REVISTA DO GT DE LITERATURA ORAL E POPULAR DA
ANPOLL
Revista Boitat‡ Ž uma publica�‹o semestral, de
acesso livre, do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de
Pesquisa e P—s-Gradua�‹o em Letras e Lingu’stica (ANPOLL)
GT LITERATURA
ORAL E POPULAR
BIæNIO 2018/2020
COORDENADOR
Prof. Dr. Alexandre Ranieri Ferreira
Secretaria Estadual de Educa�‹o do Par‡
alexandre_ranieri@hotmail.com
VICE-COORDENADORA
Profa. Ma. DŽlcia Pombo
PPGL-UFPA
delciauab@gmail.com
SECRETçRIA
Profa. Ma. Dia Favacho
PPGED-UEPA
favachodia1@gmail.com
IDADE MƒDIA
ORALIDADE E PERFORMANCE
|
Boitat‡:
Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa
e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL [recurso eletr™nico] /
Universidade Estadual de Londrina - n. 30 (jul. /dez. 2020). –
Londrina: UEL; Bras’lia: ANPOLL, 2020. Semestral Requisitos do
sistema: Adobe Reader. Modo de
acesso: < http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/index> ISSN:
1980-4504 1.
Literatura oral e popular 2. Oralidade I. Ferreira, Alexandre Ranieri. II. Universidade Estadual de Londrina. III.
Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica. IV.
T’tulo: Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o
Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL |
êndice
para o cat‡logo sistem‡tico:
|
1. |
Literatura oral e popular |
82.085 |
EXPEDIENTE
EDI‚ÌO
Dr. Alexandre Ranieri
Ferreira (Est‡cio-BelŽm)
Dr. Frederico Augusto
Garcia Fernandes (UEL)
EDITORIA ASSISTENTE
Dra. Mauren Pav‹o
Przybylski da Hora Vidal (IFBaiano)
ORGANIZA‚ÌO
Dra. AndrŽa Bet‰nia da
Silva (UNEB)
Dra. Bruna Paiva de
Lucena (UNB)
COMISSÌO EDITORIAL
Dra. Anna Christina
Bentes
Universidade Estadual de
Campinas
Dra. Ana Lœcia Liberato
Tettamanzy
Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
Dra. Berenice Araceli
Granados V‡squez
Universidad Nacional
Aut—noma de MŽxico
Dra. Cl‡udia Neiva de
Mattos
Universidade Federal
Fluminense
Dra. Edil Silva Costa
Universidade Estadual da
Bahia
Dr. Eudes Fernando Leite
Universidade Federal da
Grande Dourados
Dr. Frederico Augusto
Garcia Fernandes
Universidade Estadual de
Londrina
Dr. J. J. Dias Marques
Universidade do Algarve
(Portugal)
Dr. Jorge Carlos Guerrero
University of Ottawa
(Canada)
Dr. JosŽ Guilherme dos
Santos Fernandes
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Josebel Akel Fares
Universidade Estadual do
Par‡
Dra. Lisana Bertussi
Universidade de Caxias do
Sul
Dra. Maria do Socorro
Galv‹o Sim›es
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Maria Incoronata
Colantuono
Universitat Aut˜noma de
Barcelona
Dr. M‡rio Cezar Silva
Leite
Universidade Federal de
Mato Grosso
Dr. Ronald Ferreira da
Costa
Professor do Instituto
Federal do Paran‡
Dr. S’lvio Renato Jorge
Universidade Federal
Fluminense
Dra. Vanderci de Andrade
Aguilera
Universidade Estadual de
Londrina
Dra. Vera Lœcia Medeiros
Universidade Federal do
Pampa
PARECERISTAS DESTE NòMERO
Dra. Berenice Araceli
Granados V‡squez
Universidad Nacional
Aut—noma de MŽxico
Dra. Cl‡udia Freitas
Pantoja
Faculdade do Vale do Iva’
Dra. Cristiane de Assis
Portela
Universidade de Bras’lia
Dra. Edil Silva Costa
Universidade Estadual da
Bahia
Dra. Francisca Pereira
dos Santos
Universidade Federal do
Cariri
Dr. Jo‹o Evangelista do
Nascimento Neto
Universidade Estadual da
Bahia
Dra. Jana’na Marques
Ferreira Rocha
Universidade de Santiago de Compostela
Dra. Laura Regina dos
Santos Dela Valle
Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
Dra. L�nia M‡rcia
Mongelli
Universidade de S‹o Paulo
Dra. Maria Incoronata
Colantuono
Universitat Aut˜noma de
Barcelona
Dra. Maria Isabel Mor‡n
Cabanas
Universidade de Santiago
de Compostela
Dra. Maria Nilda de
Carvalho Mota
Universidade do Estado de
S‹o Paulo
Dr. Nerivaldo Alves Araœjo
Universidade Estadual da
Bahia
Dra. Yara Frateschi
Vieira
Pontif’cia Universidade
Cat—lica de S‹o Paulo
PROJETO E ENSAIO VISUAL
Dr.
Alberto Ricardo Pessoa
Universidade
Federal da Para’ba
REVISÌO
Sylvia
Calandrini
SUMçRIO
APRESENTA‚ÌO
AndrŽa Bet‰nia da
Silva , Bruna Paiva de Lucena .......................................................................6
CONVIDADOS
Ant™nio Aleixo e Ant™nio
Vieira: di‡logos imaginados ou Boca e Papel: espa�os de fric�‹o da palavra
poŽtica
Edilene Matos
................................................................................................................................9
Princ’pios de um Sistema
Editorial
Maur’lio Antonio Dias de
Souza..................................................................................................34
Vozes de mulheres no
terri—rio do cordel e da cantoria
Ria
Lemaire..................................................................................................................................47
DOSSIæ
Metade cara, metade m‡scara: mem—ria
coletiva e identidade ind’gena na obra de Eliane Potiguara
Joel Vieira da Silva Filho, Cristian Souza de Sales
.....................................................................62
Ò...Mesmo que nos arranquem os dentes e a
l’nguaÓ: o espa�o do sagrado da fala na literatura de Eliane Potiguara
Renata Daflon
Leite......................................................................................................................75
Autobiografias de mulheres cordelistas: uma
contribui�‹oo para a nova historiografia do cordel
Maria Gislene Carvalho
Fonseca...................................................................................................88
Mem—ria, voz e autoria em Os sapatos de TŽ,
de Cremilda e Elizabeth Nascimento
Fernanda Oliveira da Silva...........................................................................................................101
Vozes de Maracangalha: intersec�‹o de
saberes e afetos
Railda Maria da Cruz dos Santos, Edil Silva Costa
.....................................................................110
A poŽtica da voz no territ—rio do
maravilhoso napolitano e baiano: transmiss‹o oral, conselho e troca de saberes
Adriana Aparecida de Jesus Reis..................................................................................................121
ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das
pretasÓ: o PROMIC e a performance como mobilizador identit‡rio e formativo
Amanda Maria Damasio Teixeira, Ana Cristina Pereira da
Silva................................................134
ENTREVISTA
Uma conversa com e sobre Salete Maria da
Silva
Salete Maria da Silva , Andrea Bet‰nia, Bruna Lucena
...............................................................146
Apresenta�‹o
A voz como territ—rio de
(re)exist�ncia, em
suas mœltiplas corporifica�›es, existe e resiste ao passar largo dos tempos,
seja fazendo parte das trilhas dos nossos corpos nas rodas em que nos
encontr‡vamos em prosa (e que esperan�amos por voltar a assim viver), seja
caminhando mais que veloz pelas redes invis’veis, mas j‡ t‹o presentes, das
telas de celulares, computadores... E o que nasceu no calor do afeto ganhou os
sal›es, as salas, as escolas, as universidades, sendo, a um s— tempo, m’dia,
poesia, discurso, panfleto. J‡ sabemos que n‹o cabe mais falar em morte do
popular como muitos anunciaram, mas em reinven�‹o cont’nua e viva de uma
tradi�‹o que se cria, recria e cria numa lemniscata infinita.
Este nœmero da Revista Boitat‡ apresenta
tudo isso, abrangendo diferentes espa�os de interlocu�‹o de pesquisas,
experi�ncias e reflex›es em torno das mœltiplas manifesta�›es das poŽticas
orais, afetos e troca de saberes. Diferen�as essas que se encontram e convergem
em vozes que (re)existem a despeito de preconceitos e
discrimina�›es escriptoc�ntricas, euroc�ntricas, racistas, elitistas, machistas
e todos outros abismos.
Nesse sentido, a entrevista/conversa com e sobre
Salete Maria da Silva abre os di‡logos a respeito da voz como um territ—rio de
(re)exist�ncia, nos anunciando os diversos enquadramentos te—ricos,
metodol—gicos, epistemologicos e modos de entender as poŽticas das vozes que o
conjunto de artigos desse dossi� abrange. A pr—pria hist—ria da cordelista Ž um
cap’tulo da grande hist—ria da oralidade.
Outro olhar sobre isso temos com Edilene Matos,
ao nos apresentar os autores Ant™nio Aleixo e Ant™nio Vieira que, embora
separados pelo alŽm-mar, mostram-se vinculados a partir da poeticidade presente
em suas obras, revelando os meandros entre oralidade e escrita que, em fric�‹o,
aproximam-se e tensionam-se.b Maur’lio Antonio Dias de Sousa, por sua vez, nos
mostra por dentro o sistema editorial dos folhetos, em sua teia organizacional,
destacando elementos presentes na rela�‹o entre poeta e editor, na medida em
que exp›e como as culturas populares criam e gerem seus pr—prios modelos
editoriais de modo contra-hegem™nico. Outro deslocamento contra-hegem™nico Ž
feito no artigo de Ria Lemaire, em que nos Ž trazida uma nova epistemologia que
posiciona a as vozes das mulheres no centro de um debate cujos elementos
colaboram para o fortalecimento de um novo paradigma envolvendo cordel e
g�nero.
Ainda sobre as vozes das mulheres, temos o
trabalho de Joel Vieira da Silva Filho e Cristian Souza de Sales sobre a
escrita de Eliane Potiguara em sua obra Metade
cara, metade m‡scara, evidenciando como a mem—ria coletiva e a mem—ria
individual encontram-se articuladas no texto autobiogr‡fico que descortina o
processo diasp—rico dessa escritora ind’gena, que tambŽm Ž mote do artigo de
Renata Daflon Leite, em que s‹o trazidos ˆ cena o car‡ter pol’tico e a pot�ncia
perform‡tica presentes nas obras de Eliane Potiguara, refor�ando o tr‰nsito
entre oralidade e escrita presente na literatura ind’gena.
Estendendo ˆ compreens‹o da quest‹o de g�nero
nas poŽticas da oralidade, Maria Gislene Carvalho da Silva de Autobiografias de
mulheres cordelistas: uma contribui�‹o para a nova historiografia do cordel,
nos convida a conhecer as obras das cordelistas Julie Oliveira, Izabel
Nascimento e Auritha Tabajara, esta uma ind’gena, expondo os fios que conduzem
as rela�›es de g�nero no universo do cordel. A rela�‹o entre autoria de
mulheres e oralidade – tambŽm um l—cus em que a voz Ž
um territ—rio de (re)exist�ncia – Ž prestigiada no artigo de Fernanda
Oliveira da Silva e Maria Teresa Salgado, em que analisam Os sapatos de TŽ,
obra em que Elisabete Nascimento registra os textos orais de sua m‹e Cremilda,
uma griot, evidenciando a mem—ria como fio condutor para as denœncias sociais
apresentadas.
As vozes de mulheres negras
s‹o reverenciadas tambŽm no texto de Railda Maria da Cruz dos Santos e
Edil Silva Costa, em que se debru�am sobre as poŽticas orais a partir da
an‡lise das cantigas e das narrativas de mulheres negras que capitaneiam um
grupo de Lindro Amor, na cidade de Maracangalha, expondo seus modos de
(re)exist�ncia em face da dinamicidade da pr‡tica cultural em quest‹o.
Para encerrar a conversa aberta, ou mesmo para
adentrar outros espa�os de di‡logo, Adriana Aparecida de Jesus Reis prop›e um
paralelo entre uma das narrativas de Giambattista Basile, escritor napolitano,
e um conto oral recolhido no interior da Bahia e presente em uma das obras do
escritor Marco Haurelio, evidenciando quais elementos populares podem ser
ativados na oralidade para a constru�‹o de contos maravilhosos de modo a
aproximar contextos culturais aparentemente t‹o d’spares.
Ao percorrer esses artigos, bem como as vidas,
vozes e poŽticas estudadas, observa-se que os territ—rios de (re)exist�ncia
est‹o em grande medida atrelados aos viveres, fazeres e saberes das mulheres,
especialmente daquelas cujos lugares de fala s‹o contra-hegem™nicos, n‹o se
podendo olvidar que a pr—pria oralidade nos estudos acad�micos significa por si
s— alguma disson‰ncia. Os aliados nessa interlocu�‹o somam-se ˆs for�as
ancestrais dessas vozes, que se confluem e atravessam no devir.
AndrŽa Bet‰nia da
Silva
Bruna Paiva de Lucena
ANTîNIO ALEIXO E ANTïNIO VIEIRA:
DIçLOGOS IAGINADOS OU BOCA DE PAPEL: ESPA‚OS DE FRIC‚ÌO DA PALAVRA POƒTICA
ANTîNIO ALEIXO E ANTïNIO
VIEIRA: IMAGINED DIALOGUES OR MOUTH AND PAPER: FRICTION SPACES OF THE POETIC
WORD
Edilene Matos[1]
http://orcid.org/0000-0003-3201-1946
\
Resumo: Este estudo p›e em relevo interfaces
nas obras de dois poetas ÒpopularesÓ. De um lado, o poeta portugu�s Ant—nio
Aleixo[2] e
sua s‡tira Òhuman’sticaÓ, com destaque para o recurso apropriado da
expressividade verbal. De outro lado, o poeta brasileiro (baiano) Ant™nio
Vieira[3]
e a ’ndole musicante de sua poesia sat’rica, integrando o que denominou ÒCordel
Remo�adoÓ[4]. A
poesia de ambos os poetas, feita para provocar vibra�‹o nas palavras, aponta
para a coreografia do gesto, no palco semovente oralidade/escritura.
Palavras-chave: Ant—nio Aleixo. Ant™nio
Vieira. Di‡logos imaginados. Palavra poŽtica
Abstract: This study highlights
the interfaces / overpassing in the works of two "popular" poets. On
the one hand, the Portuguese poet Ant™nio Aleixo (Algarves) and his
"humanistic" satire, with emphasis on the appropriated use of the
verbal expressiveness. On the other hand, the Brazilian poet Ant™nio Vieira
(Bahia) and the musical nature of his satirical poetry, integrating what he
called as "Rejuvenated Cordel".
The poetry of both poets, which was made in a way that provokes
vibration in the words, points to the choreography of the body / gesture, on
the stage / space moving by itself orality/writing.
Keywords: Ant—nio Aleixo. Ant™nio
Vieira. dialogues imagined. poetic Word.
Por uma
poŽtica da voz
Voz.
Voz na garganta. Voz no papel. Voz no corpo. Voz no palco. Voz na rua.
Voz velha. Voz nova. Voz ruidosa. Voz silenciosa.
Enfim,
voz!
A
voz Ž modulante, disso n‹o se tem dœvida. E se ela Ž modulante, m—vel, ela sai
e entra sem se fixar.
A
voz, mutante por natureza, Ž parte do corpo que n‹o se reduz a um espa�o, mas
alonga e prolonga esse corpo, locus de origem, refer�ncia. Nesse movimento
sinuoso, trapaceira, a voz se desdobra em perpetuum mobile.
ƒ
exatamente essa complexa opera�‹o de dobras e desdobras, de tecidos plissados,
que implica o espelhamento sonoro de nossas marcas identit‡rias, de evoca�‹o de
mem—rias. O barthesiano gr‹o da voz se faz marca de corpo na voz. Voz que Ž
Òquerer dizerÓ, Òvontade de existirÓ.
Assim,
ao falar de espa�os de fric�‹o da palavra poŽtica, trago, aqui, um texto como
resultado preliminar do projeto de pesquisa Ant—nio Aleixo e Ant™nio Vieira:
di‡logos imaginados ou Boca e Papel: espa�os de fric�‹o da palavra poŽtica.
E
esse espa�o de fric�‹o envolve as chamadas poŽticas orais. Estou,
evidentemente, me referindo ao verbo poŽtico que nasce na boca, entendida
enquanto canal de emiss‹o de voz ou vozes. ƒ l—gico, pois, que a voz se produz
(se esculpe) nos —rg‹os fonadores, que s‹o tambŽm modeladores da voz. E a boca
funciona tambŽm como um desses modeladores: abre-se e fecha-se como canal
flex’vel que Ž. E faz passar a voz, rejeitando tudo o que Òquebra a voz vivaÓ.
Falar
sobre poŽticas orais, hoje, requer entrar num jogo pol�mico, e isto por conta
da diversidade de estudos que tratam do assunto. De in’cio, e h‡ consenso, no
caso, entre os estudiosos, a oralidade implica tudo o que em n—s se endere�a ao
outro: seja um gesto mudo, um olhar (ZUMTHOR, 2010);
Òo gesto n‹o transcreve nada, mas produz significativamente as mensagens do
corpoÓ (ZUMTHOR, 2010 p. 206); Òo gesto denuncia o n‹o-ditoÓ (ZUMTHOR, 2010, p.
205); a gestualidade, ˆs vezes, confere uma fun�‹o ao sil�ncio: gestos zeros.
Zumthor,
cujas ideias s‹o basilares para minhas reflex›es, diferencia boca e voz. A
boca, alŽm de ser um canal, Ž um dos fatores que ajudam e interferem na
produ�‹o da voz. A voz est‡ intimamente ligada ao corpo por vibra�›es
corporais. A voz Ž acompanhada por movimentos corporais n‹o-vocais e que
interferem no significado da mensagem vocal. H‡, portanto, uma voz sonora,
comprometida com o som, e uma voz muda, n‹o comprometida exatamente com o som,
mas aliada ao som e que contribui para a produ�‹o da mensagem verbi-vocal. A
voz, signo escult—rico, Ž constru’da na garganta e entalhada no corpo.
Multiplicam-se, assim, as possibilidades de produ�‹o de sentido da mensagem
verbi-vocal, pois a voz, enquanto linguagem, Ž feita de signos sonoros e de
signos gestuais. ƒ neste caso que se pode falar em mensagens
verbi-voco-visuais, considerando que esses signos mudos, de configura�‹o n‹o
sonora, portanto n‹o aud’veis, s‹o, no entanto, visuais, visualidade que se faz
necess‡ria para que tais signos sejam captados e decodificados.
A
mensagem vocal, segundo Zumthor, envolve, pois, voz e corpo, envolve a palavra
aud’vel e signos visuais inaud’veis, que se tornam aud’veis na medida em que se
aliam ˆ voz. ƒ essa alian�a dos signos corporais inaud’veis com a voz,
produtora de signos aud’veis, que torna os signos inaud’veis signos tambŽm
aud’veis. O corpo mudo se torna aud’vel por for�a da alian�a de sua
gestualidade com a voz.
Quando
designamos a opera�‹o do uso da voz de vocalidade, estamos nos referindo a um
espa�o de produ�‹o de signos extremamente complexo, e isto porque tais signos
s‹o, ao mesmo tempo, mudos, sonoros, aud’veis e inaud’veis, convergindo todos
eles para uma espŽcie de sonoridade corporal, que Ž o que caracteriza a
performance vocal, que n‹o Ž s— som, mas envolve corpo e voz – corpo e
voz intimamente entrela�ados de forma que o que n‹o Ž sonoro se sonoriza, e o que
n‹o Ž visual adquire uma espŽcie de potencialidade sonora, fazendo da
vocalidade uma espŽcie de cena teatral complexa, feita de signos
verbi-voco-visuais.
Zumthor
reivindicava a paternidade do termo teatralidade (thމtralitŽ). Este termo
exerceu uma espŽcie de fascina�‹o para ele, e o conceito que lhe imprimiu
jamais se enfraqueceu, e, muito pelo contr‡rio, constituiu uma marca inscrita a
ferro e fogo de sua proposta (ZUMTHOR, 1998). Tal teatralidade evoca uma
espontaneidade que se inventa a ela pr—pria ao exprimir-se, como uma sensa�‹o
espacial, em que se amalgamam o som (o canto, ou simplesmente os jogos da voz),
o gesto, a m’mica, a dan�a (ZUMTHOR, 2000). Desta forma, privilegia-se o calor
da voz, que ultrapassa e muito os limites acanhados da letra.
O
homem, produtor de mensagens vocais (cantador, trovador, ator, leitor e
intŽrprete de textos em voz alta) revela-se, por isso, sobretudo um ator,
exatamente porque a voz, criadora de mensagens, o obriga a se colocar por
inteiro no centro do palco.
Falar
de poŽticas da voz, portanto, Ž falar desse teatro vocal, enquanto produtor e
encenador de poesia, entendida aqui enquanto encena�‹o de signos-atores
interligados (vocais, gestuais, sonoros). Primordialmente, a poŽtica da voz,
portanto, Ž teatro poŽtico ou poesia teatral, que n‹o deve, em hip—tese alguma,
reduzir-se ˆ palavra meramente vocalizada e muito menos ˆ palavra grafada.
Essa
interliga�‹o da palavra com o gesto, sabemos n—s, vem do nascimento da poesia,
quando o homem se manifesta teatralmente (o poeta e a poesia n‹o nascem nas
p‡ginas do livro!), quando o homem descobre a voz como for�a verbi-voco-visual.
ƒ por tal motivo que a poesia, mesmo quando grafada, mantŽm as marcas da
origem, de sua natureza propriamente original. Isto porque a poesia nasceu na
voz e da voz, intimamente ligada ao corpo, ou seja, a poesia nasceu como teatro
de signos. E justamente porque Ž teatro de signos Ž que, ao l�-la no texto
escrito, est‹o l‡ em reverbera�‹o as marcas da origem. Por conta dessas marcas,
o homem n‹o pode deixar de ouvir, mesmo na escritura, essa voz ancestral, esses
tra�os ainda vivos de uma ancestralidade indelŽvel.
Ler
Ž decodificar signos grafados, signos traduzidos em sinais gr‡ficos, mas ler
tambŽm implica a recupera�‹o das marcas originais da palavra, porque a palavra
originalmente n‹o Ž letra, mas voz e corpo.
A
qualidade poŽtica de um texto est‡ ligada ˆ natureza teatral da voz, porque a
voz Ž teatral desde os prim—rdios; ela Ž poŽtica porque a poŽtica envolve a
conjuga�‹o de diferentes signos, tendo em vista a produ�‹o de uma linguagem
plurissignificativa, n‹o apenas no plano conceitual, mas, de igual modo, no
plano sensorial, porque a plurissignifica�‹o nunca Ž somente conceitual –
ela s— se instala no momento em que o conceito se alia ˆ sensorialidade. Quando
uma linguagem sufoca a sensorialidade dos seus signos tendo em vista o
privilegiamento do conceito, ocorre sua despoetiza�‹o, ou seja, sua
desteatraliza�‹o e consequente monologiza�‹o. O monologismo Ž a marca de uma
linguagem despida de sensorialidade, linguagem tŽcnica, formal, espartilhada,
sem liberdade, sem a menor condi�‹o de contribuir para a transforma�‹o do
homem, de fazer hist—ria, porque Ž puro registro est‡tico de fatos concretos. A
hist—ria humana s— se faz quando o homem assume sua poeticidade, sua
teatralidade natural. O homem Ž um ser teatral, repito. As sociedades do
passado, que abafaram a natureza teatral do homem, morreram; e Ž o que parece
estar ocorrendo hoje, face ˆ pseudo-seguran�a, e ˆ pseudo-certeza dos discursos
monovalentes, que escravizam e amorda�am o pensamento, a criatividade, a a�‹o,
a livre circula�‹o das ideias. E o poŽtico Ž isto: espa�o livre de circula�‹o e
dan�a dos saberes, que fecunda culturas, insemina civiliza�›es.
PoŽtica
das culturas orais – poŽticas das culturas apoiadas nas linguagens
verbi-voco-visuais, sens—rio-conceituais e multissignificativas. Melhor seria
falar de poŽticas vocais, pois que, e pensando nos ensinamentos de Zumthor, a
vocalidade como produ�‹o concreta do homem, como energia, Ž mais palp‡vel, ou
vis’vel, que a oralidade. AlŽm disto, a voz confere, atravŽs de cada timbre, um
sinete autoral. Evoco a quest‹o da emiss‹o da voz como algo musicante,
entendendo com Ruth Finnegan (2008) que a mœsica vocal pode estar na can�‹o ou
na fala, nos recitativos, nas declama�›es. Penso, pois, em n’veis de
musicalidade vocal, que na can�‹o pode ser acentuadamente mel—dica.
A
anula�‹o da oralidade Ž imposs’vel, porque n‹o Ž poss’vel eliminar as marcas da
voz. E ao falar em poŽticas da voz, falo das linguagens sens—rio-conceituais,
em que o conceito n‹o se imp›e apenas no plano do logos, mas se faz espa�o
cambiante e prism‡tico de sensa�›es e sentidos, de experi�ncias mœltiplas
verbi-voco-sens—rio-corporais.
Encontros
poŽticos moventes
Trago
como exemplos dessa poŽtica sensorial os espet‡culos teatralizados em torno do
poeta Ant—nio Aleixo, hoje uma voz sem corpo, que se insinua em seus
poemas/quadras como um canto, vindo de um outro tempo, mas que ecoa, ainda
nesse sŽculo XXI, combativo, ir™nico, denunciador, provocador de incontida
euforia coletiva e, em todos os momentos, atual’ssimo. Trago tambŽm como
exemplo dessa poŽtica sensorial a atua�‹o perform‡tica do poeta Ant™nio Vieira,
tambŽm hoje uma voz sem corpo.
Rondas.
Rotas. Mapas. Sagas. Peregrina�›es. Travessias. Andan�as. Veredas. Literatura
de movimento. Poesia n™made. Poesia movente. Poesia da voz viva. Poesia do social.
Poesia de carne e sangue.
Homero,
imitador, criador de apar�ncias – pelo menos para Plat‹o era assim
–, saiu pelo mundo e deixou plantada sua Odisseia. Semente que se
multiplicou atravŽs do canto das sereias. As sereias, m’ticos seres,
testemunharam as diversas travessias do her—i quase-divino, mais-que-humano. As
vozes dessas sereias, ecoadas no vai e vem das espumas, diziam de narrativas
fabulosas. Diz-se, hoje, de marcas espec’ficas dessas narrativas: viagens reais
e viagens imagin‡rias.
Literatura
de fric�‹o: encruzilhada. Ponto de encontro, intersec�‹o de literatura com
outras sŽries art’sticas. Penso, sobretudo, em mœsica/som, em dan�a/gesto,
imagem/olho.
Essa
literatura movente, poŽtica viajeira, que vai e volta da letra ˆ voz, inscrita
no que se denomina poŽticas da voz, permite circularidade entre as v‡rias
culturas.
Este
estudo p›e, pois, em relevo interfaces nas obras de dois poetas ÒpopularesÓ. De
um lado, o poeta portugu�s Ant—nio Aleixo e sua s‡tira Òhuman’sticaÓ, com
destaque para o recurso apropriado da expressividade verbal. De outro lado, o
poeta brasileiro (baiano) Ant™nio Vieira e a ’ndole musicante de sua poesia
sat’rica, integrando o que denominou ÒCordel Remo�adoÓ. A poesia de ambos os
poetas, feita para provocar vibra�‹o nas palavras, aponta para a coreografia do
gesto, no palco semovente oralidade/escritura.
O poeta de l‡: Ant—nio Aleixo
O
dia foi 4 de setembro de 2019, uma bonita manh‹ de ver‹o. No comboio 180 (Alfa
Pendular), cadeira 51, parto, enfim, de Lisboa para LoulŽ. Nunca tinha ido ao
Algarve! Minha expectativa Ž a terra do poeta, Aleixo. Ainda naquele dia
contemplaria sua est‡tua[5].
Interessante Ž entender a import‰ncia dada a um poeta popular e isto Ž algo
muito especial, mas que n‹o me consola e me faz refletir sobre lacunas
imperdo‡veis que acontecem no Brasil, meu pa’s. Bem que algumas vozes
importantes j‡ se levantaram nesse sentido, a exemplo dos alertas de M‡rio de
Andrade e de Carlos Drummond.
Fiquei
hospedada no Allons-y Guesthouse, Rua de S‹o Domingo, 13, bem perto do famoso
ÒCafŽ CalcinhaÓ, reduto dos improvisos de Aleixo, reduto das mem—rias em torno
dele.
Em
LoulŽ, agrad‡veis surpresas: 1. o encontro com Helena Miguel, especialista no
que se refere ao arquivo de documentos e fotografias do Museu Municipal de LoulŽ
– agrade�o a Helena o contato, a visita ao museu, explica�›es da Sala
Polivalente da Alcaidaria do Castelo, as conversas sobre o Brasil, loas a
Portugal, ao Algarve, a LoulŽ. Simp‡tica e acolhedora, Helena se mostrou
sens’vel e inteligente. 2. O acolhimento generoso do professor/pesquisador J.J.
Marques, incluindo importantes e elucidativos di‡logos sobre quest›es e
pesquisas das oralidades, visitas a monumentos e um agrad‡vel almo�o. 3. Uma
bem montada exposi�‹o sobre a rica trajet—ria de T—ssan. 4. O di‡logo com o
Presidente do Concelho, muito bem avaliado e respeitado pelos louletanos e, por
coincid�ncia, neto do poeta Ant—nio Aleixo. Essa minha visita o deixou comovido
ao tomar conhecimento da proposta de uma pesquisa em terras brasileiras sobre a
poŽtica de seu av™. Historiador, V’tor Aleixo me presenteou com uma alentada
edi�‹o de Encontros Imagin‡rios, de autoria de HŽlder Mateus da Costa, premiado
escritor, dramaturgo, encenador e autor. Percebi, pois, que Vitor Aleixo
entendeu muito bem minha proposta com base nos di‡logos imaginados entre Aleixo
e Vieira. O referido livro reuniu uma sŽrie de encontros imagin‡rios promovida
pelo Grupo de Teatro A Barraca, a partir de fevereiro de 2011, com o objetivo
de Òinventar situa�›es e conflitos com figuras da humanidadeÓ (COSTA, 2015, p.
5). Nesses encontros se d‡, exatamente no Encontro Imagin‡rio 29, em 17 de
novembro de 2014, um di‡logo insuspeitado entre Ant—nio Aleixo, C‰ndido de
Oliveira e Juiz Veiga (COSTA, 2015, p. 329-338).
No
Algarve, na primeira metade do sŽculo XX, Ant—nio Aleixo se tornou respons‡vel
pela irradia�‹o de uma poderosa corrente do cancioneiro popular portugu�s. Tal
corrente foi apontada pelo artista pl‡stico T—ssan[6], e por Joaquim Magalh‹es, um dedicado
professor de liceu, figura indispens‡vel na divulga�‹o do poeta Ant—nio Aleixo.
Espantosamente
lœcido e consciente de sua inclina�‹o poŽtica, Ant—nio Aleixo deixou registrada
em versos sua concep�‹o de arte e de artista. E como artista, tinha um olhar
caleidosc—pico, girante, que lhe permitia sair dos espa�os limitados de uma
vida comum:
Vejo a
arte definida
Na
forma de descrever
O bem
ou o mal que a vida
Nos
faz gozar ou sofrer
Ser
artista Ž ser alguŽm!
Que
bonito Ž ser artista...
ver as
coisas mais alŽm
do que
alcan�a a nossa vista!
A arte
Ž dom de quem cria
portanto
n‹o Ž artista
aquele
que s— copia
as
coisas que tem ˆ vista
A arte
em n—s se revela
sempre
de forma diferente;
cai no
papel ou na tela
conforme
o artista sente.
Textos
poŽticos autorados, ditos em alta voz por este chamado poeta oral, do sul de
Portugal, vendedor de cautelas e gravatas, guardador de rebanhos, cantor
popular nas ruas, mercados e feiras, trazem express‹o filos—fica original,
tantas vezes considerada Ò‡cidaÓ. Em quadra ou sextilha, poetava natural e
exemplarmente, com vocabul‡rio surpreendemente adequado ˆs situa�›es em foco.
Motivos
e temas variados, mas o tom melanc—lico e ir™nico na exibi�‹o da capacidade de
improviso, vis‹o de mundo especial, com grande inclina�‹o para a s‡tira.
Esta
inclina�‹o para exibi�›es e improvisa�›es j‡ se fazia evidente desde a mais
tenra idade com perform‡ticas atua�›es como cantor das janeiras[7].
Cantava as quadras das janeiras e quando o repert—rio j‡ tinha sido repetido
muitas vezes, o menino Aleixo fazia curiosas improvisa�›es que passaram a
chamar a aten�‹o de todos.
Ant—nio
Aleixo, l‡ pelos idos de 1939/1940, teve ajuntadas por um amigo (JosŽ Rosa
Madeira) algumas quadras em duas folhas de papel e que viriam a se constituir
nœcleo do seu primeiro livro: Quando come�o a cantar (1» edi�‹o, Faro, 1943; 2»
edi�‹o, Coimbra, 1948; 3» edi�‹o, Lisboa, 1960).
Figura
1 ‒ Dedicat—ria de Ant—nio Aleixo
Fonte: Livro Quando come�o a cantar.
Depois,
se seguiram: Intencionais – 1» edi�‹o, Faro, 1945; 2» edi�‹o, Lisboa,
1960; Auto da vida e da morte (1 acto) – 1» edi�‹o, Faro, 1948; 2»
edi�‹o, Faro, 1968; Auto do curandeiro (1 acto) – 1» edi�‹o, Faro, 1949;
2» edi�‹o, Faro, 1964; Este livro que vos deixoÉ Volume I, 18» edi�‹o, Lisboa,
2003; Este livro que vos deixoÉ InŽditos – Volume II , 13» edi�‹o,
Lisboa, 2003; InŽditos – 1» edi�‹o, LoulŽ, 1978; 2» edi�‹o, LoulŽ, 1979.
Seguindo
seu ritual cotidiano de andarilho, Ant—nio Aleixo cumpriu o tra�ado do seu
destino e ficou como um personagem-tipo, desses que marcam profundamente uma
Žpoca, um espa�o social. Pessoa/personagem impressa na mem—ria do povo
portugu�s, figura not‡vel e not—ria, poeta boquirroto, gritador e denunciador
dos males sociais, expert na arte da performance, Ant—nio Aleixo encarnou a si
mesmo em v‡rios papŽis, sobressaindo-se enquanto corpo/voz convertido em a�‹o,
coisa viva, que alardeava, feria, rasgava, cauterizava, ecoando sempre um
universo de sugest›es e sedu�›es.
Essa
sua voz, inscrita no papel, como autor que foi de quadras e/ou sextilhas, ou
articulada, a do narrador, a do cantor dos acontecidos do povo de Algarve,
obteve enorme sucesso. Anunciava e denunciava tudo em voz alta, na busca de aperfei�oar
o timbre, no gasto do fr‡gil poder de seus pulm›es, da materializa�‹o e da
pulsa�‹o da voz, do ineditismo de suas performances, em um cont’nuo corpo a
corpo com seu pœblico.
Figura 2 ‒ Quadra e glosas de Ant—nio Aleixo
Fonte: Funda�‹o Ant—nio Aleixo, 2019.
Se
Ant—nio Aleixo foi testemunha atenta e inquieta de momentos empolgantes da vida
portuguesa, acompanhando a revolu�‹o dos costumes, afrontou tambŽm de dedo em
riste essa ÒmodernidadeÓ. N‹o deve ser esquecido que Aleixo viveu e fez sua
obra em um Portugal sob o regime ditatorial salazarista ou Estado Novo
(1933-1975)[8].
No livro Ao encontro de Ant—nio Aleixo, Joaquim Magalh‹es conta que, por
ocasi‹o do preparo para publicar Quando come�o a cantar, foi necess‡rio um
exerc’cio cuidadoso: Òtudo o que n‹o pudesse ser motivo para eventual apreens‹o
do livro, caso pudesse vir a ser considerado alvo das vistas curtas da censura
intelectual de ent‹oÓ (MAGALHÌES, [s.d.], p. 10). Sabemos todos n—s que
Magalh‹es[9]
referia-se ˆ PVDE.
Decididamente,
Ant—nio Aleixo nunca foi, como o personagem de Apollinaire, um vagabundo
urbano, quase um clochard, um patŽtico perdido na multid‹o. Foi, antes, um
poeta, dotado de grande poder de comunica�‹o. Um lœdico e lœcido poeta cuja voz
soava m‡gica para o pœblico que o aplaudia e o tinha como seu leg’timo
porta-voz. Pela boca desse extraordin‡rio artista fala a outra voz, a voz do
poeta sens’vel ˆ vida de seu povo.
Sua
voz, seja como sussuro de confid�ncia – note-se o car‡ter notadamente
autobiogr‡fico da maior parte dos poemas de A. Aleixo (FERREIRA, 1978) –
seja altissonante como a da multid‹o na pra�a, me faz ouvir o tempo que passou
e que volta transformado, mesmo que seja numa folha de papel. Para a exibi�‹o
de suas quadras e/ou sextilhas, sonetos, glosas, poemas com v‡rias estrofes,
autos[10],
Ant—nio Aleixo lan�ava m‹o de recursos inusitados e imprevistos.
N‹o
concordo com certos pronunciamentos que se referem ˆ incorre�‹o da escrita de
Ant—nio Aleixo como senha para que o poeta fosse inclu’do num grau abaixo do
que se convencionou como poeta culto. Essa distin�‹o entre literatura/poesia
popular e literatura/poesia erudita ou culta n‹o tem mais sentido. Tida como
ing�nua, rude e tosca pela hist—ria liter‡ria, a literatura/poesia popular, na realidade,
Ž um tipo de manifesta�‹o ficcional e imaginativa bastante pr—xima daquela que
se costuma chamar propriamente de literatura, n‹o existindo diferen�as de
ess�ncia entre um e outro tipo de produ�‹o, j‡ que possuem, de modo an‡logo,
aquilo que Ž comum a qualquer obra, seja qual for a tradi�‹o a que esteja
vinculada: sua capacidade de criar formas significativas, expressivas e
reveladoras da exist�ncia humana. Ali‡s, a pretensa ingenuidade que se atribui
ˆ literatura/poesia popular parece-me algo que se gostaria de encontrar na
literatura culta. Em verdade, o preconceituoso posicionamento por parte dos
eruditos com rela�‹o ˆ literatura/poesia de express‹o popular reflete,
simult‰nea e contraditoriamente, o desejo e a rejei�‹o de uma inoc�ncia e uma ignor‰ncia
invejadas, j‡ que seriam elas o verdadeiro testemunho e garantia de certa
autenticidade e originalidade de raiz, nem sempre vis’veis em manifesta�›es
liter‡rias de car‡ter erudito.
Estou
de acordo, pois, com aqueles que viram inspira�‹o muito rara nas quadras de
Aleixo em v‡rios momentos, e com um tom forte, expressivo, ajustado em
vocabul‡rio justo e cortante.
Figura 3 ‒ Manuscrito de
Ant—nio Aleixo
Fonte:
Funda�‹o Ant—nio Aleixo, 2019. https://fundacaoantonioaleixo.com/wp-content/uploads/2016/10/5822007_orig.jpg
Nesse mundo girante, a
atualidade dos versos improvisados de Aleixo o insere na contemporaneidade
quanto ˆ expressividade do corpo e da voz como fen™menos poŽticos totais,
traduzindo as gritantes e t‹o presentes misŽrias e desigualdades dos seres
humanos, alŽm de uma postura cr’tica com rela�‹o a si mesmo, postura esta a que
se referiu em uma de suas œltimas quadras, recordada pelo irm‹o de T—ssan,
Armando dos Santos:
Quando
em mim penso com calma
e me
compreendo melhor
bem
merecia que a minha alma
tivesse
um corpo maior
Tudo
isso toma assento no pensamento de Paul Zumthor ao se referir ˆ rela�‹o voz e
gesto:
Um la�o
funcional liga de fato ˆ voz o gesto: como a voz, ele projeta o corpo no espa�o
da performance e visa a conquist‡-lo, satur‡-lo de seu movimento. A palavra
pronunciada n‹o existe (como o faz a palavra escrita) num contexto puramente
verbal: ela participa necessariamente de um processo mais amplo, operando sobre
uma situa�‹o existencial que altera de algum modo e cuja totalidade engaja os
corpos dos participantes.
[...] o gestus d‡ conta do fato de que uma
atitude corporal encontra seu equivalente numa inflex‹o de voz, e vice-versa,
continuamente (ZUMTHOR, 1993, p. 243-244, grifo meu).
Sabe-se
da vida cotidiana do homem e do poeta, como ele apareceu, local, dia e hora.
Sabe-se de sua fam’lia, av—s, pai, m‹e, irm‹os, amada, filhos e netos. Sabe-se
de sua saœde fr‡gil. Sabe-se de suas proezas heroicas e sedutoras. Conhecem-se
seus poemas e recitam-nos de cor. N‹o h‡ dœvidas sobre estas quest›es.
Sei
que, em Portugal, Ant—nio Aleixo Ž muito conhecido para que seja necess‡rio
insistir sobre ele. Mas insisto. Insisto em mergulhar num amplo espa�o, fluido
e disperso, de textos, entrevistas, relatos, participa�‹o em semin‡rios,
sess›es de homenagens e outros tipos de manifesta�›es, onde Ant—nio Aleixo se
delineia como um mito, personagem transformado em sugestiva figura romanesca,
feita de evoca�›es e sugest›es ret—ricas e poŽticas, de achegas, de fragmentos
e que ganha for�a como paladino de uma nova ordem. Mito, no caso, entendido,
por extens‹o de significado, como concep�‹o individual ou coletiva, espŽcie de
cren�a vaga, oscilante, de gosto, de culto, de adora�‹o leiga, espont‰nea ou
cultivada.
A
composi�‹o da imagem do poeta, no caso, decorreria da articula�‹o das imagens
de uma realidade dada, com base em documentos oficiais, colhidas na mem—ria,
mas tambŽm, de imagens que obedecem aos ditames de uma imagina�‹o mais
propriamente criadora uma vez que atravessam gera�›es e se imp›em ou afirmam na
coletividade, propiciando a cria�‹o de poetas m’ticos, como Ž o caso de Ant—nio
Aleixo.
Para
isso, foi necess‡rio despir-me de prŽ-conceitos tradicionais, esdruxulamente
laudat—rios ou eufemisticamente malŽvolos, observando as possibilidades de
olhares (furtivos, voluptuosos, impass’veis, ternos, apaixonados, invejosos,
parciais) sobre um centro m—vel e continuamente ˆ deriva.
Com
o objetivo de delinear o mito de um poeta-g�nio, encontro respaldo no
pensamento – ainda muito atual – de J. Tynianov quando acentua que,
Òem certas Žpocas, a biografia torna-se literatura oral ap—crifaÓ (TYNIANOV,
1971, p. 116).
Ant—nio
Aleixo foi, sem dœvida, um personagem singular no momento em que viveu, e
tambŽm na dimens‹o m’tica que lhe foi atribu’da pelo povo, pelos cr’ticos e atŽ
por sua pr—pria poesia.
Ao
me referir a uma personalidade m’tica, falo de um conjunto de atributos que se
evidenciam mais em determinados poetas ou artistas. Trata-se de algo que lhes
vem do interior e atinge o exterior, delineando-lhes um c’rculo luminoso como
se fosse uma aurŽola, conferindo-lhes ÒsantidadeÓ e poderes quase divinos, sem
que, por vezes, exista qualquer conex‹o entre tal processo de mitifica�‹o e a
qualidade da obra. Em sua biografia de Maiakovski, Roman Jakobson acentua:
Quando esse
mito entrou na vida, foi imposs’vel sem esfor�o sobre-humano tra�ar um limite entre
a mitologia poŽtica e o curriculum vitae do autor, e o testamento de Maiakovski
viu-se inteiramente justificado: na vida aut�ntica do poeta, Ž significativo
apenas aquilo que foi Òdefendido com a palavraÓ (JAKOBSON, 1993, p. 134).
A
especial venera�‹o que se tributa ˆ imagem de Ant—nio Aleixo, porŽm, implica o
assentamento e desdobramento de um sem nœmero de tra�os, reais ou fict’cios,
biogr‡ficos ou textuais, retrabalhados tambŽm pelo imagin‡rio. As imagens revigoram a mem—ria, estimulam-na.
O poeta Ant—nio Aleixo, enquanto personagem,
construiu-se na cr’tica e na boca do povo, e sua vida converteu-se, repetindo
Barthes, num plural de encantos.
Tentativas (algumas atŽ felizes) de mitific‡-lo ainda em vida se acentuaram com
a morte. A partir da’, foi um fluir ininterrupto de imagin‡rios diversificados
e atŽ fabulosos. Os contornos do personagem e do mito permanecem, porŽm, atŽ
hoje, imprecisos. Todos apostam, entretanto, em algumas constantes: a cr’tica
mordaz, as limita�›es financeiras, a saœde debilitada, o talento para atrair
multid›es, o g�nio criador de retumbantes e inflamadas imagens. Historiadores e
bi—grafos costumam apresent‡-lo como um poeta que teve grande repercuss‹o,
nacionalmente, entre os cr’ticos e o pr—prio povo.
Fonte: Exposi�‹o T—ssan,
em LoulŽ, 2019. Fonte: Exposi�‹o T—ssan,
em LoulŽ, 2019. Figura 5 ‒ Aleixo e T—ssan
Figura 4 ‒ Desenho de Ant—nio Aleixo por T—ssan
Deste
modo, a semeadura do mito se deu, e o mito floresceu e frutificou. N‹o se sabe
a ponta do novelo nem o embara�o das linhas, mas pouco importa. No caso,
verdade e fic�‹o, emo�‹o e raz‹o se fundem, se misturam. Cada um quer
acrescentar um dado novo, e nesse jogo de dados, de varia�›es e interpreta�›es,
os espa�os do mito v‹o sendo preenchidos – porŽm nunca se preenchem
– e a personagem se esculpe nos sons da voz, nos grafos da escritura, nas
leituras e releituras cr’ticas, no teatro, nas ruas, escolas, agremia�›es, nas
figura�›es pl‡sticas, nos espa�os culturais, espalhados por todo Portugal e
chegando ao Brasil.
Sementes
plantadas, aqui e ali, em Portugal, onde s‹o publicados, ditos (e atualizados)
poemas como se fossem de sua autoria. Nesse sentido, trago, aqui, a reflex‹o de
J.J. Marques, ao mencionar a sec�‹o ÒEr—ticas, Burlescas e Sat’ricasÓ, de InŽditos:
Refiro-me em primeiro lugar ao
seguinte aspecto: depois de mencionar as ÒquadrasÓ (no sentido de quadras
glosadas) Òpicantes, mas recheadas de humor e mal’ciaÓ integradas na sec�‹o
ÒEr—ticas, Burlescas e Sat’ricasÓ, que obtivera Òpor intermŽdio de velhos
amigos do poeta, que as ditaram de mem—riaÓ, Ferreira confessa: Òo nosso
trabalho neste campo consistiu em dar ˆs vers›es orais destas ÔquadrasÕ a forma
escrita que nos pareceu mais pr—xima duma composi�‹o de A. AleixoÓ.
ƒ curioso (para os mais rigorosos
ser‡ talvez arrepiante) ver a boa consci�ncia com que Ezequiel Ferreira admite
ter retocado aqueles versos, de modo a aproxim‡-los do que Aleixo teria
escrito. Como Ž que ele sabia determinar qual a forma Òmais pr—xima duma composi�‹o
de A. AleixoÓ Ž coisa que n‹o diz... Assim como n‹o diz que altera�›es fez
(MARQUES, 2013, p. 43, grifos meus).
AlŽm
disso, h‡ uma grande quantidade de versos memorizados de pr—pria autoria do
poeta algarvio ou versos criados em que lhe s‹o feitas refer�ncias, como o de
Natanael Pian�o, citado por Ana Paula Guimar‹es (2000, p. 136) em N—s de
Vozes – acerca da tradi�‹o popular portuguesa:
N‹o quero ser um Aleixo
Nem ser Torga nem Miguel
E uma mensagem vos deixo
S— quero ser Natanael.
Surgem
tambŽm par—dias, pois vale sempre lembrar que a imagem e a obra de Ant—nio
Aleixo encontram ainda hoje repercuss‹o e resson‰ncia junto ao povo, da’ Ž bom
pensar em Mikhail Bakhtin, ao apontar Òo coro popular rindo na pra�a pœblicaÓ
(BAKHTIN, 1987, p. 11). Esse referido coro era alimentado por parodistas, que
se utilizavam de modelos de obras conhecidas e aceitas pelo pœblico para,
invertendo-lhes o sentido, produzir novas vers›es. Os autores parodiados
atestavam, assim, sua popularidade. Desse modo, isso se d‡ com Ant—nio Aleixo.
A repercuss‹o desse poeta Ž realmente espantosa, sobretudo em Portugal. Em cada
canto, em cada esquina, Ž poss’vel conversar sobre Ant—nio Aleixo!
Figura 7 ‒ Est‡tua do Poeta na Quinta do
Lago (LoulŽ) Fonte:
Acervo pessoal da autora.
Fonte: Escultura Ant—nio Aleixo
em Madeira, de M‡rio Albano, Galeria da Galeria da Exposi�‹o, JosŽ Manuel
Figueiredo, Baixa da Banheira, Vila de Moita, 2019.
Hoje,
Ant—nio Aleixo, que Ž verbetado na Nova EnciclopŽdia Larousse, cuja obra se
encontra espalhada por v‡rias bibliotecas em Portugal e fora de Portugal, a
exemplo da Biblioteca Nacional do Brasil[11],
da Library of Congress[12],
da Biblioth�que Nationale de France[13],
Ž nome de rua, de agremia�›es culturais, de escolas, com destaque para a
Funda�‹o[14]
Ant—nio Aleixo, sediada na Av. JosŽ da Costa Mealha, 14 – 1¼ andar,
LoulŽ.
Figura 9 ‒ Placa da Rua Ant—nio Aleixo
Figura 8 ‒ Placa da
Funda�‹o Ant—nio Aleixo
Fonte:
Acervo pessoal da autora. Fonte:
Acervo pessoal da autora.
Em texto esclarecedor, o pesquisador e professor portugu�s J. J. Dias
Marques registra a preciosidade da n‹o t‹o numerosa cole�‹o de manuscritos de
Aleixo conservada na Funda�‹o Manuel ViŽgas Guerreiro, em Queren�a, concelho de
LoulŽ (2013, p. 48). Registra, ainda, duas outras institui�›es que conservam
manuscritos do poeta: a Biblioteca da Universidade do Algarve, em Faro e a Funda�‹o
Ant—nio Aleixo, em Quarteira/LoulŽ (e j‡ aqui referida).
Aleixo foi prestigiado na ‡rea musical por grandes nomes da can�‹o, com
realce para Zeca Afonso[15]
e sua famosa Balada Aleixo, no LP Cantares de JosŽ Afonso, 1967.
|
Quem canta por conta
sua Canta sempre com raz‹o Mais vale ser pardal
na rua Que rouxinol na pris‹o |
Adeus que me vou
embora Adeus que me quero ir Deita c‡ estes teus
olhos que me quero despedir |
|
Com os cegos me
confundo Amor desde que te vi Nada mais vejo no
mundo Quando n‹o te vejo a
ti |
Adeus que me vou
embora Adeus que me quero ir Deita c‡ esses teus
olhos Que me quero despedir |
Figura 10
‒ Cartaz do espet‡culo
Fonte:
Acervo pessoal da autora.
Aleixo, que escreveu autos, figura tambŽm em espet‡culos teatrais, a
exemplo do espet‡culo Diz-me, Ant—nio[16], um
tributo ao poeta algarvio Ant—nio Aleixo, no Teatro das Figuras, em Faro.
Integrado no programa 365 Algarve, Ž uma coprodu�‹o da ArQuente Associa�‹o
Cultural, com o apoio da Dire�‹o Regional de Cultura do Algarve e parceria da
Eating Algarve Tours. Trata-se, segundo a divulga�‹o do espet‡culo, de uma nova
cria�‹o da Rede Azul – Rede de Teatros do Algarve, revisitando a obra de
Ant—nio Aleixo – na passagem dos 120 anos do seu nascimento – como
Òum cruzamento art’stico entre dan�a, mœsica e spoken wordÓ.
A esmola n‹o cura a chaga;
Mas quem a d‡ n‹o percebe
Ou ela avilta, que ela esmaga
O infeliz que a recebe.
A ninguŽm faltava o p‹o,
Se este dever se cumprisse:
– Ganharmos em rela�‹o
Com o que se produzisse
Figura 12 ‒ Est‡tua de Ant—nio Aleixo em LoulŽ Figura 11 ‒ L‡pide de Ant—nio Aleixo, CemitŽrio de LoulŽ
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Fonte: Acervo pessoal da autora, 2019. |
|
Fonte: Acervo pessoal da autora, 2019. |
O poeta
de c‡: Ant™nio Vieira
Ant™nio Vieira
Nasceu em Santo Amaro
Tem sobrenome do pai
O nome, a m‹e deu, Ž claro
No ano de 49
Introduziu-se no orbe
Onde faz o seu trabalho.
Viajou pelo Brasil
Investigou um bocado
Escreve em seus cordŽis
Imagens que lhe marcaram
Resgates e personagens
An™nimos e consagrados[17].
Ant™nio Vieira, com
poemas narrativos, capazes de suscitar a curiosidade do ouvinte/leitor,
confiava na for�a de sua imagina�‹o ao rearticular hist—rias inscritas na
tradi�‹o, dando-lhes novas cores e fisionomias. Sabia Vieira que sua palavra
tinha poder, que poderia repercutir no imagin‡rio social, provocando atŽ certa
euforia coletiva, e influenciando os sonhos e atŽ mesmo os destinos, pois que
se insinua e penetra nos ouvidos, transmitindo encantamentos pela letra e pela
voz.
Sabia, de igual modo,
que sua atividade de poeta, nascida no contato direto com o pœblico, abriu
caminho para seu sucesso como herdeiro dos trovadores medievais.
Leitores eu vou contar
E este Ž meu papel
De poeta, cordelista
Cantador e menestrel
Como tudo come�ou
De que forma aqui chegou
O folheto de cordel (s.d., p. 26)
A poŽtica popular
narrada em folhetos de cordel j‡ em si transgride os c—digos da escritura, que
Ž um desenho da voz. E, ao romper as linhas que limitam a escrita ao tamanho do
papel, essa poŽtica se imp›e, transita por espa�os moventes e, sinuosa, se molda
aos diversos contextos, como o escolhido por Vieira como Cordel Remo�ado. Essa
proposta de Ant™nio Vieira traz o di‡logo da tradi�‹o rural com o urbano, do
antigo com o contempor‰neo, incluindo a participa�‹o do narrador/cantador in
presentia ou midiatizado em shows gravados. Mais uma vez busco apoio em
Zumthor, ao tratar das atua�›es dos jograis quando
predominava a Òpalavra gesticulada dos
poetas, a mœsica, a dan�a, esse jogo c�nico e verbal que Ž linguagem do corpo e
coloca�‹o em obra das sensualidades carnaisÓ (ZUMTHOR, 1993, p. 45).
Na
proposta poŽtica de Ant™nio Vieira, o corpo participa da a�‹o de dizer, desde a
variada tonalidade da voz ou a estrutura�‹o r’tmica atŽ a gesticula�‹o
corporal, que se manifesta nos movimentos das m‹os, nos meneios da cabe�a, na
curvatura do tronco, na dan�a do corpo de um lado para outro, para frente, para
tr‡s, num vai e vem pr—prio da atua�‹o perform‡tica.
Ant™nio Vieira comp™s
seu personagem movido evidentemente pelo desejo de se distinguir da multid‹o
das pra�as pœblicas: usava um chapŽu tipo Òpanam‡Ó e portava um viol‹o como se
fosse extens‹o de seu pr—prio corpo, marcas de um artista
Figura 13
‒ Ant™nio Vieira
Fonte:
Acervo pessoal da autora.
Ant™nio
Vieira, que come�ou realmente a escrever e a atuar j‡ no sŽculo XXI, nesse
terceiro mil�nio, tinha perfeita no�‹o de sua fun�‹o de poeta/pesquisador.
Nesse sentido, n‹o foi um improvisador – confessava que utilizava a
estrutura e o pr—prio nome de Cordel – e chegou a fazer uma classifica�‹o
de sua obra, naturalmente ancorado nas classifica�›es feitas por estudiosos da
literatura popular. Deixou uma obra marcada por um elevado teor de
intencionalidade, preocupa�‹o com os debates acirrados de um novo momento,
conformando uma polifonia de narrativas de grande interesse. Trago, aqui, por
exemplo, uma de suas propostas, qual seja a da cole�‹o afro-Brasil, com um
conjunto de folhetos abordando a tem‡tica da africanidade e sua repercuss‹o na
forma�‹o do povo brasileiro.
No
rol de sua produ�‹o poŽtica, figuram duas colet‰neas – Hist—rias que o
povo conta, volumes I e II – e um CD gravado – Ant™nio
Vieira: o cordel remo�ado – com 12 mœsicas narradas e/ou cantadas.
Homem
sens’vel e atento ˆ diversidade de seu pœblico, Ant™nio Vieira sabia seduzir
plateias, como ocorria nos shows que eram cuidadosamente preparados. Por conta
disso, foi convidado pela TVE (TV Educativa/IRDEB/Bahia) para gravar um
especial, o que foi concretizado em 2005.
As atua�›es
perform‡ticas de Ant™nio Vieira provocaram repercuss‹o na Escola de Artes
C�nicas da Universidade Federal da Bahia. O professor Dr. Armindo Bi‹o, de
saudosa mem—ria, escreveu um pref‡cio para a colet‰nea Hist—rias que o povo
conta, de Ant™nio Vieira:
H‡ alguns anos, lecionando para jovens estudantes
de teatro, da Universidade Federal da Bahia, e tratando com as possibilidades
Žpicas (narrativas) e dram‡ticas (de a�‹o) do cordel, convidei para fazer uma
aula para meus alunos o poeta, compositor e cantor Ant™nio Vieira, que me foi
apresentado por Antonio Marques, estudante da turma. A publica�‹o do livro
deste artista hoje aqui (2003, por ocasi‹o de uma feira nacional do livro, na
Bahia) Ž um importante momento do hist—rico acima relatado. Ler um folheto de
Ant™nio Vieira, em sua presen�a, numa festa de 13 de maio em Santo Amaro, sua
terra, t�-lo fazendo uma nova aula – desta vez aberta – para meus
novos alunos da UFBA, h‡ algumas semanas e mais recentemente, t�-lo num projeto
da Funda�‹o Cultural para um pœblico maci�amente jovem (o Julho em Salvador),
s‹o outros momentos daquele hist—rico pessoal, que se completam com as
considera�›es que se seguem (BIÌO, 2003, p. 12-13).
Em
2004, Ant™nio Vieira teve a oportunidade de fazer uma viagem a Portugal, desejoso
de conhecer a terra de Ant—nio Aleixo, poeta por quem nutria uma profunda
admira�‹o. L‡, fez alguns shows e se encantou com a Universidade de Coimbra.
Em rota de viagem,
Ant™nio Vieira deixou gosto de quero-mais no seu antol—gico encontro virtual com
Ant—nio Aleixo. Encontro dos dois Ant™nios. Ant™nio Vieira viajou da Bahia para
Portugal e o fez no duplo sentido: real e imagin‡rio. Em suas andan�as por
terra de alŽm-mar, redesenhou um encontro poŽtico insuspeitado.
Na Bahia, sabia muito
bem Ant™nio Vieira que o centro da cidade de Salvador n‹o era somente reduto de
sobrad›es onde se misturam os cheiros de dend�, incenso, cravo e canela. Era
tambŽm reduto de tipos humanos, populares ou n‹o, que passavam das ruas para a
mem—ria, a exemplo de Greg—rio de Mattos, poeta seiscentista que nasceu no
casar‹o de n¼ 8 da Pra�a Anchieta (bem em frente ao Cruzeiro de S‹o Francisco,
cruz de m‡rmore erguida em 1807, sob a batuta de Frei JosŽ de S‹o Sebasti‹o),
expoente maior da nossa poesia barroca e que circulou de viola em punho pelos
becos e ladeiras, satirizando desafetos pessoais e pol’ticos, ele que era
doutor in utroque jure pela Universidade de Coimbra.
A viagem que Ant™nio
Vieira fez a Portugal possibilitou-lhe reflex‹o a respeito de si pr—prio, de
seu pa’s, de seu povo, abrindo espa�o para a constru�‹o de um discurso sobre o
outro. O poeta da terra de samba-de-roda e usinas de a�œcar viu sua viagem como
um aprendizado, como experi�ncia vivencial e textual. O ritmo Ž do sujeito que
tudo olha, tudo contempla e tudo fixa. O desejo de conhecer os lugares por onde
versejou Ant—nio Aleixo fez com que, para Ant—nio Vieira, essa viagem se
tornasse mais ’ntima e imagin‡ria que real. Ao olhar o outro, estabeleceu de
imediato um di‡logo entre a sua cultura e aquela do outro. Importava, para ele,
ler o outro, buscar identidades e diferen�as, tentando reviver, atravŽs do
corpo textual, tudo aquilo que viu ou contemplou.
O olhar de Vieira
– aqui, evoco Bachelard – passa de algo passivo para algo ativo, de
movimento, n‹o sendo o olho seu s’mbolo, mas a m‹o, que tem movimento e Ž
criadora, ao agir sobre o objeto observado (BACHELARD, 1991). Tens‹o no olhar.
Olhar que se transforma em atividade criadora, transferindo para a m‹o do
escritor a fixa�‹o dos instantes. Instantes viajeiros, agora fixados,
dinamizados pela imagina�‹o. Nos campos do imagin‡rio, a mem—ria se rearruma,
se rearticula, se reorganiza, redimensionando, desse modo, o que foi olhado,
tocado, cheirado, ouvido, saboreado. Imagina�‹o que opera, portanto, transforma�›es
de dados efetivos que se movem em espa�os fluidos e tempos imemoriais.
A viagem de Vieira a
Portugal, lugar de espa�o e tempo para experimenta�›es, fez vicejar uma nova
proposta de escritura: n‹o documento, n‹o testemunho, n‹o mem—ria. Mas um
bocadinho de cada, compondo um tecido de mœltiplos fios e de intrincados
tran�ados que se exp›em nos v‡rios deslocamentos, no tr‰nsito, na err‰ncia por
opostos espa�os, na dimens‹o cambiante de toda mudan�a.
Veja-se que suas
cr™nicas/relatos/narrativas de viagem lan�aram sementes para seus folhetos, nos
quais, por exemplo, Portugal foi muito alŽm de refer�ncias hist—ricas,
arquitet™nicas, e passou a significar um espa�o de liberdade por onde os
personagens circulavam num vai e vem incessante. Nesse espa�o, a’ inclu’do o
cotidiano do trabalhador, do vagabundo, do moleque, h‡ o desfrutar dos
prazeres, sugerindo possibilidade de felicidade. Escapam, assim, os personagens
de Vieira da dimens‹o da raz‹o e passam a expressar-se em outro plano, plano
t‹o enevoado, pleno de matizes e cambiantes, plano aberto, sem f—rmulas fixas,
r’gidas ou definitivas. Nesse plano, tudo pode ser mudado, tudo est‡ em
constante ir e vir como as ins—litas espumas flutuantes.
Viajar Ž preciso. No
confidenciar desse viajor, h‡ a divis‹o entre a viagem real e a viagem da
imagina�‹o. Uma interfere na outra, possibilitando reflex›es para a compreens‹o
da op�‹o estŽtica e ideol—gica do escritor. Nessas viagens, Vieira pensou e
refletiu a poesia e as v‡rias dimens›es da oralidade e da musicalidade.
Essa viagem para
Portugal motivou o folheto O Encontro de
Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo. N‹o h‡ aventura imposs’vel para a
imagina�‹o do poeta, que viaja solto, sem rŽdeas, nas asas do vento. Voam os
poetas de cordel, obcecados pelos voos.
Espa�o e tempo se
movimentam e as narrativas ressurgem com novas fisionomias no rec™ncavo da
Bahia. S‹o tra�os de uma narrativa oral, movente, surpreendentemente
camale™nica, que ressurgem nos intrigantes textos de literatura de cordel.
Composto de septilhas setessil‡bicas, e editado com o apoio da Funda�‹o
Cultural do Estado da Bahia em 2005, o folheto, j‡ no seu in’cio, indica
rever�ncia ao poeta portugu�s:
Grande
mestre Ant—nio Aleixo
Eu
estando em Portugal
Para
cantar os meus versos
Em sua
terra natal
N‹o
lhe pedi permiss‹o
Para
tal interven�‹o
Perdoe-me,
n‹o fiz por mal!
Apenas
n‹o conhecia
Sua
verve merit—ria
Que o
povo portugu�s
Guarda
viva na mem—ria
E fala
com muito zelo
Do
poeta cauteleiro
Que
deixou o nome na hist—ria.
Nesse folheto, o poeta
viaja atravŽs da imagina�‹o sem travas e sem limites. Aporta o poeta no mundo
portugu�s e estabelece rela�›es com o mudo de Òc‡Ó:
Mas
como eu considero
O
mundo um s—: l‡ e c‡
Tomei
a iniciativa
De com
voc� versejar
Baseado
na ess�ncia
Que a
sua sapi�ncia
Me
inspirou a cantar.
Fascinado pela viv�ncia
entre rios – SubaŽ-sergi-mirim, Araguaia, Paragua�u, Tocantin—polis,
Arataœ, Itapecuru –, o poeta Ant™nio Vieira, de Santo Amaro/Bahia, era
atento observador do dif’cil cotidiano de seu povo, de um povo sofrido e carente.
N‹o ser‡ dif’cil, portanto, entender a fabulosa viagem que o poeta empreende em
busca de um outro espa�o. Assim, vai a Coimbra e contempla o Mondego.
Contempla�‹o igualmente se dar‡ com a ida a Braga quando avista o Douro.
Essa narrativa em versos
metrificados Ž, sem dœvida, baseada em modelos que s‹o recriados com base na
circula�‹o de elementos textuais viajantes, n™mades, que se combinam aqui e
ali, fazendo surgir hist—rias sempre prontas a se refazer na infinitude das
leituras poss’veis. Num complexo processo da boca ao ouvido e do ouvido ˆ boca,
ocorre o afastamento gradativo da matriz original. E a modifica�‹o da matriz
original de uma hist—ria assentada na tradi�‹o tem, a meu ver, um aspecto
transgressor, que seduz pela novidade, oriunda da imagina�‹o, essa forma de
aud‡cia humana.
A voz do poeta popular
inquieta, se adentra em variados mundos, transmite verdades e sonhos, funda
reinos fabulosos ou n‹o. Essa voz em muta�‹o se reelabora constantemente,
tecendo e retecendo os retalhos da tradi�‹o em formas novas e fisionomias
particulares.
Escrito por um poeta de
acentuado esp’rito cr’tico, o folheto h’brido – septilhas e peleja em
quadras – com a vers‹o do encontro fict’cio entre o Ant—nio portugu�s e o
Ant™nio brasileiro da Bahia, Ž uma viagem pela imagina�‹o. Com sua palavra
cheia e cantante, Ant™nio Vieira se insere, agora, no rol dos criadores de
viagens fant‡sticas.
A narrativa de viagem
real de Ant™nio Vieira exp›e a experimenta�‹o ao vivo das mais variadas
manifesta�›es art’sticas de nossos antepassados portugueses: poesia, mœsica,
drama. Na volta, sob a a�‹o da mem—ria e da imagina�‹o, selecionou os fatos
experenciados e os metamorfoseou em viagens fict’cias.
Ant™nio
Vieira ter‡ sua vida escrita[18],
certamente, por bi—grafos, e ela trar‡ a legenda da heroiciza�‹o. Desde a terra
de origem (Bahia) – uma terra m’tica – atŽ as pessoas que o cercam
– parentes, amigos, admiradores –, dizem eles que Vieira foi um
homem ’mpar, mœltiplo e v‡rio. E eu, que cheguei a conhec�-lo, concordo que
seus v‡rios perfis se superp›em: o Ant™nio Vieira de Santo Amaro da
Purifica�‹o, cantada terra do Rec™ncavo baiano; o Ant™nio Vieira na cidade de
Salvador, seduzido pelas luzes da ribalta; o Ant™nio Vieira da fam’lia (com
Coracy e filhos); o Ant™nio Vieira agitador, arauto da liberdade; o Ant™nio
Vieira, poeta que figura no pante‹o de grandes poetas da literatura de cordel;
o Ant™nio Vieira dos palcos, mestre violeiro e ex’mio cantador; o orador
destacado de semin‡rios e entrevistas; o inesgot‡vel combatente, apoiador ardoroso
de um pensamento afro-descendente; o Ant™nio Vieira, modelo de eleg‰ncia e
aud‡cia; o Ant™nio Vieira dos jovens, o arrebatado paladino da liberdade, o
ut—pico, o sonhador; o Ant™nio Vieira das gera�›es mais velhas, modelo de homem
justo, educado, orador brilhante, poeta de estirpe; o Ant™nio Vieira do povo, o
simples, o defensor dos oprimidos, o proclamador das igualdades sociais.
Figura 14 ‒ Ant™nio Vieira em atua�‹o
Fonte: Acervo
pessoal da autora.
Ant™nio Vieira deixa uma grande contribui�‹o ao conceituar uma nova maneira
de pensar o cordel, denominado por ele de cordel remo�ado, e que
consiste na apresenta�‹o do cantador recitando/cantando fragmentos de hist—rias
tradicionais em processo de uso da bricolagem com novas hist—rias de sua lavra,
satirizando os acontecimentos, denunciando mazelas. Com for�a e forte carisma,
o poeta exibia gestos, tons de voz adequados a cada narrativa cantada. O poeta
Vieira fez, em verdade, uma releitura do cordel, fazendo o texto circular e,
desse modo, ÒcosturarÓ habilmente as linhas da tradi�‹o e da contemporaneidade
sem deixar entre elas lacunas e Òpontos vis’veisÓ.
Ardoroso defensor do prest’gio que deveria ser dado ˆ poesia ÒpopularÓ, A.
Vieira buscou estabelecer um di‡logo com os poetas sem subservi�ncia, sem tirar
seu chapŽu como rever�ncia.
A cantora e intŽrprete Maria Beth‰nia, tambŽm nascida em Santo Amaro da
Purifica�‹o/Bahia, gravou, ao som de um instigante fundo musical com percuss‹o
e lev’ssimo dedilhar de viol‹o, um irreverente poema de seu conterr‰neo[19]:
A nossa poesia Ž uma s—
Eu n‹o vejo raz‹o pra separar
Todo o conhecimento que est‡ c‡
Foi trazido dentro de um s— moc—
E ao chegar aqui abriram o n—
E foi como ela sa’sse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares
Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
No contexto de uma sala de aula
N‹o estarem esses nomes me d‡ pena
A escola devia ensinar
Pro aluno n‹o me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
S‹o vates de muita qualidade
O aluno devia bater palmas
Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares.
Ant™nio Vieira foi acometido por um c‰ncer pulmonar. Durante 10 anos, lutou
contra essa doen�a e, segundo me relatou sua viœva, ele dizia sempre ÒEu estou
doente, n‹o sou doenteÓ. Essa doen�a se espalhou para a medula —ssea e o poeta
veio a falecer no dia 10 de maio de 2010, deixando mulher e tr�s filhos.
FOLHETOS[20]
DE ANTïNIO VIEIRA:
1.
A medicina altru’sta
de Doutor JosŽ Silveira, xilo: Naizuo, 2001.
2.
Santo Ant™nio de
P‡dua, a PŽrola Maior da Ordem Franciscana, edi�‹o especialmente produzida para
o Evento Ant™nio Tempo, Amor, Tradi�‹o – ANO V – 2001 (MOSTRA DE
ARTE – de 1¼ a 13 de junho, Centro de Mem—ria dos Correios, desenho s/i,
acr—stico, 24 p., junho de 2001.
3.
Mouraria, tradi�‹o
Mouro Cigana, desenho s/autoria, acr—stico. 16 p. outubro de 2001.
4.
A poesia esculachada
dÕEle, o Tal Cu’ca de Santo Amaro, xilo com a figura do poeta popular Cu’ca de
Santo Amaro, de autoria do xil—grafo Natividade, acr—stico, junho de 2002.
5.
Pop— do Macul�l� de
Santo Amaro, 2» edi�‹o, desenho, agosto de 2002.
6.
O encontro de Besouro
com o valent‹o Doze Homens, 4» edi�‹o, acr—stico, desenho s/identifica�‹o,
setembro de 2002.
7.
Usar ChapŽu –
uma arte milenar, 12 p‡ginas, desenho s/autoria – acr—stico, outubro de
2002
8.
Se a ferrovia
traz progresso e porque o trem parou?, 16 p‡ginas, acr—stico. Funda�‹o Luis
Ademir de Cultura, S‹o FŽlix/Bahia, 2002.
9.
Akar‡-Je – o
mesmo que comer fogo, xilo: Natividade, 8 p‡ginas, acr—stico, janeiro de 2003.
10.
O sacerd—cio
humanista de Monsenhor Gaspar Sadoc, 8 p‡ginas, acr—stico, mar�o 2003, foto do
Padre.
11.
Manuel Faustino dos
Santos Lira, o m‡rtir santo-amarense da Conjura�‹o Baiana, desenho s/ident, 12
p., acr—stico, abril de 2003.
12.
Feli�a – uma
prostituta que ensinou uma gera�‹o inteira, 8 p‡ginas, Xilo Luiz Natividade,
com acr—stico, abril de 2003.
13.
Dona Can™[21],
referencial de M‹e e de Sabedoria, 12 p‡ginas, acr—stico. Capa, foto de D.
Can™, setembro de 2003.
14.
Aprende a
escrever na areia, desenho sem identifica�‹o, 8 p‡ginas, acr—stico, com
informa�‹o aos leitores, no verso da capa, Çque a hist—ria foi inspirada na
obra de Malba TahanÈ. Na capa: ÇD� cordel de presenteÈ[22], dezembro 2003.
15.
Palmares, a
for�a da ra�a negra, xilo s/i, 20 p‡ginas, acr—stico fora do padr‹o.
16.
P‡ginas,
acr—stico, fevereiro de 2004.
17.
Louva�‹o do
poeta ˆ Funda�‹o Cultural do Estado da Bahia, abril de 2004.
18.
Igrejas da
Bahia, um estado de esp’rito, desenho s/identifica�‹o, (Espa�o Cultural In‡cio
da Catingueira), 28 p‡ginas, acr—stico, dezembro de 2004.
19.
O encontro de
Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo, junho de 2005, com 26 p‡ginas e um
acr—stico. Na capa, desenho dos dois poetas: por Natividade (A. Vieira) e
Toss‡n (A. Aleixo). ContŽm um texto de Joaquim Magalh‹es, datado de fevereiro
de 1975 – Actualidade Viva de um poeta Morto.
20.
Assis Valente,
o santamarense que queria ver Tio Sam tocar pandeiro, 8 p‡ginas, acr—stico,
s/d.
21.
Fonte: Foto da autora. Fonte: Foto da autora.
|
Figura 16
– Espa�o Cultural In‡cio da Catingueira, criado por Ant™nio Vieira e
sediado em sua pr—pria casa |
Os dois Ant™nios: Aleixo e Vieira
Ant—nio Aleixo e Ant™nio
Vieira viveram em espa�os e tempos distintos. Enquanto o Ant—nio Aleixo viveu
um momento em que n‹o se assistia, se vivia, Žpoca em que Òuma corrente
magnŽtica ligava todas aquelas almas, tornando-as solid‡rias na comunh‹o
emotivaÓ (TORGA, 1960, p. 68), Ant™nio Vieira viveu e transitou em outros espa�os
e outra Žpoca, exatamente entre as quatro œltimas dŽcadas do sŽculo XX e a
primeira dŽcada do sŽculo XXI (1962-2010).
Ant—nio Aleixo ficou
dividido entre alguns espa�os: o de sua origem em Vila Real (centro
piscat—rio), o de LoulŽ (agr‡rio artesanal) e onde se deu seu real assentamento
a partir da inf‰ncia, vida inst‡vel e por pouco tempo em Fran�a, passagem
importante por Coimbra. Nos anos 1930-1940, o poeta conviveu em muitos
encontros com reconhecidos algarvios, que se pronunciavam quanto ao inconformismo
da pol’tica, eram anticlericais e com assentados princ’pios Žticos.
O conjunto da obra de
Ant—nio Aleixo mostra um grau elevado de insatisfa�‹o com o mundo. A melancolia
e a s‡tira compuseram a maior parte de sua obra e isto Ž um consenso entre os
pesquisadores.
Ant™nio Vieira tambŽm
ficou dividido entre alguns espa�os: o de sua origem como filho mais velho do
dono de um pequeno armazŽm na cidade de Santo Amaro da Purifica�‹o (quando
crian�a, escrevia ÒversinhosÓ no papel de embrulho das mercadorias), depois a
circula�‹o por v‡rios estados do Brasil, a servi�o de uma institui�‹o federal
(INCRA), atŽ se firmar em Salvador, capital da Bahia. Mas, quis atravessar o
Atl‰ntico para sentir os ares da terra por onde transitou o poeta portugu�s
Ant—nio Aleixo.
O conjunto da n‹o
extensa obra de Ant™nio Vieira mostra uma consci�ncia de seu fazer art’stico
como uma forma de conscientizar seu povo e fazer isto tambŽm de maneira
divertida, em busca por reiventar alegrias. A s‡tira de sua poesia convergia
para uma s‡tira ÒjocosaÓ, em que o riso se unia ˆ reflex‹o, pois n‹o visava o
c™mico. Assim, de maneira camale™nica, apontava sua ironia tran�ada de
sutilezas para tratar da realidade social da Žpoca.
Por sua presen�a,
impressa de forma indelŽvel na mem—ria dos poetas, dos cantadores, dos
estudiosos da cultura popular, dos intelectuais e do pr—prio povo portugu�s,
como figura de proa, agitador, refer�ncia, Ant—nio Aleixo, artista de destacada
produ�‹o, um expert na arte da performance, transformou-se em
l’der e numa espŽcie de modelo.
Ant™nio Vieira ainda Ž
muito pouco estudado e, portanto, n‹o tem uma fortuna cr’tica, m’nima que seja,
sobretudo no Brasil, um pa’s que mantŽm, n‹o t‹o aparentemente mas com um
delicado desdŽm, uma separa�‹o entre os poetas ÒeruditosÓ e ÒpopularesÓ. Muito
me chama a aten�‹o, em Portugal, uma aura m’tica em torno do Aleixo, o que acho
instigante e bastante pertinente.
Ah! Sedu�‹o (se-ducere: afastamento,
desvio do caminho, encanto, atra�‹o, fasc’nio), jogo e desafio, lance de dados,
ritual sem vencedor nem vencido, presen�a do trompe lÕoeil,
espa�o onde se assentam as marcas da ilus‹o. Mas o momento da sedu�‹o n‹o Ž s—
ilus—rio, tem um qu� de m‡gico, de encanto. A sedu�‹o, rito articulado no
imagin‡rio, encena uma espŽcie de fantasia do real.
A pr—pria rever�ncia de
parte do poeta Ant™nio Vieira diante da obra de Aleixo foi o eixo central para
este estudo. Seduzido pela obra poŽtica de Aleixo, Vieira (2005, p. 5-6) buscou
identificar-se, de certa maneira, com o poeta portugu�s.
Por termos
muito em comum
Desde as
ra’zes da terra
Porquanto
seu sangue bom
As minhas
veias preserva
No ano 49
Eu cheguei
aqui no orbe
Voc� foi
pra vida eterna.
As nossas
vidas coincidem
Nascemos no
mesmo m�s
Voc� no dia
dezoito
Dezenove
foi minha vez
Voc� veio
c‡, primeiro
E o m�s de
fevereiro
Nos recebeu
bem cort�s.
E a partir de agora
Eu passo a versejar
Baseado em sua obra
As cantigas de atirar
Vou repetir uma linha
Com a qual eu fa�o a minha
Quadra que vai
se casar.
E, assim, em pleno
per’odo de uma pandemia, covid-19, meu deslocamento para pesquisas, aqui no
Brasil, se deu movida pelo imagin‡rio. Em companhia desses dois poetas, busco
perambular pelas ruas de LoulŽ ou da Bahia, insistindo na capta�‹o dos
sentidos, do olfato ou da audi�‹o de momentos n‹o vividos. Por intermŽdio
desses poetas, recomponho mapas e, imaginariamente, percorro ruas, becos,
mercados e feiras populares para, em seguida, desenh‡-los na minha escrita.
Assim, esses poetas procederam, observadores infatig‡veis da vida
s—cio-pol’tica de sua polis.
Escrito por um poeta de
acentuado esp’rito cr’tico, o folheto h’brido[23]
– septilhas e peleja em quadras – com a vers‹o do encontro fict’cio
entre o Ant—nio portugu�s e o Ant™nio brasileiro, Ž uma viagem pela imagina�‹o.
Com sua palavra cheia e cantante, Ant™nio Vieira se insere, agora, no rol dos
criadores de viagens fant‡sticas.
A narrativa de viagem
real de Ant™nio Vieira exp›e a experimenta�‹o ao vivo das mais variadas
manifesta�›es art’sticas de nossos antepassados portugueses: poesia, mœsica,
drama. Na volta, sob a a�‹o da mem—ria e da imagina�‹o, selecionou os fatos
experenciados e os metamorfoseou em viagens fict’cias.
Figura 17 ‒ Capa de folheto
Fonte: Acervo da autora.
Ë guisa de conclus‹o ou pensando em concluir
Se, por um lado, utopia
pode parecer um discurso ilus—rio, por outro, se apresenta como um poss’vel
entendimento do real, capaz de transformar o ilus—rio numa fun�‹o construtiva
do discurso poŽtico. Desse modo, as decep�›es, os fracassos, as engana�›es convergem
para a cria�‹o de novos mundos. Seriam esses novos mundos um refœgio e um
testemunho da inadequa�‹o ˆ realidade vivida? Da’ o chamamento para a utopia
nesse mundo j‡ considerado Òdist—picoÓ e agora mais acentuada fica essa
distopia por conta de um Ònovo normalÓ ou mundo Òp—s-pand�micoÓ.
As reflex›es em torno
das obras desses dois poetas apontam uma
tem‡tica abrangente que traz reflex›es sobre cultura, mem—ria, tradi�‹o e
inven�‹o, tra�os que convivem conosco neste nosso mundo de hoje, marcado pela
instabilidade e pela imprevisibilidade, pela mov�ncia e pelo di‡logo.
Neste in’cio de mil�nio, em que a humanidade em crise (econ™mica,
pol’tica, ideol—gica, religiosa, Žtica, afetiva) aferra-se a incertos valores e
duvidosas certezas, na busca do para’so perdido do passado, ou de instaurar o
para’so poss’vel do futuro, creio que talvez valha a pena enveredar pela
mem—ria e pela resist�ncia, sob o foco da cultura.
Nas entrelinhas desse texto, ecos e sons coreografam a dan�a saborosa
do(s) saber(es), que, como Barthes vislumbrou, n‹o t�m qualquer tipo de fim,
conclus‹o, alvo ou porto.
Este texto toca, aqui, pois, em assuntos candentes para se pensar a
rela�‹o da globaliza�‹o e a diversidade cultural e faz um convite: olhar para o
mundo e a vida, n‹o como espa�os de certeza, de precis‹o, de hierarquias
tra�adas, mas antes de tudo como espa�os moventes, prism‡ticos, onde o que
interessa Ž a ilumina�‹o, ao contr‡rio de luzes ofuscantes que impedem o
olhar. O ouvinte n‹o vai se guiar por certezas absolutas, mas por curiosas
indaga�›es que se mostram no espa�o de reflex›es sobre temas importantes.
Tendo por base dois poetas populares inseridos no par mem—ria/mov�ncia,
este texto organizou-se, intencionalmente, no (des)compasso de sequ�ncias. Ao
fim e ao cabo, pretendi com essa (des)organiza�‹o erguer uma espŽcie de babel cultural, na qual textos desses
poetas tenham voz, em que nos seja permitido ouvir as falas em sua
multiplicidade, e enxergar cintil‰ncias de significados.
Cultura Ž express‹o, express‹o que revela sentidos potenciais e
infinitamente multiplicados. Assim, a possibilidade de as culturas se
aproximarem, se tocarem, dialogarem e atŽ mesmo se completarem, mantendo suas
individualidades como signos que produzem interpretantes com modos semelhantes
de express‹o, ainda que por meios diferentes, ou suportes, para falar
contemporaneamente.
As culturas n‹o s‹o excludentes, e, muito pelo contr‡rio, desembocam num
ponto de conflu�ncia. E nesse ponto, com base nas ÒestratŽgias sens’veisÓ
(SODRƒ, 2016), o Òlugar singular’ssimo dos afetosÓ atravessa e ilumina meu nœcleo de
investiga�‹o que envolve a ideia de voz como espa�o
de fronteiras entre culturas, como um tecido de tramas entre mem—ria, hist—ria,
encena�‹o (corpo), tra�o, olho e letra – diferentes vozes que permeiam o
que chamamos de poŽtica das culturas orais – e que, inscritas no
presente, formam teias de contato com aquelas vozes marcadas na hist—ria.
Falo de
textos que, resguardados pela impress‹o tipogr‡fica, trazem marcas acentuadas
da voz, textos hibridizados entre sil�ncio, voz, gesto, imagem, mas percebidos
tambŽm como performance do corpo, onde se d‡ a plenival�ncia da voz viva, dos
fen™menos que remetem ˆ vocaliza�‹o, ˆ visualiza�‹o e ˆ gestualidade. O que se
pretendeu aqui foi priorizar a voz poŽtica enquanto corpo e imagem. Na escuta
de uma voz, na mirada de uma imagem, o leitor/receptor reencontra uma
sensibilidade ÒanestesiadaÓ, ÒadormecidaÓ. O leitor/receptor, agora despertado,
passa a ser uma espŽcie de coautor. E o despertar, enfim, de novos olhares, bem
como o rompimento de um modelo est‡tico e convencional de nossas percep�›es,
constituem-se em pontos fulcrais de reflex‹o sobre o poŽtico como um locus de resist�ncia e transgress‹o.
A poesia n‹o foi feita para ser lida t‹o somente em sil�ncio. Exige ser
pronunciada, proferida em voz alta, j‡ que a palavra original Ž voz, Ž som. E a
voz Ž a semente inaugural de toda comunica�‹o.
Apesar de escrita na maioria das vers›es e destinada, pois, a ser lida, a
poesia traz em sua origem, e atŽ mesmo no corpo de sua escritura, a vibra�‹o da
voz. O que a caracteriza, antes de tudo, Ž seu acento oral (mais acentuado,
gritante, mais sutil), seus aspectos perform‡ticos (em maior ou menor grau), ou
atŽ mesmo uma voz sem corpo (na aus�ncia do poeta ou diseur), apenas eco
ou som de um fantasma, que invade nossos ouvidos.
Essas narrativas em
versos metrificados s‹o, sem dœvida, baseadas em modelos que s‹o recriados com
base na circula�‹o de elementos textuais viajantes, n™mades, que se combinam
aqui e ali, fazendo surgir hist—rias sempre prontas a se refazer na infinitude
das leituras poss’veis. Num complexo processo da boca ao ouvido e do ouvido ˆ boca,
ocorre o afastamento gradativo da matriz original. E a modifica�‹o da matriz
original de um texto assentado na tradi�‹o tem, a meu ver, um aspecto
transgressor, que seduz pela novidade, oriunda da imagina�‹o, essa Òforma de
aud‡cia humanaÓ, como acentuou Bachelard.
A voz do poeta popular
inquieta, se adentra em variados mundos, transmite verdades e sonhos. Essa voz
em muta�‹o se reelabora constantemente, tecendo e retecendo os retalhos da
tradi�‹o em formas novas e fisionomias particulares.
Ambos os poetas, aqui
redesenhados, exp›em o real, transfiguram-no imaginariamente, com o intuito de
inscrever, no espa�o da p‡gina em branco ou no palco da oralidade, o tra�ado
cambiante de suas mœltiplas viagens pelas veredas da poesia.
Enfim,
h‡ Ant—nio Aleixo e h‡ Ant™nio Vieira que deixam marcas em suas obras,
cicatrizes que apontam para a complexidade de suas for�as interiores,
convergentes todas para um nœcleo de fogo e ar, onde crepitam as chamas da
paix‹o e da liberdade. Liberdade na Paix‹o. Paix‹o pela Liberdade. Paix‹o e
Liberdade – palavras de ordem desses dois poetas.
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[Recebido:
22 set 2020]
PRINCêPIOS DE UM SISTEMA
EDITORIAL
PRINCIPES
D'UN SYSTéME ƒDITORIAL
Maur’lio Antonio Dias de Sousa[24]
Resumo: Este trabalho objetiva
mostrar a din‰mica da publica�‹o do folheto[25], entre os anos vinte e
setenta, tendo como objetivos: a) refletir sobre as rela�›es humanas de
produ�‹o que ocorriam no entorno da casa editorial entre o poeta-editor e os
demais sujeitos envolvidos nesse processo de produ�‹o, e b) observar os aspectos
referentes aos Elementos Instauradores
e ˆ Ordena�‹o Funcional. Neste
contexto a discuss‹o te—rica que apresentamos tomou por base os estudos e
pesquisas desenvolvidos por Sousa (2009, 2016) os quais nos conduziu ˆ
percep�‹o da complexidade das rela�›es de produ�‹o no interior do universo da
chamada ÒLiteratura de CordelÓ.
Palavras-chave: Produ�‹o. Poeta. Editor.
Casa Editorial.
RŽsumŽ: Nous mettons en relief
dans ce travail la dynamique de la publication du cordel, entre les annŽes
Vingt et Soiaxante-dix, ayant pour objectifs: a) de reflechir sur les raports
humains que avaient lieu dans les maison dÕŽditions entre le poŽte-editeur et
dÕautres personnes participant dans les processus de production du cordel; et
b) dÕobeserver des aspects concernant les ƒlŽments Instaurateurs et Ordre
Fonctionnel. Dans ce contexte, la discussion thŽorique prŽsentŽe Žtait basŽe
sur les Žtudes et recherches dŽveloppŽes par Sousa (2009, 2016) lesquelles nous
ont conduit ˆ comprendre la complexitŽ des rapports de production de ce quÕon
apele ÒLiteratura de CordelÓ.
Mots-clŽs: Production. PoŽte.
ƒditeur. Maison dÕŽdition.
Introdu�‹o
A din‰mica do processo de produ�‹o poŽtica,
que surgiu com os poetas-editores, difere de todos os tipos tradicionais de
enuncia�‹o da poesia popular nordestina, manifestando-se de maneira envolvente,
ampla, complexa, estruturante e sist�mica, sem precedentes: neste sentido,
revolucion‡ria. Trata-se de uma pr‡tica editorial que, longe de ser uma mera
imita�‹o do formato hegem™nico, concretiza um modelo pr—prio que vai realizar a
inscri�‹o e perman�ncia, no mercado de folhetos, de um modo de publica�‹o e
circula�‹o nunca visto antes. Para que esse sistema pudesse vir ˆ luz e se estruturar como
tal, fez-se necess‡ria a conjuga�‹o de diversos fatores que aqui apresentamos
em dois grandes grupos: os Elementos
Instauradores e a Ordem Funcional.
Elementos Instauradores
Priorizamos
aquŽm o esfor�o em descrever o poeta na fun�‹o de editor, apresentando o seu
trabalho como desenvolvimento funcional de sua condi�‹o: propriet‡rio de uma
casa editorial de folhetos. ƒ bem certo que o estabelecimento da condi�‹o de
poeta-editor sempre representou um marco na carreira do poeta popular. Se
comparada com o nœmero dos que n‹o galgavam privilegiada posi�‹o, tem-se a’ um
caso de ascens‹o profissional, tanto da express‹o da capacidade aquisitiva como
do potencial representativo por parte do poeta-editor no interior desse
universo cultural. Se para alguns poetas a carreira de empreendedor editorial
fora, de fato, um caminho de sucesso, essa experi�ncia nem sempre significou
garantia de �xito profissional, pois para outros que se enveredaram por esse
caminho a experi�ncia foi de malogro. H‡ ent‹o um interdito no tr‰nsito entre a
posi�‹o de poeta e a de poeta-editor e isso n‹o sugere uma pac’fica acomoda�‹o,
ao contr‡rio aponta para uma adequa�‹o exigente.
O
desenvolvimento das atividades editorias consagradas ao folheto caracteriza-se,
desde sua origem, pela exig�ncia de um capital m’nimo, que normalmente advinha
da venda de folhetos nas feiras das cidades extensivas, para que o novo
empreendedor viesse adquirir o maquin‡rio b‡sico e dar in’cio ˆs diversas
atividades relacionadas ˆ publica�‹o. AlŽm da posse do referido capital
inicial, havia que se considerar um outro fator que compunha a g�nese do
nascimento do editor: o aprendizado da tŽcnica tipogr‡fica editorial. O poeta,
ent‹o editor, era um ne—fito no manuseio dos instrumentos gr‡ficos e na
aplica�‹o da tecnologia de editora�‹o o que exigia inicialmente um m’nimo
conhecimento sobre os procedimentos de impress‹o. ƒ preciso que se observe as
dificuldades e os esfor�os iniciais do poeta-editor que, oriundo da oralidade,
com seu modo pr—prio de propaga�‹o[26], se punha, agora, diante
da realidade da cria�‹o poŽtica mediada pelo suporte impresso: eis um desafio e
uma necessidade de adequa�‹o diante de uma nova ordem de express‹o poŽtica[27].
PorŽm esses elementos preliminares n‹o d‹o
conta, por si s—, de explicar a posi�‹o do poeta-editor no mundo da publica�‹o
e circula�‹o do folheto. A
legitimidade da fun�‹o do editor caracterizava a demanda, no per’odo hist—rico,
de sua estabilidade, para alŽm das publica�›es. Essa demanda certamente
permitiu ao editor decidir regras, orientar o alinhamento das publica�›es e quais
os recursos que melhor a elas se adaptavam. As condi�›es culturais pr—prias do
tempo, a vida do campo, as feiras das cidades, as rotas da oralidade poŽtica,
tantas narrativas que entrecruzaram poeticamente e tantos autores que se
conheceram n‹o fundaram um modo de difus‹o poŽtica apenas pela necessidade da
participa�‹o num mercado editorial, nem tampouco s— pela comunica�‹o poŽtica do
que representaram: constitu’ram, deveras, um conjunto pr—prio de a�›es espec’fico
a um determinado momento cultural e hist—rico no qual se desenvolveu o processo
de publica�‹o que ganhou viabilidade mediante os Fatores Estruturais, o Regime
Estruturante e as Pr‡ticas
Constituintes.
Havia
um ordenamento nos acontecimentos e no exerc’cio das diversas atividades dos
poetas-editores-impressores as quais j‡ dispunham, naquela conjuntura, de
condi�›es hist—ricas favor‡veis que, aliadas aos fatores constituintes e aos
procedimentos estruturantes, compuseram os momentos fundadores da editora�‹o de
folheto. Tal ordenamento era desencadeado mediante formas diretas ou indiretas
que legitimaram a hierarquia dos propriet‡rios das casas editoriais, dando-lhes
(ˆs vezes mais, ˆs vezes menos) visibilidade no campo da editora�‹o. A
possibilidade de se estabelecer como editor estava diretamente relacionada ˆ
potencialidade resultante da combina�‹o dos fatores estruturais que interferiam
no desempenho produtivo na carreira desses poetas na nova atribui�‹o de
editores-impressores. Os Fatores Processuais, Fatores Substantivos e Fatores
Log’sticos estabeleceram uma sŽrie de eixos de interfer�ncias na publica�‹o
do folheto, uma espŽcie de influ�ncia cisalhante sobre a produ�‹o, semelhantes
na dire�‹o, mas distintos na intensidade; podendo eles influenciar na posi�‹o
do editor no interior desse sistema produtivo e na din‰mica do mercado
editorial.
Figura 01 – Quadro dos Fatores Estruturais
Fonte:
Sousa (2016).
AlŽm
da compreens‹o da interfer�ncia desses fatores estruturais, que serviram como
uma espŽcie de padr›es de funcionamento para o desempenho da atividade do
editor, Ž preciso tambŽm que se entenda o modo como eles atuavam no lado,
digamos, interno das atividades produtivas que compunham o Regime Estruturante.
A prensa e os tipos de ferro tornaram-se, de
modo especial no in’cio do sŽculo XX, os meios imprescind’veis pelos quais
poderiam ser impressas as narrativas poŽticas que se encontravam vivas e
dispersas no imagin‡rio dos poetas populares nordestinos. A certeza da fixa�‹o
dos versos em seu suporte impresso atraiu sobremaneira os poetas populares que
desejavam ver os seus poemas circulando atravŽs de um novo modo de express‹o:
tang’vel, comercializ‡vel, impresso, circulante e manent. ƒ preciso, pois, que essa faculdade seja entendida na
perspectiva em que pr‡ticas e legitimidades conservavam uma for�a estruturante.
A possibilidade do �xito na carreira do editor, alŽm
dos fatores estruturais, estava relacionada, a um regime estruturante que nasce
n‹o de uma veleidade, mas de uma exig�ncia real, do exterior, do profissional e
que se constitu’ram em tr�s conjuntos: Procedimento
Produtivo, Procedimento Competentivo
e Procedimento Identificador.
Para
se obter uma melhor clareza das a�›es do poeta-editor, presentes no primeiro
procedimento, Ž importante a compreens‹o de que o surgimento das tipografias
inegavelmente ampliou as formas de publica�‹o, mas que, por outro lado, passou
a exigir do poeta-editor, alŽm da posse de recursos necess‡rios para a
aquisi�‹o dos recursos gr‡ficos e do dom’nio das pr‡ticas editoriais ao
funcionamento, a capacidade de se articular bem nesse mercado, objetivando
projetar cada vez mais o seu produto comercial, tornando-o presente em toda a
malha de distribui�‹o do folhetos nas ag�ncias espalhadas por todo o
norte-nordeste.
No segundo procedimento, observamos o movimento do poeta-editor no
esfor�o de estabelecer-se no mercado editorial, esfor�o que ao exigir dele
compet�ncia tambŽm delineava o seu perfil, podendo atribuir-lhe uma posi�‹o de
destaque. Enquanto
as vendas dos folhetos se realizavam nos sal›es, nas feiras e nas diversas
ag�ncias espalhadas pelo Brasil, havia um esfor�o por parte dos propriet‡rios
das casas editoriais no sentido de um melhor posicionamento e de uma
compet�ncia para permanecer em destaque nesse mercado editorial. Foram tomadas
de posi�›es que gradativamente hierarquizaram a disposi�‹o dos editores nesse
espa�o art’stico e comercial.
ƒ importante notar que, nesse per’odo em que o
sistema editorial do folheto vai se estabelecendo, o espa�o de possibilidades
n‹o era amplamente aberto a uma multiplicidade participativa dos indiv’duos, tal
como o fora no per’odo prŽ-editorial, em que havia possibilidades mais ou menos
iguais e em que o acesso era, de certo modo, praticamente livre, no sentido de
que, por exemplo, entre os cantadores e os poetas de bancada o ingresso e a
perman�ncia profissional n‹o se caracterizava por uma demandas de compet�ncia
estruturante t‹o objetivas e pontuais como essas que acabaram por surgir entre
os poetas-editores.
Ap—s a institui�‹o do referido sistema,
o exerc’cio profissional do poeta, enquanto editor, se reveste de uma
exigibilidade n‹o cogitada no mundo da oralidade, mas que agora se imp›e como
decisiva entre os sujeitos dessa nova ordem produtiva, isto Ž, passa a ocorrer
entre os poetas-editores uma busca pela redefini�‹o dos limites de compet�ncia
e de qualidade de produ�‹o. Compet�ncia que se desloca da esfera
estŽtica-liter‡ria para a esfera das estruturas e dos procedimentos pr‡ticos
pelos quais o poeta viria a se tornar (ou n‹o) um empreendedor capaz de atender
ˆs demandas de um mercado editorial em ascens‹o. Na condi�‹o de sujeito
editorial, o poeta, conforme o pr—prio perfil de atua�‹o, conquista seu lugar
na propor�‹o da sua compet�ncia que se manifesta no interior desse universo em
que a complexidade do dinamismo editorial vai se configurando como um sistema capaz,
produtivo e atraente.
Nesse espa�o, manifestam-se mais
claramente as rela�›es entre os editores que se hierarquizam segundo uma
distribui�‹o gradual no ranking editorial. Trata-se de um quadro de
coloca�›es que n‹o deve ser entendido como resultado de um œnico coeficiente,
ao contr‡rio isso Ž o efeito de um conjunto de fatores que possibilitou
visualizar a disposi�‹o relacional entre os editores. Assim eles s‹o
representados por suas posi�›es segundo o volume total de suas participa�›es
nesse mercado editorial, o que, por sua vez, decorre diretamente das for�as dos
fatores estruturais e do modo como o
editor reage ˆs demandas o que pode ser avaliado a partir da efic‡cia dos
procedimentos estruturantes. Embora n‹o se trate aqui de critŽrios t‹o
rigorosos, eles permitem a percep�‹o mais pertinente para que se possa entender
o lugar ocupado por determinado editor entre os seus pares na hierarquia que os
ordena.
ƒ um mercado atravessado por tens›es objetivas
que configuram as posi�›es dos protagonistas editoriais, servindo assim como
indicador das habilidades nas rela�›es de influ�ncias e de produ�‹o. Essa
configura�‹o revela o prest’gio da casa editorial que se reflete na din‰mica
particular das rela�›es de produ�‹o e venda. Nesse territ—rio, define-se o
sentido das estratŽgias contidas no processo produtivo, ou seja, nele s‹o dadas
as condi�›es que tornam l—gicas as a�›es que visam defender e melhorar a
produ�‹o do editor. Isso equivale a dizer que antes mesmo que o folheto se
torne objeto de circula�‹o liter‡ria e/ou comercial um universo de rela�›es,
tens›es, articula�›es e tomadas de posi�›es entre os editores caracterizam o
processo produtivo e o definem com suas marcas pr—prias e, justamente, em
decorr�ncia disso, o folheto surge como um suporte indicador da efici�ncia editorial.
Pelas caracter’sticas estruturais desse sistema, pode-se afirmar que o grau de maestria
entre os editores foi algo percebido em determinados momentos de tens‹o nesse espa�o
e que pode ser entendido como componente de sua g�nese.
Esbo�a-se assim um novo rosto do poeta popular
que ao tornar-se editor vai lidar com a realidade da qualifica�‹o de um produto
material. Logo, est‡ na base dessa din‰mica de publica�‹o a tens‹o original das
rela�›es de destreza pela qual o poeta-editor passa a perceber uma demanda que extrapola
a qualidade liter‡ria: a compet�ncia produtiva. Nova realidade que nasce com o
surgimento do suporte impresso, elemento causal desse novo rosto do poeta
– o rosto do editor competente, rosto que se espelha no produto de seu
produto: o folheto. ƒ a din‰mica do pr—prio sistema editorial – edi�‹o → impress‹o → distribui�‹o → comercializa�‹o – que levou o editor a interpretar as
significa�›es pr‡ticas da produ�‹o como uma atividade competente que precisa
ser dotada de uma compet�ncia para alŽm do aspecto estŽtico; conduzindo, desse
modo, o editor a captar a perspectiva de exig�ncia na medida em que s— ele pode
capt‡-la; na especificidade do exerc’cio do seu pr—prio trabalho: na sua fun�‹o
de editor.
No decorrer da dŽcada de 1920, a editora�‹o do folheto
come�a a construir as suas bases mais consistentes. Nesse per’odo, tra�os
internos e externos delineiam a face desse sistema. S‹o transforma�›es
estruturais que dizem respeito n‹o s— ao formato editorial do folheto (fatores
internos) como ao seu modo de produ�‹o e comercializa�‹o (fatores externos).
V�-se, por a’, a exist�ncia de condi�›es materiais e culturais favor‡veis
impulsionadoras da carreira profissional do editor no sentido de que ela viesse
atingir gradativamente um grau de profissionaliza�‹o atŽ ent‹o nunca visto, uma
vez que, antes desse per’odo, o pr—prio autor se encarregava, por exemplo, das
responsabilidades individuais de viabilizar a impress‹o e a venda dos seus
pr—prios folhetos, realidade que se modifica gradativamente com o
estabelecimento das casas editoriais e da rede de agentes distribuidores. Pode-se
afirmar, portanto, que o folheto, no final da referida dŽcada, j‡ reunia as
condi�›es estruturais e o grau suficiente de profissionaliza�‹o para dar
sustenta�‹o a um universo liter‡rio configurado por um sistema de produ�‹o
aut™nomo embasado em editores, autores, ilustradores, estrutura de publica�‹o,
rede de difus‹o e mercado pr—prios.
O terceiro procedimento
j‡ nos permite entender a hierarquia na qual se distribui os diversos sujeitos
implicados nesse espa�o poŽtico popular. Dois modos de legitima�‹o se definiam:
o da oralidade, das fun�›es de cantador e o do impresso, das fun�›es do poeta
de bancada, do poeta-editor, etc. O reconhecimento do cantador, como exerc’cio
profissional, inicia-se na aceita�‹o popular e legitima-se, entre seus pares
consagrados, no emparceiramento d�itico em momentos de cantoria. N‹o se trata
mais de uma simples parceria para mais um momento de apresenta�‹o, de
espet‡culo e de legitima�‹o do sujeito; nele se exercita a observa�‹o
criteriosa, se analisa performances, perfis s‹o avaliados, se faz distin�›es,
se definem qualidades, se apontam n’veis, se explicitam categorias, edifica-se
um c‰non, constitui-se, assim, um procedimento
identificador. Tal procedimento Ž uma tradi�‹o entre os cantadores e cada
um reconhece os seus processos de canoniza�‹o na arte, perante seus
companheiros e/ou mestres e tambŽm legitimadores. O uso que os poetas fazem dos
nomes dos mestres/autoridades que os precederam e que s‹o consideradas por eles
elementos representativos da poesia popular Ž um reconhecimento que Ž tambŽm
busca de legitimidade e constru�‹o de prest’gio.
Diferentemente do aspecto perform‡tico do
processo de legitima�‹o na oralidade, para o poeta de bancada, tudo se inicia a
partir da publica�‹o do primeiro folheto, segue-se depois na avalia�‹o mediante
a sua recep�‹o no mercado, seguindo pelos indicadores de novas tiragens e
reedi�›es t’tulos e, por fim, na opini‹o dos seus pares e do pœblico consumidor
que, em œltima inst‰ncia, consagra o autor e consolida as obras cl‡ssicas.
Primeiro, o poeta escreve e publica os seus folhetos. E essa nova posi�‹o se
fortalecer‡ se vier coroada de reedi�›es. Para o poeta de bancada, a escrita do
folheto correspondia aproximadamente ao seu rito de passagem, Ž pela publica�‹o
que o poeta inicia o seu processo de canoniza�‹o no universo da poesia escrita.
Evidentemente que n‹o se pode pensar na exist�ncia de uma classifica�‹o r’gida nesse
processo se o nosso paradigma for estranho ao pr—prio processo, todavia se
percebe com clareza e objetividade as posi�›es hierarquicamente ocupadas.
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Esse procedimento nos
mostra os sujeitos compondo duas esferas, de posi�‹o e de disposi�‹o, em uma
din‰mica de a�‹o e correla�‹o cont’nuas e mut‡veis. A esfera da posi�‹o se caracteriza por ser designativa, ao nomear as
fun�›es dos sujeitos, tais como a do cantador, do poeta de bancada, do
poeta-editor, do ilustrador, etc.; Ž intersubjetiva, no modo das rela�›es por
ser entre os sujeitos da mesma esfera: Autor ↕ Editor ↕ Ilustrador; Ž adjetival, ao delinear aspectos qualitativos,
poeta-maior, poeta-menor, editor-maior, editor-menor, etc. e, em decorr�ncia
disso Ž vertical, pois estabelece uma hierarquia.
Figura 02 – Esfera da Posi�‹o
Fonte:
Arquivo pessoal (2020).
Na esfera da disposi�‹o, as rela�›es se caracterizam por serem
extra subjetivas entre sujeitos de esferas distintas: Autor 1 ↔ Autor 2, Editor 1 ↔ Editor 2, Ilustrador 1 ↔ Ilustrador 2; mensurativa, por levar em considera�‹o a
quantidade das produ�›es, a exemplo do nœmero de tiragens, as reedi�›es, as
aquisi�›es de t’tulos, etc.; horizontal, pois o aspecto produtivo n‹o se
vincula necessariamente ao aspecto adjetival.
Figura 03 – Esfera da Disposi�‹o
Fonte:
Arquivo pessoal (2020).
A esfera da posi�‹o possibilita a clareza da diferencia�‹o das
fun�›es que se tornam afetadas n‹o pela simples distin�‹o de si mesmas, mas em
decorr�ncia do atributo adjetival que posiciona o sujeito no interior da sua
esfera o que vai influenciar nas rela�›es, posto que quanto mais favor‡vel for
a sua posi�‹o melhor ser‡ a rela�‹o de compet�ncia diante dos seus pares. O
destaque do sujeito no interior da esfera de posi�‹o, isto Ž, o reconhecimento
de uma condi�‹o qualitativamente mais positiva n‹o s— define o seu destaque
entre os pares como lhe favorece profissionalmente, possibilitando-lhe mais
visibilidade. Em consequ�ncia disso, ocorrem, nessa esfera, embates entre os
pares que est‹o ligados a diversos conflitos, tais como, conflitos de
compet�ncia, conflitos de legitimidade do exerc’cio da fun�‹o, etc., o que Ž
pr—prio das rela�›es de ajuste de posi�‹o nessa esfera. As posi�›es geram os
seus pr—prios pretextos que legitimam os conflitos de compet�ncia na din‰mica
das posi�›es.
Por outro lado, a esfera da disposi�‹o porta tens›es em
estado de exig�ncias objetivas, de conflitos de compet�ncia decorrentes da
condi�‹o do sujeito na esfera da posi�‹o.
Tendo a compet�ncia como fim œltimo a distin�‹o. Entre os editores, por
exemplo, Ž sinal de distin�‹o, entre outros fatores, a aquisi�‹o de novas
m‡quinas de impress‹o, o aumento das tiragens, o aperfei�oamento da qualidade
editorial das publica�›es, ou ainda, o aumento do nœmero de funcion‡rios. Esses
ganhos representam para o editor, alŽm da prosperidade material, destaque e
legitimidade entre seus pares.
Nesse
sentido, as tiragens, o potencial gr‡fico, o nœmero de bons t’tulos e o fluxo
de autores em evid�ncia, circulando na casa editorial, expressam o potencial
econ™mico, o raio de a�‹o e de interfer�ncia do
editor entre os demais sujeitos vinculados ao mecanismo de publica�‹o e
circula�‹o do folheto. Portanto se estabelece a’ uma postura fundamental de
mercado que Ž a de influ�ncia e, consequentemente, de produtividade que se
expressa no prest’gio da casa editorial e que se reflete numa postura orientada
a dinamizar o seu locus produtivo, o
que remete ˆ necessidade de requisitos que propiciem ao editor melhores
condi�›es de compet�ncia no mercado.
ƒ,
portanto, na esfera da disposi�‹o que
se engendram tens›es de ordem quantitativa, voltados ˆ produ�‹o, a exemplo de
conflitos de legalidade de autoria, conflitos de direito de publica�‹o,
formatos editoriais, formalidades e legalidades contratuais, etc., conforme
atestam os tipos de Declara�‹o, a exemplo da Declara�‹o Imediata, Declara�‹o
Mediata-Representada, Declara�‹o
Mediata-Intermediada e Declara�‹o
Mediata-Adquirida.[28] Nessa esfera se
estabelece uma din‰mica de rela�›es na qual o poeta-editor desempenha um papel
decisivo.
Figura
04 – Gr‡fico da fun�‹o poeta-editor
Fonte: Sousa (2009).
Trata-se
aqui, portanto, de uma circunst‰ncia de defini�‹o nesse espa�o cultural, um
momento em que se busca a categoriza�‹o do modo como o sujeito participa, entre
seus pares, de um processo de identifica�‹o. ƒ um procedimento categorial como
forma de classifica�‹o e representa�‹o do sujeito que passa a exercer uma
lideran�a legitimada.
Todavia
n‹o se pode perder de vista que a classe dos poetas-editores de folhetos se
constituiu numa categoria social e culturalmente distinta dos demais
empreendedores do ramo gr‡fico, antes de tudo por ser essencialmente formada
por produtores culturais, isto Ž, por produzirem cultura liter‡ria. O
poeta-editor produz a cultura na medida em que torna publica uma estŽtica
liter‡ria e, ao mesmo tempo, edifica a legitimidade de sua fun�‹o que n‹o se reduz ao trabalho de publica�‹o,
mas que tambŽm n‹o pode ser compreendida sem ele. A atividade do poeta-editor Ž
uma fundamentalmente uma din‰mica relacional entre ele e o autor, seguida de um
complexo de rela�›es tambŽm com os demais sujeitos part’cipes do processo
produtivo no qual o poeta-editor intermedia, orienta, regula, comunica, enfim,
gesta a rela�‹o de produ�‹o do folheto que se engendra nas rela�›es humanas de
produ�‹o entre os diversos sujeitos envolvidos nesse processo. Esse mecanismo
de produ�‹o e circula�‹o Ž o que comp›e a for�a do Regime Estruturante.
Nas Pr‡ticas
Constituintes, deparamo-nos com a�›es do poeta-editor que contribu’ram para
refor�ar a sua pr—pria fun�‹o. A legitimidade da fun�‹o do editor caracterizava
a demanda, no per’odo hist—rico de sua estabilidade, para alŽm das publica�›es
dos folhetos. Essa demanda certamente permitiu ao editor decidir regras, o
alinhamento das suas publica�›es e os recursos que melhor a elas se adaptariam.
As condi�›es culturais pr—prias do tempo, a vida do campo, as feiras das
cidades, as rotas da oralidade poŽtica, tantas narrativas que entrecruzaram
poeticamente e tantos autores que se conheceram e se ignoraram em uma din‰mica
global que n‹o dominavam – cujo todo n‹o perceberam e cuja amplitude lhes
escapava; todos esses sujeitos e articula�›es n‹o fundaram apenas um modo de
difus‹o poŽtica, produziram, sim, uma ruptura no exerc’cio tradicional,
estabelecendo um marco entre o tradicional e o novo no universo da produ�‹o
poŽtica popular, compondo, desse modo, o conjunto das intermedia�›es do
poeta-editor, isto Ž, as Pr‡ticas Constituintes.
A
Ordena�‹o Funcional
ƒ preciso ent‹o que se
entenda agora que o Sistema de Publica�‹o
do Folheto apresenta uma dupla-face. Numa delas est‹o os Elementos Instauradores que s‹o os Fatores Estruturais, o Regime Estruturante e as Pr‡ticas Constituintes, acima
apresentados, e, na outra face a Ordena�‹o
Funcional composta da Comunica�‹o
Aplicada, da Media�‹o Produtiva e
da Solidariedade Vinculante.
A
casa editorial especializada na publica�‹o e/ou comercializa�‹o do folheto,
deve ser, antes de tudo, concebida como uma ambitude da circula�‹o do poŽtico,
do cultural e do trabalho de publica�‹o que articulava no seu interior os
mecanismos de reprodu�‹o material e simb—lica do folheto; envolvendo, assim,
aspectos editoriais, comerciais, liter‡rios, culturais. Nesse sentido, era uma
realidade caracterizada por uma realidade complementar portadora de
expectativas apoiadas em duas esferas que se complementam: a) o lugar da produ�‹o
e b) lugar da cultura popular. O primeiro Ž o lugar das propriedades que
constituem o cen‡rio das rela�›es de produ�‹o e o segundo, o lugar da cultura
popular, o lugar do pœblico consumidor do folheto, bojo inspiracional donde as
tradi�›es culturais entrela�adas de vozes e de textos emanam para o lugar do
poeta e dele para o lugar da produ�‹o; integra�›es horizontais entre o lugar da
produ�‹o e o lugar da cultura; abrindo-se, desse modo, dutos culturalmente
comunicantes entre o interior da casa editorial e esse mundo do povo; linhas de
circula�‹o entre o mundo da casa e o mundo l‡ fora; conjuga�›es entre a
tipografia que imprime versos, dando conta de estetizar o mundo do homem, e o
mundo do povo das feiras, dos mercados populares e das pra�as, exatamente o
lugar onde o liter‡rio popular tem, ao mesmo tempo, seu ponto de partida e de
chegada de modo mais efervescente, real e humano.
Figura 05 – L.P: Lugar de Produ�‹o
C.A:
Comunica�‹o Aplicada
L.C: Lugar da Cultura Popular
Fonte: Arquivo pessoal (2020).
O espa�o
editorial deve ser entendido como um componente indispens‡vel ˆ din‰mica
produtiva do folheto; uma esfera de di‡logos, acordos e intera�›es; um solo
situado segundo uma topografia m—vel entre a casa editorial e o mundo da
cultura popular, real, vivido l‡ fora; um tecido onde se encontram dois caminhos
complementares e voltados a um mesmo fim que diz respeito ao interesse comum
das partes envolvidas; um territ—rio de publica�‹o onde se oportuniza de uma
maneira ou outra, a chance de se projetar autores e obras populares; o lugar da
possibilidade de produ�‹o comercial que n‹o se permite ocupar inteiramente por
uma mentalidade mercantilista; um campo onde se partilha um sentimento de
pertencimento comum; a condi�‹o essencial de consenso que facultar‡ a
experi�ncia de um tipo particular de rela�‹o humana num contexto de produ�‹o: a
Intera�‹o Consensual.
ƒ a Intera�‹o Consensual uma capacidade
pr‡tica que os sujeitos poŽticos e/ou produtivos t�m de se relacionarem inter e
entre grupos, visando racionalmente objetivos que podem ser interpretados a
partir dos procedimentos por eles mesmos adotados. Entendendo-se que o papel
exercido por essa racionalidade se torna eficaz na medida em que n‹o se
identifica com uma unilateralidade produtiva, voltada apenas aos meios de
obten�‹o de fins imediatos, mas, ao contr‡rio, tambŽm tem como finalidade
integrar os sujeitos produtivos entre si e com o pr—prio trabalho o que
significa tambŽm um maior disp�ndio de esfor�os no sentido de uma busca
cooperativa de consensos. Ent‹o as rela�›es de intera�‹o atuam como um
princ’pio ativo, condutor e renovador do mecanismo de participa�‹o e
comunica�‹o, uma vez que a din‰mica das demandas produtivas sempre revela o
car‡ter provis—rio dos referidos mecanismos. ƒ nessa din‰mica que se d‡ o
processo circular entre o lugar da cultura popular e o lugar da produ�‹o como
evento de reprodu�‹o simb—lica perpassada pela Comunica�‹o Aplicada.
As
rela�›es de intera�‹o se apoiam na poderosa media�‹o da Comunica�‹o Aplicada que se inscreve de maneira sutil em todas as
pr‡ticas e processos da produ�‹o, tornando-se assim respons‡vel pela constru�‹o
de decis›es segundo as demandas circunstanciais; pelo di‡logo capaz de
coordenar entendimentos racionais e produtivos entre as partes envolvidas nesse
processo. Torna-se, ent‹o, a Comunica�‹o
Aplicada um ve’culo para a partilha dos conhecimentos estŽticos e
editoriais e para a troca de argumentos que, livre das amarras e dos
constrangimentos de uma rela�‹o humana de produ�‹o demasiada vertical, permite
um enriquecimento de pontos de vista e um alargamento de perspectivas que
delineia o espa�o da publica�‹o como um campo de possibilidades dial—gicas
produtivas, posto que se torna um espa�o fŽrtil para a constru�‹o da opini‹o e
da vontade dos sujeitos envolvidos no processo produtivo, onde eles sejam
capazes de assumir suas posi�›es diante do que considera razo‡vel inserido na
realidade de um contexto de discuss‹o dial—gica e de produ�‹o de sentido de
modo partilhado.
Desempenhando, assim, a Comunica�‹o Aplicada um papel importante na busca de entendimento
nas rela�›es intersubjetivas ao conquistar, por entre a multiplicidade e por
entre determinadas imprecis›es da linguagem cotidiana, o consenso pr‡tico
necess‡rio, e isto sem deixar de lidar com a realidade do dissenso, comum ˆ
natureza das rela�›es de intera�‹o num contexto de produ�‹o onde os envolvidos
s‹o sujeitos participantes e livres, o que n‹o elide a obten�‹o de consensos,
ao contr‡rio, os que agem comunicativamente nesse espa�o o fazem com esse fim.
O mundo das
rela�›es humanas de produ�‹o do folheto n‹o se alimentava apenas das rela�›es
de Intera�‹o Consensual, decorrentes
dos consensos alcan�ados sob os pressupostos da Comunica�‹o Aplicada, mas tambŽm da concilia�‹o entre as demandas
internas da casa editorial e as do mercado consumidor, as quais influenciavam
decisivamente no modo como o poeta-editor iria atuar. E, uma vez que essas
demandas exigiam um ajuste para um melhor funcionamento interno da casa, a
fun�‹o de media�‹o surgia, ent‹o, como ponto de equil’brio entre essas
vari‡veis. N‹o caracterizava a media�‹o na intera�‹o a rigidez e as formas
premeditadas, ao contr‡rio disso, operava na flexibiliza�‹o e na real
possibilidade de mudan�a no exerc’cio da media�‹o, sem diminuir-lhe a efic‡cia;
modificando-se n‹o s— no plano da a�‹o entre o poeta-editor e cada autor em
particular, como tambŽm entre ele e os demais sujeitos part’cipes, da’ resulta
a Media�‹o Produtiva.
O sujeito condutor das rela�›es de media�‹o, no
caso o poeta-editor, Ž denominado mediador, posto que Ž ele o protagonista do
di‡logo entre as partes – editor ↔ autor / editor ↔
ilustrador / editor ↔ distribuidor – mediante a resolu�‹o de
demandas voltadas ˆ ordem da publica�‹o, isto Ž, direitos de publica�‹o e
regras do mercado, buscando encontrar uma solu�‹o para as quest›es de modo que
satisfa�a os interesses de ambas as partes. Sua influ�ncia resulta de sua
autoridade que Ž garantida pelos pr—prios envolvidos, e da confian�a que lhe Ž
atribu’da e da habilidade que ele tem para intervir nesse tipo espec’fico de
negocia�‹o.
Esse tipo de
media�‹o se inscreve na hist—ria da editora�‹o do folheto cordel, a partir das
primeiras gera�›es de poetas-editores[29], contribuindo para que esse sistema de publica�‹o se tornasse cada vez
mais criativo e aut™nomo[30]. E surge como resultado do trabalho constante de negocia�‹o entre os
sujeitos diretamente envolvidos no processo de publica�‹o, embasado na
autonomia dos participantes, visando, sobretudo atender ˆs necessidades produtivas que
exigem sempre serem repensadas em suas poss’veis solu�›es o que per se
sup›e um pensar na a�‹o de media�‹o cujos ingredientes se estende a todo o
desenrolar progressivo do agir mediador.
Opera, assim, numa
din‰mica do pensar e do agir mediativo que quer ser um elo entre os aspectos
liter‡rios, editoriais e de mercado os quais podem variar no seu grau de
viabilidade, mas que precisam ser conciliados tendo em vista o seu fim œltimo. ƒ
a Media�‹o Produtiva um meio de
constru�‹o de poss’veis solu�›es, um instrumento privilegiado para a cocria�‹o
de significados, entre interlocutores, viabilizada concretamente pela Comunica�‹o Aplicada, visando atingir
solu�›es produtivas no sistema de publica�‹o e, justamente por isso, deve ser
sempre um meio de resolu�‹o de conflitos e demandas no qual o mediador
necessariamente deve ser um sujeito que desfrute de uma certa ascend�ncia sobre
os demais, sendo isso substancialmente decorrente da posi�‹o que ocupa diante
das partes.
ƒ pela media�‹o que deve
passar a efici�ncia comunicativa capaz de reunir satisfatoriamente pouco a
pouco as aspira�›es das partes envolvidas; passagem que, observando atentamente
as multiplicidades de demandas, precisa criar condi�›es capazes de conjugar
elementos oriundos de uma ordem interior de produ�‹o ˆs necessidades reais de
um mercado; articula�‹o que, ao mesmo tempo, precisa corresponder a uma ordem
exterior que se imp›e e a uma ordem interior que deve gerar meios para uma
participa�‹o interativa.
No
desempenho da Media�‹o Produtiva, a Intera�‹o Consensual Ž um princ’pio condutor porque Ž espŽcie de energia
para o processo e, assim sendo, o Ž em dois sentidos: conflu�ncia
e irradia�‹o.
Figura 06 – Gr‡fico da Intera�‹o na Media�‹o
Fonte:
Arquivo pessoal (2020).
No primeiro sentido, a Intera�‹o
Consensual Ž conflu�ncia na Media�‹o
Produtiva por ser sinal de unidade para as partes envolvidas, uma vez que, por
ela s‹o perpassadas, no segundo sentido ela Ž irradia�‹o para as mesmas partes
dos diversos campos produtivos em decorr�ncia da sua perspectiva aplic‡vel que
age como concretiza�‹o e aperfei�oamento das demandas portadas por ambas as partes
em quest‹o. A Intera�‹o Consensual converge para o interior da Media�‹o Produtiva o acordo e impulsiona
para fora a decis‹o tomada em forma de produ�‹o e expans‹o consensual e
pragm‡tica.
O trabalho do mediador
n‹o se reduz ˆ resolu�‹o de conflitos, frequentemente ele age, pautado em sua
experi�ncia, de forma preventiva sugerindo procedimentos que evitem ocasion‡-los,
sendo assim, para determinadas circunst‰ncias, ele se empenha mais na regula�‹o
de rela�›es que na solu�‹o de conflitos. E por ser um processo aberto se nutre
constantemente do aperfei�oamento apoiado na Žtica da Comunica�‹o Aplicada, na autonomia e na responsabilidade dos
participantes, bem como na autoridade do poeta-editor a qual foi reconhecida
pelos mediados num contexto de rela�›es de Intera�‹o
Consensual cuja legitimidade foi constitu’da em situa�›es inerente ao espa�o
de produ�‹o.
Nesse espa�o, os indiv’duos t�m seu cotidiano
imerso numa realidade de rela�›es humanas de produ�‹o, as quais se desenvolvem por
meio do di‡logo direto e presencial e, justamente, por isso a casa editorial se
torna um ambiente apto para o desenvolvimento de uma forma de comunica�‹o que
busca o entendimento voltado a um objetivo pragm‡tico. Isso contribui para que
as rela�›es humanas sejam marcadas pelo espontane’smo e favore�a a presen�a de
uma solidariedade vinculada, vivenciada nesses espa�o pelos v‡rios
profissionais e artistas que, segundo as suas pr—prias fun�›es, estabeleciam
uma determinada natureza de contato com o poeta-editor[31] e que s— pode ser
entendida a partir de uma intersubjetividade, na qual os sujeitos mediados pela
Comunica�‹o Aplicada se entendem
sobre os procedimentos produtivos que comp›e esse universo de publica�‹o.
Considera�›es finais
O sistema de publica�‹o do folheto se erigiu
como uma for�a de resist�ncia, diante do sistema liter‡rio hegem™nico que se autonomeou
de culto e fez-se distinto do popular. Assim sendo, o primeiro estabeleceu-se
como um territ—rio de afirma�‹o, de participa�‹o de direitos e de expans‹o de
uma estŽtica liter‡ria. E isto s— foi poss’vel por ter viabilizado, em seu
interior, rela�›es que vincularam reais movimentos de autossustenta�‹o,[32] ao ter constitu’do seu
pr—prio pœblico consumidor, suas linhas e formatos editoriais, sua forma de
comercializa�‹o do folheto, bem como a malha de representantes comerciais.
Enfim, gerou um ordenamento espec’fico de funcionamento que, alŽm de demarcar a
sua autonomia, propiciou o nascimento do editor popular e legitimou a
influ�ncia do poeta-editor no processo de publica�‹o.
A causa
dessa legitimidade se entende a partir do esfor�o por se penetrar nesse espa�o
de sentido relacional que Ž antes de converg�ncia que de produ�‹o. Tentamos
aqui descobrir ou desvelar a din‰mica dessa raz‹o convergente que n‹o se deixa
definir, captar, apreender, sen‹o nas rela�›es rec’procas entre os sujeitos
produtivos, o que s— se torna poss’vel ao percebermos que o modo de rela�›es de
intera�‹o e os caminhos da media�‹o est‹o ligadas pelo contexto produtivo, pela
refer�ncia a um mesmo ‰mbito de sentido condensado em bem-sucedida experi�ncia
comunicativa e que a cont’nua rela�‹o entre esses aspectos engendram um sujeito
de a�‹o autorizada que pressup›e um espa�o e tempo necess‡rios ˆ sua forma�‹o. Portanto,
todo o conjunto de a�›es e intermedia�›es do poeta-editor devem ser entendidas
como uma postura de resist�ncia que explica a autonomia do sistema editorial,
posto que inaugura uma nova ordem de produ�‹o, capaz de gerar, desenvolver e
arquivar seus saberes tŽcnicos no transcurso da sua pr—pria hist—ria.
Refer�ncias
SOUSA,
Maur’lio Antonio Dias de. A Estrella da
Poesia: impress›es de uma trajet—ria. 2009. 292f. Disserta�‹o (Mestrado em
Letras). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009.
SOUSA,
Maur’lio Antonio Dias de. O cordel no
prelo: trajet—rias e impress›es. In: MENDES, Simone; (Org.). Cordel
nas Gerais: oralidade, m’dia e produ�‹o de sentido. Fortaleza: Gr‡fica
Express‹o, 2010a, p. 161-179.
SOUSA,
Maur’lio Antonio Dias de. A emerg�ncia
de um sistema dualista: tr‰nsitos e autonomias. Estudos de Literatura
Brasileira Contempor‰nea. Bras’lia, n. 35, jan./jun. p. 31-39. 2010b.
SOUSA,
Maur’lio Antonio Dias de. Funda�›es e
itiner‰ncias da poesia nordestina. Jo‹o Pessoa: Editora Universit‡ria/UFPB,
2012.
SOUSA,
Maur’lio Antonio Dias de. Tipografias de
Cordel: o nascimento do editor. Paulo Afonso: Editora Fonte Viva, 2016.
SOUSA,
Maur’lio Antonio Dias de. A hist—ria de
uma Estrella: a estrela do cordel em Campina Grande. 2 ed. Salvador:
Fastdesign, 2018.
[Recebido: 7
ago 2020]
VOZES DE MULHERES NO
TERRITîRIO DO CORDEL E DA CANTORIA
WOMENÕS VOICES IN THE
TERRITORY OF CORDEL AND CANTORIA
Ria Lemaire[33]
Resumo: Os
debates p—s-moderno e decolonial sobre as rela�›es entre as civiliza�›es da
oralidade e o mundo da escrita est‹o trazendo, embora tardiamente, uma
epistemologia radicalmente cr’tica para o campo dos estudos da tradi�‹o
nordestina da cantoria e do cordel. O novo paradigma — tanto hist—rico
quanto contempor‰neo — permite colocar a quest‹o do papel e lugar das
mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos. Ao focar um subg�nero
dessa poesia originalmente improvisada, o repente misto, em que uma cantadora
desafia um cantador, e, nesse subg�nero, a presen�a e fun�‹o da viol�ncia
masculina e feminina, esse artigo prop›e uma reflex‹o cr’tica sobre temas
centrais dos debates atuais sobre cordel, g�nero, mulher e viol�ncia.
Palavras-chave: Cordel. Cantoria. G�nero. Territ—rio.
Viol�ncia masculina. Viol�ncia feminina.
Abstract: Post-modern
critics of scriptocentrism and nowadays decolonial criticism are bringing
– slowly and progressively -
the new paradigm of the orality-literacy-debate to the field of repente, the Northeastern tradition of improvised
poetry, in its oral (cantoria) as well as in its impressed (cordel) form. The new paradigma –
historical as well as contemporary –
enables us to discuss the question of womenÕs role and place in these
traditionally masculine territories,
featuring a sub-genre of
this poetry, - repente misto – in which a female singer challenges
a male singer. By focalizing the presence and function of male and female
violence in this sub-genre, this article proposes a critical reflexion on
central themes in actual debates on gender, women and violence.
Keywords: cordel. Cantoria. Gender.
Territory. Gender-based violence.
Dois ramos de uma ‡rvore s—
A publica�‹o de O Livro Delas: cat‡logo de mulheres autoras no cordel e na cantoria
nordestina (SANTOS, 2021) constitui n‹o s— um marco mili‡rio nos estudos de
cordel, mas tambŽm a abertura, dentro da ‡rea, de uma nova linha de pesquisa
inovadora, fundamentada na desconstru�‹o dos pressupostos vigentes do discurso
acad�mico dominante sobre o cordel e da sua historiografia nacional. AlŽm
disso, ela permitir‡ a integra�‹o, no campo dos estudos de g�nero e literatura,
de uma ‡rea atŽ agora negligenciada: a de g�nero e estudos orais.
Comecemos por uma constata�‹o: cantoria e
cordel s‹o considerados pela maioria dos estudiosos dois campos distintos no
mundo sociocultural nordestino. A separa�‹o te—rica dos dois campos – o
da cantoria como produto de uma oralidade ancestral e o do cordel como
origin‡rio do mundo da escrita – correspondia aos interesses pol’ticos da
cultura dominante daquela elite branca e de origem portuguesa que, nos anos
sessenta e setenta do sŽculo passado, na Žpoca da Ditadura Militar,
ÒreabilitouÓ o cordel – t‹o desprezado e marginalizado atŽ l‡! –
como express‹o liter‡ria da alma nacional brasileira.
A reabilita�‹o pol’tico-liter‡ria, elaborada e
propagada, sob a Žgide do Conselho Federal da Cultura, por intelectuais e
acad�micos organizados em torno da Casa de Rui Barbosa, ia servir como suporte
ideol—gico da pol’tica cultural nacionalista da Ditadura. O que o poeta
Rouxinol do RinarŽ chamou um dia de Òdois ramos da mesma ‡rvoreÓ entrou no
processo politico-liter‡rio da nacionaliza�‹o do cordel sob a forma de duas
‡rvores plantadas em territ—rios culturais diferentes. Consagrou-se o nome
ibŽrico de cordel para o fen™meno
editorial nordestino que os pr—prios poetas chamavam de folheto/jornal do povo e esse folheto ia ser,
da’ em diante, estudado e divulgado como literatura
popular brasileira.
O mito das origens brancas e
portuguesas
Ao se separar cantoria e cordel, tornou-se
poss’vel historiografar o folheto
como descendente do cordel
escrito/impresso de origem portuguesa. Integrado nessa genealogia alheia de
textos escritos/impressos ibŽricos, o folheto tornou-se ÒnacionalÓ e express‹o
da alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira. Tornou-se Literatura, quer dizer: fic�‹o e estŽtica,
podendo a partir da’ ser estudado com os pressupostos, mŽtodos, critŽrios e
ju’zes de valor convencionais dos estudos de Letras (Autor e Obra, c‰none,
antologia etc.). E tornou-se popular no
sentido humanista, erudito do termo, dentro da dicotomia elite culta versus povo
inculto. Essa dicotomia instalou-se no discurso erudito do mundo ocidental
nos come�os dos tempos modernos, como express‹o e legitima�‹o ideol—gica da
crescente desigualdade econ™mica, social e pol’tica, sobrepondo-se ao sentido
original – geo-socio-cultural – do conceito de povo.
PorŽm, o sentido original sobreviveu atŽ hoje.
Patativa do AssarŽ, por exemplo, o definia como: Òa nossa terra, a nossa vida,
a nossa genteÓ, quer dizer: um territ—rio,
no sentido original do termo, caraterizado pela presen�a de uma ÒterraÓ (no
sentido Òportugu�s de PortugalÓ do termo), quer dizer: uma regi‹o
geograficamente delimitada, uma vida, cultura e mem—ria/tradi�‹o comuns a todos
os indiv’duos que j‡ nela nasceram no passado, nela vivem no presente e v‹o
nascer no futuro. Uma na�‹o no
sentido original do termo (ÒterraÓ onde ÒnasceÓ), cujo passado continua
vivo/vivido no presente e que lhes d‡, a esses povos, a consci�ncia
inextirp‡vel de perten�a, empatia e coes‹o social.
O conceito de alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira, por sua vez,
forneceu a base para a reinven�‹o do mito da morte iminente do folheto, mito
importado e imitado do Romantismo alem‹o (Naturpoesie
versus Kulturpoesie) do sŽculo
XIX. Chegou juntamente com o conceito de tradi�‹o, ao qual esses eruditos alem‹es do
sŽculo XIX tinham dado uma nova significa�‹o, a saber: tradi�‹o morta, arcaica,
obsoleta e parada no passado; o contr‡rio do seu sentido original e do seu
funcionamento real na comunidade nordestina.
Ao mesmo tempo, o pressuposto
da origem escrita portuguesa do folheto permitiu que a cantoria, a saber, a
comunica�‹o direta, oral, com o audit—rio nas cantorias, feiras e festas
populares no seio da pr—pria comunidade, fosse considerada (teoricamente!)
local, regional, quer dizer: inferior e relegada ao sempre desprezado campo dos
estudos de folclore. O impacto desse discurso, que alia eurocentrismo e
scriptocentrismo a nacionalismo, tem sido avassalador; ele contamina, atŽ hoje,
como uma trama inconsciente, tanto a terminologia, os pressupostos e os
posicionamentos te—ricos dos estudos de cordel — dos convencionais atŽ os
mais cr’ticos —, quanto a vis‹o que os pr—prios poetas cantadores e
cordelistas t�m da sua arte, profiss‹o e miss‹o.
Divide
et impera
A estratŽgia discursiva da invers‹o e distor�‹o
em que se baseia o discurso erudito sobre o cordel tem-se averiguado como
perversa e eficaz. Ela Ž aplicada desde sempre pelo patriarcado – na sua
vers‹o ocidental – no decorrer da sua luta milenar pela imposi�‹o do seu
poder, da sua vis‹o do mundo como superior e da sua Hist—ria como œnica e
verdadeira. Consiste em dividir o grupo s—cio-profissional dos poetas, cuja
unidade j‡ era sempre vulner‡vel por causa da rivalidade masculina. Essa
rivalidade foi, originalmente, a fonte de inspira�‹o principal do repente
masculino, com os seus vencidos e o vencedor, reconhecido e aplaudido pelo
pœblico no momento da performance. Essa divis‹o dicot™mica, ÒguerreiraÓ
no sentido original, lœdico-sŽrio (HUIZINGA, 2007) da palavra, vai ser
ressignificada tambŽm pelos eruditos para constituir a base de duas categorias
Òliter‡riasÓ, desiguais e hierarquizadas, – os bons poetas e os Òmenos
bonsÓ –, com o objetivo de destacar mais e enaltecer o grupo ÒsuperiorÓ,
tendo em vista o futuro c‰none do cordel.
Dessa maneira, a rivalidade masculina
continuamente ati�ada ia dessolidarizar, uns dos outros, os membros do mesmo
grupo profissional, abrindo-se uma brecha para impor – de fora, de longe
e de cima – uma autoridade de avalia�‹o superior e capaz de sobrepor, ˆ
avalia�‹o interna pela pr—pria comunidade, o seu ju’zo de valor erudito e
superior. A curto termo, isso permitiu aos detentores da nova teoria controlar
o campo do cordel, ao privilegiar certos g�neros (mais Òliter‡riosÓ) em detrimento
de outros g�neros (folheto de atualidade, folheto pol’tico, folheto de
ci�ncia...) e marginalizar ou excluir aqueles ÒdissidentesÓ, que n‹o
correspondiam ao modelo, alheio, liter‡rio e erudito, imposto de fora. A longo
termo, essa estratŽgia causou a distor�‹o parcial do conhecimento e da vis‹o
que tinham os pr—prios poetas sobre sua arte, miss‹o, identidade e hist—ria.
Um exemplo bem revelador dessa estratŽgia s‹o
as cartas encontradas no Acervo Raymond Cantel da Universidade de Poitiers que
revelam o surgimento, nos anos setenta do sŽculo passado, entre os eruditos da
Casa, do questionamento da ÒautenticidadeÓ daqueles poetas de cordel que n‹o
eram analfabetos. Os debatedores perguntam-se e perguntam ao ilustre professor
franc�s, com muita seriedade, se um Òn‹o-analfabetoÓ pode ser considerado poeta
de cordel e ser inclu’do, por exemplo, nas antologias de cordel, bases do
futuro c‰none. Segundo a doutrina oficial por eles elaborada, alfabetizado n‹o
podia, uma vez que os poetas de cordel eram incultos e analfabetos![34]
N‹o Ž dif’cil imaginar-se o que ia acontecer
quando os pressupostos/preconceitos mis—ginos e androc�ntricos da alta
burguesia da Žpoca da Ditadura Militar se associaram ao seu eurocentrismo, scriptocentrismo e nacionalismo j‡
comentados. N‹o se encontra nos cat‡logos, antologias e c‰none da Casa Rui Barbosa – dos mais velhos atŽ aos mais
recentes – nenhuma mulher poeta. Dentro do conjunto coeso de pressupostos
falsos do seu mito das origens foi necess‡rio e inevit‡vel n‹o s— anunciar a morte
iminente do folheto, para poder silenciar a voz viva e din‰mica do povo
nordestino, como tambŽm ignorar, e de antem‹o, a voz das suas mulheres.
Teorizada, na tradi�‹o alheia de Homo
sapiens humanista, a cultura do folheto s— podia ser exclusivamente masculina.
Vozes rebeldes: agora s‹o outros 500 anos!
ƒ a partir do ano 2000 que come�am a surgir
vozes rebeldes, tais como as da Sociedade dos Poetas Mauditos no Cariri
cearense (GRANGEIRO, 2020). Mauditos no sentido ir™nico do termo: eles
fazem propositadamente versos Òmal ditosÓ, segundo os critŽrios convencionais,
e seus integrantes n‹o s‹o analfabetos nem semi-analfabetos.
A provoca�‹o dos jovens poetas, homens e
mulheres, fundamenta-se na consci�ncia de que os pr—prios conceitos de Literatura, de alma pura e tradi�‹o morta servem
para negar toda e qualquer capacidade de evolu�‹o e inova�‹o do cordel. Essa
nega�‹o, por sua vez, servia para desvalorizar e obliterar o papel e miss‹o
cultural e hist—rica do folheto como express‹o da atualidade, realidade e
verdade da vida nordestina. Ela servia para silenciar, de antem‹o, as eventuais
vozes cr’ticas da contemporaneidade. Essas vozes vieram denunciar a mentira, a
m‡-fŽ e a euforia das elites nacionais que, naquele momento, comemoravam os 500
anos da ÒDescobertaÓ do Brasil, apresentada como primeiro cap’tulo da Hist—ria
nacional. Esse mito das origens da
elite branca do pa’s – o da chegada, em Òterras de ninguŽmÓ, da
civiliza�‹o crist‹, trazida e oferecida pelos portugueses com muitos
sacrif’cios e hero’smo aos povos ind’genas origin‡rios –, foi
desmascarado pelos poetas mauditos. Foi, na verdade, uma invas‹o ileg’tima por
uma casta branca de conquistadores-predadores, com padres-pregadores aliados;
foi o come�o da era colonial e a implanta�‹o do regime usurpador do
colonialismo no Brasil.
Essa nova consci�ncia imp›e, como os poetas
Mauditos iam mostrar em 2000 com a publica�‹o inicial de 12 folhetos em torno
do tema ÒAgora s‹o outros 500 anosÓ, uma ruptura radical com a Hist—ria
oficial, ensinada e imposta por meio do ensino formal nacional como œnica e
verdadeira. Estamos no limiar do pensamento ÒdecolonialÓ que hoje em dia, vinte
anos mais tarde, come�a a se generalizar no mundo latino-americano. Os
ÒmauditosÕ questionam e desconstroem a legitima�‹o tradicional que justificava
a coloniza�‹o como uma miss‹o civilizat—ria, crist‹ e sagrada; ideologia que
legitimou durante 500 anos os piores crimes e que as elites do pa’s continuam
repetindo, re-divulgando e propagando no limiar do sŽculo XXI.
Tr�s poetisas cofundadoras da Sociedade dos
Poetas Mauditos conscientizaram-se, ao mesmo tempo, como feministas, detentoras
de uma vis‹o do mundo diferente da dos homens. Hoje, elas s‹o professoras
universit‡rias que t�m uma reputa�‹o nacional e internacional no campo dos
estudos de mulher e de g�nero, duas delas tambŽm no campo do cordel. S‹o elas a
poetisa e historiadora Ediane Nobre (na Universidade Federal de Pernambuco –
UFPE), que defendeu, em 2014, uma tese de doutoramento sobre a beata Maria de
Araœjo; a poetisa Salete Maria da Silva (professora da Universidade Federal da
Bahia – UFBA), que atualmente Ž considerada uma das grandes vozes
poŽticas do cordel da sua gera�‹o; e a poetisa Fanka Santos – de batismo
Francisca Pereira dos Santos –, que como professora da Universidade
Federal do Cariri (UFCA) dedica parte dos seus estudos acad�micos ao resgate
das vozes de mulheres-poetas cantadoras e cordelistas deliberadamente
silenciadas nos estudos acad�micos e na historiografia do folheto de cordel.
Ao aplicar o mŽtodo e a pr‡tica de pesquisa que
foram a estratŽgia principal dos eruditos acad�micos dos anos de sessenta para
a imposi�‹o da sua vis‹o do cordel – os cat‡logos e as antologias
–, Fanka Santos defendeu, em 2009, uma tese de doutoramento que estabeleceu
as bases epistemol—gicas e te—ricas de um futuro cat‡logo das mulheres de
cordel. Uma bolsa de p—s-doutorado lhe permitiu, em seguida, compor o cat‡logo O
Livro Delas, que reœne os folhetos de 264 mulheres cordelistas juntamente
com os materiais que ela conseguiu reunir sobre 62 cantadoras, todas publicadas
em um s— cat‡logo. Dois ramos de uma ‡rvore s—! Duas outras teses de
doutoramento, defendidas pelas organizadoras deste nœmero de Boitat‡, vieram
refor�ar as bases te—ricas do cat‡logo. Bruna Paiva de Lucena trouxe a
ÒmauditaÓ poetisa Salete Maria da Silva ao palco acad�mico com uma tese de
doutoramento, defendida na Universidade de Bras’lia (LUCENA, 2018). AndrŽa
Bet‰nia da Silva, por sua vez, defendeu em 2014, na Universidade Federal da
Bahia, uma tese sobre a transi�‹o e evolu�‹o da cantoria de pŽ-de-parede
tradicional para os festivais modernos; a tese inclui como protagonistas
mulheres-cantadoras-repentistas.
Figura 1 – Xilogravura de Marcelo Soares
Fonte: Acervo da autora.
Essas e outras pesquisas confirmam o fato de
que, como nas desgarradas e no fado de Portugal e da Galiza, a cantoria tem
tr�s variantes, a saber: repente de dois homens, repente de homem com mulher e
repente de duas mulheres, cada subg�nero com a mesma forma e linguagem poŽtica,
mas com tem‡ticas diferentes.
No mesmo per’odo (2000-2020), observa-se no
campo do folheto e da cantoria uma verdadeira explos‹o de novas vozes de
mulheres poetisas e uma visibilidade cada vez maior da sua atua�‹o como agentes
culturais autoconscientes e fortes[35].
Assim, fortalecem-se a consci�ncia e a convic�‹o que O Livro Delas – como cat‡logo das mulheres cordelistas e
cantadoras atuantes maioritariamente ainda no sŽculo XX –, j‡ trazia e
que as poetisas ÒmauditasÓ ilustraram: a de que as mulheres n‹o s— se destacam
por sua presen�a cada vez mais numerosa e autoconsciente, como tambŽm por
trazerem vozes diferentes que cantam outra abordagem e vis‹o das ÒcoisasÓ do
mundo.
Dessa forma, Ž urgente repensar o cordel e a
cantoria para alŽm do discurso oficial nacionalista, euro, scripto e
androc�ntrico brasileiro e propor novas epistemes
para sua releitura cr’tica, considerando-se os seguintes aspectos:
- N‹o se
trata de uma tradi�‹o quase morta,
obsoleta e parada, mas sim de uma tradi�‹o viva, din‰mica, no sentido
original do termo tradi�‹o, derivado do latim tranditionem, quer
dizer: ato de transmitir. Na oralidade, esse ato implica um processo complexo,
n‹o s— de uma simples transmiss‹o/entrega, como tambŽm de repeti�‹o, reinven�‹o
e ressignifica�‹o na continuidade do tempo hist—rico e de gera�›es de poetas e
poetisas transmissoras.
- N‹o se
trata de cordel escrito versus
cantoria oral, mas de uma fase da hist—ria mundial das tecnologias da
informa�‹o e da comunica�‹o, a saber: o cap’tulo que conta a vers‹o nordestina
da transi�‹o para a escrita/impressa de uma tradi�‹o poŽtica oral
prŽ-existente.
- N‹o se
trata de um cordel de origem
simplesmente portuguesa; o cordel nordestino Ž – e Ž antes de mais nada –
um produto complexo, regional da transi�‹o e evolu�‹o (quase) universal da
oralidade para a escrita e a imprensa (ABREU, 1999).
- N‹o
existe uma Hist—ria œnica e s— de homens; houve sempre duas hist—rias numa
dualidade complementar e plural (variando de uma regi‹o para a outra) de duas
linhagens culturais diferentes. Existiu, desde sempre, um patrim™nio (conjunto de
bens legado por um pai em linha patrilinear aos filhos) ao lado de um matrim™nio matrilinear que se
inter-relacionam e interagem. Aquele hegem™nico e imponente e que fala muito
alto, este marginalizado e silenciado, mas nem por isso menos presente no
cora�‹o da comunidade tradicional. A redescoberta do matrim™nio das mulheres no campo da cantoria-cordel, considerado
exclusivamente masculino, exige uma abordagem nova, intercultural e
interdisciplinar que permitir‡ dar o salto epistemol—gico e te—rico
indispens‡vel para podermos historiografar a presen�a e a atua�‹o da voz das
mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos[36].
- Esse cordel n‹o Ž o produto m’tico de um
Estado-Na�‹o, mas express‹o originalmente local e regional da realidade e
verdade da vida nordestina; ele n‹o Ž para-literatura
ficcional, mas cultura/arte,
express‹o poŽtica e testemunho da vida dessa terra, gente e cultura
espec’ficas. Ele Ž, para resumir, literatura
no sentido original do termo (em latim, littera
= letra escrita), que registra n‹o s— obras ficcionais, como tambŽm –
e sobretudo – toda a riqueza da experi�ncia e conhecimento da vida vivida
pelas diversas comunidades nordestinas com a suas culturas locais e
sub-regionais. A da cultura do Cariri, por exemplo, que n‹o Ž a do Piau’, nem a
da Para’ba, nem a da Serra do Teixeira (terra de tantas gera�›es de grandes
poetas)... (RAMALHO; LEMAIRE, 2011).
De
dualidade a dualismo
Dualidade plural
Globalmente – n‹o digo universal nem
exclusivamente! –, tanto os antrop—logos quanto os especialistas –
linguistas, etn—logos e folcloristas – das culturas indo-europeias
distinguem nas comunidades humanas uma divis‹o dual b‡sica, a saber, um Òmundo
dos homensÓ e um Òmundo das mulheresÓ, quer dizer, uma dualidade dentro da qual inœmeras variantes, trocas, tens›es e
desigualdades eram poss’veis; uma dualidade plural em constante intera�‹o e
evolu�‹o.
Figura 2 – Repente misto do famoso
xil—grafo nordestino Dila
Fonte: Acervo da autora.
O economista-etn—logo alem‹o Karl BŸcher
fundamentou-se nessa dualidade, ao formular a teoria da exist�ncia de duas
tradi�›es poŽticas no mundo indo-europeu, a masculina e a feminina, como
produtos da divis‹o dos trabalhos econ™mico e social entre os sexos, postulando
que para cada tipo de trabalho havia can�›es de trabalho e de lazer com ritmos
e conteœdos diferentes (B†CHER, 1896). BŸcher mostra que Ž o mundo poŽtico das
mulheres que detŽm as tradi�›es mais ricas e diversificadas, em rela�‹o ao dos
homens, e que s‹o elas as detentoras, guardi‹s, produtoras e reprodutoras
primordiais da mem—ria viva das culturas tradicionais indo-europeias.
Quase cem anos mais tarde, o etn—logo hœngaro
Imre Katona publica o artigo intitulado ÒReminiscencies
of Primitive Divisions of Labor between Sexes and Age Groups in the Peasant
Folklore of Modern TimesÓ
(KATONA, 1979), em que elabora a distin�‹o dual de BŸcher ao relacionar esses gender-specific
ritmos e conteœdos ˆ distin�‹o b‡sica da teoria liter‡ria novecentista entre os
dois grandes g�neros liter‡rios: o Žpico e o l’rico. A partir das diversas
formas de dualidade plural[37],
Katona v� o mundo dos homens como o do canto Žpico e de outras formas de canto
narrativo aparentado, tais como o paneg’rico, a genealogia e os g�neros que
enaltecem e glorificam o poder, o hero’smo e a superioridade masculinas. Eles
formariam o verso da medalha ÒŽpicaÓ, havendo tambŽm, a seu reverso ÒŽpicoÓ com
g�neros, tais como a s‡tira, a tro�a, a zombaria, o esc‡rnio, o maldizer e a
par—dia.
O mundo das mulheres Ž o mundo dos g�neros
l’rico e l’rico-narrativo. O g�nero l’rico Ž funcional: a poesia cantada marca
o ritmo do trabalho cotidiano e da dan�a. Geralmente s‹o cantigas dialogadas,
improvisadas, baseadas na memoriza�‹o e improvisa�‹o de novos versos. ƒ esse
desafio que torna mais alegres e ligeiros os trabalhos muitas vezes mon—tonos,
pelo prazer lœdico do jogo poŽtico. H‡ uma unidade de Som e Letra, com
predomin‰ncia do Som, cujo ritmo marca o ritmo espec’fico do trabalho ou da
dan�a.
O estudo de Imre Katona confirma as conclus›es
de BŸcher e, ao dedicar-se ao tema da divis‹o do trabalho cultural entre os
sexos, ele mostra que essa divis‹o do ÒtrabalhoÓ n‹o era r’gida, e menos ainda
excludente! Havia trocas, apropria�›es e interc‰mbios cont’nuos entre os dois
mundos. Katona chegou ˆ conclus‹o de que uma mŽdia de uns 10% das produ�›es
culturais era produto desses interc‰mbios. Confirmadas, nos œltimos cinquenta
anos, por estudos dedicados a outros per’odos hist—ricos e ‡reas geogr‡ficas,
as pesquisas de BŸcher e Katona abrem novas perspectivas para o estudo das
vozes das mulheres na cantoria e no cordel. Na vis‹o de Imra Katona, Fanka
Santos reuniu em O Livro Delas
aqueles 10%, mais ou menos, de vozes femininas que se aventuraram no territ—rio
poŽtico da voz masculina, como hoje em dia, muitos poetas cantadores invadem o
territ—rio feminino da cantiga l’rica e de amor, o que teria sido considerado
tradicionalmente um ato meio ÒefeminadoÓ.
De interc‰mbio ˆ exclus‹o
Figura 3 – Xilogravura de J. Miguel
Fonte:
Acervo da autora.
Quando, hoje, falamos de sexo/g�nero,
automaticamente concebemos uma estrutura bipolar, dicot™mica e hierarquizante,
n‹o dual, mas dualista. Esse pressuposto da dicotomia est‡ na base da
vis‹o humanista do mundo ocidental e instala-se no limiar do que chamamos de Tempos
Modernos, adquirindo a sua express‹o filos—fica no conceito de dualismo
com o fil—sofo franc�s Pierre Bayle (1647-1706). A sua primeira ocorr�ncia data
de 1679, com a defini�‹o/significado de: sistema, doutrina baseada na
exist�ncia, sob a forma de hierarquia, de dois princ’pios contr‡rios que se
excluem mutuamente (masculino versus feminino, heterossexual versus
homossexual, branco contra negro, cultura contra natureza, primitivismo contra
Progresso, cultura oral versus cultura escrita, entre muitos outros).
Essa base dualista do pensamento ocidental
moderno contribuiu muito para a legitima�‹o ideol—gica do silenciamento das mulheres,
do feminic’dio de mais de cem mil mulheres nas fogueiras da Inquisi�‹o, da
escravid‹o e do genoc’dio de milh›es de negros e ind’genas, da persegui�‹o dos
homossexuais, do racismo, da destrui�‹o sistem‡tica da natureza. O discurso
oficial e erudito sobre cantoria e cordel, ele tambŽm, Ž um produto t’pico
desse dualismo.
As culturas n‹o ocidentais e as da
prŽ-modernidade ocidental, por sua vez, fundamentam-se, ainda, no princ’pio da dualidade com um leque plural, infinito,
de formas poŽticas, de complementaridades, variedades, desigualdades,
conflitos, trocas, emprŽstimos e interrela�›es. Os textos poŽticos
ÒintercambiadosÓ s‹o imita�›es geralmente lœdicas de g�neros poŽticos Òdo outro
sexoÓ. As imita�›es tornam-se ao mesmo tempo reinven�›es e ressignifica�›es, ao
levarem para o palco, dentro dos quadros do g�nero tradicionalmente unissexo, a
voz e a vis‹o das coisas do outro sexo. Elas s‹o geralmente muito apreciadas e
aplaudidas pela comunidade!
ƒ importante estar consciente do fato de que,
nas tradi�›es orais, esse procedimento n‹o Ž considerado pl‡gio como no mundo
moderno! Ele constitui uma pr‡tica discursiva, uma estratŽgia lœdico-sŽria,
altamente apreciada, de transmiss‹o, enriquecimento e divulga�‹o da mem—ria e
da tradi�‹o e, em um sentido comunit‡rio e social, serve tambŽm como v‡lvula de
escape de tens›es entre os sexos, quer dizer: como estratŽgia de refor�o da
coes‹o social. A concep�‹o do texto escrito como propriedade individual de um
Autor masculino (FOUCAULT, 1998) s— se instalar‡ no mundo ocidental – e a
partir do mundo da escrita e da imprensa –, nos in’cios dos Tempos
Modernos, juntamente com a no�‹o de pl‡gio. No mundo da oralidade, em
que a memoriza�‹o (por repeti�‹o e reinven�‹o) constitui a conditio sine qua
non da pr—pria exist�ncia da tradi�‹o oral e a estratŽgia por excel�ncia da
transmiss‹o, integra�‹o e salvaguarda do saber, n‹o existe pl‡gio no
sentido moderno do termo. Quando uma performance ÒintercambiadaÓ tem
muito sucesso, ela fica no outro ÒmundoÓ e integra-se a ele: o her—i do romance
heroico-narrativo, por exemplo, pode metamorfosear-se em hero’na, o romance
l’rico-narrativo transformar-se em Žpico, ou em vida de santo ou santa,
proposta por um poeta religioso, ou ainda em par—dia e zombaria de
comportamentos t’picos do outro sexo.
Um music—logo alem‹o do sŽculo XIX definiu o
fen™meno como Wandermelodien, mœsicas
que wandern – vagabundeiam,
andam de terra em terra – e mudam com os lugares que elas visitam, com os
tempos – e templos! – pelos quais passam, com as condi�›es hist—ricas
que evoluem, sempre as mesmas e reconhec’veis como tal e ao mesmo tempo sempre
diferentes. Pensamos nos jograis da Idade MŽdia que os conc’lios da Igreja
cat—lica condenavam por cantarem com vozes ÒefeminadasÓ, can�›es de mulheres
(tais como cantigas de amigo, de romaria, cantigas de trabalho, cantigas
bailadas) ou, mais tarde, nos cantadores de romance ibŽricos do sŽculo XX que
cantavam em pœblico romances l’rico-narrativos que eles apresentavam como
can�›es aprendidas com a av—, a tia ou a m‹e.
Nessa dire�‹o, podemos descobrir qual foi o
papel dos eruditos humanistas dos sŽculos XV e XVI, respons‡veis por criar a
base da historiografia e das ci�ncias da literatura e das artes. Os textos das
mulheres medievais, transcritos, plagiados por essa elite que acaba de inventar
a no�‹o de pl‡gio, ressignificados
por eles, entrar‹o na sua cultura escrita e impressa, em cancioneiros, leigos
e/ou religiosos, em livros de poesia atribu’dos a poetas masculinos, trovadores
ou reis – tais como D. Dinis, Afonso X, o S‡bio – ou bispos,
membros da nobreza e da alta burguesia. Quando se inicia a historiografia das
literaturas nacionais, em finais do sŽculo XIX, essas atribui�›es renascentistas ser‹o consideradas provas de autoria
masculina na galeria dos Autores geniais, individuais, que v‹o preencher os
volumes das Hist—rias nacionais das Literaturas dos Estados-Na�›es; Ž essa
hist—ria falsificada que obliterou os matrim™nios das mulheres e se ensina atŽ
hoje no ensino formal secund‡rio e universit‡rio.
As outras vozes de artistas-poetas-contadores a
cantadores tradicionais, porta-vozes da comunidade, ficaram como tradi�›es
orais das comunidades locais e regionais, mas na clandestinidade em face do
medo permanente de persegui�‹o. Desprezadas e odiadas pelos detentores do poder
pol’tico-religioso (BURKE, 2010), elas sobreviveram, cada vez mais
fragmentadas, no seio das comunidades. A sua reabilita�‹o te—rica e
ÒidealistaÓ pelas elites, na Žpoca do Romantismo, como alma pura da Na�‹o, n‹o
por‡ fim ˆs persecu�›es factuais que continuar‹o ainda bem adiante no sŽculo
XX. Em 1848, inventa-se o nome de folk-lore (sabedoria do povo),
inicialmente no sentido positivo e o dos seus estudiosos, os folkloristas.
Uma vez os Estados-Na�›es todos bem instalados,
depois de 1870, esse sentido positivo torna-se importuno e inc™modo. A
necessidade de criar um imagin‡rio nacional, unificador das centenas de
pequenas na�›es da Velha Europa, leva as elites das novas Òcomunidades
imaginadasÓ (ANDERSON, 2008) a fundarem as faculdades de Letras (Hist—ria,
L’ngua e Hist—ria da Literatura nacionais), onde se ensinar‹o unicamente os
textos ressignificados da tradi�‹o escrita humanista e se propagar‡, geralmente
e com raras exce�›es, um profundo desprezo em rela�‹o ˆ tradi�‹o oral e aos
seus estudiosos e pesquisadores.
Revisitar um territ—rio
tradicionalmente masculino
Chica Barrosa onde canta
faz
o mundo estremecer.
Faz
o sol se abalar;
todo planeta descer.
Quem
vier cantar comigo,
correr‡
grande perigo,
atŽ
de morte sofrer.
Chica
Barroso
Vozes de mulheres que se
desterritorializaram
Temos a sorte excepcional de j‡ possuirmos um
primeiro esbo�o da genealogia das vozes das mulheres repentistas e poetisas
– redigida por um grande poeta repentista, cordelista e
professor-pesquisador da tradi�‹o poŽtica nordestina, JosŽ Alves Sobrinho, de
Campina Grande, na Para’ba. Coautor, com o professor çtila de Almeida, do
Dicionario bio-bibliografico de repentistas e poetas de bancada, publicado
em1977, Sobrinho publicar‡ mais tarde, depois da morte do professor
çtila, outro livro, intitulado Cantadores, Repentistas e Poetas Populares (SOBRINHO,
2003). Nele, o poeta conta em verso, na melhor tradi�‹o do g�nero
poŽtico da genealogia cantada ou declamada, a genealogia de seis gera�›es de
poetas masculinos para, em seguida, apresentar a das mulheres poetisas e
cantadoras de repente do Nordeste. A apresenta�‹o pelo poeta – juntos mas
separados –, sob a forma dual, mostra que existiam, na experi�ncia do
poeta, vivida Òde dentroÓ da sua comunidade, dois mundos poŽticos, o dos homens
e o das mulheres, inter-relacionados, interconectados e interativos.
Nos versos cl‡ssicos do repente – a
sextilha e a dŽcima –, o poeta-pesquisador apresenta seis gera�›es de
grandes repentistas, poetas e poetisas de reputa�‹o confirmada. As duas
genealogias contam juntas 948 versos, dos quais 816 versos sobre poetas e 132
sobre poetisas, quer dizer: uns 12% dos versos globalmente s‹o reservados para
a voz das mulheres. Essa porcentagem confirma a mŽdia global de 10% de
interc‰mbios que o etn—logo Imre Katona indica no seu estudo, tanto para o
territ—rio masculino quanto para o feminino.
A genealogia feminina come�a pela estrofe que
comemora a primeira gera�‹o, a das mais antigas poetisas, algumas j‡ lend‡rias:
Falo em Rita Medeiros
Lend‡ria por tradi�‹o
Naninha Gorda dos Brejos
Zefinha do Chaboc‹o
E a grande Chica Barrosa
Camila do Martinz‹o (SOBRINHO, 2003, p. 90)
Os versos sublinham o talento dessas mulheres e
o seu dom’nio perfeito das regras da arte do repente, como se v� na œltima
estrofe:
Temos Chiquinha Ribeiro
Baiana de boa estima
Ala’de Ferreirinha
Seu repente Ž obra-prima
Seu verso tem ritmo e mŽtrica
ƒ exigente na rima (SOBRINHO, p. 91)
E atŽ, ˆs vezes, evocam a superioridade de
mulheres repentistas temidas, como foi a famosa Chica Barroso, e como era
tambŽm Vov— Pangula:
Maria Ribeira Santos
Chamada vov— Pangula
De Valen�a do Piau’
Faz no verso o que calcula
L‡ naquela regi‹o
Com ela n‹o h‡ quem bula (SOBRINHO, 2003, p.
91)
Podemos, a partir da’, abandonar o discurso
dicot™mico desse dualismo da modernidade cujo c’rculo hermen�utico fechado leva
a ignorar ou, no melhor dos casos, a explicar a presen�a ineg‡vel de
cantadoras/cordelistas como excepcional e as pr—prias poetisas como mulheres
Òmasculin(izad)asÓ, como as qualificaram alguns observadores eruditos.
Poderemos escutar as vozes de Chica, Pangula, Mocinha, Bastinha, Josenir,
Salete, entre tantas outras, como contribui�›es de uma linhagem secular de
mulheres fortes, autoconscientes e conscientes de serem agentes, cocriadoras e
reinventoras da realidade e cultura nordestinas. S‹o vozes de Òhero’nasÓ,
mulheres ÒfeministasÓ que, cada uma na sua Žpoca e no seu contexto social e
pol’tico – e apesar das rea�›es ˆs vezes violent’ssimas e agressivas de
homens – se posicionaram como detentoras/guardi‹s e reinventoras de um matrim™nio local, regional, atŽ dentro
dos quadros de um g�nero/territ—rio tradicionalmente masculino cuja arte
poŽtica ÒprofissionalÓ essas mulheres tambŽm sabiam brilhantemente ilustrar.
Viol�ncia, s‡tira, indecoro e
obscenidade de vozes femininas no cordel
Pisa
medonha eu lhe dou
de cabelo se arrancar,
de
fofar couro de lombo
do
pesco�o ao calcanhar;
se n‹o se tratar
com tempo,
talvez n‹o possa escapar!
Minha
pisa Ž venenosa
que
n‹o se pode curar.
Cada
tacada que dou,
vejo
o peda�o voar.
Chica
Barrosa
A music—loga cearense e professora da
Universidade Estadual do Cear‡ Elba Braga Ramalho publicou, no ano 2000, um
estudo intitulado Cantoria Nordestina:
mœsica e palavra. No cap’tulo intitulado ÒA parceria: do antagonista ao
parceiroÓ (RAMALHO, 2000, p. 124-130), resultado de muitos anos de pesquisa de
campo em terras cearenses, a autora descreve o processo sociocultural
interessant’ssimo de uma muta�‹o, a que talvez tenha mais impactado no sŽculo
XX o territ—rio da cantoria, a saber: a transi�‹o progressiva do cantador antagonista tradicional ao cantador parceiro, numa sociedade cada vez mais
modernizada e urbanizada.
A situa�‹o quase arquet’pica do cantador
antagonista ilustra-se talvez mais eficazmente pela evoca�‹o do poeta n™made de
outrora, que chegava numa comunidade onde era ainda desconhecido. Ao entrar
nela, ele adentrava tambŽm, querendo ou n‹o, no territ—rio, Òca�a reservadaÓ,
dos poetas residentes locais. De antem‹o, ele ser‡ considerado concorrente,
rival, advers‡rio, opositor, como eram tambŽm, ali‡s, os homens que vinham de
fora para namorar uma mulher da comunidade. Essas situa�›es, provocadoras para
os homens residentes, podiam acabar muito mal e com muita viol�ncia f’sica. A
comunidade, ansiosa por conhecer as novidades, not’cias e hist—rias de fora que
o novo poeta trazia, tentava resolver as amea�as e tens›es provocadas pela
chegada do ÒestrangeiroÓ, organizando um evento lœdico-sŽrio ritualizado e
controlado por ela (HUIZINGA, 2007). Essa ÒcantoriaÓ obrigava os seus pr—prios
poetas a transformar e sublimar o seu —dio do rival e viol�ncia f’sica em
viol�ncia verbal e poŽtica, permitindo ao recŽm-chegado ostentar as suas
compet�ncias para legitimar a sua visita.
Essa foi a realidade e a fun�‹o eminentemente
social do repente/improviso tradicional nordestino desde os seus come�os. Ela
evoluiu e mudou radicalmente no sŽculo XX, como mostram os estudos de Elba
Braga Ramalho e a tese de doutoramento defendida por AndrŽa Bet‰nia da Silva,
intitulada Entre pŽs-de-parede e
festivais: rota(s) das poŽticas orais na cantoria de improviso (SILVA, 2014). Os poetas individuais
e rivais transformaram-se em dupla de companheiros/parceiros. A viol�ncia,
fonte de inspira�‹o inicial do g�nero, perdeu o seu lugar central, sendo o
pœblico dos festivais o proponente do tema a ser trabalhado pela dupla. A
viol�ncia foi substitu’da pela vontade e motiva�‹o de serem juntos ÒaÓ melhor
dupla no palco, como concorrentes e vencedores de outras duplas. Esse fen™meno
n‹o ocorreu, por exemplo, no repente africano, halo, que continua, mutatis
mutandis, como exerc’cio e jogo lœdico-sŽrio, no seio de comunidades, onde
o halo funciona atŽ hoje como v‡lvula de escape para tens›es e conflitos
sociais dentro da comunidade e como instrumento de que ela disp›e para
ÒeducarÓ, ritualizando-a, a viol�ncia masculina e salvaguardar a coes‹o social.
Pensar a viol�ncia feminina
Podemos agora olhar com lentes diferentes para
um fen™meno que observei muitas vezes e que, no in’cio, atŽ me chocava, a
saber, o da viol�ncia, obscenidade e indecoro dos versos de certas mulheres
repentistas e poetisas. Essa viol�ncia verbal deixava-me ao mesmo tempo com
mal-estar perante as rea�›es excessivamente negativas (puta, macho,
pior que homem!, feia, grosseira, para s— citar as menos
agressivas!) de colegas pesquisadores, indignados e revoltados, apesar dos
aplausos, ades‹o e entusiasmo do pœblico, sobretudo quando essa mulher era
declarada vencedora.
Imaginar o contexto tradicional do repente
permite compreender melhor a situa�‹o da mulher-repentista, um
Òestrangeiro-mulherÓ que entra no territ—rio masculino do repente e que atŽ tem
o direito de adentrar nesse espa�o, de participar do jogo, mas ter‡ de
respeitar as regras desse jogo. Quer dizer, cumprir duas condi�›es: o respeito
aos c—digos do antagonismo b‡sico do jogo poŽtico e a demonstra�‹o de um ex’mio
conhecimento da sua arte poŽtica. Ela tem que se mostrar superior ao
advers‡rio, para o pœblico o declarar vencido.
Esse jogo Ž apimentado de maneira muito
especial ao oferecer um palco a todas as poss’veis frustra�›es, tens›es,
conflitos e preconceitos gerados pelo conv’vio dos dois sexos no mundo
relativamente fechado da comunidade tradicional. No fundo, trata-se de um
jogo-ritual que permite evacuar, soltar e curar o que se denomina na psican‡lise
VerdrŠngung, refoulement, repress‹o de puls›es (sexuais, de viol�ncia,
de —dio) estocadas no inconsciente. Tantas vezes senti uma vibra�‹o, uma
excita�‹o, ouvi um fr�mito, antes mesmo de uma mulher entrar no c’rculo ou
subir ao palco para cantar! A’, o desafio era grande e especial; era preciso
escolher o tom (sarc‡stico, jocoso, ir™nico, provocador) e o subg�nero poŽtico
dentro da gama de possibilidades ofertadas, tais como maldizer, esc‡rnio,
obscenidade, zombaria. O essencial era fazer melhor, ser mais forte, cantar o
verso mais bonito e perfeito na rima e no ritmo. Esse era o grande desafio das
cantadoras que sa’am do c’rculo formado pelo pœblico conhecedor-avaliador para
um desafio/provoca�‹o grande: aventurar-se atŽ ao centro do territ—rio
masculino.
Nesse sentido, h‡ outra intepreta�‹o poss’vel
para o fato averiguado de que muitos poetas se recusam, geralmente com uma
atitude de imenso desprezo e arrog‰ncia, a cantar com uma mulher. Certa vez,
JosŽ Alves Sobrinho me disse que minha interpreta�‹o dessa atitude – como
se tratando de um preconceito sexista – era muito superficial, o que
outros grandes poetas depois me confirmaram. Na verdade, nesse territ—rio
masculino do repente, ser o vencido do duelo poŽtico j‡ Ž, em si, uma desonra.
Ser o vencido de um vencedor ÒestrangeiroÓ, seja ele masculino ou feminino, Ž
desonra e vergonha! Para o poeta masculino, o risco era muito grande, uma vez
que o pœblico gostava desse subg�nero poŽtico e admirava, de antem‹o, a coragem
da mulher e o seu dom’nio da ars poŽtica do repente. Na verdade, como
Sobrinho e outros poetas explicavam, essa atitude de superioridade e desprezo
ocultava o medo medonho que tinham muitos poetas de ter que sair vencido do
duelo poŽtico com mulher.
Houve poetisas que procuravam outras estratŽgias,
n‹o violentas, para a sua voz ser escutada. Algumas delas j‡ anunciam a
transi�‹o do repente tradicional, violento e antagonista, ao repente dos
parceiros-companheiros que se instala progressivamente na segunda parte do
sŽculo XX. JosŽ Alves Sobrinho, por exemplo, evoca, com muito carinho,
A Terezinha Tietre
De S‹o JosŽ dos Cordeiros.
S— cantava elogiando
O verso dos companheiros.
Deixou de cantar, porŽm
Causou saudade aos parceiros
(SOBRINHO, 2003, p. 98)
Mais uma vez, por tr‡s do elogio do poeta,
desenha-se a estrutura b‡sica – Žpica – do mundo masculino que a
mulher provocadora tinha que respeitar e as regras do jogo poŽtico Žpico
masculino, quer dizer: zombar ou elogiar.
Considera�›es finais
O exemplo da fun�‹o social da arte
lœdico-poŽtica do repente (e sua forma impressa no folheto de cordel) e da
viol�ncia da linguagem poŽtica de homens e mulheres repentistas nesse
territ—rio tradicionalmente masculino permitiu ilustrar a necessidade e a
urg�ncia da revis‹o das episteme do discurso convencional sobre cantoria e
cordel. Para quem quiser interpretar e historiografar textos ou g�neros
liter‡rios origin‡rios das tradi�›es orais, Ž fundamental, antes de mais nada,
conhecer a fundo o contexto s—cio-hist—rico e cultural das obras e dos seus
autores. De um momento, de um contexto (regional, social, hist—rico...), de um
pœblico para o outro, a significa�‹o dos gestos, das palavras, das imagens pode
ser diferente, tornar-se amb’gua, ter duplo sentido ou sentido figurado e levar
o pesquisador, convencido da superioridade e e universalidade da sua
metodologia e terminologia, a interpreta�›es erradas.
PorŽm, o que importa mais ainda Ž tentar
questionar o nosso olhar sobre eles. Esse questionamento baseia-se na
consci�ncia de que a Òordem do discursoÓ (Foucault, 1996) – ocidental,
colonial e patriarcal – formata tanto o nosso pensamento e linguagem
quanto o nosso olhar sobre o mundo e a nossa realidade. Queiramos ou n‹o
queiramos, sejamos homens ou mulheres, essa ordem Ž fundamentalmente
colonizadora, mutiladora e hierarquizante. Como disse recentemente um grande
pensador do movimento internacional Men Engage Against Violence[38]
num debate sobre viol�ncia masculina e educa�‹o: ÒWe are all trapped in the
framing of the same narrativeÓ. Estamos todos encarcerados na estrutura da
mesma narrativa.
Esse olhar colonizador parte de um observador
que se considera centro e protagonista; convencido de que os seus conceitos,
critŽrios, categorias e ju’zes de valor sejam objetivos, cient’ficos e lhe
fornecem instrumentos v‡lidos para definir, classificar, intepretar e avaliar
tudo e todos os outros. Trata-se de uma armadilha desastrosa, formatada por
sŽculos de pressupostos que s‹o, na verdade preconceitos e pretens›es
injustificadas. Inœmeros s‹o os exemplos de ÒnarrativasÓ e teorias err™neas
constru’das em cima do pressuposto de que o Sujeito-pesquisador possui o olhar
ÒobjetivoÓ e Òcient’ficoÓ sobre o seu Objeto de pesquisa, como s‹o inesgot‡veis
as fontes das Òpiadas de pesquisadorÓ nas quais os poetas da oralidade denunciaram
e continuam denunciando, no mundo inteiro, essa pretens‹o absurda da
superioridade da ci�ncia ocidental.
Para cumprir o anœncio e promessa que fizeram,
no Cariri, no ano 2000, os Poetas dos cordŽis ÒmauditosÓ e inventar esses novos
Òoutros 500 anosÓ da hist—ria da humanidade, teremos que contar/narrar
direitinho, antes de mais nada, a hist—ria dos seus antepassados-poetas, alŽm
de inventar vocabul‡rios n‹o dicot™micos para esse futuro. Criar esse futuro
implica o restabelecer daquela vis‹o do mundo das civiliza�›es da oralidade que
n‹o se ilude com a cren�a de um Progresso infinito, hoje em dia cada vez mais
inveross’mil, violento e mort’fero.
Esses cantadores e cantadoras que ritualizavam
e colocavam aberta e corajosamente no palco da comunidade nordestina a
viol�ncia masculina como praga social a ser debatida, re-educada, curada e
ÒvencidaÓ para o bem-estar de todos, n‹o s— legaram para as futuras gera�›es
uma linguagem poŽtica e estratŽgias eficazes de comunica�‹o social, pol’tica e
educativa, mas deixaram tambŽm uma amostra de um mundo diferente e dual, mais
humano, mais respeitoso das leis da Vida que o sistema colonial e seus aliados
eruditos que compuseram e impuseram a Hist—ria oficial do Brasil tentaram, em
v‹o, obliterar.
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[Recebido: 03 mai 2021]
DOSSIæ
METADE CARA, METADE MçSCARA: MEMîRIA COLETIVA E IDENTIDADE INDêGENA NA
OBRA DE ELIANE POTIGUARA
METADE
CARA, METADE MçSCARA: COLLECTIVE MEMORY AND INDIGENOUS IDENTITY IN THE WORK OF ELIANE
POTIGUARA
Joel Vieira da Silva Filho[39]
https://orcid.org/0000-0001-9895-99
Cristian Souza de Sales[40]
https://orcid.org/0000-0002-9377-67
Resumo: Este texto investe numa
discuss‹o acerca das rela�›es existentes entre mem—ria coletiva e identidade
ind’gena em Metade Cara, Metade M‡scara (2004) da escritora
ind’gena contempor‰nea Eliane Potiguara. Metade Cara,
Metade M‡scara Ž uma obra de cunho autobiogr‡fico, de g�nero h’brido, entremeando lendas, fic�‹o, testemunhos,
depoimentos e poemas. AtravŽs da narrativa de deslocamento e processo diasp—rico
da escritora, destacamos como as mem—rias individual, coletiva e as identidades
se incorporam e se encenam poeticamente. O trabalho evidencia como os poemas
operam em favor da preserva�‹o da mem—ria coletiva e da identidade dos povos
ind’genas. Na poŽtica da escritora, as mem—rias e identidades performadas d‹o
sustenta�‹o a outros saberes sobre os povos ind’genas, os quais se diferenciam
das vers›es disseminadas pelas epistemologias eurocentradas. Por fim, o texto
realiza um estudo te—rico-cr’tico que dialoga com os seguintes autores:
Halbwachs (1990); Hall (2006); Munduruku (2018) como aporte te—rico principal.
Palavras-chave: Literatura ind’gena. Poesia ind’gena. Eliane Potiguara.
Mem—ria. Identidade.
Abstract: This text invests in a discussion about the
existing relations between collective memory and indigenous identity in Metade Cara, Metade M‡scara (2004), by contemporary indigenous writer Eliane
Potiguara. Metade Cara, Metade M‡scara is an autobiographical work, of a hybrid genre,
interspersing legends, fiction, testimonies, depositions and poems. Through the
displacement narrative and diasporic process of the writer, we highlight how
individual/collective memories and identities are incorporated and acted out
poetically. The work shows how the poems operate in favor of preserving the
collective memory and identity of indigenous people. In the writer's poetics,
the performed memories and identities support others knowledges about indigenous
people, which differ from the versions disseminated by Eurocentric
epistemologies. Finally, the text conducts a theoretical-critical study that
dialogues with the following authors: Halbwachs (1990); Hall (2006); Munduruku
(2018), among others.
Keywords:
Indigenous literature. Indigenous poetry. Eliane Potiguara. Memory. Identity.
Da oralidade ˆ escrita
A
literatura ind’gena contempor‰nea Ž um lugar ut—pico (de sobreviv�ncia), uma
variante do Žpico tecido pela oralidade; um lugar de conflu�ncia de vozes
silenciadas e exiladas (escritas) ao longo dos mais de 500 anos de coloniza�‹o
(GRAòNA, 2013, p. 15).
Podemos dizer que a literatura escrita ind’gena tem se consolidado como
um movimento estŽtico-liter‡rio e pol’tico no Brasil. Mas, anteriormente ˆ escrita,
a literatura ind’gena era compartilhada atravŽs da oralidade ou da tradi�‹o
oral. Assim, as narrativas, hist—rias e saberes que antes eram transmitidos de
gera�‹o em gera�‹o apenas por meio da oralidade, agora tambŽm circulam atravŽs
da escrita. Portanto, uma caracter’stica significativa da literatura escrita
ind’gena Ž sua estreita e profunda rela�‹o com a tradi�‹o oral.
A oralidade ind’gena Ž entendida como conjunto de costumes, cren�as e
rituais das diversas comunidades ind’genas partilhados atravŽs da voz. Por meio
do conhecimento oral, ou seja, de uma sŽrie de c‰nticos, toantes, literaturas
(de diferentes etnias), os ind’genas transmitiam de gera�‹o em gera�‹o esses
conhecimentos.
Daniel Munduruku, escritor ind’gena, autor de diversos livros e defensor
da causa ind’gena, por sua vez, diz que Òa escrita Ž uma conquista recente para
a maioria dos 305 povos ind’genas que habitam nosso pa’s desde tempos
imemoriaisÓ (MUNDURUKU, 2018, p. 81).
Nesse contexto, Gra�a Graœna, escritora ind’gena brasileira, defende o
espa�o da literatura ind’gena como um lugar de autoafirma�‹o cultural, de forma
que mesmo sendo produzida em meio a muito silenciamento e exilamento, em
paralelo a coloniza�‹o, buscou preservar mem—rias, tradi�›es, formas de vida e
cosmologias (GRAòNA, 2013).
Na mem—ria dos mais velhos, considerados mais s‡bios, o
tempo passado e presente se encontram para atualizar os repert—rios.
De tal maneira, a palavra falada era e ainda Ž
transmitida nas comunidades, colaborando para que a tradi�‹o ind’gena se
mantenha forte. O elemento oral partilhado em comunidade fortifica a mem—ria e
o conhecimento ancestral herdado, de forma que os anci‹os colaboram
frequentemente para a produ�‹o dos textos. As vozes dos anci‹os e dos
ancestrais refletem na escrita, conferem ao texto um car‡ter memorial e
identit‡rio.
Nesse sentido, Paul Zumthor diz que por meio da
voz, n—s nos situamos no mundo; sendo assim, a voz ind’gena situa as tradi�›es
de modo a n‹o perder toda uma vasta produ�‹o oral que est‡ em constante
movimento na mem—ria dos mais velhos e que est‡ sendo passado para os mais
jovens[41]. Segundo Zumthor, h‡ tr�s
tipos de oralidade, associadas a aspectos culturais diferenciados:
a) prim‡ria, sem rela�‹o alguma com a
escritura, relaciona-se a sociedades ‡grafas; b) segunda, quando a escritura
prevalece sobre os aspectos orais, condicionando, a partir de uma cultura
erudita, as formas de express‹o; c) mista, quando o oral se manifesta de forma
parcial e com retraso em rela�‹o ao escrito.. (ZUMTHOR, 1989, p.20)
De tal forma, sendo a oralidade um ato
espont‰neo, natural; com a aus�ncia de uma literatura gr‡fica, de ordem
alfabŽtica, o registro oral dos ind’genas nasceu intimamente na fala, como
elemento de preserva�‹o da tradi�‹o. Assim, a oratura ind’gena funciona/ou como todo conjunto de conhecimento daquilo que
est‡/esteve preservado na mem—ria dos povos ind’genas.
Com o desenvolvimento da literatura ind’gena
escrita, n‹o se pode dizer que a oralidade foi desprezada e esquecida. O conhecimento oral Ž a mola propulsora para a produ�‹o liter‡ria
ind’gena. Assim, a literatura escrita n‹o existiria sem a
literatura oral, visto que ambas se correlacionam, pois, Òa escrita n‹o chega
para ser predominante, ela chega como auxiliar e ve’culo para a express‹o de
toda uma tradi�‹o que se estabelece por meio da oralidadeÓ (DORRICO, 2018, p.
113).
Da oralidade ao alcance da escrita, em rela�‹o ˆ
identidade e ˆ mem—ria, enfatizamos que as literaturas de autoria ind’gena s‹o
resultado da ancestralidade, e refor�am o pertencimento Žtnico e a valoriza�‹o
da luta pol’tico-social-liter‡ria ind’gena. Diversos s‹o os escritores
ind’genas que fortalecem o conhecimento ancestral por intermŽdio dos textos.
Autores como Eliane Potiguara, Gra�a Graœna, M‡rcia Kambeba, Daniel Munduruku,
Ailton Krenak, Auritha Tabajara, Ol’vio JekupŽ e tantos outros, celebram ainda
mais a literatura dos povos ind’genas brasileiros.
De tal forma, neste texto, nos interessa a
produ�‹o liter‡ria da escritora ind’gena Eliane Potiguara. Por meio da obra Metade Cara, Metade M‡scara (2019), de cunho autobiogr‡fico, de g�nero h’brido, entremeando
lendas, fic�‹o, testemunhos, depoimentos e poesias, evidenciaremos como os poemas contribuem para o
fortalecimento da mem—ria coletiva e da identidade dos povos ind’genas.
Percebemos que
a poŽtica de Eliane Potiguara Ž carregada de elementos da resist�ncia que
mulher ind’gena, bem como se abastece da for�a memorial, ancestral e
identit‡ria. As narrativas transitam por espa�os vividos pela escritora, desde
o processo diasp—rico de sua fam’lia atŽ o seu nascimento em uma terra
distante. A isso, Ž importante salientar que:
O projeto liter‡rio da escritora, alicer�ado
na tradi�‹o e na sabedoria ancestral, rompe com o silenciamento secular dos
povos origin‡rios e se apresenta como alternativa para a constru�‹o de uma
narrativa plural e n‹o estigmatizante da p‡tria brasileira, a partir de uma
cosmovis‹o ind’gena feminina (COSTA, 2020, p. 17).
As
provoca�›es presentes em Metade cara,
Metade m‡scara denunciam as perversidades da coloniza�‹o e buscam romper
com os estigmas impostos aos povos ind’genas. Em rela�‹o ˆ voz de Eliane Potiguara, outras
vozes tambŽm s‹o reverberadas, uma coletividade Ž emanada, assim, a poŽtica da
escritora, presente nos diversos g�neros da obra, revigora a luta ind’gena e
anseia pelo direito de liberdade, respeito e igualdade.
Eliane Potiguara: uma
voz ind’gena feminina
Que
fa�o com minha cara de ’ndia?
E meus
cabelos
E
minhas rugas
E
minha hist—ria
E meus
segredos (POTIGUARA, 2019, p. 32).
Descendente dos Potiguara do Rio Grande do
Norte, Eliane Lima dos Santos, mais conhecida como Eliane Potiguara, Ž uma
mulher ind’gena, m‹e, escritora e militante, nascida no Rio de Janeiro, em
1950. Uma das escritoras pioneiras da literatura ind’gena brasileira, tornou-se
uma das principais vozes na luta pela preserva�‹o e garantia dos direitos dos
povos ind’genas, e tambŽm na busca pelo respeito e valoriza�‹o das mulheres.
Eliane Potiguara, assim como diversos ind’genas
brasileiros, tambŽm foi v’tima dos resqu’cios da coloniza�‹o. Durante a
inf‰ncia, devido ˆs persegui�›es, enfrentou cont’nuas adversidades, pois sua
fam’lia foi obrigada a migrar para Pernambuco. Foi no estado do Pernambuco que
nasceu a m‹e de Eliane Potiguara, Òa pequena Elza, filha de Maria de Lourdes,
fraquinha e enfermaÓ (POTIGUARA, 2019, p. 24),
m‹e com apenas 12 anos, v’tima de um estupro do colonizador. Assim, as mulheres
da fam’lia de Potiguara sa’ram de sua terra natal, de sua aldeia, para
sobreviverem.
Ap—s a migra�‹o para as terras pernambucanas, a
fam’lia decidiu partir para o Rio de Janeiro. A viol�ncia ocorrida nas terras
Potiguara e em diversos espa�os ind’genas do nordeste brasileiro for�ou
diversas fam’lias, como a de Eliane, a migrarem para outros espa�os, em grande
parte, para as periferias das grandes cidades sulistas. O processo de estadia
na capital carioca foi complicado e as mulheres da fam’lia Potiguara passaram
por v‡rias adversidades. A pequena Elza cresceu e quando jovem, engravidou e
deu ˆ luz a mulher que hoje chamamos Eliane Potiguara, esta que foi criada por
sua av— Maria de Lourdes, enquanto sua m‹e Elza trabalhava.
Eliane foi criada em um quarto trancado e com
sua av— aprendeu coisas diversas, maravilhosas, e Òfoi assim que Potiguara
come�ou a escrever, absorta nas hist—rias da pr—pria av— e no sentimento que
tudo isso envolvia. As hist—rias reais de sua av— a levaram para um mundo
m‡gico e liter‡rioÓ (POTIGUARA, 2019, p. 26-27). Potiguara n‹o passou por
adversidades apenas durante sua inf‰ncia, pode-se dizer que, durante toda a sua
vida, ela travou uma luta constante pela sobreviv�ncia.
Formou-se em Letras pela UFRJ (Universidade
Federal do Rio de Janeiro), fundou o GRUMIN (Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena) e
foi tambŽm indicada para o Projeto internacional Mil Mulheres do Pr�mio Nobel
da Paz. Ao mesmo tempo em que lutava pelos
direitos dos povos ind’genas, buscou conectar-se com sua ancestralidade.
No poema Identidade
Ind’gena, por exemplo, escrito em 1975 em mem—ria dos seus av—s, que marca
essa conex‹o com seu povo, Eliane Potiguara tra�a um percurso autobiogr‡fico e
menciona todo o processo de luta e resist�ncia dos seus parentes. Segundo
Graœna (2013, p. 78), tal poema Ò[...] inaugurou o movimento liter‡rio ind’gena
contempor‰neo no Brasil [...]Ó. Assim, no in’cio do poema, a voz autobiogr‡fica
evoca uma mem—ria coletiva e introduz o primeiro verso com o pronome possessivo
(nosso), rememorando os ancestrais. Ao longo do extenso poema, a voz l’rica, de
tom feminino, declama que nunca esteve e nem est‡ (ou estar‡) sozinha, pois
carrega em si as marcas e os ensinamentos identit‡rios e memoriais dos
ancestrais, como exposto na primeira estrofe:
Nosso ancestral dizia:
temos vida longa!
Mas caio da vida e da
morte
E range o armamento contra n—s.
Mas enquanto eu tiver o cora�‹o acesso
N‹o morre a ind’gena em mim e
Nem t‹o pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em dire�‹o ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da fam’lia espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma, sem brilho, sem fama (POTIGUARA,
2019, p. 113).
O eu-poŽtico retoma a luta dos povos
ind’genas brasileiros, refor�ando que, embora o armamento, o poder colonial
exista, o compromisso assumido com os ancestrais jamais morre. A voz l’rica
denunciar‡ no decorrer dos versos, todo o processo de invisibiliza�‹o dos
ind’genas. No entanto, em contraposi�‹o ao ato de diminuir os sujeitos
ind’genas, haver‡ sempre o ato de resistir. Assim, depreende-se que a luta da
voz do poema Ž tambŽm a de Eliane Potiguara.
A conjun�‹o adversativa (mas)
presente nos versos dois e quatro, elucida uma voz que, embora saiba dos
sofrimentos que enfrentar‡, n‹o deixar‡ de cumprir o seu compromisso. Tal
compromisso mencionado pela voz do poema coincide com a voz da escritora
Potiguara, de caminhar sob a orienta�‹o dos mortos, dos ancestrais, em dire�‹o
ao sol, ou seja, ˆ liberta�‹o, embora carregue tambŽm em si espolia�›es,
descren�a e humilha�›es.
De tal forma, Òa luta de Eliane
Potiguara constitui ato eminentemente pol’tico, assim como a sua escritaÓ (COSTA, 2020, p. 151) e este ato pol’tico Ž
reverberado nas produ�›es de Potiguara, dentre as quais, citamos: A Terra Ž a M‹e do êndio (1989); Akajutibir—: terra do ’ndio potiguara
(1994); Metade Cara, Metade M‡scara
(2004); O coco que guardava a noite
(2012); O P‡ssaro Encantado (2014); A Cura da Terra (2015).
De tal maneira, como diz Costa (2020, p. 113),
Òos escritos de Eliane Potiguara adquirem um tom reivindicat—rio. Os poemas se
tornam lugar de materializa�‹o das vozes ancestraisÓ. Assim, a resist�ncia de
Eliane Potiguara est‡ na sua hist—ria de vida, bem como na sua produ�‹o
liter‡ria, de modo que, cada vez mais, povos ind’genas e n‹o-ind’genas buscam
conhecer a luta e a literatura dessa mulher Potiguara.
Metade Cara, Metade
M‡scara: uma obra de g�nero
h’brido
A obra
Metade Cara, Metade M‡scara foi publicada pela primeira vez no ano de 2004
pela Global Editora. ƒ composta por sete cap’tulos e consta com v‡rios g�neros
de cunho liter‡rio e tambŽm social, assim, possui uma hibridez marcante. Nesse
contexto, a autora apresenta, como mencionado por Marcello Pereira Borgh’ na
orelha do livro: lendas, fic�‹o, realidade, testemunhos, depoimentos, e versos
autorias.
Este œltimo g�nero Ž essencial para a composi�‹o
do volume, pois, Ž desse modo que ser‡ narrada a hist—ria de Cunhata’ e
Jurupiranga e o processo diasp—rico de tais personagens, estes que formam Òum
casal que representa simbolicamente as fam’lias ind’genas brasileiras [e]
passam por diversas (des)aventuras, em cen‡rio e tempo m’ticos, desde o in’cio
do processo da coloniza�‹o europeia em solo brasileiroÓ
(DE MELO; COSTA, 2018, p. 364-365 [inser�‹o nossa]).
Segundo Milena Costa Pinto, Metade Cara, Metade M‡scara possui uma transversalidade tem‡tica
proveniente da hibridez textual que agrega Òmem—ria,
autohist—ria, biografia e autobiografia, de cr’tica, testemunho e denœnciaÓ
(PINTO, 2017, p. 79). Esta hibridez apontada pela pesquisadora e tambŽm por
diversos estudiosos da obra de Potiguara caracteriza esta obra e faz dela um
texto de vozes coletivas emanadas em cada g�nero presente no livro.
Neste texto, nos interessa, particularmente,
alguns poemas presentes em Metade Cara,
Metade M‡scara, por apresentarem elementos marcantes da literatura ind’gena
em rela�‹o com a mem—ria coletiva e a identidade. ƒ oportuno destacar tambŽm a
cr’tica social realizada na obra de Potiguara nos diferentes g�neros. De acordo
com Pinto, quando costurados, os g�neros presentes no livro, ser‹o refletidos
atravŽs da hibridez, e dar‹o uma imprecis‹o ˆs defini�›es de cada g�nero. Por
conseguinte, o car‡ter h’brido n‹o se faz presente apenas no corpo do texto, h‡
marcas de hibridez e de ambiguidade tambŽm no t’tulo do livro, pois, uma metade
Ž constitu’da por uma cara, e, a outra, por uma m‡scara.
Em sua an‡lise, Pinto (2017) menciona que tal
ambiguidade sugere, a priori, a vers‹o
silenciada do ind’gena, ou seja – a cara, e em seguida, a proposta
inventada pelo colonizador, pelo poder dominante – a m‡scara. Trata-se de
uma ind’gena que carrega em si um rosto dividido, porŽm, no texto, a cara ter‡
total destaque, pois Ž dela que provŽm os escritos.
A edi�‹o mais recente foi publicada em 2019 pela Grumin
Edi�›es. No primeiro cap’tulo, intitulado de Invas‹o ˆs terras ind’genas e a migra�‹o, Eliane Potiguara aborda a
separa�‹o entre as personagens Jurupiranga e Cunhata’ e trata sobre a migra�‹o
ind’gena. Para tanto, a autora busca como pano de fundo a sua fam’lia e o
processo de sa’da do Rio Grande do Norte, passando por Pernambuco atŽ chegar ao
Rio de Janeiro.
Potiguara debate tambŽm quest›es relativas a viol�ncia
contra a mulher ind’gena, o racismo e a intoler‰ncia. H‡ alguns poemas que
revelam uma escrita de dor, com marcas de resist�ncia, como podemos observar no
poema Migra�‹o Ind’gena:
No teu universo de
gestos
Teus olhos s‹o mensagens
sem palavras
Tua boca ainda
incandescente
Me queima o rosto na
partida
E tuas m‹os...
Ah! N‹o sei mais
continuar esses c‰nticos
Porque a mim tudo foi
roubado.
Se ainda consigo
escrever alguns deles
S— Ž fruto mesmo da
m‡goa que me toma a alma
Da saudade que me mata
Da tristeza que invade
todo o meu universo interno
Apesar do sorriso na
face... (POTIGUARA, 2019, p. 36).
Neste poema, a voz l’rica com caracter’sticas
femininas denuncia o roubo de tudo aquilo que possu’a. Ao mesmo tempo, a voz
poŽtica menciona um outro, e fala sobre os gestos, os olhos, a boca, o rosto e
as m‹os desse outro que ela sente em si, apesar da necessidade de partir, de
migrar.
A dor mencionada aparece como dor sentimental,
dor da perda, da separa�‹o, da saudade. Dor esta que impede que o c‰ntico
continue, que as palavras venham. Eliane Potiguara fala que o processo
colonizat—rio trouxe problemas graves aos ind’genas, assim, no poema, Ž
enfatizada a dor dos sentimentos, embora saibamos que, com a coloniza�‹o tambŽm
vieram Òenfermidade, a fome, o empobrecimento compuls—rio da popula�‹o
ind’genaÓ (POTIGUARA, 2019, p. 43). A dor sentida pela voz do poema foi/Ž
sentida por diversos povos que viram seus familiares mortos nas m‹os do
colonizador. O genoc’dio ind’gena foi severo, povos morreram por n‹o aceitarem
a submiss‹o.
Em rela�‹o com a dor sentida, h‡ tambŽm o
sentimento de m‡goa, entremeada com a saudade, ent‹o, estaria a voz do poema
perdendo seu amado? O processo colonizat—rio separou diversas fam’lias, casais,
filhos, que sentiram a dor da partida, a exemplo da fam’lia de Eliane
Potiguara. No entanto, v�-se que a dor sentida precisa ser escondida (escondida
para sobreviver?). O sorriso na face mascara insistentemente a tristeza que
invade o cora�‹o da voz narrativa.
No segundo cap’tulo, Angœstia e desespero pela perda das terras e pela amea�a ˆ cultura e ˆs
tradi�›es, a autora debate sobre as rela�›es entre a migra�‹o e o racismo
enfrentados pelos ind’genas, fala tambŽm sobre os problemas pelo qual passam as
mulheres ind’genas na luta pelos seus direitos, alŽm de informar-nos sobre a
import‰ncia do GRUMIM para a valoriza�‹o desta luta. No terceiro cap’tulo, Ainda a insatisfa�‹o e a consci�ncia da
mulher ind’gena, a autora apresenta poemas que versam sobre a luta e a
resist�ncia feminina.
No quarto cap’tulo intitulado de Influ�ncia dos ancestrais na busca pela
preserva�‹o da identidade, Ž abordada a import‰ncia da fam’lia, dos av—s e
dos antepassados ind’genas. Nesse cap’tulo, a personagem Cunhata’ viaja por
diversos espa�os e nesse ato de viajar Òouve vozes intercaladas e, no meio
delas, escuta a voz ancestralÓ (POTIGUARA, 2019, p. 87).
No cap’tulo cinco, que tem por t’tulo Exalta�‹o ˆ terra, ˆ cultura e ˆ
ancestralidade, Eliane Potiguara narra os deslocamentos de Cunhata’ e
Jurupiranga pela terra, pela cultura e pela ancestralidade, ao passo que
apresenta ainda mais o seu processo de vida enquanto escritora ind’gena.
O cap’tulo seis Ž bastante curto, nele, s‹o
abordadas as quest›es acerca da Combatividade
e Resist�ncia dos povos ind’genas, bem como os percal�os enfrentados por
Jurupiranga. Anterior a isto, n‹o havia men�›es sobre o paradeiro de
Jurupiranga, pois o foco estava em narrar os dissabores de Cunhata’. Neste
cap’tulo, nos Ž informado as aventuras e percal�os pelos quais Jurupiranga
passou, bem como o sonho da liberdade, da justi�a, da paz. J‡ o cap’tulo sete, Vit—ria dos povos, apresenta o final da
narrativa, a uni‹o entre Cunhata’ e Jurupiranga e o reencontro com a identidade
que fora rasurada com a invas‹o do homem branco.
Metade Cara, Metade
M‡scara Ž
uma obra marcante; nela, Eliane Potiguara narra, poetiza, conta, relata,
denuncia, liberta e anuncia o reencontro dos que foram separados. Os valores
liter‡rio e social se hibridizam e resultam na grande potencialidade que Eliane
Potiguara tem de escrever para se autoafirmar e tambŽm afirmar os seus parentes
ind’genas, que lutam constantemente pela valoriza�‹o e respeito e pelo
reencontro.
Mem—ria coletiva e identidades ind’genas
A literatura ind’gena de Eliane Potiguara
funciona como uma a�‹o de refor�o da identidade ind’gena. Em seus escritos,
propostos em diferentes g�neros, a escritora, n‹o produz algo apartada da
identidade herdada dos ancestrais. A proposta liter‡ria de Eliane Potiguara n‹o
Ž indigenista, literatura escrita por antrop—logos, pesquisadores, escritores
n‹o ind’genas; tampouco indianista, aquela do romantismo brasileiro que prop™s
uma representa�‹o do ’ndio pautada no discurso colonial. A literatura escrita
por Eliane Potiguara Ž chamada literatura ind’gena, pois parte de um lugar
identit‡rio pr—prio; Ž a pr—pria ind’gena que a escreve, que narra.
Assim, em seus escritos, Potiguara desvincula a
imagem do ind’gena da vis‹o nacionalista e do senso comum, apresenta a
identidade ind’gena em suas narrativas, bem como a mem—ria ind’gena, levando em
considera�‹o seus relatos memoriais e suas viv�ncias em comunidade e/ou fora
dela.
Problematizando o conceito de identidade, em A identidade cultural na p—s-modernidade,
Stuart Hall buscou distinguir tr�s concep�›es de sujeitos identit‡rios. Para
ele, h‡ o sujeito do Iluminismo, que Ž centrado e dotado de raz‹o; o sujeito
sociol—gico, aquele que necessita dos outros, pois n‹o Ž independente; e o
sujeito p—s-moderno, o indiv’duo que n‹o possui uma identidade com fixidez.
Assim, debatendo acerca da crise da identidade, o pensador nos prop›e pensar
n‹o no termo identidade, mas, sim, em identifica�‹o, como algo que est‡
em andamento. Nesta concep�‹o, entende-se que n‹o h‡ apenas uma identidade ou
um processo de identifica�‹o, mas, identidades mœltiplas e processos diversos
de identifica�›es. Com isso, esse intelectual nos leva a observar que
[...] a identidade Ž realmente algo formado, ao logo
do tempo, atravŽs de processos inconscientes, e n‹o algo inato, existente na
consci�ncia no momento do nascimento. Existe sempre algo Òimagin‡rioÓ ou
fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, est‡ sempre Òem
processoÓ, sempre Òsendo formada (HALL, 2006, p. 38).
Nessa perspectiva, a identidade est‡ sempre em
processo de forma�‹o, Ž um fazer-se inacabado. A incompletude acontece pelo
fato de os sujeitos precisarem estar cada vez mais em processos formativos e de
complementa�‹o. Quando pensamos em identidade ind’gena estamos pensando em
processos de forma�‹o, pois, esta identidade busca apresentar quem Ž esse ind’gena,
quais as suas ra’zes, qual a sua ancestralidade.
Para Graœna (2013), a no�‹o de identidade na
literatura ind’gena est‡ associada a ideia de deslocamento, a pesquisadora
ind’gena bebe dos estudos de Stuart Hall, que compreende o deslocamento como o
processo de di‡spora. Esse ato de deslocar-se evocar‡ a concep�‹o de diferen�a
e isso dar‡ a esta literatura um car‡ter identit‡rio, ou seja, por ser
diferente, por possuir identidade pr—pria, ser‡ refletido no texto liter‡rio a
consci�ncia do cidad‹o e da cidad‹ ind’gena (GRAòNA, 2013).
No decorrer do tempo, diversos povos ind’genas
foram obrigados a silenciarem suas identidades pelo fato de serem diferentes,
de estarem em di‡spora. H‡ como exemplo a fam’lia de Eliane Potiguara que
precisou migrar para o Rio de Janeiro e precisou se adaptar a uma identidade
cosmopolita.
Em O poder
da identidade, Manuel Castells afirma que a identidade Ž uma constru�‹o
social, marcada por rela�›es de poder, assim, o autor aponta tr�s tipos de
identidade: a identidade legitimadora, a de resist�ncia e a identidade de
projeto. Aqui, nos interessa a identidade de resist�ncia, pois nela a
identidade dos povos ind’genas Ž refletida, inclusive a da escritora Eliane
Potiguara.
Assim, Castells prop›e que a identidade de
resist�ncia foi:
[...] Criada por atores
que se encontram em posi�›es/condi�›es desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela
l—gica da domina�‹o, construindo, assim, trincheiras de resist�ncia e
sobreviv�ncia com base em princ’pios diferentes dos que permeiam as
institui�›es da sociedade [...] (CASTELLS, 2018, p. 56).
Esta concep�‹o indenit‡ria
de resist�ncia mantŽm rela�›es com a identidade vivida pelos povos ind’genas
brasileiros. Ela Ž processual como prop›e Hall (2006) e est‡ em condi�›es de estigmatiza�‹o
pela l—gica da domina�‹o, como citado acima. No entanto, h‡ atos de resist�ncia
e sobreviv�ncia para manter essa identidade viva, pois Òela d‡ origem a formas
de resist�ncia coletiva diante de uma opress‹oÓ (CASTELLS, 2018, p. 57).
Dessa forma, Òa literatura produzida por ind’genas brasileiros apresenta na sua constitui�‹o as suas pr—prias caracter’sticas, tanto na forma quanto no conteœdoÓ (FIGUEIREDO, 2018, p. 130), um conteœdo pr—prio, embasado na identidade e na mem—ria e que avan�a de gera�‹o para gera�‹o. Nessa perspectiva, pensamos a mem—ria como um ato coletivo, no qual, o sujeito estabelece rela�›es com os que est‹o ou estiveram consigo.
Pode-se pensar a escrita de Potiguara tambŽm como uma a�‹o memorial individual, porŽm h‡ nos textos da autora muito mais do coletivo, da sua fam’lia, dos seus av—s. Em A mem—ria coletiva, o soci—logo Maurice Halbwachs aponta que Ò[...] nossas lembran�as permanecem coletivas, e elas nos s‹o lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais s— n—s estivemos envolvidos, e com objetos que s— n—s vimosÓ (HALBWACHS, 1990, p. 26).
Sendo a mem—ria o elemento que agrega as nossas lembran�as e os acontecimentos vividos e que mostra que n‹o estamos s—s, fica evidente que a nossa individualidade Ž atravessada pela coletividade daqueles que est‹o ao nosso redor, em nosso cerco de rela�›es familiares e afetivas.
Dessa forma, Daniel Munduruku prop›e pensar a mem—ria ind’gena da seguinte forma:
A mem—ria Ž, pois, ao mesmo tempo passado e
presente que se encontram para atualizar os repert—rios e encontrar novos
sentidos que se perpetuar‹o em novos rituais que abrigar‹o elementos novos num
circular movimento repetido ˆ exaust‹o ao longo de sua hist—ria (MUNDURUKU,
2018, p. 81).
Para
Munduruku (2018), a mem—ria Ž resultado do passado – ou seja, da
ancestralidade – em sintonia com os saberes atuais, apreendidos no dia a
dia dos povos de modo que os movimentos anteriores da hist—ria s‹o repetidos em
novos movimentos, atualizando esse conhecimento memorial e preservando-o ao
mesmo tempo. Nesse contexto, para os povos ind’genas, a mem—ria, em sua g�nese
Ž, principalmente, realizada de maneira coletiva.
A mem—ria coletiva, ent‹o, Ž entendida como os elementos herdados dos ancestrais e partilhados pelos anci‹os, pelos pais, seja de forma oral, gr‡fica ou corporal, sendo marca essencial para a constru�‹o da poŽtica de Eliane Potiguara. A coletividade Ž reverberada em cada verso, em cada palavra, como vemos em Identidade Ind’gena, que Ž uma jun�‹o da forma poŽtica com a autobiografia, n‹o apenas da escritora, mas, dos seus av—s.
No entanto, vale mencionar o quanto o conhecimento ancestral, dos mais velhos Ž essencial para a constru�‹o do texto liter‡rio ind’gena, pois o saber, a mem—ria dos av—s, Ž um conjunto de mem—rias coletivas, visto que esses j‡ atravessaram diversos campos da vida e acumularam mem—rias que os edificaram. O saber dos anci‹os e a mem—ria que eles possuem articulam-se de modo a garantir a perpetua�‹o da ancestralidade, e o escritor e a escritora ind’gena quando escrevem, trazem em si as marcas dos anci‹os e anci‹s, colocando no texto aquilo pelo qual os mais velhos j‡ passaram e contaram, dando a essas narrativas um car‡ter estŽtico.
A
poŽtica contempor‰nea de Eliane Potiguara rompe com a ideia de mŽtrica e prop›e
um poema com estrofes irregulares e com versos soltos, ora extensos, ora
curtos. A mem—ria ind’gena Ž cantada atravŽs do poema e a irregularidade na
organiza�‹o n‹o inibe este elemento de aparecer. Para tal, a voz l’rica exclama:
Mas n‹o sou eu s—
N‹o somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da hist—ria.
Seremos milh›es unidos
como cardume
E n‹o precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas l‡grimas
Por quem n‹o nos tem respeito.
A migra�‹o nos bate ˆ porta
As contradi�›es nos envolvem
As car�ncias nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consci�ncia se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas n‹o perdemos o amor (POTIGUARA, 2019, p. 113).
A voz do poema reclama os ultrajes j‡ sofridos pelos ind’genas, faz um retorno a mem—ria dos parentes que sofreram e reafirma que, embora perseguidos, n‹o aceitar‹o mais a persegui�‹o, a migra�‹o e as contradi�›es. Inicia a estrofe pensando no futuro, pois n‹o Ž nem est‡ ou estar‡ sozinha, grita: ÒSeremos milh›es unidos como cardumeÓ. Assim, a voz do eu l’rico ind’gena, atŽ ent‹o individual, come�a a apontar uma coletividade e exclamam a ancestralidade coletiva e em seguida o desejo de justi�a. Justi�a pelo massacre, pelas l‡grimas derramadas, pelos que faltaram com respeito contra esses povos.
A mem—ria coletiva tambŽm Ž acionada nos
versos Òa migra�‹o nos bate ˆ portaÓ
e Òas contradi�›es nos envolvemÓ. Tais versos apontam para o processo
diasp—rico vivido por diversas fam’lias ind’genas, que, embebidos na
contradi�‹o do amanh‹, n‹o sabiam se sobreviveriam ao processo. Percebemos que
a voz l’rica est‡ muito insatisfeita e carrega em si marcas e dores, quando
diz: ÒComo se batessem na nossa cara toda horaÓ. No entanto, o œltimo verso da
estrofe Ž uma marca potente de valoriza�‹o da identidade ind’gena, pois se afirma
Òmas n‹o perdemos o amorÓ, e assim vemos o qu‹o foi importante o amor herdado
dos ancestrais. Adiante, a voz ind’gena
exclama.
Eu viverei 200, 500 ou
700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabe�a
Como quem procura a fonte da tua for�a
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que j‡ passou
Mas que vamos recuperar [...] (POTIGUARA, 2019,
p. 114).
Aqui, a voz l’rica dirige a palavra ˆ identidade. As dores vividas ser‹o contadas com o intuito de observar no passado sofrido o elemento resist�ncia ind’gena. Assim, aponta-se a preserva�‹o da identidade ind’gena, e tambŽm com grande insist�ncia o ato de recuperar esta identidade tirada de forma brutal e negligente. A identidade Ž vista como fonte de for�a, sendo respons‡vel pelo retorno ind’gena. Caso contr‡rio, a coloniza�‹o teria deslegitimado todos os sujeitos ind’genas, visto que grande parte foi introduzida em novas identidades, ocidentais, crist‹s, brancas, etc. No entanto, essa luta pela recupera�‹o identit‡ria Ž constante, de forma que, mais adiante, a voz ind’gena proclama:
Seremos n—s, doces, puros, amantes, gente
e normal!
E te direi identidade: Eu te amo!
E nos recusaremos a morrer,
A sofrer a cada gesto, a cada dor f’sica,
moral e espiritual.
N—s somos o primeiro mundo! (POTIGUARA, 2019, p. 114).
A identidade ind’gena Ž vista no poema como
poder, para ent‹o, viver, amar e recusar-se a morrer. O verso ÒE te direi
identidade: Eu te amo!Ó comprova a rela�‹o identit‡ria como mecanismo de
fundamental import‰ncia para a constru�‹o do sujeito ind’gena. A mem—ria, no
poema, aparece, n‹o apenas, mas com maior insist�ncia, nos elementos de
sofrimento, a voz do poema lembra de cada gesto sofrido, de cada dor f’sica,
moral e espiritual, mas que se recusa a morrer e busca exclamar: ÒN—s somos o
primeiro mundo!Ó, ou seja, somos os primeiros que habitavam essas terras,
viv’amos da partilha e do trabalho, portanto, queremos reencontrar aquilo que
foi/Ž nosso.
Identidade Ind’gena descende do que fora herdado por Eliane Potiguara dos seus av—s e funciona como elemento portador da not’cia do reencontro, como reitera Munduruku (2018). No decorrer dos versos, a(s) voz(es) menciona(m) a luta em meio ao processo colonizat—rio, os sofrimentos, mas tambŽm a coragem, a ousadia e a esperan�a dos povos ind’genas. Esperan�a que provoca luta e resist�ncia:
A’ queremos viver pra lutar
E encontro for�a em ti, amada identidade!
Encontro sangue novo pra suportar esse
fardo
Nojento, arrogante, cruel... (POTIGUARA, 2019,
p. 115).
A partir do verso ÒA’ queremos viver para lutarÓ notamos que o eu (n—s) ind’gena prop›e pensar que a luta ind’gena Ž constante, pensamos esse eu como uma voz coletiva, e o uso do verbo querer na primeira pessoa do plural evoca essas vozes. S‹o vozes que n‹o ficam estagnadas, ao contr‡rio, encontram na identidade for�as, para ent‹o lutarem pelos de ontem, os de hoje e os de amanh‹. E, se recusa a carregar esse fardo da coloniza�‹o, que Ž ÒNojento, arrogante, cruelÓ. A œltima estrofe canta a liberdade e o resgate da mem—ria. A liberdade aparece como uma categoria que existe a partir da a�‹o de lutar. Os ind’genas lutam contra as imposi�›es do colonizador e concretizam aos poucos essa liberdade t‹o almejada:
N—s, povos ind’genas
Queremos brilhar no cen‡rio da hist—ria
Resgatar nossa mem—ria
E ver os frutos de nosso pa’s, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e ÒdesplazadosÓ
Como n—s (POTIGUARA, 2019, p. 115).
O poema encerra-se clamando por liberdade. Ser livre Ž essencial para manter viva cada vez mais a mem—ria e a ancestralidade ind’gena. O ato de ser livre s— acontece pelo fato de o ind’gena n‹o aceitar a�‹o de docilizar o seu corpo, esse corpo que possui uma identidade pr—pria e que n‹o precisa ser moldado em outra identidade. O eu-poŽtico ind’gena quer viver da identidade e da mem—ria ind’gena, do resgate, quer brilhar no cen‡rio da hist—ria, quer resgatar a mem—ria. Embora ÒdesplazadosÓ, ou seja, deslocados, os ind’genas n‹o querem divis‹o entre os seus, mas, sim, viver na tessitura do acolhimento, da unidade. A identidade e a mem—ria mencionadas no decorrer do poema descende de gera�›es e a voz coletiva quer preservar esses elementos, que s‹o essenciais para a renova�‹o e preserva�‹o da ancestralidade.
O poema Eu n‹o tenho minha aldeia, por sua vez, tambŽm apresenta elementos memoriais e identit‡rios, a voz l’rica proclama atravŽs de car‡ter autobiogr‡fico o fato de n‹o ter uma aldeia[42]. A cada estrofe do poema podemos perceber a voz do eu l’rico de car‡ter feminino proclamando que, embora n‹o tenha nascido na sua aldeia, a heran�a espiritual e ancestral dos antepassados ela possui, est‡ sempre a acompanhando. E, acima de tudo a voz poŽtica clama por toler‰ncia, respeito, amor e solidariedade, valores estes que os povos ind’genas possuem e refor�am a identidade de sujeitos que vivem na coletividade, heran�a dos ancestrais, como podemos ver na estrofe a seguir:
Eu n‹o tenho minha aldeia
Minha aldeia Ž minha casa espiritual
Deixada pelos meus pais e av—s
A maior heran�a ind’gena.
Essa casa espiritual
ƒ onde vivo desde tenra idade
Ela me ensinou os verdadeiros valores
Da espiritualidade
Do amor
Da solidariedade
E do verdadeiro significado
Da toler‰ncia (POTIGUARA, 2019, p. 151).
Este poema possui um car‡ter autobiogr‡fico.
Tendo nascido no Rio de Janeiro e sendo criada por sua av—, uma matriarca
ind’gena Potiguara, a voz de Eliane se iguala ˆ voz do poema, quando diz: ÒEu
n‹o tenho minha aldeiaÓ, mas, em seguida, menciona que a sua aldeia Ž a casa
espiritual; assim, entendemos que esta casa Ž a av— Maria de Lourdes, a heran�a
ind’gena com quem ela tanto esteve, desde a tenra idade e com quem aprendeu os
verdadeiros valores ÒDa espiritualidade/ Do amor/ Da solidariedade/ [...] Da toler‰nciaÓ.
Assim, neste poema, a voz ind’gena retorna a um
campo memorial, pois, se tratando de uma narrativa com tra�os autobiogr‡ficos,
retorna ao sofrimento da fam’lia de Potiguara que, quando amea�ada, precisou
sair do Rio Grande do Norte para sobreviver, mas tambŽm aos campos de diversas
outras fam’lias ind’genas brasileiras que passaram pela mesma situa�‹o.
A voz, atŽ ent‹o silenciada, refor�a na poesia
ind’gena de Eliane Potiguara que a mem—ria dos ancestrais n‹o se perde, ela se
mantŽm viva em cada narrativa e Ž refor�ada em cada verso. O valor herdado dos
antepassados reacende a chama da luta e da busca por respeito, que faz com que
Potiguara enquanto ind’gena desaldeada possa se autoafirmar mulher ind’gena, sobrevivente da migra�‹o for�ada e
militante da causa ind’gena, esteja onde estiver. ƒ assim que a voz poŽtica
conclui o poema:
Ah! J‡ tenho minha aldeia
Minha aldeia Ž meu Cora�‹o ardente
ƒ a casa dos meus antepassados
E do topo dela eu vejo o mundo
Com o olhar mais solid‡rio que nunca
Onde eu possa jorrar
Milhares de luzes
Que brotar‹o mentes
Despossu’das de racismo e preconceito
(POTIGUARA, 2019, p. 152).
O eu-poŽtico evidencia que possui uma
ancestralidade viva atravŽs da mem—ria herdada pelos ancestrais. Por isso, na
tessitura narrativa, enaltece a identidade que come�ara a ser formada e afirma
que: ÒMinha aldeia Ž meu Cora�‹o ardente / ƒ a casa dos meus antepassadosÓ.
Assim, reconhece que n‹o est‡ s—, mas enxerga tambŽm que n‹o est‡ imune ao
preconceito, ao racismo. No entanto, sonha com uma sociedade sem intoler‰ncia
em que poder‡ cantar a voz ancestral, livre de julgamentos e condena�›es dos
homens brancos.
Algumas considera�›es: outras toantes
As textualidades ind’genas escritas carregam em
si as marcas da oralidade. As narrativas ind’genas fazem parte de uma a�‹o
h’brida, na qual, oralidade e escrita se entrela�am. Metade cara, Metade m‡scara, por exemplo, traz muito dessa hibridez
tanto nos diferentes g�neros, quanto nas mem—rias orais que Eliane Potiguara
herdou de sua av— Maria de Lourdes.
A produ�‹o liter‡ria de Eliane Potiguara resgata
mem—rias e sensa�›es, carrega a marca da migra�‹o, do sofrimento enfrentado por
sua fam’lia, meios dos quais retira tambŽm a for�a para escrever em mem—ria de
seus av—s, dos seus ancestrais, dos anci‹os. Trata-se de uma escrita
identit‡ria, memorial e ancestral, que desvincula a imagem do ind’gena das
propostas coloniais, do homem branco e proclama a beleza do povo ind’gena. Os
poemas presentes em Metade cara, Metade
m‡scara evocam mem—rias coletivas que foram herdadas por Eliane de sua av—,
que por sua vez herdou dos seus antepassados, assim, s‹o mem—rias de processos
acumulativos.
Com isso, seja na prosa ou no verso, ler Eliane
Potiguara Ž mergulhar pelos espa�os dos Potiguara do Rio Grande do Norte,
passar tambŽm pelos aprendizados enquanto ela estava trancada no quarto com sua
av— no Rio de Janeiro, Ž perceber a luta identit‡ria pela autoafirma�‹o
ind’gena, pensar tambŽm na luta pelos direitos humanos, das mulheres ind’genas,
problematizar o racismo e o preconceito e o genoc’dio dos parentes.
Assim, a
escrita de Eliane Potiguara, e, aqui mais precisamente, a poesia dessa mulher
ind’gena, metaforicamente, Ž rio a ser mergulhado. Ao mergulharmos nos rios do
Nordeste e do Sudeste atravŽs de suas mem—rias, podemos evidenciar que a poesia
de Eliane Potiguara proclama a luta do seu povo e o valor identit‡rio de ser
ind’gena, o que um dia esteve na mem—ria (e ainda est‡) agora chega ˆ tessitura
narrativa escrita e nos leva a banhos necess‡rios de ancestralidade.
Refer�ncias
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POTIGUARA,
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Rio de Janeiro. 3. ed. GRUMIM, 2019.
ZUMTHOR,
Paul. Performance, recep�‹o, leitura.
Tradu�‹o de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: Cosac Naify,
2007.
ZUMTHOR,
Paul. La letra y la voz. Madrid:
C‡tedra, 1989
[Recebido: 16 ago 2020
– Aceito: 02 jul 2021]
Ò... MESMO QUE NOS ARRANQUEM OS DENTES E
A LêNGUA.Ó: A POTæNCIA PER-FORMATIVA DA LITERATURA DE ELIANE POTIGUARA[43]
Ò... EVEN IF THEY
PULL OUR TEETH AND TONGUE.Ó: THE PER-FORMATIVE POTENCY OF THE LITERATURE OF
ELIANE POTIGUARA
Renata Daflon
Leite[44]
https://orcid.org/0000-0002-2498-779X
Resumo:
Discute-se o tema da
ancestralidade nas narrativas da autora Eliane Potiguara, relacionando-o ˆ
defesa de uma pol’tica da exist�ncia, destacando, assim, o aspecto ritualizado
dessa literatura que se desenvolve na t�nue fronteira entre a oralidade e a
escrita. Parte-se da escrita de Eliane Potiguara para apontar a conquista de um
espa�o que vem se firmando enquanto pr‡tica permanentemente articulada em redes
de saberes ind’genas como o Grumin – Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena,
surgido na dŽcada de 80, constituindo pol’ticas de resist�ncia objetivas.
Ressalta-se o quanto o car‡ter social e Žtico da literatura ind’gena pode nos
estimular a fazer aproxima�›es com o Campo de Estudos da Performance, por meio
da investiga�‹o de Diana Taylor sobre Mem—ria Cultural nas AmŽricas. Destaca-se
o aspecto de inova�‹o deste g�nero liter‡rio que nasce articulado com o
movimento ind’gena, tendo a singularidade de afirmar-se enquanto cria�‹o que
redimensiona os aspectos pol’ticos da prosa, da poesia, de cartilhas educativas,
do desenho e da literatura de testemunho, nos quais a ancestralidade fundamenta
a a�‹o pol’tica.
Palavras-chave: Literatura ind’gena. Ancestralidade.
Performances pol’ticas.
Abstract:
It discusses the theme of ancestry
in the narratives of the author Eliane Potiguara, relating with the defense of
a politics of existence thus highlighting the ritualized aspect of this
literature that develops in the tenuous border between orality and writing. It
starts from the writing of Eliane Potiguara to point out the conquest of a
space that has been established as a practice permanently articulated in
networks of indigenous knowledge such as GRUMIN, the Group of Indigenous
Women-Education that emerged in the 80's, constituting as an objective
political resistance. It is noteworthy how much the social and ethical
character of the indigenous literature can stimulate us to make approximations
with the Field of Performance Studies, through the investigation of Diana
Taylor on Cultural Memory in the Americas. The innovation aspect of this
literary genre is articulated with the indigenous movement, with the
singularity of being affirmed as a creation that reshapes the political aspects
of prose, poetry, educational booklets, drawing and testimonial literature,
where the ancestry grounds the political action.
Keywords: Indigenous
Literature. Ancestry. Political Performances.
Foram muitas vidas
violadas, culturas, tradi�›es, religi›es, espiritualidade e l’nguas. A verdade
est‡ chegando ˆ tona, mesmo que nos arranquem os dentes! O importante Ž
prosseguir. ƒ comer caranguejo com farinha, peixe seco com beiju e mandioca. ƒ
olhar o mar e o cŽu. E reverenciar os mortos, os ancestrais. ƒ sonhar os sonhos
deles e v�-los. ƒ conviver com as Òmanias de cabocoÓ, mesmo que sufocados pela
confus‹o urbana ou as amea�as agrestes, porque na realidade s‹o as rela�›es
mais sagradas de nosso povo, porque s‹o rela�›es com a terra e com o criador,
nosso Deus Tup‹. Bonito Ž vestir os trajes do TorŽ e honrar-se como se vestisse
os trajes dos reis e senti-los como a express‹o m‡xima das rela�›es entre o
homem, a terra e Deus. ƒ sentir o sagrado e o universo. O importante Ž crer e
confiar mesmo que na noite anterior violaram nossa casa ou nosso corpo
(POTIGUARA, 2004, p. 79-80).
A literatura como expans‹o
de um grito estrangulado
A literatura ind’gena apresenta-se como
um espa�o pol’tico-cultural em cont’nuo movimento, deixando-nos entrever uma
rela�‹o tensional-criativa tanto entre escrita e oralidade, quanto entre
pol’tica e ancestralidade, ao evidenciar em sua transmiss‹o um processo em que
as performances de resist�ncia pol’tica est‹o imbricadas nas performances
rituais tradicionais. Um livro escrito por um autor ind’gena Ž uma obra que
apresenta a singularidade de ser delineada na t�nue fronteira entre o oral e o
escrito, fruto de uma individualidade autoral concebida na partilha e difus‹o
de uma cosmovis‹o espec’fica, reafirmada pelo movimento ind’gena de
fortalecimento identit‡rio, preserva�‹o e renova�‹o cultural. Lan�amos aqui um
olhar para o livro Metade Cara, Metade
M‡scara da escritora ind’gena Eliane Potiguara, por evidenciar uma estreita
rela�‹o entre ancestralidade e pol’tica, a come�ar pelo t’tulo em refer�ncia ao
sinal em cor de jenipapo que a autora traz no rosto. Nascida com uma mancha
roxa no olho direito, identificada pelos Kaiap—s como marca de ancestralidade,
a autora nos conta que teve sua espiritualidade reacendida pelo cacique Jo‹o
Batista Faustino, que lhe dizia que o p‡ssaro Pitiguary cantava sempre que ela
se aproximava. O canto m’tico desta ave, conhecida por anunciar a chegada de
quem tem uma miss‹o na Terra, envolve, assim, as palavras da escritora numa
espacialidade fecundada pelas mœltiplas vozes coletivas da tradi�‹o
redescoberta. Na apresenta�‹o da obra, feita por Daniel Munduruku, podemos ler
que Òo movimento ind’gena nasce de um primeiro exerc’cio de express‹o da
pr—pria dor, de um momento de liberdade, ainda que ilus—rio; um ‡timo de
futuroÓ. Ele nos lembra que Òagora Ž hora de ler as palavras que foram ditas ao
papel, j‡ que dos primeiros l’deres muito se viu e ouviu, mas pouco se leuÓ (MUNDURUKU, 2004, p. 15-16). ƒ
interessante destacarmos tambŽm a introdu�‹o feita por Gra�a Graœna, na qual o
livro Ž visto como exemplo de Òuma literatura que expande o seu grito, dos mais
exclu’dos, e tece a esperan�a de poder refletir os problemas dos povos
ind’genas e seus descendentesÓ (GRAòNA, 2004, p. 17).
Defendemos aqui que a performatividade
dessa escrita est‡ em resgatar o espa�o sagrado da fala ancestral, reiterando
pr‡ticas espiritualizadas, antes restritas a oralidade e defendendo o direito
de exerc�-las, por meio de um posicionamento pol’tico em que a subjetividade do
autor est‡ profundamente implicada, conforme podemos ler na ep’grafe:
No dia em que eu
conseguir abrir as p‡ginas de minhÕalma e contar essas linhas de meu
inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou
desprazeres, com amores ou —dios, no cŽu ou na terra – a’ sim, vou soltar
a minha voz num grito estrangulado, sufocado h‡ cinco sŽculos. Quinhentos anos,
de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, n‹o pagam o sangue derramado
pelas bisav—s, av—s, m‹es e filhas ind’genas deste pa’s. Este dia certamente
chegar‡, mesmo que eu esteja em outros planos (POTIGUARA, 2004, s/p).
A narrativa de Eliane traz ˆ tona
mem—rias que foram apagadas pelo colonialismo e neocolonialismo, insistindo em
nos fazer ver aquilo que ela denomina como sendo o Òin’cio da solid‹o das
mulheresÓ (POTIGUARA, 2004, p. 24). A autora Potiguara nos lembra os relat—rios
do sŽculo XVIII feitos por Padre Fernandes, em que 2 milh›es de ’ndios Guaranis
foram assassinados em 130 anos, exemplificando com o assassinato de SepŽ
Tiaraju e mais de 10 mil Guaranis na batalha de 7 de fevereiro de 1756, pr—ximo
a BagŽ, sudoeste do Rio Grande do Sul:
Sua esposa Marina
(Ju�ara)[45],
levaria ˆs costas a menina recŽm-nascida que SepŽ jamais veria. Era o in’cio da
solid‹o das mulheres, motivada pela viol�ncia, racismo e todas as formas de
intoler‰ncia, referentes inclusive ˆ espiritualidade e ˆ cultura ind’genas
(POTIGUARA, 2004, p. 23).
Este
epis—dio de exterm’nio dos Guaranis revela um imagin‡rio pol’tico racializado,
que legitima a domina�‹o dos ÒcivilizadosÓ europeus sobre os povos ÒselvagensÓ,
proclamando, na subjuga�‹o do corpo e na Òcoisifica�‹oÓ do sujeito ind’gena, um
princ’pio de organiza�‹o calcado no terror. Mbembe (2018, p. 35) comenta que
Òas col™nias s‹o o local por excel�ncia em que os controles e as garantias de
ordem judicial podem ser suspensos – a zona em que a viol�ncia do estado
de exce�‹o supostamente opera a servi�o da civiliza�‹oÓ. O exerc’cio de
um poder ˆ margem da lei nas col™nias provŽm da nega�‹o racial de qualquer
v’nculo entre conquistador e nativo. Os ÒselvagensÓ careceriam de humanidade e
quando os europeus os massacravam n‹o tinham consci�ncia de cometerem um crime.
Na col™nia, o direito soberano de matar n‹o est‡ sujeito a c—digos legais e
comp›e uma ocupa�‹o sociopol’tica, cultural e econ™mica, baseada na
classifica�‹o das pessoas de acordo com diferentes categorias, donde emergem
zonas e enclaves que d‹o margem ˆ uma territorialidade restrita. Na
contemporaneidade, o exerc’cio do direito de matar n‹o se restringe ˆs guerras
territoriais de conquista-anexa�‹o da modernidade, espraiando-se em um mosaico
de direitos de governar sobrepostos que visam a sujei�‹o e a coer�‹o do
colonizado (MBEMBE, 2018).
Quijano (2015, p.122-126) estabelece que
a colonialidade do poder eurocentrado surge na constitui�‹o hist—rica da
AmŽrica, culminando no processo de globaliza�‹o contempor‰nea, calcada num novo
padr‹o de poder mundial que tem na ra�a o elemento fundacional de rela�›es de
domina�‹o exigidas pela conquista e, mais tarde pelas formas hist—ricas de
controle do trabalho, dos recursos e de produtos no mercado mundial capitalista.
O projeto civilizat—rio etnoc�ntrico relocalizou as singulares identidades
nativas dentro de um padr‹o cognitivo associado ao passado e ao primitivo.
Vemos em Quijano (2015, p. 127) que o eurocentrismo reduziu as heterogeneidades
culturais astecas, maias, chimus, aimar‡s, incas, chibchas, etc.,
circunscrevendo-as todas sob uma œnica identidade: ’ndios. O mesmo vai
acontecer com os escravos achantes, iorub‡s, zulus, congos, bacongos, etc, que
a racionalidade colonialista homogeneizaria sob uma œnica nomenclatura: negros.
A constru�‹o do Estado-na�‹o nas col™nias europeias foi trabalhada contra a
maioria da popula�‹o composta por negros, ’ndios e mesti�os. ÒA colonialidade
do poder ainda exerce seu dom’nio, na maior parte da AmŽrica Latina, contra a democracia,
a cidadania, a na�‹o e o Estado-na�‹o modernoÓ (QUIJANO, 2005, p. 135-136).
Eliane comenta que a invas‹o das terras
ind’genas, conveniente para pol’ticas locais, causou desmatamento, assoreamento
dos rios, polui�‹o ambiental e diminui�‹o da biodiversidade local, alŽm de
trazer fome e empobrecimento compuls—rio da popula�‹o ind’gena, levando muitas
fam’lias ˆ migra�‹o, ao trabalho semiescravo e a pŽssimas condi�›es de moradias
(favelas e casas de palafitas na periferia dos centros urbanos), trazendo
distœrbios mentais, alcoolismo e suic’dio. Sua an‡lise cr’tica prop›e que a
coloniza�‹o e a neocoloniza�‹o tambŽm refletem grupos de interesses religiosos,
que tentam impor um paternalismo eclesi‡stico como forma de racismo,
desrespeitando as tradi�›es culturais ind’genas (POTIGUARA, 2004, p. 44).
A
autora Potiguara afirma a cosmovis‹o das mulheres como um instrumento de
liberta�‹o do povo ind’gena que leva ao despertar do ser sutil, intuitivo e
selvagem no sentido de uma ess�ncia espiritual primeva. Sob esse prisma, Òo ato
de cria�‹o Ž um ato de amorÓ e resgate do selvagem sagrado que Òj‡ estava
dentro de n—s e n‹o sab’amosÓ. A cria�‹o art’stica em todas as suas vertentes,
dentre as quais a liter‡ria, emerge como um vulc‹o, uma (r)evolu�‹o do
esp’rito, um �xtase: ÒE esse œnico ato de cria�‹o Ž o suficiente para alimentar
um oceano, assim como o leite doce e materno de uma jovem m‹e Ž o suficiente
para trazer de volta um ser nascido prematuramenteÓ (POTIGUARA, 2004, p. 58).
Estamos diante de uma
escrita-como-ve’culo, um Òsoltar a voz num grito estranguladoÓ, narrativa que
serve como impulso ˆ a�‹o de outras mulheres ind’genas. Estes versos cor de
jenipapo saltam da pele do papel, mostrando-nos a saga de uma mulher ind’gena discriminada,
violentada e v’tima de opress‹o social, mas que guarda consigo a tradi�‹o
passada pelas mulheres de sua fam’lia, conduzindo-a ao que ela chama de
Òretorno ao inconsciente coletivoÓ (POTIGUARA, 2004, p. 27), quando entra para
o movimento ind’gena e reacende sua ancestralidade. A palavra escrita,
apreendida dentro de uma l—gica de expans‹o de sentidos, foi por mim trabalhada
em êndios Online: posts que n‹o querem
calar, ressaltando o car‡ter n‹o linear da significa�‹o poŽtica endere�ada
ˆ divindade. A densidade da autoria feminina ind’gena Ž lida, portanto, numa
apreens‹o deleuziana, na qual o corpo do poema se distende qual plat™
ininterrupto.[46]
Dentro desta concep�‹o inspirada em Deleuze e Guattari (1980), a escritura tem
uma corporeidade vibr‡til, distendendo-se em agenciamentos que transcodificam e
transduzem as cosmovis›es ind’genas, compondo for�as centr’fugas errantes por
onde a voz de Eliane reverbera. Os gradientes de intensidade do poema ganham a
colora�‹o de uma escrita cor de jenipapo que se espraia pela superf’cie
textual, fazendo ecoar vozes e paragens que se inscrevem, como marcas na pele.
A palavra rememora este grito estrangulado que habita, por exemplo, o poema Nossa Casa Ancestral:
AtŽ que um dia
Os nossos filhos mortos, nascidos, e renascidos
Possam relembrar do olhar, docemente,
Da luz envolvente
E da tinta de jenipapo
Cravada pelo Grande Esp’rito em nossa cara
(POTIGUARA, 2004, s/p).
O
ato de ler percorre, assim, as pot�ncias poŽticas de uma escrita-ve’culo,
impulsionado n‹o por uma signific‰ncia un’voca, mas sim pela multiplicidade de
sentidos relembrados no poema. Estamos diante de uma escrita que ausculta o
terreno da palavra renascida, abrindo-se para uma cartografia pol’tica da voz
feminina ind’gena.
Podemos enxergar uma escrita-denœncia no
relato do epis—dio de assassinato do bisav™ da autora, consumado por a�‹o da
fam’lia inglesa colonizadora X:
Conta-se que ’ndio X,
pai das meninas Maria de Lourdes, Maria Isabel, Maria das Neves e Maria
Soledad, por combater a invas‹o ˆs terras tradicionais do Nordeste, foi
assassinado cruelmente, segundo palavras de uns velhos que encontrei um dia.
Amarraram-lhe pedras aos pŽs, introduziram-lhe um saco ˆ cabe�a e o
arremessaram ao fundo das ‡guas do litoral paraibano (POTIGUARA, 2004, p. 24).
Crueldade que provoca a migra�‹o da
fam’lia para Pernambuco em 1928, quando nasce sua m‹e Elza, filha de Maria de
Lourdes, sua av— violentada sexualmente aos 12 anos pelo colonizador. Pouco
tempo depois, a fam’lia migra para o Rio de Janeiro, permanece por um tempo nas
ruas, atŽ que Maria de Lourdes, Ò’ndia, mulher, analfabeta, paraibana,
nordestina e j‡ separada do homem que lhe fez mais dois filhosÓ (POTIGUARA,
2004, p. 24-25) consegue trabalho, estabelecendo-se numa zona degradante da
cidade. Elza passa a tomar conta de seus dois irm‹os, e oito anos depois a
jovem se casa e tem dois filhos, mas seu marido Ž atropelado e ela repete o
destino solit‡rio de sua m‹e. Quando Eliane j‡ tinha 6 anos de idade, sua av—,
que ela descreve como Òmulher ind’gena, analfabeta, paraibana, nordestina e
agora quase m‹o-de-obra escrava nas feiras cariocasÓ (POTIGUARA, 2004, p. 25),
inicia seu processo de cria�‹o para ajudar sua m‹e que trabalhava como
faxineira numa firma, sendo educada e mantida a sete chaves num quarto semiescuro
para preservar sua identidade moral, f’sica e psicol—gica, j‡ que viviam numa
‡rea socialmente comprometida. A av— curandeira tratou de seus tumores alojados
um no olho e outro no mamilo com uma mistura de minhoca amassada, teia de
aranha e visgo de jaca. Quando conseguiam, comiam caranguejo e caldo de
farinha. A menina cresceu ouvindo as hist—rias ind’genas contadas por sua av— e
tias que, mesmo separadas de suas terras originais e violentadas cultural e
fisicamente, souberam preservar seus la�os com a cosmologia ancestral.
A encarcerada domiciliar cresce, torna-se
professora prim‡ria, entrando em contato com a Filosofia da Educa�‹o de Paulo
Freire e, incentivada por sua av— e pelo cantor de origem ind’gena Charrua,
Taiguara, com o qual se une em 1978, faz seu Òretorno ao inconsciente
coletivoÓ, visitando na�›es ind’genas e perseguindo a hist—ria de sua fam’lia.
Ela entra para o movimento ind’gena e, por arquitetar pol’ticas de resist�ncia
denunciando o tr‡gico impacto do arrendamento de terras ind’genas, sofre abuso
sexual, difama�‹o e amea�as de morte, sendo levada a Pol’cia Federal e liberada
ap—s uma a�‹o de solidariedade do Pen
Club da Inglaterra e da organiza�‹o internacional Escritores na Pris‹o,
a�‹o indicada por Genaro Bautista, ’ndio mexicano coordenador da AIPIN (Ag�ncia de Imprensa Ind’gena).
Eliane, ao narrar a sua hist—ria, tira-a
da penumbra e do processo de apagamento da mem—ria, lembrando-nos, no entanto,
que este Ž apenas mais um dos casos de v’timas de viol�ncia e racismo que permanecem
invisibilizados, assim como a situa�‹o de mulheres ind’genas que sofrem abuso
sexual e se tornam v’timas de tr‡fico de mulheres. Entramos em contato com os
testemunhos que Eliane escutou ao longo de sua luta pela garantia dos direitos
ind’genas, como, por exemplo, o da velha louca que foi violentada sexualmente
na inf‰ncia nos anos 1940 por um colonizador que depois fugiu, deixando-a a
espera de seu homem-peixe: ÒEu estava em casa sozinha, cozinhando; entrou um
homem-peixe em minha casa e me tomou o esp’rito e partiuÓ (POTIGUARA, 2004, p.
44-45).
Outros arquivos, outros
repert—rios: o roteiro do descobrimento e a quest‹o do apagamento
O Campo de Estudos da Performance pode
nos ajudar a entrever as disputas presentes na constru�‹o da mem—ria cultural
por intermŽdio da literatura ind’gena, trazendo elementos para enfocar os
aspectos criativos e pol’ticos de inscri�‹o e conquista da palavra ind’gena no
mundo. Taylor (2013) nos diz que as performances funcionam como atos de
transfer�ncia vitais, transmitindo o conhecimento, a mem—ria e um sentido de
identidade social, por meio do que Schechner (2003, p. 27) denomina
Òcomportamento restauradoÓ ou Òcomportamento duplamente exercidoÓ. Este artigo
trabalha a performance como uma lente metodol—gica que alarga e distende as
possibilidades de leitura cr’ticas do livro de Eliane Potiguara, entendendo sua
escrita como fruto da performatiza�‹o di‡ria na esfera pœblica de sua
resist�ncia pol’tica e de suas identidades Žtnicas e de g�nero, funcionando
como um eco dos acontecimentos performativos, uma escrita-a�‹o. Sua voz emerge
como fruto das muitas mem—rias incorporadas transmitidas ˆ autora no colo de
sua av— ind’gena enquanto faziam juntas bolinhas de farinha e caldo de
caranguejo com a m‹o, bem como de todo o sofrimento e discrimina�‹o que
testemunhou ao longo da vida. Trata-se de uma escrita fruto de suas pr‡ticas
incorporadas extremamente fecunda e potente, apontando para um despertar de
consci�ncias.
A literatura ind’gena vai na contram‹o de
uma escrita de m‹o œnica, de um saber que n—s,
acad�micos, produzimos sobre eles, os
’ndios; trata-se de um espa�o de cria�‹o e circula�‹o de conhecimentos que
rompe o paradigma euroc�ntrico e logoc�ntrico das universidades,
apresentando-se como via de acesso a um outro modelo, afinal, as pr‡ticas
culturais ind’genas, profundamente marcadas pela transmiss‹o do conhecimento
incorporado, aparecer‹o tambŽm na palavra escrita. Escrita-a�‹o?
Escrita-mem—ria? Que espa�o essa literatura que expande o Ògrito dos exclu’dosÓ
reivindica ao contar sua pr—pria hist—ria e que pr‡ticas colonialistas ela
denuncia? Que territ—rios ela desestabiliza?
Diana Taylor, em seu livro O arquivo e o repert—rio: performance e
mem—ria cultural nas AmŽricas, debate as no�›es de arquivo e repert—rio
como formas de transmiss‹o de conhecimento, lembrando-nos, no entanto, que a
mem—ria arquiv’stica composta por textos e documentos n‹o Ž imune a mudan�as,
podendo ser ressignificada ao longo do tempo. O repert—rio, por sua vez, encena
a mem—ria incorporada a partir do ritual, da performance e da oralidade, atos
geralmente vistos como conhecimento ef�mero, n‹o reproduz’vel, mas Ž
imprescind’vel sublinhar que as diferen�as entre as duas formas apontam muito
mais para um campo tensional do que um conjunto bin‡rio antag™nico.
Ao delinearmos a performance enquanto
lente metodol—gica e enfocarmos a literatura ind’gena enquanto escrita-a�‹o,
entendemos, enfim, que ela prop›e um movimento entre o livro e o campo,
colocando em xeque a separa�‹o entre arquivo e repert—rio, ao abarcar o
repert—rio de conhecimentos incorporados na forma textual do arquivo, n‹o como
objeto de an‡lise, mas por meio do fluxo performativo das palavras ditas ao
papel, o livro sendo visto como campo performativo.
O texto liter‡rio ind’gena funda um
espa�o de fala que traz para o papel as mem—rias que antes estavam apagadas,
apresentando uma din‰mica em que a emerg�ncia da palavra escrita leva a uma
valoriza�‹o da palavra oral, em que as performances de resist�ncia, manuten�‹o
da tradi�‹o e luta pela garantia dos direitos ind’genas, sustentam e
impulsionam a propaga�‹o do arquivo textual e vice-versa.
A partir do campo de estudos da
performance, esta textualidade pode ser lida para alŽm da palavra, enquanto
atitude cultural, fruto de pr‡ticas culturais incorporadas verbais e n‹o
verbais. Taylor (2013) prop›e trabalhar com roteiros ao invŽs de textos,
enquanto paradigmas de constru�‹o de sentidos que carregam um arcabou�o
port‡til de repeti�›es cumulativas que moldam e ativam dramas sociais. ÒO
roteiro coloca os espectadores dentro de sua moldura, enredando-nos em sua
Žtica e pol’ticaÓ (TAYLOR, 2013, p. 67). Os poemas de Eliane transmitem
conhecimento e mem—ria ao propor a encena�‹o de roteiros n‹o-hegem™nicos
dotados de corporeidade, afinal, Ž Òimposs’vel pensar sobre a mem—ria cultural
e a identidade como desincorporadasÓ (TAYLOR, 2013, p. 134). O poema dedicado
ˆs viœvas ind’genas, No dia que mataram Mar�al Tup‹-Y (ou Òno dia que
mataram nossos av—s ou quando eles desapareceramÓ), fala de uma Òtristeza
cor de prataÓ, de um Òamor doidoÓ, um Òamor das matasÓ proclamado na solid‹o de
uma mulher que prossegue sua luta:
CONSCIENTE
Que jamais se cala...
Mesmo se lhe arranquem
os dentes
Ou se lhe cortem a
garganta gritante! (POTIGUARA, 2004, p. 73).
No cap’tulo Angœstia e desespero pela
perda das terras e a amea�a ˆ cultura, ˆs tradi�›es, n—s nos deparamos com
a rememora�‹o das palavras de Mar�al Tup‹-Y quando ele esteve no Sul do Brasil
em 18 de abril de 1977: ÒEu n‹o fico quieto n‹o! Eu reclamo... Eu falo... Eu
denuncio!...Ó. Potiguara (2004) pontua que esta lideran�a foi assassinada em 25
de novembro de 1983, fato que remete ao assassinato do bisav™ da autora,
levando-nos a encarar frente a frente a foto da bisav— de Eliane, Maria de
Lourdes, que aparece na dedicat—ria da obra, como uma mulher consciente e que
jamais se calou, apesar de carregar uma Òtristeza cor de prataÓ. A palavra
incorporada desta escritora ind’gena Ž composta de mœltiplas camadas de
sentido, fruto de experi�ncias que vivenciou quando em 1995 viajou pelo
interior da êndia com o Programa de Combate ao Racismo, descobrindo pr‡ticas de
viol�ncia ˆs mulheres, que tinham como puni�‹o serem queimadas vivas pelos
homens em suas pr—prias cozinhas, bem como de sua luta em defesa dos direitos
reprodutivos da mulher ind’gena, de sua conviv�ncia com velhos pajŽs e caciques
de diversos povos ind’genas, dos ensinamentos ancestrais passados por sua av—
ou ainda de seu trabalho na Subcomiss‹o de Direitos Humanos da ONU em Genebra
ou dos inœmeros f—runs nacionais e internacionais sobre direitos ind’genas que
participa.
A autora Potiguara nos convida a refletir
sobre a estreita rela�‹o entre pol’tica e ancestralidade quando diz que Òa
liberta�‹o do povo ind’gena passa radicalmente pela cultura, pela espiritualidade
e pela cosmovis‹o das mulheresÓ (POTIGUARA, 2004, p. 46), esclarecendo-nos que
se trata de uma mulher selvagem, n‹o no sentido primitivo da palavra, mas uma
mulher sutil, uma mulher primeira, que n‹o est‡ condicionada a transmitir o
esp’rito de competi�‹o e domina�‹o da sociedade contempor‰nea. Eliane prossegue
e afirma que o poder dela Ž outro: ÒSeu poder Ž o conhecimento passado atravŽs
dos sŽculos e que est‡ reprimido pela hist—riaÓ (POTIGUARA, 2004, p. 46). A
cria�‹o art’stica espiritualizada promove uma a�‹o pol’tica de fortalecimento
Žtnico-identit‡rio e a conquista de um espa�o de express‹o, impulsionando o
autor ind’gena a perpassar os sŽculos como um porta-voz do conhecimento
ancestral.
Podemos considerar que o ato de escritura
e propaga�‹o da palavra ritualizada no mundo seria capaz de promover um furo no
territ—rio competitivo de alto rendimento-efic‡cia-produtividade, consistindo,
assim, num ato essencialmente pol’tico. Eliane Potiguara prop›e a transforma�‹o
do sofrimento e do esfacelamento, por meio da purifica�‹o do esp’rito no ato
criador, neste sentido ela vai alŽm e afirma uma pol’tica da exist�ncia:
Tudo isso Ž simplesmente
pol’tica, a pol’tica da exist�ncia. CRIEMOS, ent‹o... porque a cria�‹o Ž um ato
divino que tende a mudar consci�ncias, formar opini›es, suavizar o
individualismo que ronda as mentes (POTIGUARA, 2004, p. 58).
Trata-se
de uma literatura que faz emergir o espa�o sagrado da fala, mas n‹o podemos
esquecer que s‹o as mulheres as guardi‹s da palavra ancestral, como Potiguara
(2004, p. 59) nos lembra: ÒE a palavra delas Ž sagrada como a terra que d‡ o
alimento ao pr—ximo, alimento da CURA em todos os sentidosÓ. Em seu poema Ato de Amor Entre os Povos, temos dois
personagens, Jurupiranga e Cunhata’, que perpassam o tempo e o espa�o para
falar da sobreviv�ncia ˆ coloniza�‹o e neocoloniza�‹o. ƒ a saga de Cunhata’
que, ap—s vivenciar o desterro pelo assassinato de Jurupiranga, lembra-se de
sua Òidentidade caminhanteÓ gerada no fogo eterno do œtero de seus av—s, como
enunciado nos versos da autora ind’gena:
Porque minha identidade
pra renascer
A qualquer instante
Basta um fio de luz
(POTIGUARA, 2004, p. 64).
Ao percorrermos a narrativa de Eliane,
damo-nos conta da fecunda dŽcada de 80, quando ela se articula politicamente
com outras lideran�as com o intuito de resgatar e preservar a identidade
ind’gena. O Grumin (Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena), hoje Grumin/Rede de Comunica�‹o Ind’gena
surge como um espa�o de livre express‹o, circula�‹o de saberes e de organiza�‹o
pela garantia dos direitos ind’genas, concebido em 1978 e criado juridicamente
em assembleia em 1987. No fim da dŽcada de 80, Eliane editou com o Grumin uma
cartilha de apoio ˆ alfabetiza�‹o dos ind’genas da etnia Potiguara, na qual
pod’amos ler: Òƒ preciso sorrir, Ž preciso criar quando estamos na luta pela
sobreviv�ncia e preserva�‹o cultural, mesmo que nos arranquem os dentes ou a
l’nguaÓ (POTIGUARA, 2004, p. 99). O material, com financiamento da UNESCO e
apoio da UERJ, procurava discutir a realidade cultural de seu povo, incluindo a
quest‹o da discrimina�‹o a que este estava sujeito. O grupo teve o papel
pioneiro de levantar a bandeira da invisibilidade da mulher ind’gena, bem como
dos ind’genas ressurgidos, discutindo temas como saœde e direitos reprodutivos,
quest›es vistas como pertencentes a feministas n‹o-ind’genas. Eliane Potiguara
atuou incansavelmente, sobretudo entre 1988 e 1996, buscando promover o acesso
ˆ informa�‹o e o exerc’cio de empoderamento, por meio de muitas estratŽgias
descritas pela autora, tais como:
Cursos de Capacita�‹o,
Consultas Nacionais, os Semin‡rios sobre Fam’lia e Cidadania, sobre Direitos
Reprodutivos, as feiras de artesanatos, os projetos de desenvolvimento
comunit‡rio, as cartilhas, jornais, panfletos, livros de conscientiza�‹o contra
o alcoolismo, contra a viol�ncia, contra a desinforma�‹o, contra o
analfabetismo, contra a ignor‰ncia de n‹o se querer preservar e resgatar a
identidade ind’gena (POTIGUARA, 2004, p. 50).
Neste sentido, as atitudes culturais
per-formadas ao longo da vida de uma lideran�a ind’gena no espa�o pœblico
aparecem restauradas e ressignificadas em sua escrita, sendo redimensionadas
pela utiliza�‹o da poesia. Podemos dizer que o estigma de atraso cultural
associado ˆs culturas ind’genas Ž difundido no cotidiano, seja na comemora�‹o
romantizada do Dia do êndio nas escolas – onde as crian�as da sociedade
envolvente se cobrem de penas e cocares, desenhando canoas e arcos e flechas
para satisfa�‹o dos pais e professores que multiplicam ad infinitum as mesmas poses, gestos, cen‡rios e indument‡rias em
murais imut‡veis; seja pelo uso indiscriminado do termo genŽrico ’ndio,
que encobre o apagamento das nuances e multiplicidades culturais ind’genas;
seja na naturaliza�‹o de assassinatos, torturas, abuso sexual e viola�‹o de
direitos humanos cada vez mais invisibilizados pela m’dia majorit‡ria.
Desta forma, o neocolonialismo Ž
sustentado pela incans‡vel encena�‹o e reencena�‹o do roteiro hegem™nico da
conquista que propaga antagonismos, dualidades, vencedores e vencidos, numa
distribui�‹o de cartas marcadas e papŽis estereotipados que mesmo j‡ tendo uma
conclus‹o previamente determinada ainda encanta plateias no mundo inteiro,
sustentando e fomentando a domina�‹o. A cada novo espa�o praticado pelos
ind’genas, n‹o apenas na literatura, mas tambŽm na mœsica, na poesia, no
cinema, nos blogs, jornais, r‡dios e webr‡dios
ind’genas, o movimento de reafirma�‹o identit‡ria e Žtnica d‡ mais um passo,
caminhando na contram‹o do famoso roteiro da conquista ou roteiro do
descobrimento, borrando indument‡rias, papŽis e cen‡rios previamente desenhados
para propor novos arquivos e repert—rios praticados pelos agentes culturais
ind’genas.
Taylor (2013, p. 94) pontua que o roteiro
do descobrimento n‹o tem original: ÒEle Ž sempre uma cita�‹o, uma c—pia da
œltima c—piaÓ. A carta de Colombo ˆ coroa espanhola, relatando sua primeira
viagem ao Caribe em 1493, bem como o resumo do di‡rio de Colombo escrito por
BartolomŽ de las Casas em 1552, desapareceram do arquivo, fundando uma
documenta�‹o baseada na reprodu�‹o de c—pias que performatizam eternamente o
show inaugural estrelado pelo descobridor, diante de um pœblico ileg’timo de
espectadores n‹o autorizados descritos na carta como Ò’ndiosÓ e um pœblico
leg’timo de europeus que testemunham o movimento de fincar a bandeira no solo
conquistado. O ato de transfer�ncia inclui o rei e a rainha como destinat‡rios
e benefici‡rios do ato de transfer�ncia de posse, os espectadores n‹o
autorizados como objetos transfer’veis e Deus como espectador m‡ximo da
cerim™nia (TAYLOR, 2013).
Em todos os lugares que os exploradores
desembarcavam, repetiam-se varia�›es desse roteiro, autenticando a perspectiva
do descobridor, como podemos ver na permanente encena�‹o da conquista do
MŽxico:
O roteiro da conquista
tem sido encenado repetidas vezes – desde a entrada de CortŽs em
Tenochtitl‡n atŽ o encontro entre Pizarro e Ataualpa, ou a declara�‹o de posse
do Novo MŽxico por O–ate. Cada repeti�‹o acrescenta algo ao seu poder afetivo e
explicativo atŽ o resultado parecer uma conclus‹o previamente determinada. Cada
novo conquistador pode esperar que os nativos caiam a seus pŽs simplesmente
devido ˆ for�a do roteiro reativado (TAYLOR, 2013, p. 64).
Podemos,
no entanto, escolher seguir os roteiros da conquista como pr‡ticas reiteradas
disseminadas em escolas e na m’dia majorit‡ria ou criticar os roteiros,
apontando suas brechas, falhas e mem—rias submersas. Esta segunda op�‹o
aparece, por exemplo, quando Eliane sublinha a particularidade do Òin’cio da
solid‹o das mulheresÓ, apontando no roteiro hist—rias que foram silenciadas
pela pr‡tica de reativa�‹o de um roteiro padr‹o, trazendo para o foco vozes que
foram caladas, como a da crian�a-velha-louca que passou a vida esperando seu
homem-peixe colonizador, ou a de muitas Marinas, Ju�aras e Marias de Lourdes
obrigadas a migrar com suas crian�as ˆs costas para vivenciar o racismo
cotidiano. Que sistemas significantes e econ™micos, porŽm, mant�m essas vozes
silenciadas? Taylor prop›e que, ao identificarmos o roteiro, reflitamos sobre a
efic‡cia de sua re-encena�‹o:
Como um sistema
paradigm‡tico de visibilidade o roteiro tambŽm assegura a invisibilidade. Ainda
h‡ mais raz‹o para nos perguntarmos, ent‹o, por que esse roteiro continua a ser
reencenado e por que ele ainda exerce tanto poder. (TAYLOR, 2013, p.92)
Podemos
depreender de Taylor (2013, p. 100-101) que o roteiro situa o descobridor como
aquele que Òv�Ó e que nunca se sente obrigado a se descrever ou a se situar; j‡
os amer’ndios, apesar de presentes fisicamente, s‹o reconhecidos apenas para
Òserem desaparecidosÓ nesse ato. A objetifica�‹o do corpo primitivo reafirma a
supremacia cultural do sujeito que Òv�Ó, legitimando toda uma indœstria de
especialistas em l’nguas ou etnografia que, assim como Colombo, se sentem
capazes de interpretar as performances do nativo. Diante da reprodutibilidade
de corpos n‹o falantes institu’dos pelos roteiros hegem™nicos, a voz de Eliane
nos apresenta um roteiro n‹o-hegem™nico que difere da unilateralidade da
conquista dos dominantes sobre os dominados para situar-se n‹o como aquela que
Òv�Ó, mas como aquela que per-forma a pr—pria mem—ria a partir das experi�ncias
vivenciadas. O assassinato do ’ndio X pela fam’lia colonizadora inglesa X
reencena o assassinato de SepŽ Tiaraju em 1756; da mesma forma, as solid›es de
Maria de Lourdes e Marina (Ju�ara) rememoram o assassinato de Mar�al Tup‹-Y e a
dor das viœvas ind’genas que jamais se calam, Òmesmo se lhe arranquem os
dentesÓ. A cartilha de alfabetiza�‹o, editada pelo Grumin no fim da dŽcada de
80, modifica os roteiros hegem™nicos de apagamento, subvertendo letramentos
verticalizados exteriores ˆ realidade cultural Potiguara, para propor a
discuss‹o da discrimina�‹o e a conscientiza�‹o pol’tica. Eliane Ž testemunha,
sujeito e participante do ato de transfer�ncia vital da mem—ria cultural
passada em sua literatura. Ela n‹o Ž apenas uma observadora impass’vel, pois,
ao descrever o mundo o modifica no ato divino da cria�‹o, propondo nas
simbologias das personagens Cunhata’ e Jurupiranga novas espacialidades para as
identidades ind’genas ressurgidas.
Re-inventando a
Ancestralidade, apesar das Performances de Poder
Em oposi�‹o ˆs constantes performances de
poder, encontram-se as mem—rias incorporadas que comp›em a identidade ind’gena,
sendo continuamente performadas a cada a�‹o ritual e cotidiana, trazendo em si
a continuidade da hist—ria ancestral. Os roteiros da conquista representam
muitas vezes as performances de domina�‹o e opress‹o, baseadas e sustentadas
pelo antagonismo e pela domina�‹o do Eu sobre o Outro. As performances rituais
s‹o movidas por uma necessidade inelut‡vel de cont’nua reafirma�‹o identit‡ria
atravŽs da honra ˆ mem—ria dos ancestrais de um povo. A autoafirma�‹o Žtnica
n‹o se faz em oposi�‹o ao Outro, mas sim pelo encontro com uma cosmovis‹o que,
por estar acima de qualquer binarismo, sabe apenas seguir seu percurso e manter
sua for�a motriz e vital, como podemos ler nesses versos do poema Identidade Ind’gena:
Nosso ancestral dizia:
Temos vida longa!
Mas caio da vida e da
morte
E range o armamento
contra n—s.
Mas enquanto eu tiver o
cora�‹o aceso
N‹o morre a ind’gena em
mim
E nem tampouco o compromisso
que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha
gente passo a passo
E firme, em dire�‹o ao
sol.
Sou uma agulha que ferve
no meio do palheiro
Carrego o peso da
fam’lia espoliada
Desacreditada,
humilhada.
Sem forma, sem brilho,
sem fama. [...] Mas a consci�ncia se levanta a cada murro
E nos tornamos secos
como o agreste
Mas n‹o perdemos o amor.
Porque temos o cora�‹o
pulsando
Jorrando sangue pelos
quatro cantos do universo.
Eu viverei 200, 500 ou
700 anos
E contarei minhas dores
pra ti
Oh! Identidade (POTIGUARA, 2004, p. 102-103).
A identidade Ž, ent‹o, o que mantŽm o
Òpulsar do cora�‹oÓ e a consci�ncia ind’gena, n‹o sendo, de forma alguma, fruto
de um roteiro reencenado para dominar o Outro. Apesar do Òpeso da fam’lia
espoliadaÓ, a reconstru�‹o identit‡ria traz em si a for�a motriz que permite
Òcaminhar em dire�‹o ao solÓ e honrar o Òcompromisso assumido perante os
mortosÓ. ƒ a ancestralidade que mantŽm a identidade ind’gena e Ž esta que
reativa perpetuamente a mem—ria ancestral. Quando em 1990 Eliane vai ao 49¼
Congresso dos êndios Norte-Americanos entregar um dossi� sobre a situa�‹o
ind’gena brasileira, ela descreve ter experimentado, em meio aos 1.500
ind’genas presentes com seus trajes mesclados a milhares de penas de ‡guia, em
horas e horas de dan�as, o que ela chama de Òas mœsicas e os tambores dos
sŽculosÓ, gerando uma outra sensa�‹o espa�o-temporal: ÒSenti o espa�o
compartimentar-se, transformando-se em fagulhas do tempo, pequenas gotas aŽreas
coloridas que me enfeiti�aram e me colocaram em contato com os ancestraisÓ
(POTIGUARA, 2004, p. 111). Segundo a autora Potiguara, nesta ocasi‹o foi
enviada, pela primeira vez, uma mo�‹o ˆs Na�›es Unidas sobre o exterm’nio dos
Povos Ind’genas do Brasil. Por meio desse exemplo, podemos entrever que a a�‹o
pol’tica Ž n‹o apenas a mo�‹o enviada ˆ ONU e o dossi� de denœncias, mas tambŽm
os sons imemoriais dos tambores dos sŽculos, afinal, a afirma�‹o de uma
pol’tica da exist�ncia Ž o que permite a afirma�‹o identit‡ria.
Em Metade
Cara, Metade M‡scara, entramos em contato com uma escrita que
reitera, na poesia, no testemunho e em narrativas, os diversos movimentos de
uma a�‹o pol’tica que caminha junto a uma estŽtica da exist�ncia,
constituindo-se tanto de denœncias, organiza�‹o de grupos de discuss‹o, conscientiza�‹o,
luta pela garantia de direitos pol’ticos e representatividade junto a
mecanismos internacionais, quanto de exalta�‹o cultural e ancestral.
A literatura ind’gena surge enquanto um
espa�o praticado, em que a ag�ncia cultural de seus autores reafirma a
processualidade deste territ—rio essencialmente n‹o-normativo, mas sim
afirmativo de uma permanente pol’tica da exist�ncia, onde a escrita ind’gena,
enquanto fruto e reflexo da transfigura�‹o da dor em cria�‹o, sustenta e mantŽm
tanto a preserva�‹o da oralidade, quanto a renova�‹o da palavra ancestral
inscrita no papel ou no ambiente digital das novas tecnologias. A din‰mica de
um corpo org‰nico e vivo da cultura ind’gena continuamente presente nessas
cria�›es liter‡rias, dilui as fronteiras entre escrito e oral, pol’tica e
ancestralidade, arquivo e repert—rio, preserva�‹o e renova�‹o, dissolvendo os
binarismos que sustentam um projeto societ‡rio logoc�ntrico.
A pot�ncia poŽtica da voz de Eliane
comp›e n‹o uma etnografia descritiva do sujeito ind’gena urbano, mas sim a
corporifica�‹o de sua imagem diante de nossos olhos, a partir de relatos que
apontam para a condi�‹o dos ind’genas desplazados, denunciando sua
invisibiliza�‹o social. Sua escrita cor de jenipapo n‹o nos deixa tapar os
olhos para a misŽria e o abandono de um indiozinho que escorria pelo bueiro
diante da autora, Òmetade de seu corpo superior debru�ava-se sobre o meio-fio
da rua e a outra parte jazia cansada, escorrendo pelo esgoto urbanoÓ
(POTIGUARA, 2004, p. 93). O relato nos traz um menino de dez anos derretido
feito um rel—gio de Salvador Dal’, com o corpo magro e imundo escorrendo pelo
bueiro, olhinhos de tigre, roupas de mendigo, catando centavinhos. A voz de
Eliane nos permite ouvir a voz do indiozinho que, indagado pela autora, responde
que os meninos de rua lhe roubaram o dinheiro que conseguiu pedindo. Seu œtero
de m‹e rosnou, afinal, ele n‹o se considerava um menino de rua e ela estava
diante de uma nova classe social criada pela pobreza: a de pedinte ind’gena.
Escrita-denœncia e cosmopol’tica
liter‡ria que nos transporta para o plano da fala ancestral cravada na nervura
da folha de jenipapo, que lhe tra�a os contornos. Escrita que se faz terra,
signo que transcende a palavra, distendendo-a atŽ alcan�ar a r’tmica do TorŽ
Potiguara e erguer-se em sonho revelado atravŽs de textos, ora�›es, poesias e
articula�›es pol’ticas dentro do Grumin. Estamos diante de uma escrita
cosmovisiva que nos abre outras dimens›es de consci�ncia moral, Žtica, pol’tica
e espiritual. Eliane nos lembra que a palavra da mulher ind’gena, condicionada
pelo racismo e pelo medo, sobrevive porque Ž sagrada como a terra, alimento da
cura em todos os sentidos. A personagem Cunhata’, ap—s o sofrimento da perda de
suas terras, de sua fam’lia e de sua consci�ncia de mulher ind’gena, n‹o
conseguindo saber o paradeiro de seu homem, v� sua dor refletida em p‡ginas de
desterro, que revolvem a identidade perdida na ÒinŽrcia da pr—pria exist�nciaÓ
ou em versos que falam da agonia dos Patax—s ou do sentimento Pankararu de ser marginal
das cidades, das fam’lias e das palho�as. Ao retratar as gotas rubras do sangue
louco e desvairado de um guerreiro desprendido durante o per’odo da
coloniza�‹o, no poema Tocantins de Sangue, a linguagem poŽtica transp›e
o corpo ind’gena colonial para o contempor‰neo, conclamando em tom de denœncia:
Banha o suor do mundo
Com tua luta
Junta l’quidos, faz
crescer
Nossa gente pobre
Nossa vida amarga
N—s _
Decadentes!
Ind’genas, n‹o...
Indigentes.
(POTIGUARA, 2004, p.
60).
Esta for�a cosmopol’tica aponta para uma
palavra f�mea que cura porque reacende o inconsciente coletivo ancestral,
beijando as cicatrizes do mundo. Sua letra se levanta para percorrer com seu
corpo palp‡vel, toda uma trajet—ria de preconceito no poema Neste sŽculo de
dor, resistindo Òespoliada na condi�‹o de mulherÓ em Òfebre pra
subexestirÓ, ÒPra que matem nossos filhos / E os joguem nas valasÓ (POTIGUARA,
2004, p. 61). Em meio a tanta dor, a materialidade de sua voz de mulher
ind’gena conclama ˆ Uni‹o das Na�›es Ind’genas e a uma busca da identidade
adormecida, dizendo no poema Desilus‹o:
ÒNÌO ˆ morte da fam’lia / NÌO ˆ perda da terra / NÌO ao fim da identidadeÓ
(POTIGUARA, 2004, p. 64). A mem—ria incorporada de Cunhata’, enfim, se rasga,
entoando c‰nticos de um amor louco e desvairado no poema Velho êndio, ao
mirar a imensid‹o dos sŽculos por meio dos olhos do amante. Estas palavras
ditadas ao papel nos contam que certa vez o Grande Esp’rito disse a Cunhata’:
ÒVai ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue; um dia, quem sabe, seremos
livres!Ó (POTIGUARA, 2004, p. 67). Eliane-Cunhata’ cria asas e luta em 1988
dentro da Assembleia Constituinte por entre bocas, dentes, sorrisos, entre o
cheiro do vermelho do urucum que besuntava os cabelos dos Kaiap—, liderados por
Megaron, as palhas ressecadas dos ind’genas do Nordeste, os olhares de lince
dos Terena e Tukano, os olhares saltitantes dos Guarani e o rosto pintado de
jenipapo de Ailton Krenak. Personagens hist—ricas e m’ticas perpassam as
p‡ginas da autora, compondo a trama pol’tica da exist�ncia, entre suas mem—rias
da Constituinte dedicadas ˆ ’ndia guerreira Dona Marta Guarani e sua lembran�a
de tia Severina, anci‹ guerreira Potiguara, a quem a escritora dedica o poema O
Segredo das Mulheres, publicado em 1984 na cartilha de apoio ˆ
alfabetiza�‹o ind’gena editada pelo Grumin.
A textualidade aqui se faz textura,
demarcando um territ—rio, fincando posi�‹o: ÒO ind’gena precisa sair das
paredes, dos museus, das salas de exposi�‹o!Ó (POTIGUARA, 2004, p. 94). A voz
de Eliane ecoa a autodetermina�‹o dos povos, lembrando-nos da luta pol’tica
travada pelo movimento ind’gena internacional para a cria�‹o do F—rum
Permanente para Povos Ind’genas da ONU. Metade Cara, Metade M‡scara faz
uma refer�ncia hist—rica importante a associa�›es que deram um pontapŽ inicial
na ruptura com organiza�›es de cunho paternalista, como a Coiab (Coordena�‹o
ind’gena da Amaz™nia Brasileira), inicialmente coordenada por Manoel Moura
Tukano, e a Unind (Uni‹o das Na�›es Ind’genas), criada por Marcos Terena, M‡rio
Juruna, çlvaro Tukano, Lino Miranha, entre outros. Eliane nos lembra que
territ—rio Ž cosmologia e n‹o apenas um peda�o ou vastid‹o de terras,
integrando a cidadania dos povos ressurgidos, como os Pitiguary, no Cear‡, os
Cat—kin, no Alagoas, ou ainda os Porubor‡ de Rond™nia, bem como os
’ndios-descendentes, em sua luta individual por sua territorialidade ind’gena.
A escrita Potiguara de Eliane, filha de
um povo comedor de camar‹o, volteia e dan�a envolvente no poema Cunhata’,
surgindo plena de odores, gostos e sensa�›es t‡teis. O leitor se banha nas
‡guas do Orinoco, espreitando o massacre de Potosi e o canto do pitu‹, as
letras se movimentam na cad�ncia de um xaxado, ao sabor do churrasco, do
chimarr‹o, de uma saia de chita e um chocalho bonito que integra a Zamacueca
dos Andes e o TorŽ do Sert‹o. A escrita se faz aud’vel, sonora e Eliane nos
reparte carne-de-sol, bai‹o temperado, a�a’ geladinho e uma rede quentinha,
onde o leitor se deita, transportando-se para as libertas Ilhas Gal‡pagos ou
para o Amazonas, ao som das zabumbas e das zampo–as. Cada conta de letra de Metade
Cara, Metade M‡scara vai tecendo um colar de mi�angas repleto de
simbologias e matizes por onde a palavra passeia fio a fio, entre colora�›es e
estilos liter‡rios. A poesia Ž entremeada pela prosa na qual as personagens
Cunhata’ e Jurupiranga perpassam debates em torno dos direitos reprodutivos da
mulher e da luta dos ind’genas ressurgidos, dialogando com trechos de uma
cartilha de alfabetiza�‹o ind’gena, que prop›e ensinar n‹o um letramento
enrijecido, mas a corporeidade da letra em seu adensar-se no mundo, onde a
leitura e a escrita aparecem como matŽrias de express‹o cosmopol’tica.
Considera�›es finais
Entrevemos na literatura de Eliane Potiguara o espa�o sagrado da fala
inscrito por xam‹s, curandeiras, vision‡rias, guerreiras e inœmeras mulheres
ind’genas violadas e subjugadas pela a�‹o colonizadora. O fazer liter‡rio
materializa um grito estrangulado, perpetuando a mem—ria ancestral da
identidade ind’gena reconfigurada no fluxo performativo das vozes ditas ao
papel, dando corpo a falas submersas. As mem—rias incorporadas na textualidade
de Eliane se op›em ˆs performances de poder, testemunhando uma pol’tica da
exist�ncia na qual a dor se transfigura em cria�‹o e pot�ncia poŽtica.
A escritura feminina ind’gena surge como cura frente ao esfacelamento,
promovendo a reconstru�‹o identit‡ria ao reencenar o mito de Cunhata’ e
Jurupiranga, personagens lend‡rios impulsionados pela for�a motriz de uma
identidade caminhante. O mito se encarna na escrita-testemunho dos relatos
sobre a av— da autora, Maria de Lourdes, violentada sexualmente pelo
colonizador e obrigada a migrar com a fam’lia para o Rio de Janeiro. Adentrando
a escritura desta autora Potiguara, percorremos mœltiplas camadas de sentido,
em que a hist—ria de sua av—, reencena o in’cio da solid‹o das mulheres, cuja
origem remete ao exterm’nio dos Guaranis ainda no sŽculo XVIII, quando Marina,
esposa do l’der SepŽ Tiaraju migra sozinha com sua filha nos bra�os ap—s o assassinato
do esposo.
A incans‡vel trajet—ria da autora na garantia dos direitos ind’genas
redimensiona e ressignifica sua escrita, dando-lhe a dimens‹o de fala
per-formativa que trilha um caminho oposto ˆ reencena�‹o dos roteiros
hegem™nicos, apontando em meio ˆ normatividade estabelecida, poss’veis brechas
por onde ecoam mœltiplas vozes ind’genas capazes de propor outros roteiros e
percursos. Estamos diante de uma literatura incarnada, na qual a mem—ria
cultural tem a pot�ncia poŽtica de uma pol’tica da exist�ncia, que cultiva a
palavra da mulher ind’gena como elemento de cura espiritual.
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[Recebido: 04 ago 2020
– Aceito: 9 mar 2021]
AUTOBIOGRAFIAS DE MULHERES CORDELISTAS; UMA
CONTRIBUI‚ÌO PARA A NOVA HISTORIOGRAFIA DO CORDEL
WOMEN CORDELISTÕS
AUTOBIOGRAPHY : A CONTRIBUITION TO THE NEW CORDELÕS HISTORY
Maria
Gislene Carvalho Fonseca[47]
http://orcid.org/0000-0003-3201-1946
Resumo: Este artigo
trata das narrativas autobiogr‡ficas de tr�s poetas cordelistas: Julie
Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara. Discutimos aqui sobre como, ao
narrar a si mesmas, elas reescrevem a hist—ria do cordel. Para isso, utilizamos
como refer�ncia a Teoria do Ponto de Vista de Hill Collins (2019, 2019a) e
embasamo-nos metodol—gica e epistemologicamente nas perspectivas do feminismo
decolonial apontadas em Curiel (2020), Lugones (2019) e Anzaldœa (2019). Para
discutir a dimens‹o do g�nero no cordel, apoiamo-nos nos trabalhos de Santos
(2020) e Lemaire (2017, 2018, 2020). Com isso, observamos que Ž preciso nos
voltarmos para as biomitografias e pontos de vista das mulheres cordelistas
para sermos capazes de refletir sobre o universo do cordel.
Palavras-chave:
Cordel. Mulheres. Autobiografias.
Abstract: This article deals
with the autobiographical narratives of three poets: Julie Oliveira, Izabel
Nascimento and Auritha Tabajara. We discuss here how, in narrating themselves,
they rewrite the history of the cordel. For that, we used Hill Collins'
Theory of Point of View (2019, 2019a) as a reference and based methodologically
and epistemologically on the perspectives of decolonial feminism pointed out in
Curiel (2020), Lugones (2019) and Anzaldœa (2019). To discuss the gender
dimension in the cordel, we rely on the work of Santos (2020) and
Lemaire (2017, 2018, 2020). With that, we observed that It is necessary to turn
to the biomitographs and points of view of the women cordelists in order to be
able to reflect on the universe of the cordel.
Keywords:
Cordel. Women. Autobiographies.
Introdu�‹o
Historicamente, as
narrativas produzidas por mulheres v�m sendo apagadas da historiografia oficial
– produzida por homens acad�micos, brancos, a partir de conhecimentos
eurocentrados. No caso do cordel, isso n‹o Ž t‹o diferente. As narrativas
tambŽm priorizam os pontos de vista masculinos, de homens que muitas vezes
est‹o buscando aceita�‹o do universo acad�mico, e que invisibilizam as
produ�›es de mulheres. Sem falar nas formas como as mulheres s‹o tratadas enquanto
suas personagens: estereotipadas como doces e belas, ou como descontroladas e
feias.
A forma poss’vel de
reverter essa situa�‹o Ž a partir do reconhecimento, valoriza�‹o e visibilidade
das produ�›es de mulheres. As cordelistas s‹o parte importante e fundamental
para a hist—ria do cordel, para o entendimento de suas perspectivas de tradi�‹o
e suas produ�›es reescrevem aquilo que costumamos aprender sobre este universo.
Ao olharmos para as autobiografias das mulheres poetas, estamos olhando para
sua pr—pria vida, mas tambŽm para suas a�›es que afetam e que constituem aquilo
que Ž o cordel contempor‰neo.
Neste artigo,
observamos como isso se d‡ em cordŽis autobiogr‡fico das poetas Julie Oliveira,
Izabel Nascimento e Auritha Tabajara. O objetivo n‹o Ž fazer uma compara�‹o
entre as hist—rias, mas identificar como cada uma, ao seu modo, ao contar sobre
suas vidas e trajet—rias art’sticas, tambŽm registram o tempo e contam a
hist—ria do cordel.
Para essa reflex‹o,
temos como base te—rica os estudos sobre a mulher no cordel de Santos (2020) e
Lemaire (2017, 2018, 2020) articulados com a Teoria do Ponto de Vista de Hill
Collins (2019). Nossa an‡lise est‡ ancorada em uma metodologia feminista
decolonial, descrita por Curiel (2020), e no Pensamento de Fronteiras, proposto
por Anzaldœa (2019), que nos permitem reconhecer as vozes das poetas como forma
de conhecimento fundamental para o entendimento aqui proposto, buscando nos
versos aqueles elementos que desestabilizam as estruturas narrativas
patriarcais.
A teoria do Ponto de Vista
e as contribui�›es do pensamento feminista negro de Hill Collins para pensar
o trabalho das mulheres cordelistas
O pensamento feminista
negro tratado por Hill Collins Ž quase um chamamento para todas aquelas cuja
produ�‹o de conhecimentos est‡ fora dos centros de reconhecimento. ƒ desse
pensamento que emerge a discuss‹o sobre o ponto de vista, conforme nos
apresenta ångela Figueredo. ÒO pensamento feminista negro Ž um conjunto de
experi�ncias e ideias compartilhadas por mulheres negras que envolve
interpreta�›es te—ricas da realidade a partir de um ponto de vistaÓ (FIGUEREDO,
2017, p. 3) Trata-se de uma convoca�‹o para que todas contemos as nossas
pr—prias hist—rias a partir de nossas experi�ncias – muitas vezes
subalternizadas por um sistema que hierarquiza saberes e modos de transmiss‹o.
Para Patr’cia Hill
Collins, a luta das mulheres afro-americanas para terem suas vozes ouvidas
desenvolveu um Òponto de vista autodefinido e coletivo sobre a feminilidade
negraÓ (HILL COLLINS, 2017, p. 3) e isso ajudou a responder ˆ sua representa�‹o
nos discursos dominantes. Trata-se de uma a�‹o que nos ajuda a pensar sobre as
estratŽgias de visibilidade de outros grupos, externos ˆqueles que se prop›em
universais, como Ž o caso das mulheres poetas cordelistas do Nordeste
brasileiro.
Para refletirmos sobre
a produ�‹o dos cordŽis autobiogr‡ficos de Izabel, Julie e Auritha como
narrativas que tecem tambŽm a historiografia do cordel, partimos das discuss›es
de Hill Collins (2019) sobre a teoria do ponto de vista. A autora
afro-americana tra�a essa reflex‹o para falar sobre a import‰ncia do ponto de
vista das mulheres negras ao contarem suas pr—prias hist—rias. Tomamos de
emprŽstimo tal reflex‹o para falarmos sobre uma manifesta�‹o cultural que Ž
marginalizada a partir do olhar do c‰none letrado e academicista.
A hist—ria oficial do
cordel, defendida pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel e por
centros de estudo, como a Funda�‹o Casa de Rui Barbosa, vem sendo contada a
partir de uma perspectiva masculinizada, que trata a poesia de cordel como um
ambiente conservador e localizado no espa�o destinado ao ÒpopularÓ no ‰mbito da
literatura. Enquanto n‹o encontrarmos espa�os para que as mulheres poetas
contem suas hist—rias, os seus Òpontos vistasÓ, n‹o poderemos desestabilizar
essa narrativa normatizadora.
As mulheres
cordelistas s‹o silenciadas em diversos momentos: quando n‹o podem usar seus
nomes como autoras de seus versos; quando n‹o podem participar de disputas e
pelejas; quando os homens afirmam que s‹o poucas e raras as mulheres
cordelistas; quando eles negam o sexismo no ambiente da poesia; quando reservam
uma mesa apenas, como uma espŽcie de cota que n‹o pode se extrapolada, para a
participa�‹o de mulheres nos eventos. ƒ a partir desses silenciamentos que
aqueles que dominam a narrativa historiogr‡fica conseguem se impor. E Ž contra
isso que nos posicionamos.
Assim, a partir de Collins (2019, 2019a), a teoria
do ponto de vista nos ajuda a refletir sobre o poder da autodefini�‹o. Segundo
a autora, Òas vozes das mulheres afro-americanas n‹o s‹o de v’timas, mas de
sobreviventesÓ (HILL COLLINS, 2019a, p. 273) e isso Ž fundamental para
pensarmos sobre uma nova escrita da hist—ria. Precisamos olhar para as
diversidades das experi�ncias, que produzem diferentes narrativas. As vozes que
se sobressaem nas rela�›es de poder, que criam e reverberam tradi�›es, n‹o
podem ser tomadas como as œnicas poss’veis. E contra isso Ž que as vozes das
mulheres poetas que tratamos aqui se mobilizam.
Deste modo, elas
transformam silenciamentos em linguagem materializada, o que contribui para
evidenciar as rela�›es de opress‹o contra as quais as mulheres poetas de cordel
lutam. Suas falas reivindicando espa�os mais respeitosos para seus trabalhos,
como durante o movimento #cordelsemmachismo de 2020, geraram rea�›es de
repres‡lias que exigem estratŽgias cuidadosas de a�‹o. Nestes termos, essas
narrativas, que emergem de movimenta�›es e inquieta�›es, desafiam as opress›es
e criam outras hist—rias poss’veis.
Segundo Hill Collins
(2019a), a autodefini�‹o, que decorre das narrativas de si, rejeita os
pressupostos de que aqueles em posi�›es poder teriam autoridade e legitimidade
para interpreta�›es de uma realidade universalizante. Essa discuss‹o aponta
para uma urg�ncia fundamental ao discutirmos quest›es de g�nero no que dizem
respeito ˆ interseccionalidade de ra�a, de sexualidade e de classe social.
Quando falamos sobre as mulheres poetas de cordel, consideramos sua diversidade
interna. S‹o mulheres negras, ind’genas, gordas, lŽsbicas, bissexuais que s‹o
frequentemente silenciadas em seus espa�os de circula�‹o e que t�m no cordel um
modo de express‹o. Mas, nesse ambiente, elas encontram outros desafios e
necessidades de mobiliza�›es. Deste modo, Ž imprescind’vel que suas
experi�ncias narradas a partir de suas pr—prias vozes – aqui consideradas
a partir de cordŽis autobiogr‡ficos – sejam definidoras de outras
hist—rias poss’veis sobre o universo do cordel.
Pensar pela dimens‹o
do feminismo negro e a teoria do ponto de vista n‹o significa que estamos
igualando as experi�ncias distintas de opress›es pelas quais passam as
mulheres. Pelo contr‡rio. A partir desse pensamento, fundamentamos as
especificidades das agendas e demandas que as mulheres, individualmente ou em
grupo, convocam. Rejeitamos um ideal universalista Òda mulherÓ a partir do que
Lugones (2019) considera como um problema da modernidade europeia: o binarismo
de g�nero. Em vez disso, entendemos o que prop›e Hill Collins (2017):
Inserindo o
adjetivo ÒnegroÓ desafia a brancura presumida do feminismo e interrompe o falso
universal desse termo para mulheres brancas e negras. [...] O termo Òfeminista
negraÓ destaca as contradi�›es subjacentes ˆ brancura presumida do feminismo e
serve para lembrar ˆs mulheres brancas que elas n‹o s‹o nem as œnicas nem a
norma ÒfeministasÓ (HILL COLLINS, 2017, p. 13-14).
A partir destas
discuss›es, podemos entender o poder da autodefini�‹o para a constru�‹o de
outras narrativas historiogr‡ficas poss’veis, que nos levam a transformar a
escrita da hist—ria do cordel. Que passa a ser um espa�o que, em sua
diversidade, evidencia e se define tambŽm pelos trabalhos desenvolvidos pelas
mulheres. Neste sentido, narrar a si articula rela�›es de poder que s‹o
retomadas e assumidas pelas mulheres que contam suas pr—prias hist—rias.
Feminismo decolonial
Como uma investiga�‹o
que visa contribuir para uma reescrita da hist—ria do cordel, partimos de um
posicionamento epistemol—gico feminista e decolonial (ORTIZ OCA„A, 2019).
Segundo Curiel (2020, p. 121), as metodologias decoloniais nos Òoferecem um
pensamento cr’tico para entendermos a especificidade hist—rica e pol’tica de
nossas sociedades, [...] questionam narrativas da historiografia oficial e
mostram como se configuram hierarquias sociaisÓ. Entretanto, esta autora aponta
que, em uma perspectiva feminista decolonial, a partir de Lugones (2019), as
colonialidades n‹o s‹o definidas apenas por operadores raciais, mas tambŽm por
dimens›es de g�nero e de sexualidade.
Ainda nessa
perspectiva, Gl—ria Anzaldœa prop›e um pensamento a partir de uma Òconsci�ncia
mesti�aÓ, como alguŽm que rompe as fronteiras e vive o tr‰nsito que entende a
mesti�a como Òum produto da transfer�ncia de valores culturais e espirituais de
um grupo para outroÓ (ANZALDòA, 2019, p. 324). Este entendimento nos permite
pensar o saber a partir de posi�›es que n‹o podem (ou n‹o deveriam ser)
hier‡rquicas. Sendo constru’do de formas conjuntas, em parcerias, o saber se
faz nas fronteiras entre o eu e o outro/a outra.
La mestiza tem de se
mover constantemente para fora das forma�›es cristalizadas – do h‡bito;
para fora do pensamento convergente, do racioc’nio anal’tico que tende a usar a
racionalidade em dire�‹o a um objetivo œnico (um modo ocidental). Para um
pensamento divergente, caracterizado por um movimento que se afasta de padr›es
e objetivos estabelecidos, rumo a uma perspectiva mais ampla, que inclui, em
vez de excluir (ANZALDòA, 2019, p. 325).
Anzaldœa (2019) prop›e
que pensar como mesti�a n‹o se trata de uma mera jun�‹o de peda�os, tampouco
uma jun�‹o de for�as opostas. Para a autora, a consci�ncia mesti�a rompe com
aspectos unit‡rios e universalizantes e tem o trabalho de desmontar as
dualidades sujeito-objeto, mostrando de que maneira essa dualidade pode ser
transcendida.
Quando pensamos na historiografia
do cordel tradicionalmente compartilhada por institui�›es oficiais, como a
Academia Brasileira de Literatura de Cordel, que colocam poetas homens como
protagonistas na produ�‹o de folhetos sob o argumento de que haveria Òpoucas
mulheresÓ fazendo poesia, nos vemos diante da necessidade de alguns
rompimentos. H‡ um silenciamento das vozes das mulheres e das narrativas que
destacam sua participa�‹o – inclusive daquelas decorrentes de quando se
fazia necess‡rio que mulheres assinassem seus folhetos com pseud™nimos
masculinos, como Ž o caso de Maria das Neves, que assinava com o nome de seu
marido, Altino Alagoano.
Deste modo, pensando a
partir de uma consci�ncia mesti�a (ANZALDòA, 2019), inquietamo-nos com essa
invisibilidade imposta ˆs mulheres. Imposi�‹o que parte de homens, que tambŽm
s‹o exclu’dos de uma literatura can™nica, que almejam um micropoder, cuja
exist�ncia se faz no exerc’cio de apagamento dos conflitos e disputas de
sentidos presentes e em tr‰nsito nas fronteiras das defini�›es do cordel.
Nossos escritos devem,
ent‹o, ser modos de articular nossas pr—prias inquieta�›es e servirem para
evidenciar desestabiliza�›es de narrativas tidas como dadas. Deste modo, ao
entender que a luta mesti�a Ž, acima de tudo, uma luta feminista, Anzaldœa (2019,
p. 330) considera que apesar de sabermos de onde vem o —dio masculino e a
consequente viol�ncia contra as mulheres, Òn—s n‹o desculpamos, n‹o toleramos e
n‹o iremos mais tolerarÓ. Segundo a autora, Ž preciso coragem para romper com a
sujei�‹o que Ž imposta ˆs mulheres em estratŽgias narrativas de ternura, como
um sinal de vulnerabilidade. Uma forma poss’vel de rompimento Ž quando passamos
a contar as nossas pr—prias hist—rias, como vemos as mulheres poetas fazerem.
AtravŽs de
nossa literatura, arte, corridos e contos populares, temos de compartilhar
nossa hist—ria com elas/eles, para que quando organizarem comit�s de ajuda aos
navajos ou aos agricultores chicanos ou a los nicaraguenses, n‹o rejeitem
algumas pessoas por causa de seus medos e ignor‰ncias raciais. Elas/eles
entender‹o que n‹o est‹o nos ajudando, mas seguindo nossa lideran�a (ANDALZòA,
2019, p. 332).
Precisamos retomar a
possibilidade de narrarmos a n—s mesmas, desestabilizando aquelas hist—rias que
foram contadas como forma de Òcompensar seus pr—prios defeitosÓ (LUGONES, 2019,
p. 332), como formas de exercer poderes de uns grupos sobre outros. Nestes
termos, Lugones (2019, p. 361) aborda uma Òcoloniza�‹o da mem—riaÓ e prop›e que
o termo ÒcolonialidadeÓ nomeia
N‹o apenas uma
forma de classificar pessoas atravŽs de uma colonialidade do poder e dos
g�neros, mas tambŽm para pensar sobre o processo ativo de redu�‹o das pessoas,
a desumaniza�‹o que as qualificam para a classifica�‹o, o processo de
subjetiva�‹o, a tentativa de transformar o colonizado em menos que humano.
Anzaldœa (2000, p.
230) tambŽm discute os desafios de se fazer ouvir sendo mulher, mesti�a, queer.
Para a autora, ÒelesÓ combatem e atacam as mulheres Òde corÓ, Òporque
desequilibramos e muitas vezes rompemos as confort‡veis imagens estereotipadas
que os brancos t�m de n—sÓ. A escrita das mulheres, ent‹o, aparece como uma
afronta e uma forma de resist�ncia.
N—s anulamos,
n—s apagamos suas impress›es de homem branco. Quando voc� vier bater em nossas
portas e carimbar nossas faces com ESTòPIDA, HISTƒRICA, PUTA PASSIVA,
PERVERTIDA, quando voc� chegar com seus ferretes e marcar PROPRIEDADE PRIVADA
em nossas n‡degas, n—s vomitaremos de volta na sua boca a culpa, a auto-recusa
e o —dio racial que voc� nos fez engolir ˆ for�a. N‹o seremos mais suporte para
seus medos projetados (ANZALDòA, 2000, p. 231, destaques da autora).
ƒ isso o que fazem as
mulheres poetas quando se organizam para contarem suas pr—prias hist—rias. Seja
nos folhetos e em suas narrativas autobiogr‡ficas, seja ao mobilizarem-se por
transforma�›es socioculturais, mercadol—gicas e pol’ticas. As poetas enfrentam
as imposi�›es hist—ricas das narrativas que frequentemente apagam suas
contribui�›es e devolvem ao universo do cordel as suas hist—rias, o seu ponto
de vista.
A mulher na poesia de cordel
Quando olhamos para a
hist—ria da poesia de cordel, somos levados a longas antologias baseadas em
folhetos de autoria masculina. Isso n‹o Ž diferente, por exemplo, quando
acompanhamos eventos, feiras e festivais. Os espa�os ocupados pelas mulheres
poetas ainda s‹o restritos (CARVALHO; OLIVEIRA, 2018) e muito disso se deve a
um poder institu’do para que essa hist—ria seja contada: ela vem sendo
conduzida por homens.
Essa situa�‹o n‹o Ž
exclusiva do universo do cordel, mas reflete uma situa�‹o que atravessa as
sociedades capitalistas (FEDERICI, 2019) e a sua historiografia. Resulta,
ainda, de toda uma estrutura de forma�‹o e valoriza�‹o do conhecimento
(LEMAIRE, 2017; 2018). ƒ esse saber eurocentrado, masculinizado, branco, heterossexual,
que Ž criticado ao apoiarmo-nos em uma perspectiva decolonial para o
desenvolvimento desta reflex‹o.
Lemaire (2020) nos
explicita, em uma aprofundada discuss‹o, que parte do Cancioneiro das Donas de
Carolina Michaelis, diversas estratŽgias de poder a partir do uso da linguagem
e do saber para um movimento excludente que faz parte da historiografia do
cordel. Segundo Santos (2020), h‡ registros de publica�›es de mulheres desde os
anos 1930. A pesquisadora faz refer�ncia a Maria das Neves Pimentel, que
assinava como Altino Alagoano (nome de seu marido) e ˆ gravadora Maria Athayde,
filha do conhecido editor Jo‹o Marins de Athayde nos anos 1940. Ainda assim,
elas n‹o constam nas antologias e cat‡logos sobre o cordel que come�am a ser
publicados nos anos 1960.
Um estudo da Funda�‹o
Casa de Rui Barbosa, organizado em 5 volumes e publicado nos anos 1970,
configura-se em uma importante e densa pesquisa sobre a poesia de cordel. ƒ uma
obra utilizada como bibliografia em universidades para o estudo da poesia de
cordel e, assim, tem um grande alcance ainda nos dias de hoje. Esses textos,
produzidos com a colabora�‹o de Cavalcanti Proen�a, Or’genes Lessa, Ant™nio
Houaiss e Manuel Diegues Junior, tiveram o apoio do MinistŽrio da Educa�‹o e
Cultura e, portanto, tratam do que se tornou a historiografia oficial do
cordel. ƒ essa a hist—ria que Ž repetidamente contada quando se fala da poesia
de cordel – a de folhetos impressos, separados de suas formas orais, de
origem portuguesa etc. ƒ nessa hist—ria que n‹o encontramos as vozes das
mulheres – ou as encontramos como raras e ÒdesinteressadasÓ[48]
pela poesia.
Ainda sobre a hist—ria
contada pela FCRB, Lemaire (2020, p. 184) aponta que
Para indicar os
autores dos folhetos, privilegia-se o nome de trovador, uma palavra medieval.
Trata-se de uma estratŽgia discursiva que permite, pela aproxima�‹o com a
literatura da Idade MŽdia europeia e com o tipo de poeta que era o trovador
medieval – homem e membro da nobreza –, impor a ideia de uma poesia
ao mesmo tempo antiga e de autoria exclusivamente masculina, com origens
alheias, nobres e escritas, silenciando e ocultando a atualidade, a
especificidade regional do folheto, a sua base oral, cantada, a presen�a de
mulheres cantadoras.
Por meio de poderes
acad�micos e letrados estabelecidos, o cordel Ž inferiorizado a partir de um
referencial can™nico. Torna-se uma poesia marginalizada. E, dentro da esfera
desta margem, os homens se utilizam de um micropoder criador de normas, regras
e ordens que excluem e minimizam as mulheres que tambŽm s‹o poetas. Segundo
Mello (2020, p. 8), Òa mulher que faz cordel tem pouca visibilidade em virtude
de preconceitos duplos: o de pertencimento a uma cultura das bordas e pelo
pertencimento a uma cultura marcada pelo androcentrismoÓ. S‹o aceitas, apenas,
aquelas que est‹o dispostas a submeterem-se a essas normas e ˆs narrativas
constru’das por esses detentores de um poder que emana da posse de editoras, da
dire�‹o de academias, de visibilidade internacional e da retroalimenta�‹o de
egos pelos pares.
Movida pela
inquieta�‹o diante da invisibilidade das inœmeras mulheres poetas que n‹o
apareciam nas antologias, silenciadas em espa�os pœblicos, a professora Fanka
Santos cataloga em O Livro Delas t’tulos de mulheres cordelistas atŽ os
anos 2010. Santos (2020) prova com sua pesquisa que as produ�›es das autoras
n‹o sou poucas ou raras, e sugere que um grande problema, que teve como
consequ�ncia esse apagamento das mulheres poetas, Ž que a historiografia da
literatura que conta a trajet—ria do cordel Ž feita a partir de uma perspectiva
Òscriptoc�nticaÓ, que utiliza como mŽtodo de investiga�‹o da oralidade
as mesmas formas utilizadas para a pesquisa de fen™menos escritos. Por isso, a
pesquisadora aponta uma urg�ncia de transforma�‹o n‹o apenas nos objetos de
estudo, mas tambŽm dos paradigmas que direcionam esses trabalhos.
Nesse cen‡rio, as
mulheres poetas t�m se organizado politicamente para reagirem a um apagamento
hist—rico de suas contribui�›es para a poesia de cordel. Elas se reœnem em
grupos e associa�›es, mas tambŽm informalmente, pensando produtos, eventos e
a�›es pol’ticas de mobiliza�‹o. Essas estratŽgias t�m encontrado nas redes
sociais on-line um espa�o para sua exist�ncia, divulga�‹o e convoca�‹o
de novas ades›es ˆ causa de um cordel menos excludente.
E Ž por
caminhos das discuss›es de g�nero no cordel que eu vejo uma possibilidade de
fratura mais evidente: essa que os poetas tradicionalistas e os que se pregam
progressistas tentam apagar. Porque Ž a produ�‹o das mulheres que vem
questionando e oferecendo condi�›es de continuidade, n‹o pelas vias de suporte
ou de formato, mas pela dimens‹o pol’tica de resist�ncia que o cordel oferece
(FONSECA, 2019, p. 209),
E uma reivindica�‹o
fundamental dos grupos de mulheres poetas Ž de que suas vozes sejam ouvidas e respeitadas.
Para isso, Ž fundamental que elas contem suas pr—prias hist—rias e, assim,
contem tambŽm uma nova hist—ria do cordel. Como aponta Adichie (2019), os
riscos imanentes de uma hist—ria œnica s‹o de que os indiv’duos repercutam seus
desconhecimentos como verdades œnicas.
Em um universo
simb—lico de produ�‹o de conhecimento pautado em uma refer�ncia masculinizada,
Ž importante referirmo-nos a um registro de mem—rias que desloca o eixo
narrativo para as mem—rias de mulheres, de mulheres negras, de mulheres
perifŽricas, que contam suas pr—prias hist—rias pelas vias do cordel,
testemunhando suas vidas, seus embates, suas resist�ncias sociais, culturais e
pol’ticas. Eis o que buscamos, quando olhamos para as narrativas
autobiogr‡ficas de Auritha Tabajara, Julie Oliveira e Izabel Nascimento.
Autobiografias em cordel
Em um mundo de
conhecimentos pautados pelos saberes produzidos e difundidos em rela�›es de
poder, Adichie (2019) indica a urg�ncia de acessarmos uma ampla diversidade de
hist—rias. A partir dos estudos de Hill Collins (2019) sobre a produ�‹o de
conhecimento de mulheres negras sobre elas mesmas, pensamos aqui na import‰ncia
de as mulheres poetas contarem tambŽm as suas pr—prias hist—rias e, assim,
contribu’rem para a nova historiografia do cordel, proposta por Santos (2020).
bell hooks (2019)
reflete sobre a import‰ncia de narrar a si mesma a partir da escrita de uma
autobiografia. Para a autora, um dos principais aspectos transformativos do
movimento feminista tem sido o de convocar as mulheres a contarem suas pr—prias
hist—rias. Como uma estratŽgia de resist�ncia, Òerguer a voz era uma forma de
rebeli‹o consciente contra a autoridade dominanteÓ (HOOKS, 2019, p. 20).
A partir de reflex›es
pedag—gicas, hooks (2019) considera que as hist—rias pessoais s‹o formas de as
pessoas se conectarem e se identificarem, mas as experi�ncias pessoais seriam
desconsideradas nos sistemas educacionais e de forma�‹o do conhecimento.
Haveria uma busca pela universalidade do saber, sendo que o universal Ž sempre
externo, masculino, branco, elitista. E, nesse cen‡rio, as vozes das mulheres
incomodam, assustam e, por isso, s‹o silenciadas.
A narra�‹o de si, para
hooks (2019, p. 226), Ž uma forma de constru�‹o de identidades e de
fortalecimento das mem—rias individuais cotidianas:
Para muitas
pessoas exploradas e oprimidas, a luta para criar uma identidade e nomear a
pr—pria realidade Ž um ato de resist�ncia, pois o processo de domina�‹o –
seja a coloniza�‹o imperialista, o racismo ou a opress‹o machista – tem
nos esvaziado de nossa identidade, desvalorizando nossa linguagem, nossa
cultura, nossa apar�ncia. Repito, isso Ž s— uma fase no processo de revolu�‹o.
Para hooks (2019, p.
227), isso permitiria que mulheres e homens utilizassem suas pr—prias
experi�ncias como formas de teoriza�‹o e de politiza�‹o dos saberes,
tornando-se um processo de historiciza�‹o e permitindo reconhecermo-nos como
parte da hist—ria, como fazem as mulheres cordelistas.
No livro
autobiogr‡fico em cordel ÒCora�‹o na aldeia, pŽs no mundoÓ, escrito por Auritha
Tabajara (2018), mulher ind’gena nascida no Cear‡, encontramos na orelha deste
que ela considera a poesia de cordel como Òautoexpress‹o e resist�ncia. Por
meio dela busco descontruir estere—tipos atribu’dos ˆs mulheres ind’genas, uma
vez que n‹o perco a minha ancestralidade morando na cidade e usando
tecnologiaÓ.
Os textos de Julie
Oliveira, professora, poeta e editora cearense, foram publicados em sua rede
social Instagram[49],
que ela utiliza como espa�o de divulga�‹o de seus trabalhos. A poeta Ž uma das
organizadoras do movimento Cordel sem Machismo e coordena o coletivo Cordel de
Mulher.
Izabel Nascimento Ž
sergipana, professora e poeta de cordel. Atualmente preside a Academia
Sergipana de Literatura de Cordel e est‡ ˆ frente do movimento Cordel sem
Machismo. Seus dois folhetos de cunho autobiogr‡fico tratados nesse texto s‹o
ÒCordel de M‹e e FilhaÓ (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2019) e ÒRelato de voz e
versoÓ (NASCIMENTO, 2018).
H‡ quatro eixos que
identificamos nas narrativas das tr�s poetas como articuladores para essa outra
hist—ria do cordel. S‹o temas que n‹o aparecem tratados nas discuss›es
conceituais e nas abordagens definidoras do cordel, pautadas nas experi�ncias
folcloristas, acad�micas, tampouco naquelas produzidas por poetas homens. S‹o eles:
a ancestralidade, as lutas pessoais cotidianas, os machismos e os di‡logos
individuais com o universo do cordel.
Destacando o primeiro
eixo, observamos que as autoras trazem uma importante refer�ncia ˆ
ancestralidade matrimonial. As tr�s poetas n‹o inauguram suas a�›es poŽticas
individualmente em suas vidas, mas emergem de di‡logos com outras mulheres.
Elas se apresentam como herdeiras dos bens culturais transmitidos pelas
mulheres mais velhas, ou seja, de bens matrimoniais, como descreve Lemaire (2018):
um conjunto de bens materiais e culturais pertencentes ˆs linhagens femininas.
No livro de Auritha,
ela aborda essa ancestralidade a partir da imagem da av—, com quem aprendeu a
contar hist—rias:
Contava para a
vov—,
Que dizia: Òv‡
sem medo,
O tempo que vai
chegar
Desvendar‡ o
segredo.
Escute, prenda,
pratique,
Vai precisar
logo cedoÓ (TABAJARA, 2018, p. 12).
AlŽm de ter herdado o
aprendizado sobre conta�‹o de hist—rias em rimas, Tabajara (2018) tambŽm tinha
na av— um referencial de for�a, de luta e de sabedoria.
Izabel Nascimento Ž
filha de pai e m‹e poetas e tambŽm aborda esse aprendizado em sua narrativa
autobiogr‡fica. Em ambos os textos de Nascimento (2018; 2019), ela destaca o
que aprendeu sobre a poesia com sua m‹e.
Os meus pais
s‹o os poetas
Que Deus me deu
de presente
Mam‹e, grande
cordelista
Papai, cordel e
repente
Fruto desse
amor gigante
Versejo desde o
instante
Que me entendo
como gente (NASCIMENTO, 2018, p. 7).
Desta heran�a, ela
evidencia tambŽm sua gratid‹o no cordel em que assina junto de Ana Santana
Nascimento:
Assim como o
fruto nasce
Quando a raiz
traz ˆ vida
Feliz o fruto
que honra
A jornada
percorrida
Eu honro quem
me gerou
Se serei, se
fui, se sou:
Obrigada, M‹e
querida! (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2019, p. 16)
E ainda:
Ana Santana,
mam‹e,
Forte,
inteligente e bela
H‡ tempos que o
vŽu da arte
Flamula,
buscando nela
Hist—ria, ch‹o,
garantia
Assim, bebi
poesia
Do leite
materno dela (NASCIMENTO, 2018, p. 7).
Julie Oliveira Ž filha
de pai poeta, com quem aprendeu as tŽcnicas e estruturas de sua poesia. Mas em
seus relatos apontados aqui, ela tambŽm traz outros aprendizados adquiridos com
sua m‹e e uma declara�‹o de respeito por sua m‹e e por sua av—.
Sou filha de
Assun�‹o
Mulher doce,
paciente;
Neta de Alice,
tambŽm,
E honro cada
semente
Porque carrego
comigo
A for�a de
minha gente (OLIVEIRA, 2020, on-line).
Da ancestralidade,
heran�as de mulheres, seja nos aprendizados sobre poesia de cordel, sobre
conta�‹o de hist—rias ou mesmo sobre outros aspectos da vida, seguimos para as abordagens
que as poetas fazem do universo do cordel. Elas contam sobre como entraram
nesse universo, sobre aprendizados.
Auritha conta que
come�ou a escrever poesia ainda na escola e uniu a isso ˆs conta�›es de
hist—rias que acompanhava da av—:
Aprendeu a ler
na rima
Tudo queria
rimar:
As brincadeiras
e hist—rias
Que ouvia a
vov— contar.
Com tambor e
marac‡,
De mœsica foi
gostar (TABAJARA, 2018, p. 10).
Julie apresenta seus
aprendizados em um dos poemas e atribui sua entrada no universo do cordel
tambŽm a uma rela�‹o heredit‡ria, mas, no caso, refere-se a seu pai, o poeta
Rouxinol do RinarŽ.
A poesia eu herdei
De um amigo de fŽ,
Companheiro de jornada
A quem aplaudo de pŽ:
Sou filha do cordelista
Rouxinol do RinarŽ (OLIVEIRA, 2020, on-line).
A entrada de Izabel Nascimento na poesia de
cordel se deu ainda crian�a, aprendendo sobre poesia com seus pais. Ao
descrever sua entrada nesse universo, Izabel destaca tambŽm os desafios que
encontraria em seu percurso.
Assim, entrei nesse mundo
Pautada nos bons valores
Meus irm‹os e eu tivemos
Na arte, dois bons doutores
A estrada iniciava
Eu sequer imaginava
Que nem tudo aqui s‹o flores (NASCIMENTO,
2018, p. 9).
Os desafios de sua vida, atŽ reconhecer-se como
cordelista, aparecem nos versos de Auritha Tabajara ao mencionar seu tr‰nsito
do espa�o de sua aldeia atŽ estabelecer-se em grandes cidades como Fortaleza e
S‹o Paulo. Nesses espa�os, ela ainda muito jovem identifica que nem todo mundo
tinha boas inten�›es.
Agora, l‡ na cidade
Era mocinha inocente
Sorria pra todo mundo
Que passasse ˆ sua
frente
Mas a maldade do povo
Se fazia ali presente
(TABAJARA, 2018, p. 16).
Izabel Nascimento conta sobre as dificuldades de
saœde que enfrentou e sobre como a poesia de cordel foi sua aliada para a
supera�‹o.
Meus problemas de saœde
Deixavam por perto a morte
Que desde cedo tentava
P™r o meu nome no corte
Com diretriz resumida
Busquei dar sentido ˆ vida
O cordel foi minha sorte (NASCIMENTO,
2018, p. 10).
A poeta Julie Oliveira trata, ainda, dos
desafios que encontra pelo caminho, sendo um deles, os trabalhos em parceria e
coletividade, que ela entende como fundamentais para que as cordelistas se
fortale�am em seus trabalhos.
Seguir sozinha Ž f‡cil
ƒ c™modo, eu sei fazer
Mas, decidi caminhar
Em conjunto, pra vencer
Com cordel e aliadas
N‹o vamos ficar caladas
Chegue junto, venha ver! (OLIVEIRA,
2020a, on-line).
O machismo Ž uma situa�‹o recorrente, como j‡
apontado nas discuss›es te—ricas deste trabalho. Ele aparece na narrativa das
mulheres poetas tanto quando elas falam sobre suas inser�›es no universo do
cordel quanto ao mencionar outras experi�ncias da vida – visto que o
machismo como um comportamento n‹o Ž exclusivo de um grupo unificado, mas se
expande por toda a sociedade.
Nascimento (2018) denuncia situa�›es me machismo
no universo do cordel a partir de suas experi�ncias:
Ser mulher na poesia
Exigiu muito de mim
A m‹o do machismo pesa
O seu disfarce Ž ruim
Carrega na estrid�ncia
O joio da incompet�ncia
Ainda hoje Ž assim. (NASCIMENTO, 2018, p.
12).
Julie Oliveira destaca essa situa�‹o a partir de
sua a�‹o de resist�ncia e de luta.
Ser Youtuber,
popstar
ƒ sonho de
muita gente
O meu Ž ver a
mulher
Ter tratamento
decente
Por isso, eu
estou no front
E n‹o fujo
desse afronte,
A minha for�a Ž
pungente.
[...]
Eles nos querem
chorando
Chateadas,
desunidas
ƒ verdade que
algumas
Ainda est‹o
iludidas
PorŽm v‹o se
esclarecer
E nunca mais
vamos ter
Nossas vozes
preteridas! (OLIVEIRA, 2020a, on-line)
Na narrativa de
Auritha Tabajara, o machismo se manifesta em suas experi�ncias cotidianas alŽm
do cordel. Acontece, por exemplo, quando ela chega ˆ cidade e um homem a
assedia com olhares.
Um cabra meio de longe
Desde cedo a observava
Veio se achegando aos poucos,
Fez que uma fruta comprava
E, como um lobo faminto,
Para a mocinha olhava (TABAJARA, 2018, p.
17).
E quando o pai de sua filha a processa por
Òabandono do larÓ e pede, judicialmente, o pagamento de pens‹o aliment’cia.
Rejeitado, o companheiro
Recusou-se a aceitar
Foi bancar o pai-her—i
No conselho tutelar.
Esperou ela sair
E j‡ foi denunciar (TABAJARA, 2018, p.
28).
Dialogando com o conceito de biomitografia de
Audre Lorde, ou seja, uma narrativa mais preocupada com o estado de esp’rito de
quem narra do que com a precis‹o de detalhes, a autobiografia para hooks (2019,
p. 319) Ž um relato de uma hist—ria muito pessoal que convoca n‹o exatamente
como os eventos aconteceram, mas como nos lembramos deles. ƒ isso o que as tr�s
poetas fazem em suas narrativas. Mais do que, precisamente, contar fatos com
uma pretens‹o de verdade, elas narram suas perspectivas diante de suas pr—prias
experi�ncias, trazendo ˆ tona suas emo�›es e sentimentos, evidenciado as
afeta�›es de suas hist—rias com o universo do cordel.
Considera�›es
finais
Segundo hooks (2019, p. 264), Òfalar Ž a marca
da liberdade, de se fazer sujeitoÓ. Para a autora, contar as nossas pr—prias
hist—rias Ž a forma de alcan�armos o poder por compartilharmos o nosso ponto de
vista sobre a hist—ria. E Ž isso que Julie Oliveira, Izabel Nascimento e
Auritha Tabajara fazem quando escrevem sobre si mesmas: declaram suas liberdades
individuais ao mesmo tempo em que contam a hist—ria do cordel.
ƒ importante considerarmos as narrativas das
mulheres para contarmos a hist—ria do cordel. Como a professora Fanka Santos
iniciou, precisamos construir novos olhares para a historiografia oficial,
inserindo as contribui�›es das mulheres poetas. Deste modo, estamos
transformando a hist—ria do cordel, mas tambŽm a hist—ria da literatura. Ao
observarmos as brechas na hist—ria, a partir de questionamentos e de fraturas
aparentes, Ž que podemos pensar nessa reescrita.
As narrativas das mulheres cordelistas est‹o
inseridas em uma rela�‹o de disputa de poderes sobre a mem—ria, sobre os modos
de conhecimento sobre o universo do cordel. Elas desestabilizam os saberes
institucionalizados destacando suas experi�ncias pessoais, suas rela�›es de
matrim™nio cultural e apontando as opress›es machistas que configuram desafios
em suas lidas. ƒ preciso nos voltarmos para as biomitografias e pontos de vista
das mulheres cordelistas para sermos capazes de refletir sobre o universo do
cordel.
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[Recebido:
07 ago 2020 – Aceito: 24 jan 2021]
MEMîRIA, VOZ E AUTORIA EM OS SAPATOS
DE Tƒ, DE CREMILDA E ELISABETE NASCIMENTO
MEMORY, VOICE AND
AUTHORSHIP IN OS SAPATOS DE Tƒ, BY
CREMILDA AND ELISABETE NASCIMENTO
Fernanda Oliveira da Silva[50]
http://orcid.org/0000-0001-9831-2827
Maria Teresa Salgado[51]
http://orcid.org/0000-0003-2993-3632
Resumo: Ao ler Os Sapatos de TŽ, de imediato, evidencia-se que as hist—rias ali
narradas s‹o contadas por mais de uma voz. O processo que comp›e esse livro Ž
interessante, pois s‹o as conta�›es da m‹e, Cremilda, escritas pela filha, a
escritora Elisabete Nascimento. AtravŽs das mem—rias e das vozes que
protagonizam a obra, somos levados a conhecer outra vers‹o da hist—ria
considerada como a oficial do pa’s. A partir dos poss’veis di‡logos com as
teorias de Michael Pollak (1989), Laura Cavalcante Padilha (2007) e Gayatri Spivak
(2010), iniciamos este breve estudo, analisando a mem—ria como elemento
fundamental para a composi�‹o da narrativa e para o protagonismo da mulher
negra, que assume, aqui, um papel de griot, trazendo a sua vers‹o da
hist—ria, denunciando a pobreza, a desigualdade, o racismo, a escravid‹o e dando
visibilidade ˆs vozes da Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro. A
inten�‹o dessa an‡lise Ž colaborar com a visibilidade de algumas dessas vozes.
Palavras-chave: Mem—ria. Oralidade. Vozes femininas. Subalterniza�‹o.
Abstract: When reading Os
sapatos de TŽ, immediately, it is evident that the stories narrated are
told by more than one voice. The process that makes up this book is
interesting, as it is the account of the mother, Cremilda, written by her
daughter, the writer Elisabete Nascimento. Through the memories and voices that
lead the work, we are brought to know another version of the story considered
as the country's official. Based on the possible dialogues with the theories of
Michael Pollak (1989), Laura Cavalcante Padilha (2007) and Gayatri Spivak
(2010), we begin this brief study, analysing memory as a fundamental element for
the composition of the narrative and also for the protagonism of the black
woman, who assumes, here, a role of griot, bringing her version of history,
denouncing poverty, inequality, racism, slavery and giving visibility to the voices
of the Baixada Fluminense of the state of Rio de Janeiro. The intention of this
brief study is to contribute to the visibility of some of these voices.
Keywords: Memory. Orality. Female voices. Subordination.
ÒO que os livros escondem,
as palavras ditas libertamÓ
(Concei�‹o Evaristo)
As palavras da escritora Concei�‹o Evaristo
n‹o se camuflam em eufemismos para denunciar um antigo problema que ainda
persiste no campo da literatura brasileira. Por longos anos, a escrita
liter‡ria consolidou-se como um espa�o de poder branco, excluindo as camadas
sociais negras, que possu’am formas de conhecimento consideradas inferiores.
Tais camadas tambŽm tinham o seu acesso barrado ao œnico conhecimento
considerado importante pela elite brasileira. Assim, por muito tempo, deu-se visibilidade
apenas a um lado da hist—ria; atŽ o momento em que algumas vozes silenciadas
come�aram a romper cada vez mais os cercados impostos e passaram a ser ouvidas nos
espa�os acad�micos. Importante dizer que tais vozes marginalizadas sempre se
manifestaram e transmitiram saberes, a despeito das muitas tentativas de
obstru�‹o e silenciamento sofrido ao longo da hist—ria. Nossa inten�‹o, com
esse breve estudo, Ž colaborar com a visibilidade de algumas dessas vozes.
Nossa ep’grafe tambŽm mostra a urg�ncia de
mais estudos liter‡rios sobre as escritas que foram mantidas fora do chamado
c‰none, visto que suas origens pertencem a espa�os historicamente marcados pelo
silenciamento for�ado, conhecido como uma das estratŽgias de opress‹o do
colonialismo e da escravid‹o. A abertura para as ÒnovasÓ enuncia�›es tem
acontecido aos poucos, pois a reivindica�‹o do direito ˆ escrita s— foi
escutada tardiamente.
Nesse sentido, interessa-nos lembrar a
rela�‹o que Antonio Candido faz entre os direitos humanos e a literatura, ao
considerar que s‹o Òbem incompress’veisÓ, entendendo que ambos n‹o podem ser
negados a nenhuma pessoa, uma vez que t�m um papel importante de humaniza�‹o.
Ao colocar a literatura ao n’vel de necess‡ria, Candido a define como algo
fundamental para compor a exist�ncia do ser humano. Para isso, o autor
relaciona a literatura e os direitos humanos de duas maneiras: a primeira
refere-se ˆ organiza�‹o mental que a literatura proporciona, pois, ao Òdar
forma aos sentimentos e ˆ vis‹o do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos
e portanto nos humanizaÓ (CANDIDO, 1988, p. 186); a segunda relaciona-se ao
aspecto de desmascaramento social e denœncia, pelo fato de a literatura Òfocalizar
as situa�›es de restri�‹o dos direitos, ou de nega�‹o deles, como a misŽria, a
servid‹o, a mutila�‹o espiritualÓ (CANDIDO, 1988, p. 186).
Assim, entende-se que a literatura Ž um
direito de todas e de todos, e compreendemos a necessidade de tornar a escrita
de mulheres, sobretudo de mulheres negras, vis’veis. Tal ideia justifica a
escolha da obra de Elisabete Nascimento como corpus deste artigo. ƒ importante esclarecer que n‹o se busca,
aqui, apenas
trabalhar a narrativa da escritora com o intuito de preencher alguma espŽcie de
cota nas pesquisas acad�micas, mas, sim, como procuramos mostrar ao longo deste
texto, para evidenciar as qualidades liter‡rias da obra de Nascimento.
Para compreender a an‡lise que aqui se
prop›e, Ž importante uma breve apresenta�‹o de Elisabete Nascimento. A
escritora nasceu em Barros Filhos, uma periferia do Rio de Janeiro. Aos quatro
anos, passou a morar no munic’pio de S‹o Jo‹o de Meriti, cidade onde Nascimento
permanece morando, localizada na Baixada Fluminense. A literatura Ž heran�a das
conta�›es da m‹e e das letras de samba-can�‹o de seu pai. Sua forma�‹o
acad�mica, desde a gradua�‹o atŽ o doutorado, foi realizada na Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por mais de trinta anos, atuou na educa�‹o
b‡sica e, por quinze, no ensino superior. Atualmente, Ž membro do grupo de
pesquisa Escritas do Corpo Feminino (UFRJ) e desenvolve projetos de leitura,
letramento e escrita criativa com estudantes de escolas pœblicas. Nascimento
tem nove livros, dos quais oito s‹o por autopublica�‹o. S‹o eles: Exu no Pa�o Imperial;
Di‡rio de bordo do Almirante Negro; Os Sapatos de TŽ; Contos Pro(L)ibidos;
Ciranda de Meninos; Luiza e Babi e o MistŽrio do Lago de Onira; M‡scara de flandres:
em fragmentos; Abayomi: minha amiga
imagin‡ria e Amor de Abiku. Os
versos e a prosa que comp›em as obras evidenciam a import‰ncia de hist—rias
vividas e contadas por mulheres e homens que tiveram suas exist�ncias negadas.
Ao ler
Os Sapatos de TŽ, de imediato, evidencia-se que as hist—rias ali narradas
s‹o contadas por mais de uma voz. O processo que comp›e este livro Ž interessante,
pois s‹o as conta�›es da m‹e, Cremilda, escritas pela filha, a escritora
Elisabete Nascimento. Ambas s‹o narradoras da hist—ria, e esta oscila�‹o de
vozes permite o contato com as mem—rias, os testemunhos e os saberes da m‹e da
escritora. Assim, acreditamos estar diante de Òuma forma artesanal de
comunica�‹oÓ (BENJAMIN, 1975, p. 69) em que experi�ncias s‹o trocadas e nela as
vozes narrativas deixam suas marcas Òcomo a m‹o do oleiro na argila do vasoÓ (BENJAMIN, 1975, p. 69).
A narrativa come�a a ser contada pela voz da
filha, Elisabete: ÒEssa Ž a hist—ria dos meus sapatinhos. E tambŽm dos sapatos
da minha m‹e e da m‹e de minha mam‹e, a velha DeolindaÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 13).
Em seguida, aparecem versos de uma can�‹o que vai perpassar toda a narrativa:
A liberdade de estar descal�o
Criou calo e espor‹o,
Por isso os pŽs da gente Monjolo
N‹o cabem nos sapatos n‹o
(NASCIMENTO, 2015, p. 13).
Interessa-nos analisar os versos acima, pois
podemos entend�-los como uma maneira de explicar uma das estratŽgias da
escravid‹o. Sabe-se que, no per’odo escravocrata, o uso dos sapatos era
atribu’do ˆ condi�‹o de liberdade do indiv’duo. Homens e mulheres, escravizados
e livres, se diferenciavam socialmente pelos cal�ados que usavam ou n‹o. Tanto
que um escravizado atŽ poderia vestir cal�as, palet—, mas nunca cal�ar
Òtamanco, nem [...] sand‡lias. De pŽ no ch‹o. Para deixar bem exposto o estigma
indisfar�‡vel do estatuto de cativoÓ (ALENCASTRO, 1997, p. 79). Logo, a pequena
can�‹o carrega uma poss’vel justificativa, a deformidade dos pŽs, para
consolidar uma das opress›es do per’odo colonial.
As primeiras p‡ginas, assim como o t’tulo, j‡
nos mostram que o sapato Ž o fio condutor da narrativa. Cremilda inicia suas
conta�›es falando sobre a sua m‹e, Deolinda, e a dificuldade dela de usar
sapatos: ÒMam‹e, sempre que vou visit‡-la, reclama que seus sapatos doem os
pŽs. E l‡ vou eu comprar mais um par de sapatosÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 14). Nas
linhas seguintes, a narradora-protagonista[52]
transporta sua hist—ria para um tempo-passado, volta-se para as recorda�›es de
sua inf‰ncia: ÒAos oito anos eu j‡ era empregada domŽstica. Eu cuidava da casa
e de duas crian�as. Eu s— aprendi a escrever j‡ com trinta anos...Ó
(NASCIMENTO, 2015, p. 23).
A composi�‹o da narrativa de Os Sapatos de TŽ, como pudemos ver no
trecho acima, Ž costurada pelas mem—rias da narradora-protagonista. AlŽm disso, Ž poss’vel notar que a
mem—ria de Cremilda representa uma realidade que, infelizmente, n‹o Ž exclusiva
da sua experi�ncia. Sabe-se que o trabalho infantil e o n‹o acesso ˆ escola
foram, e ainda s‹o, problemas reais das periferias e dos morros dos grandes
centros urbanos brasileiros.
Nesse sentido, pensamos nas mem—rias
coletivas, aquelas interditadas, e questionamos a hist—ria que sempre foi
considerada a verdadeira. Vejamos, no fragmento a seguir como, atravŽs das
lembran�as de Cremilda, a hist—ria do pa’s Ž contada:
Meus pais eram do tempo do dinheiro de couro
e da moeda de conchinha. Chamavam meu pai de rebelde. Chamavam minha m‹e de
rebeldia. Ele nasceu junto com a Revolta da Vacina e minha m‹e, com a Revolta
da Chibata. Eu nasci com a Revolta Comunista e minha filha mais velha com o Golpe
Militar, e mais revoltas. Nada por acaso na fam’lia dos revoltados (NASCIMENTO,
2015, p. 21).
Acima, o nascimento de cada pessoa da fam’lia
relacionou-se aos momentos importantes da hist—ria do Brasil. Novamente, vemos
a mem—ria particular tomar uma propor�‹o ampla. Interessa-nos, nesse momento,
pensar no texto Mem—ria, esquecimento,
sil�ncio, de Michael Pollak. Ao referir-se ao estudo da hist—ria oral,
real�a-se a relev‰ncia das mem—rias subterr‰neas, Òque, como parte integrante
das culturas minorit‡rias e dominadas, se op›em ˆ ÔMem—ria oficialÕ, no caso a
mem—ria nacionalÓ (POLLAK, 1989, p. 4). Essas mem—rias chamadas subterr‰neas
conseguem emergir, de forma transgressora, mesmo sendo destinadas ao sil�ncio,
provocando, assim, interfer�ncias na divulga�‹o dos fatos considerados
oficiais. O sil�ncio que foi, e ainda Ž, imposto as vozes subalternizadas
consegue ser ouvido atravŽs do interesse de registrar as viv�ncias de pessoas
simples, como foi feito pela escritora Elisabete Nascimento em Os Sapatos de TŽ.
As lembran�as da narradora-protagonista
entrecruzam-se com eventos hist—ricos do pa’s. Ao rememorar o ano de seu
nascimento, Cremilda acaba por trazer ˆ tona a denœncia em rela�‹o ao grande
nœmero de homens negros escravizados que, em troca de alforria, ÒescolheramÓ
lutar na Guerra do Paraguai. Tal fato resultou nas mortes desses homens que nem
se quer puderam sentir a sensa�‹o de liberdade: ÒQuando nasci, em 1935, papai
j‡ estava com 40 anos, mas morreu cinco anos depois. Ele era neto de escravo,
que foi a guerra do Paraguai, em v‹o, em troca de liberdadeÓ (NASCIMENTO, 2015,
p. 24).
A partir disso, pode-se compreender que as
mem—rias subterr‰neas da narradora-protagonista, ao surgir em espa�os tomados pelo poder da escrita, modificam as
cenas de grandes acontecimentos e, assim, como destaca Pollak (1989),
possibilitam a constru�‹o de outras hist—rias formadas pelas viv�ncias e pelas
experi�ncias das pessoas subaltenizadas.
AlŽm das mem—rias, outro elemento fundamental
para a composi�‹o de Os Sapatos de TŽ
Ž a oralidade. Ela se apresenta na obra de diversas formas, como por exemplo,
os versos musicados que penetram a narrativa, j‡ citados e analisados
anteriormente. AlŽm disso, pode-se observar que a estrutura do discurso nos
mostra a presen�a de di‡logos, ou seja, Cremilda parece estabelecer di‡logos
com alguŽm a todo instante. Pode-se observar isto na seguinte passagem: ÒCerto
dia, todos est‡vamos felizes com as sobras de um leit‹o, do porco do vizinho.
Pare de rir, Luiza, o vizinho n‹o Ž porco n‹o...Ó (NASCIMENTO, 2015, p. 14).
Para alŽm disso, sabe-se que, segundo Bakhtin (2003), um enunciado Ž sempre uma
resposta a outros.
H‡ um fragmento que, n‹o por acaso,
remete-nos a tradi�‹o africana: Òƒ preciso conta�‹o. Quer saber o que isso quer
dizer, Carlinha? Desenhe nossa ‡rvore sagrada, um imbondeiro, e voc� saber‡
sobre imensa fam’liaÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 23). Pode-se notar que a partilha
de conhecimento atravŽs das hist—rias, por meio de mem—rias da tradi�‹o,
segundo Laura Padilha, Òdifunde as vozes ancestrais, procura manter a lei do grupo, fazendo-se,
por isso, um exerc’cio de sabedoria.Ó (PADILHA, 2007, p. 35). Essas observa�›es
fazem-nos compreender a presen�a da oralidade, uma das heran�as da cultura
africana, como um aspecto essencial que influencia na estrutura e na estŽtica
da obra.
Ao pensar sobre a estrutura e a estŽtica, Ž
interessante retornarmos para a dedicat—ria da obra de Elisabete Nascimento que
n‹o deixa dœvidas sobre o processo criativo do livro: ÒFugindo aos padr›es de
edi�‹o, esta dedicat—ria n‹o Ž de autora para alguŽm, mas Ž das m‹os que
escrevem a voz das mem—rias de Cremilda, minha m‹e, companheira minha e de meus
irm‹os por mais de meio sŽculoÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 9). Sendo assim, a m‹o de
Elisabete imprime sua marca nas hist—rias contadas por Cremilda. Deste modo, a
voz da narradora-protagonista e da narradora-ouvinte est‹o presentes nos
relatos, para que a hist—ria seja continuamente compartilhada entre aquela que
fala e a que ouve e tambŽm escreve.
Com base nessa observa�‹o, interessa-nos
analisar a rela�‹o estabelecida entre quem conta, quem escuta e escreve Os Sapatos de TŽ. Para come�ar esta
an‡lise, parecem-nos pertinentes duas narrativas de tradi�‹o oral de Angola: o
missoso e a maka. Logo, torna-se fundamental nos debru�armos sobre o livro Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade
na fic�‹o angolana do sŽculo XX, de Laura Padilha. Vejamos a defini�‹o:
Missosso angolano [...] dentro do quadro da tradi�‹o oral
aut—ctone, Ž aquela forma narrativa percebida pelo natural como sendo
totalmente ficcional, no sentido em que v� nela um produto apenas do
imagin‡rio, algo n‹o acontecido no real emp’rico, pois pertencente apenas ˆ
ordem da fantasia. Op›e-se, por isso, ˆ maka, na origem, outra forma de
narrativa que relatava um acontecimento representado como vivido, ou pelo
contador, ou por alguŽm de sua intimidade, ou por pessoas de que ouviu falar.
Assim, a maka [...] seria a ficcionaliza�‹o de uma hist—ria tomada como
verdadeira, raz‹o pela qual tinha um fim utilit‡rio evidente, sendo que sua
tend�ncia did‡tica n‹o [era] tŽcnica, mas essencialmente social (PADILHA, 2007,
p. 40).
A partir das defini�›es dadas acima,
acreditamos que o processo de cria�‹o escolhido para a composi�‹o da narrativa
constitua-se, simultaneamente, da maka e do missosso, visto que as hist—rias,
ao serem contadas pela narradora-protagonista, passam pelo movimento de
reinven�‹o da narradora-ouvinte e escritora, transfigurando-se em fic�‹o. Esta
an‡lise torna-se cab’vel a partir da fala de Elisabete Nascimento na
dedicat—ria, j‡ citada, do livro. PorŽm, faz-se necess‡ria a reprodu�‹o de mais
um fragmento para que compreendamos a an‡lise levantada: ÒDif’cil tarefa, dar
voz a tantas vozes que me inspiram o tempo todo. Pe�o desculpas por interferir
constantemente com as minhas pr—prias percep�›es sobre as hist—rias maternas
nestas narrativasÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 9).
O uso frequente de vocativos Ž um detalhe
importante que atravessa todo o livro, pois, alŽm de caracterizar o di‡logo,
ressaltando a oralidade, demonstra o interesse e a preocupa�‹o da
narradora-protagonista em manter vivos em sua mem—ria os saberes ancestrais e
transmiti-los:
Ela pedia pra eu nunca esquecer as vozes
importantes em nossas vidas. Bem, aqui dentro destas letras tem uma voz, tem
muitas vozes esquecidas. A de mam‹e Deolinda, a da vov— Julia, a do papai
Antonio e a voz dos seus pais e av—s que perderam seu nome na travessia dos
viventes de Luanda e outros de Mo�ambique. Por isso Ž preciso conta�‹o. Quer
saber o que isso significa, Carlinha? (NASCIMENTO, 2015, p. 23).
Interessante, no fragmento acima, Ž a
reflex‹o que se pode fazer a partir dele. A narradora-protagonista –
seguindo o conselho de sua m‹e – para n‹o esquecer os testemunhos, as
mem—rias, tenta preserv‡-los por meio da oralidade, aproximando-se do g�nero
angolano da maka, ou seja, partilhando a hist—ria de uma coletividade por meio
do relato de sua viv�ncia.
Acreditamos ser inevit‡vel a aproxima�‹o da
imagem da narradora-protagonista, uma mulher negra de 80 anos, com o griot, a figura do mais velho na cultura
africana, ou seja, aquele que transmite o conhecimento a partir das mem—rias e
das hist—rias. Sobre o griot, Laura
Padilha explica sua import‰ncia dentro da sociedade africana: ÒO anci‹o liga o
novo ao velho, estabelecendo as pontes necess‡rias para que a ordem se mantenha
e os destinos se cumpram [...], tentando preservar os pilares de sustenta�‹o da
identidade, antes, durante e depois do advento colonialÓ (PADILHA, 2007, p.
57).
H‡ uma cena que dialoga com a cultura
africana. N‹o por acaso, vemos a heran�a africana aparecer na forma em que as
hist—rias s‹o contadas na obra. ÒNo dia de chuva, todos formamos uma roda em
volta da fogueira onde mam‹e cozinhava [...] tempo bom, da casa de estuque e da
conta�‹o de hist—ria e de adivinha�‹oÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 17). De pronto, esta poŽtica imagem faz com que lembremos tambŽm de
trechos da literatura angolana.
A narra�‹o, escrita em primeira pessoa,
permite que a voz subalternizada se torne protagonista da conta�‹o de sua
pr—pria hist—ria. Maria Nazareth Soares Fonseca, ao refletir sobre o romance Becos da mem—ria, de Concei�‹o Evaristo,
ressalta a import‰ncia da escolha da pessoa do discurso. Para ela,
O sujeito que assume a a�‹o de narrar o que
expressam essas vozes exclu’das sabe que o registro dos sofrimentos dos
miser‡veis exp›e os cortes constantes do pr—prio corpo, feridas dif’ceis de
serem cicatrizadas. Para salvar do esquecimento as hist—rias de vida
mergulhadas na pobreza extrema e no abandono, o escritor, fazendo-se sujeito
participante, assume narrar as hist—rias dos lugares degradados como uma forma
de luta contra a misŽria, deslocando Òo prazer meramente contemplativoÓ, como
diz Walter Benjamin, para uma atitude pol’tica que se concretiza na maneira
como a escrita procura vasculhar as vidas dos que lutam por sobreviver em
condi�›es intensamente desfavor‡veis (FONSECA, 2017, p. 192).
Pensando nisso, parece-nos que a escolha de
Elisabete Nascimento, ao apresentar a voz de sua m‹e Cremilda, para narrar e para
assinar a autoria do livro, Ž um ato pol’tico e uma das pr‡ticas feministas
atuais. Para explicar a empatia que aqui ocorre, compreendemos que um dos
fatores que impulsiona a proposta de Os
sapatos de TŽ Ž a sororidade. Vemos, a seguir, um coment‡rio elucidativo
sobre esse conceito:
uma experi�ncia subjetiva entre mulheres na
busca por rela�›es positivas e saud‡veis, na constru�‹o de alian�as existencial
e pol’tica com outras mulheres, para contribuir com a elimina�‹o social de
todas as formas de opress‹o e ao apoio mœtuo para alcan�ar o empoderamento
vital de cada mulher. A sororidade Ž a consci�ncia cr’tica sobre a misoginia e
Ž o esfor�o tanto pessoal quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura
mis—gina, enquanto transforma as rela�›es de solidariedade entre as mulheres.
Para combater a crueldade e o equ’voco da inimizade, o feminismo precisa
fortalecer e promover a sororidade, eliminar a misoginia pessoal e coletiva,
n‹o reproduzir formas de opress‹o entre mulheres como a discrimina�‹o, a
viol�ncia e a explora�‹o (LAGARDE, 2009, apud GAMBA, 2007, s/p).
Ao recolher as hist—rias e transform‡-las em
uma obra, Elisabete n‹o apenas d‡ voz a sua m‹e, como tambŽm faz com que a
narrativa alcance outras mulheres que vivem ou passam por experi�ncias
semelhantes. AlŽm do mais, acaba por refor�ar a liga�‹o entre essas mulheres,
de modo a denunciar as pr‡ticas pautadas na segrega�‹o e na desigualdade que,
transformadas em fic�‹o, evidenciam a supera�‹o pela oralidade e pela escrita.
N‹o poder’amos deixar de observar que as vozes
femininas negras, tanto como narradoras quanto escritoras, mostram-nos que
essas mulheres, mesmo sendo instru’das ˆ submiss‹o e ao sil�ncio, falam e agem
de forma independente. Isso s— corrobora que considerar a passividade e apatia
como caracter’sticas da mulher Ž um grande equ’voco. A fil—sofa francesa Simone
de Beauvoir, h‡ tempos, esclareceu tal ideia. No entanto, infelizmente, ainda
estamos longe de compreender tal processo de essencializa�‹o da mulher.
[...] a passividade que caracterizar‡ essencialmente
a mulher Ž um tra�o que se desenvolve nela desde os primeiros anos. Mas Ž um
erro pretender que se trata de um dado biol—gico: na verdade, Ž um destino que
lhe Ž imposto por seus educadores e pela sociedade (BEAUVOIR, 2016, p. 24).
A constata�‹o de agir, falar e, assim,
(re)escrever sua pr—pria hist—ria aparece quando Cremilda lembra que a
perspectiva de um futuro bom, segundo o desejo de seu pai, era um bom casamento
e bastava aprender a escrever o nome. PorŽm, Cremilda foi alŽm e realizou sonhos
que nunca imaginara: ÒMas atŽ sonho que n‹o sonhei, eu realizei: Casamento,
andar de avi‹o pra l‡ e pra c‡, saber ler e escrever livros e n‹o apenas
assinarÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 18).
Outro aspecto digno de nota Ž considerarmos a
obra como um poss’vel lugar de fala para as vozes que foram silenciadas por
tantos anos, desde a escravid‹o. Pensar no conceito de lugar de fala nos remete
ao pensamento da escritora indiana Spivak, sobretudo, em seu texto Pode o subalterno falar?, que levanta quest›es
importantes sobre o sil�ncio imposto aos que foram colonizados. Spivak (2010,
p. 66-67) nota, dentro do grupo de subalternos, a diferen�a entre homens e
mulheres:
No contexto do itiner‡rio obliterado do
sujeito subalterno, o caminho da diferen�a sexual Ž duplamente obliterado. A
quest‹o n‹o Ž a da participa�‹o feminina na insurg�ncia ou das regras b‡sicas
da divis‹o sexual do trabalho, pois, em ambos casos, h‡ Òevid�nciaÓ. ƒ mais uma
quest‹o de que, apesar de ambos serem objetos da historiografia colonialista e
sujeitos da insurg�ncia, a constru�‹o ideol—gica de g�nero mantŽm a domina�‹o
masculina. Se, no contexto da produ�‹o colonial, o sujeito n‹o tem hist—ria e
n‹o pode falar, o sujeito subalterno feminino est‡ ainda mais profundamente na
obscuridade.
Um di‡logo poss’vel com Os sapatos de TŽ Ž o recente livro Mem—rias da planta�‹o: epis—dios de racismo cotidiano, de
Grada Kilomba, sobretudo, na introdu�‹o intitulada como Tornando-se sujeito. Nele, a escritora fala sobre sentir Òuma fome
coletiva de ganhar voz, escrever e recuperar hist—riaÓ (KILOMBA, 2019, p. 27).
Ao longo desta breve an‡lise, vimos que as conta�›es da narradora-protagonista
contrap›em as hist—rias ÒverdadeirasÓ que, por muito tempo, foram ensinadas.
Por isso, Deolinda alerta Òdesconfiem o tempo inteiro do faz de contas e do
cond‹o. ƒ melhor do que tapar o sol com a peneiraÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 49).
Os sapatos de TŽ apresentou a hist—ria de
uma pessoa que, por ser mulher, teve seu futuro projetado pelo pai, que a
limitava ao papel de esposa, que sofreu racismo por ser negra e vivenciou
v‡rios abusos como empregada domŽstica. Logo, somos levados a refletir sobre a
mœltipla exclus‹o das mulheres negras na sociedade, afetadas pelo que KimberlŽ
Crenshaw (2002), ao definir o conceito de interseccionalidade, chamou de
cruzamento e sobreposi�‹o de distintas formas de subalterniza�‹o, como o
patriarcalismo, o racismo e a opress‹o de classe. Para isto, importante Ž a
contribui�‹o de Carla Akotirene, para quem
A interseccionalidade visa dar instrumentabilidade te—rico-metodol—gica
ˆ inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado -
produtores de avenidas identit‡rias onde mulheres negras s‹o repetidas vezes
atingidas pelo cruzamento e sobreposi�‹o de g�nero, ra�a e classe, modernos
aparatos coloniais (AKOTIRENE, 2018, p. 14).
Ao final da obra, Ž poss’vel compreender o
t’tulo: a narradora-protagonista conta-nos que a morte de Deolinda, sua m‹e,
chega e ela fez Òuma pantufa de feltro bem fofinho e coloquei nos pŽs de mam‹e
que, com certeza faria uma visita aos parentes distantes de AngolaÓ
(NASCIMENTO, 2015, p. 47) e depois Òem sonho, mam‹e disse que os sapatos de TŽ
finalmente n‹o do’am seus pŽsÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 47).
E, na œltima p‡gina do livro, nos Ž
apresentada uma nova vers‹o dos versos que iniciaram essas conta�›es, ou canta�›es, uma vez
que se expressam tambŽm como vozes que buscam ecoar o canto de novas hist—rias:
A liberdade de estar descal�o
Criou a ilus‹o,
De ser ela o motivo de tanto calo e espor‹o,
Nos pŽs de gente Monjolo
Mas deixa estar; que por obra de rebeldia
Nem eu, nem mam‹e, nem vov— e ninguŽm mais
Acreditou ou acredita naquela estrofe viciada
(NASCIMENTO, 2015, p. 53)
Essa estrofe mostra-nos que a situa�‹o de subalternizada
n‹o ser‡ mais aceita, que estas vozes negras femininas que aqui narraram n‹o se
conformar‹o com as vers›es das hist—rias que foram impostas. De acordo com bell
hooks[53],
Òa œnica maneira de as mulheres negras constru’rem uma subjetividade radical Ž
resistindo ao conjunto de normas e desafiando ˆs pol’ticas de domina�‹o
baseadas em ra�a, classe e sexoÓ (HOOKS, 2019, p. 125). Sendo assim, podemos
pensar nas conta�›es de Cremilda e na escrita de Elisabete como a�›es
transgressoras e resistentes a opress›es de uma sociedade enraizadas em um
sistema colonial.
Ap—s esse percurso por Os sapatos de TŽ, notou-se a import‰ncia do processo
criativo escolhido para a constru�‹o da obra. Ao dar voz a Cremilda e escrever
a narra�‹o a partir das mem—rias, Elisabete possibilita outras vers›es da
hist—ria e a protagonismo dessa voz. AlŽm disso, essa constru�‹o acabou por
compor uma obra inspirada em moldes ancestrais. Assim, a partir dos
procedimentos criativos j‡ mencionados, a autora rompe com um modelo
tradicional da literatura ocidental, enquanto revela a supera�‹o da mulher
negra, que n‹o aceita mais ficar no espa�o da invisibilidade e do
silenciamento.
Refer�ncias
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Brasil. S‹o Paulo: Companhia das Letras, 1997. p. 12-447.
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Paulo: P—len, 2019.
BAKHTIN, Mikhail. EstŽtica da cria�‹o verbal.
Trad. Paulo Bezerra. S‹o Paulo: Martins Fontes, 2003.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Vol. 2. A
Experi�ncia Vivida. Trad. SŽrgioMilliet. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
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BENJAMIN, Walter. O narrador. In: BENJAMIN, W. et al. Textos escolhidos. S‹o Paulo: Abril
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CANDIDO, Antonio. Direito ˆ literatura. In:
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FONSECA, Maria Nazareth Soares. Costurando
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S‹o Paulo: Elefante, 2019. p. 97-127.
KILOMBA, Grada. Mem—rias da planta�‹o: epis—dios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobog‡, 2019.
LAGARDE,
M. Definindo sororidade. Adaptado de Maiara Moreira de RêOS, Marcela Lagarde y
de los. Sororidad. In: GAMBA, Susana Beatriz. Diccionario de estœdios de
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NASCIMENTO, Cremilda Mizael. Os sapatos de TŽ: a filha do reino das ‡guas de Deolinda e
Ant™nio. Org. Elisabete
Nascimento e Bruno Luiz da Silva Nascimento. Rio de Janeiro: Quartica, 2015.
PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na fic�‹o angolana
do sŽculo XX. 2. ed. Niter—i:
EdUFF Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2007.
POLLAK, Michael. Mem—ria, esquecimento,
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n. 3. Rio de Janeiro, 1989.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Tradu�‹o Sandra Regina GoulartAlmeida
et al. Belo Horizonte: UFMG, 2010.
[Recebido:
20 jul 2020 – Aceito: 07 dez 2020]
VOZES DE MARACANGALHA:
INTERSEC‚ÌO DE SABERES E AFETOS
VOICES OF MARACANGALHA: INTERSECTION OF
KNOWLEDGE AND AFFECT
Railda Maria da Cruz dos Santos[54]
https://orcid.org/0000-0002-3151-689X
Edil Silva Costa[55]
https://orcid.org/0000-0002-3151-689X
Resumo: Apresenta-se
brevemente a produ�‹o poŽtica tradicional de Maracangalha, povoado de S‹o
Sebasti‹o do PassŽ, Bahia, a partir do repert—rio da manifesta�‹o cultural
ÒLindro AmorÓ. As cantigas analisadas foram registradas no caderno de anota�›es
ÒCultura popularÓ, da professora N’vea, moradora da localidade. Partimos do
pressuposto que a din‰mica dessa produ�‹o, ao longo do tempo, coloca nesse
territ—rio os corpos de mulheres negras que, com suas vozes, interseccionam
saberes, fazeres e afetos, de si e de seus pares, como dispositivo de
(re)exist�ncia. Para tanto, o artigo se ampara no mŽtodo qualitativo de cunho
etnogr‡fico e nos te—ricos: Foucault (1996), Guattari e Rolnik (1986), Kilomba
(2019), Quijano (2005) e Zumthor (1993, 2005, 2007, 2010). AlŽm do repert—rio
do caderno, trataremos tambŽm das narrativas de mulheres que integram o grupo
de cultura popular supracitado. Por fim, tecemos considera�›es acerca dos
caminhos trilhados por essas mulheres para o deslizamento e perman�ncia da
poŽtica da voz nos dias atuais.
Palavras-chave: Maracangalha. Lindro
Amor. PoŽticas orais. Cultura popular. Mulheres negras.
Keywords: Maracangalha. Lindro Amor. Oral poetics. Popular culture.
Black women.
O Lindro Amor de
Maracangalha
Eu vou pra Maracangalha,
eu vou
Eu vou de uniforme branco, eu vou
Eu vou de chapŽu de palha, eu vou
Eu vou convidar An‡lia, eu vou...
(Caymmi, 1978)
A voz corrobora a
exist�ncia de um coletivo, de uma a�‹o pol’tica, de uma cultura. Nesse sentido,
Òa voz exerce no meio humano uma fun�‹o forte, mas n‹o id�nticaÓ (ZUMTHOR,
2005, p. 80), uma vez que se corporaliza, de acordo com o sujeito de
enuncia�‹o, rompendo e remodelando-se no tempo e no espa�o. ƒ a partir dessa
premissa que pensamos no texto da cultura popular, mais especificamente, a poesia
oral de grupos subalternizados que criam sua linguagem singular como mecanismo
de insurgir contra o sistema hegem™nico. Assim, Ž da linguagem das minorias que
emanam as reflex›es deste artigo, das narrativas e dos cantos tradicionais que
fizeram e fazem parte da cultura popular da comunidade de Maracangalha.
O nome do
lugar Ž conhecido pela can�‹o de Dorival Caymmi. Decidido, o eu l’rico iria
para l‡ com An‡lia, se ela quisesse ir, sen‹o ele iria s—. Mas, o que nem todos
que ouvem a can�‹o sabem Ž onde fica Maracangalha
e porque ele queria tanto ir l‡. Vamos atender ao aceno dele, aceitando seu
convite para nos aproximarmos desse lugar, com o ouvido atento ˆs vozes de seus
moradores.
Maracangalha Ž um
distrito do munic’pio de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, cidade do interior da Bahia,
cerca de sessenta quil™metros de Salvador[56]. Fazendo parte da regi‹o do Rec™ncavo, o nœcleo urbano de
S‹o Sebasti‹o do PassŽ Ž bastante antigo: foi uma freguesia criada em 1718,
sendo distrito de S‹o Francisco do Conde atŽ 1926, quando foi emancipada e
promovida a cidade. A partir da dŽcada de 1960, desenvolve-se gra�as ˆ
explora�‹o de po�os de petr—leo e, embora rica, tem uma das popula�›es mais
pobres do Estado e ’ndices de desenvolvimento humano muito baixos.
Com uma popula�‹o negra
predominante, em fun�‹o do processo de ocupa�‹o da ‡rea ainda no sŽculo XVIII e
da necessidade de m‹o de obra escravizada para a lavoura de cana-de-a�œcar, a
cultura local preserva fortes tra�os desse caldeamento. Compreendemos que nesse
processo de cria�‹o h‡ um dinamismo hist—rico, cultural e temporal, que
possibilita novos modos de configura�‹o e ressignifica�‹o do texto tradicional
oral na atualidade. Nosso olhar se voltar‡ mais especificamente para as
mulheres negras e sua produ�‹o cultural nos dias de hoje. Desse modo, focaremos
nos modos de produzir de mulheres que interseccionam saberes, dizeres e afetos,
e seus corpos como territ—rio de (re)exist�ncia da voz poŽtica nessa
localidade.
Nos limites deste
artigo, destacamos a manifesta�‹o cultural denominada Lindro Amor. De acordo
com informa�›es locais, trata-se de uma brincadeira presente em Maracangalha
desde o per’odo dos engenhos que l‡ existiam, estendendo-se pelo processo de
industrializa�‹o da cana-de-a�œcar pela Usina Cinco Rios e sendo recriada por
moradores da vila atualmente. Segundo Pr— N’vea – como Ž conhecida a
professora N’vea –, uma das mulheres integrantes do grupo Lindro Amor, o
cortejo sa’a nos dias de feira e nos dias de pagamento dos trabalhadores da
usina para arrecadar fundos, mas tambŽm com objetivo de simplesmente brincar ou
festejar a vida. Assim ela explica:
O Lindro Amor Ž
um festejo, um cortejo formado por mulheres, homens e crian�as, [...] que
pediam ajuda para o caruru de S‹o Cosme, S‹o Roque e Santa B‡rbara. Ent‹o,
vinha na frente uma caixinha toda enfeitada de flores com a imagem do santo, as
mulheres dan�ando e os homens tocando e cantando o ritmo de afoxŽ. O cortejo
sa’a na rua de casa em casa, pedindo oferenda ao dono da casa [...]. Um cortejo
nascido de dentro dos terreiros de candomblŽ que aqui existiam, surge da
necessidade de angariar fundos para fazer e dar as oferendas para os orix‡s
[...]. AlŽm disso, o Lindro Amor participava do ritual da botada da usina, ou
seja, quando a usina ia come�ar a funcionar, moer a cana (Pr— N’vea, informa�‹o
verbal, 31/07/2019).
Como percebemos no
depoimento acima, h‡ inicialmente uma motiva�‹o financeira. O pedit—rio
sempre foi costume nas irmandades e nos terreiros de candomblŽ. Nasce da
necessidade para angariar fundos, mas tambŽm Ž uma forma de envolver a
comunidade nas celebra�›es, tornando a festa uma promo�‹o coletiva. O pedit—rio
pode ser individual como, por exemplo, por parte do iniciado no candomblŽ que
n‹o tem recursos para bancar a feitura do santo ou a festa para o seu orix‡.
Nesse caso, o sujeito pede de porta em porta a ajuda necess‡ria, em nome do
santo. Em geral, usam as indument‡rias de sua condi�‹o e hierarquia, portam
balaios com imagens, pipocas ou a comida do orix‡ e pedem dinheiro ou outro
tipo de ajuda. Esse costume, menos frequente nos dias atuais, tambŽm serve como
exerc’cio de humildade para o filho de santo, assim como para tornar pœblica
sua condi�‹o de iniciado. As irmandades costumavam pedir esmolas para obter
recursos destinados ˆ ajuda humanit‡ria para os mais necessitados, mas tambŽm
para as festas dos santos de sua consagra�‹o.
Na descri�‹o de Pr— N’vea,
o balaio Ž substitu’do por Òuma caixinha toda enfeitada de flores com a imagem
do santoÓ e a ÒajudaÓ seria para o Òcaruru de S‹o Cosme, S‹o Roque ou Santa
B‡rbaraÓ, santos cat—licos, mas que t�m estreita rela�‹o com as casas de santo
no Rec™ncavo da Bahia. Pedir ajuda para oferecer comida (o caruru) justifica-se
porque, nesse contexto, o banquete deve servir a toda comunidade. N‹o existe
festa sem comida, sem fartura e sem compartilhamento. Oferece-se a comida do
santo, mas esta deve ser tambŽm compartida com os envolvidos e assim se exerce
a devo�‹o.
A mœsica e a dan�a, do
jeito que s‹o apontadas por ela, nos remetem para a sa’da do terreiro para a
rua: Òas mulheres dan�ando e os homens tocando e cantando o ritmo de afoxŽÓ.
AfoxŽ Ž um ritmo do terreiro, uma evoca�‹o ou chamamento para o santo. Tocar e
dan�ar na rua o ijex‡, ou seja, o Òritmo de afoxŽÓ Ž tambŽm tornar pœblica a
rela�‹o do cortejo com os terreiros. Curiosa a estratŽgia de colocar o cortejo
na rua coincidindo com o dia do pagamento dos trabalhadores e dias de feira,
porque nessas ocasi›es haveria mais dinheiro circulando e, portanto, seria mais
vantajoso para alcan�ar o objetivo. Com o passar dos anos, o cortejo ganha
caracter’sticas mais de folguedo ou festejo e a fun�‹o de pedit—rio vai se
esvaziando. Da’ surge a quest‹o: quais as fun�›es que assume hoje? O que leva
esses sujeitos a reinventarem essa tradi�‹o e como ela se configura na
contemporaneidade? Qual o papel das mulheres nesse contexto?
Assim, procuramos
compreender o Lindro Amor, suas motiva�›es de cria�‹o e perman�ncia, enquanto
texto que produz sentidos para a comunidade de Maracangalha e para as mulheres,
demarcando seus territ—rios de identidades e produ�‹o de subjetividades. FŽlix
Guattari, em Subjetividade e hist—ria, ao abordar sobre produ�‹o
subjetiva, traz para seu debate o termo singulariza�‹o como forma de
recusa ˆ produ�‹o subjetiva capital’stica. Para o autor, essa singulariza�‹o
seria como dispositivos, vias de escape para que grupos sociais, as minorias,
criem seus Òpr—prios modos de referencia�‹o, suas pr—prias cartografiasÓ (GUATTARI;
ROLNIK, 1986, p. 49). Assim, propomos pensar a produ�‹o poŽtica de Maracangalha
como um processo singular em que a subjetividade ocorre Òemprestando,
associando, aglomerando dimens›es de diferentes espŽciesÓ (GUATTARI; ROLNIK,
1986, p. 37). Nesse sentido, processo de singulariza�‹o relaciona-se com
processo criativo, liga�›es, resist�ncia, troca de saberes, de afetos, mas
tambŽm com a produ�‹o poŽtica.
A nossa an‡lise
ancora-se nos estudos culturais, a partir de uma vis‹o interdisciplinar, aliada
a um referencial te—rico que dialoga com a proposta referida, alŽm das
narrativas apresentadas e materiais (orais/virtuais ou impressos/materiais)
recolhidos da tradi�‹o oral da comunidade. Isso porque consideramos as mulheres
integrantes do Lindro Amor enquanto arquivos vivos (COSTA, 2016) e suas
narrativas reveladoras de pr‡ticas de armazenamento, conserva�‹o e cataloga�‹o
de saberes.
Osmar Moreira Santos, na
obra Arquivos, testemunhos e pobreza no Brasil, aborda que, para alŽm de
seu corpo e performance, caixas de sapatos, baœs, gavetas entre outros, podem
constituir-se em arquivos de pobres como lugar de resist�ncia (SANTOS, 2016, p.
16). Assim, os relatos, mas tambŽm cole�›es de objetos, documentos e cadernos
de anota�›es, podem ser vistos como arquivos[57] da cultura de tradi�‹o popular dessa comunidade. Enquanto
resist�ncia, os arquivos podem significar a labuta do trabalho, a cria�‹o e
recria�‹o da cultura oral, mas tambŽm resist�ncia aos embates culturais no
interior de um coletivo.
Diante desta silepse,
pensar as poŽticas orais Ž tambŽm analisar os sentidos, as formas de
resist�ncia e ressignifica�›es para a comunidade e para as pessoas que faziam e
fazem parte desses grupos. Portanto, a partir da apresenta�‹o e breve an‡lise
do Lindro Amor, propomos refletir sobre os territ—rios da voz, os corpos de
mulheres negras e a intersec�‹o de saberes e de afetos em sua produ�‹o
cultural.
Delineando
o territ—rio da voz em corpos de mulheres negras
Conhecida por sua hospitalidade,
poeticidade e musicalidade, Maracangalha Ž tambŽm lembrada por narrativas orais
sobre personagens famosos neste cen‡rio, como a hist—ria da sambadeira Am‡lia[58] e do capoeirista Besouro[59]. Algumas dessas narrativas remontam ao tempo dos engenhos,
quando grupos afrodescendentes eram escravizados e explorados pelo sistema de
poder.
Como foi dito, Maracangalha
pertence ao munic’pio de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, a 51 Km do cruzamento das
rodovias BR-324 e BR-110. No acesso ˆ vila, h‡ um monumento, uma espŽcie de
chaminŽ, que representa partes da usina e identifica o nome da comunidade.
Apresenta uma paisagem natural e modificada, marcada pelos canaviais, pelas
‡guas do Rio Joanes e por um solo denominado massap�, elementos esses
que se fundem no processo de constru�‹o de sua linguagem poŽtica.
Portanto, ao chegar ˆ
comunidade, nos deparamos com uma encruzilhada, que pode ser descrita,
percebida e visualizada em suas formas, mas tambŽm em sentidos. Na horizontal,
temos uma linha fŽrrea que nos leva para outros contextos e cenas culturais. J‡
no sentido vertical, trilha-se para o centro da comunidade. ƒ importante
ressaltar que nesse cruzamento, avistamos, ˆ esquerda, as ru’nas da Usina Cinco
Rios. Seu nome gasto pela a�‹o do tempo, representa a decad�ncia de uma
atividade econ™mica que permanece na lembran�a dos mais velhos.
Nesse territ—rio cultural, h‡ uma pra�a nomeada Dorival
Caymmi que, em seus contornos, revela tra�os espec’ficos do local como o
desenho de um viol‹o, signo que comp›e e faz parte da cultura popular
tradicional da localidade. Em volta da pra�a, casas arquitetadas na Žpoca em
que os moinhos da usina estavam a todo vapor, a Igreja Nossa Senhora da Guia,
alŽm do largo do mercado, que serviu e serve de palco para as festas populares
da comunidade. ÒMaracangalha era toda festa e ora�›esÓ, como descreve Valdevino
Neves Paiva:
O largo da capela parecia uma lapinha. Barracas
de palha de pindoba ou dendezeiro, enfeitadas de bandeirolas multicores, eram o
principal ponto de atra�‹o tur’stica das pessoas vindas das fazendas vizinhas,
da cidade de S‹o Sebasti‹o do PassŽ e de outras, como Candeias, S‹o Francisco
do Conde, Santo Amaro, Salvador entre outras. [...]. Por toda parte o povo
andava, e em toda parte havia um ponto de divers‹o: aqui uma roda de samba;
[...] adiante uma roda de capoeira com capoeiristas famosos da Bahia, como
Mestre Bimba e outros; mais ˆ frente – cavaleiros trajados a rigor,
cavalos enfeitados [...]. N�go bebo n‹o faltava, perturbando as rodas de samba,
intrometendo-se entre os foli›es do afoxŽ organizado por Lau (Ladislau Bispo)
na fazenda Quibaca, ou entre os blocos que JosŽ Porf’rio ou ZŽ Pretinho
colocavam nas ruas (PAIVA, 1996, p. 67).
A saborosa descri�‹o de
Paiva nos d‡ a dimens‹o de qu‹o colorida e fervilhante era Maracangalha em dias
de festa, envolvendo pessoas advindas de outras cidades, num conjunto que
misturava religiosidade, cavalgadas, samba e capoeira, tudo regado a muita
bebida e podendo haver confus‹o. ƒ nesse territ—rio que analisaremos as
produ�›es poŽticas dos moradores de Maracangalha, reconhecendo a contribui�‹o
dessas produ�›es para a forma�‹o identit‡ria baiana e brasileira. O lugar
poŽtico, onde mulheres negras trocam saberes para que a mem—ria da tradi�‹o
atravesse o tempo e o espa�o.
Embora o Lindro Amor n‹o
seja uma manifesta�‹o cultural exclusivamente feminina, nossa pretens‹o aqui Ž
apresentar um breve olhar sobre o deslizamento dos corpos das mulheres negras que
fazem parte da cultura de tradi�‹o oral de Maracangalha. Quem s‹o essas mulheres?
O que seus corpos produzem?
Tentando tra�ar um
perfil das narradoras maracangalhenses, observamos que elas s‹o senhoras de 60
a 80 anos, em grande parte n‹o escolarizadas ou semianalfabetas, praticantes do
cristianismo e de religi‹o de matriz africana. Historicamente, as mulheres
negras da regi‹o eram trabalhadoras dos engenhos, das casas grandes, amas de
leite, rezadeiras e sambadeiras. Atualmente, seus afazeres
v‹o alŽm dos de donas de casa. Exercem atividades representativas em sua
comunidade, como m‹es de santo, costureiras, professoras, l’deres de grupo
cultural, entre outras ocupa�›es. Mulheres de classes populares que, por
intermŽdio de suas mem—rias, transportam, mas tambŽm conectam passado e
presente, percebendo ou n‹o, que suas a�›es resultam na atualiza�‹o e
conserva�‹o da poŽtica oral.
Para o medievalista Paul
Zumthor, Òo corpo Ž ao mesmo tempo o ponto de partida, o ponto de origem e o
referente do discursoÓ (ZUMTHOR, 2007, p. 77). De acordo com o pensamento do
autor, o corpo Ž o local que emana a voz. Nele, a voz se materializa, dando uma
impress‹o de presen�a, impondo-se, preenchendo espa�o, tanto material quanto
sem‰ntico. Enquanto territ—rio vocal, o corpo Ž presen�a perform‡tica. J‡ a voz
precisa do corpo para atingir sua plenitude (ZUMTHOR, 2005). Portanto, o corpo
das mulheres negras deve ser visto como o espa�o territorial da voz poŽtica
tradicional de Maracangalha, que se articula em um tr‰nsito sem‰ntico
discursivo para sua (re)exist�ncia.
Grada Kilomba, ao
discorrer sobre os corpos de mulheres negras, afirma que ÒNo racismo, corpos
negros s‹o constru’dos como corpos impr—prios, como Ôcorpos que est‹o fora do
lugarÕ, por essa raz‹o corpos que n‹o podem pertencerÓ (KILOMBA, 2019, p. 56). A afirma�‹o da autora pontua, mas
tambŽm valida o longo processo hist—rico vivido pelas mulheres negras inseridas
no sistema racista, opressor e patriarcal, que invalidam seus corpos e,
automaticamente, todos seus conhecimentos. Ao nos referirmos ˆs mulheres
negras, seus corpos n‹o podem ser vistos como primitivos ou irracionais, como
foi conceituado na perspectiva euroc�ntrica para as rela�›es de domina�‹o e explora�‹o
de trabalho (QUIJANO, 2005). Entretanto, aqui, o corpo tem uma integridade, uma
racionalidade, ele produz linguagem. ƒ o corpo um territ—rio em que ganha vida
a performance poŽtica. Ele carrega a mem—ria cultural, mas tambŽm a voz da
tradi�‹o. Desse modo, interessa-nos investigar a atua�‹o das mulheres de
Maracangalha enquanto corpos que resistem e enfrentam e revertem os discursos
que as desqualificam.
Entre a oralidade e a escrita, extens›es da mem—ria
Adentrar a comunidade de
Maracangalha, enquanto pesquisadoras, Ž vasculhar, com o olhar minucioso, as
gavetas, baœs e quartinhos, ˆ procura de objetos, indument‡rias, bandeiras,
cadernos, livros, instrumentos musicais, CDs, DVDs etc. Comp›em o cen‡rio
investigado, altares, imagens de S‹o Cosme e Dami‹o, do Sagrado Cora�‹o de
Jesus e Maria, Santo Ant™nio, quadros que representam outras paisagens
culturais. Interessa-nos a poesia oral/escrita, o canto, as narrativas em
performances, entrela�ando discursos do ontem e do agora, mas tambŽm todo esse
cen‡rio e os objetos que o comp›em. Esse conjunto integra a produ�‹o da cultura
local, revelando as formas de arquivamento da mem—ria, individual e coletiva.
Todo arquivo Ž uma
sele�‹o e parte de uma a�‹o, valor, significa�‹o que determinado objeto
representa para um indiv’duo ou seu grupo, pois desde a sele�‹o para essa
guarda, de forma intencional ou n‹o, o ato de arquivar os objetos, carregam em
si a mem—ria de seu guardi‹o. Os arquivos da cultura popular est‹o distantes
dos arquivos pœblicos, dos grandes centros culturais, das institui�›es que
representam o Estado, mas tambŽm s‹o formas de salvaguardar e preservar a
mem—ria cultural, seus fazeres, suas cren�as, seus costumes, da a�‹o do tempo. Ademais,
percebemos que os sujeitos tambŽm selecionam seu arquivo material com formas
pr—prias de organicidade e metodologia, cuja diversidade se faz presente nos
arquivos pœblicos, mas com cuidado e zelo, pelo valor simb—lico que esses
arquivos representam para os indiv’duos e para a comunidade. Portanto,
metodologia e organicidade perpassam por um ato subjetivo dos sujeitos.
AlŽm disso, os arquivos
trazem em si o vazio, o sil�ncio, o rastro de outros tempos, experi�ncias e
viv�ncias. Assim, vemos que podem servir de testemunhos de lembran�as e
esquecimentos, assim como s‹o tambŽm ferramentas para a preserva�‹o de
informa�›es culturais relacionadas ao grupo do Lindro Amor. Destacamos dentre
os objetos de fixa�‹o de mem—rias um dos cadernos da professora N’vea.
Para a leitura dos
signos presentes no acervo cultural do Lindro Amor, apropriamo-nos da express‹o
arquivista anarquista proposta por Reinaldo Marques que, ao fazer
refer�ncia ao perfil do pesquisador ao lidar com o arquivo liter‡rio, deve
atuar como Òarquivista anarquista, lendo o arquivo a contrapeloÓ (MARQUES, 2008,
p. 117). Segundo o autor, isso possibilita uma leitura cr’tica, a desconstru�‹o
da ordem dos arquivos, formulando novas formas de leituras e interpreta�›es. O
sujeito do arquivo desafia o arquivista, pois o for�a a olhar para o que Ž
ocultado e acurar o ouvido para ouvir os silenciamentos.
O pesquisador/ouvinte,
em contato com as formas de arquivos, deve voltar seu olhar Òpara a natureza
discursiva, sua oculta�‹o ou exposi�‹o [...], mas tambŽm para a narrativa que
se estabelece nesses fragmentosÓ (COSTA, 2016, p. 60). Nesse sentido, vemos que
o pesquisador deve atentar para a linguagem presentes nos objetos, os sentidos
revelados pelo arquivo. Desse modo, considerando os narradores como arquivos
vivos (COSTA, 2016), a constru�‹o de sentidos da poŽtica oral se atualiza, se
ressignifica, apresentando a ÒintervocalidadeÓ que, segundo Paul Zumthor
(1993), deve ser entendida como a voz que faz uma trilha no tempo e no espa�o,
mas que tambŽm carrega a tradi�‹o.
Importante notar que,
embora a transmiss‹o dos saberes seja predominantemente oral, encontramos no
caderno de anota�›es um suporte valioso que indica n‹o s— o dom’nio do c—digo
escrito, mas o uso adequado dessa ferramenta em fun�‹o do desejo de registro e
salvaguarda. Zumthor (2010, p. 39) prescreveu que Òa poesia oral hoje se exerce
em contato com o universo da escritaÓ. Para o autor, esse contato pode
acontecer em um prazo mais ou menos longo, chamando a aten�‹o para o impacto da
escrita sobre a poesia oral. A declara�‹o de Zumthor apresenta rela�‹o com as
formas de arquivo da cultura popular de Maracangalha, uma vez que os arquivos
carregam a voz da tradi�‹o. Ao acessar esses arquivos virtuais/materiais, seus
narradores/ouvintes, atravŽs da performance, proporcionam a produ�‹o e a
transmiss‹o da poŽtica oral. Por outro lado, o caderno de anota�›es, como o de
Pr— N’vea, revela a transcri�‹o da voz, materializando a palavra oral em
escritura, uma espŽcie de Òsegunda l’nguaÓ (Zumthor, 2005), afirmando o dom’nio
do c—digo escrito em um territ—rio aparentemente dominado pela oralidade.
Pode-se tambŽm revelar, numa perspectiva espacial, um territ—rio afetivo em que
pares trocam afetos e experi�ncias.
Dentre as mulheres que
tem o dom’nio da escrita no grupo Lindro Amor, Pr— N’vea tem as melhores
condi�›es para registrar no caderno – que intitulou ÒCultura PopularÓ
– aspectos essenciais do Lindro Amor, mas n‹o s—. Trata-se de uma
relevante produ�‹o sobre a cultura de tradi�‹o oral, uma espŽcie de c—dice,
onde est‹o registradas as narrativas orais que atravessaram e atravessam o
tempo na vila. A autora configura esse arquivo em duas partes: na primeira
est‹o escritos c‰nticos, benditos e louvores em honra a Maria, S‹o Roque e
Santo Ant™nio; na segunda parte, encontramos as cantigas de Bumba-meu-boi,
Folia de Reis, Samba de roda, bailados e do Lindro Amor. Nesse breve sum‡rio do
caderno, est‹o listados os interesses da autora/organizadora e os textos
caracter’sticos da tradi�‹o da comunidade que v‹o de textos religiosos a
folguedos.
N’vea afirma que o
caderno tem fun�‹o pedag—gica dentro da comunidade, servindo de manual para as
professoras ensinarem a cultura de tradi�‹o oral aos alunos da escola de ensino
fundamental presente na vila, objetivando as apresenta�›es dos eventos
escolares e a comemora�‹o do dia do folclore, alŽm de servir de guia para as
novenas dos santos cat—licos e da festa da padroeira – Nossa Senhora da
Guia. Assim, o caderno ÒCultura popularÓ Ž uma produ�‹o individual, uma escrita
de si, que apresenta os saberes de uma coletividade, mas tambŽm, assim como a
voz, se move para atender os Òmœltiplos letramentosÓ[60] da comunidade.
A cantiga do Lindro Amor
que segue faz parte desse arquivo:
Eu
n‹o sou daqui,
Sou
de Maracangalha.
Eu
n‹o sou daqui,
Sou
da terra de An‡lia.
Trago
o samba no pŽ
E
o meu chapŽu de palha.
O sujeito poŽtico dessa
cantiga demarca um lugar e sua identidade cultural. O sujeito que fala est‡ em
outro espa�o que n‹o Ž Maracangalha, mas sente necessidade de demarcar seu
territ—rio de identidade, valendo-se dos signos conhecidos do lugar em outros
contextos. Desterritorializa-se e reterritorializa-se, autoafirmando-se. Para
isso, empreende um movimento de apropria�‹o ou antropofagia cultural da can�‹o
de Dorival Caymmi, como uma forma de dar maior visibilidade ao grupo, uma vez
que o nome da localidade Ž conhecido nacionalmente gra�as aos versos desse compositor.
Ademais, chamam a aten�‹o os signos presentes no texto de Caymmi: An‡lia,
chapŽu de palha e samba no pŽ. Fazendo refer�ncia a Am‡lia,
segundo os moradores, a maior sambadeira de Maracangalha e por isso mesmo
citada por Caymmi, o sujeito se coloca no mesmo lugar que deu fama ao povoado.
A refer�ncia ao chapŽu de palha, repetindo a mesma rima usada por Caymmi
(An‡lia/palha) Ž uma clara alus‹o ao acess—rio do grupo de samba que, por sua
vez, imita as indument‡rias dos trabalhadores dos canaviais e outras labutas.
Ao dizer Òeu n‹o sou
daquiÓ, o sujeito poŽtico coloca-se no lugar do estranho ou forasteiro em
rela�‹o ao territ—rio-n‹o-lugar ou um aqui ocupado provisoriamente. Por
outro lado, coloca-se como alguŽm que sabe bem qual lugar Ž o seu e o vai
descrevendo nos versos seguintes, n‹o com caracter’sticas da paisagem, da
localiza�‹o ou atividade econ™mica, selecionando aspectos culturais. Descreve o
seu lugar como a terra da An‡lia, e isso lhe basta. Assim como lhe basta
descrever a si mesmo como alguŽm que sabe sambar e usa chapŽu de palha. Com
esses signos, cria-se uma imagem homog�nea que identifica o sujeito poŽtico e
todos os outros sujeitos da terra de An‡lia.
O primeiro e o terceiro
versos, Òeu n‹o sou daquiÓ, tambŽm nos remetem a uma can�‹o de dom’nio pœblico:
ÒMarinheiro s—Ó, gravada por Clementina de Jesus[61]:
Eu
n‹o sou daqui, marinheiro s—
Eu
n‹o tenho amor, marinheiro s—
Eu
sou da Bahia, marinheiro s—
De
S‹o Salvador, marinheiro s—.
Assim como nos versos do
Lindro Amor se diz textualmente Òsou de MaracangalhaÓ, aqui tambŽm Ž necess‡rio
dizer de onde se Ž, demarcar seu territ—rio: Òeu sou da Bahia/de S‹o SalvadorÓ.
Nos versos do marinheiro fica subentendido que Ž um sujeito em tr‰nsito, um
viajante solit‡rio (Òmarinheiro s—Ó); nos versos do Lindro Amor, esse tr‰nsito
pode se justificar pelo fato de o cortejo tambŽm se deslocar para outras
localidades para pedir a esmola dos santos, de acordo com a explica�‹o de Pr—
N’vea mencionada anteriormente. Eis um aspecto que se constitui como forte
indicador de identidade: o sujeito gira o mundo, mas se revela a partir do seu
lugar de origem: n‹o se diz Òeu sou...Ó, mas se diz Òeu sou de...Ó. Nos versos
de ambas as cantigas parece transpirar um certo orgulho ao revelar seu
territ—rio e tambŽm a necessidade de demarcar o deslocamento, explicitado nos
versos Òeu n‹o sou daquiÓ.
A cantiga ÒMarinheiro
s—Ó ficou marcada pela interpreta�‹o œnica de dona Clementina de Jesus, dona de
uma voz negra que nos remete ˆ ancestralidade e aos c‰nticos dos terreiros, ela
mesma pioneira em gravar pontos de macumba e dar visibilidade ao matriarcado
nas religi›es de matriz africana. Ao dizer Òeu n‹o sou daquiÓ, essa voz nos diz
tambŽm desse lugar diasp—rico e solit‡rio. Se consideramos que a Marinha do
Brasil foi um dos poucos lugares a acolher os negros libertos no per’odo
p—s-aboli�‹o, em fun�‹o das pŽssimas condi�›es de trabalho e da forma desumana
como os trabalhadores eram tratados, haver‡ ainda muito a se dizer dessa
cantiga[62]. No entanto, n‹o caber‡ aqui, pois nos desvia do repert—rio
do Lindro Amor e das anota�›es de Pr— N’vea.
Em outra folha do
caderno, encontramos a cantiga de samba de roda que segue:
Arraste a cadeira e senta, mulher!
Tu n‹o dan�a, tu n‹o samba,
que diabo faz em pŽ?
Arraste a cadeira e senta, mulher.
Como se v� nessa quadra,
o contexto de interlocu�‹o Ž a roda de samba. O sujeito poŽtico revela um
inc™modo pelo fato de a mulher estar de pŽ, sem dan�ar. Na roda, o lugar do
corpo dan�ante Ž o centro. Em volta da roda est‹o os mœsicos e os cantadores,
os que n‹o dan�am e se limitam a responder os refr›es e bater palmas. A mulher
em geral ocupa o centro, o lugar da dan�a, assim como o sapateado e a umbigada.
Nesse espa�o central, espera-se o corpo livre, comandado apenas pelo ritmo da
mœsica. No entanto, nessa cantiga, podemos observar que n‹o h‡ liberdade de
escolha. O corpo feminino que, apesar de estar de pŽ, n‹o ocupa o lugar da
brincadeira, Ž convidado a sentar-se, ou seja, Ž exclu’do da roda. O tom
imperativo Òarraste a cadeira e sentaÓ n‹o deixa op�‹o nem meio-termo: ou est‡
dentro ou est‡ fora (ou dan�a ou senta). A estrutura circular da cantiga,
come�ando e terminando com versos id�nticos (a ordem de se sentar) deixa clara
a insist�ncia nessa ideia: nos versos centrais est‡ a explica�‹o (ÒTu n‹o
dan�a, tudo n‹o sambaÓ) e a indigna�‹o (Òque diabo faz em pŽ?Ó), refor�ando o
inc™modo com a repeti�‹o que inicia e fecha a estrofe (Òarraste a cadeira e sentaÓ).
Essa mulher parece n‹o
ter voz nem escolha, devendo assumir o papel j‡ previamente determinado.
Poderia parecer uma preocupa�‹o motivada pela gentileza de dar assento a uma
dama, n‹o fosse o tom grosseiro da pergunta Òque diabo faz em pŽ?Ó Como se essa
posi�‹o da mulher de pŽ atrapalhasse o samba, ocupando o lugar de quem deveria
dan�ar. Nessa situa�‹o, ela Ž exclu’da da roda, invisibilizada, sendo colocada
como mera observadora. Por outro lado, a ordem de se sentar pode ser
interpretada tambŽm como uma provoca�‹o para que todas as mulheres participem
do samba. Os versos dizem claramente qual o lugar que a mulher deve ocupar e,
se n‹o o fizer, comete um interdito que se traduz no inc™modo e na irrita�‹o do
sujeito poŽtico. Em œltima inst‰ncia, seu corpo ocupa o seu lugar de estar no
mundo e, se esse lugar ou seu comportamento Ž visto como inadequado, Ž porque
ela faz uso da liberdade de desafiar o prŽ-estabelecido.
ƒ desse modo que essas
cantigas se convertem como farto material etnogr‡fico, documentos da mem—ria
cultural que revelam os modos de ser e fazer das comunidades narrativas. No
Lindro Amor, as vozes das mulheres da comunidade de Maracangalha s‹o
ressignificadas e traduzidas em discursos. Entende-se discurso como formas de
express‹o da linguagem que servem de ferramenta para essas mulheres se
posicionarem contra hierarquias discursivas que tentam silenciar suas vozes e
invalidar seus saberes. Desse modo, vamos ao encontro do pensamento de Foucault
(1996) sobre interdi�‹o da fala de grupos subalternizados pelo sistema de
poder. Segundo o autor, esses grupos atŽ falam, mas existem mecanismos de poder
que os impedem de serem ouvidos. Nesse sentido, o discurso dessas mulheres
negras Ž interditado por uma ordem discursiva que, no seu interior ou exterior,
dita o que deve ser falado e por quem.
Desse modo, essas
mulheres juntam esfor�os e criam par‰metros para seus modos de produzir. Nos seus
corpos, est‹o as engrenagens discursivas da produ�‹o poŽtica e de sua
coletividade, o lugar marginalizado pela cultura hegem™nica, silenciado
historicamente pelo discurso do poder, como nos alerta Kilomba (2019), ao
argumentar que o sil�ncio da subalterna tem suas ra’zes no colonialismo. Nesse
sentido, ao produzir e transmitir a poŽtica oral, essas mulheres negras tentam
romper essa barreira discursiva colonial, que nega seus conhecimentos e suas
vozes. Por outro lado, o que observamos Ž a exist�ncia desse lugar e o eco de
suas vozes atravessarem o tempo, mover-se em sua comunidade por intermŽdio de
suas mem—rias. Nota-se que essas narradoras t�m consci�ncia do que fazem e o
porqu� fazem, n‹o havendo passividade em suas produ�›es.
ƒ na linguagem e com a
linguagem que essas mulheres e seus pares buscam o devir emancipat—rio e
pol’tico em suas vidas, tentando sair de um lugar comum. Os que a produzem de
modo inconsciente ou n‹o, criam uma l’ngua pr—pria que os caracterizam,
construindo suas identidades. Esses s‹o os aparatos que determinam o modo de
produzir utilizado por essas pessoas, caracterizando um estilo pr—prio,
possibilitando sair do padr‹o de normalidade discursiva. Portanto, essas
mulheres se apropriam da linguagem como dispositivo ou ve’culo para levar a
mem—ria do texto oral a novos interlocutores e outros contextos. E, nesse
deslizamento, elas se afirmam enquanto mulheres negras, alŽm de descobrirem
outras formas de Òser mulherÓ, insurgindo-se contra um sistema de poder.
A cena teatral,
perform‡tica, de transmiss‹o dessa poŽtica, evidencia o protagonismo dessas
mulheres negras como os pilares fundamentais da produ�‹o, mas tambŽm a
intersec�‹o de seus saberes e de seus corpos, alŽm dos seus esfor�os para
valoriza�‹o e revitaliza�‹o do texto na atualidade. Assim, percebemos os modos
de produ�‹o da poesia oral como o processo de singulariza�‹o que geram liga�›es
de resist�ncia, embates e for�a criativa. Esses elementos possibilitam a
produ�‹o, a transmiss‹o desse fazer liter‡rio, alŽm de categoriz‡-lo como uma
produ�‹o de troca dos afetos e saberes.
Considera�›es finais
As reflex›es
apresentadas neste artigo nos levam a pontuar os caminhos trilhados por
mulheres para produzir a cultura popular de tradi�‹o oral. Analisamos que esses
caminhos levam seus fazeres para um campo discursivo onde est‹o presentes embates
internos e externos, a�›es pol’ticas, rela�›es de for�a, mas que t�m como
resultado a valoriza�‹o e salvaguarda do texto oral. AlŽm disso, a via mostra
as engrenagens desse processo, ˆ medida que a produ�‹o acontece, a poesia oral
se move para a atualiza�‹o e ressignifica�‹o.
Por outro lado,
ressaltamos que elas, ao reinventarem o processo de produ�‹o, tambŽm se
reinventam enquanto mulheres. Desse territ—rio de fala, com seus pares, buscam emancipa�‹o
e ascens‹o social, vivenciam experi�ncias que possibilitam insurg�ncia de
pr‡ticas que desestabilizam, mas tambŽm modificam discursos sociais que servem
de barreira para ascens‹o do grupo e de sua cultura.
Por fim, a produ�‹o da
poŽtica oral perpassa pela cria�‹o art’stica, singulariza�‹o, criatividade da
linguagem, mas tambŽm pela resist�ncia e (re)exist�ncia da cultura popular de
tradi�‹o. Nessa perspectiva, literatura e vida caminham juntas no campo de
produ�‹o, como possibilidade, ferramenta, maquinaria de cria�‹o poŽtica.
Ademais, Ž nessa linguagem e no entrela�ar dos corpos dessas mulheres negras
que, historicamente, seu texto Ž produzido, transmitido e ressignificado no
tempo. Vivendo e predominando nos registros e na mem—ria cultural de
Maracangalha.
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[Recebido: 11 out 2020 – Aceito: 13 jan 2021]
A POƒTICA DA VOZ NO TERRITîRIO DO MARAVILHOSO
NAPOLITANO E BAIANO: TRANSMISSÌO ORAL, CONSELHO E TROCA DE SABERES
THE POETICS OF VOICE IN
THE NEAPOLITAN AND BAHIAN TERRITORY OF THE MARVELOUS: ORAL TRANSMISSION,
ADVICE, AND SHARED KNOWLEDGE
Adriana Aparecida de Jesus Reis[63]
https://orcid.org/0000-0002-9717-4642
Resumo: O mito de Eros/Cupido e
Psiqu� foi narrado nos livros IV, V e VI do romance antigo O asno de ouro
por Lœcio Apuleio. O texto da literatura latina forneceu a fonte para o
escritor napolitano Giambattista Basile (1575-1632) escrever sua obra-prima Lo
cunto de li cunti (O conto dos contos). Ele usou o mito como
inspira�‹o para escrever o nono conto de fadas da segunda jornada, o qual
recebeu o t’tulo de ÒO cadeadoÓ. Parente em primeiro grau de ÒO cadeadoÓ Ž o
conto maravilhoso ÒAngŽlica mais afortunada (O pr’ncipe Teiœ)Ó. Essa hist—ria
foi coletada pelo folclorista brasileiro Marco HaurŽlio em Igapor‹, na Bahia, e
registrada em seu livro Contos e f‡bulas do Brasil. Este artigo busca
analisar n‹o somente o di‡logo intertextual entre os contos maravilhosos
napolitano e baiano, mas principalmente os elementos populares que se ligam ˆ
transmiss‹o dessas narrativas pela oralidade, tendo em vista que tais hist—rias
primeiro foram contadas oralmente por contadores e depois ouvidas por
compiladores e folcloristas que as registraram em suas colet‰neas maravilhosas.
Verifica-se que os escritores deram um toque particular ˆs narrativas
coletadas, demonstrando a presen�a de uma oralidade, porŽm reconstru’da por
recursos que evidenciam suas culturas locais.
Palavras-chave: Ciclo
noivo-animal. Contos maravilhosos. Oralidade. Giambattista Basile. Marco HaurŽlio.
Abstract: The myth ÒEros and PsycheÓ was narrated by Lucio
Apuleio in the books IV, V, and VI of his novel The Golden Ass. The Latin
literary text provided the source from which Neapolitan writer Giambattista
Basile (1575-1632) drew the inspiration to write his own masterpiece, Lo
cunto de li cunti (The tale of tales). He used the myth as a basis
to build the ninth fairy tale from the second journey on, which was titled ÒThe
padlockÓ. A close literary relative to ÒThe padlockÓ is the wonder tale
ÒAngelica, the most fortunateÓ (ÒThe tegu princeÓ). The story was collected by
Brazilian folklorist Marco HaurŽlio in Igapor‹, Bahia, and registered in his
book Tales and Fables of Brazil (2011). This paper aims to analyze not
only the intertextual dialogue between the Neapolitan and Bahian tales but
especially the popular elements that are tied to the oral transmission of such
narratives. It takes into account the fact that those stories were first told
orally by storytellers and then heard by collectors and folklorists that
registered them in their tale collections. It is noticeable how writers gave a
personal touch to the collected narratives, which demonstrates the presence of
certain orality but reconstructed by resources that highlight their local
cultures.
Keywords: Animal-groom cycle.
Wonder tales. Orality.
Giambattista Basile. Marco HaurŽlio.
As vozes da tradi�‹o
Segundo
o etn—grafo Lu’s da C‰mara Cascudo, em seu livro cl‡ssico Literatura oral no
Brasil, contar hist—rias populares, desde os primeiros registros escritos,
remonta a um ambiente protocolar em qualquer parte do mundo, segundo o qual as
hist—rias e as adivinha�›es s‹o narradas durante as primeiras horas da noite. A
escolha por esse h‡bito noturno, de acordo com o mestre potiguar, explica-se
pelo fato de ser o hor‡rio final da tarefa di‡ria e pela atmosfera de
tranquilidade e sossego espiritual para a evoca�‹o e aten�‹o do audit—rio.
Escolhendo o ambiente noturno, Cascudo (1984, p. 228) nos recorda dos melhores
t’tulos que denunciam essa universalidade do h‡bito
Mil e Uma Noites, Fireside Stories de Kennedy, VeillŽs
Bretonnes de Luzel, XIII Piacevoli Notte de Straparola, Foyer
Breton, de émile Souvestre, VeillŽes Des Mayens, de Couthion, VeillŽes
Allemandes, tradu�‹o de lÕHŽritier de lÕAin, de contos, cr™nicas e
tradi�›es dos irm‹os Grimm.
De
todas essas cole�›es europeias de narrativas populares que explicitam a
prefer�ncia pelo h‡bito de contar hist—rias ˆ noite, nos interessa a colet‰nea
italiana XIII Piacevoli Notti, de Straparola, tambŽm designada de Le
piacevolli notti (As noites agrad‡veis). Essa obra pode ser
considerada precursora na compila�‹o do g�nero maravilhoso na It‡lia, pois o
escritor Gian Francesco Straparola reuniu, ˆ maneira de Boccaccio, em treze
noites, narrativas populares a partir de 1553 (SPERBER, 2009). Das 75 hist—rias
que formam esta colet‰nea italiana, encontramos n‹o somente contos de fadas,
narrados ao modo maravilhoso, mas tambŽm contos realistas, articula�‹o bem
percebida por Ana Lœcia Merege: ÒPublicado pela primeira vez em Veneza, no ano
de 1550, o livrou reunia contos de fadas, contos populares, como O Gato de
Botas[64], e hist—rias de car‡ter
cotidiano, cujo bom-humor lhe valeria cr’ticas por parte dos autores e
estudiosos de moral mais r’gidaÓ (MEGERE, 2010, p. 43).
Essa diferen�a de g�nero
entre contos de fadas e hist—rias de car‡ter cotidiano tambŽm se mostra
relevante na l’ngua italiana, pois, para os contos de fadas ou populares,
existem as palavras fiaba ou racconti, que designa a presen�a do
elemento maravilhoso, e para as hist—rias de car‡ter cotidiano, existem as
palavras novella (singular) ou novelle (plural), que s‹o
narrativas curtas verossimilhantes. ƒ fato que o escritor italiano Straparola,
justamente por mesclar ˆ matŽria narrada do modo maravilhoso as hist—rias
verossimilhantes, aproxima-se de Giovanni Boccaccio, autor do Decamerone
ou Decamer‹o, obra-prima da literatura italiana do sŽculo XIV,
conhecida, principalmente, pela narra�‹o da peste negra do final da Idade MŽdia
em seu conto moldura, dentre outros temas. Ainda que Straparola se aproxime de
Boccaccio, devemos ressaltar que a obra deste escritor italiano do sŽculo XIV Ž
composta somente por narrativas do g�nero novelle, ou seja, hist—rias
verossimilhantes, ao nœmero de cem.
Utilizando
a estrutura de moldura, inaugurada por Boccaccio no sŽculo XIV na literatura
italiana, depois empregada por Giovan Francesco Straparola em Le piacevolli
notti, e escolhendo, porŽm, o h‡bito diurno para contar seus cinquenta
contos de fadas recolhidos da oralidade, encontra-se o escritor italiano
Giambattista Basile (1575-1632), autor de Lo cunto de li cunti ovvero
trattrattenemiento de peccerille ou O conto dos contos ou entretenimento
dos garotinhos em portugu�s, obra-prima publicada postumamente, entre 1634
e 1636, pela irm‹ do escritor, Adriana Basile, uma famosa cantora de —pera da
It‡lia seiscentista (do sŽculo XVII).
A
obra Lo cunto de li cunti, tambŽm percursora do registro do g�nero
maravilhoso na It‡lia, foi publicada originalmente em dialeto napolitano no
sŽculo XVII, em raz‹o de sua matŽria ter sido recolhida entre a camada popular,
formada por camponeses e marinheiros do interior da prov’ncia de N‡poles, por
Basile durante seu encargo como governador feudal da prov’ncia. Mas foi somente
em 1925, pelas m‹os do cr’tico, fil—sofo e tradutor italiano Benedetto Croce,
que Lo cunto de li cunti de Basile foi traduzido para o italiano standard
(o italiano mais pr—ximo do dialeto florentino utilizado pelos tr�s mestres
italianos do sŽculo XIV), recebendo um novo t’tulo em alus‹o ao modelo
estrutural usado por Boccaccio no seu Decamerone: Pentamerone ossia
la fiaba delle fiabe (Pentamer‹o ou seja a f‡bula das f‡bulas).
Apesar
da tardia tradu�‹o de Croce, Ž ineg‡vel que o cr’tico italiano tornou a obra de
Basile corrente por toda a pen’nsula italiana, j‡ que havia restri�›es
lingu’sticas ligadas ao dialeto de N‡poles, considerado marginal na Žpoca.
Entretanto, essa mudan�a de t’tulo, embora estratŽgica, ao aproximar a obra
napolitana do t’tulo da obra de Boccaccio, acabou por desmerecer, sobretudo, a
engenhosidade de Basile enquanto escritor, demonstrada desde o t’tulo original
do livro, pois o t’tulo Lo cunto de li cunti, ou O conto dos contos
em portugu�s, salienta, a nosso ver, a estrutura de encaixe, ao ressaltar o
conto maior ÒLo cuntoÓ que enquadra os contos menores Òli cuntiÓ,
o que vai ao encontro da observa�‹o do cr’tico italiano Michele Rak:
A
obra foi constru’da do seguinte modo: Ž um conto (o quinquagŽsimo da
abertura/pontes narrativas/fechamento) no interior do qual s‹o narrados outros
quarenta e nove contos. Por este motivo a obra foi intitulada conto dos contos.
Se fala de jogo dos jogos no mesmo sentido [...]. O quinquagŽsimo conto Ž a
hist—ria de Zoza que abre e fecha a obra e tem a mesma estrutura do œltimo
conto (As tr�s cidras, o quadragŽsimo nono: confira o conto 9 da quinta
jornada) (RAK, 2004, p. 15, tradu�‹o nossa[65]).
Como
bem destacou Rak (2004), o conto moldura (quinquagŽsimo), que assinala os
quarenta e nove contos internos ˆ obra, Ž a hist—ria da princesa Zoza, uma
princesa que nunca sorria e, quando sorria, Ž em virtude de gestos bizarros de
uma velha avistada pela princesa atravŽs da janela do pal‡cio. Na verdade, a
velha havia levado um tombo, o que provocou uma grande gargalhada na princesa e
ao mesmo tempo uma grande ira na velha, que, por esse motivo, jogou uma
maldi�‹o sobre a princesa, segundo a qual o pr’ncipe com quem ela se casaria,
chamado Taddeo, estava dormindo numa tumba longe da cidade e, ao encontr‡-lo
adormecido, ela teria, caso quisesse se casar com ele, chorar um vaso de
l‡grimas. Diante disso, Zoza parte para fora da cidade e encontra o pr’ncipe
adormecido, e logo se p›e a chorar, porŽm, a princesa Ž vencida pelo cansa�o e
adormece e quem termina de encher a ‰nfora Ž a velha escrava, fato que rompe o
estado let‡rgico do pr’ncipe, que, pensando que a escrava fosse sua salvadora,
se casa com ela e a leva para morar em seu pal‡cio na cidade de Torrelunga.
Inconformada pelo ardil do qual foi v’tima, Zoza tambŽm arquiteta um plano:
morando em frente ao pal‡cio do pr’ncipe, a princesa d‡ de presente ˆ escrava
v‡rios objetos m‡gicos, dentre eles uma boneca que incute na ex-escrava o
desejo incontrol‡vel de ouvir contos de fadas. Assim, o pr’ncipe convoca dez
mulheres velhas e mais linguarudas da cidade para narrar, durante cinco dias,
ou jornadas, e entre banquetes e jogos t’picos da vida cortes‹, dez contos de
fada (dez contos por dia), totalizando, ent‹o, cinquenta contos maravilhosos,
sendo o quinquagŽsimo a pr—pria hist—ria de Zoza. A princesa desmascara a
ex-escrava no œltimo conto da œltima jornada, fechando assim o quadro, o que
conduz o final feliz para a princesa e a puni�‹o para a escrava.
A
obra de Basile Ž composta, alŽm da hist—ria de Zoza, que representa a narrativa
moldura, por quarenta e nove contos enquadrados que cont�m contos de fadas
considerados matrizes liter‡rias de contos cl‡ssicos encontrados nas cole�›es
de Perrault e Grimm, de acordo com Merege (2010, p. 45): ÒPublicada em 1634-36,
a obra contŽm as primeiras vers›es escritas de hist—rias como Cinderela
e A bela adormecida, num tom c™mico e ˆs vezes grosseiro que soa de
forma estranha aos leitores dos contados herdados da tradi�‹o dos GrimmÓ.
AlŽm
de conter hist—rias famosas em todo o folclore europeu, Lo cunto de li cunti,
de Basile, conserva hist—rias populares do tipo ciclo noivo-animal, termo
cunhado por Bruno Bettelheim em sua obra A psican‡lise dos contos de fadas,
para designar contos de fadas origin‡rios do mito de Cupido e Psiqu�
(BETTELHEIM, 2020), conto m’tico que fora recolhido e registrado por Lœcio
Apuleio no romance antigo O asno de ouro. Do ciclo noivo-animal, foi
registrado por Basile em O conto dos contos o nono conto de fadas
narrado na segunda jornada, intitulado ÒIl catenaccioÓ (ou ÒO cadeadoÓ em
portugu�s), como comprova Croce (2010, p. 165, tradu�‹o nossa) na introdu�‹o do
livro em italiano: ÒE n—s compreenderemos, sobretudo, que v‡rios
entretenimentos pertencem ao grupo daquele, que Ž o conto de fadas mais famoso
e mais rico de hist—ria, o conto de Psiqu� – Assim Ž o nono da segunda
jornada, no qual se conta a hist—ria de LuciellaÓ[66].
O
mais curioso Ž que esse conto, que narra a hist—ria de Luciella (Lucinha) e seu
caso amoroso com um pr’ncipe encantado que foi alvo de uma maldi�‹o, chegou ao
imagin‡rio baiano, com o t’tulo de ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe
Teiœ)Ó, recolhido pelo escritor e folclorista brasileiro Marco HaurŽlio em
Igapor‹, na Bahia, e registrado em seu livro Contos e f‡bulas do Brasil,
conforme atesta o pr—prio coletor da obra brasileira: ÒUm conto recolhido em
Igapor‹, Bahia, chamado AngŽlica mais afortunada, com a hist—ria de um
pr’ncipe encantado teiœ, Ž parente em primeiro grau de O cadeado
(entretenimento nono da segunda jornada) do PentameronÓ (HAURƒLIO,
2018, p. 11).
Por
terem o mesmo ancestral m’tico, tanto o conto maravilhoso de Giambattista
Basile, intitulado ÒO cadeadoÓ, quanto o conto maravilhoso de Marco HaurŽlio,
chamado ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, s‹o hist—rias populares
pertencentes ao ciclo noivo-animal, o que j‡ nos leva a inferir que, j‡ pela
denomina�‹o da express‹o Ònoivo-animalÓ, que todas essas hist—rias t�m em comum
o elemento maravilhoso da metamorfose do noivo em animal; no caso da vers‹o
brasileira, como denota o t’tulo, um pr’ncipe Teiœ, com quem AngŽlica aceita o
sacrif’cio de viver sem nenhuma resist�ncia, motivo do noivo-animal retomado na
vers‹o brasileira, segundo HaurŽlio (2011). Dada a essa converg�ncia, temos
como objetivo, no presente artigo, fazer uma compara�‹o intertextual entre os
contos maravilhosos do napolitano Giambattista Basile e do brasileiro Marco HaurŽlio,
examinando, principalmente, os elementos populares que remetem ˆ transmiss‹o
oral dessas hist—rias populares, os quais, ao nosso entendimento, demarcam o
territ—rio da poŽtica da voz nessas narrativas maravilhosas, que, ali‡s, foram
primeiro contadas oralmente e depois ouvida por esses coletores, que as
registraram em suas colet‰neas.
As
vozes da tradi�‹o tambŽm est‹o presentes na colet‰nea brasileira Contos e
f‡bulas do Brasil, resultado do trabalho que o folclorista, poeta e
escritor Marco HaurŽlio[67], nascido na Bahia, j‡
vinha desenvolvendo desde 2005 com sua publica�‹o de Contos folcl—ricos
brasileiros, voltada ao pœblico infanto-juvenil, porŽm a colet‰nea de 2011
Ž uma reuni‹o de hist—rias destinadas a leitores de todas as idades. A colet‰nea
Contos e f‡bulas do Brasil inclui, alŽm de contos populares recolhidos na
Bahia, contos oriundos de outros estados do Nordeste, como Pernambuco e
Alagoas, todos coletados da rica tradi�‹o oral da regi‹o por meio de um
gravador. O di‡logo de Marco HaurŽlio com a tradi�‹o se manifesta n‹o somente
pelo rico acervo de contos recolhidos daquela regi‹o, mas tambŽm pelo fato de o
folclorista dedicar seus Contos e f‡bulas do Brasil a Br‡ulio do
Nascimento, como HaurŽlio (2011, p. 11) testemunha no pref‡cio que escreveu
para sua colet‰nea: ÒE ao Professor Br‡ulio do Nascimento, emŽrito catalogador
do conto e do canto popular, ofere�o mais estas flores colhidas do jardim da
tradi�‹oÓ.
Explicita
a rela�‹o entre Br‡ulio do Nascimento e Marco HaurŽlio, alŽm da dedicat—ria feita
no pref‡cio ÒO conto popular no sŽculo XXIÓ por HaurŽlio (2011), o fato de
ambos os folcloristas brasileiros terem classificados seus contos populares com
base no cat‡logo ATU, sistema de classifica�‹o internacional ampliado em 2004,
o que nos mostra a influ�ncia do primeiro sobre o trabalho do segundo
folclorista, pois Br‡ulio do Nascimento foi o primeiro estudioso de folclore a
utilizar esse sistema no Brasil na vers‹o mais atualizada em sua colet‰nea de
2005, Cat‡logo do conto popular brasileiro. Igualmente fez Marco
HaurŽlio em sua colet‰nea Contos e f‡bulas do Brasil, ao inserir na
parte final de seu livro a se�‹o ÒClassifica�‹o e notasÓ[68] feita por Paulo
Correia.
O frescor das hist—rias
napolitanas no Nordeste brasileiro
De
acordo com HaurŽlio (2018), algumas narrativas registradas no folclore
brasileiro exalam o mesmo frescor das hist—rias napolitanas, unidas pela origem
comum e pela exuber‰ncia de tipos e motivos. Verificaremos,
ent‹o, em que medida as hist—rias contadas oralmente no Nordeste brasileiro,
mais precisamente o conto ÒAngŽlica mais afortunadaÓ, exalam o frescor das
napolitanas recolhidas e recriadas por Basile j‡ no sŽculo XVII, por exemplo ÒO
cadeadoÓ. Nesse sentido, utilizamos a express‹o Òrecriada por BasileÓ, dado o
estudo realizado em 2018, no qual analisamos o conto napolitano, de Basile,
como uma recria�‹o intertextual do mito ÒCupido e Psiqu�Ó. Contudo, uma vez que
este conto napolitano foi ouvido e coligido na Bahia por Marco HaurŽlio no
sŽculo XXI, acreditamos que n‹o se possa excluir a possibilidade de o escritor
napolitano ter ouvido e recolhido essa narrativa j‡ na forma de conto de fadas,
tendo em vista as inœmeras andan�as t’picas desse g�nero pela tradi�‹o oral.
Mas
antes de analisarmos os contos em quest‹o, passamos ˆ s’ntese de seus enredos.
No conto napolitano ÒO cadeadoÓ, Ž narrada a hist—ria de Luciella que vai
buscar ‡gua numa fonte e encontra um escravo que a leva a um bel’ssimo pal‡cio,
onde ela Ž tratada como rainha e dorme todas as noites com um pr’ncipe encantado
que a aconselha a n‹o ver o rosto dele. Aconselhada pelas irm‹s invejosas a ver
com quem dormia, Luciella descobre que dorme com um bel’ssimo jovem e Ž expulsa
por ele. Depois de tanto perambular gr‡vida por alguns meses, Luciella Ž
acolhida por uma donzela no pal‡cio da m‹e do pr’ncipe encantado, onde Luciella
tem um filho, e depois de quebrada a maldi�‹o, que afastava o pr’ncipe
encantado de seu filho recŽm-nascido e de Luciella, eles fazem as pazes e se casam.
J‡ o conto baiano ÒAngŽlica mais afortunada (O pr’ncipe Teiœ)Ó conta a hist—ria
de AngŽlica que, pela m‡ sorte de seu pai ca�ador, que havia prometido ao Teiœ
como recompensa do alimento que lhe deu a primeira coisa que o pr’ncipe
avistasse no quintal, pensando na cadelinha que tinha, Ž levada para morar num
buraco com o pr’ncipe Teiœ e proibida por ele de ver seu rosto. Por sentir
saudades de sua fam’lia, AngŽlica visita suas irm‹s mais velhas e seu pai, o
qual lhe d‡ uma vela e um f—sforo e a incita descobrir com quem dorme todas as
noites. Ao iluminar seu leito ˆ noite, AngŽlica avista o bel’ssimo pr’ncipe com
quem dorme e Ž expulsa por ele. Depois de tanto caminhar Òde buchoÓ, utilizando
a express‹o do narrador, AngŽlica Ž acolhida por uma velha que a ajuda por
recomenda�‹o do rei daquela cidade. Na morada da velha, AngŽlica e seu filho
recŽm-nascido recebem durante tr�s noites a visita do pr’ncipe Teiœ que est‡
preso a uma maldi�‹o. Na terceira noite, a maldi�‹o se rompe e eles finalmente
ficam juntos. Em seguida, o rei e a rainha, pais do pr’ncipe Teiœ, buscam seu
filho e a fam’lia dele, terminando, assim, o conto.
A
primeira converg�ncia entre os contos maravilhosos napolitano e baiano diz
respeito ˆ mulher ser a contadora de hist—rias, figura que se liga ˆ tradi�‹o
oral, segundo C‰mara Cascudo (2004, p. 19-20), citando Paul Sebillot:
Paul Sebillot mostra que a mulher Ž a melhor contadeira de
hist—rias que o homem. Guarda em maior quantidade porque lhe cumpre o agasalho
dos filhos e a tarefa de adormec�-los, entretendo-os com o maravilhoso. Os
irm‹os Grimm fizeram sua cole�‹o admir‡vel ouvindo as velhas, as ÒtiasÓ da
tradi�‹o oral portuguesa, as b‡s, e m‹es-pretas no Brasil.
Dando
continuidade ˆ tradi�‹o de ser Òa melhor contadeira de hist—riasÓ, a contadora
de quem o folclorista Marco HaurŽlio ouviu o conto maravilhoso baiano ÒAngŽlica
mais afortunadaÓ Ž uma mulher chamada Lucidalva Pereira dos Salvos na cidade de
Igapor‹, conforme a anota�‹o depois do conto. Igualmente Ž o conto maravilhoso
ÒO cadeadoÓ, de Basile, visto que Ž narrado por uma velha-personagem narradora
chamada Ciommetella, anunciada no fragmento da narrativa-moldura que enquadra o
conto:
Casou grande compaix‹o no cora�‹o de todos as desgra�as passadas
pela pobre Lisa, e mais de quatro estavam com os olhos vermelhos e l‡grimas nos
cantos, pois n‹o h‡ nada que mais desperte piedade do que ver alguŽm sofrer
inocentemente; mas tocando Ciommetella desenrolar o carretel, assim
disse [...] (BASILE, 2018, p. 229, grifo nosso).
Na
obra de Basile, Ž muito comum, ao nos referirmos ˆs contadoras de hist—rias, a
express‹o Òvelha personagem-narradoraÓ, visto que, alŽm de exercer a fun�‹o de
narradora do conto que se prop›e a narrar, a velha Ž personagem da
narrativa-moldura, porque ela foi convidada pelo pr’ncipe Taddeo e sua esposa
impostora para narrar contos maravilhosos e entret�-los durante o dia entre
banquetes e jogos, disso decorre o fato dos cunti de Basile serem
narrados durante o dia, escolha que contraria ˆquela tradi�‹o apontada em
outras cole�›es europeias, por exemplo a do italiano Straparola que procedeu
Basile na literatura italiana: Le piacevolli notti. Outro aspecto que
diferencia a obra de Basile da colet‰nea brasileira, escrita por Marco
HaurŽlio, reside no fato de que a velha contadora, no caso em nœmero de dez em O
conto dos contos, ser identificada por um defeito f’sico que se revela no
nome dela, no caso, a velha personagem-narrradora do conto ÒO cadeadoÓ Ž
Ciommetella tinhosa, anunciado na introdu�‹o da obra italiana, junto aos nomes
das noves personagens-narradoras da obra.
Uma
poss’vel explica�‹o para esses ep’tetos presentes nos nomes das contadoras, em
que se evidencia o disforme, reside no gosto pelo grotesco pr—prio do Barroco,
corrente liter‡ria em voga no sŽculo XVII que privilegia o bizarro, na qual se
filiava o escritor napolitano. Observa�‹o semelhante ˆ nossa t�m as pesquisadoras
Bonetto e Reis (2018), segundo as quais essa marca do grotesco barroco presente
nos nomes das dez velhas-personagens narradoras de Basile Ž um procedimento
utilizado para obter o efeito par—dico com o Decamerone, de Boccaccio, ao rebaixar a classe
social de abastada para pobre e transformar as dez narradoras de jovens com
bons costumes para velhas fofoqueiras com distor�›es f’sicas.
A velha
personagem-narrradora Ciommetella tinhosa, ao contr‡rio das outras nove
contadoras, n‹o parece ter no ep’teto que a identifica uma indica�‹o de alguma
distor�‹o f’sica, dada a primeira acep�‹o deste adjetivo em portugu�s, que, segundo
o Dicion‡rio Michaelis online, significa teimosa. A segunda
acep�‹o para a palavra ÒtinhosaÓ Ž repugnante ou que causa nojo, significado
figurado que ao nosso ver parece estar mais ligado ao universo das distor�›es
f’sicas e ao efeito do grotesco, j‡ que o barroco privilegia o repugnante.
Embora
tais associa�›es com os significados da l’ngua portuguesa sejam pertinentes,
para analisar o adjetivo ÒtinhosaÓ, que no caso desqualifica o nome
Ciommetella, temos que averiguar o sentido da mesma palavra em l’ngua italiana,
para isso, recorremos ˆ edi�‹o bil’ngue (napolitano e italiano) da obra de
Basile, traduzida pelo estudioso italiano Michele Rak, que manteve o t’tulo
original da obra, Lo cunto de li cunti, assim como o tradutor
Francisco Degani, que traduziu a obra integral de Basile diretamente do
napolitano para o portugu�s brasileiro em 2018, preservando o t’tulo original,
O conto dos contos, e dando a conhecer os contos de Basile em nosso pa’s,
pois, caso quisŽssemos ler Basile em l’ngua portuguesa, t’nhamos que recorrer a
tradu�›es esparsas.
Na
edi�‹o bil’ngue traduzida por Rak (BASILE, 2013), a velha personagem narradora
Ž chamada de Ciommetella tignosa. No interior do adjetivo ÒtignosaÓ
em italiano est‡ a palavra ÒtignaÓ, que ÒŽ uma doen�a na pele que
leva ˆ queda dos cabelos [...]Ó (tradu�‹o nossa do original Òla tigna � una
malattia cut‰nea che porta alla caduta dei capelli [...]Ó (PICONE, 2004, p.
113). AlŽm de nos informar um significado preciso para a palavra ÒtignaÓ,
o pesquisador italiano Michelangelo Picone nos oferece uma pista de an‡lise
para esse ep’teto, ao se questionar se essa doen�a deseja aludir ˆ capacidade
desta narradora de revelar com os seus contos a verdade das coisas. A resposta
Ž logo nos dada por ele, que afirma Òser‡ a pr—pria Ciommetella com o seu
œltimo conto, que Ž tambŽm o conto conclusivo da colet‰nea (se exclui-se aquele
principal de Zoza), a desmascarar a artimanha da escravaÓ[69] (PICONE, 2004, p. 114).
De
fato, essa capacidade de Ciommetella ligada ˆ doen�a ÒtignaÓ Ž
verificada na fala desta velha personagem-narradora no fragmento que enquadra o
conto ÒO cadeadoÓ, depois que a velha narradora anterior lhe cedeu ˆ voz:
Os
conselhos da inveja sempre foram pais das desgra�as, por que debaixo da m‡scara
do bem encerram a face da ru’na, e a pessoa que tem nas m‹os os cabelos da
fortuna deve imaginar ter a todo momento cem pessoas que estendam cordas diante
de seus pŽs para faz�-las levar um tombo, como aconteceu a uma pobre mo�a que,
pelo mau conselho das irm‹s, caiu da escada da felicidade, e foi miseric—rdia
do cŽu que n‹o quebrasse o pesco�o (BASILE, 2018, p. 229).
Nesse
fragmento, que se refere ˆ fala de Ciommetella tinhosa (tignosa), o
conto ÒO cadeadoÓ tambŽm revelar‡ a verdade dos fatos, verdade que consiste em
desmascarar a face das irm‹s invejosas da protagonista, as quais d‹o conselhos
ˆ irm‹ mais jovem, provavelmente ˆ protagonista Luciella, como atitude de
benevol�ncia para prejudic‡-la ou para Òfaz�-la levar um tomboÓ. Concordamos,
portanto, com a an‡lise de Picone (2004) sobre Ciommetella ser uma velha
personagem-narradora cuja doen�a f’sica tigna, que causa a queda de
cabelos, alude ˆ atitude de revelar a verdade ou de desmascarar as personagens
invejosas, pensando nas irm‹s de Luciella, e impostoras, pensando na escrava
que tomou o lugar da princesa Zoza.
AlŽm
de antecipar o fato que Luciella ser‡ prejudicada por suas irm‹s mais velhas, a
fala da narradora Ciommetella tambŽm anuncia o tema do conto maravilhoso a ser
narrado por ela, o da inveja. Recuperando este mesmo tema, como uma espŽcie de
arremate ao conto, Basile (2018, p. 232) o insere tambŽm no desfecho, mas na
forma proverbial: Òfruto da inveja Ž o mal de est™magoÓ. Nesse aspecto, devemos
explicar que Ž pr—prio do estilo liter‡rio de Basile, da interven�‹o art’stica
do escritor, os contos serem encerrados por um provŽrbio de origem napolitana,
elemento que tambŽm se liga ˆ tradi�‹o oral, assim como o fato de as narradoras
serem mulheres, justamente por remeter ˆ sabedoria popular, pois, de acordo com
o Benjamin (2015), era muito comum o contador de hist—rias tradicional utilizar
provŽrbios como uma forma de conselho de utilidade pr‡tica aos seus ouvintes.
Refor�a
essa ideia de conselho na forma proverbial o significado da express‹o ÒO fruto da
inveja Ž o mal de est™magoÓ em l’ngua portuguesa ou Òfiglio de laÕmidia �
lÕantecoreÓ (BASILE, 2013, p. 416) em dialeto napolitano, pois, conforme a
plataforma italiana Corpo di Napoli, que explica os provŽrbios
napolitanos da obra de Basile, o mal-estar Òque prende o est™mago; tem o mesmo
efeito da n‡usea, que permanece e nunca passa. ƒ a sensa�‹o de quem rumina
inveja e de quem Ž pago assim com a mesma moedaÓ[70]. A partir de tal explica�‹o,
podemos entender que fazer mal a alguŽm, por inveja, Ž prejudicar a si pr—prio.
Esse significado Ž comprovado pelo desfecho do conto de Basile, no qual as
irm‹s mais velhas e invejosas s‹o punidas. Diante disso, compreendemos que o
provŽrbio napolitano, elemento frasal que nos sugere por meton’mia a voz do
contador de hist—rias no conto ÒO cadeadoÓ, aconselha o ouvinte a n‹o se deixar
ser conduzido pela inveja, sentimento que pode ser entendido como uma doen�a,
porque s— provoca dor e sofrimento por quem o sente.
AlŽm
de remeter a uma forma de sabedoria popular e coletiva, dada a experi�ncia
comunit‡ria em que estava inserido o contador de hist—rias tradicional, o
elemento proverbial na obra napolitana pode ser associado a uma f—rmula de
transmiss‹o oral, pois, segundo Cascudo (1984), uma marca da oralidade,
comumente utilizada pelos folcloristas, Ž as repetidas formas de come�ar e
terminar uma hist—ria, que podem ser semelhantes ou dessemelhantes em culturas
diferentes. Quanto ˆs formulas finais, Cascudo (1984, p. 230) afirma: ÒPara
findar as f—rmulas s‹o v‡rias e raro ser‡ o narrador que as esque�a. Pode
aparecer mesmo um retoque pessoal sugestivo. ƒ o requinte da tŽcnica o saber
Ôfechar bemÕ uma est—riaÓ. Fundamentando-nos no te—rico, compreendemos que
Basile, ao utilizar o provŽrbio napolitano para Òfechar bemÓ seus cunti,
quer explicitar tanto seu requinte como escritor e sua cultura de origem, a
napolitana, quanto chamar a aten�‹o do seu ouvinte, no caso do leitor,
aconselhando-o sobre sentimentos coletivos, o da inveja.
De
forma contr‡ria, o conto brasileiro ÒAngŽlica mais afortunadaÓ n‹o apresenta
uma f—rmula final, como podemos notar pelo desfecho: ÒDessa forma, o encanto
foi quebrado. Passados uns dias, o rei e a rainha foram ˆ casa da velha buscar
o filho, a nora e o neto para viver com eles no casteloÓ (HAURƒLIO, 2011, p.
66). Nessa parte final do conto baiano, percebemos, assim como na vers‹o
napolitana, portanto, uma converg�ncia, a restaura�‹o da situa�‹o de
tranquilidade e a uni‹o dos amantes que foram antes separados pela a�‹o dos
personagens, no caso, o pai de AngŽlica no conto baiano, e as irm‹s invejosas
de Luciella no conto napolitano. No entanto, n‹o Ž porque a vers‹o baiana n‹o
apresente uma f—rmula final que ela n‹o preserva tra�os da oralidade. Em vez
disso, acreditamos que a aus�ncia da f—rmula final no conto baiano comprova
justamente as andan�as desta narrativa pelo territ—rio do maravilhoso, pois ˆ
medida que o conto maravilhoso napolitano foi emigrando no tempo e
geograficamente, Ž poss’vel que ele tenha perdido algumas marcas da oralidade,
como a f—rmula final proverbial, e incorporado outras locais, da cultura
brasileira nordestina, como veremos mais adiante.
AlŽm
do provŽrbio, outro elemento lingu’stico ligado ˆ transmiss‹o oral, que
comprova a import‰ncia e a valoriza�‹o do material folcl—rico coligido por
Basile no sŽculo XVII e por Marco HaurŽlio no sŽculo XXI, Ž a presen�a da
cantiga cantada na voz do pr’ncipe encantado, na vers‹o napolitana, e na voz do
Teiœ, na vers‹o baiana, cuja letra revela a maldi�‹o sob a qual os noivos
estavam presos e impedidos de visitarem sua fam’lia, formada pelas
protagonistas (AngŽlica e Luciella) e seus filhos recŽm-nascidos. Nesse
sentido, a cantiga pode ser interpretada como um elemento que resgata a matŽria
folcl—rica nos dois contos maravilhosos, pois, para C‰mara Cascudo citado por
ClŽria Botelho da Costa, esse material constitui, assim como o provŽrbio, o
imagin‡rio popular de uma sociedade. Por sua natureza folcl—rica, esse material
n‹o traz explicitamente nem a marca do tempo nem o espa�o onde foi criada.
Trata-se de uma produ�‹o an™nima, que n‹o permite a identifica�‹o do autor
(COSTA, 2013).
Ainda
que n‹o seja poss’vel a identifica�‹o de seu criador, colocamos a seguir as
cantigas nas vers›es do conto napolitano, ˆ esquerda, e baiano, ˆ direita, para
efeito de cotejo entre suas adapta�›es socioculturais:
|
ÒO cadeadoÓ ÒOh, belo filho meu, se minha m‹e soubesse, em bacia de ouro o lavaria, com faixas de ouro enfaixaria, e se o galo nunca cantasse, nunca de voc�s me separariaÓ (BASILE, 2018, p. 231, grifos nossos). |
ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe
Teiœ)Ó Ò- Meu filho, se papai e mam‹e soubera
filho de quem tu era, te lavava em bacia de prata e te enxugava em
toalha com fios de ouro. Se o galo n‹o cantasse, jegue n‹o urrasse,
o sino n‹o tocava, contigo eu amanhecera o diaÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 65,
grifos nossos) |
Como podemos notar pelas
palavras em destaque, h‡ sutis diferen�as entre as cantigas napolitana, de
Basile, e baiana, de HaurŽlio. Mas antes de nos atermos a essas minœcias, Ž
evidente que elas denunciam o mesmo conteœdo na fala dos noivos de Luciella e
AngŽlica: a maldi�‹o que os impedia de se aproximarem de seus filhos
recŽm-nascidos, vinculada ao amanhecer do dia, representado em ambas as
cantigas pelo canto do galo. Trata-se de uma converg�ncia menos evidente
estabelecida com o pr—prio mito, ao qual se associam ambas as narrativas
maravilhosas, pois, assim que o dia amanhecia, Cupido desaparecia do leito de
Psiqu�, retornando, somente, no ambiente noturno, assim como os noivos de
Luciella e AngŽlica, tanto que Bettelheim (2002) fala em vidas diurna e noturna
de Psiqu�, ao se referir ao mito: a diurna tediosa, por ficar sozinha, e a
noturna prazerosa, por estar com Cupido.
O
canto do galo, presente nas duas cantigas, alŽm de pass’vel de ser lido como
uma alus‹o ao mito de Cupido e Psiqu�, pode ser interpretado como uma
supersti�‹o popular, pois, segundo Braga (1986), o canto do galo Ž uma cren�a
cujo poder Ž afastar os dem™nios e fazer
sugir a aurora. Por essa raz‹o, o canto Ž celebrado nos hinos e ora�›es da
Igreja, sobretudo na tradi�‹o do povo portugu�s. Essa supersti�‹o popular do
canto do galo est‡ presente nos contos napolitano e baiano, porque neles a
manifesta�‹o dos dem™nios ocorre no per’odo noturno por meio da maldi�‹o,
elemento m‡gico que auxilia os pr’ncipes encantados a visitarem suas fam’lias
durante ˆ noite, tanto que, assim que o galo canta ou o dia amanhece, os
pr’ncipes encantados s‹o afastados do seio familiar. Justamente por promover o
afastamento das figuras paternas, acreditamos que o canto do galo, em ambas as
cantigas, sofreu uma invers‹o de sentido: a noite, por aux’lio da maldi�‹o, tem
uma acep�‹o positiva, por aproximar os pr’ncipes de sua fam’lia, e o dia,
anunciado pelo canto do galo, tem uma acep�‹o negativa, por afastar os pr’ncipes
de seus entes. Trata-se de um efeito paradoxal atribu’do ao canto do galo, pois
nos contos de fadas a maldi�‹o Ž comumente associada a algo que pode trazer
malef’cios para suas v’timas. Essa acep�‹o negativa para o canto do galo nos
dois contos Ž reverberada pelo tom de lamenta�‹o das cantigas, que constituem
as falas dos pr’ncipes.
V‡rios
elementos que encontramos em ambas as cantigas, como a visita noturna, a m‹e e
filho recŽm-nascido e o canto do galo, est‹o presentes tambŽm no epis—dio do
nascimento de Jesus e da visita dos tr�s reis magos. Este epis—dio Ž cantado
pela can�‹o de Reis[71], intitulada ÒSauda�‹o da
LapinhaÓ, pelos seguintes versos:
8.
E os reis, mas quando eram santo, No caminho se encaminharam. Viagem de fazer
um ano, Em onze dias chegaram/. 9. Na chegada l‡ da lapinha, Todo mundo j‡
dormia. Nossa Senhora com seu manto, A Jesus ela cobria/10. Na chegada l‡ da
lapinha, O porteiro recebeu-se. Bateu asa e canta o galo, Menino Jesus nasceu[72].
A
partir desses versos, podemos aproximar as cantigas de ambos os contos e can�‹o
da Lapinha pela seguinte disposi�‹o: o pr’ncipes encantados nas cantigas est‹o
para os reis magos na can�‹o de Reis, j‡ que eles fazem a visita noturna;
Luciella e seu filho recŽm-nascido est‹o para Nossa senhora e o menino Jesus;
as faixas de ouro/toalhas de ouro est‹o pelo manto, e canto do galo Ž a
intersec�‹o maior que une as cantigas e can�‹o, representando o nascimento do
dia e o fim da maldi�‹o na cantiga e o nascimento do dia e do menino Jesus na
can�‹o de Reis, da’ o canto do galo ser celebrado nos hinos e ora�›es da Igreja
cat—lica. Diante de tal leitura, pela simples proximidade entre esses
elementos, tanto das cantigas quanto da can�‹o de Reis, j‡ seria suficiente
para falar da incorpora�‹o do conto popular n‹o s— por elementos locais, j‡ que
a tradi�‹o da Folia de Reis Ž muito celebrada no interior de v‡rias regi›es
brasileiras, mas principalmente por elementos que aludem a outras mitologias,
no caso, ˆ mitologia crist‹, da qual faz parte a narrativa do nascimento de
Jesus, ainda que os contos napolitano e baiano tenham sido origin‡rios do mito
greco-romano de Eros/Cupido e Psiqu�.
Explicada
as converg�ncias entre os contos napolitano e baiano e os contos e os mitos
greco-romano e crist‹o respectivamente, passamos a examinar as minœcias que
evidenciam os distanciamentos: nos versos da cantiga napolitana, percebemos
elementos mais nobres nos objetos Òbacia de ouroÓ e Òfaixas de ouroÓ, enquanto
na cantiga baiana, os mesmos elementos foram trocados por Òbacia de prata e
Òtoalhas com fios de ouroÓ. Em raz‹o da prata ser um elemento menos nobre que o
ouro e provavelmente a tolha ser um tecido de qualidade inferior ao da faixa,
uma poss’vel motiva�‹o para essa desqualifica�‹o dos materiais elencados seja o
fato de o pal‡cio do rei, pai do pr’ncipe Teiœ, ser menos nobre na vers‹o
baiana, dada a diferen�a de sŽculos entre os contos. Tais diverg�ncias, embora
relevantes, s‹o sutis entre as cantigas, pois a que mais salta aos nossos olhos
Ž a men�‹o ao jegue e ao sino na vers‹o baiana, este œltimo pode estar
associado ao canto do galo, dada a supersti�‹o desse canto celebrado na
tradi�‹o crist‹.
Ao
nosso olhar comparativo, a men�‹o ao jegue na vers‹o baiana Ž uma refer�ncia
relevante para o contexto sociocultural do conto baiano, pois o jegue Ž um
animal muito recorrente na representa�‹o da paisagem e da vida cultural
nordestina, tanto que existe, na Bahia, mais precisamente na cidade de Uau‡ do
estado, uma tradi�‹o chamada ÒjecanaÓ, como evidencia Albuquerque (2014, p.
175): ÒNo dia do vaqueiro tambŽm ocorre a ÔJecanaÕ que Ž o desfile de homens,
mulheres, adultos e crian�as, montadas em jegues, e esta j‡ est‡ em sua 11»
edi�‹o com o objetivo de destacar a import‰ncia do animal, t‹o comum no
Nordeste do BrasilÓ. Ainda que o conto baiano aqui cotejado tenha sido
recolhido na cidade de Igapor‹, tambŽm do estado da Bahia, aproveitamos a
refer�ncia cultural ˆ tradi�‹o da jecana na cidade de Uau‡, porque, segundo a
pesquisadora, a cidade de Uau‡ Ž uma refer�ncia aos sert›es da Bahia, por ser
um mun’cipio que ainda preserva as mais genu’nas express›es e manifesta�›es da
cultura popular, constituindo, assim, o celeiro de cantadores, poetas
populares, repentistas, sanfoneiros, aboiadores, zabumbeiros etc.
Apesar
de o jegue no conto baiano ser uma refer�ncia que nos sugere a adapta�‹o da
narrativa ˆ cor local, o sert‹o baiano do Nordeste, o elemento que revela maior
expressividade da cultura nordestina no conto de Marco HaurŽlio j‡ est‡ contido
no pr—prio t’tulo da narrativa: ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó,
visto que o lagarto teiœ Ž um noivo-animal recorrente nas hist—rias populares
brasileiras que originaram do mito Cupido e Psiqu�, conforme Doralice Fernandes
Xavier Alcoforado: ÒNas vers›es brasileiras, o noivo metamorfoseado pode vir na
apar�ncia de fera, lagart‹o, teiœ, veado, porco, le‹o, drag‹o, sapo, boi,
camale‹o, burro, urubu, cobra, lagartixa, papagaio, pombo, peixe ou mesmo
beija-florÓ (ALCOFORADO, 2000, p. 42).
O
argumento para a substitui�‹o do pr’ncipe encantado da narrativa napolitana, descrito
como monstro pelas irm‹s de Luciella, disso ele ser considerado tambŽm
Ònoivo-animalÓ, pelo pr’ncipe Teiœ da narrativa baiana, pode ser tirado com
base em Alcoforado (2007) que afirma ter encontrado, em sua pesquisa de campo,
recolhendo hist—rias populares do mito de Apuleio no estado da Bahia, tr�s
contos com elementos tem‡tico-estruturais que os integram ao tipo 2: ÒO Peixe
DouradoÓ (v. 1), ÒA Hist—ria do TeiœÓ (v. 2) e ÒO P‡ssaro AssuÓ (v. 3). O tipo
2 apresenta contos que se articulam a partir de uma car�ncia de pesca ou de
ca�a que afeta a vida do chefe de fam’lia, porque ca�ar ou pescar Ž a sua
profiss‹o. Essa car�ncia, entretanto, pode ser superada caso o chefe aceite a
oferta de abund‰ncia de alimentos proposta por um ser encantado, em troca da
primeira coisa a ser vista no retorno ˆ casa. No costume de ver sempre a
cachorrinha, o progenitor aceita a proposta. Contudo, ao chegar em casa, Ž a
pr—pria filha ou o filho que o ser encantado avista. O pretendente n‹o Ž
propriamente um monstro, na acep�‹o que Ž dada ao termo, porŽm animal mais ou
menos familiar, um peixe ou um teiœ, que deseja casar-se com a mo�a, ou a M‹e
dÕçgua que deseja casar o rapaz com a sua filha (ALCOFORADO, 2007).
Assim
como nos tr�s contos coletados por Alcoforado[73] (2007), no conto
baiano, recolhido por HaurŽlio (2011), o pai de AngŽlica, chefe da fam’lia,
tambŽm desempenhava o papel de ca�ador, que, ali‡s, n‹o lhe rendia alimento:
Houve,
h‡ muito tempo, um ca�ador muito pobre que era viœvo e morava com suas tr�s
filhas numa casinha da mata. Um dia, ele n‹o estava tendo sorte na ca�ada. J‡
era tarde e o homem n‹o tinha conseguido nada para a ceia. Muito triste,
sentou-se numa pedra e come�ou a maldizer sua sorte. Nisso chega um teiœ e
pergunta para o velho [...] (HAURƒLIO, 2011, p. 64).
A
partir deste trecho, analisamos que a escolha pelo teiœ como noivo-animal no
conto baiano justifica-se n‹o somente por ser um animal associado ˆ pesca e,
portanto, um alimento que pode compensar a situa�‹o de car�ncia do chefe da
fam’lia, que exerce a fun�‹o social de ca�ador, mas tambŽm por demonstrar a
capacidade do conto de se adaptar ao universo cultural do contador, no caso do
sert‹o baiano da regi‹o nordeste, o que explicita, sobretudo, o car‡ter etnogr‡fico
do texto oral que percorre pelo territ—rio do maravilhoso, acomodando-se ˆs
mais diversas localidades geogr‡ficas.
Considera�›es finais
Ao
recolher o conto maravilhoso baiano da tradi�‹o oral, ÒAngŽlica mais afortunada
(o pr’ncipe Teiœ)Ó, que evidencia uma rela�‹o intertextual com o conto
napolitano ÒO cadeadoÓ, recriado por Giambattista Basile com base no mito de
Cupido e Psiqu� ou talvez recolhido j‡ na forma de conto maravilhoso no sŽculo
XVII pelo escritor napolitano em sua obra-prima Lo cunto de li cunti (O
conto dos contos), o poeta, escritor e folclorista baiano Marco HaurŽlio
dialoga com a tradi�‹o na qual se insere o escritor Basile. A tradi�‹o oral se
manifesta, na obra de ambos os escritores compiladores, por elementos comuns,
como a contadora de hist—ria, a cantiga e a supersti�‹o popular do canto do
galo, e distintos, presen�a e aus�ncia de f—rmulas finais, mas ambos recursos evidenciam
o contexto sociocultural de produ�‹o de suas respectivas obras, haja vista a
refer�ncia tanto ao jegue quanto ao lagarto Teiœ no conto baiano coletado por HaurŽlio
(2011) na cidade de Igapor‹, e a cultura napolitana e as deforma�›es f’sicas
pr—prias do Barroco no conto napolitano recriado ou possivelmente recolhido por
Basile.
AlŽm
da voz do escritor napolitano na colet‰nea Conto e f‡bulas do Brasil,
ecoam outras vozes da tradi�‹o, porŽm de folcloristas brasileiros: Br‡ulio do
Nascimento, para quem HaurŽlio (2011) dedica sua colet‰nea Contos e f‡bulas
do Brasil, e com quem compartilha o uso do ’ndice internacional ATU de
classifica�‹o dos contos, j‡ adotado por Br‡ulio do Nascimento em seu Cat‡logo
do conto popular brasileiro, de 2005; e Doralice Alcoforado, cujos
trabalhos pioneiros no Brasil desde a dŽcada de 90 revelam a presen�a do mito
de Cupido e Pisqu� no imagin‡rio baiano, dado o t’tulo de sua antologia Belas
e Feras baianas: um estudo do conto popular e as reflex›es
te—rico-cr’ticas da pesquisadora que mostram o teiœ como o noivo-animal
recorrente no contexto cultural do sert‹o do Nordeste brasileiro.
No
movimento anal’tico, embora tenhamos identificado resson‰ncia dessas vozes da
tradi�‹o no conto baiano e na obra de que faz parte, n‹o podemos deixar de
mencionar a importante reflex‹o que HaurŽlio (2011) faz no pref‡cio de seu
livro: o car‡ter coletivo de qualquer colet‰nea de contos tradicionais em
qualquer Žpoca, pois, sempre que uma antologia de contos tradicionais Ž
publicada na aurora dos tempos, ela resgata consigo, por um lado, autores
an™nimos que elaboram e reelaboraram tais hist—rias e, por outro, contadores de
hist—rias, que desempenham o papel de retransmissores atuais, como as
contadoras, de quem HaurŽlio ouviu e recolheu o conto baiano e por meio de quem
Basile ouviu e narrou o conto napolitano selecionados para este artigo.
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[Recebido: 08 ago 2020 – Aceito: 24 jan 2021]
ÒCOLETIVO LUêSA MAHIN - SARAU DAS PRETASÓ: O PROMIC E A PERFORMANCE COMO MOBILIZADOR IDENTITçRIO
E FORMATIVO
ÒCOLETIVO LUêSA
MAHIN - SARAU DAS PRETASÓ: PROMIC AND PERFORMANCE AS IDENTITY AND FORMATIVE
INSTRUMENT
Amanda
Maria Damasio Teixeira[74]
https://orcid.org/0000-0002-4064-05
Ana
Cristina Pereira da Silva [75]
https://orcid.org/0000-0003-2924-95
Resumo: Utilizando como
foco o projeto londrinense ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ, este
artigo pretende expor como o PROMIC (Programa Municipal de Incentivo ˆ Cultura)
viabiliza performances em torno da literatura, da forma�‹o e de quest›es
identit‡rias. Dito isso, utilizaremos como viŽs de an‡lise os textos de Zumthor
(2007) e Aguilar e
Palavras-chave: Sarau.
Pol’ticas pœblicas. Literatura afro-brasileira.
Abstract: Using
as a focus point the project ÒColetivo Lu’sa Mahin - Sarau das PretasÓ, based
in Londrina, this article aims to show how PROMIC (a municipal cultural
program) enables performances around literature, learning and identity matters.
That said, the following authors were used as analisis bias: Zumthor (2007) and
C‰mara (2017) (to comprehend the role of voice and performance) and the
Even-ZoharÕs polysystem
theory (2013), work in which he discusses literary polysystems and its
peripheries. Transcribed interviews with the two cultural producers behind the
project will be presented also. Taking into account MarianoÕs article (2019),
in which one could presuppose an intersection between the Even ZoharÕs
peripheral polysystems and afro-brazilian literature, was possible to conclude
that PROMIC made actions viable (in multiple places and via written text
or oral knowledge), giving more emphasis to black women and afro-brazilian
narratives that were silenced by a racial and peripheral issue, contributing,
finally, to a more balanced canon.
Keywords: Soiree.
Public Policy. Afro-brazilian literature.
Introdu�‹o
Atualmente,
os impactos das pol’ticas pœblicas de cultura s‹o colocados em discuss‹o, s‹o
questionados. Em Londrina, o
trabalhar
a cultura afro-brasileira nas escolas e demais espa�os educativos, abordando a
import‰ncia da compreens‹o da identidade negra e os desafios que ela enfrenta
na sociedade brasileira a partir de diferentes formas (literatura, teatro,
conta�‹o de hist—rias, palestras, roda de conversa) e tambŽm marcar a cena
cultural londrinense com um espa�o dedicado ˆ cultura negra (ˆ exalta�‹o das
nossas ra’zes africanas) e ao fortalecimento da nossa comunidade por meio de um
Sarau.
Assim,
fica claro que o Sarau Ž um dos espa�os de fortalecimento da cultura negra
local, que tem como atividade principal as performances
que nele acontecem, mas que n‹o se restringe s— a isso.
O
sarau tambŽm Ž um dos espa�os de discuss‹o e de abertura para di‡logo acerca da identidade afro-brasileira. Dessa
forma, busca-se entender de que forma o PROMIC auxilia na realiza�‹o desses
objetivos? De que forma a voz e a performance
contribuem ou n‹o para o fortalecimento de uma identidade londrinense e
para o protagonismo da mulher negra?
Pol’tica pœblica, polissistema e performance: uma quest‹o de car‡ter social
Um dos te—ricos que utilizaremos neste trabalho Ž Itamar
Even-Zohar. Sua pesquisa em rela�‹o ao polissistema liter‡rio, express‹o
cunhada pelo autor, discute o c‰none liter‡rio e as rela�›es que o afetam,
dando �nfase ao seu car‡ter social. Sua proposta parte do reconhecimento de que
a heterogeneidade da cultura Ž ampla e se forma a partir de movimenta�›es
centr’petas e centr’fugas, em que a periferia e o centro da recep�‹o liter‡ria
se impactam. Sobre isso, Even-Zohar (2013, p. 8) declara:
A
ideologia de uma cultura oficial como a œnica aceit‡vel em uma dada sociedade
tem como consequ�ncia uma massiva compuls‹o cultural que afeta a na�›es
inteiras mediante um sistema educativo centralizado e que torna imposs’vel,
inclusive a estudiosos da cultura, observar e valorar o papel das tens›es
din‰micas que operam no seio da cultura para sua efetiva manuten�‹o. Como um
sistema natural que necessita, por exemplo, de regulamenta�‹o tŽrmica, os
sistemas culturais necessitam tambŽm de um equil’brio regulador para n‹o entrar
em colapso ou desaparecer.
Ent‹o,
de acordo com a configura�‹o expressa por Even-Zohar, Ž poss’vel pensar em um
repert—rio brasileiro (e mœltiplo, claro), em que essa centraliza�‹o
(intrinsecamente relacionada ao social, ou seja, aos indiv’duos detentores do
poder) implicaria uma posi�‹o menos prestigiosa ˆ literatura afro-brasileira
(que se veria ent‹o ˆs custas de uma elite branca, por exemplo) e de outros
nichos ÒperifŽricosÓ, supondo a exist�ncia de um sistema ou um conjunto de
elementos afro-brasileiro – hip—tese defendida no artigo de Mariano
(2019, p. 10):
Dentro
da perspectiva brasileira, do sŽculo XIX, qualquer proje�‹o de sistema liter‡rio
proveniente das popula�›es negras - e aqui poder’amos pensar em outros recortes
identit‡rios de minoria - seria devidamente barrada por um sistema hegem™nico
de literatura, muito bem estruturado nos r’gidos moldes de ra�a, classe, g�nero
etc.
Assim,
a literatura afro-brasileira dependeria de interven�›es que se relacionam
intimamente com o que Even-Zohar (2013, p. 6) exp›e como Òluta entre v‡rios
estratosÓ. Estando o polissistema liter‡rio intr’nseco ao social, o racismo
tambŽm o afetaria, minimizando, talvez, seu alcance, visibilidade e recep�‹o
daqueles que se identificam como afro-brasileiros. ƒ interessante notar que o
Òrepert—rioÓ can™nico Ž definido pelas rela�›es travadas no polissistema,
externas a um conjunto de caracter’sticas liter‡rias, como discute Even-Zohar
(2013). Embora, como explica o autor, o polissistema pode reorganizar-se sempre
a fim de um Òequil’brioÓ. Nesse sentido, o financiamento de projetos como o
ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ pode auxiliar nessa movimenta�‹o?
Quais foram as pessoas beneficiadas durante a realiza�‹o do projeto? De acordo
com Poliana Santos[77],
uma das organizadoras do Sarau, este foi o trajeto:
Quando
n—s fomos aprovadas no PROMIC, n—s tivemos a possibilidade de realizar o nosso
trabalho na zona rural, fizemos oficinas dentro do Eli Vive, o acampamento do
MST, n—s cruzamos a cidade de Londrina de Norte a Sul, de Leste a Oeste,
podendo levar o nosso trabalho, com a estrutura de material pedag—gico,
material humano, que Ž proporcionado por essas estruturas financeiras, nŽ? Voc�
poder contratar oficineiros e oficineiras, comprar material did‡tico, se
locomover pra isso
Imagem 1 – Performance no
sarau
Fonte: Arquivo do evento (Facebook),
2019.
Deve-se
ressaltar, ent‹o, a utiliza�‹o da bolsa para o desenvolvimento de uma pedagogia
e seus materiais, como tambŽm a contrata�‹o de terceiros e o transporte atŽ os
locais selecionados. Ele permite que essa aten�‹o se volte a espa�os
desprivilegiados, fazendo com que esses tenham acesso a servi�os que
dificilmente chegam atŽ eles. AlŽm disso, h‡ uma mobiliza�‹o local em torno de
necessidades culturais que poderiam
afetar as periferias e ‡reas rurais da cidade. Houve tambŽm uma movimenta�‹o de
aproxima�‹o entre a Academia e espa�os perifŽricos, quando, obtendo maior
visibilidade e estrutura por ser justamente aprovado pelo PROMIC, o ÒColetivo
Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ juntou-se a um projeto de extens‹o de
Escrita Criativa da Universidade Estadual de Londrina. ƒ interessante notar que
no mesmo trecho da fala de Poliana Santos vemos formas diferentes de abordagem
em rela�‹o ao protagonismo da mulher negra – utilizando espa�os
perifŽricos (terreiros) e privilegiados (academia), como num contexto educativo
informal e formal:
O
Sarau das Pretas, em suma, tem um prop—sito fundamental em trabalhar a quest‹o
da forma�‹o, e essa forma�‹o a gente entende como trocas de saberes; dando o
protagonismo da mulher, principalmente, da mulher negra. Ent‹o assim, n—s obtivemos,
por exemplo, dentro do trabalho do Sarau das Pretas, um encontro dentro de uma
casa de axŽ, que Ž o terreiro da m‹e Omin, onde v‡rias mulheres mais velhas
trouxeram a sua cultura do benzimento, ent‹o a gente fez essa troca com elas.
Elas nos explicaram as quest›es das benzedeiras, os ch‡s, trazendo essa
historicidade atravŽs da sua oralidade, ali contando como era quando elas eram
crian�as, como se deram essa identidade de se ver como mulheres negras, ent‹o Ž
muito pontual para n—s essas viv�ncias. N—s nos organizamos para levar, por
exemplo, uma oficina de Escrita Criativa, com o pessoal do professor Fl‡vio
Freire da UEL, ao pessoal do Flores do Campo. N—s nos organizamos para, com as
crian�as, trazer um material lœdico, mas que fa�a o debate do racismo. Receber
essa devolutiva, sabe, nesse processo educacional, Ž, para n—s, o mais
importante. Um espa�o de forma�‹o onde a gente consiga resgatar essa
historicidade pela quest‹o da mulher negra, pelo olhar da mulher negra, e
tambŽm levar um pouco da academia fazendo essa troca.[78]
A
multiplicidade de eventos realizados pelo ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau
das PretasÓ permite uma abrang�ncia maior em rela�‹o ˆ discuss‹o em torno da
literatura afro-brasileira. Justaposto ˆ teoria dos Polissistemas, Ž poss’vel
perceber que o projeto n‹o se limita apenas ao livro, produto final de todo um
repert—rio, como dir‡ Even-Zohar (2013, p. 10), mas ˆs tradi�›es orais e ˆ
forma�‹o e cria�‹o de novos leitores e produtores culturais (escritores):
ƒ
dif’cil eliminar imagens respeitadas ao longo do tempo, e parece ÒnaturalÓ,
portanto, que produzir e consumir textos tenha sido sempre a atividade mais
importante na ÒliteraturaÓ. Em certos per’odos, n‹o obstante, o texto era mais
marginal em rela�‹o a outras atividades no sistema liter‡rio, tais como o
escritor ou algum Òacontecimento totalÓ sob a forma de atua�›es diversas.
As performances, ent‹o, realizadas em
variados espa�os culturais da cidade (Usina Cultural, CemitŽrio de Autom—veis e
Casa da Vila), alŽm dos outros lugares j‡ citados, demonstram um entendimento
total de ÒliteraturaÓ por parte das organizadoras do evento, levando em conta
que Even-Zohar compreende que as no�›es de ÒlivroÓ e Òrepert—rioÓ s‹o parciais
e n‹o d‹o conta para discutir um polissistema heterog�neo. Dessa forma, Ž capaz
de adentrar lugares e alterar, nem que seja por pouco tempo, a hierarquia do
espa�o, o direcionamento da aten�‹o – conscientizando aqueles que
permitem o racismo estrutural e aquelas que sofrem com este.
Assim,
a partir da visibilidade garantida ao ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das
PretasÓ, por meio do financiamento do PROMIC, Ž poss’vel inferir que o PROMIC
provoca maior oxigena�‹o entre a canonicidade liter‡ria local, permitindo
discuss›es que n‹o abrangem apenas o livro ou a leitura em voz alta, mas a
valoriza�‹o de tradi�›es e vozes silenciadas por um sistema intr’nseco ao
polissistema liter‡rio – o sistema social.
Como
relatado por Even-Zohar (2013), existem for�as centr’fugas que podem carregar
ou transferir propriedades de polissistemas perifŽricos para o centro – e
poder’amos afirmar que o sarau estudado Ž uma dessas for�as, colocando em
evid�ncia essa identidade e suas viv�ncias:
De
modo semelhante, Ž por meio da estrutura polissist�mica das literaturas
envolvidas como podemos dar conta dos v‡rios e intrincados processos de
interfer�ncia. Por exemplo, ao contr‡rio da cren�a comum, a interfer�ncia tem
lugar, frequentemente, por meio das periferias (EVEN-ZOHAR, 2013, p. 18).
ƒ
interessante relatar, ent‹o, a import‰ncia de projetos de pol’ticas pœblicas
como o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ que, por meio da
literatura e da voz, impactam o social. AtravŽs de suas performances, indiv’duos se conscientizam sobre a posi�‹o da mulher
negra na sociedade, como tambŽm adquirem conhecimentos silenciados justamente
por uma quest‹o racial. O financiamento decorrente de uma bolsa do PROMIC
provoca uma luta mais igualit‡ria, talvez, entre os estratos, permitindo
estruturas perifŽricas terem mais visibilidade e melhor forma�‹o mesmo distantes
dos grandes centros.
ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÕÕ: a performance como forma de re-exist�ncia
O
ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das pretasÓ foi criado, conforme j‡ dito,
pelo coletivo Lu’sa Mahin, em 2015. A
priori, segundo as organizadoras, o coletivo era formado por Poliana
Santos, Fiama Helo’sa, Tha’sa Carvalho, Silvia Castro e Rute. A forma�‹o atual
conta com Fiama Helo’sa, Poliana Santos, Ana Paula Barcellos, Mariana Valle e
Jamile Baptista, ˆ frente do coletivo.
Visando
ˆ arrecada�‹o de recursos para a Marcha das Mulheres Negras, realizada em
Bras’lia em novembro do mesmo ano, o sarau cujo protagonismo Ž a mulher,
sobretudo a mulher negra, teve continuidade ap—s o evento. A reflex‹o sobre a
import‰ncia do protagonismo da mulher negra para o cen‡rio cultural e art’stico
de Londrina impulsionou o grupo a buscar parcerias culturais.
A
partir disso, o sarau surge como forma de fomento ˆs trocas liter‡rias, sendo
visto como um evento, um momento de confraterniza�‹o, a princ’pio, e depois com
o PROMIC Ž agregado tambŽm, ao sarau, um trabalho de forma�‹o, um aspecto
educacional, segundo Poliana Santos.
Na
produ�‹o liter‡ria contempor‰nea, o singular se faz presente por meio do
coletivo, o que leva ˆ cria�‹o de grupos, denominados coletivos, que s‹o constitu’dos pela afetividade e pela identidade
partilhada, caracter’sticas essenciais para a forma�‹o de redes afetivas
(LEONƒ, 2014). Sendo assim, o ÒColetivo Lu’sa MahinÓ vem a ser um agente
importante dentro do sistema liter‡rio corroborando para o estabelecimento de
redes que fortale�am e deem protagonismo ˆ cultura negra.
O modus operandi do ÒColetivo Lu’sa Mahin
– Sarau das PretasÓ conta com diversas atividades que visam promover a
cultura afro-brasileira, contemplando as mais diferentes manifesta�›es
art’stico-liter‡rias. No entanto, a voz Ž o cerne de todas as edi�›es do sarau,
por meio da performance que
ressignifica o texto liter‡rio e possibilita as trocas afetivas atravŽs das
redes formadas por ela.
Imagem 2 – Exposi�›es e instala�›es no sarau
Fonte:
Arquivo do evento (Facebook), 2019.
Na
programa�‹o, discotecagem com DJ J™ Moreno, roda de capoeira com o pessoal do
Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), apresenta�‹o musical com Ti‹o
Carvalho, Feirinha, gastronomia popular e momento de conta�‹o de hist—ria para
as crian�as. O Sarau das Pretas se insere ainda como prŽ-abertura do Festival
Liter‡rio de Londrina – LONDRIX, por isso permeia a festa com momentos de
microfone aberto para as mais diversas possibilidades de manifesta�‹o
liter‡ria. Nosso encontro ser‡ na Vila Cultural CemitŽrio dos Autom—veis, a
partir das 18h. Esperamos voc�s! A entrada Ž gratuita. Todas as atividades
contam com o patroc’nio do PROMIC, produ�‹o da Pç! Art’stica e realiza�‹o do
Coletivo Lu’sa Mahin.[79]
O
PROMIC possibilitou ao ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ maior
visibilidade ˆs performances realizadas
no evento, aumentando sua rede de alcance para as discuss›es sobre a cultura
afro-brasileira e para divulga�‹o de sua respectiva literatura. A lei de
incentivo, que Ž um dos agentes presentes no polissistema de Even-Zohar (2013),
contribuiu para que a literatura afro-brasileira se movesse dentro desse
sistema sentido ao centro dele.
ƒ
claro que muito h‡ de se fazer para que a literatura afro-brasileira chegue ao
centro do sistema liter‡rio, pois sabemos que as dificuldades em rela�‹o ao
mercado editorial ainda s‹o muitas. No entanto, o PROMIC como apoio para o
sarau, evento cujo cerne Ž a performance,
surgiu como forma de movimentar essa literatura e dar condi�›es de circula�‹o
dos textos liter‡rios para alŽm do livro impresso.
Fazer
o Sarau sempre foi uma forma de milit‰ncia porque acreditamos na import‰ncia de
fazer esse trabalho cultural sobre a cultura negra. Ao longo do percurso, tivemos
muitos apoiadores e colaboradores, mas nunca de forma financeira. O dinheiro
investido para realizar o Sarau, muitas vezes, era colocado do nosso pr—prio
bolso. Muitas vezes, investimos com o nosso pr—prio dinheiro, depois
recuper‡vamos o valor com as coisas que faz’amos para serem vendidas no evento
(como comidas, bebidas, etc.) e, depois, guard‡vamos o que sobrava, quando
sobrava depois de pagar todo mundo, como uma Òpoupan�a do SarauÓ. Esse valor
era investido novamente na pr—xima edi�‹o e assim ’amos indo. Mas essa
limita�‹o financeira nos impedia de crescer. N—s t’nhamos vontade de ampliar as
a�›es, mas n‹o t’nhamos perna. Ent‹o, vimos no PROMIC essa possibilidade, que
ele fosse o meio de financiarmos nossas a�›es. Com esse financiamento, conseguimos
ampliar as atividades como j‡ v’nhamos planejando. Por isso, nosso projeto do
PROMIC contemplou duas faces: a primeira educacional - em que fomos em escolas
das ‡reas urbana e rural falar com crian�as, adolescentes e adultos sobre a
cultura negra, alŽm tambŽm de oficinas abertas para a comunidade; e a segunda,
cultural - momento em que realizamos edi�›es do Sarau das Pretas para mostrar o
resultado dos trabalhos desenvolvidos nas oficinas e para fortalecer a cena
cultural negra na cidade.[80]
O ato perform‡tico Ž œnico, dotado de corporeidade, Ž
carregado de sensa�›es e emo�›es. Uma voz n‹o pode ser vista separada de um
corpo, sempre que existir uma voz vai existir um corpo (ZUMTHOR, 2007). Dessa
forma, voz, corpo e espa�o se fundem a fim de Òconvocar a performance para mostrar que sua presen�a transforma as leituras
poss’veis de uma obraÓ (AGUILAR; CçMARA, 2017, p. 13).
Imagem 3 – Apresenta�›es musicais
Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.
O corpo, os gestos, os modos de vestir, as entona�›es da
voz, s‹o aspectos que o texto escrito sugere, mas n‹o permite vivenciar.
AtravŽs da performance, esses aspectos s‹o vistos, sentidos e
apreendidos de forma mais ’ntima, e assim, os sujeitos se afetam mutuamente
permitindo essa experi�ncia vivenciada.
Na performance a voz Ž emana�‹o do corpo, uma representa�‹o
plena, que n‹o Ž apenas uma forma de comunica�‹o que transmite conhecimento,
mas que transforma o conhecimento, e sendo assim transforma de alguma forma o
ser. A voz marca tanto o
As performances que
acontecem nos ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ s‹o dotadas de
representatividade e ancestralidade. Como exemplo, temos um encontro que
aconteceu dentro de uma casa de axŽ, que Ž o terreiro da m‹e Omin:
v‡rias mulheres mais velhas trouxeram a sua cultura do
benzimento, ent‹o a gente fez essa troca com elas nos explicando as quest›es
das benzedeiras, os ch‡s, trazendo essa sua historicidade atravŽs da sua
oralidade, ali contando como era quando elas eram crian�as, como se deram essa
identidade de se ver como mulheres negras, ent‹o Ž muito pontual para n—s essas
viv�ncias.[81]
AlŽm de ser um meio de divulgar a literatura
afro-brasileira, as performances do
sarau tambŽm trazem a quest‹o da representatividade a partir da hist—rias
contadas por essas mulheres. E a’, a m‡quina perform‡tica se faz instrumento de
transforma�‹o do conhecimento e de re-exist�ncia para o performer e para o espectador. Espectador esse que se reconhece no performer ou que conhece a cultura
afro-brasileira a partir das viv�ncias e dos saberes transmitidos pelas
mulheres negras atravŽs da performance.
Nesse sentido, pode-se afirmar que o sarau Ž uma forma de
resist�ncia no sentido de re-existir, de fazer re-existir. ƒ importante deixar
claro o conceito de resist�ncia, visto que na atualidade, v‡rias s‹o as
possibilidades de sentido que se pode atribuir ao termo.
Ora, Ž diante da ideia de que o poder, como rela�‹o de
for�as, funciona sempre como produtor de afetos, que a resist�ncia aparece para
Foucault como um terceiro poder da for�a. Se as for�as se definem segundo o
poder como um afetar e um ser afetado, resistir Ž a capacidade que a for�a tem
de entrar em rela�›es n‹o calculadas pelas estratŽgias que vigoram no campo
pol’tico. A capacidade que a vida tem de resistir a um poder que quer geri-la Ž
insepar‡vel da possibilidade de composi�‹o e de mudan�a que ela pode alcan�ar.
Resistir Ž, neste aspecto, o oposto de reagir. Quando
reagimos damos a resposta ˆquilo que o poder quer de n—s; mas quando resistimos
criamos possibilidades de exist�ncia a partir de composi�›es de for�as
inŽditas. Resistir Ž, neste aspecto, sin™nimo de criar. Sendo assim, a
resist�ncia Ž, para Foucault, uma atividade da for�a que se subtrai das
estratŽgias efetuadas pelas rela�›es de for�as do campo do poder. Esta
atividade permite ˆ for�a entrar em rela�‹o com outras for�as oriundas de um
lado de fora do poder [...]. For�as do devir, da mudan�a, que apontam para o
novo e engendram possibilidades de vida (MACIEL JR.,
Dessa forma, Ž em Foucault que se busca fundamentar essa
afirma�‹o do sarau enquanto resist�ncia (re-exist�ncia), em especial o
ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ que coloca em evid�ncia a
mulher negra no campo social e atua nesse mesmo sentido o qual Maciel Jr. (
Imagem 4 – Integrantes do Coletivo Lu’sa Mahin –
Sarau das Pretas
Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.
O ÒColetivo Lu’sa Mahin –
Sarau das PretasÓ Ž resist�ncia, porque resistir nessa perspectiva ÒŽ criar,
para alŽm das estratŽgias de poderÓ (MACIEL JR.,
Considera�›es finais
O ÒColetivo Lu’sa Mahin –
Sarau das PretasÓ contou com o apoio do PROMIC para realiza�‹o das edi�›es do
sarau, e esse incentivo foi de grande import‰ncia para a viabiliza�‹o do evento
que, de acordo com seu modus operandi,
mobiliza a divulga�‹o de textos liter‡rios de mulheres negras e a inser�‹o
deles em diferentes espa�os sociais por meio da performance.
A lei de incentivo municipal ˆ
cultura foi essencial para que a literatura afro-brasileira londrinense
rompesse as barreiras do mercado editorial, criando possibilidades de
divulga�‹o desses textos para alŽm do livro impresso.
O PROMIC Ž necess‡rio, porŽm ainda
insuficiente e tardio, nem sempre realizando a proje�‹o para alcan�ar todos os
grupos que poderiam ÒoxigenarÓ a literatura local, distanciando-se de um c‰none
que replica um repert—rio j‡ conceituado. Sofrendo alguns ajustes, o programa
poderia ser ainda mais impactante nesse sentido.
A performance, enquanto cerne de um sarau, funciona no ÒColetivo
Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ como uma possibilidade de fortalecer a
cultura afro-brasileira, trazendo em si sua ancestralidade e representatividade
e permitindo a viv�ncia da cultura negra.
A quest‹o identit‡ria, t‹o cara ˆ
literatura contempor‰nea, Ž a ess�ncia desse sarau, que traz nomes t‹o
importantes para homenagear a mulher negra, como ÒLu’sa MahinÓ, ÒMarielleÓ e
ÒY‡ MukumbyÓ. A performance vem
contribuir para a valoriza�‹o da identidade negra no cen‡rio local e o PROMIC
viabilizou essas a�›es do ÒColetivo Lu’sa MahinÓ.
Em tempos em que cada vez mais
recursos destinados ˆ cultura, ˆ arte e ˆ literatura s‹o cortados, esse
trabalho se faz relevante para que se chame aten�‹o para a import‰ncia dessas
a�›es, sobretudo para aqueles que est‹o ˆ margem da sociedade.
Refer�ncias
AGUILAR, Gonzalo, CçMARA, Mario. A m‡quina Perform‡tica: a literatura no
campo experimental. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.
EVEN-ZOHAR, Itamar. Teoria dos Polissistemas. 2013.
Tradu�‹o de Luis Fernando Marozo, Carlos Rizzon e Yanna Karlla Cunha.
Dispon’vel em: >https://seer.ufrgs.br/translatio/issue/viewFile/2211/22< Acesso em: 29 jul. de 2020.
LEONE, Luciana Di. Poesia e escolhas afetivas: edi�‹o e
escrita na poesia contempor‰nea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.
MACIEL JR., Auterives. Resist�ncia e
pr‡tica de si em Foucault. Trivium,
Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 01-08, jun.
MARIANO, JosŽ Victor Nunes. Da
periferia do hegem™nico: o sistema liter‡rio afro-brasileiro. In: Suplemento liter‡rio de Mato Grosso N—doa
do Brim. Edi�‹o 67. 2019. Dispon’vel em: >https://www.researchgate.net/publication/341104225_Da_periferia_do_hegemonico_-_O_sistema_literario_afro-brasileiro<. Acesso em: 30 jul. 2020.
SILVA, Ana Cristina Pereira da;
FERNANDES, Frederico Augusto Garcia. Sarau e performance: a rede Londrix e
estratŽgias de inser�‹o do texto poŽtico. Revista
Boitat‡, Londrina, n. 27, jan.- jun. 2019, p. 118-131. Dispon’vel em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/article/view/38312/27135. Acesso em: 15 abr.
2020.
ZUMTHOR, Paul. Performance, recep�‹o e leitura. Tradu�‹o de Jerusa Pires Ferreira
e Suely Fenerich. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.
[Recebido: 16 ago 2020
– Aceito: 03 mar 2021]
ENTREVISTA
UMA CONVERSA COM E SOBRE
SALETE MARIA DA SILVA
A CONVERSATION WITH AND
ABOUT SALETE MARIA DA SILVA
Salete Maria da Silva (Colaboradora)
Andrea Bet‰nia (Pesquisadora)
Bruna Lucena (Pesquisadora)
Salete Maria da Silva Ž, antes de qualquer
caracteriza�‹o, uma mulher com alma e pŽs de sert‹o, que aprendeu a fazer
cordel com uma de suas av—s, e, n‹o por acaso, a vida de n—s mulheres percorre
toda sua obra, seja a cordel’stica – com forte teor feminista e
revolucion‡rio –, seja a acad�mica, como professora do Bacharelado em
Estudos de G�nero e Diversidade na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em
seus quase 30 anos dedicados ˆ cria�‹o de cordŽis feministas e libert‡rios,
publicou mais de uma centena de folhetos, muitos dos quais podem ser lidos em
seu blog Cordelirando. ƒ membra-fundadora da Sociedade dos Cordelistas Mauditos
‒ importante coletivo de poetas, cantadores e performers fundado no ano 2000, em Juazeiro do Norte/CE.
Esta entrevista Ž uma grande conversa da qual
participam quatro pessoas: a pr—pria Salete Maria, AndrŽa Bet‰nia, Bruna Lucena
e JosŽ Gomes, sendo a primeira a entrevistada; as duas seguintes, as
entrevistadoras; e o œltimo, o respons‡vel pela transcri�‹o literal. Adotamos a
conversa como mŽtodo de realiza�‹o desta entrevista por acreditarmos ser Ò[...]
uma convoca�‹o de saberes diferentes de modo n‹o hier‡rquicoÓ, em que Ò[...] o
conhecimento est‡ sempre no plural, conhecimento(s)Ó, como defendem Maria Luiza
SŸssekind e Raphael Pellegrini
Conversamos no dia 6 de outubro de 2020, em uma
videochamada repleta de hist—rias de vidas, de artes de ontens e de agoras
ancestrais, sobre sua presen�a inquietante no cen‡rio cordel’stico. Diante da
impossibilidade de estabelecer uma conversa linear com Salete ‒ o que
entendemos como um ponto positivo ‒ tendo em vista a exposi�‹o de um
pensamento que nos lembra um palimpsesto, os assuntos abordados foram surgindo
motivados n‹o apenas por nossa curiosidade como entrevistadora, mas, sobretudo,
pelos motes com os quais a entrevistada nos presenteava ˆ medida que tentava
refazer sua trajet—ria tanto pessoal quanto poŽtica, seguindo uma rota que se
deixava guiar por seu modo inquieto e inquietante de estar no mundo.
Ao
optarmos por empregar, no t’tulo dessa entrevista, ÒcomÓ e ÒsobreÓ, sem nos
decidirmos por apenas um, trata-se menos de vontade de escolha e decis‹o, e
mais, muito mais, de vontade de dar conta do que Ž a intimidade de dividir
palavras, escutas atentas, conhecimentos, bem como de dar a ver essa importante
cordelista de nosso aqui e agora.
Bruna
Lucena (BL)
‒ N—s estamos aqui com Salete Maria da Silva, cordelista, ativista,
professora e outras coisas sobre as quais falaremos adiante.
AndrŽa
Bet‰nia (AB)
– Boa tarde, Salete. Agradecemos mais uma vez sua disponibilidade e
generosidade ao se dispor para essa conversa. Sabemos que voc� est‡ muito
ocupada com a vida nesses tempos, mas vamos l‡. Salete, vamos come�ar falando
sobre sua trajet—ria?
Salete Maria (SM) – N‹o estava no
meu horizonte ir para a universidade porque na minha fam’lia n‹o existia essa
tradi�‹o, como de resto todos os meus contempor‰neos, os meus colegas l‡ da
comunidade onde eu vivia. S— que, no Ensino MŽdio, fui fisgada por uma milit‰ncia
Marxista, por meio do Partido Comunista do Brasil, do Partido dos
Trabalhadores. Naquela Žpoca existia uma espŽcie de recrutamento da juventude,
pra que nos organiz‡ssemos. E eu era muito ativa, gostava de ficar recitando
coisas nos eventos da escola. Nessa ocasi‹o, embora ainda n‹o entendesse nada
de Marxismo, de Socialismo, de nada, eu tinha uma revolta relacionada ˆ quest‹o
de classe. Eu nasci em S‹o Paulo, numa favela onde hoje est‡ funcionando o
est‡dio de futebol que pertence ao Corinthians e, ali, na Zona Leste, eu morava
na rua chamada Estado do Cear‡ porque todas aquelas ruas eram ocupadas, naquela
favela, por nordestinos, cearenses em sua maioria. E meus pais foram para l‡,
como tantos outros no final de 1950 e na dŽcada de 1960, em busca do Eldorado,
porque se buscava uma vida melhor. Ambos agricultores, meu pai nascido numa
cidade chamada Vargem Alegre, no Cear‡, e minha m‹e, na menor cidade do Cear‡,
que se chama Granjeiro, especificamente na zona rural desse mun’cipio, que
ainda hoje Ž o menor do Cear‡. Meu pai, embora agricultor, foi para S‹o Paulo
trabalhar na constru�‹o civil. Minha primeira irm‹ nasceu no Cear‡. Depois eu
nasci em S‹o Paulo, depois eles voltaram para o Cear‡. Ao todo, somos seis
filhos: um em cada lugar. Ent‹o, meu pai, como oper‡rio, trabalhou na
constru�‹o civil. Grande parte daqueles prŽdios que tem na Avenida Paulista tem
o suor do meu pai.
Ent‹o, eu tinha uma coisa
assim de questionar as desigualdades sociais e Ž essa turma de esquerda do Ensino MŽdio que
vai me despertar. E, uma vez, minha m‹e, quando ela era faxineira do Pal‡cio do
Governo, foi acusada de roubar um material de limpeza, uma coisa assim. Isso me
marcou muito. E embora nesse tempo eu j‡ fosse muito apaixonada pela
literatura, porque meu melhor professor de todos os tempos foi um homem, um
professor chamado Sebasti‹o, professor de letras: Literatura, L’ngua Portuguesa
e Literatura l‡ na Escola JosŽ Lins do R�go, em S‹o Paulo. Era 5» sŽrie e
depois ele foi meu professor na 7» tambŽm, e esse professor me emprestava
muitos livros e eu participava de concursos de poesias, s— que a escola n‹o
oferecia possibilidade de falar da Literatura de Cordel. E meus pais tinham
cordel em casa e eu levava, esse professor era muito receptivo, mas nunca
inseria no programa, nŽ? Enfim. O fato Ž que eu queria fazer Letras, eu me
inspirava naquele professor que dava oportunidade, que estimulava a leitura,
enfim. A’ a hist—ria era assim: n‹o era exatamente pensando Òeu vou pra
faculdade fazer LetrasÓ; era pensando assim: Òeu quero ser uma escritora, eu
quero ler mais, eu quero escrever maisÓ. Mas n‹o era tipo: Òeu vou pra
faculdadeÓ, nŽ?
Depois, quando terminei o Ensino MŽdio, eu j‡
fiz todo o Ensino MŽdio, grande parte dele, no estado do Cear‡. Ent‹o, eu j‡
estava militando no Partido Comunista e meu companheiro ‒ que Ž o pai da
minha filha, nŽ? ‒, meu companheiro da Žpoca, ele era trotskista e atuava
numa ala do PT chamada Converg�ncia Socialista e ele disse: ÒEu vou fazer
faculdade, vou fazer Hist—riaÓ. A’ ele se inscreveu e eu fiquei na dœvida. Eu
queria me inscrever em Letras, s— que eu ainda tinha muita m‡goa, muita revolta
pelo que aconteceu com minha m‹e. Eu falei assim: ÒAh, ent‹o acho que eu vou
fazer Direito porque eu quero atuar na ‡rea do Direito do TrabalhoÓ. Ent‹o, eu fiz
vestibular, nŽ? Eu era muito autodidata e eu lia muito, e eu era a œnica mulher
que atuava no Partido Comunista. Ent‹o, assim, eu passei na faculdade de
Direito, apaixonada pelo Direto do Trabalho, mas quando chegou l‡ eu me
encantei pelo Direito Constitucional, mas, paralelamente a isso, eu seguia
lendo e escrevendo muito, muita Literatura de Cordel sem publicar.
A’, em 94, quando eu pari minha primeira e œnica
filha, eu pari tambŽm um cordel. Ela nasceu em mar�o e eu pari o cordel e
publiquei. Eu tava desempregada, ent‹o, eu escrevi, nŽ? Houve uma morte l‡ no
bairro e eu escrevi aquele cordel que Ž de 94, a primeira edi�‹o: Mulher
Consci�ncia ‒ nem viol�ncia, nem opress‹o. Ent‹o, eu mesma paguei.
Tinha uma gr‡fica l‡ em Juazeiro do Norte, onde publiquei quase a maioria dos
meus cordŽis. Depois eu fui publicar na gr‡fica Lira Nordestina, que Ž uma
gr‡fica assim... ela, hoje acho que est‡ vinculada ˆ Universidade Regional do
Cariri, ainda est‡! Mas eu publicava em uma gr‡fica de fundo de quintal, ela
nem tinha CNPJ, era de Seu C’cero, e a gr‡fica L’deres. Depois ele regularizou,
muitos anos depois. Ent‹o, eu publiquei esse cordel e como eu era militante, eu
discutia com as mulheres, conversava com elas e esse cordel era sempre muito
lembrado para dialogar sobre essas viol�ncias. N‹o eram os documentos que eu
aprendia na faculdade, n‹o eram as regras, n‹o eram os textos acad�micos porque
as minhas interlocutoras n‹o eram acad�micas. Ent‹o, esse cordel foi a minha
entrada no mundo da Literatura. Assim,
minha entrada oficial, nŽ? J‡ que eu era uma leitora e uma escritora, mas n‹o
publicava.
S— que Ž —bvio que eu digo que a influ�ncia Ž da
milit‰ncia, ela foi importante pra mim, mas [pausa] antes mesmo de eu estar na
escola, eu tinha essa paix‹o pela Literatura de Cordel por causa da minha av—.
Eu falo muito sobre isso em outras entrevistas e eu dei uma entrevista pra Caros
Amigos uma vez e eles deram a visibilidade que a minha av— merecia naquela
entrevista porque come�am falando dela e o impacto dela na minha vida. Ela era
uma performer, eu n‹o tinha essa no�‹o, mas a minha av— era miudinha. Eu
tenho um metro e cinquenta e dois [1,52m]; minha av— era muito menor do que eu
e se agigantava diante de mim assim. N‹o s— porque eu era uma crian�a e ela era
uma adulta, mas porque eu via assim uma poetriz, digamos assim, uma
mulher que era fascinante. Ent‹o, ela n‹o sabia ler, nŽ? Durante um per’odo da
vida ela enxergava, mas depois ela ficou cega e ela era apaixonada pela
Literatura de Cordel. Todo mundo na minha fam’lia era, mas minha v— era a que
tinha mais for�a, nŽ? A que nos unia em torno dessa literatura. E a’ ela vivia
na zona rural l‡ de Granjeiro, num lugar chamado Canabrava, Canabrava dos
Greg—rios, e essa mulher que amava a Literatura de Cordel exerceu em mim essa
influ�ncia.
Ent‹o, assim, eu conto isso num cordel chamado Feminismo
em Cordel: como foi que come�ou? e l‡ eu conto um pouco dessa coisa de eu
gostar muito de todos os cordŽis. L‡ tinha um baœ, cheio de cordŽis, embora
fosse numa casa que somente uma pessoa lia, que era minha tia Senhora, que Ž
viva atŽ hoje. Era a œnica pessoa que lia, lia muito pouco, mas era ela a
pessoa respons‡vel por ler o cordel, os cordŽis ali [r‡pida pausa] e meu av™,
quando ele ia pra cidade, fazendo compra – feira do m�s. Eu brinco, acho
que no cordel Cordelirando [r‡pida pausa novamente] eu conto isso e
tambŽm nesse outro Feminismo e Cordel, eu lembro que meu av™, as vezes
que eu ia pra l‡, porque voc�s deveriam pensar: ÒMas como assim, voc� tava em
S‹o Paulo e no Cear‡ ao mesmo tempo?Ó. A minha, a nossa vida era uma vida de
idas e vindas. Meus pais foram l‡ por conta do �xodo rural, tiveram uma filha,
voltaram pro Cear‡: todas as vezes que tinha uma crise econ™mica, que ficavam
desempregados, que as coisas apertavam porque o aluguel era caro e eles
moravam, apesar de n‹o morarem numa casa, mas era um barraco alugado; e quando
tambŽm a viol�ncia come�ava a espreit‡-los, corriam de volta para o Cear‡. E l‡
eles tinham as casas dos parentes pra ficar, tinha ro�a, n‹o faltava aonde eles
serem acolhidos. Ent‹o, assim, havia fŽrias em que eu estava na casa dos meus
av—s e havia per’odos em que eu morava na casa deles.
Ent‹o, assim, meu av™ ia pra ro�a, pra feira e
ele levava um saco que era a bolsa que ele transportava a feira, a’ ele
trazia... eu costumava brincar que ele trazia os quatro ÒefesÓ: era o feij‹o, a
farinha, o fumo e ÒfoietoÓ porque minha av— nunca chamou o cordel de Cordel,
ela chamava Òos foietoÓ, nŽ? Ent‹o, ela tinha os cl‡ssicos: A hist—ria de
Jo‹o Grilo, O soldado jogador, ela tinha l‡ A hist—ria do Valente
Jo‹o Garcia, ZŽ Garcia ‒ n‹o lembro agora. Ela tinha tudo, tudo,
tudo, tudo. E meu av™, ele tava se alfabetizando, ent‹o, ele ficava na ro�a o
dia inteiro, quando chegava tomava banho, jantava e depois sentava um pouco l‡
no terreiro, conversava com as pessoas. Mas, depois ele voltava e sentava num
tamborete e acendia uma lamparina e come�ava: ‒ÒUm B com A, BA; um B com
E, BEÓ; tudo cantado. Eu ficava impressionada, nŽ? De ver aquele homem... Meu
av™ tinha uma apar�ncia muito bonita, ele era um homem negro, baixinho,
cambota; e ele tinha essa coisa de querer estudar, ent‹o, ele tinha a tabuada e
tinha a carta de ABC. E ent‹o eu ficava observando aquele homem aprendendo a
ler.
E minha av—, n‹o! Nunca aprendeu a ler, mas ela
era quem articulava o... vamos chamar de sarau, que na Žpoca ninguŽm usava
esses termos, nŽ? A’ l‡ tinha um alpendre, na casa dela, ent‹o, sentavam-se as
pessoas nas cadeiras, as crian�as sempre no ch‹o junto com os cachorros; mas os
adultos tinham cadeiras [risos] e tinha a muretinha do alpendre onde vizinhos,
compadres, conhecidos chegavam, conversavam sobre v‡rios assuntos, mas sempre
tinha o recital. E a’ minha tia Senhora, ela Ž que lia essas hist—rias, e minha
av— ficava a corrigindo porque minha av— tinha de cor; todos os folhetos minha
av— tinha decorado. E quando eu aprendi a ler de verdade, minha m‹e contava que
eu j‡ tava lendo cordel e num sei o qu�, e minha av— dizia: ÒPois sente aqui na
cadeira que eu quero ver se voc� sabe ler mesmoÓ.
Ent‹o, minha av— era uma espŽcie de professora,
mesmo sem saber ler, sem decodificar palavras, letras etc. Eu lia os cordŽis
pra ela e ela me corrigia porque tinha a cad�ncia, nŽ? Tinha toda uma coisa de
voc� performatizar e eu ficava lendo ali como quem l� qualquer coisa, e minha
av— corrigia: ÒN‹o Ž bem assim...Ó; e claro, uma crian�a ˆs vezes num sabe ler
direito e minha av— ia me dizendo como era a palavra e tal. A chegada do
Lampi‹o no Inferno foi o primeiro cordel que eu lembro de ter lido; lido eu
mesma – n‹o ouvido, ouvi outros. A’, eu dizia: ÒUm cabra de Lampi‹oÓ, a’
ela dizia: ÒPor nome Pil‹o DeitadoÓ; e voltava pra mim: ÒQue morreu numa
trincheira / Num certo tempo passado / Agora pelo Sert‹o anda causando vis‹o /
Fazendo mal-assombradoÓ. A’, ela dizia: ÒPare a’, n‹o Ž bem assimÓ. A’, ela
voltava e dizia: ÒUm cabra de Lampi‹o / Por nome Pil‹o Deitado / Que morreu
numa trincheira / Num certo tempo passadoÓ[82]. Ent‹o, ela imprimia
musicalidade, ela tinha uma coisa assim. E ela se levantava – se ela tivesse
sentada – e ela agitava os bra�os, aquela coisa, nŽ?
Ent‹o, assim, eu fui percebendo que n‹o era s—
uma escrita, era uma coisa de mœsica! Era uma articula�‹o entre mœsica,
oralidade, escrita etc. etc. Mas nada de teoria, n‹o tinha acesso ˆs teorias e
atŽ hoje n‹o tenho muito conhecimento sobre Teoria Liter‡ria ou Oralidade ou
Cordel ou Tradi�‹o. Conhe�o voc�s duas e tantas outras pesquisadoras que
conhecem bem, que t�m dom’nio sobre essas quest›es, mas ali com ela, era uma
escola de teatro, digamos assim, nŽ? Ent‹o era uma coisa... E eu percebia o
seguinte: minha av— tambŽm criava. Eu entrevistei minha av— algumas vezes,
quando eu j‡ estava adulta e minha av— j‡ estava bem velhinha. E eu entrevistei
naqueles gravadores antigos e parte dessas fitas cassetes eu cedi pra pesquisadora Fanka e depois ela
cedeu pra Ria e essas coisas desapareceram porque primeiro eram mal
condicionadas, o calor destru’a, nŽ? Enfim, mas l‡ no Juazeiro do Norte deve
ter ainda alguma coisa.
Ent‹o, minha av— quando recitava para mim nas
entrevistas ou mesmo nas conversas comuns, eu n‹o sabia quando era uma coisa
era dela ou era de algum autor cl‡ssico porque como a minha av— n‹o estava
preocupada em dar crŽditos e fazer refer�ncias, tinha vez que ela mesclava as
coisas do imagin‡rio dela, da lembran�a dela, do cotidiano dela, ent‹o, quando
estava varrendo o terreiro – ela estava recitando alguma coisa ‒,
eu dizia: ÒDe quem Ž esse Cordel, v—? De quem Ž esse folheto, v—?Ó. Essa
hist—ria, nŽ? A’, ela dizia: ÒNum sei, n‹o. S— sei que eu aprendi, nŽ? Esse a’
eu n‹o sei de quem Ž n‹oÓ. A’ em outro peda�o ela dizia: ÒEsse aqui Ž meu. Foi
eu que inventei isso aquiÓ. Ent‹o, talvez por ela escutar tanto, tantos
folhetos e por ela tambŽm pensar sobre criar, ela n‹o sabia mais o que era
dela, o que era dos outros e eu n‹o sei explicar. Sei que isso a’ foi me
influenciando.
Ent‹o, como diz ZŽ Ramalho, naquela Žpoca eu era
inocente, porŽm, besta; e eu achava que os cordŽis eram lindos e maravilhosos.
S— que depois, essa coisa de racionalizar, de refletir sobre as desigualdades
sociais, me mobilizou a questionar aqueles folhetos que sempre tinham os homens
como protagonistas ou os homens como autores, nŽ? E, ent‹o, eu comecei a
prestar aten�‹o no meu cotidiano. Eu sei que as hist—rias que minha av— apreciava
e que tambŽm gostava, e que minha tia lia, eram sempre de pessoas de outros
pa’ses ou ent‹o eram narrativas assim... hist—rias imaginadas: O Valente ZŽ
Garcia, A Princesa do Vai N‹o Torna, O Pav‹o Misterioso. Era
muita coisa, assim, que n‹o era da vida real, digamos assim. Ent‹o, eu comecei
prestando aten�‹o ˆs coisas da vida real e na minha vida real tinha muitas
mulheres, dentre as quais eu me inclu’a, com v‡rios problemas, e tinha tambŽm
uma coisa de eu achar um pouco ofensivo e dialogar com as mulheres do meu
bairro, da minha fam’lia falando daquelas coisas, do artigo 5¼ da Constitui�‹o.
Eu n‹o me sentia confort‡vel por estar falando sobre o nosso cotidiano a partir
dali.
Ent‹o, em 94 eu estava no penœltimo ano da
faculdade quando eu publiquei meu primeiro cordel. E nas rodas de conversas,
n‹o s— na milit‰ncia, mas com mulheres e ali n‹o era uma conversa entre
feministas n‹o, era entre mulheres de uma comunidade que estavam muito
impressionadas e muito, digamos assim, temerosas com a morte da vizinha
Cristina, que foi assassinada na Žpoca. Ent‹o, o cordel come�ava assim: ÒOs
nœmeros de viol�ncia t�m crescido sem parar / Pra garantir resist�ncia Ž
preciso n‹o calarÓ; a’ eu dizia: ÒDo Cariri para o Brasil quero me manifestarÓ.
E come�a assim. Eu vou narrando uma sŽrie de coisas e o Cordel tem uma
influ�ncia assim marxista porque a explica�‹o que eu dava na Žpoca para isso
tinha a ver com a acumula�‹o da propriedade em poucas m‹os, a viol�ncia estava
relacionada tambŽm com a quest‹o econ™mica, n‹o era uma explica�‹o totalmente
baseada no patriarcado. Era a influ�ncia que eu tinha da Žpoca, de que era uma
leitura ideol—gica, ligada ao marxismo, num sei o qu�. E ent‹o eu levei esse
Cordel para a minha av—, em 94, e ela morreu em 2002, parece.
Eu levei esse cordel para a minha av—, eu li pra
ela e ela disse: ÒIsso a’ n‹o Ž foieto, n‹o. Isso a’ n‹o tem nada a ver com
foietoÓ. Ela n‹o reconheceu [risos], a’ eu falei: ÒV—, tem sim! Olha aqui a
rima t‡ bem direitinho...Ó. Eu acho, nŽ? Achava! [continua�‹o do di‡logo] ÒA
rima t‡ bem constru’da, eu t™ rimando bem aqui, —Ó. A’ ela disse assim: ÒN‹o,
mas essa hist—ria Ž muito feia, muito ruim, num tem uma coisa assim que prenda,
num tem... Quem Ž a mulher dessa hist—ria? Quem Ž o homem? Quem Ž a pessoa?Ó,
nŽ? A’ n‹o tinha uma personagem espec’fica, que tivesse uma hist—ria que
tivesse in’cio, meio e fim, porque falava de um monte de pessoas ao mesmo
tempo, de grupos sociais e tal. E a’ ela disse: ÒDe onde foi que voc� tirou
isso?Ó. A’, eu disse: ÒDa minha cabe�a, Ž da minha cabe�a, mas foi porque
morreu Cristina, l‡ na Rua S‹o Bento, assim, assim, assado e tudoÓ. A’ ela
disse assim: ÒMulher (muiŽ, nŽ? Que ela falava), muiŽ, num se mete com isso
n‹oÓ. Ela sempre me dava v‡rios conselhos e ela achava que eu j‡ estava velha,
que eu j‡ deveria ter me casado. A’, ela dizia: Òï, minha filha, arranja um
dono pra tu; Ž t‹o feio uma mulher sem um donoÓ. E ela dizia assim, eu fui l‡
pra me despedir dela, que eu ia viajar pra Fortaleza pra fazer mestrado; a’ ela
disse assim: ÒTu ainda vai estudar? Tu j‡ leu os livros do Juazeiro, do Crato e
agora vai ler os livros de Fortaleza? Minha filha...Ó. A’ come�ava a falar que
era melhor eu me casar... A’ eu fui fazendo cordŽis, problematizando tambŽm
essa nossa matriz social, cultural; e vieram outros folhetos e, enfim, quando
chegou em 100 eu parei de contar. Mas o fato Ž que a maioria Ž relacionada a
essa nossa condi�‹o feminina, nŽ? Eu digo nossa, considerando a’ tambŽm toda a
diversidade das mulheres.
E a’ o curioso Ž que a velhice me chamava muita
aten�‹o tambŽm. E eu escrevi o cordel O que Ž velhice, o t’tulo Ž esse: O
que Ž a Velhice? E a capa tem a foto de minha av—; minha av— com um paninho
assim no ombro, que ela sempre usava um paninho de prato assim no ombro o tempo
inteiro, exceto quando ela sa’a pra viajar ou pra missa. E ela est‡ na porta da
casa dela nesse Cordel e eu vou perguntando o que Ž a velhice, vou questionando
e trago v‡rios elementos porque tambŽm eu estava influenciada com a obra de
Simone de Beauvoir, que ela trata tambŽm dessa tem‡tica da velhice, que Ž o
lado menos conhecido de Simone de Beauvoir, nŽ? E eu n‹o era estudiosa de
Teoria Feminista, n‹o era estudiosa de quest›es de g�nero, n‹o. Eu era uma
militante, uma comerci‡ria na Žpoca. Eu estudava, trabalhava, escrevia Cordel,
cuidava de minha filha e, enfim, n‹o tinha muita abertura no Partido Comunista
pra os debates de g�nero. Mas, curiosamente, tambŽm era atravŽs do Jornal,
desse editorial que vinha pra Juazeiro do Norte ‒ que a gente vendia,
tentamos recrutar outras pessoas ‒ que, vez por outra, no 8 de mar�o a’
aparecia uma discuss‹o sobre mulheres e vinha uma marxista l‡, Alexandra
Kollontai, que s— depois de 300 anos Ž que eu vim estudar e conhecer. Mas ela
problematizava as mulheres no mundo do trabalho, no mundo social, na pol’tica e
tal e coisa.
Ent‹o, eu tinha muita intui�‹o que eu fui
desprezando aos poucos, por uma vis‹o equivocada da racionalidade; e depois eu
passei a valorizar. Agora, nos œltimos 5 anos, eu t™ muito f‹ de intui�‹o. Por
exemplo, o cordel A Mulher de Sete Vidas, que Ž o mais longo cordel meu
em termos de quantidade de p‡ginas e de estrofes e tal. Esse cordel foi escrito
no momento em que eu estava questionando muito as minhas convic�›es pol’ticas,
filos—ficas e Ž meio autobiogr‡fico. Embora, sendo a mulher de sete vidas, e
ela tem sete vidas [risos], e ela aparece com sete experi�ncias diferentes: uma
hora ela Ž uma meretriz, outra hora ela Ž uma artista. Ela tem v‡rias, eu n‹o
me lembro, ela tem v‡rias facetas e ali Ž o momento em que eu dialogo com o
Espiritismo, com o Catolicismo Popular, trago coisas do Budismo, alguma
inspira�‹o na quest‹o da espiritualidade mesmo, nas suas v‡rias nuances. Mas,
assim, eu depois leio e digo assim: ÒN‹o fui eu quem escreveu esse CordelÓ
porque n‹o Ž o meu estilo, n‹o eram as minhas quest›es, entende? Ent‹o Ž isso,
fui escrevendo...
Outro dia uma pessoa estava me chamando aten�‹o
para algo que eu n‹o percebia: Ž que eu escrevia as personagens que estavam
todas ali na revista na regi‹o do Cariri, mesmo depois que eu sa’ do Cariri e
mesmo depois que eu sa’ do Brasil ‒ os cordŽis feitos fora ‒, todos
est‹o de alguma maneira ali, como diz Belchior, ÒOnde jaz meu cora�‹oÓ, nŽ?
Porque Ž uma for�a muito grande, Ž uma rela�‹o muito forte que eu tenho com a
Chapada do Araripe, com a regi‹o do Cariri cearense etc. Em que pese ter havido
alguns deslocamentos, porque depois que vim pra Bahia eu escrevi o cordel Tr�s
Ž um Real porque andando muito de ™nibus aqui em Salvador eu via homens e
mulheres entrando no busu e gritando tr�s Ž um real, ent‹o, Ž uma
hist—ria que envolve dois vendedores: um homem e uma mulher. E a’ eu digo: ÒEle
entra e pede desculpa por atrapalhar o sil�ncio da viagemÓ, ela entra e diz
isso e eles v‹o vendendo produtos variados com uma pegada de g�nero. Geralmente
ela traz produtos mais vinculados ˆs [entre aspas] Ònecessidade das mulheresÓ.
E a’, a Minha Preta vem Para a Marcha eu
escrevi aqui em Salvador, mas Ž um apelo ˆ minha m‹e. Eu falo um pouco dessa
condi�‹o dela, de mulher negra, de trabalhadora sempre no espa�o privado e
quando foi trabalhar no espa�o pœblico foi realizar no pœblico o que ela fazia
no privado, nŽ? Porque ela foi agricultora familiar ali no quintal da casa
dela. Ela nunca plantou numa ro�a como os meus tios que tinham uma ro�a fora de
casa, sa’am pela estrada pra ir pra ro�a. Minha m‹e n‹o: a ro�a de minha m‹e
era no quintal da casa dela, dela e das irm‹s dela. Depois ela vai para S‹o
Paulo, trabalhou de domŽstica. Eu conto isso no Cordelirando, o cordel
chamado Cordelirando, que eu digo que: ÒSendo filha de um pedreiro e de
uma camponesa / A palavra companheiro me foi servida ˆ mesa / Aprendi desde
crian�a a ser eu minha fortalezaÓ. Ent‹o l‡ tem algumas estrofes... Eu n‹o me
lembro, n‹o tenho vergonha de dizer que eu n‹o tenho de cor nenhum cordel meu,
na ’ntegra. Eu n‹o consigo, Ž muita coisa, ai, quando alguŽm come�a a recitar,
eu puxo na mem—ria, diferentemente da minha av—, e a’ Ž uma pura intui�‹o,
considerando que ela n‹o aprendeu a ler, talvez ela tivesse uma mem—ria e uma
capacidade... N‹o sei, voc�s talvez tenham melhores condi�›es de me explicar
isso. Mais capacidade de memorizar, de armazenar, de organizar, de sistematizar
aquilo. Eu n‹o, pelo fato de ler tantas coisas e meu cŽrebro Ž t‹o cansado que
[pequena pausa] eu leio, eu tenho de cor cordŽis de outras pessoas, como Ž o
caso tipo A Casa que M‹e Morava, como Ž o caso de Lu’s Campos, que Ž
aquele meu cordel, um dos meus preferidos, que Ž A carta a Papai NoŽ,
nŽ? Como Ž o caso de Patativa, como Ž o caso do cordel de Fanka, como Ž o caso
do cordel dos Malditos de HŽlio Ferraz, quando ele diz assim: Ò11 de setembro Ž
dia sem precedentes na Hist—ria / Aconteceu a vit—ria de Davi contra Golias /
Impactou a ousadia dessa gente Talib‹ / E l‡ na grande ma�‹ o capital p™s no
ch‹o / E a trupe o Alcor‹o meteu o kibe em Tio SamÓ. Ent‹o, assim, esse Ž um
dos meus cordŽis favoritos porque me inspira a trabalhar mais a musicalidade do
meu pr—prio texto.
E eu vinha numa pegada hist—rica de falar muito
das dores das mulheres, eu falei muito das dores, das mortes... Aquele cordel Mulheres
do Cariri: morte e persegui�‹o, Embalando meninas em tempos de viol�ncia,
Mulher Consci�ncia – Nem viol�ncia, nem opress‹o, Basta de
Feminic’dio, N‹o ˆ cultura do estupro. Eu sempre tive,
contextualmente falando, uma produ�‹o que era [r‡pida pausa] uma denœncia, pra
usar uma figura jur’dica, era um libelo crime acusat—rio, nŽ? E depois eu
passei a ter necessidade de fazer anœncios tambŽm porque sen‹o eu ficava numa
coisa de n‹o ter sa’da, nŽ? De n‹o espalhar esperan�a, ent‹o, o Mulheres
fazem, por exemplo, j‡ destoa um pouco. No Mulheres fazem eu t™
falando de protagonismo das mulheres em v‡rios terreiros, em v‡rios lugares, em
v‡rias coisas. Lugar de Mulher tambŽm, nŽ? Lugar de Mulher n‹o t™
propriamente falando de mortes ou de viol�ncia etc. Ent‹o, sem perceber e sem
ser uma coisa deliberada eu comecei a focar mais tambŽm naquilo que as mulheres
s‹o capazes de fazer, n‹o s— no que fazem contra elas ou com elas, e a’ escrevi
Minha Preta Vem Pra Marcha, que tem uma hora que eu falo:
ÒVem, traz o doce de mam‹o, traz tambŽm a rapadura / Com tua fŽ segue seguraÓ.
Que Ž mais ou menos falando um pouco sobre minha m‹e, essa marcha da vida dela
e tudo.
E a’ falei de Violeta Arraes, que foi Reitora da
universidade onde eu trabalhei e Ž aquele Cordel... Eu fiz alguns cordŽis em
homenagem porque eu quase nunca escrevi sobre encomenda, eu sempre escrevi o
que eu quis, tanto que eu estava no MŽxico recentemente e eu fiz um cordel, Minha
livre express‹o, onde eu falo que, [pequena pausa] onde eu
intertextualizo com o poema de Cl‡udia Rejane e eu digo: ÒMinha obra ninguŽm
tutelaÓ. Ent‹o, eu sempre escrevi sobre o que eu quis, mas eu aceitei, poucas
vezes eu aceitei fazer alguma coisa sob encomenda porque a causa era justa e as
pessoas que me pediram eram pessoas que significavam muito pra mim. Um deles
foi Jana’na Dutra, ativista brasileira, que era uma homenagem ˆ primeira
travesti a obter uma carteira da OAB no Brasil, era uma ativista cearense, faleceu
depois e esse cordel foi feito pra abertura do filme Jana’na Dutra[83]. Tem um
sobrenome... tem um subt’tulo a’, Jana’na Dutra num sei o que l‡, Ž do
cineasta carioca Vagner de Almeida, que Ž um grande amigo. Ent‹o, eu fiz em
homenagem a Jana’na. Eu convivi com ela l‡ no Cear‡, a gente se encontrou em
algumas atividades, ela mora ne Fortaleza, mas ela nasceu em CanindŽ e foi atŽ
ent‹o – durante muitos anos – a œnica Ž... ela se apresentava como
travesti, nŽ? Em que pese ela n‹o conseguiu exercer o direito do nome social
porque na carteira de OAB o nome dela era Jaime, nŽ? O nome de nascimento, mas
ela era reconhecida socialmente como Jana’na Dutra e eu fiz esse cordel a
pedido! N‹o vou nem dizer sob encomenda porque pode soar que alguŽm disse:
ÒDiga isso!Ó, mas era a pedido.
E o outro foi a pedido de Orlando, um dos meus
maiores amigos ali na regi‹o do Cariri. Orlando era um ativista, Ž um homem gay
formado em Letras pela URCA, amante da literatura, amante dos cordŽis e do
cinema. Numa conversa com ele, eu j‡ tava aqui na Bahia, e numa dessas
madrugadas insones, eu e ele conversando sobre zilh›es de coisas, ele disse:
ÒVou fazer um filme!Ó. Ele j‡ tinha feito um filme chamado TambŽm sou teu
povo, Senhor, que uma Drag descia a principal rua da cidade com uma
vela na m‹o cantando um bendito chamado: ÒTambŽm sou teu povo, senhor, e estou
nessa estradaÓ [colaboradora canta como no filme]. Porque nossa vida ali no
Juazeiro do Norte era muito marcada pelas, nŽ? Mesmo os ateus, mesmo as pessoas
de esquerda, elas tinham esse sentimento de perten�a, nŽ? Suas fam’lias todas
tinham a sala do santo. Todas, todas. AtŽ hoje minha m‹e honra a mem—ria de
minha av— fazendo a renova�‹o do santo, no dia 25 de dezembro. Ent‹o, ele
disse: ÒSalete, eu quero um filme baseado num cordel teu, mas eu queria uma
coisa nova, a’, a gente dialogando, enfim, depois de muita conversa eu n‹o
consegui dormir e fiquei escrevendo. Quando foi 8 horas da manh‹, o cordel
estava pronto e Ž o cordel O Milagre Travesthriller: A Hist—ria da Travesti
que (com fŽ) engravidou. Essa hist—ria Ž muito intertextual porque eu trago
outras personagens de outros cordŽis meus e tambŽm de outros contextos l‡ do
Cariri e dentro da hist—ria tem uma outra hist—ria porque ela vai se basear na
hist—ria das macarenas, que eram umas beatas que chupavam umas rosas lilases e
nas suas catatumbas elas bailavam e, enfim, era um cordel que era meio assim
parecido com o Teatro do absurdo. Depois que eu assisti uma pe�a do Teatro do
absurdo, eu fiquei muito impressionada com aquilo e aquelas imagens vinham,
ent‹o, tudo que eu escrevo ainda que nem sempre eu me dei conta [r‡pida pausa],
Ž um di‡logo com as coisas que eu vejo, que eu leio, que eu aprendo. Ent‹o, no Milagre
Travesthriller, a personagem Ž essa travesti que era temente a Deus, que
fez um milagre e que engravida. Ou seja, Ž um debate p—s-moderno, pero no
mucho, porque ela n‹o recorre ˆs tecnologias de reprodu�‹o, ela
recorre ˆ fŽ no Padre C’cero e ela engravida, mas ela dialoga nessa saga, nessa
batalha por engravidar, vai recorrer a v‡rias pessoas. Ent‹o, ela vai dialogar
com a feminista e a feminista diz: ÒAh, mas todo mundo hoje a pauta do aborto e
voc� t‡ preocupada com essa quest‹oÓ. E vai dialogar com um homem gay amigo
dela. Todas as personagens ali s‹o reais, s— a Shirley Dayanna, que Ž o nome
que eu dei pra personagem, que Ž fict’cia, mas todas as pessoas com quem ela
dialoga, inclusive o pr—prio Orlando.
Ent‹o, assim, a’ eu vou saindo daquela mulher...
H‡ um conjunto de mulheres que fazem parte da minha literatura, por exemplo, o
cordel Maria, Helena, que s‹o duas mulheres [risos]: Maria v’rgula
Helena; Ž uma rela�‹o homoafetiva. ƒ uma rela�‹o lŽsbica entre duas mulheres
ali da regi‹o do Cariri. ƒ claro que eu as imaginei como sendo duas vizinhas
l‡, que eram beatas e que trabalhavam na ro�a e moravam ali na cidade. Na
regi‹o do Cariri, as pessoas t�m [pequena pausa], digamos, esse privilŽgio de,
ˆs vezes, morarem num bairro e serem agricultoras e irem pros seus trabalhos e
voltarem. Ent‹o, Ž uma coisa entre o urbano e o rural, nŽ? E a’ na hist—ria de Maria,
Helena falo desse amor entre elas, mas eu n‹o trago nada de extraordin‡rio,
de tentar mexer naquele ambiente. Elas continuam frequentando a missa,
continuam fazendo as coisas delas.
J‡ na hist—ria da Shirley Dayanna tem uma sŽrie
de debates envolvendo a Teoria Queer e num sei o qu� l‡, mas nada disso
dizendo: ÒOlha aqui uma teoriaÓ, como, por exemplo, O que Ž ser mulher?,
que Ž uma resposta, nŽ? Uma resposta n‹o! [colaboradora demonstra
contrariedade]. ƒ um di‡logo com Simone de Beauvoir, nŽ? Ent‹o, eu digo: ÒSobre
a mulher j‡ se disse / tudo que se imaginar / DÕuns eu j‡ ouvi tolices /
DÕoutros, me pus a pensar / Mas este ser – a mulher – / Afinal o
que Ž que Ž? / Quem se atreve a explicar?Ó. E vou desenvolvendo... A capa Ž uma
interroga�‹o, nŽ? A’, eu depois vou desenvolvendo v‡rios argumentos e em algum
momento eu pergunto: ÒE se um homem quiser / Ent‹o mudar sua forma?Ó. Ent‹o, Ž
um jeito de falar dessas teorias sofisticadas a partir dessa linguagem, apesar
de minha av— n‹o ter legitimado num primeiro momento, nŽ? Porque ela disse que
isso n‹o era um ÒfoietoÓ e tal e coisa.
Mas depois que eu li pra ela A Hist—ria de ZŽ
Leitor, que eu vim publicar bem depois. Mas eu escrevi ainda com ela em
vida, j‡ t‡ na terceira edi�‹o A Hist—ria de ZŽ Leitor, foi a hist—ria
que ela mais gostou das minhas hist—rias, porque se trata de um homem que com
mais de 60 anos vai pra a EJA nŽ, a Educa�‹o de Jovens e Adultos, e vai se
alfabetizar, e ele quer aprender a
ler e ele tem dificuldade ou tem hora que ele quer desistir, e a’ ele leva um
cordel de Patativa, Vaca Estrela e Boi Fub‡, e depois Fagner
musicou e etc.; e ele l� esse cordel pra turma, e... enfim. Ali Ž a apoteose
nŽ, da alfabetiza�‹o dele, e o colega dele que Ž pedreiro vai assistir, e a
esposa dele vai, todo mundo vai e enfim. Ent‹o minha av— achou a hist—ria
linda, porque tinha uma fam’lia, tinha nŽ [risos mais contidos] uma hist—ria de
uma pessoa com in’cio, meio e fim, e o fim foi feliz e etc., enfim. Ent‹o, ela
aben�oou esse cordel digamos assim, nŽ? Mas Ž. Meninas, eu t™ falando muito
coisas sem ˆs vezes nem ter uma conex‹o com a outra, mas Ž o que t‡ me vindo
as...
(AB) – Tem conex‹o
demais...
(SM) – Porque os fios
da conex‹o voc�s Ž que t�m capacidade de articular porque eu t™ falando assim
coisas que me v�m ˆ mem—ria. Eu tava falando dos cordŽis a pedido, nŽ? Ent‹o, a
pedido de Orlando, a pedido de Vagner Almeida, dois cineastas, e eu fiz o
cordel pra homenagear a Violeta Arraes. Eu homenageei Violeta Arraes, homenageei
v‡rios amigos l‡ do Carari, uma amiga que fez uma cirurgia e ela tava fazendo
radioterapia, nŽ? E eu chamei isso de Mais uma dose de amor porque ela
tinha que tomar mais Iodoradioterapia[84].
E recentemente eu homenageei uma pessoa que n‹o
Ž muito bem-vista entre as feministas baianas etc. porque ˆs vezes ele Ž
etiquetado de mis—gino e tal, mas Ž um amigo querido que eu tenho aqui na
Bahia, se chama Luiz Mott e eu fiz um cordel sobre os 70, ou mais, anos dele.
Ele tava passando a pandemia l‡ na It‡lia e com medo de morrer e num sei o qu�,
no olho do furac‹o, nŽ? E eu fiz um cordel O Mott Ž Festejar! Ent‹o, n‹o
foi exatamente um cordel que ele me pediu, mas ele disse assim: Ò Salete, vamos
falar de CordelÓ, eu l‡ no MŽxico e ele l‡ na It‡lia, e a gente lutando pra ter
um voo de repatria�‹o. Por que que eu t™ falando do Luiz Mott? Porque a pedido
dele, h‡ uns anos, eu fiz um cordel sobre Tibira do Maranh‹o, Santo Gay do
Brasil. Ele, como Ž um Antrop—logo, pesquisa essas coisas da Inquisi�‹o, e a’
ele descobriu l‡ no Maranh‹o essa coisa do primeiro crime de homofobia do
Brasil, que foi praticado contra esse ind’gena chamado Tibira, ainda no in’cio
nŽ do sŽculo XVI e a’ ele me passou a hist—ria, a pesquisa dele e disse: ÒAh,
seria legal ter um cordel e tudoÓ. E eu li a hist—ria toda e contei isso num
cordel que foi objeto de pesquisa l‡ no Rio de Janeiro, num grupo de Hist—ria e
tal. Ent‹o, Ž assim, mas Ž todo inspirado na pesquisa do Luiz Mott. A fonte do
cordel Ž a pesquisa do Luiz e eu conto essa hist—ria sobre por que o GGB
– o Grupo Gay da Bahia – fez um requerimento ˆ Santa SŽ para
reconhecer a santidade desse santo, desse m‡rtir e como ele antes de morrer foi
obrigado a se converter ao Catolicismo. O Luiz Mott ironicamente diz: Ò Ent‹o,
j‡ que ele se converteu ao Catolicismo e gente que foi martirizado, igual ou
menos do que ele mereceu essa santifica�‹o, vamos constranger a Santa SŽ para
reconhecer e tal e coisa...Ó. Isso divide as opini›es porque tem muita gente
que n‹o est‡ interessada em ter um santo gay, muito menos na Igreja Cat—lica.
Mas o fato Ž que Ž uma disputa pol’tica e achei interessante contar essa
hist—ria porque a mim me interessava muito j‡ que a minha disserta�‹o do
mestrado foi sobre a igualdade jur’dica na a�‹o contra pessoas LGBT. Ent‹o, gostei
muito de saber dessa hist—ria. A’, foi um cordel que eu fiz a pedido do Luiz e
submeti a ele e quando eu submeti, ele disse uma coisa l‡... Ah, duas ou tr�s
coisas que eu tinha dito que ele queria alterar, ent‹o eu disse: ÒN‹o, Luiz,
n‹o aceito que voc� mexa no cordel e muito menos que altere a minha rima porque
o meu compromisso Ž com a hist—ria e o cordel Ž meu e a rima n‹o vai ser
alterada...Ó. Era uma coisa l‡, mas ele compreendeu, nŽ? E a’ o cordel Ž um
outro cordel sob encomenda.
Mas, fora isso, eu vou escrevendo quando tenho
vontade. Tem tempos que eu n‹o escrevo nada, fico travada, tem tempos que eu
escrevo. No MŽxico eu escrevi 6 cordŽis em 3 meses. Ent‹o, eu estava num
desespero assim.... eu tenho uma aproxima�‹o com minha vida aqui no Brasil e
mais perto com minhas... eu pedia a minha av—, eu orava muito pra que ela me
desse inspira�‹o pra eu n‹o pirar, que eu tava ficando maluca trancada dentro
de uma casa e com medo de nunca mais voltar, enfim. A’, eu sei que eu escrevi o
cordel Por amor, cuidem das vidas. Foi em mar�o, nŽ? ƒ todo sobre a
pandemia e fazendo um apelo, Ž um cordel denœncia e anœncio e tudo. E eu n‹o
sei nenhuma estrofe dele [risos], t‡ l‡ no Blog, nŽ? E escrevi outros que eu
n‹o lembro agora, mas sei que foram 6 cordŽis. O outro foi sobre Luiz Mott, fez
anivers‡rio l‡ na It‡lia e enfim.
Ent‹o, assim, s‹o v‡rias mulheres que eu vou
trazendo, mas n‹o s— mulheres, nŽ? Tem muitas figuras vinculadas ˆ
feminilidade, ent‹o, voc� tem a’ as travestis, voc� tem os homens gays, voc�
tem a’ Ž... A personagem mais austera, digamos, que eu j‡ tive foi ZŽ Leitor,
mas na verdade tem uma... [r‡pida pausa] pegada assim geracional e de classe.
Bruna
Lucena (BL)
– Tem o do seu pai, nŽ, Salete?
(SM) – Ah, ok!
(SM) – Verdade, Bruna,
tem... Meu pai Ž aquele cordel eu n‹o consigo recit‡-lo porque eu come�o a
chorar. Ent‹o, no dia do lan�amento dele, eu tive de me socorrer de pessoas...
(BL) – Que Ž lindo
aquele cordel...
(SM) – ƒ...
(BL) – Por isso que eu
lembro, eu acho ele lindo... [risos]
(SM) – ƒ. ƒ uma
homenagem pro meu pai que eu fa�o, logo ap—s ele ter passado por um c‰ncer
agressiv’ssimo, nŽ? E diz assim: ÒMeu pai por seu um pedreiro...Ó – Ž a
œnica estrofe que eu ainda lembro porque Ž muito emocionante pra mim: ÒMeu pai
por ser um pedreiro / Dele muito me orgulho / Sempre foi muito guerreiro /
Homem de muito barulho / Seja curando tormento / Seja mexendo cimento...
– [colaboradora tenta relembrar a rima]: ÒEle desata o embrulhoÓ. Ele diz
assim: ÒSeja curando tormento / Seja mexendo cimento / Ele desata o embrulhoÓ.
A’ eu vou contando a hist—ria dele, que ele saiu em 44 [1944]... Que ele nasceu
em 44 e depois ele saiu do Nordeste brasileiro ainda jovenzinho pra trabalhar
na constru�‹o civil, a’ ele brinca que subiu na vida, nŽ? Ele deixou a lavoura
para subir num andaime, ele brinca assim. Tem essa boa lembran�a.
Ent‹o, Bruna, tem o do meu pai... Eu homenageei
alguns homens que eu considero importantes na minha vida. Ent‹o o meu tio ZŽ
Alexandre, recentemente, que eu nomeei o cordel dele de Vai nas asas dos
Arcanjos. O curioso Ž que, um m�s antes do meu tio falecer, eu liguei para
ele e ele disse assim: ÒOlha, eu t™ deixando aqui uma heran�a pra voc�Ó. A’ eu
achei estranho aquela conversa e tudo... A’ ele: ÒN‹o, eu t™ velho...Ó. Porque
em mar�o ele perdeu um neto e ele tinha dito: Òï, porque que Deus n‹o me levou
e deixou meu neto, t‹o jovem?Ó. Ent‹o, quando eu cheguei do MŽxico, que eu
liguei pra ele, ele disse assim: ÒEu n‹o tinha mais fŽ que eu ia ver voc�, n‹o,
ser‡ que eu ainda lhe vejo?Ó. A gente conversando no telefone, a’, eu disse
assim: Òï tio, num fala um coisa dessa, num sei o qu�...Ó. A’ ele disse assim:
ÒEu t™ deixando aqui uma heran�a pra voc�: um caderno de folhetos e a m‡quina
de escrever, mas ela t‡ toda quebrada, as letras saindo fora de lugar e
tudo...Ó. A’, eu disse: Òî, num t™ gostando desse papo de heran�a, mas em
termos de presente eu estou adorando, ent‹o quando essa pandemia passar, eu vou
a’ e a gente vai ver esses cordŽis e vai – ele tambŽm n‹o chama de
cordel, chama de folheto – a gente vai publicar e num sei o qu�...Ó.
Enfim.
Ent‹o, assim, minha heran�a t‡ l‡, eu ainda n‹o
pude ter contato, nŽ? Quando passar essa pandemia eu vou atr‡s, mas ele sabia
que de todos os parentes a pessoa mais fissurada assim no cordel e na produ�‹o
dele e tudo, sou eu. Ele escreveu A Casa que M‹e Morava, que Ž um
cl‡ssico, nŽ? ÒFui visitar meu sert‹o / Aonde morou meus pais / A saudade era
demais / Pra ver aquele torr‹o / Atravessei o boqueir‹o e avistei a Canabrava /
Com tanta saudade eu tava pra ver aquela casinha / Que hoje n‹o Ž mais minha /
A casa que m‹e moravaÓ [colaboradora recita o cordel do tio]. E a’ ele vai
desenvolvendo toda a hist—ria de v‡rias passagens da vida dos meus av—s nessa
casa etc., etc. Tem uma hora que ele diz: ÒTendo dinheiro eu comprava / A casa
que meu pai fez / Pra eu morar outra vez / Na casa que m‹e moravaÓ. ƒ lindo
esse cordel, muito emocionante. E tem um muito engra�ado que ele diz: ÒEm cada
dez brasileiros / Tem oito ou nove ladr‹oÓ; que ele fez a’ num dos per’odos a’
de campanha eleitoral, l‡ comprou muitas confus›es, por isso o cordel n‹o foi
publicado assim em grande escala, mas era assim uma outra inspira�‹o pra mim.
Era n‹o, segue sendo, nŽ? [pequena pausa] Fiz o do meu primo tambŽm... Tem
tanta coisa. O de Orlando Ž muito emocionante porque o Orlando faleceu sem ver
o resultado do filme baseado no meu cordel. O filme existe e se chama Travesthiller.
O meu cordel Ž Milagre Travesthiller, mas o filme Ž Travesthiller.
Ent‹o, s‹o cordŽis em que eu trago
majoritariamente a tem‡tica das mulheres, falando da desigualdade de g�nero,
trago en passant a quest‹o da velhice, a quest‹o geracional, racial, mas
a classe t‡ muito presente porque de todas as minhas consci�ncias a primeira
foi a consci�ncia de classe, nŽ? Ent‹o, isso foi o que me levou a me desviou de
ser alguŽm da ‡rea de Letras pra ser alguŽm do Jur’dico. Foi uma coisa de dizer
assim: ÒAh, ent‹o eu vou fazer faculdade de Direito e eu vou me dedicar ao
Direito do Trabalho porque eu n‹o quero que aconte�a com nenhuma pessoa,
nenhuma mulher, o que aconteceu com minha m‹e e num sei o qu�Ó.
E de fato eu advoguei um tempo na ‡rea do
Direito do Trabalho e depois eu me desencantei com essa coisa da advocacia
trabalhista. A’, eu fiz cordŽis e nos atos processuais t‡ l‡ o qu� que a
Sammyra botou o cordel chamado Alvar‡ Judicial, que Ž uma peti�‹o
que eu fa�o em cordel pra que o juiz autorize que um agricultor l‡ de Cariri
saque o res’duo do FGTS, que ele chegou de S‹o Paulo e tava desempregado e era
agricultor, foi pra S‹o Paulo trabalhou um pouco com carteira assinada e estava
desempregado e voltou. A’, eu fiz essa peti�‹o sabendo que ela n‹o seria
indeferida porque o juiz era um poeta tambŽm: Doutor Pedro Bezerra. N‹o era um poeta
de cordel, mas era um poeta e muito sens’vel. Do ponto de vista legal, ele n‹o
teria como dizer que eu tinha que escrever em prosa porque o c—digo do processo
diz que tem que ser na l’ngua vern‡cula, nŽ [risos]? A peti�‹o tem que ser em
L’ngua Portuguesa e tem que dizer os fatos e dizer o direito. S— que n‹o Ž
tradi�‹o escrever em poesia e a’ o pessoal escreve uma coisa com in’cio, meio e
fim, mas qualquer outro juiz poderia indeferir dizendo que n‹o estava de acordo
com a tradi�‹o jur’dica bl‡, bl‡, bl‡, bl‡. Ent‹o, ele acolheu, ficou muito
emocionado e abriu vistas pro promotor de justi�a. O promotor tentou fazer uma
gracinha despachando em uma estrofe [risos], n‹o conseguiu rimar, mas
despachou. O que vale Ž a inten�‹o. E esse senhor, chamado Jesus, t‡ l‡ no
folheto... E ainda era na m‡quina de datilografia. Se voc�s olharem no Cordelirando,
Ž um scanner da p‡gina, do processo, v‹o ver que ainda era no tempo da
m‡quina de datilografia que eu peticionei. S— que eu recentemente percebi o
seguinte: que aquilo para o que eu menos me esforcei na vida Ž algo que tem
tido algum valor, entende?
Eu n‹o fiz cordel pra me tornar famosa, eu n‹o
fiz cordel pra ganhar dinheiro porque primeiramente eu pagava do meu bolso, por
isso que eu publiquei pouco na dŽcada de 90, que eu n‹o tinha emprego. Eu vim
ter um emprego em 98, emprego assim que me deu condi�‹o de me sustentar porque
eu tralhava, obviamente, desde os quatorze, mas assim como comerci‡ria, depois
como pesquisadora do SINE, depois como pesquisadora do IBGE, depois eu
trabalhei numa escolinha – mesmo sem eu ser formada ‒, eu fiz um
teste e fui professora infantil. Na Žpoca eu fui professora da Educa�‹o
Infantil no ColŽgio Bal‹o M‡gico, ent‹o n‹o dava para eu sustentar o meu hobby,
digamos assim, ent‹o, foi uma Žpoca em que eu produzi muito e n‹o publiquei
muito e... Teve coisa que eu produzi em 90 e s— vi publicar no ano 2000. Ent‹o,
por exemplo MARIA DE ARAòJO e seu lugar na hist—ria, que Ž a beata
Beatitude, ele Ž publicado em 2001, quando eu consegui recursos porque teve
tempo que eu publiquei pelo Cordel, ou o projeto SESCordel, e a’ Ž uma
pol’tica; n‹o Ž nem uma pol’tica pœblica porque o SESC que Ž do Sistema S, da
Indœstria e tal, comŽrcio. Mas o SESC tinha uma iniciativa, um projeto de
autoria de Fanka chamado SESCodel Novos Talentos, ent‹o, eu me submeti a
esse edital chamados novos talentos l‡ na Regi‹o do Cariri. E eu cheguei a
publicar dois ou tr�s: o MEU PAI foi publicado pelo SESCodel Novos
Talentos.
Ent‹o, ˆs vezes, uma coisa Ž publicada numa
dŽcada e ela foi produzida numa dŽcada anterior, mas faltava condi�›es, n‹o
tinha uma pol’tica pœblica no estado do Cear‡, um edital, uma coisa... um
incentivo ˆ produ�‹o. Tinha incentivo ˆ leitura, mas o leitor e a leitora ia
ler o que j‡ estava dispon’vel naquelas prateleiras. A’, com esse projeto
criou-se uma Cordelteca e eu que n‹o era s— escritora de cordel, mas era tambŽm
leitora, frequentava pra ler os cordŽis das pessoas, participava de uns saraus,
recital etc. Os lan�amentos eram lindos. Porque eu sou anterior aos Mauditos,
nŽ? Ent‹o, eu publico antes dos Mauditos ‒ que Ž o grupo que eu ajudei a
fundar junto com Fanka e outras pessoas ‒, que ali‡s vai sair um livro
agora de autoria de Cl‡udia Rejane sobre os Mauditos. Eu quero atŽ confessar para
voc�s que deu o maior babado...
[Seguindo
a t™nica dos folhetins, a continua�‹o da entrevista ser‡ publicada em outro
momento, de modo a manter agu�ada a curiosidade de nossas leitoras e leitores]
[1] Edilene Matos
Ž ensa’sta, professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia. Ocupa a
cadeira nœmero 13 da Academia de Letras da Bahia.
[2] Ant—nio Aleixo foi agraciado
com o Grau de Oficial da Ordem de Benemer�ncia, em 27 de maio de 1944.
[3] Ant™nio Vieira
(Ant™nio JosŽ dos Santos Vieira), poeta, nasceu em fevereiro de 1949 e morreu
em junho de 2007.
[4] Cordel Remo�ado Ž um conceito
criado por Ant™nio Vieira e consiste na palavra dita e/ou escrita ao modo dos
folhetos de cordel, que se faz acompanhar pelo movimento do corpo ao som de
instrumentos musicais: viol‹o, pandeiro e percuss‹o.
[5] Refiro-me ˆ est‡tua em bronze
do poeta Ant—nio Aleixo, sentado ˆ mesa na Esplanada do CafŽ Calcinha, em
LoulŽ, de autoria de Lagoa Henriques. H‡, ainda em LoulŽ, uma outra est‡tua de
Aleixo, na Quinta do Lago, de autoria do mesmo Lagoa Henriques e igual ˆ do
CafŽ Calcinha.
[6] Ant—nio Fernando dos Santos
– T—ssan (1918-1991), grande amigo de Ant—nio Aleixo, foi um expressivo
artista e poeta portugu�s.
[7] H‡, no sul de Portugal, um
antigo costume de grupos de crian�as que v‹o de porta em porta, durante as
festas natalinas, cantar as ÒjaneirasÓ, quadras que se v‹o repetindo,
alterando-se apenas o nome do dono da casa, que Ž ent‹o homenageado em troca de
algum dinheiro ou prenda natalina.
[8] Na concep�‹o de Ant—nio de
Oliveira Salazar, o popular tem uma matriz rural, com a qual se identifica,
explica�‹o dada em seus discursos pol’ticos. Cf. MELO, Daniel. O essencial
sobre a cultura popular no Estado Novo. Coimbra: Angelus Novus, 2010.
[9] ÒEste sujeito Ž capaz/de
fazer mil promessas/mas faz tudo ˆs avessas/das promessas que faz.Ó O primeiro
verso dessa quadra era ÒO Salazar Ž capazÓ e foi substitu’do por Magalh‹es para
proteger o amigo poeta. Cf. DUARTE, Ant—nio de Sousa. Ant—nio Aleixo, o
poeta do povo. Lisboa:
åncora, 1999, p. 79.
[10] Acrescida ˆ obra de improviso de Aleixo, a
parte do teatro Ž muito interessante. S‹o tr�s autos: 1. O Auto do
Curandeiro, no qual exp›e sua vis‹o a favor do saber mŽdico e faz cr’ticas
ˆ explora�‹o dos curandeiros. 2. O Auto da Vida e da Morte. Nesse auto,
o autor cria personagens como o da vida œtil e o da vida fœtil e traz novamente
a vis‹o da ci�ncia a servi�o da vida. 3. Ti Joaquim. Auto inconcluso,
escrito em coautoria com T—ssan, anuncia uma sociedade que n‹o tolera formas de
subvers‹o.
[11] 7» edi�‹o do livro Este
Livro que vos deixo, publica�‹o de V. Martins Aleixo, 1983, localizada em
Obras Gerais IV – 348.3.33
[12] Ant—nio Aleixo: o
poeta do povo por Ant—nio de Sousa Duarte. Lisboa: åncora, 1999. PQ 9261 – A484
Z67 1999; ALEIXO, Ant—nio. InŽditos (sele�‹o, pref‡cio, notas, fixa�‹o
de textos e t’tulos por Ezequiel Ferreira. LoulŽ, 1978. NLCS 81/0610.
[13] ALEIXO, Ant—nio. InŽditos.
LoulŽ. V. Aleixo, 1978. FRBNF 35232149; Este livro que vos deixo (3». ed.). Lisboa, 1975 (contŽm um
inŽdito do autor – O Auto de Ti Joaquim). FRBNF 35408496.
[14] E-mail: fundacao.aleixo@gmail.com.
[15] Zeca Afonso –
JosŽ Manuel Cerqueira Afonso (1929/1987), compositor, cantor, poeta, autor de
v‡rias can�›es, incluindo Gr‰ndola, Vila Morena (Cantigas
do Maio, 1971), que virou senha pelo Movimento que instaurou a democracia,
em Portugal no dia 25 de abril de 1975.
[16] O espet‡culo Ž uma cocria�‹o e interpreta�‹o de Armando Correia,
Carolina Cantinho e Pedro Pinto.
[17] Acr—stico de Ant™nio Vieira e constante de
todos os seus folhetos a que tive acesso.
[18] Em 2007, foi defendida uma disserta�‹o de
Mestrado em torno da obra de Ant™nio Vieira, sob o t’tulo O Cordel Remo�ado:
os casos e prosas do poeta cordelista Ant™nio Vieira, de autoria de Maria
Luiza Franca Sampaio, no Curso de P—s-gradua�‹o em Cultura, Mem—ria e
Desenvolvimento Regional do Departamento de Ci�ncias Humanas, Campus V,
da UNEB (Universidade do Estado da Bahia).
[19] Essa poesia foi declamada por Maria Beth‰nia
no espet‡culo dentro do mar tem rio. E foi gravada posteriormente no DVD
Piratas.
[20] Os folhetos eram tambŽm denominados por
Ant™nio Vieira de ÒlivretosÓ. Esses folhetos/livretos foram adquiridos por mim
nas m‹os de sua viœva (Coracy Vieira).
[21] Dona Can™: m‹e dos artistas Caetano Veloso e
Maria Beth‰nia.
[22] Essa publica�‹o foi no m�s de dezembro e o
poeta habilmente chamou a aten�‹o para a tradi�‹o de dar presentes no Natal,
publicizando seu folheto.
[23] O Encontro de Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo, folheto de autoria de Ant™nio Vieira, 2005.
Este folheto se encontra na Biblioteca do Congresso Americano, AFC 1970/002:
M08302.
[24] Professor Substituto da UNEB e pesquisador em Literatura de Cordel.
[25] Optamos aqui pelo termo folheto que tambŽm engloba romance em vez de cordel.
[26] SOUSA, 2012.
[27] SOUSA, 2010a.
[28] SOUSA, 2016.
[29] SOUSA, 2009, p.107-111.
[30] SOUSA, 2010b.
[31] SOUSA, 2018.
[32] SOUSA, 2016.
[33] Professora
emŽrita da UniversitŽ de Poitiers. Centre de Recherches Latino-AmŽricaines.
Poitiers, Fran�a. E-mail: rialemaire@hotmail.com
[34] Em A peleja poŽtica
epistolar entre a poetisa Bastinha e o poeta Patativa do AssarŽ (SANTOS, 2011,
p. 46-47), Francisca Pereira Santos publicou trechos dessa correspond�ncia.
[35] Existe, desde 2013, a Rede
Mnemosine, fundada pela pesquisadora/narradora/cordelista Josy Correia.
Inspirada pela tese de doutoramento de Fanka Santos e oficializada em 2015, a
rede promove a�›es de mapeamento, pesquisa, difus‹o e frui�‹o de folhetos,
recitais e feiras produzidas por mulheres. No ano de 2017, chegou a Portugal,
onde possui um acervo de folhetos femininos, partilhados com a Universidade do
Algarve e promove eventos, programas radiof™nicos e audiovisuais, transmitidos
ao vivo pela Internet. Contato: redemnemosine@gmail.com
[36] A respeito do
conceito de matrim™nio, ver Lemaire (2018).
[37] Atualmente Ž Rita
Segato que, j‡ nos quadros do pensamento decolonial, retoma a no�‹o de dualidade plural como base da
metodologia do trabalho antropol—gico, n‹o sobre
mas com as (mulheres das)
comunidades ind’genas do Brasil (SEGATO, 2012).
[38] Men Engage Ž um movimento
intercontinental, criado por homens e apoiado por movimentos de mulheres do
mundo inteiro, que, todos juntos, objetivam e praticam um questionamento
radical da viol�ncia masculina e seus funcionamentos nas sociedades humanas. Um
simp—sio virtual, o UBUNTU SYMPOSIUM, reœne, em cont’nuo e durante oito
meses (de novembro de 2020 a junho de 2021), ativistas, militantes, movimentos,
pensadores, profissionais e inteletuais para divulgar e debater as condi�›es e
experi�ncias de uma re-educa�‹o dessa viol�ncia masculina como conditio sine
qua non de uma humaniza�‹o e pacifica�‹o do planeta-mundo.
[39] Mestrando em Estudos
Liter‡rios no Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica e Literatura da
Universidade Federal de Alagoas.
[40] Doutora em Literatura e
Cultura-UFBA e Professora da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus
III – Juazeiro.
[41] Usamos no decorrer deste
texto as express›es: voz ind’gena, eu ind’gena e eu-poŽtico para nos referirmos
ao eu-l’rico dos poemas.
[42] O poema
conta com cinco estrofes, no entanto, aqui, traremos apenas a primeira e a
œltima estrofes.
[43] Uma vers‹o preliminar da tem‡tica
abordada aqui foi apresentada pela autora no IV Semin‡rio Fluminense de Sociologia,
realizado pelo PPGS-UFF em 2015 em comunica�‹o intitulada Ò... Mesmo que nos
arranquem os dentes e a l’nguaÓ: o espa�o sagrado da fala na literatura
ind’gena. O presente artigo amplia o debate, aprofundando conceitos e
propondo novas quest›es de investiga�‹o.
[44] P—s-doutora em Sciences de
LÕInformation et de la Communication pela UniversitŽ dÕAvignon et des Pays de
Vaucluse-UAPV. Integrante do Grupo de Pesquisa CNPQ Imagem, Corpo e Subjetividade,
p—s-doutoranda em Comunica�‹o e Cultura pelo Programa de P—s-gradua�‹o em
Comunica�‹o e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro –
PPGCOM-UFRJ.
[45] Eliane Potiguara
apelida Marina, a esposa do l’der ind’gena guarani do sŽculo XVIII, SepŽ
Tiaraju. Ela aparece como Ju�ara em outros textos seus.
[46] Para mais
informa�›es, ver LEITE, Renata Daflon. êndios Online: posts que n‹o querem calar. Curitiba: Editora Prismas, 2017, p.
46.
[47] Doutora
pela Universidade Federal de Minas Gerais e professora da Universidade Federal
de Ouro Preto.
[48] ÒSe os autores, por uma raz‹o ou por outra, n‹o conseguiram citar uma s— autora, uma s— trovadora, Ž que realmente o Ôsexo fracoÕ n‹o se interessa pelo cancioneiro nordestinoÓ (LUYTEN, 2003, p. 146 apud Santos, 2020, p. 14) [grifo nosso].
[49] instagram.com/julie.oliveras
[50] Pesquisadora bolsista
FAPERJ. Possui gradua�‹o em Letras – L’ngua Portuguesa e Literatura –
ABEU Centro Universit‡rio (2016), especialista em Literaturas Portuguesa e
Africanas – UFRJ (2018). Atualmente, cursa Mestrado em Letras Vern‡culas,
‡rea de Literaturas Africanas e Ž integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas
Escritas do Corpo Feminino nas Literaturas de L’ngua Portuguesa ambos pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro.
[51] Gradua�‹o em Letras
(Ingl�s), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982); mestrado em
Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1988);
doutorado em Literaturas Africanas, pela Pontif’cia Universidade Cat—lica do
Rio de Janeiro (1997) e desenvolveu pesquisa de p—s-doutorado, em Literaturas
de l’ngua portuguesa, em Paris IV (Sorbonne), com �nfase na escrita feminina
(2016). Atualmente, Ž professora-associada de Literaturas Africanas na
Universidade Federal do Rio de Janeiro, universidade onde trabalha desde 2006.
Tem experi�ncia na ‡rea de Letras, voltando-se para Literaturas de l’ngua
portuguesa (Literaturas Africanas, Afro-brasileiras e Portuguesa) e atuando
principalmente nos seguintes temas: literaturas africanas e literatura
comparada. Desenvolve pesquisa em literaturas de l’ngua portuguesa e
interessa-se, sobretudo, por imagens ligadas ao universo do riso, da busca de
felicidade e das quest›es de g�nero. ƒ pesquisadora associada do CRIMIC (Centre
de Recherches Interdisciplinaires sur les Mondes IbŽriques Contemporains).
[52] Com o intuito de facilitar a
identifica�‹o das vozes narrativas, escolhemos nomear Cremilda como narradora-protagonista, ou seja, aquela
que conta a hist—ria, e Elisabete como narradora-ouvinte,
por escutar e escrever as falas de Cremilda.
[53] bell
hooks Ž professora, fil—sofa e intelectual negra americana. Seu nome de
nascimento Ž Gloria Jean Watkins, e seu pseud™nimo, inspirado no nome de sua
bisav— materna, Ž escrito em letras minœsculas com a finalidade de passar a
aten�‹o da figura autoral para as ideias de seus textos.
[54] Possui gradua�‹o em Letras Vern‡culas
pela Universidade Estadual de Feira de Santana/UEFS (2006), Especializa�‹o em
L’ngua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Faculdade Cat—lica de Ci�ncias
Econ™micas da Bahia/FACCEBA. Mestranda do Programa de P—s-gradua�‹o em Cr’tica
Cultural (P—s Cr’tica/UNEB).
[55] Possui Gradua�‹o em Letras Vern‡culas
(Universidade Federal da Bahia/1987), Mestrado em Letras e Lingu’stica
(Universidade Federal da Bahia/1995) e Doutorado em Comunica�‹o e Semi—tica
(Pontif’cia Universidade Cat—lica de S‹o Paulo/2005). ƒ Professora Titular
Plena de Literatura Portuguesa da Universidade do Estado da Bahia, atuando como
professora permanente no Programa de P—s-gradua�‹o em Cr’tica Cultural (P—s
Cr’tica/UNEB). Integrou por diversas vezes a coordena�‹o do GT de Literatura
Oral e Popular da ANPOLL. Tem experi�ncia na ‡rea de Letras, com �nfase em
Literatura, pesquisando os seguintes temas: tradi�‹o oral, identidade cultural,
literatura oral e conto popular.
[56] S‹o Sebasti‹o
do PassŽ est‡ situado na Regi‹o Metropolitana
de Salvador e fica distante 58
quil™metros da capital, a 37 metros de altitude. Segundo
dados do IBGE de 2019, sua ‡rea total Ž de 538,32 km²
e popula�‹o de 44.300 habitantes. O
munic’pio possui quatro distritos: NazarŽ de Jacu’pe, Lamar‹o do PassŽ,
Maracangalha e Banco de Areia.
[57] Entende-se por arquivo Òum conjunto de documentos produzidos e acumulados por uma entidade coletiva [ou individual], pœblica ou privada, pessoa ou fam’lia, no desempenho de suas atividades, independentemente da natureza do suporteÓ (SANTOS, 2016, p. 27).
[58] Faz-se refer�ncia a Maria
Am‡lia da Cruz (03/05/2011-16/02/1992), foi uma moradora
e sambadeira, natural
de Maracangalha. ÒEra uma verdadeira e primorosa artista n‹o s— na arrancada como no sapateado perfeito,
na caprichada rodada e na umbigada finalÓ (PAIVA, 1996, p. 26, grifo do
autor). Segundo, Paiva e
moradores da vila, Maria Am‡lia da Cruz Ž ÒAn‡liaÓ, musa de Caymmi.
[59] Besouro Ž descrito como um Òhomem temido em toda regi‹o por sua valentia e mandingas [...]. Capoeirista de primeira linha, puxador de samba [...]Ó (PAIVA, 1996, p. 67).
[60] ÒO Ôsignificado do letramentoÕ varia
atravŽs dos tempos e das culturas e dentro de uma mesma cultura. Por isso,
pr‡ticas t‹o diferentes, em contextos t‹o diferenciados, s‹o vistas como
letramento, embora diferentemente valorizadas e designando a seus participantes
poderes tambŽm diversosÓ (ROJO, 2009, p. 99).
[61] A composi�‹o, de
tradi�‹o oral, foi gravada por Clementina de Jesus no LP ÒMarinheiro s—Ó. A
cantiga Ž, por vezes, atribu’da a Caetano Veloso, que foi quem produziu o LP de
Dona Clementina, lan�ado em 1973, assim como quem fez a adapta�‹o da cantiga.
[62] Prova disso Ž a Revolta da Chibata, rebeli‹o de negros marinheiros em
1910. O que motivou o motim foi justamente o uso de chibatadas, aceito
oficialmente, por oficiais brancos para punir marinheiros negros e mulatos.
[63] Graduou-se em Licenciatura
em Letras com habilita�‹o em portugu�s/italiano pela Universidade Estadual
Paulista Jœlio de Mesquita Filho – UNESP/IBILCE, Campus de S‹o
JosŽ do Rio Preto-SP. Desenvolve pesquisa de Mestrado com fomento CAPES junto
ao Programa de P—s-gradua�‹o em Letras, pela Unesp/S‹o JosŽ do Rio Preto-SP. ƒ
membro do grupo de pesquisa ÒNarrativas maravilhosas, m’ticas ou populares: da
oralidade ˆ literaturaÓ (CNPQ), liderado pela Prof.» Dr.» Maria Celeste
Tommasello Ramos.
[64] Assim como o italiano Gian
Francesco Straparola no sŽculo XVI, o italiano Giambattista Basile tambŽm
recolheu uma vers‹o de ÒO gato de BotasÓ no sŽculo XVII, com o t’tulo de
ÒCagliusoÓ, quarto entretenimento narrado na segunda jornada (fiaba IV, giornata
II) de Lo cunti de li cunti.
[65] Do original: LÕopera � costruita in questo modo: � un racconto (il 50¼ composto da: appertura/ponti narrativi/chiusura) allÕinterno del quale vengono raccontati altri 49 racconti. Per questo lÕopera � stata intitolata racconto dei racconti. Si parla di gioco dei giochi nello stesso senso [...]. Il 50¼ racconto � la storia di Zoza che apre e chiude lÕopera ed ha la stessa struttura dellÕultimo racconto (I tre cedri, il 49 ¼: v. 9).
[66] Do original: E noi
troveremo, anzitutto, che varii trattenemienti appartengono al grupo di quella,
chÕ� la fiaba pi� famosa e pi� ricca di storia, la fiaba di Psiche – Cos“
il nono della G.II, nella quale se racconta di Lucciella.
[67] O poeta, folclorista e escritor brasileiro Marco HaurŽlio publica, alŽm das colet‰neas de contos populares, como Contos folcl—ricos brasileiros e Contos e f‡bulas do Brasil, v‡rios t’tulos do acervo da literatura oral brasileira, dentre eles assuntos de cordel. Suas publica�›es podem ser encontradas em: https://marcohaurelio.blogspot.com/p/bibliografia.html.
[68] Nesta se�‹o, feita por Paulo Correia em julho de 2007, ele escreve: ÒTodos os contos desta colet‰nea foram classificados de acordo com o cat‡logo ATU, com exce�‹o dos que nele n‹o figuram, classificados com a ajuda de cat‡logos regionaisÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 198).
[69] Do original: Sarˆ proprio
Ciommetella con il suo ultimo racconto, che � anche il racconto conclusivo
della raccolta (se si esclude quello principale di Zoza), a smascherare
lÕingano della schiava.
[70] Do original: che prende lo stomaco;
quel senso di nausea che rimane e non se ne va mai. E' la sensazione di chi
rumina invidia e che viene ripagato cos“ dalla sua stessa natura.
[71] ÒO nome ÔFolia de ReisÕ
designa grupos cat—licos populares, que se reœnem no per’odo de 24 de dezembro,
ˆ noite, atŽ o dia 6 de janeiro, para oferecer seu voto de devo�‹o ao Santos
Reis, em comemora�‹o ao nascimento do menino JesusÓ (KIMO, 2006, p. 1).
[72] A letra da can�‹o ÒSauda�‹o
da LapinhaÓ est‡ integralmente transcrita na disserta�‹o de mestrado Mœsica,
ritual e devo�‹o no terno de folia de Reis do Mestre Joaquim Pol—, defendida
por Igor Jorge Kimo, da qual retiramos os versos citados.
[73] Resultado da pesquisa de
campo do conto m’tico de Apuleio no imagin‡rio baiano, empreendida na dŽcada de
90, Ž o livro Belas e feras baianas: um estudo do conto popular (2008),
publicado pela pesquisadora e folclorista brasileira Doralice Xavier Fernandes
Alcoforado que atuou como professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
[74] Mestranda em Estudos Liter‡rios pela Universidade Estadual
de Londrina. Pesquisa a rela�‹o entre pol’ticas pœblicas municipais e estaduais
e a literatura.
[75] Mestranda
em Estudos Liter‡rios pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa a
performance e os saraus liter‡rios em Londrina.
[76] SANTOS, Fiama Helo’sa Silva dos. Entrevista - Sarau das Pretas. Concedida a Ana Cristina Pereira da
Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 13 jul. de 2020. No prelo.
[77] SANTOS, Poliana. Entrevista
2 – Sarau das Pretas. çudios transcritos de WhatsApp. Concedida a Ana
Cristina Pereira da Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 28 jul. de
2020. No prelo.
[78] SANTOS, 2020, s/p.
[79] Excerto da p‡gina do
Facebook do coletivo COLETIVO LUêSA MAHIN – SARAU
DAS PRETAS. Dispon’vel em:
https://www.facebook.com/saraudaspretaslondrina. Acesso em: 10 ago. 2020.
[80] SANTOS,
Fiama, 2020, s/p.
[81] SANTOS,
Poliana, 2020, s/p.
[82] Neste trecho da entrevista,
a colaboradora Salete Maria recita o cordel ÒA chegada do Lampi‹o no InfernoÓ
numa tentativa de exemplifica�‹o das corre�›es da av— sofridas por ela na sua
inf‰ncia. Essa pr‡tica se repetir‡ ao longo da entrevista.
[83] O filme chama-se Jana’na
Dutra: Uma Dama de Ferro. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=zdtNOHia1qA. Acesso em: 10 jul. 2020.
[84] A colaboradora se referia a
mesma terapia conhecida tambŽm como Iodoterapia ou mesmo Radioiodoterapia.