
um exemplo da modalidade argumentativa pol�mica (AMOSSY, 2017), e pela
perspectiva da argumenta�‹o em contexto de intera�‹o (PLANTIN, 2008, 2011;
GRçCIO, 2013) mostramos, por meio de uma pesquisa de cunho qualitativo, as
funcionalidades das desqualifica�›es da tese advers‡ria e da pessoa ou do grupo
que representa o Oponente, bem como da impolidez verbal, materializada em
palavr›es, ironia e amea�as (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006; GRAHAM, HARDAKEKER,
2017; DECLERCQ, 2003). Para tanto, analisamos um coment‡rio e algumas respostas
a esse coment‡rio, postados na m’dia social Youtube, os quais dialogam
com os discursos e os recursos semi—ticos que circulam pelo clipe de Eju
Orendive, do grupo de rap de (re)exist�ncia ind’gena Br™ MCÕs. A
partir desses excertos, percebemos que, de um lado, aqueles que se posicionam
contra a demarca�‹o de terras ind’genas, velando o racismo, e, do outro lado, os
que defendem os direitos dos povos origin‡rios se debru�am sobre um debate
polarizado e violento voltado n‹o para um acordo, mas, sim, com a inten�‹o de
provocar a ades‹o de um Terceiro, segundo a perspectiva dialogal da
argumenta�‹o (PLANTIN, 2016).
Palavras-chave: Pol�mica; Rap Ind’gena;
Resist�ncia; Racismo.
Abstract: In the face of an example of the
controversial argumentative modality (AMOSSY, 2017), and using the
argumentation perspective in the interaction context (PLANTIN, 2008, 2011;
GRçCIO, 2013), by means of a qualitative research, we show the disqualifications
of the opposing thesis and the person or group that represents the Opponent, as
well as verbal impoliteness, materialized in swearing, irony and threats
functionalities (KERBRAT-ORECCHIONI, 2006; GRAHAM and HARDAKEKER, 2017;
DECLERCQ, 2003). Therefore, we analyze a comment and responses, posted on the Youtube,
which dialogue with the speeches and semiotic resources circulating in the
videoclipe Eju Orendive, by the indigenous rap group Br™ MC's. From
these excerpts, we realize that, on the one hand, those who stand against the
demarcation of indigenous lands, guarding racism and, on the other hand, those
who defend the rights of indigenous peoples focus on a polarized and violent
debate aimed at for an agreement, but, with the intention of provoking the adhesion
of an audience, according to the dialogical perspective of the argumentation
(PLANTIN, 2016).
Keywords: Polemics; Indigenous Rap;
Resistance ; Racism.
Rap Ž compromisso. N‹o Ž viagem.
(Sabotage, 2000)
O Br™ MCÕs Ž o
primeiro grupo de rap ind’gena do Brasil. Seus integrantes s‹o da etnia
Guarani-Kaiow‡ e habitam as aldeias Jaguapirœ e Boror—, localizadas na cidade
de Dourados, oeste do Mato Grosso do Sul. O videoclipe do rap Eju
Orendive[27], composi�‹o do grupo, postado no YouTube, mobilizou opini›es de internautas, que expressaram seus
posicionamentos em coment‡rios. Tais coment‡rios trazem ˆ tona discursos de
dois grupos politicamente polarizados[28]. De um lado, encontram-se
os usu‡rios identificados como de esquerda, que se alinham com as causas dos
povos ind’genas e, ent‹o, legitimam discursivamente a arte musical de
(re)exist�ncia por eles produzida. Do outro lado, encontram-se aqueles
denominados de direita, os quais, apoiando-se em estere—tipos, materializam
discursos racistas e, portanto, tomam o rap dos jovens de Dourados como
apropria�‹o e como perda de cultura. Diante desse cen‡rio, este artigo se
empenha em analisar as estratŽgias lingu’sticas e argumentativas que esses
usu‡rios utilizam para construir seus posicionamentos na plataforma virtual.
Nesse sentido, busca-se responder aos seguintes questionamentos: como se
constr—i a modalidade argumentativa pol�mica (a dicotomiza�‹o, polariza�‹o e
desqualifica�‹o), nos coment‡rios dos internautas? Destaca-se, nesse contexto, alguma estratŽgia
argumentativa na constru�‹o dos discursos e contradiscursos (im)polidos? Para
tanto, utilizamos a teoria da argumenta�‹o do discurso, com foco na pol�mica,
de Amossy (2011, 2017), bem como os estudos sobre (im)polidez de Culpeper
(2011) e Kerbrat-Orecchioni (2006) e a teoria dialogal da argumenta�‹o, com
foco nos papŽis de atua�‹o de Plantin (2008, 2016) e Gr‡cio (2013). AlŽm disso,
em fun�‹o do viŽs interdisciplinar dessa pesquisa, utilizamos os apontamentos
de Chang (2005) para falar sobre o rap e do decolonialista Quijano
(2005) para falar sobre assuntos hist—ricos que atravessam e constituem as
identidades ind’genas.
Charaudeau (2014)
destaca que as m’dias sociais s‹o uma das principais esferas da atividade
social, em que os discursos pol’ticos v�m ˆ tona. Ademais, Cabral e Lima (2017)
afirmam que o advento e a massifica�‹o dessas plataformas provocaram mudan�as
comportamentais nas pessoas, sendo que uma dessas mudan�as diz respeito ao modo
de elas se organizarem em grupos, com usu‡rios que possuem interesses em comum,
e ao modo de enxergarem o outro, ou seja, de enxergarem aqueles que se
posicionam de modo antag™nico. Seguindo esse caminho, Cabral, Marqiesi e Seara
(2015) apontam que esse contexto, que possibilita a livre participa�‹o em
discuss›es bem como a cria�‹o de identidades, de perfis fakes, chancela
ˆs pessoas a exposi�‹o mais espont‰nea e, atŽ mesmo, agressiva de suas
opini›es. Assim, um v’deo de rap ind’gena, publicado no Youtube,
com coment‡rios abertos para todos os usu‡rios, pode se converter em terreno
fŽrtil para a materializa�‹o de discursos pol�micos.
De acordo com Amossy
(2017), a pol�mica Ž um debate em torno de uma quest‹o da atualidade, de
interesse pœblico, que comporta os anseios das sociedades mais ou menos
importantes numa dada cultura. As marcas dessa modalidade argumentativa, de acordo com a autora, s‹o: a
dicotomiza�‹o e a polariza�‹o. A dicotomiza�‹o emerge quando posi�›es
antitŽticas se constroem e se excluem mutuamente. A polariza�‹o, por sua vez,
est‡ interligada ao plano da estrutura actancial – adiante, explicado com
apoio em Gr‡cio (2013) –, que envolve a atua�‹o do Proponente, do
Oponente e do Terceiro. De acordo com Plantin (2008, 2016) s‹o esses papŽis que
sustentam o debate que op›e duas posi�›es dicot™micas. Dessa forma, a
polariza�‹o se comp›e de um defensor da posi�‹o proposta (Proponente), de um
opositor dessa posi�‹o (Opositor) e de um ouvinte-espectador da confronta�‹o
(Terceiro). Surge, ent‹o, um Òn—sÓ diante de um ÒelesÓ e, nessa rela�‹o, os
procedimentos mais atenuados consistem em desqualificar a palavra do outro e,
geralmente, em desqualificar a pessoa ou o grupo que ele representa, por meio
da viol�ncia verbal e da manifesta�‹o das emo�›es (pathos).
Este estudo se divide,
ent‹o, em cinco partes. A primeira, na qual desvelamos nossos objetivos
iniciais. A segunda, em que falamos sobre a rela�‹o existente entre o rap
e grupos identit‡rios marginalizados (de forma breve, dado o espa�o limitado de
que dispomos neste artigo), tais como, os negros e os ind’genas. Na terceira,
por sua vez, nos empenhamos em mostrar os aspectos da modalidade argumentativa
pol�mica, a dicotomiza�‹o, a polariza�‹o e a desqualifica�‹o, proposta por
Amossy (2017), bem como apontamos como esse œltimo aspecto, ou seja, a
desqualifica�‹o, se desdobra em (im)polidez ou agressividade verbal, conforme
Culpeper (2011). Na se�‹o seguinte, apresentamos o corpus e empreendemos a an‡lise dos dados mostrando como a pol�mica
se constr—i em torno de um coment‡rio e de respostas a esse coment‡rio do v’deo
Eju Orendive, dos Br™ MCÕs. Por fim, tecemos nossas considera�›es
finais relacionando-as com a nossa proposta inicial.
(Re)existir e lutar
contra o racismo: a alian�a entre o rap e grupos marginalizados
De acordo com Chang
(2005), a cultura do hip hop nasceu no bairro do Bronx, em Nova Iorque,
em meados da dŽcada de 1960, em meio a implanta�‹o de pol’ticas recessivas que
prejudicaram, principalmente, dois grupos marginalizados: os negros e os
mesti�os dos EUA. Diante desse cen‡rio, emergiu o movimento Zulu Nation,
encabe�ado pelos DJs Afrika Bambaataa, Grandmaster Flash e Kool Herc,
respons‡veis por reunir jovens desses grupos identit‡rios em torno de eventos
de mœsica, de dan�a e de artes visuais. Souza (2005) aponta que esse movimento
resultou na cultura hip hop, composta pelo rap (sigla para rhythm and poetry), pelo break
(dan�a) e pelo grafitte (artes visuais). O rap, pela
jun�‹o de um MC (mestre de cerim™nias) e de um DJ (disk jokey),
se constitui como um g�nero poŽtico-musical que, por meio de seus enunciados,
traz ˆ tona o cotidiano dos moradores das favelas e das periferias, denunciando
as situa�›es de desigualdade e de preconceito que lhes interpelam.
O rap emergiu no
Brasil, na dŽcada de 1980, na cidade de S‹o Paulo. Nesse per’odo, S‹o Paulo, de
modo semelhante ˆ Nova Iorque, era tomada por constru�›es de moradias
irregulares, habitadas, em maioria, pela popula�‹o negra. Em meio a um contexto
de pobreza e de abandono, os ’ndices de criminalidade e as taxas de homic’dio
inflaram (SILVA, 2013). Diante desse cen‡rio conturbado, em meados de 1980, o rap
consciente emergiu a partir de nomes como Thaide e DJ Hum. No entanto, foi com
o grupo Racionais MCÕs que o raio-X do Brasil veio ˆ tona.
O primeiro grupo de rap
ind’gena brasileiro, por sua vez, surgiu em 2009, quando os jovens Bruno Veron,
Clemersom Batista, Kelvin Peixoto e Charlie Peixoto, da etnia Guarani-Kaiow‡,
se uniram para formar o Br™ MCÕs. Seus versos denunciam o cotidiano das aldeias
Jaguapirœ e Boror—, localizadas na cidade de Dourados, oeste do Mato Grosso do
Sul, onde a pobreza, a viol�ncia, os v’cios e o preconceito atravessam seus
moradores. De acordo com dados do site G1[29], em junho de 2019, as
reservas ind’genas de Dourados registraram em mŽdia um assassinato a cada dois
dias e meio. A reportagem aponta ainda que, Òsegundo o MPF, n‹o somente essas
reservas, mas tambŽm as comunidades ind’genas do sul do estado est‹o
vivenciando uma escalada sem precedentes nos ’ndices de criminalidade, muito em
fun�‹o do consumo exagerado de drogas e ‡lcool, ao passo em que o policiamento
ostensivo e repressivo n‹o acompanha esse cen‡rioÓ.
A partir dessa
exposi�‹o, Ž poss’vel perceber que os contextos de g�nese do rap
estadunidense, brasileiro e ind’gena brasileiro apresentam entrecruzamentos.
Nos tr�s casos, o
g�nero poŽtico-musical
emergiu em periferias e favelas, espa�os permeados por situa�›es de pobreza e
de viol�ncia. Ademais, entrecruzamentos, tambŽm, podem ser apontados entre as
hist—rias dos grupos identit‡rios que d‹o voz a esses versos, uma vez que a
sociedade brasileira se ergueu com o sangue dos negros e dos ind’genas. Desde a
trajet—ria de coloniza�‹o, ind’genas e negros foram violentados, f’sica e
psicologicamente, sob a justificativa da civiliza�‹o, da moderniza�‹o e da
salva�‹o, uma vez que foram considerados selvagens, rudes e pag‹os e deveriam,
portanto, ser ÒdomadosÓ. Diante desse cen‡rio, o racismo e a situa�‹o de
pobreza, aos quais esses grupos s‹o submetidos, desvelam-se como condi�›es
s—cio-hist—rica e discursivamente constru’das (QUIJANO, 2005; MOURA, 2004).
A modalidade de
argumenta�‹o pol�mica e os aspectos da (im)polidez lingu’stica
Para embasar a an‡lise do corpus em
quest‹o, uma vez que estamos diante de uma pesquisa qualitativa, seguimos a
teoria da argumenta�‹o no discurso de Ruth Amossy (2011, 2017), com �nfase na
modalidade pol�mica. De acordo com a autora, a argumenta�‹o Ž tecida na
materialidade lingu’stica em uma situa�‹o concreta de comunica�‹o. Desse modo,
o locutor, projetando a imagem de seu alocut‡rio e adequando-se ˆs normas do
g�nero do discurso em quest‹o, lan�a m‹o de recursos lingu’sticos e de
estratŽgias discursivas a fim de tecer sua teia argumentativa. Nesse sentido, a
autora destaca que ÒŽ na espessura da l’ngua que se forma e se transmite a
argumenta�‹oÓ (AMOSSY, 2011, p. 131-132), apontando que o discurso, com a
inten�‹o de persuadir, segue uma ou mais modalidades argumentativas. Dentre as
possibilidades de estratŽgias argumentativas, a autora destaca: a modalidade
demonstrativa, segundo a qual o locutor apresenta uma tese fundamentada, por
meio de discurso monologal ou dialogal, a um audit—rio a fim de conquistar sua
ades‹o; a modalidade negociada, em que os parceiros, com diferentes opini›es,
se empenham para encontrar uma solu�‹o comum para o problema que lhes apetece;
e a modalidade pol�mica, caracterizada pela presen�a de participantes com
posicionamentos antitŽticos, em total desacordo, no qual um ataca a tese do
outro e, atŽ mesmo, a pr—pria figura do outro a fim de provocar a ades‹o de um
terceiro. No tocante ˆ pol�mica, a autora destaca ainda que, apesar de
julgamentos precipitados que a ela atribuem valores negativos, para o analista
do discurso, a pol�mica se mostra Òrica de ensinamentos na medida em que ela
revela muitas coisas sobre a sociedade e a Žpoca na qual o discurso pol�mico
circulaÓ (AMOSSY, 2017, p. 49). Isso acontece porque a modalidade pol�mica gira
em torno de temas atuais[30], que circulam pelo espa�o
pœblico.
Amossy (2017, p. 49)
afirma ainda que Òa primeira marca da pol�mica como debate da atualidade Ž uma
oposi�‹o de discursoÓ, de modo que a exist�ncia de posicionamentos antitŽticos
Ž essencial para a emerg�ncia dessa modalidade argumentativa. Assim, de acordo
com a autora, o que modaliza a pol�mica Ž a atividade de materializar
argumentos a favor de sua tese e contra a tese oposta, ou seja, diante desse
cen‡rio, cabe a ambas as partes da intera�‹o construir a fundamenta�‹o de suas
proposi�›es bem como a justificativa de suas contraposi�›es. Nesse sentido, Amossy
(2017), baseando-se em Marc Angenot, traz ˆ tona a dupla estratŽgia que
tangencia a pol�mica que seria a demonstra�‹o da tese e a refuta�‹o e
desqualifica�‹o da tese antag™nica. A partir de ent‹o, Amossy afirma que a
especificidade da pol�mica dentro do campo da argumenta�‹o ret—rica Ž definida
pela dicotomiza�‹o, pela polariza�‹o e pela desqualifica�‹o e, de forma secund‡ria, n‹o obrigat—ria, pela viol�ncia verbal e pelo pathos.
A dicotomiza�‹o,
portanto, como aponta Dascal (2008), leva o debate a n’veis extremos, uma vez
que, nesse caso, as partes n‹o se empenham em desenvolver um acordo, ou
estabelecer um meio termo, para o problema em quest‹o. Amossy (2017, p. 55)
coloca, ent‹o, que a pol�mica se diferencia das Òintera�›es argumentativas
ordin‡rias porque ela tende sistematicamente para uma dicotomiza�‹o que
dificulta a busca de acordo entre as partes advers‡riasÓ. No caso deste
trabalho, por exemplo, os participantes que apontam argumentos a favor dos
direitos dos povos ind’genas e os participantes que, embasados em estere—tipos,
argumentam a favor do desenvolvimento econ™mico do pa’s, velando o racismo, n‹o
se empenham nessa discuss‹o para balancear os posicionamentos, e, assim, ao
final, atingir um consenso, pois, eles t�m, aqui, objetivos outros.
Para melhor explicar o
processo de polariza�‹o, Amossy (2017) prop›e a diferencia�‹o entre actantes e
atores. Segundo Plantin (2008), os atores
s‹o os sujeitos concretos da enuncia�‹o e os actantes, por sua vez, est‹o interligados a modalidades discursivas
espec’ficas que envolvem um Proponente e um Oponente em face de um Terceiro.
Esses papŽis argumentativos, de acordo com o autor, se definem a partir de tr�s
atos: propor, opor-se e duvidar. Cabe, aqui, ent‹o ressaltar que o campo do
Proponente se comp›e de diferentes atores, de diferentes grupos sociais, ou
seja, se comp›e de diferentes vozes, e o mesmo se d‡ com o campo do Proponente;
Ž a jun�‹o de participantes t‹o diversos que faz a polariza�‹o dif’cil de ser
solucionada. Nesse sentido, Gr‡cio (2013), retomando os pressupostos de Plantin,
traz ˆ tona a no�‹o de perspectiva�‹o
de pontos de vista, que se d‡ quando proponentes e oponentes verticalizam suas
diverg�ncias em uma intera�‹o argumentativa. Tal verticaliza�‹o Ž not—ria, por
exemplo, em um ambiente virtual, em que uma pol�mica se constitui. Isto posto,
Amossy (2017, p. 56) destaca que Òa divis‹o actancial entre advers‡rios tomados
numa rela�‹o antitŽtica de tipo conflitual explica que a pol�mica instaura uma
opera�‹o de polariza�‹oÓ, ou seja, a pol�mica instaura um Òn—sÓ diante de um ÒelesÓ.
Em outras palavras, em
contextos polarizados, o Proponente para se autoafirmar, diante de um audit—rio
(Terceiro), desqualifica seu Oponente, atribuindo-lhe valores negativos. Uma
das estratŽgias utilizadas para tal consiste no ataque da palavra do outro,
Òseja pela reformula�‹o orientada, seja pela ironia, seja pela modifica�‹o dos
prop—sitosÓ (AMOSSY, 2017, p. 59). AlŽm disso, outras estratŽgias utilizadas
para desqualifica�‹o da pessoa dizem respeito ao silenciamento, ˆ exclus‹o e,
em casos extremos, ˆ diaboliza�‹o do outro. Declerq (2003, p. 18) assinala que
a pol�mica Ònos confronta com essa for�a incontrol‡vel que estimula a ter raz‹o
sobre o outro, a assegurar sua autoridade sobre ele, a submet�-lo, a
elimin‡-lo, se necess‡rioÓ. Enquanto isso, a demoniza�‹o, que divide os grupos
entre o bem e o mal, resulta na reprova�‹o total e na desumaniza�‹o do
advers‡rio. A partir de ent‹o, Ž poss’vel perceber que, para se posicionar de
modo veemente, o locutor deixa transparecer, em seu discurso, marcas de
subjetividade. ÒA emo�‹o Ž um resultado da implica�‹o do locutor no seu
discurso. O engajamento emocional se faz acompanhar de uma tentativa de tocar o
cora�‹o dos leitores/espectadoresÓ (AMOSSY, 2017, p. 62) e apresenta,
inexoravelmente, um funcionamento discursivo (PLANTIN, 2011). Em suma, Ž
poss’vel afirmar que a viol�ncia verbal e outras formas de emo�‹o, marcadas
linguisticamente nos discursos, s‹o estratŽgias que visam, por meio da
elimina�‹o e do descrŽdito lan�ado ao Oponente e a sua tese, provocar a ades‹o
de um Terceiro.
Culpeper (2011, p. 23)
concebe a viol�ncia ou impolidez lingu’stica como Òuma atitude negativa para
comportamentos espec’Þcos ocorrendo em contextos espec’ÞcosÓ. Desse modo, Cunha
(2019) aponta que a impolidez envolve a viola�‹o de Ònormas sociais de
comportamentoÓ, e o interactante que avalia o comportamento do outro como
impolido v�-se na posi�‹o de alguŽm cuja face – Òimagem do eu delineada
em termos de atributos sociais aprovadosÓ (GOFFMAN, 1967, p. 5) – foi
ofendida. Cabral e Lima (2017) observam que as manifesta�›es de viol�ncia
parecem ser mais veementes nos contextos das m’dias sociais. Nessa esteira,
Cabral, Marquesi e Seara (2015) afirmam que, nesses contextos, os interactantes
se escondem por detr‡s da m‡quina e de perfis fakes, o que lhes assegura
a preserva�‹o da identidade e a aus�ncia de risco de agress‹o f’sica. Segundo
essas autoras, as redes sociais d‹o aos usu‡rios maior liberdade para expor
pontos de vista pol�micos e, atŽ mesmo, para agredir outros. Na mesma dire�‹o,
Graham e Hardaker (2017) observam que o anonimato pode garantir a muitos
usu‡rios a possibilidade de serem mais sinceros e, por vezes, mais agressivos.
Como j‡ apresentado
acima, Ž objetivo deste artigo Ž estudar a pol�mica em coment‡rios do v’deo Eju
Orendive, do grupo de rap ind’gena Br™ MCÕs, postados no Youtube.
Dentre os coment‡rios realizados e as respostas a ele direcionadas, escolhemos,
para an‡lise, o coment‡rio com mais engajamento, ou seja, o coment‡rio que
obteve maior nœmero de respostas. Esse corpus, por sua vez, comp›e o
corpo deste artigo, por meio de imagens, de prints da tela do Youtube.
A partir dessa materialidade, buscamos, ent‹o, desvelar como se constroem,
nesse contexto, os aspectos da modalidade argumentativa pol�mica, isto Ž, a dicotomiza�‹o, a polariza�‹o e a desqualifica�‹o.
Ademais, nos empenhamos em mostrar como, nesse caso, a desqualifica�‹o do
discurso e da figura ou do grupo que representa o Oponente se desdobra em
discursos (im)polidos e atravessados por viol�ncia verbal. Em outras palavras,
a seguir, debru�amos esfor�os sobre as estratŽgias argumentativas e
lingu’sticas, a desqualifica�‹o materializada em (im)polidez e
viol�ncia/agressividade verbal (xingamentos, ironia e amea�a), utilizadas pelos
usu‡rios durante essa intera�‹o virtual.
A pol�mica em
coment‡rios do videoclipe Eju Orendive
O Youtube Ž uma
m’dia social, fundada em 2005, que tem como funcionalidade principal o
compartilhamento de v’deos gratuitos entre os usu‡rios da rede. Os
v’deos ali postados podem ser compartilhados em outras m’dias sociais, bem como
podem receber ÒlikesÓ ou ÒdislikesÓ; essa mesma fun�‹o, tambŽm, est‡ dispon’vel
para os coment‡rios. Os coment‡rios[31], por sua vez, dependendo
dos temas que circulam pelo v’deo em quest‹o, se tornam um espa�o aberto para o
debate em que os usu‡rios exp›em livremente seus posicionamentos. A partir do momento em que
um coment‡rio Ž postado, outras pessoas t�m a op�‹o de respond�-lo refutando ou
defendendo a opini‹o que foi exposta. Nessa esteira, Amossy (2017) destaca que
as redes sociais constituem a pra�a pœblica do sŽculo XXI. No entanto, nessa
pra�a, de acordo com Cabral e Lima (2017), o que pauta as intera�›es Ž mais o
conflito do que a harmonia. Dessa forma, o Youtube, apesar de n‹o
ter como foco principal a discuss‹o, tornou-se uma arena prop’cia ˆ
argumenta�‹o pol�mica, em que um Proponente prop›e uma tese que Ž atacada por
um Oponente, diante de um audit—rio.
O Youtube se
destaca por ter se tornado uma plataforma requisitada para o lan�amento e para
a divulga�‹o de videoclipes de grandes nomes e de nomes em ascens‹o
(KLICKPAGES, 2019). O videoclipe da mœsica Eju Orendive, do grupo de rap
ind’gena Br™ MCÕs, foi postado na m’dia no dia 28 de setembro de 2010,
no canal Cufatvddos. A produ�‹o (Captura de Tela 1 e Captura de Tela 2)
Ž composta por imagens dos integrantes do Br™ (Bruno Veron, Clemersom
Batista, Kelvin Peixoto e Charlie Peixoto), da etnia Guarani-Kaiow‡, vestidos ˆ
moda dos rappers americanos (com bonŽs, cal�as largas e camisetas), bebendo
cerveja, pintando os rostos com urucum e cantando seus versos rimados sobre o
cotidiano das aldeias que habitam, Jaguapirœ e Boror—, localizadas na cidade de
Dourados, oeste do Mato Grosso do Sul. As aldeias Jaguapirœ e Boror— constituem
um espa�o interpelado por mil’cias, formadas
pelos pr—prios ind’genas, ataques de diversas ordens devido a quest›es de
demarca�‹o de terras e pela aus�ncia da seguran�a pœblica. De acordo com
levantamento da Procuradoria[32] da
Repœblica de Dourados, nessas terras, a taxa de homic’dios foi de 101,1 por 100
mil habitantes, entre os anos de 2012 a 2014. No Brasil, a taxa mŽdia Ž de 29,2
homic’dios por 100 mil habitantes
Captura
de Tela 1 Captura
de Tela 2
Fonte: Youtube,
2020.
Fonte: Youtube, 2020.
Isto
posto, buscamos, a seguir, desvelar como a pol�mica e os componentes que a
constituem (polariza�‹o, dicotomiza�‹o e desqualifica�‹o), em conson‰ncia com
Amossy (2017), se constroem pelo coment‡rio e pelas respostas escolhidas para a
an‡lise. Dessa forma, Ž nosso objetivo mostrar, tomando como ponto de partida
essa materialidade lingu’stica, a partir do conceito da dicotomiza�‹o, como
duas opini›es divergentes se excluem mutuamente. Enquanto isso, no tocante ˆ
polariza�‹o, trazendo ˆ tona o funcionamento dos papŽis da argumenta�‹o (PLANTIN,
2008), buscamos esbo�ar como se posicionam o Proponente e o Oponente, ou seja,
delimitamos quais discursos o Proponente defende e o Oponente refuta. Seguindo
esse caminho, esmiu�amos o motivo pelo qual os interactantes utilizam a
desqualifica�‹o do discurso do advers‡rio e da figura ou do grupo que o
representa. Nesse sentido, mostramos como a (im)polidez e a viol�ncia verbal,
em conson‰ncia com Culpeper (2008), por meio de ironia, palavr›es, xingamentos
e amea�a, s‹o utilizadas, nesse contexto pol�mico, como estratŽgias
argumentativas e lingu’sticas, diante de um Terceiro.
Dito
isso, analisando a materialidade lingu’stica de Eju Orendive[33], Ž
poss’vel detectar discursos relacionados a religi›es crist‹s: Ò[...] Sempre
pe�o a Deus / Que ilumine o seu caminho / E o meu caminhoÓ; ao
racismo: Ò[...] Voc� n‹o consegue me olhar / E se me olha n‹o consegue me ver /
[...] Aquele boy passou por mim / Me olhando diferenteÓ; ˆ viol�ncia: Ò[...]
Por que n—s matamos e morremos? / Em cima desse fato a gente canta / êndio e
’ndio se matando / Os brancos dando risadaÓ; a um desejo por mudan�a e por
equidade: Ò[...] Vamos mostrar para os brancos / Que n‹o h‡ diferen�a e podemos
ser iguaisÓ; e ao rap como experi�ncia art’stica de resist�ncia: ÒAqui o
meu rap n‹o acabou / Aqui o meu rap est‡ apenas come�ando / Eu
fa�o por amor / Escute, faz favorÓ.
Os
coment‡rios que s‹o aqui analisados foram publicados h‡ 5 anos. Para desvelar
como a modalidade argumentativa pol�mica sobre eles se desdobra, utilizamos prints
da tela do Youtube, e, por quest›es Žticas da pesquisa, omitimos a
identidade dos usu‡rios. O coment‡rio abaixo recebeu 17 likes, nenhum dislike
e 56 respostas:
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de Tela 1 (Excerto 1)
Fonte: Youtube, 2020.
A partir de ent‹o,
mostramos como os usu‡rios materializam suas opini›es caminhando para um
cen‡rio de dicotomiza�‹o e de polariza�‹o, ou seja, para uma situa�‹o em que os
pontos de vista se excluem e apontam para um ÒeuÓ diante de um Òn—sÓ. Dessa
forma, para iniciar a an‡lise, apontamos como o posicionamento do Proponente,
aqui, tambŽm chamado de Usu‡rio 1, Ž constru’do. Tra�ando esse caminho, a
partir do coment‡rio Òêndios, querendo
sempre mais terras demarcadas para viver como pessoas que n‹o s‹o ’ndios. Faz
um rap com esse tema bombaÓ, fica evidente que o Usu‡rio 1 se posiciona,
explicitamente, contra uma das quest›es centrais para os povos ind’genas, que Ž
a demarca�‹o. Nesse sentido, ao afirmar que os ind’genas querem terras para Òviver como pessoas que n‹o s‹o ’ndiosÓ,
o Usu‡rio 1 desvela que sua opini‹o, extremamente racista, est‡ atrelada a uma
imagem cristalizada, estereotipada, acerca dessas identidades e, dessa forma,
ele desconsidera Òas trajet—rias de viol�ncia outras que levaram, quase sempre
de forma compuls—ria, as sociedades e os povos ind’genas ˆs suas formas de vida
atuaisÓ (NASCIMENTO, 2018, p. 1421).
As primeiras respostas,
direcionadas ao Usu‡rio 1 j‡ confirmam, por sua vez, a insurg�ncia de uma
situa�‹o de oposi�‹o, ou seja, de dicotomiza�‹o, caracter’stica imprescind’vel,
de acordo com Amossy (2017), para a modalidade argumentativa pol�mica. A
dicotomiza�‹o, aqui, por sua vez, aparece atrelada ˆ desqualifica�‹o do
discurso e da figura do outro, por meio da (im)polidez ou viol�ncia verbal,
como mostramos a seguir, a partir do Excerto 2.
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de Tela 2 (Excerto 2)
Fonte: Youtube, 2020
Na primeira resposta, Òfica caladinhoÓ, o conflito come�a a
ser delineado por meio da desqualifica�‹o, caracter’stica tambŽm essencial para
a pol�mica de acordo com Amossy (2017), direcionada ao Usu‡rio 1 e ao seu
argumento. O fato de o Usu‡rio 1 ter respondido Òn‹o to afimÓ mostra, no entanto, que ele mantŽm a inten�‹o de
n‹o aderir ao posicionamento do outro e, dessa forma, a dicotomiza�‹o, ou seja,
a presen�a de ideias antitŽticas, come�a a se constituir. Na resposta seguinte,
a desqualifica�‹o Ž delineada pela (im)polidez, a partir de estratŽgias
lingu’sticas, ou seja, a partir das escolhas lexicais pelos termos ÒbabacaÓ e Òot‡rioÓ, por parte do Usu‡rio 3, que imprimem ˆ intera�‹o um
car‡ter violento. Nesse momento, cabe aqui ressaltar que a (im)polidez verbal Ž
uma estratŽgia utilizada pelo locutor para angariar a ades‹o do audit—rio, no
entanto, ela n‹o Ž obrigat—ria para a qualifica�‹o de dada modalidade
argumentativa como pol�mica (CULPEPER, 2011; AMOSSY, 2017). Esse movimento de
ades‹o, porŽm, pode ser, inicialmente, desvelado a partir dos likes que
a resposta recebeu, sendo que 19 usu‡rios clicaram nessa op�‹o. Ademais,
considerando o que j‡ foi exposto acerca da intera�‹o, Ž poss’vel observar a
transpar�ncia de uma situa�‹o polarizada, uma vez que o Usu‡rio 1 comp›e o
campo Proponente, pois, diante dos discursos que circulam no v’deo, ele exp›e
sua tese e os Usu‡rio 2 e Usu‡rio 3 comp›e o campo Oponente, pois responderam
ao Usu‡rio 1, apresentando uma posi�‹o contr‡ria (PLANTIN, 2008).
AtŽ esse momento, no entanto,
o posicionamento do Oponente fora demonstrado de modo impl’cito por meio da
desqualifica�‹o materializada em viol�ncia verbal. A tese oposta, que se apoia
no fato de as terras ind’genas serem deles um direito adquirido, come�a a ser,
efetivamente, discursivamente constru’da, a partir dos coment‡rios a seguir:
Print
de Tela 3 (Excerto 3)
Fonte: Youtube, 2020.
No excerto 3, o Usu‡rio
4, do campo Oponente, inicia a constru�‹o de uma tese contr‡ria ˆ do Usu‡rio 1,
ao apontar que a demarca�‹o Ž um ato de repara�‹o hist—rica, uma vez que os
povos ind’genas s‹o os donos origin‡rios dessas terras (ÒA terra Ž deles por direitos! Eles estavam
aqui antesÓ). O Usu‡rio 1, por sua vez, destaca que a defesa de uma
posi�‹o se d‡ em fun�‹o da falta de informa�‹o, assim, desqualificando e
descreditando a tese oposta (ÒO que
mais chama a aten�‹o Ž a falta de informa�‹o dos que me criticam porque falei a
verdadeÓ). Nesse momento, ao afirmar que as ONGs ÒgringasÓ se filiam ˆ luta pela
demarca�‹o, porque t�m interesses econ™micos relacionados ˆ explora�‹o das
terras ind’genas, ele lan�a m‹o de um discurso alinhado ao discurso da extrema
direita, embasado em fake news, que come�ava a se inflamar pelo pa’s (ÒAs demarca�›es est‹o criando um outro pa’s
dentro do Brasil, comandado por ONGs gringas que s— querem explorar nosso pa’sÓ).
Esses coment‡rios foram realizados h‡ 5 anos, em 2015, ano em que o pedido de impeachment
da presidente Dilma Rouseff, filiada ao PT (Partido dos Trabalhadores),
partido considerado de esquerda/centro-esquerda, foi acolhido pela C‰mara dos
Deputados. A partir de ent‹o, como assinalado por Amossy (2017), Ž poss’vel
perceber como a pol�mica nos revela fatos sobre o contexto s—cio-hist—rico de
um momento espec’fico em dado espa�o f’sico.
O confronto direita vs.
esquerda, tambŽm, veio ˆ superf’cie nesse espa�o discursivo, como Ž poss’vel
perceber nos coment‡rios a seguir:
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de Tela 4 (Excerto 4)
Fonte: Youtube, 2020
No Excerto 4, os Usu‡rio
1 e Usu‡rio 6 se posicionam imprimindo descrŽdito ˆ opini‹o alheia, sendo que,
para tanto, se utilizam do recurso argumentativo da desqualifica�‹o que, nesse
caso, adquire as faces da (im)polidez e agressividade verbal que se materializa
por meio dos recursos lingu’sticos do palavr‹o e da ironia. O Usu‡rio 6, do
campo Oponente, na tentativa desqualificar o Usu‡rio 1, chama-o de Òcria bolsonaristaÓ, dando a entender
que, de acordo com sua perspectiva, ser esse um motivo de desdŽm (ÒPerder tempo com cria bolsonarista? Nem
fodendoÓ). Aqui, a op�‹o pelo recurso lingu’stico do palavr‹o (nem fodendo)
imprime o tom de (im)polidez ˆ comunica�‹o.
O Usu‡rio 1, em
resposta, elabora um argumento, debru�ando-se no recurso da ironia, tambŽm
muito empregado pela direita conservadora, que diz respeito ao fato de as
pessoas de esquerda serem contradit—rias por fazerem o uso da tecnologia (ÒFalou o usu‡rio de internet que tem conta no
Google e falam mal dos capitalistas...Ó). O racioc’nio, por eles
utilizado, Ž de que as pessoas de esquerda s‹o socialistas e n‹o devem usufruir
da tecnologia que Ž uma ferramenta criada pelo capitalismo. Isto posto, o
Usu‡rio 7, do campo Oponente, surge no espa�o discursivo e utiliza como estratŽgia
argumentativa a desqualifica�‹o da tese advers‡ria por meio apresenta�‹o de
fontes externas, apresentando um link do site Pragmatismo
Pol’tico. Nesse caso, a ironia d‡ o tom de (im)polidez e evidencia que essa
intera�‹o n‹o Ž pac’fica, mas, sim, agressiva, intolerante. Um n‹o quer
convencer o outro. Os interactantes virtuais buscam vencer uma ÒbatalhaÓ,
diante de um Terceiro.
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de Tela 5 (Excerto 5)
Fonte: Youtube, 2020.
No excerto 5, Ž poss’vel
observar mais uma vez a desqualifica�‹o materializada em (im)polidez em a�‹o. O
Usu‡rio 8, no in’cio de sua exposi�‹o, se refere ao seu opositor chamando-o de
Òan‡cefaloÓ e, dessa forma,
alŽm de atingir o outro, ele atinge tambŽm a tese advers‡ria, dando a entender
que somente uma pessoa sem cŽrebro defenderia esse posicionamento. O Usu‡rio 1,
em resposta, caminha pelas mesmas trilhas e desqualifica a imagem do Oponente
ao se expressar de maneira (im)polida e agressiva, utilizando uma express‹o
pejorativa: Òburro ignorante de merdaÓ.
Ademais, ainda nessa seara, ele acusa o Oponente de se esconder por tr‡s de um
perfil fake. Dito isso, ele faz o uso
da estratŽgia da corre�‹o gramatical/ortogr‡fica para desqualificar a tese
oposta e, para endossar o descrŽdito, ele finaliza a resposta fazendo uma amea�a
velada ao advers‡rio (ÒO correto Ž
acŽfalo seu burro ignorante de merda, fake de araque que nem coragem de colocar
o nome tem! [...] Um nick de merda desses... Onde vc mora? Quem sabe eu possa
ter a oportunidade de te mostrar minha mao maciaÓ).
O Usu‡rio 8, diante
desse cen‡rio de impolidez lingu’stica e amea�a, revela que a viol�ncia verbal
Ž inerente a pessoas fracas que precisam atacar as outras, diante da escassez
de argumentos. (ÒT’pico Perde o
argumento, apela para a fraqueza da amea�a. Mostra bem a que veio. FracoÓ).
Isto posto, o Usu‡rio 1, irredut’vel diante de seu posicionamento, se empenha
mais uma vez em desqualificar o usu‡rio por meio de palavras com sentido
pejorativo e palavr‹o como ÒburroÓ
e ÒmerdinhaÓ e da express‹o Òmach‹o da internetÓ.
A partir de ent‹o, Ž
poss’vel perceber que os dois grupos polarizados – de um lado, aqueles
que legitimam o rap ind’gena como uma arte de resist�ncia, os
considerados de esquerda, e, do outro, os usu‡rios de direita, que, por meio de
discursos preconceituosos e baseados em estere—tipos, deslegitimam os direitos
desses povos – se empenham na constru�‹o de argumentos opostos,
interpelados por (im)polidez lingu’stica, aqui, materializada em palavr›es,
ironias e amea�a, porŽm n‹o chegam a um consenso, pois a prefer�ncia por esses
recursos tem como alvo a ades‹o do audit—rio.
Considera�›es finais
A modalidade pol�mica,
proposta por Amossy (2017), se caracteriza pela presen�a da dicotomiza�‹o, da
polariza�‹o e da desqualifica�‹o, diante de uma situa�‹o conflitual de debate.
Nessa situa�‹o, a exposi�‹o de argumentos e de contra argumentos, por parte dos
interactantes, n‹o tem como objetivo final um acordo, mas, sim, a ades‹o de um
Terceiro, ou seja, a ades‹o de um audit—rio (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2005).
A partir da materialidade lingu’stica analisada, ou seja, do corpus em
quest‹o, percebemos que os participantes dessa intera�‹o, na constru�‹o de seus
posicionamentos, diante de um Terceiro, lan�am m‹o de estratŽgias
argumentativas e lingu’sticas como a desqualifica�‹o por meio da (im)polidez ou
da agressividade verbal, que ganham forma por meio de palavr›es, xingamentos,
ironia e amea�a, como tentamos mostrar na an‡lise apresentada.
Tendo em vista as
caracter’sticas da modalidade argumentativa pol�mica, Cunha (2019, p. 7)
ressalta que, nesse caso, o Òcomportamento violento ou impolido exerce fun�›es
importantes, n‹o devendo ser entendido como uma degeneresc�ncia da intera�‹o ou
como uma ruptura irracional de acordos, contratos ou quadros que subjazem ˆ
intera�‹oÓ (COSER, 1982; LOCHER; BOUSFIELD, 2008). Ademais, para Cabral e Lima
(2017), a viol�ncia constitui uma estratŽgia eficaz quando a inten�‹o do
locutor Ž desqualificar o interlocutor. Essas autoras destacam, apoiando-se em
Culpeper (2011), a import‰ncia de palavras de sentido pejorativo, palavras de
baixo cal‹o, entre outras aparecerem de forma marcada no discurso dos
interactantes. A viol�ncia se d‡, portanto, pela linguagem, o que endossa o
posicionamento de Culpeper (2011) e de Cabral e Lima (2017) a respeito da
marca�‹o lingu’stica da impolidez, principalmente, nas redes sociais, onde as
intera�›es se d‹o, em maioria, por meio da linguagem verbal.
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[Recebido:
22 jul 2020 – Aceito: 19 set 2020]
Tamo
junto, Favela! A arte perifŽrica como um mŽtodo educacional
WeÕre in together, Favela! Peripheral art as an
educational method
Ana Carolina de Souza Silva
https://orcid.org/0000-0001-5099-1058
Resumo: Neste trabalho,
apresentamos alguns resultados de uma pesquisa realizada no[34] Centro de Estudos
Lexicais e Terminol—gicos (Centro LexTerm) da Universidade de Bras’lia. TambŽm
divulgamos alguns relatos de experimenta�›es vivenciadas em institui�›es educacionais
e em casas de cultura do Distrito Federal. A primeira pr‡tica trata de uma
experi�ncia educacional e Ž de car‡ter mais cient’fico-especulativo; a segunda
envolve, fundamentalmente, a poesia e a performance. Nosso objetivo Ž, a partir
da estŽtica art’stica das periferias, verificar estratŽgias eficazes que buscam
resgatar uma popula�‹o marginalizada e em condi�‹o de vulnerabilidade, alŽm de tornar acess’veis conteœdos
fundamentais em busca de conscientiza�‹o e justi�a social. Dessa forma, constatamos
que, mesmo em condi�‹o de subalternidade, o povo perifŽrico n‹o Ž
passivo, uma vez que rejeita os saberes do opressor, assim como resgata e forja
saberes pr—prios. Pelo exposto, podemos observar a import‰ncia de trabalhar a
arte com narrativas e linguagem que contemplem a realidade de falas
perifŽricas.
Palavras-chave: Periferia; Linguagem;
Arte; Pol’tica; Educa�‹o.
Abstract: In this work, we
present some results of a research carried out at the Center for Lexical and
Terminological Studies (LexTerm Center) of the University of Bras’lia. We also
publish some reports of experiments experienced in educational institutions and
in cultural houses in the Federal District. The first practice deals with an
educational experience and has a more scientific-speculative character; the
second fundamentally involves poetry and performance. Our objective is, based
on the artistic aesthetics of the peripheries, to verify effective strategies
that seek to rescue a marginalized and vulnerable population, in addition to
making fundamental content accessible in search of awareness and social
justice. Thus, we find that, even in a condition of subordination, the
peripheral people are not passive, since they reject the knowledge of the
oppressor, as well as rescue and forge their own knowledge. From the above, we
can observe the importance of working art with narratives and language that
contemplate the reality of peripheral speech.
Keywords: Periphery; Language; Art; Politics; Education.
Considera�›es iniciais
Minha gera�‹o av— Ž
come�o, minha gera�‹o filha Ž meio e minha gera�‹o neta Ž come�o de novo (BISPO DOS SANTOS,
2019, p. 27).
Dona Julita, minha v—, nascida no sert‹o da Ema,
no munic’pio de Pianc— (PB), Ž uma mulher sisuda de 93 anos. Ela casou-se aos 18 anos para poder sair de
casa. Minha bisa, Aurora, foi uma mulher abandonada pelo biso em 1983. Essas
mulheres muito t�m a contar, mas trarei foco especial a Dona Julita, pois Ž
minha maior inspira�‹o nessa trajet—ria educacional, acad�mica, pol’tica,
art’stica, ativista e existencial.
Vov—, a mando de bisa Aurora, teve de abandonar
os estudos logo cedo para poder cuidar dos irm‹os mais novos. Mas n‹o s—. As
m‹ozinhas pequenas que sonhavam decodificar as letrinhas tiveram que catar
bolas de algod‹o para garantir a subsist�ncia da fam’lia. Hoje, vov— conta essa
hist—ria com muito rancor e l‡grimas nos olhos. Era 1967 quando ela e o v™ Jo‹o chegam ao Distrito Federal – depois
de tentar a vida em S‹o Paulo − e, achando espa�o para existir na capital,
se juntam a tantas e tantos outras (os) Severinas (os) nas vilas operacionais
em busca do sustento. Foi sustenta�‹o capitalizada. Vov— limpou casas e vov™
ergueu muros.
A maioria dos
trabalhadores optou por continuar na regi‹o, mesmo que o plano fosse de que
todos retornassem aos seus estados ap—s a constru�‹o de Bras’lia. Nas vilas
operacionais, um novo termo foi criado para designar esses trabalhadores:
candangos. Segundo Tavares (2009), essa terminologia Ž de natureza pejorativa. O
termo ÒcandangoÓ Ž africano (quimbundo[35]);
ele foi usado pelos portugueses para se referir aos negros no per’odo colonial.
No contexto da constru�‹o de Bras’lia, uma das hip—teses levantadas por
Tavares, a partir de sua investiga�‹o, Ž a de que o termo fora inspirado no
nome de um cachorro que habitava o Pal‡cio do Catetinho. Tendo Kubitschek
sabido disso, chamava os oper‡rios – em especial os nordestinos –
de tal forma. Outra hip—tese Ž a de que o termo Òoper‡rioÓ era designado aos
trabalhadores de maior prest’gio (como arquitetos e engenheiros) e ÒcandangoÓ ˆ
m‹o de obra explorada nas jornadas de trabalho (TAVARES, 2009).
Depois da constru�‹o, nordestinas (os), mineiras
(os) e goianas (os) foram erradicados do ÒlarÓ a partir da campanha da senhora
Vera Prates[36]
e realocados a cerca de 30km de dist‰ncia do centro. Como diria o rapper X, a Ceil‰ndia Ž resultado de
Òsangue, suor e l‡grimasÓ[37];
essa fala confirma a dificuldade dos moradores em se estabelecerem na Regi‹o Administrativa
– doravante RA. Isso ocorre n‹o somente por serem despejados, contra a
pr—pria vontade, de seus lares que ficavam pr—ximos a Bras’lia, mas tambŽm por
terem diversas limita�›es que impediam sua dignidade enquanto pessoas. A luta
dos candangos que constru’ram a capital foi em prol da garantia de Òum peda�o
de ch‹oÓ, como afirma o cantor X.
ÒPau que nasce torno, nunca se endireitaÓ, Ž o
que dizem. Com o destino manco, vov— seguia sua travessia ˆs cegas. Como Ž
poss’vel uma pessoa analfabeta sobreviver diante de uma cidade urbanizada,
diante de uma capital nacional, diante de uma complexa burrocracia? Sem ao menos assinar o pr—prio nome?
Dos
destinos que a vida tem, eu, calanga, nasci no cerrado. Vejo a hist—ria de Dona
Julita como o ponto inicial para mostrar que pau que nasce torno pode ser
modificado e que cada passo dessa peregrina foi essencial para construir uma
narrativa diferenciada. N‹o se trata da regra, mas da exce�‹o. No entanto,
foram necess‡rias apenas duas gera�›es ˆ frente das de Dona Julita para que o
pau fosse forjado em caneta. E caneta ativa.
Comunidade e pol’ticas aut™nomas
Vou
aprender a ler pra ensinar meus camaradas
(MENDES, 2005).
Dona Julita e Seu Jo‹o chegaram ao Distrito
Federal com seus cinco filhos ainda pequenos. Eles estavam em um territ—rio
desconhecido e diante de uma complexa configura�‹o de culturas. O natural Ž
que, a tudo que nos pare�a estranho, haja repuls‹o. Mas, mesmo diante da
misŽria comum a todos, estava tambŽm um forte instinto de sobreviv�ncia entre
esses seres greg‡rios.
Vivemos
resqu’cios da coloniza�‹o. Uma das estratŽgias de domina�‹o est‡ em controlar e
distribuir de forma desigual os direitos b‡sicos. çgua, alimenta�‹o, saœde,
lazer, transporte e educa�‹o s‹o apenas alguns dos direitos garantidos a qualquer
cidad‹o em territ—rio nacional, mas essa garantia torna-se ironia quando
observamos a realidade. Como bem afirma a poeta Meimei Bastos (2017),
mas, mais ensino mŽdio pra qu�?
se no fundamental os menor j‡ t‹o se
perdendo
na falta do professor.
o corre na esquina
Ž o plano de exterm’nio,
manuten�‹o da opress‹o
E como as comunidades sobrevivem diante da
neglig�ncia do Estado? Podemos pensar na Ceil‰ndia e na campanha de erradica�‹o
que ocorreu em 1970. Ao chegarem ao novo territ—rio, n‹o havia sequer ‡gua
encanada dispon’vel para a comunidade, de forma que as fam’lias recorriam a
po�os e nascentes, tendo de caminhar alguns quil™metros carregando baldes de
‡gua na cabe�a. A Caixa dÕçgua, monumento da cidade, Ž um marco hist—rico para
a RA, pois foi sinalizada como um direito ˆ cidadania.
A nossa sociedade n‹o Ž igualit‡ria. Os direitos
s‹o escolhidos a alguns e pincelados nos jogos de privilŽgios. Como afirma a
intelectual Sueli Carneiro (2005), essa estrutura social hierarquizada Ž
baseada em par‰metros raciais e de classe. Nessa conjuntura, negar a educa�‹o
aos marginalizados Ž o trato de manuten�‹o das desigualdades. A educa�‹o Ž a
chave de acesso a cidadania, a igualdade, ao mercado de trabalho. Esse plano de
exclus›es Ž um plano genocida.
Vov— sobreviveu,
mam‹e tambŽm, assim como tantas e tantos outros que n‹o tiveram o direito de
estudar. Mam‹e saiu precocemente da escola para poder ajudar financeiramente em
casa. Essa hist—ria Ž plural. A maioria na Ceil‰ndia (34,1%) tem o primeiro
grau incompleto. Estou na exce�‹o. Se o desejo foi de mudar a hist—ria desse
ciclo peregrino, ele n‹o foi consciente, mas, por ironia ou n‹o, formei-me
professora. Pensava eu, desde o trabalho de conclus‹o de curso da gradua�‹o,
desde a produ�‹o de minhas poesias para publica�‹o, em cortar o problema pela
raiz. E, nessa constitui�‹o, compreendo-me comunicadora. Arte-educadora. Gri™.
ƒ na conclus‹o
de curso que decido trabalhar com um grupo pouco explorado no Instituto de
Letras da Universidade de Bras’lia: os quilombos. Mas n‹o relatava os quilombos
rurais, tradicionalmente conhecidos pelas pr‡ticas ancestrais, a cultura de
subsist�ncia e o modo alternativo de viver uma economia em comunidade. Tratava
do quilombo em um espa�o urbano, com maioria negra vivendo, tambŽm, a partir do
esp’rito de comunidade. Esse territ—rio Ž chamado favela, periferia, quebrada,
gueto. Nesse ’nterim, eu escolhi meu quilombo, a Ceil‰ndia.
Chamar a
periferia de quilombo Ž resgatar uma simbologia de resist�ncia e luta. Nesses
espa�os, alguns dispositivos s‹o utilizados a fim de garantir a resist�ncia e
sobreviv�ncia diante da condi�‹o de despejados. O que na periferia representa
fortemente essa luta Ž a cultura Hip Hop[38].
Para nossa pesquisa, focamos em um elemento: o rap. Ao longo da investiga�‹o,
percebia que os cantores traziam analogias da Ceil‰ndia enquanto um espa�o de
resist�ncia, tendo como refer�ncia o quilombo. Esse aquilombamento ocorre quando
a periferia se identifica como um corpo negro escravizado em busca de
liberta�‹o. A exemplo, vejamos a letra do grupo ceilandense Sobrevivente de
Rua:
Pois
somos um desde a Revolta dos Mal�s
A uni‹o
do povo em um povo s—
Quando
existir o que vai reduzir o opressor a p—
Um salve
a todos os levantes, insurgentes, populares
N—s
somos um desde o Quilombo dos Palmares[39]
Esse material
precioso foi utilizado como mŽtodo de educa�‹o lingu’stica em minha experi�ncia
acad�mica. Escolhi uma escola[40]
de Ensino Fundamental II para pensar o contexto urbano de Ceil‰ndia em uma
perspectiva quilombista[41],
uma vez que essa tomada de consci�ncia contribui para apropria�‹o do termo
dentro de uma nova concep�‹o, uma transforma�‹o na l’ngua. Isso porque, com a
transforma�‹o lingu’stica, h‡ expressamente uma modifica�‹o nas pr‡ticas e
cultura do povo. Levar materiais como letras de rap que valorizam a
cultura, os saberes, a realidade e a particularidade lingu’stica de uma
comunidade, ent‹o, contribui para a conscientiza�‹o e emancipa�‹o de um povo.
Quando os
saberes de um povo s‹o negados, desmoralizados e inferiorizados, culturas s‹o
mortas. Em contraposi�‹o, quem est‡ no lugar de domina�‹o tem seus saberes
supervalorizados, e quem quer que queira sobreviver diante do caos social deve
seguir as regras de quem Ž posto como senhor. Vov— n‹o estudou, como
consequ�ncia, muito pelejou. Mam‹e n‹o concluiu a educa�‹o b‡sica e teve sŽrias
consequ�ncias no mercado de trabalho. Minha gera�‹o (filha) precisou de cada
passo das ancestrais para segurar um diploma de educa�‹o superior. Muito foi
superado, mas Ž imposs’vel seguir essa trajet—ria sozinha.
A no�‹o de
comunidade dentro das favelas faz com que n—s, os moradores, a partir do que
temos, contribuamos uns com os outros. Seja o p‹o, uma roupa em desuso, um
dinheirinho para a passagem, um conhecimento e ombro amigo, essa dan�a coletiva
Ž fundamental para a exist�ncia de nossos territ—rios marginalizados. O que eu
tinha em m‹os era o conhecimento formal, uma veia art’stica latejante e a
necessidade de distribuir a consci�ncia pelas esquinas de meu quilombo.
Felizmente, na Ceil‰ndia, a cultura Ž pulsante. Espa�os como o Jovem de
Express‹o, a Casa Akotirene e o Sarau VA s‹o ambientes que disponibilizam
atividades culturais para nossa comunidade. Em todos esses locais, h‡ o momento
do palco aberto, ocasi‹o em que o microfone e o palco est‹o dispon’veis para
que pessoas compartilhem sua arte, seja ela a poesia, a mœsica, a dan�a, ou
mesmo uma fala de consci�ncia.
Foi no palco
aberto que permiti que minha arte fosse publicada. AtŽ ent‹o, n‹o me entendia
como artista, mas era bom ver a rea�‹o das pessoas ao ouvirem minha palavra
que, a princ’pio, muito t’mida, queria dizer algo. Muitos artistas relatam que
a oportunidade de compartilhar sua arte cura. Comigo n‹o foi diferente. Mas
quanto mais eu pegava no microfone, mais sentia o peso da responsabilidade em
minha fala. Como costumamos dizer, o microfone Ž como uma arma. Com essa
consci�ncia, procurava e ainda procuro elaborar poesias e performances que
estejam de acordo com a justi�a social, que denunciem as mazelas cometidas,
sobretudo, contra a popula�‹o negra e que elevem nosso povo no sentido de
contribuir com nossa autoestima.
Dessa forma, a
poesia Ž uma arma sutil de combate, Ž um livro, Ž consci�ncia. ƒ no microfone
que quebro o sil�ncio de gera�›es. Digo o que as minhas de antes n‹o puderam
dizer e desafio o opressor a refletir sobre seu lugar. O sil�ncio Ž adoecedor.
Ele Ž imposto em qualquer rela�‹o hierarquizada, seja chefe e empregado,
professor e aluno, pobre e rico, branco e preto, homem e mulher. Quem quebra o sil�ncio
cura a si e aos ouvintes que se identificam com o conteœdo da fala. Quanto mais
representativas forem a forma e conteœdo da fala, mais pol’tica e comunit‡ria
se torna a a�‹o do verso.
A linguagem Ž perifŽrica, o conteœdo Ž
desalienante. Portanto, busco relatar um mundo que n‹o corresponda aos padr›es
capitalistas, patriarcais e crist‹os, para quebrar com a hegemonia colonial
europeia. ƒ preciso contar a hist—ria por outra perspectiva. Chimamanda Ngozi
Adichie j‡ nos chama a aten�‹o do perigo da hist—ria œnica. Como ela afirma,
Òmostre um povo como uma coisa, uma coisa s—, sem parar, e Ž isso que esse povo
se tornaÓ (ADICHIE, 2009, p. 12).
A hist—ria
do Brasil Ž contada de forma que o povo pindor‰mico[42] e o povo africano s‹o
carregados de preconceitos. Para Adichie (2009), os estere—tipos s‹o
problem‡ticos por serem concep�›es incompletas que tomam nossa dignidade, nossa
humanidade. Os r—tulos que carregamos s‹o de selvagens, inferiores,
desumanizados, bestiais, ignorantes, coitados, tutelados, sœditos. Quanto a
isso, j‡ nos chama a aten�‹o o mestre quilombola Ant™nio Bispo dos Santos:
No plano individual, as pessoas afro-pindor‰micas foram e continuam
sendo taxadas como inferiores, religiosamente tidas como sem almas,
intelectualmente tidas como menos capazes, esteticamente tida como feias,
sexualmente tidas como objeto de prazer, socialmente tidas como sem costumes e
culturalmente tidas como selvagens. Se a identidade coletiva se constitui em
di‡logo com as identidades individuais e respectivamente pelos seus valores, n‹o
Ž preciso muita genialidade para compreender como as identidades coletivas
desses povos foram historicamente atacadas (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 37).
O argumento do colonizador, ao atacar a cultura
de povos afro-pindor‰micos, Ž o de que Žramos (e ainda somos) um povo sem
hist—ria, sem civiliza�‹o. ƒ preciso questionar qu‹o equivocado o conceito de
civiliza�‹o pode ser. Ser‡ mesmo que uma rela�‹o de explora�‹o com a terra e
seus recursos naturais, assim como uma rela�‹o violenta com povos e animais que
habitam a terra pode ser constitu’da como civiliza�‹o? O desequil’brio na
produ�‹o e no consumo configura civiliza�‹o? Escrever configura civiliza�‹o?
Ao que diz respeito ˆ hist—ria, s— tem direito ˆ
sua quem tem o dom’nio da escrita. No senso comum, a hist—ria do Brasil come�a
em 1500, quando o colonizador come�a a escrev�-la com uma —tica vampiresca e
distorcida. A escrita ser‡ o saber que legitima a concep�‹o de desenvolvimento.
Por traz desse quiproqu— est‡ uma estratŽgia perfeita que autoriza a domina�‹o
de uns sobre outros. N‹o basta que os saberes leg’timos sejam brancos,
masculinos e crist‹os (ou seja, eurocentrados), tambŽm devem ser escritos? O
grafocentrismo nada mais Ž do que uma pol’tica genocida de l’nguas e culturas
de povos que n‹o correspondem ao povo europeu.
A
linguagem que utilizamos na periferia Ž diversa. Gosto de como a intelectual
LŽlia Gonzalez a categorizava, colocando-a como o pretogu�s, que Ž esse
portugu�s da gente, sincretizado, modificado, Ž a Òmarca de africaniza�‹o do portugu�s falado no
BrasilÓ (GONZALEZ, 1988, p. 70). O signo Ž latino, mas a ess�ncia Ž carregada
de pindoramas e africanidades. Essa linguagem Ž o nosso pretogu�s e nos
representa. Ela est‡ viva. Concluo este t—pico com a sabedoria de Bispo, quando
diz:
Muitos s‹o os autores que escreveram sobre a trajet—ria dos povos afro-pindor‰micos
e sobre a sua import‰ncia para a hist—ria do Brasil. Portanto, o que vamos
falar pode ser encontrado em v‡rias bibliografias. Poder’amos aqui fazer
refer�ncias a v‡rias delas, mas n‹o ser‡ necess‡rio, porque a trajet—ria desses
povos transp›e qualquer texto cient’fico ou liter‡rio. Ela Ž vis’vel e palp‡vel
materialmente e pode ser sentida imaterialmente, tanto quando olhamos para o
passado e fazemos refer�ncia aos nossos ancestrais, como hoje quando visitamos
as comunidades da atualidade e dialogamos com as suas organiza�›es e
manifesta�›es culturais (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 38).
A arte perifŽrica engajada
Miss‹o cumprida ent‹o
palmas pra n—is mesmo
Periferia a’ palmas pra n—is mesmo
A todos os maloqueiros palmas pra n—is mesmo[43].
A can�‹o acima
Ž do grupo de rap Viela 17. Trata-se de rap da Ceil‰ndia, rap
de quebrada, rap que salva vidas. O rap, o funk, o samba,
s‹o sons que ecoam em periferias como a Ceil‰ndia; s‹o educadores de um povo.
Como diriam Cidinha e Doca, ÒO povo tem a for�a, precisa descobrir / Se eles
n‹o fazem nada, faremos tudo daquiÓ[44].
Mas qual a import‰ncia de considerar tal discurso dentro das periferias? ƒ
poss’vel que essas narrativas contribuam na educa�‹o formal?
A arte da
periferia Ž engajada. A tomada de consci�ncia dos moradores Ž vivida na pr‡tica
ao sentirmos, no cotidiano, a aus�ncia do Estado. A representatividade nos
espa�os de poder Ž m’nima, se pensarmos em termos estat’sticos. Maioria negros,
maioria mulheres, maioria pobres, e essa maioria continua a ocupar os espa�os
minorizados. No entanto, como j‡ mencionado anteriormente, a periferia se
mantŽm pela coletividade e esp’rito de luta. Como bem j‡ declarava o professor
Abdias do Nascimento:
A continuidade
dessa consci�ncia de luta pol’tico-social se estende por todos os Estados onde
existe significativa popula�‹o de origem africana. O modelo quilombista vem
atuando como ideia-for�a, energia que inspira modelos de organiza�‹o din‰mica
desde o sŽculo XV. Nessa din‰mica quase sempre heroica, o quilombismo est‡ em
constante reatualiza�‹o, atendendo exig�ncias do tempo hist—rico e situa�›es do
meio geogr‡fico (NASCIMENTO, 2019, p. 282).
Um exemplo
muito evidente disso Ž a escritora negra Carolina Maria de Jesus e suas
denœncias dentro de um minœsculo quarto de despejo. Os quartos de despejo s‹o
mœltiplos, as denœncias mais ainda, plurais e singulares, pois, como diria Gog,
Òperiferia Ž periferia em qualquer lugarÓ[45].
Os males daqui s‹o como os de l‡. Nas dores nos encontramos, tra�amos
estratŽgias e sobrevivemos. TambŽm nos encontramos nos amores de sermos
verdadeiramente coletivos, soci‡veis.
Nas periferias
do Distrito Federal, h‡ diversas vozes, sobretudo de mulheres negras, que s‹o
muito inspiradoras. Essas vozes s‹o est’mulos para a luta de emancipa�‹o de um
grupo t‹o marginalizado. Apesar dos recortes de cor e g�nero, Ž poss’vel crer
que, com o empoderamento da base, toda uma estrutura pode ser melhor
equilibrada. Isso porque o modelo triangular hier‡rquico social pressiona os
que est‹o no topo (homens brancos, hŽteros, cat—licos, ricos) a ceder,
voluntariamente ou n‹o, espa�o ˆs (aos) que est‹o chegando. Estamos chegando e,
como diz a can�‹o de BKÕ, Rael, Emicida, Rincon Sapi�ncia, Djonga e Mano Brown,
Òo cŽu Ž o limiteÓ:
Melhor irem se acostumando
V‹o ter que se adaptar
Os pretos com o din gastando
Sem se preocupar
E pra contrariar seus planos
Nas grades n‹o vamos ficar
Unidos, se fortificando
Ei, quem vem l‡[46]
Consideramos
did‡tica essa arte que se manifesta como instrumento de luta e discurso
ideol—gico: a arte dos ocultos. Um bom exemplo de mission‡ria nas
periferias do Distrito Federal Ž Meimei Bastos. Ela Ž poeta, atriz e
arte-educadora, idealizadora do Slam[47]
Quebrada. O trabalho de Meimei se estende a todos os cantos da capital. Das
periferias aos espa�os de poder, tive a oportunidade de acompanhar esse encargo
enquanto poeta em locais como o Imagin‡rio Cultural (Samambaia), o Complexo
Cultural (Samambaia), o CCBB (Plano Piloto), a Universidade de Bras’lia (Plano
Piloto) e o Jovem de Express‹o (Ceil‰ndia).
O Slam
Quebrada me deu a oportunidade de competir no campeonato nacional (Slam
BR) em dezembro de 2018. Essa foi uma porta aberta para que eu me lan�asse enquanto
poeta e performer. Na disputa nacional, percebo que a multiplicidade discursiva
no Slam BR Ž impressionante e o esp’rito de luta Ž quase uma regra. A
maioria dos participantes s‹o negros e negras de periferias de 18 estados
brasileiros. Vejo nesse evento uma forma de disseminar a literatura da quebrada
que ecoa em vozes desocultadas.
Esse movimento
Ž pol’tico e aut�ntico. A linguagem Ž representativa e busca o reconhecimento,
a alteridade. Em meu trabalho enquanto poeta e arte-educadora, procuro levar
comigo mulheres como Meimei Bastos e Thabata Lorena, para citar alguns
exemplos. Abaixo, segue um trecho do poema de Meimei Bastos (2017, p. 19) que
utilizei no projeto Parada Sociocultural[48]:
aqui, no cumprimentar
n—s olha nos —i,
d‡ bom dia pra tia,
pro menor na quina,
pra mina da padaria,
pro tio do verdur‹o.
n‹o tem bisu errado,
n‹o tem de querer ser,
pois n—s
j‡ Ž
Outro projeto o
qual tive a oportunidade de participar foi o bip – bRASêLIA
iNSPIRA pOESIA[49]. Foram
selecionados poemas de artistas do/no Distrito Federal que falassem, em suas
narrativas, sobre como Ž viver nessa regi‹o; como resultado, foi publicada uma
antologia poŽtica. Para alŽm da publica�‹o, foram idealizados saraus para que
artistas e seus poemas fossem apresentadas (os) ˆs escolas pœblicas nas regi›es
administrativas Cruzeiro, Candangol‰ndia e Nœcleo Bandeirante. Paralelamente,
trabalhei como poeta e mestre de cerim™nias, o que me deu a oportunidade de uma
intera�‹o mais ’ntima com as (os) alunas (os). Sempre que as (os) questionava
se gostavam de poesia, elas (es) diziam que n‹o. Essa resposta autom‡tica Ž o
reflexo da ideologia que se tem de que poesia Ž literatura de elite, dif’cil de
ser compreendida, chata, entre outros estere—tipos. Mas bastava que eu
perguntasse se as (os) alunas (os) gostavam de rap e a grande maioria
levantava as m‹os em alegria.
A palavra rap advŽm da sigla em ingl�s rhythm and poetry[50] (ritmo e poesia), ou seja, a poesia
est‡ nos emaranhados do rap. Recursos como mŽtrica, rima e linguagem
figurada podem ser facilmente encontrados nas can�›es. A exemplo, a cantora e
compositora Thabata Lorena:
Eu n‹o sou a tal, nem sou aquela
Sou mais uma menina que sobe a favela
S— pago um pau pra ela
Minha ama de leite
Favela[51]
Enquanto
educadora, s‹o essas as narrativas que considero primordiais no processo de
ensino e aprendizagem nas periferias. Dentro da cultura das quebradas, a l’ngua
Ž carregada de particularidades e as express›es utilizadas pelos falantes s‹o,
cotidianamente, aceitas nos contextos de fala.
A forma altamente
violenta e impositiva do colonizador, ao chegar nesse territ—rio nacional,
desconsiderou todo o saber ancestral e cultural de povos pindor‰micos e
africanos. Essas marcas se apresentam na contemporaneidade. Afro-pindor‰micos
s‹o sempre colocados ˆ margem e s‹o inferiorizados dentro das rela�›es
verticais na sociedade. Sobretudo, ˆs mulheres negras, foram atribu’das as
fun�›es maternas. Somos as m‹es de toda uma popula�‹o, cuidamos de nossos
filhos e dos filhos alheios nas casas de luxo. Temos um papel primordial de
base e, por sermos base, somos desqualificadas.
Eu, mulher
negra e perifŽrica, m‹e, procuro quebrar esse ciclo. De vov— analfabeta, de m‹e
domŽstica: filha educadora. Eu educo a favela com poesia e denœncia. De
qualquer forma, reconhe�o que trabalhar com jovens de escola pœblica de
periferia Ž desafiador e extremamente delicado. Reflito sobre os dados da
Infopen[52]
divulgados em 2014, que destacam que o perfil da popula�‹o carcer‡ria Ž
constitu’do por 31% de cativos entre 18 e 24 anos, sendo 67% de cor negra; e
53% t�m o Ensino Fundamental incompleto. A maioria dos crimes cometidos Ž por
tr‡fico (27%) e roubo (21%), sendo o tempo total das penas da popula�‹o
prisional condenada entre 4 e 8 anos (26% dos casos). Por isso, em meu processo
de conclus‹o na gradua�‹o, a escolha por uma institui�‹o de Ensino Fundamental
na Ceil‰ndia n‹o foi ocasional.
A escola
selecionada fez parte de meu hist—rico escolar. Enquanto ceilandense e negra,
pude vivenciar pr‡ticas de exclus‹o na institui�‹o quando cursara o Ensino
Fundamental II. Compreender a experi�ncia vivida nessa pesquisa, no caso,
dependeu da combina�‹o com experi�ncias passadas. Diante da profiss‹o que tive
possibilidades de exercer, posso perceber a responsabilidade social que
carrego. Voltar ˆ Ceil‰ndia, agora em condi�‹o de professora, Ž retribuir todo
o conhecimento adquirido em minha caminhada.
Observo o
material did‡tico dispon’vel, que Ž decepcionante. A gram‡tica tradicional
ainda Ž a mais utilizada na institui�‹o. Essa gram‡tica Ž de car‡ter preconceituoso
em rela�‹o ˆs variantes que fogem do padr‹o do portugu�s e tem a necessidade de
estabelecer par‰metros em busca de um uso idealizado da l’ngua, ocorr�ncia
arcaica que se inicia desde os gregos antigos (MARTELOTTA, 2016, p. 45).
Esse atributo se
reflete atŽ hoje em nossa l’ngua. Sempre que se aponta um portugu�s ÒerradoÓ Ž
por estar fora dos padr›es de um portugu�s idealizado e elitizado, chamado
portugu�s culto. Se observarmos mais criticamente, Ž averigu‡vel que a quest‹o
da erudi�‹o da l’ngua est‡ ligada ˆs rela�›es de poder. Efetivamente as classes
altas s‹o as que t�m mais contato com estruturas ÒcorretasÓ (MARTELOTTA, 2016,
p. 47) e, portanto, s‹o tambŽm as classes com mais oportunidades e privilŽgios.
Para
compreender o funcionamento da l’ngua, Ž preciso assimil‡-la ao contexto com o
todo (MARTELOTTA, 2016, p. 63). Trata-se de uma an‡lise mais aprofundada que a
gram‡tica faz; trata-se da pr‡xis
e, por isso, considero a linguagem perifŽrica essencial e significativa nessa
pesquisa.
E onde est‹o,
nas escolas, materiais did‡ticos que se relacionam com a realidade dos alunos?
Onde est‹o os materiais que acompanham o movimento, a mudan�a, a din‰mica na
linguagem deles? Onde est‹o, ao menos, as pr‡ticas que contemplam o universo
dos jovens perifŽricos?
Professor, me refiro a voc�: se parar para repensar na
sala de aula, perceber‡ o qu‹o desprendido est‡ o material disponibilizado para
os aprendizes. E n‹o Ž preciso refletir muito profundamente para compreender
que suas pr‡ticas tambŽm est‹o. ƒ vulgar e desumano culpar apenas a institui�‹o
de ensino, assim como o material did‡tico. O ju’zo come�a olhando para si
mesmo, no qu‹o compromissado socialmente est‡ ao entrar em uma sala de aula para
come�ar esse culto, que Ž o ensinamento.
Considera�›es
finais
a real Ž que eles t�m
medo
do formigueiro se
ati�ar,
da gente se armar de
conhecimento.
eles t‹o ligado que
quando n—s
respirar n—s,
eles morrem sem ar
(BASTOS, 2017, p. 47).
A voz da periferia Ž som que ecoa e cura. N—s
falamos, e a tradi�‹o da oralidade vem dos de antes, de ontem. Dandara falou,
Carolina Maria de Jesus falou, minha av— falou. Hoje eu falo. As pr—ximas
falar‹o. ƒ sentando no ch‹o e ouvindo que aprendemos. A minha arte Ž a palavra.
AtravŽs dela me curo, curo os de antes, curo quem vir‡. E a partir dessa cura,
procuro ser uma refer�ncia de ancestral curada.
O corpo que se move na favela Ž um corpo
pol’tico. Mover-se Ž um ato pol’tico em si. Se pensarmos sobre as estratŽgias
genocidas, quando nos movimentamos, estamos agindo contra a colonialidade
exterminadora. Cada corpo Ž um arquivo, pois contŽm mem—ria, contŽm hist—ria,
contŽm narrativas.
Como a palavra por si s— n‹o d‡ conta, a
performance vai ecoar na vibra�‹o de cordas vocais. ƒ no grito, Ž no rito, Ž no
canto, Ž nas louva�›es. A performance mostrar‡ o potencial de toda essa
oralidade que carregamos em nossa mem—ria, em nosso DNA, em nossos costumes que
o colonizador foi incapaz de exterminar. Se estamos vivos, algo deve ser
aprendido conosco. E o lixo fala, e numa boa, fala muito bem[53]. Todo mundo se entende, e
com isso estamos sobrevivendo, vivendo, mantendo nossa hist—ria.
Como diriam Bernadino-Costa e Grosfoguel (2016),
mesmo em condi�‹o de subalternidade, n‹o somos sujeitos passivos, uma vez que
podemos rejeitar os saberes do opressor, assim como resgatar e forjar nossos
pr—prios saberes. Que busquemos, n—s, os favelados, enaltecer nossos
conhecimentos, produzir e compartilhar saberes, elevar nossa autoestima.
Vov— Ž minha escola. Mam‹e Ž minha escola. Homens e mulheres
educadores que passaram em minha trajet—ria s‹o minha escola. A terra Ž minha
escola. A mœsica Ž minha escola. A periferia Ž minha escola. Nossa fala Ž
ancestral, tem poder, objetivos e Ž coletiva, org‰nica[54].
Nosso saber Ž vivo. Sigamos juntos. Subamos juntos. Tamo junto, favela!
Refer�ncias
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[Recebido: 23 jul 2020 – Aceito: 24 set
2020]
A pintura Ž um sil�ncio? Ou qual a voz da pintura?
Is a painting silence? Or whatÕs the voice of a
painting?
Vanessa Tavares da Silva[55]
https://orcid.org/0000-0003-4943-6166
Resumo: Neste trabalho, examinaremos o processo
pict—rico e a pintura a partir da perspectiva que relaciona literatura e
oralidade. Para tanto, apresentaremos os procedimentos do artista visual
brasileiro Eduardo Berliner em uma de suas pinturas, Leda e o Cisne, com a qual o artista retoma um dos mitos gregos. De
modo amplo, tomam-se os estudos da oralidade como o resgate de um ponto
fundamental do estabelecimento das rela�›es entre os seres e o mundo, que,
embora invis’vel, Ž vigente. Assim,
verificar-se-‡, por meio dos desvios estabelecidos nas an‡lises, os
procedimentos e a pintura de Berliner como locus
de vig�ncia de aspectos prim‡rios da oralidade, assim como quest›es da
performance e do mito, trazendo ˆ tona mais uma via de compreens‹o da pintura,
sendo ela tambŽm possibilidade de espa�o de resist�ncia ˆ rela�‹o com o mundo
somente pela via da raz‹o. Tomamos como base o pensamento de Walter Ong (1998),
Paul Zumthor (1993) e Michele Simonsen (1987), entre outros autores, cujas
vis›es nos auxiliaram na perspectiva de uma compreens‹o mais ampla sobre a
pintura e os procedimentos que a envolvem, dando-nos a perceber a presen�a da
oralidade, tambŽm nessa esfera, de modo a ampliar a apreens‹o sobre as rela�›es
entre a humanidade e o mundo.
Palavras-chave: Pintura; Oralidade; Desvio; Processo
criativo.
Abstract: We
will examine the pictorial process and painting relating literature and
orality. We will address the procedures of the Brazilian visual artist Eduardo
Berliner (1978) and one of his paintings, Leda
and the Swan (2015), in which the artist takes up one of the Greek myths.
Broadly speaking, the studies of orality are seen as the retrieval of a
fundamental feature in the establishment of relations between human beings and
the world, which, although invisible, is in force. Thus, through the deviations
established in the analyses, we will establish Berliner's procedures and
painting as the validity locus of primary aspects of orality, as well as issues
of performance and myth, bringing to light yet another way of understanding a
painting, which is also the possibility of a space of resistance to the
relationship with the world only through reason. We draw from the thoughts of
Walter Ong, Paul Zumthor and Michele Sominsen, among other authors, whose
visions have helped us build a broader understanding of painting and its
procedures, giving us insight into the presence of orality, also in this
sphere, in order to broaden our perception of the relationship between humanity
and the world.
Keywords:
Painting; Orality; Deviation; Creative process.
Introdu�‹o
Os objetos, hoje, objetam. No futuro, objetos e gestos revestir-se-‹o
porventura da dignidade perdida. A palavra amor, um peda�o de p‹o, a letra A,
deixar‹o assim de ser acidentes mortais da vida quotidiana. Dessacralizados,
voltar‹o a ser t‹o decisivos como a mais ’nfima pincelada que o pintor realizou
no quadro. E cada uma destas pinceladas revelar‡ a estrutura do mundo.
Ernesto Sousa
O que, no jogo
de tens‹o provocado por formas e cores, Ž poss’vel ser ouvido? No presente
estudo, desenvolver-se-‡ a tentativa de estabelecer e/ou reconhecer elementos
com os quais possamos compreender e apreender a produ�‹o pict—rica do artista
brasileiro Eduardo Berliner na esfera do que as perguntas que aqui orbitam
permitem como possibilidade de resposta.
O que h‡ como
pano de fundo, alŽm das detec�›es dos tra�os de oralidade, Ž a compreens‹o ou o
desvelamento do papel da arte (seja ela liter‡ria ou pict—rica) de superar os
achatamentos e simplifica�›es advindos do projeto moderno de civiliza�‹o, que
privilegia a raz‹o como medida de compreens‹o e defini�‹o de mundo.
A partir da
pergunta feita por Ernesto Sousa, que intitula um de seus textos publicado em
1968, Oralidade, futuro da arte?, o autor lan�a, para o futuro, uma
perspectiva da totalidade das coisas, de n—s mesmos e dos outros, na qual as
rela�›es n‹o mais se dariam a partir de suas funcionalidades e essa
possibilidade residiria, possivelmente, na retomada daquilo que foi abandonado
ou simplesmente esquecido (SOUSA, 2011 p. 41-42). Foi a partir da pergunta do autor
que surgiram as duas indaga�›es que intitulam este texto num aparente paradoxo.
O pr—prio estudo se dar‡ como possibilidade de resposta, ao evidenciar o
existente que n‹o Ž percebido pela via do vis’vel: a oralidade.
Eduardo Berliner e os pontos disparadores para a investiga�‹o
O artista tem
uma produ�‹o que passa a figurar no cen‡rio nacional e internacional desde
meados de 2008, ano da aquisi�‹o do Pr�mio CSI Marcantonio Vila�a. Depois
disso, foi convidado para expor na 29» Bienal Internacional de S‹o Paulo, em
2010, e tem mantido uma produ�‹o constante, participando de importantes mostras
e exposi�›es individuais e coletivas, dentro e fora do pa’s.
A perspectiva
adotada para o engendramento das quest›es levantadas se d‡, tambŽm, a partir do
car‡ter processual, algo evidente na pintura do artista em quest‹o. Embora o
car‡ter processual seja inerente a toda e qualquer produ�‹o, n‹o
necessariamente art’stica, referimo-nos aqui ˆ sua evid�ncia como mais uma das
pistas que reiteram o sentido de determinadas obras. Num breve retrospecto,
notamos no Romantismo, que negava fatores como a racionalidade e a
representa�‹o, o aparecimento do car‡ter processual e tomamos como exemplo as
pinturas de Turner (1775-1851). No Impressionismo, o car‡ter processual passa a
ganhar mais evid�ncia e n‹o nos faltam exemplos, como as pinturas de Monet (1840-1926), Renoir (1841-1919) e Morisot (1841-1895). Seguimos nos
deparando com a evid�ncia da processualidade nas obras ao longo de outros
movimentos art’sticos, assim como nas Vanguardas Art’sticas Europeias do in’cio
do sŽculo XX e, do mesmo modo, seguimos com esta detec�‹o para momentos
importantes como a Action Painting
norte-americana na dŽcada de 1950, movimento que nos direciona para a ideia de
performatividade como um dado do aspecto processual na pintura.
O ponto de
partida para este estudo envolve o que o pr—prio artista diz sobre seu processo
em v’deos recentes sobre sua produ�‹o. Neste ponto, estabeleceremos rela�›es
entre algumas de suas falas e aspectos da oralidade, advindos do pensamento de
Walter Ong e de Paul Zumthor. Em seguida, faremos o paralelo entre a pintura,
em linhas gerais, desde o processo e a evid�ncia da processualidade em sua
materialidade, atŽ as possibilidades de frui�‹o e a performatividade, segundo
Zumthor, estabelecendo a ideia de jogo como uma estrutura ampla. Por fim, a
partir da pintura Leda e o Cisne,
organizaremos, em princ’pio, uma leitura formal para, a partir dela, seguirmos
evidenciando, com mais amplitude, suas possibilidades de sentido.
Pintura como g�nero: desvio
A pintura Ž um sil�ncio? O modo mais
comum e restrito de resposta, ou seja, a partir de um olhar meramente
funcional, seria: sim, a pintura n‹o fala. Ela nasce como pintura, para ser
pintura e, portanto, atua nessa esfera da linguagem, a da visualidade. A essa
possibilidade de explica�‹o, Ž necess‡ria a abertura da superf’cie de
compreens‹o, sendo a pintura, tambŽm, algo que comp›e o mundo, faz parte do
campo gerador de sentidos numa din‰mica que pode nos levar ˆ totalidade das
coisas, na qual os sentidos se interpenetram, s‹o atravessados uns pelos outros
e se complementam. Neste estudo, ser‡ restitu’da ˆ pintura a face que a
compreens‹o de mundo, apenas pela via da raz‹o, abrevia.
Para tanto, a
ideia de desvio ser‡ dada pela tomada de emprŽstimo da concep�‹o de romance de
Bakhtin (1998) para ent‹o encontrarmos na pintura de Berliner, por essa mesma
via, as marcas da oralidade prim‡ria a partir do pensamento de Walter Ong
(1998). Para Bakhtin: Òo romance Ž o
œnico g�nero por se constituir, e ainda inacabado. [...]. A ossatura do romance
enquanto g�nero ainda est‡ longe de ser consolidada, e n‹o podemos ainda prever
todas as suas possibilidades pl‡sticasÓ (BAKHTIN, 1998, p. 397). A ideia Ž a de
nos atermos a um tipo de pintura ˆ qual essa defini�‹o caiba, salientando a
prematuridade de tom‡-la como definitiva, j‡ que a presente pesquisa n‹o toma
como base um amplo aspecto investigativo. Por ora, com base na extens‹o deste
estudo, a converg�ncia entre a concep�‹o de romance de Bakhtin e uma poss’vel
defini�‹o pict—rica, se dar‡ a partir do que Nicolas Bourriaud indica como um
dos pontos de conquista da pintura moderna e que, na concep�‹o do autor, Ž
fundamental para a compreens‹o das rela�›es entre arte e vida na
contemporaneidade; segundo ele,
A
primeira luta da pintura moderna consistiu, evidentemente, em conquistar sua
autonomia expressiva, mas tal reivindica�‹o n‹o passava do prelœdio de uma luta
de morte contra a nova ideologia do trabalho: a arte moderna se d‡ pelo
objetivo de constituir um espa�o dentro do qual o indiv’duo possa finalmente
manifestar a totalidade de sua experi�ncia e inverter o processo desencadeado
pela produ�‹o industrial, a qual reduz o trabalho humano ˆ repeti�‹o de gestos
imut‡veis numa linha de montagem controlada por um cron™metro (BOURRIAUD, 2011,
p. 13).
O que nos leva a
compreender a pintura como espa�o de acontecimentos que n‹o s‹o previamente
calculados, como uma atividade n‹o submetida a uma l—gica decorrente de
opera�›es correlatas a outros tipos de trabalho e que, no limite, converge com
um modo de conceber a vida, ligado aos movimentos nela engendrados, pr—ximo das
experi�ncias vividas. ƒ neste ponto que se inicia a possibilidade de
deslocamento daquilo que Walter Ong evidencia como pr—prio do modo como se d‡ a
formula�‹o do conhecimento na cultura oral, pois
Na
aus�ncia de categorias anal’ticas aperfei�oadas, que dependem da escrita para
organizar o conhecimento distante da experi�ncia vivida, as culturas orais
conceituam e verbalizam todo o seu conhecimento como uma refer�ncia mais ou
menos pr—xima ao cotidiano da vida humana, assimilando o mundo estranho,
objetivo, ˆ intera�‹o imediata, conhecida de seres humanos (ONG, 1988, p. 53).
Esse aspecto
mais direto nos aproxima da concep�‹o de totalidade, distanciando-nos de
designa�›es e, portanto, do modo, apenas,
funcional das coisas. Ainda assim, tudo pode ÒfuncionarÓ, mas a diferen�a,
nesse sentido, reside na intera�‹o com a amplitude de possibilidades que n—s,
os outros, as coisas e toda a sorte acontecimentos, portanto, oferecem
cotidianamente de modo direto e n‹o previamente calculados. Num movimento de
maior amplitude, podemos nos reencontrar com a Òdignidade perdidaÓ, conforme
Souza (2011) aponta.
Sil�ncio
No caso de Berliner Ž a consci�ncia da intransponibilidade entre o
diz’vel e o vis’vel (entre a compreens‹o oral e a coisa em si) que far‡ que ele
busque outra sintaxe visual, cuja narrativa vai impregnar a imagem n‹o mais
pela ideia da forma como f™rma, mas atravŽs da forma que se transmuta
constantemente pela metamorfose.
Marcio Doctors
Em um v’deo,
Eduardo Berliner fala sobre o tempo em seu processo de prepara�‹o para o
trabalho. Para ele, a pintura tem in’cio antes mesmo que algo passe a figurar
em suas telas, que, em geral, s‹o de grandes dimens›es. Nessa extens‹o de
tempo, o artista fala sobre o cessar gradativo dos di‡logos internos e do ru’do
do mundo, que passam a dar lugar ao processo como agente e, assim, segue na
constitui�‹o pict—rica. Segundo o artista: Òa partir de um ponto o processo age como coautor; o processo conta uma
hist—ria em paralelo, que n‹o Ž linear [...] Ž uma pinturaÓ. Sobre parte
de seu repert—rio, ele comenta: Òcostumo
trabalhar coletando, registrando minhas percep�›es do mundo: coisas que eu
vejo, coisas que eu ou�oÓ[56].
Dado esse
est‡gio, o que se instaura em suas pinturas s‹o elementos do mundo, os que o
artista coleta no transcorrer dos dias, assim como os que residem em sua
mem—ria. A partir da movimenta�‹o processual e do sil�ncio no ato criativo,
esses elementos se reorganizam na tela, seguindo a ordem constitutiva da
linguagem. Estabelecem-se, ent‹o, novos
jogos de sentido.
As vozes
cotidianas dispersam as palavras no leito do tempo, ali esmigalham o real; a
voz poŽtica os reœne num instante œnico – o da performance –, t‹o
cedo desvanecido que se cala; ao menos, produz-se essa maravilha de uma
presen�a fugidia mas total. [...]. A voz poŽtica Ž, ao mesmo tempo, profecia e
mem—ria [...]. A mem—ria, por sua vez, Ž dupla: coletivamente, fonte de saber;
para o indiv’duo, aptid‹o de esgot‡-la e enriquec�-la. Dessas duas maneiras, a
voz poŽtica Ž mem—ria (ZUMTHOR, 1993, p. 139).
Em coment‡rios
sobre seu processo de cria�‹o, notamos que a mem—ria Ž tambŽm um dos grandes
agentes e Ž poss’vel observar o paralelo acerca do que Ong (1998, p. 50) nos
diz sobre o car‡ter das formula�›es nas tradi�›es orais, j‡ que
N‹o h‡
nada para retroceder fora da mente, pois a manifesta�‹o oral desapareceu t‹o
logo foi pronunciada. Por conseguinte, a mente deve avan�ar mais lentamente,
mantendo perto do foco de aten�‹o muito daquilo com que j‡ se deparou. A
redund‰ncia, a repeti�‹o do j‡ dito, mantŽm tanto o falante quanto o ouvinte na
pista certa.
Nesse sentido,
poder-se-ia pensar na pintura como um modo de fixar o aspecto fugidio da mente;
entretanto, trata-se de uma compreens‹o apressada. Embora estejamos falando
sobre aspectos processuais, ou seja, os que antecedem a imagem final, Ž
poss’vel tambŽm compreender o car‡ter indeterminado e incerto daquilo que se
apresenta na pr—pria pintura. Segundo Blanchot (1987, p. 84), ÒCada obra, cada
momento da obra, volta a p™r tudo em quest‹o, e aquele que deve apenas ater-se-lhe,
n‹o se atŽm, portanto, a nada. Seja o que for que ele fa�a, a obra retira-o do
que ele faz e do que podeÓ. Ou seja, uma pintura pode ser um tipo de
experi�ncia diversa a cada vez que com ela nos defrontamos. Assim,
conectamo-nos com seu aspecto de totalidade, pois j‡ n‹o nos ver’amos mais, em
rela�‹o a ela, a partir de trajetos prŽ-definidos, tendo o aspecto fugidio como
uma constante, desde o que antecede o pr—prio processo, atua na processualidade
e se faz presente na obra finalizada.
Pintura e
performatividade
Como dito inicialmente, a processualidade passou
a figurar no campo dos sentidos e nos interessa pens‡-la como um aspecto que
guarda em si um dado performativo. De modo bastante elementar, pensaremos no
dado performativo como o conjunto dos gestos que geram determinada obra, aqui,
no caso, a pintura. Para tanto, tomaremos de emprŽstimo o sentido de
performance como jogo de Zumthor. Em
suas palavras: ÒA performance Ž jogo, no sentido mais grave, sen‹o no mais
sacral, deste termoÓ (ZUMTHOR, 1993, p. 240), e esta defini�‹o implica uma
estrutura de compreens‹o mais complexa, que abrange o conjunto de gestos ora
mencionados, percept’veis, tambŽm, a partir de uma visualidade.
Em A
letra e a Voz, livro
publicado em 1993, Zumthor apresenta quest›es relativas ao texto e ˆ
imagem, referindo-se ˆs iluminuras, atestando a correspond�ncia e a
complementariedade entre as dimens›es visuais e auditivas e, novamente, tomamos
tal perspectiva para vislumbrarmos as possibilidades relacionais com a pintura,
compreendendo aspectos da recep�‹o na estrutura complexa de jogo mencionada
anteriormente:
O di‡logo visualizado, por oposi�‹o ao
texto que constitui materialidade em seu lugar, volta-se para a ordem
sensorial. Restitui o olho as condi�›es emp’ricas, concretas, das percep�›es
ÒnaturaisÓ. O artista n‹o disp›e de meios para fazer escutar a voz; mas pelo
menos cita a intencionalidade naquele contexto, confiando ao olho a tarefa de
sugerir ao ouvido a realidade sonora (ZUMTHOR, 1993, p. 125).
A respeito das pinturas no modo como hoje as
concebemos, Zumthor (1993, p. 125) afirma que a diferen�a de procedimentos
entre elas e as imagens medievais reside na Òaus�ncia da narrativa expl’citaÓ.
Em outra passagem, o autor relaciona a pintura ˆ oralidade, retomando as
palavras de um trovador medieval:
A pintura – explica no sŽculo XIII
Richart de Fournival para justificar a ilustra�‹o de seu Bestiaire dÕamour – tem por virtude tornar presentes as
coisas comemoradas... como o faz a palavra pronunciada, no momento em que se
escuta; o texto de Richart Ž claro e n‹o faz refer�ncia ˆ escritura, mas
somente ˆ percep�‹o auditiva. No tri‰ngulo da express‹o, a imagem tem sua parte
ligada com a voz. A imagem tambŽm s— se comunica na performance (ZUMTHOR, 1993,
p. 127, grifos do autor).
Retomando a no�‹o de desvio, seguimos com o
autor no caminho que sugere sua frase: A
imagem tambŽm s— se comunica na performance, a partir de suas considera�›es
em Performance, recep�‹o e leitura, publicado em 2007, ao nos dizer sobre o olhar
versus ler:
O olhar n‹o p‡ra de escapar ao controle,
registra, sem distinguir sempre, os elementos de uma situa�‹o global, a cuja
percep�‹o se associam estreitamente os outros sentidos. A vista direta gera assim uma semi—tica selvagem, cuja
efic‡cia provŽm mais da acumula�‹o das interpreta�›es do que de sua justeza
intr’nseca. O latim medieval designava pelo termo signatura o resultado dessa atividade do olho humano. Signatura implica que o olhar transforma
em signum o que ele percebeu. O
objeto dessa percep�‹o Ž speculum,
palavra-chave das culturas medievais: um reflexo emana disto e, como reflexo,
exige a interpreta�‹o (ZUMTHOR, 2007, p. 72, grifos do autor).
Embora descreva tal ciclo para falar do que se
perdeu em pot�ncia na leitura de um texto simplesmente decodificando-o,
saltando a etapa do olhar e indo diretamente para a no�‹o a que corresponde
aquele conjunto de caracteres, talvez seja poss’vel, ainda, verificar tal
circularidade diante de uma pintura, experienciando-a em sua completude.
A compreens‹o da arte, liter‡ria ou pict—rica,
como evento, um acontecimento em meio ˆ vida que nos atravessa em sua
complexidade sinestŽsica, que nos recobra sobre as coisas em sua totalidade e n‹o em suas finalidades, como apregoou
Ernesto Souza, parece ser inevit‡vel. Faz sentido, ent‹o, recuperar a abertura
da defini�‹o bakhtiniana de romance, cujas ra’zes se encontram no modo de vida
do medievo (BAKHTIN, 1998) para pensar a pintura, assim como as no�›es
zumthorianas medievalistas e prŽ-textuais, recuperando assim o que a autoridade
do poder pela racionalidade nos fez esquecer.
Leda e o Cisne na tradi�‹o da pintura: mito, lenda e tradi�‹o oral
Na tradi�‹o oral, haver‡ tantas variantes menores de um mito quantas
forem as repeti�›es dele, e a quantidade de repeti�›es pode aumentar
indefinidamente.
Walter Ong
Leda e o Cisne foi um tema repercutido com
intensidade e Ž poss’vel vislumbrarmos a for�a dessa reverbera�‹o no salto
desde a sua origem na oralidade atŽ seus desdobramentos contempor‰neos.
Entretanto, este n‹o Ž o modo mais adequado de se perceber a produ�‹o acerca de
tal lenda, como um ponto que repercute, sendo ela o origin‡rio de tantas
produ�›es em diversos meios, no tempo e no espa�o.
O modo mais
adequado reside em, ao percebermos tal produ�‹o como repeti�‹o, voltarmo-nos ao seu princ’pio, ou seja, ˆquilo que, da
pr—pria lenda, ressoa na frequ�ncia da vida. Segundo Simonsen (1987, p. 5,
grifos da autora), ÒO mito est‡ entre
os principais g�neros narrativos populares representados na Europa, juntamente
com a gesta ou saga, o conto, a lenda e a anedotaÓ.
O mito, ligado a um ritual, tem um
conteœdo cosmog™nico ou religioso. Simboliza as cren�as de uma comunidade, e os
acontecimentos fabulosos que ele narra s‹o tidos como ver’dicos. [...]. A
lenda, relato de acontecimentos tidos como ver’dicos pelo locutor e seu
audit—rio, Ž localizada: as defini�›es de tempo e de lugar integram o relato
(SIMONSEN, 1987, p. 6, grifo da autora).
Assim, vemos que
a longevidade do tema se deve ˆ constata�‹o da presen�a da cultura oral, em
concomit‰ncia ˆ cultura quirogr‡fica, como uma constante, ainda que seja
poss’vel notarmos os diferentes n’veis de influ�ncia de uma sobre a outra. E Ž
essa const‰ncia, ou seja, a pr—pria vida, que mantŽm ativo o que reside na
lenda. Segue abaixo uma breve vers‹o:
OS AMORES DE ZEUS
O rei dos deuses n‹o se dedicava apenas a desgra�ar os homens.
TambŽm procurava fazer as mortais felizes, sobretudo aquelas que lhe
agradavam... e foram muitas. Embora fosse casado com a deusa Hera, Zeus teve
inœmeras aventuras amorosas. Sua leg’tima esposa era ciument’ssima e n‹o
gostava nem um pouco das escapulidas do marido. Quando vinha a saber que ele
tinha ido visitar uma mortal, ficava louca de raiva. Sua c—lera s— se aplacava
quando ela se vingava da mortal ou dos filhos que essa mulher tivera com o
deus. Hera estava sempre de olho em Zeus, que fazia de tudo para escapar ˆ sua
vigil‰ncia.
Zeus gostava de assumir a apar�ncia de algum bicho a fim de evitar
a desconfian�a de suas bonitas v’timas. Usou dessa artimanha para se aproximar
da bela Leda. A jovem acabara de se casar com T’ndaro, rei da Lacedem™nia. Zeus
se transformou em cisne e, fingindo-se perseguido por uma ‡guia, refugiou-se
junto da jovem rainha, que o acolheu em seus bra�os. Aproveitando-se dessa
terna prote�‹o, ele se uniu a ela e lhe deixou dois ovos de tamanho incomum. De
um nasceram dois g�meos, Castor e P—lux; do outro, duas irm‹s, Clitemnestra e
Helena. Essa uni‹o permaneceu secreta, e T’ndaro acreditou que tinha dado
quatro filhos ˆ sua jovem esposa (POUZADOUX, 2001, p. 16).
Foram muitos os
artistas que retrataram Leda e o Cisne,
como Leonardo da Vinci, Tintoretto, Giovanni Boldini, Matisse, CŽzanne e tantos
outros. Apesar da pluralidade iconogr‡fica suscitada pelo tema, atravŽs do
tempo e de diferentes momentos art’sticos, o destaque Ž para tr�s obras, a
partir das quais – Figuras 1, 2 e 3, todas de mesmo t’tulo: Leda e o cisne – ser‹o salientados apenas alguns aspectos para, a partir
deles, observarmos, no item subsequente, a pintura feita por Eduardo Berliner.
Na obra do franc�s Albert-Ernest Carrier-Belleuse (1824 -1887), escultor
franc�s – Figura 1 – temos ainda muito da gestualidade e dos
padr›es cl‡ssicos da representa�‹o. Na tela de Vicente do Rego Monteiro
(1899-1970), pintor brasileiro – Figura 2 – a din‰mica Ž intensa
tanto na espacialidade, quanto nos aspectos pict—ricos, e nos revela, em sua
figura�‹o, o car‡ter er—tico da lenda. Em A
Leda e o Cisne de Cy Twombly (1928-2011), artista norte-americano – Figura
3 –, nos deparamos com a pura intensidade com que se apresentam os
aspectos gr‡ficos, entremeados por delicadas passagens crom‡ticas.
Figura 1 – Leda e o
Cisne (1870)
Albert-Ernest Carrier-Belleuse, terracota fundida, Altura
(sem base): 14 1/2 pol. (36,8 cm), Metropolitan
Museum of Art, NY.
Figura 2 – Leda e o Cisne (1947)
Vicente do Rego Monteiro, —leo sobre tela, 50 x 65 cm.
Figura 3 – Leda and the Swan (1962)
Cy Twombly, —leo, l‡pis e crayon sobre tela, 190,5 x 200 cm.
MoMA, NY.
Leda e o Cisne de Berliner
O erotismo Ž um dos aspectos da vida interior do homem.
Georges Bataille
Figura 4 – Leda e o Cisne (2015)
Eduardo Berliner, —leo sobre mdf, 170 x 170 cm.
Na pintura de
fundo escuro, nota-se a vibra�‹o de uma cena. As pinceladas s‹o marcadas e
vigorosas, geram movimento. As figuras, em tons mais claros, saltam em primeiro
plano e tal contraste tambŽm gera certa movimenta�‹o. S‹o ao todo – em
princ’pio – quatro elementos que brotam do fundo escuro: uma figura
humana feminina e tr�s cisnes; um deles de corpo inteiro, cujo bico invade a
boca da figura humana, ao mesmo tempo em que Ž segurado por ela pelo pesco�o.
Dos outros dois cisnes s— se v� a cabe�a no canto direito e inferior da tela,
ambas surgindo de uma massa mais escura e densa. Na figura feminina, h‡ o
movimento compositivo das pinceladas, mas, ao mesmo tempo, nota-se a rigidez
que beira ˆ figura�‹o de um boneco. Na parte dos cabelos dessa figura, Ž poss’vel
enxergar tambŽm a cabe�a de mais um cisne, que, no caso, seria o quarto.
Seguindo em observa�‹o por este ponto pelo fundo da tela, d‡ para perceber a
continuidade de seu corpo, sugerida pelas nuances disformes do plano escuro.
Observando a parte inferior da pintura, na saia de Leda, Ž poss’vel perceber as
duas m‹os da figura se tocando pelas extremidades dos dedos, sendo a da direita
uma espŽcie de rastro do processo pict—rico, atestando o car‡ter dœbio, j‡ que
seria esta a mesma m‹o a segurar a figura de um dos cisnes pelo pesco�o. O
car‡ter de dubiedade aparece, pelo menos, duas vezes em toda a pintura.
Um dos aspectos
principais da lenda, intensamente explorado nos exemplos anteriores, Ž o
er—tico. Ë primeira vista, Ž poss’vel atestar a aus�ncia de tal aspecto na
vers‹o de Berliner. Quando o artista fala sobre suas produ�›es, Ž recorrente a
afirma�‹o de que, ao sobrepor uma coisa ˆ outra, a pintura n‹o Ž mais sobre
nenhuma delas, mas sobre uma terceira coisa.
Ainda assim, ao
manter o t’tulo, invariavelmente somos levados ˆ lenda e ao seu teor. Esse Ž o
ponto em que somos colocados num jogo com os sentidos, compreendendo e
percebendo a pintura para alŽm de seu car‡ter representativo, tal como diz Marcio
Doctors ao compreender a produ�‹o do artista: ÒQuando percebi que a quest‹o de
Eduardo Berliner na pintura era a radicalidade do vis’vel, entendi, ent‹o, o
que me atra’a na sua obra: diante da realidade e do real n‹o h‡ recuo poss’vel.
[...] a arte Ž em pot�ncia; n‹o representa nada [...]Ó (DOCTORS, 2015, s. p).
Retomando
Ernesto Sousa, pelo menos nessa situa�‹o, Ž como se o objeto n‹o objetasse. N‹o
h‡ aqui a representa�‹o do car‡ter er—tico, mas seu pr—prio teor. Na pintura de
Berliner, Leda est‡ vestida e de branco, mas, na face escura que percorre o fundo
de toda a ‡rea pict—rica, constitu’da por pinceladas densas, vigorosas e
agitadas, ela Ž o pr—prio cisne, o cisne, por sua vez, Ž Leda. Eles fundem-se
na escurid‹o da tela, no espa�o interdito
da pintura. Nessa repeti�‹o do mito,
na cena aparecem Òas cren�as de uma comunidade, e os acontecimentos fabulosos
que ele narra s‹o tidos como ver’dicoÓ (SIMONSEN, 1987, p. 6). Retornamos,
ent‹o, a um ponto do que j‡ foi dito acerca da lenda e do mito,
redimensionando-o para o que pulsa no caso de Leda e o Cisne, agora, segundo Bataille:
O
erotismo Ž, de forma geral, infra�‹o ˆ regra dos interditos: Ž uma atividade
humana. Mas ainda que ele comece onde termina o animal, a animalidade n‹o deixa
de ser o seu fundamento. Desse fundamento a humanidade se desvia com horror,
mas ao mesmo tempo o conserva (BATAILLE, 1987, p. 62).
Desse modo, o
teor er—tico n‹o est‡ representado, como no caso das vers›es da lenda de
Monteiro e Carrier-Belleuse; ele Ž o que se apresenta na vertigem e
radicalidade dos gestos, na massa densa de tinta espalhada pela tela, na
sensualidade de cada pincelada. Apresenta-se, ent‹o, cada elemento, tomando de
emprŽstimo o termo de Derrida (apud
Deleuze), em seu aspecto ÒfiguralÓ
– quando, mesmo n‹o abrindo m‹o da figura�‹o, como foi o caso na
vers‹o de Cy Twombly, op›e-se ao figurativo (DELEUZE, 2007). Nesse sentido, a escassez de vida da figura humana, e do mesmo
modo no cisne negro, revela o ponto m‡ximo do er—tico, segundo Bataille, a
pr—pria morte na fus‹o com o outro, j‡ que ÒO sentido œltimo do erotismo Ž a
fus‹o, a supress‹o do limiteÓ (BATAILLE, 1987, p. 85).
Considera�›es finais
Qual a voz da pintura? Tudo o que nos
atravessa, depreendendo de seu campo e, simultaneamente, convergindo para ele.
Esta Ž a sua voz e ela, entre outras nuances, comp›e a esfera da linguagem de
uma cultura, ainda que esta se perceba como sendo Òda escritaÓ, nos movimentos
mais e menos sutis da vida. O fato Ž que os aspectos da oralidade e da escrita
coabitam e, em n’veis distintos, alteram-se mutuamente, num processo cont’nuo
de transforma�‹o nas qualidades de ambos. Isso tudo pode ser invis’vel.
Neste estudo,
ainda que de modo incipiente, tratou-se de compreender aspectos da oralidade
pela via da pintura e isso nos indica a possibilidade de amplia�‹o do campo
desses estudos. Ao mesmo tempo, ampliaram-se tambŽm as possibilidades de
recep�‹o, compreens‹o e an‡lise do campo pict—rico.
Embora tenhamos
considerado uma pintura de Berliner em espec’fico, notamos que, em sua produ�‹o
como todo, o artista retrata situa�›es aparentemente banais; no entanto, suas
configura�›es – paleta crom‡tica, aspectos gestuais, espacialidade,
sobreposi�›es e justaposi�›es – apresentam a radicalidade com que seus
temas nos s‹o apresentados, desvelando o aspecto vertiginoso e lim’trofe. Em suas
pinturas Ž poss’vel observar estruturas que se repetem, que se sobrep›em, numa
formula�‹o visual mais ÒagregrativaÓ do que Òanal’ticaÓ (ONG, 1998). ƒ como se
aquilo que sabemos se intensificasse
(ou entrasse em xeque) na contund�ncia que ganha ao tornar-se pintura, seja com
golpes sutis ou n‹o de presen�a, jogando com o que pens‡vamos ter apreendido do
mundo atŽ ent‹o.
Nas p‡ginas finais de A
letra e a voz, Paul Zumthor fala sobre a necessidade da quebra do
ciclo hegem™nico que a ÒliteraturaÓ passa a exercer na era cl‡ssica, primeiro
na Europa e depois na AmŽrica, servindo ao Estado. Contrap›e essa situa�‹o ao
papel do texto poŽtico medieval como tendo sido œtil (ZUMTHOR, 1993). Finalizo
com suas palavras, compreendendo a equival�ncia da express‹o discurso
liter‡rio como correspondente ˆ pintura, assim como as demais formas de
arte, quando diz que Ònada impedir‡ o discurso liter‡rio, ainda que contra os
sujeitos que o proferem, de visar a uma totalidade, e esta, o mais das vezes,
de ser recuperada e identificada a uma OrdemÓ (ZUMTHOR, 1993, p. 284).
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V’deos
ARTE! Brasileiros - Eduardo Berliner fala
sobre ÒCorpo em MudaÓ. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=6DFgwbCWBZc Acesso em: 9 ago. 2020.
Trecho do programa de tv sobre arte contempor‰nea, CATçLOGO, de Marcos Ribeiro, dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=YER6ZYUyAFQ Acesso em: 9
ago. 2020.
Imagens
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escultura da cole�‹o do Metropolitan Museum of Art NY. Dispon’vel em:
https://www.metmuseum.org/art/collection/search/206819 . Acesso em: 8 ago.
2020.
Figura 2 LEDA e o Cisne. In:
ENCICLOPƒDIA Itaœ Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. S‹o Paulo: Itaœ
Cultural, 2020. Dispon’vel em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra2506/leda-e-o-cisne. Acesso em: 8 ago.
2020. Verbete da EnciclopŽdia. ISBN: 978-85-7979-060-7.
Figura 3 Leda e o Cisne de Cy
Twombly. Dispon’vel em: https://www.moma.org/collection/works/80083 Acesso em: 10 ago.
2020.
Figura 4 A imagem da pintura do
artista Eduardo Berliner est‡ em seu portf—lio, publicizado pela Casa
Tri‰ngulo, galeria de arte que o representa. O material est‡ dispon’vel em: https://www.casatriangulo.com/media/pdf/EB_portfolio2019.pdf Acesso em: 10 ago.
2020.
[Recebido:
15 ago 2020 – Aceito: 15 out 2020]
Midiartivismo em Tempos de pipa: mœsica, poesia e arte a favor do ativismos social
Mediartivism
in Tempo de pipa: music, poetry and
art as social activism
Ricardo Oliveira de Freitas[57]
Resumo: O texto apresenta
discuss‹o te—rica e conceitual acerca do fen™meno do midiartivismo, um
neologismo formado pelas palavras m’dia, arte e ativismo,
que pode ser traduzido como qualquer a�‹o ou iniciativa que faz uso de express›es
em arte e recursos de m’dia a favor de uma causa, sempre social e pol’tica,
quando exp›e problemas e prioridades de determinado grupo ou comunidade. Para
tanto, realiza uma leitura cr’tica da narrativa audiovisual e poŽtica, Tempo
de Pipa, de Breno Silva, integrante de coletivos de arte e m’dia atuantes
na periferia de Salvador, Bahia. O videoclipe Ž ilustrativo das a�›es
midiartivistas e insurgentes que eclodem nas muitas periferias pelo Brasil
afora, resultantes da participa�‹o de diversos artistas intimamente ligados a
coletivos art’sticos criados nos œltimos anos, alŽm de ser fruto do trabalho
colaborativo e do associativismo que integra artistas, eles pr—prios, marcados
por tra�os e recortes de minoridade e pelo comprometimento com produ�›es contra-hegem™nicas
que inspiram resist�ncia, dissid�ncia e transforma�‹o.
Palavras-chave: Midiartivismo;
Coletivos; Tempo de Pipa.
Abstract: This paper aims to present a theoretical and conceptual discussion
about the phenomenon of midiartivism, a neologism formed by the words media,
art and activism, which can be translated as any action or initiative that uses
expressions in art and media resources in favor of a cause, always social and
political, when it exposes problems and priorities of a certain group or community.
For this reason, the paper performs a critical reading of the audiovisual and
poetic narrative, Tempo de Pipa, by Breno Silva, a member of art and
media collectives working on the outskirts of Salvador, Bahia. The video is
illustrative of a midiartivist action, since it is a product resulting from the
participation of several artists closely linked to artistic collectives created
in recent years in the most diverse peripheries throughout Brazil, in addition
to being the result of the collaborative work and the associativism that
integrates artists, themselves, marked by minority traces and by their
commitment to against hegemonic productions that inspire resistance,
insurgence, dissent and transformation.
Keywords: Midiartivism;
Collectivs; Tempo de Pipa.
Introdu�‹o
da
boca pra fora reproduzo minha vis‹o
de
fora pra dentro nem sempre quem bate esquece
a
morte aqui Ž viva
e
o otimismo Ž a œltima coisa que aparece[58]
(SILVA,
2020).
Em julho de 2020, foi lan�ado o videoclipe do rap
mœsica-poesia Tempo de Pipa, de Breno Silva[59]. Seria mais uma das
muitas novas produ�›es que alimentam o panorama musical baiano, n‹o fosse o
fato de tanto a mœsica como o videoclipe terem sido produzidos atravŽs daquilo
que tem tomado corpo entre integrantes de grupos e comunidades desprivilegiadas
no Brasil nos œltimos anos: o trabalho colaborativo, o associativismo, a arte e
a m’dia a favor da causa social e pol’tica feitas pelas m‹os de muitos
sujeitos.
Tempo de Pipa Ž resultado da participa�‹o de diversos
artistas intimamente ligados a coletivos art’sticos, tais como o selo
BalanÕagulha, o Coletivo PŽ Descal�o e o Corvo Vermelho Produ�›es, que fazem a
produ�‹o executiva e a distribui�‹o do trabalho. A pr—pria constitui�‹o do
produto Ž caracter’stica da a�‹o de coletivos. Tempo de Pipa Ž composto
pelas vozes de Breno Silva e Sued Nunes; pela poesia de Breno Silva; pela
fotografia de Gabriel Moreno, Jomar Fonseca e Thiancle Carvalho; pela montagem
de Thiancle Carvalho e pela produ�‹o do mesmo Breno Silva e Marvin Pereira.
Meu interesse pelo videoclipe deve-se ao fato de
ser produto resultante do trabalho coletivo, isto Ž, ser fruto do fen™meno de
prolifera�‹o de coletivos, de grupos de artistas ou de artistas individuais que
utilizam recursos de m’dia e express›es em arte para exporem suas causas,
tornando pœblicas suas demandas, seus problemas e suas prioridades, quando
constroem narrativas contra-hegem™nicas sobre si.
Tempo de Pipa tambŽm Ž ilustrativo da import‰ncia dos
coletivos, do trabalho colaborativo, dentro de um projeto de produzir
midiartivismo, que vem criando frutos a partir de 2010, em Sussuarana, bairro
da periferia de Salvador; num primeiro momento, com a cria�‹o do coletivo M’dia
ƒtnica, e, logo depois, com o surgimento do coletivo Sarau da On�a, desfocando
a aten�‹o sobre o l—cus tradicional de produ�‹o de cultura e arte na cidade
(Orla e Centro) para a regi‹o da Pen’nsula, periferia de Salvador.
O texto ora apresentado, fruto da pesquisa que
venho desenvolvendo desde 2017 sobre midiartivismo, presta-se a contribuir para
uma discuss‹o te—rica e conceitual acerca do fen™meno, a partir da leitura
cr’tica da narrativa audiovisual e poŽtica de Tempo de Pipa. Para tanto,
sigo o que foi estabelecido por Penafria (2009), ao assumir que, aqui, n‹o fa�o
uma an‡lise audiovisual, mesmo que esse tipo de metodologia apare�a como
elemento de apoio ˆ leitura cr’tica e ˆ discuss‹o te—rica e conceitual, que Ž o
que realmente veremos.
Midiartivismo:
arte e a m’dia a favor do ativismo social
Midiartivismo Ž qualquer a�‹o ou iniciativa que
faz uso de express›es em arte e recursos de m’dia a favor de uma causa. O termo
Ž um neologismo formado pelas palavras m’dia, arte e ativismo,
que, de modo geral, traduz toda produ�‹o em arte que utiliza recursos de m’dia,
a fim de tornar pœblica uma ou muitas quest›es de interesse de determinado
grupo ou comunidade – quando fala ˆ sociedade e aos seus dirigentes. Por
isso, o midiartivismo tambŽm pode ser entendido como uma express‹o pol’tica que
toma formas art’sticas e midi‡ticas; ou, ainda, uma express‹o art’stica e
midi‡tica que toma forma como a�‹o pol’tica.
Para Rui Mour‹o, arte e o ativismo possuem
caracter’sticas distintas. Ao passo que arte Ž da ordem do simb—lico, o
ativismo Ž da ordem da realidade – j‡ que intervŽm, mesmo que atravŽs de
a�›es simb—licas, diretamente, na vida, na exist�ncia. Ao passo que a arte se
constr—i atravŽs de a�›es individuais, devido ˆ preocupa�‹o com as quest›es
relativas aos aspectos da autoria, o ativismo Ž sempre uma a�‹o coletiva, feita
por muitas m‹os, mentes, corpos e vozes – pois, se a arte reinterpreta o
mundo, o ativismo existe para transform‡-lo. Entretanto, como lembra o autor,
h‡ muitas zonas de converg�ncia, elos e tra�os de comunh‹o entre uma e outra
esfera, como quando tanto a arte como o ativismo Òse posicionam no mundo
sonhando com outros mundosÓ (MOURÌO, 2015, p. 54).
Isto Ž, ambos se afirmam segundo uma
pr‡xis t‹o idealista quanto idealizada, criando representa�›es que na sua
exposi�‹o pœblica pretendem reverbera�›es exteriores ao que efetivamente criam.
Algumas dessas reverbera�›es, pela assumida interse�‹o art’stica/ativista, s‹o
j‡ chamadas de ÒartivistasÓ (MOURÌO, 2005, p. 54).
A m’dia, o terceiro elemento no tripŽ do
midiartivismo, participa, nesse jogo comparativo e dicot™mico, como o elemento
aglutinador das disparidades, ao romper e subverter com os limites entre um
dom’nio e outro. Afinal, como lembra o mesmo Mour‹o (2015, p. 54):
Come�ando por uma perspectiva alargada,
do tipo hol’stico, que entre inclusive em aspetos semiol—gicos, podemos desde
logo desestruturar os argumentos categ—ricos que separam as ‡guas entre o
dom’nio da arte e o dom’nio do ativismo, colocando quest›es como: Operando arte
e ativismo com simbolismos, que fronteira separa o simb—lico que permanece
apenas no simb—lico – se tal Ž poss’vel – do simb—lico que intervŽm
no real? N‹o ser‡ sempre a partir de intersubjetividades simb—licas – via
conceitos, imagens, palavras, objetos ou atos – que tanto procedemos ˆ
compreens‹o e representa�‹o (incluindo art’stica), como atuamos no real
(incluindo o ativismo)? AtŽ que ponto as diferen�as ao n’vel das categoriza�›es
culturais do simb—lico n‹o derivam de meras conven�›es de posicionamento
assumido e permitido em cada enquadramento definido num determinado momento e
contexto? Enquadramento que sendo definido simultaneamente ao n’vel individual
e coletivo – categorias psicoculturais parte e resultado uma da outra
–, consequentemente problematiza o que na cria�‹o art’stica Ž produ�‹o
individual ou no ativismo se faz apenas pelo coletivo.
O artivismo tem sido, corriqueiramente,
traduzido como as express›es que fazem uso do corpo como suporte para expressar
ou comunicar, a depender da interpreta�‹o que se faz de determinada a�‹o
ativista. Como se concretiza atravŽs de performances, quase sempre ef�meras e
moment‰neas, o uso de recursos de m’dia tem sido recorrente. Essas tecnologias
(de informa�‹o e comunica�‹o) servem tanto ao registro da iniciativa, ao
manterem a imortalidade da a�‹o e performance, como se prestam a elemento da
obra em seus termos tŽcnicos, propriamente.
Apesar de tomar como objeto uma obra
videogr‡fica, produzida a partir de uma poesia cantada, musicada e
interpretada, considero que, Tempo de Pipa n‹o Ž menos uma ode ao corpo
e ˆ performance; sendo, ele pr—prio, o v’deo, o corpo que performa e, por isso,
m’dia e multiarte.
Ž que n—s t‡ sem sorte desde quando
inventaram o termo,
n—s inventa arte enquanto vive pra
suportar o medo
que minha escrita desabafa, eu n‹o minto
mas n‹o diz tudo que penso, Ž meu —dio
resumido
(SILVA, 2020).
O midiartivismo pode ser entendido como um
conjunto de pr‡ticas que se afastam de modos cl‡ssicos do fazer pol’tico
institucionalizado. N‹o s‹o coletivos formados a partir da comunh‹o de
ideologias, mas, t‹o somente, das articula�›es, negocia�›es, compartilhamentos,
afinidades, do amor pela arte e por determinada causa. Ao produzirem arte
cr’tica ˆs cl‡ssicas representa�›es divulgadas pela pol’tica institucional, os
coletivos e artistas midiartivistas redesenham as no�›es de pol’tica e de
mercado.
ƒ um novo mercado que surge no bojo da ascens‹o
dos grupos e comunidades subalternizadas e do fortalecimento dos nov’ssimos
movimentos sociais, express‹o que tem sido utilizado para nomear recentes
mobiliza�›es sociais e pol’ticas com forte repercuss‹o na m’dia[60].
Tanto como os coletivos de arte, os nov’ssimos
movimentos sociais caracterizam-se pelas manifesta�›es aut™nomas e apartid‡rias
e, por isso, assemelham-se ˆ experi�ncia dos coletivos, no que confere
autonomia a seus militantes (PEREZ; SOUZA, 2017).
Esse novo mercado tambŽm considera a efemeridade
da obra e sua perpetua�‹o atravŽs de uma obra de Òsegunda m‹oÓ, no mais das
vezes, atravŽs do registro da a�‹o ou performance.
No caso de Tempo de Pipa, como ocorre com
a poesia e com a mœsica, de modo geral, a obra se perpetua atravŽs do
videoclipe que comp›e uma outra obra – agora, acrescida de elementos
visuais que participam do conjunto estŽtico e semi—tico constituintes da pauta
tema central da obra basilar.
No caso espec’fico da a�‹o pol’tica, o
midiartivismo se afasta das formas institucionalizadas do fazer pol’tico ao
promover encontros regidos menos por raz›es ideol—gicas e mais pelo
compartilhamento de emo�›es, sentimentos e prazeres estŽticos. A no�‹o de nova
forma de se fazer pol’tica, novos usos de novas e velhas m’dias, novas
express›es em arte e um novo mercado art’stico e midi‡tico aponta para a
import‰ncia do midiartivismo ao construir novos rumos para as experi�ncias do
sens’vel.
Como arte interessada, o midiartivismo produz
t‡ticas conceituais, simb—licas e estŽticas, numa perfeita combina�‹o entre
arte e pensamento[61]. AlŽm disso, o
midiartivismo tem como qualidade o fato de agir no ‰mbito da cultura. Por isso,
Ž correto afirmar que as pr‡ticas midiartivistas s‹o sempre interven�›es
culturais, assim como pr‡ticas sociais comunicativas, elaboradas por
artistas-ativistas[62].
Coletivos:
o associativismo no uso das m’dias radicais alternativas
Coletivos s‹o grupos de pessoas que se reœnem,
produzem e elaboram a�›es e pensamento em torno de um tema, criando um tipo de
associativismo. O termo Ž sempre autodesignativo e se caracteriza pelo fato de
traduzir as Ònovas formas de mobiliza�‹o, distantes das organiza�›es
burocr‡ticas e hier‡rquicasÓ (PEREZ; SOUZA, 2017, p. 3). Essas mobiliza�›es s‹o
tanto sociais como culturais e art’sticas e prezam pela multiplicidade de
pautas, pela horizontalidade e pela participa�‹o antiautorit‡ria, liberal,
igualit‡ria e progressista.
A presen�a em m’dia Ž outra caracter’stica
importante nas a�›es organizadas pelos coletivos. Como precisam expor suas
causas junto ˆ esfera pœblica pol’tica, a esfera de visibilidade midi‡tica
surge como importante, sen‹o a principal, aliada.
Por isso, Ž correto afirmar que o uso e abuso
dos recursos de m’dia Ž uma a�‹o t‡tica para ocupa�‹o da esfera pœblica
pol’tica a partir da participa�‹o em sua base ampliada, a m’dia.
A cria�‹o de coletivos n‹o Ž um fen™meno novo,
como veremos adiante. Entretanto, a emerg�ncia desses grupos no atual cen‡rio
brasileiro e, por que n‹o dizer, global, tem uma particularidade: ela surge no
bojo do debate sobre as identidades dissidentes e minorit‡rias, trazido na
esteira da alavancada dos estudos Žtnico-raciais, de g�nero, dos estudos da
interseccionalidade como sistema de opress‹o, dos estudos queer, dos
estudos culturais, dos estudos decoloniais, da amplia�‹o do acesso ˆs TICs
(Tecnologias de Informa�‹o e Comunica�‹o), do uso e abuso das m’dias digitais,
do expressivo mergulho das sociedades globais na rede mundial de computadores,
do fortalecimento dos movimentos sociais, da amplia�‹o do debate LGBTQIA+ na
m’dia, da ascens‹o das identidades n‹o bin‡rias, do combate ao racismo como
condi�‹o elementar, da positiva�‹o dos guetos, das favelas, morros, corti�os e
terreiros, da cria�‹o dos novos e nov’ssimos movimentos sociais. Como afirma
Arturo Escobar (2005), esses estudos criam um espa�o enunciativo cujo ponto de
coincid�ncia Ž a problematiza�‹o da colonialidade em suas diferentes formas.
John Downing, em entrevista a Patr’cia Cavalli,
define m’dia radical alternativa como caracterizada por tipos de m’dias n‹o
convencionais. O autor credita ˆs m’dias n‹o convencionais e alternativas o
poder de transformar realidades pol’ticas, econ™micas e sociais. A m’dia
radical, ainda segundo ele, Ž uma forma de democracia, j‡ que a dignidade do
cidad‹o n‹o Ž s— ter direito ˆ educa�‹o e saœde, mas, tambŽm, ˆ arte e ˆ
comunica�‹o ou, ainda, ˆ m’dia (CAVALLI, 2009). Nesses termos, Downing
apresenta uma defini�‹o muito valiosa do que poder ser considerado uma m’dia
– defini�‹o essa que perpassa uma amplitude de suportes, ve’culos,
express›es, sensibilidades e experi�ncias estŽticas.
M’dia Ž, entretanto, um conceito bastante
amplo para Downing. N‹o apenas o r‡dio, a televis‹o, o jornal e o cinema
constituem o universo das m’dias, mas tambŽm as can�›es populares, incluindo a’
a vitalidade da mœsica negra de v‡rios pa’ses; a dan�a afro-americana; o
grafite praticado pelas gangues de jovens, principalmente na cultura hip-hop
norte-americana, na antiga Uni‹o SoviŽtica e na NigŽria; o vestu‡rio (que ele
chama de m’dias t�xteis), sobretudo os trajes mais na Guatemala durante
a ditadura militar, as arpilleras das mulheres chilenas durante o regime
militar, as colchas sul-americanas usadas como comunica�‹o clandestina, os
broches e buttons de lapela; os adesivos de para-choques; o rock
de garagem; o teatro popular, incluindo o teatro de rua de nosso Augasto Boal;
[...] os filmes e v’deos populares e/ou pol’ticos, incluindo a experi�ncia da
TV Maxabomba do Rio de Janeiro; a Internet radical; a tev� comunit‡ria e de
acesso pœblico; a culture-jamming (utiliza�‹o desviante dos s’mbolos
culturais oficiais como oposi�‹o ˆ finalidade a que se destinam), etc.
(MACHADO, 2002, p. 13).
Downing (2002) lembra que muitas m’dias s‹o
alternativas. Sobretudo, no que n‹o s‹o controladas por blocos monol’ticos
criados por grandes organiza�›es comprometidas com os interesses do
capitalismo. Mas, para ser radical, Ž preciso que se manifeste contra as for�as
de opress‹o, que permitam que seus usu‡rios possam vislumbrar a liberdade e
expressar suas ideias. Ela deve ser, sobretudo, combativa, no que se op›e a um
modelo hegem™nico de produ�‹o. Por isso, a m’dia radical alternativa sempre se
diferir‡ da m’dia alternativa, pura e simplesmente, j‡ que Ž uma express‹o de
subvers‹o, dissid�ncia, dissen�‹o, de questionamento e cr’tica ao status quo,
ˆs press›es e constru�›es hegem™nicas. A m’dia radical Ž, pois, sempre
contra-hegem™nica.
Por hegemonia, entendo o proposto por Antonio
Gramsci, quando penso o midiartivismo como express‹o de arte e m’dia a favor de
causas contra-hegem™nicas. Para Gramsci (2004), a hegemonia pode ser definida
por um movimento pol’tico majorit‡rio, que preza pela manuten�‹o do sistema capitalista
e que organiza a sociedade em torno do dom’nio cultural e da lideran�a mantida
atravŽs de —rg‹os de informa�‹o e da cultura. A contra-hegemonia, por sua vez,
seria a perspectiva oposta de futuro, que defende o engajamento das massas e a
contesta�‹o pelas massas, ao invŽs da subordina�‹o pura e simplesmente.
Nesses termos, o midiartivismo seria um conjunto
de a�›es e iniciativas a favor das causas dos grupos e das comunidades n‹o
hegem™nicas, minorit‡rias, subalternizadas, desprestigiadas, desprivilegiadas,
desfavorecidas – o que nos remete, mais uma vez, ˆ ideia da
alternatividade como proposta por Downing (2002).
A ideia de tornar pœblicas causas, problemas e
prioridades de determinado grupo ou comunidade coloca em cena a no�‹o de esfera
pœblica pol’tica e de visibilidade midi‡tica. Esfera pœblica, como conceito
proposto por Habermas (1984), Ž o espa�o social da representa�‹o (pœblica), que
deve ser gerido pela argumenta�‹o, discurso, publicidade e privacidade e que
funciona como mediador e lugar de conversa e influ�ncia entre o Estado e a
esfera privada. A defini�‹o do conceito Ž ilustrativa da import‰ncia da
ocupa�‹o dessa esfera, que Ž sempre pol’tica, j‡ que Ž lugar de visibilidade de
demandas, da exposi�‹o de problemas e de prioridades. A esfera de visibilidade
midi‡tica assume, assim, o importante papel de tornar acess’vel o debate
pœblico, funcionando como uma ponte entre sociedade civil, sistema pol’tico,
cultura e pol’tica (MAIA, 2002).
A
arte engajada e arte desinteressada
A participa�‹o de coletivos de arte e artistas
na esfera pœblica e de visibilidade midi‡tica nos afasta da ideia da arte
contemplativa, daquela arte que transmite emo�›es, mas que nada diz. TambŽm
permite questionar se h‡, de fato, uma arte que nada diz, que Ž puramente
contemplativa, mas, n‹o necessariamente comunicativa, interpretativa. Nesse
sentido, pode-se afirmar que toda arte, no que fala para fora de quem a produz,
do artista, do autor, Ž sempre marcada por tra�os de intencionalidade. Por
isso, ouso mesmo dizer que todo fazer estŽtico, toda arte Ž, por excel�ncia,
pol’tica, j‡ que est‡ em constante di‡logo com o mundo fora da obra. Por isso,
Ž sempre uma arte atuante (MOURÌO, 2015).
Ent‹o sigo no
contra-ataque dividindo
com quem soma
multiplicando os versos sem subtrair o
que amo
fa�o jus aos que se foram e me inspiro em
quem t‡ chegando
(SILVA, 2020).
Essas produ�›es n‹o s‹o inŽditas no cen‡rio
brasileiro da arte e da m’dia. Artistas e grupos de artistas integrantes de
grupos e comunidades subalternizadas falam das suas prioridades desde h‡ muito
tempo, sem considerarmos a cultura popular como a cristaliza�‹o das
manifesta�›es do povo sobre a totalidade das inst‰ncias que regem suas vidas. O
samba, os grupos de escolas de samba, os nordestinos, o teatro popular etc. s‹o
exemplos. Na dŽcada de 1970, express›es mais conceituais de arte, com
experi�ncias mais incisivas de grupos de artistas produzindo artivismo com uso
do corpo como suporte para a performance, v‹o dando forma ao que hoje
reconhecemos como coletivos, ao ocuparem a cena midi‡tica, o mainstream
do espet‡culo, o showbusiness, a indœstria cultural, mesmo quando eram
alternativos, underground[63]. Mas, a peculiaridade
dessas produ�›es e iniciativas Ž que elas ocorrem na esteira do fortalecimento
dos movimentos sociais e identit‡rios e da paradoxal amea�a ˆs democracias com
a ascens‹o do conservadorismo promovido pela extrema-direita. Por isso, aliadas
ao uso de express›es art’sticas nas pr‡ticas pol’ticas contempor‰neas, essas
express›es, a�›es, iniciativas revelam-se cr’ticas, questionadoras,
expressivas, potentes, revoltosas e insurgentes.
Ao ser utilizada como recurso para promover o
ativismo sempre social e, por isso, pol’tico, a arte alcan�a o patamar de arte
interessada em oposi�‹o ˆ ideia de arte desinteressada, da arte que n‹o quer
dizer nada, da arte que fala por si, da arte pela arte. Por isso, mais uma vez,
se transforma em arte engajada, em arte a favor de uma causa, por isso, uma
arte pol’tica.
Parte dessas causas n‹o diz respeito apenas ao
que est‡ fora da obra, fora da arte. Muitas vezes, Ž a pr—pria express‹o ou
linguagem art’stica a merecedora de reconhecimento. Afinal, muitas das
express›es que emergem com os coletivos e artistas militantes s‹o express›es,
atŽ ent‹o, invisibilizadas. S‹o artistas e coletivos que problematizam as
pr—prias linguagens art’sticas, muitas vezes, tradicionais, assim como as
normas sobre ser e estar no mundo.
A utiliza�‹o de inœmeras linguagens e
plataformas para explicitar, comentar e expressar vis›es do mundo e de produzir
pensamento cr’tico, multiplica o espectro do artivismo a partir do qual Ž
poss’vel intervir poŽtica e performativamente e construir espa�os de
comunica�‹o e de opini‹o no campo pol’tico – arte de rua, a�›es diretas,
performances, v’deo-art, r‡dio, culture jamming, hacktivism,
subvertising, arte urbana, manifestos e manifesta�›es ou desobedi�ncia
civil, entre outras. [...] Que conex›es se buscam entre poŽticas e performances
no espa�o pœblico e no ciberespa�o? E de que modo o artivismo encontra no mundo
digital um territ—rio amig‡vel para se tornar viral e simultaneamente para se
construir como um arquivo de documenta�‹o performativa pol’tica? (RAPOSO, 2015,
p. 5).
S‹o express›es que falam das coisas das
minorias, dos grupos e comunidades minorit‡rias, desprestigiados,
desfavorecidas, desprivilegiadas, subalternizadas, que questionam as for�as
hegem™nicas e tudo o que est‡ inclu’do dentro dessas for�as: binarismos,
naturaliza�›es, normatiza�›es relativas ao g�nero, ˆs sexualidades, ˆ ra�a, ˆ
classe, ˆs religiosidades, aos regionalismos. Por isso, Ž sempre um movimento
dissidente, insurgente, j‡ que rompe, quebra com as normas, atŽ ent‹o,
vigentes.
A incerteza Ž a aliada mais sincera de
quem luta pra viver do pr—prio sonho
O bra�o armado do Estado corrompe
Eles se alimentam do nosso sangue
(SILVA, 2020).
A
arte e a m’dia que educam
A pr‡ticas de midiartivismo tambŽm est‹o a favor
do ensino e da aprendizagem, da transforma�‹o pela educa�‹o, pela arte
educadora. A exposi�‹o de uma causa tambŽm pode ser interpretada com uma aula,
como um compartilhamento de informa�‹o, mas, sobretudo, como processo de
aprendizagem no qual compet�ncias, habilidades, vis›es de mundo,
comportamentos, cren�as, conhecimentos ou valores s‹o transmitidos. Por isso, o
midiartivismo Ž sempre uma milit‰ncia formativa e pedag—gica, uma a�‹o e uma
pr‡tica educativa.
O midiartivismo reorganiza as no�›es atŽ ent‹o
concebidas de arte, das possibilidades de usos da m’dia e, sobretudo, de
mercado e pol’tica.
O artivismo se transforma em midiartivismo
quando a a�‹o e performance que, na maioria das vezes, somente existem enquanto
est‹o sendo realizadas, passam a se materializar atravŽs do registro, quando
passam a ser mediadas pelo uso de tecnologias de m’dia (v’deos, fotografias,
textos, ‡udio). Nesse sentido, importante chamar a aten�‹o para a import‰ncia
da legendagem das performances como orientadoras da frui�‹o, do sens’vel e da
experi�ncia estŽtica, fen™meno muito parecido com o que foi pensado por Walter
Benjamin (2018) em rela�‹o ˆ legenda das fotografias.
Em Tempo de Pipa, a transforma�‹o da
poesia e da mœsica em videoclipe tambŽm chama a aten�‹o para o poder do v’deo
de possibilitar a perenidade da obra e para as discuss›es em torno da tradu�‹o
da obra como obra de segunda monta – momento em que o debate sobre o
registro como elemento de interfer�ncia na obra vem ˆ tona, questionando o status
do registro nas performances como recurso de uma metalinguagem ou de uma arte
de segunda ordem.
Tempo de Pipa: poesia musical videografada
No caso da mœsica, como em Tempo de Pipa,
Ž a letra a norteadora semiol—gica do que se quer dizer, falar para o mundo.
N‹o diferentemente de outras express›es, para o caso da mœsica, as imagens,
est‡ticas ou em movimento, registros dos shows ou divulgadoras do trabalho,
como no caso dos videoclipes e dos ‡lbuns visuais, servem como constru�‹o
semi—tica do que se quer anunciar. A favela e sua juventude com tudo o que t�m
de negativo e positivo: mazelas, tristezas, alegrias e criatividade.
H‡ uma linguagem Òfavel’sticaÓ em Tempo de
Pipa que, de certo modo, une a favela daqui, da Bahia, com as favelas de
l‡, do Brasil. Faz parecer que favela Ž uma coisa s—, seja no Rio de Janeiro,
seja em S‹o Paulo, seja no Recife, seja em Salvador ou, ouso mesmo dizer, seja no
mundo. Afinal, os mecanismos de exclus‹o reservados aos grupos e comunidades
desfavorecidas, n‹o por caso, moradores de ‡reas empobrecidas, s‹o parte de um
projeto pol’tico nacional, constru’do no seio da cultura fundante do processo
civilizat—rio brasileiro. Mas, s— faz parecer, j‡ que, mesmo que haja uma
comunh‹o em termos dos problemas e prioridades e, por extens‹o, das causas, h‡
especificidades m’nimas e particulares na favela daqui que s— dizem respeito ˆ
favela daqui. Os tra�os de regionalismos tambŽm contribuem para dizer que essa
favela que fala para o mundo Ž a favela de c‡, da Bahia. ÒBota ™taÓ, Òfaz mais
falta do que babaÓ[64]. Mas, Ž na universalidade
particular, traduzida pela escuta dos Racionais, e na recusa ˆ B’blia,
tida como universalidade totalizadora, que o poeta diz ter entendido o que Ž
divino e humanidade.
minha quebrada foi
batizada por nome de bicho
bicho esse que n—s num
v� desde o pr—prio batismo
sussuarana Ž veloz por
instinto
mas os menino aprendeu a
correr ouvindo zuada de tiro
ou da m‹e que t‡
gritando preocupada com o filho
e se cachorro latir de
madrugada
tambŽm Ž aviso
(SILVA, 2020).
Tempo de Pipa Ž rap, mœsica-poesia-v’deo para
ser ouvido, lido e visto[65].
O v’deo tem in’cio com uma cena em que a pipa
est‡ no ch‹o, ou melhor, na laje, no ch‹o da laje. Afinal, Òpra ser pipa, tem
que subir na lajeÓ.
O v’deo tem quatro minutos e quarenta e oito
segundos de dura�‹o.
A pipa costura o que est‡ sendo cantado,
declamado, dito. Ela somente subir‡ no quarto e œltimo minuto do v’deo, quando
fecha o videoclipe num enquadramento que toma o rolo de linha, a linha
estendida pro cŽu e a pipa solta no ar no meio do casario de alvenaria sem
reboco, com tijolos expostos e, ao longe, os conjuntos de apartamentos. A
perman�ncia da pipa na laje Ž, assim, o fio condutor da poesia.
Enquanto Breno vai preparando a sua subida,
ÒbotanuÓ a sua pipa no ar, o enredo vai se desenrolando. Ora na laje, ora nos
becos, escadas e vielas.
O cen‡rio Ž sempre Sussuarana. Breno fala de
dentro da comunidade, a partir da comunidade. Ao fundo, ora floresta (morada da
on�a que deu nome ao bairro), ora casas de alvenaria, ora os conjuntos
habitacionais, tipo os Òb� Žne ag‡Ó – BNH, as Òco‡biÓ – COHAB e os
conjuntos habitacionais das caixas e previd�ncias dos sindicatos de trabalhadores,
os famosos Òap�Ó – apartamentos, que se espalharam pelo Brasil nos anos
de 1960 e 1970.
O cen‡rio do v’deo Ž cr’tica social que combina
imagem e poesia. Ouso dizer que mesmo a mœsica d‡ um tom melanc—lico ˆs rimas,
fazendo parte dessa combina�‹o. A pipa, nesse sentido, conduz a narrativa n‹o
somente atravŽs da imagem, mas, tambŽm, atravŽs da palavra.
Nesse sentido, Tempo de Pipa Ž
ilustrativo da iniciativa midiartivista, pois congrega as mais variadas formas
e manifesta�›es e express›es art’sticas em articula�‹o com um produto
audiovisual, portanto, midi‡tico, promovendo a�›es absolutamente distanciadas
das formas institucionalizadas do fazer pol’tico.
ƒ m’dia e arte, midiarte, a favor das causas e
das cr’ticas sociais. ƒ arte protesto, n‹o necessariamente panflet‡ria, j‡ que
n‹o Ž instrumento de mera propaga�‹o de uma de uma ideologia, mas, sobretudo,
manifesta�‹o.
A transforma�‹o da mœsica em videoclipe tambŽm
chama a aten�‹o para o poder do v’deo de possibilitar a perenidade da obra e a
tradu�‹o da obra como obra de segunda monta – momento em que as
discuss›es sobre o registro como elemento de interfer�ncia na obra v�m ˆ tona,
questionando o status do registro nas performances como recurso de uma
metalinguagem ou de uma arte de segunda ordem.
A distopia retratada tanto na letra como na
mœsica (atravŽs da batida e do andamento lentos) e no v’deo (na conjun�‹o entre
cen‡rios, tomadas e planos) projeta um futuro descrente em —bvia refer�ncia ao
afropessimismo como elemento conceitual marcador e interventor (SEXTON, 2016),
recorr�ncia nos discursos sobre a condi�‹o de ser negro e negra no mundo. A
rima em que Breno diz: Òbala perdida virou mais, mais que amigo, agora Ž quase,
quase, um ente queridoÓ, Ž ilustrativa disso que parece apontar para a desesperan�a.
Mas, a pipa que sobe no final do v’deo mostra outra atitude.
Sobre a pipa [...]
quando a gente tem a pipa... tem aquela coisa m’tica da inf‰ncia que Ž poder
voar. A gente deposita na pipa o que a gente n‹o pode. A pipa pode fazer uma
coisa que.... isso d‡ uma ideia de liberdade, nŽ? Poder subir e fazer o que a
gente gosta, o que a gente deseja, o que a gente quer, o que a gente merece,
entende? Ent‹o, esse lance, nŽ, essa coisa de subir Ž muito mais ligada a isso,
entendeu? Por que eu falo: Ôe os pivete sabe que pra ser pipa, tem que subir na
laje, sem esfor�o n‹o tem dom, tem que ter coragemÕ, entendeu? ent‹o, Ž nesse
sentido, nŽ? Sem esfor�o n‹o te dom, sem for�a de vontade, voc� n‹o vai pra
lugar nenhum. ƒ a mesma coisa para colocar uma pipa no ar. Se voc� n‹o fizer
esfor�o dela subir, ent‹o... voc� tambŽm n‹o consegue colocar ela no ar (SILVA,
2020)[66].
Tempo
de Pipa, ao combinar cenas em preto e branco com cenas coloridas, d‡ o tom
do discurso que marcar‡ produ�‹o audiovisual como oscilando entre a luta a
favor da mudan�a e a constata�‹o de que nada mudar‡. Parece pessimista, mas,
n‹o Ž. Exemplo disso Ž o fato de apresentar as lajes, os espa�os acima e sobre
os telhados. A c‰mera quase nunca est‡ dentro de algum lugar. Seu lugar Ž o
espa�o aberto, o ar livre. As lajes e os espa�os acima do telhado muito se
assemelham ao des’gnio da pipa: subir. N‹o, necessariamente, para escapar do
algo ou alguŽm. Mas, t‹o somente, para chegar ao alto, ao lugar de poder, de
prest’gio. A c‰mera, ao optar por tomadas de baixo para cima, refor�a a for�a
grandiosa de Breno e Sued, representantes da juventude negra e perifŽrica, que
tomam a cena e que mesmo quando parecem cair, sobem. ƒ quase como o trecho da
poesia que fala da tia que queria alho para temperar o —dio, mas, acabou
cortando cebola e transbordou em l‡grima.
Tempo de Pipa faz isso bem, j‡ que, como a�‹o
midiartivista, o v’deo-poesia-musical confere poder e visibilidade ˆ causa da
coletividade organizada. Por isso, Tempo de Pipa funciona como m’dia
radical alternativa, aos moldes do defendido por Downing (2002) j‡ que informa,
comunica e constr—i discursos contra-hegem™nicos.
O artista ativista Breno Silva (1) e a cantora
Sued Nunes (2) em cenas do v’deo Tempo de Pipa
Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=xZlWWOmHwFw
Conclus‹o
Grupos contra-hegem™nicos, atravŽs das mais
diversas estratŽgias discursivas e suportes, como as m’dias, com poesia, mœsica
e v’deo, promovem um tipo de Òm’dia geral de pequena escala e sob muitas formas
diferentes – que expressa uma vis‹o alternativa ˆs pol’ticas, prioridades
e perspectivas hegem™nicasÓ (DOWNING, 2002, p. 21).
Ao realizar produ�›es que utilizam poesias,
vozes, mœsicas, v’deos e viv�ncias para comunicar pautas, num tipo de estŽtica
ativista e insurgente, os coletivos e artistas subvertem normas e ide‡rios
cristalizados sobre o que Ž movimento social, arte e m’dia.
A estŽtica da dissens‹o Ž tambŽm a Žtica da
resist�ncia, para usar termos caros a Rui Mour‹o (2015). ƒ uma estŽtica ativista
e pol’tica. Por isso, o artivismo n‹o se limita apenas ˆs quest›es do ‰mbito da
pol’tica, mas, sobretudo, ˆ Žtica e ˆs estŽticas.
Tempo de Pipa, por exemplo, ao fazer midiartivismo,
produz, atravŽs do audiovisual e de toda a sorte de express›es de criatividade,
estŽtica voltada tanto para o prazer da frui�‹o e entretenimento como para o
fazer pol’tico.
ƒ necess‡ria aten�‹o
especial a esses novos movimentos e tipos de produ�‹o, frutos da contra conduta
e da subvers‹o dos que se munem de armas estŽticas para fazer ecoar suas vozes
[...]. O advento da Internet intensifica essas novas configura�›es pol’ticas,
mais libert‡rias e n‹o menos eficientes, permitindo o surgimento de novas
vozes, que incidem sobre a liberdade de novos corpos e subjetividades. Essa nova
forma de fazer pol’tica [...] quase sempre Ž considerada estranha e
deslegitimada por quem somente acredita na maneira autorit‡ria e burocr‡tica do
fazer pol’tico (FREITAS, 2019, p. 258).
O midiartivismo quebra paradigmas e contribui
para o aniquilamento dos discursos excludentes. ƒ m’dia e arte que v�m das
quebradas para quebrar paradigmas e revelar a beleza do que foi considerado
in—spito por muito tempo, a partir da reitera�‹o e perpetua�‹o de discursos que
encontravam respaldo nos meios de comunica�‹o hegem™nicos e nos sistemas
institucionalizados cl‡ssicos da educa�‹o. ƒ o levante das dissid�ncias que n‹o
permitem que sejam silenciadas e se nutrem de estratŽgias para vencer o
apagamento, a marginaliza�‹o e o alijamento. ƒ a arte que Òextrapola os limites
do quadro, da moldura e atŽ mesmo das paredes do museu [...] para se instalar
na realidade absoluta, na vida cotidianaÓ (FREITAS, 2007, p. 86). ƒ o artivismo
que se conecta com seus pœblicos. ƒ o midiartivismo a favor da transforma�‹o,
que reestrutura rela�›es de poder e reorganiza as esferas de poder, privilŽgio
e prest’gio.
esse poema n‹o tem fim
Ž eterno, eu digo
(SILVA, 2020)
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[Recebido:
11 ago 2020 – Aceito: 19 set 2020]
Pontes sobre o rio Capiberibe e o mar
Brigdes over the
Capiberibe river and the sea
Ana Cristina Marinho[67]
https://orcid.org/0000-0003-2645-6113
Resumo: O artigo busca
construir uma cartografia de duas editoras/livrarias que publicavam/comercializavam
cole�›es de livros populares em finais do sŽculo XIX e in’cio do XX: a Livraria
Portugueza, localizada na cidade do Porto, e a Livraria Contempor‰nea,
localizada na cidade de Recife, Pernambuco. Nesse mapa, encontramos dois comerciantes
portugueses e um terceiro personagem, o poeta, editor e comerciante de livros
Leandro Gomes de Barros, que viveu na cidade de Recife e manteve, nas duas
primeiras dŽcadas do XX, uma intensa atividade ligada ao livro e ˆ leitura,
caracterizando-se como um agente liter‡rio. O encontro desses tr�s personagens
possibilita discuss›es sobre a escrita, a leitura e a comercializa�‹o de livros
no in’cio do sŽculo XX, no Brasil e em Portugal. O percurso te—rico foi
norteado por discuss›es sobre a hist—ria do livro e da leitura encontradas em Abreu
(1999), Chartier (1997), Anselmo (1991) e Ven‰cio (2005), alŽm de estudos sobre
cartografias liter‡rias de Fernandes (2012), Cury (2007), Harley (1990) e Martin-Barbero
(2004).
Palavras-chave: Leandro Gomes de
Barros; Livraria Contemporanea; Livraria Portugueza; Edi�›es populares.
Abstract: The article seeks to build a cartography of two publishers/bookstores
that published/marketed collections of popular books in the late 19th and early
20th centuries: Livraria Portugueza, located in the city of Porto, and Livraria
Contempor‰nea, located in the city of Recife - Pernambuco. On this map, we find
two Portuguese traders and a third character, the poet, editor, and book trader
Leandro Gomes de Barros, who lived in the city of Recife and maintained, in the
first two decades of the 20th, an intense activity linked to books and reading,
being characterized as a literary agent. The meeting of these three characters
allows discussions about writing, reading, and selling books in the early 20th
century, in Brazil and Portugal. The journey was guided by discussions about
the history of books and reading (Abreu, 1999; Chartier, 1997; Anselmo, 1991;
Ven‰cio, 2005), in addition to studies on literary cartography (Fernandes,
2012; Maria Zilda Cury, 2007; Harley, 1990; Martin-Barbero, 2004).
Key-Words: Leandro Gomes de
Barros; Livraria Contemporanea; Livraria Portugueza; Popular Editions.
Neste texto, busco refazer os caminhos de uma editora
do Porto, a Livraria Portugueza, que publicava livros de cordel e os enviava
para o Brasil, j‡ em finais do sŽculo XIX e in’cio do sŽculo XX. Nessa mesma
Žpoca, criava-se e consolidava-se no Brasil a literatura de folhetos, diferente
em v‡rios aspectos da literatura de cordel portuguesa. As obras impressas pelo
editor portugu�s Joaquim Maria da Costa, e enviadas a Pernambuco, eram vendidas
na Livraria Contemporanea, de Ramiro Moreira da Costa, casa frequentada pela
elite pernambucana e tambŽm pelo poeta Leandro Gomes de Barros. Seguirei os
passos de dois editores de livros ÒpopularesÓ e um propriet‡rio de livraria que
exerciam suas atividades no per’odo que vai de 1883 (data mais antiga de
publica�‹o de obras pela Livraria Portugueza a que tive acesso) a 1918 (ano da
morte de Leandro Gomes de Barros).
Quando iniciei a pesquisa nos arquivos da
Biblioteca Nacional do Porto, n‹o esperava me ÒencontrarÓ com o poeta Leandro
Gomes de Barros, antigo conhecido dos estudos sobre tradi�›es orais e populares
que fazem parte da minha trajet—ria como pesquisadora e professora de
literatura na Universidade Federal da Para’ba.[68] Inquietavam-me, naquele
ano de 2013, as discuss›es veiculadas em jornais e revistas, e tambŽm em
ambientes de discuss‹o acad�mica (congressos, semin‡rios) sobre os Ònovos escritoresÓ
de literatura brasileira que circulavam em diferentes espa�os, participavam de
feiras liter‡rias e estabeleciam rela�›es diferenciadas com as editoras, o
mercado, o pœblico e a cr’tica.
Para Maria Zilda Cury, Ž poss’vel falar em novas
cartografias liter‡rias, nesses primeiros anos do sŽculo XXI, pois os
escritores assumem a postura de agentes culturais, Òtransitando por espa�os que
n‹o o estritamente liter‡rio, o que, inevitavelmente, interfere na escrita de
seus textosÓ (CURY, 2007, p. 7). Pensando na literatura de folhetos no Brasil,
chamada por M‡rcia Abreu de um g�nero editorial e n‹o apenas um g�nero
liter‡rio (ABREU, 1999), essas Ònovas geografias narrativasÓ n‹o me pareciam
t‹o novas assim. Os poetas populares, nas primeiras dŽcadas do sŽculo XX, eram
agentes culturais, viajantes perform‡ticos, sobreviventes do verso e da lira.
No estudo sobre a Tipografia S‹o Francisco
(1940-1972), em Juazeiro do Norte- CE, Rosilene Melo evidencia o quanto a
hist—ria das tipografias populares est‡ ligada ˆs estratŽgias de sobreviv�ncia
criadas pelos poetas e editores, em um mercado que sofre tanto influ�ncias
econ™micas quanto religiosas, familiares e afetivas (MELO, 2010). A literatura
de folhetos no Brasil acompanhou os caminhos da estrada de ferro, do algod‹o e
da borracha, mas tambŽm os caminhos da fŽ, do misticismo, do encantamento pelo
verso que transformaram pequenas cidades, como Juazeiro do Norte, em grandes
centros de distribui�‹o de folhetos de cordel.
No Nordeste brasileiro surgiram, ainda nas
quatro primeiras dŽcadas do sŽculo XX, tipografias em cidades como Areia,
Itabaiana, Guarabira e CatolŽ do Rocha-PB, Novas Russas-CE e Currais Novos-RN.
Em Juazeiro do Norte, a Tipografia S‹o Francisco, posteriormente Lira
Nordestina, se configurou como a maior editora popular, sobrevivendo durante 30
anos e agregando em torno da produ�‹o e venda de folhetos poetas, cantadores,
dan�adores de coco e reisado, praticantes de umbanda e candomblŽ, astr—logos,
curandeiros, rezadores, artistas da madeira, da palha, do barro.
Se fosse poss’vel desenhar novos mapas culturais
no Brasil, a partir da trajet—ria de poetas e vendedores de folhetos, as
cidades de BelŽm (Editora Guajarina), Juazeiro do Norte (Tipografia S‹o
Francisco), Campina Grande (Tipografia Estrela da poesia) e S‹o Paulo (Editora
Prelœdio) estariam muito mais pr—ximas da cidade de Recife, lugar escolhido por
Leandro Gomes de Barros para editar seus folhetos, do que os estados vizinhos
do Rio Grande do Norte e Alagoas.
A
constru�‹o de territ—rios se d‡ a partir de interesses comerciais, pol’ticos,
mas tambŽm simb—licos, afetivos, emocionais. As fronteiras geogr‡ficas ou
pol’ticas n‹o podem ser refer�ncias para a delimita�‹o de territ—rios
culturais. Hoffman (1999) considera a desterritorializa�‹o como marca dominante
nas produ�›es liter‡rias da œltima dŽcada do sŽculo XX. Personagens em
tr‰nsito, poetas transformados em agentes culturais, configuram o que a autora chama
de Ònovos n™madesÓ. Pensando na experi�ncia dos poetas e editores da literatura
de folhetos no Brasil, essas viv�ncias n™mades n‹o representam nenhuma novidade,
como pudemos perceber ao longo da pesquisa.
A abordagem cartogr‡fica, que aqui busco seguir,
toma a historiografia n‹o como uma sucess‹o de fatos, eventos, e sim como uma
Òjustaposi�‹o de textos, mapasÓ, enfatizando Òo processo de constru�‹o das
rela�›es de poder presente nos textosÓ (FERNANDES, 2012). Para Frederico
Fernandes,
Enquanto a abordagem sincr™nica
culturalista guia-se pela tens‹o dicot™mica, na qual os vetores ideol—gicos de
forma�‹o cultural s‹o intensificados, a abordagem cartogr‡fica Ž uma an‡lise
descritiva e interventiva que considera os efeitos de subjetividade dos agentes
envolvidos na performance (FERNANDES, 2012, p. 151).
Essa an‡lise Òdescritiva e interventivaÓ busca
interligar sujeitos e objetos, na tentativa de construir novos mapas da cultura
pois, segundo Martin-Barbero (2004), a cartografia n‹o precisa representar
apenas fronteiras, pode representar encontros, rela�›es, interc‰mbios. E Ž
nesse sentido do encontro e dos interc‰mbios que caminha a minha escrita, numa
tentativa de ligar a cidade do Porto ˆ cidade do Recife, a vida de livreiros,
editores e tip—grafos dessas duas cidades, ao percurso de poetas populares.
Tr�s sujeitos se cruzam nessa hist—ria: Joaquim Maria da Costa, editor da
Livraria Portugueza, na cidade do Porto; Ramiro Moreira da Costa, portugu�s
emigrado para Recife, propriet‡rio da Livraria Contempor‰nea e Leandro Gomes de
Barros, poeta e editor de folhetos, um dos respons‡veis pela cria�‹o do g�nero
literatura de cordel no Brasil.
Um
Costa de l‡ e outro de c‡
A Editora de Joaquim Maria da Costa, sucessor
dos Machado & Costa, estava localizada no Largo dos Loyos, 55-56, Porto. A
Livraria Portugueza vendia cole�›es de entremezes, fados, contos populares,
Òlindos livrinhos em versos amorosos e cartas amorosas em prosa e versoÓ. Em um
folheto de 1902 aparece o seguinte anœncio: ÒLinda Collec�‹o de livrinhos
amorososÓ; Linda Collec�‹o de OraculosÓ; ÒLivrinhos de Canticos ReligiososÓ;
ÒCollec�‹o de contos modernosÓ; ÒLinda Collec�‹o de testamentosÓ. Em 1903, a
editora passou a vender tambŽm ÒAlmanachs e Reportorios Sarago�anos para o
annoÓ e ÒHist—rias e contos recreativos para o povoÓ. Publicava ainda a
Colec�‹o de fados modernos (1893 a 1897) que teve em torno de 16 nœmeros. Na
quarta-capa do folheto ÒBrados de Comisera�‹o a favor das almas do purgat—rioÓ
(s/d) encontramos a seguinte indica�‹o das atividades desenvolvidas pela
Livraria Portugueza:
NÕeste estabelecimento h‡ um variad’ssimo
sortimento de comp�ndios adoptados em todos os lyceus, collegios, aulas e
escolas oficiais e particulares do reino; livros de missa e semana santa, desde
o pre�o de 160 reis atŽ 9$000 reis; obras m’sticas aprovadas pelas autoridades
eclesi‡sticas; literatura hist—rica e cl‡ssica, de direito e medicina; uma
abundante collec�‹o de romances dos melhores autores e a pre�os reduzidos; bom
sortido de obras recreativas e populares; obras theatraes; dramas, comedias,
scenas e poesias c™micas; livros em branco, cartilhas, pautas, traslados,
almanachs e report—rios de todos os autores, hist—rias e contos em prosa e
verso para o povo; Alphabetos, taboadas, methodo fac’limo, catecismo, Manual
Enciclophedico; impressos para as escolas e professores de instru�‹o primaria. Grande
desconto para revender. Pedidos a Joaquim Maria da Costa, com dire�‹o acima
mencionada.
AlŽm dos cordŽis publicados pela Livraria
Portugueza, tive acesso a textos e cole�›es de hist—rias populares publicados
por outros casas como a Typographia de Antonio Alvarez Ribeiro (Officina de
Antonio Alvarez Ribeiro; Tipografia da viœva Alvarez Ribeiro & Filhos); o
Bazar Feniano - Livraria de Antonio da Silva Santos & C», que depois passa
para Diamantino da Silva Cardoso, j‡ no sŽculo XX; a Livraria Chardron de Lello
& Irm‹o; a Livraria Lello e irm‹o; a Typographia Gandra e Filhos; a
Livraria de J. E. da Cruz Coutinho e a Livraria Civiliza�‹o, de Eduardo da
Costa Santos. O pesquisador Arnaldo Saraiva tambŽm menciona, no seu livro Folhetos
de cordel e outros da minha cole�‹o, outras 16
livrarias/tipografias/oficinas da cidade do Porto que editavam cordŽis
(SARAIVA, 2006).
Selecionei uma cole�‹o editada por Ramiro
Moreira da Costa para acompanhar o percurso desses livros: a Cole�‹o de
Hist—ria Populares. Os livros dessa cole�‹o eram impressos na Typographia a
vapor de Arthur JosŽ de Souza & Irm‹o, Largo de S. Domingos, 66-67 (ou
74-76). Cada t’tulo da cole�‹o era vendido, em 1904, por 60, 80 ou 100 reis.
Segundo Giselle Martins Ven‰ncio,
As cole�›es criadas pelas casas
editoriais europeias podem ser consideradas o principal instrumento de
afirma�‹o do poder dos editores marcando uma verdadeira ruptura no processo de
publica�‹o de livros desenvolvido atŽ ent‹o. A cria�‹o de cole�›es populares
foi, justamente, o que permitiu aos editores o estabelecimento de um comando
editorial atravŽs do qual eles passaram a estabelecer as normas do mercado (VENåNCIO,
2005, p. 5).
No percurso feito pela pesquisadora, trilhando
os Òcaminhos da cole�‹o Biblioteca do Povo e das EscolasÓ, e que envolve tr�s
livreiros/editores – David Corazzi, Lisboa; Francisco Alves, Rio de
Janeiro e Gualter Rodrigues, Cear‡ –, Ž poss’vel Òconhecer aspectos da hist—ria
dos livros, desvendando, pelo menos em parte, a din‰mica cultural que se estabelecia
entre a Europa e as diversas regi›es do Brasil no sŽculo XIXÓ (VENåNCIO, 2005,
p. 5). Seguindo esse mesmo caminho, tento tra�ar uma cartografia da produ�‹o e
comercializa�‹o de folhetos de cordel, de finais do sŽculo XIX atŽ as primeiras
duas dŽcadas do sŽculo XX, levada pela m‹o do poeta Leandro Gomes de Barros.
Mas, antes, sigo a refazer o percurso que me trouxe de volta para o Brasil.
Tive acesso a 29 t’tulos da Cole�‹o de
Hist—rias Populares, o mais antigo deles datado de 1891. T’tulos como as
Òverdadeiras hist—riasÓ da Princesa Magalona, da Imperatriz Porcina, de Jo‹o de
Calais, do infante D. Pedro de Portugal, do Imperador Carlos Magno, passando
pela ÒVerdadeira Malicia e maldade das mulheres e a malicia dos homensÓ (1901)
e chegando ˆ ÒHist—ria curiosa e engra�ada do Preto e o Bugio Ambos no Matto,
discorrendo sobre a arte de ter dinheiro sem ir ao Brasil e acrescentado com o
engra�ado Tango AmericanoÓ e ÒO velho, o rapaz e o burro e as can�onetas –
o sonhoÓ (1897).
A editora tambŽm
publicava a Bibliotheca de Leituras Populares, que reunia obras mais voltadas
para hist—rias de crimes, venturas e desventuras amorosas, milagres de santos,
Òmon—logos para amadores dram‡ticosÓ, entre outros t’tulos. E ainda, segundo
informa�›es de Arnaldo Saraiva, a cole�‹o de contos populares portugueses
– 16 t’tulos publicados desde o ano de 1885.
Joaquim Maria da Costa,
no folheto ÒBreves no�›es de Hist—ria InglezaÓ, escreve a seguinte advert�ncia:
Advert�ncia do
editor aos leitores dos livrinhos
Quando me
resolvi publicar a ÒBibliotheca da Hist—ria de todos os povosÓ n‹o tive em mira
lucros a auferir de tal publica�‹o, mas t‹o somente divulgar o mais poss’vel
pelas classes menos abastadas, que n‹o conhecem as l’nguas estrangeiras umas
breves no�›es, ou pequeno resumo da ÒHist—ria das grandes na�›es do mundoÓ para
instru�‹o n‹o s— dos portugueses, mas dos filhos da outras na�›es que desejem
aperfei�oar-se no nosso idioma. Os portuguezes encontrar‹o nÕesta amena leitura
o conhecimento dos principaes factos dos povos que atŽ hoje mal conheciam, e
aos estrangeiros servir-lhe-‡ de est’mulo ao estudo quando desejem dedicarse ˆ
l’ngua portuguesa, pois que ao mesmo tempo que se habilitam, pelo estudo, a uma
l’ngua estranha, utilizam e recordam os feitos heroicos dos seus antepassados.
Se o Editor dÕesta interessante collec�‹o de livrinhos uteis, poder conseguir o
que intenta, julgar-se-‡ bem pago do pequeno servi�o que julga prestar ‡quelles
que desejam instruir-se, preenchendo com esta publica�‹o uma lacuna que desde
h‡ muito se sentia na literatura portuguesa. Porto, 1 de mar�o de 1903. O
editor, Joaquim Maria da Costa.
Foi a partir dos anos 1845 que come�aram a
surgir as sŽries e cole�›es populares em Portugal, destinadas Òˆ vulgariza�‹o
de um modelo massificado da Òboa literaturaÓ, de conhecimentos œteis ou de
formas de comportamento social e moralÓ (PINTO; MONTEIRO, 2013, p. 206). A
abertura do mercado e a possibilidade de os editores ganharem dinheiro com a
comercializa�‹o de obras parecia desagradar aos intelectuais e literatos, mas
garantiu o sustento de muitas fam’lias e contribuiu para a profissionaliza�‹o
desses mesmos trabalhadores.
Os Òlivrinhos uteisÓ que chegavam ˆs Òclasses
menos abastadasÓ atravessaram o mar e chegaram ˆs m‹os de outro livreiro
portugu�s. Nesse mesmo folheto de 1903 aparece a informa�‹o de venda das obras
editadas na Livraria Portugueza para a êndia, çfrica, EUA (Calif—rnia) e
Brasil. No Brasil o Òdep—sito geralÓ de livros era a Òlivraria do snr. Ramiro
Moreira Costa & C», em PernambucoÓ.
E chego ao nosso segundo viajante, atraco no
cais do porto, em Recife, e caminho atŽ a rua 1¼ de Mar�o, onde estava
localizada a Livraria Contemporanea de Ramiro Moreira da Costa. Em 1890, j‡
aparecem not’cias sobre caixas enviadas a Ramiro Costa em vapores que chegavam
de Lisboa ao porto do Recife (Jornal A prov’ncia, 21 de janeiro de
1890). A livraria vendia materiais para escrit—rio, instrumentos musicais,
tinta e typos, brinquedos, impressos, ferragens, papel, livros, pratos de
porcelana, pinturas de artistas franceses, charutos, imagens sacras,
fotografias, m—veis, bolsas escolares...
Sobre a vida movimentada do estabelecimento, d‹o
conta as seguintes not’cias publicadas tambŽm no jornal A prov’ncia:
-
Exposi�‹o do Òretrato do grande chefe abolicionista e republicano cearence Jo‹o
CordeiroÓ, feito por Libanio Amaral (15 de maio de 1890);
-
Exposi�‹o Peitoral de Cambar‡ – quadro com a Òfotografia do suntuoso
estabelecimento Agrico Industrial do Parque Pelotense [...] onde funciona a
importante f‡brica do precioso medicamento denominado Peitoral de Cambar‡Ó (18
de janeiro de 1891);
-
Exposi�‹o de um Ògrande quadro das fotografias do atelier Frederico RamosaÓ (2
de junho de 1891);
-
Anœncio ˆ procura de professor para atuar no engenho da Gamelleira, tendo a
livraria como local de contato (21 de janeiro de 1900).
Chama
a aten�‹o uma exposi�‹o de um quadro de Òsuntuoso estabelecimentoÓ que poderia
funcionar para atrair compradores para um remŽdio que seria vendido,
futuramente, no mesmo estabelecimento loja. A presen�a de anœncios para a
contrata�‹o de professores tambŽm evidencia o importante papel desempenhado
pela livraria no campo da instru�‹o e forma�‹o de novos leitores e leitoras.
Ramiro Moreira da Costa viveu 76 anos, entre
idas e vinda a Portugal para cuidar da saœde e dos neg—cios. Chegou ao Brasil
em 1878, desembarcando no Maranh‹o, onde foi comerciante durante algum tempo.
Depois, em 1888, instalou a Livraria Contemporanea na cidade do Recife que
passa, a partir de 1905, a aparecer nas not’cias de jornal com o nome de Ramiro
Moreira da Costa & Filho. Nesse per’odo, o local, mais do que um ponto de
venda, era um ponto de encontro de intelectuais, a exemplo do que acontecia no
Rio de Janeiro, como demostram os estudos sobre livrarias, tipografias e
editoras de Hallewell (1985), Abreu e Schapochnik (2005) e Ven‰ncio (2005),
para citar apenas alguns nomes.
Ramiro Costa participou da vida cultural e de
neg—cios da cidade do Recife. Foi suplente da comiss‹o fiscal do Banco Popular,
eleito em 1891; em 1900 possu’a 20 a�›es da Companhia Tethys de seguros
mar’timos e terrestres; foi procurador do senhor JosŽ Gon�alves Dias,
propriet‡rio de Òf‡brica de surragem, compra e venda de solla, sita a rua da
Palma, n. 97Ó (A prov’ncia, 16 de maio de 1900); fez parte da comiss‹o
de ‡rbitros da Alf‰ndega de Pernambuco Òpara o fim de resolver sobre as
quest›es que forem suscitadas acerca da classifica�‹o de mercadoriasÓ, na
Classe 19 – Papel e suas aplica�›es (A prov’ncia, 14 de mar�o de
1901); juiz por devo�‹o Òda tradicional festa do senhor Bom-Jesus do Bom-Fim a
realizar-se no dia 01 de janeiro de 1906 na cidade de OlindaÓ; acionista da
Companhia Industrial Fia�‹o e Tecidos de Goyanna, em 1906, neg—cio que passa a
ser de um dos seus filhos; membro da Junta administrativa da Santa Casa de
Miseric—rdia do Recife, 1916, e, por fim, integrante da Comiss‹o Pro-P‡tria
criada em fun�‹o da Òsitua�‹o melindrosa de Portugal diante da declara�‹o de
guerra feita pela AlemanhaÓ (A prov’ncia, 20 de mar�o de 1916). Temos aqui
apenas alguns exemplos da atua�‹o de Ramiro Costa na cidade de Recife e tambŽm
em Goyanna (atual Goiana-PE), nas duas primeiras dŽcadas do sŽculo XX.
Durante o vel—rio do seu filho, Eugenio de Almeida Costa,
morto aos 36 anos, compareceram Òassocia�›es religiosas, membros de associa�›es
ma�™nicas, alto comercio, funcion‡rios pœblicos estaduais e federaisÓ (A
prov’ncia, 09 de agosto de 1921). Talvez esse seja um bom resumo dos
espa�os ocupados pelo comerciante e da atua�‹o do Costa de c‡, durante as cinco
dŽcadas em que viveu na cidade do Recife.
E
eis que surge o poeta
Construir uma cartografia de editores,
impressores e livreiros das cidades do Porto e do Recife me levou a um encontro
inusitado com o poeta Leandro Gomes de Barros, encontro este que terminou por
me trazer de volta ˆs quest›es que me inquietavam, naquele ano de 2013: sobre os
Ònovos escritoresÓ que circulavam em feiras e exposi�›es, recebiam cach�s para
participarem de eventos culturais e acad�micos, chamados de verdadeiros agentes
culturais. Seguindo os passos de Ramiro da Costa, atravŽs dos jornais
dispon’veis na Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como
descrito anteriormente, eis que me deparo com a seguinte not’cia: ÒEnviado pelo
seu autor o sr. Leandro Gomes de Barros, recebemos ontem um exemplar de sua
edi�‹o de versos sobre ÔA Morte do dr. JosŽ MariannoÕ. Gratos.Ó (Jornal de
Recife, 20 de junho de 1912).
Leandro Gomes Barros, assim como o Ramiro
Moreira da Costa que comunicava ao Jornal as novidades que chegavam ˆ sua
livraria, tambŽm anunciava suas novas produ�›es. Em 16 de novembro de 1915, o mesmo
jornal noticia um opœsculo do poeta, tomando por tema a morte do D. Luiz
Raymundo da Silva Brito, arcebispo de Olinda. No dia 31 de maio de 1916, temos
a seguinte not’cia:
Um protesto
Veio ontem ao
nosso escrit—rio o sr. Leandro Gomes de Barros, autor de numerosos versos
populares, tais como ÒA vassourinhaÓ e tantos outros e declarou-nos protestar
contra o sistema de alguns indiv’duos venderem livros de versos com o seu nome.
Entre outros citou o nome do Sr. Sim‹o Francisco Marques, que assim procedeu no
Amazonas.
Protestos
semelhantes tambŽm foram feitos pelo poeta Gon�alves Dias, como comprovam os
estudos de Marisa Lajolo: o poeta se queixava na imprensa sobre a distribui�‹o
no Brasil de exemplares da edi�‹o de seus poemas intitulados ÒContosÓ,
publicados em 1857 pelo tipografo/editor alem‹o Brockhaus, pois o contrato com
a editora s— permitia a distribui�‹o do livro na Europa (LAJOLO, 2005).
A
participa�‹o de Leandro no mundo das editoras e livrarias n‹o se restringia ˆ
edi�‹o e venda de folhetos. ƒ poss’vel afirmar que ele administrava, com a
ajuda da filha Rachel, que assinava muitos dos seus folhetos como uma forma de
garantir a originalidade da c—pia, um completo sistema de produ�‹o e
comercializa�‹o. O poeta se inseria nas brechas do sistema (capitalista,
globalizado) que envolvia, alŽm da escrita, a edi�‹o, publica�‹o e venda de
livros; a participa�‹o nas redes de socializa�‹o da cidade de Recife e de outras
cidades; o envio de notas para os jornais e as viagens constantes ˆs cidades de
Juazeiro do Norte-CE, Para’ba e Rio Grande do Norte, alŽm de cidades do
interior dos estados de Pernambuco. A imagem do poeta popular com sua mala de
livros debaixo do bra�o, vendendo em feiras de pequenas cidades do sert‹o, n‹o
parece compor, por completo, a figura do Leandro Gomes de Barros que venho
tentando desenhar.
Em
23 de agosto de 1917, o poeta enviou ao jornal A prov’ncia o folheto ÒO
p‹o e a batataÓ. Essa primeira not’cia que encontrei me conduziu a uma sŽrie de
outras notas publicadas em jornais de Pernambuco e do Cear‡. No jornal O
rebate (Juazeiro do Norte), de 28 de novembro de 1909, publica o cordel ÒLucta
do diabo com Antonio SilvinoÓ. A partir dessa publica�‹o, localizei outros 6
poemas, todos publicados numa se�‹o intitulada Lyra Popular:
-
A crea�‹o do mundo, em 19 de dezembro de 1909;
-
As capas de uma viœva, em 16 de janeiro de 1910;
-
Ciume de duas noivas, em 23 de janeiro de 1910;
-
O padre de Joazeiro, em 06 de fevereiro de 1910;
-
A proclama�‹o dos banhos, em 20 de fevereiro de 1910;
-
As lagrimas de Antonio Silvino por Tempestade, em 6 de mar�o de 1910.
O
folheto ÒLucta do diabo com Antonio SilvinoÓ, publicado no jornal com um total
de 26 estrofes, est‡ dispon’vel na Cole�‹o Cordel, da Funda�‹o Casa de
Rui Barbosa, numa vers‹o com 40 estrofes. Nesse folheto tambŽm consta o poema
ÒVingan�a dÕum filhoÓ. Foi publicado ainda nessa cole�‹o o folheto ÒAs lagrimas
de Antonio Silvino por TempestadeÓ.
Sobre
o jornal O Rebate sabemos que foi impresso em Juazeiro do Norte-CE entre
os anos de 1909 e 1911, com edi�›es semanais, geralmente aos domingos. Fundado
pelo padre Joaquim de Alencar Peixoto, tambŽm diretor e redator-chefe do jornal,
tinha como prop—sitos contribuir para a autonomia pol’tica de Juazeiro, naquela
Žpoca subordinado ao Crato, e defender o Padre C’cero, um dos principais
motivadores e apoiadores do peri—dico. Assis Daniel Gomes analisa os poemas
publicados na se�‹o Lyra Popular, nos anos de 1909 e 1910, e enumera os
principais temas e poetas que ocuparam as p‡ginas do jornal (GOMES, 2013).
Leandro Gomes de Barros estava entre os primeiros, com 48% das cita�›es.
A publica�‹o do folheto ÒO padre de JoazeiroÓ,
em 06 de fevereiro de 1910, evidencia um tra�o do poeta que difere dos muitos
outros folhetos nos quais a defesa do clero jamais aparecia. Talvez como parte
das estratŽgias do poeta para se inserir na cultura letrada, o tom Ž bastante
ameno e h‡ mesmo uma defesa do padre contra todos que o acusavam de se
aproveitar da fŽ e devo�‹o dos pobres com fins pol’ticos:
No sert‹o do Cear‡
Apareceu um pastor
E qual outro Christo,
nosso
Ador‡vel Salvador,
ƒ um anjo de bondade
Enviado do Senhor.
ƒ um pastor exemplar
O padre do Joazeiro
D‹o-lhe esmola e d‡
esmola
E n‹o Ž interesseiro
Tudo que faz Ž de gra�a
N‹o aprecia dinheiro.
[...]
A uns quinze dias
passados
Disse-me um velho
romeiro
Que est‡ suspenso de
ordem
Por n‹o ser interesseiro
Os padres detestam elle
Por n‹o gostar de dinheiro.
[...]
Elle Ž desses que
detestam
A maldita corrup�‹o
Julga que a gra�a de
Deus
ƒ o verdadeiro p‹o
E o homem lucra tudo
Se ganhar a salva�‹o.
As
not’cias veiculadas nos peri—dicos chamam a aten�‹o para uma rede de
sociabilidade que coloca o poeta em contato com as chamadas elites intelectuais
da cidade de Recife e tambŽm do Juazeiro do Norte, alŽm de profissionais
liberais e comerciantes em geral. Vejamos os que dizem os estudos mais recentes
sobre a obra do poeta e sobre a literatura de folhetos do Nordeste.
Sobre o campo liter‡rio que envolve a literatura
de cordel, evidencio os estudos da pesquisadora Bruna Paiva de Lucena que vem
discutindo, desde a sua disserta�‹o de mestrado, defendida em 2010, esses
lugares de disputa. No seu livro PoŽticas a cŽu aberto: o cordel e a cr’tica
liter‡ria, Lucena (2018) tece cr’ticas ˆ Òconcep�‹o escriptoc�ntricaÓ da
literatura brasileira e a forma como a cr’tica liter‡ria, em especial as obras
de Silvio Romero, JosŽ Ver’ssimo, Afr‰nio Coutinho e Antonio Candido, lida com
a presen�a/aus�ncia das literaturas de tradi�‹o oral na vida cultural do pa’s.
Lucena
(2018), no cap’tulo I – Fora do Prumo, discorre ainda sobre as
estratŽgias de resist�ncia utilizadas pelos/as escritores/as Òno ‰mbito das
poŽticas perifŽricas e popularesÓ. Menciona, a partir dos questionamentos de
Judith Butler (posicionalidade estratŽgica) e James C. Scott (resist�ncia
cotidiana), formas de resist�ncia presentes nas pr‡ticas dos/as escritores/as
da literatura de cordel, que, para alguns setores do Òmeio eruditoÓ, podem
parecer formas de submiss‹o.
Acredito que as pr‡ticas de Leandro Gomes de
Barros, as estratŽgias utilizadas pelo poeta para conseguir Òviver de poesiaÓ,
n‹o adquiram esse car‡ter de submiss‹o, mesmo quando aparecem em meios eruditos.
O tr‰nsito entre os Òlocais da culturaÓ (BHABHA, 2005) por onde transitava
revela, talvez, muito mais uma inser�‹o pelas bordas, com a inten�‹o de fazer
parte do centro, do que uma submiss‹o, mesmo que estratŽgica. Leandro ocupa os
jornais, as livrarias, os locais de prest’gio, ao mesmo tempo que vende seus
folhetos nas feiras, viaja pelos interiores com sua mala e Òcompra brigaÓ na
rua com aqueles que vendem seus poemas por Òdebaixo do balc‹oÓ.
Um escritor que vive da venda de seus folhetos,
que circula por v‡rias cidades do Nordeste, que publica versos em um jornal de
Juazeiro do Norte-CE, n‹o parece se encaixar no perfil tra�ado por alguns
pesquisadores e repetido infinitas vezes nos estudos sobre a chamada poesia
popular. Vejamos a biografia presente no site da Funda�‹o Casa de Rui
Barbosa:
Sua atividade poŽtica o obriga a viajar
bastante por aqueles sert›es para divulgar e vender seus poemas e tal fato Ž
comentado por seus contempor‰neos, Jo‹o Martins de Ata’de e Francisco das
Chagas Baptista [...]. Foi um dos poucos poetas populares a viver unicamente de
suas hist—rias rimadas, que foram centenas. Leandro versejou sobre todos os
temas, sempre com muito senso de humor.[69]
Nascido
na cidade de Pombal-Parahyba, em 1865, mas criado atŽ os quinze anos na cidade
de Teixeira, Ž poss’vel afirmar que a forma�‹o de escritor passa pela m‹o de
padres da Igreja Cat—lica (era sobrinho do Padre Vicente Xavier de Farias), de
poetas/cantadores da cidade, como Francisco Romano, Germano da Lagoa e Silvino
Pirau‡, de frequentadores das livrarias, tipografias e reda�›es de jornais e do
mercado S‹o JosŽ, na cidade de Recife, sem falar nos trilhos do trem. Como
sabemos, a Rede Ferrovi‡ria do Nordeste (antiga Great Western of Brazil Ry)
unia os estados do Rio Grande do Norte, Para’ba, Pernambuco e Alagoas. Nesse
mapa est‹o interligadas as cidades de Recife, Fortaleza, Teresina e depois
BelŽm, que passou a ser um centro de produ�‹o e distribui�‹o de folhetos no
Brasil.
As andan�as de Leandro Gomes pelos sert›es
sempre aparecem nas notas biogr‡ficas. O que nunca aparece Ž a sua atua�‹o no
meio intelectual da cidade de Recife, o conv’vio entre os Òhomens de letrasÓ,
as conversas na Livraria Contemporanea, visitas ˆs bibliotecas e gabinetes de
leitura (disso n‹o tenho not’cia, mas quero poder imaginar que, de fato,
aconteciam).
ƒ poss’vel desenhar um mapa de percurso do poeta
na cidade do Recife: da rua 1¼ de Mar�o, onde se localizava a Livraria
Contemporanea, para o Mercado S‹o JosŽ eram 7 minutos a pŽ; o Gabinete
Portugu�s de Leitura ficava a 2 minutos da Livraria e a C‰mara Municipal, onde
funcionou a Biblioteca Provincial (no per’odo de 1875 a 1930), a 14 minutos,
com uma passagem pela ponte Santa Isabel, œltima ponte sobre o rio Capibaribe.
Leandro Gomes de Barros, que escrevia, imprimia
e vendia seus folhetos, tambŽm fazia suas performances nos mercados e esta�›es
de trem, conversava com intelectuais da cidade, pagava anœncios de suas
produ�›es nos jornais e denunciava Òalguns indiv’duos [por] venderem livros de
versos com o seu nomeÓ, como pudemos acompanhar nesse estudo. Ruth Terra
informa que o poeta vendia seus folhetos nas ruas de Recife, nos bares do largo
das Cinco Pontas, nas esta�›es de trem e dentro dos trens (TERRA, 1983). Essa
informa�‹o parece ter contaminado todas as outras a�›es do poeta, como se
vender folhetos na rua e nas esta�›es de trem o impossibilitasse de tambŽm
publicar seus versos em jornais e participar de ciclos de conversa e trocas de
experi�ncias de leitura em locais frequentados pela elite intelectual da
cidade. Um pœblico urbano, com pr‡ticas de sociabilidade que envolvem os
gabinetes de leitura, as bibliotecas, as livrarias, parece n‹o fazer parte da
hist—ria da literatura de cordel. E essa imagem vai se propagando nos v‡rios
estudos sobre o g�nero.
Por fim, retomo a discuss‹o sobre cartografias e
mapas na tentativa de imprimir mais alguns versos a essa narrativa. Para Harley
(1990), a cartografia nunca Ž apenas o desenho de mapas – ela Ž a
fabrica�‹o de mundos. E j‡ que eu posso fabricar mundos, mas n‹o sem muito
esfor�o e apoiada em alguma documenta�‹o, imagino um mundo separado por um
oceano, mas unido por poetas e cantadores, tip—grafos e homens de neg—cio.[70] Conversas na Livraria
Contemporanea, visitas aos jornais e tipografias, calorosos debates em pra�as
pœblicas. As trocas culturais, nesse mundo globalizado do sŽculo XIX, como
afirma Jean-Yves Mollier (2008), desafiam as fronteiras que n—s mesmos,
pesquisadores desse sŽculo XXI, insistimos em levantar. E se, no g�nero
editorial cordel, BelŽm fica bem mais perto de Recife do que a Parahyba, o
Porto fica logo ali.
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[Recebido:
29/12/2020 – Aceito: 29/12/2020]
ÒMovimento cultÓ do Rio de Janeiro e os discurso sobre o coco de Pernambuco
ÒMovimento cultÓ in Rio de Janeiro and discourses about
coco de Pernambuco
Genilson Leite da Silva [71]
https;//orcid.org/0000-0002-7098-7125
Bruno Rodolfo Martins [72]
https;//orcid.org/0000-0002-6480-3676
Resumo: Este artigo trata das tens›es, pr‡ticas, discursos, entre pessoas, lugares e disputas de narrativas, em torno do que Ž chamado genericamente de cultura popular. Como recorte, identificamos o circuito de rodas culturais existente na cidade do Rio de Janeiro – chamado aqui de ÒMovimento cultÓ – como express‹o t’pica dessas tens›es, e que, de alguma forma, reatualiza as rela�›es de poder j‡ demarcadas pelos folcloristas do pa’s desde o in’cio da Repœblica. Como exemplo, analisamos uma dessas tens›es relacionada ao Coco realizado nessas rodas, que fez emergir embates demarcados por quest›es de cultura, ra�a, origem nativa e tradi�‹o. Caracteriza-se por pesquisa etnogr‡fica e tem como procedimento de coleta de dados a netnografia e observa�‹o participante, como t‡ticas para dar conta das quest›es relacionadas ˆ contemporaneidade. A partir disso, identificou-se relatos de como esse Movimento reproduz o projeto colonial impl’cito das din‰micas pr—prias das elites dominantes diante dos grupos dominados. Por fim, transforma essa cultura popular em produto de consumo da elite para si pr—pria, em que se extingui, a cada dia, sua for�a pol’tica, seus aspectos de resist�ncia cultural e a participa�‹o de populares, visto o pre�o de mensalidade das aulas e dos ingressos para os shows, deixando seus criadores fora da roda.
Palavras-chaves: Movimento Cult; Rodas Culturais; Coco; Projeto colonial; Indœstria Cultural.
Abstract: This article deals with tensions, practices, discourses, between people, places and narrative disputes, around what is generically called popular culture. As an excerpt, we identified the circuit of cultural circles existing in the city of Rio de Janeiro - here called ÒMovimento CultÓ - as a typical expression of these tensions, and that, in some way, refreshes the power relations already demarcated by the country's folklorists since the beginning of the Republic. As an example, we analyzed one of these tensions related to Coco carried out on these wheels, which caused clashes deriving due to issues of culture, race, native origin and tradition. It is characterized by ethnographic research and its data collection procedure is netnography and participant observation, as tactics to deal with issues related to contemporaneity. Based on that, reports were identified of how this Movimento reproduces the colonial project implicit in the dynamics of dominant elites in the face of dominated groups. Finally, it transforms this popular culture into an elite consumer product for itself, where its political strength, its aspects of cultural resistance and the participation of the people are extinguished every day, given the price of tuition for classes and tickets for school. the shows, leaving their creators out of the roda.
Keywords: Movimento Cult; Cultural Rodas; Coco; Colonial project; Cultural Industry.
Reflex›es iniciais sobre ÒMovimento CultÓ e o circuito das rodas culturais
Ritualisticamente, alguns grupos ÒculturaisÓ se alternam em dias previamente marcados todos os meses do ano para a realiza�‹o de rodas em espa�os pœblicos: uns fazem rodas de Coco, outros de Jongo ou Samba de Roda, entre outros brinquedos populares. Ou, como dito em 2014, por um integrante de um desses grupos: Òfazemos tudo, mas, nossa especialidade Ž jongoÓ. Seus integrantes se conhecem e se revezam muitas vezes participando da roda de outros grupos, para ÒfortalecerÓ essa rede.
Para o pœblico desavisado, essas rodas s‹o express›es m‡ximas de uma suposta Òcultura brasileiraÓ que podem ser contempladas, apreciadas, participadas e em alguma medida, consumidas. S‹o oportunidades œnicas para se ter acesso a elas no modo delivery: Òsem sair de casaÓ. Nesse sentido, (1) sendo brinquedos populares locais da cidade ou do estado, n‹o seria preciso se deslocar para as periferias de onde s‹o nativas, nem ter contato com as comunidades locais e tradicionais que as praticam e mantŽm seus sentidos pol’ticos de resist�ncia cultural vivos; e (2) sendo brinquedos de outros estados, n‹o seria preciso viajar para poder ÒcurtirÓ, ÒcomentarÓ ou ÒcompartilharÓ.
A exist�ncia e a estrutura�‹o do ÒCircuito de Rodas CulturaisÓ pela cidade do Rio de Janeiro (e em algumas cidades pr—ximas), o que satiricamente chamamos aqui de ÒMovimento CultÓ, exemplifica algumas tens›es t’picas e hist—ricas fomentadas pela academia e por folcloristas pelo pa’s, diante das culturas populares, tradicionais, folcl—ricas, enfim, pelas culturas dos outros, das pessoas exclu’das e marginalizadas pelo sistema social vigente. Sobretudo, pela forma como se colocam habilitados a desenvolver/realizar pr‡ticas que fazem parte da mem—ria de um povo, apropriando-se do que foi/Ž ferramenta de resist�ncia e usando como simples atividade de lazer ou produto a ser vendido no mercado do ex—tico. Em alguma medida, traz elementos novos, em especial, as quest›es conjunturais, como as escassas pol’ticas pœblicas de editais, ou o que chamamos de ÒmodinhaÓ pelo que Ž popular e afro-ind’gena das regi›es Norte e Nordeste[73] do Brasil.
No in’cio dos anos 2000, surgem alguns grupos que poder’amos chamar de Òparafolcl—ricosÓ, considerados aqui como grupos que trabalham com propaga�‹o, divulga�‹o e/ou a comercializa�‹o das ditas manifesta�›es Òfolcl—ricasÓ ou Òcultura popularÓ brasileira. Esses grupos, ainda vale destacar, s‹o independentes de institui�›es, pois, apesar de terem estudantes universit‡rios, n‹o est‹o vinculados a nenhuma universidade.
Nesse sentido, Ž importante para esta an‡lise a exist�ncia da Cia Folcl—rica do Rio[74], vinculada ˆ Escola de Educa�‹o F’sica e Desportos – EEFD da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, em atua�‹o na cidade bem antes dos anos 2000, e que influenciou e influencia ainda a forma�‹o desses outros grupos, mesmo que indiretamente: uns seguindo o modelo de a�‹o da mesma, alguns outros se contrapondo ou se descobrindo nesse processo de constru�‹o de um coletivo. Mas algo em comum pode demonstrar uma certa unidade nesses grupos: a maioria de seus integrantes estudaram na UFRJ, e alguns, com mais �nfase, passaram pelos cursos da EEFD, tiveram contato com a Cia. (seja por aulas, eventos ou apresenta�›es), e outros compuseram durante algum tempo (ou ainda comp›em) o corpo da mesma.
Podemos supor que, antes dos anos 2000, a conjuntura n‹o favorecia a cria�‹o desse tipo de grupo parafolcl—rico independente; afinal, se desde a dŽcada de 1980 j‡ havia a Cia Folcl—rica, por que s— na virada do mil�nio haveria esse Ògosto pelo ex—ticoÓ e essa vontade de montar e compor um grupo? Em outro caminho mais contundente, por que a aus�ncia de gosto pelo ex—tico natural da regi‹o pr—pria do Sudeste? Seguimos com a provoca�‹o: cad� a Folia de Reis, Cl—vis, Bate-bolas, Mineiro-pau, Congada, Batuque de umbigada? N‹o, os universit‡rios do Sudeste nunca pensaram na extin�‹o dessas manifesta�›es pr—prias dos estados do Sudeste, discursos vazios e sem a�‹o efetiva e que s— servem as manifesta�›es do Norte ou Nordeste do pa’s, t’pico da academia para ter acesso direto ao objeto de pesquisa.
ƒ bem mais que um gosto do ex—tico ou uma preocupa�‹o com a suposta extin�‹o de um brinquedo popular qualquer. Trata-se, uma vez mais, como dizem Simas e Rufino (2020), do Òprojeto colonialÓ em curso, que preza a mortandade e todos os seus caminhos. Pensar que essas a�›es s‹o mortais n‹o Ž nenhum exagero. Os mesmos autores insistem na necessidade de ÒencantamentoÓ do mundo, no retorno aos modos de viver que se direcionam para a vida.
E, aqui, se trata da vida das popula�›es negra, ind’gena, perifŽrica, favelada, escolhidas para serem marginalizadas pelo sistema social que vivemos, e que sempre foi alvo desse ÒprojetoÓ, tanto no sentido do genoc’dio, como no sentido do Òsemioc’dioÓ, que silencia modos de comunicar, vis›es de mundo, linguagens e palavras, como diz SodrŽ (2005, p. 4). Mas essas culturas de que tanto se quer ÒvivenciarÓ s‹o produzidas por essas popula�›es, e sempre o fizeram enquanto t‡tica de resist�ncia, enquanto Òpol’tica de vidaÓ, em busca de manter o ÒencantamentoÓ do mundo e de si mesmas. Justamente, por essas e outras quest›es, Simas e Rufino (2020, p. 15) escrevem que Òo exterm’nio e a subalterniza�‹o secular de princ’pios comunit‡rios e de pr‡ticas rituais contr‡rias ao padr‹o dominante s‹o um dos componentes da pol’tica de mortandade e do desencantamento do mundoÓ.
N‹o basta(ria) a aprecia�‹o estŽtica do outro, tampouco a avalia�‹o etnoc�ntrica e arrogante de uma salvaguarda emergencial de um brinquedo igualmente avaliado como em perigo de deixar de existir, exigindo uma a�‹o supostamente consciente do Òpovo do sulÓ[75] em cuidar dessas manifesta�›es culturais afro-ind’genas do Norte e do Nordeste. E, aqui, esse ÒcuidadoÓ Ž nada menos que ocupar espa�os culturais, pol’ticos e pedag—gicos que devem/deveriam estar ocupados pelas popula�›es tradicionais que mant�m esses brinquedos de resist�ncia desde a cria�‹o dos mesmos.
A tese recorrente e que traduz essa situa�‹o Ž a premissa de que a cultura popular Ž do povo, logo, para qualquer pessoa se servir dela, desconsiderando as desigualdades sociais e raciais que estruturam a sociedade, permitindo o acesso, o estudo e, como vemos, a reprodu�‹o ˆ vontade e descompromissada com as autorias tradicionais por pessoas de classe mŽdia e com oportunidades de classe correspondentes; enquanto os agentes culturais de raiz continuam desfavorecidos – como antes, e agora, somando-se a tais concorr�ncias nas disputas por seus pr—prios lugares (usurpados) de direito.
Carlos
Brand‹o percorre uma linha similar e denuncia as desigualdades das rela�›es de
poder nessa expans‹o do popular, e v� como ÒenganoÓ a ideia de circularidades
proposta por pesquisadores como NŽstor Garc’a Canclini, Peter Burke ou Renato
Ortiz.
Em tempos em que convivemos com conceitos como culturas h’bridas, hibridiza�‹o de culturas ou circularidade de/entre culturas, um prov‡vel engano poderia ocorrer ao estabelecermos como uma panfolcloriza�‹o todo o complexo trabalho de cria�‹o cultural dos diferentes sujeitos e povos negros ao longo de nossa hist—ria, esquecendo que uma parte importante do que consideramos ÒeruditoÓ em nossas realiza�›es art’sticas mais diversas Ž tambŽm, e em boa medida, resultado do trabalho de suas m‹os e mentes (BRANDÌO, 2009, p. 725).
Para o autor, esse engano desconsidera a forma como a cultura popular Ž capturada pelas elites, que a ressignifica, e retiram seu pertencimento aos populares. Nesse processo, s‹o expropriadas pela elite, passando a receber um r—tulo de erudito ou cl‡ssico como forma de desvaloriza�‹o e desqualifica�‹o do popular. Entre os jarg›es que poderiam resumir essa quest‹o est‡ o que diz: Òa cultura negra Ž boa, desde que n‹o praticada por pessoas negrasÓ.
Waldenyr Caldas comenta sobre um processo de Òfetichiza�‹o da culturaÓ do outro e nos diz que
uma das formas de a classe dominante manter seu poder sobre as demais classes sociais Ž por meio da produ�‹o e do consumo da cultura diferenciados. Ela n‹o deve, segundo sua pr—pria ideologia de classe dominante, consumir os mesmos produtos das classes subalternas. E realmente n‹o os consome (CALDAS, 2008, p. 82).
N‹o Ž ˆ toa esse crescimento oportuno de grupos e de ocupa�›es de espa�os pœblicos, assim como a vontade de viver da/s cultura/s apresentada/s por seus componentes, e as adapta�›es realizadas pelos mesmos diante dos brinquedos para conseguir isso.
Continuamos enf‡ticos no tratamento dessa quest‹o: o circuito do ÒMovimento CultÓ vem ocasionando para as manifesta�›es tradicionais/culturais intensas transforma�›es que as descaracterizam e deformam suas pr‡ticas, n‹o s— por romper com seus processos ritual’sticos, mas por criar novos processos que buscam Òsofistic‡-lasÓ a ponto de descaracteriz‡-las. Vemos a imposi�‹o de uma estŽtica que expropria as pr‡ticas a ponto de criar grau de valor, em que se Ž legitimada pela uniformiza�‹o e n‹o pela capacidade de improvisa�‹o, criatividade, espontaneidade, individualidade, coletividade, cooperatividade ou pertencimento.
Afinal, para que Òsofistic‡-laÓ? Esse termo indica que essas culturas precisariam se tornar acess’veis ˆ sensibilidade das elites, e que seus produtores originais deveriam adaptar-se para que as mesmas sejam dignas de serem consumidas. Nesse sentido, o que trazemos para pauta Ž o reconhecimento de que o circuito do ÒMovimento CultÓ n‹o seria apenas um espa�o de manipula�‹o do popular, espa�o de uma vontade ing�nua e um desejo ut—pico, mas tambŽm um espa�o de comercializa�‹o da cultura.
Essa Òconcorr�nciaÓ, t’pica da estrutura comercial, se mostra ÒdeslealÓ, pois nivela agentes culturais que est‹o desigualmente posicionados na estrutura social, diante das disputas de editais e suas correspond�ncias burocr‡ticas, complexas para esses pr—prios universit‡rios, quanto mais para os grupos tradicionais que tiveram pouco acesso a um ensino de qualidade, ou ainda em condi�›es desfavor‡veis para se organizarem para tais empreitadas, ou mesmo estarem sujeitos a vulnerabilidade social. Proporcionalmente a isso, tambŽm surgem pessoas entre esses grupos parafolcl—ricos se autointitulando mestres e mestras dessa ou de outra tradi�‹o, ou de v‡rias(!).
Importa salientar que essa Òsofistica�‹oÓ est‡ a servi�o desse Òprojeto colonialÓ e de base capitalista que, logo, busca retirar dessas manifesta�›es seu poder libert‡rio e sua autonomia, com o intuito de manter os privilŽgios e as hierarquias sociais baseadas nas desigualdades de ra�a, cultura e origem produzidas pelos herdeiros da col™nia. Com isso, ÒelevarÓ as culturas populares ˆ categoria de eruditas est‡ mais relacionado com o processo de esfolia�‹o, que vem despir essas culturas de seu car‡ter pol’tico, eliminando assim qualquer possibilidade de emancipa�‹o e independ�ncia de seus produtores originais, transformando-a por fim em mero produto a ser consumido, domesticando-as.
Zezito de Araœjo demonstra que, para serem reconhecidas ou simplesmente apresentadas para a sociedade, essas culturas s‹o estigmatizadas e estereotipadas. Em termos gerais, destaca que
ao se folclorizar a cultura, folcloriza-se com ela, o
indiv’duo e o grupo racial. [Isso faz] parte de um mecanismo hist—rico de
produ�‹o do homem-espet‡culo ou espetaculoso, do ser ex—tico e leviano, e, como
tal incorporado ˆ dimens‹o n‹o-sŽria (ARAòJO, 2011, p. 4).
Transforma-se numa cultura sem valor, mas com pre�o. Algo que pode ser comprado, usado e descartado. Quando traduzimos isso para seus praticantes tradicionais, Ž a morte que se estabelece, seja simb—lica ou f’sica. N‹o seria uma preocupa�‹o urgente a vida dessas pessoas?
A reflex‹o pertinente de Michel Nicolau (2005, p.141-142) demonstra tr�s Òmodos de se matar a culturaÓ, e ambas se retroalimentam muitas vezes: um modo Ž ÒexotizarÓ a cultura, no qual se perde a heran�a, por n‹o conseguir se reproduzir; outro modo Ž ÒdesprezarÓ a cultura, provocando esquecimento e isolamento, devido a sua n‹o inclus‹o no sistema social; e uma outra Ž ÒpadronizarÓ, passando pela perda de identidade, se adequando ao sistema, mas perdendo suas caracter’sticas pr—prias de cria�‹o. Em suma, sob essa mesma l—gica, as culturas podem ser coisificadas e mortas, e as pessoas que a produzem, tambŽm.
Esse esc‡rnio ocorre na mesma din‰mica escancarada que tornou o mito da democracia racial como uma verdade tanto para negros, quanto para brancos. Muitas vezes, grupos e mestres populares, assim como povos e comunidades tradicionais, de forma paradoxal, s‹o em certo ponto ÒgratosÓ a esses praticantes que ÒlevantamÓ a bandeira da Òcultura popularÓ, n‹o a deixando acabar(!?).
O espet‡culo das ruas no caminho de uma indœstria cultural (?)
A busca por inser�‹o numa sociedade na qual tudo Ž espetacularizado, em que transforma�›es impostas de fora para dentro dessas tradi�›es culturais, em que as mesmas s‹o praticadas com outros prop—sitos por pessoas tambŽm de fora das tradi�›es, atribuindo valores alien’genas ˆs mesmas, se torna o fundamento desse tipo de Movimento.
Essa sociedade se torna um local onde o irreal assume o topo de uma hierarquia a servi�o de uma Òsociedade do espet‡culoÓ, onde o espelho reflete imagens turvas e essas imagens devem ser reproduzidas em grande escala (ADORNO, 2002). Problematizamos essa reprodu�‹o pelo fator da hierarquiza�‹o e as normas de conduta prŽ-determinada.
O fato de oferecer ao pœblico uma hierarquia de qualidades em sŽrie serve somente ˆ qualifica�‹o mais completa. Cada um deve-se portar, por assim dizer, espontaneamente, segundo o seu n’vel, determinado a priori por ’ndices estat’sticos, e dirigir-se ˆ categoria de produtos de massa que foi preparada para o seu tipo (ADORNO, 2002, p. 172).
Essa busca por uma padroniza�‹o (seja de uma dan�a, mœsica, figurinos etc.) nada mais Ž que uma tentativa de se encaixar como um produto aos olhos da indœstria cultural. Para alcan�ar tal status, perde-se e abre-se m‹o de pr‡ticas antigas, rituais, c—digos e identidades. Silencia-se as subjetividades, a criatividade, a espontaneidade e a capacidade de improvisa�‹o dos indiv’duos envolvidos. Cria-se um espa�o onde a tŽcnica Ž sistem‡tica, espa�o onde o improviso n‹o Ž permitido, e por fim, a diversidade tem um exemplar a seguir.
Fica n’tida a viol�ncia simb—lica, uma vez que os s’mbolos e c—digos de povos e comunidades tradicionais sucumbem diante dessas demandas; t�m a forma de viol�ncias psicol—gicas, uma vez que essas refer�ncias tradicionais, frente ˆs suas necessidades, veem suas pr‡ticas cotidianas gerando renda a terceiros, enquanto as mesmas sub-existem financeiramente.
A viol�ncia da sociedade industrial opera nos homens de uma vez por todas. Os produtos da indœstria cultural podem estar certos de serem jovialmente consumidos, mesmo em estado de distra�‹o. Mas cada um destes Ž um modelo do gigantesco mecanismo econ™mico que desde o in’cio mantŽm tudo sob press‹o, tanto no trabalho quanto no lazer que lhe Ž semelhante (ADORNO, 2002, p. 175).
Acreditamos na capacidade transformadora da cultura popular e reduzi-la a um produto nesse contexto Ž o mesmo que desvalorizar toda hist—ria de vida e resist�ncia de praticantes da mesma como matriz geradora; Ž transformar a cultura em algo descart‡vel como todo e qualquer produto desenvolvido atualmente pelo sistema capitalista, conforme a obsolesc�ncia programada.
O Coco dos cariocas (?)
Ater-se ˆs quest›es pura e simplesmente estŽtica Ž apenas mais uma forma de alienar os dominados para que esses n‹o percebam o que realmente ocorre. Seguindo uma linha reflexiva objetivada pelo Òprojeto colonialÓ, podemos observar que alguns aspectos que caracterizam as rodas e eventos de Coco do Rio de Janeiro apresentam ou buscam apresentar caracter’sticas que, de certa forma, tentam manter uma (suposta) estŽtica similar ao que ocorre no Nordeste. O que ao nosso olhar soa como uma estereotipa�‹o: uma constru�‹o de personagens que se fazem presentes no imagin‡rio do sudestino.
H‡ nesses movimentos, a din‰mica de trazer refer�ncias tradicionais (na pessoa de mestres e mestras, ou outras pessoas envolvidas com tradi�›es do Coco) para o Rio e promover com essas uma Òturn�Ó onde essas refer�ncias s‹o levadas a v‡rios lugares ou a grupos, para passar seus conhecimentos aos sudestinos aventureiros desbravadores da cultura, que colaboram com Òcontribui�›es simb—licasÓ, Òvolunt‡riasÓ ou ÒconscientesÓ, em que, depois de arcar com algumas despesas, tal montante dessas contribui�›es ser‡ entregue a essa refer�ncia mestra. Podemos questionar ainda por que o valor da aula ou oficina oferecida por essas refer�ncias, via de regra, Ž sempre um valor inferior ao pago pela pessoa participante? H‡ nessas pr‡ticas os resqu’cios do que Taussig (2010, p. 15) denomina de Òfetichismo da mercadoriaÓ, que para ele Òpode ser interpretado como o que transforma pessoas em coisas e coisas em pessoasÓ.
Avaliamos nesse sentido que, para alŽm da pr—pria cultura tradicional ser adaptada e servida como produto, as refer�ncias tradicionais s‹o tambŽm coisificadas, colocadas num contexto de presta�‹o de servi�os, perdendo poder de negocia�‹o, sendo intermediadas por terceiros, como que empres‡rios ou produtores de artistas de elite, que tomam para si boa parte do montante – sem, contudo, a premissa de um acordo que formalizasse isso. Mestres e mestras s‹o tratados quase como uma propriedade desse ou daquele grupo, que se coloca como intermedi‡rio entre outros grupos, pessoas interessadas e institui�›es com pot�ncia de realizar algum contrato.
Outra quest‹o que chama a nossa aten�‹o Ž a prepotente capacidade – ou seria t’pico exerc’cio de poder – desses grupos em legitimar qual nordestino pode ou n‹o falar sobre, ou questionar essa din‰mica. A exemplo disso, apresentamos a an‡lise de dados recolhidos nas redes sociais. Neles, observamos a tens‹o criada entre esses grupos parafolcl—ricos do Rio de Janeiro e um nordestino, que, de passagem pela cidade no ano de 2018, questiona as din‰micas e o modo do fazer Coco dos grupos cariocas.
Visamos captar essas tens›es como resultado da mercantiliza�‹o da cultura e como retrato do Òprojeto colonialÓ, atravŽs do processo de deslegitima�‹o ou desqualifica�‹o de seu discurso. Um t’pico exemplo que transforma as tradi�›es populares em ÒcoisaÓ produto, como tambŽm seus praticantes tradicionais – que podem atŽ ter voz, mas n‹o ser‹o escutados.
A partir desse recorte, observamos que os grupos do Rio de Janeiro foram taxativos em desqualificar o discurso desse nordestino pernambucano, Ednaldo, hoje assumindo o nome social Caetana da Silva devido ao processo de transi�‹o de g�nero a qual est‡ passando. Ela reivindicava quest›es relacionadas aos fundamentos presentes na estrutura e nos rituais existentes na manifesta�‹o. Acredita-se que essas reivindica�›es expressariam uma disputa de territ—rio e nicho de mercado, uma vez que a mesma era uma potente concorrente do grupo parafolcl—rico Zanzar[76], que ministra suas aulas e oficinas de Òcultura popularÓ no Circo Voador, ao lado da Fundi�‹o Progresso, local onde Caetana ministra suas oficinas de dan�as e ritmos pernambucanos.
Caetana se autolegitima atravŽs do discurso de ter viv�ncia com mestres e mestras de Coco e Maracatu de Pernambuco, alŽm de ser nativa do mesmo estado. Segundo ela, nos ÒeventosÓ dos grupos do Rio h‡ uma descaracteriza�‹o da manifesta�‹o no que diz respeito aos rituais, estrutura e fun�‹o. J‡ os grupos do Rio apontam um essencialismo na argumenta�‹o de Caetana, junto ao desejo de se autodenominar mestra e dona da cultura nordestina. Como em todas as tens›es, h‡ um pouco de verdade em cada um dos lados. Por um lado, vemos uma pessoa nordestina que vem para o Sudeste na esperan�a de sobreviver de apresenta�›es, aulas e oficinas de dan�a popular, porŽm a mesma fora alertada sobre a import‰ncia de ÒfecharÓ com esses grupos para poder transitar de forma harm™nica entre os mesmos e ainda Òfazer uma granaÓ. Por outro, temos os grupos ÒcriativosÓ que inventam movimentos, toques e rituais estranhos ao Coco, descaracterizando-o.
Os Cocos no Nordeste, mais precisamente de Pernambuco, mesmo ˆs vezes denominados Coco de roda, t�m uma estrutura aberta, na qual quem brinca Ž livre para transitar pelo espa�o e essa mesma liberdade Ž dada a tocadores, diluindo a rigidez de papel fixo para os mesmos. Outro aspecto importante na brincadeira Ž a falta de uma coreografia ou de movimentos Òmuito elaboradosÓ, o que estimula a criatividade dos brincantes, assim como tambŽm se torna algo mais convidativo e envolvente. A insistente batida dos pŽs no ch‹o, o trupŽ, dialoga com o ritmo dos tambores e nos remete a uma rela�‹o com a natureza e as ancestralidades afro-ind’gena. A dan�a Ž marcada por pisadas firmes no ch‹o que reverbera por todo o corpo que se posiciona projetado para terra como um tipo de rever�ncia e conex‹o com a terra.
J‡ no Rio de Janeiro, a manifesta�‹o acontece em um espa�o restrito com delimita�‹o do mesmo em formato de c’rculo e com casal solista. Observamos nessas rodas de Coco uma din‰mica de ÒcompraÓ semelhante ˆ da capoeira, na qual os participantes que pretendem substituir uma das pessoas no centro, ou o casal, precisa, ritualisticamente, saldar os instrumentos ou os tocadores, e posteriormente aquele a quem se deseja substituir. Os movimentos s‹o constru’dos tendo como influ�ncia os movimentos dos Cocos nortistas e nordestinos. Observa-se uma abordagem genŽrica dos gestos, uma vez que esses mesclam as diferentes express›es da manifesta�‹o existente no Norte e Nordeste.
Nos grupos do Rio, os movimentos s‹o amplos com grandes deslocamentos dentro do c’rculo, e percebe-se tambŽm uma coreografia complexa que exige grande habilidade de seus participantes, fatores esses que projetam na roda uma perspectiva de palco, onde o casal solista Ž protagonista de um espet‡culo e cada integrante tem um papel definido que pode ser revezado. Logo, a conex‹o com a terra, espiritualidades e ancestralidades afro-ind’genas passam a ser secund‡rias em rela�‹o ˆ quest‹o estŽtica ali posta, h‡ uma preocupa�‹o estŽtica sobre o melhor ÒfigurinoÓ, o melhor posicionamento dos bra�os, o melhor trupŽ, a performance atlŽtica. Os saltos e uma horizontalidade do corpo que desvirtuam a rela�‹o do contato e conex‹o com a terra, interferindo assim no fluxo de energia. H‡ tambŽm pouco di‡logo com o ritmo: n‹o se dan�a para e nem com a mœsica.
Os aspectos que distinguem uma manifesta�‹o da outra as colocam em rela�‹o de contraponto ou conflito entre ancestralidade e show, entre o encantamento e a performance atlŽtica, que se faz presente nos objetivos daqueles que os praticam. No Rio, a delimita�‹o espacial, a constru�‹o c�nica e a inclus‹o de roupas estereotipadas do tipo Òroupas de ir para rodaÓ, onde as mulheres vestem saias de chita, cada vez mais coloridas e rodadas e os homens ficam mais ˆ vontade denotam uma performance que sofre grandes influ�ncias das din‰micas vivenciadas nas aulas de outros estilos de dan�a e de teatro, extraindo das manifesta�›es populares, no caso do Coco, sua dimens‹o pol’tica e social em nome de um suposto resgate, que n‹o passa de um desservi�o. Um des-encantamento.
Considera�›es nem t‹o finais
O relato aqui apresentado foi constru’do a partir de observa�›es dos eventos nas rodas e de conversas e tens›es que se passaram nas redes sociais e de nossa experi�ncia enquanto pesquisadores, mas tambŽm como brincadores n‹o tradicionais preocupados com as tradi�›es e seus brincadores. Durante esse per’odo, percebemos o grande fluxo de pessoas que se interessam pelas culturas populares nordestinas e logo procuram desvirtuar suas potencialidades pol’ticas e sociais por interesse pr—prio ou por modinha. Criam grupos que disputam os poucos editais ofertados pelas Secretarias de Cultura, tomando na Òm‹o grandeÓ as poucas chances de grupos e mestres tradicionais em ter acesso a algum recurso que minimamente permitiria aos mesmos desfrutar de transporte e alimenta�‹o para participa�›es em eventos.
Durante esse per’odo de experi�ncia visitando mestres e grupos tradicionais, o que foi percebido aqui no Rio de Janeiro Ž que esses universit‡rios Òguardi›esÓ da Òcultura popularÓ raramente est‹o dispostos para as manifesta�›es do sudeste, exceto samba, carnaval e jongo; t‹o escassa quanto Ž sua disposi�‹o para se deslocar para regi›es mais distantes da cidade, como tambŽm ˆ Baixada Fluminense. Comumente, esses se limitam a percorrer o circuito de roda que tem sua varia�‹o entre o Centro do Rio e a Zona Portu‡ria (Lapa, Rua do Lavradio, Pra�a XV, Cais do Valongo, Largo da Prainha, Pedra do Sal, Pra�a Mau‡) e o subœrbio (limitado entre MŽier e Madureira), ou alguns eventos espor‡dicos em datas comemorativas como no caso da festa tradicional do Boi Brilho de Lucas, em Parada de Lucas, ou do Quilombo de S‹o JosŽ no Vale da Serra, em Valen�a, no interior do estado. Em rela�‹o a esses dois œltimos, o primeiro disponibiliza ™nibus saindo da Lapa para o transporte ida e volta, gratuitamente, para quem desejar ir para a festa, que Ž tambŽm espa�o de apresenta�‹o desses mesmos grupos. O segundo virou um evento anual que tem atŽ empresa de turismo oferecendo pacotes de viagem para aprecia�‹o da festa, onde esses grupos de universit‡rios se digladiam para fazer parte da festa com a finalidade de expor seu ÒtrabalhoÓ para a comunidade do ÒMovimento CultÓ e ganhar notoriedade que posteriormente render‡ alunos e apresenta�›es financiadas.
Para n—s, ficam ainda algumas quest›es renitentes: ser‡ que esse modelo de grupo parafolcl—rico serve ˆ resist�ncia cultural, enquanto colaboradores potentes dos grupos, mestres e mestras tradicionais, ou ser‹o aqueles que padronizam, folclorizam e enquadram as tradi�›es ˆs regras sociais dominantes, aos fetiches da elite, ao comŽrcio do ex—tico?
Seria mais c™modo a esses grupos se organizarem para ÒbrincarÓ, do que para apoiar grupos tradicionais? Ou seria, na verdade, mais conveniente?
Ou continuam se vangloriando de supostas influ�ncias salvacionistas que os mesmos estariam promovendo com suas a�›es (de pesquisa e montagem de espet‡culos[77]) entre os grupos tradicionais?
O circuito de rodas culturais do ÒMovimento CultÓ promove algum ÒencantamentoÓ, no sentido que Simas e Rufino (2020) indicam? Aplicam uma Òpol’tica de vidaÓ para, com ou pelos grupos tradicionais, ou participam construindo ainda mais invisibiliza�‹o, padroniza�‹o e morte, ocupando os lugares daqueles outros que as criaram e as mantiveram desde sempre?
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Dispon’vel em: https://www.eefd.ufrj.br/ciafolc/hist%C3%B3rico Acessado em: 27
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GRUPO ZANZAR. ÒSobre o Grupo zanzarÓ. 2020. Dispon’vel em:
https://web.facebook.com/notes/1499954830074166/ Acessado em: 31 dez. 2020.
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[Recebido: 31 dez 2020 – Aceito
:18 mar 2021]
Testemunhos da cat‡strofe:
mem—rias do trauma em Vozes de
Tchern—bbil
Catastrophy testimonies:
memories of trauma in Voices from
Chernobyl
Joyce Rodrigues Silva Gon�alves[78]
https://orcid.org/0000-0003-4643-1810
Resumo: Este artigo tem como objetivo
realizar uma breve an‡lise da obra de Svetlana AleksiŽvitch, Vozes de
Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, a partir da perspectiva
dos estudos memorial’sticos. O livro reœne relatos orais de pessoas que
vivenciaram, direta ou indiretamente, a maior cat‡strofe tecnol—gica do sŽculo
XX, ocorrida na usina de Tchern—bil, na ent‹o Uni‹o das Repœblicas Socialistas
SoviŽticas em abril de 1986. O g�nero testemunho permite que sejam ouvidas as
mem—rias traum‡ticas de pessoas comuns, como camponeses, residentes das aldeias
no entorno da usina nuclear, donas de casa, m‹es e pais de fam’lias, bem como
de profissionais ligados ˆ produ�‹o de energia em Tchern—bil, como engenheiros,
f’sicos nucleares, professores, bombeiros e militares soviŽticos.
Palavras-chave: Hist—ria; Oralidade;
Cat‡strofe; Testemunho; Tchern—bil.
Abstract:
This
article aims to conduct a brief analysis of the book of Svetlana AleksiŽvitch, Voices from Chernobyl: the oral history of a
nuclear disaster, from the perspective of memorialistic studies. The work
gathers accounts of oral speech from people who experienced, directly or
indirectly, the greatest technological catastrophe of the 20th century, that
occurred at the Chernobyl nuclear power plant, in the Union of Soviet Socialist
Republics, in April 1987. The testimony genre allows the memories of ordinary
people, such as peasants, residents of the villages around the nuclear power
plant, housewives, mothers and fathers of families, as well as professionals
related to energy production in Chernobyl, as engineers, nuclear physicists,
teachers, firefighters and Soviet military.
Key-words: History; Orality;
Catastrophe; Testimony; Chernobyl.
Escolhi o g�nero das vozes das pessoasÉ espreito e ausculto
meus livros nas ruas, atr‡s das janelas. Nelas, pessoas reais contam os
principais acontecimentos de seu tempo: a guerra, a queda do impŽrio
socialista, Tchern—bil, e todos eles conservam na palavra a hist—ria do pa’s, a
hist—ria comum. Tanto a antiga, como a mais recente. E cada um guarda a
hist—ria de seu pequeno destino humano.
Svetlana AleksiŽvitch, autora bielorrussa, se
dedicou ˆ escrita de testemunhos traum‡ticos, registrando em suas obras as
mem—rias de centenas de pessoas que vivenciaram as guerras e as demais
tragŽdias soviŽticas. AleksiŽvitch afirma, em seu discurso proferido na
Academia Sueca, Estocolmo, na ocasi‹o do recebimento do pr�mio Nobel de
literatura em 2015, que a mem—ria do povo soviŽtico Ž uma mem—ria sempre
traum‡tica, que a hist—ria da (s) na�‹o (›es) soviete (s) nunca foi tranquila,
e que a isso essas pessoas est‹o familiarizadas: ÒA mem—ria nos inspira. N—s
sempre vivemos no terror, somos capazes de viver no terror; Ž o nosso habitat.
E nisso, o nosso povo n‹o tem rivais...Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 227).
Na obra Hist—ria, Mem—ria, Literatura: o
testemunho na era das cat‡strofes, M‡rcio Seligmann-Silva (2003) avalia que
o sŽculo XX Ž considerado um per’odo catastr—fico, uma vez que ocorreram v‡rias
revolu�›es, duas guerras mundiais, tragŽdias humanas, pol’ticas e tecnol—gicas.
Em Cat‡strofe e representa�‹o, Seligmann-Silva e Nestrovski (2000)
reœnem ensaios que tecem considera�›es a prop—sito dos limites da linguagem, do
pensamento e da imagina�‹o na representa�‹o da cat‡strofe nas artes. A Žtica da
representa�‹o Ž um ponto crucial, principalmente na estŽtica da recep�‹o, uma
vez que a cr’tica das artes, e aqui privilegiamos a literatura, exerce seu
papel tambŽm em rela�‹o ˆs escritas de si, em que a voz narrativa se coloca em
primeira pessoa, como nos g�neros autobiogr‡ficos, memorial’sticos. A obra de
Svetlana AleksiŽvitch Ž constitu’da por testemunhos, em que os lembradores se
colocam a rememorar suas experi�ncias traum‡ticas. A despeito de esses sujeitos
n‹o escreverem suas pr—prias mem—rias, concederam entrevistas ˆ autora para que
ela o fizesse.
Embora a pequena cidade de Tchern—bil seja
localizada na Ucr‰nia, as consequ�ncias da explos‹o do reator nœmero quatro de
sua usina nuclear se estenderam por grande parte da Europa, particularmente e
de modo mais intenso pela Bielorrœssia, j‡ que a cidade se localiza muito
pr—ximo ˆ fronteira com esse pa’s. Os impactos do desastre na popula�‹o
vulner‡vel v‹o desde os danos f’sicos, psicol—gicos, sociais, atŽ o desamparo
dos direitos humanos, que foram, de modo geral, negligenciados.
Svetlana AleksiŽvitch utiliza em suas obras a
tŽcnica da metodologia oral, do discurso falado atravŽs dos testemunhos que
recolhe de pessoas comuns. Em Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do
desastre nuclear, os relatos nos permitem ter uma no�‹o do que essas
pessoas sentiram ao vivenciar tamanha tragŽdia e os impactos dela desde sua
deflagra�‹o atŽ os dias atuais, j‡ que a Òzona de exclus‹oÓ, extens‹o territorial
no entorno da usina, est‡ permanentemente condenada. ƒ sua Òterra envenenadaÓ.
Sendo a autora uma das pessoas atingidas pelo desastre de Tchern—bil, ainda que
indiretamente, no cap’tulo inicial da obra em an‡lise ela tece suas pr—prias
considera�›es acerca do que significou o incidente e como suas vidas foram
definitivamente mudadas a partir de ent‹o. A primeira rea�‹o foi um
emudecimento diante do fato tr‡gico: ÒEntre o momento em que aconteceu a
cat‡strofe e o momento em que come�aram a falar dela, houve uma pausa. Um
momento de mudez. E todos se lembram dele...Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p.
41).
O sil�ncio que se instaurou Ž perfeitamente
compreens’vel, considerando que em situa�›es traum‡ticas Ž normal que as
pessoas fiquem em estado de choque, que n‹o saibam nem mesmo como reagir.
Ademais, aquelas que, mesmo perplexas, poderiam vislumbrar alguma explica�‹o,
que poderiam de algum modo elaborar o trauma, n‹o encontravam meios para tal. A
ci�ncia, a literatura, a filosofia tambŽm n‹o as possibilitavam uma
sistematiza�‹o racional da cat‡strofe, o que explica o porqu�
[C]alaram-se os fil—sofos e escritores,
expulsos de seus canais habituais da cultura e da tradi�‹o. Naqueles primeiros
dias, era mais interessante conversar n‹o com cientistas, funcion‡rios ou
militares com muitas medalhas, e sim com os velhos camponeses. Gente que vivia
sem Tolst—i e DostoiŽviski, sem internet, mas cuja consci�ncia de algum modo
continha uma nova imagem de mundo. E ela n‹o se destruiu (ALEKSIƒVITCH, 2016,
p. 42).
Os camponeses, pessoas simples em sua maioria,
tambŽm n‹o sabiam ao certo o que havia ocorrido, mas o impacto em suas vidas
foi tamanho que alterou seus destinos. A maioria foi evacuada dois, tr�s dias
depois, umas e outras acabaram retornando ˆ revelia das orienta�›es do Estado.
Mesmo as que emigraram tiveram a saœde seriamente comprometida, fam’lias
destru’das, planos arruinados. ƒ esse o principal enfoque da obra de Svetlana:
ÒEu quero narrar a hist—ria de forma a n‹o perder de vista o destino de nenhum
homemÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 50).
Em Vozes
de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear, a autora privilegia
mem—rias que s‹o, simultaneamente, individuais e coletivas. Do ponto de vista
do coletivo, importa dizer que as reflex›es de Maurice Halbwachs (2004) em seu
livro A mem—ria coletiva contribu’ram
imensamente para a compreens‹o das quest›es sociais que comp›em a mem—ria. Para
o te—rico franc�s, a mem—ria aparentemente mais particular remete a um grupo. O
indiv’duo carrega em si a lembran�a, mas est‡ sempre em intera�‹o com a
sociedade, seus grupos e institui�›es. ƒ no contexto dessas rela�›es que nossas
lembran�as s‹o constru’das. Como na�‹o, o pensamento coletivo predominou
durante muito tempo entre os soviŽticos: Ò[M]as isso Ž tambŽm a imagem da
barb‡rie, essa falta de medo pela pr—pria vida. N—s sempre falamos Òn—sÓ e n‹o
ÒeuÓ: Òn—s mostraremos o hero’smo soviŽticoÓ, Òn—s revelaremos o car‡ter
soviŽticoÓ para o mundo todo! (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 333).
Do ponto de vista individual, Svetlana
AleksiŽvitch permite que hist—rias particulares sejam conhecidas, que sejam
contados destinos conduzidos pela cat‡strofe. O pensamento individual surge
mesmo nas amarras do coletivo: Ò[D]epois de Tchern—bil, sente-se isso. N—s
temos aprendido a dizer ÔeuÕ. Eu n‹o quero morrer! Eu tenho medo!Ó [Nat‡lia
Roslova, presidenta do Comit� Mulheres de Moguilov] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p.
334).
O primeiro dos relatos na obra de Svetlana Ž de
Liudmila Ign‡tienko, esposa gr‡vida de um dos primeiros bombeiros que foram
enviados ao reator para tentar apagar o inc�ndio ap—s a explos‹o. A mulher
descreve como tudo aconteceu e como se deram as duas semanas seguintes, em que
viu o esposo se esvanecer rapidamente em um hospital de Moscou em consequ�ncia
da s’ndrome aguda radiativa. A descri�‹o Ž chocante, carregada de horror. Ap—s
a morte do marido, a esposa encontra nos sonhos uma alternativa para
sobreviver, neles ela se encontra novamente com seu amado e com a filha que
nascera morta em raz‹o da radia�‹o a que esteve exposta enquanto acompanhava e
cuidava do homem. Liudmila confessa: ÒAssim vou vivendo. Vivo ao mesmo tempo
num mundo real e irreal. N‹o sei onde me sinto melhorÓ, e completa: ÒAs pessoas
n‹o querem ouvir falar da morte. Dos horrores [...] Mas eu falei do amor, como
eu ameiÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 37-38).
A fuga da realidade Ž bastante recorrente ao
longo do livro e se mostra de diversos modos. A pr—pria autora reconhece: ÒA
realidade resvala, n‹o cabe no homemÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 49). H‡ um relato
interessante que exemplifica esse resvalamento do real, em que a voz que
testemunha o desastre se coloca alŽm da realidade, que parece viver uma vida
imagin‡ria, surreal:
E eu me lembro do duende. Ele vive h‡ muito
tempo aqui comigo, n‹o sei exatamente onde, saiu do forno. De capuz preto e
roupa preta com bot›es brilhantes. N‹o tem corpo, mas se move. Durante um tempo
eu pensei que fosse meu marido que vinha me ver. Veja s—... Mas n‹o. ƒ um
duendezinho... Vivo sozinha e n‹o tenho com quem falar, de modo que ˆ noite eu
conto para mim mesma o dia que passou. [Maria Fed—tovna Vel’tchko, cantora
popular e contadora de hist—rias] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 210).
A alucina�‹o surge, nesse caso,
como consequ�ncia do trauma vivido e da solid‹o p—s-cat‡strofe. Ali‡s, muitas
pessoas vivenciaram/vivenciam a solid‹o p—s-Tchern—bil, pois v‡rias perderam suas fam’lias ou
acabaram se isolando de algum modo.
Ap—s o per’odo inicial em sil�ncio, os
atingidos pela cat‡strofe come�aram a retomar o fato e elaborar suas mem—rias
traum‡ticas. Mas, afinal,
[P]ara que as pessoas recordam? Para
restabelecer a verdade? A justi�a? Para se libertar e esquecer? Ou por que
compreendem que participaram de um evento grandioso? Por que buscam no passado
alguma prote�‹o? E, alŽm disso, a recorda�‹o Ž uma coisa muito fr‡gil, ef�mera,
n‹o Ž um conhecimento exato, Ž uma suposi�‹o do homem sobre si mesmo. Isso
ainda n‹o Ž conhecimento, Ž apenas sentimento. [...]. Para que as pessoas
recordam? ƒ a minha pergunta. Mas eu falei com voc�, pronunciei algumas
palavras. E compreendi alguma coisa... Agora n‹o sinto t‹o sozinho. Mas o que
acontece com os outros?Ó [Piotr S., psic—logo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 55-57).
O relato acima Ž bastante consciente da
dificuldade da assimila�‹o dos fatos; considerando-se que foi proferido por um
psic—logo, Ž perfeitamente compreens’vel. Mas, como a testemunha j‡ sinalizara
em sua fala, como as pessoas lidam com suas pr—prias lembran�as, de modo geral,
Ž algo problem‡tico a ponto de se questionarem: Ò[E]nt‹o, o que Ž melhor:
lembrar ou esquecer?Ó [Evgu�ni Aleks‡ndrovitch Br—vkin, professor da
Universidade Estatal de G—mel] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 131).
H‡ uma rela�‹o intr’nseca
entre lembran�a e esquecimento. O sujeito que rememora est‡ sempre colocando em
evid�ncia uma mem—ria selecionada, consciente ou inconscientemente, enquanto
recha�a outras partes das experi�ncias vividas. Quando o lembrador n‹o se d‡
conta desse movimento, Ž como se houvesse uma amnŽsia decorrente do trauma
vivenciado. O relato abaixo exemplifica essa falha da mem—ria, uma lacuna que
pode ser considerada em termos neurol—gicos e tambŽm
psicol—gicos/psicanal’ticos:
[E]u me esqueci de tudo. S— lembro que estive
ali, mas n‹o me recordo de mais nada. Eu me esqueci de tudo. No terceiro ano
depois da desmobiliza�‹o, aconteceu uma coisa na minha mem—ria... Nem os
mŽdicos entendem... N‹o consigo sequer contar dinheiro, me perco. Perambulo de
um hospital a outro... J‡ contei isso, ou n‹o? [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016,
p. 104).
Trauma e amnŽsia est‹o, portanto,
frequentemente e intimamente relacionados, assim como as Òlembran�as
encobridorasÓ, sinalizadas por Sigmund Freud et al. (1969) como uma forma de
escamotear mem—rias traum‡ticas ao se rememorar fatos mais triviais do passado.
Algumas pessoas tinham a no�‹o da contribui�‹o
que seria prestar seus testemunhos para a hist—ria oficial: Ò[L]embrar? Eu
quero e n‹o quero lembrar. Se os cientistas n‹o sabem nada, se os escritores
n‹o sabem nada, ent‹o os ajudaremos com a nossa vida e a nossa morteÓ [K‡tia
P.] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 147). Outras precisavam contribuir consigo mesmas:
ÒN‹o me pergunte. N‹o vou dizer. N‹o vou falar nada sobre isso... N‹o, eu posso
conversar com voc� para tentar entender, se for poss’velÓ [Nina Kovaliova,
esposa de um liquidador] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 269).
Por outro lado, houve aqueles que sentiam
necessidade de testemunhar suas experi�ncias traum‡ticas, como Nikolai Kalœguin
(ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 65): Ò[E]u quero testemunhar. Isso aconteceu h‡ dez
anos e todo dia se repete comigo. Agora mesmo. Carrego isso sempre comigo. N‹o
sou escritor, n‹o saberia como contar... Mas sou testemunhaÓ. Observamos nessa
fala que o trauma se repete na mem—ria, que n‹o foi elaborado nem superado. No
caso desse personagem, a fatalidade maior se concretizou na morte da filha,
motivo pelo qual o homem se revolta e reitera: Ò[E]u quero testemunhar, a minha
filha morreu por culpa de Tchern—bil. E ainda querem nos calarÓ (ALEKSIƒVITCH,
2016, p. 68). Percebemos nesse discurso que houve um silenciamento imposto
pelos respons‡veis pela tragŽdia e pelo pr—prio Estado, por isso a import‰ncia
da hist—ria oral para preencher as lacunas da hist—ria oficial.
Um motivo muito comum que leva alguŽm a
testemunhar sobre determinado acontecimento Ž a consci�ncia da finitude da
vida. Ë medida que o tempo passa, sente-se a necessidade de revelar algo
importante, principalmente quando se trata de um fato hist—rico, como Ž o caso
do acidente em quest‹o. Os documentos com registros sobre o desastre de
Tchern—bil foram destru’dos por v‡rias raz›es: primeiro porque,
burocraticamente, os papŽis oficiais na Uni‹o SoviŽtica s— eram arquivados
durante tr�s anos, depois porque eram radiativos, e, por œltimo, porque houve a
reestrutura�‹o do exŽrcito e a dissolu�‹o das unidades administrativas e
militares depois da Perestroika. PorŽm, alguns conjecturavam uma circunst‰ncia
muito plaus’vel: Ò[Ž] poss’vel que tenham sido destru’dos para que ninguŽm
soubesse a verdade. E n—s somos testemunhas. Mas em breve morreremosÓ [An™nimo]
(ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 117).
AlŽm da omiss‹o de documentos, houve tambŽm
omiss‹o de verdades. As autoridades diziam que estava tudo sob controle,
enquanto os habitantes de aldeias ao redor de Tchern—bil recebiam alt’ssimas
dosagens de radia�‹o. Algumas comunidades foram evacuadas, outras n‹o. Os camponeses
continuaram a cultivar, colher e consumir normalmente os alimentos que
plantavam. Muitos deles foram persuadidos a permanecerem em suas casas, pois
eram tambŽm m‹o de obra para o Estado.
N‹o apenas pessoas comuns, que viviam no campo
e em pequenas aldeias foram enganadas, tambŽm militares tiveram informa�›es
omitidas enquanto serviam ao Estado, alguns foram enviados para o trabalho em
Tchern—bil ap—s o acidente sem ao menos terem conhecimento disso, apenas foram
convocados e encaminhados. Um dos militares que testemunha na obra de Svetlana
afirma que n‹o os informavam sequer os valores das doses radiativas que estavam
recebendo durante o trabalho: Ò[o]s roentgen que nos tocavam eram segredo
militar. [...]. Nem sequer ao partirmos disseram quanto... Cachorros! Filhos da
putaÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 68). V‡rias denœncias da mesma natureza
s‹o encontradas ao longo das narrativas na obra em an‡lise.
Havia ainda controvŽrsias entre cientistas
sobre os riscos que corriam os militares em servi�o. Alguns afirmavam que n‹o
havia problema nenhum, outros alertavam para o mal que faria a exposi�‹o ˆ
radia�‹o. Uns acreditavam que estavam seguros, outros sabiam do perigo e das
prov‡veis consequ�ncias.
De fato, era plenamente compreens’vel que as
pessoas fossem facilmente ludibriadas pelas autoridades, e atŽ mesmo que n‹o
acreditassem, quando eram advertidas, no perigo a que estavam sujeitas com a
alta radia�‹o, uma vez que estavam lidando com um inimigo invis’vel:
A culpa Ž da radia�‹o ou de quem? Como ela Ž?
Vai ver, mostraram-na em algum filme. Voc� viu? Ela Ž branca ou o qu�? De que
cor? Uns contam que ela n‹o tem cor nem cheiro, outros contam que Ž negra. Como
a terra! Se n‹o tem cor, Ž como Deus: est‡ em todo lugar, mas ninguŽm v�.
Querem nos assustar. As ma�‹s est‹o penduradas nas ‡rvores e as folhas tambŽm,
as batatas est‹o crescendo no campo... O que eu penso Ž que n‹o houve nenhum
Tchern—bil, que inventaram isso tudo. Enganaram as pessoas [Anna Petr—vna
Bad‡ieva, residente na zona contaminada] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 83).
Podemos observar no trecho acima a descren�a
naquilo que n‹o Ž materializado, no que n‹o Ž visto a olhos nus, o que acentuou
o perigo das part’culas radiativas. Para a personagem, se a vida continua
seguindo seu curso normalmente, ent‹o n‹o houve cat‡strofe, est‡ tudo certo. Em
outro relato percebemos tambŽm essa necessidade de materializa�‹o do perigo.
Duas idosas garantem ter visto o monstro da radia�‹o:
Pois olhe: est‡ vendo aquela casa ali meio
constru’da? Os moradores a abandonaram e foram embora. Por medo. Uma noite
dessas fomos ver por dentro. Olhamos pela janela. E ali estava, debaixo de uma
viga, a radia�‹o. Com uma cara ruim e olhos de fogo! Negra, negra!
(ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 317).
Tal fala soa como uma alucina�‹o, uma neurose
traum‡tica, como descrita pela psican‡lise de Freud et al. (1969) em seu texto O
mecanismo ps’quico do esquecimento. Esse mesmo mecanismo pode ser observado
no caso do relato da mulher que v� um duende em casa. Enfim, cada um encontra
uma forma para conduzir suas experi�ncias traum‡ticas, seja para lembr‡-las ou
para esquec�-las, ainda que atravŽs de uma puls‹o de morte, que seria uma
solu�‹o e, para uns, atŽ mesmo uma b�n�‹o: Ò[D]e alguns Deus se apieda, mas a
mim ainda n‹o concedeu a morte. Continuo vivaÓ [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016,
p. 71).
A morte, ali‡s, Ž um tema predominante nos
relatos reunidos na obra de AleksiŽvitch e estava
presente entre indiv’duos de todas as faixas-et‡rias, inclusive os natimortos.
Como consequ�ncia do desastre aumentaram os ’ndices de abortos, tanto
espont‰neos quanto induzidos, e houve um grande desequil’brio entre as taxas de
natalidade e mortalidade na regi‹o no per’odo p—s-cat‡strofe.
Alguns soldados que estiveram nas guerras em
que a Uni‹o das Repœblicas Socialistas SoviŽticas lutou afirmam que a tragŽdia
de Tchern—bil se equipara ˆ situa�‹o bŽlica. Ë medida que as pessoas iam
morrendo em decorr�ncia de doen�as desencadeadas pela radiatividade, os
enfermos j‡ imaginavam seus momentos finais: Ò[N]‹o est‡ claro como vou morrer.
Se eu pudesse escolher a minha morte, seria uma morte comum. N‹o como as de
Tchern—bil. A œnica coisa que sei Ž que com o meu diagn—stico n‹o se dura
muito. [...]. Estive no Afeganist‹o. Ali a coisa era mais f‡cil. Com uma
bala... [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 120).
A imin�ncia da morte pairava sobre todo o povo
de Tchern—bil, atŽ mesmo as crian�as tinham consci�ncia disso. Uma das
testemunhas relata uma cena que presenciou em um ™nibus, em que um menino n‹o
cedeu seu lugar a um idoso, que o repreendeu dizendo: ÒÔQuando voc� for velho,
tambŽm n‹o v‹o te ceder o lugarÕ. ÔEu nunca vou ficar velhoÕ, respondeu o
menino. ÔE por qu�?Õ. ÔTodos n—s vamos morrer logoÕÓ [L’lia Kuzmenkova,
professora] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 299).
Um dos cap’tulos finais de Vozes de Tchern—bil Ž dedicado ao coro de crian�as e adolescentes
que a autora entrevistou em um hospital, e os relatos s‹o profundamente
tristes, tr‡gicos. Um adolescente conta como v‡rios de seus amigos e colegas de
tratamento j‡ se foram e se mostra resignado com a morte iminente:
Mas como me aborrecem essas paredes cinza do
hospital. Como estou fraco ainda. [...]. E a minha chega. Ontem ela (a m‹e)
pendurou um ’cone na enfermaria. Cochicha alguma coisa naquele canto, se p›e de
joelhos. Todos se calam: professores, mŽdicos, enfermeiras. Acham que eu n‹o
suspeito de nada. Que n‹o sei que vou morrer em breve (ALEKSIƒVITCH, 2016, p.
348-349).
Em v‡rios dos testemunhos orais podemos
observar a perspectiva infantil da morte, como uma crian�a que sabia que o av™
estava morrendo e queria ver como Ž que sua alma sairia voando. As brincadeiras
frequentemente giravam em torno da cat‡strofe da usina: Ò[E]u tenho um
irm‹ozinho pequeno. Ele adora brincar de Tchern—bil. Constr—i um abrigo, cobre
de areia o reator. Ou ent‹o se veste de espantalho e corre atr‡s de todo mundo:
Uh-uh-uh! Eu sou a radia�‹o!Ó ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 348). Na escola desenhavam
a Tchern—bil submersa no caos do acidente nuclear, ainda que pouco ou nada
fosse dito sobre a quest‹o. O sil�ncio sobre a cat‡strofe nas escolas era uma
realidade, uma vez que havia falta de informa�›es para repasse, censura do
Estado e atŽ mesmo um bloqueio psicol—gico que impedia que as pessoas em
Tchern—bil conversassem entre si sobre o desastre. Geralmente falavam sobre o
fato com estrangeiros, jornalistas e parentes que n‹o residiam na zona
contaminada.
As mem—rias de crian�as s‹o realmente
impactantes, das mais singelas ˆs mais tr‡gicas e desoladoras. Viam tudo que
possu’am ser enterrado em grandes buracos, suas casas com todos os seus
pertences, livros, brinquedos:
[E]enterram tudo com areia e barro e comprimem.
No lugar da aldeia fica um campo liso. A nossa casa est‡ enterrada l‡. E a
escola, o soviete local. E tambŽm o meu herb‡rio e dois ‡lbuns de selos, que eu
sonhava em buscar. Eu tinha uma bicicleta. Tinham acabado de comprar para mim
(ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 346).
O desastre significou uma guerra at™mica, desde
a movimenta�‹o de pessoas na regi‹o atŽ a luta pela vida. Alguns utilizavam a
express‹o Òcampo de concentra�‹oÓ, Òcampo de Tchern—bilÓ para se referirem ao
territ—rio contaminado pelos elementos qu’micos radiativos. Ò[...] hoje a
guerra Ž outra. No dia 26 de abril de 1986, n—s sobrevivemos a uma guerra. Uma
guerra que n‹o terminouÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 120). Os militares e todos os
que serviram em Tchern—bil foram considerados por muitos como her—is:
Eu os considero her—is, e n‹o v’timas de
guerra, de uma guerra que Ž como se n‹o tivesse acontecido. Chamam de acidente,
de cat‡strofe. Mas foi uma guerra. AtŽ os nossos monumentos de Tchern—bil
parecem militares [Serguei Vass’lievitch S—boliev, diretor da Associa�‹o
Republicana Escudo para Tchern—bil] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 222).
Assim como acontece em um cen‡rio
de guerra, as pessoas serviam, muitas voluntariamente, outras por press‹o.
Contudo, n‹o recusavam a miss‹o, atŽ mesmo cientistas se dispuseram ao trabalho
bra�al, como conta uma testemunha ˆ Svetlana:
[S]ou engenheiro qu’mico, doutor em ci�ncias
qu’micas, e me obrigaram a abandonar o emprego de respons‡vel por um
laborat—rio qu’mico num importante complexo industrial. E como me utilizaram?
P›em nas minhas m‹os uma p‡. Esse foi praticamente o meu œnico instrumento. Foi
aqui que nasceu o aforismo: contra o ‡tomo, a p‡ [Ivan Jm’khov] (ALEKSIƒVITCH,
2016, p. 247).
Aqueles que sobreviveram ˆ cat‡strofe tiveram
que lidar, como se n‹o bastasse o trauma imensur‡vel do desastre e as condutas
de guerra, com o preconceito e a discrimina�‹o. Ò[A]s pessoas t�m medo de n—s.
Dizem que somos contagiosos. Por que Deus nos castigou?Ó [An™nima]
(ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 74). O fato de terem sido altamente expostos ˆ radia�‹o
os tornou um povo t—xico:
Pod’amos ter ido embora daqui mas considerei
com meu marido e decidimos ficar. Temos medo das outras pessoas. Aqui ao menos
s‹o todos de Tchern—bil. N‹o assustamos um ao outro; se alguŽm oferece ma�‹s ou
pepinos do seu jardim, da sua horta, n—s pegamos e comemos. N‹o escondemos os
alimentos com vergonha no bolso para depois jog‡-los fora. Todos n—s temos a
mesma lembran�a, a mesma sorte. Em qualquer outro lugar, em qualquer parte n—s
somos estranhos. Apestados. Olham para a gente de rabo de olho. Com receio. As
pessoas nos chamam Ògente de Tchern—bilÓ, Òcrian�as de Tchern—bilÓ, Òevacuados
de Tchern—bilÓ. J‡ estamos acostumados [NadiŽjda Burakova, habitante do povoado
urbano de J—iniki] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 290).
Podemos observar no relato supracitado que os
danos foram muito alŽm de f’sicos, psicol—gicos e materiais, mas tambŽm foram
morais, afetaram a vida humana, social, e atŽ ’ntima. Sabendo da impot�ncia
sexual masculina como uma das sequelas da alta radia�‹o, um jornalista tentou
tratar do assunto com alguns militares que atuaram no acidente; entretanto,
nenhum deles se abriu para falar sobre a quest‹o; conseguiu somente
confid�ncias de algumas mulheres que os conheciam:
[O]lhe, agora mesmo estavam sentados aqui com
voc�s uns rapazes (elas riem), pilotos. Uns caras de dois metros. Cheios de
medalhas. Para os sovietes eles s‹o bons, mas para a cama n‹o prestam [Serguei
Vass’lievitch S—boliev, diretor da Associa�‹o Republicana Escudo para
Tchern—bil] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 222).
O fantasma da consequ�ncia ’ntima, sexual,
cercava os homens que trabalharam diretamente no acidente nuclear, pois as
mulheres, tendo conhecimento disso, n‹o desejavam se unir a eles para namorar
nem casar:
[G]ostei de uma garota: ÒVamos namorar?Ó. ÒPara
qu�? Voc� agora Ž um dos de Tchern—bil. Quem vai querer casar com voc�?Ó.
Conheci outra garota. Nos beijamos, namoramos. A coisa estava ficando sŽria.
ÒVamos nos casarÓ, eu propus. E ela me perguntou algo mais ou menos assim:
ÒSer‡ que voc� pode? Est‡ em condi�›es?Ó. Eu iria embora daqui, e certamente
ainda vou. Mas tenho pena dos meus pais... [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p.
115).
Tchern—bil passou a ser considerada como
doen�a:
[U]m dia, morreu inesperadamente uma jovem
gr‡vida. Sem diagn—stico algum, nem sequer o patologista deu o diagn—stico. Uma
menina se enforcou. Do quinto ano. Assim, sem mais nem menos. Os pais ficaram
loucos. O diagn—stico era o mesmo para todos: Tchern—bil, quando acontecia
algo, todos diziam: Tchern—bil... [Nina Konstant’novna, fil—loga, professora]
(ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 165).
AlŽm de diagn—stico mŽdico, Tchern—bil passou a
servir tambŽm como justificativa para os problemas da na�‹o, assim como as
guerras. A cat‡strofe trouxe novamente as medidas extremas por parte do
governo, redistribui�‹o e racionamento: Ò[a]gora surgia a possibilidade de
jogar tudo na conta de Tchern—bil. ÔSe n‹o fosse Tchern—bil...ÕÓ (ALEKSIƒVITCH,
2016, p. 335).
A cat‡strofe criou um povo, surgiu um novo
grupo: Ò[o] mundo se dividiu: h‡ os de Tchern—bil, n—s; e h‡ voc�s. O resto dos
homensÓ [Nikolai J‡rkovi, professor] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 172).
A metodologia de coleta de informa�›es e
testemunhos utilizada por Svetlana AleksiŽvitch proporciona a exposi�‹o de
v‡rios casos, crendices e supersti�›es, o que Ž comum na hist—ria oral. Essas
vozes reunidas formam um ÒcoroÓ, como denominado pela pr—pria autora em alguns
cap’tulos do livro. Muitas ressoam a religi‹o e a fŽ, um suporte comum e
efetivo para a sobreviv�ncia daqueles que recorrem ˆ cren�a e se apegam a ela.
O humor, apesar de contradit—rio, ˆs vezes, se
tornava tambŽm um modo de escapismo, uma espŽcie de fuga da realidade cruel em
que Òo povo de Tchern—bilÓ estava inserido. H‡ certo estranhamento quando
refletimos sobre um fato tr‡gico ser ou n‹o ris’vel, mas anedotas eram comuns
entre a popula�‹o da regi‹o. H‡ um epis—dio c™mico que exemplifica a
possibilidade de Òrir para n‹o chorarÓ:
[C]hora quem n‹o labora... Veja uma ucraniana
que vende no mercado umas ma�‹s grandes e vermelhas. Ela grita: ÒComprem ma�‹s!
Ma�‹s de Tchern—bil!Ó. AlguŽm a aconselhou: ÒN‹o diga, mo�a, que Ž de
Tchern—bil. Assim ninguŽm vai comprarÓ. ÒQue nada! Compram sim, e como! Uns
levam para a sogra, outros para o chefeÓ [An™nima] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 78).
Ao mesmo tempo, as pessoas enxergavam a beleza
e o horror que as rodeava. As terras soviŽticas no entorno de Tchern—bil s‹o
descritas no livro como paisagens belas: Ò[E] essa mesma beleza era o que fazia
daquele horror algo ainda mais pavoroso. O homem tinha que abandonar aqueles
lugaresÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 136). Alguns dos testemunhos registrados pela
autora lamentam que as pessoas n‹o puderam mais desfrutar dos prazeres
cotidianos, como nadar nas ‡guas l’mpidas de seus rios, ou colher flores e
frutos dos seus bosques.
O que percebemos nos registros de Svetlana
AleksiŽvitch Ž que houve muita neglig�ncia e desordem por parte das autoridades
e dos respons‡veis pela condu�‹o do caso: Ò[N]‹o escreva sobre as maravilhas do
hero’smo soviŽtico. TambŽm houve, Ž verdade. Mas primeiro voc� deve falar da
neglig�ncia e da desordem, depois das proezasÓ [An™nimo] (ALEKSIƒVITCH, 2016,
p. 111), e que, apesar da disposi�‹o ao sacrif’cio que o povo demonstrou, o
descaso do governo Ž o que tiveram em troca:
[S]omos pobres, sobrevivemos de donativos. O
comportamento do Estado, por outro lado, Ž de pura vigarice, abandonou essa
gente por completo. Depois que morrem, inscrever‹o o nome delas em ruas,
escolas ou alguma unidade militar, mas s— depois que morrerem (ALEKSIƒVITCH,
2016, p. 216).
[E] nas sess›es da comiss‹o governamental,
informava-se de maneira simples e habitual que: Òpara tal coisa deve-se perder
duas ou tr�s vidas; para outra, uma vidaÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 220).
Nem mesmo ˆ beira da morte era comum o
arrependimento por ter servido a p‡tria em Tchern—bil: Ò[U]ma vez eu lhe
perguntei: ÔVoc� agora se arrepende de ter ido?Õ. E ele moveu a cabe�a,
dizendo: Ôn‹oÕÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 359).
A censura era uma constante em rela�‹o ao
acidente nuclear. Jornalistas, cinegrafistas, fot—grafos eram recha�ados
durante sua atua�‹o, tinham seus instrumentos de trabalho confiscados: Ò[E]ra
proibido filmar a tragŽdia, s— se podia filmar o hero’smo!Ó (ALEKSIƒVITCH,
2016, p. 219). Assim como todas as inst‰ncias
sociais eram controladas pelo governo, tambŽm a medicina e outras ci�ncias eram
submissas ˆ pol’tica, por isso geralmente se omitiam as informa�›es mais
pol�micas e a verdade sobre os ’ndices de radiatividade na regi‹o.
Mesmo em meio ˆ cat‡strofe, a cultura de
privilŽgios continuava reinando. Um relato de Vozes de Tchern—bil denuncia um caso de desamparo de uns em favor
de outros, que tinham prioridade por serem ricos:
[V]�m ˆ minha mem—ria alguns fragmentos. Cenas.
Um presidente de colcoz retira em dois caminh›es todas as suas coisas, a sua
fam’lia, os m—veis; e o respons‡vel do Partido exige um carro para eles. Exige
justi�a. Eu sou testemunha de que por v‡rios dias n‹o conseguiam sequer retirar
de l‡ as crian�as da creche. N‹o havia transporte (ALEKSIƒVITCH, 2016, p.
159-160).
Houve em torno do desastre nuclear muitos
mitos. As consequ�ncias da tragŽdia eram difundidas entre as pessoas locais e
as que n‹o residiam na regi‹o. O imagin‡rio Ž sempre um espa�o fŽrtil, e,
diante de um fato como esse, a mitologia passou a fazer parte do cotidiano
popular:
[O]s jornais e as revistas competem entre si
para ver quem escreve as coisas mais terr’veis, e esses horrores agradam,
sobretudo ˆqueles que n‹o os viveram. Todo mundo leu algo sobre os cogumelos do
tamanho de uma cabe�a humana, mas ninguŽm os encontrou. Como os p‡ssaros de
duas cabe�as (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 173).
Mitologias ˆ parte, mudan�as de fato
aconteceram tanto na paisagem, quanto no car‡ter nacional:
[N]‹o apenas a paisagem mudou, pois onde antes
se estendiam campos, cresceram novamente bosques e arbustos, mas tambŽm o
car‡ter nacional mudou. Todos est‹o depressivos. O sentimento Ž de estarem
irremediavelmente condenados. Para uns, Tchern—bil Ž uma met‡fora, um s’mbolo.
Para n—s, Ž a nossa vida. Simplesmente a vida (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 291).
A cat‡strofe de Tchern—bil gerou um trauma mais
amplo, alŽm dos aspectos f’sicos, psicol—gicos e sociais, surgiu um trauma da
cultura:
Por que se escreve t‹o pouco sobre Tchern—bil?
Os nossos escritores continuam a escrever sobre a guerra, sobre os campos de
trabalho stalinistas, mas calam sobre Tchern—bil. H‡ um, dois livros e
acabou-se. Voc� acha que Ž mera casualidade? O acontecimento ainda est‡ ˆ
margem da cultura. ƒ um trauma da cultura. E a œnica resposta Ž o sil�ncio.
Fechamos os olhos como crian�as pequenas e acreditamos que assim nos
escondemos, que o horror n‹o nos alcan�ar‡ [Evgu�ni Br—vkin, professor
universit‡rio] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 130).
Como j‡ sinalizado por Svetlana em seu discurso
na Academia sueca na cerim™nia do pr�mio Nobel de literatura, a cultura da
tragŽdia Ž inerente ao povo soviŽtico. Outro relato de uma testemunha tambŽm
chama a aten�‹o para a quest‹o quando reflete Ò[s]obre o destino da cultura
russa, sobre a sua inclina�‹o para o tr‡gico. Sem a sombra da morte, n‹o se
podia entender nada. S— sobre a base da cultura russa seria poss’vel entender a
cat‡strofe. S— a nossa cultura estava preparada para entende-laÓ (ALEKSIƒVITCH,
2016, p. 296).
Embora o povo soviŽtico estivesse sempre
acostumado ˆ cultura da tragŽdia, houve um estado de choque decorrente do
desastre de Tchern—bil, uma impot�ncia coletiva diante do trauma: Ò[M]e
incomoda a minha experi�ncia como professora. [...] Eu me sinto impotente. H‡
cultura antes de Tchern—bil, e nenhuma cultura depois de Tchern—bil. [...] onde
est‹o os nossos escritores, os nossos fil—sofos?Ó (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 283).
Quando lidamos com testemunhos de viol�ncia,
com lembran�as traum‡ticas, Ž comum nos depararmos com o discurso do indiz’vel.
Faltavam palavras para descrever as experi�ncias, a l’ngua n‹o d‡ conta de
traduzir a mem—ria, como afirma Giorgio Agamben sobre a tragŽdia da Segunda
Guerra Mundial e o Holocausto. Em sua obra O
que resta de Auschwitz, Agamben (2008, p. 11)
observa as dificuldades dos testemunhos de guerra em que Òtrata-se de narrar Ôo
que aconteceuÕ e de afirmar que Ôo que aconteceuÕ n‹o faz parte do narr‡velÓ. Algumas
testemunhas encontram outras formas de express‹o quando o discurso n‹o Ž
poss’vel ou suficiente: Ò[P]or que me tornei fot—grafo? Porque me faltam as
palavrasÓ (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 298).
Apesar das experi�ncias do horror e do trauma,
houve um aprendizado da humanidade depois do desastre. Na concep�‹o de uma
testemunha entrevistada por Svetlana AleksiŽvitch: Ò[N]‹o s— n—s, mas toda a
humanidade se tornou mais s‡bia depois de Tchern—bil. Amadureceu, entrou em
outra idadeÓ [Guen‡di Gruchev—i, deputado bielorrusso] (ALEKSIƒVITCH, 2016, p.
185).
As pessoas, geralmente, passam a refletir mais
sobre sua exist�ncia quando ocorrem desastres como em Tchern—bil. ƒ poss’vel
reconhecer em situa�›es extremas a efemeridade da vida e a import‰ncia do
registro dos fatos hist—ricos, pois esses normalmente se consolidam como
verdades do mundo e entram para a Hist—ria oficial, como exemplifica o excerto
abaixo:
[E]u sonhava! Lamentava n‹o estar l‡ em 1917 ou
em 1941. Hoje penso de outra forma: eu n‹o quero viver a hist—ria, no tempo
hist—rico. A minha pequena vida ficaria imediatamente sem defesa. Os grandes
acontecimentos a esmagariam sem sequer not‡-la. Sem se deter. Depois de n—s,
restar‡ apenas a hist—ria. Restar‡ Tchern—bil. E onde est‡ a minha vida? O meu
amor? (ALEKSIƒVITCH, 2016, p. 270).
Apesar da consci�ncia da finitude de suas vidas
an™nimas, alguns se apegam ˆ cren�a na hist—ria, de modo que esperam a justi�a
com o passar do tempo: Ò[E]u creio na hist—ria. No julgamento da hist—ria.
Tchern—bil n‹o terminou, apenas come�aÓ [Vass’li NesterŽnko, ex-diretor do
Instituto de Energia Nuclear da Academia de Ci�ncias da Belarœs] (ALEKSIƒVITCH,
2016, p. 328).
As imagens apocal’pticas de Tchern—bil s‹o como
uma vers‹o tecnol—gica de fim do mundo. N‹o obstante, Svetlana AleksiŽvitch
pondera sobre a possibilidade de incidentes catastr—ficos como esse se
repetirem:
Antes de tudo, em Tchern—bil se recorda a vida
Òdepois de tudoÓ: objetos sem o homem, paisagem sem o homem. Estradas para
lugar nenhum, cabos para parte alguma. Voc� se pergunta o que Ž isso: passado ou
futuro? Algumas vezes parece que estou escrevendo o futuro (ALEKSIƒVITCH, 2016,
p. 51).
Podemos concluir que a contribui�‹o da tŽcnica
de coleta de testemunhos orais Ž fundamental para preencher as lacunas da
hist—ria oficial, que frequentemente n‹o privilegia alguns discursos populares
importantes. A tentativa de silenciamento e exclus‹o das vozes que denunciam os
horrores e as injusti�as de uma na�‹o encontra resist�ncia quando esses
sujeitos marginalizados social e culturalmente encontram um lugar de fala como
o que oferece a obra de Svetlana AleksiŽvitch.
Refer�ncias
AGAMBEN,
Giorgio. O que resta de Auschwitz.
Trad. Selvino J. Assmann. S‹o Paulo: Boitempo, 2008.
ALEKSIƒVITCH,
Svetlana. Vozes de Tchern—bil: a hist—ria oral do desastre nuclear.
Trad. Sonia Branco. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 2016.
FREUD,
Sigmund; STRACHEY, James; FREUD, Anna, STRACHEY, Alix; TYSON, Alan; SALOMÌO,
Jayme. Edi�‹o Standard brasileira
das obras psicol—gicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
Imago, 1969. 24v.
HALBWACHS, Maurice. A mem—ria coletiva. Trad. Beatriz Sidou. S‹o Paulo:
Centauro, 2004.
SELIGMANN-SILVA, M‡rcio (org.). Hist—ria, mem—ria, literatura: o testemunho na era das
cat‡strofes. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.
SELIGMANN-SILVA, M‡rcio; NESTROVSKI, Arthur (org.). Cat‡strofe e representa�‹o. S‹o Paulo: Escuta, 2000.
[Recebido: 21 jul 2020
– Aceito: 25 set 2020]
Rap e resist�ncia: necropol’tica e escala em Os meninos correm
Rap and Resistance:
Necropolitics and Scale in Os meninos correm
Everton
Santos de Brito[79]
https://0000-0002-2182-1700
Karina
Figueredo Souza[80]
https://0000-0002-5704-9767
Lucas
Santos CafŽ[81]
https://0000-0003-2654-0788
Maria Thereza de Oliveira
Azevedo[82]
https://0000-0003-2912-2346
Resumo: Este artigo se
prop›e a um exerc’cio de an‡lise do poema oral Os meninos correm da rapper Pacha Ana, para refletir sobre o
mal-estar do tempo presente e as possibilidades de resist�ncia pela oralidade.
O conceito de escala foi
desenvolvido pela sociolingu’stica e, neste artigo, nos baseamos na colet‰nea
organizada por E. Summerson Carr e Michael Lempert sobre o tema. A no�‹o de escala contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica,
buscando compreender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a
sociedade como elementos din‰micos. Na discuss‹o, um di‡logo com as epistemes
decoloniais e afro-diasp—ricas, sobretudo, a partir das reflex›es do professor
Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.
Palavras chave: Resist�ncia;
Escala; Necropol’tica; Rap; Os meninos correm.
Abstract: Exercise in the analysis of the
oral poem Os meninos correm from
Pacha Ana, to reflect on the discomfort of the present time and the
possibilities of resistance, that's what it proposes this article. The concept
of scale developed by sociolinguistics, based on the collection organized by E.
SummersonCarr and Michael Lempert on the topic, is the reference for the
analysis. The notion of scale contributes to the understanding that reality is
not static, seeking to understand things, processes, events, history, society
as dynamic elements. In the discussion, a dialogue with the decolonial and
afro-diasporic epistemes, above all, based on the reflections of Professor
Achille Mbembe and the concept of necropolitics.
Key words: Resistance; Scale; Necropolitics; Rap; Os
meninos correm.
Os meninos correm da bala, da vala, da farda
Pacha Ana
Ela apruma o corpo, levanta a cabe�a com altivez, ergue o
bra�o direito para o alto, em posi�‹o de luta, como se estivesse se preparando
para uma guerra. Os cabelos com um volumoso dread
agigantam a sua figura no palco. No antigo pelourinho da cidade, na Pra�a da
Mandioca, centro hist—rico de Cuiab‡, capital do estado de Mato Grosso, Ana
Gabriela Santana, a rapper Pacha Ana
evoca seus ancestrais para falar/batalhar do/no tempo presente. A palavra Ž sua
arma. Sua voz ecoa na pra�a: ÒOs meninos correm da bala, da vala, da fardaÓ. ƒ
a competi�‹o de poesia falada, o Slam[83] do Capim Cheiroso que entrecruza periferias e
centro redesenhando novas linhas de comunica�‹o com a cidade. A artista
mato-grossense, mulher, negra, MC, rapper,
poeta, cantora e compositora, tem se destacado no cen‡rio nacional e h‡ tempos
se debru�a nesta tem‡tica da denœncia/resist�ncia, buscando inspira�›es e
aprendizagem na pr—pria experi�ncia hist—rica do povo negro, sobretudo, das
mulheres pretas.
Neste artigo,[84] optamos por trazer o poema Os meninos correm de
Pacha Ana[85] para propor um exerc’cio de an‡lise a partir da no�‹o de escala, desenvolvida pela sociolingu’stica,
tendo como refer�ncia a colet‰nea organizada por E. Summerson Carr e Michael
Lempert sobre o tema, em di‡logo com epistemes decoloniais[86] e afro-diasp—ricas, sobretudo, a partir das reflex›es do
professor Achille Mbembe e o conceito de necropol’tica.
O rap e as oralidades urbanas
Muitas s‹o as pr‡ticas da oralidade, da performance, da
palavra, seja escrita nos muros ou falada/cantada em forma de rap, que ocupam os espa�os da cidade
para discutir/escancarar a pol’tica de exterm’nio de algumas popula�›es. No
Brasil, essas express›es nos alertam principalmente sobre as pol’ticas de morte
e os genoc’dios enfrentados pelas popula�›es negras. O rap, por exemplo, reverbera nos coletivos que se organizam de
v‡rias maneiras, seja em forma de batalhas ou slams ou mesmo em apresenta�›es nas ruas, em shows. O RAP (rhythm
and poetry) tem resson‰ncia das narrativas orais africanas e remete
ˆ tradi�‹o dos griots[87]. ÒA for�a da palavra oral da di‡spora africana funciona
como um mecanismo deposit—rio de conhecimentos preservados que os colonizadores
interditam no discurso oficialÓ (CARVALHO, 2014, p. 325). Retomando a tradi�‹o
africana da oralidade, o rap surgiu nos bairros jamaicanos na
dŽcada de 1960 e foi levado para os bairros pobres de Nova Iorque, no come�o da
dŽcada de 1970. No Brasil, o rap foi
disseminado em S‹o Paulo, na dŽcada de 1980, nas dan�as de break entre os integrantes do movimento hip-hop.
As narrativas do rap
normalmente s‹o relatos de viol�ncia, discrimina�‹o, exclus‹o e injusti�a
social contra grupos historicamente subrepresentados e postos em situa�‹o de
marginalidade. Essa manifesta�‹o da literatura oral urbana Ž considerada pelo
historiador Robin Kelley como uma Òarma poderosa na luta pela liberta�‹o negraÓ
(KELLEY, 2002, p. 11). Est‡ fundamentado em uma ÒpoŽtica da luta e da
experi�ncia vividaÓ (KELLEY, 2002, p. 9), uma forma de resist�ncia cultural
para lidar com Òas condi�›es da vida di‡ria, das opress›es quotidianas, da
sobreviv�nciaÓ (KELLEY, 2002, p. 11). O rap
ganhou for�a nos espa�os perifŽricos das cidades brasileiras e acabou por criar
especificidades, poŽticas singulares a partir do lugar onde se manifesta.
O mal-estar do
tempo presente
No tempo presente, o que qualificamos como um mal-estar pode
ser percebido a partir da intensifica�‹o de certo repert—rio afetivo:
discursos-afetivos de —dio, xenofobia, racismos, misoginia, homofobia,
incivilidade, intoler‰ncias, viol�ncias e tantas outras atrocidades
naturalizadas, que segregam, ceifam vidas, todavia, s‹o elevadas ˆ condi�‹o de
normalidade. Boa parte desse mal-estar Ž causada pela dissemina�‹o das ideias
neoliberais de desempenho, competi�‹o, hiperconcorr�ncia, sucesso e
hiperindividualismo que produzem discursos de —dio e buscam destruir poss’veis
pr‡ticas de solidariedade.
Os discursos fascistas v�m recheados de clich�s que se
amparam em fundamentalismos religiosos, apagamento e silenciamento hist—rico,
memoric’dio, epistemic’dio da diversidade de saberes, g�neros e sexualidades
que divergem do conceito de fam’lia tradicional, na qual, o pilar Ž o homem
branco, produzindo assim, ideologias e pr‡ticas t—xicas que n‹o s‹o defens‡veis
eticamente. Apoiam-se na inven�‹o de um passado m’tico para legitimar um ideal
de pureza de ra�a e cren�a, ligado tambŽm ao ideal de fronteiras, que s‹o ao
mesmo tempo fronteiras geogr‡ficas e simb—licas, revelando uma sociedade
atrelada a uma sŽrie de dicotomias classificat—rias, sendo a classifica�‹o
racial a mais importante delas, pois, como afirma An’bal Quijano, Òa racializa�‹o
das rela�›es de poder entre as novas identidades sociais e geoculturais foi o
sustento e a refer�ncia legitimadora fundamental do car‡ter eurocentrado do
padr‹o de poder, material e intersubjetivoÓ (QUIJANO, 2009, p. 107).
A diversidade de ideias, a manifesta�‹o da pluralidade de
epistemes assusta os indiv’duos dessa sociedade causadora do mal-estar,
justamente, porque desestabiliza discursos hegem™nicos e hierarquias
estabelecidas nos processos de domina�‹o. Na tentativa de perceber
possibilidades e desvios diante da sensa�‹o de incapacidade, de paralisia que
este cen‡rio imp›e, nos propomos ao exerc’cio de observar um modo de
resist�ncia que se d‡ pela oralidade do rap.
Assim, buscamos construir uma reflex‹o a partir de uma narrativa que pode ser
uma alternativa para alertar sobre esses tempos n‹o como o fim do mundo, o fim
dos caminhos e a perda das esperan�as, mas como denœncia e resist�ncia na busca
de uma sociedade mais humana, diversa e plural. Ao observarmos o poema oral Os
meninos correm, escrito para ser falado, nos
detivemos na sua forma, utilizando o conceito de escala, para
perceber uma poŽtica de resist�ncia.
Escala e a constru�‹o
de sentidos na forma
A escala Ž um conceito que veio da
geografia e foi desenvolvido na antropologia lingu’stica e na sociolingu’stica,
na tentativa de buscar outras formas de observa�‹o dos objetos. Para o
sociolinguista Jan Blommaert: ÒTeorizar envolve a explora�‹o de novas imagens e
met‡foras, capazes de nos ajudar a imaginar objetos de forma distinta, a v�-los
como diferentes, objetos que exigem abordagens anal’ticas diferentesÓ (BLOMMAERT,
2007, p. 1).
Assim, a partir
da compreens‹o do conceito de escala, apresentado na obra Scale – Dicourse and Dimensions of
Social of Social Life[88]
pelos organizadores E. Summerson Carr e Michael Lempert, podemos dizer que se
trata da forma�‹o do sentido que possu’mos de real e de concretude, pois a
no�‹o de escala n‹o possui um car‡ter
hegem™nico. Os autores salientam que o mundo material n‹o Ž prŽ-configurado, h‡
na materialidade do mundo um complexo trabalho de constru�‹o semi—tica,
envolvendo signos lingu’sticos e n‹o lingu’sticos. (CARR; LEMPERT, 2016). Entre
outras acep�›es, a no�‹o de escala
contribui para o entendimento de que a realidade n‹o Ž est‡tica, buscando
entender as coisas, os processos, os acontecimentos, a hist—ria, a sociedade
como elementos din‰micos. Esta constru�‹o n‹o-est‡tica amplia a possibilidade
de nos relacionarmos com o objeto de an‡lise. (CARR; LEMPERT, 2016). A
compreens‹o de escala sugere
movimento e an‡lise – ampliar os referenciais e se manter aberto se torna
uma necessidade de um trabalho escalar. Movimento escalar Ž um movimento
produtor de sentidos, sendo que o nosso processo de significa�‹o Ž sempre
escalar, uma vez que para atribuir significados daquilo que Ž real ou material
sempre fazemos proje�›es (CARR; LEMPERT, 2016). As met‡foras, por exemplo, s‹o
uma proje�‹o escalar. Produ�‹o de narrativas s‹o sempre proje�›es escalares.
Fen™menos escalares s‹o sempre fen™menos relacionais, assim toda empreitada
relacional Ž comparativa. Analogias, totaliza�›es, sistemas classificat—rios e
estere—tipos s‹o relacionais, portanto escalares. O sentido n‹o Ž definitivo,
assim, ao nos lan�armos ao exerc’cio de propormos novas proje�›es, obteremos
resultados completamente diferentes. Para os autores Òn‹o h‡
escalas ideologicamente neutras, e pessoas e institui�›es que se destacam nos
exerc’cios escalares geralmente refor�am as distin�›es que os ordenaramÓ (CARR; LEMPERT, 2016, p. 3. Tradu�‹o nossa).[89]
Pensando, ent‹o, na rela�‹o entre as imagens disparadas
pelo poema Os meninos correm de Pacha Ana e as que constru’mos a partir
do contato com a obra de Achile Mbembe, realizamos um exerc’cio de an‡lise da
estrutura do poema, dentro de uma perspectiva escalar. Como defendem Carr e
Lempert (2016, p. 3. Tradu�‹o nossa):
as escalas nas quais os atores sociais se baseiam para organizar,
interpretar, orientar e agir em seus mundos n‹o s‹o dadas, mas s‹o constru’das –
e um tanto trabalhosas. Escalar n‹o Ž simplesmente assumir ou afirmar
ÒgrandezaÓ ou ÒpequenezÓ por meio de c‡lculo. Pelo contr‡rio, [...] as pessoas
usam a linguagem para dimensionar o mundo ao seu redor. [...]. Embora as coisas
possam ser grandes, por analogia, a cria�‹o de escala sempre implica em
distin�›es, entre a grandeza da costela de uma baleia e a pequenez de um
m‡rmore, por exemplo. Como um esfor�o inerentemente relacional e comparativo, o
dimensionamento pode assim conectar e atŽ confinar o que Ž geograficamente,
geopoliticamente, temporalmente ou moralmente Òpr—ximoÓ, ao mesmo tempo em que
distingue essa proximidade da que est‡ ÒdistanteÓ. Da mesma forma, hierarquias
em escala s‹o os efeitos dos esfor�os para classificar, agrupar e categorizar
muitas coisas, pessoas e qualidades em termos de graus relativos de eleva�‹o ou
centralidade. Por exemplo, pense em como uma entidade ou dom’nio parece
abranger outro, como em mapas que subordinam localidades de ordem superior,
unidades administrativas ou do modo como se pensa os estados-na�‹o, as
comunidades ÒacimaÓ.[90]
Os meninos correm –
escala e necropol’tica – um di‡logo poss’vel.
Os meninos correm
Os meninos correm,
Os meninos correm
almejando tudo,
almejando o mundo,
pensando que a
pressa Ž a solu�‹o pra tudo,
mas n‹o Ž n‹o.
Eles correm por
medo,
correm em segredo,
correm na
contram‹o.
Os meninos correm
por causa do atraso, correm pra n‹o ser um fardo, e isso nem Ž um caso isolado.
Os meninos correm,
alguns porque
gostam,
outros s— porque
precisam mesmo.
Inclusive, os
meninos correm mas nem todos chegam mais cedo.
Ali‡s, alguns nem
chegam.
Isso porque os
meninos correm, mas a pol’cia tambŽm
e todo dia quando
ele sai, a m‹e pede amŽm
pra que nada, nem
ninguŽm
tire o seu maior
bem.
Ela reza:
ÒOromima,
oromimayor, oromimayor, iabadoai�i�o
Oromima,
oromimayor, oromimayor, iabadoai�, i�o
Ai, ai oxum, ora
i�
Ai, ai oxum, ora
i�Ó
Isso porque os
meninos correm,
mas se for de
madrugada e ele for preto
j‡ Ž suspeito!
Parece que ser
escuro Ž defeito.
Os meninos correm
da bala, da vala, da farda,
COMO SE AINDA
EXISTISSE SENZALA!
Se vive atŽ os 21,
Ž lucro.
Isso Ž culpa de um
sistema fajuto,
onde alguns
meninos correm e chegam,
outros, deixam
m‹es em luto.
(Pacha Ana, fevereiro de 2017)
Pacha Ana, fazendo uso do seu lugar de fala –
entendendo que lugar de fala tambŽm Ž a fala de lugar –, por meio da
oralidade, olha para uma popula�‹o que se situa ˆ margem, para atravŽs do afeto
nos aproximar de corpos silenciados, identificados como ÒsuspeitosÓ por um
estado de exce�‹o permanente. Os meninos
correm traz uma possibilidade de reflex‹o sobre os processos de retirada de
direitos, exterm’nios de popula�›es racializadas[91] o poder sobre a vida, para construir, assim, um contra
discurso. Mbembe (2016, p. 123) afirma que: Òmatar ou deixar viver constituem
os limites da soberania, seus atributos fundamentais. Exercitar a soberania Ž
exercer controle sobre a mortalidade e definir a vida como a implanta�‹o e
manifesta�‹o de poderÓ. E ainda diz que Òa soberania Ž a capacidade de definir
quem importa e quem n‹o importa, quem Ž Ôdescart‡velÕ e quem n‹o ŽÓ (MBEMBE,
2016, p. 135), sendo que t�m se caracterizado como descart‡veis os seres
humanos do sul global, ou seja, os n‹o europeus, que foram classificados como
inferiores a partir de um processo de naturaliza�‹o de rela�›es sociais que
visavam atender os poderosos interesses articulados com a consolida�‹o do
capitalismo/colonialismo/patriarcado.
No poema, a utiliza�‹o da palavra ÒcorremÓ, numa escala de
repeti�‹o, sugere distintas imagens, que percorrem desde a leveza do simples
ato de correr, do imagin‡rio de meninos que flertam com a inf‰ncia e a
liberdade, atŽ o peso da realidade de alguns corpos que precisam correr para
n‹o morrer ou que s‹o mortos enquanto est‹o correndo. Pacha Ana, ao trazer uma ora�‹o/sauda�‹o
de matriz africana, construindo uma alus‹o a vozes das m‹es pretas, utiliza
proje�›es escalares de ancestralidade, racialidade, temporalidade,
espiritualidade. Demarca um lugar, sugere um ritmo, uma sonoridade, invoca
corpos portadores de saberes ancestrais, tradi�›es orais, propondo olhares para
uma cultura que vem sendo historicamente perseguida, constantemente
desvalorizada e violentamente silenciada. Grosfoguel (2014) afirma que a
expans‹o colonial europeia significou o genoc’dio e o epistemic’dio de
ind’genas, africanos e de mulheres. AlŽm disso, o colonialismo realizou um
enorme memoric’dio, sendo que a estrutura de conhecimento que domina as
universidades de todo o mundo est‡ atrelada ˆ estrutura imperialista colonial
de poder. O homem ocidental, europeu, branco, heterossexual, crist‹o, Ž quem
decide o que Ž o melhor para as demais popula�›es de todo mundo. Nesses
processos, ele despreza, invisibiliza, destr—i e assassina sociedades inteiras,
suas culturas e seus saberes. Segundo Grosfoguel, autores homens, brancos, de
cinco pa’ses formam os c‰nones da ci�ncia desenvolvida em qualquer universidade
do mundo. Isso revela um racismo e um sexismo epistemol—gico iniciado com a
modernidade e o colonialismo. Dessa forma, para descolonizar o pensamento Ž
necess‡rio dialogar com uma diversidade epist�mica, buscando enriquecer a
maneira de ver o mundo. Ouvir a voz dos colonizados, estabelecer di‡logos com
saberes e epistemes ancestrais constituem caminhos poss’veis para a
descoloniza�‹o do conhecimento. O pensamento e os saberes compartilhados por
Pacha Ana, uma mulher negra, por meio do poema Os meninos correm, se
colocam na contram‹o da coloniza�‹o e da permanente colonialidade. A
ancestralidade evocada pela poetisa nos faz dialogar com mœltiplas epistemes,
mœltiplos saberes, sobretudo saberes que foram esmagados pela modernidade.
Pacha Ana se coloca na contram‹o da sociedade do mal-estar n‹o por dar voz ˆ
ancestralidade, mas por aprender com ela e, assim, tornar-se/ser tambŽm essa
ancestralidade.
No trecho em que, optando por destacar o verso com letras
maiœsculas, sugere um grito, uma aten�‹o maior: ÒCOMO SE AINDA EXISTISSE
SENZALA!Ó observamos uma escala emocional-ir™nica e hist—rica, que exp›e uma
indigna�‹o pulsante, descrevendo o cen‡rio que questiona. Em outro fragmento
identificamos escalas classificat—rias e de ironia: Òmas se for de madrugada e
ele for preto / j‡ Ž suspeito! / Parece que ser escuro Ž defeitoÓ, que
evidencia a pol’tica de exterm’nio de corpos negros. Numa escala cr’tica, o trecho ÒSe vive atŽ os 21, Ž lucroÓ, situa a
realidade destes corpos que est‹o ˆ margem, sinalizados, marcados para morrer.
Pudemos identificar ainda outras proje�›es escalares dentro do poema, como por
exemplo: escalas de indigna�‹o, como no trecho ÒIsso Ž culpa de um sistema
fajuto, onde alguns meninos correm e chegam, outros, deixam m‹es em lutoÓ;
metaf—ricas, como em Òcorrem na contram‹oÓ e Òcorrem para n‹o ser um fardoÓ;
bem como pol’tico-cr’ticas, em ÒEles correm por medo, correm em segredoÓ e
ÒIsso porque os meninos correm, mas a pol’cia tambŽmÓ.
ÒA cada vinte e tr�s minutos um jovem negro Ž assassinado
no BrasilÓ[92]. ÒExŽrcito dispara 80 tiros em carro de fam’lia no Rio e
mata mœsicoÓ[93]. Ò75% das v’timas de homic’dio no Pa’s s‹o negrasÓ[94]. ÒAssassinatos de jovens negros no Brasil aumentam 429% em
20 anosÓ[95]. Quando nos deparamos com
alguns dados sobre a viol�ncia e a criminalidade no Brasil, colocamo-nos diante
de informa�›es alarmantes, tanto pelo conteœdo, quanto pela dimens‹o midi‡tica
a qual esse conteœdo Ž submetido. Que corpos ÒmerecemÓ viver? Que corpos
ÒmerecemÓ morrer? Quem tem o poder de decis‹o? O poema Os meninos correm
discute essas quest›es e exp›e poss’veis respostas, ainda que numa perspectiva
ir™nica, a essas perguntas.
Na obra Discurso sobre o
Colonialismo, AimŽ CŽsaire reflete sobre os diversos ÒnazismosÓ
cometidos contra povos n‹o europeus, sobretudo os que existiram durante todo o
per’odo de coloniza�‹o e escraviza�‹o das popula�›es negras, apontando que
esses ÒnazismosÓ sempre foram aceitos pela popula�‹o europeia:
no fundo o que n‹o Ž perdo‡vel em Hitler n‹o Ž o crime em si, o
crime contra o homem, n‹o Ž a humilha�‹o em si, sen‹o o crime contra o homem
branco, Ž a humilha�‹o do homem branco, e haver aplicado na Europa
procedimentos colonialistas que atŽ agora s— concerniam aos ‡rabes da ArgŽlia,
aos coolies da êndia e aos negros da çfrica (CƒSAIRE, 2010, p. 21).
Dialogando com CŽsaire e Frantz Fanon, Mbembe (2016)
observa que o estado de exce�‹o n‹o foi fundado com o nazismo, pois ele existiu
anteriormente para as popula�›es negras. A escravid‹o moderna seria um exemplo
de estado de exce�‹o, ou melhor, um estado de terror duradouro. E esse terror
duradouro, identificado por Mbembe, simboliza a realidade de boa parte dos
negros e das negras brasileiras. AtravŽs do cruzamento dos dados do IBGE sobre
a popula�‹o negra no Brasil e o poema de Pacha Ana, podemos afirmar que os
negros vivem em um estado de exce�‹o cont’nuo, um mundo de morte, de
mortos-vivos, que, segundo o autor, n‹o pode ser explicado sen‹o pela
perspectiva da necropol’tica. As novas formas de matar, de fazer de vivos
mortos-vivos, n‹o podem ser elucidados pelo biopoder, uma vez que, esta quest‹o
Ž uma pol’tica de morte, um ideal de exterm’nio que acompanha as popula�›es
negras desde a coloniza�‹o.
A necessidade de olharmos para os corpos
negros Ž ressaltada quando olhamos os dados, por exemplo, divulgados pelo Atlas
da Viol�ncia 2019, produzido pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econ™mica
Aplicada), e que publica estudos e dados relacionados ao ’ndice de viol�ncia no
Brasil. Segundo este estudo:
Em 2017, 75,5% das v’timas de homic’dios foram
indiv’duos negros (definidos aqui como a soma de indiv’duos pretos ou pardos,
segundo a classifica�‹o do IBGE, utilizada tambŽm pelo SIM), sendo que a taxa
de homic’dios por 100 mil negros foi de 43,1, ao passo que a taxa de n‹o negros
(brancos, amarelos e ind’genas) foi de 16,0. Ou seja, proporcionalmente ˆs
respectivas popula�›es, para cada indiv’duo n‹o negro que sofreu homic’dio em
2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos (IPEA, 2019, p. 49).
Correr brincando, correr para chegar ˆ
escola, correr para pegar o ™nibus, correr por esporte, correr para n‹o morrer,
correr para n‹o ser eliminado. Pacha Ana nos conecta com O Genoc’dio do negro no Brasil, uma das primeiras obras escritas por um
intelectual negro brasileiro, visando o combate ao racismo e ˆ discrimina�‹o
racial em nosso pa’s. Abdias do Nascimento (2016) detalha como, historicamente,
no Brasil, foi se formando e se construindo um processo de um Òracismo
mascaradoÓ. Segundo ele, o processo come�a com a rejei�‹o da hist—ria dos
africanos e seus descendentes, passando pelo mito da benevol�ncia do branco
portugu�s para com o negro e das poss’veis Òcontribui�›esÓ do branco civilizado
para com o negro ÒincivilizadoÓ. Para Abdias, na constru�‹o desse Òracismo
mascaradoÓ, houve atŽ quem dissesse que a escravid‹o e outras atrocidades
cometidas contra o negro, seria um mal necess‡rio para o processo de
civiliza�‹o dos mesmos. Neste ponto, voltamos ˆ reflex‹o proposta por CŽsarie
(2010), de que ao longo do processo de coloniza�‹o sempre foi permitido e
aceito assassinar n‹o europeus, sobretudo, negros.
Influenciado por Frantz Fanon, Nascimento
(2016) denuncia a exist�ncia do racismo no Brasil, enfatizando a desvaloriza�‹o
da mulher e do homem negro em nosso pa’s, o branqueamento racial e cultural, a
persegui�‹o ˆ cultura africana, a bastardiza�‹o da cultura afro-brasileira e
todas as estratŽgias de genoc’dio do negro e sua cultura em terras tupiniquins.
Segundo o autor, o racismo camuflado existente no Brasil Ž muito mais nocivo
que o Òracismo declaradoÓ existente na sociedade estadunidense, pois Ž
sustentado pelo mito da Òdemocracia racialÓ; o racismo ˆ brasileira se esconde,
se camufla, finge n‹o existir. O que dificulta a cria�‹o de mecanismos para
combat�-lo, contribuindo para um estado de terror duradouro para as popula�›es
negras.
Walter Mignolo afirma que a colonialidade era a pauta
oculta ou o lado ÒescuroÓ da modernidade. Segundo o autor, pensar o conceito de
colonialidade j‡ Ž um ato descolonizador, pois Ž preciso partir de um olhar
decolonial para observar a barb‡rie existente por tr‡s do discurso
civilizat—rio. ÒAssim, ocultadas por tr‡s da
ret—rica da modernidade, pr‡ticas econ™micas dispensavam vidas humanas, e o
conhecimento justificava o racismo e a inferioridade de vidas humanas, que eram
naturalmente consideradas dispens‡veisÓ (MIGNOLO, 2017, p. 1). Dessa
forma, a partir da vis‹o de Mignolo, podemos pensar que por tr‡s do discurso de
progresso e de desenvolvimento, est‹o pr‡ticas discursivas e representa�›es que
tiram vidas, dizimam mem—rias e exterminam culturas. Autores decoloniais como
Ram—n Grosfoguel, An’bal Quijano e Walter Mignolo v‹o concordar que a principal
tarefa dos te—ricos decoloniais Ž quebrar com a colonialidade existente no
mundo, a colonialidade est‡ travestida de globaliza�‹o/modernidade:
H‡ um fato na cultura de toda a AmŽrica, e na da AmŽrica Latina em
particular, que envolve o mundo inteiro hoje em sua globalidade e que precisa
ser reconhecido, questionado, debatido e evacuado: a colonialidade do poder.
Esse Ž o primeiro passo para a democratiza�‹o da sociedade e do Estado; da
reconstitui�‹o epistemol—gica da modernidade; da busca por uma racionalidade
alternativa (QUIJANO, 2014, p. 767. Tradu�‹o nossa)[96]
Quebrar com a colonialidade significa utilizar a
diversidade epist�mica.
Em ambos os casos, a geopol’tica e a corpo-pol’tica (entendidas
como a configura�‹o biogr‡fica de g�nero, religi‹o, classe, etnia e l’ngua) da
configura�‹o de conhecimento e dos desejos epist�micos foram ocultadas, e a
�nfase foi colocada na mente em rela�‹o ao Deus e em rela�‹o ˆ raz‹o. Assim foi
configurada a enuncia�‹o da epistemologia ocidental, e assim era a estrutura da
enuncia�‹o que sustentava a matriz colonial. Por isso, o pensamento e a a�‹o
descoloniais focam na enuncia�‹o, se engajando na desobedi�ncia epist�mica e se
desvinculando da matriz colonial para possibilitar op�›es descoloniais –
uma vis‹o da vida e da sociedade que requer sujeitos descoloniais,
conhecimentos descoloniais e institui�›es descoloniais (MIGNOLO, 2017, p. 6).
Concluindo: os meninos ainda correm
Utilizando o conceito de escala para realizar um exerc’cio
de an‡lise do rapper poema oral Os meninos correm, em di‡logo com os conceitos de necropol’tica e
decolonialidade, acreditamos que o poema se apresenta como uma resist�ncia ao
mal-estar que atravessa a nossa sociedade. Como, por exemplo, as possibilidades
apresentadas de diferentes imagens para uma mesma palavra ÒcorremÓ ampliam o
nosso olhar, nossa forma de nos relacionarmos com a obra e, principalmente, ao
que ela convoca, possibilitando questionamentos, propondo uma desestabiliza�‹o
de sentidos prŽ-concebidos.
A poetisa rapper Pacha
Ana prop›e um esfor�o de denunciar essa necropol’tica
que atravessa o tempo presente, apresentando uma forma de poema falado que
questiona as normas criadas ou constru’das culturalmente para excluir,
subalternizar e dar prosseguimento ˆ l—gica colonial que sustenta o atual
padr‹o de poder mundial. A partir de Os meninos correm, entendemos que Ž
poss’vel ressignificar as normas e os discursos que qualificam o mal-estar,
revelando que nada Ž eterno, absoluto e universal.
Se a colonialidade, as ideias neoliberais, o machismo, o
racismo, a heterossexualidade compuls—ria nos obriga a ter determinados
comportamentos, se as categorias de domina�‹o constru’das pelo homem branco
(ocidental, hŽtero, crist‹o) nos faz conviver com esse mal-estar, o poema tal
como novas/outras epistemes pode apoiar na constru�‹o de questionamentos aos
discursos e as pr‡ticas de domina�‹o hegem™nicas. Se as categorias de domina�‹o
foram socialmente constru’das, se narrativas contam e constroem narrativas,
podemos construir contranarrativas, outros discursos que tragam problemas que
nos ap—iem em nossos processos de resist�ncia. N‹o se trata de Òdar vozÓ aos
corpos oprimidos e sim de pluralizar nossas refer�ncias e dialogar com
diferentes epistemologias, n‹o apenas como fonte de pesquisa, mas como produtora
de saberes que historicamente foram desconsiderados. Descolonizar Ž aprender e
falar com o outro subalternizado. As tens›es propostas aqui tiveram como
inten�‹o sulear a inquieta�‹o de
pensarmos outros cen‡rios poss’veis e criar possibilidades de desestabilizar o
pensamento hegem™nico que insiste em se manter como verdade œnica e curso
natural da hist—ria. Criar resist�ncia Ž tambŽm desestabilizar o olhar colonial
que assola o Brasil, determinando os espa�os que as popula�›es negras devem
ocupar na sociedade.
Deste modo, o exerc’cio de an‡lise do poema Os meninos correm, combinando o conceito
de necropol’tica de Achile Mbembe com a no�‹o de escala para observar estas obras que povoam a oralidade urbana,
podem trazer ˆ tona a constru�‹o de uma contra narrativa. Neste caso, a
resist�ncia est‡ contida tambŽm na forma do poema refor�ando a possibilidade de
cria�‹o de outros modos de exist�ncia.
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[Recebido: 14 out 2020 – Aceito: 19
set 2020]
PoŽticas Orais,
corpo-mem—ria e o ritmo das narrativas de mestres e mestras contadores de
hist—rias tradicionais
Oral Poetics, memory-body and the rhythm from narratives of masters
storytellers of traditional stories
Luciene Souza Santos[97]
https://orcid.org/0000-0002-6751-1070
Margarida da Silveira
Corsi[98]
https://orcid.org/0000-0002-5216-8660
Lana Lula Amorim[99]
https://orcid.org/0000-0003-3784-4357
Resumo: O presente artigo versa
sobre a literatura oral e a sua rela�‹o com a mem—ria, por meio da voz de
mestres e mestras da tradi�‹o, guardi›es da arte de contar hist—rias. A mem—ria
aqui apresentada nasce das viv�ncias e necessidades de comunidades que tambŽm
as transmitem entre gera�›es. Uma mem—ria pass’vel de sofrer mudan�as geradas
pelo tempo e pelas mœltiplas vozes que a transmitem de um ouvido a outro, de um
espa�o-tempo a outro. O texto reflete ainda sobre a import‰ncia do corpo
enquanto lugar de mem—ria, engendrado em seus ritos, rituais e narrativas e
compreende a literatura oral sob novas perspectivas paradigm‡ticas e
epistemol—gicas. Por fim, esse trabalho tem seu foco tambŽm na compreens‹o de
que Ž escutando os contadores de hist—rias, com suas narrativas de vida e
contos de tradi�‹o que a leitura da palavra, compreendida aqui como palavra no
mundo e com o mundo, que a transmiss‹o de saberes pelas vias da oralidade
acontece. Esses mestres e mestras carregam consigo o papel de salvaguardar e
dar movimento ˆs mem—rias hist—ricas e saberes coletivos, construindo as
culturas e rompendo as lacunas, que ainda existem, entre o passado e o
presente, entre a escrita e a oralidade.
Palavras-chave: PoŽticas orais. Corpo-mem—ria. Contadores de hist—rias
tradicionais.
Abstract: This article argues about oral literature and its
relation with memory through the voice of tradition masters, guardians of the
storytelling art. The memory presented here arises from the experiences and
needs of communities that also transmit them among generations. A memory liable
to undergo changes generated by time and by the multiple voices that transmit
it from one ear to another, from one space-time to another. The text also
reflects about the importance of the body as a place of memory, engendered in
its rites, rituals and narratives and comprises oral literature under new
paradigmatic and epistemological perspectives. Finally, this work also focuses
on understanding that it is listening to storytellers with their life
narratives and traditional talesthat the reading word, understood here as the
word in the world and with the world, that the knowledge transmission through
oral routes happens. These masters has the important role of safeguarding and
movementing historical memories and collective knowledge, building cultures and
bridging the gaps that still exists, between the past and the present, between
writing and orality.
Keywords: Oral Poetics; Memory-body; Traditional storytellers.
O papel da mem—ria enquanto resultado do
entrela�amento das experi�ncias cotidianas e o seu lugar nas pr‡ticas dos
contadores de hist—rias
Era uma vez uma mulher que, ao amamentar, entoou
a primeira can�‹o de ninar, plantando, no pequeno recŽm-nascido, a semente do
desejo de ouvir a voz que traz conhecimentos, viv�ncias, medos e prazeres. N‹o
muito distante dali, um velho pajŽ narrava aos curumins lendas sobre Tup‹, Jaci
e Guaraci. Do outro lado da montanha, um anci‹o africano contava, aos mais
jovens, hist—rias da m‹e-çfrica. O que eles t�m em comum? Esses tr�s contadores
– de modo semelhante aos repentistas, cantadores, griots, rakugokas,
anci›es de tribos ind’genas ou av—s urbanas – guardam na mem—ria
viv�ncias, tradi�›es, mitos, cren�as e, de modos singulares, transmitem seus
conhecimentos e li�›es aos ouvintes, como se lhes entregassem um tesouro
precioso que deve ser guardado, mas tambŽm dividido.
A literatura oral est‡ ligada ˆ voz e ˆ
mem—ria. Ela nasce das viv�ncias
e necessidades de comunidades que tambŽm as transmitem de boca em boca para
ouvidos atentos e sedentos de conhecimento e fantasia. Narrada ou cantada
oralmente, ela torna-se suscept’vel ˆs mudan�as impostas pelo tempo e pelas mœltiplas
vozes que a transmitem de um ouvido a outro, de um espa�o a outro, de uma
comunidade a outra.
Muitos g�neros da oralidade s‹o
compostos em versos, como as narrativas cordelizadas, estruturadas em
sextilhas, septilhas ou dŽcimas, que comprovam a afirma�‹o de que Òo ritmo das
frases, as partes finais ou iniciais semelhantes facilitam tremendamente a
memoriza�‹oÓ (LUYTEN, 1992, p. 8). A memoriza�‹o depende de muitos aspectos da
narra�‹o. A escolha das palavras, a musicalidade e a concis‹o dos elementos contribuem
para que o narrador/contador guarde e transmita as li�›es e os encantamentos
das narrativas.
Silva (2009) argumenta que
as hist—rias orais s‹o formadas na base da mem—ria popular, sem determinar
autoria, tempo, espa�o, sem atribuir nomes pr—prios. ƒ na Òvoz murmuranteÓ da
oralidade que os contos populares, romances sertanejos, cantigas, x‡caras
ganham vida e s‹o transmitidos de boca em boca, atravŽs dos tempos e espa�os.
Assim tambŽm argumenta Oliveira
(2012, p. 52), ao afirmar que as narrativas populares
conectam o homem com o seu mundo
concreto, descrevem as vicissitudes e os caminhos seguidos ou por trilhar,
mostram claramente a possibilidade de interven�‹o no real, na medida em que a
palavra ÒvoaÓ de boca a ouvido, perpetuando a voz de um povo.
Deposit‡rios de um tesouro imenso, os contadores de
hist—rias transmitem aos ouvintes um conjunto de ideias, fatos e sonhos,
atravŽs de contos, lendas, provŽrbios, ditados populares, can�›es e f‡bulas,
provenientes do passado long’nquo, quando a mem—ria era o modo primordial de
preservar e transmitir hist—rias, cren�as e valores. Passadas de gera�‹o em
gera�‹o, essas narrativas v‹o ganhando contornos pr—prios, de acordo com as
necessidades das gera�›es, comunidades e estilos dos contadores de hist—rias. Assim,
as tradi�›es populares como bens
culturais imateriais s‹o flu’dos e din‰micos, transformam-se continuamente,
absorvendo elementos de outras culturas atravŽs dos mais variados meios. A
pr—pria palavra tradi�‹o, do latim traditio,
tradere, implica uma a�‹o
de entregar, de transmitir, de levar e de trazer de um lugar a outro (OLIVEIRA,
2012, p. 50).
Esse levar de um espa�o a outro ou de
um ouvido a outro Ž majestosamente exercido por contadores de hist—rias,
cantadores de repente, recitadores de poesias orais. Narradores que transmitem
as tradi�›es e hist—rias de suas na�›es, e tambŽm de terras long’nquas,
associando viv�ncias, cren�as e culturas, que servem de exemplo para as
viv�ncias dos ouvintes. S‹o estas viv�ncias, saberes e sonhos que tornam
poss’veis hist—rias de peixes m‡gicos, m‡quinas voadoras, bois misteriosos,
mo�as transformadas em touros, pedras em mo�as, curumins em p‡ssaros, assim
como de vaqueiros, cangaceiros ou beatos imbu’dos de imensa coragem.
AlŽm da import‰ncia da mem—ria, que
permite ao contador de hist—rias transmitir oralmente fatos e mitos, o tempo da narra�‹o Ž tambŽm um elemento
primordial da tradi�‹o oral. H‡ um complexo fio da mem—ria que perpassa por
diferentes modalidades de tempo. Por exemplo, as express›es ÒEra uma vezÓ,
ÒCerta vezÓ, remetem ao tempo m’tico, da imagina�‹o, um passado indefinido que
permite ao narrador contar hist—rias inimagin‡veis. H‡ o tempo hist—rico, que
pode relatar oralmente fatos vivenciados pelo narrador, que, confiante em sua
mem—ria e em suas viv�ncias, relata-as aos seus descendentes.
Outro tempo poss’vel Ž o tempo familiar
que permite aos descendentes contarem a seus filhos e netos hist—rias de seus
antepassados, como aquelas que o pracinha da Segunda Guerra trouxe na sua
bagagem de experi�ncias. ƒ poss’vel tambŽm falar em tempo pessoal, que diz
respeito ao tempo dos nossos pais ou dos pais de nossos pais, que
frequentemente afirmam ÒNo meu tempo...Ó para enfatizar todo g�nero de mudan�as
ocorridas desde suas inf‰ncias. Todas estas modalidades de tempo remetem a
narra�›es orais que transmitem experi�ncias vividas, ouvidas ou hist—rias
ficcionais.
Nas narrativas orais tambŽm percebemos
um espa�o vol‡til que Ž marcado
em express›es como ÒNum lugar muito distanteÓ, ÒNum certo reinoÓ, que permitem
ao ouvinte a experi�ncia cat‡rtica de criar o lugar ideal ou relacion‡-lo ao
seu espa�o particular. Assim tambŽm ocorre com rela�‹o ˆ composi�‹o dos perfis das personagens que, atravŽs de
express›es como ÒHavia uma mulherÓ, nos liberta da obrigatoriedade de um perfil
fixo de mulher e nos permite cri‡-lo em nossa imagina�‹o, a partir de nossas
viv�ncias, cren�as e desejos.
Na acep�‹o de Zumthor (2018), a narra�‹o de uma hist—ria comporta muito mais que
aspectos verbais. A enuncia�‹o oral associa-se ˆ voz, ˆ entona�‹o, aos gestos, ˆs pausas, ˆs express›es faciais,
aos movimentos do corpo de quem narra, os quais chegam a quem ouve como
elementos da trama, contribuindo para a significa�‹o do texto narrado ou
cantado. Tudo isso est‡ implicado na performance da narra�‹o, Òœnico modo vivo
de comunica�‹o poŽticaÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 33), que nos permite experimentar a
vida enquanto contamos ou ouvimos uma hist—ria. Lembremos ainda que, para
Zumthor (2018, p. 18),
Nas poŽticas transmitidas pela voz [...],
a autonomia relativa do texto, em rela�‹o ˆ obra, diminui muito: [...] todo
lugar da obra se investiria dos elementos perform‡ticos, n‹o textuais, como a
pessoa e o jogo do intŽrprete, o audit—rio, as circunst‰ncias, o ambiente
cultural e, em profundidade, as rela�›es intersubjetivas, as rela�›es entre a
representa�‹o e o vivido.
Para definir o conceito de performance,
o medievalista recorre a suas leituras e pesquisas e conclui que precisamos
considerar diversos aspectos, dentre os quais, destacamos: a necessidade de Òum
acontecimento oral e gestualÓ; Òa ideia de presen�a de um corpoÓ; Òa energia
propriamente poŽticaÓ marcada nas sensa�›es de contadores e ouvintes; a no�‹o
de espa�o que se torna poss’vel atravŽs do corpo (ZUMTHOR, 2018, p. 36-38).
Conforme Oliveira (2012, p. 48), Ž
preciso considerar as fases Òprodu�‹o,
transmiss‹o (comunica�‹o), recep�‹o, conserva�‹o e repeti�‹oÓ
de hist—rias para encontrar as vozes sibilantes deste processo que vai da
oralidade ˆ escrita. Est‡gios trabalhados por Zumthor (2018, p. 60),
respectivamente, acerca da oralidade, como: forma�‹o, transmiss‹o,
recep�‹o, conserva�‹o e reitera�‹o. De acordo com Zumthor (2018), se a forma�‹o se opera
pela voz, a transmiss‹o se d‡ quando um personagem, usando voz e gesto, recorre
a palavra, que ser‡ recebida por outro personagem por meio da audi�‹o e da
vis‹o, processos unidos pela performance do discurso, copresen�a geradora do
prazer. A conserva�‹o est‡ a cargo da mem—ria, Òmas a mem—ria implica, na
Ôreitera�‹oÕ, incessantes varia�›es recriadorasÓ (ZUMTHOR, 2018, p. 61), o que o
autor chama de mov�ncia.
Contadores s‹o n™mades por excel�ncia – ou porque viajam de um pa’s a
outro, de uma cidade a outra, de uma fazenda a outra, enfim, de um espa�o a
outro; ou porque cruzam a linha do imagin‡rio, buscando outra atmosfera
poss’vel que lhes permita e nos permita segui-los de um mundo a outro. Muitas
hist—rias chegam atravŽs de homens e mulheres que v‹o de fazenda em fazenda, de
cidade em cidade, narrando suas hist—rias maravilhosas que nos convidam a abrir
nossas portas e almas. Essas narrativas nos incitam e nos levam a acolher essas
palavras como um tesouro precioso e a aprender com elas que o
estrangeiro/desconhecido pode ser um amigo que ainda n‹o encontramos. Elas nos
ensinam que Ž preciso abrir nossos cora�›es para novas aventuras, novos
conhecimentos, novas culturas (BRICOUT, s.d).
Aceitar o convite da voz narrativa
funciona como entrar num mundo desconhecido, pertencente a outro, imergindo em
outra atmosfera, como dos mitos e hist—rias ind’genas ou africanos, do mundo
maravilhoso de cavaleiros de prata, pav›es misteriosos, mo�as invis’veis, melancias
encantadas, mulheres douradas, pr’ncipes valentes, homens lobos, curupiras, caiporas,
mapinguaris, mulas sem cabe�a, botos que se transformam em homens, sereias com
cantos hipn—ticos.
Silva (2009, p. 233) afirma que Òo
folclore e a literatura oral est‹o na base da literatura de muitos lugaresÓ,
confirmando o ideal de que a oralidade fornece ˆs narrativas orais populares,
assim como aos g�neros consagrados pela cr’tica, um repert—rio precioso de
hist—rias. De acordo com Cascudo (1984, p. 24),
Todos os autos populares, dan�as
dram‡ticas, as jornadas dos pastoris, as louva�›es das lapinhas, Chegan�as,
Bumba-meu-boi, Fandango, Congos, o mundo sonoro e policolor dos reisados,
aglutinando saltos de outras representa�›es apagadas da mem—ria coletiva, resistindo
numa figura, num verso, num desenho coreogr‡fico, s‹o elementos vivos da
literatura oral.
Foi tambŽm no imagin‡rio popular que surgiram as primeiras hist—rias narradas
pela voz de contadores e transmitidas de gera�‹o em gera�‹o atŽ um dia serem
recolhidas por alguŽm, passando a serem transmitidas de forma impressa,
possibilitando o contexto da leitura silenciosa. A partir da’, Òo narrador
passa a ser essa voz que, representada na brancura da p‡gina, aspira a
concretude na intera�‹o com o leitorÓ (PORTELA, 2009, p. 748). Entretanto, este
narrador carrega, frequentemente, tra�os da enuncia�‹o oral, assegurando
elementos da performance de vozes ancestrais. Zumthor (2018, p. 70-71), ao
tratar da leitura, afirma que a compreens‹o das palavras necessita de Òuma
interven�‹o corporal, sob forma de uma opera�‹o vocal: seja aquela da voz
percebida, pronunciada ou ouvida ou de uma voz inaud’vel, de uma articula�‹o
interiorizadaÓ.
De acordo com Oliveira (2012), Ž na
oralidade que a pr—pria literatura
can™nica tem sua origem. Toda fic�‹o e toda poesia podem ter origem na voz de
um contador de hist—rias, que criou, ouviu ou presenciou um acontecimento,
contou e aumentou fatos (ficcionais, mitol—gicos, hist—ricos) e os transmitiu a
outro alguŽm que fez o mesmo e assim por diante, ad aeternum. Isso prova que a literatura
impressa serviu-se e serve-se ainda da fic�‹o oral, especialmente no que tange aos mitos e lendas reescritos em diversos
g�neros e suportes da literatura. Mas a literatura oral est‡ viva entre n—s. As
manifesta�›es orais de diversos g�neros fazem parte de nossa exist�ncia. Nas
tribos, nas pequenas cidades ou nos grandes centros, testemunhamos inœmeros
exemplos e contadores e contadoras de hist—rias, que possibilitam diversas
formas de Òcorpo-a-corpo com o mundoÓ e de rupturas da Òclausura do corpoÓ
(ZUMTHOR, 2018, p. 71.77).
Os aspectos art’sticos e etnogr‡ficos
do texto oral reafirmam seu valor estŽtico e cultural. S‹o narrativas que
comportam imagens sem‰nticas relacionadas a determinadas culturas, comprovando
o valor da mem—ria e da voz como elementos imprescind’veis na transmiss‹o de
conhecimentos culturais, hist—ricos, sociais e art’sticos. Todos estes aspectos
fortalecem a import‰ncia de contar e ouvir hist—rias, nos dias de hoje e
antigamente, e reiteram a necessidade de recuperar e recolher hist—rias que s‹o
ou foram contadas por homens e mulheres cheios de palavras, gestos e cultura.
Corpo-mem—ria e a performance dos narradores orais
Certa tarde, na vida
que dan�a ou na dan�a que vive, ouvi um tambor, segui seu chamado e fui
encantada. O encanto veio das letras que brotam das pedrinhas miudinhas, que constituem
o ch‹o de um viver atento, vibrante, agradecido, que sabe ouvir o que Ž e o que
j‡ foi, que sabe agradecer os que j‡ viveram e que, por isso, ainda vivem (Lara Say‹o).
Enquanto grupos sociais, os indiv’duos
buscaram seus meios de se organizar e de construir ou reconstruir os modos de
ser e estar no mundo. Os lugares, as hist—rias, os saberes e fazeres d‹o o tom
e o sabor a tudo aquilo que vai se constituindo e dando sentido ao que h‡ no
mundo. AtravŽs das formas como os indiv’duos interferem e tambŽm transformam
esses espa�os, sejam eles f’sicos ou simb—licos, Ž que vai se inscrevendo a
hist—ria da humanidade. Nesse locus da historicidade Ž onde se aloca a
fundamental import‰ncia da palavra, seja ela escrita ou falada para a
transmiss‹o, compreens‹o e apreens‹o dos saberes sociais.
No entanto, Ž fundamental compreender
que os estudos da palavra, aqui referidos, assumem uma natureza representativa
para alŽm das compreens›es do que epistemologicamente se disp™s os estudos da
literatura tradicionalmente. Somente na compreens‹o da leitura em di‡logo com
outras linguagens e da elabora�‹o do sentido dela no mundo, Ž que se torna
poss’vel adentrar no campo das poŽticas orais. E nesse sentido, entram as
quest›es da palavra escrita, mas tambŽm sua rela�‹o com os cantos, as dan�as,
os ritmos, os gestos e, sobretudo, a voz.
O estudo da voz nas poŽticas orais
amplifica a certeza de um reconhecimento duplo para as quest›es da literatura oral:
primeiro a elucida�‹o de que essas poŽticas n‹o estavam centradas
especificamente nos estudos liter‡rios, mas na sua intersec�‹o e di‡logo entre
v‡rias ‡reas, interligando e compreendendo sua dimens‹o estŽtica, enquanto
norteadora da exist�ncia de uma no�‹o a respeito do performativo-liter‡rio que
ali surge. E a segunda trata especificamente sobre a import‰ncia do corpo
inscrito na literatura. Um corpo que tem historicidade, que se move e
movimenta, criando uma espŽcie de rito de si, composto de uma escritura e
permitindo-se ler, ˆ medida que transmite saberes oriundos de suas viv�ncias,
mem—rias e saberes.
A no�‹o de corpo como lugar de mem—ria,
representa o reconhecimento das dimens›es estŽticas e perform‡ticas da palavra,
uma vez que os aspectos art’sticos dos movimentos f’sicos e das express›es
corporais v‹o se agregando e entrela�ando em diferentes nuances aos aspectos
sem‰nticos da palavra escrita, atŽ se perpetrarem numa nova compreens‹o do
corpo como lugar de mem—ria. Isso, para os contadores de hist—rias orais, se
evidencia na expressividade latente de suas narrativas. Sobre essa sem‰ntica
poŽtica, Zumthor (2007, p. 78) elucida:
Nesse sentido, pode-se dizer que o
discurso poŽtico valoriza e explora um fato central, no qual se fundamenta, sem
o qual Ž inconceb’vel: em uma sem‰ntica que abarca o mundo (Ž eminentemente o
caso da sem‰ntica poŽtica), o corpo Ž ao mesmo tempo o ponto de partida, o
ponto de origem e o referente do discurso. O corpo d‡ a medida e as dimens›es
do mundo; o que Ž verdade na ordem lingu’stica, na qual, segundo o uso
universal das l’nguas, os eixos espaciais direita/esquerda, alto/baixo e outros
s‹o apenas proje�‹o do corpo sobre o cosmo. ƒ por isso que o texto poŽtico
significa o mundo. ƒ pelo corpo que o sentido Ž a’ percebido.
O lugar da poŽtica inscrita no corpo Ž
o ponto de partida para se compreender um universo que se abre no campo
epist�mico dos estudos das poŽticas orais, e, adentrar nos seus signos e
significados, Ž inicialmente repensar o poder da palavra poŽtica. AlŽm disso, Ž
fundamental analisar nesse jogo, a rela�‹o lœdica do corpo-poesia com as formas
narrativas que deles se extraem. Isso porque, atravŽs da performance em si, os
narradores ou contadores de hist—rias v‹o transmitindo suas leituras, suas
hist—rias e seus saberes, transmutando em mem—rias coletivas, o que antes era
compreendido apenas como experi�ncias individuais ou de um determinado grupo.
O texto poŽtico Ž, portanto,
ressignificado, ˆ medida que a fus‹o corpo-palavra-leitura se estabelece na
compreens‹o de que o texto est‡ em todas as coisas e lugares e que ele dialoga
com o corpo e sua corporeidade, estabelecendo essa rela�‹o da palavra escrita
com a palavra falada. Expressa nos ritos e rituais, a palavra escrita est‡,
portanto, atrelada a seus significados, mas para alŽm deles, se agrega tambŽm
ˆs mœltiplas linguagens do corpo e dos seus ritmos. Sobre isso, Derrida (2008,
p. 14) discute a respeito da necessidade de uma ruptura do logocentrismo na
escrita, e enfatiza:
Em todos os casos, a voz Ž o que est‡
mais pr—ximo do significado, tanto quando este Ž determinado rigorosamente como
sentido (pensado ou vivido) como quando o Ž, com menos precis‹o, como coisa.
Com respeito ao que uniria indissoluvelmente a voz ˆ alma ou ao pensamento do
sentido significado, e mesmo ˆ coisa mesma [...], todos significantes, e em
primeiro lugar o significante escrito, seria derivado. Seria sempre tŽcnico e
representativo. N‹o teria nenhum sentido constituinte. Esta deriva�‹o Ž a
pr—pria origem da no�‹o de ÒsignificanteÓ. A no�‹o de signo implica sempre,
nela mesma, a distin�‹o do significado e do significante, nem que fossem no
limite, como diz Saussure, como as duas faces de uma œnica folha. Tal no�‹o
permanece, portanto, na descend�ncia deste logocentrismo que Ž tambŽm um
fonocentrismo: proximidade absoluta da voz e do ser, da voz e do sentido do
ser, da voz e da idealidade do sentido.
AlŽm de uma proposta de disruptura com
a supremacia do texto escrito, essa concep�‹o vem reivindicar a necessidade de
um questionamento que a literatura necessita e prescreve a respeito do lugar da
palavra no ‰mbito das poŽticas orais e isso subverte e transcende a pr—pria
no�‹o de literatura, alŽm de abrir as portas para o fortalecimento dos estudos
da literatura oral na contemporaneidade. Nesse prisma, encontra-se a no�‹o de
corpo como rito, uma vez que a palavra pode ser lida para alŽm do texto
escrito, atravŽs da gestualidade e da performance que o narrador das
literaturas orais representa, a partir de suas narrativas. Se para Derrida
(2008) n‹o existe o fora do texto, a leitura do texto nunca se encerra em si
mesma e est‡ sempre aberta ˆ leitura do outro e de outros textos.
A quest‹o do texto, nesse sentido, se
resolve no di‡logo com o corpo enquanto palavra, pleno de toda a sua
historicidade. ƒ iluminada a no�‹o do corpo como performance da palavra, uma
vez que, partindo da premissa de que, se n‹o existe nada fora do texto, n‹o
existe tambŽm nada fora do corpo. Nesse sentido, a gestualidade assume sua import‰ncia
na compreens‹o dos textos das poŽticas orais, j‡ que Ž atravŽs da voz, dos
cantos, dos ritmos, das express›es que se encontra o tom da literatura oral.
Sobre isso, Zumthor (2007, p. 77), explica:
E nesse sentido que se diz, de maneira
paradoxal, que se pensa sempre com o corpo: o discurso que alguŽm me faz sobre
o mundo (qualquer que seja o aspecto do mundo de que ele me fala) constitui
para mim um corpo-a-corpo com o mundo. O mundo me toca, eu sou tocado por ele;
a�‹o dupla, revers’vel, igualmente v‡lida nos dois sentidos. Essa ideia,
eclipsada durante um certo tempo, renasce hoje, em uma espŽcie de volta ao
recha�ado, e, sem dœvida, ligado ao conjunto de fen™menos contempor‰neos que se
embrulham sob o termo duvidoso de p—s-modernidade. A generaliza�‹o, hoje, da
ideia de performance Ž uma das consequ�ncias.
Sobre esse conjunto de fen™menos
contempor‰neos a que se refere Zumthor, debru�a-se a import‰ncia dos estudos da
mem—ria e sua rela�‹o com a literatura oral. Legar ˆ hist—ria da literatura a
import‰ncia das narrativas enquanto compreens‹o de mundo ao redor se faz
necess‡rio nos estudos contempor‰neos, uma vez que a presen�a do narrador e
suas hist—rias esteve, vez por outra, envolvida com a no�‹o de tradi�‹o, como
sin™nimo daquilo que Ž passado, obsolescente ou, como prop›e a concep�‹o
benjaminiana de narrador, um conhecimento acabado em si e que deve ser
transmitido ˆs futuras gera�›es em suas formas mais puras, fixas e im—veis.
Ao contr‡rio, ouvir as hist—rias dos
narradores na contemporaneidade, buscando os sentidos de sua historicidade
latente, mas em conson‰ncia com sua mov�ncia, Ž o legado que as
literaturas orais na p—s-modernidade deixam para os estudos liter‡rios. E nessa
compreens‹o, se forem agregadas as quest›es das literaturas orais de origem
africana, Ž poss’vel enriquecer ainda mais essa perspectiva de valor de sua
historicidade e valora�‹o de mem—rias hist—ricas e sociais. Sobre a dimens‹o
estŽtica da cria�‹o liter‡ria africana, RisŽrio (1996, p. 24) assertivamente
destaca que
A riqueza da cria�‹o textual na çfrica Ž
um fato indisput‡vel. A menos que uma inten�‹o ideol—gica expl’cita tente
rasurar programaticamente a exist�ncia milenar do texto criativo naquele
continente, como na Žpoca em que fantasias racistas de calibre variado se esfor�aram
para expurgar o negro da esfera da espŽcie humana. Ali‡s, aqueles que um dia
pretenderam expulsar o negro do c’rculo da humanidade, ou quando nada,
confin‡-lo a um compartimento subterr‰neo desta, tipo dernier Žchelon da
espŽcie, tiveram diante de si, como obst‡culo intranspon’vel, a for�a e a
finura das produ�›es estŽticas africanas.
Com essa cr’tica assertiva em rela�‹o ˆ
recep�‹o do texto liter‡rio e ao reconhecimento da riqueza cultural que os
estudos liter‡rios legaram do continente africano, RisŽrio corrobora a
import‰ncia da valoriza�‹o das narrativas transmitidas pelos contadores de
hist—ria orais de origem africana. Esses s‡bios transmissores das suas origens,
atravŽs de pr‡ticas perform‡ticas da conta�‹o de hist—rias, atravŽs das
literaturas, dan�as, cantos e ritmo, encontram-se ainda hoje por todo o mundo,
exercendo a miss‹o de transmiss‹o dos saberes seculares t‹o fundamentais, mas
incipientemente valorizados e reconhecidos para a humanidade.
De fato, n‹o se pretende aqui adentrar
a conceitua�‹o das tem‡ticas dos gri™s, especificamente, no sentido de ampliar
a conceitua�‹o do termo, nem tampouco problematizar a fundo tais atribui�›es e
fun�›es, apesar de t‹o importantes e fundamentais para a hist—ria da
humanidade, porŽm a inten�‹o de traz�-los ˆ discuss‹o Ž lan�ar luz ˆ
import‰ncia da palavra – escrita e falada – africana, na
compreens‹o dos estudos da literatura oral, uma vez que os povos de origem
africana s‹o identificados e definidos como os mestres e mestras da palavra
oral, portanto est‹o sempre associados ao reconhecimento da import‰ncia das
poŽticas orais.
Enfim, a partir dessas reflex›es,
apreende-se a import‰ncia do corpo enquanto lugar de mem—ria, engendrado em
seus ritos, rituais e narrativas, uma vez que sendo compreendida a literatura
oral sob novas perspectivas paradigm‡ticas e epistemol—gicas, se compreende
tambŽm a import‰ncia da ressignifica�‹o do corpo como rito, corpo enquanto
leitor do mundo, uma vez que a palavra, seja ela escrita ou falada, est‡ no
mundo e que antes de tudo, Ž a partir do corpo que se chega a ela. Nesse
sentido, se refaz a compreens‹o da leitura da palavra, a leitura da escrita e a
conson‰ncia de ambas com a leitura da palavra-corpo-escrita.
Um estudo da mem—ria a partir das
narrativas orais: os mestres contadores de hist—rias da tradi�‹o e seu papel na
transmiss‹o da cultura
Os pequenos sonhos,
dizem os habitantes da floresta de Elgon, na çfrica Central, n‹o t�m grande
import‰ncia. Mas, se uma pessoa tiver um Òsonho grandeÓ, toda a comunidade deve
ser reunida para ouvi-lo. Ent‹o, como um elgoni sabe que foi um sonho grande?
Ao acordar, h‡ um sentimento instintivo sobre a sua significa�‹o para o grupo
– mant�-lo em segredo Ž um pensamento que nunca ocorre (Clyde W. Ford[100]).
Os sentidos on’ricos dos povos elgoni
descrevem claramente um cen‡rio permeado de mem—rias. Dessas mem—rias que
v‹o se recriando, ˆ medida que s‹o contadas, que s‹o trocadas, que s‹o
repassadas, como num conto, como num canto, como num sonho. No amplo sentido
te—rico, os estudos de mem—ria abarcam o campo cient’fico global que envolve e
intersecciona os estudos da psicologia, da hist—ria, das linguagens, do corpo e
suas rela�›es com o tempo-espa�o em que est‹o inseridos. Reconhecer, o que aqui
interessa a respeito desses estudos, os da mem—ria social dos povos, a partir
de uma perspectiva problem‡tica da hist—ria, explicam de certo modo, as
concep�›es do que vem a ser a mem—ria coletiva e quais s‹o os seus lugares
simb—licos e espaciais. Sobre isso, Candau (2019, p. 157) elucida:
A fun�‹o identit‡ria desses lugares fica
expl’cita na defini�‹o que Ž dada a eles pelo historiador: Òtoda unidade
significativa de ordem material ou ideal, da qual a vontade dos homens ou o
trabalho do tempo fez um elemento simb—lico do patrim™nio memorial de uma
comunidade qualquerÓ. Um lugar de mem—ria Ž um lugar onde a mem—ria trabalha.
Essa premissa vem complementar a no�‹o
de que se existem lugares de mem—ria, sejam eles f’sicos ou simb—licos e
imagŽticos-afetivos, a tradi�‹o poŽtica nos remeteria a esses lugares, a partir
de seus mitos, narrativas lend‡rias, ritos e rituais. No entanto, Candau (2019,
p. 164) traz ˆ luz a discuss‹o de que as mem—rias est‹o sempre em movimento em
rela�‹o ˆ sua historicidade e para que n‹o recaia no equ’voco de querer
mant�-la em conserva�‹o, elas devem obedecer um princ’pio de afirma�‹o de si
mesma, mas sendo compreendidas como um Ò projeto inacabadoÓ, sem a ideia
on’rica de conservar os fatos tais quais aconteceram, nem de se refazer o
passado, uma vez que a mem—ria coletiva s— se constitui a partir de uma
mov�ncia ativa, permeada de historicidade, estabelecendo as fronteiras, mas
perfazendo as lacunas entre passado e presente.
Le Goff (1990) entende a narra�‹o ou o
ato narrativo como um ato mnem™nico fundamental, ou seja, narrar hist—rias Ž,
em si, uma maneira de dialogar, gerir e experimentar as mem—rias, sejam elas
individuais ou coletivas. Imergido pelas no�›es do tempo, cabe estabelecer a
que dist‰ncia temporal essas mem—rias se constituem na dialŽtica distin�‹o
entre o tempo presente e os acontecimentos do passado. ƒ din‰mica, pois essa
distin�‹o se refaz ˆ medida da reciprocidade existente nesses di‡logos dos
tempos. Sobre isso, Le Goff (1990, p. 205) define:
A distin�‹o passado/presente que aqui nos
ocupa Ž a que existe na consci�ncia coletiva, em especial na consci�ncia social
hist—rica. Mas torna-se necess‡rio, antes de mais nada, chamar a aten�‹o para a
pertin�ncia desta posi�‹o e evocar o par passado/presente em outras
perspectivas, que ultrapassam as da mem—ria coletiva e da Hist—ria.
A import‰ncia da mem—ria, a partir das
perspectivas da transmiss‹o dos saberes do passado, Ž a de que os narradores e
mestres da oralidade definidos como seus principais difusores refazem e
salvaguardam um passado ancestral, permeado de saberes tradicionais em
conson‰ncia com as concep�›es dos estudos da mem—ria, da literatura oral e
todas as suas possibilidades de di‡logo. Sobre isso, Abib (2017, p. 89)
explica:
Talvez, uma das caracter’sticas mais
marcantes das manifesta�›es oriundas do universo da cultura popular, em
qualquer parte do mundo, e que nos remetem a essa l—gica diferenciada que
busquei analisar, sejam justamente as formas de transmiss‹o de seu passado –
que carrega a mitologia ancestral e os saberes tradicionais do grupo –
atravŽs de tr�s elementos fundamentais presentes nesse universo: a mem—ria, a
oralidade e a ritualidade.
Isso quer dizer das mem—rias
individuais e da maneira como elas v‹o se configurando como coletivas e
partilhadas, atravŽs dos processos como a oralidade e os rituais dos
narradores, fortalecendo a import‰ncia das tradi�›es, oriundas do passado, mas
n‹o perdendo de vista a no�‹o de cultura em movimento e tradi�‹o n‹o-est‡tica,
como prop›em Lopes e Simas (2020, p.75), que, ao explicarem o mito da vida,
morte e ressurrei�‹o, trazem claramente essa no�‹o de tradi�‹o em movimento.
Uma vez que a pr—pria vida se reinventa, reinventam-se tambŽm as
tradi�›es, os saberes e as hist—rias que se contam delas. Nesse sentido, fica
translœcida a no�‹o de que Ž atravŽs de mitos como esse que a
poderosa s’ntese da ideia de morte como
condi�‹o necess‡ria para que exista a vida, comporta uma fabulosa variante de
leitura e mostra como os saberes africanos normalmente se referem a uma ideia
de tradi�‹o que n‹o Ž est‡tica. Nas culturas orais, o conhecimento se
fundamenta no ato de se transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha
condi�›es de colocar mais um elo em uma corrente din‰mica e mut‡vel (LOPES;
SIMAS, 2020, p. 75).
Passado e presente se fundem nessa
din‰mica. Ainda assim, Ž substancial a representa�‹o das tradi�›es para a
constru�‹o de uma compreens‹o maior, que abarque rigorosamente os conceitos das
culturas, essas sendo compreendidas no plural, tal e qual mandam as quest›es
dos tempos contempor‰neos, uma vez que as identidades s‹o representadas como
mœltiplas (HALL, 2006), tambŽm as culturas pertencentes delas s‹o pluralizadas.
Mas a import‰ncia da tradi�‹o, como heran�a, como legado, como estrato e ponto
de partida dessas culturas, n‹o pode ser negada, esquecida e perdida na dan�a
do tempo. Por esses caminhos, os da tradi�‹o, Ž que se explicam a import‰ncia
das narrativas e principalmente dos narradores na tarefa de transformar os
saberes individuais em experi�ncias de mem—rias coletivas. Sobre isso,
entende-se que,
De fato, cada vez que no interior de um
grupo restrito as mem—rias individuais querem e podem se abrir facilmente umas
ˆs outras, como nos casos em que existe uma Òescuta compartilhadaÓ visando os
mesmos objetos (por exemplo, monumentos, comemora�›es, lugares que ter‹o o
papel de Òponto de apoioÓ, de Òsementes da recorda�‹oÓ), percebe-se ent‹o uma
focaliza�‹o cultural e homogeneiza�‹o parcial das representa�›es do passado
(CANDAU, 2019, p. 46).
Retoma-se assim, a quest‹o das poŽticas
orais e a sua interrela�‹o com a perspectiva da mem—ria, como se amarrasse o
fio de uma colcha de retalhos, na intersec�‹o entre as poŽticas orais com a
mem—ria e a tradi�‹o cultural e suas nuances existentes em conc—rdia com a
palavra escrita e inscrita no corpo. ƒ na import‰ncia ambivalente na elabora�‹o
das mem—rias, dentro do espa�o lœdico do tempo, que se estabelece a rela�‹o
entre mem—ria e as poŽticas orais. Desse encantamento entre ambas, percebe-se
que ÒMem—ria e poesia se encontram no jogo de cria�‹o do mundo. Jogo do tempo:
do que Ž, do que foi e do que ser‡, que ao se mostrar no canto do poeta,
instaura uma Žpoca hist—ricaÓ (ABIB, 2014, p. 94).
Assim, e por fim, Ž na escuta das
hist—rias dos narradores, das hist—rias da vida, da leitura da palavra,
compreendida aqui como palavra no mundo e com o mundo, Ž que nasce e cresce a
import‰ncia do contador de hist—rias e de todos os mestres da tradi�‹o que t�m
a miss‹o da transmiss‹o de saberes pelas vias da oralidade. Esses que est‹o
certamente a servi�o de algo maior, o de salvaguardar e dar movimento ˆs
mem—rias hist—ricas e saberes coletivos, construindo as culturas e rompendo as
lacunas, que ainda existem, entre o passado e o presente, entre a escrita e a
oralidade, num bonito jogo simb—lico de vida, morte e ressurrei�‹o.
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Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: UBU Editora, 2018.
_________. Performance, Recep�‹o, Leitura. Trad. Jerusa Pires
Ferreira e Suely Fenerich. 2. ed. rev. e
ampl. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.
[Recebido:16 fev 2021– Aceito: 16 mar 2021]
CONVIDADO
A poŽtica do retalho
The poetic of retail
Jo‹o Evangelista do Nascimento Neto[101]
https://orcid.org/0000-0003-4937-7311
Resumo:
Neste artigo, discute-se a constru�‹o de leituras tendo como analogia uma
colcha de retalhos. A partir de cada retalho – constela�‹o, rizoma,
intertextualidade, arquivo e semiologia –, Ž poss’vel tra�ar os percursos
de compreens‹o do texto, tendo como exemplo o Auto da Compadecida,
obra que alinhava tra�os da cultura popular e seu di‡logo interartes. Essa
poŽtica da leitura aqui apresentada constitui-se somente enquanto uma das
mœltiplas possiblidades de intera�‹o com o texto liter‡rio. Cada leitor,
certamente, costurar‡ seu cobertor de leituras.
Palavras-chave:
PoŽtica; Leitura; Popular.
Abstract: In this article, the construction of readings is discussed using a patchwork quilt as an analogy. From each patch: constellation, rhizome, intertextuality, archive and semiology, it is possible to trace the paths of understanding the text, taking, as an example, the Auto da Compadecida, a work that aligned traits of popular culture, and its interart dialogue. This poetics of reading presented here constitutes only one of the multiple possibilities of interaction with the literary text. Every reader will, of course, sew their blanket of readings.
Keywords: Poetics; Reading; Popular.
Como fazer uma coberta de
taco (ou colcha de retalhos)
Material necess‡rio:
- Peda�os de panos os mais variados poss’veis;
- Linha de costura;
- Agulha;
- Tesoura.
Instru�›es:
Ap—s ter ˆ m‹o todos os materiais, separa os
retalhos de pano e, com a tesoura, acerta os peda�os para que fiquem com
tamanhos semelhantes. Depois, com linha e agulha, costura um peda�o a outro
para materializar-se, enfim, a coberta. O tamanho dela depende de sua escolha
em ser ela para cobrir uma cama de casal ou de solteiro, o que pode ser medido
no pr—prio leito. O toque final Ž feito costurando-se as extremidades do
cobertor, a fim de n‹o desfiar ou rasgar. A’ est‡ pronta a coberta, muito usada
no ver‹o por ser leve, alŽm de deixar o ambiente agrad‡vel por suas multicores.
De como uma coberta de taco pode ter rela�‹o
com as leituras
Ler Ž um processo cont’nuo e de car‡ter
somat—rio. A leitura, termo genericamente usado no singular, na verdade, Ž
feita de leituras. Se um homem Ž resultado de suas leituras, essas surgem em
decorr�ncia das mœltiplas escritas, de inœmeros textos que se assomam ˆs
leituras da vida, ˆs leituras do Outro e de Si.
Para se fazer uma coberta de taco, Ž necess‡rio
adquirir uma sŽrie de retalhos. Do mesmo modo, para se estabelecer um homem, Ž
preciso ver o mosaico de leituras que o constru’ram.
Esse artigo constitui-se em um processo de
costura, dia ap—s dia, quando da apropria�‹o de cada retalho, de cada texto,
unido a outro artesanalmente, com linha e agulha, como Ž o racioc’nio humano.
Este texto representa as semelhan�as afetivas do leitor com suas refer�ncias de
vida, suas escolhas liter‡rias, assim como a costureira estabelece uma rela�‹o
afetuosa com a colcha que elabora com o esfor�o de suas m‹os.
Cada taco, cada retalho somado a outro
representa a multiplicidade de ÒeusÓ que permeiam o leitor, que habitam o
escritor. O resultado final da coberta, bela por sua variedade, Ž a analogia ao
leque de leituras de um ser humano.
O homem contempor‰neo Ž o ser detentor de uma
identidade mœltipla, l’quida, p—s-moderna. Esse homem fragmentado, esse ser
estilha�ado, ao contr‡rio do que os mais tradicionais podem supor, n‹o deve ser
visto com desvantagem; ao contr‡rio, a vida humana Ž um sucessivo catar de
fragmentos, um constante trabalho de alfaiataria. O que est‡ rasgado pode ser
novamente costurado. Se o retalho est‡ desgastado, pode ser cerzido. O homem Ž
um ser inacabado, em constru�‹o. Cada retalho que adquire em sua vida pode ser
acrescido a seu cobertor. Essa manta n‹o precisa ter tamanho exato,
determinado. ƒ sempre poss’vel adicionar mais um taco a ela.
O narrador, nesse instante, pede licen�a ao
leitor para usar a 1» pessoa do singular, j‡ que ele falar‡ de si pr—prio.
Assim, o ÒeleÓ deve ceder espa�o ao ÒeuÓ, para particularizar aquilo que relata
pela sua mem—ria, o instrumento de que disp›e, para descrever o que sente, quem
Ž, mesmo, felizmente, sendo um produtor inacabado, ainda h‡ mais para trilhar,
e pretende, com �xito, acrescentar mais tacos ˆ colcha da sua vida.
1¼ retalho: a constela�‹o
Eu inicio o relato, em primeira pessoa, citando
ÒO menino que carregava ‡gua na peneiraÓ, de Manoel de Barros:
Tenho um livro sobre ‡guas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava ‡gua na peneira.
A m‹e disse que carregar ‡gua na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irm‹os.
A m‹e disse que era o mesmo que catar espinhos na ‡gua
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em desprop—sitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.
[...]
A m‹e reparava o menino com ternura.
A m‹e falou: Meu filho voc� vai ser poeta.
Voc� vai carregar ‡gua na peneira a vida toda.
Voc� vai encher os vazios com as suas peraltagens
e algumas pessoas v‹o te amar por seus desprop—sitos.[102]
Carregar ‡gua na peneira, criar peixe no bolso,
costurar peda�os de panos. A priori,
atividades v‹s, sem fins pr‡ticos ou de pouca valia. Mas pensa dessa forma quem
nunca sentiu o prazer de levar a ‡gua na peneira e molhar-se com ela,
refrescando-se num dia quente de ver‹o. Quem considera um ato insano criar um
peixe no bolso, n‹o experimentou a satisfa�‹o de peg‡-lo e senti-lo perto,
sempre junto, como um amigo que est‡ ali ˆ m‹o para todo intento. Aquele que
pondera ser loucura costurar tacos de panos sem fim, n‹o pressente que de meros
peda�os de restos de tecidos pode surgir uma colcha capaz de aquecer alguŽm
numa noite mais fria.
Eu persigo os desprop—sitos da literatura,
encanto-me com eles, seduzo-me por eles. Pela literatura, Ž poss’vel olhar
alŽm, porque se pode enxergar para dentro. AtravŽs do texto liter‡rio, eu
tambŽm cato os espinhos na ‡gua que levo em minha peneira (creio que todos os
seres humanos possuem suas peneiras com ‡gua para levar por sua vida, mas
alguns a abandonam no meio do caminho). Eu sei que o mundo contempor‰neo, com
sua velocidade, seu tempo reduzido, exige, de cada um, praticidade, mas eu
insisto em parar, muitas vezes, para recolher tais espinhos, mesmo furando os
dedos, da peneira que levo, em meio ˆ ‡gua que dela escorre e que torno a
encher. N‹o me esquivo da tarefa de pegar os espinhos, nem do trabalho de
buscar remŽdio para sarar as feridas, paradoxalmente, na mesma peneira e com a
mesma ‡gua.
Esses desprop—sitos enchem a alma, conduzem a
vida, e d‹o olhos de lince. Olhar para o interior Ž o mais dif’cil tipo de
vis‹o que existe. Olhar para dentro Ž enxergar a si pr—prio, com todas as suas
idiossincrasias, reconhecendo os seus ÒeusÓ. Ao ver intrinsecamente, eu aprendo
a ver melhor o Outro.
Da’, com agulha e linha, eu costuro a minha
coberta. Todo dia, eu junto a ela um retalho diferente do outro que juntei
anteriormente. Diferentemente de PenŽlope, ao esperar seu amado, a coberta n‹o
Ž desfeita, mas acrescida, complementada. O cobertor Ž um emaranhado de
tecidos, como o cŽu Ž uma profus‹o de estrelas. Ao olhar a ab—bada celeste, n‹o
sei quando uma estrela est‡ viva, ou ali apenas Ž o seu brilho que chega atŽ
mim, mas ela, a estrela, aproxima-se, lan�a sua luz, deixa seu rastro.
Olhar estrelas no cŽu tem rela�‹o com fazer uma
coberta de taco. Perceber as inœmeras estrelas que habitam o firmamento,
observar sua luz, determinar cada origem, Ž t‹o desprop—sito quanto procurar a
origem de cada retalho. ƒ por isso que a literatura se prop›e aos
desprop—sitos. A ci�ncia esquiva-se daquilo que, para ela, Ž irracional,
procura provar e comprovar suas teorias, seus tratados. A literatura busca o
ser, aposta no sentir. Nesses desprop—sitos, eu me lan�o, eu me perco no meio
das estrelas, eu me absorvo por entre os peda�os de pano. Ao perder-me,
encontro-me, para perder-me novamente, a fim de conhecer outras facetas de mim
mesmo.
Para Maurice Blanchot, a Constela�‹o nasce
daquilo que n‹o Ž conhecido, do espa�o da pr—pria obra. E falo de estrelas e
assemelho-as ˆ literatura. Esse vazio deixado por toda obra Ž o espa�o a ser
preenchido pelo leitor. Sou eu, leitor, que preciso seguir os rastros de luz
deixados pelos textos, que s‹o fachos n‹o lineares, s‹o luzes que fazem
ziguezagues, que se entrela�am com outras fa’scas, como os textos fazem
rela�›es a outros textos, como leituras da contemporaneidade dizem sobre textos
medievais, assim como as p‡ginas escritas podem falar tanto do homem, dialogar
comigo, sobre mim. Para o autor,
a ess�ncia da literatura escapa a toda
determina�‹o essencial, a toda afirma�‹o que a estabilize ou mesmo que a
realize; ela nunca est‡ ali previamente, deve ser sempre reencontrada ou
reinventada. (BLANCHOT, 2005, p. 294).
Como os peda�os de pano precisam ser
reinventados para tornarem-se, juntos, mas sem ordem a ser seguida, sem
estabelecimento de come�o ou fim, apenas uma combina�‹o aleat—ria, uma colcha;
as estrelas s‹o reinventadas pelo rastro que deixa no cŽu. A literatura deixa
seus rastros. O leitor segue-os, refazendo os caminhos, abrindo picadas,
forjando estradas. Muitos desses caminhos n‹o s‹o abertos pelo escritor, mas
pelo pr—prio leitor, ao seguir os rastros que ficam, ao sair ˆ procura dos
retalhos, mas tambŽm seguindo sua intui�‹o, seus anseios, enxergando-se atravŽs
dos rastros, materializando-se na jun�‹o de cada taco de pano, no processo de
coautoria do texto: ÒA leitura Ž opera�‹o, Ž obra que se cumpre suprimindo-se,
que se prova confrontando-se com ela mesma e se suspende ao mesmo tempo que se
afirmaÓ (BLANCHOT, 2005, p. 357-358).
A leitura Ž um estar em movimento ao permanecer
est‡tico. Um devir interior, que promove a transforma�‹o do mundo. Meu mundo se
suprime, comprime-se diante do texto, mas expande-se, num processo contr‡rio,
como o universo o faz (ou fez um dia, segundo alguns cientistas). ƒ o inverso
do reverso de mim, aben�oado pelos deuses da literatura, plainando sobre mim, a
sussurrar em meus ouvidos cantos poŽticos de amor, louvores ˆ inquietude de meu
ser, mas tambŽm amaldi�oado pelos dem™nios que habitam em mim, que voam sob
minhÕalma, defenestrando meus sonhos, enxertando novos ideais. Ler um texto Ž
sentir as palavras com o cora�‹o divino ressoarem na pele com prazer diab—lico.
Segundo Roland Barthes,
Texto de prazer: aquele que contenta, enche, d‡
euforia; aquele que vem da cultura, n‹o rompe com ela, est‡ ligado a uma
pr‡tica confort‡vel da leitura. Texto
de frui�‹o: aquele que p›e em estado de perda, aquele que desconforta (talvez
atŽ um certo enfado), faz vacilar as bases hist—ricas, culturais, psicol—gicas
do leitor, a consist�ncia de seus gestos, de seus valores e de suas lembran�as,
faz entrar em crise sua rela�‹o com a linguagem (BARTHES, 2010, p. 20-21).
Para o te—rico, a Babel liter‡ria Ž benquista,
bem-vinda, recebida com festa, com gl—rias. O texto de prazer abre espa�o para
o texto de frui�‹o. Um deixa o leitor acomodado, o outro cutuca, incomoda, tira
o sono. O primeiro nina o leitor em suas p‡ginas, o segundo tira-lhe o sono. H‡
textos que exercem as duas fun�›es: eles apresentam-me os meus deuses e diabos
cotidianos. Esses textos n‹o podem ser classificados genericamente, dependem do
olhar pessoal de cada leitor. E assim, vai-se fazendo a literatura, com linha
de algod‹o mercerizado ou linha mista (mais usadas em costuras) e uma agulha
para acolchoar (que costura com mais precis‹o e rapidez), ideologias s‹o
questionadas, novos pensamentos costurados, entrela�ados a tantas outras
ideias, alegrias somadas a tristezas vividas. Assim sou eu, assim Ž o ser
humano, assim Ž a literatura, a mais perfeita cria�‹o do imperfeito homem.
2¼ retalho: o rizoma
O manguezal Ž um ecossistema costeiro, que
transita entre os ambientes terrestre e marinho. Existe nas regi›es tropicais e
subtropicais, Ž poss’vel encontr‡-lo em foz de rios. No mangue, encontram-se
vegeta�‹o t’pica e vida animal em abund‰ncia, aves, peixes, mam’feros, rŽpteis
e invertebrados, como os apreciados siris e caranguejos. Seu solo Ž rico em
nutrientes, por isso as ‡rvores desenvolvem-se com facilidade, mas, com solo
lodoso, as plantas precisam adaptar-se, para tal, utilizam-se de ra’zes aŽreas,
para facilitar a oxigena�‹o, mas bem fincadas no ch‹o.
Na bot‰nica, as ra’zes que se fasciculam s‹o
chamadas de rizomas. Os rizomas funcionam como —rg‹os de reprodu�‹o dos
vegetais. Da raiz principal, surgem outras ra’zes em diferentes dire�›es,
fazendo brotar outras plantas. Em um momento, ao leigo, Ž dif’cil perceber qual
a raiz principal, j‡ que outras germinam dela. Assim Ž a raiz da vegeta�‹o do
manguezal. Ela Ž um emaranhado de ra’zes, que se confundem umas as outras. Num
mangue, n‹o h‡, ˆ primeira vista, como estabelecer uma separa�‹o. O mangue
resiste pela uni‹o de sua vegeta�‹o, pela for�a de suas ra’zes que, juntas, s‹o
mais fortes. O mangue resiste ˆ ‡gua e ao solo arenoso, fluido. O manguezal Ž
um local de reprodu�‹o de v‡rias espŽcies animais e vegetais, atuando como
manuten�‹o do equil’brio da natureza. O mangue Ž for�a vital, seus rizomas, com
mœltiplas entradas, geram outras vidas, sustentam exist�ncias. A ‡rvore Ž o que
se v�, aquilo que se contempla majestosa, mas ela nada seria sem a sua raiz,
principalmente numa regi‹o de manguezal.
Uma colcha de retalhos Ž como um manguezal.
Cada peda�o de pano, rizom‡tico, une-se a outro, tambŽm rizom‡tico, formando um
todo onde cada parte ainda Ž percept’vel, mas indissoci‡vel. Numa coberta de
taco, os elementos, de tamanhos diferentes, de cores peculiares, de estampas
espec’ficas, simbolizam aquilo que o mangue evidencia: a uni‹o das diferen�as.
Conforme Jœlia Kristeva, Òtodo texto Ž um mosaico de cita�›es, todo texto Ž
absor�‹o e transforma�‹o de outro textoÓ (KRISTEVA, 1974, p. 64). Todo texto Ž,
portanto, como as ra’zes de um manguezal, ou como uma colcha de retalhos.
Uma coberta de taco Ž um texto, mœltiplo em sua
unidade, formada por rizomas, seguindo o conceito de Gilles Deleuze e FŽlix Guattari.
Para os autores,
uma das caracter’sticas mais importantes do
rizoma talvez seja a de ter sempre mœltiplas entradas [...]. Ele n‹o Ž feito de
unidades, mas de dimens›es, ou antes de dire�›es movedi�as.
[...]
Um rizoma n‹o come�a nem conclui, ele se
encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo (DELEUZE; GUATTARI, 1995, p. 22. 37).
Um texto rizom‡tico remete o leitor a outros
textos que o direcionam a demais leituras, numa estrutura fascicular
intermin‡vel. Meu contato com um rizoma se deu por intermŽdio da microssŽrie O Auto da Compadecida, de Guel Arraes,
que foi ao ar em 1999, pela Rede Globo. Com quatro cap’tulos, a adapta�‹o do
texto teatral, Auto da Compadecida,
de Ariano Suassuna, escrito em 1955 e encenado pela primeira vez em Recife no
ano de 1957, acenou para mim como um intertexto que pulsava vida, que possu’a
for�a e falava aos meus ouvidos, tocava na minha alma.
Percebi, durante os quatro cap’tulos da sŽrie,
a Literatura de Cordel emergindo das vozes de cada personagem. Em cada situa�‹o
narrada, o cheiro do sert‹o nordestino passeava por meu corpo, subia as minhas
narinas, chegava ao meu cŽrebro. Mas cada texto de cordel usado por Suassuna,
em sua pe�a, tambŽm evoca outros textos. O pr—prio autor paraibano deixa-se
tomar, em sua pena, por obras portuguesas, como as do autor Gil Vicente, ou de
resqu’cios cavalheirescos de Miguel de Cervantes, ou ainda do humor social de
Moli�re. Ë adapta�‹o, para a televis‹o e posteriormente para o cinema, ainda se
acresce William Shakespeare. Enfim, o rizoma se faz com o di‡logo sem come�o
estabelecido, sem fim aparente, como as ra’zes de um manguezal, como os tecidos
que formam uma colcha de retalhos.
3¼ retalho: a
intertextualidade
Se fosse poss’vel resumir o Auto da Compadecida em uma s— palavra,
esta seria, certamente, a intertextualidade. Os textos de cordŽis, fonte
primeira de inspira�‹o do autor, ajudam na tem‡tica de cada ato da pe�a.
O folheto O
dinheiro (O testamento do cachorro),
de Leandro Gomes de Barros, possui, como enredo, as peripŽcias de um dono para
sepultar seu c‹o com um ritual fœnebre. O texto, de cunho religioso e
moralizante, esfor�a-se por associar a imagem da avareza e da gan‰ncia como os
males da humanidade:
O dinheiro neste mundo
N‹o h‡ for�a que o debande,
Nem perigo que o enfrente,
Nem senhoria que o mande.
Tudo est‡ abaixo dele
S— ele Ž quem Ž grande.
[...]
Eu j‡ vi narrar um fato
Quer fiquei admirado,
Um sertanejo me disse
Que nesse sŽculo passado
Viu enterrar um cachorro
Com honras de um potentado.
(BARROS, 2005, p. 1. 5).
Por dinheiro, que constava no testamento
deixado pelo c‹o, o Vig‡rio da par—quia e o Bispo concordam com a celebra�‹o
estapafœrdia. O enterro teve ladainha e encomenda�‹o do corpo. Segundo o
narrador, nem todo ser humano tinha o privilŽgio de tantas honrarias em seu
sepultamento. Aqui, a Igreja Ž condenada por seus desvios. Embora n‹o haja um
desejo de destruir a institui�‹o, seus membros s‹o expostos ao rid’culo, a fim
de haver um conserto desses que deveriam ser os guias espirituais do povo.
Ariano
Suassuna adapta o folheto de Leandro Gomes de Barros acrescendo a ele a
celebra�‹o do fŽretro em latim, como exig�ncia da esposa do padeiro:
JOÌO
GRILO: ƒ Chic—, o padre tem raz‹o. Quem vai ficar engra�ado Ž ele e uma coisa Ž
benzer o motor do Major Ant™nio Moraes e outra Ž benzer o cachorro do Major
Ant™nio Moraes.
PADRE
(m‹o em concha no ouvido): Como? [...]. E o dono do cachorro de quem voc�s
est‹o falando Ž Ant™nio Moraes? [...]. N‹o vejo mal nenhum em se aben�oar as
criaturas de Deus (SUASSUNA, 2004, p. 23-24).
Suassuna intensifica a denœncia contra o clero,
pois, para o autor, a religi‹o Ž um meio de reforma social. Protestante
convertido ao catolicismo, o teatr—logo condena os v’cios humanos,
atribuindo-lhes as causas da degeneresc�ncia Žtica e moral humana.
Em A
hist—ria do cavalo que defecava dinheiro, tambŽm de Leandro Gomes de
Barros, a hist—ria se passa entre dois compadres, de situa�‹o financeira
bastante distinta. O pobre vinga-se do rico por sua sovinice, vendendo-lhe um
cavalo que defeca moedas:
Na cidade de MacaŽ
Antigamente existia
Um duque velho invejoso
Que nada o satisfazia
Desejava possuir
Todo objeto que via
Esse duque era compadre
De um pobre muito atrasado
Que morava em sua terra
Num rancho todo estragado
Sustentava seus filhinhos
Na vida de alugado
[...]
Foi na venda de l‡ trouxe
Tr�s moedas de cruzado
Sem dizer nada a ninguŽm
Para n‹o ser censurado
No fiof— do cavalo
Foi o dinheiro guardado.
(BARROS, 2006, p. 1-2).
Como forma de puni�‹o pela sovinice, o compadre
pobre ati�a a cobi�a do amigo, vendendo-lhe o animal que ÒdescomeÓ dinheiro, em
seguida, uma rabeca que ressuscita mortos. Desse modo, obtŽm sua vingan�a e
livra-se do vizinho avaro.
No Auto
da Compadecida, o cavalo foi trocado, por quest›es de montagem teatral, por
um gato. A rabeca transforma-se em gaita e utilizada na cena em que Severino de
Aracaju intenta matar Grilo e seu companheiro Chic—:
GRILO: Agora vou dar uma punhalada na barriga
de Chic—.
CHICî: Na minha, n‹o!
GRILO: Deixe de moleza, Chic—. Depois eu toco
na gaita e voc� fica vivo de novo! [Murmurando, a Chic—.] A bexiga, a bexiga!
(SUASSUNA, 2004, p. 113).
A artimanha para enganar Severino n‹o d‡ certo.
Embora iludido em ver o Padre C’cero, e retornar ˆ vida, o cabra do Capit‹o
mata Grilo, dando origem ao œltimo ato da pe�a, o julgamento das personagens.
No texto O
Castigo da soberba, an™nimo, o bar‹o e sua esposa s‹o julgados por sua
avareza, tendo seus atos expostos no julgamento celestial. Os dois personagens,
no folheto, encarnam os sete pecados capitais, sendo defendidos por Nossa
Senhora:
(Alma) – ÒRainha, M‹e Amorosa,
Esperan�a dos mortais,
Quem recorre a vosso nome
Sei que n‹o desamparais,
Eu, pegando em vossos pŽs
Sei que n‹o largo eles mais.Ó
(Maria) – ÒPois, alma, demora a’,
Enquanto eu vou consultar,
Fazer pedido a meu Filho,
Ver se eu posso te salvar,
Ver se teus grandes pecados
Tem grau de se perdoar.Ó
(C‹o) – ÒComo esta tal Maria
Eu mesmo nem nunca vi:
Uns pedem por interesse,
Pedem porque Ž pra si,
Mas ela pede Ž pros outros,
N‹o se enjoa de pedir...Ó
(MOTA, 1955, p. 175).
A alma consegue a justifica�‹o atravŽs da sua
advogada de defesa, Nossa Senhora, que intercede junto ao juiz, Jesus Cristo, a
fim de obter a reden�‹o de seu cliente, o homem. O C‹o, promotor nesse
julgamento, Ž envergonhado e n‹o logra �xito em seus intentos.
No texto suassuniano, a cena do julgamento dura
todo o terceiro (e œltimo) ato da pe�a. Todos os personagens ficam diante do
juiz Manuel que, negro, ainda encontra espa�o para discutir quest›es de
discrimina�‹o racial:
De
repente, Jo‹o ajoelha-se, como que levado por uma for�a irresist’vel e fica com
os olhos fixos fora. Todos v‹o-se ajoelhando vagarosamente. O Encourado volta
rapidamente as costas, para n‹o ver o Cristo que vem entrando. ƒ um preto
retinto, com uma bondade simples e digna nos gestos e nos modos. A cena ganha
uma intensa suavidade de iluminura. Todos est‹o de joelhos, com o rosto entre
as m‹os.
ENCOURADO:
[de costas, grande grito, com o bra�o ocultando os olhos] Quem Ž? ƒ Manuel?
MANUEL:
Sim, Ž Manuel, o Le‹o de Jud‡, o Filho de Davi. Levantem-se todos, pois v‹o ser
julgados (SUASSUNA, 2004, p. 136-137).
O ato do julgamento conta com Jo‹o Grilo
intermediando a pondera�‹o feita pelo Encourado para cada rŽu, a saber: o
Padre, o Bispo, o Padeiro e sua Esposa. Severino livra-se do inferno por seu
passado de sofrimento. E Grilo consegue retornar ao sert‹o, angariando uma
segunda oportunidade de remiss‹o.
A personagem da pe�a fora retirada do folheto Proezas de Jo‹o Grilo, de Jo‹o Ferreira
de Lima. Retratado como um garoto sem atributos f’sicos, mas dotado de uma
grande intelig�ncia. Grilo doutora-se em realizar golpes, transformando-se no
mais famoso p’caro do Nordeste:
Jo‹o grilo foi um ente
Que nasceu antes do dia
Criou-se sem formosura
Mas tinha sabedoria
E morreu depois das horas
Pela arte que fazia.
[...]
Jo‹o Grilo tinha um costume
Pra toda parte que ia
Era alegre e satisfeito
No conv’vio da alegria
Jo‹o Grilo fazia gra�a
Que todo mundo sorria.
(LIMA, 1979, p. 1. 5).
O Grilo, de Suassuna, ap—s sair de Portugal,
integrou-se ao Nordeste do Brasil, povoando o imagin‡rio brasileiro. Suas
hist—rias s‹o contadas, seus feitos repassados por jovens e velhos, por ricos e
pobres. O riso que surge do rosto de quem ouve concorre com a alegria que nasce
do semblante do contador. O c™mico existente nos contos, diversos folhetos,
hist—rias infantis, pe�a de teatro, mantŽm vivo, no leitor/espectador, o desejo
de uma vida mais justa.
H‡, no sert‹o brasileiro, uma rela�‹o ’ntima
com o medievo. As hist—rias relatadas, os ÒcausosÓ vivenciados, ainda exercem
uma intimidade com costumes cristalizados na cultura local. Essa manuten�‹o de
um pensamento, de certos costumes pode ser vista no texto de Suassuna:
A medievalidade se faz notar ainda, em Suassuna, atravŽs da tŽcnica
do teatro Žpico crist‹o, com suas modalidades espec’ficas e seus personagens
estereotipados. [...] sendo a cultura popular nordestina acentuadamente
medievalizante, aquela marca atua como uma espŽcie de fonte para o pr—prio
romanceiro, onde o aspecto religioso se refor�a n‹o s— por causa da
religiosidade popular da regi‹o como tambŽm pela op�‹o pessoal da cren�a do
autor, convertido ao catolicismo na maturidade (VASSALLO, 1993, p. 29-30).
Esse tom moralizante proporciona um discurso,
muitas vezes, manique’sta. H‡ o certo e o errado, o bem e o mal. Esse discurso,
muito recorrente no medievo, encontra altos ecos ainda em v‡rios lugares do
Nordeste.
O texto de Suassuna, suas fontes no cordel e
sua influ�ncia do catolicismo popular remetem ˆ discuss‹o empreendia por
Deleuze e Guattari (1977, p. 25. 28) ao defenderem que
Uma literatura menor n‹o Ž a de uma l’ngua
menor, mas antes a que uma minoria faz em uma l’ngua maior.
[...]
As tr�s caracter’sticas da literatura menor s‹o
de desterritorializa�‹o da l’ngua, a ramifica�‹o do individual no
imediato-pol’tico, o agenciamento coletivo de enuncia�‹o. Vale dizer que
ÒmenorÓ n‹o qualifica mais certas literaturas, mas as condi�›es revolucion‡rias
de toda literatura no seio daquela que chamamos de grande (ou estabelecida).
O Auto da
Compadecida faz parte de uma discuss‹o sobre literatura universal e
literatura regional. A concep�‹o de literatura menor Ž atribu’da levando-se em
considera�‹o, como afirmaram Deleuze e Guattari, quest›es ideol—gicas,
pol’ticas e lingu’sticas. O lugar de onde se fala Ž importante para o
estabelecimento de uma classifica�‹o. O Nordeste Ž um lugar ideologicamente de
subalternidades. Mesmo Suassuna, um erudito, Ž um escritor regional, segundo o
c‰none, por ter ÒcedidoÓ ˆ literatura popular.
Politicamente, o sert‹o ainda Ž visto como um
lugar de coronŽis, cujo povo segue dominado, n‹o pensa, n‹o produz cultura.
Todas as express›es feitas pelo sertanejo surgem como subcultura, reinando no
campo do folclore, de uma tradi�‹o est‡tica, portanto, morta.
Toda classifica�‹o Ž arbitr‡ria. Todo
hermetismo revela uma incompletude, uma insatisfa�‹o. Um texto n‹o cabe em uma
caixa, n‹o se sente c™modo em um cofre. Os folhetos de cordel ou a pe�a Auto da Compadecida s‹o textos
regionais, mas n‹o somente isso, tambŽm se constituem obras nacionais, mas
tambŽm n‹o s‹o apenas isso. Um texto Ž o tudo e Ž o nada:
a obra somente Ž obra quando ela se converte na
intimidade aberta de alguŽm que a escreveu e de alguŽm que a leu, o espa�o
violentamente desvendado pela contesta�‹o mœtua do poder de dizer e do poder de
ouvir (BLANCHOT, 1987, p. 29).
Uma obra Ž um comp�ndio com lacunas a serem
preenchidas pelo leitor. Esse que n‹o respeita, necessariamente, as nomea�›es e
classifica�›es oficiais. Literatura menor, universal, nacional, homoer—tica, de
g�nero, Žtnica. Talvez nomenclaturas que defendam um espa�o de fala, mas tambŽm
que excluem tantas outras. Para o leitor, para mim, leitor, o texto Ž um mundo
a ser descoberto, um espa�o que precisa ser nomeado. Sou eu, leitor, quem o
fa�o. As palavras est‹o ali, mas Ž preciso Òpenetrar surdamenteÓ nesse ambiente
ˆ espera do que h‡ por vir. ƒ imprescind’vel entregar-se a este mundo, a este
tempo. Nesse instante, n‹o importam c‰nones, classifica�›es s‹o indiferentes. ƒ
a obra, sou eu e o mundo a desvendar.
4¼ retalho: o arquivo
O mundo processa uma sŽrie de informa�›es,
produz conhecimentos que precisam ser guardados. Existe armazenamento para tudo
na contemporaneidade. Em uma empresa, a vida de cada funcion‡rio Ž arquivada. Na
Igreja, h‡ o rol de membros de seus fiŽis. No clube, existe a rela�‹o de
associados com suas informa�›es pessoais. Para cada livro publicado no Brasil,
uma c—pia Ž envida para a Biblioteca Nacional. Enfim, o arquivo Ž lugar de
lembran�a e de esquecimento. Representa o est‡tico, o imut‡vel. ƒ a mem—ria e a
tradi�‹o, o espa�o do tempo perdido.
Cada retalho Ž um arquivo em potencial. Cada
taco fez parte de uma pe�a espec’fica de pano, que foi utilizado para a
confec�‹o de uma roupa, cujas sobras foram relegadas a segundo plano. Mas atŽ
chegar ao abandono, teve impressa em si a ideia de tecido, o prot—tipo de uma
roupa. Ao ser utilizado em uma colcha de retalhos, adiciona a si mais uma
impress‹o, somada a tantas outras de diversos tacos.
Por isso, n‹o compreendo o arquivo como algo
morto, inerte. H‡, certamente, a possibilidade de um conhecimento estar
engavetado, abandonado, esquecido, mas o arquivo Ž, alŽm disso, e talvez o mais
importante, o lugar de onde se pode dispor de saberes.
Eu recorro ˆ mem—ria, enquanto arquivo
individual ou coletivo, para ativar conhecimentos. Ao faz�-lo, tal conhecimento
Ž re-elaborado, re-visto. O car‡ter de passividade n‹o se sustenta. O pr—prio
livro pode ser compreendido como um arquivo: ÒUm texto s— Ž um texto se ele
oculta ao primeiro olhar, ao primeiro encontro, a lei de sua composi�‹o e a
regra de seu jogo. Um texto permanece, ali‡s, sempre impercept’vel. (DERRIDA,
2005, p. 7).
Enquanto arquivo que, talvez nunca se mostre, o
livro precisa ser tocado por mim, leitor, e vice-versa, n‹o para dissec‡-lo,
mas para que eu, enquanto leitor, busque o meu saber, encontre as respostas
para os meus questionamentos e, inclusive, suscite outras dœvidas sobre mim e
sobre o mundo.
Os
arquivos s‹o um dep—sito em estado de lat�ncia. O arquivista Ž quem lhe d‡
sentido. O livro Ž um ser ˆ espera do encontro. O dom’nio do arquivo est‡ nas
m‹os de quem o ordena, daquele que o consulta. O livro foge do poder de seu
autor, escapa por entre seus dedos. Ao autor, cabe o escrever, o finalizar a
escrita. Sou eu, leitor, quem a continuo:
O dom’nio do escritor n‹o est‡ na m‹o que
escreve [...]. O dom’nio Ž sempre obra da outra m‹o, daquela que n‹o escreve,
capaz de intervir no momento adequado, de apoderar-se do l‡pis e de o afastar.
Portanto, o dom’nio consiste no poder de parar de escrever, de interromper o
que se escreve, exprimindo os seus direitos e sua acuidade decisiva no instante
(BLANCHOT, 1987, p. 15-16).
Crendo nessa concep�‹o de arquivo, como algo
que exerce duas for�as concomitantes, de um lado, a for�a intr’nseca, que
mantŽm a tradi�‹o, do outro, a extr’nseca, que promove o novo, Ž que percebo no
Auto da Compadecida um arquivo vivo,
impregnado da presen�a de textos diversos, de Žpocas diferentes, que dialogam
com a pe�a teatral do autor paraibano.
Ler o texto de Suassuna Ž deparar-me com a
influ�ncia do texto vicentino. Assim como o autor lusitano, Ariano Suassuna
apoia seu texto na r’gida moral crist‹ medieval. H‡ uma rela�‹o entre a
ÒtrilogiaÓ da Barca com o Auto,
quando do julgamento dos personagens por seus atos cometidos por toda a vida.
Em Gil Vicente, no entanto, reina um cristianismo oficial, n‹o cedendo espa�o
para inser�›es de cren�as populares, como no texto brasileiro.
O onzeneiro, a alcoviteira, o fidalgo, o
sapateiro s‹o exemplos de classes sociais representadas nÕO Auto da Barca do Inferno. NÕO
Auto da Barca do Purgat—rio, tem-se personagens da classe popular, como um
pastor, uma mexeriqueira, um blasfemador. Aqui, o purgat—rio, espa�o
intermedi‡rio entre o cŽu Ž o inferno, Ž o caminho do meio, a via alternativa
para a senten�a divina. J‡ nÕO Auto da
Barca da Gl—ria, as personagens pertencentes ˆ aristocracia, Papa, Bispo,
Duque, s‹o perdoadas mediante arrependimento.
Nesses textos, cada personagem personifica um
pecado capital. Tais falhas precisam ser expurgadas do seio da sociedade, como
meio de reeducar o ser humano. A religi‹o como forma de ensino, elemento de
repress‹o do mal que habita o ’ntimo do homem. H‡ toda uma constru�‹o, em Gil
Vicente, para amedrontar os espectadores de suas pe�as. Diabos, inferno e
purgat—rio, seres e espa�os m’ticos que povoam o imagin‡rio medieval e que se
materializam na vida cotidiana daquele per’odo:
Comen�a a declara�‹o e argumento da obra.
Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de
expirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per for�a havemos de passar em
um de dous batŽis que naquele porto est‹o, scilicet, um deles passa pera o
para’so e o outro pera o inferno: os quais batŽis tem cada um seu arrais na
proa: o do para’so um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro
(VICENTE, 1965, p. 27).
O cŽu, o inferno e o purgat—rio tambŽm s‹o
evocados no Auto da Compadecida. Mas
em Suassuna, tais espa�os j‡ foram impregnados pelo catolicismo popular,
permeados de influ�ncias do espiritismo, bem como das culturas negra e
ind’gena:
O catolicismo popular se exprime mediante
elementos culturais, e as culturas populares, por meio de elementos religiosos.
A simbiose, em alguns casos, Ž t‹o forte que n‹o Ž f‡cil distinguir o que
pertence ˆ religi‹o do que pertence ˆ cultura (GOIS, 2004, p. 11).
No Auto,
Ž durante o julgamento que Jo‹o Grilo exercita toda sua ret—rica. Convence
Manuel a enviar os rŽus para o Purgat—rio, Severino Ž direcionado ao cŽu e ele,
autor de todas as mentiras e trapa�as de Tapero‡, usa de um discurso de
autopuni�‹o para garantir a miseric—rdia da Compadecida:
A COMPADECIDA: Jo‹o foi um pobre como n—s, meu
filho. Teve de suportar as maiores dificuldades, numa terra seca e pobre com a
nossa. N‹o o condene.
[...]
Pe�o-lhe ent‹o, muito simplesmente, que n‹o
condene Jo‹o. [...]. D�-lhe ent‹o outra oportunidade.
MANUEL: Como?
A COMPADECIDA: Deixe Jo‹o voltar.
MANUEL: Voc� se d‡ por satisfeito?
JOÌO GRILO: Demais. [...] (SUASSUNA, 2004, p. 170.
172).
O Amarelo ludibria as divindades, e seu retorno
ao sert‹o promete mais picardias, j‡ que justificava seus atos pela m‡
distribui�‹o de renda no pa’s, pela n‹o efetiva�‹o de uma vida crist‹, quando
ele, o pr—ximo, era esquecido, humilhado por uma sociedade excludente.
A constru�‹o da personagem Jo‹o Grilo segue o
prot—tipo do her—i picaresco, ou anti-her—i, que sobrevive ˆs custas de seus
pequenos golpes. O p’caro n‹o pensa em um futuro distante, preocupa-se com o
hoje, pois carece alimentar-se. Como est‡ ˆs margens da sociedade, o anti-her—i
vinga-se de quem o exclui trapaceando, mentindo. N‹o segue uma moral
espec’fica, nem regras r’gidas, o p’caro a tudo subverte em nome de uma
sobrevida di‡ria. O Lazarillo de Tormes,
texto an™nimo espanhol do sŽculo XVI, traz ao mundo o prot—tipo de p’caros que
se seguem ao longo da literatura burlesca mundial:
Vuestra Merced debe saber primero que todos me
llaman L‡zaro de Tormes, hijo de TomŽ y de Antona PŽrez, de Tejares, pueblo de
Salamanca. Mi nacimiento fue dentro del r’o Tormes y por esta raz—n tomŽ mi
apellido. Mi padre trabajaba en el molino de agua que hab’a en aquel r’o, desde
hac’a m‡s de quince a–os. Y ocurri— que all’ le lleg— a mi madre una noche la
hora de traerme al mundo, y naci yo. De manera que con verdad me puedo decir
nacido en el r’o (LAZARILHO DE TORMES, 1994, p. 09).
L‡zaro n‹o possui for�a bruta, nem autonomia
financeira. S— pode usar a intelig�ncia e a perspic‡cia. O intrigante Ž ter que
alimentar uma mentira com outra mentira. Ao ser descoberto, resta-lhe fugir e
recome�ar seu ciclo de picardias.
No texto teatral de Suassuna, Grilo Ž o p’caro
que habita o sert‹o nordestino. V� a vida como um palco, onde precisa atuar
para sobreviver. Conforme Derrida (2005, p. 12), Òa escritura j‡, Ž, portanto,
encena�‹oÓ, por isso mesmo, a vida, que imita a arte em diversos momentos, deve
adaptar-se ˆs mais diferentes situa�›es. Grilo Ž o resultado do meio em que
vive:
JOÌO GRILO: Muito pelo contr‡rio, ainda hei de
me vingar do que ele e a mulher me fizeram quando estive doente. Tr�s dias
passei em cima de uma cama para morrer e nem um copo dÕ‡gua me mandaram. [...]
a qualquer hora acerto com o patr‹o! Eu conhe�o o ponto fraco do homem, Chic—!
(SUASSUNA, 2004, p. 26).
A vingan�a Ž o œnico caminho a trilhar, visto
que Ž o œnico que conhece. Ao conviver com avaros, ego’stas, hip—critas,
torna-se tambŽm um, por meio de um refor�o negativo. O Amarelo age, no fim das
contas, como um daqueles que trapaceia, pois v� nisso a œnica forma de viver e
suportar as agruras do mundo em que vive.
De todas as formas, a avareza Ž o pecado
capital mais combatido em textos com p’caros. Pela avareza, os homens perdem as
suas almas, afastam-se da divindade, separam-se da religi‹o. Pela sovinice,
Harpag‹o, da obra O Avarento, de
Moli�re, promove casamentos arranjados para seus filhos, comanda um regime de
conten�‹o de despesas em casa, racionando a comida, escondendo seu tesouro. ƒ
conhecido por todos pela sua mesquinhez, como afirma seu servo:
MESTRE TIAGO: Senhor, j‡ que assim quereis,
dir-vos-ei francamente que tro�am de v—s por toda a parte; que vos lan�am, de
todos os lados, mil zombarias e que s— ficar‹o satisfeitos quando vos derem um
pontapŽ; e inventam, constantemente, hist—rias sobre a vossa mesquinhice. [...].
Enfim, quereis saber? N‹o se vai a lado nenhum que n‹o se ou�a dizer de v—s o
pior poss’vel. Sois o motivo de tro�a e de risos de todos, e s— vos tratam por
avarento, mesquinho, desprez’vel usur‡rio (MOLIéRE, 1971, p. 62).
O Padeiro e sua Esposa s‹o os maiores sovinas
que Tapero‡ j‡ viu. Exploram seus empregados, Grilo e Chic—, que, por sua vez,
buscam explorar a quem encontram. Mas h‡ avareza em outros personagens do Auto
da Compadecida. O Padre e o Bispo guerreiam pelo testamento do cachorro.
Severino invade a vila e saqueia a todos. Pela avareza, o autor observa os
outros pecados aproximarem-se do homem e tomarem conta de seu esp’rito. Da
avareza do casal de patr›es, surge o sentimento de vingan�a de Grilo, que s—
possui sua mente e sua voz como armas para combater os mais fortes:
JOÌO GRILO: î homem sem vergonha! [Chic—][103]
Inda pergunta? Est‡ esquecido que ela [A mulher do padeiro][104]
deixou voc�? Est‡ esquecido da explora�‹o que eles fazem conosco naquela
padaria do inferno? Pensam que s‹o o c‹o s— porque enriqueceram, mas um dia h‹o
de me pagar. E a raiva que eu tenho Ž porque quando estava doente, me acabando
em cima de uma cama, via passar o prato de comida que ela mandava para o
cachorro. AtŽ carne passada na manteiga tinha. Para mim nada, Jo‹o Grilo que se
danasse. Um dia eu me vingo (SUASSUNA, 2004, p. 39).
O final do texto de Ariano Suassuna aponta para
uma poss’vel remiss‹o de Jo‹o Grilo, mas ele retorna mais pobre do cŽu do que
quando fora julgado. Na verdade, nesse instante, o autor est‡, atravŽs do
Palha�o, o narrador e condutor da pe�a, chamando a aten�‹o do expectador, para
que este poss’vel Grilo que esteja no recinto afaste-se de uma vida de
picardias.
Esses retalhos, acrescidos ˆ colcha do Auto da Compadecida, s‹o exemplos de um
arquivo que se pretende m—vel, dialogando com outros tacos, conversando com o
leitor.
Em cada retalho montado, um rastro estelar me
chega aos olhos. Em cada imbricamento de textos, uma nova raiz fasciculada gera
outras conex›es textuais, musicais, visuais, enfim, prazerosamente, abro o
arquivo e retiro dele a coberta de taco do Auto
da Compadecida, com ela, tantos outros ecos de tantas outras hist—rias em
desprop—sitos sem fim.
5¼ retalho: a semiologia
Segundo Blanchot (1987, p. 12),
A obra liter‡ria Ž solit‡ria: isso n‹o
significa que ela seja incomunic‡vel, que lhe falte o leitor. Mas quem a l�
entra nessa afirma�‹o da solid‹o da obra, tal como aquele que a escreve
pertence ao risco dessa solid‹o.
O texto liter‡rio, solit‡rio por natureza, pode
aproximar-se de outras linguagens. Dentre essas, a cinematogr‡fica. Pelo olhar
do cinema, a literatura ganha outros olhares, novas sensa�›es, outros pœblicos.
O Auto da Compadecida Ž um dos textos
do sŽculo XX mais recorridos ˆ grande tela. Pelas lentes das c‰meras, Grilo e
seus companheiros recebem interpreta�›es pela caneta dos roteiristas e adquirem
semblantes conhecidos em todo o pa’s e tambŽm fora dele.
A primeira adapta�‹o f’lmica, A Compadecida, foi dirigida por George
Jonas e estrelada por Regina Duarte, Antonio Fagundes e Armando Bogus. ƒ a adapta�‹o
mais parecida com o texto liter‡rio e seu roteiro foi escrito pelo pr—prio
Suassuna, que acompanhou toda a filmagem, aprovando-a.
Mas de todas as tr�s adapta�›es, essa, de 1969,
Ž a que possui o enredo mais arrastado, j‡ que h‡ uma tentativa clara de fazer
teatro no cinema. Todas as a�›es da pe�a s‹o transpostas para a pel’cula, mas o
time do humor no teatro n‹o segue o
mesmo tempo na frente das c‰meras.
A segunda adapta�‹o, de 1987, foi dirigida por
Roberto Farias. Intitulada Os Trapalh›es
no Auto da Compadecida, foi protagonizada pelo quarteto de humoristas
famoso na televis‹o e no cinema com seus filmes leves e de riso frouxo.
Com a inten�‹o de agradar a cr’tica, Ariano
Suassuna foi convidado por Renato Arag‹o para coassinar o roteiro da adapta�‹o,
que mantŽm a figura do Palha�o, como o narrador que unifica os tr�s enredos: a
morte do cachorro, o gato que descome dinheiro e o Julgamento Final. Contudo, o
pœblico n‹o assimilou o filme estar associado a um texto ÒsŽrioÓ. Apesar de ter
sido exibido, inclusive em Portugal, foi uma das menores bilheterias dos
Trapalh›es, embora tenha recebido boas cr’ticas.
O texto de Suassuna foi adaptado para a
televis‹o em parte, inserido em novelas, montado para o teatro incont‡veis
vezes. Tem trechos de seu texto utilizado em livros did‡ticos como exemplo de
literatura dram‡tica. Sua linguagem leve Ž assimilada com facilidade pelos
leitores e espectadores.
Em 2000, por meio de uma redu�‹o da microssŽrie
exibida um ano antes, estreou nos cinemas brasileiros O Auto da Compadecida[105],
dirigida por Guel Arraes. Protagonizada por Fernanda Montenegro, Matheus
Nachtergaele, Selton Melo, Marco Nanini e outros, a pel’cula foi uma das mais
vistas naquele ano.
Guel Arraes e os roteiristas Adriana Falc‹o e
Jo‹o Falc‹o acrescentam ao texto de Suassuna trechos de O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, alŽm de personagens
de outras pe�as do autor paraibano, como Torturas
de um cora�‹o. O roteiro Ž ‡gil e prende o espectador atravŽs do riso
gerado pelas astœcias de Grilo e pela covardia de Chic—.
Essa œltima adapta�‹o Ž a mais popular de
todas. Embora suavize o discurso manique’sta do texto liter‡rio, mantŽm com
este um di‡logo constante, respeitando as diferen�as de signos que os
constituem.
Tais filmes tambŽm contribuem para formar a
colcha de retalhos com suas especificidades. Cada roteiro, cada leitura do
diretor, cada interpreta�‹o dos autores n‹o reduz, como muitos cr’ticos pensam,
a obra liter‡ria ou por que o filme n‹o mantŽm uma pretensa fidelidade, sendo
devedor da literatura. Ao contr‡rio, conversa com esta. N‹o h‡ o superior e o
inferior, h‡ os diferentes, e o ser‹o sempre, como cada retalho de pano Ž um do
outro. Para Robert Stam,
N—s ainda podemos falar em adapta�›es bem feitas ou
mal feitas, mas desta vez orientados n‹o por no�›es rudimentares de
ÒfidelidadeÓ mas sim, pela aten�‹o ˆ Òtransfer�ncia de energia criativaÓ, ou ˆs
respostas dial—gicas espec’ficas, a ÒleiturasÓ e Òcr’ticasÓ e Òinterpreta�›esÓ
e Òre-elabora�‹oÓ do romance original, em an‡lises que sempre levam em
considera�‹o a lacuna entre meios e materiais de express‹o bem diferentes (STAM,
2006, p. 51).
Retomo agora a coberta de taco que
venho cosendo diligentemente. Escolho cada retalho, os mais variados, somo-o a
outros. Nessa colcha, somam-se livros, pe�as de teatro, contos, mœsicas,
filmes. Nessa profus‹o de cores, escritas e sons, todos coexistem unidos entre
si, sem a pretens‹o de estabelecer hierarquias.
6¼ retalho: o retalho por vir
Em Edward W. Said, encontro a afirma�‹o:
Longe de serem algo unit‡rio, monol’tico ou
aut™nomo, as culturas, na verdade, mais adotam elementos ÒestrangeirosÓ,
alteridades e diferen�as do que os excluem conscientemente (SAID, 1995, p. 46).
Todo retalho que li, seja o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna,
sejam O Avarento, de Moli�re, ou O Mercador de Veneza, de William
Shakespeare, ou ainda as Barcas de Gil Vicente, ou O dinheiro, O cavalo que
defecava dinheiro, O castigo da
soberba, folhetos de cordŽis, sejam A
Compadecida, Os Trapalh›es no Auto da
Compadecida, O Auto da Compadecida,
filmes brasileiros. Sejam Derrida, Foucault, Blanchot, em tudo que leio, vejo
uma manifesta�‹o cultural. O homem Ž um ser que produz cultura em tudo que faz.
Se creio nisso, abomino a ideia de cultura
superior dominando as outras, mas acredito no embate cultural, numa ‰nsia
constante de tomada de lugar entre os expoentes culturais.
Defendo um maior espa�o para as culturais
subalternizadas, ditas populares, mas tambŽm visualizo as constantes trocas
culturais. Vejo que o Eu quer estabelecer-se, mas observo que isso se d‡ em
conson‰ncia com o Outro, para formar, muitas vezes o N—s, o Tu, o Eles.
A semelhan�a se d‡ por meio da diferen�a,
porque cada homem Ž um ser que se conhece, outro que se d‡ a conhecer e muitos
seres estranhos povoando os espa�os vazios da exist�ncia. Espa�os muitas vezes
ocupados pela literatura, que Ž a materializa�‹o desses seus que vagueiam por
a’ ˆ procura da plenitude do Nada.
Cresci em meio aos livros, mas a maior li�‹o
que aprendi Ž que os livros Ž que est‹o dentro de mim. Eu sou uma colcha de
retalhos, eu sou um homem feito de peda�os, belos tacos que, unidos, formam o
que sou. N‹o me sinto formado, n‹o pretendo ser o dono da verdade, j‡ que as
creio mœltiplas, e persigo-as e as uso, uma hoje, outra amanh‹. E disponho de
cada retalho, e retomo meus retalhos, e me leio, ˆ procura daquilo que sou e
tambŽm do que nunca virei a ser.
Estou aqui, eu, ˆ espera dos pr—ximos retalhos,
dos textos de frui�‹o, das leituras de prazer. Espero fazer minhas conex›es
constelat—rias, meus enxertos rizom‡ticos. Eu, assim como o menino de Manuel de
Barros, levo ‡gua na peneira, molhando-me nela, sentindo-a, sentindo-me.
Encontro-me aqui, nesse instante, com um peda�o
de colcha, inacabada, uma sŽrie de retalhos, agulha e linha nas m‹os.
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[Recebido:
23 ago 2021]
ENTREVISTA
Breve prosa com Ariano Suassuna ou A hist—ria do
homem que levou os cantadores ao teatro e mostrou outros rumos para a cantoria
Brief prose with Ariano Suassuna or The story of
the man who took singers to the theater and showed other directions for singing
AndrŽa
Bet‰nia da Silva (Pesquisadora)
https://orcid.org/0000-0003-3316-0812
Ariano
Suassuna (Colaborador/em mem—ria)
Ariano
Suassuna, poeta, romancista e dramaturgo, segundo sua pr—pria defini�‹o, n‹o
apenas era um homem do sert‹o como fez desse espa�o seu lugar escolhido como
representa�‹o do povo brasileiro. Essa entrevista, realizada em sua casa, em
Recife, Pernambuco, no dia 24 de maio de 2013, apenas 1 ano antes de sua
partida, como parte da pesquisa desenvolvida sobre a cantoria de improviso,
revela como atuava junto aos poetas populares alŽm das fronteiras do campo
liter‡rio, ficcional, e em que medida (embora imensur‡vel) sua proximidade
desde crian�a, ainda em Tapero‡, na Para’ba, com as pr‡ticas populares o
motivou a agir como um estandarte, cuja fl‰mula atra’a aten�‹o de pœblicos t‹o
distintos, ecoando pelos quatro cantos sua escrita que bebia em fontes orais.
A conversa
que ora se apresenta Ž resultado do desafio de entrevistar um homem paradoxal,
em v‡rios sentidos, com conhecimento t‹o vasto e tempo t‹o diminutivo para o
que n‹o lhe despertava paix›es. Se tive acesso ao senhor Ariano, vi em seus
olhos o menino Ariano, caminhando com seus sonhos, inquieto e inquietante desde
sempre.
AndrŽa – Boa
tarde. Agrade�o a disponibilidade e a gentileza para a cess‹o dessa entrevista.
Fa�o um doutorado no qual pesquiso os Festivais de Violeiros e estudo a partir
do pŽ de parede quais s‹o as transforma�›es que v‹o surgindo atŽ que a gente
chegue nos Festivais de Violeiros. Todas as pessoas que eu entrevistei atŽ
agora apontam o senhor como uma das primeiras pessoas a ter promovido um evento
de violeiros no teatro, no Teatro Santa Isabel.
Ariano – Eu
acho que uma das primeiras n‹o. Eu acho que foi a primeira [risos], n‹o Ž? Pra
promover cantador assim, no teatro, eu acho que fui o primeiro.
AndrŽa* –
Ent‹o, eu estou aqui justamente hoje para a gente conversar sobre isso.
Ariano – Pode
ser.
AndrŽa – Eu
queria que o senhor me falasse sobre a sua rela�‹o com a cantoria, sobre o que
lhe motivou.
Ariano –
Minha filha, para come�ar, j‡ que voc� fez refer�ncia a essa primeira mostra
dos cantadores aqui, eu vou come�ar por a’. Eu tive uma surpresa porque eu j‡
conhecia a tradi�‹o do romanceiro, principalmente por causaÉ Primeiro porque
como sertanejo eu vi um desafio de viola com um dos maiores cantadores que o
Brasil, o Nordeste e o Brasil tiveram, que foi Ant™nio Marinho, que era um
grande, um grande cantador. E ele escrevia tambŽm folhetos, era um poeta
popular. E eu vi, eu vi, tive a sorte de ver aos sete ou oito anos de idade,
por a’, eu vi um desafio de violeiros com Ant™nio Marinho, l‡ na minha terra,
em Tapero‡, no sert‹o da Para’ba. Mas depois eu peguei l‡ na biblioteca de meu
pai livros sobre cantadores. Papai, meu pai era um grande admirador da poesia
popular nordestina. Ele tinha uma mem—ria muito boa, sabia de cor v‡rios,
muitos versos. E por isso ele se tornou amigo de um pesquisador, hoje meio
esquecido, mas que eu tenho feito tudo para restaurar, trazer nova luz sobre o
trabalho dele, ele se chamava Leonardo Mota, era cearense e ele era muito amigo
de meu pai. Ele dedicou um dos livros dele, Sert‹o Alegre, ele dedicou a
cinco pessoas, entre as quais foi meu pai. E ele, no corpo do livro, ele cita
meu pai como uma das fontes em que ele se baseava, ele diz, ele fala da mem—ria
do meu pai, ele disse que o meu pai forneceu a ele muitos versos. Ent‹o, eu
atravŽs dos livros de meu pai eu tinha tomado conhecimento dessa tradi�‹o do
romanceiro popular do Nordeste. Depois eu vim muito menino estudar no Recife,
fiquei por aqui, fui ficando, vim morar aqui aos 15 anos. Eu vim estudar aos
10, mas depois, quando estava com 15 anos, a minha fam’lia toda se mudou para
c‡. Ent‹o, eu n‹o tive mais contato nenhum e eu pensava que a tradi�‹o tinha se
extinguido. A’, quando foi em 1946, eu fiz uma viagem ao sert‹o do Cear‡ e l‡
tive a oportunidade de conhecer um grande cantador pernambucano, de S‹o JosŽ do
Egito, chamado Dimas Batista. Ele era um dos tr�s irm‹os Batista que eram
cantadores. Eram tr�s irm‹os, todos os tr�s cantadores: Lourival, que era o
mais velho, Dimas e Otac’lio, que era o mais mo�o. A’ eu fiz amizade com Dimas,
fiquei deslumbrado com o talento extraordin‡rio de Dimas e alŽm do mais com a
pessoa, que ele era uma pessoa extraordin‡ria, acima do comum, um camarada
tranquilo, calmo, gigante, alto, ele era alto e forte, com esse jeito manso de
gigante manso. Ent‹o, eu me impressionei com a rapidez do improviso de Dimas,
fiquei encantado. Ele cantou sozinho, n‹o cantou em dupla. Mas a’ eu, por intermŽdio
dele, eu tive conhecimento desses dois irm‹os dele que existiam e outros
cantadores, ele me falou de muita gente e eu fiquei impressionado. A’, nesse
tempo eu era do primeiro ano na Faculdade de Direito do Recife. A’, quando eu
cheguei aqui, de volta, eu pertencia ao diret—rio, a’ falei com o pessoal do
diret—rio e resolvemos trazer, fazer essa cantoria no Santa Isabel. Ent‹o, eu
trouxe tr�s poetas, que eram os tr�s irm‹os Batista e mais um, um poeta popular
que n‹o improvisava, mas escrevia folhetos, ele se chamava Manoel de Lira
Flores. Ent‹o, fizemos essa cantoria e teve uma repercuss‹o enorme no
munic’pio, o Teatro Santa Isabel ficou lotado. Ent‹o, um cantador que tinha
muito senso de organiza�‹o, ele se chamava Rogaciano Leite, era de S‹o JosŽ do Egito,
ele a’, animado com essa cantoria que eu fiz, resolveu fazer o primeiro
Congresso, o primeiro Festival de Violeiros daqui, foi dois anos depois dessa
cantoria. Eu fiz essa cantoria em setembro de 1946 e Rogaciano Leite organizou
o primeiro Festival no Santa Isabel, onde eu tinha feito, s— que, a princ’pio,
causou uma estranheza muito grande. O diretor quase n‹o permite, t‡ entendendo?
Quase n‹o permite, mas a’ depois do sucesso com a cantoria e coisa etc., abriu
o caminho e a’ ainda tivemos outra sorte porque Dr. Arraes, que era um
sertanejo como eu e gostava de cantoria, era Secret‡rio da Fazenda do governo
aqui de Pernambuco. A’, Dr. Arraes bancou o festival, a Secretaria da Fazenda
pagou as despesas e fez o I Congresso, que foi extraordin‡rio! Foi um sucesso
enorme tambŽm. E ent‹o, da’ em diante, depois ele organizou o segundo, dois
anos depois, eu n‹o tenho certeza, depois a’... A’ espalhou-se. Depois desse
primeiro congresso, inclusive, ele, Rogaciano Leite, viajou com Dimas, Dimas e
Otac’lio. Acho que Lourival n‹o foi, n‹o. N‹o tenho certeza, mas foram para o
Rio de Janeiro e foram recebidos na Academia Brasileira de Letras, e Manuel
Bandeira escreveu um pequeno poema sobre os dois, tanto que t‡ publicado nos
livros dele hoje. Eu me lembro que ele disse: ÒSa’ de l‡ convencidoÉÓ Ent‹o,
voc� v� por a’ que teve uma repercuss‹o imediata. E outra coisa, outra coisa
que foi muito importante do ponto de vista do prest’gio do cantador nos meios
intelectuais foi o fato curioso. N‹o sei se voc� sabe, mas na Žpoca parnasiana
tinha-se o costume de eleger o pr’ncipe dos poetas brasileiros. O primeiro, se
eu n‹o me engano, foi Olavo Bilac, que foi escolhido como pr’ncipe dos poetas
brasileiros. Quando ele morreu, parece que se escolheu Alberto de Oliveira.
Quando Alberto de Oliveira morreu, escolheram um paulista chamado Guilherme de
Almeida. A’, quando Guilherme de Almeida morreu, come�ou a haver um movimento
para se eleger Drummond, a’ Drummond escreveu um artigo dizendo que ele n‹o
merecia, n‹o, que quem merecia era Leandro Gomes de Barros, nŽ? E isso deu
uma... Ele saltou de mais de mil folhetos e disse: ÒEsse Ž um poeta do povo
brasileiro mesmoÓ. A’ ele fez essa cita�‹o que eu achei muito boa.
AndrŽa –
Quais as motiva�›es que o senhor tinha naquela Žpoca, quando participava do
Movimento Estudantil, para promover esse Encontro de Cantadores? Porque atŽ
ent‹o n‹o era algo frequente. AtŽ ent‹o, levar os cantadores para o teatro n‹o
era poss’vel.
Ariano – N‹o,
n‹o, isso n‹o havia, n‹o. E eu lhe n‹o contei isso, mas j‡ tenho contado a’, em
outras ocasi›es, o diretor do teatro a princ’pio recusou. Ele disse para mim:
ÒMas voc� quer trazer pro palco do Teatro Isabel, onde j‡ foram recitar seus
versos Castro Alves, Tobias Barreto, onde Joaquim Nabuco fez seu discurso, voc�
quer trazer cantador de viola? A’ eu disse: ÒDoutor, eu gostaria de ouvir a
opini‹o, eu n‹o digo de Joaquim Nabuco, eu n‹o sei, n‹o [riso]. Mas Castro
Alves e Tobias Barreto, eu tenho certeza de que eles iriam gostarÓ, est‡ certo?
A’, ele fez assimÉ porque metade da renda ia ser dada aos cantadores e a outra
metade ia ser dada ao abrigo dos cegos que tinha aqui. Ele ent‹o disse: ÒEu vou
ressalvar a minha responsabilidadeÓ. Veja como era considerado um ato nocivo,
vergonhoso, ele ia se envergonhar. A’, ele botou assim: ÒDeferido, tendo em
vista a destina�‹o filantr—pica de metade da rendaÓ. Quer dizer, ele achou que
podia sem se manchar, ele podia deferir, mas por causa da destina�‹o
filantr—pica do abrigo dos cegos.
AndrŽa – Influenciou
o fato de seu pai, h‡ muitos anos, ter levado os cantadores para o Pal‡cio do
Governo da Para’ba?
Ariano – Sim,
sim, eu tinha conhecimento desse fato, nŽ? E foi uma das coisas que me abriu o
caminho.
AndrŽa – Mas
eu fico imaginando se naquela Žpoca havia uma proximidade entre os estudantes
da universidade e a cultura popular.
Ariano – Sim.
AndrŽa – O
senhor se lembra quais eram os objetivos daquele per’odo?
Ariano –
Olha, isso a’, o que eu posso dizer, inclusive sem vangloria, porque n‹o fui
eu, para mim n‹o era assim, n‹o. Isso, isso para mim foi decorrente do trabalho
de Herm’nio Borba Filho, que era o diretor do Teatro de Estudantes. Ele era
mais velho do que n—s, ele era dez anos mais velho do que eu, Herm’nio. Entrou
na faculdade de Direito para a gente organizar, reorganizar o Teatro do
Estudante de Pernambuco. Pois bem, Herm’nio, eu digo sempre, voc� veja, essa
diferen�a de dez anos hoje n‹o Ž nada porque um homem de 80 anos e um homem de
70, eles conversam de igual para igual. Mas no tempo eu tinha 18 anos e ele
tinha 28, era uma diferen�a enorme, est‡ entendendo? Ele j‡ era casado, j‡
tinha um emprego, j‡ tinha uma estrada longa e tinha uma bela biblioteca em
casa e ele era um grande leitor. Era um grande leitor e era hermen�utico, quer
dizer, foi a primeira pessoa que eu encontrei assim, um escritor, um autor, um
diretor de teatro que eu encontrei que dava ˆ literatura popular uma
import‰ncia muito grande, ˆ cultura popular, ˆ poesia popular, uma import‰ncia
muito grande, e ele, por sua vez, j‡ se mirava no exemplo de Garcia Lorca, n‹o
Ž? Que era um alt’ssimo poeta, como voc� sabe.
AndrŽa –
Claro!
Ariano – E
ele era muito interessado em teatro. Organizou um teatro ambulante, l‡ na
Espanha, tanto que a gente organizou um tambŽm, seguindo o exemplo de Lorca e a
gente colocou o mesmo nome, o nome do grupo dele era La Barraca, porque ele andava com uma barraca ambulante. Ent‹o, a
gente conseguiu uma barraca aqui, fizemos o grupo com o nome de A Barraca
em homenagem a ele. Estreamos no dia do anivers‡rio da morte dele, do Lorca,
nŽ? Para protestar contra a morte dele, j‡ era tarde, mas protestamos e para
prestar uma homenagem de gratid‹o a ele por essa inspira�‹o que ele tinha nos
dado. E voc� sabe que Lorca tem um livro de poemas chamado Romanceiro Cigano,
quer dizer, onde ele fez com o Romanceiro Cigano o mesmo que a gente pretendia
fazer aqui com o Romanceiro Popular, est‡ certo?
AndrŽa – Que
interessante!
Ariano –
Ent‹o, foi nesse exemplo que n—s nos baseamos e que n—s come�amos essa jornada.
Termino como comandante e alguma saudade.
AndrŽa – E, a
partir disso, o senhor vai influenciando algumas pessoas.
Ariano – ƒ
sim.
AndrŽa –
Conversei com o Br‡ulio Tavares e ele disse que s— passou de fato a valorizar a
cultura popular quando ele teve acesso ˆs suas obras.
Ariano – ƒ.
Ele tem dito isso em outras ocasi›es e eu acho muito engra�ado. Eu n‹o sei se
lhe mostrei isso, Samarone[106].
Ele disse que aos 18 anos, ele foi para...
AndrŽa – Para
Belo Horizonte.
Ariano – Para
Belo Horizonte estudar Cinema, n‹o Ž?
AndrŽa –
Isso.
Ariano – No
in’cio, ele n‹o ligava pra nada. Depois, a’ ele s— ligava pro cinema de Godard,
essas coisas. Bom, a’ ele disse que ficava chateado de ter nascido em Campina
Grande. Ele diz: ÒMas, meu Deus, com tanto lugar interessante [riso] para eu
nascerÓ, ele disse ÒTinha tanto lugar interessante para eu nascer, eu fui
nascer em Campina GrandeÓ. Ele dizia que olhava jumento na feira ou um matuto
com chapŽu de couro, carregadores carregando um balaio de ovos l‡, a’ ele a’
disse que foi quando ele leu A Pedra do Reino e disse que era o pai dele
que estava aqui no Recife come�ou a escrever para ele: ÒOlha que coisa interessanteÓ!
AndrŽa – Isso
mesmo que ele conta!
Ariano – A’
come�ou a mandar entrevistas minhas e outras coisas, a’ ele disse que comprou o
romance dÕA Pedra do Reino, a’ ele disse: ÒQuando eu comprei, que abri,
eu voltei para a Para’baÓ e ele disse: ÒEu descobri, por causa dÕA Pedra do
Reino que a Para’ba era a GrŽcia antigaÓ, eu achei —timo! Que a Para’ba,
ela tinha tudo, tinha uma mitologia, tinha tudo aquilo l‡. Foi uma das
declara�›es que me deixaram mais orgulhoso, foi essa de Br‡ulio.
AndrŽa – E ele
fala isso extremamente emocionado, nŽ?
Ariano – ƒ.
AndrŽa – Ele
diz ÒA obra de Ariano foi a obra que mudou a minha vida. AtŽ ent‹o, ser
nordestino para mim era um peso. Eu fugia disso. E por isso eu procurava
Cinema, eu procurava as influ�ncias que eram estrangeiras e negava tudo que
tinhaÓ. E a’, a partir disso, ele come�a a se envolver tambŽm com os Festivais
de Violeiros de Campina Grande. E ele come�a a fazer um trabalho muito parecido
com o seu, inclusive. O Movimento Estudantil de l‡ da Žpoca se aproxima, os
cantadores convocam os estudantes e eles come�am a organizar.
Ariano –
Muito bom.
AndrŽa –
Ent‹o, de 1974 atŽ 1980, mais ou menos, eles ficam ˆ frente juntamente com os
cantadores. S— que tem uma entrevista com JosŽ Alves Sobrinho.
Ariano – Sim.
AndrŽa – Tem
uma entrevista com ele, nos anos 80, na qual ele aponta o seu evento de 1946,
mas a’ ele diz que Rogaciano teria feito um Congresso em 1946, em Fortaleza.
Ariano – Ah,
eu n‹o sei. N‹o sabia.
AndrŽa – E
depois ele teria feito um aqui.
Ariano – Ah,
n‹o sabia, n‹o. N‹o sabia, n‹o. Eu s— tomei conhecimento de Rogaciano em 1948.
AndrŽa – Do
daqui, n‹o Ž?
Ariano – ƒ.
Ele trouxe, inclusive, uma coisa que me comoveu muito. Ele trouxe o Cego
Aderaldo e eu conheci o Cego Aderaldo pessoalmente, que para mim era uma figura
m’tica, n‹o Ž? A’, eu estive no Cear‡ agora, h‡ pouco tempo, n—s estamos
fazendo um document‡rio nos estados do Nordeste, promovido pelo SESC e eu
comprei essa hist—ria que, inclusive, o cego Aderaldo, alŽm do grande cantador
que era, o Cego Aderaldo, ele era o que eu sonhei ser, est‡ entendendo? Ele era
o dono, ele tinha um circo. Tinha um circo e ele, alŽm de cantador, ele era um
ator, ele tinha o dom’nio do palco que eu nunca vi uma coisa daquela. E ele
cantava uma mœsica tocando viola ou viol‹o, eu n‹o lembro bem porque ele tocava
viola, viol‹o e rabeca. A’, chamava-se A gargalhada. A’, ele cantava uma
quadra, e a’ ele, no ritmo do acompanhamento do bai‹o com o qual ele
acompanhava cada quadra, ele come�ava a rir, uma risada propositadamente
artificial, est‡ entendendo? E, pois bem, n‹o dava vinte segundos, ninguŽm no
teatro se aguentava, todo mundo estava rindo com ele. Era uma coisa
extraordin‡ria! Ele dizia assim [canta] ÒMinha comadre borboleta/ Meu compadre
gafanhoto/ Venha ver compadre grilo/ T‡ dando com os pŽs nos outros. Vai-te
embora Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o, vai-te embora Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o,
vai-te embora Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o, vai-te embora, Jo‹o, vai-te embora,
vaiÓ. E ele, a’, dava uma gargalhada ÒHahaha!Ó, mas, olhe, era engra�ad’ssimo
isso. Ele tinha uma garganta forte, n‹o tinha essa besteira com ele, n‹o. Muito
bom! E eu tive a alegria de conhecer o Cego Aderaldo apresentado por Rogaciano
Leite.
AndrŽa –
Nesse evento que aconteceu no Santa Isabel havia uma disputa entre os
cantadores ou eles eram apenas convidados?
Ariano – N‹o,
n‹o. Eu n‹o gosto muito disso n‹o, est‡ entendendo?
AndrŽa – Sim.
Ariano – Eu
gosto mais de ver cantoria, ent‹o, eu n‹o fiz... Num Congresso que se faz isso,
cada dupla tem que ser assim, porque tem que mostrar muito, cada dupla tem
tantos minutos. Todo mundo que j‡ ouviu uma cantoria sabe, a cantoria tem altos
e baixos. Vai esquentando e a fraca aproveita incidentes, o que Ž uma coisa
muito boa. Severino Pinto, por exemplo, tava cantando um dia e ele disse: ÒEu
sou Severino Pinto/ Grande cantador do espa�oÓ, na hora em que ele disse isso,
o galo cantou [riso] no poleiro da fazenda. E ele disse ÒMeu galo, n‹o cante
agora/ Me deixe eu cantar sossegado/ Que o pai que arremeda o filho/ ƒ muito
mal-educadoÓ [risos]. Como o nome dele era Pinto, n‹o Ž? A’, quer dizer, ent‹o,
a cantoria tem isso. E se voc� estabelece um hor‡rio, voc� pode pegar 20, 10
minutos de cantoria ruim. Por acaso os nossos cantadores n‹o estavam muito bem
e pode ser um grande cantador e se sair mal, compreendeu? Ent‹o, eu n‹o fiz
isso, n‹o, eu fiz uma cantoria. L‡ o cantador cantava ˆ vontade, est‡
entendendo? O cantador cantava ˆ vontade e eram tr�s irm‹os, ent‹o, n‹o tinha
isso, n‹o. E todos os dois, Dimas e Otac’lio, tinham uma admira�‹o muito grande
pelo Lourival, que era o mais velho, eles consideravam Lourival o maior. Eu,
pessoalmente, gostava mais do Dimas, eu achava Dimas... Lourival tinha um
improviso bom, extraordin‡rio, mas o Dimas era um cantador mais seguro e eu
achava mais igual, t‡ me entendendo? E ele era mais, n‹o sei, mais profundo,
talvez, do que Lourival. Pois bem, ent‹o, eles cantaram. Agora, inclusive teve
uma coisa muito interessante porque Ž aquilo que eu digo do aproveitamento do
momento. Porque apareceram tr�s ou quatro estudantes paulistas l‡, e eu n‹o sei
se eles ficaram se sentindo diminu’dos pelo sucesso que os cantadores estavam
fazendo l‡ e eles tinham bebido tambŽm e resolveram entrar no palco para fazer
isso que hoje se chamaria uma performance.
AndrŽa –
Nossa!
Ariano – Est‡
entendendo?
AndrŽa – Sim.
Ariano –
Ent‹o, a’ entraram os dois no palco. E eu n‹o sei se voc� j‡ viu essa porcaria,
eu j‡ vi mais de uma vez. Aconteceu o seguinte: entrava um assim, em pŽ, e
ficava em pŽ assim, com as m‹os no bolso, est‡ entendendo? O outro vinha por
tr‡s, abra�ava ele assim, passava os bra�os aqui por baixo assim, ent‹o, ficava
ele pra frente e os bra�os do que estava atr‡s. E a gra�a era a gesticula�‹o
n‹o ter nada a ver com o que a boca estava dizendo. Bom, quando eles terminaram
l‡, a’ a plateia ficou assim meio fria, mas aplaudiu assim educadamente e
friamente. Isso a’ foi que eles n‹o sabiam com quem tavam mexendo. Lourival,
que era o sujeito mais sem vergonha do mundo, a’ eles come�aram a cantar um
estilo que chamam Gemedeira porque entre o sexto e o sŽtimo verso a pessoa faz
Òai, ai, ui, uiÓ ou ent‹o, Òai, ai meu DeusÓ. Pois bem, a’ ele fez um verso,
atŽ achei que estava numa posi�‹o meio estranha, a’ disse... Eles cantaram
v‡rios, eu me lembro dessa Sextilha em que ele disse assim... Sim, porque teve
um momento em que os estudantes l‡ viram que n‹o estava fazendo sucesso e eles
resolveram apelar, a’ deram uma banana assim, deram uma banana para o pœblico.
O pœblico a’ ficou acanhado. Ent‹o, Lourival disse assim: ÒO de tr‡s dava
banana/ O da frente discursava/ Quanto mais um se enxeria/ Mais o outro se
encostava/Atr‡s ainda tinha um jeito/Ai, ai, meu Deus/ Na frente Ž que eu n‹o
ficavaÓ [risos]. Rapaz, foi umÉO teatro quase veio abaixo na hora. Quer dizer,
esse era um momento que, esse era um grande momento da cantoria, nŽ? Quando
aproveita-se o que aconteceu ali e a’ o pessoal v� que Ž improvisado mesmo.
AndrŽa –
Claro! Muitos cantadores t�m apontado a presen�a do balaio, que o senhor deve
conhecer.
Ariano –
Hein?
AndrŽa – O
senhor conhece o balaio? A estrutura que os cantadores levam escrita, que n‹o Ž
improvisada, Ž decorada, e apresentam como se fosse cantoria?
Ariano – Sim,
sim, sim. N‹o sabia que chamava-se balaio, n‹o.
AndrŽa – ƒ,
eles chamam de balaio. E os cantadores t�m apontado isso como possibilidade de enfraquecimento
da cantoria porque iria para um Festival ou para um pŽ de parede sem o
improviso, que Ž o que caracteriza esse tipo de produ�‹o. Ent‹o, ˆ medida que o
balaio vai sendo introduzido, voc� vai colocando uma produ�‹o escrita no lugar
de uma produ�‹o oral.
Ariano – No
da improvisa�‹o, n‹o Ž?
AndrŽa – ƒ.
Isso de fato tem mudado muito. Eu tenho visto que a cantoria tem mudado muito
de uns tempos para c‡, tanto no formato quanto na performance.
Ariano – Eu
n‹o vou, eu n‹o vou a congresso de cantadores, n‹o, que eu n‹o gosto. Eu n‹o
gosto. Inclusive por isso, pelo artificialismo e depois tem outra coisa que
eles fazem que eu tenho horror, Ž uma tal de uma Poesia Matuta, compreende? Que
n‹o era uma tradi�‹o do cantador nem da poesia popular. Pelo contr‡rio. Isso
foi introdu�‹o de poeta de classe mŽdia queÉ Olha, eu acho isso uma falta de
respeito ao povo, est‡ entendendo? Voc� repare bem. Em primeiro lugar, a
linguagem, e eu estou falando aqui de teatro de modo geral. A linguagem escrita
n‹o corresponde ˆ linguagem falada, Ž outra coisa, est‡ certo? Nem a pronœncia.
A linguagem escrita tem muita coisa de conven�‹o, n‹o Ž?
AndrŽa – Sim.
Ariano – Tem
muita coisa que Ž conven�‹o. Pois bem, se eu entrar com um personagem de uma
pe�a de teatro, eu digo, eu pronuncio como todo nordestino, eu n‹o digo ÒN—sÓ.
Eu digo ÒN—isÓ, n‹o Ž verdade? Pois bem, se ele me bota como personagem apesar
de eu dizer ÒN—isÓ, eles colocam l‡ ÒN-—-sÓ e acento. E quando Ž um homem do
povo eles querem botar ÒN-o-i-sÓ com acento, ÒN—isÓ, ÒN—is vaiÓ, entendeu? Isso
Ž uma falta de respeito, uma discrimina�‹o contra o povo, porque eu n‹o conhe�o
ninguŽm no Nordeste que diga ÒN—sÓ a n‹o ser padre e pastor protestante [risos].
N‹o Ž? Padre e pastor protestante dizem ÒJesus na cruz cercado de luzÓ [risos].
N‹o Ž? Mas gente normal, n‹o. N‹o Ž? Diz ÒJesuis na cruiz cercado de luizÓ. Mas
quando Ž um homem do povo eles botam o ÒiÓ, est‡ entendendo? Pois bem, na
poesia matuta que eles fazem assim. Aqui tem um rapaz talentoso, muito
talentoso, mas eu n‹o gosto do que ele faz. Eu t™ dizendo isso porque ele sabe,
ele atŽ j‡ declarou isso. Ele se chama Jessier Quirino. Eu n‹o gosto, n‹o. Pois
bem, nos congressos de cantadores deram para botar essa tal Òpoesia matutaÓ.
Quem inventou isso foi um pernicioso, um maranhense pernicioso chamado Catulo
da Paix‹o Cearense. Apesar de se chamar Catulo da Paix‹o Cearense, ele era
maranhense [risos]. Pois bem, esse camarada foi quem inventou isso. Agora voc�
veja, n—s t’nhamos aqui um grande poeta popular, Idelette[107] deve
conhecer, n‹o Ž? Ele Ž paraibano como eu e mora em Pernambuco como eu. Ele se
chama JosŽ Costa Leite. Pois bem, ele Ž um grande poeta e um grande gravador.
Ele faz as gravuras dos pr—prios folhetos, Ž ele que faz. Pois bem, JosŽ Costa
Leite, ele fez um folheto baseado em um poema de Catulo da Paix‹o Cearense. E
ele corrigiu os erros todinhos de Catulo. Que li�‹o, n‹o Ž? Est‡ vendo? O poeta
popular de verdade, ele escreve da maneira que ele acha mais correta, n‹o pode
sair melhor a coisa porque ele n‹o sabe, mas procurar deliberadamente o erro...
AndrŽa – ƒ. O
que a gente acaba aprendendo Ž que a oralidade Ž feia, n‹o Ž?
Ariano – ƒ.
AndrŽa – E que
a escrita Ž que Ž bonita porque Ž polida, Ž recortada.
Ariano – ƒ,
Ž, exatamente. Agora o que Ž pior Ž deturpar a escrita partindo de uma falsa
interpreta�‹o da linguagem falada. Quando eu encenei o Auto da Compadecida,
eu chamava aten�‹o para isso, procure um erro de Portugu�s e n‹o tem. Eu acho
que Ž errado a pessoa mudar a letra da linguagem popular. A pessoa tem que
atingir o esp’rito, mas tambŽm de uma forma que aquilo ali se esconda e ninguŽm
note, que ninguŽm saiba.
AndrŽa –
Compreendo. Naquela Žpoca, no teatro, qual era o pœblico que foi ver essa
cantoria? O senhor lembra?
Ariano – N‹o,
n‹o sei, n‹o. Porque inclusive eu pedi, como eu disse, a ajuda do diret—rio e
fizemos. N—s combinamos isso e fizemos com entrada paga, que era pra dar pros
cantadores. Mas n—s mesmos, os estudantes, sa’mos vendendo. Eu me lembro bem,
vendi para toda gente da minha fam’lia, a’ era o normal, mas vendi para os
vizinhos todos, compraram e foi muita gente de v‡rios tipos. Agora tinha muito
estudante.
AndrŽa –
Nessa Žpoca, os cantadores cantavam muito com a bandeja, n‹o Ž?
Ariano – ƒ.
N‹o. A cantoria normal era com a bandeja.
AndrŽa – O pŽ
de parede?
Ariano – ƒ.
L‡ n‹o. L‡ n‹o foi, n‹o. Porque fizemos com entrada paga na bilheteria do
teatro mesmo. E encheu o teatro, encheu literalmente. Sobrou gente. Foi muito
bom!
AndrŽa – A
partir disso, o senhor continuou tendo iniciativas deste tipo?
Ariano – N‹o.
Eu fiz isso por entusiasmo, est‡ certo? Mas quando apareceu Rogaciano, eu
fiquei muito aliviado e eu disse: ÒVoc� agora v‡ em frenteÓ. E eu n‹o organizei
mais, n‹o.
AndrŽa – Mas
o senhor se d‡ conta de como isso foi importante para mudan�as dentro do
sistema da cantoria?
Ariano – Hoje
estou mais ou menos consciente, na Žpoca n‹o tive medida, n‹o. Eu fiquei muito
feliz de ver aquele povo que foi naquele dia gostar, comprar entrada e aplaudir
os cantadores.
AndrŽa – Mas
foi realmente uma atitude muito desafiadora.
Ariano – Foi.
AndrŽa –
Tirar os cantadores do lugar onde eles costumavam se apresentar e mudar para um
lugar de elite, que era o teatro.
Ariano – Foi.
Mas sempre sou assim. Ainda hoje, n‹o sou mais aquele estudante, n‹o, mas eu
ainda hoje tomo essa decis‹o. Olha, essa decis‹o, que eu tive de sair com o meu
circo, que eu fundei um circo, ligado ˆ secretaria, sa’ pelo sert‹o. Foi uma
decis‹o corajosa, na verdade, porque eu n‹o sabia. Primeiro diziam que o jovem
n‹o ia me ligar por estar viciado pela cultura de massas. E eu queria que voc�
visse como Ž, Ž assim de gente.
AndrŽa – Eu
vi sua apresenta�‹o em Vit—ria da Conquista.
Ariano – Ah,
voc� viu.
AndrŽa – Eu
vi o entusiasmo dos meninos.
Ariano – ƒ
sempre assim.
AndrŽa –
Sempre lotado.
Ariano – E
isso foi uma decis‹o desafiadora do mesmo jeito que foi a do Festival em 1946.
AndrŽa – Como
Ž que essa cantoria tem influenciado diretamente a sua obra? Eu n‹o digo a
cantoria em si, mas esses elementos da cultura popular.
Ariano –
Olha, voc� veja, por exemplo, eu uso, ainda hoje, eu tenho grande admira�‹o
pelo ritmo do Martelo agalopado. Ainda hoje eu uso. Eu escrevi a’ por 1900 e
quanto? N‹o sei. 1958 ou 1960, eu escrevi um Martelo agalopado em homenagem a
Cam›es, est‡ certo? Em homenagem a Cam›es. E ent‹o, eu uso, eu sou poeta, alŽm
de romancista e dramaturgo, eu sou poeta e como poeta eu uso muito, eu uso Soneto,
que Ž uma forma italianizante, mas que foi introduzida na literatura de l’ngua
portuguesa por Cam›es, nŽ? Ele tinha grande admira�‹o por Petrarca. Ent‹o, na
minha poesia mais l’rica, eu uso o Soneto. Mas eu gosto muito da forma fixa,
coisa que depois da Semana de Arte Moderna Ž considerado arcaico, mas eu gosto
muito, est‡ certo? Eu gosto muito. Eu gosto muito do verso musical, nisso sou o
oposto de meu amigo e grande poeta, que era Jo‹o Cabral de Mello Neto. Ele
tinha horror ˆ musicalidade na poesia. E eu, eu s— gosto de poesia musical.
Quer dizer, tenho grande admira�‹o por Lorca, e Lorca era um poeta de uma
musicalidade, inclusive tocava piano e compunha, n‹o Ž? Era amigo do maior
compositor espanhol do sŽculo XX, que foi Leonel de Faglia, ele era amic’ssimo,
os dois fizeram juntos o trabalho de pesquisa do Cancioneiro Espanhol, n‹o Ž?
Pois bem, e eu ent‹o, pegueiÉ Veja bem, eu acho a forma, a forma Žpica, o
g�nero Žpico da poesia. Isso na poesia de l’ngua portuguesa no sŽculo de Cam›es
Ž a oitava, que ele herdou da poesia italiana tambŽm, Cam›es. Ent‹o, voc� v�
aquela forma usada nÕOs Lus’adas era a oitava. Eu acho o Martelo, como
ritmo, como g�nero e como forma muito mais bonito do que a oitava, est‡ certo?
ƒ bonito. E eu uma vez, eu peguei os versos de Dante e traduzi. Em vez de usar
o terceto, a Divina ComŽdia Ž escrita em tercetos. Eu, em vez de usar o
terceto, eu peguei mais de um terceto e juntei e fiz um Martelo. No meu
entender, ficou mais bonito [riso]. N‹o Ž que eu seja melhor poeta do que Dante,
n‹o, Ž que o ritmo do Martelo Ž mais bonito. E ent‹o, eu passeiÉ Ainda hoje eu
uso. Eu sustento sempre queÉ Olha, para mim tem uma coisa que o pessoal diz que
eu sou arcaico e diz que o sert‹o Ž uma coisa localizada e eu sou um localista.
E sou. Agora, acontece que eu acho que, aquilo que Paulo diz, eu acho que o ser
humano Ž o mesmo aqui, na China, nos idos do sŽculo XIII, ou agora, ou no
futuro. Outro dia um camarada me disse: ÒArianoÓ disse ele, disse a’, por a’:
ÒAriano precisa tomar conhecimento do fato de que o homem sertanejo n‹o anda
mais a cavalo, n‹o. Anda de motoÓ. A’, eu disse: ÒE ele precisa tomar
conhecimento de que ande de moto ou ande a cavalo Ž o mesmoÓ. Me diga uma
coisa, o homem que anda de moto sofre? Sofre. Tem ciœme? Tem. Se apaixona? Se
apaixona. Ele Ž o mesmo homem. O fato de andar de moto ou a cavalo n‹o
interessa, n‹o. Isso Ž somente um ve’culo de se andar, nŽ?
AndrŽa –
Inclusive, o vaqueiro tem feito o aboio hoje com moto, n‹o usa mais o cavalo em
todos os lugares, mas ele continua fazendo o aboio.
Ariano – Ele
continua fazendo o aboio e continua sendo o mesmo ser humano. Se eu pinto o
vaqueiroÉ Pois bem, baseado nisso, eu acho que o Brasil Ž o sert‹o do mundo, t‡
certo? O nordeste Ž o sert‹o do Brasil e o sert‹o Ž o osso do Nordeste. T‡
certo? Ent‹o, eu fiz um... Eu vou dizer para voc� ouvir o ritmo do Martelo. Vou
ver se eu sei decorado, se eu digo decorado: ÒO Galope sem freio dos cavalos/
Os punhais reluzentes do canga�o/ As primas e bord›es no seu transpasso/ O
pipoco do rifle e seus estralos/ O sino com seus toques de badalo/ E as on�as
com seus olhos amarelos/ O lajedo que Ž trono e que Ž castelo/ O ressono do
mundo ŽÉ/ O vento sai, o sol e a madrugada/ E eu tiro no galope do MarteloÓ. T‡
vendo? N‹o Ž um ritmo bonito?
AndrŽa – ƒ
sim.
Ariano – Eu
acho. E um ritmo Žpico.
AndrŽa – Os
cantadores dizem que o Martelo agalopado Ž o vestibular do cantador.
Ariano – E Ž.
AndrŽa – Que Ž
o g�nero mais dif’cil.
Ariano – ƒ
mais do que isso, Ž o doutorado.
AndrŽa – ƒ um
doutorado [risos]. ƒ verdade.
Ariano – [risos]
AndrŽa – J‡
estamos terminando, eu queria aproveitar para lhe agradecer e falar da
import‰ncia da sua contribui�‹o para o meu trabalho e para os estudos sobre
cultura popular. E s— para finalizar: o senhor possui material dessa Žpoca?
Alguma fotografia, qualquer coisa que remeta a esse per’odo que eu poderia ver?
Ariano – Eu
n‹o tenho, n‹o. Agora, um jornal aqui chamado Jornal Pequeno, voc� pode
encontrar na biblioteca, eu levei os cantadores, porque eu queria fazer
propaganda da cantoria. Ent‹o, uns dois dias antes ou um antes, eu n‹o me
lembro bem, eu acho que foi uns dois dias antes, eu n‹o me lembro bem, eu levei
os cantadores ao Jornal Pequeno na reda�‹o e eles tiraram fotografia dos
cantadores e deram not’cia da cantoria. E tem palavras minhas l‡, n‹o me lembro
se tem...
AndrŽa –
Muit’ssimo obrigada!
Ariano –
Certo. Obrigado. Eu fico muito contente tambŽm.
[Recebida
21 dez 2021]
[1] Doutor em Educa�‹o, Ator, Licenciado em Teatro. E-mail:
vagnervarg@gmail.com
[2] Ao longo deste texto, as
palavras outro(s), outra(s), em alguns momentos, ser‹o utilizadas em it‡lico
com o intuito de ressaltar uma �nfase a algum aspecto diferenciado e amplo
sobre o que se est‡ abordando na discuss‹o em determinado momento do texto. Esse
recurso tambŽm Ž utilizado para ressaltar que estas palavras n‹o ser‹o
utilizadas somente como pronomes indefinidos. Quando forem indicadas em
it‡lico, estas palavras representar‹o um convite a quem l� este texto para
refletir sobre possibilidades distintas das atŽ ent‹o desenvolvidas sobre o
aspecto exposto naquele momento da discuss‹o desse artigo. O emprego deste
recurso em it‡lico a essas palavras tambŽm foi feito com o intuito de que quem
esteja a ler este artigo, as considere em it‡lico como um tipo de provoca�‹o ˆ
reflex‹o desapegada das maneiras habituais como se depara com a leitura de um
texto.
[3] Como a discuss‹o deste artigo se dar‡ a partir da pesquisa realizada por um ator, apenas por uma quest‹o de simplifica�‹o de escrita, ao longo deste texto, quando forem mencionadas quest›es que possam ser extrapoladas e relacionadas ˆs(aos) profissionais das artes performativas, ser‹o referidos os termos ÒatorÓ ou ÒatoresÓ. Entretanto, as discuss›es aqui propostas n‹o se limitam somente a designa�›es de g�nero para profissionais desta ‡rea que se identifiquem com o g�nero masculino. Sempre que for indicado ÒatorÓ ou ÒatoresÓ, o texto tambŽm estar‡ fluindo as reflex›es para o g�nero feminino, n‹o-bin‡rie, etc. Neste sentido, convido a quem leia este texto que o fa�a substituindo as terminologias relacionadas a g�nero para maneira como melhor se identificar.
[4] Este outro modus ser‡
explicado adiante neste texto, quando forem mencionados os procedimentos
relacionados ao Experimento PoŽtico-Teatral, realizado por Vargas (2018).
[5] Sempre que o termo
ÒcorporeidadeÓ for referido neste texto, ele estar‡ em acordo com as premissas
defendidas no trabalho de Vargas (2018), dentre as quais, de maneira geral, se
pode dizer que a corporeidade evoca um modus particular em se relacionar
com suas percep�›es sinestŽsicas, estando atento aos processos significativos
advindos ao longo deste processo no qual o corpo se apresenta com o campo
emp’rico catalisador de reflex›es em por vir.
[6] VARGAS, Vagner. Demonstra�‹o tŽcnica da partitura corporal-vocal, referente ao experimento poŽtico-teatral, baseado no texto Prometeu Acorrentado, de ƒsquilo, j‡ com a organiza�‹o dos arquŽtipos vocais associados aos ressonadores corporais. Dispon’vel em: <https://youtu.be/dWLD-mCpBB4>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[7] VARGAS, Vagner. A subida ao penedo. Experimento
poŽtico-teatral. Dispon’vel em: < https://youtu.be/GAaEOquU_Kc>. Acesso em:15 jun. 2020.
[8] Quando me referir neste
texto ao termo ÒsinestesiaÓ e suas variantes, estarei concebendo-o de acordo
com o que Vargas (2018, p. 151) refere ao dizer que sinestesia Òcompreende
um conjunto geral de percep�›es e sensa�›es interligadas por todos processos
sensoriais. [...] oportunizando uma vis‹o mais ampla ao leitor sobre como o
sistema sensorial/afetivo/emocional/volitivo influi no processo de
significa�‹oÓ.
[9] Segundo Arist—teles (2007,
p. 35-36), ÒA melopeia ou composi�‹o Ž a parte da arte musical que, entre os
gregos, referia-se ˆ composi�‹o mel—dica. Esta parte, pela falta de documentos,
Ž a que menos conhecemos; nela a mœsica estava subordinada ˆ poesia. A melodia
Ž uma sequ�ncia de sons musicais dispostos por ordem tal que logram criar um sentido
satisfat—rio ao ouvido e ao esp’ritoÓ.
[10]VARGAS,
Vagner. Preso ˆs correntes. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: <https://youtu.be/crDbkXcmQh0>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[11] VARGAS,
Vagner. Lamento. Experimento
poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/CkEyIZedQR4>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[12]VARGAS, Vagner. Revolta contra Zeus. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: <https://youtu.be/3yXJm372J7s>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[13]VARGAS, Vagner. Medo do
tŽrmino da noite.
Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/B7lmnbh4z6k>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[14]VARGAS, Vagner. Chegada do corvo. Experimento
poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/tGQl66EacuY>. Acesso em: 15 jun. 2020.
[15] Doutor em Comunica�‹o e
Informa�‹o pela UFRGS, mestre em Jornalismo pela UFSC. Pesquisador de
p—s-doutorado da UNEB. Contato: andriolli_costa@hotmail.com.
[16] Cidade da regi‹o
metropolitana de S‹o Paulo de onde veio o barro.
[17] Quem sugere a
etimologia a Lobato Ž Manequinho Lopes, possivelmente influencia por O Tupi na Geografia Nacional, de
Theodoro Sampaio, cuja segunda edi�‹o foi lan�ada em 1914.
[18] Conforme a
tradi�‹o portuguesa, o arcanjo apareceu para Nossa Senhora ˆs 18h. Por isso
sempre nesse hor‡rio o sino soava e os trabalhos eram interrompidos.
[19] Universidade Estadual Paulista ÒJœlio de Mesquita FilhoÓ – UNESP
[20] Diferentemente da vis‹o
can™nica do termo e da maneira como concebemos o pl‡gio atualmente, a autoria
dentro do Cordel Ž enxergada de uma maneira intrinsicamente diversa, ao menos
no come�o do sŽculo XX. Em um contexto em que a repeti�‹o de hist—rias tradicionais
era algo n‹o apenas natural, como tambŽm desejado pelo pœblico leitor/ouvinte,
cabia aos poetas e editores revisitarem essas narrativas. Impondo-lhes, por
vezes, pequenas modifica�›es. Podemos concluir que Ž um conceito muito mais
flex’vel na literatura popular do que nos romances, por exemplo, em que uma
atitude como essa poderia gerar disputas judiciais.
[21] Pensar a originalidade
tambŽm envolve a quest‹o de revisita�‹o de textos antigos, portanto a
verdadeira originalidade no contexto do cordel estaria em conseguir produzir
uma obra com linguagem pr—xima a de seus leitores/ouvintes e da realidade em
que viviam. Dessa forma, seria poss’vel que o pœblico se identificasse com suas
cria�›es e se sentisse parte de suas narrativas (cf. OLIVEIRA, 2017, p. 52).
[22] Seria o personagem arquet’pico Pedro Malasartes, que pode tambŽm figurar no Cordel sob outras alcunhas. A sua arma secreta Ž o ÒquengoÓ, a intelig�ncia, e aparece denominado como ÒamarelinhoÓ, por causa do Òf’sico disforme e comprometido pelo ancil—stomo, pela s’filis e pela defici�ncia alimentar do trabalhador das usinas e das planta�›esÓ (MARQUES, 2014, p. 248).
[23] Nascido em Pombal-PB. Viveu a maior parte de sua vida morando em Recife, cidade em que se fixou e iniciou a sua produ�‹o de cordŽis. Barros conseguiu o feito de viver exclusivamente da venda de seus cordŽis, o que justifica tambŽm a sua vast’ssima produ�‹o. Suas obras permanecem no imagin‡rio coletivo nordestino atŽ os dias de hoje (OLIVEIRA, 2017).
[24] Apesar de o folheto ser referenciado como de autoria de Jo‹o Martins de Ata’de, a Bibliografia PrŽvia de Sebasti‹o Nunes Batista considera Leandro Gomes de Barros o autor do poema. Essa mudan�a de autoria ocorreu a partir do momento em que Ata’de comprou todo o esp—lio de Barros, a partir de ent‹o Ata’de passa a assinar os folhetos do autor como se fossem de sua autoria.
[25] Professor doutor e
pesquisador da Universidade Federal de Goi‡s – UFG.
[26] Mestra em Estudos
lingu’sticos pela Universidade Federal de Goi‡s – UFG.
[27] O videoclipe foi publicado
em 28 de setembro de 2010, no Youtube, no canal Cufatvddos. AtŽ a
produ�‹o deste artigo, o v’deo trazia 416.452 visualiza�›es e 889 coment‡rios.
O acesso foi em 30 de junho de 2020.
[28] Bobbio (1995) apresenta
instigante estudos sobre as diferen�as entre esquerda e direita.
[29] Dispon’vel em:
<https://g1.globo.com/ms/mato-grosso-do-sul/noticia/2019/06/16/em-junho-reserva-indigena-de-dourados-registra-media-de-um-assassinato-a-cada-dois-dias-e-meio.ghtml>
Acesso em: 30 jun. 2020.
[30] Vide trabalhos de Cabral e Lima
(2018).
[31] Por se tratar de um
videoclipe de dom’nio pœblico, essa pesquisa n‹o foi submetida ao Comit� de
ƒtica.
[32] Refer�ncia processual na
Justi�a Federal de Dourados: 5000780-70.2017.4.03.6002.
[33] Devido ˆ limita�‹o de
espa�o, n‹o incluiremos o anexo, com a letra integral da mœsica.
[34] Doutoranda no Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica pela Universidade de Bras’lia. Mestre em Lingu’stica pelo Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica pela Universidade de Bras’lia. Graduada em Letras Portugu�s do Brasil como Segunda L’ngua pela Universidade de Bras’lia. Professora na rede de ensino privado do Distrito Federal. Poeta, performer e atriz.
[35] L’ngua de origem banto
falada em Angola pelos ambundos.
[36] Campanha de Erradica�‹o de
Invas›es – C.E.I. (1970).
[37] Fala do document‡rio ÒRap, o
canto da Ceil‰ndiaÓ de Adirley Queir—s, 2005.
[38] Os principais elementos que
comp›em o Hip Hop s‹o o DJ (mœsico), o break (dan�a), o grafite
(arte visual), o rap (poesia), o MC (mestre de cerim™nias) e a
consci�ncia.
[39] ÒTodos somos umÓ, faixa 5 do
CD ÒAqui vamos n—sÓ (2015) do grupo Sobreviventes de Rua.
[40] Por quest›es Žticas, n‹o
ser‡ citado neste trabalho o nome da institui�‹o de ensino, assim como a
identidade dos alunos, por motivos de resguardo. Cito que, para a realiza�‹o
deste trabalho, foi concedida a autoriza�‹o por parte do diretor e vice-diretor
da escola.
[41] O quilombismo se estruturava
em formas associativas que tanto podiam estar localizadas no seio de florestas
de dif’cil acesso, o que facilitava sua defesa e organiza�‹o econ™mico-social
pr—pria, como tambŽm assumiram modelos de organiza�‹o permitidos ou tolerados,
frequentemente com ostensivas finalidades religiosas (cat—licas), recreativas,
beneficentes, esportivas, culturais ou de aux’lio mœtuo [...] rede de
associa�›es, irmandades, confrarias, clubes, gr�mios, terreiros, centros,
tendas, afoxŽs, escolas de samba, gafieiras foram e s‹o os quilombos
legalizados pela sociedade dominante; do outro lado da lei, erguem-se os
quilombos revelados que conhecemos. [...]. A este complexo de significa�›es, a
esta pr‡xis afro-brasileira, eu denomino de quilombismoÓ (NASCIMENTO, 2019, p. 281-282).
[42] ÒPindorama (Terra das
Palmeiras) Ž uma express‹o tupi-guarani para designar todas as regi›es e
territ—rios da hoje chamada AmŽrica do SulÓ (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 20).
[43] Mœsica ÒS— curto o que Ž bomÓ, produzida
no ano de 2004 em parceria com Look e VadiosLocus.
[44] Mœsica ÒRap da felicidade
(Eu s— quero Ž ser feliz)Ó, produzida em 1995.
[45] Mœsica ÒBras’lia PeriferiaÓ
produzida em 1994 do CD ÒDia a Dia da PeriferiaÓ.
[46] Single ÒO cŽu Ž o limiteÓ, lan�ada
em 2018 no canal YouTube da Devasto Prod.
[47] Campeonato de poesia falada.
[48] Projeto financiado pelo Fundo de Apoio ˆ Cultura do
Distrito Federal que visibilizava levar a arte a paradas de ™nibus de
periferias como o Recanto das Emas e o Riacho Fundo II. Poesia, mœsica, grafite
e dan�a foram algumas das manifesta�›es que se aproximaram do perifŽrico que
enfrenta o transporte coletivo prec‡rio do Distrito Federal diariamente.
[49] Projeto apresentado
ao Fundo de Apoio ˆ Cultura do Distrito Federal em 2017 e contemplado no edital
macrorregional.
[50] Esse movimento surge no
distrito do Bronx (Nova Iorque). ƒ uma iniciativa de negros, descendentes de
africanos escravizados que foram trazidos ˆs AmŽricas, e de latinos que
migraram para os Estados Unidos no p—s-Segunda Guerra em busca de melhores
condi�›es de vida (TEPERMAN, 2015).
[51] Mœsica ÒFavelaÓ do CD
ÒNovidades AncestraisÓ.
[52] O Infopen Ž respons‡vel pelo
levantamento de informa�›es estat’sticas do sistema penitenci‡rio brasileiro.
[53] Refer�ncia ˆ intelectual
LŽlia Gonzalez ao criticar a l—gica de domina�‹o em que negros e negras s‹o
considerados (as) domestic‡veis, imposs’veis de falarem por si, por carregarem
atributos de infantilidade, isso tudo por estarmos no lixo da sociedade
brasileira. Assim, a autora conclui que Ž preciso assumir a pr—pria fala e
afirma: Òo lixo vai falar, e numa boaÓ (GONZALEZ, 1984, p. 225).
[54] Esses saberes est‹o muito
relacionados aos saberes ancestrais que dizem respeito a ser, em contraposi�‹o aos saberes sintŽticos, que envolvem ter. Como o pr—prio mestre quilombola
Bispo dos Santos afirma: ÒEu n‹o preciso de Karl Marx e de outros acad�micos:
preciso de minha gera�‹o av—, aquela que veio antes de mim e que me move. Essa
l—gica Ž organizada em come�o, meio e come�o. Minha gera�‹o av— Ž come�o, minha
gera�‹o filha Ž meio e minha gera�‹o neta Ž come�o, de novoÓ (BISPO DOS SANTOS,
2019, p. 27).
[55] Doutoranda do PPG em Letras da Universidade Estadual de Londrina. Mestre em Cultura Visual pela FAV/Universidade Federal de Goi‡s. Professora do Departamento de Arte Visual da Universidade Estadual de Londrina.
[56] Trecho do programa de TV
sobre arte contempor‰nea, CATçLOGO, cria�‹o do diretor Marcos Ribeiro.
Produzido pela TV Imagin‡ria Produ�›es, Ž uma realiza�‹o do canal de TV a cabo
CANAL BRASIL. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=YER6ZYUyAFQ Acesso em: 8 ago. 2020.
[57] Doutor em Comunica�‹o e Cultura pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro e Professor Titular Pleno da UNEB/Campus I, Professor Permanente do
Programa de P—s-gradua�‹o em Estudos das Linguagens – PPGEL/UNEB.
[58] Todos textos que aparecem
alinhados ˆ direita s‹o trechos da poesia Tempo de Pipa, de Breno Silva
(2020). Mantive a escrita do texto como encontrada no v’deo disponibilizado no Youtube.
[59] Agrade�o ao Breno Silva,
autor da poesia e idealizador do v’deo, pelas contribui�›es compartilhadas na
pequena e r‡pida Òentrevista bate-papoÓ concedida atravŽs da rede social Instagram,
em agosto de 2020.
[60]
Cf. Day (2005); Gohn (2008).
[61] Cf.
Rosas (2005).
[62] Segundo Gon�alves (2012, p.
181), o termo foi criado pelo coletivo norte-americano Critical Art Ensemble,
em 1996.
[63] Viajou Sem Passaporte, 3N—s3
e Tupi N‹o D‡ s‹o alguns desses grupos.
[64] Partida de futebol informal entre
jogadores amadores em campo improvisado.
[65] Mesmo que se reconhe�a que o videoclipe possui tra�os de produ�›es convencionais, em seus termos tŽcnicos, vale ressaltar que o interesse pela produ�‹o reside no fato de essa ter sido produzida na l—gica do associativismo, por muitos coletivos, e de ser assinada por diretores e artistas com larga experi�ncia na atua�‹o em coletivos. Considero que a singularidade desse tipo de produ�‹o n‹o reside, necessariamente, no uso dos seus recursos tŽcnicos, mas, sobretudo, nas suas possibilidades de narrar hist—rias, apresentar paisagens e empregar corpos muitas vezes exclu’dos disso que aqui estamos a tratar como produ�›es convencionais, produtos da grande m’dia. Para quem tem interesse na discuss‹o acerca da presen�a das for�as e dos fluxos hegem™nicos em produtos e produ�›es tidas como contra-hegem™nicas, indico a leitura de Freitas (2009).
[66] Entrevista a mim concedida
em agosto de 2020.
[67] Professora do Departamento de Letras Cl‡ssicas e Vern‡culas e do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras da UFPB.
[68] A pesquisa aqui apresentada
foi feita durante o est‡gio de p—s-doutorado, realizado sob a supervis‹o do
professor Francisco Topa, na Universidade do Porto, entre setembro de 2013 e
agosto de 2014.
[69] Cole�‹o Cordel. Dispon’vel
em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/. Acesso em: 29 dez. 2020.
[70] N‹o tive acesso a pesquisas
que tratem da atua�‹o das mulheres nesse campo, mas fica aqui o convite para
futuras investiga�›es.
[71] Mestre em
Arte, Cultura e Cogni�‹o (UERJ). Bacharel em Dan�a (UFRJ) e Licenciando em
Educa�‹o F’sica pela mesma. Contato: genilson.leite@hotmail.com
[72] Mestre em
Rela�›es Etnicorraciais (CEFET-Maracan‹), Especialista em Hist—ria da çfrica e
da Di‡spora Africana no Brasil (FIS) e em G�nero e Sexualidade (UERJ). Bacharel
e Licenciado Pleno em Educa�‹o F’sica (UFRJ). Atualmente Ž professor da
SME-PCRJ. Contato: capoeiranomade@yahoo.com.br
[73] Destaca-se que h‡ uma
prefer�ncia pelas manifesta�›es populares da cultura afro-ind’genas do Norte e
Nordeste brasileiro com exce�‹o do jongo,
que Ž o ÒritmoÓ mais pedido e œnico
de origem no Sudeste, e que isso pode ter rela�‹o com o trabalho
disseminador do Mestre Darcy do jongo, que com seu grupo ÒJongo da SerrinhaÓ levou o jongo para o
centro do Rio e para os palcos do Brasil e do exterior, assim como tambŽm
gravou CDs, CD-livro, produziu material audiovisual. A mais, somos ÒagraciadosÓ por grupos de Samba de roda e AfoxŽ
(BA), Coco
(PE, AL), Maracatu
(PE), Tambor
de crioula, Bumba-meu-boi e Cacuri‡ (MA) e os grupos mistos que como o j‡ citado Òfaz
tudoÓ.
[74] Conforme consta na
p‡gina da EEFD, no item ÒHist—ricoÓ da Cia Folcl—rica, ela Òfoi fundada em 1987
pela professora Eleonora Gabriel, na Escola de Educa�‹o F’sica e Desportos
(EEFD). Este projeto originou-se do Grupo de Dan�as Folcl—ricas da UFRJ,
fundado pela professora S™nia Chemale na dŽcada de 70Ó (COMPANHIA FOLCLîRICA RIO-UFRJ,
2020, p. 1).
[75] Express‹o utilizada por nordestinos para se referirem ˆs
pessoas das regi›es Sudeste e Sul do pa’s, com um tom de tratamento igualmente
genŽrico dado por esses ao povo nordestino.
[76] Em sua
p‡gina do facebook, o Grupo Zanzar (2020, p. 1) descreve o seguinte:
ÒCom quatorze anos de exist�ncia, o Zanzar Ž um grupo de mœsica e dan�as
populares brasileiras que trabalha as linguagens das culturas populares
tradicionais (coco, jongo, carimb—, cavalo-marinho, maracatu, cirandas e frevo,
entre outros), sendo formado por mœsicos e brincantes [É] e promove
mensalmente, na œltima quinta feira, ˆs 20h, uma Roda de Coco aberta e gratuita
nos Arcos da LapaÓ. E finaliza exaltando que recria Òestas manifesta�›es dentro
de uma linguagem pr—pria e original que valoriza e se inspira nesta rica
brasilidadeÓ.
[77]A Cia. Folcl—rica (2020, p. 1), ao ir a campo para montar um espet‡culo, relata que ÒatravŽs dessa iniciativa surgiu a oportunidade de conhecer e incentivar v‡rios grupos tradicionais como o grupo de Cirandeiros de Tarituba (Paraty)Ó, e que Òap—s o incentivo e o intenso trabalho realizado pela Companhia junto ˆ comunidade, os taritubenses reativaram o grupo de dan�as e, mais tarde, lan�aram um CD–livro sobre sua culturaÓ. Defende ainda essa a�‹o como Òuma contribui�‹o essencial de um projeto acad�mico realizado dentro de uma universidade pœblicaÓ.
[78] Professora da Universidade
Federal de Minas Gerais, doutoranda em Letras/Estudos liter‡rios, ‡rea de
concentra�‹o Teoria da Literatura e Literatura Comparada.
[79] Graduado
em Artes C�nicas (UNESPAR-FAP). Mestrando em Estudos de Cultura Contempor‰nea,
Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPGECCO-UFMT). Membro da Solta
Cia de Teatro de Cuiab‡ – MT, do Coletivo ˆ Deriva e do Grupo de Pesquisa
Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e transversalidades. Professor
colaborador da MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.
[80] Graduada em
Comunica�‹o Social – R‡dio e TV (UFMT). Mestranda em Estudos de Cultura
Contempor‰nea, Linha de Pesquisa em PoŽticas Contempor‰neas (PPG-ECCO/UFMT),
Membro do Grupo de Pesquisa Artes H’bridas: intersec�›es, contamina�›es e
transversalidades, do In-Pr—prio Coletivo e Coordenadora das çreas TŽcnicas da
MT Escola de Teatro/UNEMAT. Bolsista Capes.
[81] Graduado em Hist—ria pela
Universidade Federal do Rec™ncavo da Bahia. Mestre em Hist—ria pela
Universidade Federal da Bahia. Cursa doutorado em Hist—ria na UFMT. Professor
EBTT de Hist—ria no Instituto Federal do Mato Grosso.
[82] Pesquisadora Associada do
Programa de P—s-Gradua�‹o em
Estudos de Cultura Contempor‰nea da UFMT. Doutora em Artes Ci�ncias pela USP.
[83] Slams ou poetry slams s‹o
encontros de poesia falada (spoken word) e perform‡tica, geralmente em forma de
competi�‹o, em que um jœri popular, escolhido espontaneamente entre o pœblico,
d‡ nota aos slammers (os poetas), levando em considera�‹o principalmente dois
critŽrios: a poesia e o desempenho.
[84] Este artigo teve in’cio na
disciplina Performatividades discursivo-afetivas
do mal-estar na contemporaneidade,
ofertada pela professora doutora Branca Falabella Fabr’cio, no Programa de P—s-gradua�‹o em
Estudos de Linguagem da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGEL-UFMT).
[85] Nasceu em Rondon—polis (MT).
Seu nome art’stico (Pacha) Ž derivado do Quechua, a l’ngua antiga dos povos incas e prŽ-incas, significa ÒmundoÓ ou
ÒuniversoÓ. Pacha tem uma grande atua�‹o no segmento da poesia, Ž tricampe‹ do slam
estadual mato-grossense, foi semifinalista na Copa Brasileira de Poesia –
SlamBR em 2017 e finalista em 2018. Atualmente, em turn� pelo Sesc no projeto
ÒA Arte da PalavraÓ, viajando por 7 estados e 14 cidades brasileiras, com o
espet‡culo ÒFaces: A Poesia Negra Em Mim, Em N—sÓ. Em suas letras, aborda o
empoderamento da mulher, do povo preto, a espiritualidade no AxŽ e suas
viv�ncias di‡rias. Em 2017,
foi contemplada no edital da SEC de Cultura de Cuiab‡ que viabilizou seu
primeiro disco ÒOmo Oy‡Ó, lan�ado em setembro de 2018 (Texto fornecido pela
pr—pria artista).
[86]A cr’tica ou o pensamento decolonial ou descolonial Ž uma
tentativa de incluir a AmŽrica no pensamento p—s-colonial, uma vez que os
autores p—s-coloniais n‹o estudavam ou n‹o se interessavam pelos estudos dos
processos de coloniza�‹o e domina�‹o espanhola e portuguesa na AmŽrica. A
aten�‹o da cr’tica p—s-colonial se restringia aos pa’ses de l’ngua inglesa,
mais especificamente a êndia e alguns pa’ses do Oriente MŽdio que foram
colonizados pela Inglaterra. Diferente do pensamento p—s-colonial, a cr’tica
decolonial vai levar em considera�‹o o di‡logo com mœltiplas epistemes,
buscando o pluralismo de ideias e a diversidade epistemol—gica. A proposta
decolonial Ž que se insira a AmŽrica Latina nas discuss›es p—s-coloniais, mas, mais
do que isso, que se parta da pr—pria AmŽrica Latina e de sua diversidade
epistemol—gica para entender suas quest›es. Para Grosfoguel (2014), existe uma
pluralidade de vis›es e diversas formas de pensar no interior da cr’tica
decolonial, afirmando que se fosse œnica ou se existisse uma œnica forma de
pensar, seria mais uma reprodu�‹o do pensamento colonial, como em certa medida,
foi a cr’tica p—s-colonial. Sendo assim, n‹o existe um modelo œnico na cr’tica
decolonial, muito menos a nega�‹o ou o desmerecimento de algumas epistemologias
europeias importantes para compreender a quest‹o da domina�‹o e da
subalternidade.
[87] Os griots s‹o considerados guardi›es da hist—ria e da
mem—ria que por meio da
oralidade transmitem suas hist—rias e seus
conhecimentos. Muitos s‹o cantadores.
[88] Escala
– Discurso e Dimens›es do Social da Vida Social
(Tradu�‹o nossa).
[89] Òthere are no
ideologically neutral scales, and people and institutions
that come out Òon topÓ of scalar exercises ofen reinforce the distinctions that
so ordained them.Ó
[90] Òthat the scales that social actors
rely upon to organize, interpret, orient, and act in their worlds are not given
but made—and rather laboriously so. For to scale is not simply to assume
or assert ÒbignessÓ or ÒsmallnessÓ by way of a ready-made calculus. Rather, [...] people use language to scale the
world around them. [...]. Although
things can be made big though analogy, scale-making always also entails drawing
distinctions, between the bigness of a whaleÕs rib and the smallness of a marble,
for instance. As an inherently relational and comparative endeavor, scaling may
thus connect and even confate what is geographically, geopolitically,
temporally, or morally ÒnearÓ while simultaneously distinguishing that nearness
from that which is ÒfarÓ. Similarly, scaled hierarchies are the efects of
eforts to sort, group, and categorize many things, people, and qualities in
terms of relative degrees of elevation or centrality. Tink, for example, of the
way one entity or domain seems to encompass another, as with maps that
subordinate localities within higher order administrative units, or of the way
nation-states are commonly thought to hover ÒaboveÓ communities.Ó
[91] Termo usado por Quijano (2009) ao denunciar a classifica�‹o social a
partir da ideia de ra�a como principal motor do atual padr‹o de poder mundial.
[92] Dispon’vel
em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36461295. Acesso em: 10 nov. 2019.
[93]Dispon’vel em:
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/04/militares-do-exercito-matam-musico-em-abordagem-na-zona-oeste-do-rio.shtml. Acesso em: 10 nov. 2019.
[94] Dispon’vel
em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,75-das-vitimas-de-homicidio-no-pais-sao-negras-aponta-atlas-da-violencia,70002856665. Publicada dia 05/06/2019.
Acesso em:
10 nov.
2019.
[95] Dispon’vel em: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/assassinatos-de-jovens-negros-no-brasil-aumentam-429-em-20-anos/. Publicada dia 17/04/2019. Acesso: 10 nov. 2019.
[96] ÒHay um hecho en la cultura de AmŽrica toda, y enla de AmŽrica Latina en
particular, que implica a todo el mundo de hoy em suglobalidad y que precisa ser
reconocido, puesto en cuesti—n, debatido y evacuado: la colonialidad del poder. Ese es el primer paso endirecci—n
de la democratizaci—n
de la sociedad
y del Estado; de la reconstituci—n epistemol—gica de la modernidad; de la bœsqueda
de una racionalidad alternativa.Ó
[97] Possui gradua�‹o em Licenciatura em Letras
Vern‡culas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (1999), Mestrado em
Educa�‹o pela Universidade Federal da Bahia (2005) e Doutorado em Programa de
P—s-Gradua�‹o em Educa�‹o pela Universidade Federal da Bahia (2013). Atualmente
Ž professora adjunta da Universidade Estadual de Feira de Santana e Contadora
de Hist—rias. Coordena o Programa de P—s-gradua�‹o Mestrado Profissional em
Letras /PROFLETRAS/UEFS e Ž l’der do Grupo de Estudos e Pesquisas em PoŽticas
Orais/UEFS. Tem experi�ncia na ‡rea de Educa�‹o, com �nfase em Pol’tica
Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: Conta�‹o de Hist—rias,
Leitura, Literatura Infantil e Juvenil, Forma�‹o do Leitor e EaD.
[98] Possuo gradua�‹o em Letras pela
Universidade Estadual de Maring‡ (1996), mestrado em Letras pela Universidade
Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho (2001) e doutorado em Letras pela
Universidade Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho (2007). Sou professora
ASSOCIADO C e fa�o parte do quadro permanente da Universidade Estadual de
Maring‡. Tenho experi�ncia na ‡rea de Letras, com �nfase em Literatura e Cinema
e ensino de L’nguas, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura
comparada, literatura e outras artes, ensino de literatura, leitura e
letramento texto liter‡rio, intera�‹o verbal, l’nguas estrangeiras modernas.
Atuo na P—s-gradua�‹o do Profletras, Mestrado profissional em Letras,
ministrando a disciplina Leitura do texto liter‡rio. Participo do grupo de
pesquisa ÒRessignifica�›es do passado na AmŽrica: processos de leitura, escrita
e tradu�‹o de g�neros h’bridos de hist—ria e fic�‹o – vias para a
descoloniza�‹oÓ. Com P—s-doutorado intitulado ÒLa dame aux CamŽlias –
romance, drama, —pera, filme, cordel: releituras comparadas do perfil de uma
cortes‹Ó, na UNIOESTE/Cascavel, sob tutoria do Professor doutor Gilmei
Francisco Fleck; em parceria com a UniversitŽ Lyon 2, sob tutoria da Professora
Doutora Maria da Concei�ao Coelho Ferreira.
[99] Mestranda em Estudos Liter‡rios
pela UEFS (Bolsista Capes). Pedagoga pela Universidade Federal da Bahia (2007).
Trabalhou como arte-educadora no Espa�o Cultural Pierre Verger entre os anos de
2010-2016, nas ‡reas de Cultura Digital e incentivo ˆ leitura, tendo recebido o
PrŽmio Pontos de Leitura (2012). Ministra oficinas de escrita e leitura, tendo
participado da exposi�‹o "As aventura de Pierre Verger" (2015).
Trabalhou como pedagoga no Programa de Inform‡tica na Educa�‹o Especial da OSID,
orientando projetos de pessoas com defici�ncia, durante os anos de 2005 a 2007.
Durante dois anos foi bolsista de Inicia�‹o cient’fica PIBIC, nas ‡reas de
gest‹o educacional e educa�‹o e diversidade. Atua como pesquisadora e
professora, principalmente nos seguintes temas: educa�‹o e diversidade -
inform‡tica educativa - arte-educa�‹o - educa�‹o e cultura.
[100] FORD, W. Clyde. O
her—i com rosto africano: mitos da çfrica. S‹o Paulo: Summus, 1999.
[101]
Possui
gradua�‹o em Licenciatura em Letras Vern‡culas pela Universidade Estadual de
Feira de Santana (1998), mestrado em Literatura e Diversidade Cultural pela
Universidade Estadual de Feira de Santana (2006) e doutorado em Letras pela
Pontif’cia Universidade Cat—lica do Rio Grande do Sul (2014). Atualmente Ž professor
Titular A da Universidade do Estado da Bahia e professor do Mestrado
Profissional em Letras da Universidade do Estado da Bahia, atuando, ainda como
Diretor do Departamento de Ci�ncias Humanas, Campus V, da UNEB. Tem experi�ncia
na ‡rea de Letras, com �nfase em Letras, atuando principalmente nos seguintes
temas: literatura e outras artes, identidade, afrodescend�ncia e cultura.
[102] Dispon’vel em: www.poetriz.wordpress.com/2006/01/11/0-menino-que-carregava-agua-na-peneira/ Acesso em: 3 jan. 2012, ˆs 15h.
[103] AcrŽscimo nosso.
[104] AcrŽscimo nosso.
[105] Dispon’vel em: www.atualfilmes.onsugar.com/Download-O-Auto-da-Compadecida-6193160. Acesso
em: 15 nov. 2010, ˆs 16h.
[106] Dirige-se ao jornalista e escritor Samarone Lima, seu assessor de imprensa, presente em sua casa no momento da entrevista.
[107] Refer�ncia ˆ pesquisadora
Idelette Muzart-Fonseca dos Santos.