REVISTA DO GT DE LITERATURA ORAL E POPULAR DA ANPOLL

Revista Boitat‡ Ž uma publica�‹o semestral, de acesso livre, do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-Gradua�‹o em Letras e Lingu’stica (ANPOLL)

 

GT LITERATURA ORAL E POPULAR

 BIæNIO 2018/2020

 COORDENADOR

Prof. Dr. Alexandre Ranieri Ferreira

Secretaria Estadual de Educa�‹o do Par‡

alexandre_ranieri@hotmail.com

 

VICE-COORDENADORA

Profa. Ma. DŽlcia Pombo

PPGL-UFPA

delciauab@gmail.com

 

SECRETçRIA

Profa. Ma. Dia Favacho

PPGED-UEPA

favachodia1@gmail.com

 

 

 

 

 

 


IDADE MƒDIA

ORALIDADE E PERFORMANCE

 

 

Dados Internacionais de Cataloga�‹o na Publica�‹o (CIP)

Bibliotec‡rio: Marcos Moraes – CRB: 9/1701

 

 

Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL [recurso eletr™nico] / Universidade Estadual de Londrina - n. 30 (jul. /dez. 2020). – Londrina: UEL; Bras’lia: ANPOLL, 2020.

 

Semestral

Requisitos do sistema: Adobe Reader.

Modo de acesso: < http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/index>

ISSN: 1980-4504

 

1. Literatura oral e popular 2. Oralidade I. Ferreira, Alexandre Ranieri. II. Universidade Estadual de Londrina. III. Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica. IV. T’tulo: Boitat‡: Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL

 

CDU 82

 

êndice para o cat‡logo sistem‡tico:

1.

Literatura oral e popular

82.085



 

EXPEDIENTE

 

EDI‚ÌO

Dr. Alexandre Ranieri Ferreira (Est‡cio-BelŽm)

Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes (UEL)

 

 

EDITORIA ASSISTENTE

Dra. Mauren Pav‹o Przybylski da Hora Vidal (IFBaiano)

 

 

ORGANIZA‚ÌO

Dra. AndrŽa Bet‰nia da Silva (UNEB)

Dra. Bruna Paiva de Lucena (UNB)

 

 

COMISSÌO EDITORIAL

Dra. Anna Christina Bentes

Universidade Estadual de Campinas

 

Dra. Ana Lœcia Liberato Tettamanzy

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Dra. Berenice Araceli Granados V‡squez

Universidad Nacional Aut—noma de MŽxico

 

Dra. Cl‡udia Neiva de Mattos

Universidade Federal Fluminense

 

Dra. Edil Silva Costa

Universidade Estadual da Bahia

 

Dr. Eudes Fernando Leite

Universidade Federal da Grande Dourados

 

Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes

Universidade Estadual de Londrina

 

Dr. J. J. Dias Marques

Universidade do Algarve (Portugal)

 

Dr. Jorge Carlos Guerrero

University of Ottawa (Canada)

 

Dr. JosŽ Guilherme dos Santos Fernandes

Universidade Federal do Par‡ 

 

Dra. Josebel Akel Fares

Universidade Estadual do Par‡

 

Dra. Lisana Bertussi

Universidade de Caxias do Sul

 

Dra. Maria do Socorro Galv‹o Sim›es

Universidade Federal do Par‡

 

Dra. Maria Incoronata Colantuono

Universitat Aut˜noma de Barcelona

 

Dr. M‡rio Cezar Silva Leite

Universidade Federal de Mato Grosso

 

Dr. Ronald Ferreira da Costa

Professor do Instituto Federal do Paran‡

 

Dr. S’lvio Renato Jorge

Universidade Federal Fluminense

 

Dra. Vanderci de Andrade Aguilera

Universidade Estadual de Londrina

 

Dra. Vera Lœcia Medeiros

Universidade Federal do Pampa

 

 

PARECERISTAS DESTE NòMERO

Dra. Berenice Araceli Granados V‡squez

Universidad Nacional Aut—noma de MŽxico

 

Dra. Cl‡udia Freitas Pantoja

Faculdade do Vale do Iva’

 

Dra. Cristiane de Assis Portela

Universidade de Bras’lia

 

Dra. Edil Silva Costa

Universidade Estadual da Bahia

 

Dra. Francisca Pereira dos Santos

Universidade Federal do Cariri

 

Dr. Jo‹o Evangelista do Nascimento Neto

Universidade Estadual da Bahia

 

Dra. Jana’na Marques Ferreira Rocha
Universidade de Santiago de Compostela

 

Dra. Laura Regina dos Santos Dela Valle

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

Dra. L�nia M‡rcia Mongelli

Universidade de S‹o Paulo 

 

Dra. Maria Incoronata Colantuono

Universitat Aut˜noma de Barcelona

 

Dra. Maria Isabel Mor‡n Cabanas

Universidade de Santiago de Compostela

 

Dra. Maria Nilda de Carvalho Mota

Universidade do Estado de S‹o Paulo

 

Dr. Nerivaldo Alves Araœjo

Universidade Estadual da Bahia

 

Dra. Yara Frateschi Vieira

Pontif’cia Universidade Cat—lica de S‹o Paulo

 

 

PROJETO E ENSAIO VISUAL

Dr. Alberto Ricardo Pessoa

Universidade Federal da Para’ba

 

REVISÌO

Sylvia Calandrini

 

 



 

SUMçRIO

 

 

APRESENTA‚ÌO

 

      

 AndrŽa Bet‰nia da Silva , Bruna Paiva de Lucena .......................................................................6

 

 

 

CONVIDADOS

 

 

Ant™nio Aleixo e Ant™nio Vieira: di‡logos imaginados ou Boca e Papel: espa�os de fric�‹o da palavra poŽtica

Edilene Matos ................................................................................................................................9

 

 

Princ’pios de um Sistema Editorial

Maur’lio Antonio Dias de Souza..................................................................................................34

 

 

Vozes de mulheres no terri—rio do cordel e da cantoria

Ria Lemaire..................................................................................................................................47

 

 

 

DOSSIæ

 

 

Metade cara, metade m‡scara: mem—ria coletiva e identidade ind’gena na obra de Eliane Potiguara

Joel Vieira da Silva Filho, Cristian Souza de Sales .....................................................................62

 

 

Ò...Mesmo que nos arranquem os dentes e a l’nguaÓ: o espa�o do sagrado da fala na literatura de Eliane Potiguara

Renata Daflon Leite......................................................................................................................75

 

 

Autobiografias de mulheres cordelistas: uma contribui�‹oo para a nova historiografia do cordel

Maria Gislene Carvalho Fonseca...................................................................................................88

 

 

Mem—ria, voz e autoria em Os sapatos de TŽ, de Cremilda e Elizabeth Nascimento

Fernanda Oliveira da Silva...........................................................................................................101

 

 

Vozes de Maracangalha: intersec�‹o de saberes e afetos

Railda Maria da Cruz dos Santos, Edil Silva Costa .....................................................................110

 

 

 

A poŽtica da voz no territ—rio do maravilhoso napolitano e baiano: transmiss‹o oral, conselho e troca de saberes

Adriana Aparecida de Jesus Reis..................................................................................................121

 

 

ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das pretasÓ: o PROMIC e a performance como mobilizador identit‡rio e formativo

Amanda Maria Damasio Teixeira, Ana Cristina Pereira da Silva................................................134

 

 

ENTREVISTA

 

 

Uma conversa com e sobre Salete Maria da Silva
Salete Maria da Silva , Andrea Bet‰nia, Bruna Lucena ...............................................................146


 

Apresenta�‹o

 

 

A voz como territ—rio de (re)exist�ncia, em suas mœltiplas corporifica�›es, existe e resiste ao passar largo dos tempos, seja fazendo parte das trilhas dos nossos corpos nas rodas em que nos encontr‡vamos em prosa (e que esperan�amos por voltar a assim viver), seja caminhando mais que veloz pelas redes invis’veis, mas j‡ t‹o presentes, das telas de celulares, computadores... E o que nasceu no calor do afeto ganhou os sal›es, as salas, as escolas, as universidades, sendo, a um s— tempo, m’dia, poesia, discurso, panfleto. J‡ sabemos que n‹o cabe mais falar em morte do popular como muitos anunciaram, mas em reinven�‹o cont’nua e viva de uma tradi�‹o que se cria, recria e cria numa lemniscata infinita.

Este nœmero da Revista Boitat‡ apresenta tudo isso, abrangendo diferentes espa�os de interlocu�‹o de pesquisas, experi�ncias e reflex›es em torno das mœltiplas manifesta�›es das poŽticas orais, afetos e troca de saberes. Diferen�as essas que se encontram e convergem em vozes que (re)existem a despeito de preconceitos e discrimina�›es escriptoc�ntricas, euroc�ntricas, racistas, elitistas, machistas e todos outros abismos.

Nesse sentido, a entrevista/conversa com e sobre Salete Maria da Silva abre os di‡logos a respeito da voz como um territ—rio de (re)exist�ncia, nos anunciando os diversos enquadramentos te—ricos, metodol—gicos, epistemologicos e modos de entender as poŽticas das vozes que o conjunto de artigos desse dossi� abrange. A pr—pria hist—ria da cordelista Ž um cap’tulo da grande hist—ria da oralidade.

Outro olhar sobre isso temos com Edilene Matos, ao nos apresentar os autores Ant™nio Aleixo e Ant™nio Vieira que, embora separados pelo alŽm-mar, mostram-se vinculados a partir da poeticidade presente em suas obras, revelando os meandros entre oralidade e escrita que, em fric�‹o, aproximam-se e tensionam-se.b Maur’lio Antonio Dias de Sousa, por sua vez, nos mostra por dentro o sistema editorial dos folhetos, em sua teia organizacional, destacando elementos presentes na rela�‹o entre poeta e editor, na medida em que exp›e como as culturas populares criam e gerem seus pr—prios modelos editoriais de modo contra-hegem™nico. Outro deslocamento contra-hegem™nico Ž feito no artigo de Ria Lemaire, em que nos Ž trazida uma nova epistemologia que posiciona a as vozes das mulheres no centro de um debate cujos elementos colaboram para o fortalecimento de um novo paradigma envolvendo cordel e g�nero.

Ainda sobre as vozes das mulheres, temos o trabalho de Joel Vieira da Silva Filho e Cristian Souza de Sales sobre a escrita de Eliane Potiguara em sua obra Metade cara, metade m‡scara, evidenciando como a mem—ria coletiva e a mem—ria individual encontram-se articuladas no texto autobiogr‡fico que descortina o processo diasp—rico dessa escritora ind’gena, que tambŽm Ž mote do artigo de Renata Daflon Leite, em que s‹o trazidos ˆ cena o car‡ter pol’tico e a pot�ncia perform‡tica presentes nas obras de Eliane Potiguara, refor�ando o tr‰nsito entre oralidade e escrita presente na literatura ind’gena.

Estendendo ˆ compreens‹o da quest‹o de g�nero nas poŽticas da oralidade, Maria Gislene Carvalho da Silva de Autobiografias de mulheres cordelistas: uma contribui�‹o para a nova historiografia do cordel, nos convida a conhecer as obras das cordelistas Julie Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara, esta uma ind’gena, expondo os fios que conduzem as rela�›es de g�nero no universo do cordel. A rela�‹o entre autoria de mulheres e oralidade – tambŽm um l—cus em que a voz Ž um territ—rio de (re)exist�ncia – Ž prestigiada no artigo de Fernanda Oliveira da Silva e Maria Teresa Salgado, em que analisam Os sapatos de TŽ, obra em que Elisabete Nascimento registra os textos orais de sua m‹e Cremilda, uma griot, evidenciando a mem—ria como fio condutor para as denœncias sociais apresentadas.

As vozes de mulheres negras s‹o reverenciadas tambŽm no texto de Railda Maria da Cruz dos Santos e Edil Silva Costa, em que se debru�am sobre as poŽticas orais a partir da an‡lise das cantigas e das narrativas de mulheres negras que capitaneiam um grupo de Lindro Amor, na cidade de Maracangalha, expondo seus modos de (re)exist�ncia em face da dinamicidade da pr‡tica cultural em quest‹o.

Para encerrar a conversa aberta, ou mesmo para adentrar outros espa�os de di‡logo, Adriana Aparecida de Jesus Reis prop›e um paralelo entre uma das narrativas de Giambattista Basile, escritor napolitano, e um conto oral recolhido no interior da Bahia e presente em uma das obras do escritor Marco Haurelio, evidenciando quais elementos populares podem ser ativados na oralidade para a constru�‹o de contos maravilhosos de modo a aproximar contextos culturais aparentemente t‹o d’spares.

Ao percorrer esses artigos, bem como as vidas, vozes e poŽticas estudadas, observa-se que os territ—rios de (re)exist�ncia est‹o em grande medida atrelados aos viveres, fazeres e saberes das mulheres, especialmente daquelas cujos lugares de fala s‹o contra-hegem™nicos, n‹o se podendo olvidar que a pr—pria oralidade nos estudos acad�micos significa por si s— alguma disson‰ncia. Os aliados nessa interlocu�‹o somam-se ˆs for�as ancestrais dessas vozes, que se confluem e atravessam no devir.

 

AndrŽa Bet‰nia da Silva

Bruna Paiva de Lucena


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONVIDADOS

ANTîNIO ALEIXO E ANTïNIO VIEIRA: DIçLOGOS IAGINADOS OU BOCA DE PAPEL: ESPA‚OS DE FRIC‚ÌO DA PALAVRA POƒTICA

 

 

ANTîNIO ALEIXO E ANTïNIO VIEIRA: IMAGINED DIALOGUES OR MOUTH AND PAPER: FRICTION SPACES OF THE POETIC WORD

 

 

Edilene Matos[1]

http://orcid.org/0000-0003-3201-1946

 

 

\

Resumo: Este estudo p›e em relevo interfaces nas obras de dois poetas ÒpopularesÓ. De um lado, o poeta portugu�s Ant—nio Aleixo[2] e sua s‡tira Òhuman’sticaÓ, com destaque para o recurso apropriado da expressividade verbal. De outro lado, o poeta brasileiro (baiano) Ant™nio Vieira[3] e a ’ndole musicante de sua poesia sat’rica, integrando o que denominou ÒCordel Remo�adoÓ[4]. A poesia de ambos os poetas, feita para provocar vibra�‹o nas palavras, aponta para a coreografia do gesto, no palco semovente oralidade/escritura.

Palavras-chave: Ant—nio Aleixo. Ant™nio Vieira. Di‡logos imaginados. Palavra poŽtica

 

Abstract: This study highlights the interfaces / overpassing in the works of two "popular" poets. On the one hand, the Portuguese poet Ant™nio Aleixo (Algarves) and his "humanistic" satire, with emphasis on the appropriated use of the verbal expressiveness. On the other hand, the Brazilian poet Ant™nio Vieira (Bahia) and the musical nature of his satirical poetry, integrating what he called as "Rejuvenated Cordel".  The poetry of both poets, which was made in a way that provokes vibration in the words, points to the choreography of the body / gesture, on the stage / space moving by itself orality/writing.

Keywords: Ant—nio Aleixo. Ant™nio Vieira. dialogues imagined. poetic Word.

 

Por uma poŽtica da voz

 

Voz. Voz na garganta. Voz no papel. Voz no corpo. Voz no palco. Voz na rua. Voz velha. Voz nova. Voz ruidosa. Voz silenciosa.

Enfim, voz!

A voz Ž modulante, disso n‹o se tem dœvida. E se ela Ž modulante, m—vel, ela sai e entra sem se fixar.

A voz, mutante por natureza, Ž parte do corpo que n‹o se reduz a um espa�o, mas alonga e prolonga esse corpo, locus de origem, refer�ncia. Nesse movimento sinuoso, trapaceira, a voz se desdobra em perpetuum mobile.

ƒ exatamente essa complexa opera�‹o de dobras e desdobras, de tecidos plissados, que implica o espelhamento sonoro de nossas marcas identit‡rias, de evoca�‹o de mem—rias. O barthesiano gr‹o da voz se faz marca de corpo na voz. Voz que Ž Òquerer dizerÓ, Òvontade de existirÓ.

Assim, ao falar de espa�os de fric�‹o da palavra poŽtica, trago, aqui, um texto como resultado preliminar do projeto de pesquisa Ant—nio Aleixo e Ant™nio Vieira: di‡logos imaginados ou Boca e Papel: espa�os de fric�‹o da palavra poŽtica.

E esse espa�o de fric�‹o envolve as chamadas poŽticas orais. Estou, evidentemente, me referindo ao verbo poŽtico que nasce na boca, entendida enquanto canal de emiss‹o de voz ou vozes. ƒ l—gico, pois, que a voz se produz (se esculpe) nos —rg‹os fonadores, que s‹o tambŽm modeladores da voz. E a boca funciona tambŽm como um desses modeladores: abre-se e fecha-se como canal flex’vel que Ž. E faz passar a voz, rejeitando tudo o que Òquebra a voz vivaÓ.

Falar sobre poŽticas orais, hoje, requer entrar num jogo pol�mico, e isto por conta da diversidade de estudos que tratam do assunto. De in’cio, e h‡ consenso, no caso, entre os estudiosos, a oralidade implica tudo o que em n—s se endere�a ao outro: seja um gesto mudo, um olhar (ZUMTHOR, 2010); Òo gesto n‹o transcreve nada, mas produz significativamente as mensagens do corpoÓ (ZUMTHOR, 2010 p. 206); Òo gesto denuncia o n‹o-ditoÓ (ZUMTHOR, 2010, p. 205); a gestualidade, ˆs vezes, confere uma fun�‹o ao sil�ncio: gestos zeros.

Zumthor, cujas ideias s‹o basilares para minhas reflex›es, diferencia boca e voz. A boca, alŽm de ser um canal, Ž um dos fatores que ajudam e interferem na produ�‹o da voz. A voz est‡ intimamente ligada ao corpo por vibra�›es corporais. A voz Ž acompanhada por movimentos corporais n‹o-vocais e que interferem no significado da mensagem vocal. H‡, portanto, uma voz sonora, comprometida com o som, e uma voz muda, n‹o comprometida exatamente com o som, mas aliada ao som e que contribui para a produ�‹o da mensagem verbi-vocal. A voz, signo escult—rico, Ž constru’da na garganta e entalhada no corpo. Multiplicam-se, assim, as possibilidades de produ�‹o de sentido da mensagem verbi-vocal, pois a voz, enquanto linguagem, Ž feita de signos sonoros e de signos gestuais. ƒ neste caso que se pode falar em mensagens verbi-voco-visuais, considerando que esses signos mudos, de configura�‹o n‹o sonora, portanto n‹o aud’veis, s‹o, no entanto, visuais, visualidade que se faz necess‡ria para que tais signos sejam captados e decodificados.

A mensagem vocal, segundo Zumthor, envolve, pois, voz e corpo, envolve a palavra aud’vel e signos visuais inaud’veis, que se tornam aud’veis na medida em que se aliam ˆ voz. ƒ essa alian�a dos signos corporais inaud’veis com a voz, produtora de signos aud’veis, que torna os signos inaud’veis signos tambŽm aud’veis. O corpo mudo se torna aud’vel por for�a da alian�a de sua gestualidade com a voz.

Quando designamos a opera�‹o do uso da voz de vocalidade, estamos nos referindo a um espa�o de produ�‹o de signos extremamente complexo, e isto porque tais signos s‹o, ao mesmo tempo, mudos, sonoros, aud’veis e inaud’veis, convergindo todos eles para uma espŽcie de sonoridade corporal, que Ž o que caracteriza a performance vocal, que n‹o Ž s— som, mas envolve corpo e voz – corpo e voz intimamente entrela�ados de forma que o que n‹o Ž sonoro se sonoriza, e o que n‹o Ž visual adquire uma espŽcie de potencialidade sonora, fazendo da vocalidade uma espŽcie de cena teatral complexa, feita de signos verbi-voco-visuais.

Zumthor reivindicava a paternidade do termo teatralidade (thމtralitŽ). Este termo exerceu uma espŽcie de fascina�‹o para ele, e o conceito que lhe imprimiu jamais se enfraqueceu, e, muito pelo contr‡rio, constituiu uma marca inscrita a ferro e fogo de sua proposta (ZUMTHOR, 1998). Tal teatralidade evoca uma espontaneidade que se inventa a ela pr—pria ao exprimir-se, como uma sensa�‹o espacial, em que se amalgamam o som (o canto, ou simplesmente os jogos da voz), o gesto, a m’mica, a dan�a (ZUMTHOR, 2000). Desta forma, privilegia-se o calor da voz, que ultrapassa e muito os limites acanhados da letra.

O homem, produtor de mensagens vocais (cantador, trovador, ator, leitor e intŽrprete de textos em voz alta) revela-se, por isso, sobretudo um ator, exatamente porque a voz, criadora de mensagens, o obriga a se colocar por inteiro no centro do palco.

Falar de poŽticas da voz, portanto, Ž falar desse teatro vocal, enquanto produtor e encenador de poesia, entendida aqui enquanto encena�‹o de signos-atores interligados (vocais, gestuais, sonoros). Primordialmente, a poŽtica da voz, portanto, Ž teatro poŽtico ou poesia teatral, que n‹o deve, em hip—tese alguma, reduzir-se ˆ palavra meramente vocalizada e muito menos ˆ palavra grafada.

Essa interliga�‹o da palavra com o gesto, sabemos n—s, vem do nascimento da poesia, quando o homem se manifesta teatralmente (o poeta e a poesia n‹o nascem nas p‡ginas do livro!), quando o homem descobre a voz como for�a verbi-voco-visual. ƒ por tal motivo que a poesia, mesmo quando grafada, mantŽm as marcas da origem, de sua natureza propriamente original. Isto porque a poesia nasceu na voz e da voz, intimamente ligada ao corpo, ou seja, a poesia nasceu como teatro de signos. E justamente porque Ž teatro de signos Ž que, ao l�-la no texto escrito, est‹o l‡ em reverbera�‹o as marcas da origem. Por conta dessas marcas, o homem n‹o pode deixar de ouvir, mesmo na escritura, essa voz ancestral, esses tra�os ainda vivos de uma ancestralidade indelŽvel.

Ler Ž decodificar signos grafados, signos traduzidos em sinais gr‡ficos, mas ler tambŽm implica a recupera�‹o das marcas originais da palavra, porque a palavra originalmente n‹o Ž letra, mas voz e corpo.

A qualidade poŽtica de um texto est‡ ligada ˆ natureza teatral da voz, porque a voz Ž teatral desde os prim—rdios; ela Ž poŽtica porque a poŽtica envolve a conjuga�‹o de diferentes signos, tendo em vista a produ�‹o de uma linguagem plurissignificativa, n‹o apenas no plano conceitual, mas, de igual modo, no plano sensorial, porque a plurissignifica�‹o nunca Ž somente conceitual – ela s— se instala no momento em que o conceito se alia ˆ sensorialidade. Quando uma linguagem sufoca a sensorialidade dos seus signos tendo em vista o privilegiamento do conceito, ocorre sua despoetiza�‹o, ou seja, sua desteatraliza�‹o e consequente monologiza�‹o. O monologismo Ž a marca de uma linguagem despida de sensorialidade, linguagem tŽcnica, formal, espartilhada, sem liberdade, sem a menor condi�‹o de contribuir para a transforma�‹o do homem, de fazer hist—ria, porque Ž puro registro est‡tico de fatos concretos. A hist—ria humana s— se faz quando o homem assume sua poeticidade, sua teatralidade natural. O homem Ž um ser teatral, repito. As sociedades do passado, que abafaram a natureza teatral do homem, morreram; e Ž o que parece estar ocorrendo hoje, face ˆ pseudo-seguran�a, e ˆ pseudo-certeza dos discursos monovalentes, que escravizam e amorda�am o pensamento, a criatividade, a a�‹o, a livre circula�‹o das ideias. E o poŽtico Ž isto: espa�o livre de circula�‹o e dan�a dos saberes, que fecunda culturas, insemina civiliza�›es.

PoŽtica das culturas orais – poŽticas das culturas apoiadas nas linguagens verbi-voco-visuais, sens—rio-conceituais e multissignificativas. Melhor seria falar de poŽticas vocais, pois que, e pensando nos ensinamentos de Zumthor, a vocalidade como produ�‹o concreta do homem, como energia, Ž mais palp‡vel, ou vis’vel, que a oralidade. AlŽm disto, a voz confere, atravŽs de cada timbre, um sinete autoral. Evoco a quest‹o da emiss‹o da voz como algo musicante, entendendo com Ruth Finnegan (2008) que a mœsica vocal pode estar na can�‹o ou na fala, nos recitativos, nas declama�›es. Penso, pois, em n’veis de musicalidade vocal, que na can�‹o pode ser acentuadamente mel—dica.

A anula�‹o da oralidade Ž imposs’vel, porque n‹o Ž poss’vel eliminar as marcas da voz. E ao falar em poŽticas da voz, falo das linguagens sens—rio-conceituais, em que o conceito n‹o se imp›e apenas no plano do logos, mas se faz espa�o cambiante e prism‡tico de sensa�›es e sentidos, de experi�ncias mœltiplas verbi-voco-sens—rio-corporais.

 

 

Encontros poŽticos moventes

 

Trago como exemplos dessa poŽtica sensorial os espet‡culos teatralizados em torno do poeta Ant—nio Aleixo, hoje uma voz sem corpo, que se insinua em seus poemas/quadras como um canto, vindo de um outro tempo, mas que ecoa, ainda nesse sŽculo XXI, combativo, ir™nico, denunciador, provocador de incontida euforia coletiva e, em todos os momentos, atual’ssimo. Trago tambŽm como exemplo dessa poŽtica sensorial a atua�‹o perform‡tica do poeta Ant™nio Vieira, tambŽm hoje uma voz sem corpo.

Rondas. Rotas. Mapas. Sagas. Peregrina�›es. Travessias. Andan�as. Veredas. Literatura de movimento. Poesia n™made. Poesia movente. Poesia da voz viva. Poesia do social. Poesia de carne e sangue.

Homero, imitador, criador de apar�ncias – pelo menos para Plat‹o era assim –, saiu pelo mundo e deixou plantada sua Odisseia. Semente que se multiplicou atravŽs do canto das sereias. As sereias, m’ticos seres, testemunharam as diversas travessias do her—i quase-divino, mais-que-humano. As vozes dessas sereias, ecoadas no vai e vem das espumas, diziam de narrativas fabulosas. Diz-se, hoje, de marcas espec’ficas dessas narrativas: viagens reais e viagens imagin‡rias.

Literatura de fric�‹o: encruzilhada. Ponto de encontro, intersec�‹o de literatura com outras sŽries art’sticas. Penso, sobretudo, em mœsica/som, em dan�a/gesto, imagem/olho.

Essa literatura movente, poŽtica viajeira, que vai e volta da letra ˆ voz, inscrita no que se denomina poŽticas da voz, permite circularidade entre as v‡rias culturas.

Este estudo p›e, pois, em relevo interfaces nas obras de dois poetas ÒpopularesÓ. De um lado, o poeta portugu�s Ant—nio Aleixo e sua s‡tira Òhuman’sticaÓ, com destaque para o recurso apropriado da expressividade verbal. De outro lado, o poeta brasileiro (baiano) Ant™nio Vieira e a ’ndole musicante de sua poesia sat’rica, integrando o que denominou ÒCordel Remo�adoÓ. A poesia de ambos os poetas, feita para provocar vibra�‹o nas palavras, aponta para a coreografia do gesto, no palco semovente oralidade/escritura.

 

 

O poeta de l‡: Ant—nio Aleixo

O dia foi 4 de setembro de 2019, uma bonita manh‹ de ver‹o. No comboio 180 (Alfa Pendular), cadeira 51, parto, enfim, de Lisboa para LoulŽ. Nunca tinha ido ao Algarve! Minha expectativa Ž a terra do poeta, Aleixo. Ainda naquele dia contemplaria sua est‡tua[5]. Interessante Ž entender a import‰ncia dada a um poeta popular e isto Ž algo muito especial, mas que n‹o me consola e me faz refletir sobre lacunas imperdo‡veis que acontecem no Brasil, meu pa’s. Bem que algumas vozes importantes j‡ se levantaram nesse sentido, a exemplo dos alertas de M‡rio de Andrade e de Carlos Drummond.

Fiquei hospedada no Allons-y Guesthouse, Rua de S‹o Domingo, 13, bem perto do famoso ÒCafŽ CalcinhaÓ, reduto dos improvisos de Aleixo, reduto das mem—rias em torno dele.

Em LoulŽ, agrad‡veis surpresas: 1. o encontro com Helena Miguel, especialista no que se refere ao arquivo de documentos e fotografias do Museu Municipal de LoulŽ – agrade�o a Helena o contato, a visita ao museu, explica�›es da Sala Polivalente da Alcaidaria do Castelo, as conversas sobre o Brasil, loas a Portugal, ao Algarve, a LoulŽ. Simp‡tica e acolhedora, Helena se mostrou sens’vel e inteligente. 2. O acolhimento generoso do professor/pesquisador J.J. Marques, incluindo importantes e elucidativos di‡logos sobre quest›es e pesquisas das oralidades, visitas a monumentos e um agrad‡vel almo�o. 3. Uma bem montada exposi�‹o sobre a rica trajet—ria de T—ssan. 4. O di‡logo com o Presidente do Concelho, muito bem avaliado e respeitado pelos louletanos e, por coincid�ncia, neto do poeta Ant—nio Aleixo. Essa minha visita o deixou comovido ao tomar conhecimento da proposta de uma pesquisa em terras brasileiras sobre a poŽtica de seu av™. Historiador, V’tor Aleixo me presenteou com uma alentada edi�‹o de Encontros Imagin‡rios, de autoria de HŽlder Mateus da Costa, premiado escritor, dramaturgo, encenador e autor. Percebi, pois, que Vitor Aleixo entendeu muito bem minha proposta com base nos di‡logos imaginados entre Aleixo e Vieira. O referido livro reuniu uma sŽrie de encontros imagin‡rios promovida pelo Grupo de Teatro A Barraca, a partir de fevereiro de 2011, com o objetivo de Òinventar situa�›es e conflitos com figuras da humanidadeÓ (COSTA, 2015, p. 5). Nesses encontros se d‡, exatamente no Encontro Imagin‡rio 29, em 17 de novembro de 2014, um di‡logo insuspeitado entre Ant—nio Aleixo, C‰ndido de Oliveira e Juiz Veiga (COSTA, 2015, p. 329-338).

No Algarve, na primeira metade do sŽculo XX, Ant—nio Aleixo se tornou respons‡vel pela irradia�‹o de uma poderosa corrente do cancioneiro popular portugu�s. Tal corrente foi apontada pelo artista pl‡stico T—ssan[6], e por Joaquim Magalh‹es, um dedicado professor de liceu, figura indispens‡vel na divulga�‹o do poeta Ant—nio Aleixo.

Espantosamente lœcido e consciente de sua inclina�‹o poŽtica, Ant—nio Aleixo deixou registrada em versos sua concep�‹o de arte e de artista. E como artista, tinha um olhar caleidosc—pico, girante, que lhe permitia sair dos espa�os limitados de uma vida comum:

 

Vejo a arte definida

Na forma de descrever

O bem ou o mal que a vida

 

Nos faz gozar ou sofrer

Ser artista Ž ser alguŽm!

Que bonito Ž ser artista...

ver as coisas mais alŽm

do que alcan�a a nossa vista!

 

A arte Ž dom de quem cria

portanto n‹o Ž artista

aquele que s— copia

as coisas que tem ˆ vista

 

A arte em n—s se revela

sempre de forma diferente;

cai no papel ou na tela

conforme o artista sente.

 

Textos poŽticos autorados, ditos em alta voz por este chamado poeta oral, do sul de Portugal, vendedor de cautelas e gravatas, guardador de rebanhos, cantor popular nas ruas, mercados e feiras, trazem express‹o filos—fica original, tantas vezes considerada Ò‡cidaÓ. Em quadra ou sextilha, poetava natural e exemplarmente, com vocabul‡rio surpreendemente adequado ˆs situa�›es em foco.

Motivos e temas variados, mas o tom melanc—lico e ir™nico na exibi�‹o da capacidade de improviso, vis‹o de mundo especial, com grande inclina�‹o para a s‡tira.

Esta inclina�‹o para exibi�›es e improvisa�›es j‡ se fazia evidente desde a mais tenra idade com perform‡ticas atua�›es como cantor das janeiras[7]. Cantava as quadras das janeiras e quando o repert—rio j‡ tinha sido repetido muitas vezes, o menino Aleixo fazia curiosas improvisa�›es que passaram a chamar a aten�‹o de todos.

Ant—nio Aleixo, l‡ pelos idos de 1939/1940, teve ajuntadas por um amigo (JosŽ Rosa Madeira) algumas quadras em duas folhas de papel e que viriam a se constituir nœcleo do seu primeiro livro: Quando come�o a cantar (1» edi�‹o, Faro, 1943; 2» edi�‹o, Coimbra, 1948; 3» edi�‹o, Lisboa, 1960).

 

Figura 1 ‒ Dedicat—ria de Ant—nio Aleixo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


                                                 

                                                  Fonte: Livro Quando come�o a cantar.

 

Depois, se seguiram: Intencionais – 1» edi�‹o, Faro, 1945; 2» edi�‹o, Lisboa, 1960; Auto da vida e da morte (1 acto) – 1» edi�‹o, Faro, 1948; 2» edi�‹o, Faro, 1968; Auto do curandeiro (1 acto) – 1» edi�‹o, Faro, 1949; 2» edi�‹o, Faro, 1964; Este livro que vos deixoÉ Volume I, 18» edi�‹o, Lisboa, 2003; Este livro que vos deixoÉ InŽditos – Volume II , 13» edi�‹o, Lisboa, 2003; InŽditos – 1» edi�‹o, LoulŽ, 1978; 2» edi�‹o, LoulŽ, 1979.

Seguindo seu ritual cotidiano de andarilho, Ant—nio Aleixo cumpriu o tra�ado do seu destino e ficou como um personagem-tipo, desses que marcam profundamente uma Žpoca, um espa�o social. Pessoa/personagem impressa na mem—ria do povo portugu�s, figura not‡vel e not—ria, poeta boquirroto, gritador e denunciador dos males sociais, expert na arte da performance, Ant—nio Aleixo encarnou a si mesmo em v‡rios papŽis, sobressaindo-se enquanto corpo/voz convertido em a�‹o, coisa viva, que alardeava, feria, rasgava, cauterizava, ecoando sempre um universo de sugest›es e sedu�›es.

Essa sua voz, inscrita no papel, como autor que foi de quadras e/ou sextilhas, ou articulada, a do narrador, a do cantor dos acontecidos do povo de Algarve, obteve enorme sucesso. Anunciava e denunciava tudo em voz alta, na busca de aperfei�oar o timbre, no gasto do fr‡gil poder de seus pulm›es, da materializa�‹o e da pulsa�‹o da voz, do ineditismo de suas performances, em um cont’nuo corpo a corpo com seu pœblico.

 

 

Figura 2 ‒ Quadra e glosas de Ant—nio Aleixo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       Fonte: Funda�‹o Ant—nio Aleixo, 2019.

Se Ant—nio Aleixo foi testemunha atenta e inquieta de momentos empolgantes da vida portuguesa, acompanhando a revolu�‹o dos costumes, afrontou tambŽm de dedo em riste essa ÒmodernidadeÓ. N‹o deve ser esquecido que Aleixo viveu e fez sua obra em um Portugal sob o regime ditatorial salazarista ou Estado Novo (1933-1975)[8]. No livro Ao encontro de Ant—nio Aleixo, Joaquim Magalh‹es conta que, por ocasi‹o do preparo para publicar Quando come�o a cantar, foi necess‡rio um exerc’cio cuidadoso: Òtudo o que n‹o pudesse ser motivo para eventual apreens‹o do livro, caso pudesse vir a ser considerado alvo das vistas curtas da censura intelectual de ent‹oÓ (MAGALHÌES, [s.d.], p. 10). Sabemos todos n—s que Magalh‹es[9] referia-se ˆ PVDE.

Decididamente, Ant—nio Aleixo nunca foi, como o personagem de Apollinaire, um vagabundo urbano, quase um clochard, um patŽtico perdido na multid‹o. Foi, antes, um poeta, dotado de grande poder de comunica�‹o. Um lœdico e lœcido poeta cuja voz soava m‡gica para o pœblico que o aplaudia e o tinha como seu leg’timo porta-voz. Pela boca desse extraordin‡rio artista fala a outra voz, a voz do poeta sens’vel ˆ vida de seu povo.

Sua voz, seja como sussuro de confid�ncia – note-se o car‡ter notadamente autobiogr‡fico da maior parte dos poemas de A. Aleixo (FERREIRA, 1978) – seja altissonante como a da multid‹o na pra�a, me faz ouvir o tempo que passou e que volta transformado, mesmo que seja numa folha de papel. Para a exibi�‹o de suas quadras e/ou sextilhas, sonetos, glosas, poemas com v‡rias estrofes, autos[10], Ant—nio Aleixo lan�ava m‹o de recursos inusitados e imprevistos.

N‹o concordo com certos pronunciamentos que se referem ˆ incorre�‹o da escrita de Ant—nio Aleixo como senha para que o poeta fosse inclu’do num grau abaixo do que se convencionou como poeta culto. Essa distin�‹o entre literatura/poesia popular e literatura/poesia erudita ou culta n‹o tem mais sentido. Tida como ing�nua, rude e tosca pela hist—ria liter‡ria, a literatura/poesia popular, na realidade, Ž um tipo de manifesta�‹o ficcional e imaginativa bastante pr—xima daquela que se costuma chamar propriamente de literatura, n‹o existindo diferen�as de ess�ncia entre um e outro tipo de produ�‹o, j‡ que possuem, de modo an‡logo, aquilo que Ž comum a qualquer obra, seja qual for a tradi�‹o a que esteja vinculada: sua capacidade de criar formas significativas, expressivas e reveladoras da exist�ncia humana. Ali‡s, a pretensa ingenuidade que se atribui ˆ literatura/poesia popular parece-me algo que se gostaria de encontrar na literatura culta. Em verdade, o preconceituoso posicionamento por parte dos eruditos com rela�‹o ˆ literatura/poesia de express‹o popular reflete, simult‰nea e contraditoriamente, o desejo e a rejei�‹o de uma inoc�ncia e uma ignor‰ncia invejadas, j‡ que seriam elas o verdadeiro testemunho e garantia de certa autenticidade e originalidade de raiz, nem sempre vis’veis em manifesta�›es liter‡rias de car‡ter erudito.

Estou de acordo, pois, com aqueles que viram inspira�‹o muito rara nas quadras de Aleixo em v‡rios momentos, e com um tom forte, expressivo, ajustado em vocabul‡rio justo e cortante.

                                        Figura 3 ‒ Manuscrito de Ant—nio Aleixo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


                                                     Fonte: Funda�‹o Ant—nio Aleixo, 2019. https://fundacaoantonioaleixo.com/wp-content/uploads/2016/10/5822007_orig.jpg

Nesse mundo girante, a atualidade dos versos improvisados de Aleixo o insere na contemporaneidade quanto ˆ expressividade do corpo e da voz como fen™menos poŽticos totais, traduzindo as gritantes e t‹o presentes misŽrias e desigualdades dos seres humanos, alŽm de uma postura cr’tica com rela�‹o a si mesmo, postura esta a que se referiu em uma de suas œltimas quadras, recordada pelo irm‹o de T—ssan, Armando dos Santos:

Quando em mim penso com calma

e me compreendo melhor

bem merecia que a minha alma

tivesse um corpo maior

 

Tudo isso toma assento no pensamento de Paul Zumthor ao se referir ˆ rela�‹o voz e gesto:

 

Um la�o funcional liga de fato ˆ voz o gesto: como a voz, ele projeta o corpo no espa�o da performance e visa a conquist‡-lo, satur‡-lo de seu movimento. A palavra pronunciada n‹o existe (como o faz a palavra escrita) num contexto puramente verbal: ela participa necessariamente de um processo mais amplo, operando sobre uma situa�‹o existencial que altera de algum modo e cuja totalidade engaja os corpos dos participantes.

[...] o gestus d‡ conta do fato de que uma atitude corporal encontra seu equivalente numa inflex‹o de voz, e vice-versa, continuamente (ZUMTHOR, 1993, p. 243-244, grifo meu).

 

Sabe-se da vida cotidiana do homem e do poeta, como ele apareceu, local, dia e hora. Sabe-se de sua fam’lia, av—s, pai, m‹e, irm‹os, amada, filhos e netos. Sabe-se de sua saœde fr‡gil. Sabe-se de suas proezas heroicas e sedutoras. Conhecem-se seus poemas e recitam-nos de cor. N‹o h‡ dœvidas sobre estas quest›es.

Sei que, em Portugal, Ant—nio Aleixo Ž muito conhecido para que seja necess‡rio insistir sobre ele. Mas insisto. Insisto em mergulhar num amplo espa�o, fluido e disperso, de textos, entrevistas, relatos, participa�‹o em semin‡rios, sess›es de homenagens e outros tipos de manifesta�›es, onde Ant—nio Aleixo se delineia como um mito, personagem transformado em sugestiva figura romanesca, feita de evoca�›es e sugest›es ret—ricas e poŽticas, de achegas, de fragmentos e que ganha for�a como paladino de uma nova ordem. Mito, no caso, entendido, por extens‹o de significado, como concep�‹o individual ou coletiva, espŽcie de cren�a vaga, oscilante, de gosto, de culto, de adora�‹o leiga, espont‰nea ou cultivada.

A composi�‹o da imagem do poeta, no caso, decorreria da articula�‹o das imagens de uma realidade dada, com base em documentos oficiais, colhidas na mem—ria, mas tambŽm, de imagens que obedecem aos ditames de uma imagina�‹o mais propriamente criadora uma vez que atravessam gera�›es e se imp›em ou afirmam na coletividade, propiciando a cria�‹o de poetas m’ticos, como Ž o caso de Ant—nio Aleixo.

Para isso, foi necess‡rio despir-me de prŽ-conceitos tradicionais, esdruxulamente laudat—rios ou eufemisticamente malŽvolos, observando as possibilidades de olhares (furtivos, voluptuosos, impass’veis, ternos, apaixonados, invejosos, parciais) sobre um centro m—vel e continuamente ˆ deriva.

Com o objetivo de delinear o mito de um poeta-g�nio, encontro respaldo no pensamento – ainda muito atual – de J. Tynianov quando acentua que, Òem certas Žpocas, a biografia torna-se literatura oral ap—crifaÓ (TYNIANOV, 1971, p. 116).

Ant—nio Aleixo foi, sem dœvida, um personagem singular no momento em que viveu, e tambŽm na dimens‹o m’tica que lhe foi atribu’da pelo povo, pelos cr’ticos e atŽ por sua pr—pria poesia.

Ao me referir a uma personalidade m’tica, falo de um conjunto de atributos que se evidenciam mais em determinados poetas ou artistas. Trata-se de algo que lhes vem do interior e atinge o exterior, delineando-lhes um c’rculo luminoso como se fosse uma aurŽola, conferindo-lhes ÒsantidadeÓ e poderes quase divinos, sem que, por vezes, exista qualquer conex‹o entre tal processo de mitifica�‹o e a qualidade da obra. Em sua biografia de Maiakovski, Roman Jakobson acentua:

 

Quando esse mito entrou na vida, foi imposs’vel sem esfor�o sobre-humano tra�ar um limite entre a mitologia poŽtica e o curriculum vitae do autor, e o testamento de Maiakovski viu-se inteiramente justificado: na vida aut�ntica do poeta, Ž significativo apenas aquilo que foi Òdefendido com a palavraÓ (JAKOBSON, 1993, p. 134).

 

A especial venera�‹o que se tributa ˆ imagem de Ant—nio Aleixo, porŽm, implica o assentamento e desdobramento de um sem nœmero de tra�os, reais ou fict’cios, biogr‡ficos ou textuais, retrabalhados tambŽm pelo imagin‡rio. As imagens revigoram a mem—ria, estimulam-na.

O poeta Ant—nio Aleixo, enquanto personagem, construiu-se na cr’tica e na boca do povo, e sua vida converteu-se, repetindo Barthes, num plural de encantos. Tentativas (algumas atŽ felizes) de mitific‡-lo ainda em vida se acentuaram com a morte. A partir da’, foi um fluir ininterrupto de imagin‡rios diversificados e atŽ fabulosos. Os contornos do personagem e do mito permanecem, porŽm, atŽ hoje, imprecisos. Todos apostam, entretanto, em algumas constantes: a cr’tica mordaz, as limita�›es financeiras, a saœde debilitada, o talento para atrair multid›es, o g�nio criador de retumbantes e inflamadas imagens. Historiadores e bi—grafos costumam apresent‡-lo como um poeta que teve grande repercuss‹o, nacionalmente, entre os cr’ticos e o pr—prio povo.

Fonte: Exposi�‹o T—ssan, em LoulŽ, 2019.

 

Fonte: Exposi�‹o T—ssan, em LoulŽ, 2019.


Figura 5 ‒ Aleixo e T—ssan


             Figura 4 ‒ Desenho de Ant—nio Aleixo por T—ssan

       

 

Deste modo, a semeadura do mito se deu, e o mito floresceu e frutificou. N‹o se sabe a ponta do novelo nem o embara�o das linhas, mas pouco importa. No caso, verdade e fic�‹o, emo�‹o e raz‹o se fundem, se misturam. Cada um quer acrescentar um dado novo, e nesse jogo de dados, de varia�›es e interpreta�›es, os espa�os do mito v‹o sendo preenchidos – porŽm nunca se preenchem – e a personagem se esculpe nos sons da voz, nos grafos da escritura, nas leituras e releituras cr’ticas, no teatro, nas ruas, escolas, agremia�›es, nas figura�›es pl‡sticas, nos espa�os culturais, espalhados por todo Portugal e chegando ao Brasil.

Sementes plantadas, aqui e ali, em Portugal, onde s‹o publicados, ditos (e atualizados) poemas como se fossem de sua autoria. Nesse sentido, trago, aqui, a reflex‹o de J.J. Marques, ao mencionar a sec�‹o ÒEr—ticas, Burlescas e Sat’ricasÓ, de InŽditos:

Refiro-me em primeiro lugar ao seguinte aspecto: depois de mencionar as ÒquadrasÓ (no sentido de quadras glosadas) Òpicantes, mas recheadas de humor e mal’ciaÓ integradas na sec�‹o ÒEr—ticas, Burlescas e Sat’ricasÓ, que obtivera Òpor intermŽdio de velhos amigos do poeta, que as ditaram de mem—riaÓ, Ferreira confessa: Òo nosso trabalho neste campo consistiu em dar ˆs vers›es orais destas ÔquadrasÕ a forma escrita que nos pareceu mais pr—xima duma composi�‹o de A. AleixoÓ.

ƒ curioso (para os mais rigorosos ser‡ talvez arrepiante) ver a boa consci�ncia com que Ezequiel Ferreira admite ter retocado aqueles versos, de modo a aproxim‡-los do que Aleixo teria escrito. Como Ž que ele sabia determinar qual a forma Òmais pr—xima duma composi�‹o de A. AleixoÓ Ž coisa que n‹o diz... Assim como n‹o diz que altera�›es fez (MARQUES, 2013, p. 43, grifos meus).

 

AlŽm disso, h‡ uma grande quantidade de versos memorizados de pr—pria autoria do poeta algarvio ou versos criados em que lhe s‹o feitas refer�ncias, como o de Natanael Pian�o, citado por Ana Paula Guimar‹es (2000, p. 136) em N—s de Vozes – acerca da tradi�‹o popular portuguesa:

N‹o quero ser um Aleixo

Nem ser Torga nem Miguel

E uma mensagem vos deixo

S— quero ser Natanael.

Surgem tambŽm par—dias, pois vale sempre lembrar que a imagem e a obra de Ant—nio Aleixo encontram ainda hoje repercuss‹o e resson‰ncia junto ao povo, da’ Ž bom pensar em Mikhail Bakhtin, ao apontar Òo coro popular rindo na pra�a pœblicaÓ (BAKHTIN, 1987, p. 11). Esse referido coro era alimentado por parodistas, que se utilizavam de modelos de obras conhecidas e aceitas pelo pœblico para, invertendo-lhes o sentido, produzir novas vers›es. Os autores parodiados atestavam, assim, sua popularidade. Desse modo, isso se d‡ com Ant—nio Aleixo. A repercuss‹o desse poeta Ž realmente espantosa, sobretudo em Portugal. Em cada canto, em cada esquina, Ž poss’vel conversar sobre Ant—nio Aleixo!

 

 Figura 7 ‒ Est‡tua do Poeta na Quinta do

                              Lago (LoulŽ)

 


  Fonte: Acervo pessoal da autora.


 

Figura 6 ‒ Escultura Ant—nio Aleixo em Madeira, de M‡rio Albano

 Fonte: Escultura Ant—nio Aleixo em Madeira, de M‡rio Albano, Galeria da Galeria da Exposi�‹o, JosŽ Manuel Figueiredo, Baixa da Banheira, Vila de Moita, 2019.

 

 

 

 

 

 


Hoje, Ant—nio Aleixo, que Ž verbetado na Nova EnciclopŽdia Larousse, cuja obra se encontra espalhada por v‡rias bibliotecas em Portugal e fora de Portugal, a exemplo da Biblioteca Nacional do Brasil[11], da Library of Congress[12], da Biblioth�que Nationale de France[13], Ž nome de rua, de agremia�›es culturais, de escolas, com destaque para a Funda�‹o[14] Ant—nio Aleixo, sediada na Av. JosŽ da Costa Mealha, 14 – 1¼ andar, LoulŽ.

Figura 9 ‒ Placa da Rua Ant—nio Aleixo

 


   Figura 8 ‒ Placa da Funda�‹o Ant—nio Aleixo

Fonte: Acervo pessoal da autora.

Fonte: Acervo pessoal da autora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Em texto esclarecedor, o pesquisador e professor portugu�s J. J. Dias Marques registra a preciosidade da n‹o t‹o numerosa cole�‹o de manuscritos de Aleixo conservada na Funda�‹o Manuel ViŽgas Guerreiro, em Queren�a, concelho de LoulŽ (2013, p. 48). Registra, ainda, duas outras institui�›es que conservam manuscritos do poeta: a Biblioteca da Universidade do Algarve, em Faro e a Funda�‹o Ant—nio Aleixo, em Quarteira/LoulŽ (e j‡ aqui referida).

Aleixo foi prestigiado na ‡rea musical por grandes nomes da can�‹o, com realce para Zeca Afonso[15] e sua famosa Balada Aleixo, no LP Cantares de JosŽ Afonso, 1967.

 

Quem canta por conta sua

Canta sempre com raz‹o

Mais vale ser pardal na rua

Que rouxinol na pris‹o

Adeus que me vou embora

Adeus que me quero ir

Deita c‡ estes teus olhos

que me quero despedir

 

Com os cegos me confundo

Amor desde que te vi

Nada mais vejo no mundo

Quando n‹o te vejo a ti

 

Adeus que me vou embora

Adeus que me quero ir

Deita c‡ esses teus olhos

Que me quero despedir

 

 


                                                              Figura 10 ‒ Cartaz do espet‡culo

                                                   Fonte: Acervo pessoal da autora.

Aleixo, que escreveu autos, figura tambŽm em espet‡culos teatrais, a exemplo do espet‡culo Diz-me, Ant—nio[16], um tributo ao poeta algarvio Ant—nio Aleixo, no Teatro das Figuras, em Faro. Integrado no programa 365 Algarve, Ž uma coprodu�‹o da ArQuente Associa�‹o Cultural, com o apoio da Dire�‹o Regional de Cultura do Algarve e parceria da Eating Algarve Tours. Trata-se, segundo a divulga�‹o do espet‡culo, de uma nova cria�‹o da Rede Azul – Rede de Teatros do Algarve, revisitando a obra de Ant—nio Aleixo – na passagem dos 120 anos do seu nascimento – como Òum cruzamento art’stico entre dan�a, mœsica e spoken wordÓ.

A esmola n‹o cura a chaga;

Mas quem a d‡ n‹o percebe

Ou ela avilta, que ela esmaga

O infeliz que a recebe.

 

A ninguŽm faltava o p‹o,

Se este dever se cumprisse:

– Ganharmos em rela�‹o

Com o que se produzisse

 

         Figura 12 ‒ Est‡tua de Ant—nio Aleixo em LoulŽ

 Figura 11 ‒ L‡pide de Ant—nio Aleixo, CemitŽrio de LoulŽ

 

 

 

 



Fonte: Acervo pessoal da autora, 2019.

 


             

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2019.

 

 


O poeta de c‡: Ant™nio Vieira

 

Ant™nio Vieira

Nasceu em Santo Amaro

Tem sobrenome do pai

O nome, a m‹e deu, Ž claro

No ano de 49

Introduziu-se no orbe

Onde faz o seu trabalho.

 

Viajou pelo Brasil

Investigou um bocado

Escreve em seus cordŽis

Imagens que lhe marcaram

Resgates e personagens

An™nimos e consagrados[17].

Ant™nio Vieira, com poemas narrativos, capazes de suscitar a curiosidade do ouvinte/leitor, confiava na for�a de sua imagina�‹o ao rearticular hist—rias inscritas na tradi�‹o, dando-lhes novas cores e fisionomias. Sabia Vieira que sua palavra tinha poder, que poderia repercutir no imagin‡rio social, provocando atŽ certa euforia coletiva, e influenciando os sonhos e atŽ mesmo os destinos, pois que se insinua e penetra nos ouvidos, transmitindo encantamentos pela letra e pela voz.

Sabia, de igual modo, que sua atividade de poeta, nascida no contato direto com o pœblico, abriu caminho para seu sucesso como herdeiro dos trovadores medievais.

Leitores eu vou contar

E este Ž meu papel

De poeta, cordelista

Cantador e menestrel

Como tudo come�ou

De que forma aqui chegou

O folheto de cordel (s.d., p. 26)

A poŽtica popular narrada em folhetos de cordel j‡ em si transgride os c—digos da escritura, que Ž um desenho da voz. E, ao romper as linhas que limitam a escrita ao tamanho do papel, essa poŽtica se imp›e, transita por espa�os moventes e, sinuosa, se molda aos diversos contextos, como o escolhido por Vieira como Cordel Remo�ado. Essa proposta de Ant™nio Vieira traz o di‡logo da tradi�‹o rural com o urbano, do antigo com o contempor‰neo, incluindo a participa�‹o do narrador/cantador in presentia ou midiatizado em shows gravados. Mais uma vez busco apoio em Zumthor, ao tratar das atua�›es dos jograis quando predominava a Òpalavra gesticulada dos poetas, a mœsica, a dan�a, esse jogo c�nico e verbal que Ž linguagem do corpo e coloca�‹o em obra das sensualidades carnaisÓ (ZUMTHOR, 1993, p. 45).

Na proposta poŽtica de Ant™nio Vieira, o corpo participa da a�‹o de dizer, desde a variada tonalidade da voz ou a estrutura�‹o r’tmica atŽ a gesticula�‹o corporal, que se manifesta nos movimentos das m‹os, nos meneios da cabe�a, na curvatura do tronco, na dan�a do corpo de um lado para outro, para frente, para tr‡s, num vai e vem pr—prio da atua�‹o perform‡tica.

Ant™nio Vieira comp™s seu personagem movido evidentemente pelo desejo de se distinguir da multid‹o das pra�as pœblicas: usava um chapŽu tipo Òpanam‡Ó e portava um viol‹o como se fosse extens‹o de seu pr—prio corpo, marcas de um artista


                                                      Figura 13 ‒ Ant™nio Vieira

                                          Fonte: Acervo pessoal da autora.

Ant™nio Vieira, que come�ou realmente a escrever e a atuar j‡ no sŽculo XXI, nesse terceiro mil�nio, tinha perfeita no�‹o de sua fun�‹o de poeta/pesquisador. Nesse sentido, n‹o foi um improvisador – confessava que utilizava a estrutura e o pr—prio nome de Cordel – e chegou a fazer uma classifica�‹o de sua obra, naturalmente ancorado nas classifica�›es feitas por estudiosos da literatura popular. Deixou uma obra marcada por um elevado teor de intencionalidade, preocupa�‹o com os debates acirrados de um novo momento, conformando uma polifonia de narrativas de grande interesse. Trago, aqui, por exemplo, uma de suas propostas, qual seja a da cole�‹o afro-Brasil, com um conjunto de folhetos abordando a tem‡tica da africanidade e sua repercuss‹o na forma�‹o do povo brasileiro.

No rol de sua produ�‹o poŽtica, figuram duas colet‰neas – Hist—rias que o povo conta, volumes I e II – e um CD gravado – Ant™nio Vieira: o cordel remo�ado – com 12 mœsicas narradas e/ou cantadas.

Homem sens’vel e atento ˆ diversidade de seu pœblico, Ant™nio Vieira sabia seduzir plateias, como ocorria nos shows que eram cuidadosamente preparados. Por conta disso, foi convidado pela TVE (TV Educativa/IRDEB/Bahia) para gravar um especial, o que foi concretizado em 2005.

As atua�›es perform‡ticas de Ant™nio Vieira provocaram repercuss‹o na Escola de Artes C�nicas da Universidade Federal da Bahia. O professor Dr. Armindo Bi‹o, de saudosa mem—ria, escreveu um pref‡cio para a colet‰nea Hist—rias que o povo conta, de Ant™nio Vieira:

H‡ alguns anos, lecionando para jovens estudantes de teatro, da Universidade Federal da Bahia, e tratando com as possibilidades Žpicas (narrativas) e dram‡ticas (de a�‹o) do cordel, convidei para fazer uma aula para meus alunos o poeta, compositor e cantor Ant™nio Vieira, que me foi apresentado por Antonio Marques, estudante da turma. A publica�‹o do livro deste artista hoje aqui (2003, por ocasi‹o de uma feira nacional do livro, na Bahia) Ž um importante momento do hist—rico acima relatado. Ler um folheto de Ant™nio Vieira, em sua presen�a, numa festa de 13 de maio em Santo Amaro, sua terra, t�-lo fazendo uma nova aula – desta vez aberta – para meus novos alunos da UFBA, h‡ algumas semanas e mais recentemente, t�-lo num projeto da Funda�‹o Cultural para um pœblico maci�amente jovem (o Julho em Salvador), s‹o outros momentos daquele hist—rico pessoal, que se completam com as considera�›es que se seguem (BIÌO, 2003, p. 12-13).

Em 2004, Ant™nio Vieira teve a oportunidade de fazer uma viagem a Portugal, desejoso de conhecer a terra de Ant—nio Aleixo, poeta por quem nutria uma profunda admira�‹o. L‡, fez alguns shows e se encantou com a Universidade de Coimbra.

Em rota de viagem, Ant™nio Vieira deixou gosto de quero-mais no seu antol—gico encontro virtual com Ant—nio Aleixo. Encontro dos dois Ant™nios. Ant™nio Vieira viajou da Bahia para Portugal e o fez no duplo sentido: real e imagin‡rio. Em suas andan�as por terra de alŽm-mar, redesenhou um encontro poŽtico insuspeitado.

Na Bahia, sabia muito bem Ant™nio Vieira que o centro da cidade de Salvador n‹o era somente reduto de sobrad›es onde se misturam os cheiros de dend�, incenso, cravo e canela. Era tambŽm reduto de tipos humanos, populares ou n‹o, que passavam das ruas para a mem—ria, a exemplo de Greg—rio de Mattos, poeta seiscentista que nasceu no casar‹o de n¼ 8 da Pra�a Anchieta (bem em frente ao Cruzeiro de S‹o Francisco, cruz de m‡rmore erguida em 1807, sob a batuta de Frei JosŽ de S‹o Sebasti‹o), expoente maior da nossa poesia barroca e que circulou de viola em punho pelos becos e ladeiras, satirizando desafetos pessoais e pol’ticos, ele que era doutor in utroque jure pela Universidade de Coimbra.

A viagem que Ant™nio Vieira fez a Portugal possibilitou-lhe reflex‹o a respeito de si pr—prio, de seu pa’s, de seu povo, abrindo espa�o para a constru�‹o de um discurso sobre o outro. O poeta da terra de samba-de-roda e usinas de a�œcar viu sua viagem como um aprendizado, como experi�ncia vivencial e textual. O ritmo Ž do sujeito que tudo olha, tudo contempla e tudo fixa. O desejo de conhecer os lugares por onde versejou Ant—nio Aleixo fez com que, para Ant—nio Vieira, essa viagem se tornasse mais ’ntima e imagin‡ria que real. Ao olhar o outro, estabeleceu de imediato um di‡logo entre a sua cultura e aquela do outro. Importava, para ele, ler o outro, buscar identidades e diferen�as, tentando reviver, atravŽs do corpo textual, tudo aquilo que viu ou contemplou.

O olhar de Vieira – aqui, evoco Bachelard – passa de algo passivo para algo ativo, de movimento, n‹o sendo o olho seu s’mbolo, mas a m‹o, que tem movimento e Ž criadora, ao agir sobre o objeto observado (BACHELARD, 1991). Tens‹o no olhar. Olhar que se transforma em atividade criadora, transferindo para a m‹o do escritor a fixa�‹o dos instantes. Instantes viajeiros, agora fixados, dinamizados pela imagina�‹o. Nos campos do imagin‡rio, a mem—ria se rearruma, se rearticula, se reorganiza, redimensionando, desse modo, o que foi olhado, tocado, cheirado, ouvido, saboreado. Imagina�‹o que opera, portanto, transforma�›es de dados efetivos que se movem em espa�os fluidos e tempos imemoriais.

A viagem de Vieira a Portugal, lugar de espa�o e tempo para experimenta�›es, fez vicejar uma nova proposta de escritura: n‹o documento, n‹o testemunho, n‹o mem—ria. Mas um bocadinho de cada, compondo um tecido de mœltiplos fios e de intrincados tran�ados que se exp›em nos v‡rios deslocamentos, no tr‰nsito, na err‰ncia por opostos espa�os, na dimens‹o cambiante de toda mudan�a.

Veja-se que suas cr™nicas/relatos/narrativas de viagem lan�aram sementes para seus folhetos, nos quais, por exemplo, Portugal foi muito alŽm de refer�ncias hist—ricas, arquitet™nicas, e passou a significar um espa�o de liberdade por onde os personagens circulavam num vai e vem incessante. Nesse espa�o, a’ inclu’do o cotidiano do trabalhador, do vagabundo, do moleque, h‡ o desfrutar dos prazeres, sugerindo possibilidade de felicidade. Escapam, assim, os personagens de Vieira da dimens‹o da raz‹o e passam a expressar-se em outro plano, plano t‹o enevoado, pleno de matizes e cambiantes, plano aberto, sem f—rmulas fixas, r’gidas ou definitivas. Nesse plano, tudo pode ser mudado, tudo est‡ em constante ir e vir como as ins—litas espumas flutuantes.

Viajar Ž preciso. No confidenciar desse viajor, h‡ a divis‹o entre a viagem real e a viagem da imagina�‹o. Uma interfere na outra, possibilitando reflex›es para a compreens‹o da op�‹o estŽtica e ideol—gica do escritor. Nessas viagens, Vieira pensou e refletiu a poesia e as v‡rias dimens›es da oralidade e da musicalidade.

Essa viagem para Portugal motivou o folheto O Encontro de Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo. N‹o h‡ aventura imposs’vel para a imagina�‹o do poeta, que viaja solto, sem rŽdeas, nas asas do vento. Voam os poetas de cordel, obcecados pelos voos.

Espa�o e tempo se movimentam e as narrativas ressurgem com novas fisionomias no rec™ncavo da Bahia. S‹o tra�os de uma narrativa oral, movente, surpreendentemente camale™nica, que ressurgem nos intrigantes textos de literatura de cordel. Composto de septilhas setessil‡bicas, e editado com o apoio da Funda�‹o Cultural do Estado da Bahia em 2005, o folheto, j‡ no seu in’cio, indica rever�ncia ao poeta portugu�s:

Grande mestre Ant—nio Aleixo

Eu estando em Portugal

Para cantar os meus versos

Em sua terra natal

N‹o lhe pedi permiss‹o

Para tal interven�‹o

Perdoe-me, n‹o fiz por mal!

Apenas n‹o conhecia

Sua verve merit—ria

Que o povo portugu�s

Guarda viva na mem—ria

E fala com muito zelo

Do poeta cauteleiro

Que deixou o nome na hist—ria.

Nesse folheto, o poeta viaja atravŽs da imagina�‹o sem travas e sem limites. Aporta o poeta no mundo portugu�s e estabelece rela�›es com o mudo de Òc‡Ó:

Mas como eu considero

O mundo um s—: l‡ e c‡

Tomei a iniciativa

De com voc� versejar

Baseado na ess�ncia

Que a sua sapi�ncia

Me inspirou a cantar.

Fascinado pela viv�ncia entre rios – SubaŽ-sergi-mirim, Araguaia, Paragua�u, Tocantin—polis, Arataœ, Itapecuru –, o poeta Ant™nio Vieira, de Santo Amaro/Bahia, era atento observador do dif’cil cotidiano de seu povo, de um povo sofrido e carente. N‹o ser‡ dif’cil, portanto, entender a fabulosa viagem que o poeta empreende em busca de um outro espa�o. Assim, vai a Coimbra e contempla o Mondego. Contempla�‹o igualmente se dar‡ com a ida a Braga quando avista o Douro.

Essa narrativa em versos metrificados Ž, sem dœvida, baseada em modelos que s‹o recriados com base na circula�‹o de elementos textuais viajantes, n™mades, que se combinam aqui e ali, fazendo surgir hist—rias sempre prontas a se refazer na infinitude das leituras poss’veis. Num complexo processo da boca ao ouvido e do ouvido ˆ boca, ocorre o afastamento gradativo da matriz original. E a modifica�‹o da matriz original de uma hist—ria assentada na tradi�‹o tem, a meu ver, um aspecto transgressor, que seduz pela novidade, oriunda da imagina�‹o, essa forma de aud‡cia humana.

A voz do poeta popular inquieta, se adentra em variados mundos, transmite verdades e sonhos, funda reinos fabulosos ou n‹o. Essa voz em muta�‹o se reelabora constantemente, tecendo e retecendo os retalhos da tradi�‹o em formas novas e fisionomias particulares.

Escrito por um poeta de acentuado esp’rito cr’tico, o folheto h’brido – septilhas e peleja em quadras – com a vers‹o do encontro fict’cio entre o Ant—nio portugu�s e o Ant™nio brasileiro da Bahia, Ž uma viagem pela imagina�‹o. Com sua palavra cheia e cantante, Ant™nio Vieira se insere, agora, no rol dos criadores de viagens fant‡sticas.

A narrativa de viagem real de Ant™nio Vieira exp›e a experimenta�‹o ao vivo das mais variadas manifesta�›es art’sticas de nossos antepassados portugueses: poesia, mœsica, drama. Na volta, sob a a�‹o da mem—ria e da imagina�‹o, selecionou os fatos experenciados e os metamorfoseou em viagens fict’cias.

Ant™nio Vieira ter‡ sua vida escrita[18], certamente, por bi—grafos, e ela trar‡ a legenda da heroiciza�‹o. Desde a terra de origem (Bahia) – uma terra m’tica – atŽ as pessoas que o cercam – parentes, amigos, admiradores –, dizem eles que Vieira foi um homem ’mpar, mœltiplo e v‡rio. E eu, que cheguei a conhec�-lo, concordo que seus v‡rios perfis se superp›em: o Ant™nio Vieira de Santo Amaro da Purifica�‹o, cantada terra do Rec™ncavo baiano; o Ant™nio Vieira na cidade de Salvador, seduzido pelas luzes da ribalta; o Ant™nio Vieira da fam’lia (com Coracy e filhos); o Ant™nio Vieira agitador, arauto da liberdade; o Ant™nio Vieira, poeta que figura no pante‹o de grandes poetas da literatura de cordel; o Ant™nio Vieira dos palcos, mestre violeiro e ex’mio cantador; o orador destacado de semin‡rios e entrevistas; o inesgot‡vel combatente, apoiador ardoroso de um pensamento afro-descendente; o Ant™nio Vieira, modelo de eleg‰ncia e aud‡cia; o Ant™nio Vieira dos jovens, o arrebatado paladino da liberdade, o ut—pico, o sonhador; o Ant™nio Vieira das gera�›es mais velhas, modelo de homem justo, educado, orador brilhante, poeta de estirpe; o Ant™nio Vieira do povo, o simples, o defensor dos oprimidos, o proclamador das igualdades sociais.


                    Figura 14 ‒ Ant™nio Vieira em atua�‹o

      Fonte: Acervo pessoal da autora.

 

Ant™nio Vieira deixa uma grande contribui�‹o ao conceituar uma nova maneira de pensar o cordel, denominado por ele de cordel remo�ado, e que consiste na apresenta�‹o do cantador recitando/cantando fragmentos de hist—rias tradicionais em processo de uso da bricolagem com novas hist—rias de sua lavra, satirizando os acontecimentos, denunciando mazelas. Com for�a e forte carisma, o poeta exibia gestos, tons de voz adequados a cada narrativa cantada. O poeta Vieira fez, em verdade, uma releitura do cordel, fazendo o texto circular e, desse modo, ÒcosturarÓ habilmente as linhas da tradi�‹o e da contemporaneidade sem deixar entre elas lacunas e Òpontos vis’veisÓ.

Ardoroso defensor do prest’gio que deveria ser dado ˆ poesia ÒpopularÓ, A. Vieira buscou estabelecer um di‡logo com os poetas sem subservi�ncia, sem tirar seu chapŽu como rever�ncia.

A cantora e intŽrprete Maria Beth‰nia, tambŽm nascida em Santo Amaro da Purifica�‹o/Bahia, gravou, ao som de um instigante fundo musical com percuss‹o e lev’ssimo dedilhar de viol‹o, um irreverente poema de seu conterr‰neo[19]:

 

A nossa poesia Ž uma s—

Eu n‹o vejo raz‹o pra separar

Todo o conhecimento que est‡ c‡

Foi trazido dentro de um s— moc—

 

E ao chegar aqui abriram o n—

E foi como ela sa’sse do ovo

A poesia recebeu sangue novo

Elementos deveras salutares

 

Os nomes dos poetas populares

Deveriam estar na boca do povo

No contexto de uma sala de aula

N‹o estarem esses nomes me d‡ pena

 

A escola devia ensinar

Pro aluno n‹o me achar um bobo

Sem saber que os nomes que eu louvo

S‹o vates de muita qualidade

O aluno devia bater palmas

 

Saber de cada um o nome todo

Se sentir satisfeito e orgulhoso

E falar deles para os de menor idade

Os nomes dos poetas populares.

 

Ant™nio Vieira foi acometido por um c‰ncer pulmonar. Durante 10 anos, lutou contra essa doen�a e, segundo me relatou sua viœva, ele dizia sempre ÒEu estou doente, n‹o sou doenteÓ. Essa doen�a se espalhou para a medula —ssea e o poeta veio a falecer no dia 10 de maio de 2010, deixando mulher e tr�s filhos.

 

FOLHETOS[20] DE ANTïNIO VIEIRA:

1.             A medicina altru’sta de Doutor JosŽ Silveira, xilo: Naizuo, 2001.

2.             Santo Ant™nio de P‡dua, a PŽrola Maior da Ordem Franciscana, edi�‹o especialmente produzida para o Evento Ant™nio Tempo, Amor, Tradi�‹o – ANO V – 2001 (MOSTRA DE ARTE – de 1¼ a 13 de junho, Centro de Mem—ria dos Correios, desenho s/i, acr—stico, 24 p.,  junho de 2001.

3.             Mouraria, tradi�‹o Mouro Cigana, desenho s/autoria, acr—stico. 16 p. outubro de 2001.

4.             A poesia esculachada dÕEle, o Tal Cu’ca de Santo Amaro, xilo com a figura do poeta popular Cu’ca de Santo Amaro, de autoria do xil—grafo Natividade, acr—stico, junho de 2002.

5.             Pop— do Macul�l� de Santo Amaro, 2» edi�‹o, desenho, agosto de 2002.

6.             O encontro de Besouro com o valent‹o Doze Homens, 4» edi�‹o, acr—stico, desenho s/identifica�‹o, setembro de 2002.

7.             Usar ChapŽu – uma arte milenar, 12 p‡ginas, desenho s/autoria – acr—stico, outubro de 2002

8.             Se a ferrovia traz progresso e porque o trem parou?, 16 p‡ginas, acr—stico. Funda�‹o Luis Ademir de Cultura, S‹o FŽlix/Bahia, 2002.

9.             Akar‡-Je – o mesmo que comer fogo, xilo: Natividade, 8 p‡ginas, acr—stico, janeiro de 2003.

10.          O sacerd—cio humanista de Monsenhor Gaspar Sadoc, 8 p‡ginas, acr—stico, mar�o 2003, foto do Padre.

11.          Manuel Faustino dos Santos Lira, o m‡rtir santo-amarense da Conjura�‹o Baiana, desenho s/ident, 12 p., acr—stico, abril de 2003.

12.          Feli�a – uma prostituta que ensinou uma gera�‹o inteira, 8 p‡ginas, Xilo Luiz Natividade, com acr—stico, abril de 2003.

13.          Dona Can™[21], referencial de M‹e e de Sabedoria, 12 p‡ginas, acr—stico. Capa, foto de D. Can™, setembro de 2003.

14.          Aprende a escrever na areia, desenho sem identifica�‹o, 8 p‡ginas, acr—stico, com informa�‹o aos leitores, no verso da capa, Çque a hist—ria foi inspirada na obra de Malba TahanÈ. Na capa: ÇD� cordel de presenteÈ[22], dezembro 2003.

15.          Palmares, a for�a da ra�a negra, xilo s/i, 20 p‡ginas, acr—stico fora do padr‹o.

16.          P‡ginas, acr—stico, fevereiro de 2004.

17.          Louva�‹o do poeta ˆ Funda�‹o Cultural do Estado da Bahia, abril de 2004.

18.          Igrejas da Bahia, um estado de esp’rito, desenho s/identifica�‹o, (Espa�o Cultural In‡cio da Catingueira), 28 p‡ginas, acr—stico, dezembro de 2004.

19.          O encontro de Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo, junho de 2005, com 26 p‡ginas e um acr—stico. Na capa, desenho dos dois poetas: por Natividade (A. Vieira) e Toss‡n (A. Aleixo). ContŽm um texto de Joaquim Magalh‹es, datado de fevereiro de 1975 – Actualidade Viva de um poeta Morto.

20.          Assis Valente, o santamarense que queria ver Tio Sam tocar pandeiro, 8 p‡ginas, acr—stico, s/d.

21.         

Fonte: Foto da autora.

Fonte: Foto da autora.

A Peleja da ci�ncia com a sabedoria popular, xilo de Gabriel Arcanjo e Luiz Natividade, contra-capa, Hino Nacional de CDA (uma quadra), 65 p. Acr—stico. 3» edi�‹o, junho de 2013.

Figura 16 – Espa�o Cultural In‡cio da Catingueira, criado por Ant™nio Vieira e sediado em sua pr—pria casa


Figura 15 ‒ Capas de folhetos de Ant™nio Vieira

 

 

Os dois Ant™nios: Aleixo e Vieira

Ant—nio Aleixo e Ant™nio Vieira viveram em espa�os e tempos distintos. Enquanto o Ant—nio Aleixo viveu um momento em que n‹o se assistia, se vivia, Žpoca em que Òuma corrente magnŽtica ligava todas aquelas almas, tornando-as solid‡rias na comunh‹o emotivaÓ (TORGA, 1960, p. 68), Ant™nio Vieira viveu e transitou em outros espa�os e outra Žpoca, exatamente entre as quatro œltimas dŽcadas do sŽculo XX e a primeira dŽcada do sŽculo XXI (1962-2010).

Ant—nio Aleixo ficou dividido entre alguns espa�os: o de sua origem em Vila Real (centro piscat—rio), o de LoulŽ (agr‡rio artesanal) e onde se deu seu real assentamento a partir da inf‰ncia, vida inst‡vel e por pouco tempo em Fran�a, passagem importante por Coimbra. Nos anos 1930-1940, o poeta conviveu em muitos encontros com reconhecidos algarvios, que se pronunciavam quanto ao inconformismo da pol’tica, eram anticlericais e com assentados princ’pios Žticos.

O conjunto da obra de Ant—nio Aleixo mostra um grau elevado de insatisfa�‹o com o mundo. A melancolia e a s‡tira compuseram a maior parte de sua obra e isto Ž um consenso entre os pesquisadores.

Ant™nio Vieira tambŽm ficou dividido entre alguns espa�os: o de sua origem como filho mais velho do dono de um pequeno armazŽm na cidade de Santo Amaro da Purifica�‹o (quando crian�a, escrevia ÒversinhosÓ no papel de embrulho das mercadorias), depois a circula�‹o por v‡rios estados do Brasil, a servi�o de uma institui�‹o federal (INCRA), atŽ se firmar em Salvador, capital da Bahia. Mas, quis atravessar o Atl‰ntico para sentir os ares da terra por onde transitou o poeta portugu�s Ant—nio Aleixo.

O conjunto da n‹o extensa obra de Ant™nio Vieira mostra uma consci�ncia de seu fazer art’stico como uma forma de conscientizar seu povo e fazer isto tambŽm de maneira divertida, em busca por reiventar alegrias. A s‡tira de sua poesia convergia para uma s‡tira ÒjocosaÓ, em que o riso se unia ˆ reflex‹o, pois n‹o visava o c™mico. Assim, de maneira camale™nica, apontava sua ironia tran�ada de sutilezas para tratar da realidade social da Žpoca.

Por sua presen�a, impressa de forma indelŽvel na mem—ria dos poetas, dos cantadores, dos estudiosos da cultura popular, dos intelectuais e do pr—prio povo portugu�s, como figura de proa, agitador, refer�ncia, Ant—nio Aleixo, artista de destacada produ�‹o, um expert na arte da performance, transformou-se em l’der e numa espŽcie de modelo.

Ant™nio Vieira ainda Ž muito pouco estudado e, portanto, n‹o tem uma fortuna cr’tica, m’nima que seja, sobretudo no Brasil, um pa’s que mantŽm, n‹o t‹o aparentemente mas com um delicado desdŽm, uma separa�‹o entre os poetas ÒeruditosÓ e ÒpopularesÓ. Muito me chama a aten�‹o, em Portugal, uma aura m’tica em torno do Aleixo, o que acho instigante e bastante pertinente.

Ah! Sedu�‹o (se-ducere: afastamento, desvio do caminho, encanto, atra�‹o, fasc’nio), jogo e desafio, lance de dados, ritual sem vencedor nem vencido, presen�a do trompe lÕoeil, espa�o onde se assentam as marcas da ilus‹o. Mas o momento da sedu�‹o n‹o Ž s— ilus—rio, tem um qu� de m‡gico, de encanto. A sedu�‹o, rito articulado no imagin‡rio, encena uma espŽcie de fantasia do real.

A pr—pria rever�ncia de parte do poeta Ant™nio Vieira diante da obra de Aleixo foi o eixo central para este estudo. Seduzido pela obra poŽtica de Aleixo, Vieira (2005, p. 5-6) buscou identificar-se, de certa maneira, com o poeta portugu�s.

 

Por termos muito em comum

Desde as ra’zes da terra

Porquanto seu sangue bom

As minhas veias preserva

No ano 49

Eu cheguei aqui no orbe

Voc� foi pra vida eterna.

 

As nossas vidas coincidem

Nascemos no mesmo m�s

Voc� no dia dezoito

Dezenove foi minha vez

Voc� veio c‡, primeiro

E o m�s de fevereiro

Nos recebeu bem cort�s.

 

E a partir de agora

Eu passo a versejar

Baseado em sua obra

As cantigas de atirar

Vou repetir uma linha

Com a qual eu fa�o a minha

Quadra que vai se casar.

E, assim, em pleno per’odo de uma pandemia, covid-19, meu deslocamento para pesquisas, aqui no Brasil, se deu movida pelo imagin‡rio. Em companhia desses dois poetas, busco perambular pelas ruas de LoulŽ ou da Bahia, insistindo na capta�‹o dos sentidos, do olfato ou da audi�‹o de momentos n‹o vividos. Por intermŽdio desses poetas, recomponho mapas e, imaginariamente, percorro ruas, becos, mercados e feiras populares para, em seguida, desenh‡-los na minha escrita. Assim, esses poetas procederam, observadores infatig‡veis da vida s—cio-pol’tica de sua polis.

Escrito por um poeta de acentuado esp’rito cr’tico, o folheto h’brido[23] – septilhas e peleja em quadras – com a vers‹o do encontro fict’cio entre o Ant—nio portugu�s e o Ant™nio brasileiro, Ž uma viagem pela imagina�‹o. Com sua palavra cheia e cantante, Ant™nio Vieira se insere, agora, no rol dos criadores de viagens fant‡sticas.

A narrativa de viagem real de Ant™nio Vieira exp›e a experimenta�‹o ao vivo das mais variadas manifesta�›es art’sticas de nossos antepassados portugueses: poesia, mœsica, drama. Na volta, sob a a�‹o da mem—ria e da imagina�‹o, selecionou os fatos experenciados e os metamorfoseou em viagens fict’cias.

 

Figura 17 ‒ Capa de folheto


Fonte: Acervo da autora.

 

 

Ë guisa de conclus‹o ou pensando em concluir

Se, por um lado, utopia pode parecer um discurso ilus—rio, por outro, se apresenta como um poss’vel entendimento do real, capaz de transformar o ilus—rio numa fun�‹o construtiva do discurso poŽtico. Desse modo, as decep�›es, os fracassos, as engana�›es convergem para a cria�‹o de novos mundos. Seriam esses novos mundos um refœgio e um testemunho da inadequa�‹o ˆ realidade vivida? Da’ o chamamento para a utopia nesse mundo j‡ considerado Òdist—picoÓ e agora mais acentuada fica essa distopia por conta de um Ònovo normalÓ ou mundo Òp—s-pand�micoÓ.

As reflex›es em torno das obras desses dois poetas apontam uma tem‡tica abrangente que traz reflex›es sobre cultura, mem—ria, tradi�‹o e inven�‹o, tra�os que convivem conosco neste nosso mundo de hoje, marcado pela instabilidade e pela imprevisibilidade, pela mov�ncia e pelo di‡logo.

Neste in’cio de mil�nio, em que a humanidade em crise (econ™mica, pol’tica, ideol—gica, religiosa, Žtica, afetiva) aferra-se a incertos valores e duvidosas certezas, na busca do para’so perdido do passado, ou de instaurar o para’so poss’vel do futuro, creio que talvez valha a pena enveredar pela mem—ria e pela resist�ncia, sob o foco da cultura.

Nas entrelinhas desse texto, ecos e sons coreografam a dan�a saborosa do(s) saber(es), que, como Barthes vislumbrou, n‹o t�m qualquer tipo de fim, conclus‹o, alvo ou porto.

Este texto toca, aqui, pois, em assuntos candentes para se pensar a rela�‹o da globaliza�‹o e a diversidade cultural e faz um convite: olhar para o mundo e a vida, n‹o como espa�os de certeza, de precis‹o, de hierarquias tra�adas, mas antes de tudo como espa�os moventes, prism‡ticos, onde o que interessa Ž a ilumina�‹o, ao contr‡rio de luzes ofuscantes que impedem o olhar. O ouvinte n‹o vai se guiar por certezas absolutas, mas por curiosas indaga�›es que se mostram no espa�o de reflex›es sobre temas importantes.

Tendo por base dois poetas populares inseridos no par mem—ria/mov�ncia, este texto organizou-se, intencionalmente, no (des)compasso de sequ�ncias. Ao fim e ao cabo, pretendi com essa (des)organiza�‹o erguer uma espŽcie de babel cultural, na qual textos desses poetas tenham voz, em que nos seja permitido ouvir as falas em sua multiplicidade, e enxergar cintil‰ncias de significados.

Cultura Ž express‹o, express‹o que revela sentidos potenciais e infinitamente multiplicados. Assim, a possibilidade de as culturas se aproximarem, se tocarem, dialogarem e atŽ mesmo se completarem, mantendo suas individualidades como signos que produzem interpretantes com modos semelhantes de express‹o, ainda que por meios diferentes, ou suportes, para falar contemporaneamente.

As culturas n‹o s‹o excludentes, e, muito pelo contr‡rio, desembocam num ponto de conflu�ncia. E nesse ponto, com base nas ÒestratŽgias sens’veisÓ (SODRƒ, 2016), o Òlugar singular’ssimo dos afetosÓ atravessa e ilumina meu nœcleo de investiga�‹o que envolve a ideia de voz como espa�o de fronteiras entre culturas, como um tecido de tramas entre mem—ria, hist—ria, encena�‹o (corpo), tra�o, olho e letra – diferentes vozes que permeiam o que chamamos de poŽtica das culturas orais – e que, inscritas no presente, formam teias de contato com aquelas vozes marcadas na hist—ria.

Falo de textos que, resguardados pela impress‹o tipogr‡fica, trazem marcas acentuadas da voz, textos hibridizados entre sil�ncio, voz, gesto, imagem, mas percebidos tambŽm como performance do corpo, onde se d‡ a plenival�ncia da voz viva, dos fen™menos que remetem ˆ vocaliza�‹o, ˆ visualiza�‹o e ˆ gestualidade. O que se pretendeu aqui foi priorizar a voz poŽtica enquanto corpo e imagem. Na escuta de uma voz, na mirada de uma imagem, o leitor/receptor reencontra uma sensibilidade ÒanestesiadaÓ, ÒadormecidaÓ. O leitor/receptor, agora despertado, passa a ser uma espŽcie de coautor. E o despertar, enfim, de novos olhares, bem como o rompimento de um modelo est‡tico e convencional de nossas percep�›es, constituem-se em pontos fulcrais de reflex‹o sobre o poŽtico como um locus de resist�ncia e transgress‹o.

A poesia n‹o foi feita para ser lida t‹o somente em sil�ncio. Exige ser pronunciada, proferida em voz alta, j‡ que a palavra original Ž voz, Ž som. E a voz Ž a semente inaugural de toda comunica�‹o.

Apesar de escrita na maioria das vers›es e destinada, pois, a ser lida, a poesia traz em sua origem, e atŽ mesmo no corpo de sua escritura, a vibra�‹o da voz. O que a caracteriza, antes de tudo, Ž seu acento oral (mais acentuado, gritante, mais sutil), seus aspectos perform‡ticos (em maior ou menor grau), ou atŽ mesmo uma voz sem corpo (na aus�ncia do poeta ou diseur), apenas eco ou som de um fantasma, que invade nossos ouvidos.

Essas narrativas em versos metrificados s‹o, sem dœvida, baseadas em modelos que s‹o recriados com base na circula�‹o de elementos textuais viajantes, n™mades, que se combinam aqui e ali, fazendo surgir hist—rias sempre prontas a se refazer na infinitude das leituras poss’veis. Num complexo processo da boca ao ouvido e do ouvido ˆ boca, ocorre o afastamento gradativo da matriz original. E a modifica�‹o da matriz original de um texto assentado na tradi�‹o tem, a meu ver, um aspecto transgressor, que seduz pela novidade, oriunda da imagina�‹o, essa Òforma de aud‡cia humanaÓ, como acentuou Bachelard.

A voz do poeta popular inquieta, se adentra em variados mundos, transmite verdades e sonhos. Essa voz em muta�‹o se reelabora constantemente, tecendo e retecendo os retalhos da tradi�‹o em formas novas e fisionomias particulares.

Ambos os poetas, aqui redesenhados, exp›em o real, transfiguram-no imaginariamente, com o intuito de inscrever, no espa�o da p‡gina em branco ou no palco da oralidade, o tra�ado cambiante de suas mœltiplas viagens pelas veredas da poesia.

Enfim, h‡ Ant—nio Aleixo e h‡ Ant™nio Vieira que deixam marcas em suas obras, cicatrizes que apontam para a complexidade de suas for�as interiores, convergentes todas para um nœcleo de fogo e ar, onde crepitam as chamas da paix‹o e da liberdade. Liberdade na Paix‹o. Paix‹o pela Liberdade. Paix‹o e Liberdade – palavras de ordem desses dois poetas.

 

Refer�ncias

 

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[Recebido: 22 set 2020]

PRINCêPIOS DE UM SISTEMA EDITORIAL

 

PRINCIPES D'UN SYSTéME ƒDITORIAL

 

Maur’lio Antonio Dias de Sousa[24]

 

Resumo: Este trabalho objetiva mostrar a din‰mica da publica�‹o do folheto[25], entre os anos vinte e setenta, tendo como objetivos: a) refletir sobre as rela�›es humanas de produ�‹o que ocorriam no entorno da casa editorial entre o poeta-editor e os demais sujeitos envolvidos nesse processo de produ�‹o, e b) observar os aspectos referentes aos Elementos Instauradores e ˆ Ordena�‹o Funcional. Neste contexto a discuss‹o te—rica que apresentamos tomou por base os estudos e pesquisas desenvolvidos por Sousa (2009, 2016) os quais nos conduziu ˆ percep�‹o da complexidade das rela�›es de produ�‹o no interior do universo da chamada ÒLiteratura de CordelÓ.

Palavras-chave: Produ�‹o. Poeta. Editor. Casa Editorial.

 

 

RŽsumŽ: Nous mettons en relief dans ce travail la dynamique de la publication du cordel, entre les annŽes Vingt et Soiaxante-dix, ayant pour objectifs: a) de reflechir sur les raports humains que avaient lieu dans les maison dÕŽditions entre le poŽte-editeur et dÕautres personnes participant dans les processus de production du cordel; et b) dÕobeserver des aspects concernant les ƒlŽments Instaurateurs et Ordre Fonctionnel. Dans ce contexte, la discussion thŽorique prŽsentŽe Žtait basŽe sur les Žtudes et recherches dŽveloppŽes par Sousa (2009, 2016) lesquelles nous ont conduit ˆ comprendre la complexitŽ des rapports de production de ce quÕon apele ÒLiteratura de CordelÓ.

Mots-clŽs: Production. PoŽte. ƒditeur. Maison dÕŽdition.

 

 

Introdu�‹o

 

A din‰mica do processo de produ�‹o poŽtica, que surgiu com os poetas-editores, difere de todos os tipos tradicionais de enuncia�‹o da poesia popular nordestina, manifestando-se de maneira envolvente, ampla, complexa, estruturante e sist�mica, sem precedentes: neste sentido, revolucion‡ria. Trata-se de uma pr‡tica editorial que, longe de ser uma mera imita�‹o do formato hegem™nico, concretiza um modelo pr—prio que vai realizar a inscri�‹o e perman�ncia, no mercado de folhetos, de um modo de publica�‹o e circula�‹o nunca visto antes. Para que esse sistema pudesse vir ˆ luz e se estruturar como tal, fez-se necess‡ria a conjuga�‹o de diversos fatores que aqui apresentamos em dois grandes grupos: os Elementos Instauradores e a Ordem Funcional.

 

 

Elementos Instauradores

 

Priorizamos aquŽm o esfor�o em descrever o poeta na fun�‹o de editor, apresentando o seu trabalho como desenvolvimento funcional de sua condi�‹o: propriet‡rio de uma casa editorial de folhetos. ƒ bem certo que o estabelecimento da condi�‹o de poeta-editor sempre representou um marco na carreira do poeta popular. Se comparada com o nœmero dos que n‹o galgavam privilegiada posi�‹o, tem-se a’ um caso de ascens‹o profissional, tanto da express‹o da capacidade aquisitiva como do potencial representativo por parte do poeta-editor no interior desse universo cultural. Se para alguns poetas a carreira de empreendedor editorial fora, de fato, um caminho de sucesso, essa experi�ncia nem sempre significou garantia de �xito profissional, pois para outros que se enveredaram por esse caminho a experi�ncia foi de malogro. H‡ ent‹o um interdito no tr‰nsito entre a posi�‹o de poeta e a de poeta-editor e isso n‹o sugere uma pac’fica acomoda�‹o, ao contr‡rio aponta para uma adequa�‹o exigente.

O desenvolvimento das atividades editorias consagradas ao folheto caracteriza-se, desde sua origem, pela exig�ncia de um capital m’nimo, que normalmente advinha da venda de folhetos nas feiras das cidades extensivas, para que o novo empreendedor viesse adquirir o maquin‡rio b‡sico e dar in’cio ˆs diversas atividades relacionadas ˆ publica�‹o. AlŽm da posse do referido capital inicial, havia que se considerar um outro fator que compunha a g�nese do nascimento do editor: o aprendizado da tŽcnica tipogr‡fica editorial. O poeta, ent‹o editor, era um ne—fito no manuseio dos instrumentos gr‡ficos e na aplica�‹o da tecnologia de editora�‹o o que exigia inicialmente um m’nimo conhecimento sobre os procedimentos de impress‹o. ƒ preciso que se observe as dificuldades e os esfor�os iniciais do poeta-editor que, oriundo da oralidade, com seu modo pr—prio de propaga�‹o[26], se punha, agora, diante da realidade da cria�‹o poŽtica mediada pelo suporte impresso: eis um desafio e uma necessidade de adequa�‹o diante de uma nova ordem de express‹o poŽtica[27].

PorŽm esses elementos preliminares n‹o d‹o conta, por si s—, de explicar a posi�‹o do poeta-editor no mundo da publica�‹o e circula�‹o do folheto. A legitimidade da fun�‹o do editor caracterizava a demanda, no per’odo hist—rico, de sua estabilidade, para alŽm das publica�›es. Essa demanda certamente permitiu ao editor decidir regras, orientar o alinhamento das publica�›es e quais os recursos que melhor a elas se adaptavam. As condi�›es culturais pr—prias do tempo, a vida do campo, as feiras das cidades, as rotas da oralidade poŽtica, tantas narrativas que entrecruzaram poeticamente e tantos autores que se conheceram n‹o fundaram um modo de difus‹o poŽtica apenas pela necessidade da participa�‹o num mercado editorial, nem tampouco s— pela comunica�‹o poŽtica do que representaram: constitu’ram, deveras, um conjunto pr—prio de a�›es espec’fico a um determinado momento cultural e hist—rico no qual se desenvolveu o processo de publica�‹o que ganhou viabilidade mediante os Fatores Estruturais, o Regime Estruturante e as Pr‡ticas Constituintes.

Havia um ordenamento nos acontecimentos e no exerc’cio das diversas atividades dos poetas-editores-impressores as quais j‡ dispunham, naquela conjuntura, de condi�›es hist—ricas favor‡veis que, aliadas aos fatores constituintes e aos procedimentos estruturantes, compuseram os momentos fundadores da editora�‹o de folheto. Tal ordenamento era desencadeado mediante formas diretas ou indiretas que legitimaram a hierarquia dos propriet‡rios das casas editoriais, dando-lhes (ˆs vezes mais, ˆs vezes menos) visibilidade no campo da editora�‹o. A possibilidade de se estabelecer como editor estava diretamente relacionada ˆ potencialidade resultante da combina�‹o dos fatores estruturais que interferiam no desempenho produtivo na carreira desses poetas na nova atribui�‹o de editores-impressores. Os Fatores Processuais, Fatores Substantivos e Fatores Log’sticos estabeleceram uma sŽrie de eixos de interfer�ncias na publica�‹o do folheto, uma espŽcie de influ�ncia cisalhante sobre a produ�‹o, semelhantes na dire�‹o, mas distintos na intensidade; podendo eles influenciar na posi�‹o do editor no interior desse sistema produtivo e na din‰mica do mercado editorial.

 

                               Figura 01 – Quadro dos Fatores Estruturais

  

                        Fonte: Sousa (2016).

 

AlŽm da compreens‹o da interfer�ncia desses fatores estruturais, que serviram como uma espŽcie de padr›es de funcionamento para o desempenho da atividade do editor, Ž preciso tambŽm que se entenda o modo como eles atuavam no lado, digamos, interno das atividades produtivas que compunham o Regime Estruturante.

A prensa e os tipos de ferro tornaram-se, de modo especial no in’cio do sŽculo XX, os meios imprescind’veis pelos quais poderiam ser impressas as narrativas poŽticas que se encontravam vivas e dispersas no imagin‡rio dos poetas populares nordestinos. A certeza da fixa�‹o dos versos em seu suporte impresso atraiu sobremaneira os poetas populares que desejavam ver os seus poemas circulando atravŽs de um novo modo de express‹o: tang’vel, comercializ‡vel, impresso, circulante e manent. ƒ preciso, pois, que essa faculdade seja entendida na perspectiva em que pr‡ticas e legitimidades conservavam uma for�a estruturante. A possibilidade do �xito na carreira do editor, alŽm dos fatores estruturais, estava relacionada, a um regime estruturante que nasce n‹o de uma veleidade, mas de uma exig�ncia real, do exterior, do profissional e que se constitu’ram em tr�s conjuntos: Procedimento Produtivo, Procedimento Competentivo e Procedimento Identificador.

Para se obter uma melhor clareza das a�›es do poeta-editor, presentes no primeiro procedimento, Ž importante a compreens‹o de que o surgimento das tipografias inegavelmente ampliou as formas de publica�‹o, mas que, por outro lado, passou a exigir do poeta-editor, alŽm da posse de recursos necess‡rios para a aquisi�‹o dos recursos gr‡ficos e do dom’nio das pr‡ticas editoriais ao funcionamento, a capacidade de se articular bem nesse mercado, objetivando projetar cada vez mais o seu produto comercial, tornando-o presente em toda a malha de distribui�‹o do folhetos nas ag�ncias espalhadas por todo o norte-nordeste.

No segundo procedimento, observamos o movimento do poeta-editor no esfor�o de estabelecer-se no mercado editorial, esfor�o que ao exigir dele compet�ncia tambŽm delineava o seu perfil, podendo atribuir-lhe uma posi�‹o de destaque. Enquanto as vendas dos folhetos se realizavam nos sal›es, nas feiras e nas diversas ag�ncias espalhadas pelo Brasil, havia um esfor�o por parte dos propriet‡rios das casas editoriais no sentido de um melhor posicionamento e de uma compet�ncia para permanecer em destaque nesse mercado editorial. Foram tomadas de posi�›es que gradativamente hierarquizaram a disposi�‹o dos editores nesse espa�o art’stico e comercial.

ƒ importante notar que, nesse per’odo em que o sistema editorial do folheto vai se estabelecendo, o espa�o de possibilidades n‹o era amplamente aberto a uma multiplicidade participativa dos indiv’duos, tal como o fora no per’odo prŽ-editorial, em que havia possibilidades mais ou menos iguais e em que o acesso era, de certo modo, praticamente livre, no sentido de que, por exemplo, entre os cantadores e os poetas de bancada o ingresso e a perman�ncia profissional n‹o se caracterizava por uma demandas de compet�ncia estruturante t‹o objetivas e pontuais como essas que acabaram por surgir entre os poetas-editores.

Ap—s a institui�‹o do referido sistema, o exerc’cio profissional do poeta, enquanto editor, se reveste de uma exigibilidade n‹o cogitada no mundo da oralidade, mas que agora se imp›e como decisiva entre os sujeitos dessa nova ordem produtiva, isto Ž, passa a ocorrer entre os poetas-editores uma busca pela redefini�‹o dos limites de compet�ncia e de qualidade de produ�‹o. Compet�ncia que se desloca da esfera estŽtica-liter‡ria para a esfera das estruturas e dos procedimentos pr‡ticos pelos quais o poeta viria a se tornar (ou n‹o) um empreendedor capaz de atender ˆs demandas de um mercado editorial em ascens‹o. Na condi�‹o de sujeito editorial, o poeta, conforme o pr—prio perfil de atua�‹o, conquista seu lugar na propor�‹o da sua compet�ncia que se manifesta no interior desse universo em que a complexidade do dinamismo editorial vai se configurando como um sistema capaz, produtivo e atraente.

Nesse espa�o, manifestam-se mais claramente as rela�›es entre os editores que se hierarquizam segundo uma distribui�‹o gradual no ranking editorial. Trata-se de um quadro de coloca�›es que n‹o deve ser entendido como resultado de um œnico coeficiente, ao contr‡rio isso Ž o efeito de um conjunto de fatores que possibilitou visualizar a disposi�‹o relacional entre os editores. Assim eles s‹o representados por suas posi�›es segundo o volume total de suas participa�›es nesse mercado editorial, o que, por sua vez, decorre diretamente das for�as dos fatores estruturais e do modo como o editor reage ˆs demandas o que pode ser avaliado a partir da efic‡cia dos procedimentos estruturantes. Embora n‹o se trate aqui de critŽrios t‹o rigorosos, eles permitem a percep�‹o mais pertinente para que se possa entender o lugar ocupado por determinado editor entre os seus pares na hierarquia que os ordena.

ƒ um mercado atravessado por tens›es objetivas que configuram as posi�›es dos protagonistas editoriais, servindo assim como indicador das habilidades nas rela�›es de influ�ncias e de produ�‹o. Essa configura�‹o revela o prest’gio da casa editorial que se reflete na din‰mica particular das rela�›es de produ�‹o e venda. Nesse territ—rio, define-se o sentido das estratŽgias contidas no processo produtivo, ou seja, nele s‹o dadas as condi�›es que tornam l—gicas as a�›es que visam defender e melhorar a produ�‹o do editor. Isso equivale a dizer que antes mesmo que o folheto se torne objeto de circula�‹o liter‡ria e/ou comercial um universo de rela�›es, tens›es, articula�›es e tomadas de posi�›es entre os editores caracterizam o processo produtivo e o definem com suas marcas pr—prias e, justamente, em decorr�ncia disso, o folheto surge como um suporte indicador da efici�ncia editorial. Pelas caracter’sticas estruturais desse sistema, pode-se afirmar que o grau de maestria entre os editores foi algo percebido em determinados momentos de tens‹o nesse espa�o e que pode ser entendido como componente de sua g�nese.

Esbo�a-se assim um novo rosto do poeta popular que ao tornar-se editor vai lidar com a realidade da qualifica�‹o de um produto material. Logo, est‡ na base dessa din‰mica de publica�‹o a tens‹o original das rela�›es de destreza pela qual o poeta-editor passa a perceber uma demanda que extrapola a qualidade liter‡ria: a compet�ncia produtiva. Nova realidade que nasce com o surgimento do suporte impresso, elemento causal desse novo rosto do poeta – o rosto do editor competente, rosto que se espelha no produto de seu produto: o folheto. ƒ a din‰mica do pr—prio sistema editorial – edi�‹o → impress‹o → distribui�‹o → comercializa�‹o – que levou o editor a interpretar as significa�›es pr‡ticas da produ�‹o como uma atividade competente que precisa ser dotada de uma compet�ncia para alŽm do aspecto estŽtico; conduzindo, desse modo, o editor a captar a perspectiva de exig�ncia na medida em que s— ele pode capt‡-la; na especificidade do exerc’cio do seu pr—prio trabalho: na sua fun�‹o de editor.

No decorrer da dŽcada de 1920, a editora�‹o do folheto come�a a construir as suas bases mais consistentes. Nesse per’odo, tra�os internos e externos delineiam a face desse sistema. S‹o transforma�›es estruturais que dizem respeito n‹o s— ao formato editorial do folheto (fatores internos) como ao seu modo de produ�‹o e comercializa�‹o (fatores externos). V�-se, por a’, a exist�ncia de condi�›es materiais e culturais favor‡veis impulsionadoras da carreira profissional do editor no sentido de que ela viesse atingir gradativamente um grau de profissionaliza�‹o atŽ ent‹o nunca visto, uma vez que, antes desse per’odo, o pr—prio autor se encarregava, por exemplo, das responsabilidades individuais de viabilizar a impress‹o e a venda dos seus pr—prios folhetos, realidade que se modifica gradativamente com o estabelecimento das casas editoriais e da rede de agentes distribuidores. Pode-se afirmar, portanto, que o folheto, no final da referida dŽcada, j‡ reunia as condi�›es estruturais e o grau suficiente de profissionaliza�‹o para dar sustenta�‹o a um universo liter‡rio configurado por um sistema de produ�‹o aut™nomo embasado em editores, autores, ilustradores, estrutura de publica�‹o, rede de difus‹o e mercado pr—prios.

O terceiro procedimento j‡ nos permite entender a hierarquia na qual se distribui os diversos sujeitos implicados nesse espa�o poŽtico popular. Dois modos de legitima�‹o se definiam: o da oralidade, das fun�›es de cantador e o do impresso, das fun�›es do poeta de bancada, do poeta-editor, etc. O reconhecimento do cantador, como exerc’cio profissional, inicia-se na aceita�‹o popular e legitima-se, entre seus pares consagrados, no emparceiramento d�itico em momentos de cantoria. N‹o se trata mais de uma simples parceria para mais um momento de apresenta�‹o, de espet‡culo e de legitima�‹o do sujeito; nele se exercita a observa�‹o criteriosa, se analisa performances, perfis s‹o avaliados, se faz distin�›es, se definem qualidades, se apontam n’veis, se explicitam categorias, edifica-se um c‰non, constitui-se, assim, um procedimento identificador. Tal procedimento Ž uma tradi�‹o entre os cantadores e cada um reconhece os seus processos de canoniza�‹o na arte, perante seus companheiros e/ou mestres e tambŽm legitimadores. O uso que os poetas fazem dos nomes dos mestres/autoridades que os precederam e que s‹o consideradas por eles elementos representativos da poesia popular Ž um reconhecimento que Ž tambŽm busca de legitimidade e constru�‹o de prest’gio.

Diferentemente do aspecto perform‡tico do processo de legitima�‹o na oralidade, para o poeta de bancada, tudo se inicia a partir da publica�‹o do primeiro folheto, segue-se depois na avalia�‹o mediante a sua recep�‹o no mercado, seguindo pelos indicadores de novas tiragens e reedi�›es t’tulos e, por fim, na opini‹o dos seus pares e do pœblico consumidor que, em œltima inst‰ncia, consagra o autor e consolida as obras cl‡ssicas. Primeiro, o poeta escreve e publica os seus folhetos. E essa nova posi�‹o se fortalecer‡ se vier coroada de reedi�›es. Para o poeta de bancada, a escrita do folheto correspondia aproximadamente ao seu rito de passagem, Ž pela publica�‹o que o poeta inicia o seu processo de canoniza�‹o no universo da poesia escrita. Evidentemente que n‹o se pode pensar na exist�ncia de uma classifica�‹o r’gida nesse processo se o nosso paradigma for estranho ao pr—prio processo, todavia se percebe com clareza e objetividade as posi�›es hierarquicamente ocupadas.

 

 

 

 

 

 

Esse procedimento nos mostra os sujeitos compondo duas esferas, de posi�‹o e de disposi�‹o, em uma din‰mica de a�‹o e correla�‹o cont’nuas e mut‡veis. A esfera da posi�‹o se caracteriza por ser designativa, ao nomear as fun�›es dos sujeitos, tais como a do cantador, do poeta de bancada, do poeta-editor, do ilustrador, etc.; Ž intersubjetiva, no modo das rela�›es por ser entre os sujeitos da mesma esfera: Autor ↕ Editor ↕ Ilustrador; Ž adjetival, ao delinear aspectos qualitativos, poeta-maior, poeta-menor, editor-maior, editor-menor, etc. e, em decorr�ncia disso Ž vertical, pois estabelece uma hierarquia.

 

                                                       Figura 02 – Esfera da Posi�‹o

                            

                                                      Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

 

Na esfera da disposi�‹o, as rela�›es se caracterizam por serem extra subjetivas entre sujeitos de esferas distintas: Autor 1 ↔ Autor 2, Editor 1 ↔ Editor 2, Ilustrador 1 ↔ Ilustrador 2; mensurativa, por levar em considera�‹o a quantidade das produ�›es, a exemplo do nœmero de tiragens, as reedi�›es, as aquisi�›es de t’tulos, etc.; horizontal, pois o aspecto produtivo n‹o se vincula necessariamente ao aspecto adjetival.

                                                                 

                                         Figura 03 – Esfera da Disposi�‹o

                             

                                           Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

A esfera da posi�‹o possibilita a clareza da diferencia�‹o das fun�›es que se tornam afetadas n‹o pela simples distin�‹o de si mesmas, mas em decorr�ncia do atributo adjetival que posiciona o sujeito no interior da sua esfera o que vai influenciar nas rela�›es, posto que quanto mais favor‡vel for a sua posi�‹o melhor ser‡ a rela�‹o de compet�ncia diante dos seus pares. O destaque do sujeito no interior da esfera de posi�‹o, isto Ž, o reconhecimento de uma condi�‹o qualitativamente mais positiva n‹o s— define o seu destaque entre os pares como lhe favorece profissionalmente, possibilitando-lhe mais visibilidade. Em consequ�ncia disso, ocorrem, nessa esfera, embates entre os pares que est‹o ligados a diversos conflitos, tais como, conflitos de compet�ncia, conflitos de legitimidade do exerc’cio da fun�‹o, etc., o que Ž pr—prio das rela�›es de ajuste de posi�‹o nessa esfera. As posi�›es geram os seus pr—prios pretextos que legitimam os conflitos de compet�ncia na din‰mica das posi�›es.

Por outro lado, a esfera da disposi�‹o porta tens›es em estado de exig�ncias objetivas, de conflitos de compet�ncia decorrentes da condi�‹o do sujeito na esfera da posi�‹o. Tendo a compet�ncia como fim œltimo a distin�‹o. Entre os editores, por exemplo, Ž sinal de distin�‹o, entre outros fatores, a aquisi�‹o de novas m‡quinas de impress‹o, o aumento das tiragens, o aperfei�oamento da qualidade editorial das publica�›es, ou ainda, o aumento do nœmero de funcion‡rios. Esses ganhos representam para o editor, alŽm da prosperidade material, destaque e legitimidade entre seus pares.

Nesse sentido, as tiragens, o potencial gr‡fico, o nœmero de bons t’tulos e o fluxo de autores em evid�ncia, circulando na casa editorial, expressam o potencial econ™mico, o raio de a�‹o e de interfer�ncia do editor entre os demais sujeitos vinculados ao mecanismo de publica�‹o e circula�‹o do folheto. Portanto se estabelece a’ uma postura fundamental de mercado que Ž a de influ�ncia e, consequentemente, de produtividade que se expressa no prest’gio da casa editorial e que se reflete numa postura orientada a dinamizar o seu locus produtivo, o que remete ˆ necessidade de requisitos que propiciem ao editor melhores condi�›es de compet�ncia no mercado.

ƒ, portanto, na esfera da disposi�‹o que se engendram tens›es de ordem quantitativa, voltados ˆ produ�‹o, a exemplo de conflitos de legalidade de autoria, conflitos de direito de publica�‹o, formatos editoriais, formalidades e legalidades contratuais, etc., conforme atestam os tipos de Declara�‹o, a exemplo da Declara�‹o Imediata, Declara�‹o Mediata-Representada, Declara�‹o Mediata-Intermediada e Declara�‹o Mediata-Adquirida.[28] Nessa esfera se estabelece uma din‰mica de rela�›es na qual o poeta-editor desempenha um papel decisivo.

                                               Figura 04 – Gr‡fico da fun�‹o poeta-editor

                                    

                           Fonte: Sousa (2009).

 

Trata-se aqui, portanto, de uma circunst‰ncia de defini�‹o nesse espa�o cultural, um momento em que se busca a categoriza�‹o do modo como o sujeito participa, entre seus pares, de um processo de identifica�‹o. ƒ um procedimento categorial como forma de classifica�‹o e representa�‹o do sujeito que passa a exercer uma lideran�a legitimada.

Todavia n‹o se pode perder de vista que a classe dos poetas-editores de folhetos se constituiu numa categoria social e culturalmente distinta dos demais empreendedores do ramo gr‡fico, antes de tudo por ser essencialmente formada por produtores culturais, isto Ž, por produzirem cultura liter‡ria. O poeta-editor produz a cultura na medida em que torna publica uma estŽtica liter‡ria e, ao mesmo tempo, edifica a legitimidade de sua fun�‹o que n‹o se reduz ao trabalho de publica�‹o, mas que tambŽm n‹o pode ser compreendida sem ele. A atividade do poeta-editor Ž uma fundamentalmente uma din‰mica relacional entre ele e o autor, seguida de um complexo de rela�›es tambŽm com os demais sujeitos part’cipes do processo produtivo no qual o poeta-editor intermedia, orienta, regula, comunica, enfim, gesta a rela�‹o de produ�‹o do folheto que se engendra nas rela�›es humanas de produ�‹o entre os diversos sujeitos envolvidos nesse processo. Esse mecanismo de produ�‹o e circula�‹o Ž o que comp›e a for�a do Regime Estruturante.

Nas Pr‡ticas Constituintes, deparamo-nos com a�›es do poeta-editor que contribu’ram para refor�ar a sua pr—pria fun�‹o. A legitimidade da fun�‹o do editor caracterizava a demanda, no per’odo hist—rico de sua estabilidade, para alŽm das publica�›es dos folhetos. Essa demanda certamente permitiu ao editor decidir regras, o alinhamento das suas publica�›es e os recursos que melhor a elas se adaptariam. As condi�›es culturais pr—prias do tempo, a vida do campo, as feiras das cidades, as rotas da oralidade poŽtica, tantas narrativas que entrecruzaram poeticamente e tantos autores que se conheceram e se ignoraram em uma din‰mica global que n‹o dominavam – cujo todo n‹o perceberam e cuja amplitude lhes escapava; todos esses sujeitos e articula�›es n‹o fundaram apenas um modo de difus‹o poŽtica, produziram, sim, uma ruptura no exerc’cio tradicional, estabelecendo um marco entre o tradicional e o novo no universo da produ�‹o poŽtica popular, compondo, desse modo, o conjunto das intermedia�›es do poeta-editor, isto Ž, as Pr‡ticas Constituintes.

 

 

A Ordena�‹o Funcional

 

ƒ preciso ent‹o que se entenda agora que o Sistema de Publica�‹o do Folheto apresenta uma dupla-face. Numa delas est‹o os Elementos Instauradores que s‹o os Fatores Estruturais, o Regime Estruturante e as Pr‡ticas Constituintes, acima apresentados, e, na outra face a Ordena�‹o Funcional composta da Comunica�‹o Aplicada, da Media�‹o Produtiva e da Solidariedade Vinculante.

A casa editorial especializada na publica�‹o e/ou comercializa�‹o do folheto, deve ser, antes de tudo, concebida como uma ambitude da circula�‹o do poŽtico, do cultural e do trabalho de publica�‹o que articulava no seu interior os mecanismos de reprodu�‹o material e simb—lica do folheto; envolvendo, assim, aspectos editoriais, comerciais, liter‡rios, culturais. Nesse sentido, era uma realidade caracterizada por uma realidade complementar portadora de expectativas apoiadas em duas esferas que se complementam: a) o lugar da produ�‹o e b) lugar da cultura popular. O primeiro Ž o lugar das propriedades que constituem o cen‡rio das rela�›es de produ�‹o e o segundo, o lugar da cultura popular, o lugar do pœblico consumidor do folheto, bojo inspiracional donde as tradi�›es culturais entrela�adas de vozes e de textos emanam para o lugar do poeta e dele para o lugar da produ�‹o; integra�›es horizontais entre o lugar da produ�‹o e o lugar da cultura; abrindo-se, desse modo, dutos culturalmente comunicantes entre o interior da casa editorial e esse mundo do povo; linhas de circula�‹o entre o mundo da casa e o mundo l‡ fora; conjuga�›es entre a tipografia que imprime versos, dando conta de estetizar o mundo do homem, e o mundo do povo das feiras, dos mercados populares e das pra�as, exatamente o lugar onde o liter‡rio popular tem, ao mesmo tempo, seu ponto de partida e de chegada de modo mais efervescente, real e humano.

                                     Figura 05 – L.P: Lugar de Produ�‹o

                                                       C.A: Comunica�‹o Aplicada

                                                       L.C: Lugar da Cultura Popular

 

                                  

                   Fonte: Arquivo pessoal (2020).

O espa�o editorial deve ser entendido como um componente indispens‡vel ˆ din‰mica produtiva do folheto; uma esfera de di‡logos, acordos e intera�›es; um solo situado segundo uma topografia m—vel entre a casa editorial e o mundo da cultura popular, real, vivido l‡ fora; um tecido onde se encontram dois caminhos complementares e voltados a um mesmo fim que diz respeito ao interesse comum das partes envolvidas; um territ—rio de publica�‹o onde se oportuniza de uma maneira ou outra, a chance de se projetar autores e obras populares; o lugar da possibilidade de produ�‹o comercial que n‹o se permite ocupar inteiramente por uma mentalidade mercantilista; um campo onde se partilha um sentimento de pertencimento comum; a condi�‹o essencial de consenso que facultar‡ a experi�ncia de um tipo particular de rela�‹o humana num contexto de produ�‹o: a Intera�‹o Consensual.

ƒ a Intera�‹o Consensual uma capacidade pr‡tica que os sujeitos poŽticos e/ou produtivos t�m de se relacionarem inter e entre grupos, visando racionalmente objetivos que podem ser interpretados a partir dos procedimentos por eles mesmos adotados. Entendendo-se que o papel exercido por essa racionalidade se torna eficaz na medida em que n‹o se identifica com uma unilateralidade produtiva, voltada apenas aos meios de obten�‹o de fins imediatos, mas, ao contr‡rio, tambŽm tem como finalidade integrar os sujeitos produtivos entre si e com o pr—prio trabalho o que significa tambŽm um maior disp�ndio de esfor�os no sentido de uma busca cooperativa de consensos. Ent‹o as rela�›es de intera�‹o atuam como um princ’pio ativo, condutor e renovador do mecanismo de participa�‹o e comunica�‹o, uma vez que a din‰mica das demandas produtivas sempre revela o car‡ter provis—rio dos referidos mecanismos. ƒ nessa din‰mica que se d‡ o processo circular entre o lugar da cultura popular e o lugar da produ�‹o como evento de reprodu�‹o simb—lica perpassada pela Comunica�‹o Aplicada.

As rela�›es de intera�‹o se apoiam na poderosa media�‹o da Comunica�‹o Aplicada que se inscreve de maneira sutil em todas as pr‡ticas e processos da produ�‹o, tornando-se assim respons‡vel pela constru�‹o de decis›es segundo as demandas circunstanciais; pelo di‡logo capaz de coordenar entendimentos racionais e produtivos entre as partes envolvidas nesse processo. Torna-se, ent‹o, a Comunica�‹o Aplicada um ve’culo para a partilha dos conhecimentos estŽticos e editoriais e para a troca de argumentos que, livre das amarras e dos constrangimentos de uma rela�‹o humana de produ�‹o demasiada vertical, permite um enriquecimento de pontos de vista e um alargamento de perspectivas que delineia o espa�o da publica�‹o como um campo de possibilidades dial—gicas produtivas, posto que se torna um espa�o fŽrtil para a constru�‹o da opini‹o e da vontade dos sujeitos envolvidos no processo produtivo, onde eles sejam capazes de assumir suas posi�›es diante do que considera razo‡vel inserido na realidade de um contexto de discuss‹o dial—gica e de produ�‹o de sentido de modo partilhado.

Desempenhando, assim, a Comunica�‹o Aplicada um papel importante na busca de entendimento nas rela�›es intersubjetivas ao conquistar, por entre a multiplicidade e por entre determinadas imprecis›es da linguagem cotidiana, o consenso pr‡tico necess‡rio, e isto sem deixar de lidar com a realidade do dissenso, comum ˆ natureza das rela�›es de intera�‹o num contexto de produ�‹o onde os envolvidos s‹o sujeitos participantes e livres, o que n‹o elide a obten�‹o de consensos, ao contr‡rio, os que agem comunicativamente nesse espa�o o fazem com esse fim.

O mundo das rela�›es humanas de produ�‹o do folheto n‹o se alimentava apenas das rela�›es de Intera�‹o Consensual, decorrentes dos consensos alcan�ados sob os pressupostos da Comunica�‹o Aplicada, mas tambŽm da concilia�‹o entre as demandas internas da casa editorial e as do mercado consumidor, as quais influenciavam decisivamente no modo como o poeta-editor iria atuar. E, uma vez que essas demandas exigiam um ajuste para um melhor funcionamento interno da casa, a fun�‹o de media�‹o surgia, ent‹o, como ponto de equil’brio entre essas vari‡veis. N‹o caracterizava a media�‹o na intera�‹o a rigidez e as formas premeditadas, ao contr‡rio disso, operava na flexibiliza�‹o e na real possibilidade de mudan�a no exerc’cio da media�‹o, sem diminuir-lhe a efic‡cia; modificando-se n‹o s— no plano da a�‹o entre o poeta-editor e cada autor em particular, como tambŽm entre ele e os demais sujeitos part’cipes, da’ resulta a Media�‹o Produtiva.

O sujeito condutor das rela�›es de media�‹o, no caso o poeta-editor, Ž denominado mediador, posto que Ž ele o protagonista do di‡logo entre as partes – editor ↔ autor / editor ↔ ilustrador / editor ↔ distribuidor – mediante a resolu�‹o de demandas voltadas ˆ ordem da publica�‹o, isto Ž, direitos de publica�‹o e regras do mercado, buscando encontrar uma solu�‹o para as quest›es de modo que satisfa�a os interesses de ambas as partes. Sua influ�ncia resulta de sua autoridade que Ž garantida pelos pr—prios envolvidos, e da confian�a que lhe Ž atribu’da e da habilidade que ele tem para intervir nesse tipo espec’fico de negocia�‹o.

Esse tipo de media�‹o se inscreve na hist—ria da editora�‹o do folheto cordel, a partir das primeiras gera�›es de poetas-editores[29], contribuindo para que esse sistema de publica�‹o se tornasse cada vez mais criativo e aut™nomo[30]. E surge como resultado do trabalho constante de negocia�‹o entre os sujeitos diretamente envolvidos no processo de publica�‹o, embasado na autonomia dos participantes, visando, sobretudo atender ˆs necessidades produtivas que exigem sempre serem repensadas em suas poss’veis solu�›es o que per se sup›e um pensar na a�‹o de media�‹o cujos ingredientes se estende a todo o desenrolar progressivo do agir mediador.

Opera, assim, numa din‰mica do pensar e do agir mediativo que quer ser um elo entre os aspectos liter‡rios, editoriais e de mercado os quais podem variar no seu grau de viabilidade, mas que precisam ser conciliados tendo em vista o seu fim œltimo. ƒ a Media�‹o Produtiva um meio de constru�‹o de poss’veis solu�›es, um instrumento privilegiado para a cocria�‹o de significados, entre interlocutores, viabilizada concretamente pela Comunica�‹o Aplicada, visando atingir solu�›es produtivas no sistema de publica�‹o e, justamente por isso, deve ser sempre um meio de resolu�‹o de conflitos e demandas no qual o mediador necessariamente deve ser um sujeito que desfrute de uma certa ascend�ncia sobre os demais, sendo isso substancialmente decorrente da posi�‹o que ocupa diante das partes.

ƒ pela media�‹o que deve passar a efici�ncia comunicativa capaz de reunir satisfatoriamente pouco a pouco as aspira�›es das partes envolvidas; passagem que, observando atentamente as multiplicidades de demandas, precisa criar condi�›es capazes de conjugar elementos oriundos de uma ordem interior de produ�‹o ˆs necessidades reais de um mercado; articula�‹o que, ao mesmo tempo, precisa corresponder a uma ordem exterior que se imp›e e a uma ordem interior que deve gerar meios para uma participa�‹o interativa.

No desempenho da Media�‹o Produtiva, a Intera�‹o Consensual Ž um princ’pio condutor porque Ž espŽcie de energia para o processo e, assim sendo, o Ž em dois sentidos: conflu�ncia e irradia�‹o.

 

Figura 06 – Gr‡fico da Intera�‹o na Media�‹o

                                      

                          Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

No primeiro sentido, a Intera�‹o Consensual Ž conflu�ncia na Media�‹o Produtiva por ser sinal de unidade para as partes envolvidas, uma vez que, por ela s‹o perpassadas, no segundo sentido ela Ž irradia�‹o para as mesmas partes dos diversos campos produtivos em decorr�ncia da sua perspectiva aplic‡vel que age como concretiza�‹o e aperfei�oamento das demandas portadas por ambas as partes em quest‹o. A Intera�‹o Consensual converge para o interior da Media�‹o Produtiva o acordo e impulsiona para fora a decis‹o tomada em forma de produ�‹o e expans‹o consensual e pragm‡tica.

O trabalho do mediador n‹o se reduz ˆ resolu�‹o de conflitos, frequentemente ele age, pautado em sua experi�ncia, de forma preventiva sugerindo procedimentos que evitem ocasion‡-los, sendo assim, para determinadas circunst‰ncias, ele se empenha mais na regula�‹o de rela�›es que na solu�‹o de conflitos. E por ser um processo aberto se nutre constantemente do aperfei�oamento apoiado na Žtica da Comunica�‹o Aplicada, na autonomia e na responsabilidade dos participantes, bem como na autoridade do poeta-editor a qual foi reconhecida pelos mediados num contexto de rela�›es de Intera�‹o Consensual cuja legitimidade foi constitu’da em situa�›es inerente ao espa�o de produ�‹o.

Nesse espa�o, os indiv’duos t�m seu cotidiano imerso numa realidade de rela�›es humanas de produ�‹o, as quais se desenvolvem por meio do di‡logo direto e presencial e, justamente, por isso a casa editorial se torna um ambiente apto para o desenvolvimento de uma forma de comunica�‹o que busca o entendimento voltado a um objetivo pragm‡tico. Isso contribui para que as rela�›es humanas sejam marcadas pelo espontane’smo e favore�a a presen�a de uma solidariedade vinculada, vivenciada nesses espa�o pelos v‡rios profissionais e artistas que, segundo as suas pr—prias fun�›es, estabeleciam uma determinada natureza de contato com o poeta-editor[31] e que s— pode ser entendida a partir de uma intersubjetividade, na qual os sujeitos mediados pela Comunica�‹o Aplicada se entendem sobre os procedimentos produtivos que comp›e esse universo de publica�‹o.

 

 

Considera�›es finais

 

O sistema de publica�‹o do folheto se erigiu como uma for�a de resist�ncia, diante do sistema liter‡rio hegem™nico que se autonomeou de culto e fez-se distinto do popular. Assim sendo, o primeiro estabeleceu-se como um territ—rio de afirma�‹o, de participa�‹o de direitos e de expans‹o de uma estŽtica liter‡ria. E isto s— foi poss’vel por ter viabilizado, em seu interior, rela�›es que vincularam reais movimentos de autossustenta�‹o,[32] ao ter constitu’do seu pr—prio pœblico consumidor, suas linhas e formatos editoriais, sua forma de comercializa�‹o do folheto, bem como a malha de representantes comerciais. Enfim, gerou um ordenamento espec’fico de funcionamento que, alŽm de demarcar a sua autonomia, propiciou o nascimento do editor popular e legitimou a influ�ncia do poeta-editor no processo de publica�‹o.

A causa dessa legitimidade se entende a partir do esfor�o por se penetrar nesse espa�o de sentido relacional que Ž antes de converg�ncia que de produ�‹o. Tentamos aqui descobrir ou desvelar a din‰mica dessa raz‹o convergente que n‹o se deixa definir, captar, apreender, sen‹o nas rela�›es rec’procas entre os sujeitos produtivos, o que s— se torna poss’vel ao percebermos que o modo de rela�›es de intera�‹o e os caminhos da media�‹o est‹o ligadas pelo contexto produtivo, pela refer�ncia a um mesmo ‰mbito de sentido condensado em bem-sucedida experi�ncia comunicativa e que a cont’nua rela�‹o entre esses aspectos engendram um sujeito de a�‹o autorizada que pressup›e um espa�o e tempo necess‡rios ˆ sua forma�‹o. Portanto, todo o conjunto de a�›es e intermedia�›es do poeta-editor devem ser entendidas como uma postura de resist�ncia que explica a autonomia do sistema editorial, posto que inaugura uma nova ordem de produ�‹o, capaz de gerar, desenvolver e arquivar seus saberes tŽcnicos no transcurso da sua pr—pria hist—ria.

 

Refer�ncias

 

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. A Estrella da Poesia: impress›es de uma trajet—ria. 2009. 292f. Disserta�‹o (Mestrado em Letras). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. O cordel no prelo: trajet—rias e impress›es. In: MENDES, Simone; (Org.). Cordel nas Gerais: oralidade, m’dia e produ�‹o de sentido. Fortaleza: Gr‡fica Express‹o, 2010a, p. 161-179.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. A emerg�ncia de um sistema dualista: tr‰nsitos e autonomias. Estudos de Literatura Brasileira Contempor‰nea. Bras’lia, n. 35, jan./jun. p. 31-39. 2010b.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. Funda�›es e itiner‰ncias da poesia nordestina. Jo‹o Pessoa: Editora Universit‡ria/UFPB, 2012.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. Tipografias de Cordel: o nascimento do editor. Paulo Afonso: Editora Fonte Viva, 2016.

SOUSA, Maur’lio Antonio Dias de. A hist—ria de uma Estrella: a estrela do cordel em Campina Grande. 2 ed. Salvador: Fastdesign, 2018.

 

 

[Recebido: 7 ago 2020]


 

VOZES DE MULHERES NO TERRITîRIO DO CORDEL E DA CANTORIA

 

 

WOMENÕS VOICES IN THE TERRITORY OF CORDEL AND CANTORIA

 

 

Ria Lemaire[33]

 

 

Resumo: Os debates p—s-moderno e decolonial sobre as rela�›es entre as civiliza�›es da oralidade e o mundo da escrita est‹o trazendo, embora tardiamente, uma epistemologia radicalmente cr’tica para o campo dos estudos da tradi�‹o nordestina da cantoria e do cordel. O novo paradigma — tanto hist—rico quanto contempor‰neo — permite colocar a quest‹o do papel e lugar das mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos. Ao focar um subg�nero dessa poesia originalmente improvisada, o repente misto, em que uma cantadora desafia um cantador, e, nesse subg�nero, a presen�a e fun�‹o da viol�ncia masculina e feminina, esse artigo prop›e uma reflex‹o cr’tica sobre temas centrais dos debates atuais sobre cordel, g�nero, mulher e viol�ncia.

Palavras-chave: Cordel. Cantoria. G�nero. Territ—rio. Viol�ncia masculina. Viol�ncia feminina.

 

Abstract: Post-modern critics of scriptocentrism and nowadays decolonial criticism are bringing – slowly and progressively -  the new paradigm of the orality-literacy-debate to the field of  repente,  the Northeastern tradition of improvised poetry, in its oral (cantoria) as well as in its  impressed (cordel)  form. The new paradigma – historical as well as contemporary –  enables us to discuss the question of womenÕs role and place in these traditionally masculine territories,  featuring  a sub-genre of this poetry, - repente misto – in which a female singer challenges a male singer. By focalizing the presence and function of male and female violence in this sub-genre, this article proposes a critical reflexion on central themes in actual debates on gender, women and violence.

Keywords: cordel. Cantoria. Gender. Territory. Gender-based violence.

 

 

Dois ramos de uma ‡rvore s—

 

A publica�‹o de O Livro Delas: cat‡logo de mulheres autoras no cordel e na cantoria nordestina (SANTOS, 2021) constitui n‹o s— um marco mili‡rio nos estudos de cordel, mas tambŽm a abertura, dentro da ‡rea, de uma nova linha de pesquisa inovadora, fundamentada na desconstru�‹o dos pressupostos vigentes do discurso acad�mico dominante sobre o cordel e da sua historiografia nacional. AlŽm disso, ela permitir‡ a integra�‹o, no campo dos estudos de g�nero e literatura, de uma ‡rea atŽ agora negligenciada: a de g�nero e estudos orais.

Comecemos por uma constata�‹o: cantoria e cordel s‹o considerados pela maioria dos estudiosos dois campos distintos no mundo sociocultural nordestino. A separa�‹o te—rica dos dois campos – o da cantoria como produto de uma oralidade ancestral e o do cordel como origin‡rio do mundo da escrita – correspondia aos interesses pol’ticos da cultura dominante daquela elite branca e de origem portuguesa que, nos anos sessenta e setenta do sŽculo passado, na Žpoca da Ditadura Militar, ÒreabilitouÓ o cordel – t‹o desprezado e marginalizado atŽ l‡! – como express‹o liter‡ria da alma nacional brasileira.

A reabilita�‹o pol’tico-liter‡ria, elaborada e propagada, sob a Žgide do Conselho Federal da Cultura, por intelectuais e acad�micos organizados em torno da Casa de Rui Barbosa, ia servir como suporte ideol—gico da pol’tica cultural nacionalista da Ditadura. O que o poeta Rouxinol do RinarŽ chamou um dia de Òdois ramos da mesma ‡rvoreÓ entrou no processo politico-liter‡rio da nacionaliza�‹o do cordel sob a forma de duas ‡rvores plantadas em territ—rios culturais diferentes. Consagrou-se o nome ibŽrico de cordel para o fen™meno editorial nordestino que os pr—prios poetas chamavam de folheto/jornal do povo e esse folheto ia ser, da’ em diante, estudado e divulgado como literatura popular brasileira.

 

 

O mito das origens brancas e portuguesas

 

Ao se separar cantoria e cordel, tornou-se poss’vel historiografar o folheto como descendente do cordel escrito/impresso de origem portuguesa. Integrado nessa genealogia alheia de textos escritos/impressos ibŽricos, o folheto tornou-se ÒnacionalÓ e express‹o da alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira. Tornou-se Literatura, quer dizer: fic�‹o e estŽtica, podendo a partir da’ ser estudado com os pressupostos, mŽtodos, critŽrios e ju’zes de valor convencionais dos estudos de Letras (Autor e Obra, c‰none, antologia etc.). E tornou-se popular no sentido humanista, erudito do termo, dentro da dicotomia elite culta versus povo inculto. Essa dicotomia instalou-se no discurso erudito do mundo ocidental nos come�os dos tempos modernos, como express‹o e legitima�‹o ideol—gica da crescente desigualdade econ™mica, social e pol’tica, sobrepondo-se ao sentido original – geo-socio-cultural – do conceito de povo.

PorŽm, o sentido original sobreviveu atŽ hoje. Patativa do AssarŽ, por exemplo, o definia como: Òa nossa terra, a nossa vida, a nossa genteÓ, quer dizer: um territ—rio, no sentido original do termo, caraterizado pela presen�a de uma ÒterraÓ (no sentido Òportugu�s de PortugalÓ do termo), quer dizer: uma regi‹o geograficamente delimitada, uma vida, cultura e mem—ria/tradi�‹o comuns a todos os indiv’duos que j‡ nela nasceram no passado, nela vivem no presente e v‹o nascer no futuro. Uma na�‹o no sentido original do termo (ÒterraÓ onde ÒnasceÓ), cujo passado continua vivo/vivido no presente e que lhes d‡, a esses povos, a consci�ncia inextirp‡vel de perten�a, empatia e coes‹o social.

O conceito de alma pura, aut�ntica, primitiva da Na�‹o brasileira, por sua vez, forneceu a base para a reinven�‹o do mito da morte iminente do folheto, mito importado e imitado do Romantismo alem‹o (Naturpoesie versus Kulturpoesie) do sŽculo XIX. Chegou juntamente com o conceito de tradi�‹o, ao qual esses eruditos alem‹es do sŽculo XIX tinham dado uma nova significa�‹o, a saber: tradi�‹o morta, arcaica, obsoleta e parada no passado; o contr‡rio do seu sentido original e do seu funcionamento real na comunidade nordestina.

Ao mesmo tempo, o pressuposto da origem escrita portuguesa do folheto permitiu que a cantoria, a saber, a comunica�‹o direta, oral, com o audit—rio nas cantorias, feiras e festas populares no seio da pr—pria comunidade, fosse considerada (teoricamente!) local, regional, quer dizer: inferior e relegada ao sempre desprezado campo dos estudos de folclore. O impacto desse discurso, que alia eurocentrismo e scriptocentrismo a nacionalismo, tem sido avassalador; ele contamina, atŽ hoje, como uma trama inconsciente, tanto a terminologia, os pressupostos e os posicionamentos te—ricos dos estudos de cordel — dos convencionais atŽ os mais cr’ticos —, quanto a vis‹o que os pr—prios poetas cantadores e cordelistas t�m da sua arte, profiss‹o e miss‹o.

 

 

 

 

Divide et impera

 

A estratŽgia discursiva da invers‹o e distor�‹o em que se baseia o discurso erudito sobre o cordel tem-se averiguado como perversa e eficaz. Ela Ž aplicada desde sempre pelo patriarcado – na sua vers‹o ocidental – no decorrer da sua luta milenar pela imposi�‹o do seu poder, da sua vis‹o do mundo como superior e da sua Hist—ria como œnica e verdadeira. Consiste em dividir o grupo s—cio-profissional dos poetas, cuja unidade j‡ era sempre vulner‡vel por causa da rivalidade masculina. Essa rivalidade foi, originalmente, a fonte de inspira�‹o principal do repente masculino, com os seus vencidos e o vencedor, reconhecido e aplaudido pelo pœblico no momento da performance. Essa divis‹o dicot™mica, ÒguerreiraÓ no sentido original, lœdico-sŽrio (HUIZINGA, 2007) da palavra, vai ser ressignificada tambŽm pelos eruditos para constituir a base de duas categorias Òliter‡riasÓ, desiguais e hierarquizadas, – os bons poetas e os Òmenos bonsÓ –, com o objetivo de destacar mais e enaltecer o grupo ÒsuperiorÓ, tendo em vista o futuro c‰none do cordel.

Dessa maneira, a rivalidade masculina continuamente ati�ada ia dessolidarizar, uns dos outros, os membros do mesmo grupo profissional, abrindo-se uma brecha para impor – de fora, de longe e de cima – uma autoridade de avalia�‹o superior e capaz de sobrepor, ˆ avalia�‹o interna pela pr—pria comunidade, o seu ju’zo de valor erudito e superior. A curto termo, isso permitiu aos detentores da nova teoria controlar o campo do cordel, ao privilegiar certos g�neros (mais Òliter‡riosÓ) em detrimento de outros g�neros (folheto de atualidade, folheto pol’tico, folheto de ci�ncia...) e marginalizar ou excluir aqueles ÒdissidentesÓ, que n‹o correspondiam ao modelo, alheio, liter‡rio e erudito, imposto de fora. A longo termo, essa estratŽgia causou a distor�‹o parcial do conhecimento e da vis‹o que tinham os pr—prios poetas sobre sua arte, miss‹o, identidade e hist—ria.

Um exemplo bem revelador dessa estratŽgia s‹o as cartas encontradas no Acervo Raymond Cantel da Universidade de Poitiers que revelam o surgimento, nos anos setenta do sŽculo passado, entre os eruditos da Casa, do questionamento da ÒautenticidadeÓ daqueles poetas de cordel que n‹o eram analfabetos. Os debatedores perguntam-se e perguntam ao ilustre professor franc�s, com muita seriedade, se um Òn‹o-analfabetoÓ pode ser considerado poeta de cordel e ser inclu’do, por exemplo, nas antologias de cordel, bases do futuro c‰none. Segundo a doutrina oficial por eles elaborada, alfabetizado n‹o podia, uma vez que os poetas de cordel eram incultos e analfabetos![34]

N‹o Ž dif’cil imaginar-se o que ia acontecer quando os pressupostos/preconceitos mis—ginos e androc�ntricos da alta burguesia da Žpoca da Ditadura Militar se associaram ao seu eurocentrismo, scriptocentrismo e nacionalismo j‡ comentados. N‹o se encontra nos cat‡logos, antologias e c‰none da Casa Rui Barbosa – dos mais velhos atŽ aos mais recentes – nenhuma mulher poeta. Dentro do conjunto coeso de pressupostos falsos do seu mito das origens foi necess‡rio e inevit‡vel n‹o s— anunciar a morte iminente do folheto, para poder silenciar a voz viva e din‰mica do povo nordestino, como tambŽm ignorar, e de antem‹o, a voz das suas mulheres. Teorizada, na tradi�‹o alheia de Homo sapiens humanista, a cultura do folheto s— podia ser exclusivamente masculina.

 

 

Vozes rebeldes: agora s‹o outros 500 anos!

 

ƒ a partir do ano 2000 que come�am a surgir vozes rebeldes, tais como as da Sociedade dos Poetas Mauditos no Cariri cearense (GRANGEIRO, 2020). Mauditos no sentido ir™nico do termo: eles fazem propositadamente versos Òmal ditosÓ, segundo os critŽrios convencionais, e seus integrantes n‹o s‹o analfabetos nem semi-analfabetos.

A provoca�‹o dos jovens poetas, homens e mulheres, fundamenta-se na consci�ncia de que os pr—prios conceitos de Literatura, de alma pura e tradi�‹o morta servem para negar toda e qualquer capacidade de evolu�‹o e inova�‹o do cordel. Essa nega�‹o, por sua vez, servia para desvalorizar e obliterar o papel e miss‹o cultural e hist—rica do folheto como express‹o da atualidade, realidade e verdade da vida nordestina. Ela servia para silenciar, de antem‹o, as eventuais vozes cr’ticas da contemporaneidade. Essas vozes vieram denunciar a mentira, a m‡-fŽ e a euforia das elites nacionais que, naquele momento, comemoravam os 500 anos da ÒDescobertaÓ do Brasil, apresentada como primeiro cap’tulo da Hist—ria nacional. Esse mito das origens da elite branca do pa’s – o da chegada, em Òterras de ninguŽmÓ, da civiliza�‹o crist‹, trazida e oferecida pelos portugueses com muitos sacrif’cios e hero’smo aos povos ind’genas origin‡rios –, foi desmascarado pelos poetas mauditos. Foi, na verdade, uma invas‹o ileg’tima por uma casta branca de conquistadores-predadores, com padres-pregadores aliados; foi o come�o da era colonial e a implanta�‹o do regime usurpador do colonialismo no Brasil.

Essa nova consci�ncia imp›e, como os poetas Mauditos iam mostrar em 2000 com a publica�‹o inicial de 12 folhetos em torno do tema ÒAgora s‹o outros 500 anosÓ, uma ruptura radical com a Hist—ria oficial, ensinada e imposta por meio do ensino formal nacional como œnica e verdadeira. Estamos no limiar do pensamento ÒdecolonialÓ que hoje em dia, vinte anos mais tarde, come�a a se generalizar no mundo latino-americano. Os ÒmauditosÕ questionam e desconstroem a legitima�‹o tradicional que justificava a coloniza�‹o como uma miss‹o civilizat—ria, crist‹ e sagrada; ideologia que legitimou durante 500 anos os piores crimes e que as elites do pa’s continuam repetindo, re-divulgando e propagando no limiar do sŽculo XXI.

Tr�s poetisas cofundadoras da Sociedade dos Poetas Mauditos conscientizaram-se, ao mesmo tempo, como feministas, detentoras de uma vis‹o do mundo diferente da dos homens. Hoje, elas s‹o professoras universit‡rias que t�m uma reputa�‹o nacional e internacional no campo dos estudos de mulher e de g�nero, duas delas tambŽm no campo do cordel. S‹o elas a poetisa e historiadora Ediane Nobre (na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE), que defendeu, em 2014, uma tese de doutoramento sobre a beata Maria de Araœjo; a poetisa Salete Maria da Silva (professora da Universidade Federal da Bahia – UFBA), que atualmente Ž considerada uma das grandes vozes poŽticas do cordel da sua gera�‹o; e a poetisa Fanka Santos – de batismo Francisca Pereira dos Santos –, que como professora da Universidade Federal do Cariri (UFCA) dedica parte dos seus estudos acad�micos ao resgate das vozes de mulheres-poetas cantadoras e cordelistas deliberadamente silenciadas nos estudos acad�micos e na historiografia do folheto de cordel.

Ao aplicar o mŽtodo e a pr‡tica de pesquisa que foram a estratŽgia principal dos eruditos acad�micos dos anos de sessenta para a imposi�‹o da sua vis‹o do cordel – os cat‡logos e as antologias –, Fanka Santos defendeu, em 2009, uma tese de doutoramento que estabeleceu as bases epistemol—gicas e te—ricas de um futuro cat‡logo das mulheres de cordel. Uma bolsa de p—s-doutorado lhe permitiu, em seguida, compor o cat‡logo O Livro Delas, que reœne os folhetos de 264 mulheres cordelistas juntamente com os materiais que ela conseguiu reunir sobre 62 cantadoras, todas publicadas em um s— cat‡logo. Dois ramos de uma ‡rvore s—! Duas outras teses de doutoramento, defendidas pelas organizadoras deste nœmero de Boitat‡, vieram refor�ar as bases te—ricas do cat‡logo. Bruna Paiva de Lucena trouxe a ÒmauditaÓ poetisa Salete Maria da Silva ao palco acad�mico com uma tese de doutoramento, defendida na Universidade de Bras’lia (LUCENA, 2018). AndrŽa Bet‰nia da Silva, por sua vez, defendeu em 2014, na Universidade Federal da Bahia, uma tese sobre a transi�‹o e evolu�‹o da cantoria de pŽ-de-parede tradicional para os festivais modernos; a tese inclui como protagonistas mulheres-cantadoras-repentistas.

Figura 1 – Xilogravura de Marcelo Soares

Fonte: Acervo da autora.

Essas e outras pesquisas confirmam o fato de que, como nas desgarradas e no fado de Portugal e da Galiza, a cantoria tem tr�s variantes, a saber: repente de dois homens, repente de homem com mulher e repente de duas mulheres, cada subg�nero com a mesma forma e linguagem poŽtica, mas com tem‡ticas diferentes.

No mesmo per’odo (2000-2020), observa-se no campo do folheto e da cantoria uma verdadeira explos‹o de novas vozes de mulheres poetisas e uma visibilidade cada vez maior da sua atua�‹o como agentes culturais autoconscientes e fortes[35]. Assim, fortalecem-se a consci�ncia e a convic�‹o que O Livro Delas – como cat‡logo das mulheres cordelistas e cantadoras atuantes maioritariamente ainda no sŽculo XX –, j‡ trazia e que as poetisas ÒmauditasÓ ilustraram: a de que as mulheres n‹o s— se destacam por sua presen�a cada vez mais numerosa e autoconsciente, como tambŽm por trazerem vozes diferentes que cantam outra abordagem e vis‹o das ÒcoisasÓ do mundo.

Dessa forma, Ž urgente repensar o cordel e a cantoria para alŽm do discurso oficial nacionalista, euro, scripto e androc�ntrico brasileiro e propor novas epistemes para sua releitura cr’tica, considerando-se os seguintes aspectos:

 

- N‹o se trata de uma tradi�‹o quase morta, obsoleta e parada, mas sim de uma tradi�‹o viva, din‰mica, no sentido original do termo tradi�‹o, derivado do latim tranditionem, quer dizer: ato de transmitir. Na oralidade, esse ato implica um processo complexo, n‹o s— de uma simples transmiss‹o/entrega, como tambŽm de repeti�‹o, reinven�‹o e ressignifica�‹o na continuidade do tempo hist—rico e de gera�›es de poetas e poetisas transmissoras.

- N‹o se trata de cordel escrito versus cantoria oral, mas de uma fase da hist—ria mundial das tecnologias da informa�‹o e da comunica�‹o, a saber: o cap’tulo que conta a vers‹o nordestina da transi�‹o para a escrita/impressa de uma tradi�‹o poŽtica oral prŽ-existente.

- N‹o se trata de um cordel de origem simplesmente portuguesa; o cordel nordestino Ž – e Ž antes de mais nada – um produto complexo, regional da transi�‹o e evolu�‹o (quase) universal da oralidade para a escrita e a imprensa (ABREU, 1999).

- N‹o existe uma Hist—ria œnica e s— de homens; houve sempre duas hist—rias numa dualidade complementar e plural (variando de uma regi‹o para a outra) de duas linhagens culturais diferentes. Existiu, desde sempre, um patrim™nio (conjunto de bens legado por um pai em linha patrilinear aos filhos) ao lado de um matrim™nio matrilinear que se inter-relacionam e interagem. Aquele hegem™nico e imponente e que fala muito alto, este marginalizado e silenciado, mas nem por isso menos presente no cora�‹o da comunidade tradicional. A redescoberta do matrim™nio das mulheres no campo da cantoria-cordel, considerado exclusivamente masculino, exige uma abordagem nova, intercultural e interdisciplinar que permitir‡ dar o salto epistemol—gico e te—rico indispens‡vel para podermos historiografar a presen�a e a atua�‹o da voz das mulheres nesses territ—rios tradicionalmente masculinos[36].

- Esse cordel n‹o Ž o produto m’tico de um Estado-Na�‹o, mas express‹o originalmente local e regional da realidade e verdade da vida nordestina; ele n‹o Ž para-literatura ficcional, mas cultura/arte, express‹o poŽtica e testemunho da vida dessa terra, gente e cultura espec’ficas. Ele Ž, para resumir, literatura no sentido original do termo (em latim, littera = letra escrita), que registra n‹o s— obras ficcionais, como tambŽm – e sobretudo – toda a riqueza da experi�ncia e conhecimento da vida vivida pelas diversas comunidades nordestinas com a suas culturas locais e sub-regionais. A da cultura do Cariri, por exemplo, que n‹o Ž a do Piau’, nem a da Para’ba, nem a da Serra do Teixeira (terra de tantas gera�›es de grandes poetas)... (RAMALHO; LEMAIRE, 2011).

 

 

De dualidade a dualismo

 

 

Dualidade plural

 

Globalmente – n‹o digo universal nem exclusivamente! –, tanto os antrop—logos quanto os especialistas – linguistas, etn—logos e folcloristas – das culturas indo-europeias distinguem nas comunidades humanas uma divis‹o dual b‡sica, a saber, um Òmundo dos homensÓ e um Òmundo das mulheresÓ, quer dizer, uma dualidade dentro da qual inœmeras variantes, trocas, tens›es e desigualdades eram poss’veis; uma dualidade plural em constante intera�‹o e evolu�‹o.

Figura 2 – Repente misto do famoso xil—grafo nordestino Dila

 

Fonte: Acervo da autora.

O economista-etn—logo alem‹o Karl BŸcher fundamentou-se nessa dualidade, ao formular a teoria da exist�ncia de duas tradi�›es poŽticas no mundo indo-europeu, a masculina e a feminina, como produtos da divis‹o dos trabalhos econ™mico e social entre os sexos, postulando que para cada tipo de trabalho havia can�›es de trabalho e de lazer com ritmos e conteœdos diferentes (B†CHER, 1896). BŸcher mostra que Ž o mundo poŽtico das mulheres que detŽm as tradi�›es mais ricas e diversificadas, em rela�‹o ao dos homens, e que s‹o elas as detentoras, guardi‹s, produtoras e reprodutoras primordiais da mem—ria viva das culturas tradicionais indo-europeias.

Quase cem anos mais tarde, o etn—logo hœngaro Imre Katona publica o artigo intitulado ÒReminiscencies of Primitive Divisions of Labor between Sexes and Age Groups in the Peasant Folklore of Modern TimesÓ (KATONA, 1979), em que elabora a distin�‹o dual de BŸcher ao relacionar esses gender-specific ritmos e conteœdos ˆ distin�‹o b‡sica da teoria liter‡ria novecentista entre os dois grandes g�neros liter‡rios: o Žpico e o l’rico. A partir das diversas formas de dualidade plural[37], Katona v� o mundo dos homens como o do canto Žpico e de outras formas de canto narrativo aparentado, tais como o paneg’rico, a genealogia e os g�neros que enaltecem e glorificam o poder, o hero’smo e a superioridade masculinas. Eles formariam o verso da medalha ÒŽpicaÓ, havendo tambŽm, a seu reverso ÒŽpicoÓ com g�neros, tais como a s‡tira, a tro�a, a zombaria, o esc‡rnio, o maldizer e a par—dia.

O mundo das mulheres Ž o mundo dos g�neros l’rico e l’rico-narrativo. O g�nero l’rico Ž funcional: a poesia cantada marca o ritmo do trabalho cotidiano e da dan�a. Geralmente s‹o cantigas dialogadas, improvisadas, baseadas na memoriza�‹o e improvisa�‹o de novos versos. ƒ esse desafio que torna mais alegres e ligeiros os trabalhos muitas vezes mon—tonos, pelo prazer lœdico do jogo poŽtico. H‡ uma unidade de Som e Letra, com predomin‰ncia do Som, cujo ritmo marca o ritmo espec’fico do trabalho ou da dan�a.

O estudo de Imre Katona confirma as conclus›es de BŸcher e, ao dedicar-se ao tema da divis‹o do trabalho cultural entre os sexos, ele mostra que essa divis‹o do ÒtrabalhoÓ n‹o era r’gida, e menos ainda excludente! Havia trocas, apropria�›es e interc‰mbios cont’nuos entre os dois mundos. Katona chegou ˆ conclus‹o de que uma mŽdia de uns 10% das produ�›es culturais era produto desses interc‰mbios. Confirmadas, nos œltimos cinquenta anos, por estudos dedicados a outros per’odos hist—ricos e ‡reas geogr‡ficas, as pesquisas de BŸcher e Katona abrem novas perspectivas para o estudo das vozes das mulheres na cantoria e no cordel. Na vis‹o de Imra Katona, Fanka Santos reuniu em O Livro Delas aqueles 10%, mais ou menos, de vozes femininas que se aventuraram no territ—rio poŽtico da voz masculina, como hoje em dia, muitos poetas cantadores invadem o territ—rio feminino da cantiga l’rica e de amor, o que teria sido considerado tradicionalmente um ato meio ÒefeminadoÓ.

 

De interc‰mbio ˆ exclus‹o

 

Figura 3 – Xilogravura de J. Miguel

Fonte: Acervo da autora.

Quando, hoje, falamos de sexo/g�nero, automaticamente concebemos uma estrutura bipolar, dicot™mica e hierarquizante, n‹o dual, mas dualista. Esse pressuposto da dicotomia est‡ na base da vis‹o humanista do mundo ocidental e instala-se no limiar do que chamamos de Tempos Modernos, adquirindo a sua express‹o filos—fica no conceito de dualismo com o fil—sofo franc�s Pierre Bayle (1647-1706). A sua primeira ocorr�ncia data de 1679, com a defini�‹o/significado de: sistema, doutrina baseada na exist�ncia, sob a forma de hierarquia, de dois princ’pios contr‡rios que se excluem mutuamente (masculino versus feminino, heterossexual versus homossexual, branco contra negro, cultura contra natureza, primitivismo contra Progresso, cultura oral versus cultura escrita, entre muitos outros).

Essa base dualista do pensamento ocidental moderno contribuiu muito para a legitima�‹o ideol—gica do silenciamento das mulheres, do feminic’dio de mais de cem mil mulheres nas fogueiras da Inquisi�‹o, da escravid‹o e do genoc’dio de milh›es de negros e ind’genas, da persegui�‹o dos homossexuais, do racismo, da destrui�‹o sistem‡tica da natureza. O discurso oficial e erudito sobre cantoria e cordel, ele tambŽm, Ž um produto t’pico desse dualismo.

As culturas n‹o ocidentais e as da prŽ-modernidade ocidental, por sua vez, fundamentam-se, ainda, no princ’pio da dualidade com um leque plural, infinito, de formas poŽticas, de complementaridades, variedades, desigualdades, conflitos, trocas, emprŽstimos e interrela�›es. Os textos poŽticos ÒintercambiadosÓ s‹o imita�›es geralmente lœdicas de g�neros poŽticos Òdo outro sexoÓ. As imita�›es tornam-se ao mesmo tempo reinven�›es e ressignifica�›es, ao levarem para o palco, dentro dos quadros do g�nero tradicionalmente unissexo, a voz e a vis‹o das coisas do outro sexo. Elas s‹o geralmente muito apreciadas e aplaudidas pela comunidade!

ƒ importante estar consciente do fato de que, nas tradi�›es orais, esse procedimento n‹o Ž considerado pl‡gio como no mundo moderno! Ele constitui uma pr‡tica discursiva, uma estratŽgia lœdico-sŽria, altamente apreciada, de transmiss‹o, enriquecimento e divulga�‹o da mem—ria e da tradi�‹o e, em um sentido comunit‡rio e social, serve tambŽm como v‡lvula de escape de tens›es entre os sexos, quer dizer: como estratŽgia de refor�o da coes‹o social. A concep�‹o do texto escrito como propriedade individual de um Autor masculino (FOUCAULT, 1998) s— se instalar‡ no mundo ocidental – e a partir do mundo da escrita e da imprensa –, nos in’cios dos Tempos Modernos, juntamente com a no�‹o de pl‡gio. No mundo da oralidade, em que a memoriza�‹o (por repeti�‹o e reinven�‹o) constitui a conditio sine qua non da pr—pria exist�ncia da tradi�‹o oral e a estratŽgia por excel�ncia da transmiss‹o, integra�‹o e salvaguarda do saber, n‹o existe pl‡gio no sentido moderno do termo. Quando uma performance ÒintercambiadaÓ tem muito sucesso, ela fica no outro ÒmundoÓ e integra-se a ele: o her—i do romance heroico-narrativo, por exemplo, pode metamorfosear-se em hero’na, o romance l’rico-narrativo transformar-se em Žpico, ou em vida de santo ou santa, proposta por um poeta religioso, ou ainda em par—dia e zombaria de comportamentos t’picos do outro sexo.

Um music—logo alem‹o do sŽculo XIX definiu o fen™meno como Wandermelodien, mœsicas que wandern – vagabundeiam, andam de terra em terra – e mudam com os lugares que elas visitam, com os tempos – e templos! – pelos quais passam, com as condi�›es hist—ricas que evoluem, sempre as mesmas e reconhec’veis como tal e ao mesmo tempo sempre diferentes. Pensamos nos jograis da Idade MŽdia que os conc’lios da Igreja cat—lica condenavam por cantarem com vozes ÒefeminadasÓ, can�›es de mulheres (tais como cantigas de amigo, de romaria, cantigas de trabalho, cantigas bailadas) ou, mais tarde, nos cantadores de romance ibŽricos do sŽculo XX que cantavam em pœblico romances l’rico-narrativos que eles apresentavam como can�›es aprendidas com a av—, a tia ou a m‹e.

Nessa dire�‹o, podemos descobrir qual foi o papel dos eruditos humanistas dos sŽculos XV e XVI, respons‡veis por criar a base da historiografia e das ci�ncias da literatura e das artes. Os textos das mulheres medievais, transcritos, plagiados por essa elite que acaba de inventar a no�‹o de pl‡gio, ressignificados por eles, entrar‹o na sua cultura escrita e impressa, em cancioneiros, leigos e/ou religiosos, em livros de poesia atribu’dos a poetas masculinos, trovadores ou reis – tais como D. Dinis, Afonso X, o S‡bio – ou bispos, membros da nobreza e da alta burguesia. Quando se inicia a historiografia das literaturas nacionais, em finais do sŽculo XIX, essas atribui�›es renascentistas ser‹o consideradas provas de autoria masculina na galeria dos Autores geniais, individuais, que v‹o preencher os volumes das Hist—rias nacionais das Literaturas dos Estados-Na�›es; Ž essa hist—ria falsificada que obliterou os matrim™nios das mulheres e se ensina atŽ hoje no ensino formal secund‡rio e universit‡rio.

As outras vozes de artistas-poetas-contadores a cantadores tradicionais, porta-vozes da comunidade, ficaram como tradi�›es orais das comunidades locais e regionais, mas na clandestinidade em face do medo permanente de persegui�‹o. Desprezadas e odiadas pelos detentores do poder pol’tico-religioso (BURKE, 2010), elas sobreviveram, cada vez mais fragmentadas, no seio das comunidades. A sua reabilita�‹o te—rica e ÒidealistaÓ pelas elites, na Žpoca do Romantismo, como alma pura da Na�‹o, n‹o por‡ fim ˆs persecu�›es factuais que continuar‹o ainda bem adiante no sŽculo XX. Em 1848, inventa-se o nome de folk-lore (sabedoria do povo), inicialmente no sentido positivo e o dos seus estudiosos, os folkloristas.

Uma vez os Estados-Na�›es todos bem instalados, depois de 1870, esse sentido positivo torna-se importuno e inc™modo. A necessidade de criar um imagin‡rio nacional, unificador das centenas de pequenas na�›es da Velha Europa, leva as elites das novas Òcomunidades imaginadasÓ (ANDERSON, 2008) a fundarem as faculdades de Letras (Hist—ria, L’ngua e Hist—ria da Literatura nacionais), onde se ensinar‹o unicamente os textos ressignificados da tradi�‹o escrita humanista e se propagar‡, geralmente e com raras exce�›es, um profundo desprezo em rela�‹o ˆ tradi�‹o oral e aos seus estudiosos e pesquisadores.

 

 

Revisitar um territ—rio tradicionalmente masculino

 

                                                                                  Chica Barrosa onde canta

                                                                                  faz o mundo estremecer.

                                                                                  Faz o sol se abalar;

                                                                                  todo planeta descer.

                                                                                  Quem vier cantar comigo,

                                                                                  correr‡ grande perigo,

                                                                                  atŽ de morte sofrer.

 

                                                                                                         Chica Barroso

 

 

Vozes de mulheres que se desterritorializaram

 

Temos a sorte excepcional de j‡ possuirmos um primeiro esbo�o da genealogia das vozes das mulheres repentistas e poetisas – redigida por um grande poeta repentista, cordelista e professor-pesquisador da tradi�‹o poŽtica nordestina, JosŽ Alves Sobrinho, de Campina Grande, na Para’ba. Coautor, com o professor çtila de Almeida, do Dicionario bio-bibliografico de repentistas e poetas de bancada, publicado em1977, Sobrinho publicar‡ mais tarde, depois da morte do professor çtila, outro livro, intitulado Cantadores, Repentistas e Poetas Populares (SOBRINHO, 2003). Nele, o poeta conta em verso, na melhor tradi�‹o do g�nero poŽtico da genealogia cantada ou declamada, a genealogia de seis gera�›es de poetas masculinos para, em seguida, apresentar a das mulheres poetisas e cantadoras de repente do Nordeste. A apresenta�‹o pelo poeta – juntos mas separados –, sob a forma dual, mostra que existiam, na experi�ncia do poeta, vivida Òde dentroÓ da sua comunidade, dois mundos poŽticos, o dos homens e o das mulheres, inter-relacionados, interconectados e interativos.

Nos versos cl‡ssicos do repente – a sextilha e a dŽcima –, o poeta-pesquisador apresenta seis gera�›es de grandes repentistas, poetas e poetisas de reputa�‹o confirmada. As duas genealogias contam juntas 948 versos, dos quais 816 versos sobre poetas e 132 sobre poetisas, quer dizer: uns 12% dos versos globalmente s‹o reservados para a voz das mulheres. Essa porcentagem confirma a mŽdia global de 10% de interc‰mbios que o etn—logo Imre Katona indica no seu estudo, tanto para o territ—rio masculino quanto para o feminino.

A genealogia feminina come�a pela estrofe que comemora a primeira gera�‹o, a das mais antigas poetisas, algumas j‡ lend‡rias:

Falo em Rita Medeiros

Lend‡ria por tradi�‹o

Naninha Gorda dos Brejos

Zefinha do Chaboc‹o

E a grande Chica Barrosa

Camila do Martinz‹o (SOBRINHO, 2003, p. 90)

Os versos sublinham o talento dessas mulheres e o seu dom’nio perfeito das regras da arte do repente, como se v� na œltima estrofe:

Temos Chiquinha Ribeiro

Baiana de boa estima

Ala’de Ferreirinha

Seu repente Ž obra-prima

Seu verso tem ritmo e mŽtrica

ƒ exigente na rima (SOBRINHO, p. 91)

E atŽ, ˆs vezes, evocam a superioridade de mulheres repentistas temidas, como foi a famosa Chica Barroso, e como era tambŽm Vov— Pangula:

Maria Ribeira Santos

Chamada vov— Pangula

De Valen�a do Piau’

Faz no verso o que calcula

L‡ naquela regi‹o

Com ela n‹o h‡ quem bula (SOBRINHO, 2003, p. 91)

Podemos, a partir da’, abandonar o discurso dicot™mico desse dualismo da modernidade cujo c’rculo hermen�utico fechado leva a ignorar ou, no melhor dos casos, a explicar a presen�a ineg‡vel de cantadoras/cordelistas como excepcional e as pr—prias poetisas como mulheres Òmasculin(izad)asÓ, como as qualificaram alguns observadores eruditos. Poderemos escutar as vozes de Chica, Pangula, Mocinha, Bastinha, Josenir, Salete, entre tantas outras, como contribui�›es de uma linhagem secular de mulheres fortes, autoconscientes e conscientes de serem agentes, cocriadoras e reinventoras da realidade e cultura nordestinas. S‹o vozes de Òhero’nasÓ, mulheres ÒfeministasÓ que, cada uma na sua Žpoca e no seu contexto social e pol’tico – e apesar das rea�›es ˆs vezes violent’ssimas e agressivas de homens – se posicionaram como detentoras/guardi‹s e reinventoras de um matrim™nio local, regional, atŽ dentro dos quadros de um g�nero/territ—rio tradicionalmente masculino cuja arte poŽtica ÒprofissionalÓ essas mulheres tambŽm sabiam brilhantemente ilustrar.

 

 

Viol�ncia, s‡tira, indecoro e obscenidade de vozes femininas no cordel

 

                                                                                             Pisa medonha eu lhe dou

                                                                                              de cabelo se arrancar,

                                                                                             de fofar couro de lombo

                                                                                             do pesco�o ao calcanhar;

                                                                                              se n‹o se tratar com tempo,

                                                                                              talvez n‹o possa escapar!

                                                                                              Minha pisa Ž venenosa

                                                                                             que n‹o se pode curar.

                                                                                             Cada tacada que dou,

                                                                                             vejo o peda�o voar.

 

                                                                                                                     Chica Barrosa

 

A music—loga cearense e professora da Universidade Estadual do Cear‡ Elba Braga Ramalho publicou, no ano 2000, um estudo intitulado Cantoria Nordestina: mœsica e palavra. No cap’tulo intitulado ÒA parceria: do antagonista ao parceiroÓ (RAMALHO, 2000, p. 124-130), resultado de muitos anos de pesquisa de campo em terras cearenses, a autora descreve o processo sociocultural interessant’ssimo de uma muta�‹o, a que talvez tenha mais impactado no sŽculo XX o territ—rio da cantoria, a saber: a transi�‹o progressiva do cantador antagonista tradicional ao cantador parceiro, numa sociedade cada vez mais modernizada e urbanizada.

A situa�‹o quase arquet’pica do cantador antagonista ilustra-se talvez mais eficazmente pela evoca�‹o do poeta n™made de outrora, que chegava numa comunidade onde era ainda desconhecido. Ao entrar nela, ele adentrava tambŽm, querendo ou n‹o, no territ—rio, Òca�a reservadaÓ, dos poetas residentes locais. De antem‹o, ele ser‡ considerado concorrente, rival, advers‡rio, opositor, como eram tambŽm, ali‡s, os homens que vinham de fora para namorar uma mulher da comunidade. Essas situa�›es, provocadoras para os homens residentes, podiam acabar muito mal e com muita viol�ncia f’sica. A comunidade, ansiosa por conhecer as novidades, not’cias e hist—rias de fora que o novo poeta trazia, tentava resolver as amea�as e tens›es provocadas pela chegada do ÒestrangeiroÓ, organizando um evento lœdico-sŽrio ritualizado e controlado por ela (HUIZINGA, 2007). Essa ÒcantoriaÓ obrigava os seus pr—prios poetas a transformar e sublimar o seu —dio do rival e viol�ncia f’sica em viol�ncia verbal e poŽtica, permitindo ao recŽm-chegado ostentar as suas compet�ncias para legitimar a sua visita.

Essa foi a realidade e a fun�‹o eminentemente social do repente/improviso tradicional nordestino desde os seus come�os. Ela evoluiu e mudou radicalmente no sŽculo XX, como mostram os estudos de Elba Braga Ramalho e a tese de doutoramento defendida por AndrŽa Bet‰nia da Silva, intitulada Entre pŽs-de-parede e festivais: rota(s) das poŽticas orais na cantoria de improviso (SILVA, 2014). Os poetas individuais e rivais transformaram-se em dupla de companheiros/parceiros. A viol�ncia, fonte de inspira�‹o inicial do g�nero, perdeu o seu lugar central, sendo o pœblico dos festivais o proponente do tema a ser trabalhado pela dupla. A viol�ncia foi substitu’da pela vontade e motiva�‹o de serem juntos ÒaÓ melhor dupla no palco, como concorrentes e vencedores de outras duplas. Esse fen™meno n‹o ocorreu, por exemplo, no repente africano, halo, que continua, mutatis mutandis, como exerc’cio e jogo lœdico-sŽrio, no seio de comunidades, onde o halo funciona atŽ hoje como v‡lvula de escape para tens›es e conflitos sociais dentro da comunidade e como instrumento de que ela disp›e para ÒeducarÓ, ritualizando-a, a viol�ncia masculina e salvaguardar a coes‹o social.

 

 

Pensar a viol�ncia feminina

 

Podemos agora olhar com lentes diferentes para um fen™meno que observei muitas vezes e que, no in’cio, atŽ me chocava, a saber, o da viol�ncia, obscenidade e indecoro dos versos de certas mulheres repentistas e poetisas. Essa viol�ncia verbal deixava-me ao mesmo tempo com mal-estar perante as rea�›es excessivamente negativas (puta, macho, pior que homem!, feia, grosseira, para s— citar as menos agressivas!) de colegas pesquisadores, indignados e revoltados, apesar dos aplausos, ades‹o e entusiasmo do pœblico, sobretudo quando essa mulher era declarada vencedora.

Imaginar o contexto tradicional do repente permite compreender melhor a situa�‹o da mulher-repentista, um Òestrangeiro-mulherÓ que entra no territ—rio masculino do repente e que atŽ tem o direito de adentrar nesse espa�o, de participar do jogo, mas ter‡ de respeitar as regras desse jogo. Quer dizer, cumprir duas condi�›es: o respeito aos c—digos do antagonismo b‡sico do jogo poŽtico e a demonstra�‹o de um ex’mio conhecimento da sua arte poŽtica. Ela tem que se mostrar superior ao advers‡rio, para o pœblico o declarar vencido.

Esse jogo Ž apimentado de maneira muito especial ao oferecer um palco a todas as poss’veis frustra�›es, tens›es, conflitos e preconceitos gerados pelo conv’vio dos dois sexos no mundo relativamente fechado da comunidade tradicional. No fundo, trata-se de um jogo-ritual que permite evacuar, soltar e curar o que se denomina na psican‡lise VerdrŠngung, refoulement, repress‹o de puls›es (sexuais, de viol�ncia, de —dio) estocadas no inconsciente. Tantas vezes senti uma vibra�‹o, uma excita�‹o, ouvi um fr�mito, antes mesmo de uma mulher entrar no c’rculo ou subir ao palco para cantar! A’, o desafio era grande e especial; era preciso escolher o tom (sarc‡stico, jocoso, ir™nico, provocador) e o subg�nero poŽtico dentro da gama de possibilidades ofertadas, tais como maldizer, esc‡rnio, obscenidade, zombaria. O essencial era fazer melhor, ser mais forte, cantar o verso mais bonito e perfeito na rima e no ritmo. Esse era o grande desafio das cantadoras que sa’am do c’rculo formado pelo pœblico conhecedor-avaliador para um desafio/provoca�‹o grande: aventurar-se atŽ ao centro do territ—rio masculino.

Nesse sentido, h‡ outra intepreta�‹o poss’vel para o fato averiguado de que muitos poetas se recusam, geralmente com uma atitude de imenso desprezo e arrog‰ncia, a cantar com uma mulher. Certa vez, JosŽ Alves Sobrinho me disse que minha interpreta�‹o dessa atitude – como se tratando de um preconceito sexista – era muito superficial, o que outros grandes poetas depois me confirmaram. Na verdade, nesse territ—rio masculino do repente, ser o vencido do duelo poŽtico j‡ Ž, em si, uma desonra. Ser o vencido de um vencedor ÒestrangeiroÓ, seja ele masculino ou feminino, Ž desonra e vergonha! Para o poeta masculino, o risco era muito grande, uma vez que o pœblico gostava desse subg�nero poŽtico e admirava, de antem‹o, a coragem da mulher e o seu dom’nio da ars poŽtica do repente. Na verdade, como Sobrinho e outros poetas explicavam, essa atitude de superioridade e desprezo ocultava o medo medonho que tinham muitos poetas de ter que sair vencido do duelo poŽtico com mulher.

Houve poetisas que procuravam outras estratŽgias, n‹o violentas, para a sua voz ser escutada. Algumas delas j‡ anunciam a transi�‹o do repente tradicional, violento e antagonista, ao repente dos parceiros-companheiros que se instala progressivamente na segunda parte do sŽculo XX. JosŽ Alves Sobrinho, por exemplo, evoca, com muito carinho,

 

A Terezinha Tietre

De S‹o JosŽ dos Cordeiros.

S— cantava elogiando

O verso dos companheiros.

Deixou de cantar, porŽm

Causou saudade aos parceiros (SOBRINHO, 2003, p. 98)

 

Mais uma vez, por tr‡s do elogio do poeta, desenha-se a estrutura b‡sica – Žpica – do mundo masculino que a mulher provocadora tinha que respeitar e as regras do jogo poŽtico Žpico masculino, quer dizer: zombar ou elogiar.

 

 

 

Considera�›es finais

 

O exemplo da fun�‹o social da arte lœdico-poŽtica do repente (e sua forma impressa no folheto de cordel) e da viol�ncia da linguagem poŽtica de homens e mulheres repentistas nesse territ—rio tradicionalmente masculino permitiu ilustrar a necessidade e a urg�ncia da revis‹o das episteme do discurso convencional sobre cantoria e cordel. Para quem quiser interpretar e historiografar textos ou g�neros liter‡rios origin‡rios das tradi�›es orais, Ž fundamental, antes de mais nada, conhecer a fundo o contexto s—cio-hist—rico e cultural das obras e dos seus autores. De um momento, de um contexto (regional, social, hist—rico...), de um pœblico para o outro, a significa�‹o dos gestos, das palavras, das imagens pode ser diferente, tornar-se amb’gua, ter duplo sentido ou sentido figurado e levar o pesquisador, convencido da superioridade e e universalidade da sua metodologia e terminologia, a interpreta�›es erradas.

PorŽm, o que importa mais ainda Ž tentar questionar o nosso olhar sobre eles. Esse questionamento baseia-se na consci�ncia de que a Òordem do discursoÓ (Foucault, 1996) – ocidental, colonial e patriarcal – formata tanto o nosso pensamento e linguagem quanto o nosso olhar sobre o mundo e a nossa realidade. Queiramos ou n‹o queiramos, sejamos homens ou mulheres, essa ordem Ž fundamentalmente colonizadora, mutiladora e hierarquizante. Como disse recentemente um grande pensador do movimento internacional Men Engage Against Violence[38] num debate sobre viol�ncia masculina e educa�‹o: ÒWe are all trapped in the framing of the same narrativeÓ. Estamos todos encarcerados na estrutura da mesma narrativa.

Esse olhar colonizador parte de um observador que se considera centro e protagonista; convencido de que os seus conceitos, critŽrios, categorias e ju’zes de valor sejam objetivos, cient’ficos e lhe fornecem instrumentos v‡lidos para definir, classificar, intepretar e avaliar tudo e todos os outros. Trata-se de uma armadilha desastrosa, formatada por sŽculos de pressupostos que s‹o, na verdade preconceitos e pretens›es injustificadas. Inœmeros s‹o os exemplos de ÒnarrativasÓ e teorias err™neas constru’das em cima do pressuposto de que o Sujeito-pesquisador possui o olhar ÒobjetivoÓ e Òcient’ficoÓ sobre o seu Objeto de pesquisa, como s‹o inesgot‡veis as fontes das Òpiadas de pesquisadorÓ nas quais os poetas da oralidade denunciaram e continuam denunciando, no mundo inteiro, essa pretens‹o absurda da superioridade da ci�ncia ocidental.

Para cumprir o anœncio e promessa que fizeram, no Cariri, no ano 2000, os Poetas dos cordŽis ÒmauditosÓ e inventar esses novos Òoutros 500 anosÓ da hist—ria da humanidade, teremos que contar/narrar direitinho, antes de mais nada, a hist—ria dos seus antepassados-poetas, alŽm de inventar vocabul‡rios n‹o dicot™micos para esse futuro. Criar esse futuro implica o restabelecer daquela vis‹o do mundo das civiliza�›es da oralidade que n‹o se ilude com a cren�a de um Progresso infinito, hoje em dia cada vez mais inveross’mil, violento e mort’fero.

Esses cantadores e cantadoras que ritualizavam e colocavam aberta e corajosamente no palco da comunidade nordestina a viol�ncia masculina como praga social a ser debatida, re-educada, curada e ÒvencidaÓ para o bem-estar de todos, n‹o s— legaram para as futuras gera�›es uma linguagem poŽtica e estratŽgias eficazes de comunica�‹o social, pol’tica e educativa, mas deixaram tambŽm uma amostra de um mundo diferente e dual, mais humano, mais respeitoso das leis da Vida que o sistema colonial e seus aliados eruditos que compuseram e impuseram a Hist—ria oficial do Brasil tentaram, em v‹o, obliterar.

 

 

Refer�ncias

 

ABREU, M‡rcia. Hist—rias de cordŽis e folhetos. Campinas: UNICAMP, 1999.

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[Recebido: 03 mai 2021]

 

 

DOSSIæ


METADE CARA, METADE MçSCARA: MEMîRIA COLETIVA E IDENTIDADE INDêGENA NA OBRA DE ELIANE POTIGUARA

 

 

METADE CARA, METADE MçSCARA: COLLECTIVE MEMORY AND INDIGENOUS IDENTITY IN THE WORK OF ELIANE POTIGUARA

 

Joel Vieira da Silva Filho[39]

https://orcid.org/0000-0001-9895-99

 

Cristian Souza de Sales[40]

https://orcid.org/0000-0002-9377-67

 

Resumo: Este texto investe numa discuss‹o acerca das rela�›es existentes entre mem—ria coletiva e identidade ind’gena em Metade Cara, Metade M‡scara (2004) da escritora ind’gena contempor‰nea Eliane Potiguara. Metade Cara, Metade M‡scara Ž uma obra de cunho autobiogr‡fico, de g�nero h’brido, entremeando lendas, fic�‹o, testemunhos, depoimentos e poemas. AtravŽs da narrativa de deslocamento e processo diasp—rico da escritora, destacamos como as mem—rias individual, coletiva e as identidades se incorporam e se encenam poeticamente. O trabalho evidencia como os poemas operam em favor da preserva�‹o da mem—ria coletiva e da identidade dos povos ind’genas. Na poŽtica da escritora, as mem—rias e identidades performadas d‹o sustenta�‹o a outros saberes sobre os povos ind’genas, os quais se diferenciam das vers›es disseminadas pelas epistemologias eurocentradas. Por fim, o texto realiza um estudo te—rico-cr’tico que dialoga com os seguintes autores: Halbwachs (1990); Hall (2006); Munduruku (2018) como aporte te—rico principal.

Palavras-chave: Literatura ind’gena. Poesia ind’gena. Eliane Potiguara. Mem—ria. Identidade.

 

Abstract: This text invests in a discussion about the existing relations between collective memory and indigenous identity in Metade Cara, Metade M‡scara (2004), by contemporary indigenous writer Eliane Potiguara. Metade Cara, Metade M‡scara is an autobiographical work, of a hybrid genre, interspersing legends, fiction, testimonies, depositions and poems. Through the displacement narrative and diasporic process of the writer, we highlight how individual/collective memories and identities are incorporated and acted out poetically. The work shows how the poems operate in favor of preserving the collective memory and identity of indigenous people. In the writer's poetics, the performed memories and identities support others knowledges about indigenous people, which differ from the versions disseminated by Eurocentric epistemologies. Finally, the text conducts a theoretical-critical study that dialogues with the following authors: Halbwachs (1990); Hall (2006); Munduruku (2018), among others.

Keywords: Indigenous literature. Indigenous poetry. Eliane Potiguara. Memory. Identity.

 

 

 

 

Da oralidade ˆ escrita

A literatura ind’gena contempor‰nea Ž um lugar ut—pico (de sobreviv�ncia), uma variante do Žpico tecido pela oralidade; um lugar de conflu�ncia de vozes silenciadas e exiladas (escritas) ao longo dos mais de 500 anos de coloniza�‹o (GRAòNA, 2013, p. 15).

 

Podemos dizer que a literatura escrita ind’gena tem se consolidado como um movimento estŽtico-liter‡rio e pol’tico no Brasil. Mas, anteriormente ˆ escrita, a literatura ind’gena era compartilhada atravŽs da oralidade ou da tradi�‹o oral. Assim, as narrativas, hist—rias e saberes que antes eram transmitidos de gera�‹o em gera�‹o apenas por meio da oralidade, agora tambŽm circulam atravŽs da escrita. Portanto, uma caracter’stica significativa da literatura escrita ind’gena Ž sua estreita e profunda rela�‹o com a tradi�‹o oral.

A oralidade ind’gena Ž entendida como conjunto de costumes, cren�as e rituais das diversas comunidades ind’genas partilhados atravŽs da voz. Por meio do conhecimento oral, ou seja, de uma sŽrie de c‰nticos, toantes, literaturas (de diferentes etnias), os ind’genas transmitiam de gera�‹o em gera�‹o esses conhecimentos.

Daniel Munduruku, escritor ind’gena, autor de diversos livros e defensor da causa ind’gena, por sua vez, diz que Òa escrita Ž uma conquista recente para a maioria dos 305 povos ind’genas que habitam nosso pa’s desde tempos imemoriaisÓ (MUNDURUKU, 2018, p. 81).

Nesse contexto, Gra�a Graœna, escritora ind’gena brasileira, defende o espa�o da literatura ind’gena como um lugar de autoafirma�‹o cultural, de forma que mesmo sendo produzida em meio a muito silenciamento e exilamento, em paralelo a coloniza�‹o, buscou preservar mem—rias, tradi�›es, formas de vida e cosmologias (GRAòNA, 2013). Na mem—ria dos mais velhos, considerados mais s‡bios, o tempo passado e presente se encontram para atualizar os repert—rios.

De tal maneira, a palavra falada era e ainda Ž transmitida nas comunidades, colaborando para que a tradi�‹o ind’gena se mantenha forte. O elemento oral partilhado em comunidade fortifica a mem—ria e o conhecimento ancestral herdado, de forma que os anci‹os colaboram frequentemente para a produ�‹o dos textos. As vozes dos anci‹os e dos ancestrais refletem na escrita, conferem ao texto um car‡ter memorial e identit‡rio.

Nesse sentido, Paul Zumthor diz que por meio da voz, n—s nos situamos no mundo; sendo assim, a voz ind’gena situa as tradi�›es de modo a n‹o perder toda uma vasta produ�‹o oral que est‡ em constante movimento na mem—ria dos mais velhos e que est‡ sendo passado para os mais jovens[41]. Segundo Zumthor, h‡ tr�s tipos de oralidade, associadas a aspectos culturais diferenciados:

a) prim‡ria, sem rela�‹o alguma com a escritura, relaciona-se a sociedades ‡grafas; b) segunda, quando a escritura prevalece sobre os aspectos orais, condicionando, a partir de uma cultura erudita, as formas de express‹o; c) mista, quando o oral se manifesta de forma parcial e com retraso em rela�‹o ao escrito.. (ZUMTHOR, 1989, p.20)

De tal forma, sendo a oralidade um ato espont‰neo, natural; com a aus�ncia de uma literatura gr‡fica, de ordem alfabŽtica, o registro oral dos ind’genas nasceu intimamente na fala, como elemento de preserva�‹o da tradi�‹o. Assim, a oratura ind’gena funciona/ou como todo conjunto de conhecimento daquilo que est‡/esteve preservado na mem—ria dos povos ind’genas.

Com o desenvolvimento da literatura ind’gena escrita, n‹o se pode dizer que a oralidade foi desprezada e esquecida. O conhecimento oral Ž a mola propulsora para a produ�‹o liter‡ria ind’gena. Assim, a literatura escrita n‹o existiria sem a literatura oral, visto que ambas se correlacionam, pois, Òa escrita n‹o chega para ser predominante, ela chega como auxiliar e ve’culo para a express‹o de toda uma tradi�‹o que se estabelece por meio da oralidadeÓ (DORRICO, 2018, p. 113).

Da oralidade ao alcance da escrita, em rela�‹o ˆ identidade e ˆ mem—ria, enfatizamos que as literaturas de autoria ind’gena s‹o resultado da ancestralidade, e refor�am o pertencimento Žtnico e a valoriza�‹o da luta pol’tico-social-liter‡ria ind’gena. Diversos s‹o os escritores ind’genas que fortalecem o conhecimento ancestral por intermŽdio dos textos. Autores como Eliane Potiguara, Gra�a Graœna, M‡rcia Kambeba, Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Auritha Tabajara, Ol’vio JekupŽ e tantos outros, celebram ainda mais a literatura dos povos ind’genas brasileiros.

De tal forma, neste texto, nos interessa a produ�‹o liter‡ria da escritora ind’gena Eliane Potiguara. Por meio da obra Metade Cara, Metade M‡scara (2019), de cunho autobiogr‡fico, de g�nero h’brido, entremeando lendas, fic�‹o, testemunhos, depoimentos e poesias, evidenciaremos como os poemas contribuem para o fortalecimento da mem—ria coletiva e da identidade dos povos ind’genas.

Percebemos que a poŽtica de Eliane Potiguara Ž carregada de elementos da resist�ncia que mulher ind’gena, bem como se abastece da for�a memorial, ancestral e identit‡ria. As narrativas transitam por espa�os vividos pela escritora, desde o processo diasp—rico de sua fam’lia atŽ o seu nascimento em uma terra distante. A isso, Ž importante salientar que:

O projeto liter‡rio da escritora, alicer�ado na tradi�‹o e na sabedoria ancestral, rompe com o silenciamento secular dos povos origin‡rios e se apresenta como alternativa para a constru�‹o de uma narrativa plural e n‹o estigmatizante da p‡tria brasileira, a partir de uma cosmovis‹o ind’gena feminina (COSTA, 2020, p. 17).

            As provoca�›es presentes em Metade cara, Metade m‡scara denunciam as perversidades da coloniza�‹o e buscam romper com os estigmas impostos aos povos ind’genas. Em rela�‹o ˆ voz de Eliane Potiguara, outras vozes tambŽm s‹o reverberadas, uma coletividade Ž emanada, assim, a poŽtica da escritora, presente nos diversos g�neros da obra, revigora a luta ind’gena e anseia pelo direito de liberdade, respeito e igualdade.

 

 

Eliane Potiguara: uma voz ind’gena feminina

Que fa�o com minha cara de ’ndia?

E meus cabelos

E minhas rugas

E minha hist—ria

E meus segredos (POTIGUARA, 2019, p. 32).

 

Descendente dos Potiguara do Rio Grande do Norte, Eliane Lima dos Santos, mais conhecida como Eliane Potiguara, Ž uma mulher ind’gena, m‹e, escritora e militante, nascida no Rio de Janeiro, em 1950. Uma das escritoras pioneiras da literatura ind’gena brasileira, tornou-se uma das principais vozes na luta pela preserva�‹o e garantia dos direitos dos povos ind’genas, e tambŽm na busca pelo respeito e valoriza�‹o das mulheres.

Eliane Potiguara, assim como diversos ind’genas brasileiros, tambŽm foi v’tima dos resqu’cios da coloniza�‹o. Durante a inf‰ncia, devido ˆs persegui�›es, enfrentou cont’nuas adversidades, pois sua fam’lia foi obrigada a migrar para Pernambuco. Foi no estado do Pernambuco que nasceu a m‹e de Eliane Potiguara, Òa pequena Elza, filha de Maria de Lourdes, fraquinha e enfermaÓ (POTIGUARA, 2019, p. 24), m‹e com apenas 12 anos, v’tima de um estupro do colonizador. Assim, as mulheres da fam’lia de Potiguara sa’ram de sua terra natal, de sua aldeia, para sobreviverem.

Ap—s a migra�‹o para as terras pernambucanas, a fam’lia decidiu partir para o Rio de Janeiro. A viol�ncia ocorrida nas terras Potiguara e em diversos espa�os ind’genas do nordeste brasileiro for�ou diversas fam’lias, como a de Eliane, a migrarem para outros espa�os, em grande parte, para as periferias das grandes cidades sulistas. O processo de estadia na capital carioca foi complicado e as mulheres da fam’lia Potiguara passaram por v‡rias adversidades. A pequena Elza cresceu e quando jovem, engravidou e deu ˆ luz a mulher que hoje chamamos Eliane Potiguara, esta que foi criada por sua av— Maria de Lourdes, enquanto sua m‹e Elza trabalhava.

Eliane foi criada em um quarto trancado e com sua av— aprendeu coisas diversas, maravilhosas, e Òfoi assim que Potiguara come�ou a escrever, absorta nas hist—rias da pr—pria av— e no sentimento que tudo isso envolvia. As hist—rias reais de sua av— a levaram para um mundo m‡gico e liter‡rioÓ (POTIGUARA, 2019, p. 26-27). Potiguara n‹o passou por adversidades apenas durante sua inf‰ncia, pode-se dizer que, durante toda a sua vida, ela travou uma luta constante pela sobreviv�ncia.

Formou-se em Letras pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), fundou o GRUMIN (Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena) e foi tambŽm indicada para o Projeto internacional Mil Mulheres do Pr�mio Nobel da Paz. Ao mesmo tempo em que lutava pelos direitos dos povos ind’genas, buscou conectar-se com sua ancestralidade.

No poema Identidade Ind’gena, por exemplo, escrito em 1975 em mem—ria dos seus av—s, que marca essa conex‹o com seu povo, Eliane Potiguara tra�a um percurso autobiogr‡fico e menciona todo o processo de luta e resist�ncia dos seus parentes. Segundo Graœna (2013, p. 78), tal poema Ò[...] inaugurou o movimento liter‡rio ind’gena contempor‰neo no Brasil [...]Ó. Assim, no in’cio do poema, a voz autobiogr‡fica evoca uma mem—ria coletiva e introduz o primeiro verso com o pronome possessivo (nosso), rememorando os ancestrais. Ao longo do extenso poema, a voz l’rica, de tom feminino, declama que nunca esteve e nem est‡ (ou estar‡) sozinha, pois carrega em si as marcas e os ensinamentos identit‡rios e memoriais dos ancestrais, como exposto na primeira estrofe:

Nosso ancestral dizia: temos vida longa!

Mas caio da vida e da morte
E range o armamento contra n—s.
Mas enquanto eu tiver o cora�‹o acesso
N‹o morre a ind’gena em mim e
Nem t‹o pouco o compromisso que assumi
Perante os mortos
De caminhar com minha gente passo a passo
E firme, em dire�‹o ao sol.
Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro
Carrego o peso da fam’lia espoliada
Desacreditada, humilhada
Sem forma, sem brilho, sem fama (POTIGUARA, 2019, p. 113).

O eu-poŽtico retoma a luta dos povos ind’genas brasileiros, refor�ando que, embora o armamento, o poder colonial exista, o compromisso assumido com os ancestrais jamais morre. A voz l’rica denunciar‡ no decorrer dos versos, todo o processo de invisibiliza�‹o dos ind’genas. No entanto, em contraposi�‹o ao ato de diminuir os sujeitos ind’genas, haver‡ sempre o ato de resistir. Assim, depreende-se que a luta da voz do poema Ž tambŽm a de Eliane Potiguara.

A conjun�‹o adversativa (mas) presente nos versos dois e quatro, elucida uma voz que, embora saiba dos sofrimentos que enfrentar‡, n‹o deixar‡ de cumprir o seu compromisso. Tal compromisso mencionado pela voz do poema coincide com a voz da escritora Potiguara, de caminhar sob a orienta�‹o dos mortos, dos ancestrais, em dire�‹o ao sol, ou seja, ˆ liberta�‹o, embora carregue tambŽm em si espolia�›es, descren�a e humilha�›es.

De tal forma, Òa luta de Eliane Potiguara constitui ato eminentemente pol’tico, assim como a sua escritaÓ (COSTA, 2020, p. 151) e este ato pol’tico Ž reverberado nas produ�›es de Potiguara, dentre as quais, citamos: A Terra Ž a M‹e do êndio (1989); Akajutibir—: terra do ’ndio potiguara (1994); Metade Cara, Metade M‡scara (2004); O coco que guardava a noite (2012); O P‡ssaro Encantado (2014); A Cura da Terra (2015).

De tal maneira, como diz Costa (2020, p. 113), Òos escritos de Eliane Potiguara adquirem um tom reivindicat—rio. Os poemas se tornam lugar de materializa�‹o das vozes ancestraisÓ. Assim, a resist�ncia de Eliane Potiguara est‡ na sua hist—ria de vida, bem como na sua produ�‹o liter‡ria, de modo que, cada vez mais, povos ind’genas e n‹o-ind’genas buscam conhecer a luta e a literatura dessa mulher Potiguara.

 

 

Metade Cara, Metade M‡scara: uma obra de g�nero h’brido

 

A obra Metade Cara, Metade M‡scara foi publicada pela primeira vez no ano de 2004 pela Global Editora. ƒ composta por sete cap’tulos e consta com v‡rios g�neros de cunho liter‡rio e tambŽm social, assim, possui uma hibridez marcante. Nesse contexto, a autora apresenta, como mencionado por Marcello Pereira Borgh’ na orelha do livro: lendas, fic�‹o, realidade, testemunhos, depoimentos, e versos autorias.

Este œltimo g�nero Ž essencial para a composi�‹o do volume, pois, Ž desse modo que ser‡ narrada a hist—ria de Cunhata’ e Jurupiranga e o processo diasp—rico de tais personagens, estes que formam Òum casal que representa simbolicamente as fam’lias ind’genas brasileiras [e] passam por diversas (des)aventuras, em cen‡rio e tempo m’ticos, desde o in’cio do processo da coloniza�‹o europeia em solo brasileiroÓ (DE MELO; COSTA, 2018, p. 364-365 [inser�‹o nossa]).

Segundo Milena Costa Pinto, Metade Cara, Metade M‡scara possui uma transversalidade tem‡tica proveniente da hibridez textual que agrega Òmem—ria, autohist—ria, biografia e autobiografia, de cr’tica, testemunho e denœnciaÓ (PINTO, 2017, p. 79). Esta hibridez apontada pela pesquisadora e tambŽm por diversos estudiosos da obra de Potiguara caracteriza esta obra e faz dela um texto de vozes coletivas emanadas em cada g�nero presente no livro.

Neste texto, nos interessa, particularmente, alguns poemas presentes em Metade Cara, Metade M‡scara, por apresentarem elementos marcantes da literatura ind’gena em rela�‹o com a mem—ria coletiva e a identidade. ƒ oportuno destacar tambŽm a cr’tica social realizada na obra de Potiguara nos diferentes g�neros. De acordo com Pinto, quando costurados, os g�neros presentes no livro, ser‹o refletidos atravŽs da hibridez, e dar‹o uma imprecis‹o ˆs defini�›es de cada g�nero. Por conseguinte, o car‡ter h’brido n‹o se faz presente apenas no corpo do texto, h‡ marcas de hibridez e de ambiguidade tambŽm no t’tulo do livro, pois, uma metade Ž constitu’da por uma cara, e, a outra, por uma m‡scara.

Em sua an‡lise, Pinto (2017) menciona que tal ambiguidade sugere, a priori, a vers‹o silenciada do ind’gena, ou seja – a cara, e em seguida, a proposta inventada pelo colonizador, pelo poder dominante – a m‡scara. Trata-se de uma ind’gena que carrega em si um rosto dividido, porŽm, no texto, a cara ter‡ total destaque, pois Ž dela que provŽm os escritos.

A edi�‹o mais recente foi publicada em 2019 pela Grumin Edi�›es. No primeiro cap’tulo, intitulado de Invas‹o ˆs terras ind’genas e a migra�‹o, Eliane Potiguara aborda a separa�‹o entre as personagens Jurupiranga e Cunhata’ e trata sobre a migra�‹o ind’gena. Para tanto, a autora busca como pano de fundo a sua fam’lia e o processo de sa’da do Rio Grande do Norte, passando por Pernambuco atŽ chegar ao Rio de Janeiro.

Potiguara debate tambŽm quest›es relativas a viol�ncia contra a mulher ind’gena, o racismo e a intoler‰ncia. H‡ alguns poemas que revelam uma escrita de dor, com marcas de resist�ncia, como podemos observar no poema Migra�‹o Ind’gena:

No teu universo de gestos

Teus olhos s‹o mensagens sem palavras

Tua boca ainda incandescente

Me queima o rosto na partida

E tuas m‹os...

Ah! N‹o sei mais continuar esses c‰nticos

Porque a mim tudo foi roubado.

Se ainda consigo escrever alguns deles

S— Ž fruto mesmo da m‡goa que me toma a alma

Da saudade que me mata

Da tristeza que invade todo o meu universo interno

Apesar do sorriso na face... (POTIGUARA, 2019, p. 36).

Neste poema, a voz l’rica com caracter’sticas femininas denuncia o roubo de tudo aquilo que possu’a. Ao mesmo tempo, a voz poŽtica menciona um outro, e fala sobre os gestos, os olhos, a boca, o rosto e as m‹os desse outro que ela sente em si, apesar da necessidade de partir, de migrar.

A dor mencionada aparece como dor sentimental, dor da perda, da separa�‹o, da saudade. Dor esta que impede que o c‰ntico continue, que as palavras venham. Eliane Potiguara fala que o processo colonizat—rio trouxe problemas graves aos ind’genas, assim, no poema, Ž enfatizada a dor dos sentimentos, embora saibamos que, com a coloniza�‹o tambŽm vieram Òenfermidade, a fome, o empobrecimento compuls—rio da popula�‹o ind’genaÓ (POTIGUARA, 2019, p. 43). A dor sentida pela voz do poema foi/Ž sentida por diversos povos que viram seus familiares mortos nas m‹os do colonizador. O genoc’dio ind’gena foi severo, povos morreram por n‹o aceitarem a submiss‹o.

Em rela�‹o com a dor sentida, h‡ tambŽm o sentimento de m‡goa, entremeada com a saudade, ent‹o, estaria a voz do poema perdendo seu amado? O processo colonizat—rio separou diversas fam’lias, casais, filhos, que sentiram a dor da partida, a exemplo da fam’lia de Eliane Potiguara. No entanto, v�-se que a dor sentida precisa ser escondida (escondida para sobreviver?). O sorriso na face mascara insistentemente a tristeza que invade o cora�‹o da voz narrativa.

No segundo cap’tulo, Angœstia e desespero pela perda das terras e pela amea�a ˆ cultura e ˆs tradi�›es, a autora debate sobre as rela�›es entre a migra�‹o e o racismo enfrentados pelos ind’genas, fala tambŽm sobre os problemas pelo qual passam as mulheres ind’genas na luta pelos seus direitos, alŽm de informar-nos sobre a import‰ncia do GRUMIM para a valoriza�‹o desta luta. No terceiro cap’tulo, Ainda a insatisfa�‹o e a consci�ncia da mulher ind’gena, a autora apresenta poemas que versam sobre a luta e a resist�ncia feminina.

No quarto cap’tulo intitulado de Influ�ncia dos ancestrais na busca pela preserva�‹o da identidade, Ž abordada a import‰ncia da fam’lia, dos av—s e dos antepassados ind’genas. Nesse cap’tulo, a personagem Cunhata’ viaja por diversos espa�os e nesse ato de viajar Òouve vozes intercaladas e, no meio delas, escuta a voz ancestralÓ (POTIGUARA, 2019, p. 87).

No cap’tulo cinco, que tem por t’tulo Exalta�‹o ˆ terra, ˆ cultura e ˆ ancestralidade, Eliane Potiguara narra os deslocamentos de Cunhata’ e Jurupiranga pela terra, pela cultura e pela ancestralidade, ao passo que apresenta ainda mais o seu processo de vida enquanto escritora ind’gena.

O cap’tulo seis Ž bastante curto, nele, s‹o abordadas as quest›es acerca da Combatividade e Resist�ncia dos povos ind’genas, bem como os percal�os enfrentados por Jurupiranga. Anterior a isto, n‹o havia men�›es sobre o paradeiro de Jurupiranga, pois o foco estava em narrar os dissabores de Cunhata’. Neste cap’tulo, nos Ž informado as aventuras e percal�os pelos quais Jurupiranga passou, bem como o sonho da liberdade, da justi�a, da paz. J‡ o cap’tulo sete, Vit—ria dos povos, apresenta o final da narrativa, a uni‹o entre Cunhata’ e Jurupiranga e o reencontro com a identidade que fora rasurada com a invas‹o do homem branco.

Metade Cara, Metade M‡scara Ž uma obra marcante; nela, Eliane Potiguara narra, poetiza, conta, relata, denuncia, liberta e anuncia o reencontro dos que foram separados. Os valores liter‡rio e social se hibridizam e resultam na grande potencialidade que Eliane Potiguara tem de escrever para se autoafirmar e tambŽm afirmar os seus parentes ind’genas, que lutam constantemente pela valoriza�‹o e respeito e pelo reencontro.

 

 

Mem—ria coletiva e identidades ind’genas

 

A literatura ind’gena de Eliane Potiguara funciona como uma a�‹o de refor�o da identidade ind’gena. Em seus escritos, propostos em diferentes g�neros, a escritora, n‹o produz algo apartada da identidade herdada dos ancestrais. A proposta liter‡ria de Eliane Potiguara n‹o Ž indigenista, literatura escrita por antrop—logos, pesquisadores, escritores n‹o ind’genas; tampouco indianista, aquela do romantismo brasileiro que prop™s uma representa�‹o do ’ndio pautada no discurso colonial. A literatura escrita por Eliane Potiguara Ž chamada literatura ind’gena, pois parte de um lugar identit‡rio pr—prio; Ž a pr—pria ind’gena que a escreve, que narra.

Assim, em seus escritos, Potiguara desvincula a imagem do ind’gena da vis‹o nacionalista e do senso comum, apresenta a identidade ind’gena em suas narrativas, bem como a mem—ria ind’gena, levando em considera�‹o seus relatos memoriais e suas viv�ncias em comunidade e/ou fora dela.

Problematizando o conceito de identidade, em A identidade cultural na p—s-modernidade, Stuart Hall buscou distinguir tr�s concep�›es de sujeitos identit‡rios. Para ele, h‡ o sujeito do Iluminismo, que Ž centrado e dotado de raz‹o; o sujeito sociol—gico, aquele que necessita dos outros, pois n‹o Ž independente; e o sujeito p—s-moderno, o indiv’duo que n‹o possui uma identidade com fixidez. Assim, debatendo acerca da crise da identidade, o pensador nos prop›e pensar n‹o no termo identidade, mas, sim, em identifica�‹o, como algo que est‡ em andamento. Nesta concep�‹o, entende-se que n‹o h‡ apenas uma identidade ou um processo de identifica�‹o, mas, identidades mœltiplas e processos diversos de identifica�›es. Com isso, esse intelectual nos leva a observar que

[...] a identidade Ž realmente algo formado, ao logo do tempo, atravŽs de processos inconscientes, e n‹o algo inato, existente na consci�ncia no momento do nascimento. Existe sempre algo Òimagin‡rioÓ ou fantasiado sobre sua unidade. Ela permanece sempre incompleta, est‡ sempre Òem processoÓ, sempre Òsendo formada (HALL, 2006, p. 38).

Nessa perspectiva, a identidade est‡ sempre em processo de forma�‹o, Ž um fazer-se inacabado. A incompletude acontece pelo fato de os sujeitos precisarem estar cada vez mais em processos formativos e de complementa�‹o. Quando pensamos em identidade ind’gena estamos pensando em processos de forma�‹o, pois, esta identidade busca apresentar quem Ž esse ind’gena, quais as suas ra’zes, qual a sua ancestralidade.

Para Graœna (2013), a no�‹o de identidade na literatura ind’gena est‡ associada a ideia de deslocamento, a pesquisadora ind’gena bebe dos estudos de Stuart Hall, que compreende o deslocamento como o processo de di‡spora. Esse ato de deslocar-se evocar‡ a concep�‹o de diferen�a e isso dar‡ a esta literatura um car‡ter identit‡rio, ou seja, por ser diferente, por possuir identidade pr—pria, ser‡ refletido no texto liter‡rio a consci�ncia do cidad‹o e da cidad‹ ind’gena (GRAòNA, 2013).

No decorrer do tempo, diversos povos ind’genas foram obrigados a silenciarem suas identidades pelo fato de serem diferentes, de estarem em di‡spora. H‡ como exemplo a fam’lia de Eliane Potiguara que precisou migrar para o Rio de Janeiro e precisou se adaptar a uma identidade cosmopolita.

Em O poder da identidade, Manuel Castells afirma que a identidade Ž uma constru�‹o social, marcada por rela�›es de poder, assim, o autor aponta tr�s tipos de identidade: a identidade legitimadora, a de resist�ncia e a identidade de projeto. Aqui, nos interessa a identidade de resist�ncia, pois nela a identidade dos povos ind’genas Ž refletida, inclusive a da escritora Eliane Potiguara.

Assim, Castells prop›e que a identidade de resist�ncia foi:

[...] Criada por atores que se encontram em posi�›es/condi�›es desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela l—gica da domina�‹o, construindo, assim, trincheiras de resist�ncia e sobreviv�ncia com base em princ’pios diferentes dos que permeiam as institui�›es da sociedade [...] (CASTELLS, 2018, p. 56).

 

            Esta concep�‹o indenit‡ria de resist�ncia mantŽm rela�›es com a identidade vivida pelos povos ind’genas brasileiros. Ela Ž processual como prop›e Hall (2006) e est‡ em condi�›es de estigmatiza�‹o pela l—gica da domina�‹o, como citado acima. No entanto, h‡ atos de resist�ncia e sobreviv�ncia para manter essa identidade viva, pois Òela d‡ origem a formas de resist�ncia coletiva diante de uma opress‹oÓ (CASTELLS, 2018, p. 57).

Dessa forma, Òa literatura produzida por ind’genas brasileiros apresenta na sua constitui�‹o as suas pr—prias caracter’sticas, tanto na forma quanto no conteœdoÓ (FIGUEIREDO, 2018, p. 130), um conteœdo pr—prio, embasado na identidade e na mem—ria e que avan�a de gera�‹o para gera�‹o. Nessa perspectiva, pensamos a mem—ria como um ato coletivo, no qual, o sujeito estabelece rela�›es com os que est‹o ou estiveram consigo.

Pode-se pensar a escrita de Potiguara tambŽm como uma a�‹o memorial individual, porŽm h‡ nos textos da autora muito mais do coletivo, da sua fam’lia, dos seus av—s. Em A mem—ria coletiva, o soci—logo Maurice Halbwachs aponta que Ò[...] nossas lembran�as permanecem coletivas, e elas nos s‹o lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais s— n—s estivemos envolvidos, e com objetos que s— n—s vimosÓ (HALBWACHS, 1990, p. 26).

Sendo a mem—ria o elemento que agrega as nossas lembran�as e os acontecimentos vividos e que mostra que n‹o estamos s—s, fica evidente que a nossa individualidade Ž atravessada pela coletividade daqueles que est‹o ao nosso redor, em nosso cerco de rela�›es familiares e afetivas.

Dessa forma, Daniel Munduruku prop›e pensar a mem—ria ind’gena da seguinte forma:

A mem—ria Ž, pois, ao mesmo tempo passado e presente que se encontram para atualizar os repert—rios e encontrar novos sentidos que se perpetuar‹o em novos rituais que abrigar‹o elementos novos num circular movimento repetido ˆ exaust‹o ao longo de sua hist—ria (MUNDURUKU, 2018, p. 81).

Para Munduruku (2018), a mem—ria Ž resultado do passado – ou seja, da ancestralidade – em sintonia com os saberes atuais, apreendidos no dia a dia dos povos de modo que os movimentos anteriores da hist—ria s‹o repetidos em novos movimentos, atualizando esse conhecimento memorial e preservando-o ao mesmo tempo. Nesse contexto, para os povos ind’genas, a mem—ria, em sua g�nese Ž, principalmente, realizada de maneira coletiva.

A mem—ria coletiva, ent‹o, Ž entendida como os elementos herdados dos ancestrais e partilhados pelos anci‹os, pelos pais, seja de forma oral, gr‡fica ou corporal, sendo marca essencial para a constru�‹o da poŽtica de Eliane Potiguara. A coletividade Ž reverberada em cada verso, em cada palavra, como vemos em Identidade Ind’gena, que Ž uma jun�‹o da forma poŽtica com a autobiografia, n‹o apenas da escritora, mas, dos seus av—s.

No entanto, vale mencionar o quanto o conhecimento ancestral, dos mais velhos Ž essencial para a constru�‹o do texto liter‡rio ind’gena, pois o saber, a mem—ria dos av—s, Ž um conjunto de mem—rias coletivas, visto que esses j‡ atravessaram diversos campos da vida e acumularam mem—rias que os edificaram. O saber dos anci‹os e a mem—ria que eles possuem articulam-se de modo a garantir a perpetua�‹o da ancestralidade, e o escritor e a escritora ind’gena quando escrevem, trazem em si as marcas dos anci‹os e anci‹s, colocando no texto aquilo pelo qual os mais velhos j‡ passaram e contaram, dando a essas narrativas um car‡ter estŽtico.

A poŽtica contempor‰nea de Eliane Potiguara rompe com a ideia de mŽtrica e prop›e um poema com estrofes irregulares e com versos soltos, ora extensos, ora curtos. A mem—ria ind’gena Ž cantada atravŽs do poema e a irregularidade na organiza�‹o n‹o inibe este elemento de aparecer. Para tal, a voz l’rica exclama:

Mas n‹o sou eu s—
N‹o somos dez, cem ou mil
Que brilharemos no palco da hist—ria.

Seremos milh›es unidos como cardume
E n‹o precisaremos mais sair pelo mundo
Embebedados pelo sufoco do massacre
A chorar e derramar preciosas l‡grimas
Por quem n‹o nos tem respeito.
A migra�‹o nos bate ˆ porta
As contradi�›es nos envolvem
As car�ncias nos encaram
Como se batessem na nossa cara a toda hora.
Mas a consci�ncia se levanta a cada murro
E nos tornamos secos como o agreste
Mas n‹o perdemos o amor (POTIGUARA, 2019, p. 113).

A voz do poema reclama os ultrajes j‡ sofridos pelos ind’genas, faz um retorno a mem—ria dos parentes que sofreram e reafirma que, embora perseguidos, n‹o aceitar‹o mais a persegui�‹o, a migra�‹o e as contradi�›es. Inicia a estrofe pensando no futuro, pois n‹o Ž nem est‡ ou estar‡ sozinha, grita: ÒSeremos milh›es unidos como cardumeÓ. Assim, a voz do eu l’rico ind’gena, atŽ ent‹o individual, come�a a apontar uma coletividade e exclamam a ancestralidade coletiva e em seguida o desejo de justi�a. Justi�a pelo massacre, pelas l‡grimas derramadas, pelos que faltaram com respeito contra esses povos.

A mem—ria coletiva tambŽm Ž acionada nos versos  Òa migra�‹o nos bate ˆ portaÓ e Òas contradi�›es nos envolvemÓ. Tais versos apontam para o processo diasp—rico vivido por diversas fam’lias ind’genas, que, embebidos na contradi�‹o do amanh‹, n‹o sabiam se sobreviveriam ao processo. Percebemos que a voz l’rica est‡ muito insatisfeita e carrega em si marcas e dores, quando diz: ÒComo se batessem na nossa cara toda horaÓ. No entanto, o œltimo verso da estrofe Ž uma marca potente de valoriza�‹o da identidade ind’gena, pois se afirma Òmas n‹o perdemos o amorÓ, e assim vemos o qu‹o foi importante o amor herdado dos ancestrais. Adiante, a voz ind’gena exclama.

Eu viverei 200, 500 ou 700 anos
E contarei minhas dores pra ti
Oh! Identidade
E entre uma contada e outra
Morderei tua cabe�a
Como quem procura a fonte da tua for�a
Da tua juventude
O poder da tua gente
O poder do tempo que j‡ passou
Mas que vamos recuperar [...] (POTIGUARA, 2019, p. 114).

Aqui, a voz l’rica dirige a palavra ˆ identidade. As dores vividas ser‹o contadas com o intuito de observar no passado sofrido o elemento resist�ncia ind’gena. Assim, aponta-se a preserva�‹o da identidade ind’gena, e tambŽm com grande insist�ncia o ato de recuperar esta identidade tirada de forma brutal e negligente. A identidade Ž vista como fonte de for�a, sendo respons‡vel pelo retorno ind’gena. Caso contr‡rio, a coloniza�‹o teria deslegitimado todos os sujeitos ind’genas, visto que grande parte foi introduzida em novas identidades, ocidentais, crist‹s, brancas, etc. No entanto, essa luta pela recupera�‹o identit‡ria Ž constante, de forma que, mais adiante, a voz ind’gena proclama:

Seremos n—s, doces, puros, amantes, gente e normal!

E te direi identidade: Eu te amo!

E nos recusaremos a morrer,

A sofrer a cada gesto, a cada dor f’sica, moral e espiritual.

N—s somos o primeiro mundo! (POTIGUARA, 2019, p. 114).

A identidade ind’gena Ž vista no poema como poder, para ent‹o, viver, amar e recusar-se a morrer. O verso ÒE te direi identidade: Eu te amo!Ó comprova a rela�‹o identit‡ria como mecanismo de fundamental import‰ncia para a constru�‹o do sujeito ind’gena. A mem—ria, no poema, aparece, n‹o apenas, mas com maior insist�ncia, nos elementos de sofrimento, a voz do poema lembra de cada gesto sofrido, de cada dor f’sica, moral e espiritual, mas que se recusa a morrer e busca exclamar: ÒN—s somos o primeiro mundo!Ó, ou seja, somos os primeiros que habitavam essas terras, viv’amos da partilha e do trabalho, portanto, queremos reencontrar aquilo que foi/Ž nosso.

Identidade Ind’gena descende do que fora herdado por Eliane Potiguara dos seus av—s e funciona como elemento portador da not’cia do reencontro, como reitera Munduruku (2018). No decorrer dos versos, a(s) voz(es) menciona(m) a luta em meio ao processo colonizat—rio, os sofrimentos, mas tambŽm a coragem, a ousadia e a esperan�a dos povos ind’genas. Esperan�a que provoca luta e resist�ncia:

A’ queremos viver pra lutar
E encontro for�a em ti, amada identidade!

Encontro sangue novo pra suportar esse fardo
Nojento, arrogante, cruel... (POTIGUARA, 2019, p. 115).

A partir do verso ÒA’ queremos viver para lutarÓ notamos que o eu (n—s) ind’gena prop›e pensar que a luta ind’gena Ž constante, pensamos esse eu como uma voz coletiva, e o uso do verbo querer na primeira pessoa do plural evoca essas vozes. S‹o vozes que n‹o ficam estagnadas, ao contr‡rio, encontram na identidade for�as, para ent‹o lutarem pelos de ontem, os de hoje e os de amanh‹. E, se recusa a carregar esse fardo da coloniza�‹o, que Ž ÒNojento, arrogante, cruelÓ. A œltima estrofe canta a liberdade e o resgate da mem—ria. A liberdade aparece como uma categoria que existe a partir da a�‹o de lutar. Os ind’genas lutam contra as imposi�›es do colonizador e concretizam aos poucos essa liberdade t‹o almejada:

N—s, povos ind’genas
Queremos brilhar no cen‡rio da hist—ria
Resgatar nossa mem—ria
E ver os frutos de nosso pa’s, sendo dividido
Radicalmente
Entre milhares de aldeados e ÒdesplazadosÓ
Como n—s (POTIGUARA, 2019, p. 115).

O poema encerra-se clamando por liberdade. Ser livre Ž essencial para manter viva cada vez mais a mem—ria e a ancestralidade ind’gena. O ato de ser livre s— acontece pelo fato de o ind’gena n‹o aceitar a�‹o de docilizar o seu corpo, esse corpo que possui uma identidade pr—pria e que n‹o precisa ser moldado em outra identidade. O eu-poŽtico ind’gena quer viver da identidade e da mem—ria ind’gena, do resgate, quer brilhar no cen‡rio da hist—ria, quer resgatar a mem—ria. Embora ÒdesplazadosÓ, ou seja, deslocados, os ind’genas n‹o querem divis‹o entre os seus, mas, sim, viver na tessitura do acolhimento, da unidade. A identidade e a mem—ria mencionadas no decorrer do poema descende de gera�›es e a voz coletiva quer preservar esses elementos, que s‹o essenciais para a renova�‹o e preserva�‹o da ancestralidade.

O poema Eu n‹o tenho minha aldeia, por sua vez, tambŽm apresenta elementos memoriais e identit‡rios, a voz l’rica proclama atravŽs de car‡ter autobiogr‡fico o fato de n‹o ter uma aldeia[42]. A cada estrofe do poema podemos perceber a voz do eu l’rico de car‡ter feminino proclamando que, embora n‹o tenha nascido na sua aldeia, a heran�a espiritual e ancestral dos antepassados ela possui, est‡ sempre a acompanhando. E, acima de tudo a voz poŽtica clama por toler‰ncia, respeito, amor e solidariedade, valores estes que os povos ind’genas possuem e refor�am a identidade de sujeitos que vivem na coletividade, heran�a dos ancestrais, como podemos ver na estrofe a seguir:

Eu n‹o tenho minha aldeia

Minha aldeia Ž minha casa espiritual

Deixada pelos meus pais e av—s

A maior heran�a ind’gena.

Essa casa espiritual

ƒ onde vivo desde tenra idade

Ela me ensinou os verdadeiros valores

Da espiritualidade

Do amor

Da solidariedade

E do verdadeiro significado

Da toler‰ncia (POTIGUARA, 2019, p. 151).

Este poema possui um car‡ter autobiogr‡fico. Tendo nascido no Rio de Janeiro e sendo criada por sua av—, uma matriarca ind’gena Potiguara, a voz de Eliane se iguala ˆ voz do poema, quando diz: ÒEu n‹o tenho minha aldeiaÓ, mas, em seguida, menciona que a sua aldeia Ž a casa espiritual; assim, entendemos que esta casa Ž a av— Maria de Lourdes, a heran�a ind’gena com quem ela tanto esteve, desde a tenra idade e com quem aprendeu os verdadeiros valores ÒDa espiritualidade/ Do amor/ Da solidariedade/ [...] Da toler‰nciaÓ.

Assim, neste poema, a voz ind’gena retorna a um campo memorial, pois, se tratando de uma narrativa com tra�os autobiogr‡ficos, retorna ao sofrimento da fam’lia de Potiguara que, quando amea�ada, precisou sair do Rio Grande do Norte para sobreviver, mas tambŽm aos campos de diversas outras fam’lias ind’genas brasileiras que passaram pela mesma situa�‹o.

A voz, atŽ ent‹o silenciada, refor�a na poesia ind’gena de Eliane Potiguara que a mem—ria dos ancestrais n‹o se perde, ela se mantŽm viva em cada narrativa e Ž refor�ada em cada verso. O valor herdado dos antepassados reacende a chama da luta e da busca por respeito, que faz com que Potiguara enquanto ind’gena desaldeada possa se autoafirmar mulher ind’gena, sobrevivente da migra�‹o for�ada e militante da causa ind’gena, esteja onde estiver. ƒ assim que a voz poŽtica conclui o poema:

Ah! J‡ tenho minha aldeia

Minha aldeia Ž meu Cora�‹o ardente

ƒ a casa dos meus antepassados

E do topo dela eu vejo o mundo

Com o olhar mais solid‡rio que nunca

Onde eu possa jorrar

Milhares de luzes

Que brotar‹o mentes

Despossu’das de racismo e preconceito (POTIGUARA, 2019, p. 152).

O eu-poŽtico evidencia que possui uma ancestralidade viva atravŽs da mem—ria herdada pelos ancestrais. Por isso, na tessitura narrativa, enaltece a identidade que come�ara a ser formada e afirma que: ÒMinha aldeia Ž meu Cora�‹o ardente / ƒ a casa dos meus antepassadosÓ. Assim, reconhece que n‹o est‡ s—, mas enxerga tambŽm que n‹o est‡ imune ao preconceito, ao racismo. No entanto, sonha com uma sociedade sem intoler‰ncia em que poder‡ cantar a voz ancestral, livre de julgamentos e condena�›es dos homens brancos.

 

 

Algumas considera�›es: outras toantes

 

As textualidades ind’genas escritas carregam em si as marcas da oralidade. As narrativas ind’genas fazem parte de uma a�‹o h’brida, na qual, oralidade e escrita se entrela�am. Metade cara, Metade m‡scara, por exemplo, traz muito dessa hibridez tanto nos diferentes g�neros, quanto nas mem—rias orais que Eliane Potiguara herdou de sua av— Maria de Lourdes.

A produ�‹o liter‡ria de Eliane Potiguara resgata mem—rias e sensa�›es, carrega a marca da migra�‹o, do sofrimento enfrentado por sua fam’lia, meios dos quais retira tambŽm a for�a para escrever em mem—ria de seus av—s, dos seus ancestrais, dos anci‹os. Trata-se de uma escrita identit‡ria, memorial e ancestral, que desvincula a imagem do ind’gena das propostas coloniais, do homem branco e proclama a beleza do povo ind’gena. Os poemas presentes em Metade cara, Metade m‡scara evocam mem—rias coletivas que foram herdadas por Eliane de sua av—, que por sua vez herdou dos seus antepassados, assim, s‹o mem—rias de processos acumulativos.

Com isso, seja na prosa ou no verso, ler Eliane Potiguara Ž mergulhar pelos espa�os dos Potiguara do Rio Grande do Norte, passar tambŽm pelos aprendizados enquanto ela estava trancada no quarto com sua av— no Rio de Janeiro, Ž perceber a luta identit‡ria pela autoafirma�‹o ind’gena, pensar tambŽm na luta pelos direitos humanos, das mulheres ind’genas, problematizar o racismo e o preconceito e o genoc’dio dos parentes.

Assim, a escrita de Eliane Potiguara, e, aqui mais precisamente, a poesia dessa mulher ind’gena, metaforicamente, Ž rio a ser mergulhado. Ao mergulharmos nos rios do Nordeste e do Sudeste atravŽs de suas mem—rias, podemos evidenciar que a poesia de Eliane Potiguara proclama a luta do seu povo e o valor identit‡rio de ser ind’gena, o que um dia esteve na mem—ria (e ainda est‡) agora chega ˆ tessitura narrativa escrita e nos leva a banhos necess‡rios de ancestralidade.

 

 

Refer�ncias

 

CASTELLS, Manuel. O poder da identidade: a era da informa�‹o. Tradu�‹o: Klauss Brandini Gerhardt. S‹o Paulo/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018.

COSTA, Heliene Rosa da. Identidades e ancestralidades das mulheres ind’genas na poŽtica de Eliane Potiguara. 2020. 265f. Doutorado (Estudos Liter‡rios) Universidade Federal de Uberl‰ndia, Minas Gerais, 2020.

DE MELO, Carlos Augusto; COSTA, Heliene Rosa da. Identidades Femininas em Movimento na PoŽtica de Eliane Potiguara. In: Revista Letr™nica. Porto Alegre/RS, v. 1, n. 3, p. 361-374, jul./set. 2018.

 

DORRICO, Julie. A leitura da literatura ind’gena: para uma cartografia contempor‰nea. Revista Estudos de Literatura, Cultura e Alteridade – IgarapŽ, Porto Velho, vol. 5, n. 2, 2018, pp. 107-137.

FIGUEIREDO, Eur’dice. Eliane Potiguara e Daniel Munduruku: por uma cosmovis‹o amer’ndia. Estudos de literatura brasileira contempor‰nea. Niter—i, n. 53, p. 291-304, jan./abr. 2018.

GRAòNA, Gra�a. Contrapontos da literatura ind’gena contempor‰nea no Brasil. Belo Horizonte: Mazza Edi�›es, 2013.

HALBWACHS, Maurice. A mem—ria Coletiva. S‹o Paulo: Editora Revista dos Tribunais LTDA., 1990.

HALL, Stuart. A identidade cultural na p—s-modernidade. Tradu�‹o: Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

MUNDURUKU, Daniel. Escrita ind’gena: registro, oralidade e literatura: o reencontro da mem—ria. In: Julie Dorrico, Leno Francisco Danner, Heloisa Helena Siqueira Correia e Fernando Danner (Orgs.). Literatura Ind’gena Brasileira Contempor‰nea: Cria�‹o, Cr’tica e Recep�‹o. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2018, p. 81-83.

PINTO, Milena Costa. Literaturas de autoria ind’gena: Metade cara, Metade m‡scara. 2017. 132f. Disserta�‹o (Mestrado em Estudo de Linguagens). Departamento de Ci�ncias Humanas, Universidade do Estado da Bahia – Campus I, Salvador, 2017.

POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade m‡scara. Rio de Janeiro. 3. ed. GRUMIM, 2019.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recep�‹o, leitura. Tradu�‹o de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.

ZUMTHOR, Paul. La letra y la voz. Madrid: C‡tedra, 1989

 

[Recebido: 16 ago 2020 – Aceito: 02 jul 2021]

 

 

Ò... MESMO QUE NOS ARRANQUEM OS DENTES E A LêNGUA.Ó: A POTæNCIA PER-FORMATIVA DA LITERATURA DE ELIANE POTIGUARA[43]

 

 

Ò... EVEN IF THEY PULL OUR TEETH AND TONGUE.Ó: THE PER-FORMATIVE POTENCY OF THE LITERATURE OF ELIANE POTIGUARA

 

 

Renata Daflon Leite[44]

https://orcid.org/0000-0002-2498-779X

 

 

Resumo: Discute-se o tema da ancestralidade nas narrativas da autora Eliane Potiguara, relacionando-o ˆ defesa de uma pol’tica da exist�ncia, destacando, assim, o aspecto ritualizado dessa literatura que se desenvolve na t�nue fronteira entre a oralidade e a escrita. Parte-se da escrita de Eliane Potiguara para apontar a conquista de um espa�o que vem se firmando enquanto pr‡tica permanentemente articulada em redes de saberes ind’genas como o Grumin – Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena, surgido na dŽcada de 80, constituindo pol’ticas de resist�ncia objetivas. Ressalta-se o quanto o car‡ter social e Žtico da literatura ind’gena pode nos estimular a fazer aproxima�›es com o Campo de Estudos da Performance, por meio da investiga�‹o de Diana Taylor sobre Mem—ria Cultural nas AmŽricas. Destaca-se o aspecto de inova�‹o deste g�nero liter‡rio que nasce articulado com o movimento ind’gena, tendo a singularidade de afirmar-se enquanto cria�‹o que redimensiona os aspectos pol’ticos da prosa, da poesia, de cartilhas educativas, do desenho e da literatura de testemunho, nos quais a ancestralidade fundamenta a a�‹o pol’tica.

Palavras-chave: Literatura ind’gena. Ancestralidade. Performances pol’ticas.

 

Abstract: It discusses the theme of ancestry in the narratives of the author Eliane Potiguara, relating with the defense of a politics of existence thus highlighting the ritualized aspect of this literature that develops in the tenuous border between orality and writing. It starts from the writing of Eliane Potiguara to point out the conquest of a space that has been established as a practice permanently articulated in networks of indigenous knowledge such as GRUMIN, the Group of Indigenous Women-Education that emerged in the 80's, constituting as an objective political resistance. It is noteworthy how much the social and ethical character of the indigenous literature can stimulate us to make approximations with the Field of Performance Studies, through the investigation of Diana Taylor on Cultural Memory in the Americas. The innovation aspect of this literary genre is articulated with the indigenous movement, with the singularity of being affirmed as a creation that reshapes the political aspects of prose, poetry, educational booklets, drawing and testimonial literature, where the ancestry grounds the political action.

Keywords: Indigenous Literature. Ancestry. Political Performances.

 

 

Foram muitas vidas violadas, culturas, tradi�›es, religi›es, espiritualidade e l’nguas. A verdade est‡ chegando ˆ tona, mesmo que nos arranquem os dentes! O importante Ž prosseguir. ƒ comer caranguejo com farinha, peixe seco com beiju e mandioca. ƒ olhar o mar e o cŽu. E reverenciar os mortos, os ancestrais. ƒ sonhar os sonhos deles e v�-los. ƒ conviver com as Òmanias de cabocoÓ, mesmo que sufocados pela confus‹o urbana ou as amea�as agrestes, porque na realidade s‹o as rela�›es mais sagradas de nosso povo, porque s‹o rela�›es com a terra e com o criador, nosso Deus Tup‹. Bonito Ž vestir os trajes do TorŽ e honrar-se como se vestisse os trajes dos reis e senti-los como a express‹o m‡xima das rela�›es entre o homem, a terra e Deus. ƒ sentir o sagrado e o universo. O importante Ž crer e confiar mesmo que na noite anterior violaram nossa casa ou nosso corpo (POTIGUARA, 2004, p. 79-80).

 

A literatura como expans‹o de um grito estrangulado

 

A literatura ind’gena apresenta-se como um espa�o pol’tico-cultural em cont’nuo movimento, deixando-nos entrever uma rela�‹o tensional-criativa tanto entre escrita e oralidade, quanto entre pol’tica e ancestralidade, ao evidenciar em sua transmiss‹o um processo em que as performances de resist�ncia pol’tica est‹o imbricadas nas performances rituais tradicionais. Um livro escrito por um autor ind’gena Ž uma obra que apresenta a singularidade de ser delineada na t�nue fronteira entre o oral e o escrito, fruto de uma individualidade autoral concebida na partilha e difus‹o de uma cosmovis‹o espec’fica, reafirmada pelo movimento ind’gena de fortalecimento identit‡rio, preserva�‹o e renova�‹o cultural. Lan�amos aqui um olhar para o livro Metade Cara, Metade M‡scara da escritora ind’gena Eliane Potiguara, por evidenciar uma estreita rela�‹o entre ancestralidade e pol’tica, a come�ar pelo t’tulo em refer�ncia ao sinal em cor de jenipapo que a autora traz no rosto. Nascida com uma mancha roxa no olho direito, identificada pelos Kaiap—s como marca de ancestralidade, a autora nos conta que teve sua espiritualidade reacendida pelo cacique Jo‹o Batista Faustino, que lhe dizia que o p‡ssaro Pitiguary cantava sempre que ela se aproximava. O canto m’tico desta ave, conhecida por anunciar a chegada de quem tem uma miss‹o na Terra, envolve, assim, as palavras da escritora numa espacialidade fecundada pelas mœltiplas vozes coletivas da tradi�‹o redescoberta. Na apresenta�‹o da obra, feita por Daniel Munduruku, podemos ler que Òo movimento ind’gena nasce de um primeiro exerc’cio de express‹o da pr—pria dor, de um momento de liberdade, ainda que ilus—rio; um ‡timo de futuroÓ. Ele nos lembra que Òagora Ž hora de ler as palavras que foram ditas ao papel, j‡ que dos primeiros l’deres muito se viu e ouviu, mas pouco se leuÓ (MUNDURUKU, 2004, p. 15-16). ƒ interessante destacarmos tambŽm a introdu�‹o feita por Gra�a Graœna, na qual o livro Ž visto como exemplo de Òuma literatura que expande o seu grito, dos mais exclu’dos, e tece a esperan�a de poder refletir os problemas dos povos ind’genas e seus descendentesÓ (GRAòNA, 2004, p. 17).

Defendemos aqui que a performatividade dessa escrita est‡ em resgatar o espa�o sagrado da fala ancestral, reiterando pr‡ticas espiritualizadas, antes restritas a oralidade e defendendo o direito de exerc�-las, por meio de um posicionamento pol’tico em que a subjetividade do autor est‡ profundamente implicada, conforme podemos ler na ep’grafe:

No dia em que eu conseguir abrir as p‡ginas de minhÕalma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou —dios, no cŽu ou na terra – a’ sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado h‡ cinco sŽculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, n‹o pagam o sangue derramado pelas bisav—s, av—s, m‹es e filhas ind’genas deste pa’s. Este dia certamente chegar‡, mesmo que eu esteja em outros planos (POTIGUARA, 2004, s/p).

A narrativa de Eliane traz ˆ tona mem—rias que foram apagadas pelo colonialismo e neocolonialismo, insistindo em nos fazer ver aquilo que ela denomina como sendo o Òin’cio da solid‹o das mulheresÓ (POTIGUARA, 2004, p. 24). A autora Potiguara nos lembra os relat—rios do sŽculo XVIII feitos por Padre Fernandes, em que 2 milh›es de ’ndios Guaranis foram assassinados em 130 anos, exemplificando com o assassinato de SepŽ Tiaraju e mais de 10 mil Guaranis na batalha de 7 de fevereiro de 1756, pr—ximo a BagŽ, sudoeste do Rio Grande do Sul:

Sua esposa Marina (Ju�ara)[45], levaria ˆs costas a menina recŽm-nascida que SepŽ jamais veria. Era o in’cio da solid‹o das mulheres, motivada pela viol�ncia, racismo e todas as formas de intoler‰ncia, referentes inclusive ˆ espiritualidade e ˆ cultura ind’genas (POTIGUARA, 2004, p. 23).

            Este epis—dio de exterm’nio dos Guaranis revela um imagin‡rio pol’tico racializado, que legitima a domina�‹o dos ÒcivilizadosÓ europeus sobre os povos ÒselvagensÓ, proclamando, na subjuga�‹o do corpo e na Òcoisifica�‹oÓ do sujeito ind’gena, um princ’pio de organiza�‹o calcado no terror. Mbembe (2018, p. 35) comenta que Òas col™nias s‹o o local por excel�ncia em que os controles e as garantias de ordem judicial podem ser suspensos – a zona em que a viol�ncia do estado de exce�‹o supostamente opera a servi�o da civiliza�‹oÓ. O exerc’cio de um poder ˆ margem da lei nas col™nias provŽm da nega�‹o racial de qualquer v’nculo entre conquistador e nativo. Os ÒselvagensÓ careceriam de humanidade e quando os europeus os massacravam n‹o tinham consci�ncia de cometerem um crime. Na col™nia, o direito soberano de matar n‹o est‡ sujeito a c—digos legais e comp›e uma ocupa�‹o sociopol’tica, cultural e econ™mica, baseada na classifica�‹o das pessoas de acordo com diferentes categorias, donde emergem zonas e enclaves que d‹o margem ˆ uma territorialidade restrita. Na contemporaneidade, o exerc’cio do direito de matar n‹o se restringe ˆs guerras territoriais de conquista-anexa�‹o da modernidade, espraiando-se em um mosaico de direitos de governar sobrepostos que visam a sujei�‹o e a coer�‹o do colonizado (MBEMBE, 2018).

Quijano (2015, p.122-126) estabelece que a colonialidade do poder eurocentrado surge na constitui�‹o hist—rica da AmŽrica, culminando no processo de globaliza�‹o contempor‰nea, calcada num novo padr‹o de poder mundial que tem na ra�a o elemento fundacional de rela�›es de domina�‹o exigidas pela conquista e, mais tarde pelas formas hist—ricas de controle do trabalho, dos recursos e de produtos no mercado mundial capitalista. O projeto civilizat—rio etnoc�ntrico relocalizou as singulares identidades nativas dentro de um padr‹o cognitivo associado ao passado e ao primitivo. Vemos em Quijano (2015, p. 127) que o eurocentrismo reduziu as heterogeneidades culturais astecas, maias, chimus, aimar‡s, incas, chibchas, etc., circunscrevendo-as todas sob uma œnica identidade: ’ndios. O mesmo vai acontecer com os escravos achantes, iorub‡s, zulus, congos, bacongos, etc, que a racionalidade colonialista homogeneizaria sob uma œnica nomenclatura: negros. A constru�‹o do Estado-na�‹o nas col™nias europeias foi trabalhada contra a maioria da popula�‹o composta por negros, ’ndios e mesti�os. ÒA colonialidade do poder ainda exerce seu dom’nio, na maior parte da AmŽrica Latina, contra a democracia, a cidadania, a na�‹o e o Estado-na�‹o modernoÓ (QUIJANO, 2005, p. 135-136).

Eliane comenta que a invas‹o das terras ind’genas, conveniente para pol’ticas locais, causou desmatamento, assoreamento dos rios, polui�‹o ambiental e diminui�‹o da biodiversidade local, alŽm de trazer fome e empobrecimento compuls—rio da popula�‹o ind’gena, levando muitas fam’lias ˆ migra�‹o, ao trabalho semiescravo e a pŽssimas condi�›es de moradias (favelas e casas de palafitas na periferia dos centros urbanos), trazendo distœrbios mentais, alcoolismo e suic’dio. Sua an‡lise cr’tica prop›e que a coloniza�‹o e a neocoloniza�‹o tambŽm refletem grupos de interesses religiosos, que tentam impor um paternalismo eclesi‡stico como forma de racismo, desrespeitando as tradi�›es culturais ind’genas (POTIGUARA, 2004, p. 44).

            A autora Potiguara afirma a cosmovis‹o das mulheres como um instrumento de liberta�‹o do povo ind’gena que leva ao despertar do ser sutil, intuitivo e selvagem no sentido de uma ess�ncia espiritual primeva. Sob esse prisma, Òo ato de cria�‹o Ž um ato de amorÓ e resgate do selvagem sagrado que Òj‡ estava dentro de n—s e n‹o sab’amosÓ. A cria�‹o art’stica em todas as suas vertentes, dentre as quais a liter‡ria, emerge como um vulc‹o, uma (r)evolu�‹o do esp’rito, um �xtase: ÒE esse œnico ato de cria�‹o Ž o suficiente para alimentar um oceano, assim como o leite doce e materno de uma jovem m‹e Ž o suficiente para trazer de volta um ser nascido prematuramenteÓ (POTIGUARA, 2004, p. 58).

Estamos diante de uma escrita-como-ve’culo, um Òsoltar a voz num grito estranguladoÓ, narrativa que serve como impulso ˆ a�‹o de outras mulheres ind’genas. Estes versos cor de jenipapo saltam da pele do papel, mostrando-nos a saga de uma mulher ind’gena discriminada, violentada e v’tima de opress‹o social, mas que guarda consigo a tradi�‹o passada pelas mulheres de sua fam’lia, conduzindo-a ao que ela chama de Òretorno ao inconsciente coletivoÓ (POTIGUARA, 2004, p. 27), quando entra para o movimento ind’gena e reacende sua ancestralidade. A palavra escrita, apreendida dentro de uma l—gica de expans‹o de sentidos, foi por mim trabalhada em êndios Online: posts que n‹o querem calar, ressaltando o car‡ter n‹o linear da significa�‹o poŽtica endere�ada ˆ divindade. A densidade da autoria feminina ind’gena Ž lida, portanto, numa apreens‹o deleuziana, na qual o corpo do poema se distende qual plat™ ininterrupto.[46] Dentro desta concep�‹o inspirada em Deleuze e Guattari (1980), a escritura tem uma corporeidade vibr‡til, distendendo-se em agenciamentos que transcodificam e transduzem as cosmovis›es ind’genas, compondo for�as centr’fugas errantes por onde a voz de Eliane reverbera. Os gradientes de intensidade do poema ganham a colora�‹o de uma escrita cor de jenipapo que se espraia pela superf’cie textual, fazendo ecoar vozes e paragens que se inscrevem, como marcas na pele. A palavra rememora este grito estrangulado que habita, por exemplo, o poema Nossa Casa Ancestral:

AtŽ que um dia

Os nossos filhos mortos, nascidos, e renascidos

Possam relembrar do olhar, docemente,

Da luz envolvente

E da tinta de jenipapo

Cravada pelo Grande Esp’rito em nossa cara (POTIGUARA, 2004, s/p).

            O ato de ler percorre, assim, as pot�ncias poŽticas de uma escrita-ve’culo, impulsionado n‹o por uma signific‰ncia un’voca, mas sim pela multiplicidade de sentidos relembrados no poema. Estamos diante de uma escrita que ausculta o terreno da palavra renascida, abrindo-se para uma cartografia pol’tica da voz feminina ind’gena.

Podemos enxergar uma escrita-denœncia no relato do epis—dio de assassinato do bisav™ da autora, consumado por a�‹o da fam’lia inglesa colonizadora X:

Conta-se que ’ndio X, pai das meninas Maria de Lourdes, Maria Isabel, Maria das Neves e Maria Soledad, por combater a invas‹o ˆs terras tradicionais do Nordeste, foi assassinado cruelmente, segundo palavras de uns velhos que encontrei um dia. Amarraram-lhe pedras aos pŽs, introduziram-lhe um saco ˆ cabe�a e o arremessaram ao fundo das ‡guas do litoral paraibano (POTIGUARA, 2004, p. 24).

Crueldade que provoca a migra�‹o da fam’lia para Pernambuco em 1928, quando nasce sua m‹e Elza, filha de Maria de Lourdes, sua av— violentada sexualmente aos 12 anos pelo colonizador. Pouco tempo depois, a fam’lia migra para o Rio de Janeiro, permanece por um tempo nas ruas, atŽ que Maria de Lourdes, Ò’ndia, mulher, analfabeta, paraibana, nordestina e j‡ separada do homem que lhe fez mais dois filhosÓ (POTIGUARA, 2004, p. 24-25) consegue trabalho, estabelecendo-se numa zona degradante da cidade. Elza passa a tomar conta de seus dois irm‹os, e oito anos depois a jovem se casa e tem dois filhos, mas seu marido Ž atropelado e ela repete o destino solit‡rio de sua m‹e. Quando Eliane j‡ tinha 6 anos de idade, sua av—, que ela descreve como Òmulher ind’gena, analfabeta, paraibana, nordestina e agora quase m‹o-de-obra escrava nas feiras cariocasÓ (POTIGUARA, 2004, p. 25), inicia seu processo de cria�‹o para ajudar sua m‹e que trabalhava como faxineira numa firma, sendo educada e mantida a sete chaves num quarto semiescuro para preservar sua identidade moral, f’sica e psicol—gica, j‡ que viviam numa ‡rea socialmente comprometida. A av— curandeira tratou de seus tumores alojados um no olho e outro no mamilo com uma mistura de minhoca amassada, teia de aranha e visgo de jaca. Quando conseguiam, comiam caranguejo e caldo de farinha. A menina cresceu ouvindo as hist—rias ind’genas contadas por sua av— e tias que, mesmo separadas de suas terras originais e violentadas cultural e fisicamente, souberam preservar seus la�os com a cosmologia ancestral.

A encarcerada domiciliar cresce, torna-se professora prim‡ria, entrando em contato com a Filosofia da Educa�‹o de Paulo Freire e, incentivada por sua av— e pelo cantor de origem ind’gena Charrua, Taiguara, com o qual se une em 1978, faz seu Òretorno ao inconsciente coletivoÓ, visitando na�›es ind’genas e perseguindo a hist—ria de sua fam’lia. Ela entra para o movimento ind’gena e, por arquitetar pol’ticas de resist�ncia denunciando o tr‡gico impacto do arrendamento de terras ind’genas, sofre abuso sexual, difama�‹o e amea�as de morte, sendo levada a Pol’cia Federal e liberada ap—s uma a�‹o de solidariedade do Pen Club da Inglaterra e da organiza�‹o internacional Escritores na Pris‹o, a�‹o indicada por Genaro Bautista, ’ndio mexicano coordenador da AIPIN (Ag�ncia de Imprensa Ind’gena).

Eliane, ao narrar a sua hist—ria, tira-a da penumbra e do processo de apagamento da mem—ria, lembrando-nos, no entanto, que este Ž apenas mais um dos casos de v’timas de viol�ncia e racismo que permanecem invisibilizados, assim como a situa�‹o de mulheres ind’genas que sofrem abuso sexual e se tornam v’timas de tr‡fico de mulheres. Entramos em contato com os testemunhos que Eliane escutou ao longo de sua luta pela garantia dos direitos ind’genas, como, por exemplo, o da velha louca que foi violentada sexualmente na inf‰ncia nos anos 1940 por um colonizador que depois fugiu, deixando-a a espera de seu homem-peixe: ÒEu estava em casa sozinha, cozinhando; entrou um homem-peixe em minha casa e me tomou o esp’rito e partiuÓ (POTIGUARA, 2004, p. 44-45).

 

 

Outros arquivos, outros repert—rios: o roteiro do descobrimento e a quest‹o do apagamento

 

O Campo de Estudos da Performance pode nos ajudar a entrever as disputas presentes na constru�‹o da mem—ria cultural por intermŽdio da literatura ind’gena, trazendo elementos para enfocar os aspectos criativos e pol’ticos de inscri�‹o e conquista da palavra ind’gena no mundo. Taylor (2013) nos diz que as performances funcionam como atos de transfer�ncia vitais, transmitindo o conhecimento, a mem—ria e um sentido de identidade social, por meio do que Schechner (2003, p. 27) denomina Òcomportamento restauradoÓ ou Òcomportamento duplamente exercidoÓ. Este artigo trabalha a performance como uma lente metodol—gica que alarga e distende as possibilidades de leitura cr’ticas do livro de Eliane Potiguara, entendendo sua escrita como fruto da performatiza�‹o di‡ria na esfera pœblica de sua resist�ncia pol’tica e de suas identidades Žtnicas e de g�nero, funcionando como um eco dos acontecimentos performativos, uma escrita-a�‹o. Sua voz emerge como fruto das muitas mem—rias incorporadas transmitidas ˆ autora no colo de sua av— ind’gena enquanto faziam juntas bolinhas de farinha e caldo de caranguejo com a m‹o, bem como de todo o sofrimento e discrimina�‹o que testemunhou ao longo da vida. Trata-se de uma escrita fruto de suas pr‡ticas incorporadas extremamente fecunda e potente, apontando para um despertar de consci�ncias.

A literatura ind’gena vai na contram‹o de uma escrita de m‹o œnica, de um saber que n—s, acad�micos, produzimos sobre eles, os ’ndios; trata-se de um espa�o de cria�‹o e circula�‹o de conhecimentos que rompe o paradigma euroc�ntrico e logoc�ntrico das universidades, apresentando-se como via de acesso a um outro modelo, afinal, as pr‡ticas culturais ind’genas, profundamente marcadas pela transmiss‹o do conhecimento incorporado, aparecer‹o tambŽm na palavra escrita. Escrita-a�‹o? Escrita-mem—ria? Que espa�o essa literatura que expande o Ògrito dos exclu’dosÓ reivindica ao contar sua pr—pria hist—ria e que pr‡ticas colonialistas ela denuncia? Que territ—rios ela desestabiliza?

Diana Taylor, em seu livro O arquivo e o repert—rio: performance e mem—ria cultural nas AmŽricas, debate as no�›es de arquivo e repert—rio como formas de transmiss‹o de conhecimento, lembrando-nos, no entanto, que a mem—ria arquiv’stica composta por textos e documentos n‹o Ž imune a mudan�as, podendo ser ressignificada ao longo do tempo. O repert—rio, por sua vez, encena a mem—ria incorporada a partir do ritual, da performance e da oralidade, atos geralmente vistos como conhecimento ef�mero, n‹o reproduz’vel, mas Ž imprescind’vel sublinhar que as diferen�as entre as duas formas apontam muito mais para um campo tensional do que um conjunto bin‡rio antag™nico.

Ao delinearmos a performance enquanto lente metodol—gica e enfocarmos a literatura ind’gena enquanto escrita-a�‹o, entendemos, enfim, que ela prop›e um movimento entre o livro e o campo, colocando em xeque a separa�‹o entre arquivo e repert—rio, ao abarcar o repert—rio de conhecimentos incorporados na forma textual do arquivo, n‹o como objeto de an‡lise, mas por meio do fluxo performativo das palavras ditas ao papel, o livro sendo visto como campo performativo.

O texto liter‡rio ind’gena funda um espa�o de fala que traz para o papel as mem—rias que antes estavam apagadas, apresentando uma din‰mica em que a emerg�ncia da palavra escrita leva a uma valoriza�‹o da palavra oral, em que as performances de resist�ncia, manuten�‹o da tradi�‹o e luta pela garantia dos direitos ind’genas, sustentam e impulsionam a propaga�‹o do arquivo textual e vice-versa.

A partir do campo de estudos da performance, esta textualidade pode ser lida para alŽm da palavra, enquanto atitude cultural, fruto de pr‡ticas culturais incorporadas verbais e n‹o verbais. Taylor (2013) prop›e trabalhar com roteiros ao invŽs de textos, enquanto paradigmas de constru�‹o de sentidos que carregam um arcabou�o port‡til de repeti�›es cumulativas que moldam e ativam dramas sociais. ÒO roteiro coloca os espectadores dentro de sua moldura, enredando-nos em sua Žtica e pol’ticaÓ (TAYLOR, 2013, p. 67). Os poemas de Eliane transmitem conhecimento e mem—ria ao propor a encena�‹o de roteiros n‹o-hegem™nicos dotados de corporeidade, afinal, Ž Òimposs’vel pensar sobre a mem—ria cultural e a identidade como desincorporadasÓ (TAYLOR, 2013, p. 134). O poema dedicado ˆs viœvas ind’genas, No dia que mataram Mar�al Tup‹-Y (ou Òno dia que mataram nossos av—s ou quando eles desapareceramÓ), fala de uma Òtristeza cor de prataÓ, de um Òamor doidoÓ, um Òamor das matasÓ proclamado na solid‹o de uma mulher que prossegue sua luta:

CONSCIENTE

Que jamais se cala...

Mesmo se lhe arranquem os dentes

Ou se lhe cortem a garganta gritante! (POTIGUARA, 2004, p. 73).

No cap’tulo Angœstia e desespero pela perda das terras e a amea�a ˆ cultura, ˆs tradi�›es, n—s nos deparamos com a rememora�‹o das palavras de Mar�al Tup‹-Y quando ele esteve no Sul do Brasil em 18 de abril de 1977: ÒEu n‹o fico quieto n‹o! Eu reclamo... Eu falo... Eu denuncio!...Ó. Potiguara (2004) pontua que esta lideran�a foi assassinada em 25 de novembro de 1983, fato que remete ao assassinato do bisav™ da autora, levando-nos a encarar frente a frente a foto da bisav— de Eliane, Maria de Lourdes, que aparece na dedicat—ria da obra, como uma mulher consciente e que jamais se calou, apesar de carregar uma Òtristeza cor de prataÓ. A palavra incorporada desta escritora ind’gena Ž composta de mœltiplas camadas de sentido, fruto de experi�ncias que vivenciou quando em 1995 viajou pelo interior da êndia com o Programa de Combate ao Racismo, descobrindo pr‡ticas de viol�ncia ˆs mulheres, que tinham como puni�‹o serem queimadas vivas pelos homens em suas pr—prias cozinhas, bem como de sua luta em defesa dos direitos reprodutivos da mulher ind’gena, de sua conviv�ncia com velhos pajŽs e caciques de diversos povos ind’genas, dos ensinamentos ancestrais passados por sua av— ou ainda de seu trabalho na Subcomiss‹o de Direitos Humanos da ONU em Genebra ou dos inœmeros f—runs nacionais e internacionais sobre direitos ind’genas que participa.

A autora Potiguara nos convida a refletir sobre a estreita rela�‹o entre pol’tica e ancestralidade quando diz que Òa liberta�‹o do povo ind’gena passa radicalmente pela cultura, pela espiritualidade e pela cosmovis‹o das mulheresÓ (POTIGUARA, 2004, p. 46), esclarecendo-nos que se trata de uma mulher selvagem, n‹o no sentido primitivo da palavra, mas uma mulher sutil, uma mulher primeira, que n‹o est‡ condicionada a transmitir o esp’rito de competi�‹o e domina�‹o da sociedade contempor‰nea. Eliane prossegue e afirma que o poder dela Ž outro: ÒSeu poder Ž o conhecimento passado atravŽs dos sŽculos e que est‡ reprimido pela hist—riaÓ (POTIGUARA, 2004, p. 46). A cria�‹o art’stica espiritualizada promove uma a�‹o pol’tica de fortalecimento Žtnico-identit‡rio e a conquista de um espa�o de express‹o, impulsionando o autor ind’gena a perpassar os sŽculos como um porta-voz do conhecimento ancestral.

Podemos considerar que o ato de escritura e propaga�‹o da palavra ritualizada no mundo seria capaz de promover um furo no territ—rio competitivo de alto rendimento-efic‡cia-produtividade, consistindo, assim, num ato essencialmente pol’tico. Eliane Potiguara prop›e a transforma�‹o do sofrimento e do esfacelamento, por meio da purifica�‹o do esp’rito no ato criador, neste sentido ela vai alŽm e afirma uma pol’tica da exist�ncia:

Tudo isso Ž simplesmente pol’tica, a pol’tica da exist�ncia. CRIEMOS, ent‹o... porque a cria�‹o Ž um ato divino que tende a mudar consci�ncias, formar opini›es, suavizar o individualismo que ronda as mentes (POTIGUARA, 2004, p. 58).

            Trata-se de uma literatura que faz emergir o espa�o sagrado da fala, mas n‹o podemos esquecer que s‹o as mulheres as guardi‹s da palavra ancestral, como Potiguara (2004, p. 59) nos lembra: ÒE a palavra delas Ž sagrada como a terra que d‡ o alimento ao pr—ximo, alimento da CURA em todos os sentidosÓ. Em seu poema Ato de Amor Entre os Povos, temos dois personagens, Jurupiranga e Cunhata’, que perpassam o tempo e o espa�o para falar da sobreviv�ncia ˆ coloniza�‹o e neocoloniza�‹o. ƒ a saga de Cunhata’ que, ap—s vivenciar o desterro pelo assassinato de Jurupiranga, lembra-se de sua Òidentidade caminhanteÓ gerada no fogo eterno do œtero de seus av—s, como enunciado nos versos da autora ind’gena:

Porque minha identidade pra renascer

A qualquer instante

Basta um fio de luz (POTIGUARA, 2004, p. 64).

Ao percorrermos a narrativa de Eliane, damo-nos conta da fecunda dŽcada de 80, quando ela se articula politicamente com outras lideran�as com o intuito de resgatar e preservar a identidade ind’gena. O Grumin (Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena), hoje Grumin/Rede de Comunica�‹o Ind’gena surge como um espa�o de livre express‹o, circula�‹o de saberes e de organiza�‹o pela garantia dos direitos ind’genas, concebido em 1978 e criado juridicamente em assembleia em 1987. No fim da dŽcada de 80, Eliane editou com o Grumin uma cartilha de apoio ˆ alfabetiza�‹o dos ind’genas da etnia Potiguara, na qual pod’amos ler: Òƒ preciso sorrir, Ž preciso criar quando estamos na luta pela sobreviv�ncia e preserva�‹o cultural, mesmo que nos arranquem os dentes ou a l’nguaÓ (POTIGUARA, 2004, p. 99). O material, com financiamento da UNESCO e apoio da UERJ, procurava discutir a realidade cultural de seu povo, incluindo a quest‹o da discrimina�‹o a que este estava sujeito. O grupo teve o papel pioneiro de levantar a bandeira da invisibilidade da mulher ind’gena, bem como dos ind’genas ressurgidos, discutindo temas como saœde e direitos reprodutivos, quest›es vistas como pertencentes a feministas n‹o-ind’genas. Eliane Potiguara atuou incansavelmente, sobretudo entre 1988 e 1996, buscando promover o acesso ˆ informa�‹o e o exerc’cio de empoderamento, por meio de muitas estratŽgias descritas pela autora, tais como:

Cursos de Capacita�‹o, Consultas Nacionais, os Semin‡rios sobre Fam’lia e Cidadania, sobre Direitos Reprodutivos, as feiras de artesanatos, os projetos de desenvolvimento comunit‡rio, as cartilhas, jornais, panfletos, livros de conscientiza�‹o contra o alcoolismo, contra a viol�ncia, contra a desinforma�‹o, contra o analfabetismo, contra a ignor‰ncia de n‹o se querer preservar e resgatar a identidade ind’gena (POTIGUARA, 2004, p. 50).

Neste sentido, as atitudes culturais per-formadas ao longo da vida de uma lideran�a ind’gena no espa�o pœblico aparecem restauradas e ressignificadas em sua escrita, sendo redimensionadas pela utiliza�‹o da poesia. Podemos dizer que o estigma de atraso cultural associado ˆs culturas ind’genas Ž difundido no cotidiano, seja na comemora�‹o romantizada do Dia do êndio nas escolas – onde as crian�as da sociedade envolvente se cobrem de penas e cocares, desenhando canoas e arcos e flechas para satisfa�‹o dos pais e professores que multiplicam ad infinitum as mesmas poses, gestos, cen‡rios e indument‡rias em murais imut‡veis; seja pelo uso indiscriminado do termo genŽrico ’ndio, que encobre o apagamento das nuances e multiplicidades culturais ind’genas; seja na naturaliza�‹o de assassinatos, torturas, abuso sexual e viola�‹o de direitos humanos cada vez mais invisibilizados pela m’dia majorit‡ria.

Desta forma, o neocolonialismo Ž sustentado pela incans‡vel encena�‹o e reencena�‹o do roteiro hegem™nico da conquista que propaga antagonismos, dualidades, vencedores e vencidos, numa distribui�‹o de cartas marcadas e papŽis estereotipados que mesmo j‡ tendo uma conclus‹o previamente determinada ainda encanta plateias no mundo inteiro, sustentando e fomentando a domina�‹o. A cada novo espa�o praticado pelos ind’genas, n‹o apenas na literatura, mas tambŽm na mœsica, na poesia, no cinema, nos blogs, jornais, r‡dios e webr‡dios ind’genas, o movimento de reafirma�‹o identit‡ria e Žtnica d‡ mais um passo, caminhando na contram‹o do famoso roteiro da conquista ou roteiro do descobrimento, borrando indument‡rias, papŽis e cen‡rios previamente desenhados para propor novos arquivos e repert—rios praticados pelos agentes culturais ind’genas.

Taylor (2013, p. 94) pontua que o roteiro do descobrimento n‹o tem original: ÒEle Ž sempre uma cita�‹o, uma c—pia da œltima c—piaÓ. A carta de Colombo ˆ coroa espanhola, relatando sua primeira viagem ao Caribe em 1493, bem como o resumo do di‡rio de Colombo escrito por BartolomŽ de las Casas em 1552, desapareceram do arquivo, fundando uma documenta�‹o baseada na reprodu�‹o de c—pias que performatizam eternamente o show inaugural estrelado pelo descobridor, diante de um pœblico ileg’timo de espectadores n‹o autorizados descritos na carta como Ò’ndiosÓ e um pœblico leg’timo de europeus que testemunham o movimento de fincar a bandeira no solo conquistado. O ato de transfer�ncia inclui o rei e a rainha como destinat‡rios e benefici‡rios do ato de transfer�ncia de posse, os espectadores n‹o autorizados como objetos transfer’veis e Deus como espectador m‡ximo da cerim™nia (TAYLOR, 2013).

Em todos os lugares que os exploradores desembarcavam, repetiam-se varia�›es desse roteiro, autenticando a perspectiva do descobridor, como podemos ver na permanente encena�‹o da conquista do MŽxico:

O roteiro da conquista tem sido encenado repetidas vezes – desde a entrada de CortŽs em Tenochtitl‡n atŽ o encontro entre Pizarro e Ataualpa, ou a declara�‹o de posse do Novo MŽxico por O–ate. Cada repeti�‹o acrescenta algo ao seu poder afetivo e explicativo atŽ o resultado parecer uma conclus‹o previamente determinada. Cada novo conquistador pode esperar que os nativos caiam a seus pŽs simplesmente devido ˆ for�a do roteiro reativado (TAYLOR, 2013, p. 64).

            Podemos, no entanto, escolher seguir os roteiros da conquista como pr‡ticas reiteradas disseminadas em escolas e na m’dia majorit‡ria ou criticar os roteiros, apontando suas brechas, falhas e mem—rias submersas. Esta segunda op�‹o aparece, por exemplo, quando Eliane sublinha a particularidade do Òin’cio da solid‹o das mulheresÓ, apontando no roteiro hist—rias que foram silenciadas pela pr‡tica de reativa�‹o de um roteiro padr‹o, trazendo para o foco vozes que foram caladas, como a da crian�a-velha-louca que passou a vida esperando seu homem-peixe colonizador, ou a de muitas Marinas, Ju�aras e Marias de Lourdes obrigadas a migrar com suas crian�as ˆs costas para vivenciar o racismo cotidiano. Que sistemas significantes e econ™micos, porŽm, mant�m essas vozes silenciadas? Taylor prop›e que, ao identificarmos o roteiro, reflitamos sobre a efic‡cia de sua re-encena�‹o:

Como um sistema paradigm‡tico de visibilidade o roteiro tambŽm assegura a invisibilidade. Ainda h‡ mais raz‹o para nos perguntarmos, ent‹o, por que esse roteiro continua a ser reencenado e por que ele ainda exerce tanto poder. (TAYLOR, 2013, p.92)

            Podemos depreender de Taylor (2013, p. 100-101) que o roteiro situa o descobridor como aquele que Òv�Ó e que nunca se sente obrigado a se descrever ou a se situar; j‡ os amer’ndios, apesar de presentes fisicamente, s‹o reconhecidos apenas para Òserem desaparecidosÓ nesse ato. A objetifica�‹o do corpo primitivo reafirma a supremacia cultural do sujeito que Òv�Ó, legitimando toda uma indœstria de especialistas em l’nguas ou etnografia que, assim como Colombo, se sentem capazes de interpretar as performances do nativo. Diante da reprodutibilidade de corpos n‹o falantes institu’dos pelos roteiros hegem™nicos, a voz de Eliane nos apresenta um roteiro n‹o-hegem™nico que difere da unilateralidade da conquista dos dominantes sobre os dominados para situar-se n‹o como aquela que Òv�Ó, mas como aquela que per-forma a pr—pria mem—ria a partir das experi�ncias vivenciadas. O assassinato do ’ndio X pela fam’lia colonizadora inglesa X reencena o assassinato de SepŽ Tiaraju em 1756; da mesma forma, as solid›es de Maria de Lourdes e Marina (Ju�ara) rememoram o assassinato de Mar�al Tup‹-Y e a dor das viœvas ind’genas que jamais se calam, Òmesmo se lhe arranquem os dentesÓ. A cartilha de alfabetiza�‹o, editada pelo Grumin no fim da dŽcada de 80, modifica os roteiros hegem™nicos de apagamento, subvertendo letramentos verticalizados exteriores ˆ realidade cultural Potiguara, para propor a discuss‹o da discrimina�‹o e a conscientiza�‹o pol’tica. Eliane Ž testemunha, sujeito e participante do ato de transfer�ncia vital da mem—ria cultural passada em sua literatura. Ela n‹o Ž apenas uma observadora impass’vel, pois, ao descrever o mundo o modifica no ato divino da cria�‹o, propondo nas simbologias das personagens Cunhata’ e Jurupiranga novas espacialidades para as identidades ind’genas ressurgidas.

 

 

Re-inventando a Ancestralidade, apesar das Performances de Poder

 

            Em oposi�‹o ˆs constantes performances de poder, encontram-se as mem—rias incorporadas que comp›em a identidade ind’gena, sendo continuamente performadas a cada a�‹o ritual e cotidiana, trazendo em si a continuidade da hist—ria ancestral. Os roteiros da conquista representam muitas vezes as performances de domina�‹o e opress‹o, baseadas e sustentadas pelo antagonismo e pela domina�‹o do Eu sobre o Outro. As performances rituais s‹o movidas por uma necessidade inelut‡vel de cont’nua reafirma�‹o identit‡ria atravŽs da honra ˆ mem—ria dos ancestrais de um povo. A autoafirma�‹o Žtnica n‹o se faz em oposi�‹o ao Outro, mas sim pelo encontro com uma cosmovis‹o que, por estar acima de qualquer binarismo, sabe apenas seguir seu percurso e manter sua for�a motriz e vital, como podemos ler nesses versos do poema Identidade Ind’gena:

Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!

Mas caio da vida e da morte

E range o armamento contra n—s.

Mas enquanto eu tiver o cora�‹o aceso

N‹o morre a ind’gena em mim

E nem tampouco o compromisso que assumi

Perante os mortos

De caminhar com minha gente passo a passo

E firme, em dire�‹o ao sol.

Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro

Carrego o peso da fam’lia espoliada

Desacreditada, humilhada.

Sem forma, sem brilho, sem fama. [...] Mas a consci�ncia se levanta a cada murro

E nos tornamos secos como o agreste

Mas n‹o perdemos o amor.

Porque temos o cora�‹o pulsando

Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.

Eu viverei 200, 500 ou 700 anos

E contarei minhas dores pra ti

Oh! Identidade (POTIGUARA, 2004, p. 102-103).

A identidade Ž, ent‹o, o que mantŽm o Òpulsar do cora�‹oÓ e a consci�ncia ind’gena, n‹o sendo, de forma alguma, fruto de um roteiro reencenado para dominar o Outro. Apesar do Òpeso da fam’lia espoliadaÓ, a reconstru�‹o identit‡ria traz em si a for�a motriz que permite Òcaminhar em dire�‹o ao solÓ e honrar o Òcompromisso assumido perante os mortosÓ. ƒ a ancestralidade que mantŽm a identidade ind’gena e Ž esta que reativa perpetuamente a mem—ria ancestral. Quando em 1990 Eliane vai ao 49¼ Congresso dos êndios Norte-Americanos entregar um dossi� sobre a situa�‹o ind’gena brasileira, ela descreve ter experimentado, em meio aos 1.500 ind’genas presentes com seus trajes mesclados a milhares de penas de ‡guia, em horas e horas de dan�as, o que ela chama de Òas mœsicas e os tambores dos sŽculosÓ, gerando uma outra sensa�‹o espa�o-temporal: ÒSenti o espa�o compartimentar-se, transformando-se em fagulhas do tempo, pequenas gotas aŽreas coloridas que me enfeiti�aram e me colocaram em contato com os ancestraisÓ (POTIGUARA, 2004, p. 111). Segundo a autora Potiguara, nesta ocasi‹o foi enviada, pela primeira vez, uma mo�‹o ˆs Na�›es Unidas sobre o exterm’nio dos Povos Ind’genas do Brasil. Por meio desse exemplo, podemos entrever que a a�‹o pol’tica Ž n‹o apenas a mo�‹o enviada ˆ ONU e o dossi� de denœncias, mas tambŽm os sons imemoriais dos tambores dos sŽculos, afinal, a afirma�‹o de uma pol’tica da exist�ncia Ž o que permite a afirma�‹o identit‡ria.

Em Metade Cara, Metade M‡scara, entramos em contato com uma escrita que reitera, na poesia, no testemunho e em narrativas, os diversos movimentos de uma a�‹o pol’tica que caminha junto a uma estŽtica da exist�ncia, constituindo-se tanto de denœncias, organiza�‹o de grupos de discuss‹o, conscientiza�‹o, luta pela garantia de direitos pol’ticos e representatividade junto a mecanismos internacionais, quanto de exalta�‹o cultural e ancestral.

A literatura ind’gena surge enquanto um espa�o praticado, em que a ag�ncia cultural de seus autores reafirma a processualidade deste territ—rio essencialmente n‹o-normativo, mas sim afirmativo de uma permanente pol’tica da exist�ncia, onde a escrita ind’gena, enquanto fruto e reflexo da transfigura�‹o da dor em cria�‹o, sustenta e mantŽm tanto a preserva�‹o da oralidade, quanto a renova�‹o da palavra ancestral inscrita no papel ou no ambiente digital das novas tecnologias. A din‰mica de um corpo org‰nico e vivo da cultura ind’gena continuamente presente nessas cria�›es liter‡rias, dilui as fronteiras entre escrito e oral, pol’tica e ancestralidade, arquivo e repert—rio, preserva�‹o e renova�‹o, dissolvendo os binarismos que sustentam um projeto societ‡rio logoc�ntrico.

A pot�ncia poŽtica da voz de Eliane comp›e n‹o uma etnografia descritiva do sujeito ind’gena urbano, mas sim a corporifica�‹o de sua imagem diante de nossos olhos, a partir de relatos que apontam para a condi�‹o dos ind’genas desplazados, denunciando sua invisibiliza�‹o social. Sua escrita cor de jenipapo n‹o nos deixa tapar os olhos para a misŽria e o abandono de um indiozinho que escorria pelo bueiro diante da autora, Òmetade de seu corpo superior debru�ava-se sobre o meio-fio da rua e a outra parte jazia cansada, escorrendo pelo esgoto urbanoÓ (POTIGUARA, 2004, p. 93). O relato nos traz um menino de dez anos derretido feito um rel—gio de Salvador Dal’, com o corpo magro e imundo escorrendo pelo bueiro, olhinhos de tigre, roupas de mendigo, catando centavinhos. A voz de Eliane nos permite ouvir a voz do indiozinho que, indagado pela autora, responde que os meninos de rua lhe roubaram o dinheiro que conseguiu pedindo. Seu œtero de m‹e rosnou, afinal, ele n‹o se considerava um menino de rua e ela estava diante de uma nova classe social criada pela pobreza: a de pedinte ind’gena.

Escrita-denœncia e cosmopol’tica liter‡ria que nos transporta para o plano da fala ancestral cravada na nervura da folha de jenipapo, que lhe tra�a os contornos. Escrita que se faz terra, signo que transcende a palavra, distendendo-a atŽ alcan�ar a r’tmica do TorŽ Potiguara e erguer-se em sonho revelado atravŽs de textos, ora�›es, poesias e articula�›es pol’ticas dentro do Grumin. Estamos diante de uma escrita cosmovisiva que nos abre outras dimens›es de consci�ncia moral, Žtica, pol’tica e espiritual. Eliane nos lembra que a palavra da mulher ind’gena, condicionada pelo racismo e pelo medo, sobrevive porque Ž sagrada como a terra, alimento da cura em todos os sentidos. A personagem Cunhata’, ap—s o sofrimento da perda de suas terras, de sua fam’lia e de sua consci�ncia de mulher ind’gena, n‹o conseguindo saber o paradeiro de seu homem, v� sua dor refletida em p‡ginas de desterro, que revolvem a identidade perdida na ÒinŽrcia da pr—pria exist�nciaÓ ou em versos que falam da agonia dos Patax—s ou do sentimento Pankararu de ser marginal das cidades, das fam’lias e das palho�as. Ao retratar as gotas rubras do sangue louco e desvairado de um guerreiro desprendido durante o per’odo da coloniza�‹o, no poema Tocantins de Sangue, a linguagem poŽtica transp›e o corpo ind’gena colonial para o contempor‰neo, conclamando em tom de denœncia:

Banha o suor do mundo

Com tua luta

Junta l’quidos, faz crescer

Nossa gente pobre

Nossa vida amarga

N—s _ Decadentes!

Ind’genas, n‹o...

Indigentes.

(POTIGUARA, 2004, p. 60).

Esta for�a cosmopol’tica aponta para uma palavra f�mea que cura porque reacende o inconsciente coletivo ancestral, beijando as cicatrizes do mundo. Sua letra se levanta para percorrer com seu corpo palp‡vel, toda uma trajet—ria de preconceito no poema Neste sŽculo de dor, resistindo Òespoliada na condi�‹o de mulherÓ em Òfebre pra subexestirÓ, ÒPra que matem nossos filhos / E os joguem nas valasÓ (POTIGUARA, 2004, p. 61). Em meio a tanta dor, a materialidade de sua voz de mulher ind’gena conclama ˆ Uni‹o das Na�›es Ind’genas e a uma busca da identidade adormecida, dizendo no poema Desilus‹o: ÒNÌO ˆ morte da fam’lia / NÌO ˆ perda da terra / NÌO ao fim da identidadeÓ (POTIGUARA, 2004, p. 64). A mem—ria incorporada de Cunhata’, enfim, se rasga, entoando c‰nticos de um amor louco e desvairado no poema Velho êndio, ao mirar a imensid‹o dos sŽculos por meio dos olhos do amante. Estas palavras ditadas ao papel nos contam que certa vez o Grande Esp’rito disse a Cunhata’: ÒVai ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue; um dia, quem sabe, seremos livres!Ó (POTIGUARA, 2004, p. 67). Eliane-Cunhata’ cria asas e luta em 1988 dentro da Assembleia Constituinte por entre bocas, dentes, sorrisos, entre o cheiro do vermelho do urucum que besuntava os cabelos dos Kaiap—, liderados por Megaron, as palhas ressecadas dos ind’genas do Nordeste, os olhares de lince dos Terena e Tukano, os olhares saltitantes dos Guarani e o rosto pintado de jenipapo de Ailton Krenak. Personagens hist—ricas e m’ticas perpassam as p‡ginas da autora, compondo a trama pol’tica da exist�ncia, entre suas mem—rias da Constituinte dedicadas ˆ ’ndia guerreira Dona Marta Guarani e sua lembran�a de tia Severina, anci‹ guerreira Potiguara, a quem a escritora dedica o poema O Segredo das Mulheres, publicado em 1984 na cartilha de apoio ˆ alfabetiza�‹o ind’gena editada pelo Grumin.

A textualidade aqui se faz textura, demarcando um territ—rio, fincando posi�‹o: ÒO ind’gena precisa sair das paredes, dos museus, das salas de exposi�‹o!Ó (POTIGUARA, 2004, p. 94). A voz de Eliane ecoa a autodetermina�‹o dos povos, lembrando-nos da luta pol’tica travada pelo movimento ind’gena internacional para a cria�‹o do F—rum Permanente para Povos Ind’genas da ONU. Metade Cara, Metade M‡scara faz uma refer�ncia hist—rica importante a associa�›es que deram um pontapŽ inicial na ruptura com organiza�›es de cunho paternalista, como a Coiab (Coordena�‹o ind’gena da Amaz™nia Brasileira), inicialmente coordenada por Manoel Moura Tukano, e a Unind (Uni‹o das Na�›es Ind’genas), criada por Marcos Terena, M‡rio Juruna, çlvaro Tukano, Lino Miranha, entre outros. Eliane nos lembra que territ—rio Ž cosmologia e n‹o apenas um peda�o ou vastid‹o de terras, integrando a cidadania dos povos ressurgidos, como os Pitiguary, no Cear‡, os Cat—kin, no Alagoas, ou ainda os Porubor‡ de Rond™nia, bem como os ’ndios-descendentes, em sua luta individual por sua territorialidade ind’gena.

A escrita Potiguara de Eliane, filha de um povo comedor de camar‹o, volteia e dan�a envolvente no poema Cunhata’, surgindo plena de odores, gostos e sensa�›es t‡teis. O leitor se banha nas ‡guas do Orinoco, espreitando o massacre de Potosi e o canto do pitu‹, as letras se movimentam na cad�ncia de um xaxado, ao sabor do churrasco, do chimarr‹o, de uma saia de chita e um chocalho bonito que integra a Zamacueca dos Andes e o TorŽ do Sert‹o. A escrita se faz aud’vel, sonora e Eliane nos reparte carne-de-sol, bai‹o temperado, a�a’ geladinho e uma rede quentinha, onde o leitor se deita, transportando-se para as libertas Ilhas Gal‡pagos ou para o Amazonas, ao som das zabumbas e das zampo–as. Cada conta de letra de Metade Cara, Metade M‡scara vai tecendo um colar de mi�angas repleto de simbologias e matizes por onde a palavra passeia fio a fio, entre colora�›es e estilos liter‡rios. A poesia Ž entremeada pela prosa na qual as personagens Cunhata’ e Jurupiranga perpassam debates em torno dos direitos reprodutivos da mulher e da luta dos ind’genas ressurgidos, dialogando com trechos de uma cartilha de alfabetiza�‹o ind’gena, que prop›e ensinar n‹o um letramento enrijecido, mas a corporeidade da letra em seu adensar-se no mundo, onde a leitura e a escrita aparecem como matŽrias de express‹o cosmopol’tica.

 

 

 

 

Considera�›es finais

Entrevemos na literatura de Eliane Potiguara o espa�o sagrado da fala inscrito por xam‹s, curandeiras, vision‡rias, guerreiras e inœmeras mulheres ind’genas violadas e subjugadas pela a�‹o colonizadora. O fazer liter‡rio materializa um grito estrangulado, perpetuando a mem—ria ancestral da identidade ind’gena reconfigurada no fluxo performativo das vozes ditas ao papel, dando corpo a falas submersas. As mem—rias incorporadas na textualidade de Eliane se op›em ˆs performances de poder, testemunhando uma pol’tica da exist�ncia na qual a dor se transfigura em cria�‹o e pot�ncia poŽtica.

A escritura feminina ind’gena surge como cura frente ao esfacelamento, promovendo a reconstru�‹o identit‡ria ao reencenar o mito de Cunhata’ e Jurupiranga, personagens lend‡rios impulsionados pela for�a motriz de uma identidade caminhante. O mito se encarna na escrita-testemunho dos relatos sobre a av— da autora, Maria de Lourdes, violentada sexualmente pelo colonizador e obrigada a migrar com a fam’lia para o Rio de Janeiro. Adentrando a escritura desta autora Potiguara, percorremos mœltiplas camadas de sentido, em que a hist—ria de sua av—, reencena o in’cio da solid‹o das mulheres, cuja origem remete ao exterm’nio dos Guaranis ainda no sŽculo XVIII, quando Marina, esposa do l’der SepŽ Tiaraju migra sozinha com sua filha nos bra�os ap—s o assassinato do esposo.

A incans‡vel trajet—ria da autora na garantia dos direitos ind’genas redimensiona e ressignifica sua escrita, dando-lhe a dimens‹o de fala per-formativa que trilha um caminho oposto ˆ reencena�‹o dos roteiros hegem™nicos, apontando em meio ˆ normatividade estabelecida, poss’veis brechas por onde ecoam mœltiplas vozes ind’genas capazes de propor outros roteiros e percursos. Estamos diante de uma literatura incarnada, na qual a mem—ria cultural tem a pot�ncia poŽtica de uma pol’tica da exist�ncia, que cultiva a palavra da mulher ind’gena como elemento de cura espiritual.

 

 

Refer�ncias

 

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SCHECHNER, Richard. O que Ž performance? O Percevejo. Ano 11, n. 12, p. 25-50, 2003.

TAYLOR, Diana. O arquivo e o repert—rio: performance e mem—ria cultural nas AmŽricas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.

 

[Recebido: 04 ago 2020 – Aceito: 9 mar 2021]

 


 

AUTOBIOGRAFIAS DE MULHERES CORDELISTAS; UMA CONTRIBUI‚ÌO PARA A NOVA HISTORIOGRAFIA DO CORDEL

 

WOMEN CORDELISTÕS AUTOBIOGRAPHY : A CONTRIBUITION TO THE NEW CORDELÕS HISTORY

 

                                                                                       Maria Gislene Carvalho Fonseca[47]

http://orcid.org/0000-0003-3201-1946



Resumo: Este artigo trata das narrativas autobiogr‡ficas de tr�s poetas cordelistas: Julie Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara. Discutimos aqui sobre como, ao narrar a si mesmas, elas reescrevem a hist—ria do cordel. Para isso, utilizamos como refer�ncia a Teoria do Ponto de Vista de Hill Collins (2019, 2019a) e embasamo-nos metodol—gica e epistemologicamente nas perspectivas do feminismo decolonial apontadas em Curiel (2020), Lugones (2019) e Anzaldœa (2019). Para discutir a dimens‹o do g�nero no cordel, apoiamo-nos nos trabalhos de Santos (2020) e Lemaire (2017, 2018, 2020). Com isso, observamos que Ž preciso nos voltarmos para as biomitografias e pontos de vista das mulheres cordelistas para sermos capazes de refletir sobre o universo do cordel.

Palavras-chave: Cordel. Mulheres. Autobiografias.


Abstract
: This article deals with the autobiographical narratives of three poets: Julie Oliveira, Izabel Nascimento and Auritha Tabajara. We discuss here how, in narrating themselves, they rewrite the history of the cordel. For that, we used Hill Collins' Theory of Point of View (2019, 2019a) as a reference and based methodologically and epistemologically on the perspectives of decolonial feminism pointed out in Curiel (2020), Lugones (2019) and Anzaldœa (2019). To discuss the gender dimension in the cordel, we rely on the work of Santos (2020) and Lemaire (2017, 2018, 2020). With that, we observed that It is necessary to turn to the biomitographs and points of view of the women cordelists in order to be able to reflect on the universe of the cordel.

Keywords: Cordel. Women. Autobiographies.

 

 

Introdu�‹o

 

Historicamente, as narrativas produzidas por mulheres v�m sendo apagadas da historiografia oficial – produzida por homens acad�micos, brancos, a partir de conhecimentos eurocentrados. No caso do cordel, isso n‹o Ž t‹o diferente. As narrativas tambŽm priorizam os pontos de vista masculinos, de homens que muitas vezes est‹o buscando aceita�‹o do universo acad�mico, e que invisibilizam as produ�›es de mulheres. Sem falar nas formas como as mulheres s‹o tratadas enquanto suas personagens: estereotipadas como doces e belas, ou como descontroladas e feias.

A forma poss’vel de reverter essa situa�‹o Ž a partir do reconhecimento, valoriza�‹o e visibilidade das produ�›es de mulheres. As cordelistas s‹o parte importante e fundamental para a hist—ria do cordel, para o entendimento de suas perspectivas de tradi�‹o e suas produ�›es reescrevem aquilo que costumamos aprender sobre este universo. Ao olharmos para as autobiografias das mulheres poetas, estamos olhando para sua pr—pria vida, mas tambŽm para suas a�›es que afetam e que constituem aquilo que Ž o cordel contempor‰neo.

Neste artigo, observamos como isso se d‡ em cordŽis autobiogr‡fico das poetas Julie Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara. O objetivo n‹o Ž fazer uma compara�‹o entre as hist—rias, mas identificar como cada uma, ao seu modo, ao contar sobre suas vidas e trajet—rias art’sticas, tambŽm registram o tempo e contam a hist—ria do cordel.

Para essa reflex‹o, temos como base te—rica os estudos sobre a mulher no cordel de Santos (2020) e Lemaire (2017, 2018, 2020) articulados com a Teoria do Ponto de Vista de Hill Collins (2019). Nossa an‡lise est‡ ancorada em uma metodologia feminista decolonial, descrita por Curiel (2020), e no Pensamento de Fronteiras, proposto por Anzaldœa (2019), que nos permitem reconhecer as vozes das poetas como forma de conhecimento fundamental para o entendimento aqui proposto, buscando nos versos aqueles elementos que desestabilizam as estruturas narrativas patriarcais.

 

 

A teoria do Ponto de Vista e as contribui�›es do pensamento feminista negro de Hill Collins para pensar o trabalho das mulheres cordelistas

 

O pensamento feminista negro tratado por Hill Collins Ž quase um chamamento para todas aquelas cuja produ�‹o de conhecimentos est‡ fora dos centros de reconhecimento. ƒ desse pensamento que emerge a discuss‹o sobre o ponto de vista, conforme nos apresenta ångela Figueredo. ÒO pensamento feminista negro Ž um conjunto de experi�ncias e ideias compartilhadas por mulheres negras que envolve interpreta�›es te—ricas da realidade a partir de um ponto de vistaÓ (FIGUEREDO, 2017, p. 3) Trata-se de uma convoca�‹o para que todas contemos as nossas pr—prias hist—rias a partir de nossas experi�ncias – muitas vezes subalternizadas por um sistema que hierarquiza saberes e modos de transmiss‹o.

Para Patr’cia Hill Collins, a luta das mulheres afro-americanas para terem suas vozes ouvidas desenvolveu um Òponto de vista autodefinido e coletivo sobre a feminilidade negraÓ (HILL COLLINS, 2017, p. 3) e isso ajudou a responder ˆ sua representa�‹o nos discursos dominantes. Trata-se de uma a�‹o que nos ajuda a pensar sobre as estratŽgias de visibilidade de outros grupos, externos ˆqueles que se prop›em universais, como Ž o caso das mulheres poetas cordelistas do Nordeste brasileiro.

Para refletirmos sobre a produ�‹o dos cordŽis autobiogr‡ficos de Izabel, Julie e Auritha como narrativas que tecem tambŽm a historiografia do cordel, partimos das discuss›es de Hill Collins (2019) sobre a teoria do ponto de vista. A autora afro-americana tra�a essa reflex‹o para falar sobre a import‰ncia do ponto de vista das mulheres negras ao contarem suas pr—prias hist—rias. Tomamos de emprŽstimo tal reflex‹o para falarmos sobre uma manifesta�‹o cultural que Ž marginalizada a partir do olhar do c‰none letrado e academicista.

A hist—ria oficial do cordel, defendida pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel e por centros de estudo, como a Funda�‹o Casa de Rui Barbosa, vem sendo contada a partir de uma perspectiva masculinizada, que trata a poesia de cordel como um ambiente conservador e localizado no espa�o destinado ao ÒpopularÓ no ‰mbito da literatura. Enquanto n‹o encontrarmos espa�os para que as mulheres poetas contem suas hist—rias, os seus Òpontos vistasÓ, n‹o poderemos desestabilizar essa narrativa normatizadora.

As mulheres cordelistas s‹o silenciadas em diversos momentos: quando n‹o podem usar seus nomes como autoras de seus versos; quando n‹o podem participar de disputas e pelejas; quando os homens afirmam que s‹o poucas e raras as mulheres cordelistas; quando eles negam o sexismo no ambiente da poesia; quando reservam uma mesa apenas, como uma espŽcie de cota que n‹o pode se extrapolada, para a participa�‹o de mulheres nos eventos. ƒ a partir desses silenciamentos que aqueles que dominam a narrativa historiogr‡fica conseguem se impor. E Ž contra isso que nos posicionamos.

Assim, a partir de Hill Collins (2019, 2019a), a teoria do ponto de vista nos ajuda a refletir sobre o poder da autodefini�‹o. Segundo a autora, Òas vozes das mulheres afro-americanas n‹o s‹o de v’timas, mas de sobreviventesÓ (HILL COLLINS, 2019a, p. 273) e isso Ž fundamental para pensarmos sobre uma nova escrita da hist—ria. Precisamos olhar para as diversidades das experi�ncias, que produzem diferentes narrativas. As vozes que se sobressaem nas rela�›es de poder, que criam e reverberam tradi�›es, n‹o podem ser tomadas como as œnicas poss’veis. E contra isso Ž que as vozes das mulheres poetas que tratamos aqui se mobilizam.

Deste modo, elas transformam silenciamentos em linguagem materializada, o que contribui para evidenciar as rela�›es de opress‹o contra as quais as mulheres poetas de cordel lutam. Suas falas reivindicando espa�os mais respeitosos para seus trabalhos, como durante o movimento #cordelsemmachismo de 2020, geraram rea�›es de repres‡lias que exigem estratŽgias cuidadosas de a�‹o. Nestes termos, essas narrativas, que emergem de movimenta�›es e inquieta�›es, desafiam as opress›es e criam outras hist—rias poss’veis.

Segundo Hill Collins (2019a), a autodefini�‹o, que decorre das narrativas de si, rejeita os pressupostos de que aqueles em posi�›es poder teriam autoridade e legitimidade para interpreta�›es de uma realidade universalizante. Essa discuss‹o aponta para uma urg�ncia fundamental ao discutirmos quest›es de g�nero no que dizem respeito ˆ interseccionalidade de ra�a, de sexualidade e de classe social. Quando falamos sobre as mulheres poetas de cordel, consideramos sua diversidade interna. S‹o mulheres negras, ind’genas, gordas, lŽsbicas, bissexuais que s‹o frequentemente silenciadas em seus espa�os de circula�‹o e que t�m no cordel um modo de express‹o. Mas, nesse ambiente, elas encontram outros desafios e necessidades de mobiliza�›es. Deste modo, Ž imprescind’vel que suas experi�ncias narradas a partir de suas pr—prias vozes – aqui consideradas a partir de cordŽis autobiogr‡ficos – sejam definidoras de outras hist—rias poss’veis sobre o universo do cordel.

Pensar pela dimens‹o do feminismo negro e a teoria do ponto de vista n‹o significa que estamos igualando as experi�ncias distintas de opress›es pelas quais passam as mulheres. Pelo contr‡rio. A partir desse pensamento, fundamentamos as especificidades das agendas e demandas que as mulheres, individualmente ou em grupo, convocam. Rejeitamos um ideal universalista Òda mulherÓ a partir do que Lugones (2019) considera como um problema da modernidade europeia: o binarismo de g�nero. Em vez disso, entendemos o que prop›e Hill Collins (2017):

Inserindo o adjetivo ÒnegroÓ desafia a brancura presumida do feminismo e interrompe o falso universal desse termo para mulheres brancas e negras. [...] O termo Òfeminista negraÓ destaca as contradi�›es subjacentes ˆ brancura presumida do feminismo e serve para lembrar ˆs mulheres brancas que elas n‹o s‹o nem as œnicas nem a norma ÒfeministasÓ (HILL COLLINS, 2017, p. 13-14).

 

A partir destas discuss›es, podemos entender o poder da autodefini�‹o para a constru�‹o de outras narrativas historiogr‡ficas poss’veis, que nos levam a transformar a escrita da hist—ria do cordel. Que passa a ser um espa�o que, em sua diversidade, evidencia e se define tambŽm pelos trabalhos desenvolvidos pelas mulheres. Neste sentido, narrar a si articula rela�›es de poder que s‹o retomadas e assumidas pelas mulheres que contam suas pr—prias hist—rias.

 

 

Feminismo decolonial

 

Como uma investiga�‹o que visa contribuir para uma reescrita da hist—ria do cordel, partimos de um posicionamento epistemol—gico feminista e decolonial (ORTIZ OCA„A, 2019). Segundo Curiel (2020, p. 121), as metodologias decoloniais nos Òoferecem um pensamento cr’tico para entendermos a especificidade hist—rica e pol’tica de nossas sociedades, [...] questionam narrativas da historiografia oficial e mostram como se configuram hierarquias sociaisÓ. Entretanto, esta autora aponta que, em uma perspectiva feminista decolonial, a partir de Lugones (2019), as colonialidades n‹o s‹o definidas apenas por operadores raciais, mas tambŽm por dimens›es de g�nero e de sexualidade.

Ainda nessa perspectiva, Gl—ria Anzaldœa prop›e um pensamento a partir de uma Òconsci�ncia mesti�aÓ, como alguŽm que rompe as fronteiras e vive o tr‰nsito que entende a mesti�a como Òum produto da transfer�ncia de valores culturais e espirituais de um grupo para outroÓ (ANZALDòA, 2019, p. 324). Este entendimento nos permite pensar o saber a partir de posi�›es que n‹o podem (ou n‹o deveriam ser) hier‡rquicas. Sendo constru’do de formas conjuntas, em parcerias, o saber se faz nas fronteiras entre o eu e o outro/a outra.

La mestiza tem de se mover constantemente para fora das forma�›es cristalizadas – do h‡bito; para fora do pensamento convergente, do racioc’nio anal’tico que tende a usar a racionalidade em dire�‹o a um objetivo œnico (um modo ocidental). Para um pensamento divergente, caracterizado por um movimento que se afasta de padr›es e objetivos estabelecidos, rumo a uma perspectiva mais ampla, que inclui, em vez de excluir (ANZALDòA, 2019, p. 325).

 

Anzaldœa (2019) prop›e que pensar como mesti�a n‹o se trata de uma mera jun�‹o de peda�os, tampouco uma jun�‹o de for�as opostas. Para a autora, a consci�ncia mesti�a rompe com aspectos unit‡rios e universalizantes e tem o trabalho de desmontar as dualidades sujeito-objeto, mostrando de que maneira essa dualidade pode ser transcendida.

Quando pensamos na historiografia do cordel tradicionalmente compartilhada por institui�›es oficiais, como a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, que colocam poetas homens como protagonistas na produ�‹o de folhetos sob o argumento de que haveria Òpoucas mulheresÓ fazendo poesia, nos vemos diante da necessidade de alguns rompimentos. H‡ um silenciamento das vozes das mulheres e das narrativas que destacam sua participa�‹o – inclusive daquelas decorrentes de quando se fazia necess‡rio que mulheres assinassem seus folhetos com pseud™nimos masculinos, como Ž o caso de Maria das Neves, que assinava com o nome de seu marido, Altino Alagoano.

Deste modo, pensando a partir de uma consci�ncia mesti�a (ANZALDòA, 2019), inquietamo-nos com essa invisibilidade imposta ˆs mulheres. Imposi�‹o que parte de homens, que tambŽm s‹o exclu’dos de uma literatura can™nica, que almejam um micropoder, cuja exist�ncia se faz no exerc’cio de apagamento dos conflitos e disputas de sentidos presentes e em tr‰nsito nas fronteiras das defini�›es do cordel.

Nossos escritos devem, ent‹o, ser modos de articular nossas pr—prias inquieta�›es e servirem para evidenciar desestabiliza�›es de narrativas tidas como dadas. Deste modo, ao entender que a luta mesti�a Ž, acima de tudo, uma luta feminista, Anzaldœa (2019, p. 330) considera que apesar de sabermos de onde vem o —dio masculino e a consequente viol�ncia contra as mulheres, Òn—s n‹o desculpamos, n‹o toleramos e n‹o iremos mais tolerarÓ. Segundo a autora, Ž preciso coragem para romper com a sujei�‹o que Ž imposta ˆs mulheres em estratŽgias narrativas de ternura, como um sinal de vulnerabilidade. Uma forma poss’vel de rompimento Ž quando passamos a contar as nossas pr—prias hist—rias, como vemos as mulheres poetas fazerem.

 

AtravŽs de nossa literatura, arte, corridos e contos populares, temos de compartilhar nossa hist—ria com elas/eles, para que quando organizarem comit�s de ajuda aos navajos ou aos agricultores chicanos ou a los nicaraguenses, n‹o rejeitem algumas pessoas por causa de seus medos e ignor‰ncias raciais. Elas/eles entender‹o que n‹o est‹o nos ajudando, mas seguindo nossa lideran�a (ANDALZòA, 2019, p. 332).

Precisamos retomar a possibilidade de narrarmos a n—s mesmas, desestabilizando aquelas hist—rias que foram contadas como forma de Òcompensar seus pr—prios defeitosÓ (LUGONES, 2019, p. 332), como formas de exercer poderes de uns grupos sobre outros. Nestes termos, Lugones (2019, p. 361) aborda uma Òcoloniza�‹o da mem—riaÓ e prop›e que o termo ÒcolonialidadeÓ nomeia

N‹o apenas uma forma de classificar pessoas atravŽs de uma colonialidade do poder e dos g�neros, mas tambŽm para pensar sobre o processo ativo de redu�‹o das pessoas, a desumaniza�‹o que as qualificam para a classifica�‹o, o processo de subjetiva�‹o, a tentativa de transformar o colonizado em menos que humano.

 

Anzaldœa (2000, p. 230) tambŽm discute os desafios de se fazer ouvir sendo mulher, mesti�a, queer. Para a autora, ÒelesÓ combatem e atacam as mulheres Òde corÓ, Òporque desequilibramos e muitas vezes rompemos as confort‡veis imagens estereotipadas que os brancos t�m de n—sÓ. A escrita das mulheres, ent‹o, aparece como uma afronta e uma forma de resist�ncia.

N—s anulamos, n—s apagamos suas impress›es de homem branco. Quando voc� vier bater em nossas portas e carimbar nossas faces com ESTòPIDA, HISTƒRICA, PUTA PASSIVA, PERVERTIDA, quando voc� chegar com seus ferretes e marcar PROPRIEDADE PRIVADA em nossas n‡degas, n—s vomitaremos de volta na sua boca a culpa, a auto-recusa e o —dio racial que voc� nos fez engolir ˆ for�a. N‹o seremos mais suporte para seus medos projetados (ANZALDòA, 2000, p. 231, destaques da autora).

 

ƒ isso o que fazem as mulheres poetas quando se organizam para contarem suas pr—prias hist—rias. Seja nos folhetos e em suas narrativas autobiogr‡ficas, seja ao mobilizarem-se por transforma�›es socioculturais, mercadol—gicas e pol’ticas. As poetas enfrentam as imposi�›es hist—ricas das narrativas que frequentemente apagam suas contribui�›es e devolvem ao universo do cordel as suas hist—rias, o seu ponto de vista.

 

 

A mulher na poesia de cordel

 

Quando olhamos para a hist—ria da poesia de cordel, somos levados a longas antologias baseadas em folhetos de autoria masculina. Isso n‹o Ž diferente, por exemplo, quando acompanhamos eventos, feiras e festivais. Os espa�os ocupados pelas mulheres poetas ainda s‹o restritos (CARVALHO; OLIVEIRA, 2018) e muito disso se deve a um poder institu’do para que essa hist—ria seja contada: ela vem sendo conduzida por homens.

Essa situa�‹o n‹o Ž exclusiva do universo do cordel, mas reflete uma situa�‹o que atravessa as sociedades capitalistas (FEDERICI, 2019) e a sua historiografia. Resulta, ainda, de toda uma estrutura de forma�‹o e valoriza�‹o do conhecimento (LEMAIRE, 2017; 2018). ƒ esse saber eurocentrado, masculinizado, branco, heterossexual, que Ž criticado ao apoiarmo-nos em uma perspectiva decolonial para o desenvolvimento desta reflex‹o.

Lemaire (2020) nos explicita, em uma aprofundada discuss‹o, que parte do Cancioneiro das Donas de Carolina Michaelis, diversas estratŽgias de poder a partir do uso da linguagem e do saber para um movimento excludente que faz parte da historiografia do cordel. Segundo Santos (2020), h‡ registros de publica�›es de mulheres desde os anos 1930. A pesquisadora faz refer�ncia a Maria das Neves Pimentel, que assinava como Altino Alagoano (nome de seu marido) e ˆ gravadora Maria Athayde, filha do conhecido editor Jo‹o Marins de Athayde nos anos 1940. Ainda assim, elas n‹o constam nas antologias e cat‡logos sobre o cordel que come�am a ser publicados nos anos 1960.

Um estudo da Funda�‹o Casa de Rui Barbosa, organizado em 5 volumes e publicado nos anos 1970, configura-se em uma importante e densa pesquisa sobre a poesia de cordel. ƒ uma obra utilizada como bibliografia em universidades para o estudo da poesia de cordel e, assim, tem um grande alcance ainda nos dias de hoje. Esses textos, produzidos com a colabora�‹o de Cavalcanti Proen�a, Or’genes Lessa, Ant™nio Houaiss e Manuel Diegues Junior, tiveram o apoio do MinistŽrio da Educa�‹o e Cultura e, portanto, tratam do que se tornou a historiografia oficial do cordel. ƒ essa a hist—ria que Ž repetidamente contada quando se fala da poesia de cordel – a de folhetos impressos, separados de suas formas orais, de origem portuguesa etc. ƒ nessa hist—ria que n‹o encontramos as vozes das mulheres – ou as encontramos como raras e ÒdesinteressadasÓ[48] pela poesia.

Ainda sobre a hist—ria contada pela FCRB, Lemaire (2020, p. 184) aponta que

Para indicar os autores dos folhetos, privilegia-se o nome de trovador, uma palavra medieval. Trata-se de uma estratŽgia discursiva que permite, pela aproxima�‹o com a literatura da Idade MŽdia europeia e com o tipo de poeta que era o trovador medieval – homem e membro da nobreza –, impor a ideia de uma poesia ao mesmo tempo antiga e de autoria exclusivamente masculina, com origens alheias, nobres e escritas, silenciando e ocultando a atualidade, a especificidade regional do folheto, a sua base oral, cantada, a presen�a de mulheres cantadoras.

 

Por meio de poderes acad�micos e letrados estabelecidos, o cordel Ž inferiorizado a partir de um referencial can™nico. Torna-se uma poesia marginalizada. E, dentro da esfera desta margem, os homens se utilizam de um micropoder criador de normas, regras e ordens que excluem e minimizam as mulheres que tambŽm s‹o poetas. Segundo Mello (2020, p. 8), Òa mulher que faz cordel tem pouca visibilidade em virtude de preconceitos duplos: o de pertencimento a uma cultura das bordas e pelo pertencimento a uma cultura marcada pelo androcentrismoÓ. S‹o aceitas, apenas, aquelas que est‹o dispostas a submeterem-se a essas normas e ˆs narrativas constru’das por esses detentores de um poder que emana da posse de editoras, da dire�‹o de academias, de visibilidade internacional e da retroalimenta�‹o de egos pelos pares.

Movida pela inquieta�‹o diante da invisibilidade das inœmeras mulheres poetas que n‹o apareciam nas antologias, silenciadas em espa�os pœblicos, a professora Fanka Santos cataloga em O Livro Delas t’tulos de mulheres cordelistas atŽ os anos 2010. Santos (2020) prova com sua pesquisa que as produ�›es das autoras n‹o sou poucas ou raras, e sugere que um grande problema, que teve como consequ�ncia esse apagamento das mulheres poetas, Ž que a historiografia da literatura que conta a trajet—ria do cordel Ž feita a partir de uma perspectiva Òscriptoc�nticaÓ, que utiliza como mŽtodo de investiga�‹o da oralidade as mesmas formas utilizadas para a pesquisa de fen™menos escritos. Por isso, a pesquisadora aponta uma urg�ncia de transforma�‹o n‹o apenas nos objetos de estudo, mas tambŽm dos paradigmas que direcionam esses trabalhos.

Nesse cen‡rio, as mulheres poetas t�m se organizado politicamente para reagirem a um apagamento hist—rico de suas contribui�›es para a poesia de cordel. Elas se reœnem em grupos e associa�›es, mas tambŽm informalmente, pensando produtos, eventos e a�›es pol’ticas de mobiliza�‹o. Essas estratŽgias t�m encontrado nas redes sociais on-line um espa�o para sua exist�ncia, divulga�‹o e convoca�‹o de novas ades›es ˆ causa de um cordel menos excludente.

E Ž por caminhos das discuss›es de g�nero no cordel que eu vejo uma possibilidade de fratura mais evidente: essa que os poetas tradicionalistas e os que se pregam progressistas tentam apagar. Porque Ž a produ�‹o das mulheres que vem questionando e oferecendo condi�›es de continuidade, n‹o pelas vias de suporte ou de formato, mas pela dimens‹o pol’tica de resist�ncia que o cordel oferece (FONSECA, 2019, p. 209),

 

E uma reivindica�‹o fundamental dos grupos de mulheres poetas Ž de que suas vozes sejam ouvidas e respeitadas. Para isso, Ž fundamental que elas contem suas pr—prias hist—rias e, assim, contem tambŽm uma nova hist—ria do cordel. Como aponta Adichie (2019), os riscos imanentes de uma hist—ria œnica s‹o de que os indiv’duos repercutam seus desconhecimentos como verdades œnicas.

Em um universo simb—lico de produ�‹o de conhecimento pautado em uma refer�ncia masculinizada, Ž importante referirmo-nos a um registro de mem—rias que desloca o eixo narrativo para as mem—rias de mulheres, de mulheres negras, de mulheres perifŽricas, que contam suas pr—prias hist—rias pelas vias do cordel, testemunhando suas vidas, seus embates, suas resist�ncias sociais, culturais e pol’ticas. Eis o que buscamos, quando olhamos para as narrativas autobiogr‡ficas de Auritha Tabajara, Julie Oliveira e Izabel Nascimento.

 

 

Autobiografias em cordel

 

Em um mundo de conhecimentos pautados pelos saberes produzidos e difundidos em rela�›es de poder, Adichie (2019) indica a urg�ncia de acessarmos uma ampla diversidade de hist—rias. A partir dos estudos de Hill Collins (2019) sobre a produ�‹o de conhecimento de mulheres negras sobre elas mesmas, pensamos aqui na import‰ncia de as mulheres poetas contarem tambŽm as suas pr—prias hist—rias e, assim, contribu’rem para a nova historiografia do cordel, proposta por Santos (2020).

bell hooks (2019) reflete sobre a import‰ncia de narrar a si mesma a partir da escrita de uma autobiografia. Para a autora, um dos principais aspectos transformativos do movimento feminista tem sido o de convocar as mulheres a contarem suas pr—prias hist—rias. Como uma estratŽgia de resist�ncia, Òerguer a voz era uma forma de rebeli‹o consciente contra a autoridade dominanteÓ (HOOKS, 2019, p. 20).

A partir de reflex›es pedag—gicas, hooks (2019) considera que as hist—rias pessoais s‹o formas de as pessoas se conectarem e se identificarem, mas as experi�ncias pessoais seriam desconsideradas nos sistemas educacionais e de forma�‹o do conhecimento. Haveria uma busca pela universalidade do saber, sendo que o universal Ž sempre externo, masculino, branco, elitista. E, nesse cen‡rio, as vozes das mulheres incomodam, assustam e, por isso, s‹o silenciadas.

A narra�‹o de si, para hooks (2019, p. 226), Ž uma forma de constru�‹o de identidades e de fortalecimento das mem—rias individuais cotidianas:

 

Para muitas pessoas exploradas e oprimidas, a luta para criar uma identidade e nomear a pr—pria realidade Ž um ato de resist�ncia, pois o processo de domina�‹o – seja a coloniza�‹o imperialista, o racismo ou a opress‹o machista – tem nos esvaziado de nossa identidade, desvalorizando nossa linguagem, nossa cultura, nossa apar�ncia. Repito, isso Ž s— uma fase no processo de revolu�‹o.

 

Para hooks (2019, p. 227), isso permitiria que mulheres e homens utilizassem suas pr—prias experi�ncias como formas de teoriza�‹o e de politiza�‹o dos saberes, tornando-se um processo de historiciza�‹o e permitindo reconhecermo-nos como parte da hist—ria, como fazem as mulheres cordelistas.

No livro autobiogr‡fico em cordel ÒCora�‹o na aldeia, pŽs no mundoÓ, escrito por Auritha Tabajara (2018), mulher ind’gena nascida no Cear‡, encontramos na orelha deste que ela considera a poesia de cordel como Òautoexpress‹o e resist�ncia. Por meio dela busco descontruir estere—tipos atribu’dos ˆs mulheres ind’genas, uma vez que n‹o perco a minha ancestralidade morando na cidade e usando tecnologiaÓ.

Os textos de Julie Oliveira, professora, poeta e editora cearense, foram publicados em sua rede social Instagram[49], que ela utiliza como espa�o de divulga�‹o de seus trabalhos. A poeta Ž uma das organizadoras do movimento Cordel sem Machismo e coordena o coletivo Cordel de Mulher.

Izabel Nascimento Ž sergipana, professora e poeta de cordel. Atualmente preside a Academia Sergipana de Literatura de Cordel e est‡ ˆ frente do movimento Cordel sem Machismo. Seus dois folhetos de cunho autobiogr‡fico tratados nesse texto s‹o ÒCordel de M‹e e FilhaÓ (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2019) e ÒRelato de voz e versoÓ (NASCIMENTO, 2018).

H‡ quatro eixos que identificamos nas narrativas das tr�s poetas como articuladores para essa outra hist—ria do cordel. S‹o temas que n‹o aparecem tratados nas discuss›es conceituais e nas abordagens definidoras do cordel, pautadas nas experi�ncias folcloristas, acad�micas, tampouco naquelas produzidas por poetas homens. S‹o eles: a ancestralidade, as lutas pessoais cotidianas, os machismos e os di‡logos individuais com o universo do cordel.

Destacando o primeiro eixo, observamos que as autoras trazem uma importante refer�ncia ˆ ancestralidade matrimonial. As tr�s poetas n‹o inauguram suas a�›es poŽticas individualmente em suas vidas, mas emergem de di‡logos com outras mulheres. Elas se apresentam como herdeiras dos bens culturais transmitidos pelas mulheres mais velhas, ou seja, de bens matrimoniais, como descreve Lemaire (2018): um conjunto de bens materiais e culturais pertencentes ˆs linhagens femininas.

No livro de Auritha, ela aborda essa ancestralidade a partir da imagem da av—, com quem aprendeu a contar hist—rias:

Contava para a vov—,

Que dizia: Òv‡ sem medo,

O tempo que vai chegar

Desvendar‡ o segredo.

Escute, prenda, pratique,

Vai precisar logo cedoÓ (TABAJARA, 2018, p. 12).

 

AlŽm de ter herdado o aprendizado sobre conta�‹o de hist—rias em rimas, Tabajara (2018) tambŽm tinha na av— um referencial de for�a, de luta e de sabedoria.

Izabel Nascimento Ž filha de pai e m‹e poetas e tambŽm aborda esse aprendizado em sua narrativa autobiogr‡fica. Em ambos os textos de Nascimento (2018; 2019), ela destaca o que aprendeu sobre a poesia com sua m‹e.

Os meus pais s‹o os poetas

Que Deus me deu de presente

Mam‹e, grande cordelista

Papai, cordel e repente

Fruto desse amor gigante

Versejo desde o instante

Que me entendo como gente (NASCIMENTO, 2018, p. 7).

 

Desta heran�a, ela evidencia tambŽm sua gratid‹o no cordel em que assina junto de Ana Santana Nascimento:

 

Assim como o fruto nasce

Quando a raiz traz ˆ vida

Feliz o fruto que honra

A jornada percorrida

Eu honro quem me gerou

Se serei, se fui, se sou:

Obrigada, M‹e querida! (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2019, p. 16)

 

E ainda:

 

Ana Santana, mam‹e,

Forte, inteligente e bela

H‡ tempos que o vŽu da arte

Flamula, buscando nela

Hist—ria, ch‹o, garantia

Assim, bebi poesia

Do leite materno dela (NASCIMENTO, 2018, p. 7).

 

Julie Oliveira Ž filha de pai poeta, com quem aprendeu as tŽcnicas e estruturas de sua poesia. Mas em seus relatos apontados aqui, ela tambŽm traz outros aprendizados adquiridos com sua m‹e e uma declara�‹o de respeito por sua m‹e e por sua av—.

Sou filha de Assun�‹o

Mulher doce, paciente;

Neta de Alice, tambŽm,

E honro cada semente

Porque carrego comigo

A for�a de minha gente (OLIVEIRA, 2020, on-line).

 

Da ancestralidade, heran�as de mulheres, seja nos aprendizados sobre poesia de cordel, sobre conta�‹o de hist—rias ou mesmo sobre outros aspectos da vida, seguimos para as abordagens que as poetas fazem do universo do cordel. Elas contam sobre como entraram nesse universo, sobre aprendizados.

Auritha conta que come�ou a escrever poesia ainda na escola e uniu a isso ˆs conta�›es de hist—rias que acompanhava da av—:

Aprendeu a ler na rima

Tudo queria rimar:

As brincadeiras e hist—rias

Que ouvia a vov— contar.

Com tambor e marac‡,

De mœsica foi gostar (TABAJARA, 2018, p. 10).

 

Julie apresenta seus aprendizados em um dos poemas e atribui sua entrada no universo do cordel tambŽm a uma rela�‹o heredit‡ria, mas, no caso, refere-se a seu pai, o poeta Rouxinol do RinarŽ.

A poesia eu herdei

De um amigo de fŽ,

Companheiro de jornada

A quem aplaudo de pŽ:

Sou filha do cordelista

Rouxinol do RinarŽ (OLIVEIRA, 2020, on-line).

 

A entrada de Izabel Nascimento na poesia de cordel se deu ainda crian�a, aprendendo sobre poesia com seus pais. Ao descrever sua entrada nesse universo, Izabel destaca tambŽm os desafios que encontraria em seu percurso.

Assim, entrei nesse mundo

Pautada nos bons valores

Meus irm‹os e eu tivemos

Na arte, dois bons doutores

A estrada iniciava

Eu sequer imaginava

Que nem tudo aqui s‹o flores (NASCIMENTO, 2018, p. 9).

Os desafios de sua vida, atŽ reconhecer-se como cordelista, aparecem nos versos de Auritha Tabajara ao mencionar seu tr‰nsito do espa�o de sua aldeia atŽ estabelecer-se em grandes cidades como Fortaleza e S‹o Paulo. Nesses espa�os, ela ainda muito jovem identifica que nem todo mundo tinha boas inten�›es.

Agora, l‡ na cidade

Era mocinha inocente

Sorria pra todo mundo

Que passasse ˆ sua frente

Mas a maldade do povo

Se fazia ali presente (TABAJARA, 2018, p. 16).

 

Izabel Nascimento conta sobre as dificuldades de saœde que enfrentou e sobre como a poesia de cordel foi sua aliada para a supera�‹o.

Meus problemas de saœde

Deixavam por perto a morte

Que desde cedo tentava

P™r o meu nome no corte

Com diretriz resumida

Busquei dar sentido ˆ vida

O cordel foi minha sorte (NASCIMENTO, 2018, p. 10).

 

A poeta Julie Oliveira trata, ainda, dos desafios que encontra pelo caminho, sendo um deles, os trabalhos em parceria e coletividade, que ela entende como fundamentais para que as cordelistas se fortale�am em seus trabalhos.

Seguir sozinha Ž f‡cil

ƒ c™modo, eu sei fazer

Mas, decidi caminhar

Em conjunto, pra vencer

Com cordel e aliadas

N‹o vamos ficar caladas

Chegue junto, venha ver! (OLIVEIRA, 2020a, on-line).

 

O machismo Ž uma situa�‹o recorrente, como j‡ apontado nas discuss›es te—ricas deste trabalho. Ele aparece na narrativa das mulheres poetas tanto quando elas falam sobre suas inser�›es no universo do cordel quanto ao mencionar outras experi�ncias da vida – visto que o machismo como um comportamento n‹o Ž exclusivo de um grupo unificado, mas se expande por toda a sociedade.

Nascimento (2018) denuncia situa�›es me machismo no universo do cordel a partir de suas experi�ncias:

Ser mulher na poesia

Exigiu muito de mim

A m‹o do machismo pesa

O seu disfarce Ž ruim

Carrega na estrid�ncia

O joio da incompet�ncia

Ainda hoje Ž assim. (NASCIMENTO, 2018, p. 12).

 

Julie Oliveira destaca essa situa�‹o a partir de sua a�‹o de resist�ncia e de luta.

 

Ser Youtuber, popstar

ƒ sonho de muita gente

O meu Ž ver a mulher

Ter tratamento decente

Por isso, eu estou no front

E n‹o fujo desse afronte,

A minha for�a Ž pungente.

[...]

Eles nos querem chorando

Chateadas, desunidas

ƒ verdade que algumas

Ainda est‹o iludidas

PorŽm v‹o se esclarecer

E nunca mais vamos ter

Nossas vozes preteridas! (OLIVEIRA, 2020a, on-line)

 

Na narrativa de Auritha Tabajara, o machismo se manifesta em suas experi�ncias cotidianas alŽm do cordel. Acontece, por exemplo, quando ela chega ˆ cidade e um homem a assedia com olhares.

 

Um cabra meio de longe

Desde cedo a observava

Veio se achegando aos poucos,

Fez que uma fruta comprava

E, como um lobo faminto,

Para a mocinha olhava (TABAJARA, 2018, p. 17).

 

E quando o pai de sua filha a processa por Òabandono do larÓ e pede, judicialmente, o pagamento de pens‹o aliment’cia.

 

Rejeitado, o companheiro

Recusou-se a aceitar

Foi bancar o pai-her—i

No conselho tutelar.

Esperou ela sair

E j‡ foi denunciar (TABAJARA, 2018, p. 28).

 

Dialogando com o conceito de biomitografia de Audre Lorde, ou seja, uma narrativa mais preocupada com o estado de esp’rito de quem narra do que com a precis‹o de detalhes, a autobiografia para hooks (2019, p. 319) Ž um relato de uma hist—ria muito pessoal que convoca n‹o exatamente como os eventos aconteceram, mas como nos lembramos deles. ƒ isso o que as tr�s poetas fazem em suas narrativas. Mais do que, precisamente, contar fatos com uma pretens‹o de verdade, elas narram suas perspectivas diante de suas pr—prias experi�ncias, trazendo ˆ tona suas emo�›es e sentimentos, evidenciado as afeta�›es de suas hist—rias com o universo do cordel.

 

 

Considera�›es finais

 

Segundo hooks (2019, p. 264), Òfalar Ž a marca da liberdade, de se fazer sujeitoÓ. Para a autora, contar as nossas pr—prias hist—rias Ž a forma de alcan�armos o poder por compartilharmos o nosso ponto de vista sobre a hist—ria. E Ž isso que Julie Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara fazem quando escrevem sobre si mesmas: declaram suas liberdades individuais ao mesmo tempo em que contam a hist—ria do cordel.

ƒ importante considerarmos as narrativas das mulheres para contarmos a hist—ria do cordel. Como a professora Fanka Santos iniciou, precisamos construir novos olhares para a historiografia oficial, inserindo as contribui�›es das mulheres poetas. Deste modo, estamos transformando a hist—ria do cordel, mas tambŽm a hist—ria da literatura. Ao observarmos as brechas na hist—ria, a partir de questionamentos e de fraturas aparentes, Ž que podemos pensar nessa reescrita.

As narrativas das mulheres cordelistas est‹o inseridas em uma rela�‹o de disputa de poderes sobre a mem—ria, sobre os modos de conhecimento sobre o universo do cordel. Elas desestabilizam os saberes institucionalizados destacando suas experi�ncias pessoais, suas rela�›es de matrim™nio cultural e apontando as opress›es machistas que configuram desafios em suas lidas. ƒ preciso nos voltarmos para as biomitografias e pontos de vista das mulheres cordelistas para sermos capazes de refletir sobre o universo do cordel.

 

 

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[Recebido: 07 ago 2020 – Aceito: 24 jan 2021]


 

MEMîRIA, VOZ E AUTORIA EM OS SAPATOS DE Tƒ, DE CREMILDA E ELISABETE NASCIMENTO

 

MEMORY, VOICE AND AUTHORSHIP IN OS SAPATOS DE Tƒ, BY CREMILDA AND ELISABETE NASCIMENTO

 

Fernanda Oliveira da Silva[50]

http://orcid.org/0000-0001-9831-2827

 

Maria Teresa Salgado[51]

http://orcid.org/0000-0003-2993-3632

 

Resumo: Ao ler Os Sapatos de TŽ, de imediato, evidencia-se que as hist—rias ali narradas s‹o contadas por mais de uma voz. O processo que comp›e esse livro Ž interessante, pois s‹o as conta�›es da m‹e, Cremilda, escritas pela filha, a escritora Elisabete Nascimento. AtravŽs das mem—rias e das vozes que protagonizam a obra, somos levados a conhecer outra vers‹o da hist—ria considerada como a oficial do pa’s. A partir dos poss’veis di‡logos com as teorias de Michael Pollak (1989), Laura Cavalcante Padilha (2007) e Gayatri Spivak (2010), iniciamos este breve estudo, analisando a mem—ria como elemento fundamental para a composi�‹o da narrativa e para o protagonismo da mulher negra, que assume, aqui, um papel de griot, trazendo a sua vers‹o da hist—ria, denunciando a pobreza, a desigualdade, o racismo, a escravid‹o e dando visibilidade ˆs vozes da Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro. A inten�‹o dessa an‡lise Ž colaborar com a visibilidade de algumas dessas vozes.

Palavras-chave: Mem—ria. Oralidade. Vozes femininas. Subalterniza�‹o.

 

Abstract: When reading Os sapatos de TŽ, immediately, it is evident that the stories narrated are told by more than one voice. The process that makes up this book is interesting, as it is the account of the mother, Cremilda, written by her daughter, the writer Elisabete Nascimento. Through the memories and voices that lead the work, we are brought to know another version of the story considered as the country's official. Based on the possible dialogues with the theories of Michael Pollak (1989), Laura Cavalcante Padilha (2007) and Gayatri Spivak (2010), we begin this brief study, analysing memory as a fundamental element for the composition of the narrative and also for the protagonism of the black woman, who assumes, here, a role of griot, bringing her version of history, denouncing poverty, inequality, racism, slavery and giving visibility to the voices of the Baixada Fluminense of the state of Rio de Janeiro. The intention of this brief study is to contribute to the visibility of some of these voices.

Keywords: Memory. Orality. Female voices. Subordination.

 

 

ÒO que os livros escondem, as palavras ditas libertamÓ

(Concei�‹o Evaristo)

 

As palavras da escritora Concei�‹o Evaristo n‹o se camuflam em eufemismos para denunciar um antigo problema que ainda persiste no campo da literatura brasileira. Por longos anos, a escrita liter‡ria consolidou-se como um espa�o de poder branco, excluindo as camadas sociais negras, que possu’am formas de conhecimento consideradas inferiores. Tais camadas tambŽm tinham o seu acesso barrado ao œnico conhecimento considerado importante pela elite brasileira. Assim, por muito tempo, deu-se visibilidade apenas a um lado da hist—ria; atŽ o momento em que algumas vozes silenciadas come�aram a romper cada vez mais os cercados impostos e passaram a ser ouvidas nos espa�os acad�micos. Importante dizer que tais vozes marginalizadas sempre se manifestaram e transmitiram saberes, a despeito das muitas tentativas de obstru�‹o e silenciamento sofrido ao longo da hist—ria. Nossa inten�‹o, com esse breve estudo, Ž colaborar com a visibilidade de algumas dessas vozes.

Nossa ep’grafe tambŽm mostra a urg�ncia de mais estudos liter‡rios sobre as escritas que foram mantidas fora do chamado c‰none, visto que suas origens pertencem a espa�os historicamente marcados pelo silenciamento for�ado, conhecido como uma das estratŽgias de opress‹o do colonialismo e da escravid‹o. A abertura para as ÒnovasÓ enuncia�›es tem acontecido aos poucos, pois a reivindica�‹o do direito ˆ escrita s— foi escutada tardiamente.

Nesse sentido, interessa-nos lembrar a rela�‹o que Antonio Candido faz entre os direitos humanos e a literatura, ao considerar que s‹o Òbem incompress’veisÓ, entendendo que ambos n‹o podem ser negados a nenhuma pessoa, uma vez que t�m um papel importante de humaniza�‹o. Ao colocar a literatura ao n’vel de necess‡ria, Candido a define como algo fundamental para compor a exist�ncia do ser humano. Para isso, o autor relaciona a literatura e os direitos humanos de duas maneiras: a primeira refere-se ˆ organiza�‹o mental que a literatura proporciona, pois, ao Òdar forma aos sentimentos e ˆ vis‹o do mundo ela nos organiza, nos liberta do caos e portanto nos humanizaÓ (CANDIDO, 1988, p. 186); a segunda relaciona-se ao aspecto de desmascaramento social e denœncia, pelo fato de a literatura Òfocalizar as situa�›es de restri�‹o dos direitos, ou de nega�‹o deles, como a misŽria, a servid‹o, a mutila�‹o espiritualÓ (CANDIDO, 1988, p. 186).

Assim, entende-se que a literatura Ž um direito de todas e de todos, e compreendemos a necessidade de tornar a escrita de mulheres, sobretudo de mulheres negras, vis’veis. Tal ideia justifica a escolha da obra de Elisabete Nascimento como corpus deste artigo. ƒ importante esclarecer que n‹o se busca, aqui, apenas trabalhar a narrativa da escritora com o intuito de preencher alguma espŽcie de cota nas pesquisas acad�micas, mas, sim, como procuramos mostrar ao longo deste texto, para evidenciar as qualidades liter‡rias da obra de Nascimento.

Para compreender a an‡lise que aqui se prop›e, Ž importante uma breve apresenta�‹o de Elisabete Nascimento. A escritora nasceu em Barros Filhos, uma periferia do Rio de Janeiro. Aos quatro anos, passou a morar no munic’pio de S‹o Jo‹o de Meriti, cidade onde Nascimento permanece morando, localizada na Baixada Fluminense. A literatura Ž heran�a das conta�›es da m‹e e das letras de samba-can�‹o de seu pai. Sua forma�‹o acad�mica, desde a gradua�‹o atŽ o doutorado, foi realizada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por mais de trinta anos, atuou na educa�‹o b‡sica e, por quinze, no ensino superior. Atualmente, Ž membro do grupo de pesquisa Escritas do Corpo Feminino (UFRJ) e desenvolve projetos de leitura, letramento e escrita criativa com estudantes de escolas pœblicas. Nascimento tem nove livros, dos quais oito s‹o por autopublica�‹o. S‹o eles: Exu no Pa�o Imperial; Di‡rio de bordo do Almirante Negro; Os Sapatos de TŽ; Contos Pro(L)ibidos; Ciranda de Meninos; Luiza e Babi e o MistŽrio do Lago de Onira; M‡scara de flandres: em fragmentos; Abayomi: minha amiga imagin‡ria e Amor de Abiku. Os versos e a prosa que comp›em as obras evidenciam a import‰ncia de hist—rias vividas e contadas por mulheres e homens que tiveram suas exist�ncias negadas.

Ao ler Os Sapatos de TŽ, de imediato, evidencia-se que as hist—rias ali narradas s‹o contadas por mais de uma voz. O processo que comp›e este livro Ž interessante, pois s‹o as conta�›es da m‹e, Cremilda, escritas pela filha, a escritora Elisabete Nascimento. Ambas s‹o narradoras da hist—ria, e esta oscila�‹o de vozes permite o contato com as mem—rias, os testemunhos e os saberes da m‹e da escritora. Assim, acreditamos estar diante de Òuma forma artesanal de comunica�‹oÓ (BENJAMIN, 1975, p. 69) em que experi�ncias s‹o trocadas e nela as vozes narrativas deixam suas marcas Òcomo a m‹o do oleiro na argila do vasoÓ (BENJAMIN, 1975, p. 69).

A narrativa come�a a ser contada pela voz da filha, Elisabete: ÒEssa Ž a hist—ria dos meus sapatinhos. E tambŽm dos sapatos da minha m‹e e da m‹e de minha mam‹e, a velha DeolindaÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 13). Em seguida, aparecem versos de uma can�‹o que vai perpassar toda a narrativa:

A liberdade de estar descal�o

Criou calo e espor‹o,

Por isso os pŽs da gente Monjolo

N‹o cabem nos sapatos n‹o

(NASCIMENTO, 2015, p. 13).

Interessa-nos analisar os versos acima, pois podemos entend�-los como uma maneira de explicar uma das estratŽgias da escravid‹o. Sabe-se que, no per’odo escravocrata, o uso dos sapatos era atribu’do ˆ condi�‹o de liberdade do indiv’duo. Homens e mulheres, escravizados e livres, se diferenciavam socialmente pelos cal�ados que usavam ou n‹o. Tanto que um escravizado atŽ poderia vestir cal�as, palet—, mas nunca cal�ar Òtamanco, nem [...] sand‡lias. De pŽ no ch‹o. Para deixar bem exposto o estigma indisfar�‡vel do estatuto de cativoÓ (ALENCASTRO, 1997, p. 79). Logo, a pequena can�‹o carrega uma poss’vel justificativa, a deformidade dos pŽs, para consolidar uma das opress›es do per’odo colonial.

As primeiras p‡ginas, assim como o t’tulo, j‡ nos mostram que o sapato Ž o fio condutor da narrativa. Cremilda inicia suas conta�›es falando sobre a sua m‹e, Deolinda, e a dificuldade dela de usar sapatos: ÒMam‹e, sempre que vou visit‡-la, reclama que seus sapatos doem os pŽs. E l‡ vou eu comprar mais um par de sapatosÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 14). Nas linhas seguintes, a narradora-protagonista[52] transporta sua hist—ria para um tempo-passado, volta-se para as recorda�›es de sua inf‰ncia: ÒAos oito anos eu j‡ era empregada domŽstica. Eu cuidava da casa e de duas crian�as. Eu s— aprendi a escrever j‡ com trinta anos...Ó (NASCIMENTO, 2015, p. 23).

A composi�‹o da narrativa de Os Sapatos de TŽ, como pudemos ver no trecho acima, Ž costurada pelas mem—rias da narradora-protagonista. AlŽm disso, Ž poss’vel notar que a mem—ria de Cremilda representa uma realidade que, infelizmente, n‹o Ž exclusiva da sua experi�ncia. Sabe-se que o trabalho infantil e o n‹o acesso ˆ escola foram, e ainda s‹o, problemas reais das periferias e dos morros dos grandes centros urbanos brasileiros.

Nesse sentido, pensamos nas mem—rias coletivas, aquelas interditadas, e questionamos a hist—ria que sempre foi considerada a verdadeira. Vejamos, no fragmento a seguir como, atravŽs das lembran�as de Cremilda, a hist—ria do pa’s Ž contada:

Meus pais eram do tempo do dinheiro de couro e da moeda de conchinha. Chamavam meu pai de rebelde. Chamavam minha m‹e de rebeldia. Ele nasceu junto com a Revolta da Vacina e minha m‹e, com a Revolta da Chibata. Eu nasci com a Revolta Comunista e minha filha mais velha com o Golpe Militar, e mais revoltas. Nada por acaso na fam’lia dos revoltados (NASCIMENTO, 2015, p. 21).

Acima, o nascimento de cada pessoa da fam’lia relacionou-se aos momentos importantes da hist—ria do Brasil. Novamente, vemos a mem—ria particular tomar uma propor�‹o ampla. Interessa-nos, nesse momento, pensar no texto Mem—ria, esquecimento, sil�ncio, de Michael Pollak. Ao referir-se ao estudo da hist—ria oral, real�a-se a relev‰ncia das mem—rias subterr‰neas, Òque, como parte integrante das culturas minorit‡rias e dominadas, se op›em ˆ ÔMem—ria oficialÕ, no caso a mem—ria nacionalÓ (POLLAK, 1989, p. 4). Essas mem—rias chamadas subterr‰neas conseguem emergir, de forma transgressora, mesmo sendo destinadas ao sil�ncio, provocando, assim, interfer�ncias na divulga�‹o dos fatos considerados oficiais. O sil�ncio que foi, e ainda Ž, imposto as vozes subalternizadas consegue ser ouvido atravŽs do interesse de registrar as viv�ncias de pessoas simples, como foi feito pela escritora Elisabete Nascimento em Os Sapatos de TŽ.

As lembran�as da narradora-protagonista entrecruzam-se com eventos hist—ricos do pa’s. Ao rememorar o ano de seu nascimento, Cremilda acaba por trazer ˆ tona a denœncia em rela�‹o ao grande nœmero de homens negros escravizados que, em troca de alforria, ÒescolheramÓ lutar na Guerra do Paraguai. Tal fato resultou nas mortes desses homens que nem se quer puderam sentir a sensa�‹o de liberdade: ÒQuando nasci, em 1935, papai j‡ estava com 40 anos, mas morreu cinco anos depois. Ele era neto de escravo, que foi a guerra do Paraguai, em v‹o, em troca de liberdadeÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 24).

A partir disso, pode-se compreender que as mem—rias subterr‰neas da narradora-protagonista, ao surgir em espa�os tomados pelo poder da escrita, modificam as cenas de grandes acontecimentos e, assim, como destaca Pollak (1989), possibilitam a constru�‹o de outras hist—rias formadas pelas viv�ncias e pelas experi�ncias das pessoas subaltenizadas.

AlŽm das mem—rias, outro elemento fundamental para a composi�‹o de Os Sapatos de TŽ Ž a oralidade. Ela se apresenta na obra de diversas formas, como por exemplo, os versos musicados que penetram a narrativa, j‡ citados e analisados anteriormente. AlŽm disso, pode-se observar que a estrutura do discurso nos mostra a presen�a de di‡logos, ou seja, Cremilda parece estabelecer di‡logos com alguŽm a todo instante. Pode-se observar isto na seguinte passagem: ÒCerto dia, todos est‡vamos felizes com as sobras de um leit‹o, do porco do vizinho. Pare de rir, Luiza, o vizinho n‹o Ž porco n‹o...Ó (NASCIMENTO, 2015, p. 14). Para alŽm disso, sabe-se que, segundo Bakhtin (2003), um enunciado Ž sempre uma resposta a outros.

H‡ um fragmento que, n‹o por acaso, remete-nos a tradi�‹o africana: Òƒ preciso conta�‹o. Quer saber o que isso quer dizer, Carlinha? Desenhe nossa ‡rvore sagrada, um imbondeiro, e voc� saber‡ sobre imensa fam’liaÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 23). Pode-se notar que a partilha de conhecimento atravŽs das hist—rias, por meio de mem—rias da tradi�‹o, segundo Laura Padilha, Òdifunde as vozes ancestrais, procura manter a lei do grupo, fazendo-se, por isso, um exerc’cio de sabedoria.Ó (PADILHA, 2007, p. 35). Essas observa�›es fazem-nos compreender a presen�a da oralidade, uma das heran�as da cultura africana, como um aspecto essencial que influencia na estrutura e na estŽtica da obra.

Ao pensar sobre a estrutura e a estŽtica, Ž interessante retornarmos para a dedicat—ria da obra de Elisabete Nascimento que n‹o deixa dœvidas sobre o processo criativo do livro: ÒFugindo aos padr›es de edi�‹o, esta dedicat—ria n‹o Ž de autora para alguŽm, mas Ž das m‹os que escrevem a voz das mem—rias de Cremilda, minha m‹e, companheira minha e de meus irm‹os por mais de meio sŽculoÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 9). Sendo assim, a m‹o de Elisabete imprime sua marca nas hist—rias contadas por Cremilda. Deste modo, a voz da narradora-protagonista e da narradora-ouvinte est‹o presentes nos relatos, para que a hist—ria seja continuamente compartilhada entre aquela que fala e a que ouve e tambŽm escreve.

Com base nessa observa�‹o, interessa-nos analisar a rela�‹o estabelecida entre quem conta, quem escuta e escreve Os Sapatos de TŽ. Para come�ar esta an‡lise, parecem-nos pertinentes duas narrativas de tradi�‹o oral de Angola: o missoso e a maka. Logo, torna-se fundamental nos debru�armos sobre o livro Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na fic�‹o angolana do sŽculo XX, de Laura Padilha. Vejamos a defini�‹o:

Missosso angolano [...] dentro do quadro da tradi�‹o oral aut—ctone, Ž aquela forma narrativa percebida pelo natural como sendo totalmente ficcional, no sentido em que v� nela um produto apenas do imagin‡rio, algo n‹o acontecido no real emp’rico, pois pertencente apenas ˆ ordem da fantasia. Op›e-se, por isso, ˆ maka, na origem, outra forma de narrativa que relatava um acontecimento representado como vivido, ou pelo contador, ou por alguŽm de sua intimidade, ou por pessoas de que ouviu falar. Assim, a maka [...] seria a ficcionaliza�‹o de uma hist—ria tomada como verdadeira, raz‹o pela qual tinha um fim utilit‡rio evidente, sendo que sua tend�ncia did‡tica n‹o [era] tŽcnica, mas essencialmente social (PADILHA, 2007, p. 40).

A partir das defini�›es dadas acima, acreditamos que o processo de cria�‹o escolhido para a composi�‹o da narrativa constitua-se, simultaneamente, da maka e do missosso, visto que as hist—rias, ao serem contadas pela narradora-protagonista, passam pelo movimento de reinven�‹o da narradora-ouvinte e escritora, transfigurando-se em fic�‹o. Esta an‡lise torna-se cab’vel a partir da fala de Elisabete Nascimento na dedicat—ria, j‡ citada, do livro. PorŽm, faz-se necess‡ria a reprodu�‹o de mais um fragmento para que compreendamos a an‡lise levantada: ÒDif’cil tarefa, dar voz a tantas vozes que me inspiram o tempo todo. Pe�o desculpas por interferir constantemente com as minhas pr—prias percep�›es sobre as hist—rias maternas nestas narrativasÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 9).

O uso frequente de vocativos Ž um detalhe importante que atravessa todo o livro, pois, alŽm de caracterizar o di‡logo, ressaltando a oralidade, demonstra o interesse e a preocupa�‹o da narradora-protagonista em manter vivos em sua mem—ria os saberes ancestrais e transmiti-los:

Ela pedia pra eu nunca esquecer as vozes importantes em nossas vidas. Bem, aqui dentro destas letras tem uma voz, tem muitas vozes esquecidas. A de mam‹e Deolinda, a da vov— Julia, a do papai Antonio e a voz dos seus pais e av—s que perderam seu nome na travessia dos viventes de Luanda e outros de Mo�ambique. Por isso Ž preciso conta�‹o. Quer saber o que isso significa, Carlinha? (NASCIMENTO, 2015, p. 23).

Interessante, no fragmento acima, Ž a reflex‹o que se pode fazer a partir dele. A narradora-protagonista – seguindo o conselho de sua m‹e – para n‹o esquecer os testemunhos, as mem—rias, tenta preserv‡-los por meio da oralidade, aproximando-se do g�nero angolano da maka, ou seja, partilhando a hist—ria de uma coletividade por meio do relato de sua viv�ncia.

Acreditamos ser inevit‡vel a aproxima�‹o da imagem da narradora-protagonista, uma mulher negra de 80 anos, com o griot, a figura do mais velho na cultura africana, ou seja, aquele que transmite o conhecimento a partir das mem—rias e das hist—rias. Sobre o griot, Laura Padilha explica sua import‰ncia dentro da sociedade africana: ÒO anci‹o liga o novo ao velho, estabelecendo as pontes necess‡rias para que a ordem se mantenha e os destinos se cumpram [...], tentando preservar os pilares de sustenta�‹o da identidade, antes, durante e depois do advento colonialÓ (PADILHA, 2007, p. 57).

H‡ uma cena que dialoga com a cultura africana. N‹o por acaso, vemos a heran�a africana aparecer na forma em que as hist—rias s‹o contadas na obra. ÒNo dia de chuva, todos formamos uma roda em volta da fogueira onde mam‹e cozinhava [...] tempo bom, da casa de estuque e da conta�‹o de hist—ria e de adivinha�‹oÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 17). De pronto, esta poŽtica imagem faz com que lembremos tambŽm de trechos da literatura angolana.

A narra�‹o, escrita em primeira pessoa, permite que a voz subalternizada se torne protagonista da conta�‹o de sua pr—pria hist—ria. Maria Nazareth Soares Fonseca, ao refletir sobre o romance Becos da mem—ria, de Concei�‹o Evaristo, ressalta a import‰ncia da escolha da pessoa do discurso. Para ela,

O sujeito que assume a a�‹o de narrar o que expressam essas vozes exclu’das sabe que o registro dos sofrimentos dos miser‡veis exp›e os cortes constantes do pr—prio corpo, feridas dif’ceis de serem cicatrizadas. Para salvar do esquecimento as hist—rias de vida mergulhadas na pobreza extrema e no abandono, o escritor, fazendo-se sujeito participante, assume narrar as hist—rias dos lugares degradados como uma forma de luta contra a misŽria, deslocando Òo prazer meramente contemplativoÓ, como diz Walter Benjamin, para uma atitude pol’tica que se concretiza na maneira como a escrita procura vasculhar as vidas dos que lutam por sobreviver em condi�›es intensamente desfavor‡veis (FONSECA, 2017, p. 192).

Pensando nisso, parece-nos que a escolha de Elisabete Nascimento, ao apresentar a voz de sua m‹e Cremilda, para narrar e para assinar a autoria do livro, Ž um ato pol’tico e uma das pr‡ticas feministas atuais. Para explicar a empatia que aqui ocorre, compreendemos que um dos fatores que impulsiona a proposta de Os sapatos de TŽ Ž a sororidade. Vemos, a seguir, um coment‡rio elucidativo sobre esse conceito:

uma experi�ncia subjetiva entre mulheres na busca por rela�›es positivas e saud‡veis, na constru�‹o de alian�as existencial e pol’tica com outras mulheres, para contribuir com a elimina�‹o social de todas as formas de opress‹o e ao apoio mœtuo para alcan�ar o empoderamento vital de cada mulher. A sororidade Ž a consci�ncia cr’tica sobre a misoginia e Ž o esfor�o tanto pessoal quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura mis—gina, enquanto transforma as rela�›es de solidariedade entre as mulheres. Para combater a crueldade e o equ’voco da inimizade, o feminismo precisa fortalecer e promover a sororidade, eliminar a misoginia pessoal e coletiva, n‹o reproduzir formas de opress‹o entre mulheres como a discrimina�‹o, a viol�ncia e a explora�‹o (LAGARDE, 2009, apud GAMBA, 2007, s/p).

Ao recolher as hist—rias e transform‡-las em uma obra, Elisabete n‹o apenas d‡ voz a sua m‹e, como tambŽm faz com que a narrativa alcance outras mulheres que vivem ou passam por experi�ncias semelhantes. AlŽm do mais, acaba por refor�ar a liga�‹o entre essas mulheres, de modo a denunciar as pr‡ticas pautadas na segrega�‹o e na desigualdade que, transformadas em fic�‹o, evidenciam a supera�‹o pela oralidade e pela escrita.

N‹o poder’amos deixar de observar que as vozes femininas negras, tanto como narradoras quanto escritoras, mostram-nos que essas mulheres, mesmo sendo instru’das ˆ submiss‹o e ao sil�ncio, falam e agem de forma independente. Isso s— corrobora que considerar a passividade e apatia como caracter’sticas da mulher Ž um grande equ’voco. A fil—sofa francesa Simone de Beauvoir, h‡ tempos, esclareceu tal ideia. No entanto, infelizmente, ainda estamos longe de compreender tal processo de essencializa�‹o da mulher.

[...] a passividade que caracterizar‡ essencialmente a mulher Ž um tra�o que se desenvolve nela desde os primeiros anos. Mas Ž um erro pretender que se trata de um dado biol—gico: na verdade, Ž um destino que lhe Ž imposto por seus educadores e pela sociedade (BEAUVOIR, 2016, p. 24).

A constata�‹o de agir, falar e, assim, (re)escrever sua pr—pria hist—ria aparece quando Cremilda lembra que a perspectiva de um futuro bom, segundo o desejo de seu pai, era um bom casamento e bastava aprender a escrever o nome. PorŽm, Cremilda foi alŽm e realizou sonhos que nunca imaginara: ÒMas atŽ sonho que n‹o sonhei, eu realizei: Casamento, andar de avi‹o pra l‡ e pra c‡, saber ler e escrever livros e n‹o apenas assinarÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 18).

Outro aspecto digno de nota Ž considerarmos a obra como um poss’vel lugar de fala para as vozes que foram silenciadas por tantos anos, desde a escravid‹o. Pensar no conceito de lugar de fala nos remete ao pensamento da escritora indiana Spivak, sobretudo, em seu texto Pode o subalterno falar?, que levanta quest›es importantes sobre o sil�ncio imposto aos que foram colonizados. Spivak (2010, p. 66-67) nota, dentro do grupo de subalternos, a diferen�a entre homens e mulheres:

No contexto do itiner‡rio obliterado do sujeito subalterno, o caminho da diferen�a sexual Ž duplamente obliterado. A quest‹o n‹o Ž a da participa�‹o feminina na insurg�ncia ou das regras b‡sicas da divis‹o sexual do trabalho, pois, em ambos casos, h‡ Òevid�nciaÓ. ƒ mais uma quest‹o de que, apesar de ambos serem objetos da historiografia colonialista e sujeitos da insurg�ncia, a constru�‹o ideol—gica de g�nero mantŽm a domina�‹o masculina. Se, no contexto da produ�‹o colonial, o sujeito n‹o tem hist—ria e n‹o pode falar, o sujeito subalterno feminino est‡ ainda mais profundamente na obscuridade.

Um di‡logo poss’vel com Os sapatos de TŽ Ž o recente livro Mem—rias da planta�‹o: epis—dios de racismo cotidiano, de Grada Kilomba, sobretudo, na introdu�‹o intitulada como Tornando-se sujeito. Nele, a escritora fala sobre sentir Òuma fome coletiva de ganhar voz, escrever e recuperar hist—riaÓ (KILOMBA, 2019, p. 27). Ao longo desta breve an‡lise, vimos que as conta�›es da narradora-protagonista contrap›em as hist—rias ÒverdadeirasÓ que, por muito tempo, foram ensinadas. Por isso, Deolinda alerta Òdesconfiem o tempo inteiro do faz de contas e do cond‹o. ƒ melhor do que tapar o sol com a peneiraÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 49).

Os sapatos de TŽ apresentou a hist—ria de uma pessoa que, por ser mulher, teve seu futuro projetado pelo pai, que a limitava ao papel de esposa, que sofreu racismo por ser negra e vivenciou v‡rios abusos como empregada domŽstica. Logo, somos levados a refletir sobre a mœltipla exclus‹o das mulheres negras na sociedade, afetadas pelo que KimberlŽ Crenshaw (2002), ao definir o conceito de interseccionalidade, chamou de cruzamento e sobreposi�‹o de distintas formas de subalterniza�‹o, como o patriarcalismo, o racismo e a opress‹o de classe. Para isto, importante Ž a contribui�‹o de Carla Akotirene, para quem

A interseccionalidade visa dar instrumentabilidade te—rico-metodol—gica ˆ inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado - produtores de avenidas identit‡rias onde mulheres negras s‹o repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposi�‹o de g�nero, ra�a e classe, modernos aparatos coloniais (AKOTIRENE, 2018, p. 14).

Ao final da obra, Ž poss’vel compreender o t’tulo: a narradora-protagonista conta-nos que a morte de Deolinda, sua m‹e, chega e ela fez Òuma pantufa de feltro bem fofinho e coloquei nos pŽs de mam‹e que, com certeza faria uma visita aos parentes distantes de AngolaÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 47) e depois Òem sonho, mam‹e disse que os sapatos de TŽ finalmente n‹o do’am seus pŽsÓ (NASCIMENTO, 2015, p. 47).

E, na œltima p‡gina do livro, nos Ž apresentada uma nova vers‹o dos versos que iniciaram essas conta�›es, ou canta�›es, uma vez que se expressam tambŽm como vozes que buscam ecoar o canto de novas hist—rias:

A liberdade de estar descal�o

Criou a ilus‹o,

De ser ela o motivo de tanto calo e espor‹o,

Nos pŽs de gente Monjolo

Mas deixa estar; que por obra de rebeldia

Nem eu, nem mam‹e, nem vov— e ninguŽm mais

Acreditou ou acredita naquela estrofe viciada

(NASCIMENTO, 2015, p. 53)

Essa estrofe mostra-nos que a situa�‹o de subalternizada n‹o ser‡ mais aceita, que estas vozes negras femininas que aqui narraram n‹o se conformar‹o com as vers›es das hist—rias que foram impostas. De acordo com bell hooks[53], Òa œnica maneira de as mulheres negras constru’rem uma subjetividade radical Ž resistindo ao conjunto de normas e desafiando ˆs pol’ticas de domina�‹o baseadas em ra�a, classe e sexoÓ (HOOKS, 2019, p. 125). Sendo assim, podemos pensar nas conta�›es de Cremilda e na escrita de Elisabete como a�›es transgressoras e resistentes a opress›es de uma sociedade enraizadas em um sistema colonial.

Ap—s esse percurso por Os sapatos de TŽ, notou-se a import‰ncia do processo criativo escolhido para a constru�‹o da obra. Ao dar voz a Cremilda e escrever a narra�‹o a partir das mem—rias, Elisabete possibilita outras vers›es da hist—ria e a protagonismo dessa voz. AlŽm disso, essa constru�‹o acabou por compor uma obra inspirada em moldes ancestrais. Assim, a partir dos procedimentos criativos j‡ mencionados, a autora rompe com um modelo tradicional da literatura ocidental, enquanto revela a supera�‹o da mulher negra, que n‹o aceita mais ficar no espa�o da invisibilidade e do silenciamento.

 

 

Refer�ncias

 

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[Recebido: 20 jul 2020 – Aceito: 07 dez 2020]

VOZES DE MARACANGALHA: INTERSEC‚ÌO DE SABERES E AFETOS

 

 

VOICES OF MARACANGALHA: INTERSECTION OF KNOWLEDGE AND AFFECT

 

 

Railda Maria da Cruz dos Santos[54]

https://orcid.org/0000-0002-3151-689X

 

Edil Silva Costa[55]

https://orcid.org/0000-0002-3151-689X

 

 

Resumo: Apresenta-se brevemente a produ�‹o poŽtica tradicional de Maracangalha, povoado de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, Bahia, a partir do repert—rio da manifesta�‹o cultural ÒLindro AmorÓ. As cantigas analisadas foram registradas no caderno de anota�›es ÒCultura popularÓ, da professora N’vea, moradora da localidade. Partimos do pressuposto que a din‰mica dessa produ�‹o, ao longo do tempo, coloca nesse territ—rio os corpos de mulheres negras que, com suas vozes, interseccionam saberes, fazeres e afetos, de si e de seus pares, como dispositivo de (re)exist�ncia. Para tanto, o artigo se ampara no mŽtodo qualitativo de cunho etnogr‡fico e nos te—ricos: Foucault (1996), Guattari e Rolnik (1986), Kilomba (2019), Quijano (2005) e Zumthor (1993, 2005, 2007, 2010). AlŽm do repert—rio do caderno, trataremos tambŽm das narrativas de mulheres que integram o grupo de cultura popular supracitado. Por fim, tecemos considera�›es acerca dos caminhos trilhados por essas mulheres para o deslizamento e perman�ncia da poŽtica da voz nos dias atuais.

Palavras-chave: Maracangalha. Lindro Amor. PoŽticas orais. Cultura popular. Mulheres negras.

 

Abstract: The traditional poetic production of Maracangalha, a village in S‹o Sebasti‹o do PassŽ, Bahia, is briefly presented, based on the repertoire of the cultural event ÒLindro AmorÓ. The songs analyzed were noted down by a local teacher, known as Pr— N’vea and recorded in a notebook named by her as ÒPopular CultureÓ. We start from the assumption that the dynamics of this production, over time, places in this territory the bodies of black women who, with their voices, intersect knowledge, actions and affections, of themselves and their peers, as a device of (re)existence. To this end, the article is based on the qualitative method of ethnographic nature and the theorists: Foucault (1996), Guattari (1986), Kilomba (2019), Quijano (2005) and Zumthor (1993, 2005, 2007, 2010). In addition to the repertoire of the section, we will also deal with the narratives of women who are part of the aforementioned popular culture group. Finally, we make considerations about the paths taken by these women for the sliding and permanence of the poetics of the voice today.

Keywords: Maracangalha. Lindro Amor. Oral poetics. Popular culture. Black women.

 

 

O Lindro Amor de Maracangalha

 

Eu vou pra Maracangalha, eu vou
Eu vou de uniforme branco, eu vou
Eu vou de chapŽu de palha, eu vou
Eu vou convidar An‡lia, eu vou...

(Caymmi, 1978)

 

A voz corrobora a exist�ncia de um coletivo, de uma a�‹o pol’tica, de uma cultura. Nesse sentido, Òa voz exerce no meio humano uma fun�‹o forte, mas n‹o id�nticaÓ (ZUMTHOR, 2005, p. 80), uma vez que se corporaliza, de acordo com o sujeito de enuncia�‹o, rompendo e remodelando-se no tempo e no espa�o. ƒ a partir dessa premissa que pensamos no texto da cultura popular, mais especificamente, a poesia oral de grupos subalternizados que criam sua linguagem singular como mecanismo de insurgir contra o sistema hegem™nico. Assim, Ž da linguagem das minorias que emanam as reflex›es deste artigo, das narrativas e dos cantos tradicionais que fizeram e fazem parte da cultura popular da comunidade de Maracangalha.

O nome do lugar Ž conhecido pela can�‹o de Dorival Caymmi. Decidido, o eu l’rico iria para l‡ com An‡lia, se ela quisesse ir, sen‹o ele iria s—. Mas, o que nem todos que ouvem a can�‹o sabem Ž onde fica Maracangalha e porque ele queria tanto ir l‡. Vamos atender ao aceno dele, aceitando seu convite para nos aproximarmos desse lugar, com o ouvido atento ˆs vozes de seus moradores.

Maracangalha Ž um distrito do munic’pio de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, cidade do interior da Bahia, cerca de sessenta quil™metros de Salvador[56]. Fazendo parte da regi‹o do Rec™ncavo, o nœcleo urbano de S‹o Sebasti‹o do PassŽ Ž bastante antigo: foi uma freguesia criada em 1718, sendo distrito de S‹o Francisco do Conde atŽ 1926, quando foi emancipada e promovida a cidade. A partir da dŽcada de 1960, desenvolve-se gra�as ˆ explora�‹o de po�os de petr—leo e, embora rica, tem uma das popula�›es mais pobres do Estado e ’ndices de desenvolvimento humano muito baixos.

Com uma popula�‹o negra predominante, em fun�‹o do processo de ocupa�‹o da ‡rea ainda no sŽculo XVIII e da necessidade de m‹o de obra escravizada para a lavoura de cana-de-a�œcar, a cultura local preserva fortes tra�os desse caldeamento. Compreendemos que nesse processo de cria�‹o h‡ um dinamismo hist—rico, cultural e temporal, que possibilita novos modos de configura�‹o e ressignifica�‹o do texto tradicional oral na atualidade. Nosso olhar se voltar‡ mais especificamente para as mulheres negras e sua produ�‹o cultural nos dias de hoje. Desse modo, focaremos nos modos de produzir de mulheres que interseccionam saberes, dizeres e afetos, e seus corpos como territ—rio de (re)exist�ncia da voz poŽtica nessa localidade.

Nos limites deste artigo, destacamos a manifesta�‹o cultural denominada Lindro Amor. De acordo com informa�›es locais, trata-se de uma brincadeira presente em Maracangalha desde o per’odo dos engenhos que l‡ existiam, estendendo-se pelo processo de industrializa�‹o da cana-de-a�œcar pela Usina Cinco Rios e sendo recriada por moradores da vila atualmente. Segundo Pr— N’vea – como Ž conhecida a professora N’vea –, uma das mulheres integrantes do grupo Lindro Amor, o cortejo sa’a nos dias de feira e nos dias de pagamento dos trabalhadores da usina para arrecadar fundos, mas tambŽm com objetivo de simplesmente brincar ou festejar a vida. Assim ela explica:

O Lindro Amor Ž um festejo, um cortejo formado por mulheres, homens e crian�as, [...] que pediam ajuda para o caruru de S‹o Cosme, S‹o Roque e Santa B‡rbara. Ent‹o, vinha na frente uma caixinha toda enfeitada de flores com a imagem do santo, as mulheres dan�ando e os homens tocando e cantando o ritmo de afoxŽ. O cortejo sa’a na rua de casa em casa, pedindo oferenda ao dono da casa [...]. Um cortejo nascido de dentro dos terreiros de candomblŽ que aqui existiam, surge da necessidade de angariar fundos para fazer e dar as oferendas para os orix‡s [...]. AlŽm disso, o Lindro Amor participava do ritual da botada da usina, ou seja, quando a usina ia come�ar a funcionar, moer a cana (Pr— N’vea, informa�‹o verbal, 31/07/2019).

Como percebemos no depoimento acima, h‡ inicialmente uma motiva�‹o financeira. O pedit—rio sempre foi costume nas irmandades e nos terreiros de candomblŽ. Nasce da necessidade para angariar fundos, mas tambŽm Ž uma forma de envolver a comunidade nas celebra�›es, tornando a festa uma promo�‹o coletiva. O pedit—rio pode ser individual como, por exemplo, por parte do iniciado no candomblŽ que n‹o tem recursos para bancar a feitura do santo ou a festa para o seu orix‡. Nesse caso, o sujeito pede de porta em porta a ajuda necess‡ria, em nome do santo. Em geral, usam as indument‡rias de sua condi�‹o e hierarquia, portam balaios com imagens, pipocas ou a comida do orix‡ e pedem dinheiro ou outro tipo de ajuda. Esse costume, menos frequente nos dias atuais, tambŽm serve como exerc’cio de humildade para o filho de santo, assim como para tornar pœblica sua condi�‹o de iniciado. As irmandades costumavam pedir esmolas para obter recursos destinados ˆ ajuda humanit‡ria para os mais necessitados, mas tambŽm para as festas dos santos de sua consagra�‹o.

Na descri�‹o de Pr— N’vea, o balaio Ž substitu’do por Òuma caixinha toda enfeitada de flores com a imagem do santoÓ e a ÒajudaÓ seria para o Òcaruru de S‹o Cosme, S‹o Roque ou Santa B‡rbaraÓ, santos cat—licos, mas que t�m estreita rela�‹o com as casas de santo no Rec™ncavo da Bahia. Pedir ajuda para oferecer comida (o caruru) justifica-se porque, nesse contexto, o banquete deve servir a toda comunidade. N‹o existe festa sem comida, sem fartura e sem compartilhamento. Oferece-se a comida do santo, mas esta deve ser tambŽm compartida com os envolvidos e assim se exerce a devo�‹o.

A mœsica e a dan�a, do jeito que s‹o apontadas por ela, nos remetem para a sa’da do terreiro para a rua: Òas mulheres dan�ando e os homens tocando e cantando o ritmo de afoxŽÓ. AfoxŽ Ž um ritmo do terreiro, uma evoca�‹o ou chamamento para o santo. Tocar e dan�ar na rua o ijex‡, ou seja, o Òritmo de afoxŽÓ Ž tambŽm tornar pœblica a rela�‹o do cortejo com os terreiros. Curiosa a estratŽgia de colocar o cortejo na rua coincidindo com o dia do pagamento dos trabalhadores e dias de feira, porque nessas ocasi›es haveria mais dinheiro circulando e, portanto, seria mais vantajoso para alcan�ar o objetivo. Com o passar dos anos, o cortejo ganha caracter’sticas mais de folguedo ou festejo e a fun�‹o de pedit—rio vai se esvaziando. Da’ surge a quest‹o: quais as fun�›es que assume hoje? O que leva esses sujeitos a reinventarem essa tradi�‹o e como ela se configura na contemporaneidade? Qual o papel das mulheres nesse contexto?

Assim, procuramos compreender o Lindro Amor, suas motiva�›es de cria�‹o e perman�ncia, enquanto texto que produz sentidos para a comunidade de Maracangalha e para as mulheres, demarcando seus territ—rios de identidades e produ�‹o de subjetividades. FŽlix Guattari, em Subjetividade e hist—ria, ao abordar sobre produ�‹o subjetiva, traz para seu debate o termo singulariza�‹o como forma de recusa ˆ produ�‹o subjetiva capital’stica. Para o autor, essa singulariza�‹o seria como dispositivos, vias de escape para que grupos sociais, as minorias, criem seus Òpr—prios modos de referencia�‹o, suas pr—prias cartografiasÓ (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 49). Assim, propomos pensar a produ�‹o poŽtica de Maracangalha como um processo singular em que a subjetividade ocorre Òemprestando, associando, aglomerando dimens›es de diferentes espŽciesÓ (GUATTARI; ROLNIK, 1986, p. 37). Nesse sentido, processo de singulariza�‹o relaciona-se com processo criativo, liga�›es, resist�ncia, troca de saberes, de afetos, mas tambŽm com a produ�‹o poŽtica.

A nossa an‡lise ancora-se nos estudos culturais, a partir de uma vis‹o interdisciplinar, aliada a um referencial te—rico que dialoga com a proposta referida, alŽm das narrativas apresentadas e materiais (orais/virtuais ou impressos/materiais) recolhidos da tradi�‹o oral da comunidade. Isso porque consideramos as mulheres integrantes do Lindro Amor enquanto arquivos vivos (COSTA, 2016) e suas narrativas reveladoras de pr‡ticas de armazenamento, conserva�‹o e cataloga�‹o de saberes.

Osmar Moreira Santos, na obra Arquivos, testemunhos e pobreza no Brasil, aborda que, para alŽm de seu corpo e performance, caixas de sapatos, baœs, gavetas entre outros, podem constituir-se em arquivos de pobres como lugar de resist�ncia (SANTOS, 2016, p. 16). Assim, os relatos, mas tambŽm cole�›es de objetos, documentos e cadernos de anota�›es, podem ser vistos como arquivos[57] da cultura de tradi�‹o popular dessa comunidade. Enquanto resist�ncia, os arquivos podem significar a labuta do trabalho, a cria�‹o e recria�‹o da cultura oral, mas tambŽm resist�ncia aos embates culturais no interior de um coletivo.

Diante desta silepse, pensar as poŽticas orais Ž tambŽm analisar os sentidos, as formas de resist�ncia e ressignifica�›es para a comunidade e para as pessoas que faziam e fazem parte desses grupos. Portanto, a partir da apresenta�‹o e breve an‡lise do Lindro Amor, propomos refletir sobre os territ—rios da voz, os corpos de mulheres negras e a intersec�‹o de saberes e de afetos em sua produ�‹o cultural.

 

 

Delineando o territ—rio da voz em corpos de mulheres negras

 

Conhecida por sua hospitalidade, poeticidade e musicalidade, Maracangalha Ž tambŽm lembrada por narrativas orais sobre personagens famosos neste cen‡rio, como a hist—ria da sambadeira Am‡lia[58] e do capoeirista Besouro[59]. Algumas dessas narrativas remontam ao tempo dos engenhos, quando grupos afrodescendentes eram escravizados e explorados pelo sistema de poder.

Como foi dito, Maracangalha pertence ao munic’pio de S‹o Sebasti‹o do PassŽ, a 51 Km do cruzamento das rodovias BR-324 e BR-110. No acesso ˆ vila, h‡ um monumento, uma espŽcie de chaminŽ, que representa partes da usina e identifica o nome da comunidade. Apresenta uma paisagem natural e modificada, marcada pelos canaviais, pelas ‡guas do Rio Joanes e por um solo denominado massap�, elementos esses que se fundem no processo de constru�‹o de sua linguagem poŽtica.

Portanto, ao chegar ˆ comunidade, nos deparamos com uma encruzilhada, que pode ser descrita, percebida e visualizada em suas formas, mas tambŽm em sentidos. Na horizontal, temos uma linha fŽrrea que nos leva para outros contextos e cenas culturais. J‡ no sentido vertical, trilha-se para o centro da comunidade. ƒ importante ressaltar que nesse cruzamento, avistamos, ˆ esquerda, as ru’nas da Usina Cinco Rios. Seu nome gasto pela a�‹o do tempo, representa a decad�ncia de uma atividade econ™mica que permanece na lembran�a dos mais velhos.

Nesse territ—rio cultural, h‡ uma pra�a nomeada Dorival Caymmi que, em seus contornos, revela tra�os espec’ficos do local como o desenho de um viol‹o, signo que comp›e e faz parte da cultura popular tradicional da localidade. Em volta da pra�a, casas arquitetadas na Žpoca em que os moinhos da usina estavam a todo vapor, a Igreja Nossa Senhora da Guia, alŽm do largo do mercado, que serviu e serve de palco para as festas populares da comunidade. ÒMaracangalha era toda festa e ora�›esÓ, como descreve Valdevino Neves Paiva:

O largo da capela parecia uma lapinha. Barracas de palha de pindoba ou dendezeiro, enfeitadas de bandeirolas multicores, eram o principal ponto de atra�‹o tur’stica das pessoas vindas das fazendas vizinhas, da cidade de S‹o Sebasti‹o do PassŽ e de outras, como Candeias, S‹o Francisco do Conde, Santo Amaro, Salvador entre outras. [...]. Por toda parte o povo andava, e em toda parte havia um ponto de divers‹o: aqui uma roda de samba; [...] adiante uma roda de capoeira com capoeiristas famosos da Bahia, como Mestre Bimba e outros; mais ˆ frente – cavaleiros trajados a rigor, cavalos enfeitados [...]. N�go bebo n‹o faltava, perturbando as rodas de samba, intrometendo-se entre os foli›es do afoxŽ organizado por Lau (Ladislau Bispo) na fazenda Quibaca, ou entre os blocos que JosŽ Porf’rio ou ZŽ Pretinho colocavam nas ruas (PAIVA, 1996, p. 67).

A saborosa descri�‹o de Paiva nos d‡ a dimens‹o de qu‹o colorida e fervilhante era Maracangalha em dias de festa, envolvendo pessoas advindas de outras cidades, num conjunto que misturava religiosidade, cavalgadas, samba e capoeira, tudo regado a muita bebida e podendo haver confus‹o. ƒ nesse territ—rio que analisaremos as produ�›es poŽticas dos moradores de Maracangalha, reconhecendo a contribui�‹o dessas produ�›es para a forma�‹o identit‡ria baiana e brasileira. O lugar poŽtico, onde mulheres negras trocam saberes para que a mem—ria da tradi�‹o atravesse o tempo e o espa�o.

Embora o Lindro Amor n‹o seja uma manifesta�‹o cultural exclusivamente feminina, nossa pretens‹o aqui Ž apresentar um breve olhar sobre o deslizamento dos corpos das mulheres negras que fazem parte da cultura de tradi�‹o oral de Maracangalha. Quem s‹o essas mulheres? O que seus corpos produzem?

Tentando tra�ar um perfil das narradoras maracangalhenses, observamos que elas s‹o senhoras de 60 a 80 anos, em grande parte n‹o escolarizadas ou semianalfabetas, praticantes do cristianismo e de religi‹o de matriz africana. Historicamente, as mulheres negras da regi‹o eram trabalhadoras dos engenhos, das casas grandes, amas de leite, rezadeiras e sambadeiras. Atualmente, seus afazeres v‹o alŽm dos de donas de casa. Exercem atividades representativas em sua comunidade, como m‹es de santo, costureiras, professoras, l’deres de grupo cultural, entre outras ocupa�›es. Mulheres de classes populares que, por intermŽdio de suas mem—rias, transportam, mas tambŽm conectam passado e presente, percebendo ou n‹o, que suas a�›es resultam na atualiza�‹o e conserva�‹o da poŽtica oral.

Para o medievalista Paul Zumthor, Òo corpo Ž ao mesmo tempo o ponto de partida, o ponto de origem e o referente do discursoÓ (ZUMTHOR, 2007, p. 77). De acordo com o pensamento do autor, o corpo Ž o local que emana a voz. Nele, a voz se materializa, dando uma impress‹o de presen�a, impondo-se, preenchendo espa�o, tanto material quanto sem‰ntico. Enquanto territ—rio vocal, o corpo Ž presen�a perform‡tica. J‡ a voz precisa do corpo para atingir sua plenitude (ZUMTHOR, 2005). Portanto, o corpo das mulheres negras deve ser visto como o espa�o territorial da voz poŽtica tradicional de Maracangalha, que se articula em um tr‰nsito sem‰ntico discursivo para sua (re)exist�ncia.

Grada Kilomba, ao discorrer sobre os corpos de mulheres negras, afirma que ÒNo racismo, corpos negros s‹o constru’dos como corpos impr—prios, como Ôcorpos que est‹o fora do lugarÕ, por essa raz‹o corpos que n‹o podem pertencerÓ (KILOMBA, 2019, p. 56). A afirma�‹o da autora pontua, mas tambŽm valida o longo processo hist—rico vivido pelas mulheres negras inseridas no sistema racista, opressor e patriarcal, que invalidam seus corpos e, automaticamente, todos seus conhecimentos. Ao nos referirmos ˆs mulheres negras, seus corpos n‹o podem ser vistos como primitivos ou irracionais, como foi conceituado na perspectiva euroc�ntrica para as rela�›es de domina�‹o e explora�‹o de trabalho (QUIJANO, 2005). Entretanto, aqui, o corpo tem uma integridade, uma racionalidade, ele produz linguagem. ƒ o corpo um territ—rio em que ganha vida a performance poŽtica. Ele carrega a mem—ria cultural, mas tambŽm a voz da tradi�‹o. Desse modo, interessa-nos investigar a atua�‹o das mulheres de Maracangalha enquanto corpos que resistem e enfrentam e revertem os discursos que as desqualificam.

 

 

Entre a oralidade e a escrita, extens›es da mem—ria

 

Adentrar a comunidade de Maracangalha, enquanto pesquisadoras, Ž vasculhar, com o olhar minucioso, as gavetas, baœs e quartinhos, ˆ procura de objetos, indument‡rias, bandeiras, cadernos, livros, instrumentos musicais, CDs, DVDs etc. Comp›em o cen‡rio investigado, altares, imagens de S‹o Cosme e Dami‹o, do Sagrado Cora�‹o de Jesus e Maria, Santo Ant™nio, quadros que representam outras paisagens culturais. Interessa-nos a poesia oral/escrita, o canto, as narrativas em performances, entrela�ando discursos do ontem e do agora, mas tambŽm todo esse cen‡rio e os objetos que o comp›em. Esse conjunto integra a produ�‹o da cultura local, revelando as formas de arquivamento da mem—ria, individual e coletiva.

Todo arquivo Ž uma sele�‹o e parte de uma a�‹o, valor, significa�‹o que determinado objeto representa para um indiv’duo ou seu grupo, pois desde a sele�‹o para essa guarda, de forma intencional ou n‹o, o ato de arquivar os objetos, carregam em si a mem—ria de seu guardi‹o. Os arquivos da cultura popular est‹o distantes dos arquivos pœblicos, dos grandes centros culturais, das institui�›es que representam o Estado, mas tambŽm s‹o formas de salvaguardar e preservar a mem—ria cultural, seus fazeres, suas cren�as, seus costumes, da a�‹o do tempo. Ademais, percebemos que os sujeitos tambŽm selecionam seu arquivo material com formas pr—prias de organicidade e metodologia, cuja diversidade se faz presente nos arquivos pœblicos, mas com cuidado e zelo, pelo valor simb—lico que esses arquivos representam para os indiv’duos e para a comunidade. Portanto, metodologia e organicidade perpassam por um ato subjetivo dos sujeitos.

AlŽm disso, os arquivos trazem em si o vazio, o sil�ncio, o rastro de outros tempos, experi�ncias e viv�ncias. Assim, vemos que podem servir de testemunhos de lembran�as e esquecimentos, assim como s‹o tambŽm ferramentas para a preserva�‹o de informa�›es culturais relacionadas ao grupo do Lindro Amor. Destacamos dentre os objetos de fixa�‹o de mem—rias um dos cadernos da professora N’vea.

Para a leitura dos signos presentes no acervo cultural do Lindro Amor, apropriamo-nos da express‹o arquivista anarquista proposta por Reinaldo Marques que, ao fazer refer�ncia ao perfil do pesquisador ao lidar com o arquivo liter‡rio, deve atuar como Òarquivista anarquista, lendo o arquivo a contrapeloÓ (MARQUES, 2008, p. 117). Segundo o autor, isso possibilita uma leitura cr’tica, a desconstru�‹o da ordem dos arquivos, formulando novas formas de leituras e interpreta�›es. O sujeito do arquivo desafia o arquivista, pois o for�a a olhar para o que Ž ocultado e acurar o ouvido para ouvir os silenciamentos.

O pesquisador/ouvinte, em contato com as formas de arquivos, deve voltar seu olhar Òpara a natureza discursiva, sua oculta�‹o ou exposi�‹o [...], mas tambŽm para a narrativa que se estabelece nesses fragmentosÓ (COSTA, 2016, p. 60). Nesse sentido, vemos que o pesquisador deve atentar para a linguagem presentes nos objetos, os sentidos revelados pelo arquivo. Desse modo, considerando os narradores como arquivos vivos (COSTA, 2016), a constru�‹o de sentidos da poŽtica oral se atualiza, se ressignifica, apresentando a ÒintervocalidadeÓ que, segundo Paul Zumthor (1993), deve ser entendida como a voz que faz uma trilha no tempo e no espa�o, mas que tambŽm carrega a tradi�‹o.

Importante notar que, embora a transmiss‹o dos saberes seja predominantemente oral, encontramos no caderno de anota�›es um suporte valioso que indica n‹o s— o dom’nio do c—digo escrito, mas o uso adequado dessa ferramenta em fun�‹o do desejo de registro e salvaguarda. Zumthor (2010, p. 39) prescreveu que Òa poesia oral hoje se exerce em contato com o universo da escritaÓ. Para o autor, esse contato pode acontecer em um prazo mais ou menos longo, chamando a aten�‹o para o impacto da escrita sobre a poesia oral. A declara�‹o de Zumthor apresenta rela�‹o com as formas de arquivo da cultura popular de Maracangalha, uma vez que os arquivos carregam a voz da tradi�‹o. Ao acessar esses arquivos virtuais/materiais, seus narradores/ouvintes, atravŽs da performance, proporcionam a produ�‹o e a transmiss‹o da poŽtica oral. Por outro lado, o caderno de anota�›es, como o de Pr— N’vea, revela a transcri�‹o da voz, materializando a palavra oral em escritura, uma espŽcie de Òsegunda l’nguaÓ (Zumthor, 2005), afirmando o dom’nio do c—digo escrito em um territ—rio aparentemente dominado pela oralidade. Pode-se tambŽm revelar, numa perspectiva espacial, um territ—rio afetivo em que pares trocam afetos e experi�ncias.

Dentre as mulheres que tem o dom’nio da escrita no grupo Lindro Amor, Pr— N’vea tem as melhores condi�›es para registrar no caderno – que intitulou ÒCultura PopularÓ – aspectos essenciais do Lindro Amor, mas n‹o s—. Trata-se de uma relevante produ�‹o sobre a cultura de tradi�‹o oral, uma espŽcie de c—dice, onde est‹o registradas as narrativas orais que atravessaram e atravessam o tempo na vila. A autora configura esse arquivo em duas partes: na primeira est‹o escritos c‰nticos, benditos e louvores em honra a Maria, S‹o Roque e Santo Ant™nio; na segunda parte, encontramos as cantigas de Bumba-meu-boi, Folia de Reis, Samba de roda, bailados e do Lindro Amor. Nesse breve sum‡rio do caderno, est‹o listados os interesses da autora/organizadora e os textos caracter’sticos da tradi�‹o da comunidade que v‹o de textos religiosos a folguedos.

N’vea afirma que o caderno tem fun�‹o pedag—gica dentro da comunidade, servindo de manual para as professoras ensinarem a cultura de tradi�‹o oral aos alunos da escola de ensino fundamental presente na vila, objetivando as apresenta�›es dos eventos escolares e a comemora�‹o do dia do folclore, alŽm de servir de guia para as novenas dos santos cat—licos e da festa da padroeira – Nossa Senhora da Guia. Assim, o caderno ÒCultura popularÓ Ž uma produ�‹o individual, uma escrita de si, que apresenta os saberes de uma coletividade, mas tambŽm, assim como a voz, se move para atender os Òmœltiplos letramentosÓ[60] da comunidade.

A cantiga do Lindro Amor que segue faz parte desse arquivo:

Eu n‹o sou daqui,

Sou de Maracangalha.

Eu n‹o sou daqui,

Sou da terra de An‡lia.

Trago o samba no pŽ

E o meu chapŽu de palha.

O sujeito poŽtico dessa cantiga demarca um lugar e sua identidade cultural. O sujeito que fala est‡ em outro espa�o que n‹o Ž Maracangalha, mas sente necessidade de demarcar seu territ—rio de identidade, valendo-se dos signos conhecidos do lugar em outros contextos. Desterritorializa-se e reterritorializa-se, autoafirmando-se. Para isso, empreende um movimento de apropria�‹o ou antropofagia cultural da can�‹o de Dorival Caymmi, como uma forma de dar maior visibilidade ao grupo, uma vez que o nome da localidade Ž conhecido nacionalmente gra�as aos versos desse compositor. Ademais, chamam a aten�‹o os signos presentes no texto de Caymmi: An‡lia, chapŽu de palha e samba no pŽ. Fazendo refer�ncia a Am‡lia, segundo os moradores, a maior sambadeira de Maracangalha e por isso mesmo citada por Caymmi, o sujeito se coloca no mesmo lugar que deu fama ao povoado. A refer�ncia ao chapŽu de palha, repetindo a mesma rima usada por Caymmi (An‡lia/palha) Ž uma clara alus‹o ao acess—rio do grupo de samba que, por sua vez, imita as indument‡rias dos trabalhadores dos canaviais e outras labutas.

Ao dizer Òeu n‹o sou daquiÓ, o sujeito poŽtico coloca-se no lugar do estranho ou forasteiro em rela�‹o ao territ—rio-n‹o-lugar ou um aqui ocupado provisoriamente. Por outro lado, coloca-se como alguŽm que sabe bem qual lugar Ž o seu e o vai descrevendo nos versos seguintes, n‹o com caracter’sticas da paisagem, da localiza�‹o ou atividade econ™mica, selecionando aspectos culturais. Descreve o seu lugar como a terra da An‡lia, e isso lhe basta. Assim como lhe basta descrever a si mesmo como alguŽm que sabe sambar e usa chapŽu de palha. Com esses signos, cria-se uma imagem homog�nea que identifica o sujeito poŽtico e todos os outros sujeitos da terra de An‡lia.

O primeiro e o terceiro versos, Òeu n‹o sou daquiÓ, tambŽm nos remetem a uma can�‹o de dom’nio pœblico: ÒMarinheiro s—Ó, gravada por Clementina de Jesus[61]:

Eu n‹o sou daqui, marinheiro s—

Eu n‹o tenho amor, marinheiro s—

Eu sou da Bahia, marinheiro s—

De S‹o Salvador, marinheiro s—.

Assim como nos versos do Lindro Amor se diz textualmente Òsou de MaracangalhaÓ, aqui tambŽm Ž necess‡rio dizer de onde se Ž, demarcar seu territ—rio: Òeu sou da Bahia/de S‹o SalvadorÓ. Nos versos do marinheiro fica subentendido que Ž um sujeito em tr‰nsito, um viajante solit‡rio (Òmarinheiro s—Ó); nos versos do Lindro Amor, esse tr‰nsito pode se justificar pelo fato de o cortejo tambŽm se deslocar para outras localidades para pedir a esmola dos santos, de acordo com a explica�‹o de Pr— N’vea mencionada anteriormente. Eis um aspecto que se constitui como forte indicador de identidade: o sujeito gira o mundo, mas se revela a partir do seu lugar de origem: n‹o se diz Òeu sou...Ó, mas se diz Òeu sou de...Ó. Nos versos de ambas as cantigas parece transpirar um certo orgulho ao revelar seu territ—rio e tambŽm a necessidade de demarcar o deslocamento, explicitado nos versos Òeu n‹o sou daquiÓ.

A cantiga ÒMarinheiro s—Ó ficou marcada pela interpreta�‹o œnica de dona Clementina de Jesus, dona de uma voz negra que nos remete ˆ ancestralidade e aos c‰nticos dos terreiros, ela mesma pioneira em gravar pontos de macumba e dar visibilidade ao matriarcado nas religi›es de matriz africana. Ao dizer Òeu n‹o sou daquiÓ, essa voz nos diz tambŽm desse lugar diasp—rico e solit‡rio. Se consideramos que a Marinha do Brasil foi um dos poucos lugares a acolher os negros libertos no per’odo p—s-aboli�‹o, em fun�‹o das pŽssimas condi�›es de trabalho e da forma desumana como os trabalhadores eram tratados, haver‡ ainda muito a se dizer dessa cantiga[62]. No entanto, n‹o caber‡ aqui, pois nos desvia do repert—rio do Lindro Amor e das anota�›es de Pr— N’vea.

Em outra folha do caderno, encontramos a cantiga de samba de roda que segue:

Arraste a cadeira e senta, mulher!

Tu n‹o dan�a, tu n‹o samba,

que diabo faz em pŽ?

Arraste a cadeira e senta, mulher.

Como se v� nessa quadra, o contexto de interlocu�‹o Ž a roda de samba. O sujeito poŽtico revela um inc™modo pelo fato de a mulher estar de pŽ, sem dan�ar. Na roda, o lugar do corpo dan�ante Ž o centro. Em volta da roda est‹o os mœsicos e os cantadores, os que n‹o dan�am e se limitam a responder os refr›es e bater palmas. A mulher em geral ocupa o centro, o lugar da dan�a, assim como o sapateado e a umbigada. Nesse espa�o central, espera-se o corpo livre, comandado apenas pelo ritmo da mœsica. No entanto, nessa cantiga, podemos observar que n‹o h‡ liberdade de escolha. O corpo feminino que, apesar de estar de pŽ, n‹o ocupa o lugar da brincadeira, Ž convidado a sentar-se, ou seja, Ž exclu’do da roda. O tom imperativo Òarraste a cadeira e sentaÓ n‹o deixa op�‹o nem meio-termo: ou est‡ dentro ou est‡ fora (ou dan�a ou senta). A estrutura circular da cantiga, come�ando e terminando com versos id�nticos (a ordem de se sentar) deixa clara a insist�ncia nessa ideia: nos versos centrais est‡ a explica�‹o (ÒTu n‹o dan�a, tudo n‹o sambaÓ) e a indigna�‹o (Òque diabo faz em pŽ?Ó), refor�ando o inc™modo com a repeti�‹o que inicia e fecha a estrofe (Òarraste a cadeira e sentaÓ).

Essa mulher parece n‹o ter voz nem escolha, devendo assumir o papel j‡ previamente determinado. Poderia parecer uma preocupa�‹o motivada pela gentileza de dar assento a uma dama, n‹o fosse o tom grosseiro da pergunta Òque diabo faz em pŽ?Ó Como se essa posi�‹o da mulher de pŽ atrapalhasse o samba, ocupando o lugar de quem deveria dan�ar. Nessa situa�‹o, ela Ž exclu’da da roda, invisibilizada, sendo colocada como mera observadora. Por outro lado, a ordem de se sentar pode ser interpretada tambŽm como uma provoca�‹o para que todas as mulheres participem do samba. Os versos dizem claramente qual o lugar que a mulher deve ocupar e, se n‹o o fizer, comete um interdito que se traduz no inc™modo e na irrita�‹o do sujeito poŽtico. Em œltima inst‰ncia, seu corpo ocupa o seu lugar de estar no mundo e, se esse lugar ou seu comportamento Ž visto como inadequado, Ž porque ela faz uso da liberdade de desafiar o prŽ-estabelecido.

ƒ desse modo que essas cantigas se convertem como farto material etnogr‡fico, documentos da mem—ria cultural que revelam os modos de ser e fazer das comunidades narrativas. No Lindro Amor, as vozes das mulheres da comunidade de Maracangalha s‹o ressignificadas e traduzidas em discursos. Entende-se discurso como formas de express‹o da linguagem que servem de ferramenta para essas mulheres se posicionarem contra hierarquias discursivas que tentam silenciar suas vozes e invalidar seus saberes. Desse modo, vamos ao encontro do pensamento de Foucault (1996) sobre interdi�‹o da fala de grupos subalternizados pelo sistema de poder. Segundo o autor, esses grupos atŽ falam, mas existem mecanismos de poder que os impedem de serem ouvidos. Nesse sentido, o discurso dessas mulheres negras Ž interditado por uma ordem discursiva que, no seu interior ou exterior, dita o que deve ser falado e por quem.

Desse modo, essas mulheres juntam esfor�os e criam par‰metros para seus modos de produzir. Nos seus corpos, est‹o as engrenagens discursivas da produ�‹o poŽtica e de sua coletividade, o lugar marginalizado pela cultura hegem™nica, silenciado historicamente pelo discurso do poder, como nos alerta Kilomba (2019), ao argumentar que o sil�ncio da subalterna tem suas ra’zes no colonialismo. Nesse sentido, ao produzir e transmitir a poŽtica oral, essas mulheres negras tentam romper essa barreira discursiva colonial, que nega seus conhecimentos e suas vozes. Por outro lado, o que observamos Ž a exist�ncia desse lugar e o eco de suas vozes atravessarem o tempo, mover-se em sua comunidade por intermŽdio de suas mem—rias. Nota-se que essas narradoras t�m consci�ncia do que fazem e o porqu� fazem, n‹o havendo passividade em suas produ�›es.

ƒ na linguagem e com a linguagem que essas mulheres e seus pares buscam o devir emancipat—rio e pol’tico em suas vidas, tentando sair de um lugar comum. Os que a produzem de modo inconsciente ou n‹o, criam uma l’ngua pr—pria que os caracterizam, construindo suas identidades. Esses s‹o os aparatos que determinam o modo de produzir utilizado por essas pessoas, caracterizando um estilo pr—prio, possibilitando sair do padr‹o de normalidade discursiva. Portanto, essas mulheres se apropriam da linguagem como dispositivo ou ve’culo para levar a mem—ria do texto oral a novos interlocutores e outros contextos. E, nesse deslizamento, elas se afirmam enquanto mulheres negras, alŽm de descobrirem outras formas de Òser mulherÓ, insurgindo-se contra um sistema de poder.

A cena teatral, perform‡tica, de transmiss‹o dessa poŽtica, evidencia o protagonismo dessas mulheres negras como os pilares fundamentais da produ�‹o, mas tambŽm a intersec�‹o de seus saberes e de seus corpos, alŽm dos seus esfor�os para valoriza�‹o e revitaliza�‹o do texto na atualidade. Assim, percebemos os modos de produ�‹o da poesia oral como o processo de singulariza�‹o que geram liga�›es de resist�ncia, embates e for�a criativa. Esses elementos possibilitam a produ�‹o, a transmiss‹o desse fazer liter‡rio, alŽm de categoriz‡-lo como uma produ�‹o de troca dos afetos e saberes.

 

 

Considera�›es finais

 

As reflex›es apresentadas neste artigo nos levam a pontuar os caminhos trilhados por mulheres para produzir a cultura popular de tradi�‹o oral. Analisamos que esses caminhos levam seus fazeres para um campo discursivo onde est‹o presentes embates internos e externos, a�›es pol’ticas, rela�›es de for�a, mas que t�m como resultado a valoriza�‹o e salvaguarda do texto oral. AlŽm disso, a via mostra as engrenagens desse processo, ˆ medida que a produ�‹o acontece, a poesia oral se move para a atualiza�‹o e ressignifica�‹o.

Por outro lado, ressaltamos que elas, ao reinventarem o processo de produ�‹o, tambŽm se reinventam enquanto mulheres. Desse territ—rio de fala, com seus pares, buscam emancipa�‹o e ascens‹o social, vivenciam experi�ncias que possibilitam insurg�ncia de pr‡ticas que desestabilizam, mas tambŽm modificam discursos sociais que servem de barreira para ascens‹o do grupo e de sua cultura.

Por fim, a produ�‹o da poŽtica oral perpassa pela cria�‹o art’stica, singulariza�‹o, criatividade da linguagem, mas tambŽm pela resist�ncia e (re)exist�ncia da cultura popular de tradi�‹o. Nessa perspectiva, literatura e vida caminham juntas no campo de produ�‹o, como possibilidade, ferramenta, maquinaria de cria�‹o poŽtica. Ademais, Ž nessa linguagem e no entrela�ar dos corpos dessas mulheres negras que, historicamente, seu texto Ž produzido, transmitido e ressignificado no tempo. Vivendo e predominando nos registros e na mem—ria cultural de Maracangalha.

 

 

Refer�ncias

 

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ZUMTHOR, Paul. Introdu�‹o ˆ poesia oral. Belo Horizonte: UFMG, 2010.

 

 

 

[Recebido: 11 out 2020  –  Aceito: 13 jan 2021]


 

A POƒTICA DA VOZ NO TERRITîRIO DO MARAVILHOSO NAPOLITANO E BAIANO: TRANSMISSÌO ORAL, CONSELHO E TROCA DE SABERES

 

THE POETICS OF VOICE IN THE NEAPOLITAN AND BAHIAN TERRITORY OF THE MARVELOUS: ORAL TRANSMISSION, ADVICE, AND SHARED KNOWLEDGE

 

 

Adriana Aparecida de Jesus Reis[63]
https://orcid.org/0000-0002-9717-4642

 

 

 

Resumo: O mito de Eros/Cupido e Psiqu� foi narrado nos livros IV, V e VI do romance antigo O asno de ouro por Lœcio Apuleio. O texto da literatura latina forneceu a fonte para o escritor napolitano Giambattista Basile (1575-1632) escrever sua obra-prima Lo cunto de li cunti (O conto dos contos). Ele usou o mito como inspira�‹o para escrever o nono conto de fadas da segunda jornada, o qual recebeu o t’tulo de ÒO cadeadoÓ. Parente em primeiro grau de ÒO cadeadoÓ Ž o conto maravilhoso ÒAngŽlica mais afortunada (O pr’ncipe Teiœ)Ó. Essa hist—ria foi coletada pelo folclorista brasileiro Marco HaurŽlio em Igapor‹, na Bahia, e registrada em seu livro Contos e f‡bulas do Brasil. Este artigo busca analisar n‹o somente o di‡logo intertextual entre os contos maravilhosos napolitano e baiano, mas principalmente os elementos populares que se ligam ˆ transmiss‹o dessas narrativas pela oralidade, tendo em vista que tais hist—rias primeiro foram contadas oralmente por contadores e depois ouvidas por compiladores e folcloristas que as registraram em suas colet‰neas maravilhosas. Verifica-se que os escritores deram um toque particular ˆs narrativas coletadas, demonstrando a presen�a de uma oralidade, porŽm reconstru’da por recursos que evidenciam suas culturas locais.

Palavras-chave: Ciclo noivo-animal. Contos maravilhosos. Oralidade. Giambattista Basile. Marco HaurŽlio.

 

Abstract: The myth ÒEros and PsycheÓ was narrated by Lucio Apuleio in the books IV, V, and VI of his novel The Golden Ass. The Latin literary text provided the source from which Neapolitan writer Giambattista Basile (1575-1632) drew the inspiration to write his own masterpiece, Lo cunto de li cunti (The tale of tales). He used the myth as a basis to build the ninth fairy tale from the second journey on, which was titled ÒThe padlockÓ. A close literary relative to ÒThe padlockÓ is the wonder tale ÒAngelica, the most fortunateÓ (ÒThe tegu princeÓ). The story was collected by Brazilian folklorist Marco HaurŽlio in Igapor‹, Bahia, and registered in his book Tales and Fables of Brazil (2011). This paper aims to analyze not only the intertextual dialogue between the Neapolitan and Bahian tales but especially the popular elements that are tied to the oral transmission of such narratives. It takes into account the fact that those stories were first told orally by storytellers and then heard by collectors and folklorists that registered them in their tale collections. It is noticeable how writers gave a personal touch to the collected narratives, which demonstrates the presence of certain orality but reconstructed by resources that highlight their local cultures.

 

Keywords: Animal-groom cycle. Wonder tales. Orality. Giambattista Basile. Marco HaurŽlio.

 

 

As vozes da tradi�‹o

 

            Segundo o etn—grafo Lu’s da C‰mara Cascudo, em seu livro cl‡ssico Literatura oral no Brasil, contar hist—rias populares, desde os primeiros registros escritos, remonta a um ambiente protocolar em qualquer parte do mundo, segundo o qual as hist—rias e as adivinha�›es s‹o narradas durante as primeiras horas da noite. A escolha por esse h‡bito noturno, de acordo com o mestre potiguar, explica-se pelo fato de ser o hor‡rio final da tarefa di‡ria e pela atmosfera de tranquilidade e sossego espiritual para a evoca�‹o e aten�‹o do audit—rio. Escolhendo o ambiente noturno, Cascudo (1984, p. 228) nos recorda dos melhores t’tulos que denunciam essa universalidade do h‡bito

Mil e Uma Noites, Fireside Stories de Kennedy, VeillŽs Bretonnes de Luzel, XIII Piacevoli Notte de Straparola, Foyer Breton, de émile Souvestre, VeillŽes Des Mayens, de Couthion, VeillŽes Allemandes, tradu�‹o de lÕHŽritier de lÕAin, de contos, cr™nicas e tradi�›es dos irm‹os Grimm.

            De todas essas cole�›es europeias de narrativas populares que explicitam a prefer�ncia pelo h‡bito de contar hist—rias ˆ noite, nos interessa a colet‰nea italiana XIII Piacevoli Notti, de Straparola, tambŽm designada de Le piacevolli notti (As noites agrad‡veis). Essa obra pode ser considerada precursora na compila�‹o do g�nero maravilhoso na It‡lia, pois o escritor Gian Francesco Straparola reuniu, ˆ maneira de Boccaccio, em treze noites, narrativas populares a partir de 1553 (SPERBER, 2009). Das 75 hist—rias que formam esta colet‰nea italiana, encontramos n‹o somente contos de fadas, narrados ao modo maravilhoso, mas tambŽm contos realistas, articula�‹o bem percebida por Ana Lœcia Merege: ÒPublicado pela primeira vez em Veneza, no ano de 1550, o livrou reunia contos de fadas, contos populares, como O Gato de Botas[64], e hist—rias de car‡ter cotidiano, cujo bom-humor lhe valeria cr’ticas por parte dos autores e estudiosos de moral mais r’gidaÓ (MEGERE, 2010, p. 43).

            Essa diferen�a de g�nero entre contos de fadas e hist—rias de car‡ter cotidiano tambŽm se mostra relevante na l’ngua italiana, pois, para os contos de fadas ou populares, existem as palavras fiaba ou racconti, que designa a presen�a do elemento maravilhoso, e para as hist—rias de car‡ter cotidiano, existem as palavras novella (singular) ou novelle (plural), que s‹o narrativas curtas verossimilhantes. ƒ fato que o escritor italiano Straparola, justamente por mesclar ˆ matŽria narrada do modo maravilhoso as hist—rias verossimilhantes, aproxima-se de Giovanni Boccaccio, autor do Decamerone ou Decamer‹o, obra-prima da literatura italiana do sŽculo XIV, conhecida, principalmente, pela narra�‹o da peste negra do final da Idade MŽdia em seu conto moldura, dentre outros temas. Ainda que Straparola se aproxime de Boccaccio, devemos ressaltar que a obra deste escritor italiano do sŽculo XIV Ž composta somente por narrativas do g�nero novelle, ou seja, hist—rias verossimilhantes, ao nœmero de cem.

            Utilizando a estrutura de moldura, inaugurada por Boccaccio no sŽculo XIV na literatura italiana, depois empregada por Giovan Francesco Straparola em Le piacevolli notti, e escolhendo, porŽm, o h‡bito diurno para contar seus cinquenta contos de fadas recolhidos da oralidade, encontra-se o escritor italiano Giambattista Basile (1575-1632), autor de Lo cunto de li cunti ovvero trattrattenemiento de peccerille ou O conto dos contos ou entretenimento dos garotinhos em portugu�s, obra-prima publicada postumamente, entre 1634 e 1636, pela irm‹ do escritor, Adriana Basile, uma famosa cantora de —pera da It‡lia seiscentista (do sŽculo XVII).

A obra Lo cunto de li cunti, tambŽm percursora do registro do g�nero maravilhoso na It‡lia, foi publicada originalmente em dialeto napolitano no sŽculo XVII, em raz‹o de sua matŽria ter sido recolhida entre a camada popular, formada por camponeses e marinheiros do interior da prov’ncia de N‡poles, por Basile durante seu encargo como governador feudal da prov’ncia. Mas foi somente em 1925, pelas m‹os do cr’tico, fil—sofo e tradutor italiano Benedetto Croce, que Lo cunto de li cunti de Basile foi traduzido para o italiano standard (o italiano mais pr—ximo do dialeto florentino utilizado pelos tr�s mestres italianos do sŽculo XIV), recebendo um novo t’tulo em alus‹o ao modelo estrutural usado por Boccaccio no seu Decamerone: Pentamerone ossia la fiaba delle fiabe (Pentamer‹o ou seja a f‡bula das f‡bulas).

Apesar da tardia tradu�‹o de Croce, Ž ineg‡vel que o cr’tico italiano tornou a obra de Basile corrente por toda a pen’nsula italiana, j‡ que havia restri�›es lingu’sticas ligadas ao dialeto de N‡poles, considerado marginal na Žpoca. Entretanto, essa mudan�a de t’tulo, embora estratŽgica, ao aproximar a obra napolitana do t’tulo da obra de Boccaccio, acabou por desmerecer, sobretudo, a engenhosidade de Basile enquanto escritor, demonstrada desde o t’tulo original do livro, pois o t’tulo Lo cunto de li cunti, ou O conto dos contos em portugu�s, salienta, a nosso ver, a estrutura de encaixe, ao ressaltar o conto maior ÒLo cuntoÓ que enquadra os contos menores Òli cuntiÓ, o que vai ao encontro da observa�‹o do cr’tico italiano Michele Rak:

A obra foi constru’da do seguinte modo: Ž um conto (o quinquagŽsimo da abertura/pontes narrativas/fechamento) no interior do qual s‹o narrados outros quarenta e nove contos. Por este motivo a obra foi intitulada conto dos contos. Se fala de jogo dos jogos no mesmo sentido [...]. O quinquagŽsimo conto Ž a hist—ria de Zoza que abre e fecha a obra e tem a mesma estrutura do œltimo conto (As tr�s cidras, o quadragŽsimo nono: confira o conto 9 da quinta jornada) (RAK, 2004, p. 15, tradu�‹o nossa[65]).

            Como bem destacou Rak (2004), o conto moldura (quinquagŽsimo), que assinala os quarenta e nove contos internos ˆ obra, Ž a hist—ria da princesa Zoza, uma princesa que nunca sorria e, quando sorria, Ž em virtude de gestos bizarros de uma velha avistada pela princesa atravŽs da janela do pal‡cio. Na verdade, a velha havia levado um tombo, o que provocou uma grande gargalhada na princesa e ao mesmo tempo uma grande ira na velha, que, por esse motivo, jogou uma maldi�‹o sobre a princesa, segundo a qual o pr’ncipe com quem ela se casaria, chamado Taddeo, estava dormindo numa tumba longe da cidade e, ao encontr‡-lo adormecido, ela teria, caso quisesse se casar com ele, chorar um vaso de l‡grimas. Diante disso, Zoza parte para fora da cidade e encontra o pr’ncipe adormecido, e logo se p›e a chorar, porŽm, a princesa Ž vencida pelo cansa�o e adormece e quem termina de encher a ‰nfora Ž a velha escrava, fato que rompe o estado let‡rgico do pr’ncipe, que, pensando que a escrava fosse sua salvadora, se casa com ela e a leva para morar em seu pal‡cio na cidade de Torrelunga. Inconformada pelo ardil do qual foi v’tima, Zoza tambŽm arquiteta um plano: morando em frente ao pal‡cio do pr’ncipe, a princesa d‡ de presente ˆ escrava v‡rios objetos m‡gicos, dentre eles uma boneca que incute na ex-escrava o desejo incontrol‡vel de ouvir contos de fadas. Assim, o pr’ncipe convoca dez mulheres velhas e mais linguarudas da cidade para narrar, durante cinco dias, ou jornadas, e entre banquetes e jogos t’picos da vida cortes‹, dez contos de fada (dez contos por dia), totalizando, ent‹o, cinquenta contos maravilhosos, sendo o quinquagŽsimo a pr—pria hist—ria de Zoza. A princesa desmascara a ex-escrava no œltimo conto da œltima jornada, fechando assim o quadro, o que conduz o final feliz para a princesa e a puni�‹o para a escrava.

            A obra de Basile Ž composta, alŽm da hist—ria de Zoza, que representa a narrativa moldura, por quarenta e nove contos enquadrados que cont�m contos de fadas considerados matrizes liter‡rias de contos cl‡ssicos encontrados nas cole�›es de Perrault e Grimm, de acordo com Merege (2010, p. 45): ÒPublicada em 1634-36, a obra contŽm as primeiras vers›es escritas de hist—rias como Cinderela e A bela adormecida, num tom c™mico e ˆs vezes grosseiro que soa de forma estranha aos leitores dos contados herdados da tradi�‹o dos GrimmÓ.

            AlŽm de conter hist—rias famosas em todo o folclore europeu, Lo cunto de li cunti, de Basile, conserva hist—rias populares do tipo ciclo noivo-animal, termo cunhado por Bruno Bettelheim em sua obra A psican‡lise dos contos de fadas, para designar contos de fadas origin‡rios do mito de Cupido e Psiqu� (BETTELHEIM, 2020), conto m’tico que fora recolhido e registrado por Lœcio Apuleio no romance antigo O asno de ouro. Do ciclo noivo-animal, foi registrado por Basile em O conto dos contos o nono conto de fadas narrado na segunda jornada, intitulado ÒIl catenaccioÓ (ou ÒO cadeadoÓ em portugu�s), como comprova Croce (2010, p. 165, tradu�‹o nossa) na introdu�‹o do livro em italiano: ÒE n—s compreenderemos, sobretudo, que v‡rios entretenimentos pertencem ao grupo daquele, que Ž o conto de fadas mais famoso e mais rico de hist—ria, o conto de Psiqu� – Assim Ž o nono da segunda jornada, no qual se conta a hist—ria de LuciellaÓ[66].

O mais curioso Ž que esse conto, que narra a hist—ria de Luciella (Lucinha) e seu caso amoroso com um pr’ncipe encantado que foi alvo de uma maldi�‹o, chegou ao imagin‡rio baiano, com o t’tulo de ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, recolhido pelo escritor e folclorista brasileiro Marco HaurŽlio em Igapor‹, na Bahia, e registrado em seu livro Contos e f‡bulas do Brasil, conforme atesta o pr—prio coletor da obra brasileira: ÒUm conto recolhido em Igapor‹, Bahia, chamado AngŽlica mais afortunada, com a hist—ria de um pr’ncipe encantado teiœ, Ž parente em primeiro grau de O cadeado (entretenimento nono da segunda jornada) do PentameronÓ (HAURƒLIO, 2018, p. 11).

            Por terem o mesmo ancestral m’tico, tanto o conto maravilhoso de Giambattista Basile, intitulado ÒO cadeadoÓ, quanto o conto maravilhoso de Marco HaurŽlio, chamado ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, s‹o hist—rias populares pertencentes ao ciclo noivo-animal, o que j‡ nos leva a inferir que, j‡ pela denomina�‹o da express‹o Ònoivo-animalÓ, que todas essas hist—rias t�m em comum o elemento maravilhoso da metamorfose do noivo em animal; no caso da vers‹o brasileira, como denota o t’tulo, um pr’ncipe Teiœ, com quem AngŽlica aceita o sacrif’cio de viver sem nenhuma resist�ncia, motivo do noivo-animal retomado na vers‹o brasileira, segundo HaurŽlio (2011). Dada a essa converg�ncia, temos como objetivo, no presente artigo, fazer uma compara�‹o intertextual entre os contos maravilhosos do napolitano Giambattista Basile e do brasileiro Marco HaurŽlio, examinando, principalmente, os elementos populares que remetem ˆ transmiss‹o oral dessas hist—rias populares, os quais, ao nosso entendimento, demarcam o territ—rio da poŽtica da voz nessas narrativas maravilhosas, que, ali‡s, foram primeiro contadas oralmente e depois ouvida por esses coletores, que as registraram em suas colet‰neas.

As vozes da tradi�‹o tambŽm est‹o presentes na colet‰nea brasileira Contos e f‡bulas do Brasil, resultado do trabalho que o folclorista, poeta e escritor Marco HaurŽlio[67], nascido na Bahia, j‡ vinha desenvolvendo desde 2005 com sua publica�‹o de Contos folcl—ricos brasileiros, voltada ao pœblico infanto-juvenil, porŽm a colet‰nea de 2011 Ž uma reuni‹o de hist—rias destinadas a leitores de todas as idades. A colet‰nea Contos e f‡bulas do Brasil inclui, alŽm de contos populares recolhidos na Bahia, contos oriundos de outros estados do Nordeste, como Pernambuco e Alagoas, todos coletados da rica tradi�‹o oral da regi‹o por meio de um gravador. O di‡logo de Marco HaurŽlio com a tradi�‹o se manifesta n‹o somente pelo rico acervo de contos recolhidos daquela regi‹o, mas tambŽm pelo fato de o folclorista dedicar seus Contos e f‡bulas do Brasil a Br‡ulio do Nascimento, como HaurŽlio (2011, p. 11) testemunha no pref‡cio que escreveu para sua colet‰nea: ÒE ao Professor Br‡ulio do Nascimento, emŽrito catalogador do conto e do canto popular, ofere�o mais estas flores colhidas do jardim da tradi�‹oÓ.

            Explicita a rela�‹o entre Br‡ulio do Nascimento e Marco HaurŽlio, alŽm da dedicat—ria feita no pref‡cio ÒO conto popular no sŽculo XXIÓ por HaurŽlio (2011), o fato de ambos os folcloristas brasileiros terem classificados seus contos populares com base no cat‡logo ATU, sistema de classifica�‹o internacional ampliado em 2004, o que nos mostra a influ�ncia do primeiro sobre o trabalho do segundo folclorista, pois Br‡ulio do Nascimento foi o primeiro estudioso de folclore a utilizar esse sistema no Brasil na vers‹o mais atualizada em sua colet‰nea de 2005, Cat‡logo do conto popular brasileiro. Igualmente fez Marco HaurŽlio em sua colet‰nea Contos e f‡bulas do Brasil, ao inserir na parte final de seu livro a se�‹o ÒClassifica�‹o e notasÓ[68] feita por Paulo Correia.

 

 

O frescor das hist—rias napolitanas no Nordeste brasileiro

 

            De acordo com HaurŽlio (2018), algumas narrativas registradas no folclore brasileiro exalam o mesmo frescor das hist—rias napolitanas, unidas pela origem comum e pela exuber‰ncia de tipos e motivos. Verificaremos, ent‹o, em que medida as hist—rias contadas oralmente no Nordeste brasileiro, mais precisamente o conto ÒAngŽlica mais afortunadaÓ, exalam o frescor das napolitanas recolhidas e recriadas por Basile j‡ no sŽculo XVII, por exemplo ÒO cadeadoÓ. Nesse sentido, utilizamos a express‹o Òrecriada por BasileÓ, dado o estudo realizado em 2018, no qual analisamos o conto napolitano, de Basile, como uma recria�‹o intertextual do mito ÒCupido e Psiqu�Ó. Contudo, uma vez que este conto napolitano foi ouvido e coligido na Bahia por Marco HaurŽlio no sŽculo XXI, acreditamos que n‹o se possa excluir a possibilidade de o escritor napolitano ter ouvido e recolhido essa narrativa j‡ na forma de conto de fadas, tendo em vista as inœmeras andan�as t’picas desse g�nero pela tradi�‹o oral.

            Mas antes de analisarmos os contos em quest‹o, passamos ˆ s’ntese de seus enredos. No conto napolitano ÒO cadeadoÓ, Ž narrada a hist—ria de Luciella que vai buscar ‡gua numa fonte e encontra um escravo que a leva a um bel’ssimo pal‡cio, onde ela Ž tratada como rainha e dorme todas as noites com um pr’ncipe encantado que a aconselha a n‹o ver o rosto dele. Aconselhada pelas irm‹s invejosas a ver com quem dormia, Luciella descobre que dorme com um bel’ssimo jovem e Ž expulsa por ele. Depois de tanto perambular gr‡vida por alguns meses, Luciella Ž acolhida por uma donzela no pal‡cio da m‹e do pr’ncipe encantado, onde Luciella tem um filho, e depois de quebrada a maldi�‹o, que afastava o pr’ncipe encantado de seu filho recŽm-nascido e de Luciella, eles fazem as pazes e se casam. J‡ o conto baiano ÒAngŽlica mais afortunada (O pr’ncipe Teiœ)Ó conta a hist—ria de AngŽlica que, pela m‡ sorte de seu pai ca�ador, que havia prometido ao Teiœ como recompensa do alimento que lhe deu a primeira coisa que o pr’ncipe avistasse no quintal, pensando na cadelinha que tinha, Ž levada para morar num buraco com o pr’ncipe Teiœ e proibida por ele de ver seu rosto. Por sentir saudades de sua fam’lia, AngŽlica visita suas irm‹s mais velhas e seu pai, o qual lhe d‡ uma vela e um f—sforo e a incita descobrir com quem dorme todas as noites. Ao iluminar seu leito ˆ noite, AngŽlica avista o bel’ssimo pr’ncipe com quem dorme e Ž expulsa por ele. Depois de tanto caminhar Òde buchoÓ, utilizando a express‹o do narrador, AngŽlica Ž acolhida por uma velha que a ajuda por recomenda�‹o do rei daquela cidade. Na morada da velha, AngŽlica e seu filho recŽm-nascido recebem durante tr�s noites a visita do pr’ncipe Teiœ que est‡ preso a uma maldi�‹o. Na terceira noite, a maldi�‹o se rompe e eles finalmente ficam juntos. Em seguida, o rei e a rainha, pais do pr’ncipe Teiœ, buscam seu filho e a fam’lia dele, terminando, assim, o conto.

            A primeira converg�ncia entre os contos maravilhosos napolitano e baiano diz respeito ˆ mulher ser a contadora de hist—rias, figura que se liga ˆ tradi�‹o oral, segundo C‰mara Cascudo (2004, p. 19-20), citando Paul Sebillot:

Paul Sebillot mostra que a mulher Ž a melhor contadeira de hist—rias que o homem. Guarda em maior quantidade porque lhe cumpre o agasalho dos filhos e a tarefa de adormec�-los, entretendo-os com o maravilhoso. Os irm‹os Grimm fizeram sua cole�‹o admir‡vel ouvindo as velhas, as ÒtiasÓ da tradi�‹o oral portuguesa, as b‡s, e m‹es-pretas no Brasil.

            Dando continuidade ˆ tradi�‹o de ser Òa melhor contadeira de hist—riasÓ, a contadora de quem o folclorista Marco HaurŽlio ouviu o conto maravilhoso baiano ÒAngŽlica mais afortunadaÓ Ž uma mulher chamada Lucidalva Pereira dos Salvos na cidade de Igapor‹, conforme a anota�‹o depois do conto. Igualmente Ž o conto maravilhoso ÒO cadeadoÓ, de Basile, visto que Ž narrado por uma velha-personagem narradora chamada Ciommetella, anunciada no fragmento da narrativa-moldura que enquadra o conto:

Casou grande compaix‹o no cora�‹o de todos as desgra�as passadas pela pobre Lisa, e mais de quatro estavam com os olhos vermelhos e l‡grimas nos cantos, pois n‹o h‡ nada que mais desperte piedade do que ver alguŽm sofrer inocentemente; mas tocando Ciommetella desenrolar o carretel, assim disse [...] (BASILE, 2018, p. 229, grifo nosso).

            Na obra de Basile, Ž muito comum, ao nos referirmos ˆs contadoras de hist—rias, a express‹o Òvelha personagem-narradoraÓ, visto que, alŽm de exercer a fun�‹o de narradora do conto que se prop›e a narrar, a velha Ž personagem da narrativa-moldura, porque ela foi convidada pelo pr’ncipe Taddeo e sua esposa impostora para narrar contos maravilhosos e entret�-los durante o dia entre banquetes e jogos, disso decorre o fato dos cunti de Basile serem narrados durante o dia, escolha que contraria ˆquela tradi�‹o apontada em outras cole�›es europeias, por exemplo a do italiano Straparola que procedeu Basile na literatura italiana: Le piacevolli notti. Outro aspecto que diferencia a obra de Basile da colet‰nea brasileira, escrita por Marco HaurŽlio, reside no fato de que a velha contadora, no caso em nœmero de dez em O conto dos contos, ser identificada por um defeito f’sico que se revela no nome dela, no caso, a velha personagem-narrradora do conto ÒO cadeadoÓ Ž Ciommetella tinhosa, anunciado na introdu�‹o da obra italiana, junto aos nomes das noves personagens-narradoras da obra.

            Uma poss’vel explica�‹o para esses ep’tetos presentes nos nomes das contadoras, em que se evidencia o disforme, reside no gosto pelo grotesco pr—prio do Barroco, corrente liter‡ria em voga no sŽculo XVII que privilegia o bizarro, na qual se filiava o escritor napolitano. Observa�‹o semelhante ˆ nossa t�m as pesquisadoras Bonetto e Reis (2018), segundo as quais essa marca do grotesco barroco presente nos nomes das dez velhas-personagens narradoras de Basile Ž um procedimento utilizado para obter o efeito par—dico com o Decamerone, de Boccaccio, ao rebaixar a classe social de abastada para pobre e transformar as dez narradoras de jovens com bons costumes para velhas fofoqueiras com distor�›es f’sicas.

            A velha personagem-narrradora Ciommetella tinhosa, ao contr‡rio das outras nove contadoras, n‹o parece ter no ep’teto que a identifica uma indica�‹o de alguma distor�‹o f’sica, dada a primeira acep�‹o deste adjetivo em portugu�s, que, segundo o Dicion‡rio Michaelis online, significa teimosa. A segunda acep�‹o para a palavra ÒtinhosaÓ Ž repugnante ou que causa nojo, significado figurado que ao nosso ver parece estar mais ligado ao universo das distor�›es f’sicas e ao efeito do grotesco, j‡ que o barroco privilegia o repugnante.

Embora tais associa�›es com os significados da l’ngua portuguesa sejam pertinentes, para analisar o adjetivo ÒtinhosaÓ, que no caso desqualifica o nome Ciommetella, temos que averiguar o sentido da mesma palavra em l’ngua italiana, para isso, recorremos ˆ edi�‹o bil’ngue (napolitano e italiano) da obra de Basile, traduzida pelo estudioso italiano Michele Rak, que manteve o t’tulo original da obra, Lo cunto de li cunti, assim como o tradutor Francisco Degani, que traduziu a obra integral de Basile diretamente do napolitano para o portugu�s brasileiro em 2018, preservando o t’tulo original, O conto dos contos, e dando a conhecer os contos de Basile em nosso pa’s, pois, caso quisŽssemos ler Basile em l’ngua portuguesa, t’nhamos que recorrer a tradu�›es esparsas.

Na edi�‹o bil’ngue traduzida por Rak (BASILE, 2013), a velha personagem narradora Ž chamada de Ciommetella tignosa. No interior do adjetivo ÒtignosaÓ em italiano est‡ a palavra ÒtignaÓ, que ÒŽ uma doen�a na pele que leva ˆ queda dos cabelos [...]Ó (tradu�‹o nossa do original Òla tigna � una malattia cut‰nea che porta alla caduta dei capelli [...]Ó (PICONE, 2004, p. 113). AlŽm de nos informar um significado preciso para a palavra ÒtignaÓ, o pesquisador italiano Michelangelo Picone nos oferece uma pista de an‡lise para esse ep’teto, ao se questionar se essa doen�a deseja aludir ˆ capacidade desta narradora de revelar com os seus contos a verdade das coisas. A resposta Ž logo nos dada por ele, que afirma Òser‡ a pr—pria Ciommetella com o seu œltimo conto, que Ž tambŽm o conto conclusivo da colet‰nea (se exclui-se aquele principal de Zoza), a desmascarar a artimanha da escravaÓ[69] (PICONE, 2004, p. 114).

De fato, essa capacidade de Ciommetella ligada ˆ doen�a ÒtignaÓ Ž verificada na fala desta velha personagem-narradora no fragmento que enquadra o conto ÒO cadeadoÓ, depois que a velha narradora anterior lhe cedeu ˆ voz:

Os conselhos da inveja sempre foram pais das desgra�as, por que debaixo da m‡scara do bem encerram a face da ru’na, e a pessoa que tem nas m‹os os cabelos da fortuna deve imaginar ter a todo momento cem pessoas que estendam cordas diante de seus pŽs para faz�-las levar um tombo, como aconteceu a uma pobre mo�a que, pelo mau conselho das irm‹s, caiu da escada da felicidade, e foi miseric—rdia do cŽu que n‹o quebrasse o pesco�o (BASILE, 2018, p. 229).

Nesse fragmento, que se refere ˆ fala de Ciommetella tinhosa (tignosa), o conto ÒO cadeadoÓ tambŽm revelar‡ a verdade dos fatos, verdade que consiste em desmascarar a face das irm‹s invejosas da protagonista, as quais d‹o conselhos ˆ irm‹ mais jovem, provavelmente ˆ protagonista Luciella, como atitude de benevol�ncia para prejudic‡-la ou para Òfaz�-la levar um tomboÓ. Concordamos, portanto, com a an‡lise de Picone (2004) sobre Ciommetella ser uma velha personagem-narradora cuja doen�a f’sica tigna, que causa a queda de cabelos, alude ˆ atitude de revelar a verdade ou de desmascarar as personagens invejosas, pensando nas irm‹s de Luciella, e impostoras, pensando na escrava que tomou o lugar da princesa Zoza.

            AlŽm de antecipar o fato que Luciella ser‡ prejudicada por suas irm‹s mais velhas, a fala da narradora Ciommetella tambŽm anuncia o tema do conto maravilhoso a ser narrado por ela, o da inveja. Recuperando este mesmo tema, como uma espŽcie de arremate ao conto, Basile (2018, p. 232) o insere tambŽm no desfecho, mas na forma proverbial: Òfruto da inveja Ž o mal de est™magoÓ. Nesse aspecto, devemos explicar que Ž pr—prio do estilo liter‡rio de Basile, da interven�‹o art’stica do escritor, os contos serem encerrados por um provŽrbio de origem napolitana, elemento que tambŽm se liga ˆ tradi�‹o oral, assim como o fato de as narradoras serem mulheres, justamente por remeter ˆ sabedoria popular, pois, de acordo com o Benjamin (2015), era muito comum o contador de hist—rias tradicional utilizar provŽrbios como uma forma de conselho de utilidade pr‡tica aos seus ouvintes.

            Refor�a essa ideia de conselho na forma proverbial o significado da express‹o ÒO fruto da inveja Ž o mal de est™magoÓ em l’ngua portuguesa ou Òfiglio de laÕmidia � lÕantecoreÓ (BASILE, 2013, p. 416) em dialeto napolitano, pois, conforme a plataforma italiana Corpo di Napoli, que explica os provŽrbios napolitanos da obra de Basile, o mal-estar Òque prende o est™mago; tem o mesmo efeito da n‡usea, que permanece e nunca passa. ƒ a sensa�‹o de quem rumina inveja e de quem Ž pago assim com a mesma moedaÓ[70]. A partir de tal explica�‹o, podemos entender que fazer mal a alguŽm, por inveja, Ž prejudicar a si pr—prio. Esse significado Ž comprovado pelo desfecho do conto de Basile, no qual as irm‹s mais velhas e invejosas s‹o punidas. Diante disso, compreendemos que o provŽrbio napolitano, elemento frasal que nos sugere por meton’mia a voz do contador de hist—rias no conto ÒO cadeadoÓ, aconselha o ouvinte a n‹o se deixar ser conduzido pela inveja, sentimento que pode ser entendido como uma doen�a, porque s— provoca dor e sofrimento por quem o sente.

            AlŽm de remeter a uma forma de sabedoria popular e coletiva, dada a experi�ncia comunit‡ria em que estava inserido o contador de hist—rias tradicional, o elemento proverbial na obra napolitana pode ser associado a uma f—rmula de transmiss‹o oral, pois, segundo Cascudo (1984), uma marca da oralidade, comumente utilizada pelos folcloristas, Ž as repetidas formas de come�ar e terminar uma hist—ria, que podem ser semelhantes ou dessemelhantes em culturas diferentes. Quanto ˆs formulas finais, Cascudo (1984, p. 230) afirma: ÒPara findar as f—rmulas s‹o v‡rias e raro ser‡ o narrador que as esque�a. Pode aparecer mesmo um retoque pessoal sugestivo. ƒ o requinte da tŽcnica o saber Ôfechar bemÕ uma est—riaÓ. Fundamentando-nos no te—rico, compreendemos que Basile, ao utilizar o provŽrbio napolitano para Òfechar bemÓ seus cunti, quer explicitar tanto seu requinte como escritor e sua cultura de origem, a napolitana, quanto chamar a aten�‹o do seu ouvinte, no caso do leitor, aconselhando-o sobre sentimentos coletivos, o da inveja.

            De forma contr‡ria, o conto brasileiro ÒAngŽlica mais afortunadaÓ n‹o apresenta uma f—rmula final, como podemos notar pelo desfecho: ÒDessa forma, o encanto foi quebrado. Passados uns dias, o rei e a rainha foram ˆ casa da velha buscar o filho, a nora e o neto para viver com eles no casteloÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 66). Nessa parte final do conto baiano, percebemos, assim como na vers‹o napolitana, portanto, uma converg�ncia, a restaura�‹o da situa�‹o de tranquilidade e a uni‹o dos amantes que foram antes separados pela a�‹o dos personagens, no caso, o pai de AngŽlica no conto baiano, e as irm‹s invejosas de Luciella no conto napolitano. No entanto, n‹o Ž porque a vers‹o baiana n‹o apresente uma f—rmula final que ela n‹o preserva tra�os da oralidade. Em vez disso, acreditamos que a aus�ncia da f—rmula final no conto baiano comprova justamente as andan�as desta narrativa pelo territ—rio do maravilhoso, pois ˆ medida que o conto maravilhoso napolitano foi emigrando no tempo e geograficamente, Ž poss’vel que ele tenha perdido algumas marcas da oralidade, como a f—rmula final proverbial, e incorporado outras locais, da cultura brasileira nordestina, como veremos mais adiante.

AlŽm do provŽrbio, outro elemento lingu’stico ligado ˆ transmiss‹o oral, que comprova a import‰ncia e a valoriza�‹o do material folcl—rico coligido por Basile no sŽculo XVII e por Marco HaurŽlio no sŽculo XXI, Ž a presen�a da cantiga cantada na voz do pr’ncipe encantado, na vers‹o napolitana, e na voz do Teiœ, na vers‹o baiana, cuja letra revela a maldi�‹o sob a qual os noivos estavam presos e impedidos de visitarem sua fam’lia, formada pelas protagonistas (AngŽlica e Luciella) e seus filhos recŽm-nascidos. Nesse sentido, a cantiga pode ser interpretada como um elemento que resgata a matŽria folcl—rica nos dois contos maravilhosos, pois, para C‰mara Cascudo citado por ClŽria Botelho da Costa, esse material constitui, assim como o provŽrbio, o imagin‡rio popular de uma sociedade. Por sua natureza folcl—rica, esse material n‹o traz explicitamente nem a marca do tempo nem o espa�o onde foi criada. Trata-se de uma produ�‹o an™nima, que n‹o permite a identifica�‹o do autor (COSTA, 2013).

            Ainda que n‹o seja poss’vel a identifica�‹o de seu criador, colocamos a seguir as cantigas nas vers›es do conto napolitano, ˆ esquerda, e baiano, ˆ direita, para efeito de cotejo entre suas adapta�›es socioculturais:

ÒO cadeadoÓ

 

ÒOh, belo filho meu,

se minha m‹e soubesse,

em bacia de ouro o lavaria,

com faixas de ouro enfaixaria,

e se o galo nunca cantasse,

nunca de voc�s me separariaÓ

(BASILE, 2018, p. 231, grifos nossos).

ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó

 

Ò- Meu filho, se papai e mam‹e soubera filho de quem tu era, te lavava em bacia de prata e te enxugava em toalha com fios de ouro. Se o galo n‹o cantasse, jegue n‹o urrasse, o sino n‹o tocava, contigo eu amanhecera o diaÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 65, grifos nossos)

 

 

            Como podemos notar pelas palavras em destaque, h‡ sutis diferen�as entre as cantigas napolitana, de Basile, e baiana, de HaurŽlio. Mas antes de nos atermos a essas minœcias, Ž evidente que elas denunciam o mesmo conteœdo na fala dos noivos de Luciella e AngŽlica: a maldi�‹o que os impedia de se aproximarem de seus filhos recŽm-nascidos, vinculada ao amanhecer do dia, representado em ambas as cantigas pelo canto do galo. Trata-se de uma converg�ncia menos evidente estabelecida com o pr—prio mito, ao qual se associam ambas as narrativas maravilhosas, pois, assim que o dia amanhecia, Cupido desaparecia do leito de Psiqu�, retornando, somente, no ambiente noturno, assim como os noivos de Luciella e AngŽlica, tanto que Bettelheim (2002) fala em vidas diurna e noturna de Psiqu�, ao se referir ao mito: a diurna tediosa, por ficar sozinha, e a noturna prazerosa, por estar com Cupido.

            O canto do galo, presente nas duas cantigas, alŽm de pass’vel de ser lido como uma alus‹o ao mito de Cupido e Psiqu�, pode ser interpretado como uma supersti�‹o popular, pois, segundo Braga (1986), o canto do galo Ž uma cren�a cujo poder Ž afastar os dem™nios e fazer sugir a aurora. Por essa raz‹o, o canto Ž celebrado nos hinos e ora�›es da Igreja, sobretudo na tradi�‹o do povo portugu�s. Essa supersti�‹o popular do canto do galo est‡ presente nos contos napolitano e baiano, porque neles a manifesta�‹o dos dem™nios ocorre no per’odo noturno por meio da maldi�‹o, elemento m‡gico que auxilia os pr’ncipes encantados a visitarem suas fam’lias durante ˆ noite, tanto que, assim que o galo canta ou o dia amanhece, os pr’ncipes encantados s‹o afastados do seio familiar. Justamente por promover o afastamento das figuras paternas, acreditamos que o canto do galo, em ambas as cantigas, sofreu uma invers‹o de sentido: a noite, por aux’lio da maldi�‹o, tem uma acep�‹o positiva, por aproximar os pr’ncipes de sua fam’lia, e o dia, anunciado pelo canto do galo, tem uma acep�‹o negativa, por afastar os pr’ncipes de seus entes. Trata-se de um efeito paradoxal atribu’do ao canto do galo, pois nos contos de fadas a maldi�‹o Ž comumente associada a algo que pode trazer malef’cios para suas v’timas. Essa acep�‹o negativa para o canto do galo nos dois contos Ž reverberada pelo tom de lamenta�‹o das cantigas, que constituem as falas dos pr’ncipes.

            V‡rios elementos que encontramos em ambas as cantigas, como a visita noturna, a m‹e e filho recŽm-nascido e o canto do galo, est‹o presentes tambŽm no epis—dio do nascimento de Jesus e da visita dos tr�s reis magos. Este epis—dio Ž cantado pela can�‹o de Reis[71], intitulada ÒSauda�‹o da LapinhaÓ, pelos seguintes versos:

8. E os reis, mas quando eram santo, No caminho se encaminharam. Viagem de fazer um ano, Em onze dias chegaram/. 9. Na chegada l‡ da lapinha, Todo mundo j‡ dormia. Nossa Senhora com seu manto, A Jesus ela cobria/10. Na chegada l‡ da lapinha, O porteiro recebeu-se. Bateu asa e canta o galo, Menino Jesus nasceu[72].

            A partir desses versos, podemos aproximar as cantigas de ambos os contos e can�‹o da Lapinha pela seguinte disposi�‹o: o pr’ncipes encantados nas cantigas est‹o para os reis magos na can�‹o de Reis, j‡ que eles fazem a visita noturna; Luciella e seu filho recŽm-nascido est‹o para Nossa senhora e o menino Jesus; as faixas de ouro/toalhas de ouro est‹o pelo manto, e canto do galo Ž a intersec�‹o maior que une as cantigas e can�‹o, representando o nascimento do dia e o fim da maldi�‹o na cantiga e o nascimento do dia e do menino Jesus na can�‹o de Reis, da’ o canto do galo ser celebrado nos hinos e ora�›es da Igreja cat—lica. Diante de tal leitura, pela simples proximidade entre esses elementos, tanto das cantigas quanto da can�‹o de Reis, j‡ seria suficiente para falar da incorpora�‹o do conto popular n‹o s— por elementos locais, j‡ que a tradi�‹o da Folia de Reis Ž muito celebrada no interior de v‡rias regi›es brasileiras, mas principalmente por elementos que aludem a outras mitologias, no caso, ˆ mitologia crist‹, da qual faz parte a narrativa do nascimento de Jesus, ainda que os contos napolitano e baiano tenham sido origin‡rios do mito greco-romano de Eros/Cupido e Psiqu�.

Explicada as converg�ncias entre os contos napolitano e baiano e os contos e os mitos greco-romano e crist‹o respectivamente, passamos a examinar as minœcias que evidenciam os distanciamentos: nos versos da cantiga napolitana, percebemos elementos mais nobres nos objetos Òbacia de ouroÓ e Òfaixas de ouroÓ, enquanto na cantiga baiana, os mesmos elementos foram trocados por Òbacia de prata e Òtoalhas com fios de ouroÓ. Em raz‹o da prata ser um elemento menos nobre que o ouro e provavelmente a tolha ser um tecido de qualidade inferior ao da faixa, uma poss’vel motiva�‹o para essa desqualifica�‹o dos materiais elencados seja o fato de o pal‡cio do rei, pai do pr’ncipe Teiœ, ser menos nobre na vers‹o baiana, dada a diferen�a de sŽculos entre os contos. Tais diverg�ncias, embora relevantes, s‹o sutis entre as cantigas, pois a que mais salta aos nossos olhos Ž a men�‹o ao jegue e ao sino na vers‹o baiana, este œltimo pode estar associado ao canto do galo, dada a supersti�‹o desse canto celebrado na tradi�‹o crist‹.

Ao nosso olhar comparativo, a men�‹o ao jegue na vers‹o baiana Ž uma refer�ncia relevante para o contexto sociocultural do conto baiano, pois o jegue Ž um animal muito recorrente na representa�‹o da paisagem e da vida cultural nordestina, tanto que existe, na Bahia, mais precisamente na cidade de Uau‡ do estado, uma tradi�‹o chamada ÒjecanaÓ, como evidencia Albuquerque (2014, p. 175): ÒNo dia do vaqueiro tambŽm ocorre a ÔJecanaÕ que Ž o desfile de homens, mulheres, adultos e crian�as, montadas em jegues, e esta j‡ est‡ em sua 11» edi�‹o com o objetivo de destacar a import‰ncia do animal, t‹o comum no Nordeste do BrasilÓ. Ainda que o conto baiano aqui cotejado tenha sido recolhido na cidade de Igapor‹, tambŽm do estado da Bahia, aproveitamos a refer�ncia cultural ˆ tradi�‹o da jecana na cidade de Uau‡, porque, segundo a pesquisadora, a cidade de Uau‡ Ž uma refer�ncia aos sert›es da Bahia, por ser um mun’cipio que ainda preserva as mais genu’nas express›es e manifesta�›es da cultura popular, constituindo, assim, o celeiro de cantadores, poetas populares, repentistas, sanfoneiros, aboiadores, zabumbeiros etc.

Apesar de o jegue no conto baiano ser uma refer�ncia que nos sugere a adapta�‹o da narrativa ˆ cor local, o sert‹o baiano do Nordeste, o elemento que revela maior expressividade da cultura nordestina no conto de Marco HaurŽlio j‡ est‡ contido no pr—prio t’tulo da narrativa: ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, visto que o lagarto teiœ Ž um noivo-animal recorrente nas hist—rias populares brasileiras que originaram do mito Cupido e Psiqu�, conforme Doralice Fernandes Xavier Alcoforado: ÒNas vers›es brasileiras, o noivo metamorfoseado pode vir na apar�ncia de fera, lagart‹o, teiœ, veado, porco, le‹o, drag‹o, sapo, boi, camale‹o, burro, urubu, cobra, lagartixa, papagaio, pombo, peixe ou mesmo beija-florÓ (ALCOFORADO, 2000, p. 42).

O argumento para a substitui�‹o do pr’ncipe encantado da narrativa napolitana, descrito como monstro pelas irm‹s de Luciella, disso ele ser considerado tambŽm Ònoivo-animalÓ, pelo pr’ncipe Teiœ da narrativa baiana, pode ser tirado com base em Alcoforado (2007) que afirma ter encontrado, em sua pesquisa de campo, recolhendo hist—rias populares do mito de Apuleio no estado da Bahia, tr�s contos com elementos tem‡tico-estruturais que os integram ao tipo 2: ÒO Peixe DouradoÓ (v. 1), ÒA Hist—ria do TeiœÓ (v. 2) e ÒO P‡ssaro AssuÓ (v. 3). O tipo 2 apresenta contos que se articulam a partir de uma car�ncia de pesca ou de ca�a que afeta a vida do chefe de fam’lia, porque ca�ar ou pescar Ž a sua profiss‹o. Essa car�ncia, entretanto, pode ser superada caso o chefe aceite a oferta de abund‰ncia de alimentos proposta por um ser encantado, em troca da primeira coisa a ser vista no retorno ˆ casa. No costume de ver sempre a cachorrinha, o progenitor aceita a proposta. Contudo, ao chegar em casa, Ž a pr—pria filha ou o filho que o ser encantado avista. O pretendente n‹o Ž propriamente um monstro, na acep�‹o que Ž dada ao termo, porŽm animal mais ou menos familiar, um peixe ou um teiœ, que deseja casar-se com a mo�a, ou a M‹e dÕçgua que deseja casar o rapaz com a sua filha (ALCOFORADO, 2007).

Assim como nos tr�s contos coletados por Alcoforado[73] (2007), no conto baiano, recolhido por HaurŽlio (2011), o pai de AngŽlica, chefe da fam’lia, tambŽm desempenhava o papel de ca�ador, que, ali‡s, n‹o lhe rendia alimento:

Houve, h‡ muito tempo, um ca�ador muito pobre que era viœvo e morava com suas tr�s filhas numa casinha da mata. Um dia, ele n‹o estava tendo sorte na ca�ada. J‡ era tarde e o homem n‹o tinha conseguido nada para a ceia. Muito triste, sentou-se numa pedra e come�ou a maldizer sua sorte. Nisso chega um teiœ e pergunta para o velho [...] (HAURƒLIO, 2011, p. 64).

            A partir deste trecho, analisamos que a escolha pelo teiœ como noivo-animal no conto baiano justifica-se n‹o somente por ser um animal associado ˆ pesca e, portanto, um alimento que pode compensar a situa�‹o de car�ncia do chefe da fam’lia, que exerce a fun�‹o social de ca�ador, mas tambŽm por demonstrar a capacidade do conto de se adaptar ao universo cultural do contador, no caso do sert‹o baiano da regi‹o nordeste, o que explicita, sobretudo, o car‡ter etnogr‡fico do texto oral que percorre pelo territ—rio do maravilhoso, acomodando-se ˆs mais diversas localidades geogr‡ficas.

 

 

Considera�›es finais

Ao recolher o conto maravilhoso baiano da tradi�‹o oral, ÒAngŽlica mais afortunada (o pr’ncipe Teiœ)Ó, que evidencia uma rela�‹o intertextual com o conto napolitano ÒO cadeadoÓ, recriado por Giambattista Basile com base no mito de Cupido e Psiqu� ou talvez recolhido j‡ na forma de conto maravilhoso no sŽculo XVII pelo escritor napolitano em sua obra-prima Lo cunto de li cunti (O conto dos contos), o poeta, escritor e folclorista baiano Marco HaurŽlio dialoga com a tradi�‹o na qual se insere o escritor Basile. A tradi�‹o oral se manifesta, na obra de ambos os escritores compiladores, por elementos comuns, como a contadora de hist—ria, a cantiga e a supersti�‹o popular do canto do galo, e distintos, presen�a e aus�ncia de f—rmulas finais, mas ambos recursos evidenciam o contexto sociocultural de produ�‹o de suas respectivas obras, haja vista a refer�ncia tanto ao jegue quanto ao lagarto Teiœ no conto baiano coletado por HaurŽlio (2011) na cidade de Igapor‹, e a cultura napolitana e as deforma�›es f’sicas pr—prias do Barroco no conto napolitano recriado ou possivelmente recolhido por Basile.

AlŽm da voz do escritor napolitano na colet‰nea Conto e f‡bulas do Brasil, ecoam outras vozes da tradi�‹o, porŽm de folcloristas brasileiros: Br‡ulio do Nascimento, para quem HaurŽlio (2011) dedica sua colet‰nea Contos e f‡bulas do Brasil, e com quem compartilha o uso do ’ndice internacional ATU de classifica�‹o dos contos, j‡ adotado por Br‡ulio do Nascimento em seu Cat‡logo do conto popular brasileiro, de 2005; e Doralice Alcoforado, cujos trabalhos pioneiros no Brasil desde a dŽcada de 90 revelam a presen�a do mito de Cupido e Pisqu� no imagin‡rio baiano, dado o t’tulo de sua antologia Belas e Feras baianas: um estudo do conto popular e as reflex›es te—rico-cr’ticas da pesquisadora que mostram o teiœ como o noivo-animal recorrente no contexto cultural do sert‹o do Nordeste brasileiro.

No movimento anal’tico, embora tenhamos identificado resson‰ncia dessas vozes da tradi�‹o no conto baiano e na obra de que faz parte, n‹o podemos deixar de mencionar a importante reflex‹o que HaurŽlio (2011) faz no pref‡cio de seu livro: o car‡ter coletivo de qualquer colet‰nea de contos tradicionais em qualquer Žpoca, pois, sempre que uma antologia de contos tradicionais Ž publicada na aurora dos tempos, ela resgata consigo, por um lado, autores an™nimos que elaboram e reelaboraram tais hist—rias e, por outro, contadores de hist—rias, que desempenham o papel de retransmissores atuais, como as contadoras, de quem HaurŽlio ouviu e recolheu o conto baiano e por meio de quem Basile ouviu e narrou o conto napolitano selecionados para este artigo.

 

 

Refer�ncias

 

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SPERBER, S. F. Fic�‹o e Raz‹o: uma retomada das formas simples. S‹o Paulo: Aderaldo & Rothschild: Fapesp, 2009.

 

 

[Recebido: 08 ago 2020  –  Aceito: 24 jan 2021]

 


 

ÒCOLETIVO LUêSA MAHIN - SARAU DAS PRETASÓ: O PROMIC E A PERFORMANCE COMO MOBILIZADOR IDENTITçRIO E FORMATIVO

 

 

ÒCOLETIVO LUêSA MAHIN - SARAU DAS PRETASÓ: PROMIC AND PERFORMANCE AS IDENTITY AND FORMATIVE INSTRUMENT

 

 

Amanda Maria Damasio Teixeira[74]

https://orcid.org/0000-0002-4064-05

 

Ana Cristina Pereira da Silva [75]

https://orcid.org/0000-0003-2924-95

 

Resumo: Utilizando como foco o projeto londrinense ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ, este artigo pretende expor como o PROMIC (Programa Municipal de Incentivo ˆ Cultura) viabiliza performances em torno da literatura, da forma�‹o e de quest›es identit‡rias. Dito isso, utilizaremos como viŽs de an‡lise os textos de Zumthor (2007) e Aguilar e C‰mara (2017), para compreender o papel da voz e da performance, e a teoria dos polissistemas de Even-Zohar (2013), em que discute sobre os polissistemas liter‡rios e suas periferias. TambŽm ser‹o utilizadas transcri�›es de entrevistas com duas produtoras culturais encarregadas do projeto. Levando em conta o artigo de Mariano (2019), em que pressup›e-se uma intersec�‹o entre os polissistemas perifŽricos de Even-Zohar e a literatura afro-brasileira, foi poss’vel concluir que o PROMIC mobilizou a�›es mœltiplas (em espa�os privilegiados ou n‹o, utilizando como base o texto escrito ou saberes orais) que contribuem para maior �nfase ˆ mulher negra e de narrativas afro-brasileiras silenciadas por uma quest‹o racial e perifŽrica, contribuindo, ent‹o, para a oxigena�‹o do c‰none.

Palavras-chave: Sarau. Pol’ticas pœblicas. Literatura afro-brasileira.

 

Abstract: Using as a focus point the project ÒColetivo Lu’sa Mahin - Sarau das PretasÓ, based in Londrina, this article aims to show how PROMIC (a municipal cultural program) enables performances around literature, learning and identity matters. That said, the following authors were used as analisis bias: Zumthor (2007) and C‰mara (2017) (to comprehend the role of voice and performance) and the Even-ZoharÕs polysystem theory (2013), work in which he discusses literary polysystems and its peripheries. Transcribed interviews with the two cultural producers behind the project will be presented also. Taking into account MarianoÕs article (2019), in which one could presuppose an intersection between the Even ZoharÕs peripheral polysystems and afro-brazilian literature, was possible to conclude that PROMIC made actions viable (in multiple places and via written text or oral knowledge), giving more emphasis to black women and afro-brazilian narratives that were silenced by a racial and peripheral issue, contributing, finally, to a more balanced canon.

Keywords: Soiree. Public Policy. Afro-brazilian literature.

 

 

 

 

Introdu�‹o

 

Atualmente, os impactos das pol’ticas pœblicas de cultura s‹o colocados em discuss‹o, s‹o questionados. Em Londrina, o PROMIC (Programa Municipal de Incentivo ˆ Cultura) viabiliza a execu�‹o de inœmeros projetos a partir de renœncia fiscal. Um dos projetos contemplados, categorizado na ‡rea destinada ˆ Literatura, Ž o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ, originalmente criado em 2015 para financiar a ida de um grupo de mulheres negras londrinenses para Bras’lia, onde participaram da 1» Marcha Nacional das Mulheres Negras. Esse acontecimento fez com que as pessoas envolvidas formassem o Coletivo de Mulheres Negras Lu’sa Mahin, respons‡vel pelo Sarau e por outros eventos formativos em que quest›es identit‡rias e relacionadas ˆ literatura afro-brasileira s‹o colocadas em discuss‹o. Segundo Fiama Helo’sa[76], uma das produtoras do evento, os objetivos s‹o:

 

trabalhar a cultura afro-brasileira nas escolas e demais espa�os educativos, abordando a import‰ncia da compreens‹o da identidade negra e os desafios que ela enfrenta na sociedade brasileira a partir de diferentes formas (literatura, teatro, conta�‹o de hist—rias, palestras, roda de conversa) e tambŽm marcar a cena cultural londrinense com um espa�o dedicado ˆ cultura negra (ˆ exalta�‹o das nossas ra’zes africanas) e ao fortalecimento da nossa comunidade por meio de um Sarau.

 

Assim, fica claro que o Sarau Ž um dos espa�os de fortalecimento da cultura negra local, que tem como atividade principal as performances que nele acontecem, mas que n‹o se restringe s— a isso.

O sarau tambŽm Ž um dos espa�os de discuss‹o e de abertura para di‡logo acerca da identidade afro-brasileira. Dessa forma, busca-se entender de que forma o PROMIC auxilia na realiza�‹o desses objetivos? De que forma a voz e a performance contribuem ou n‹o para o fortalecimento de uma identidade londrinense e para o protagonismo da mulher negra?

 

 

Pol’tica pœblica, polissistema e performance: uma quest‹o de car‡ter social

 

            Um dos te—ricos que utilizaremos neste trabalho Ž Itamar Even-Zohar. Sua pesquisa em rela�‹o ao polissistema liter‡rio, express‹o cunhada pelo autor, discute o c‰none liter‡rio e as rela�›es que o afetam, dando �nfase ao seu car‡ter social. Sua proposta parte do reconhecimento de que a heterogeneidade da cultura Ž ampla e se forma a partir de movimenta�›es centr’petas e centr’fugas, em que a periferia e o centro da recep�‹o liter‡ria se impactam. Sobre isso, Even-Zohar (2013, p. 8) declara:

 

A ideologia de uma cultura oficial como a œnica aceit‡vel em uma dada sociedade tem como consequ�ncia uma massiva compuls‹o cultural que afeta a na�›es inteiras mediante um sistema educativo centralizado e que torna imposs’vel, inclusive a estudiosos da cultura, observar e valorar o papel das tens›es din‰micas que operam no seio da cultura para sua efetiva manuten�‹o. Como um sistema natural que necessita, por exemplo, de regulamenta�‹o tŽrmica, os sistemas culturais necessitam tambŽm de um equil’brio regulador para n‹o entrar em colapso ou desaparecer.

 

Ent‹o, de acordo com a configura�‹o expressa por Even-Zohar, Ž poss’vel pensar em um repert—rio brasileiro (e mœltiplo, claro), em que essa centraliza�‹o (intrinsecamente relacionada ao social, ou seja, aos indiv’duos detentores do poder) implicaria uma posi�‹o menos prestigiosa ˆ literatura afro-brasileira (que se veria ent‹o ˆs custas de uma elite branca, por exemplo) e de outros nichos ÒperifŽricosÓ, supondo a exist�ncia de um sistema ou um conjunto de elementos afro-brasileiro – hip—tese defendida no artigo de Mariano (2019, p. 10):

 

Dentro da perspectiva brasileira, do sŽculo XIX, qualquer proje�‹o de sistema liter‡rio proveniente das popula�›es negras - e aqui poder’amos pensar em outros recortes identit‡rios de minoria - seria devidamente barrada por um sistema hegem™nico de literatura, muito bem estruturado nos r’gidos moldes de ra�a, classe, g�nero etc.

 

Assim, a literatura afro-brasileira dependeria de interven�›es que se relacionam intimamente com o que Even-Zohar (2013, p. 6) exp›e como Òluta entre v‡rios estratosÓ. Estando o polissistema liter‡rio intr’nseco ao social, o racismo tambŽm o afetaria, minimizando, talvez, seu alcance, visibilidade e recep�‹o daqueles que se identificam como afro-brasileiros. ƒ interessante notar que o Òrepert—rioÓ can™nico Ž definido pelas rela�›es travadas no polissistema, externas a um conjunto de caracter’sticas liter‡rias, como discute Even-Zohar (2013). Embora, como explica o autor, o polissistema pode reorganizar-se sempre a fim de um Òequil’brioÓ. Nesse sentido, o financiamento de projetos como o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ pode auxiliar nessa movimenta�‹o? Quais foram as pessoas beneficiadas durante a realiza�‹o do projeto? De acordo com Poliana Santos[77], uma das organizadoras do Sarau, este foi o trajeto:

 

Quando n—s fomos aprovadas no PROMIC, n—s tivemos a possibilidade de realizar o nosso trabalho na zona rural, fizemos oficinas dentro do Eli Vive, o acampamento do MST, n—s cruzamos a cidade de Londrina de Norte a Sul, de Leste a Oeste, podendo levar o nosso trabalho, com a estrutura de material pedag—gico, material humano, que Ž proporcionado por essas estruturas financeiras, nŽ? Voc� poder contratar oficineiros e oficineiras, comprar material did‡tico, se locomover pra isso... porque as pessoas n‹o se atentam que o movimento social n‹o vive s— de amor, nŽ? O movimento social n‹o vive s— de educa�‹o. Ele precisa de estrutura para ser realizado. E participar de um programa de Bolsa como o PROMIC d‡ a estrutura para que esses trabalhos saiam de determinados nichos, podemos dizer ''privilegiados'', de acesso para ir mesmo para as periferias, para alŽm das fronteiras do urbano... ent‹o, isso Ž muito importante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem 1 – Performance no sarau

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

 

Deve-se ressaltar, ent‹o, a utiliza�‹o da bolsa para o desenvolvimento de uma pedagogia e seus materiais, como tambŽm a contrata�‹o de terceiros e o transporte atŽ os locais selecionados. Ele permite que essa aten�‹o se volte a espa�os desprivilegiados, fazendo com que esses tenham acesso a servi�os que dificilmente chegam atŽ eles. AlŽm disso, h‡ uma mobiliza�‹o local em torno de necessidades culturais que poderiam afetar as periferias e ‡reas rurais da cidade. Houve tambŽm uma movimenta�‹o de aproxima�‹o entre a Academia e espa�os perifŽricos, quando, obtendo maior visibilidade e estrutura por ser justamente aprovado pelo PROMIC, o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ juntou-se a um projeto de extens‹o de Escrita Criativa da Universidade Estadual de Londrina. ƒ interessante notar que no mesmo trecho da fala de Poliana Santos vemos formas diferentes de abordagem em rela�‹o ao protagonismo da mulher negra – utilizando espa�os perifŽricos (terreiros) e privilegiados (academia), como num contexto educativo informal e formal:

 

O Sarau das Pretas, em suma, tem um prop—sito fundamental em trabalhar a quest‹o da forma�‹o, e essa forma�‹o a gente entende como trocas de saberes; dando o protagonismo da mulher, principalmente, da mulher negra. Ent‹o assim, n—s obtivemos, por exemplo, dentro do trabalho do Sarau das Pretas, um encontro dentro de uma casa de axŽ, que Ž o terreiro da m‹e Omin, onde v‡rias mulheres mais velhas trouxeram a sua cultura do benzimento, ent‹o a gente fez essa troca com elas. Elas nos explicaram as quest›es das benzedeiras, os ch‡s, trazendo essa historicidade atravŽs da sua oralidade, ali contando como era quando elas eram crian�as, como se deram essa identidade de se ver como mulheres negras, ent‹o Ž muito pontual para n—s essas viv�ncias. N—s nos organizamos para levar, por exemplo, uma oficina de Escrita Criativa, com o pessoal do professor Fl‡vio Freire da UEL, ao pessoal do Flores do Campo. N—s nos organizamos para, com as crian�as, trazer um material lœdico, mas que fa�a o debate do racismo. Receber essa devolutiva, sabe, nesse processo educacional, Ž, para n—s, o mais importante. Um espa�o de forma�‹o onde a gente consiga resgatar essa historicidade pela quest‹o da mulher negra, pelo olhar da mulher negra, e tambŽm levar um pouco da academia fazendo essa troca.[78]

 

A multiplicidade de eventos realizados pelo ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ permite uma abrang�ncia maior em rela�‹o ˆ discuss‹o em torno da literatura afro-brasileira. Justaposto ˆ teoria dos Polissistemas, Ž poss’vel perceber que o projeto n‹o se limita apenas ao livro, produto final de todo um repert—rio, como dir‡ Even-Zohar (2013, p. 10), mas ˆs tradi�›es orais e ˆ forma�‹o e cria�‹o de novos leitores e produtores culturais (escritores):

 

ƒ dif’cil eliminar imagens respeitadas ao longo do tempo, e parece ÒnaturalÓ, portanto, que produzir e consumir textos tenha sido sempre a atividade mais importante na ÒliteraturaÓ. Em certos per’odos, n‹o obstante, o texto era mais marginal em rela�‹o a outras atividades no sistema liter‡rio, tais como o escritor ou algum Òacontecimento totalÓ sob a forma de atua�›es diversas.

 

As performances, ent‹o, realizadas em variados espa�os culturais da cidade (Usina Cultural, CemitŽrio de Autom—veis e Casa da Vila), alŽm dos outros lugares j‡ citados, demonstram um entendimento total de ÒliteraturaÓ por parte das organizadoras do evento, levando em conta que Even-Zohar compreende que as no�›es de ÒlivroÓ e Òrepert—rioÓ s‹o parciais e n‹o d‹o conta para discutir um polissistema heterog�neo. Dessa forma, Ž capaz de adentrar lugares e alterar, nem que seja por pouco tempo, a hierarquia do espa�o, o direcionamento da aten�‹o – conscientizando aqueles que permitem o racismo estrutural e aquelas que sofrem com este.

Assim, a partir da visibilidade garantida ao ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ, por meio do financiamento do PROMIC, Ž poss’vel inferir que o PROMIC provoca maior oxigena�‹o entre a canonicidade liter‡ria local, permitindo discuss›es que n‹o abrangem apenas o livro ou a leitura em voz alta, mas a valoriza�‹o de tradi�›es e vozes silenciadas por um sistema intr’nseco ao polissistema liter‡rio – o sistema social.

Como relatado por Even-Zohar (2013), existem for�as centr’fugas que podem carregar ou transferir propriedades de polissistemas perifŽricos para o centro – e poder’amos afirmar que o sarau estudado Ž uma dessas for�as, colocando em evid�ncia essa identidade e suas viv�ncias:

 

De modo semelhante, Ž por meio da estrutura polissist�mica das literaturas envolvidas como podemos dar conta dos v‡rios e intrincados processos de interfer�ncia. Por exemplo, ao contr‡rio da cren�a comum, a interfer�ncia tem lugar, frequentemente, por meio das periferias (EVEN-ZOHAR, 2013, p. 18).

 

ƒ interessante relatar, ent‹o, a import‰ncia de projetos de pol’ticas pœblicas como o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ que, por meio da literatura e da voz, impactam o social. AtravŽs de suas performances, indiv’duos se conscientizam sobre a posi�‹o da mulher negra na sociedade, como tambŽm adquirem conhecimentos silenciados justamente por uma quest‹o racial. O financiamento decorrente de uma bolsa do PROMIC provoca uma luta mais igualit‡ria, talvez, entre os estratos, permitindo estruturas perifŽricas terem mais visibilidade e melhor forma�‹o mesmo distantes dos grandes centros.

 

 

 

ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÕÕ: a performance como forma de re-exist�ncia

 

O ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das pretasÓ foi criado, conforme j‡ dito, pelo coletivo Lu’sa Mahin, em 2015. A priori, segundo as organizadoras, o coletivo era formado por Poliana Santos, Fiama Helo’sa, Tha’sa Carvalho, Silvia Castro e Rute. A forma�‹o atual conta com Fiama Helo’sa, Poliana Santos, Ana Paula Barcellos, Mariana Valle e Jamile Baptista, ˆ frente do coletivo.

Visando ˆ arrecada�‹o de recursos para a Marcha das Mulheres Negras, realizada em Bras’lia em novembro do mesmo ano, o sarau cujo protagonismo Ž a mulher, sobretudo a mulher negra, teve continuidade ap—s o evento. A reflex‹o sobre a import‰ncia do protagonismo da mulher negra para o cen‡rio cultural e art’stico de Londrina impulsionou o grupo a buscar parcerias culturais.

A partir disso, o sarau surge como forma de fomento ˆs trocas liter‡rias, sendo visto como um evento, um momento de confraterniza�‹o, a princ’pio, e depois com o PROMIC Ž agregado tambŽm, ao sarau, um trabalho de forma�‹o, um aspecto educacional, segundo Poliana Santos.

Na produ�‹o liter‡ria contempor‰nea, o singular se faz presente por meio do coletivo, o que leva ˆ cria�‹o de grupos, denominados coletivos, que s‹o constitu’dos pela afetividade e pela identidade partilhada, caracter’sticas essenciais para a forma�‹o de redes afetivas (LEONƒ, 2014). Sendo assim, o ÒColetivo Lu’sa MahinÓ vem a ser um agente importante dentro do sistema liter‡rio corroborando para o estabelecimento de redes que fortale�am e deem protagonismo ˆ cultura negra.

O modus operandi do ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ conta com diversas atividades que visam promover a cultura afro-brasileira, contemplando as mais diferentes manifesta�›es art’stico-liter‡rias. No entanto, a voz Ž o cerne de todas as edi�›es do sarau, por meio da performance que ressignifica o texto liter‡rio e possibilita as trocas afetivas atravŽs das redes formadas por ela.

 

Imagem 2 – Exposi�›es e instala�›es no sarau

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

 

Na programa�‹o, discotecagem com DJ J™ Moreno, roda de capoeira com o pessoal do Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), apresenta�‹o musical com Ti‹o Carvalho, Feirinha, gastronomia popular e momento de conta�‹o de hist—ria para as crian�as. O Sarau das Pretas se insere ainda como prŽ-abertura do Festival Liter‡rio de Londrina – LONDRIX, por isso permeia a festa com momentos de microfone aberto para as mais diversas possibilidades de manifesta�‹o liter‡ria. Nosso encontro ser‡ na Vila Cultural CemitŽrio dos Autom—veis, a partir das 18h. Esperamos voc�s! A entrada Ž gratuita. Todas as atividades contam com o patroc’nio do PROMIC, produ�‹o da Pç! Art’stica e realiza�‹o do Coletivo Lu’sa Mahin.[79]

 

O PROMIC possibilitou ao ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ maior visibilidade ˆs performances realizadas no evento, aumentando sua rede de alcance para as discuss›es sobre a cultura afro-brasileira e para divulga�‹o de sua respectiva literatura. A lei de incentivo, que Ž um dos agentes presentes no polissistema de Even-Zohar (2013), contribuiu para que a literatura afro-brasileira se movesse dentro desse sistema sentido ao centro dele.

ƒ claro que muito h‡ de se fazer para que a literatura afro-brasileira chegue ao centro do sistema liter‡rio, pois sabemos que as dificuldades em rela�‹o ao mercado editorial ainda s‹o muitas. No entanto, o PROMIC como apoio para o sarau, evento cujo cerne Ž a performance, surgiu como forma de movimentar essa literatura e dar condi�›es de circula�‹o dos textos liter‡rios para alŽm do livro impresso.

 

Fazer o Sarau sempre foi uma forma de milit‰ncia porque acreditamos na import‰ncia de fazer esse trabalho cultural sobre a cultura negra. Ao longo do percurso, tivemos muitos apoiadores e colaboradores, mas nunca de forma financeira. O dinheiro investido para realizar o Sarau, muitas vezes, era colocado do nosso pr—prio bolso. Muitas vezes, investimos com o nosso pr—prio dinheiro, depois recuper‡vamos o valor com as coisas que faz’amos para serem vendidas no evento (como comidas, bebidas, etc.) e, depois, guard‡vamos o que sobrava, quando sobrava depois de pagar todo mundo, como uma Òpoupan�a do SarauÓ. Esse valor era investido novamente na pr—xima edi�‹o e assim ’amos indo. Mas essa limita�‹o financeira nos impedia de crescer. N—s t’nhamos vontade de ampliar as a�›es, mas n‹o t’nhamos perna. Ent‹o, vimos no PROMIC essa possibilidade, que ele fosse o meio de financiarmos nossas a�›es. Com esse financiamento, conseguimos ampliar as atividades como j‡ v’nhamos planejando. Por isso, nosso projeto do PROMIC contemplou duas faces: a primeira educacional - em que fomos em escolas das ‡reas urbana e rural falar com crian�as, adolescentes e adultos sobre a cultura negra, alŽm tambŽm de oficinas abertas para a comunidade; e a segunda, cultural - momento em que realizamos edi�›es do Sarau das Pretas para mostrar o resultado dos trabalhos desenvolvidos nas oficinas e para fortalecer a cena cultural negra na cidade.[80]

 

O ato perform‡tico Ž œnico, dotado de corporeidade, Ž carregado de sensa�›es e emo�›es. Uma voz n‹o pode ser vista separada de um corpo, sempre que existir uma voz vai existir um corpo (ZUMTHOR, 2007). Dessa forma, voz, corpo e espa�o se fundem a fim de Òconvocar a performance para mostrar que sua presen�a transforma as leituras poss’veis de uma obraÓ (AGUILAR; CçMARA, 2017, p. 13).

Imagem 3 – Apresenta�›es musicais

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

O corpo, os gestos, os modos de vestir, as entona�›es da voz, s‹o aspectos que o texto escrito sugere, mas n‹o permite vivenciar. AtravŽs da performance, esses aspectos s‹o vistos, sentidos e apreendidos de forma mais ’ntima, e assim, os sujeitos se afetam mutuamente permitindo essa experi�ncia vivenciada.

 

Na performance a voz Ž emana�‹o do corpo, uma representa�‹o plena, que n‹o Ž apenas uma forma de comunica�‹o que transmite conhecimento, mas que transforma o conhecimento, e sendo assim transforma de alguma forma o ser. A voz marca tanto o performer quanto o espectador, estabelecendo uma comunica�‹o poŽtica, uma experi�ncia vivenciada [...] (SILVA; FERNANDES, 2019, p. 122).

 

As performances que acontecem nos ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ s‹o dotadas de representatividade e ancestralidade. Como exemplo, temos um encontro que aconteceu dentro de uma casa de axŽ, que Ž o terreiro da m‹e Omin:

 

v‡rias mulheres mais velhas trouxeram a sua cultura do benzimento, ent‹o a gente fez essa troca com elas nos explicando as quest›es das benzedeiras, os ch‡s, trazendo essa sua historicidade atravŽs da sua oralidade, ali contando como era quando elas eram crian�as, como se deram essa identidade de se ver como mulheres negras, ent‹o Ž muito pontual para n—s essas viv�ncias.[81]

 

AlŽm de ser um meio de divulgar a literatura afro-brasileira, as performances do sarau tambŽm trazem a quest‹o da representatividade a partir da hist—rias contadas por essas mulheres. E a’, a m‡quina perform‡tica se faz instrumento de transforma�‹o do conhecimento e de re-exist�ncia para o performer e para o espectador. Espectador esse que se reconhece no performer ou que conhece a cultura afro-brasileira a partir das viv�ncias e dos saberes transmitidos pelas mulheres negras atravŽs da performance.

Nesse sentido, pode-se afirmar que o sarau Ž uma forma de resist�ncia no sentido de re-existir, de fazer re-existir. ƒ importante deixar claro o conceito de resist�ncia, visto que na atualidade, v‡rias s‹o as possibilidades de sentido que se pode atribuir ao termo.

 

Ora, Ž diante da ideia de que o poder, como rela�‹o de for�as, funciona sempre como produtor de afetos, que a resist�ncia aparece para Foucault como um terceiro poder da for�a. Se as for�as se definem segundo o poder como um afetar e um ser afetado, resistir Ž a capacidade que a for�a tem de entrar em rela�›es n‹o calculadas pelas estratŽgias que vigoram no campo pol’tico. A capacidade que a vida tem de resistir a um poder que quer geri-la Ž insepar‡vel da possibilidade de composi�‹o e de mudan�a que ela pode alcan�ar.

Resistir Ž, neste aspecto, o oposto de reagir. Quando reagimos damos a resposta ˆquilo que o poder quer de n—s; mas quando resistimos criamos possibilidades de exist�ncia a partir de composi�›es de for�as inŽditas. Resistir Ž, neste aspecto, sin™nimo de criar. Sendo assim, a resist�ncia Ž, para Foucault, uma atividade da for�a que se subtrai das estratŽgias efetuadas pelas rela�›es de for�as do campo do poder. Esta atividade permite ˆ for�a entrar em rela�‹o com outras for�as oriundas de um lado de fora do poder [...]. For�as do devir, da mudan�a, que apontam para o novo e engendram possibilidades de vida (MACIEL JR., 2014, p. 2).

 

Dessa forma, Ž em Foucault que se busca fundamentar essa afirma�‹o do sarau enquanto resist�ncia (re-exist�ncia), em especial o ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ que coloca em evid�ncia a mulher negra no campo social e atua nesse mesmo sentido o qual Maciel Jr. (2014), ao retomar Foucault, nos traz o conceito de resist�ncia como cria�‹o, como for�a da mudan�a que aponta para o novo e permite a abertura de possibilidades.

 

Imagem 4 – Integrantes do Coletivo Lu’sa Mahin – Sarau das Pretas

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

 

O ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ Ž resist�ncia, porque resistir nessa perspectiva ÒŽ criar, para alŽm das estratŽgias de poderÓ (MACIEL JR., 2014, p. 2). O sarau cria possibilidades de composi�‹o e de mudan�a social por meio da performance. A voz, o corpo e o espa�o permitem que o texto liter‡rio ganhe vida e possibilitam sua entrada em novos espa�os sociais por meio das trocas de saberes e das trocas afetivas que operam nos saraus.

 

 

Considera�›es finais

 

O ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ contou com o apoio do PROMIC para realiza�‹o das edi�›es do sarau, e esse incentivo foi de grande import‰ncia para a viabiliza�‹o do evento que, de acordo com seu modus operandi, mobiliza a divulga�‹o de textos liter‡rios de mulheres negras e a inser�‹o deles em diferentes espa�os sociais por meio da performance.

A lei de incentivo municipal ˆ cultura foi essencial para que a literatura afro-brasileira londrinense rompesse as barreiras do mercado editorial, criando possibilidades de divulga�‹o desses textos para alŽm do livro impresso.

O PROMIC Ž necess‡rio, porŽm ainda insuficiente e tardio, nem sempre realizando a proje�‹o para alcan�ar todos os grupos que poderiam ÒoxigenarÓ a literatura local, distanciando-se de um c‰none que replica um repert—rio j‡ conceituado. Sofrendo alguns ajustes, o programa poderia ser ainda mais impactante nesse sentido.

A performance, enquanto cerne de um sarau, funciona no ÒColetivo Lu’sa Mahin – Sarau das PretasÓ como uma possibilidade de fortalecer a cultura afro-brasileira, trazendo em si sua ancestralidade e representatividade e permitindo a viv�ncia da cultura negra.

A quest‹o identit‡ria, t‹o cara ˆ literatura contempor‰nea, Ž a ess�ncia desse sarau, que traz nomes t‹o importantes para homenagear a mulher negra, como ÒLu’sa MahinÓ, ÒMarielleÓ e ÒY‡ MukumbyÓ. A performance vem contribuir para a valoriza�‹o da identidade negra no cen‡rio local e o PROMIC viabilizou essas a�›es do ÒColetivo Lu’sa MahinÓ.

Em tempos em que cada vez mais recursos destinados ˆ cultura, ˆ arte e ˆ literatura s‹o cortados, esse trabalho se faz relevante para que se chame aten�‹o para a import‰ncia dessas a�›es, sobretudo para aqueles que est‹o ˆ margem da sociedade.

 

 

Refer�ncias

 

AGUILAR, Gonzalo, CçMARA, Mario. A m‡quina Perform‡tica: a literatura no campo experimental. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

EVEN-ZOHAR, Itamar. Teoria dos Polissistemas. 2013. Tradu�‹o de Luis Fernando Marozo, Carlos Rizzon e Yanna Karlla Cunha. Dispon’vel em: >https://seer.ufrgs.br/translatio/issue/viewFile/2211/22< Acesso em: 29 jul. de 2020.

LEONE, Luciana Di. Poesia e escolhas afetivas: edi�‹o e escrita na poesia contempor‰nea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

MACIEL JR., Auterives. Resist�ncia e pr‡tica de si em Foucault. Trivium, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 01-08, jun. 2014. Dispon’vel em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912014000100002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 15 abr. 2020.

MARIANO, JosŽ Victor Nunes. Da periferia do hegem™nico: o sistema liter‡rio afro-brasileiro. In: Suplemento liter‡rio de Mato Grosso N—doa do Brim. Edi�‹o 67. 2019. Dispon’vel em: >https://www.researchgate.net/publication/341104225_Da_periferia_do_hegemonico_-_O_sistema_literario_afro-brasileiro<. Acesso em: 30 jul. 2020.

SILVA, Ana Cristina Pereira da; FERNANDES, Frederico Augusto Garcia. Sarau e performance: a rede Londrix e estratŽgias de inser�‹o do texto poŽtico. Revista Boitat‡, Londrina, n. 27, jan.- jun. 2019, p. 118-131. Dispon’vel em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/article/view/38312/27135. Acesso em: 15 abr. 2020.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recep�‹o e leitura. Tradu�‹o de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. S‹o Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

 

[Recebido: 16 ago 2020 – Aceito: 03 mar 2021]


 

 

 

ENTREVISTA

 


UMA CONVERSA COM E SOBRE SALETE MARIA DA SILVA

 

A CONVERSATION WITH AND ABOUT SALETE MARIA DA SILVA

 

Salete Maria da Silva (Colaboradora)

Andrea Bet‰nia (Pesquisadora)

Bruna Lucena (Pesquisadora)

 

Salete Maria da Silva Ž, antes de qualquer caracteriza�‹o, uma mulher com alma e pŽs de sert‹o, que aprendeu a fazer cordel com uma de suas av—s, e, n‹o por acaso, a vida de n—s mulheres percorre toda sua obra, seja a cordel’stica – com forte teor feminista e revolucion‡rio –, seja a acad�mica, como professora do Bacharelado em Estudos de G�nero e Diversidade na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em seus quase 30 anos dedicados ˆ cria�‹o de cordŽis feministas e libert‡rios, publicou mais de uma centena de folhetos, muitos dos quais podem ser lidos em seu blog Cordelirando. ƒ membra-fundadora da Sociedade dos Cordelistas Mauditos ‒ importante coletivo de poetas, cantadores e performers fundado no ano 2000, em Juazeiro do Norte/CE.

Esta entrevista Ž uma grande conversa da qual participam quatro pessoas: a pr—pria Salete Maria, AndrŽa Bet‰nia, Bruna Lucena e JosŽ Gomes, sendo a primeira a entrevistada; as duas seguintes, as entrevistadoras; e o œltimo, o respons‡vel pela transcri�‹o literal. Adotamos a conversa como mŽtodo de realiza�‹o desta entrevista por acreditarmos ser Ò[...] uma convoca�‹o de saberes diferentes de modo n‹o hier‡rquicoÓ, em que Ò[...] o conhecimento est‡ sempre no plural, conhecimento(s)Ó, como defendem Maria Luiza SŸssekind e Raphael Pellegrini

Conversamos no dia 6 de outubro de 2020, em uma videochamada repleta de hist—rias de vidas, de artes de ontens e de agoras ancestrais, sobre sua presen�a inquietante no cen‡rio cordel’stico. Diante da impossibilidade de estabelecer uma conversa linear com Salete ‒ o que entendemos como um ponto positivo ‒ tendo em vista a exposi�‹o de um pensamento que nos lembra um palimpsesto, os assuntos abordados foram surgindo motivados n‹o apenas por nossa curiosidade como entrevistadora, mas, sobretudo, pelos motes com os quais a entrevistada nos presenteava ˆ medida que tentava refazer sua trajet—ria tanto pessoal quanto poŽtica, seguindo uma rota que se deixava guiar por seu modo inquieto e inquietante de estar no mundo.

Ao optarmos por empregar, no t’tulo dessa entrevista, ÒcomÓ e ÒsobreÓ, sem nos decidirmos por apenas um, trata-se menos de vontade de escolha e decis‹o, e mais, muito mais, de vontade de dar conta do que Ž a intimidade de dividir palavras, escutas atentas, conhecimentos, bem como de dar a ver essa importante cordelista de nosso aqui e agora.

Bruna Lucena (BL) ‒ N—s estamos aqui com Salete Maria da Silva, cordelista, ativista, professora e outras coisas sobre as quais falaremos adiante.

AndrŽa Bet‰nia (AB) – Boa tarde, Salete. Agradecemos mais uma vez sua disponibilidade e generosidade ao se dispor para essa conversa. Sabemos que voc� est‡ muito ocupada com a vida nesses tempos, mas vamos l‡. Salete, vamos come�ar falando sobre sua trajet—ria?

Salete Maria (SM) – N‹o estava no meu horizonte ir para a universidade porque na minha fam’lia n‹o existia essa tradi�‹o, como de resto todos os meus contempor‰neos, os meus colegas l‡ da comunidade onde eu vivia. S— que, no Ensino MŽdio, fui fisgada por uma milit‰ncia Marxista, por meio do Partido Comunista do Brasil, do Partido dos Trabalhadores. Naquela Žpoca existia uma espŽcie de recrutamento da juventude, pra que nos organiz‡ssemos. E eu era muito ativa, gostava de ficar recitando coisas nos eventos da escola. Nessa ocasi‹o, embora ainda n‹o entendesse nada de Marxismo, de Socialismo, de nada, eu tinha uma revolta relacionada ˆ quest‹o de classe. Eu nasci em S‹o Paulo, numa favela onde hoje est‡ funcionando o est‡dio de futebol que pertence ao Corinthians e, ali, na Zona Leste, eu morava na rua chamada Estado do Cear‡ porque todas aquelas ruas eram ocupadas, naquela favela, por nordestinos, cearenses em sua maioria. E meus pais foram para l‡, como tantos outros no final de 1950 e na dŽcada de 1960, em busca do Eldorado, porque se buscava uma vida melhor. Ambos agricultores, meu pai nascido numa cidade chamada Vargem Alegre, no Cear‡, e minha m‹e, na menor cidade do Cear‡, que se chama Granjeiro, especificamente na zona rural desse mun’cipio, que ainda hoje Ž o menor do Cear‡. Meu pai, embora agricultor, foi para S‹o Paulo trabalhar na constru�‹o civil. Minha primeira irm‹ nasceu no Cear‡. Depois eu nasci em S‹o Paulo, depois eles voltaram para o Cear‡. Ao todo, somos seis filhos: um em cada lugar. Ent‹o, meu pai, como oper‡rio, trabalhou na constru�‹o civil. Grande parte daqueles prŽdios que tem na Avenida Paulista tem o suor do meu pai.

Ent‹o, eu tinha uma coisa assim de questionar as desigualdades sociais e Ž essa turma de esquerda do Ensino MŽdio que vai me despertar. E, uma vez, minha m‹e, quando ela era faxineira do Pal‡cio do Governo, foi acusada de roubar um material de limpeza, uma coisa assim. Isso me marcou muito. E embora nesse tempo eu j‡ fosse muito apaixonada pela literatura, porque meu melhor professor de todos os tempos foi um homem, um professor chamado Sebasti‹o, professor de letras: Literatura, L’ngua Portuguesa e Literatura l‡ na Escola JosŽ Lins do R�go, em S‹o Paulo. Era 5» sŽrie e depois ele foi meu professor na 7» tambŽm, e esse professor me emprestava muitos livros e eu participava de concursos de poesias, s— que a escola n‹o oferecia possibilidade de falar da Literatura de Cordel. E meus pais tinham cordel em casa e eu levava, esse professor era muito receptivo, mas nunca inseria no programa, nŽ? Enfim. O fato Ž que eu queria fazer Letras, eu me inspirava naquele professor que dava oportunidade, que estimulava a leitura, enfim. A’ a hist—ria era assim: n‹o era exatamente pensando Òeu vou pra faculdade fazer LetrasÓ; era pensando assim: Òeu quero ser uma escritora, eu quero ler mais, eu quero escrever maisÓ. Mas n‹o era tipo: Òeu vou pra faculdadeÓ, nŽ?

Depois, quando terminei o Ensino MŽdio, eu j‡ fiz todo o Ensino MŽdio, grande parte dele, no estado do Cear‡. Ent‹o, eu j‡ estava militando no Partido Comunista e meu companheiro ‒ que Ž o pai da minha filha, nŽ? ‒, meu companheiro da Žpoca, ele era trotskista e atuava numa ala do PT chamada Converg�ncia Socialista e ele disse: ÒEu vou fazer faculdade, vou fazer Hist—riaÓ. A’ ele se inscreveu e eu fiquei na dœvida. Eu queria me inscrever em Letras, s— que eu ainda tinha muita m‡goa, muita revolta pelo que aconteceu com minha m‹e. Eu falei assim: ÒAh, ent‹o acho que eu vou fazer Direito porque eu quero atuar na ‡rea do Direito do TrabalhoÓ. Ent‹o, eu fiz vestibular, nŽ? Eu era muito autodidata e eu lia muito, e eu era a œnica mulher que atuava no Partido Comunista. Ent‹o, assim, eu passei na faculdade de Direito, apaixonada pelo Direto do Trabalho, mas quando chegou l‡ eu me encantei pelo Direito Constitucional, mas, paralelamente a isso, eu seguia lendo e escrevendo muito, muita Literatura de Cordel sem publicar.

A’, em 94, quando eu pari minha primeira e œnica filha, eu pari tambŽm um cordel. Ela nasceu em mar�o e eu pari o cordel e publiquei. Eu tava desempregada, ent‹o, eu escrevi, nŽ? Houve uma morte l‡ no bairro e eu escrevi aquele cordel que Ž de 94, a primeira edi�‹o: Mulher Consci�ncia ‒ nem viol�ncia, nem opress‹o. Ent‹o, eu mesma paguei. Tinha uma gr‡fica l‡ em Juazeiro do Norte, onde publiquei quase a maioria dos meus cordŽis. Depois eu fui publicar na gr‡fica Lira Nordestina, que Ž uma gr‡fica assim... ela, hoje acho que est‡ vinculada ˆ Universidade Regional do Cariri, ainda est‡! Mas eu publicava em uma gr‡fica de fundo de quintal, ela nem tinha CNPJ, era de Seu C’cero, e a gr‡fica L’deres. Depois ele regularizou, muitos anos depois. Ent‹o, eu publiquei esse cordel e como eu era militante, eu discutia com as mulheres, conversava com elas e esse cordel era sempre muito lembrado para dialogar sobre essas viol�ncias. N‹o eram os documentos que eu aprendia na faculdade, n‹o eram as regras, n‹o eram os textos acad�micos porque as minhas interlocutoras n‹o eram acad�micas. Ent‹o, esse cordel foi a minha entrada no mundo da Literatura. Assim, minha entrada oficial, nŽ? J‡ que eu era uma leitora e uma escritora, mas n‹o publicava.

S— que Ž —bvio que eu digo que a influ�ncia Ž da milit‰ncia, ela foi importante pra mim, mas [pausa] antes mesmo de eu estar na escola, eu tinha essa paix‹o pela Literatura de Cordel por causa da minha av—. Eu falo muito sobre isso em outras entrevistas e eu dei uma entrevista pra Caros Amigos uma vez e eles deram a visibilidade que a minha av— merecia naquela entrevista porque come�am falando dela e o impacto dela na minha vida. Ela era uma performer, eu n‹o tinha essa no�‹o, mas a minha av— era miudinha. Eu tenho um metro e cinquenta e dois [1,52m]; minha av— era muito menor do que eu e se agigantava diante de mim assim. N‹o s— porque eu era uma crian�a e ela era uma adulta, mas porque eu via assim uma poetriz, digamos assim, uma mulher que era fascinante. Ent‹o, ela n‹o sabia ler, nŽ? Durante um per’odo da vida ela enxergava, mas depois ela ficou cega e ela era apaixonada pela Literatura de Cordel. Todo mundo na minha fam’lia era, mas minha v— era a que tinha mais for�a, nŽ? A que nos unia em torno dessa literatura. E a’ ela vivia na zona rural l‡ de Granjeiro, num lugar chamado Canabrava, Canabrava dos Greg—rios, e essa mulher que amava a Literatura de Cordel exerceu em mim essa influ�ncia.

Ent‹o, assim, eu conto isso num cordel chamado Feminismo em Cordel: como foi que come�ou? e l‡ eu conto um pouco dessa coisa de eu gostar muito de todos os cordŽis. L‡ tinha um baœ, cheio de cordŽis, embora fosse numa casa que somente uma pessoa lia, que era minha tia Senhora, que Ž viva atŽ hoje. Era a œnica pessoa que lia, lia muito pouco, mas era ela a pessoa respons‡vel por ler o cordel, os cordŽis ali [r‡pida pausa] e meu av™, quando ele ia pra cidade, fazendo compra – feira do m�s. Eu brinco, acho que no cordel Cordelirando [r‡pida pausa novamente] eu conto isso e tambŽm nesse outro Feminismo e Cordel, eu lembro que meu av™, as vezes que eu ia pra l‡, porque voc�s deveriam pensar: ÒMas como assim, voc� tava em S‹o Paulo e no Cear‡ ao mesmo tempo?Ó. A minha, a nossa vida era uma vida de idas e vindas. Meus pais foram l‡ por conta do �xodo rural, tiveram uma filha, voltaram pro Cear‡: todas as vezes que tinha uma crise econ™mica, que ficavam desempregados, que as coisas apertavam porque o aluguel era caro e eles moravam, apesar de n‹o morarem numa casa, mas era um barraco alugado; e quando tambŽm a viol�ncia come�ava a espreit‡-los, corriam de volta para o Cear‡. E l‡ eles tinham as casas dos parentes pra ficar, tinha ro�a, n‹o faltava aonde eles serem acolhidos. Ent‹o, assim, havia fŽrias em que eu estava na casa dos meus av—s e havia per’odos em que eu morava na casa deles.

Ent‹o, assim, meu av™ ia pra ro�a, pra feira e ele levava um saco que era a bolsa que ele transportava a feira, a’ ele trazia... eu costumava brincar que ele trazia os quatro ÒefesÓ: era o feij‹o, a farinha, o fumo e ÒfoietoÓ porque minha av— nunca chamou o cordel de Cordel, ela chamava Òos foietoÓ, nŽ? Ent‹o, ela tinha os cl‡ssicos: A hist—ria de Jo‹o Grilo, O soldado jogador, ela tinha l‡ A hist—ria do Valente Jo‹o Garcia, ZŽ Garcia ‒ n‹o lembro agora. Ela tinha tudo, tudo, tudo, tudo. E meu av™, ele tava se alfabetizando, ent‹o, ele ficava na ro�a o dia inteiro, quando chegava tomava banho, jantava e depois sentava um pouco l‡ no terreiro, conversava com as pessoas. Mas, depois ele voltava e sentava num tamborete e acendia uma lamparina e come�ava: ‒ÒUm B com A, BA; um B com E, BEÓ; tudo cantado. Eu ficava impressionada, nŽ? De ver aquele homem... Meu av™ tinha uma apar�ncia muito bonita, ele era um homem negro, baixinho, cambota; e ele tinha essa coisa de querer estudar, ent‹o, ele tinha a tabuada e tinha a carta de ABC. E ent‹o eu ficava observando aquele homem aprendendo a ler.

E minha av—, n‹o! Nunca aprendeu a ler, mas ela era quem articulava o... vamos chamar de sarau, que na Žpoca ninguŽm usava esses termos, nŽ? A’ l‡ tinha um alpendre, na casa dela, ent‹o, sentavam-se as pessoas nas cadeiras, as crian�as sempre no ch‹o junto com os cachorros; mas os adultos tinham cadeiras [risos] e tinha a muretinha do alpendre onde vizinhos, compadres, conhecidos chegavam, conversavam sobre v‡rios assuntos, mas sempre tinha o recital. E a’ minha tia Senhora, ela Ž que lia essas hist—rias, e minha av— ficava a corrigindo porque minha av— tinha de cor; todos os folhetos minha av— tinha decorado. E quando eu aprendi a ler de verdade, minha m‹e contava que eu j‡ tava lendo cordel e num sei o qu�, e minha av— dizia: ÒPois sente aqui na cadeira que eu quero ver se voc� sabe ler mesmoÓ.

Ent‹o, minha av— era uma espŽcie de professora, mesmo sem saber ler, sem decodificar palavras, letras etc. Eu lia os cordŽis pra ela e ela me corrigia porque tinha a cad�ncia, nŽ? Tinha toda uma coisa de voc� performatizar e eu ficava lendo ali como quem l� qualquer coisa, e minha av— corrigia: ÒN‹o Ž bem assim...Ó; e claro, uma crian�a ˆs vezes num sabe ler direito e minha av— ia me dizendo como era a palavra e tal. A chegada do Lampi‹o no Inferno foi o primeiro cordel que eu lembro de ter lido; lido eu mesma – n‹o ouvido, ouvi outros. A’, eu dizia: ÒUm cabra de Lampi‹oÓ, a’ ela dizia: ÒPor nome Pil‹o DeitadoÓ; e voltava pra mim: ÒQue morreu numa trincheira / Num certo tempo passado / Agora pelo Sert‹o anda causando vis‹o / Fazendo mal-assombradoÓ. A’, ela dizia: ÒPare a’, n‹o Ž bem assimÓ. A’, ela voltava e dizia: ÒUm cabra de Lampi‹o / Por nome Pil‹o Deitado / Que morreu numa trincheira / Num certo tempo passadoÓ[82]. Ent‹o, ela imprimia musicalidade, ela tinha uma coisa assim. E ela se levantava – se ela tivesse sentada – e ela agitava os bra�os, aquela coisa, nŽ?

Ent‹o, assim, eu fui percebendo que n‹o era s— uma escrita, era uma coisa de mœsica! Era uma articula�‹o entre mœsica, oralidade, escrita etc. etc. Mas nada de teoria, n‹o tinha acesso ˆs teorias e atŽ hoje n‹o tenho muito conhecimento sobre Teoria Liter‡ria ou Oralidade ou Cordel ou Tradi�‹o. Conhe�o voc�s duas e tantas outras pesquisadoras que conhecem bem, que t�m dom’nio sobre essas quest›es, mas ali com ela, era uma escola de teatro, digamos assim, nŽ? Ent‹o era uma coisa... E eu percebia o seguinte: minha av— tambŽm criava. Eu entrevistei minha av— algumas vezes, quando eu j‡ estava adulta e minha av— j‡ estava bem velhinha. E eu entrevistei naqueles gravadores antigos e parte dessas fitas cassetes eu cedi pra pesquisadora Fanka e depois ela cedeu pra Ria e essas coisas desapareceram porque primeiro eram mal condicionadas, o calor destru’a, nŽ? Enfim, mas l‡ no Juazeiro do Norte deve ter ainda alguma coisa.

Ent‹o, minha av— quando recitava para mim nas entrevistas ou mesmo nas conversas comuns, eu n‹o sabia quando era uma coisa era dela ou era de algum autor cl‡ssico porque como a minha av— n‹o estava preocupada em dar crŽditos e fazer refer�ncias, tinha vez que ela mesclava as coisas do imagin‡rio dela, da lembran�a dela, do cotidiano dela, ent‹o, quando estava varrendo o terreiro – ela estava recitando alguma coisa ‒, eu dizia: ÒDe quem Ž esse Cordel, v—? De quem Ž esse folheto, v—?Ó. Essa hist—ria, nŽ? A’, ela dizia: ÒNum sei, n‹o. S— sei que eu aprendi, nŽ? Esse a’ eu n‹o sei de quem Ž n‹oÓ. A’ em outro peda�o ela dizia: ÒEsse aqui Ž meu. Foi eu que inventei isso aquiÓ. Ent‹o, talvez por ela escutar tanto, tantos folhetos e por ela tambŽm pensar sobre criar, ela n‹o sabia mais o que era dela, o que era dos outros e eu n‹o sei explicar. Sei que isso a’ foi me influenciando.

Ent‹o, como diz ZŽ Ramalho, naquela Žpoca eu era inocente, porŽm, besta; e eu achava que os cordŽis eram lindos e maravilhosos. S— que depois, essa coisa de racionalizar, de refletir sobre as desigualdades sociais, me mobilizou a questionar aqueles folhetos que sempre tinham os homens como protagonistas ou os homens como autores, nŽ? E, ent‹o, eu comecei a prestar aten�‹o no meu cotidiano. Eu sei que as hist—rias que minha av— apreciava e que tambŽm gostava, e que minha tia lia, eram sempre de pessoas de outros pa’ses ou ent‹o eram narrativas assim... hist—rias imaginadas: O Valente ZŽ Garcia, A Princesa do Vai N‹o Torna, O Pav‹o Misterioso. Era muita coisa, assim, que n‹o era da vida real, digamos assim. Ent‹o, eu comecei prestando aten�‹o ˆs coisas da vida real e na minha vida real tinha muitas mulheres, dentre as quais eu me inclu’a, com v‡rios problemas, e tinha tambŽm uma coisa de eu achar um pouco ofensivo e dialogar com as mulheres do meu bairro, da minha fam’lia falando daquelas coisas, do artigo 5¼ da Constitui�‹o. Eu n‹o me sentia confort‡vel por estar falando sobre o nosso cotidiano a partir dali.

Ent‹o, em 94 eu estava no penœltimo ano da faculdade quando eu publiquei meu primeiro cordel. E nas rodas de conversas, n‹o s— na milit‰ncia, mas com mulheres e ali n‹o era uma conversa entre feministas n‹o, era entre mulheres de uma comunidade que estavam muito impressionadas e muito, digamos assim, temerosas com a morte da vizinha Cristina, que foi assassinada na Žpoca. Ent‹o, o cordel come�ava assim: ÒOs nœmeros de viol�ncia t�m crescido sem parar / Pra garantir resist�ncia Ž preciso n‹o calarÓ; a’ eu dizia: ÒDo Cariri para o Brasil quero me manifestarÓ. E come�a assim. Eu vou narrando uma sŽrie de coisas e o Cordel tem uma influ�ncia assim marxista porque a explica�‹o que eu dava na Žpoca para isso tinha a ver com a acumula�‹o da propriedade em poucas m‹os, a viol�ncia estava relacionada tambŽm com a quest‹o econ™mica, n‹o era uma explica�‹o totalmente baseada no patriarcado. Era a influ�ncia que eu tinha da Žpoca, de que era uma leitura ideol—gica, ligada ao marxismo, num sei o qu�. E ent‹o eu levei esse Cordel para a minha av—, em 94, e ela morreu em 2002, parece.

Eu levei esse cordel para a minha av—, eu li pra ela e ela disse: ÒIsso a’ n‹o Ž foieto, n‹o. Isso a’ n‹o tem nada a ver com foietoÓ. Ela n‹o reconheceu [risos], a’ eu falei: ÒV—, tem sim! Olha aqui a rima t‡ bem direitinho...Ó. Eu acho, nŽ? Achava! [continua�‹o do di‡logo] ÒA rima t‡ bem constru’da, eu t™ rimando bem aqui, —Ó. A’ ela disse assim: ÒN‹o, mas essa hist—ria Ž muito feia, muito ruim, num tem uma coisa assim que prenda, num tem... Quem Ž a mulher dessa hist—ria? Quem Ž o homem? Quem Ž a pessoa?Ó, nŽ? A’ n‹o tinha uma personagem espec’fica, que tivesse uma hist—ria que tivesse in’cio, meio e fim, porque falava de um monte de pessoas ao mesmo tempo, de grupos sociais e tal. E a’ ela disse: ÒDe onde foi que voc� tirou isso?Ó. A’, eu disse: ÒDa minha cabe�a, Ž da minha cabe�a, mas foi porque morreu Cristina, l‡ na Rua S‹o Bento, assim, assim, assado e tudoÓ. A’ ela disse assim: ÒMulher (muiŽ, nŽ? Que ela falava), muiŽ, num se mete com isso n‹oÓ. Ela sempre me dava v‡rios conselhos e ela achava que eu j‡ estava velha, que eu j‡ deveria ter me casado. A’, ela dizia: Òï, minha filha, arranja um dono pra tu; Ž t‹o feio uma mulher sem um donoÓ. E ela dizia assim, eu fui l‡ pra me despedir dela, que eu ia viajar pra Fortaleza pra fazer mestrado; a’ ela disse assim: ÒTu ainda vai estudar? Tu j‡ leu os livros do Juazeiro, do Crato e agora vai ler os livros de Fortaleza? Minha filha...Ó. A’ come�ava a falar que era melhor eu me casar... A’ eu fui fazendo cordŽis, problematizando tambŽm essa nossa matriz social, cultural; e vieram outros folhetos e, enfim, quando chegou em 100 eu parei de contar. Mas o fato Ž que a maioria Ž relacionada a essa nossa condi�‹o feminina, nŽ? Eu digo nossa, considerando a’ tambŽm toda a diversidade das mulheres.

E a’ o curioso Ž que a velhice me chamava muita aten�‹o tambŽm. E eu escrevi o cordel O que Ž velhice, o t’tulo Ž esse: O que Ž a Velhice? E a capa tem a foto de minha av—; minha av— com um paninho assim no ombro, que ela sempre usava um paninho de prato assim no ombro o tempo inteiro, exceto quando ela sa’a pra viajar ou pra missa. E ela est‡ na porta da casa dela nesse Cordel e eu vou perguntando o que Ž a velhice, vou questionando e trago v‡rios elementos porque tambŽm eu estava influenciada com a obra de Simone de Beauvoir, que ela trata tambŽm dessa tem‡tica da velhice, que Ž o lado menos conhecido de Simone de Beauvoir, nŽ? E eu n‹o era estudiosa de Teoria Feminista, n‹o era estudiosa de quest›es de g�nero, n‹o. Eu era uma militante, uma comerci‡ria na Žpoca. Eu estudava, trabalhava, escrevia Cordel, cuidava de minha filha e, enfim, n‹o tinha muita abertura no Partido Comunista pra os debates de g�nero. Mas, curiosamente, tambŽm era atravŽs do Jornal, desse editorial que vinha pra Juazeiro do Norte ‒ que a gente vendia, tentamos recrutar outras pessoas ‒ que, vez por outra, no 8 de mar�o a’ aparecia uma discuss‹o sobre mulheres e vinha uma marxista l‡, Alexandra Kollontai, que s— depois de 300 anos Ž que eu vim estudar e conhecer. Mas ela problematizava as mulheres no mundo do trabalho, no mundo social, na pol’tica e tal e coisa.

Ent‹o, eu tinha muita intui�‹o que eu fui desprezando aos poucos, por uma vis‹o equivocada da racionalidade; e depois eu passei a valorizar. Agora, nos œltimos 5 anos, eu t™ muito f‹ de intui�‹o. Por exemplo, o cordel A Mulher de Sete Vidas, que Ž o mais longo cordel meu em termos de quantidade de p‡ginas e de estrofes e tal. Esse cordel foi escrito no momento em que eu estava questionando muito as minhas convic�›es pol’ticas, filos—ficas e Ž meio autobiogr‡fico. Embora, sendo a mulher de sete vidas, e ela tem sete vidas [risos], e ela aparece com sete experi�ncias diferentes: uma hora ela Ž uma meretriz, outra hora ela Ž uma artista. Ela tem v‡rias, eu n‹o me lembro, ela tem v‡rias facetas e ali Ž o momento em que eu dialogo com o Espiritismo, com o Catolicismo Popular, trago coisas do Budismo, alguma inspira�‹o na quest‹o da espiritualidade mesmo, nas suas v‡rias nuances. Mas, assim, eu depois leio e digo assim: ÒN‹o fui eu quem escreveu esse CordelÓ porque n‹o Ž o meu estilo, n‹o eram as minhas quest›es, entende? Ent‹o Ž isso, fui escrevendo...

Outro dia uma pessoa estava me chamando aten�‹o para algo que eu n‹o percebia: Ž que eu escrevia as personagens que estavam todas ali na revista na regi‹o do Cariri, mesmo depois que eu sa’ do Cariri e mesmo depois que eu sa’ do Brasil ‒ os cordŽis feitos fora ‒, todos est‹o de alguma maneira ali, como diz Belchior, ÒOnde jaz meu cora�‹oÓ, nŽ? Porque Ž uma for�a muito grande, Ž uma rela�‹o muito forte que eu tenho com a Chapada do Araripe, com a regi‹o do Cariri cearense etc. Em que pese ter havido alguns deslocamentos, porque depois que vim pra Bahia eu escrevi o cordel Tr�s Ž um Real porque andando muito de ™nibus aqui em Salvador eu via homens e mulheres entrando no busu e gritando tr�s Ž um real, ent‹o, Ž uma hist—ria que envolve dois vendedores: um homem e uma mulher. E a’ eu digo: ÒEle entra e pede desculpa por atrapalhar o sil�ncio da viagemÓ, ela entra e diz isso e eles v‹o vendendo produtos variados com uma pegada de g�nero. Geralmente ela traz produtos mais vinculados ˆs [entre aspas] Ònecessidade das mulheresÓ.

E a’, a Minha Preta vem Para a Marcha eu escrevi aqui em Salvador, mas Ž um apelo ˆ minha m‹e. Eu falo um pouco dessa condi�‹o dela, de mulher negra, de trabalhadora sempre no espa�o privado e quando foi trabalhar no espa�o pœblico foi realizar no pœblico o que ela fazia no privado, nŽ? Porque ela foi agricultora familiar ali no quintal da casa dela. Ela nunca plantou numa ro�a como os meus tios que tinham uma ro�a fora de casa, sa’am pela estrada pra ir pra ro�a. Minha m‹e n‹o: a ro�a de minha m‹e era no quintal da casa dela, dela e das irm‹s dela. Depois ela vai para S‹o Paulo, trabalhou de domŽstica. Eu conto isso no Cordelirando, o cordel chamado Cordelirando, que eu digo que: ÒSendo filha de um pedreiro e de uma camponesa / A palavra companheiro me foi servida ˆ mesa / Aprendi desde crian�a a ser eu minha fortalezaÓ. Ent‹o l‡ tem algumas estrofes... Eu n‹o me lembro, n‹o tenho vergonha de dizer que eu n‹o tenho de cor nenhum cordel meu, na ’ntegra. Eu n‹o consigo, Ž muita coisa, ai, quando alguŽm come�a a recitar, eu puxo na mem—ria, diferentemente da minha av—, e a’ Ž uma pura intui�‹o, considerando que ela n‹o aprendeu a ler, talvez ela tivesse uma mem—ria e uma capacidade... N‹o sei, voc�s talvez tenham melhores condi�›es de me explicar isso. Mais capacidade de memorizar, de armazenar, de organizar, de sistematizar aquilo. Eu n‹o, pelo fato de ler tantas coisas e meu cŽrebro Ž t‹o cansado que [pequena pausa] eu leio, eu tenho de cor cordŽis de outras pessoas, como Ž o caso tipo A Casa que M‹e Morava, como Ž o caso de Lu’s Campos, que Ž aquele meu cordel, um dos meus preferidos, que Ž A carta a Papai NoŽ, nŽ? Como Ž o caso de Patativa, como Ž o caso do cordel de Fanka, como Ž o caso do cordel dos Malditos de HŽlio Ferraz, quando ele diz assim: Ò11 de setembro Ž dia sem precedentes na Hist—ria / Aconteceu a vit—ria de Davi contra Golias / Impactou a ousadia dessa gente Talib‹ / E l‡ na grande ma�‹ o capital p™s no ch‹o / E a trupe o Alcor‹o meteu o kibe em Tio SamÓ. Ent‹o, assim, esse Ž um dos meus cordŽis favoritos porque me inspira a trabalhar mais a musicalidade do meu pr—prio texto.

E eu vinha numa pegada hist—rica de falar muito das dores das mulheres, eu falei muito das dores, das mortes... Aquele cordel Mulheres do Cariri: morte e persegui�‹o, Embalando meninas em tempos de viol�ncia, Mulher Consci�ncia – Nem viol�ncia, nem opress‹o, Basta de Feminic’dio, N‹o ˆ cultura do estupro. Eu sempre tive, contextualmente falando, uma produ�‹o que era [r‡pida pausa] uma denœncia, pra usar uma figura jur’dica, era um libelo crime acusat—rio, nŽ? E depois eu passei a ter necessidade de fazer anœncios tambŽm porque sen‹o eu ficava numa coisa de n‹o ter sa’da, nŽ? De n‹o espalhar esperan�a, ent‹o, o Mulheres fazem, por exemplo, j‡ destoa um pouco. No Mulheres fazem eu t™ falando de protagonismo das mulheres em v‡rios terreiros, em v‡rios lugares, em v‡rias coisas. Lugar de Mulher tambŽm, nŽ? Lugar de Mulher n‹o t™ propriamente falando de mortes ou de viol�ncia etc. Ent‹o, sem perceber e sem ser uma coisa deliberada eu comecei a focar mais tambŽm naquilo que as mulheres s‹o capazes de fazer, n‹o s— no que fazem contra elas ou com elas, e a’ escrevi Minha Preta Vem Pra Marcha, que tem uma hora que eu falo: ÒVem, traz o doce de mam‹o, traz tambŽm a rapadura / Com tua fŽ segue seguraÓ. Que Ž mais ou menos falando um pouco sobre minha m‹e, essa marcha da vida dela e tudo.

E a’ falei de Violeta Arraes, que foi Reitora da universidade onde eu trabalhei e Ž aquele Cordel... Eu fiz alguns cordŽis em homenagem porque eu quase nunca escrevi sobre encomenda, eu sempre escrevi o que eu quis, tanto que eu estava no MŽxico recentemente e eu fiz um cordel, Minha livre express‹o, onde eu falo que, [pequena pausa] onde eu intertextualizo com o poema de Cl‡udia Rejane e eu digo: ÒMinha obra ninguŽm tutelaÓ. Ent‹o, eu sempre escrevi sobre o que eu quis, mas eu aceitei, poucas vezes eu aceitei fazer alguma coisa sob encomenda porque a causa era justa e as pessoas que me pediram eram pessoas que significavam muito pra mim. Um deles foi Jana’na Dutra, ativista brasileira, que era uma homenagem ˆ primeira travesti a obter uma carteira da OAB no Brasil, era uma ativista cearense, faleceu depois e esse cordel foi feito pra abertura do filme Jana’na Dutra[83]. Tem um sobrenome... tem um subt’tulo a’, Jana’na Dutra num sei o que l‡, Ž do cineasta carioca Vagner de Almeida, que Ž um grande amigo. Ent‹o, eu fiz em homenagem a Jana’na. Eu convivi com ela l‡ no Cear‡, a gente se encontrou em algumas atividades, ela mora ne Fortaleza, mas ela nasceu em CanindŽ e foi atŽ ent‹o – durante muitos anos – a œnica Ž... ela se apresentava como travesti, nŽ? Em que pese ela n‹o conseguiu exercer o direito do nome social porque na carteira de OAB o nome dela era Jaime, nŽ? O nome de nascimento, mas ela era reconhecida socialmente como Jana’na Dutra e eu fiz esse cordel a pedido! N‹o vou nem dizer sob encomenda porque pode soar que alguŽm disse: ÒDiga isso!Ó, mas era a pedido.

E o outro foi a pedido de Orlando, um dos meus maiores amigos ali na regi‹o do Cariri. Orlando era um ativista, Ž um homem gay formado em Letras pela URCA, amante da literatura, amante dos cordŽis e do cinema. Numa conversa com ele, eu j‡ tava aqui na Bahia, e numa dessas madrugadas insones, eu e ele conversando sobre zilh›es de coisas, ele disse: ÒVou fazer um filme!Ó. Ele j‡ tinha feito um filme chamado TambŽm sou teu povo, Senhor, que uma Drag descia a principal rua da cidade com uma vela na m‹o cantando um bendito chamado: ÒTambŽm sou teu povo, senhor, e estou nessa estradaÓ [colaboradora canta como no filme]. Porque nossa vida ali no Juazeiro do Norte era muito marcada pelas, nŽ? Mesmo os ateus, mesmo as pessoas de esquerda, elas tinham esse sentimento de perten�a, nŽ? Suas fam’lias todas tinham a sala do santo. Todas, todas. AtŽ hoje minha m‹e honra a mem—ria de minha av— fazendo a renova�‹o do santo, no dia 25 de dezembro. Ent‹o, ele disse: ÒSalete, eu quero um filme baseado num cordel teu, mas eu queria uma coisa nova, a’, a gente dialogando, enfim, depois de muita conversa eu n‹o consegui dormir e fiquei escrevendo. Quando foi 8 horas da manh‹, o cordel estava pronto e Ž o cordel O Milagre Travesthriller: A Hist—ria da Travesti que (com fŽ) engravidou. Essa hist—ria Ž muito intertextual porque eu trago outras personagens de outros cordŽis meus e tambŽm de outros contextos l‡ do Cariri e dentro da hist—ria tem uma outra hist—ria porque ela vai se basear na hist—ria das macarenas, que eram umas beatas que chupavam umas rosas lilases e nas suas catatumbas elas bailavam e, enfim, era um cordel que era meio assim parecido com o Teatro do absurdo. Depois que eu assisti uma pe�a do Teatro do absurdo, eu fiquei muito impressionada com aquilo e aquelas imagens vinham, ent‹o, tudo que eu escrevo ainda que nem sempre eu me dei conta [r‡pida pausa], Ž um di‡logo com as coisas que eu vejo, que eu leio, que eu aprendo. Ent‹o, no Milagre Travesthriller, a personagem Ž essa travesti que era temente a Deus, que fez um milagre e que engravida. Ou seja, Ž um debate p—s-moderno, pero no mucho, porque ela n‹o recorre ˆs tecnologias de reprodu�‹o, ela recorre ˆ fŽ no Padre C’cero e ela engravida, mas ela dialoga nessa saga, nessa batalha por engravidar, vai recorrer a v‡rias pessoas. Ent‹o, ela vai dialogar com a feminista e a feminista diz: ÒAh, mas todo mundo hoje a pauta do aborto e voc� t‡ preocupada com essa quest‹oÓ. E vai dialogar com um homem gay amigo dela. Todas as personagens ali s‹o reais, s— a Shirley Dayanna, que Ž o nome que eu dei pra personagem, que Ž fict’cia, mas todas as pessoas com quem ela dialoga, inclusive o pr—prio Orlando.

Ent‹o, assim, a’ eu vou saindo daquela mulher... H‡ um conjunto de mulheres que fazem parte da minha literatura, por exemplo, o cordel Maria, Helena, que s‹o duas mulheres [risos]: Maria v’rgula Helena; Ž uma rela�‹o homoafetiva. ƒ uma rela�‹o lŽsbica entre duas mulheres ali da regi‹o do Cariri. ƒ claro que eu as imaginei como sendo duas vizinhas l‡, que eram beatas e que trabalhavam na ro�a e moravam ali na cidade. Na regi‹o do Cariri, as pessoas t�m [pequena pausa], digamos, esse privilŽgio de, ˆs vezes, morarem num bairro e serem agricultoras e irem pros seus trabalhos e voltarem. Ent‹o, Ž uma coisa entre o urbano e o rural, nŽ? E a’ na hist—ria de Maria, Helena falo desse amor entre elas, mas eu n‹o trago nada de extraordin‡rio, de tentar mexer naquele ambiente. Elas continuam frequentando a missa, continuam fazendo as coisas delas.

J‡ na hist—ria da Shirley Dayanna tem uma sŽrie de debates envolvendo a Teoria Queer e num sei o qu� l‡, mas nada disso dizendo: ÒOlha aqui uma teoriaÓ, como, por exemplo, O que Ž ser mulher?, que Ž uma resposta, nŽ? Uma resposta n‹o! [colaboradora demonstra contrariedade]. ƒ um di‡logo com Simone de Beauvoir, nŽ? Ent‹o, eu digo: ÒSobre a mulher j‡ se disse / tudo que se imaginar / DÕuns eu j‡ ouvi tolices / DÕoutros, me pus a pensar / Mas este ser – a mulher – / Afinal o que Ž que Ž? / Quem se atreve a explicar?Ó. E vou desenvolvendo... A capa Ž uma interroga�‹o, nŽ? A’, eu depois vou desenvolvendo v‡rios argumentos e em algum momento eu pergunto: ÒE se um homem quiser / Ent‹o mudar sua forma?Ó. Ent‹o, Ž um jeito de falar dessas teorias sofisticadas a partir dessa linguagem, apesar de minha av— n‹o ter legitimado num primeiro momento, nŽ? Porque ela disse que isso n‹o era um ÒfoietoÓ e tal e coisa.

Mas depois que eu li pra ela A Hist—ria de ZŽ Leitor, que eu vim publicar bem depois. Mas eu escrevi ainda com ela em vida, j‡ t‡ na terceira edi�‹o A Hist—ria de ZŽ Leitor, foi a hist—ria que ela mais gostou das minhas hist—rias, porque se trata de um homem que com mais de 60 anos vai pra a EJA nŽ, a Educa�‹o de Jovens e Adultos, e vai se alfabetizar,  e ele quer aprender a ler e ele tem dificuldade ou tem hora que ele quer desistir, e a’ ele leva um cordel de Patativa, Vaca Estrela e Boi Fub‡, e depois Fagner musicou e etc.; e ele l� esse cordel pra turma, e... enfim. Ali Ž a apoteose nŽ, da alfabetiza�‹o dele, e o colega dele que Ž pedreiro vai assistir, e a esposa dele vai, todo mundo vai e enfim. Ent‹o minha av— achou a hist—ria linda, porque tinha uma fam’lia, tinha nŽ [risos mais contidos] uma hist—ria de uma pessoa com in’cio, meio e fim, e o fim foi feliz e etc., enfim. Ent‹o, ela aben�oou esse cordel digamos assim, nŽ? Mas Ž. Meninas, eu t™ falando muito coisas sem ˆs vezes nem ter uma conex‹o com a outra, mas Ž o que t‡ me vindo as...

(AB) – Tem conex‹o demais...

(SM) – Porque os fios da conex‹o voc�s Ž que t�m capacidade de articular porque eu t™ falando assim coisas que me v�m ˆ mem—ria. Eu tava falando dos cordŽis a pedido, nŽ? Ent‹o, a pedido de Orlando, a pedido de Vagner Almeida, dois cineastas, e eu fiz o cordel pra homenagear a Violeta Arraes. Eu homenageei Violeta Arraes, homenageei v‡rios amigos l‡ do Carari, uma amiga que fez uma cirurgia e ela tava fazendo radioterapia, nŽ? E eu chamei isso de Mais uma dose de amor porque ela tinha que tomar mais Iodoradioterapia[84].

E recentemente eu homenageei uma pessoa que n‹o Ž muito bem-vista entre as feministas baianas etc. porque ˆs vezes ele Ž etiquetado de mis—gino e tal, mas Ž um amigo querido que eu tenho aqui na Bahia, se chama Luiz Mott e eu fiz um cordel sobre os 70, ou mais, anos dele. Ele tava passando a pandemia l‡ na It‡lia e com medo de morrer e num sei o qu�, no olho do furac‹o, nŽ? E eu fiz um cordel O Mott Ž Festejar! Ent‹o, n‹o foi exatamente um cordel que ele me pediu, mas ele disse assim: Ò Salete, vamos falar de CordelÓ, eu l‡ no MŽxico e ele l‡ na It‡lia, e a gente lutando pra ter um voo de repatria�‹o. Por que que eu t™ falando do Luiz Mott? Porque a pedido dele, h‡ uns anos, eu fiz um cordel sobre Tibira do Maranh‹o, Santo Gay do Brasil. Ele, como Ž um Antrop—logo, pesquisa essas coisas da Inquisi�‹o, e a’ ele descobriu l‡ no Maranh‹o essa coisa do primeiro crime de homofobia do Brasil, que foi praticado contra esse ind’gena chamado Tibira, ainda no in’cio nŽ do sŽculo XVI e a’ ele me passou a hist—ria, a pesquisa dele e disse: ÒAh, seria legal ter um cordel e tudoÓ. E eu li a hist—ria toda e contei isso num cordel que foi objeto de pesquisa l‡ no Rio de Janeiro, num grupo de Hist—ria e tal. Ent‹o, Ž assim, mas Ž todo inspirado na pesquisa do Luiz Mott. A fonte do cordel Ž a pesquisa do Luiz e eu conto essa hist—ria sobre por que o GGB – o Grupo Gay da Bahia – fez um requerimento ˆ Santa SŽ para reconhecer a santidade desse santo, desse m‡rtir e como ele antes de morrer foi obrigado a se converter ao Catolicismo. O Luiz Mott ironicamente diz: Ò Ent‹o, j‡ que ele se converteu ao Catolicismo e gente que foi martirizado, igual ou menos do que ele mereceu essa santifica�‹o, vamos constranger a Santa SŽ para reconhecer e tal e coisa...Ó. Isso divide as opini›es porque tem muita gente que n‹o est‡ interessada em ter um santo gay, muito menos na Igreja Cat—lica. Mas o fato Ž que Ž uma disputa pol’tica e achei interessante contar essa hist—ria porque a mim me interessava muito j‡ que a minha disserta�‹o do mestrado foi sobre a igualdade jur’dica na a�‹o contra pessoas LGBT. Ent‹o, gostei muito de saber dessa hist—ria. A’, foi um cordel que eu fiz a pedido do Luiz e submeti a ele e quando eu submeti, ele disse uma coisa l‡... Ah, duas ou tr�s coisas que eu tinha dito que ele queria alterar, ent‹o eu disse: ÒN‹o, Luiz, n‹o aceito que voc� mexa no cordel e muito menos que altere a minha rima porque o meu compromisso Ž com a hist—ria e o cordel Ž meu e a rima n‹o vai ser alterada...Ó. Era uma coisa l‡, mas ele compreendeu, nŽ? E a’ o cordel Ž um outro cordel sob encomenda.

Mas, fora isso, eu vou escrevendo quando tenho vontade. Tem tempos que eu n‹o escrevo nada, fico travada, tem tempos que eu escrevo. No MŽxico eu escrevi 6 cordŽis em 3 meses. Ent‹o, eu estava num desespero assim.... eu tenho uma aproxima�‹o com minha vida aqui no Brasil e mais perto com minhas... eu pedia a minha av—, eu orava muito pra que ela me desse inspira�‹o pra eu n‹o pirar, que eu tava ficando maluca trancada dentro de uma casa e com medo de nunca mais voltar, enfim. A’, eu sei que eu escrevi o cordel Por amor, cuidem das vidas. Foi em mar�o, nŽ? ƒ todo sobre a pandemia e fazendo um apelo, Ž um cordel denœncia e anœncio e tudo. E eu n‹o sei nenhuma estrofe dele [risos], t‡ l‡ no Blog, nŽ? E escrevi outros que eu n‹o lembro agora, mas sei que foram 6 cordŽis. O outro foi sobre Luiz Mott, fez anivers‡rio l‡ na It‡lia e enfim.

Ent‹o, assim, s‹o v‡rias mulheres que eu vou trazendo, mas n‹o s— mulheres, nŽ? Tem muitas figuras vinculadas ˆ feminilidade, ent‹o, voc� tem a’ as travestis, voc� tem os homens gays, voc� tem a’ Ž... A personagem mais austera, digamos, que eu j‡ tive foi ZŽ Leitor, mas na verdade tem uma... [r‡pida pausa] pegada assim geracional e de classe.

Bruna Lucena (BL) – Tem o do seu pai, nŽ, Salete?

(SM) – Ah, ok!

(SM) – Verdade, Bruna, tem... Meu pai Ž aquele cordel eu n‹o consigo recit‡-lo porque eu come�o a chorar. Ent‹o, no dia do lan�amento dele, eu tive de me socorrer de pessoas...

(BL) – Que Ž lindo aquele cordel...

(SM) – ƒ...

(BL) – Por isso que eu lembro, eu acho ele lindo... [risos]

(SM) – ƒ. ƒ uma homenagem pro meu pai que eu fa�o, logo ap—s ele ter passado por um c‰ncer agressiv’ssimo, nŽ? E diz assim: ÒMeu pai por seu um pedreiro...Ó – Ž a œnica estrofe que eu ainda lembro porque Ž muito emocionante pra mim: ÒMeu pai por ser um pedreiro / Dele muito me orgulho / Sempre foi muito guerreiro / Homem de muito barulho / Seja curando tormento / Seja mexendo cimento... – [colaboradora tenta relembrar a rima]: ÒEle desata o embrulhoÓ. Ele diz assim: ÒSeja curando tormento / Seja mexendo cimento / Ele desata o embrulhoÓ. A’ eu vou contando a hist—ria dele, que ele saiu em 44 [1944]... Que ele nasceu em 44 e depois ele saiu do Nordeste brasileiro ainda jovenzinho pra trabalhar na constru�‹o civil, a’ ele brinca que subiu na vida, nŽ? Ele deixou a lavoura para subir num andaime, ele brinca assim. Tem essa boa lembran�a.

Ent‹o, Bruna, tem o do meu pai... Eu homenageei alguns homens que eu considero importantes na minha vida. Ent‹o o meu tio ZŽ Alexandre, recentemente, que eu nomeei o cordel dele de Vai nas asas dos Arcanjos. O curioso Ž que, um m�s antes do meu tio falecer, eu liguei para ele e ele disse assim: ÒOlha, eu t™ deixando aqui uma heran�a pra voc�Ó. A’ eu achei estranho aquela conversa e tudo... A’ ele: ÒN‹o, eu t™ velho...Ó. Porque em mar�o ele perdeu um neto e ele tinha dito: Òï, porque que Deus n‹o me levou e deixou meu neto, t‹o jovem?Ó. Ent‹o, quando eu cheguei do MŽxico, que eu liguei pra ele, ele disse assim: ÒEu n‹o tinha mais fŽ que eu ia ver voc�, n‹o, ser‡ que eu ainda lhe vejo?Ó. A gente conversando no telefone, a’, eu disse assim: Òï tio, num fala um coisa dessa, num sei o qu�...Ó. A’ ele disse assim: ÒEu t™ deixando aqui uma heran�a pra voc�: um caderno de folhetos e a m‡quina de escrever, mas ela t‡ toda quebrada, as letras saindo fora de lugar e tudo...Ó. A’, eu disse: Òî, num t™ gostando desse papo de heran�a, mas em termos de presente eu estou adorando, ent‹o quando essa pandemia passar, eu vou a’ e a gente vai ver esses cordŽis e vai – ele tambŽm n‹o chama de cordel, chama de folheto – a gente vai publicar e num sei o qu�...Ó. Enfim.

Ent‹o, assim, minha heran�a t‡ l‡, eu ainda n‹o pude ter contato, nŽ? Quando passar essa pandemia eu vou atr‡s, mas ele sabia que de todos os parentes a pessoa mais fissurada assim no cordel e na produ�‹o dele e tudo, sou eu. Ele escreveu A Casa que M‹e Morava, que Ž um cl‡ssico, nŽ? ÒFui visitar meu sert‹o / Aonde morou meus pais / A saudade era demais / Pra ver aquele torr‹o / Atravessei o boqueir‹o e avistei a Canabrava / Com tanta saudade eu tava pra ver aquela casinha / Que hoje n‹o Ž mais minha / A casa que m‹e moravaÓ [colaboradora recita o cordel do tio]. E a’ ele vai desenvolvendo toda a hist—ria de v‡rias passagens da vida dos meus av—s nessa casa etc., etc. Tem uma hora que ele diz: ÒTendo dinheiro eu comprava / A casa que meu pai fez / Pra eu morar outra vez / Na casa que m‹e moravaÓ. ƒ lindo esse cordel, muito emocionante. E tem um muito engra�ado que ele diz: ÒEm cada dez brasileiros / Tem oito ou nove ladr‹oÓ; que ele fez a’ num dos per’odos a’ de campanha eleitoral, l‡ comprou muitas confus›es, por isso o cordel n‹o foi publicado assim em grande escala, mas era assim uma outra inspira�‹o pra mim. Era n‹o, segue sendo, nŽ? [pequena pausa] Fiz o do meu primo tambŽm... Tem tanta coisa. O de Orlando Ž muito emocionante porque o Orlando faleceu sem ver o resultado do filme baseado no meu cordel. O filme existe e se chama Travesthiller. O meu cordel Ž Milagre Travesthiller, mas o filme Ž Travesthiller.

Ent‹o, s‹o cordŽis em que eu trago majoritariamente a tem‡tica das mulheres, falando da desigualdade de g�nero, trago en passant a quest‹o da velhice, a quest‹o geracional, racial, mas a classe t‡ muito presente porque de todas as minhas consci�ncias a primeira foi a consci�ncia de classe, nŽ? Ent‹o, isso foi o que me levou a me desviou de ser alguŽm da ‡rea de Letras pra ser alguŽm do Jur’dico. Foi uma coisa de dizer assim: ÒAh, ent‹o eu vou fazer faculdade de Direito e eu vou me dedicar ao Direito do Trabalho porque eu n‹o quero que aconte�a com nenhuma pessoa, nenhuma mulher, o que aconteceu com minha m‹e e num sei o qu�Ó.

E de fato eu advoguei um tempo na ‡rea do Direito do Trabalho e depois eu me desencantei com essa coisa da advocacia trabalhista. A’, eu fiz cordŽis e nos atos processuais t‡ l‡ o qu� que a Sammyra botou o cordel chamado Alvar‡ Judicial, que Ž uma peti�‹o que eu fa�o em cordel pra que o juiz autorize que um agricultor l‡ de Cariri saque o res’duo do FGTS, que ele chegou de S‹o Paulo e tava desempregado e era agricultor, foi pra S‹o Paulo trabalhou um pouco com carteira assinada e estava desempregado e voltou. A’, eu fiz essa peti�‹o sabendo que ela n‹o seria indeferida porque o juiz era um poeta tambŽm: Doutor Pedro Bezerra. N‹o era um poeta de cordel, mas era um poeta e muito sens’vel. Do ponto de vista legal, ele n‹o teria como dizer que eu tinha que escrever em prosa porque o c—digo do processo diz que tem que ser na l’ngua vern‡cula, nŽ [risos]? A peti�‹o tem que ser em L’ngua Portuguesa e tem que dizer os fatos e dizer o direito. S— que n‹o Ž tradi�‹o escrever em poesia e a’ o pessoal escreve uma coisa com in’cio, meio e fim, mas qualquer outro juiz poderia indeferir dizendo que n‹o estava de acordo com a tradi�‹o jur’dica bl‡, bl‡, bl‡, bl‡. Ent‹o, ele acolheu, ficou muito emocionado e abriu vistas pro promotor de justi�a. O promotor tentou fazer uma gracinha despachando em uma estrofe [risos], n‹o conseguiu rimar, mas despachou. O que vale Ž a inten�‹o. E esse senhor, chamado Jesus, t‡ l‡ no folheto... E ainda era na m‡quina de datilografia. Se voc�s olharem no Cordelirando, Ž um scanner da p‡gina, do processo, v‹o ver que ainda era no tempo da m‡quina de datilografia que eu peticionei. S— que eu recentemente percebi o seguinte: que aquilo para o que eu menos me esforcei na vida Ž algo que tem tido algum valor, entende?

Eu n‹o fiz cordel pra me tornar famosa, eu n‹o fiz cordel pra ganhar dinheiro porque primeiramente eu pagava do meu bolso, por isso que eu publiquei pouco na dŽcada de 90, que eu n‹o tinha emprego. Eu vim ter um emprego em 98, emprego assim que me deu condi�‹o de me sustentar porque eu tralhava, obviamente, desde os quatorze, mas assim como comerci‡ria, depois como pesquisadora do SINE, depois como pesquisadora do IBGE, depois eu trabalhei numa escolinha – mesmo sem eu ser formada ‒, eu fiz um teste e fui professora infantil. Na Žpoca eu fui professora da Educa�‹o Infantil no ColŽgio Bal‹o M‡gico, ent‹o n‹o dava para eu sustentar o meu hobby, digamos assim, ent‹o, foi uma Žpoca em que eu produzi muito e n‹o publiquei muito e... Teve coisa que eu produzi em 90 e s— vi publicar no ano 2000. Ent‹o, por exemplo MARIA DE ARAòJO e seu lugar na hist—ria, que Ž a beata Beatitude, ele Ž publicado em 2001, quando eu consegui recursos porque teve tempo que eu publiquei pelo Cordel, ou o projeto SESCordel, e a’ Ž uma pol’tica; n‹o Ž nem uma pol’tica pœblica porque o SESC que Ž do Sistema S, da Indœstria e tal, comŽrcio. Mas o SESC tinha uma iniciativa, um projeto de autoria de Fanka chamado SESCodel Novos Talentos, ent‹o, eu me submeti a esse edital chamados novos talentos l‡ na Regi‹o do Cariri. E eu cheguei a publicar dois ou tr�s: o MEU PAI foi publicado pelo SESCodel Novos Talentos.

Ent‹o, ˆs vezes, uma coisa Ž publicada numa dŽcada e ela foi produzida numa dŽcada anterior, mas faltava condi�›es, n‹o tinha uma pol’tica pœblica no estado do Cear‡, um edital, uma coisa... um incentivo ˆ produ�‹o. Tinha incentivo ˆ leitura, mas o leitor e a leitora ia ler o que j‡ estava dispon’vel naquelas prateleiras. A’, com esse projeto criou-se uma Cordelteca e eu que n‹o era s— escritora de cordel, mas era tambŽm leitora, frequentava pra ler os cordŽis das pessoas, participava de uns saraus, recital etc. Os lan�amentos eram lindos. Porque eu sou anterior aos Mauditos, nŽ? Ent‹o, eu publico antes dos Mauditos ‒ que Ž o grupo que eu ajudei a fundar junto com Fanka e outras pessoas ‒, que ali‡s vai sair um livro agora de autoria de Cl‡udia Rejane sobre os Mauditos. Eu quero atŽ confessar para voc�s que deu o maior babado...

[Seguindo a t™nica dos folhetins, a continua�‹o da entrevista ser‡ publicada em outro momento, de modo a manter agu�ada a curiosidade de nossas leitoras e leitores]



[1] Edilene Matos Ž ensa’sta, professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia. Ocupa a cadeira nœmero 13 da Academia de Letras da Bahia.

[2] Ant—nio Aleixo foi agraciado com o Grau de Oficial da Ordem de Benemer�ncia, em 27 de maio de 1944.

[3] Ant™nio Vieira (Ant™nio JosŽ dos Santos Vieira), poeta, nasceu em fevereiro de 1949 e morreu em junho de 2007.

[4] Cordel Remo�ado Ž um conceito criado por Ant™nio Vieira e consiste na palavra dita e/ou escrita ao modo dos folhetos de cordel, que se faz acompanhar pelo movimento do corpo ao som de instrumentos musicais: viol‹o, pandeiro e percuss‹o.

[5] Refiro-me ˆ est‡tua em bronze do poeta Ant—nio Aleixo, sentado ˆ mesa na Esplanada do CafŽ Calcinha, em LoulŽ, de autoria de Lagoa Henriques. H‡, ainda em LoulŽ, uma outra est‡tua de Aleixo, na Quinta do Lago, de autoria do mesmo Lagoa Henriques e igual ˆ do CafŽ Calcinha.

[6] Ant—nio Fernando dos Santos – T—ssan (1918-1991), grande amigo de Ant—nio Aleixo, foi um expressivo artista e poeta portugu�s.

[7] H‡, no sul de Portugal, um antigo costume de grupos de crian�as que v‹o de porta em porta, durante as festas natalinas, cantar as ÒjaneirasÓ, quadras que se v‹o repetindo, alterando-se apenas o nome do dono da casa, que Ž ent‹o homenageado em troca de algum dinheiro ou prenda natalina.

[8] Na concep�‹o de Ant—nio de Oliveira Salazar, o popular tem uma matriz rural, com a qual se identifica, explica�‹o dada em seus discursos pol’ticos. Cf. MELO, Daniel. O essencial sobre a cultura popular no Estado Novo. Coimbra: Angelus Novus, 2010.

[9] ÒEste sujeito Ž capaz/de fazer mil promessas/mas faz tudo ˆs avessas/das promessas que faz.Ó O primeiro verso dessa quadra era ÒO Salazar Ž capazÓ e foi substitu’do por Magalh‹es para proteger o amigo poeta. Cf. DUARTE, Ant—nio de Sousa. Ant—nio Aleixo, o poeta do povo. Lisboa: åncora, 1999, p. 79.

[10] Acrescida ˆ obra de improviso de Aleixo, a parte do teatro Ž muito interessante. S‹o tr�s autos: 1. O Auto do Curandeiro, no qual exp›e sua vis‹o a favor do saber mŽdico e faz cr’ticas ˆ explora�‹o dos curandeiros. 2. O Auto da Vida e da Morte. Nesse auto, o autor cria personagens como o da vida œtil e o da vida fœtil e traz novamente a vis‹o da ci�ncia a servi�o da vida. 3. Ti Joaquim. Auto inconcluso, escrito em coautoria com T—ssan, anuncia uma sociedade que n‹o tolera formas de subvers‹o.

[11] 7» edi�‹o do livro Este Livro que vos deixo, publica�‹o de V. Martins Aleixo, 1983, localizada em Obras Gerais IV – 348.3.33

[12] Ant—nio Aleixo: o poeta do povo por Ant—nio de Sousa Duarte. Lisboa: åncora, 1999. PQ 9261 – A484 Z67 1999; ALEIXO, Ant—nio. InŽditos (sele�‹o, pref‡cio, notas, fixa�‹o de textos e t’tulos por Ezequiel Ferreira. LoulŽ, 1978. NLCS 81/0610.

[13] ALEIXO, Ant—nio. InŽditos. LoulŽ. V. Aleixo, 1978. FRBNF 35232149; Este livro que vos deixo (3». ed.). Lisboa, 1975 (contŽm um inŽdito do autor – O Auto de Ti Joaquim). FRBNF 35408496.

[14] E-mail: fundacao.aleixo@gmail.com.

[15] Zeca Afonso – JosŽ Manuel Cerqueira Afonso (1929/1987), compositor, cantor, poeta, autor de v‡rias can�›es, incluindo Gr‰ndola, Vila Morena (Cantigas do Maio, 1971), que virou senha pelo Movimento que instaurou a democracia, em Portugal no dia 25 de abril de 1975.

[16] O espet‡culo Ž uma cocria�‹o e interpreta�‹o de Armando Correia, Carolina Cantinho e Pedro Pinto.

[17] Acr—stico de Ant™nio Vieira e constante de todos os seus folhetos a que tive acesso.

[18] Em 2007, foi defendida uma disserta�‹o de Mestrado em torno da obra de Ant™nio Vieira, sob o t’tulo O Cordel Remo�ado: os casos e prosas do poeta cordelista Ant™nio Vieira, de autoria de Maria Luiza Franca Sampaio, no Curso de P—s-gradua�‹o em Cultura, Mem—ria e Desenvolvimento Regional do Departamento de Ci�ncias Humanas, Campus V, da UNEB (Universidade do Estado da Bahia).

[19] Essa poesia foi declamada por Maria Beth‰nia no espet‡culo dentro do mar tem rio. E foi gravada posteriormente no DVD Piratas.

[20] Os folhetos eram tambŽm denominados por Ant™nio Vieira de ÒlivretosÓ. Esses folhetos/livretos foram adquiridos por mim nas m‹os de sua viœva (Coracy Vieira).

[21] Dona Can™: m‹e dos artistas Caetano Veloso e Maria Beth‰nia.

[22] Essa publica�‹o foi no m�s de dezembro e o poeta habilmente chamou a aten�‹o para a tradi�‹o de dar presentes no Natal, publicizando seu folheto.

[23] O Encontro de Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo, folheto de autoria de Ant™nio Vieira, 2005. Este folheto se encontra na Biblioteca do Congresso Americano, AFC 1970/002: M08302.

[24] Professor Substituto da UNEB e pesquisador em Literatura de Cordel.

[25] Optamos aqui pelo termo folheto que tambŽm engloba romance em vez de cordel.

[26] SOUSA, 2012.

[27] SOUSA, 2010a.

[28] SOUSA, 2016.

[29] SOUSA, 2009, p.107-111.

[30] SOUSA, 2010b.

[31] SOUSA, 2018.

[32] SOUSA, 2016.

[33] Professora emŽrita da UniversitŽ de Poitiers. Centre de Recherches Latino-AmŽricaines. Poitiers, Fran�a. E-mail: rialemaire@hotmail.com

[34] Em A peleja poŽtica epistolar entre a poetisa Bastinha e o poeta Patativa do AssarŽ (SANTOS, 2011, p. 46-47), Francisca Pereira Santos publicou trechos dessa correspond�ncia.

[35] Existe, desde 2013, a Rede Mnemosine, fundada pela pesquisadora/narradora/cordelista Josy Correia. Inspirada pela tese de doutoramento de Fanka Santos e oficializada em 2015, a rede promove a�›es de mapeamento, pesquisa, difus‹o e frui�‹o de folhetos, recitais e feiras produzidas por mulheres. No ano de 2017, chegou a Portugal, onde possui um acervo de folhetos femininos, partilhados com a Universidade do Algarve e promove eventos, programas radiof™nicos e audiovisuais, transmitidos ao vivo pela Internet. Contato: redemnemosine@gmail.com

[36] A respeito do conceito de matrim™nio, ver Lemaire (2018).

[37] Atualmente Ž Rita Segato que, j‡ nos quadros do pensamento decolonial, retoma a no�‹o de dualidade plural como base da metodologia do trabalho antropol—gico, n‹o sobre mas com as (mulheres das) comunidades ind’genas do Brasil (SEGATO, 2012).

[38] Men Engage Ž um movimento intercontinental, criado por homens e apoiado por movimentos de mulheres do mundo inteiro, que, todos juntos, objetivam e praticam um questionamento radical da viol�ncia masculina e seus funcionamentos nas sociedades humanas. Um simp—sio virtual, o UBUNTU SYMPOSIUM, reœne, em cont’nuo e durante oito meses (de novembro de 2020 a junho de 2021), ativistas, militantes, movimentos, pensadores, profissionais e inteletuais para divulgar e debater as condi�›es e experi�ncias de uma re-educa�‹o dessa viol�ncia masculina como conditio sine qua non de uma humaniza�‹o e pacifica�‹o do planeta-mundo.

[39] Mestrando em Estudos Liter‡rios no Programa de P—s-gradua�‹o em Lingu’stica e Literatura da Universidade Federal de Alagoas.

[40] Doutora em Literatura e Cultura-UFBA e Professora da Universidade do Estado da Bahia – UNEB, Campus III – Juazeiro.

[41] Usamos no decorrer deste texto as express›es: voz ind’gena, eu ind’gena e eu-poŽtico para nos referirmos ao eu-l’rico dos poemas.

[42] O poema conta com cinco estrofes, no entanto, aqui, traremos apenas a primeira e a œltima estrofes.

[43] Uma vers‹o preliminar da tem‡tica abordada aqui foi apresentada pela autora no IV Semin‡rio Fluminense de Sociologia, realizado pelo PPGS-UFF em 2015 em comunica�‹o intitulada Ò... Mesmo que nos arranquem os dentes e a l’nguaÓ: o espa�o sagrado da fala na literatura ind’gena. O presente artigo amplia o debate, aprofundando conceitos e propondo novas quest›es de investiga�‹o.

[44] P—s-doutora em Sciences de LÕInformation et de la Communication pela UniversitŽ dÕAvignon et des Pays de Vaucluse-UAPV. Integrante do Grupo de Pesquisa CNPQ Imagem, Corpo e Subjetividade, p—s-doutoranda em Comunica�‹o e Cultura pelo Programa de P—s-gradua�‹o em Comunica�‹o e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro – PPGCOM-UFRJ.

[45] Eliane Potiguara apelida Marina, a esposa do l’der ind’gena guarani do sŽculo XVIII, SepŽ Tiaraju. Ela aparece como Ju�ara em outros textos seus.

[46] Para mais informa�›es, ver LEITE, Renata Daflon. êndios Online: posts que n‹o querem calar. Curitiba: Editora Prismas, 2017, p. 46.

[47] Doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais e professora da Universidade Federal de Ouro Preto.

[48] ÒSe os autores, por uma raz‹o ou por outra, n‹o conseguiram citar uma s— autora, uma s— trovadora, Ž que realmente o Ôsexo fracoÕ n‹o se interessa pelo cancioneiro nordestinoÓ (LUYTEN, 2003, p. 146 apud Santos, 2020, p. 14) [grifo nosso].

[49] instagram.com/julie.oliveras

[50] Pesquisadora bolsista FAPERJ. Possui gradua�‹o em Letras – L’ngua Portuguesa e Literatura – ABEU Centro Universit‡rio (2016), especialista em Literaturas Portuguesa e Africanas – UFRJ (2018). Atualmente, cursa Mestrado em Letras Vern‡culas, ‡rea de Literaturas Africanas e Ž integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas Escritas do Corpo Feminino nas Literaturas de L’ngua Portuguesa ambos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

[51] Gradua�‹o em Letras (Ingl�s), pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982); mestrado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1988); doutorado em Literaturas Africanas, pela Pontif’cia Universidade Cat—lica do Rio de Janeiro (1997) e desenvolveu pesquisa de p—s-doutorado, em Literaturas de l’ngua portuguesa, em Paris IV (Sorbonne), com �nfase na escrita feminina (2016). Atualmente, Ž professora-associada de Literaturas Africanas na Universidade Federal do Rio de Janeiro, universidade onde trabalha desde 2006. Tem experi�ncia na ‡rea de Letras, voltando-se para Literaturas de l’ngua portuguesa (Literaturas Africanas, Afro-brasileiras e Portuguesa) e atuando principalmente nos seguintes temas: literaturas africanas e literatura comparada. Desenvolve pesquisa em literaturas de l’ngua portuguesa e interessa-se, sobretudo, por imagens ligadas ao universo do riso, da busca de felicidade e das quest›es de g�nero. ƒ pesquisadora associada do CRIMIC (Centre de Recherches Interdisciplinaires sur les Mondes IbŽriques Contemporains).

[52] Com o intuito de facilitar a identifica�‹o das vozes narrativas, escolhemos nomear Cremilda como narradora-protagonista, ou seja, aquela que conta a hist—ria, e Elisabete como narradora-ouvinte, por escutar e escrever as falas de Cremilda.

[53] bell hooks Ž professora, fil—sofa e intelectual negra americana. Seu nome de nascimento Ž Gloria Jean Watkins, e seu pseud™nimo, inspirado no nome de sua bisav— materna, Ž escrito em letras minœsculas com a finalidade de passar a aten�‹o da figura autoral para as ideias de seus textos.

[54] Possui gradua�‹o em Letras Vern‡culas pela Universidade Estadual de Feira de Santana/UEFS (2006), Especializa�‹o em L’ngua Portuguesa e Literatura Brasileira pela Faculdade Cat—lica de Ci�ncias Econ™micas da Bahia/FACCEBA. Mestranda do Programa de P—s-gradua�‹o em Cr’tica Cultural (P—s Cr’tica/UNEB).

[55] Possui Gradua�‹o em Letras Vern‡culas (Universidade Federal da Bahia/1987), Mestrado em Letras e Lingu’stica (Universidade Federal da Bahia/1995) e Doutorado em Comunica�‹o e Semi—tica (Pontif’cia Universidade Cat—lica de S‹o Paulo/2005). ƒ Professora Titular Plena de Literatura Portuguesa da Universidade do Estado da Bahia, atuando como professora permanente no Programa de P—s-gradua�‹o em Cr’tica Cultural (P—s Cr’tica/UNEB). Integrou por diversas vezes a coordena�‹o do GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL. Tem experi�ncia na ‡rea de Letras, com �nfase em Literatura, pesquisando os seguintes temas: tradi�‹o oral, identidade cultural, literatura oral e conto popular.

[56] S‹o Sebasti‹o do PassŽ est‡ situado na Regi‹o Metropolitana de Salvador e fica distante 58 quil™metros da capital, a 37 metros de altitude. Segundo dados do IBGE de 2019, sua ‡rea total Ž de 538,32 km² e popula�‹o de 44.300 habitantes. O munic’pio possui quatro distritos: NazarŽ de Jacu’pe, Lamar‹o do PassŽ, Maracangalha e Banco de Areia.

[57] Entende-se por arquivo Òum conjunto de documentos produzidos e acumulados por uma entidade coletiva [ou individual], pœblica ou privada, pessoa ou fam’lia, no desempenho de suas atividades, independentemente da natureza do suporteÓ (SANTOS, 2016, p. 27).

[58] Faz-se refer�ncia a Maria Am‡lia da Cruz (03/05/2011-16/02/1992), foi uma moradora e sambadeira, natural de Maracangalha. ÒEra uma verdadeira e primorosa artista n‹o s— na arrancada como no sapateado perfeito, na caprichada rodada e na umbigada finalÓ (PAIVA, 1996, p. 26, grifo do autor). Segundo, Paiva e moradores da vila, Maria Am‡lia da Cruz Ž ÒAn‡liaÓ, musa de Caymmi.

[59] Besouro Ž descrito como um Òhomem temido em toda regi‹o por sua valentia e mandingas [...]. Capoeirista de primeira linha, puxador de samba [...]Ó (PAIVA, 1996, p. 67).

[60] ÒO Ôsignificado do letramentoÕ varia atravŽs dos tempos e das culturas e dentro de uma mesma cultura. Por isso, pr‡ticas t‹o diferentes, em contextos t‹o diferenciados, s‹o vistas como letramento, embora diferentemente valorizadas e designando a seus participantes poderes tambŽm diversosÓ (ROJO, 2009, p. 99).

[61] A composi�‹o, de tradi�‹o oral, foi gravada por Clementina de Jesus no LP ÒMarinheiro s—Ó. A cantiga Ž, por vezes, atribu’da a Caetano Veloso, que foi quem produziu o LP de Dona Clementina, lan�ado em 1973, assim como quem fez a adapta�‹o da cantiga.

[62] Prova disso Ž a Revolta da Chibata, rebeli‹o de negros marinheiros em 1910. O que motivou o motim foi justamente o uso de chibatadas, aceito oficialmente, por oficiais brancos para punir marinheiros negros e mulatos.

[63] Graduou-se em Licenciatura em Letras com habilita�‹o em portugu�s/italiano pela Universidade Estadual Paulista Jœlio de Mesquita Filho – UNESP/IBILCE, Campus de S‹o JosŽ do Rio Preto-SP. Desenvolve pesquisa de Mestrado com fomento CAPES junto ao Programa de P—s-gradua�‹o em Letras, pela Unesp/S‹o JosŽ do Rio Preto-SP. ƒ membro do grupo de pesquisa ÒNarrativas maravilhosas, m’ticas ou populares: da oralidade ˆ literaturaÓ (CNPQ), liderado pela Prof.» Dr.» Maria Celeste Tommasello Ramos.

[64] Assim como o italiano Gian Francesco Straparola no sŽculo XVI, o italiano Giambattista Basile tambŽm recolheu uma vers‹o de ÒO gato de BotasÓ no sŽculo XVII, com o t’tulo de ÒCagliusoÓ, quarto entretenimento narrado na segunda jornada (fiaba IV, giornata II) de Lo cunti de li cunti.

[65] Do original: LÕopera � costruita in questo modo: � un racconto (il 50¼ composto da: appertura/ponti narrativi/chiusura) allÕinterno del quale vengono raccontati altri 49 racconti. Per questo lÕopera � stata intitolata racconto dei racconti. Si parla di gioco dei giochi nello stesso senso [...]. Il 50¼ racconto � la storia di Zoza che apre e chiude lÕopera ed ha la stessa struttura dellÕultimo racconto (I tre cedri, il 49 ¼: v. 9).

[66] Do original: E noi troveremo, anzitutto, che varii trattenemienti appartengono al grupo di quella, chÕ� la fiaba pi� famosa e pi� ricca di storia, la fiaba di Psiche – Cos“ il nono della G.II, nella quale se racconta di Lucciella.

[67] O poeta, folclorista e escritor brasileiro Marco HaurŽlio publica, alŽm das colet‰neas de contos populares, como Contos folcl—ricos brasileiros e Contos e f‡bulas do Brasil, v‡rios t’tulos do acervo da literatura oral brasileira, dentre eles assuntos de cordel. Suas publica�›es podem ser encontradas em: https://marcohaurelio.blogspot.com/p/bibliografia.html.

[68] Nesta se�‹o, feita por Paulo Correia em julho de 2007, ele escreve: ÒTodos os contos desta colet‰nea foram classificados de acordo com o cat‡logo ATU, com exce�‹o dos que nele n‹o figuram, classificados com a ajuda de cat‡logos regionaisÓ (HAURƒLIO, 2011, p. 198).

[69] Do original: Sarˆ proprio Ciommetella con il suo ultimo racconto, che � anche il racconto conclusivo della raccolta (se si esclude quello principale di Zoza), a smascherare lÕingano della schiava.

[70] Do original: che prende lo stomaco; quel senso di nausea che rimane e non se ne va mai. E' la sensazione di chi rumina invidia e che viene ripagato cos“ dalla sua stessa natura.

[71] ÒO nome ÔFolia de ReisÕ designa grupos cat—licos populares, que se reœnem no per’odo de 24 de dezembro, ˆ noite, atŽ o dia 6 de janeiro, para oferecer seu voto de devo�‹o ao Santos Reis, em comemora�‹o ao nascimento do menino JesusÓ (KIMO, 2006, p. 1).

[72] A letra da can�‹o ÒSauda�‹o da LapinhaÓ est‡ integralmente transcrita na disserta�‹o de mestrado Mœsica, ritual e devo�‹o no terno de folia de Reis do Mestre Joaquim Pol—, defendida por Igor Jorge Kimo, da qual retiramos os versos citados.

[73] Resultado da pesquisa de campo do conto m’tico de Apuleio no imagin‡rio baiano, empreendida na dŽcada de 90, Ž o livro Belas e feras baianas: um estudo do conto popular (2008), publicado pela pesquisadora e folclorista brasileira Doralice Xavier Fernandes Alcoforado que atuou como professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

[74] Mestranda em Estudos Liter‡rios pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa a rela�‹o entre pol’ticas pœblicas municipais e estaduais e a literatura.

[75] Mestranda em Estudos Liter‡rios pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa a performance e os saraus liter‡rios em Londrina.

[76] SANTOS, Fiama Helo’sa Silva dos. Entrevista - Sarau das Pretas. Concedida a Ana Cristina Pereira da Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 13 jul. de 2020. No prelo.

[77] SANTOS, Poliana. Entrevista 2 – Sarau das Pretas. çudios transcritos de WhatsApp. Concedida a Ana Cristina Pereira da Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 28 jul. de 2020. No prelo.

[78] SANTOS, 2020, s/p.

[79] Excerto da p‡gina do Facebook do coletivo COLETIVO LUêSA MAHIN – SARAU DAS PRETAS. Dispon’vel em: https://www.facebook.com/saraudaspretaslondrina. Acesso em: 10 ago. 2020.

[80] SANTOS, Fiama, 2020, s/p.

[81] SANTOS, Poliana, 2020, s/p.

[82] Neste trecho da entrevista, a colaboradora Salete Maria recita o cordel ÒA chegada do Lampi‹o no InfernoÓ numa tentativa de exemplifica�‹o das corre�›es da av— sofridas por ela na sua inf‰ncia. Essa pr‡tica se repetir‡ ao longo da entrevista.

[83] O filme chama-se Jana’na Dutra: Uma Dama de Ferro. Dispon’vel em: https://www.youtube.com/watch?v=zdtNOHia1qA. Acesso em: 10 jul. 2020.

[84] A colaboradora se referia a mesma terapia conhecida tambŽm como Iodoterapia ou mesmo Radioiodoterapia.