REVISTA DO GT DE LITERATURA ORAL E POPULAR DA
ANPOLL
Revista Boitat‡ Ž uma publica�‹o semestral, de
acesso livre, do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de
Pesquisa e P—s-Gradua�‹o em Letras e Lingu’stica (ANPOLL)
GT LITERATURA ORAL E POPULAR
BIæNIO 2020/2022
COORDENADORA
Profa. Dra. DŽlcia Pombo
Secretaria Estadual de Educa�‹o do Par‡
delciauab@gmail.com
VICE-COORDENADORA
Profa. Ma. Dia Favacho
PPGED-UEPA
favachodia1@gmail.com
SECRETçRIO
Profa. Dr. Alexandre Ranieri Ferreira
SEDUC/UFPA
alexandre_ranieri@hotmail.com
IDADE MƒDIA
ORALIDADE E PERFORMANCE
Dados Internacionais de Cataloga�‹o na
Publica�‹o (CIP)
Bibliotec‡rio: Marcos
Moraes – CRB: 9/1701
|
Boitat‡:
Revista do GT de Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa
e P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica - ANPOLL [recurso eletr™nico] /
Universidade Estadual de Londrina - n. 32, v. 2, jul. /dez., 2021. –
Londrina: UEL; Bras’lia: ANPOLL, 2021. Semestral Requisitos do sistema: Adobe Reader. Modo de acesso: < http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/index> ISSN: 1980-4504 1.
Literatura oral 2. Narrativas orais 3. Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais
Populares da Amaz™nia Paraense (IFNOPAP) I. Ferreira, Alexandre Ranieri. II. Fernandes, Frederico Augusto Garcia III.
Universidade Estadual de Londrina. IV. Associa�‹o Nacional de Pesquisa e
P—s-gradua�‹o em Letras e Lingu’stica. V. T’tulo: Boitat‡: Revista do GT de
Literatura Oral e Popular da Associa�‹o Nacional de Pesquisa e P—s-gradua�‹o
em Letras e Lingu’stica - ANPOLL |
CDD: 808.5
CDU: 82
êndice
para o cat‡logo sistem‡tico:
|
1. 2. |
Oralidade Cultura popular |
82 |
EXPEDIENTE
EDI‚ÌO
Dr. Alexandre Ranieri
Ferreira (UFPA)
Dr. Frederico Augusto
Garcia Fernandes (UEL)
EDITORIA ASSISTENTE
Dr. Alexandre Ranieri
Ferreira (UFPA)
ORGANIZA‚ÌO
Dra. Maria do Socorro
Sim›es
COMISSÌO EDITORIAL
Dra. Anna Christina
Bentes
Universidade Estadual de
Campinas
Dra. Ana Lœcia Liberato
Tettamanzy
Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
Dra. Berenice Araceli
Granados V‡squez
Universidad Nacional Aut—noma
de MŽxico
Dra. Cl‡udia Neiva de
Mattos
Universidade Federal
Fluminense
Dra. Edil Silva Costa
Universidade Estadual da
Bahia
Dr. Eudes Fernando Leite
Universidade Federal da
Grande Dourados
Dr. Frederico Augusto
Garcia Fernandes
Universidade Estadual de
Londrina
Dr. J. J. Dias Marques
Universidade do Algarve
(Portugal)
Dr. Jorge Carlos Guerrero
University of Ottawa
(Canada)
Dr. JosŽ Guilherme dos
Santos Fernandes
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Josebel Akel Fares
Universidade Estadual do
Par‡
Dra. Lisana Bertussi
Universidade de Caxias do
Sul
Dra. Maria do Socorro
Galv‹o Sim›es
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Maria Incoronata
Colantuono
Universitat Aut˜noma de
Barcelona
Dr. M‡rio Cezar Silva
Leite
Universidade Federal de
Mato Grosso
Dr. Ronald Ferreira da
Costa
Professor do Instituto
Federal do Paran‡
Dr. S’lvio Renato Jorge
Universidade Federal
Fluminense
Dra. Vanderci de Andrade
Aguilera
Universidade Estadual de
Londrina
Dra. Vera Lœcia Medeiros
Universidade Federal do
Pampa
PARECERISTAS DESTE NòMERO
Dr. Alexandre Ranieri
Ferreira
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Berenice Araceli
Granados V‡squez
Universidad Nacional
Aut—noma de MŽxico
Dra. Claudia Freitas
Pantoja
Faculdades Integradas do
Vale do Iva’
Dr. Dejair Dion’sio
Universidade Estadual do
Centro-Oeste
Dra. DŽlcia Pombo
Secretaria Estadual de
Educa�‹o
Dra. Francisca Pereira
dos Santos
Universidade Federal do
Cariri
Dr. Frederico Augusto
Garcia Fernandes
Universidade Estadual de
Londrina
Dra. Laura Regina dos
Santos Dela Valle
Universidade Federal do
Rio Grande do Sul
Dra. L�nia M‡rcia
Mongelli
Universidade de S‹o
Paulo
Dra. Maria do Socorro
Galv‹o Sim›es
Universidade Federal do
Par‡
Dra. Maria Incoronata
Colantuono
Universitat Aut˜noma de
Barcelona
Dra. Mauren Pav‹o da Hora
Vidal
Instituto Federal Baiano
REVISÌO
Dos
autores
SUMçRIO
EDITORIAL
IFNOPAP:
uma nascente de hist—rias
Alexandre Ranieri Ferreira, Maria do
Socorro Sim›es ...................................................................5
CONVIDADO
IFNOPAP em mem—rias: come�o e meio
Alexandre Ranieri
Ferreira...............................................................................................................8
DOSSIæ
Corpo-velho: reflex›es sobre o envelhecimento feminino em
narrativas orais da Matintaperera
Andressa Araœjo, Rafaella Costa, Maria do
Socorro Sim›es, Rubenil da Silva Oliveira ..............17
O maravilhoso amaz™nico, uma poŽtica da alteridade
Sylvia Maria Trusen........................................................................................................................29
SE‚ÌO LIVRE
Intertextos de Romeu e
Julieta nos folhetos nordestinos
Weber Firmino Alves, Naelza de Araœjo Wanderley ....................................................................39
O estatuto m’tico e a dimens‹o argumentativa em narrativas de
enterro produzidas em comunidades quilombolas
Emanuel Fontel, Regina Cruz, Benedita
Borges, Thaynara Paix‹o................................................52
Oralidade e quadrinhos: possibilidades pedag—gicas
Alberto Ricardo Pessoa, Cristiano Clemente de
Souza..................................................................64
Paisagem religiosa: o catolicismo popular e as companhias de
reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG
F‡bio Martins, Leonel Brizolla Monastirsky..................................................................................71
Poesia in concert:
a palavra de volta ˆ rua
Kaedmon Sellberg Soares...............................................................................................................85
Vozes poŽticas e (re)exist�ncias quilombolas do grupo Ra’zes
do Samba de Tocos de Ant™nio Cardos-BA
Eliziane Santos e Santos, Renailda Ferreira
Cazumb‡................................................................102
APRESENTA‚ÌO
IFNOPAP: uma
nascente de hist—rias
Um
dossi� tem‡tico com o Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da
Amaz™nia Paraense Ž de uma responsabilidade muito grande. O IFNOPAP Ž um
projeto importante para os estudos das PoŽticas Orais. Com quase 30 anos de
exist�ncia, uma infinidade de Teses, Disserta�›es, TCCÕs e artigos cient’ficos
ele talvez seja mais que um projeto, um adjetivo, gent’lico, como a professora
Socorro Sim›es; capit‹ desde batel que flutua entre rios, florestas, espa�os e
ciberespa�os chama-nos. Somos todos Ifnopapianos de muitos costados.
E, em
mais essa viagem do IFNOPAP, come�amos com algumas mem—rias de Alexandre
Ranieri que entrou quase que por acaso no projeto e nunca mais saiu. O texto IFNOPAP em mem—rias: come�o e meio Ž recheado
de emo�‹o e carinho, alŽm de demonstrar a maneira como o projeto perpassa o
percurso acad�mico do convidado.
O primeiro
artigo deste dossi� assinado por Andressa Ramos, Rafaella Costa e Rubenil
Oliveira em parceia com a professora Socorro Sim›es Corpo-velho: reflex›es sobre o envelhecimento feminino em narrativas
orais da Matintaperera traz a lume uma quest‹o relevante aos dias de hoje:
o padr‹o de beleza associado ao corpo feminino, sempre julgado e pressionado,
ao passo que, em tempos de pandemia, os corpos velhos sofreram mais que outros
o descaso de pol’ticas pœblicas e a indiferen�a dos jovens. Portanto, publicar
este artigo que desbanca os estere—tipos em torno do corpo feminino envelhecido
a partir de narrativas orais amaz™nicas de Matintaperera Ž (re)humanizar esses
corpos subalternizados que retomam sua condi�‹o de sujeito ora discriminados
nessa modernidade cada vez mais l’quida, egoc�ntrica e narcisita.
O
pr—ximo artigo do dossi� assinado pela professora Sylvia Maria Trusen da
Universidade Federal do Par‡, O
maravilhoso amaz™nico, uma poŽtica da alteridade, faz uso das narrativas do
projeto publicadas no ÒAbaetuba conta...Ó destacando a categoria da alteridade,
muitas vezes esquecida e engolida pela arrog‰ncia do ego, para a leitura das
narrativas do Imagin‡rio Amaz™nico.
Mas
n‹o Ž s— o IFNOPAP que Ž feito de hist—rias. Recebemos, nesta edi�‹o, tambŽm
artigos de outras paragens, outros nortes, prenes de diversidade. E essa viagem
come�a pelos folhetos de cordel nordestinos e suas vers›es de uma obra prima da
Literatura mundial: Intertextos de Romeu
e Julieta nos folhetos nordestinos de Weber Firmino Alves e Naelza de
Araœjo Wanderley trata da rela�‹o entre esses textos do imagin‡rio popular e a
hist—ria imortalizada por William Shakespeare.
Voltando
ao norte o artigo de Emanuel Fontel, Regina
Cruz, Benedita Borges, Thaynara Paix‹o intitulado O estatuto m’tico e a dimens‹o argumentativa em narrativas de enterro
produzidas em comunidades quilombolas mergulha nas comunidades quilombolas
do Estado do Par‡ para desvelar o estatuto m’tico das narrativas de enterro.
Saindo mais uma vez do norte e voltando ao nordeste, mais
especificamente ˆ Para’ba, os autores Alberto Ricardo Pessoa e Cirstiano
Clemente de Souza analisam uma rela�‹o que, para algumas pessoas n‹o parece
clara, mas que vai se tornando a medida em que lemos o artigo Oralidade e quadrinhos: possibilidades
pedag—gicas. Pensando nisso os autores exploram essas possibilidades que os
quadrinhos proporcionam ao estudo da oralidade.
Descendo do nordeste ao sudeste, da
Para’ba a Minas Gerais, F‡bio Martins, Leonel Brizolla Monastirsky nos
transportam ˆ paisagem religiosa criada pelo catolicismo popular da campanha de reis e do Menino Jesus de
Carmo do Rio Claro no artigo Paisagem religiosa: o catolicismo popular e as companhias de
reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG. E nessa viagem que empreendemos
lendo o texto nos faz ÒverÓ as paisagens sonoras e gustativas que ajudam a
compor a religiosa.
Descendo um pouco mais, ao Sul, no
norte do Paran‡, em Londrina, Kaedmon Selberg Soares em Poesia in concert: a palavra de volta ˆ rua trata do agrupamento Poesia in concert e a sua reincorpora�‹o no Festival Liter‡rio de Londrina
(Londrix), ressaltando a import‰ncia social do evento para a cidade e
relembrando outros tempos do Bar Valentino.
Saindo do norte do Paran‡, nossa viagem termina em Ant™nio
Cardoso na Bahia onde Renailda Ferreira Cazumb‡ e Eliziane Santos e Santos
tratam das hist—rias e vida dos mestres e mestras do Grupo Ra’zes do Samba e
seus sambadores e sambadeiras no artigo Vozes
poŽticas e (re)exist�ncias quilombolas do Grupo Ra’zes de Toco de Ant™nio
Cardoso – BA.
Esperamos que a vigem por todos esses lugares e pessoas e
seres e hist—rias seja prof’cua e encante aos leitores da mesma forma que nos
encantou como revista.
Maria do Socorro Sim›es
CONVIDADO
IFNOPAP em mem—rias:
come�o e meio
Memory IFNOPAP: beginning and middle
Alexandre Ranieri
Ferreira[1]
https://orcid.org/0000-0002-3689-9682
Resumo: Tratar da minha rela�‹o
com o IFNOPAP (O imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense) Ž simplesmente mesclar boa parte
da minha vida pessoal e acad�mica. Falar do meu percurso acad�mico Ž iniciar
com o projeto IFNOPAP, ter em mente que boa parte dessa viv�ncia se deve a ele
e que n‹o existe um fim em que se possa dizer que a minha rela�‹o com o projeto
h‡ de acabar. As mem—rias que apresento neste artigo demonstram a import‰ncia
da minha rela�‹o com o projeto e a professora Socorro Sim›es que desembocou em
desdobramentos v‡rios sem os quais tantas outras conquistas acad�micas n‹o seriam
poss’veis.
Palavras-Chave: IFNOPAP; Acad�mico; Mem—rias.
Abstract: Dealing with my relationship with IFNOPAP (The Imaginary in Popular Oral
Narrative Forms of the Amazonian Paraense) is simply mixing a most of my
personal and academic life. To talk about my academic path is to start with the
IFNOPAP project, keeping in mind that a good part of this experience is due to
it and that there is no end in which it can be said that my relationship with
the project will end. The memories I present in this article demonstrate the
importance of my relationship with the project and Professor Socorro Sim›es
ended up in several developments without which so many other academic
achievements would not be possible.
Keywords:
IFNOPAP; Academic; Memories.
Um come�o
Nos idos dos anos 2004 retornava a Universidade
Federal do Par‡ de pois de passar tr�s longos anos afastado e cursando
Processamento de Dados no Centro Universit‡rio do Par‡ (CESUPA). Na realidade,
as poucas aulas, a pouca intimidade com os colegas de turma e as poucas
possibilidades de emprego no ano de 1999 me fizeram procurar outra forma�‹o e
melhores oportunidades. Era uma forma�‹o particularmente dif’cil para alguŽm
pouco apegado a nœmeros. Mas os anos que passei l‡ me ensinaram mais do que eu
achava que aprenderia e me presenteariam com amigos que atŽ hoje cultivo.
Terminado o curso, n‹o satisfeito com a forma�‹o
em computa�‹o, decidi fazer uma p—s-gradua�‹o em Marketing na Universidade da
Amaz™nia (UNAMA). Como as aulas eram a noite e apenas uma semana por m�s,
decidi retornar ao curso de letras. Para explicar as minhas aus�ncias em
detrimento do curso, conversei com a professora Germana Sales, professora de
Literatura Portuguesa. Quando ela soube da minha forma�‹o, imediatamente me
convidou a conhecer a professora Socorro Sim›es e o projeto Multiletras.
Em pouco tempo constru’ o site do projeto,
organizei obras e ajudei a coordenador o primeiro encontro do projeto. Desde
ent‹o muitas outras propostas se seguiram, criando logomarcas para projetos,
sites e prestando consultoria em inform‡tica a v‡rias pessoas que me
procuravam. Outros projetos se seguiram mas acredito que a minha grande virada
acad�mica se deu no ano de 2005 quando fui convidado a fazer parte da equipe do
Encontro IFNOPAP (O Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da
Amaz™nia Paraense) em Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arar’.
Foi
a partir daquele momento que percebi o que queria ser: pesquisador. O trabalho
era ‡rduo, cansativo, ˆs vezes desorganizado, mas n‹o consigo imaginar que hoje
estaria onde estou se n‹o tivesse participado daquele evento.
Olhava
embasbacado a pessoas como Josebel Akel Fares, Frederico Fernandes, M‡rio Cezar
Leite, Arion Rodrigues, Ana Suelly dentre outros. Eu os olhava, admirava e
queria um dia poder dividir uma mesa com eles.
Naquele
ano, a alegria foi tanta que alŽm de escrever uma pe�a bem humorada sobre as
agruras que vivemos, escrevi um texto em homenagem ao evento e ˆ professora
Socorro Sim›es. Foi a primeira vez que me imaginei pesquisador, estudante de
Mestrado e posteriormente de Doutorado, professor universit‡rio e quem sabe um
dia apresentando ou dividindo mesas com aqueles que tanto admirava.
No
ano seguinte, em 2006: Ponta de Pedras. Foi quando tive oportunidade de
reencontrar o professor Willi Bolle, que conhecera durante o CIELLA, rever
Fred, M‡rio, Josebel e conhecer Edil Costa.
Em
2007 retornamos ˆs origens e partimos em dire�‹o a Bragan�a. Agora como
estudante da p—s em L’ngua Portuguesa: uma abordagem textual seguimos pelos mesmo
caminhos e como sempre ajudamos aqueles que mais precisavam. Levamos o
conhecimento de todos esses grandes nomes ˆs cidades de Bragan�a e Capanema.
Em
2008, j‡ no mestrado, fomos a mosqueiro. Levamos n‹o apenas conhecimento, mas
ajuda de parceiros como o PROPAZ. A emo�‹o veio com a gratid‹o das pessoas
atendidas.
No
ano de 2009 vistamos as ilhas ao redor de BelŽm e mais uma vez pude comprovar
que de pouco serve o conhecimento acad�mico se ele n‹o puder ser compartilhado
com a sociedade.
Um meio[2]
AlŽm
do projeto MultiLetras, tive oportunidade de trabalhar no projeto LAPEL e
colaborei em outros como o Ou�a os Mitos e Rotas do Mito. Durante as reuni›es
do projeto Ou�a os Mitos tive contato com o CD-ROM
Caleidosc—pio amaz™nico: uma aventura em imagens e cores feito com recursos
da UNESCO (United Nations Educational,
Scientific and Cultural Organization) e da UNAMAZ (Associação
de Universidades Amazônicas). Minha primeira impress‹o foi de profundo
fasc’nio, de tal forma que, quando comecei meus estudos de doutorado sob a
orienta�‹o do professor Dr. Frederico Fernandes na Universidade Estadual de
Londrina (UEL), n‹o pensei em outro objeto de estudo que n‹o fosse aquele
CD-ROM.
Obtive uma c—pia do material e durante alguns
dias li, reli, escutei e re-escutei cada uma daquelas historietas completamente
fascinado, porque me via em muitas delas. Reencontrava em cada uma delas o
passado, a inf‰ncia, parentes, amigos, Camet‡, BelŽm e vov—, em meio ˆs
personagens que j‡ estavam no meu subconsciente e com quem me deparei com
prazer frente a uma proposta que eu nunca havia visto.
Naquele mesmo ano, recebi outro convite da mesma
professora para fazer parte da equipe de organiza�‹o do IX Encontro IFNOPAP.
Fomos ao Maraj—, e, entre as cidades de Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari,
entrei em contato com o mundo acad�mico das poŽticas orais. Conheci professores
que reencontrei em todos os encontros posteriores, fiz amizades para toda a
vida, mas, principalmente, me reaproximei do (ou me reencontrei com o) cotidiano
de algumas comunidades t‹o pr—ximas geograficamente e t‹o distantes de mim atŽ
ent‹o, como na noite em que sentei com alguns professores em um bar em frente
ao trapiche de Soure, onde estava ancorado o barco da nossa comitiva. O
professor Frederico Augusto Garcia Fernandes, que viria a ser meu orientador no
doutorado, conversava com um senhor de uma
maneira bem amig‡vel e pr—xima, quando me viu e disse: Òvenha c‡, sente aqui.
Voc� quer conhecer a narrativa oral da Amaz™nia, ent‹o sente aqui...Ó. E foi mais um momento de revela�‹o:
passamos boa parte da noite escutando hist—rias de fogo-f‡tuo, matintas,
carro�as fantasmas, mulheres cheirosas e tantas outras que me fizeram quebrar
um ritual quase ÒsagradoÓ que me levava todas as noites ˆ Praia do Pesqueiro, para
conversar, beber e paquerar.
Foi naquele momento que o Òmenino da
Inform‡ticaÓ que namorava com livros impressos durante os tempos de greve na
universidade virou um homem. Naquele instante, vi outra beleza, nem mais nem
menos bonita que a do livro impresso, nem mais nem menos bonita que a do CD-ROM, mas que emprestava boa parte
dela a um e a outro. Vi a beleza, ainda com todos os ÒdedosÓ que atŽ hoje tenho
sobre o assunto, brotar ante os meus olhos e, em especial, ante aos meus
ouvidos, e eu me perguntava como ÒaquiloÓ foi parar ÒnaqueleÓ lugar, como
aquele cancioneiro foi parar naquele disco compacto, daquela forma, naquele
formato e com qual objetivo.
N‹o apenas o CD mas as hist—rias que deram
origem ˆs vers›es animadas em flash num outro formato, retextualizadas,
reoralizadas e que agora atendiam a um objetivo e pœblico diverso. Por isso
mergulhei nas narrativas originais. Escutei as grava�›es, procurei saber um
pouco melhor sobres os pesquisadores que haviam coletado aquelas narrativas,
mas tambŽm os narradores orais. Procurei imergir naquele universo t‹o distante
de mim pesquisando nos arquivos do projeto IFNOPAP.
Aprofundei-me no estudo dos mŽtodos de coleta e
transcri�‹o, analisando com cuidado os objetivos, de tal forma que pude
entender as inten�›es de um projeto pioneiro no Estado do Par‡ e que enfrentou
grandes resist�ncias atŽ tornar-se umas das maiores refer�ncias em oralidade no
Norte do pa’s.
Neste momento, analisei os mŽtodos utilizados
pelo IFNOPAP com base, em especial, mas n‹o exclusivamente, no documento
fornecido pela coordena�‹o do Projeto: Achegas para tŽcnica e Žtica da coleta
(1994). O documento Ž dividido em tr�s partes: Òa prop—sito do entrevistadorÓ,
Òa prop—sito do informanteÓ e Òa prop—sito da grava�‹oÓ. O œltimo item
divide-se em ÒantesÓ, ÒduranteÓ e ÒdepoisÓ da entrevista.
O que primeiro chamou aten�‹o nesta espŽcie de
Òpequeno manualÓ elaborado pelo IFNOPAP foi o nome dado a ele: ÒachegasÓ, que,
segundo Vilhena, era um termo muito usado pelos folcloristas para publica�›es
curtas – de cerca de tr�s laudas datilografadas – e indicava Òque o
autor pretendia apresentar hip—teses gerais sobre um problema, aproximar-se
ligeiramente de um assunto, ou somente acrescentar algumas informa�›es a um
debateÓ (VILHENA, 1997, p.177). O termo, outrora utilizado para aqueles
pequenos artigos, foi bem empregado para esse documento – tambŽm em tr�s
laudas – que trata de maneira geral de algumas (poucas) regras para a coleta
de narrativas.
Segundo a professora Maria do Socorro Sim›es, em
entrevista concedida para mim no dia 06 de janeiro de 2014, as achegas foram
feitas em parte com base na intui�‹o dos professores que participavam do
projeto, e em parte com mŽtodos cient’ficos orientados pelo professor Cristophe
Golder, que, na Žpoca, acabara de defender a sua tese de doutorado em semi—tica
pela UniversitŽ de Franche-ComtŽ, cujo tema versava sobre o bumba-meu-boi do
Maranh‹o.
Pensando nisso, no livro BelŽm conta... (1995),
o depoimento da pesquisadora T‰nia Pereira me chamou aten�‹o:
Mais um pouco de conversa e vem o aceite,
a abertura da porta, quase um ritual. Chegamos ˆ sala, ˆ sua vida, ˆs suas
hist—rias. Mais um pouco e estaremos em sua cozinha, com o copo dÕ‡gua, o cafezinho,
atŽ o almo�o. E escutamos uma infinidade de hist—rias, entremeadas pela
apresenta�‹o de um filho, de um vizinho, Òquase-parenteÓ. Nem todos s‹o assim.
Existem aqueles que insistem em manter alheia, aos nossos olhos, a sua
intimidade. N‹o tem import‰ncia: seu santu‡rio ser‡ sempre respeitado.
Basta-nos a maneira, h‡ uma ambiguidade: n‹o somos um deles. Somos intrusos em
seu ninho. Mas, de repente, nos sentimos como que fazendo parte do seu mundo
(SIMÍES; GOLDER, 1995, p.180).
Dessa
imers‹o pude entender o percurso movente que fez com que aquelas narrativas
sa’ssem do cancioneiro popular, fossem gravadas em arquivos sonoros que dessem
outra dimens‹o ao oral, depois fossem transcritas de acordo com critŽrios
preestabelecidos e posteriormente reescritas apagando grande parte de tra�os
latentes de oralidade. Depois disso novas vozes trabalhadas e com forte
apagamento de tra�os regionais as recontariam em portugu�s, ingl�s, franc�s e
espanhol.
As
imagens, os sons de fundo e as anima�›es representavam um novo ponto de vista
de tŽcnicos e colaboradores e as suas percep�›es acerca das lendas e mitos
recontadas, mas que ao mesmo tempo guardavam com os originais estreita rela�‹o
arquet’pica de tal forma que n‹o se poderia negar tal rela�‹o. Ao mesmo tempo
que tambŽm n‹o se poderia dizer que
n‹o seria um produto novo.
Outro aspecto importante desse estudo foi o de
discutir dois temas caros aos estudos das poŽticas orais: o uso das tecnologias
na coleta de campo e a adapta�‹o de narrativas a outros meios. Desde o uso dos
primeiros gravadores – talvez, desconfio, desde o uso da caneta e do
papel na presen�a do informante – que se discute o uso de equipamentos
que proporcionem o registro da performance – Òrealiza�‹o poŽtica plenaÓ,
segundo Zumthor (2005, p.87) – oral e/ou gestual. As discuss›es versam
desde a maneira como us‡-los atŽ necessidade de us‡-los. Sabendo que essa
discuss‹o est‡ longe de ser esgotada, trago-a ˆ luz aqui, bem como discuto o
processo de adapta�‹o das narrativas orais a outras m’dias distintas e suas
especificidades.
O meu fazer como pesquisador, portanto,
aproximou-se muito mais ao do antrop—logo, na medida em que
a escrita etnogr‡fica configura-se na
pr—pria tr’ade autor/tradutor/texto na conforma�‹o da pr‡tica investigativa ao
oportunizar a sistematiza�‹o de seus pensamentos interiores e a constru�‹o de
a�›es est‡veis em rela�‹o ˆ cultura e ˆ sociedade pesquisada (ECKERT &
ROCHA, 2005, p.04).
Se, para o mercado e para a m’dia que o serve, o
popular n‹o interessa como tradi�‹o que perdura, para o acad�mico, a m’dia Ž
uma maneira que aquele tem de se perpetuar, um novo caminho que percorre para
se manter vivo, transmutando-se do oral para o digital.
Aquele livro partiu do acad�mico e das rela�›es
deste com o popular para adentrar o campo das novas tecnologias. Por isso,
tratei dos mŽtodos de coleta, passei pelos de grava�‹o – dando um breve
mergulho na quest‹o das m’dias – e de transcri�‹o, para poder chegar,
enfim, ao processo de produ�‹o do CD-ROM. Para seguir esse percurso, n‹o
poderia ter melhor objeto de pesquisa, visto que tive ˆ minha disposi�‹o todo o
acervo IFNOPAP e sua documenta�‹o dispon’vel, sem a qual minha tese de
doutorado e meu livro n‹o existiriam.
O pr—prio ÒdesenvolvimentoÓ da arte popular se
d‡ a partir de transforma�›es (CANCLINI, 2015, p.366). Portanto, uma pretensa
morte dela seria um grande contrassenso. O ambiente acad�mico e o novo suporte
s‹o, portanto, espa�os de transforma�‹o do popular.
N‹o existem grupos de indiv’duos propriamente
folcl—ricos; o que h‡ s‹o situa�›es mais ou menos prop’cias para que o homem
participe de um comportamento folcl—rico (BLANCH, 1988, p.29 apud CANCLINI,
2015, p.220). Somos capazes de nos integrar a diversas pr‡ticas sociais, e as
aqui citadas e muitas outras est‹o em nosso cotidiano, e podemos perceb�-las
como uma experi�ncia estŽtica ou fazer de conta que elas n‹o existem como tal.
Todavia, se o pesquisador em campo precisa de
espontaneidade e deseja uma proximidade maior com o Etnotexto que pretende
estudar, a melhor forma de fazer a entrevista – que nesse caso n‹o seria
mais uma entrevista – Ž atravŽs da conviv�ncia o mais pr—ximo poss’vel da
comunidade, sem aux’lio do gravador, deixando que a pr—pria mem—ria do
pesquisador se confunda com a da comunidade, selecionando os fatos que o seu
inconsciente assimile e deixe aflorar no papel.
Isso comprova que a oralidade amaz™nica ainda
vive em som, imagem e movimento, expandindo seus horizontes e influenciando
outros meios que fazem uso dela para criar algo novo. E ainda que esses novos
meios concorram por espa�o com os antigos na vida das pessoas, um acaba fazendo
uso do outro num processo de retroalimenta�‹o constante num ciclo e num reciclo
ininterruptos.
Nesse sentido, as narrativas que haviam come�ado
um processo de desenraizamento passaram por processos de reenraizamento por
onde passaram, seja nos meios acad�micos ou escolares por onde circularam os
‡udios e transcri�›es, seja nos lares ou demais lugares por onde passaram as
c—pias dos CD-ROM.
O desenvolvimento moderno n‹o apaga as culturas
populares tradicionais, porque essa amplia�‹o modernizadora n‹o conseguiu
extinguir o folclore, e os estudos mostram que nas œltimas dŽcadas as culturas
tradicionais se desenvolveram, transformando-se (CANCLINI 2015, p. 215). Por
outro lado, as culturas camponesas e tradicionais n‹o representam a maior parte
da cultura popular, e os meios eletr™nicos s‹o, em parte, respons‡veis por
isso, bem como o turismo, as migra�›es, a religiosidade, dentre outros
(CANCLINI, 2015, p.218).
O popular n‹o se concentra nos objetos, porque Ž
um mecanismo de escolha, e mesmo de inven�‹o, projetado em dire�‹o ao passado
para legitimar o presente (BLACHE, 1988, p.27 apud CANCLINI, 2015, p.219). E,
falando da influ�ncia interacionista e etnometodol—gica: todos os objetos s‹o dramatiza�›es
din‰micas da experi�ncia coletiva (CANCLINI, 2015, p.219).
O Caleidosc—pio, dessa forma, Ž a encena�‹o n‹o
de uma, mas de v‡rias experi�ncias coletivas agrupadas, concentrando o popular
num patrim™nio de bem est‡vel, voltado para o passado para legitimar o
presente.
As pessoas de hoje n‹o precisam menos dos mitos
do que as de outrora (ZUMTHOR, 2010). No entanto, a aldeia (comunidade), que
antes era um espa�o restrito e limitado pela geografia, agora Ž outra, uma
ÒAldeia GlobalÓ, lugar (ou n‹o-lugar) do ÒtudoaomesmotempoagoraÓ, na qual o
tempo cessou e o espa�o desapareceu. O CD-ROM Ž essa materialidade que, mesmo
afastada do Etnotexto, ecoa os tambores de tribos distantes, ainda que os
escutemos na solid‹o dos nossos computadores (MCLUHAN, 1969).
Nesse sentido, a produ�‹o de um objeto
midi‡tico, como o Caleidosc—pio Amaz™nico, Ž pertinente na medida em que n‹o se
exime do popular em prol do acad�mico ou tecnol—gico. Essas inst‰ncias n‹o s‹o
antag™nicas e, portanto, n‹o se excluem mutuamente, ao contr‡rio, funcionam
como complementares na contemporaneidade. Com a legitima�‹o cada vez mais
presente do ambiente digital, quem procura separ‡-las e n‹o admite a
possibilidade da rela�‹o ecum�nica entre elas n‹o est‡ valorizando a cultura em
si, e cai na armadilha do logocentrismo.
Claro que, se tivŽssemos um ecumenismo maior,
desde as primeiras fases do projeto, talvez tivŽssemos um objeto cultural mais
pr—ximo do Etnotexto que busca representar. Mas esse produto novo n‹o seria uma
espŽcie de Etnotexto em si?
Da mesma forma que n‹o podemos dizer que as
comunidades s‹o apenas aquelas que vemos nos bairros pobres, interiores
pequenos, grupos exclu’dos etc., n‹o podemos dizer que n‹o h‡ Etnotexto alŽm
desses ambientes. O que h‡ s‹o pontos de vista e formas distintas de
valoriza�‹o das narrativas.
Foi tambŽm gra�as a esse trabalho de doutorado
que pude conhecer grandes colegas na UEL e compartilhar conhecimentos nos
v‡rios Semin‡rios Brasileiros de PoŽticas Orais como Ana Liberato e Mauren
Pav‹o.
O est‡gio doutoral em Coimbra tambŽm foi outra
experi�ncia enriquecedora. Em 2015 pude ter contanto com os pesquisadores do
Grupo de Materialidades da Literatura e coorienta�‹o do professor Manuel
Portela. O per’odo prof’cuo de troca de saberes enriqueceu a minha tese de
doutorado atravŽs de novas teorias e novas perspectivas com colegas de v‡rias
partes do mundo.
Depois de retornar, em 2016 defendi minha tese
de doutorado que em 2018 seria lan�ada em livro sob o t’tulo Caleidosc—pio amaz™nico: a oralidade em som,
imagem e movimento com o selo da editora Paka-Tatu. Nesse mesmo ano iniciei
a minha gest‹o como Coordenador do Grupo de Trabalho de Literatura Oral e
popular.
Em 2019 fui convidado, por sugest‹o da
professora Socorro a compor a equipe tŽcnica da Feira Pan-amaz™nica do Livro e
suas multivozes. Na ocasi‹o dividi uma mesa redonda com Mauren Pav‹o e pudemos
falar das rela�›es entre oralidade e media�‹o.
Nesse mesmo ano durante a gest‹o do GT, com
ajuda (ou talvez muito mais que isso) de DŽlcia Pombo (vice-coordenadora) e Dia
Favacho (Secret‡ria) realizamos o Quinto semin‡rio Brasileiro de PoŽticas Orais
em Soure, Salvaterra e Cachoeira do Arari entre os dias 13 e 16 de novembro,
com apoio do Campos da UFPA de Soure, do Campus da UEPA de Salvaterra e da
Prefeitura Municipal de Cacheira do Arari. Em parceira com o IFNOPAP, n‹o pude
deixar de relembrar o meu primeiro evento ifinopapiano em que estive nessas
tr�s cidades. Foi um desafio para todos n—s que alŽm de todas as dificuldades
dos anos estranhos que atŽ hoje vivemos, n‹o t’nhamos um barco de apoio t‹o
tradicional nos encontros coordenados pela professora Socorro.
Durante o evento fizemos uma singela homenagem a
Socorro Sim›es, com uma mesa redonda da qual participei na companhia de
Frederico Fernandes, Eder Jaster, Josebel Akel e Ana Zuelly. Tive a miss‹o de
representar alguns aspectos da vida pessoal dela. Depois de nossas falas a
performance de Eder Jaster, a entrega de flores e a leitura de uma homenagem
feita pro professor Silvio Augusto de Oliveira Holanda (in memorian) deixou a todos bastante emocionados.
Em 2021 dei uma entrevista ao Jornal Di‡rio do
Par‡ a prop—sito do Halloween, e dentre outras coisas usei como refer�ncias as
hist—rias de assombra�‹o do presentes no corpus do INFOPAP. Neste mesmo ano, em
dezembro, agora como como secretario do GT organizamos um grande evento on-line, devido ˆs restri�›es da
pandemia, de poŽticas orais com a presen�a de grandes nomes, como a professor
Ana Pizarro do Chile.
Sem Fim
Pensar em futuro acad�mico sem pensar que o
IFNOPAP esteja direta ou indiretamente presente n‹o faz parte dos meus planos.
Toda vez que imagino algum projeto de pesquisa envolvendo alunos de inicia�‹o
cient’fica ou atŽ mesmo um poss’vel p—s-doutorado, n‹o consigo pensar que o
acervo ou a experi�ncia adquiridas com o projeto n‹o possam estar presentes.
AtŽ hoje, como colaborador do Portal Brasileiro
de PoŽticas Orais ainda me dedico a alimentar o site com arquivos do projeto,
tentando fazer com aqueles arquivos t‹o valiosos aos estudos culturais n‹o se
percam de alguma forma.
O IFNOPAP parece fazer parte de mim de tal forma
que qualquer esbo�o de projeto come�a ou termina com ele presente em minha
mente. As vezes penso, em meio a devaneios, continuar o projeto de alguma forma
e n‹o deixar que o legado da professora Socorro Sim›es se perca na dobras do
tempo. Este Ž um projeto que mesmo dando origem a dezenas de trabalhos de
conclus‹o de curso, disserta�›es e teses ainda tem muito a oferecer ˆ
comunidade acad�mica.
Refer�ncias
Acervo IFNOPAP. BelŽm: UFPA, 1994.
CANCLINI, Nestor Garcia. La modernidad despuŽs de la
posmodernidad. In:
BELLUZO, Ana Maria de Moraes (Org.). Modernidade:
vanguardas art’sticas na AmŽrica Latina. S‹o Paulo: UNESP, 1990. p.201-37.
CAUNE,
Jean. Cultura e comunica�‹o: converg�ncias
te—ricas e lugares de media�‹o. S‹o Paulo: UNESP, 2014.
ECKERT, Cornelia e ROCHA, Ana Luiza Carvalho da. O tempo e a cidade. Porto Alegre,
Editora da UFRGS, 2006.
MCLUHAN, Marshall. A gal‡xia de Gutenberg. S‹o Paulo: Nacional, 1972.
MORAES,
Eneida de. Aruanda e banho de cheiro.
BelŽm: Cejup, 1990.
PELEN,
Jean-No‘l. Mem—ria da literatura oral: a din‰mica discursiva da literatura
oral: reflex›es sobre a no�‹o de etnotexto. Projeto Hist—ria. S‹o Paulo, v.22, p.49-77, 2001.
RANIERI,
Alexandre. Caleidosc—pio amaz™nico:
a oralidade em som, imagem e movimento. Tese de doutorado defendida em 21 de
maio de 2015 pela Universidade Estadual de Londrina. Sob orienta�‹o do Prof.
Dr. Frederico Augusto Garcia Fernandes.
______,
Alexandre. Caleidosc—pio amaz™nico:
a oralidade em som, imagem e movimento. Paka-Tatu: BelŽm, 2018.
SIMÍES.
Maria do Socorro. Entrevista.
[06/01/2014]. Entrevistador: Alexandre Ranieri. BelŽm: [s. n.], 2014. Grava�‹o
digital 1h30min estŽreo.
______,
Maria do Socorro; GOLDER,
Christophe. BelŽm conta... BelŽm:
CEJUP, 1995.
VILHENA, Luis
Rodolfo. Projeto e Miss‹o: o
movimento folcl—rico brasileiro 1947-1964. Rio de Janeiro: Funarte/Funda�‹o
Getulio Vargas, 1997.
ZUMTHOR,
Paul. Introdu�‹o ˆ poesia oral. Belo
Horizonte: UFMG, 2010.
[Recebido:
10 dez 21]
DOSSIæ
Corpo-velho: reflex›es sobre
o envelhecimento feminino em narrativas orais da Matintaperera
Old body: reflections on female
aging in the oral narratives of Matintaperera
Andressa de Jesus Araœjo Ramos[3]
https://orcid.org/0000-0002-1113-443X
Maria
do PerpŽtuo Socorro Galv‹o Sim›es[4]
https://orcid.org/0000-0001-7678 -2895
Rafaella Contente Pereira da Costa[5]
https://orcid.org/0000-0001-6692-7763
Rubenil da Silva Oliveira[6]
https://orcid.org/0000-0001-9846-4695
Resumo: De acordo com
Lesnoff-Caravaglia (1984), o cen‡rio atual ensina e conserva a deprecia�‹o da
mulher idosa, iniciando com a representa�‹o da mulher velha nas hist—rias
tradicionais como bruxas, feias e malvadas. A anci‹ Ž, conforme Salgado (2002),
universalmente ofendida e enxergada como uma carga. ƒ parcela de uma maioria
invis’vel cujas dificuldades emocionais, econ™micas e f’sicas continuam, em sua
maioria, ignoradas. Contudo, os resultados de nossa pesquisa no acervo do ÒO
Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia ParaenseÓ
(IFNOPAP) apontam para uma nova tradu�‹o do envelhecimento feminino, atravŽs
das narrativas orais da Matintaperera, que n‹o vem carregada de imagens
negativas, preconceituosas e nem estereotipadas, pois trazem hist—rias de
mulheres velhas que continuam se divertindo, cantando, dan�ando, desejando e
sendo desejadas, n‹o est‹o isoladas da sociedade e nem habitam em cavernas, mas
que buscam e valorizam o contato com o outro. Em vista disso, este
trabalho reflete sobre o envelhecimento feminino em narrativas da
Matintaperera. Trata-se de uma pesquisa bibliogr‡fica, com abordagem
qualitativa, cuja metodologia consistiu em: a) revis‹o da literatura; b) o
estudo da velhice; c) o exame das narrativas orais da Matintaperera; d) sele�‹o
de dois contos da Matinta; e) an‡lise liter‡ria das narrativas escolhidas.
Palavras-Chaves: Corpo-velho; Velhice; Feminino; Narrativas Orais; Matintaperera.
Abstract: According
to Lesnoff-Caravaglia (1984), the current scenario educates and conserves the
depreciation of the elderly woman, beginning with her representation in
traditional stories as witches, ugly, and wicked. According to Salgado (2002),
the elderly woman is universally reviled and considered a burden. She is part
of an invisible majority whose emotional, financial, and physical difficulties
are mostly ignored. However, the findings of our research in the collection
"The Imaginary in Popular Oral Narrative Forms of the Paraense Amazon (IFNOPAP)"
point to a new translation of female aging via Matintaperera's oral narratives,
one that is not laden with negative, prejudiced views and stereotypes because
they bring stories of old women who continue to have fun, singing, dancing,
wishing and being desired. Women who are not isolated from society and do not
live in caves but seek and value contact with others As a result, this research
focuses on female aging in Matintaperera narratives. It is a bibliographic
study with a qualitative approach, which employs the following methodology: a)
literature review; b) study of old age; c) examination of Matintaperera's oral
narratives; d) selection of two Matinta tales; and e) literary analysis of the
chosen narratives.
Keywords: Old body; Old age; Female;
Oral narratives; Matintaperera.
Introdu�‹o
A
professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de
P—s-gradua�‹o em Sociologia e Antropologia do Instituto de Filosofia e Ci�ncias
Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mirian Goldenberg em
sua obra Coroas: corpo, envelhecimento, casamento e infidelidade (2008)
salienta que na cultura brasileira atual, certo padr‹o de corpo Ž um bem,
talvez o mais cobi�ado pelos sujeitos das classes mŽdias urbanas e tambŽm das
classes mais humildes, que o percebem como um importante meio de ascens‹o
social. Nesse sentido, o corpo Ž um capital, que alŽm de f’sico Ž simb—lico,
econ™mico e social. Desde que seja um f’sico Ò[É] sexy, jovem, magro e em boa
formaÓ (GOLDENBERG, 2008, p. 15).
A
apologia ˆ forma perfeita foi, nas palavras de Goldenberg
(2008), uma das mais terr’veis fontes de insatisfa�‹o feminina no sŽculo
XX. A compuls‹o pelo emagrecimento virou, efetivamente, uma epidemia. E, a
procura pelo corpo pleno foi entendida como uma regress‹o no processo de
emancipa�‹o da mulher.
Dados da Žpoca comprovam, conforme Goldenberg (2008), que a
brasileira se tornou campe‹ na tentativa de ter um corpo impec‡vel. A revista Time
destacou esse fato, trazendo na capa a imagem da apresentadora, cantora e
dan�arina brasileira Carla Perez, acompanhada da seguinte legenda: ÒA mania pela cirurgia pl‡stica: as mulheres
latino-americanas est‹o esculpindo seus corpos como nunca antes - nos moldes da
Calif—rnia. Seria isso um imperialismo cultural?Ó (GOLDENBERG, 2008, p. 52,
tradu�‹o nossa)[7].
Segundo o cirurgi‹o pl‡stico Pedro Nery Bersan que publicou uma not’cia no
Jornal do Estado de Minas, em 2019, o Brasil ocupa o 2¼ lugar no ranking
mundial de Cirurgia Pl‡stica, ficando atr‡s somente dos Estados Unidos. O
recente estudo da Sociedade Internacional de Cirurgia Pl‡stica e EstŽtica
(Isaps) demonstrou que os brasileiros efetuaram cerca de 2,5 milh›es de
procedimentos em 2017, correspondendo a 10,4% das cirurgias estŽticas mundiais.
Desse
modo, em uma cultura em que o corpo Ž um capital no mercado do casamento, no
mercado sexual e no mercado profissional, o f’sico gordo, envelhecido ou fora
de forma Ž, como ressalta Goldenberg (2008), rejeitado por muitos e,
principalmente, pelas mulheres brasileiras que apresentam um verdadeiro pavor
de envelhecer. Isso acontece, na verdade, porque ela foi destinada a ser, na
vis‹o do homem, um objeto sexual e a partir do momento, no qual se torna
envelhecida e feia perde o seu espa�o, o qual foi determinado pela sociedade,
tornando-se assim Ò[...] um monstrum que suscita repulsa e atŽ mesmo
medoÓ (BEAUVOIR, 2018, p. 129, grifo da autora). Para o poeta l’rico e sat’rico
romano Hor‡cio:
A aparecia da mulher idosa Ž
hedionda: ÒTeu dente Ž preto. Uma antiga velhice cava rugas em tua fonte...teus
seios s‹o fl‡cidos como as mamas de uma jumentaÓ. Ela cheira mal: ÒQue suor,
que horr’vel perfume se desprende, por todo lado, dos seus membros fl‡cidosÓ
(BEAUVOIR, 2018, p. 128-129).
Contudo, os resultados
de nossas investiga�›es no acervo do IFNOPAP revelaram uma nova tradu�‹o[8] da velhice feminina, que
n‹o vem carregada de preconceitos e nem de estere—tipos, mas de novidade,
contemporaneidade e liberdade, uma vez que as mulheres velhas[9] descritas nos contos
analisados n‹o s‹o assustadoras, nem usam roupas rasgadas e nem realizam o mal,
como nas narrativas tradicionais. Mas s‹o mulheres comuns, capazes de se
apaixonar, de encantar as pessoas, sentir desejos e n‹o vivem isoladas em casa
ou em cavernas, alŽm de apreciarem o contato com o Outro.
Em
vista disso, o objetivo geral deste trabalho foi refletir sobre o
envelhecimento feminino em narrativas da Matintaperera, recolhidas pelo
IFNOPAP. Para tanto nos amparamos nos estudos de Beauvoir (2018), Mucida
(2018), Goldenberg (2008), (2017), Zimerman (2007), Vieira (2007), Viana
(2013), Salgado (2002), entre outros. A metodologia consistiu, primeiramente,
em uma revis‹o da literatura, depois um estudo sobre a velhice e/ou
envelhecimento, em seguida, o exame das narrativas
orais da Matintaperera, ap—s isso, selecionamos quatro contos da Matinta e, por
fim, a an‡lise liter‡ria das narrativas escolhidas.
Este
artigo, alŽm desta Introdu�‹o e das Considera�›es Finais, apresenta duas
se�›es. A primeira, intitula-se ÒVelhas, bruxas e Matintas: reflex›es sobre
o envelhecimento femininoÓ reflete sobre a associa�‹o entre a mulher
velha e a bruxa, para isso, fizemos um resgate hist—rico da representa�‹o
feminina, na fase de transi�‹o do mundo medieval ao mundo moderno. AlŽm disso,
nessa se�‹o tambŽm apresentamos a associa�‹o que Ž feita entre a velha e o mito
da Matintaperera. A segunda se�‹o, por sua vez, designada ÒA velhice no
imagin‡rio nas formas narrativas orais populares da amaz™nia paraenseÓ apresenta a an‡lise liter‡ria
de dois contos da Matinta, recolhidos pelo IFNOPAP.
Velhas,
bruxas e matintas: reflex›es sobre o envelhecimento feminino
Beauvoir
(2018) acentua que tanto na Antiguidade quanto no folclore, a mulher velha foi
constantemente associada a uma feiticeira. Fran�ois Rabelais retrata a sibila
de Panzoust com caracter’sticas de uma anci‹ em condi�‹o deplor‡vel, visto que
estava Ò[...] malvestida, malnutrida, desdentada, remelosa, curvada, nariz
escorrendoÓ (BEAUVOIR, 2018, p. 158). Essa aproxima�‹o entre a mulher velha e a
bruxa foi constru’da no passado e vem carregada, de acordo com Vieira (2007),
de preconceitos e estere—tipos.
A
bruxa Ž imaginada como sendo uma Ò[...] mulher, velha, cansada, solteira, de
cabelos brancos, com uma verruga no nariz e possuidora de uma risada
assombrosaÓ (VIEIRA, 2007, p. 01). Essa representa�‹o negativa da bruxa pode
ser confirmada no Dicion‡rio, que a define como uma Ò[É] mulher muito feia e/ou
azeda e mal-humoradaÓ (HOUAISS, 2009, p. 333).
Neste sentido, os livros infanto-juvenis costumam narrar hist—rias onde existe
uma fada boa e formosa, ˆs vezes loira, e uma bruxa m‡ e monstruosa.
Como
vimos, a bruxa Ž descrita, na maioria das hist—rias tradicionais, como uma
velha de apar�ncia assustadora e que realiza o mal. PorŽm tambŽm encontramos
narrativas, nas quais ela Ž vista como alguŽm est‡ sempre doente, que apresenta
Ò[...] alguma defici�ncia f’sica, idosa, mentalmente
perturbadaÓ (VIEIRA, 2007, p. 01-02).
As bruxas, no fim da
Idade MŽdia e in’cio da Idade Moderna foram perseguidas pela Igreja Cat—lica
porque, de acordo com Viana (2013), efetivaram um pacto com o Belzebu, atravŽs
do qual desprezavam o catolicismo. Esse movimento de persegui�‹o religiosa e
social ficou conhecido como a ÒCa�a ˆs bruxasÓ que durou Ò[É] aproximadamente
tr�s sŽculos, come�ando em 1450 e terminando em 1750 com a ascens‹o do
IluminismoÓ (VIEIRA, 2007, p. 02). Na realidade, as bruxas n‹o apareceram
automaticamente, mas foram
[...] fruto de uma campanha
de terror realizada pela classe dominante. Poucas dessas mulheres realmente
pertenciam ˆ bruxaria, porŽm, criou-se uma histeria generalizada na popula�‹o,
de forma que muitas das mulheres acusadas passavam a acreditar que eram mesmo
bruxas e que possu’am um Òpacto com o dem™nioÓ. (VIEIRA, 2007, p. 02).
No livro Malleus
Maleficarum (O Martelo das Bruxas ou O Martelo das feiticeiras), Heinrich
Kraemer e James Sprenger explicavam que as bruxas se aliavam, conforme Viana
(2013), aos diabos em sabats, orgias
e ritos de profana�‹o aos sinais do cristianismo. Seres diab—licos eram
convocados em preces que combinavam frases crist‹s com voc‡bulos e sinais
hereges. Os inquisidores do sŽculo XV revelam que as bruxas deliberavam seus
sacrilŽgios atravŽs de contrato expl’cito de lealdade, concebido no coito
carnal com os diabos. O voto sacrilŽgio poderia ser realizado em ritual pœblico
ou em qualquer hora em segredo. Em troca de sua alma, as bruxas ganharam
poderes que eram usados para causar problemas temporais.
Para
Kramer e Sprenger todas as bruxas entregavam-se, segundo Viana (2013), de corpo
e alma ˆ pr‡tica do mal. As aparentes bruxas eram reconhecidas por um grupo de
aspectos f’sicos e comportamentais e incriminada de entregarem-se,
constantemente, a todo tipo de atos libidinosos com ’ncubo e sœcubos. As
crian�as cujas m‹es, por justifica�‹o de algum distœrbio passional ou mental,
ofertavam o filho, cegamente, desde o ventre, ao Dem™nio, eram a todo momento,
atŽ a sua morte, propensas ˆ perpetra�‹o da bruxaria. Normalmente, todas as
crian�as n‹o batizadas estavam em perigo, pois as bruxas as consumiam ou
ofereciam a Lœcifer.
Kramer
e Sprenger confessavam que as bruxas exterminavam, nos estudos de Viana (2013),
os animais e arruinavam as planta�›es. Eram capazes de seduzir animais e homens
unicamente com um sinal de m‹os ou com o olhar. Elas tambŽm recorriam a
feiti�os ou amuletos, que eram guardados sempre em locais discretos ou
secretos. Acreditava-se que, atravŽs delas, os dem™nios seriam capazes de produzir
raios, tempestades comuns e de pedras; levar a infecundidade aos animais e aos
seus donos; intoxicar rios e po�os; exterminar lavouras com a utiliza�‹o de
lagartas daninhas ou grandes nuvens de gafanhotos. As bruxas tinham poder de se
metamorfosear em animais, como cachorro, gato, lobo e serpente, e de
transformar homens em feras. Para Kramer e Sprenger, todas as doen�as do corpo,
atŽ mesmo a lepra ou a epilepsia, poderiam ser, nas palavras de Viana (2013),
promovidas pelas bruxas. Elas tambŽm usavam ervas que deixavam os homens
alegres, tristes, tontos ou loucos. Com ajuda diab—lica, elas podiam, pois,
afetar os sujeitos de todas as formas poss’veis, desgra�ando-os em suas
profiss›es, em sua reputa�‹o, em seu corpo, em seu intelecto e em suas vidas.
Vieira
(2007) destaca que quando revivemos o contexto hist—rico da Idade MŽdia, vemos
que bruxas poderiam ser as parteiras, as enfermeiras e as suas auxiliares.
Dominavam e compreendiam o uso de plantas medicinais para a cura de
enfermidades e epidemias nas comunidades em que moravam e, regularmente,
possu’am um alto poder social. Elas eram, constantemente, a œnica esperan�a de
atendimento mŽdico para mulheres e indiv’duos carentes financeiramente. Elas foram, por um longo tempo, mŽdicas sem t’tulo. Aprendiam
o of’cio umas com as outras nas noites das igrejas e repassavam esse
conhecimento para suas descendentes, vizinhas e confidentes. O semi—logo,
antrop—logo e fil—sofo colombiano Jesœs Mart’n-Barbero ressalta que:
Eram as mulheres que presidiam as vig’lias,
as reuni›es das comunidades alde‹s ao cair da tarde, nas quais se conservaram
alguns modos tradicionais de transmiss‹o cultural. Vig’lias em que, junto ao
relato de contos de terror e de bandidos, faz-se a cr™nica dos sucessos das
aldeias, transmite-se uma moral de provŽrbios e partilham-se receitas
medicinais que reœnem um saber sobre as plantas e o ciclo dos astros. A bruxa
representa, junto com os levantes, segundo Michelet, um dos modos de express‹o
fundamentais da consci�ncia popular (MARTêN-BARBERO apud VIEIRA, 2007, p. 02).
Na verdade, essas
mulheres concebidas como bruxas n‹o estavam, segundo Vieira (2007), utilizando
poderes sobrenaturais para produzir suas po�›es, o que muitos assistiam como a
pr‡tica de bruxaria eram na realidade, os in’cios do que atualmente conhecemos
como aromaterapia, fitoterapia e farmacologia domŽstica. Ali‡s quem de n—s
nunca foi curado de uma gripe com um chazinho feito pela nossa av—? Para essas
senhoras, a produ�‹o de tais Òpo�›esÓ n‹o era um simples modo de colocar todos
os elementos juntos, acompanhar as instru�›es e aguardar o resultado. Essas
senhoras estavam, mesmo que inconscientemente, experimentando suas Òpo�›esÓ,
elas possu’am oportunidades para pensar/estudar e obter conhecimento com seus
erros e acertos. Em uma vis‹o patriarcal, era muita informa�‹o para uma mulher.
AlŽm dessa poss’vel intimida�‹o ao dom’nio da ordem simb—lica, a ocorr�ncia
dessas mulheres utilizarem seus saberes para a elimina�‹o de epidemias que por
acaso sucediam em seus vilarejos, desencadeou a Ò[...] ira da institui�‹o
mŽdica masculina em ascens‹o, que viu na Inquisi�‹o uma maneira de eliminar
suas concorrentesÓ (VIEIRA, 2007, p. 02).
Lamentavelmente, muito sobre medicina natural que hoje poderia salvar vidas foi
exterminado quando Ò[...] essas mulheres foram queimadas nas fogueiras ou
enforcadas. Percebo que n‹o somente os corpos foram ali queimados, mas tambŽm
seus manuscritos, ervas, po�›es, e seus conhecimentos anotadosÓ (VIEIRA, 2007, p. 02).
Carvalho
(2013) salienta que Russel e Alexander asseguram que bruxas existem, e que nos
dias de hoje a bruxaria Ž reconhecida como religi‹o. Portanto devemos denunciar
uma imagem formada pela Inquisi�‹o e repassada atravŽs do tempo no imagin‡rio,
alŽm disso a estudiosa salienta que precisamos deixar claro que h‡ alguns
grupos com particularidades normalmente alusivas ˆ bruxaria, mas que n‹o s‹o: o
curandeiro que realiza magia com o intuito de derrotar bruxaria, a possess‹o
que Ž a carga interna de maus esp’ritos, e a obsess‹o que Ž o repente externo e
f’sico por maus esp’ritos.
Em
resumo, a transforma�‹o da feiti�aria em algo ruim foi, no entendimento de
Carvalho (2013), um profundo processo de mudan�a da sociedade e da religi‹o
pag‹, mesmo que de forma gradativa ocorreu em toda a Europa Ocidental. Santo
Agostinho, como grande l’der crist‹o afirmava que Ò[...] a magia, a religi‹o e
a feiti�aria pag‹s eram obras inventadas pelo diabo e ao referenciar deuses
pag‹os, ciente ou n‹o do feito estavam na verdade invocando dem™niosÓ
(CARVALHO, 2013, p.173). Essa justificativa utilizada pelo Santo e pela Igreja
converteu n‹o cat—licos em efetivos monstros confiantes da recŽm-nascida
divindade, que corria perigos diante da amea�a cruel, por isso deveria ser
destru’da para Ò[É] n‹o atrapalhar a salva�‹o do mundo, pois a pr‡tica de
feiti�aria era um crime contra a sociedade e contra Deus. (CARVALHO, 2013,
p.173).
Josebel
Akel Fares (1997) acentua que os termos Bruxas e Feiticeiras aparecem, em alguns
autores, com significados distintos e estes, essencialmente, coabitam na
indissociabilidade da natureza, ou n‹o, dos artif’cios m‡gicos. Na vis‹o de
alguns estudiosos, a feiti�aria Ž:
[É] uma pr‡tica aprendida, n‹o Ž inata.
As feiticeiras estudam o uso dos elementos animais, minerais e vegetais para
elaborara seus fluidos, ungŸentos, ch‡s que receitam para aqueles que as
procuram, n‹o importam se os remŽdios curam feridas ou abrem chagas (FARES,
1997, p. 138).
Por outro lado, as
Bruxas, na concep�‹o de alguns autores, estudados por Fares (1997) possuem,
igualmente, a faculdade de elaborar receitas m‡gicas, entretanto este dom Ž
inato, isto Ž, nasce com elas. Neste estudo, assim como Fares (1997),
consideramos os voc‡bulos (bruxas e feiticeiras) como sin™nimos, pois ambas se
descobrem e mudam de trajet—ria, e aqui s‹o pensadas como sujeitos que Ò[É]
desenvolvem pr‡ticas m‡gicas, seja para ajudar esp’ritos demon’acos
incorporados, seja por dom heredit‡rio, seja por estudiosos e experimenta�›esÓ
(FARES, 1997, p. 138 – 139).
Como
observamos, a mulher velha foi historicamente e culturalmente comparada a uma
bruxa europeia, descrita como Ò[...] enrugada, vesga, ˆs vezes, desdentada ou
com alguns cacos negros espalhados pela boca babosa, verruga peluda no queixo
protuberante ou na ponta do enorme nariz aduncoÓ (SOUZA, 1995, p. 14). AlŽm
desse aspecto amedrontador, a anci‹ tambŽm foi constantemente associada a
alguŽm que est‡ com uma doen�a muito grave, podendo morrer a qualquer momento.
Essa associa�‹o entre a velha e a bruxa faz com que tanto a mulher como a
velhice sejam vistas de forma negativa e estereotipada. No caso da mulher isso
acontece porque no patriarcado, sob domina�‹o masculina, o corpo feminino foi
limitado, segundo Cesidio e Boris (2007) a ser
um objeto sexual, uma vez que seu corpo era sujeitado ao prazer e ao desejo do
homem. No casso da velhice isso ocorre porque n‹o fomos ensinados a conceber a
senesc�ncia como um processo natural, pois vivemos em
[...] uma
cultura em que os jovens e adultos procuram ignorar a realidade do
envelhecimento gradual de cada um. Com o progresso moderno, diminu’mos o valor
do envelhecer, n‹o consideramos o idoso como detentor de extensos e s—lidos
conhecimentos, talentos e experi�ncias que podem auxiliar as gera�›es futuras.
(GUIMARÌES, 2007, p. 14).
Sobre a aproxima�‹o entre
as mulheres velhas e as bruxas podemos mencionar o mito da Matintaperera[10]. Essa lenda conta a
hist—ria de uma anci‹ que se metamorfoseia em p‡ssaro durante a noite. A
maioria das narrativas cl‡ssicas dessa personagem apresentam uma vis‹o
distorcida, negativa e preconceituosa dessa entidade e, sobretudo, da velhice
feminina que a coloca como sendo uma mulher de apar�ncia assustadora,
debilitada e doente, que realiza o mal devorando as crian�as e trazendo
epidemias e enfermidades as comunidades locais.
Figura1 - Imagem do rosto da Matintaperera com
tratamento digital
Fonte: (COSTA, 2013, p. 91)
Na
cultura ind’gena, a Matintaperera Ž concebida, de acordo com Carvalho (2014),
como uma perigosa feiticeira, ou melhor, como uma bruxa velha que, na
juventude, cometeu graves pecados e, por conta disso, precisa cumprir o fado.
Cumprir o fado significa efetivar o destino que foi estabelecido por intermŽdio
de uma for�a sobrenatural. Os indiv’duos que cumprem um fado, nas palavras de
Carvalho (2014), s‹o julgados como sujeitos que efetivaram Ò[É] um pacto com o
dem™nio em troca de alguma vantagem ou vingan�as pessoais, recebendo por isso
uma puni�‹o, como a de se transformarem em animais durante a noiteÓ (CARVALHO,
2014, p. 225). C‰mara Cascudo, por sua vez, defende que a Matinta Ž o nome de
[...] uma pequena coruja, que se
considera agourenta. Quando, a horas mortas da noite, ouvem cantar a
mati-taper�, quem a ouve e est‡ dentro de casa, diz logo: Matinta, amanh‹ podes
vir buscar tabaco. ÒDesgra�ado – deixou escrito Max. J. Roberto, profundo
conhecedor das coisas ind’genas – quem na manh‹ seguinte chega primeiro
ˆquela casa, porque ser‡ ele considerado como o mati. A raz‹o Ž que, segundo a
cren�a ind’gena, os feiticeiros e pajŽs se transformavam neste p‡ssaro para se
transportarem de um lugar para o outro e exercer suas vingan�as. Outros
acreditam que o mati Ž uma maaiua, e ent‹o o que vai ˆ noite gritando
agoureiramente Ž um velho ou uma velha de uma s— perna, que anda aos pulosÓ
(CASCUDO, 2012, p. 442).
Contudo, os resultados
de nossas investiga�›es das narrativas orais da Matintaperera, recolhidas pelo
IFNOPAP revelaram uma nova tradu�‹o da
velhice feminina, que n‹o vem carregada de preconceitos e nem de estere—tipos,
mas de novidade, contemporaneidade e liberdade. Nesse sentido, na pr—xima se�‹o
apresentamos a an‡lise de dois contos da Matintaperera, ambos recolhidos pelo
IFNOPAP, retiradas da colet‰nea de textos Abaetetuba contaÉ, que
refletem sobre a representa�‹o da velhice feminina.
A
velhice no Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais Populares da Amaz™nia
Paraense
Ò[É]
tornavam a contar que essa velha era Matintaperera
(SIMÍES;
GOLDER, 1995c, p. 20).
Come�amos,
pois, esta se�‹o de an‡lise liter‡ria com fragmento do conto ÒFiu! Fiu!Ó,
narrado por Manoel da Fonseca e recolhido pelo Projeto IFNOPAP, que revela
hist—ria de Dona Laura, uma mulher de 70 anos que se transformava em
Matintaperera, visto que Ò[É] L‡, tinha uma velha chamada Laura, uma velha,
uma velha, assim, de uns 70 anos, sabe? E essa velha, tornavam a
contar que essa velha era MatintapereraÓ (SIMÍES E GOLDER, 1995c, p. 20,
grifo nosso). Percebeu-se, neste
trecho de narrativa, que a palavra velha comparece cinco vezes, confirmando
assim a intensa rela�‹o entre a personagem e a senesc�ncia.
A
velhice retratada na maioria das hist—rias tradicionais da Matintaperera Ž
caracterizada, geralmente, pela presen�a acentuada de adjetivos negativos, que
contribuem para uma vis‹o preconceituosa e estigmatizada do envelhecimento
feminino. Consoante Ribeiro (2007), Arist—teles concebia a senesc�ncia como uma
quarta idade, determinada pela senilidade[11], degenera�‹o e doen�a,
colocando a senectude nos 50 anos de idade. Hip—crates relacionou a senioridade
ao ÒInvernoÓ aos 56 anos. S�neca (4-65 D.C.) tambŽm considerou a velhice numa
vis‹o negativa, como uma enfermidade incur‡vel.
Ribeiro
(2007) salienta ainda que na Idade Renascentista e na Idade MŽdia, a compreens‹o
negativa do envelhecimento continuou a manifestar-se: a mulher velha era
concebida como bruxa e cœmplice de agentes demon’acos, e os velhos no coletivo,
eram enxergados como submissos e escravos dos mais fortes. Nesta Žpoca, Santos
(2008) evidencia que se destacava, especialmente a juventude e a formosura das
mulheres juvenis.
Contudo,
veremos nesta se�‹o uma nova tradu�‹o do envelhecimento feminino, atravŽs das
narrativas orais da Matintaperera, recolhidas pelo IFNOPAP, que revelam
hist—rias de mulheres comuns, que envelheceram, mas que continuam passeando, se
divertindo, cantando, dan�ando, se apaixonando, amando, desejando e sendo
desejadas, n‹o est‹o isoladas e nem escondidas em cavernas, mas que buscam e
valorizam o contato com o outro (alteridade).
Voltando
ao conto ÒFiu! Fiu!Ó, o narrador conta que, certo dia, Dona Laura ficou doente
de uma febre muito forte que
levou muitos sujeitos a —bito e como era costume dos mais velhos socorrer quem
estivesse enfermo, Raimundo terminou de fazer a farinha no final da tarde, umas
seis e meia e decidiu ir do trabalho direto ˆ casa da velha Laura para prestar
socorro. PorŽm, no meio do caminho algo inusitado aconteceu, ela pulou: Ò[É]
Pah! E suspendeu a bunda pra cima e a saia, e acendeu a bunda pro lado dele e
fez assim: -Fiu, Matintaperera! A’, ela se endireitou e disse: - Agora vai
contar, ouviste?Ó (SIMÍES E GOLDER, 1995c, p. 21). Neste conto, observamos que
Raimundo se surpreende com uma idosa cheia de energia, vitalidade e muita
sensualidade. A velha demonstrou ainda n‹o se preocupar com o julgamento da
sociedade em rela�‹o ao seu corpo envelhecido, dado que quando viu Raimundo n‹o
escondeu seu corpo e nem o rejeitou, mas o aceitou e o exibiu, provando a ele e
a todos que o seu corpo-velho n‹o Ž feio, o que Ž rid’culo Ž o preconceito em
rela�‹o a ele. Nesta narrativa, tambŽm Ž poss’vel fazermos uma reflex‹o em
torno da sexualidade feminina na velhice, uma vez que foi estabelecido um
prot—tipo que a velha Ž um sujeito assexuado e isso Ž uma cren�a que n‹o se
sustenta.
Carmen
Salgado (2002) salienta que a cultura hispano-americana, especialmente,
assimila a sexualidade da mulher velha como fonte de risibilidade,
apresentando-se como c™mica e inapropriada. Esse preconceito acontece, em
geral, ao igualar equivocadamente a sexualidade feminina a sua potencialidade
reprodutiva. Essa discrimina�‹o para com a anci‹ est‡ profundamente associada
ao Ò[...] sexismo e Ž a extens‹o l—gica da insist�ncia de que as mulheres valem
na medida em que s‹o atrativas e œteis ao homemÓ (SALGADO, 2002, p.12). Dentro
desta situa�‹o, isto Ž, na persist�ncia das mulheres de serem atraentes a
aproxima�‹o delas com a velhice resulta aterrorizante e assustadora e terr’vel,
pois elas t�m sido Ò[...] socializadas e treinadas para temer a velhice.
Negando o pr—prio processo de envelhecimentoÓ (SALGADO, 2002, p.12).
PorŽm,
Araœjo e Carlos (2018) destacam que a sexualidade n‹o se restringe ao ato
sexual em si, mas sim em uma combina�‹o de prazer, cumplicidade e amor entre
dois indiv’duos, como modo de percep�‹o de seu corpo e do outro.
Dependendo da maneira como a velhice Ž concebida e das transforma�›es que ela
pode sofrer em inœmeros aspectos da vida, o sexo nesse est‡gio pode sim
promover liberdade e garantir o prazer. E, para isso Ž necess‡rio que a velha
use sua criatividade para alcan�ar novas maneiras de satisfa�‹o.
O
conto, intitulado ÒFi—te!Ó, narrado por Joana dÔArc nos revela a hist—ria de
uma velha, que surgiu no meio do trajeto da viagem de um grupo de mœsicos a
bordo de uma canoa, pedindo carona, os quais atenderam o seu pedido. Depois de
colocarem a idosa na canoa, eles sa’ram, foram remando, remando e de repente,
ÒEla virou a bunda pra cima e deu um assobio. – Fi—te! Matintaperera. Ela
fezÓ (SIMÍES E GOLDER, 1995c, p. 175). Como podemos observar nesta narrativa, a
mulher velha n‹o est‡ isolada da sociedade e nem do mundo e muito menos est‡
deitada em casa deprimida, esperando a morte chegar, mas est‡ querendo, assim
como todo mundo, passear, viajar, se divertir, caminhar, estar entre os velhos,
mas tambŽm entre os jovens, entre os mœsicos. A mulher velha, nesta narrativa,
quer andar de canoa, participar de eventos, apresenta�›es, shows, amar e ser
amada, desejar e ser desejada, dar e receber carinhos. Desse modo, este conto
nos revela que a mulher na velhice n‹o deixou de ter os mesmos sentimentos da
juventude e nem Ž inœtil porque deixou de ter filhos, ela continua Ò[...]
cantando, dan�ando, criando, amando, brincando, trabalhando, transgredindo
tabus etcÓ (GOLDENBERG, 2017, p. 11).
Como
podemos observar, anteriormente, as duas narrativas orais da Matintaperera nos
revelam hist—rias de mulheres velhas que n‹o s‹o seres repugnantes e
assustadores que realizam o mal, fazendo alus‹o ˆs bruxas europeias, mas que
trazem uma nova tradu�‹o da velhice feminina, pois elas se tratam de velhas
agitadas, animadas e que valorizam o contato com o outro.
As
velhas dos contos ifnopapianos n‹o sentem vergonha de seus corpos envelhecidos,
mas os revelam, sem medo, sem tabu, o que traz reflex›es importantes em rela�‹o
a velhice e a sexualidade. AlŽm disso, notamos nos contos que as idosas n‹o
querem apenas estar apenas com pessoas da idade delas, mas querem conversas com
outras velhas e tambŽm com jovens, adolescentes e crian�as para trocar
experi�ncias, pois elas t�m muito o que falar e ensinar, comprovando assim que
a velhice n‹o interfere nas rela�›es sociais e na sexualidade, n‹o querem
tambŽm ficar ÒpresasÓ em casa, mas sair, viajar, passear, namorar e se
divertir.
Conhecer
essas hist—rias de Matintapereras, representadas por mulheres velhas Ž
importante, pois nos revelam um novo olhar sobre a velhice feminina, para n‹o
cairmos nos erros de acharmos que as velhas de hoje (sŽculo XXI) s‹o as mesmas
de outrora, isso est‡ mudando, pois elas n‹o est‹o em cavernas, n‹o est‹o
ÒtrancadasÓ em casa. Elas s‹o de uma nova gera�‹o que, segundo Goldenberg
(2017), modificou comportamentos e conceitos, que tornou a sexualidade natural
e prazerosa, que criou variados arranjos amorosos e conjugais, que legitimou
modernas formas de fam’lia e que expandiu as chances de ser m‹e, pai, av™ e
av—.
Considera�›es finais
Este artigo objetivou
refletir sobre o envelhecimento feminino em narrativas da Matintaperera,
recolhidas pelo IFNOPAP. Para tanto tivemos com referencial te—rico os estudos
de Beauvoir (2018), Mucida (2018), Goldenberg (2008), (2017), Zimerman (2007),
Viana (2013), Vieira (2007), Salgado (2002), entre outros.
Consideramos
ter alcan�ado nosso objetivo geral, uma vez que apresentamos a an‡lise
liter‡ria de dois contos da Matintaperera, da colet‰nea Abaetetuba contaÉ que
revelaram uma nova tradu�‹o da mulher na velhice, que n‹o vem repleta de
preconceitos e nem de estere—tipos, mas de novidade, contemporaneidade e
liberdade, uma vez que elas s‹o descritas como mulheres comuns, como todos n—s,
capazes de se apaixonar, de encantar as pessoas, sentir desejos e que n‹o vivem
isoladas, mas que apreciam o contato com o Outro.
Nesta
pesquisa fizemos importantes reflex›es sobre a aproxima�‹o que se estabeleceu
historicamente e culturalmente entre a velhice e a bruxa, trazendo o pensamento
de Beauvoir (2018), os estudos de Viana (2013) e Vieira (2007) sobre a
representa�‹o de mulher velha no per’odo de transi�‹o entre o mundo medieval
para o moderno, bem como as contribui�›es te—ricas de Carvalho (2013) sobre a
no�‹o que temos hoje de bruxaria. AlŽm disso, tambŽm discorremos sobre rela�‹o
entre a velhice, a bruxa e Matintaperera, apresentando as defini�›es da
personagem.
Acreditamos
que esta pesquisa trar‡ importantes contribui�›es ao estudo da velhice
feminina, pois em nossas investiga�›es nos Reposit—rios Institucionais on-line
das renomadas Universidades verificamos que existem pouqu’ssimos trabalhos
sobre esse tema na ‡rea de Ci�ncias Humanas, sobretudo, nos Cursos de Doutorado
em Letras (Literatura) e essa car�ncia acaba se tornando algo extremamente
preocupante, pois nos impede de desenvolvermos nossa fun�‹o social, enquanto
liter‡rios que Ž o de humanizar os sujeitos atravŽs dos textos liter‡rios, conforme
afirma Ant™nio Candido (1989). Desse modo, este estudo, alŽm de nos ajudar a
desenvolvermos nossa fun�‹o social enquanto liter‡rios nos possibilitar‡
entendermos a mulher velha para alŽm de suas representa�›es f’sicas, dado que o
envelhecer n‹o pressup›e apenas mudan�as corporais, mas tambŽm psicol—gicas,
sociais, econ™micas, pol’ticas e culturais.
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[Recebido: 16 abr 21 -
Aceito: 16 mai 21]
O maravilhoso amaz™nico, uma poŽtica da
alteridade
The Amazonian Marvellous, Poetics of
Alterity
Sylvia Maria Trusen[12]
https://orcid.org/0000-0003-4248-929X
Resumo:
De modo geral, as pesquisas em torno das narrativas tradicionais de fundo
maravilhoso assentam-se sobre a dicotomia real x fabuloso, natural x
sobrenatural, veross’mel x inveross’mel, conforme lemos nas postula�›es de
Todorov (1975), Bessi�re (1974), Max LŸthi (1992), Hetmann (1982), dentre
outros. Contudo, quando tais teoriza�›es s‹o confrontadas com o corpus
narrativo de tradi�‹o m’tica e oral, recolhido na Amaz™nia Paraense, elas
revelam-se insuficientes para tratar da recep�‹o do maravilhoso neste
territ—rio, uma vez que tais narrativas n‹o se escoram na antinomia assinalada
acima. Partindo de tal constata�‹o,
elegeu-se a categoria da alteridade, conforme proposi�‹o de Victor Bravo,
sugerindo, assim, poss’vel clave para o estudo do que nomeia-se aqui
maravilhoso amaz™nico. Desse modo, revistando os textos consagrados em torno do
g�nero, tais como o Introdu�‹o ˆ
literatura fant‡stica (T.
Todorov), Das europŠische
VolksmŠrchen (M. Luthi), Le rŽcit fantastique (I. Bessi�re), por um lado, e, por outro, a
recolha de narrativas da Amaz™nia paraense efetivada pelo Projeto O Imagin‡rio nas Formas Narrativas Orais
Populares da Amaz™nia Paraense, o
artigo destaca a categoria da alteridade como termo de import‰ncia central para
a leitura de tais narrativas.
Palavras-Chave: Maravilhoso, Alteridade, Amaz™nia
Abstract: In general, the research of the
traditional narratives with a background of the Marvellous are based on the
real dichotomy x fabulous, natural x supernatural, verossimel x unlikely, as we
read in the postulations of Todorov (1975), Bessi�re (1974), Max LŸthi (1992),
Hetmann (1982), among others. However, when such theories are confronted with
the narrative corpus collected in the Amazon Region of Par‡, they are
insufficient to deal with the reception of the marvellous in this territory,
since such narratives do not stand in the antinomy indicated above. Starting
from this observation, the category of alterity was chosen, according to Victor
Bravo's proposition, thus suggesting a possible key to its study. Thus, reviewing the established texts
around the genre, such as Introduction to fantastic literature (T.
Todorov), Das europŠische VolksmŠrchen (M. Luthi), Le rŽcit
fantastique (I. Bessi�re), on the one hand, and, on the other, another, the
collection of narratives from the Par‡ Amazon carried out by the Project O
Imagin‡rio nas Formas Oral Narrativas Populares da Amaz™nia Par‡, the
article highlights the category of alterity as a term of central importance for
the reading of such narratives.
Keywords: Marvellous, Alterity, Amazon
O
t’tulo dado a este trabalho coloca a quem o escreve e, possivelmente, a quem o
l�, diante de pelo menos duas indaga�›es – o que o autor deste texto
compreende por maravilhoso amaz™nico, e qual o elo vislumbrado com o que se
denomina poŽtica da alteridade.
O termo
maravilhoso, recorrente na teoriza�‹o que se debru�a sobre as fronteiras da
literatura do fant‡stico (TODOROV, 1975)
ou, de modo mais abrangente, do ins—lito (GARCIA, 2012) Ž frequentemente
invocado para tratar de uma multiplicidade de formas art’sticas – n‹o s—
liter‡rias (SCHUHL, 1969) – que por si s— demandaria uma vasta revis‹o
bibliogr‡fica, inexequ’vel nos limites de um artigo. Schuhl (1969) j‡ o anotou,
advertindo que para dar conta de sua magnitude haveria que se enveredar por
sendas t‹o diversas como as do maravilhoso religioso, feŽrico, ut—pico, m’tico,
cient’fico, etc. Todorov (1975), de modo mais conciso, referiu-se a tr�s modos
de representa�‹o do maravilhoso na literatura – o ex—tico, o hiperb—lico
e o intelectual – ao passo que I. Chiampi (1980) teorizou acerca do
realismo maravilhoso estabelecendo as balizas para a distin�‹o do realismo
m‡gico.
Face ˆ
amplitude dos estudos e diante das mœltiplas configura�›es que o g�nero pode
assumir, importa aqui ater-se apenas aos trabalhos cuja leitura torna-se
necess‡ria para compreens‹o do que se designa maravilhoso amaz™nico. Inevit‡vel
no percurso deste texto Ž o Introdu�‹o ˆ
literatura fant‡stica, obra na qual o fant‡stico Ž descrito como g�nero
evanescente, provisoriamente sustentado sobre as hesita�›es das personagens (e,
por extens‹o, do leitor impl’cito), diante de uma realidade, tornada a seus
olhos inveross’mil ou inacredit‡vel. O maravilhoso, por conseguinte,
constituiria g�nero, em que se encena o sobrenatural sem que os fen™menos
descritos despertem qualquer rea�‹o de assombro por parte do leitor.
No fim da
hist—ria fant‡stica, o leitor, quando n‹o a personagem, toma, contudo, uma
decis‹o, opta por uma ou outra solu�‹o saindo desse modo do fant‡stico. Se ele
decide que as leis da realidade permanecem intactas e permitem explicar os
fen™menos descritos, dizemos que a obra se liga a um outro g�nero: o estranho.
Se ao contr‡rio, decide que se devem admitir novas leis da natureza pela quais
o fen™meno pode ser explicado, entramos no g�nero maravilhoso. (TODOROV, 1975,
p. 42)
Para
Todorov, portanto, o maravilhoso, como g�nero liter‡rio delimitado pelo
fant‡stico, depende da presen�a ou nega�‹o da credulidade (por parte da
personagem e/ou leitor) diante de
fen™meno ins—lito.
Tal
descri�‹o do fant‡stico, vale assinalar, deve bem mais ao ensaio freudiano, ÒO
EstranhoÓ (FREUD, 1996a), do que admite seu tratado. Conquanto o linguista e
pensador bœlgaro fa�a refer�ncia expl’cita ao artigo de 1919, a men�‹o pouco
revela do fato de que boa parte de sua fundamenta�‹o erige-se sobre este
trabalho de Freud. Com efeito, deve-se primeiramente ao psicanalista, em seu
estudo sobre a novela de Hoffmann, a diferencia�‹o entre o maravilhoso feŽrico
e o estranho, tomando por base o contraste com a realidade constru’da pelo
leitor. Assim, se o texto freudiano j‡ assinalara que Òo reino da fantasia
depende, para seu efeito, do fato de que o seu conteœdo n‹o se submete ao teste
de realidade Ò (FREUD, 1996, p. 266), ele antecipa muito das proposi�›es de
Todorov. Em ambos, entretanto, a
descri�‹o do maravilhoso comparece sob a clave do fabuloso, extraordin‡rio,
daquilo que n‹o se submete aos critŽrios de veracidade - aspecto que pode ser
lido em uma variedade de textos te—ricos produzidos a respeito, particularmente
no continente europeu. Assim tambŽm, por exemplo, o do su’�o Max LŸthi ao
distinguir os elementos constitutivos do conto maravilhoso (MŠrchen)[13], que observa.
No conto
maravilhoso (MŠrchen), o her—i que encontra um animal, planta, ou astro
falante, n‹o demonstra nem medo nem espanto. Isto, n‹o porque o animal ou
planta falante lhe fosse familiar; eles n‹o integram seu habitat natural. Nada
indica que ele soubesse da exist�ncia de tais animais falantes. Mas ele n‹o se
admira, e n‹o teme: o sentimento para o extravagante lhe falta. Para ele, tudo
parece pertencer ˆ mesma dimens‹o. (1992, p. 10) [14]
Assim,
no�›es tais como fabuloso, extraordin‡rio, sobrenatural s‹o termos recorrentes
na literatura que aborda esse g�nero descrito na regi‹o lim’trofe do
fant‡stico, como se l� tambŽm, dentre outros, em Hetmann (1982) e Bessi�re (1974).
O
problema, porŽm, como j‡ se assinalou anteriormente (TRUSEN, 2015) Ž que tais
categorias operam a partir de conven�›es extremamente vari‡veis e cada vez mais
deslizantes na contemporaneidade. Se a vasta literatura medieval, com suas
ilhas venturosas, seus objetos m‡gicos e protetores sugerem em seu amplo
espectro a cren�a fincada no mirabilia
(LE GOFF, 1994), a compila�‹o de narrativas amaz™nicas, no outro extremo
temporal e geogr‡fico, igualmente testemunha a incorpora�‹o do maravilhoso ao
mundo prosaico e cotidiano.
Assim,
considera�›es como as de Hetmann que, citando a Polivka e Bolte afirma que o
conto maravilhoso (MŠrchen) Òs‹o
hist—rias extraordin‡rias n‹o ancoradas nas condi�›es de vida real, e que
ouvimos com maior ou menor prazer, embora as consideremos inacredit‡veisÓ
(1982, p. 12), conquanto sejam apropriadas no contexto europeu, pouco auxiliam
na compreens‹o das narrativas do maravilhoso amaz™nico.
A
imprecis‹o de seus termos deriva basicamente de dois fatores – o primeiro
deles porque se referem a um conjunto de textos que passou por percurso que se
vem assinalando, em outros trabalhos (TRUSEN, 2012), como processo de
domestica�‹o e alijamento do maravilhoso ao ‰mbito dos lares burgueses quando,
a partir do surgimento do pensamento ilustrado, assiste-se a crise da
cosmologia crist‹ que ter‡, como efeito mais imediato, a emerg�ncia do sujeito
racional como entidade privilegiada para o conhecimento das coisas no mundo.
Efetivamente, pontua, igualmente a respeito, David Roas:
A rejei�‹o ao sobrenatural
se traduziu tambŽm em condena�‹o de seu uso liter‡rio e estŽtico. As
perspectivas ilustradas da segunda metade do sŽculo XVIII enalteceram os
conceitos de verossimilhan�a e mimese como armas fundamentais para desterrar a
presen�a do sobrenatural e do maravilhoso dos textos liter‡rios. (ROAS, 2006,
p. 24) [15]
Explica-se,
assim, que as teoriza�›es em torno do ins—lito terminem, majoritariamente, a
referir-se ao conto maravilhoso, mediante sua identifica�‹o e circunscri�‹o a
—rbita do moralizante, anotando nele fei�‹o resignat—ria.
Ele [o conto
maravilhoso] usa o universo dos fantasmas e da n‹o-coincid�ncia do
acontecimento com a realidade evidente, n‹o para romper nossos v’nculos com
essa realidade, mas para nos assegurar (nos tranquilizar) da nossa capacidade e
da validade dos meios (a moral, as leis da conduta e do conhecimento de nosso
dom’nio pr‡tico) (BESSIéRE, 1974, p. 57)
A
afirma�‹o parece, como visto, respaldar-se em certa compreens‹o do maravilhoso
que o vincula muito fortemente ˆ fun�‹o que o g�nero desempenharia. Nesse
sentido, ele estaria voltado n‹o tanto para a ruptura com o que rodeia e ordena
o mundo para o homem – algo que, segundo a autora, seria bem mais
percept’vel na literatura fant‡stica – mas destinado ˆ harmonizar, ou
melhor, a ajustar o indiv’duo ao seu meio ambiente.
Postura
bem similar Ž a que lemos no ensaio de Rosie Jackson:
As fantasias
que penetram no reino do ÔmaravilhosoÕ s‹o as œnicas que tem sido toleradas e
que tem alcan�ado uma ampla dissemina�‹o social. A cria�‹o de mundos
secund‡rios atravŽs do mito religioso, a magia ou a fic�‹o cient’fica se baseia
em mŽtodos ÔlegalizadosÔ - a religi‹o, a magia, a ci�ncia – para o
estabelecimento desses outros mundos, que s‹o compensat—rios, pois preenchem
uma lacuna a partir de uma apreens‹o da atualidade como algo desordenado e insuficiente
(...). Sua base novelesca d‡ a entender que o universo Ž, em œltima inst‰ncia,
um mecanismo autorregulado no qual a bondade, a estabilidade e a ordem acabar‹o
por impor-se. Essas fantasias,
pois, servem para estabilizar a ordem social ao minimizar a necessidade de
interven�‹o humana em um mecanismo c—smico organizado segundo um principio de
benevol�ncia. (JACKSON, 2002, p. 144)
ƒ,
pois, nesse sentido que se vem sustentando ser necess‡rio distinguir entre o
uso, vale dizer, a instrumentaliza�‹o que a cultura ocidental, em muitos
momentos, empreendeu do maravilhoso, e a poŽtica que lhe Ž pr—pria. Assim, por
exemplo, a an‡lise da compila�‹o, realizada pelos Irm‹os Grimm, evidencia que o
emprego do g�nero a servi�o de uma dada concep�‹o de lar, implicou n‹o s— a
domestica�‹o do maravilhoso, mas que, igualmente, significou, muitas vezes,
redu�‹o da pot�ncia que lhe Ž pr—pria. Em outros termos, resultou no
confinamento de um conjunto de procedimentos criativos, cuja ordena�‹o Ž de
ordem inversa ao cogito racional, a um territ—rio frequentemente relacionado ao
Òera uma vezÓ dos contos recolhidos e ajustados ˆ mentalidade burguesa crist‹,
nos moldes da fam’lia dos sŽculos XVIII e XIX.
Essa
observa�‹o cr’tica a certa teoriza�‹o sobre o maravilhoso, se Ž talvez
pertinente no contexto europeu, faz-se t‹o mais urgente quando confrontada com
certo repert—rio de narrativas amaz™nicas, igualmente atravessas pelo
mirabilia.
A
urg�ncia dessa releitura resulta, porŽm, de um segundo fator. A conceitua�‹o do
maravilhoso identificando-o, ora a um tempo perdido, ora ao aparecimento do que
n‹o se subjuga ˆ esfera do que se concebe por natural, pouco ou nada se coaduna
com as narrativas ouvidas e/ou lidas em textos que transcrevem para o impresso
o repert—rio do imagin‡rio amaz™nico. A refer�ncia aqui Ž particularmente aos
relatos coligidos pelo projeto integrado IFNOPAP (O Imagin‡rio nas Formas
Narrativas Orais Populares da Amaz™nia Paraense), nas cole�›es SantarŽm conta....,
Abaetetuba conta...., BelŽm conta...., Bragan�a conta.... , dentre outras,
realizado na regi‹o norte do pa’s. Com efeito, ao leitor que se disponha a
folhear algumas delas, logo se evidenciar‡ a dificuldade para o estudioso
brasileiro de manejar tais narrativas a partir de claves de leitura t‹o pouco
afeitas como as forjadas no continente europeu. N‹o s— a indefini�‹o de tempo e
lugar Ž revertida em favor da localiza�‹o geogr‡fica do que se narra, mas
sobretudo a oposi�‹o real x irreal, natural x sobrenatural Ž completamente
suspensa em prol da alian�a entre termos considerados antag™nicos, pelo
pensamento ocidental moderno.
Que quando a
minha m‹e saiu do quarto. A’, ela apareceu gr‡vida, s— que j‡ nasceu j‡
diferente, j‡ um pouco, sabe? Muita coisa ela j‡ trouxe. Eu queria que tu o
visses, rapaz (..). Era jito aquele, aquela [boquinha] [16] digo, boquinha, sabe. Tinha tudo,
aqueles leros do boto, aquele jeito, tudo . (SIMÍES; GOLDER, 1995, p. 24)
O
fragmento acima, retirado da narrativa contada por Manoel da Fonseca foi
transcrito por Concei�‹o Vasconcelos e encontra-se na colet‰nea Abaetetuba
conta....., que reœne causos, relatos, em narrativas do nordeste paraense, no
munic’pio de Abaetetuba, localidade situada ˆs margens do rio Maratau’ra, afluente
do Tocantins. Nela, se leem os ind’cios da gravidez de mulher seduzida por
figura recorrente nas hist—rias da regi‹o, que, como a Cobra Grande, emprenha
as mulheres. Se aqui a concep�‹o pelo golfinho Ž sugerida com naturalidade, em
outras, a palavra do narrador certifica a veracidade do relato.
Bom, ent‹o a
minha palavra que eu vi, Ž isso (...) . Agora, os antigos diziam que existia
esse navio encantado, entre vŽspera de S‹o Jo‹o, [que o navio aparecia]. Muita
gente, teve gente que quis atirar, mas n‹o teve coragem, porque dizem, assim,
se atirassem desencantava. Mas, temiam n‹o desencantar, nŽ? (SIMÍES; GOLDER, 1995, p. 99)
Ambos
os fragmentos servem para ilustrar n‹o s— o fŽrtil imagin‡rio da regi‹o, mas
tambŽm para sublinhar a recorrente marca de testemunhos – amigos,
familiares, o pr—prio narrador – e/ou locais e situa�›es, de modo a certificar
o ouvinte e prov‡vel leitor de que o narrado corresponde ˆ verdade dos fatos.
Contudo, se o registro da autenticidade se faz necess‡rio, Ž porque ele se tece
na fronteira com a suposta (in)credulidade do interlocutor. Resulta da’ um
curioso liame entre a percep�‹o de que aquilo que se narra Ž extraordin‡rio,
porŽm cr’vel, dado que Ž verdadeiro, como asseguram seus narradores. De todo
modo, invocada a confiabilidade, tais narrativas parecem contradizer a
literatura sobre o maravilhoso que opera a partir das antinomias aqui
assinaladas.
Esta
rela�‹o peculiar entre o campo do natural e do sobrenatural faz assomar ˆ
mem—ria certa descri�‹o do maravilhoso na literatura do continente americano.
No pr—logo do El reino de este mundo, Carpentier postula sua teoria do
maravilhoso americano em que se entretece uma dada percep�‹o do continente,
cedida pelos primeiros cronistas, com uma reinven�‹o da escrita latino americana,
como bem o anotou o estudo de Irlemar Chiampi (1980). Com efeito, no manifesto,
Carpentier procurando definir os meandros dessa elabora�‹o sincrŽtica, tra�ada
a partir da conjun�‹o da hist—ria haitiana com o universo do mirabilia, tambŽm
prop›e as balizas para uma escritura para o continente, demarcada pelo encontro
entre o pr—prio e o alheio.
Havia respirado
a atmosfera criada por Henri Christophe, monarca de incr’veis realiza�›es,
muito mais surpreendentes que as de todos os surrealistas, muito afeitos a
tiranias imagin‡rias, ainda que n‹o padecidas. A cada passo encontrava-me com o
real maravilhoso [grifo do autor]. Mas, pensava, ademais, que essa presen�a e
vig�ncia n‹o era privilŽgio œnico do Haiti, sen‹o patrim™nio da AmŽrica inteira
(É). (CARPENTIER, 1975, p. 55) [17]
Tentador,
portanto, resgatar a conceitua�‹o do escritor cubano para compreender as
narrativas da regi‹o amaz™nica brasileira, em que se nota a indistin�‹o entre o
terreno do excepcional e do ordin‡rio, entre o fabuloso e o ver’dico. Contudo,
um r‡pido exame logo identificar‡ a impossibilidade do nexo. O conceito
proposto por Carpentier deriva de uma proposta ontol—gica para a AmŽrica, n‹o
s— resultante do entrela�amento entre mito e hist—ria, como tambŽm deriva de
perspectiva realista, cedida pelo extraliter‡rio (o real maravilhoso
caracter’stico da realidade haitiana (CHIAMPI, 1980. p. 37 e passim). As
narrativas a que se faz alus‹o aqui n‹o encenam a conjun�‹o pleiteada por
Carpentier entre mito e hist—ria – embora suspendam as rela�›es de
antinomia – tampouco constituem elabora�›es ficcionais de um escritor
particular, mediatizadas por uma dada perspectiva do real. Parece-lhe, todavia,
ser caracter’stica a presen�a de elementos do maravilhoso, fortemente fincadas
em figuras m’ticas (Boto, Cobra Grande, Matintaperera, Nau encantada, dentre
outros) que revelam uma rela�‹o espec’fica com o espa�o – a floresta e os
rios.
Outrossim,
essas narrativas que aqui nomeia-se maravilhoso amaz™nico denotam marcas de
testemunho em relatos que admitem, como forma discursiva inversa ˆ
racionalidade moderna, a rela�‹o harmoniosa, isto Ž, n‹o excludente entre
contr‡rios, mediante metamorfoses que assumem ora a forma humana, ora a animal.
E,
finalmente, um terceiro aspecto a ser considerado Ž que muitas das figuras
m’ticas a’ presentes situam-se na intersec�‹o entre natureza e civiliza�‹o, a
exemplo da Cobra Grande e do Boto, resultante de sua natureza errante entre
rios e vilarejos.
A
dire�‹o da argumenta�‹o aqui, conduz, como se v�, ˆ no�‹o de alteridade, operador
com que o pensamento filos—fico do sŽculo XX e a psican‡lise, a partir de
Freud, e sobretudo desde Lacan (SPIELMANN, 2000), t�m destacado a rela�‹o n‹o
excludente entre pares contr‡rios (Mesmo/Outro, Civiliza�‹o/Natureza,
Raz‹o/Loucura, Dentro/Fora, Masculino/Feminino, Natural/Sobrenatural).
Efetivamente, se o termo oriundo do latim altarǐtas aponta para as
rela�›es de contraste (HOUAISS,
2001) ele designa n‹o s— o que Ž diverso, mas sobretudo a rela�‹o entre
dois seres ou entidades distintas ou supostas como tal. Nesse sentido, a Òalteridade Ž o contr‡rio da
identidade, como o outro Ž o contr‡rio do mesmo. Poder-se-ia fazer disto um
princ’pio: toda coisa sendo id�ntica a si mesma (princ’pio da identidade) Ž
tambŽm diferente de todas as outras (princ’pio da alteridade)Ó.
(COMTE-SPONVILLE, 2011, p. 53). [18] Donde,
a no�‹o de alteridade, significando e abrangendo a ideia da diferen�a
efetiva-se dialogicamente – isto Ž, na rela�‹o entre termos opostos, mas
n‹o excludentes, uma vez que o Outro s— pode ser apreendido como tal em rela�‹o
ao Mesmo. Compreendida a alteridade, portanto, como categoria imprescind’vel
para o entendimento das rela�›es humanas no campo inter e intrasubjetivo, ela
passou a ocupar lugar central n‹o somente entre os cientistas sociais, mas
tambŽm no meio psicanal’tico e nos estudos liter‡rios. Concernente a esses
œltimos, cabe aqui assinalar os nomes de Octavio Paz e o de Victor Bravo, com
os quais pretende-se, por fim, estabelecer o la�o final entre o que se designou
maravilhoso amaz™nico e uma poŽtica pr—pria, enunciadora da alteridade humana e
liter‡ria.
O
cr’tico liter‡rio venezuelano em obra que est‡ ainda aguardando tradu�‹o para o
portugu�s e urgente reedi�‹o, partindo da no�‹o de alteridade dada pelo poeta e
pensador mexicano, bem como dos estudos de Foucault, observa que a cultura
judaico-crist‹ operou, no Ocidente, por um sistem‡tico repœdio ˆs formas
culturais que se antagonizaram ˆ raz‹o, ou para usar a terminologia do autor,
ˆs formas do Mesmo. Com efeito, na obra citada por Bravo, Conjunciones y
Disyunciones, O. Paz, tratando das polival�ncias abrigadas sob a picardia,
aponta para o problema da met‡fora e as faces que a comp›e – o lugar da
civiliza�‹o e o princ’pio da realidade, por um lado, e, por outro, o territ—rio
do desgoverno, e o princ’pio do prazer. Nesse sentido, anota o poeta e ensa’sta
mexicano, a picardia, e a gargalhada, que dela resulta, ordenam uma s’ntese que
traduz duas caras – o Eu e o Outro [19]
– que nos (des)governam. Nesse sentido, a picardia desvelaria e simultaneamente
mascararia os segredos, face ao nosso dia-a-dia do mundo civilizado.
L�-lo Ž
participar de um segredo. Em que consiste este segredo? Este livro nos ensina
nossa outra cara, a oculta e inferior. O que digo deve entender-se
literalmente: falo da realidade que est‡ abaixo da cintura e que a roupa nos
cobre. Refiro-me a nossa cara animal, sexual: ao cu e aos —rg‹os genitais (PAZ,
1969, p. 12) [20]
Se Ž
bem verdade que o problema foi abordado bem anteriormente por Freud, em Os
chistes e sua rela�‹o com o inconsciente,
este enlace p›e em relevo a articula�‹o Mesmo/Outro,
Civiliza�‹o/Natureza, indicando a din‰mica de alteridade, a mesma que serve ao
cr’tico Victor Bravo para pensar a literatura do fant‡stico e do maravilhoso.
O drama de toda
cultura Ž o intento de reduzir o irredut’vel, a alteridade, ˆ tranquilidade
ideol—gica do Mesmo, da Identidade. A alteridade parece ser o insuport‡vel. A
ordem que toda cultura de alguma maneira sacraliza Ž a inten�‹o de reduzir a
alteridade ˆs formas do Mesmo. (BRAVO, 1985, p. 16) [21]
Assim,
se a alteridade assinala a rela�‹o n‹o excludente entre pares antin™micos, ela
aponta igualmente para a din‰mica subjacente ˆ dolorosa experi�ncia humana de
saber-se racional, sujeito da cultura, e, simultaneamente, Outro – ser
primitivo, intuitivo, desgovernado - malgrado os ditames da raz‹o.
H‡,
todavia, assinala o Los poderes de la ficci—n (BRAVO, 1985) formas liter‡rias
que p›em a descoberto, de modo mais ou menos flagrante, tanto a alteridade
humana, como aquela que constitui o pr—prio discurso liter‡rio, em seu processo
mimŽtico de reproduzir e simultaneamente desrealizar o mundo emp’rico. Com
efeito, se o texto liter‡rio sobrevive no t�nue liame entre a representa�‹o
especular das coisas circundantes e a encena�‹o de sua pr—pria espessura
liter‡ria, o fant‡stico e o maravilhoso, para Bravo, constituem os modos
discursivos que mais evidenciam a alteridade pr—pria do homem e das narrativas
por ele produzidas. Dito em outros termos, se a literatura vive da complexa e
tensa rela�‹o com a realidade que lhe Ž exterior, entre representar-se a si
pr—pria e o representar o mundo, o texto fant‡stico Ž o que exp›e de modo mais
inquietante a possiblidade de transgress‹o entre essas fronteiras. Contudo,
como pondera o venezuelano em seu debate com o Introdu�‹o ˆ literatura
fant‡stica de Todorov, se o fant‡stico deriva da experi�ncia lim’trofe entre
esses territ—rios, o maravilhoso Ž o lugar da alteridade como espet‡culo.
Quando o limite
persiste e um ‰mbito outro se p›e em cena sem atender ˆs verossimilhan�as das
certezas do real e sem penetrar estas certezas e question‡-las, quando o limite
persiste deslindando o ‰mbito outro do ‰mbito do real, estamos em presen�a do
maravilhoso. Poderia dizer-se que no fant‡stico o outro Ž uma irrup�‹o, e, no
maravilhoso, um espet‡culo. [22] (Bravo, 1985, p. 244)
Nesse
sentido, a no�‹o de fronteira, como eixo no qual se deparam no�›es tidas como
antag™nicas e apartadas pela civiliza�‹o - por exemplo, natural e sobrenatural,
real e fabuloso, ver’dico e inverid’co – adquire relev‰ncia na
argumenta�‹o de V. Bravo que eleva o problema da alteridade como conceito a
partir do qual Ž poss’vel pensar esses g�neros liter‡rios. Nesta outra proposi�‹o, o maravilhoso Ž
redimensionado e pensado para alŽm dos antagonismos constatados nas teoriza�›es
forjadas pelo pensamento europeu.
Assim,
se o maravilhoso Ž o tema do mundo ˆs avessas, universo outro que desde o
per’odo medieval manifesta-se como pot�ncia de insurrei�‹o, o maravilhoso que
se apresenta em narrativas m’ticas ao norte do pa’s, que aqui nomeamos como
maravilhoso amaz™nico, ao suspender as rela�›es de antinomia pr—prias da
ciliviza�‹o moderna, que reduzem e
solapam a alteridade humana sob as formas do Mesmo, deve ser pensado sob a
clave da alteridade. Suas narrativas, efetivamente, conciliando o sobrenatural
e o natural, o animal e o humano, a natureza e a civiliza�‹o, tecidas que s‹o
para alŽm da fronteira, representam uma poŽtica da alteridade. E, para n‹o
encerrar, poder-se-ia ademais acrescentar que, em sendo o inconsciente o lugar
por excel�ncia da alteridade – pois nele os contr‡rios n‹o se excluem
(FREUD, 1996b)-, tais narrativas encenam a resist�ncia do inconsciente ˆ toda
forma de subjuga�‹o. Mas isso j‡ Ž outra hist—ria.
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[https://revistas.pucsp.br/index.php/fronteiraz/article/view/13010/9510] Acesso
em: 03 maio 2018.
[Recebido: 20 dez 21 – Aceito: 20 jan 21]
SE‚ÌO LIVRE
Intertextos de Romeu e
Julieta nos folhetos nordestinos
Intertexts of Romeo and Juliet in northeastern
leaflets
Weber Firmino Alves[23]
https://orcid.org/0000-0001-9012-9112
Naelza
de Araœjo Wanderley[24]
https://orcid.org/0000-0002-3622-7317
Resumo: As adapta�›es constituem
um fen™meno longevo que remonta ˆ GrŽcia antiga, quando os poetas iniciaram a
pr‡tica da releitura dos mitos, com a liberdade de modific‡-los e introduzir
inova�›es. Semelhantemente, os
cordelistas nordestinos, ao adaptarem narrativas can™nicas para os versos
populares dos folhetos, assumiram o papel de ÒtradutoresÓ de uma tradi�‹o
liter‡ria que passa a ser escrita em uma linguagem mais pr—xima do povo. Assim, o presente artigo discute a presen�a do intertexto de Romeu
e Julieta em folhetos nordestinos, incorporando adapta�›es dos textos-fonte. A leitura dos textos estabelece uma
compara�‹o com os intertextos desse amor contrariado nos cordŽis de Jo‹o
Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra, Sebasti‹o Marinho e StŽlio Torquato
Lima, a partir das ideias de Abreu (2004), Hutcheon (2013), Kristeva
(2005), Rougemont (1988), entre outros. Faz-se
uma avalia�‹o da constru�‹o do enredo de Romeu
e Julieta na tradi�‹o liter‡ria, com vistas a perceber nas adapta�›es para
o romanceiro nordestino, suas diverg�ncias e semelhan�as, compreendendo-se que
as adapta�›es n‹o s‹o c—pias, mas funcionam como produ�›es distintas,
assumindo importantes fun�›es sociais no contexto da cultura-alvo,
principalmente a de socializar um texto universal para a cultura local.
Palavras-Chave: Amor contrariado; Romeu e Julieta; Literatura; Cordel.
Abstract: Adaptations are a long-lived phenomenon that dates
back to ancient Greece, when poets began the practice of re-reading myths, with
the freedom to modify them and introduce innovations. Similarly, Northeastern
poets, by adapting canonical narratives to the popular verses of the leaflets,
assumed the role of ÒtranslatorsÓ of a literary tradition that is now written
in a language closer to the people. Thus, this article discusses the presence of
the Romeo and Juliet intertext in northeastern leaflets, incorporating
adaptations from the source texts. Reading the texts establishes a comparison
with the intertexts of this forbidden love in the cordel booklets of Jo‹o Martins de Athayde, Maria Ilza Bezerra, Sebasti‹o Marinho and
StŽlio Torquato Lima, based on the ideas of Abreu (2004), Hutcheon (2013),
Kristeva (2005), Rougemont (1988), among others. An evaluation of the
construction of the plot of Romeo and Juliet in the literary tradition is made,
with a view to realizing in the adaptations for the Northeastern flyers, their
divergences and similarities, understanding that the adaptations are not
copies, but function as distinct productions, assuming important social
functions in the context of the target culture, mainly that of socializing a
universal text for the local culture.
Keywords:
Forbidden love; Romeo and Juliet; Literature; Cordel
booklets.
Introdu�‹o
A hist—ria de Romeu e Julieta Ž conhecida como a grande narrativa ocidental do
amor rom‰ntico e retrata o sentimento puro de afei�‹o entre dois jovens de
fam’lias rivais que se apaixonam e p›em em xeque a tradi�‹o de —dio entre suas
fam’lias. Embora seja conhecida muito mais pela pe�a de Shakespeare, a
constru�‹o dessa hist—ria ocorreu ao longo de v‡rios sŽculos atŽ tomar a forma
proposta pelo bardo ingl�s. Entretanto, as adapta�›es do enredo n‹o se
encerraram na literatura inglesa, pois continuam sendo (re)elaboradas atravŽs
de recontos que s‹o apresentados ao pœblico em diferentes suportes e
linguagens.
Entre esses recontos encontram-se as adapta�›es
elaboradas por cordelistas nordestinos, os quais tambŽm se interessaram pela
tem‡tica da hist—ria desses amantes, sobretudo pelo aspecto de contrariedade da
realiza�‹o amorosa. Em um processo de recorte, inven�‹o e adapta�‹o, estes
ÒtradutoresÓ do povo colocaram no papel o produto de suas leituras, adaptando a
trama ao contexto da regi‹o e ˆ linguagem de seu pœblico leitor.
Romeu e Julieta e a tem‡tica do sofrimento amoroso
A palavra
amor Ž um substantivo cuja defini�‹o evoca conceitos diversos, seja devido ˆ
diversidade do objeto a quem o dirigimos, ou mesmo devido ˆs inten�›es de quem
o experimenta. O verbo amar, seu derivado, pode designar, no uso cotidiano,
desde o sentimento de afei�‹o por um familiar, um carinho fraterno, ou mesmo a
atra�‹o er—tica. A literatura se apropriou deste sentimento como tema de suas
produ�›es art’sticas porque, enquanto manifesta�‹o do fazer humano, a arte
reflete nossas experi�ncias.
A cl‡ssica hist—ria de Romeu e Julieta remonta a
uma tradi�‹o liter‡ria que tematiza o amor a partir de suas contrariedades,
sendo herdeira de diversos enredos cuja trama culmina na morte dos amantes, sob
a Žgide de que ÒŽ melhor morrer do que n‹o amarÓ. Na tradi�‹o latina, temos
ci�ncia do poema P’ramo e Tisbe, de
Ov’dio, publicado na sua Metamorfoses,
uma hist—ria que se acredita fazer parte do conjunto de narrativas que
inspiraram a composi�‹o romejulietiana[25].
Esse mito latino explica a cor avermelhada da
amora em face de que, perante uma amoreira plantada junto ao sepulcro do rei
Nine, matou-se pelo amor um casal de jovens apaixonados. Os jovens s‹o vizinhos
na Babil™nia, se apaixonam e fazem votos de casar, mas os seus pais pro’bem o
enlace amoroso, impedindo-os atŽ de conversarem. Diante disso, trocam apenas
gestos e olhares, atŽ descobrirem uma fenda no muro de suas casas, por onde
secretamente trocam declara�›es de amor e sentem o h‡lito um do outro. Ent‹o,
pela fenda, os amantes marcam um encontro noturno no sepulcro do rei Nino.
Tisbe chegou primeiro, mas acabou se escondendo numa gruta pr—xima diante da
chegada de uma leoa ainda com o sangue da presa na boca, em dire�‹o ˆ fonte
para saciar sua sede. A fera rasgou o len�o ca’do da jovem, deixando-o
embebecido de sangue. Ao chegar na fonte, P’ramo entendeu que sua amada teria
sido tragada por uma fera e resolveu tirar sua pr—pria vida com sua espada,
culpando-se da morte de Tisbe. Por sua vez, chegando junto ˆ amoreira,
estranhando a mudan�a na cor da amora que, de branca se tornara escura como o
sangue, gritou ao ver o corpo de P’ramo. Desesperada, a jovem decide tambŽm se
juntar na morte ao seu amado, conforme registra Ov’dio (2016, p.120):
Teu
amor, tua m‹o te h‹o dado a morte!
Eu
tambŽm tenho m‹os (exclama a triste),
Eu
tambŽm tenho amor capaz de extremos,
Que
esfor�o me dar‡ para seguir-te.
Sim,
eu te seguirei, serei chamada
Da
tua desventura a causa, a s—cia.
Ai!
S— podia a morte separar-nos...
Mas
n‹o, nem ela mesma nos separa.
î
v—s, dai terno ouvido ˆs preces de ambos,
M’seros
pais de m’seros amantes,
Que
une por lei do Fado Amor, e a Morte;
Deixai
que o mesmo tœmulo os encerre.
E
tu, ‡rvore, tu, que est‡s cobrindo
Agora
um s— cad‡ver miserando,
Logo
dois cobrir‡s. Sinais conserva
Da
tragŽdia que v�s, e por teus frutos
Difunde
sempre a cor de luto, e m‡goa,
Monumento
fatal do negro caso.
A
composi�‹o dram‡tica do poema constr—i um clima de sensibilidade e pureza entre
os amantes, despertando no leitor a compreens‹o de que, em face do imposs’vel,
quando contrariado, o puro amor n‹o teme e prefere a morte. De tristeza, os
alvos frutos da amoreira se tornaram rubros de negra cor, umedecidos pelo
sangue dos amantes para nunca mais serem como antes. Finalmente, os pais do
casal aceitam reunir as cinzas dos dois numa mesma urna e, apenas na morte, o
casal termina junto.
Encontra-se,
pois, estabelecido o enredo que passa a se caracterizar pela composi�‹o dos
seguintes elementos: jovens apaixonados; oposi�‹o do amor dos familiares;
ruptura entre a proibi�‹o parental; estratŽgia dos amantes em romper a
separa�‹o; aparente morte de um dos amantes; suic’dio do sobrevivente;
consequente suic’dio do amante aparentemente morto. Em todos os casos, o
derramamento do pr—prio sangue caracteriza a express‹o dos amantes, pois viver
sem amor Ž a pior de todas as tragŽdias.
No Oriente, a hist—ria de Laila e Kais (Laila e Majnun), uma lenda popular ‡rabe de tradi�‹o
oral que remonta ao sŽculo VII, foi registrada em mais de oito mil versos, pelo
poeta Nizami em 1188, por encomenda do soberano Shirvanshah. A trama conta
sobre a paix‹o proibida de dois jovens, as afli�›es da separa�‹o e a
consequente dor da perda. Essa hist—ria de amor da literatura persa foi
amplamente utilizada como fonte de inspira�‹o por escritores ao longo dos
sŽculos, fazendo parte do conjunto de hist—rias cl‡ssicas de amores condenados
que estabelecem rela�‹o
com o enredo de Romeu e Julieta.
Seguindo a tradi�‹o tem‡tica do sofrimento
amoroso, na Idade MŽdia, sobretudo na pena dos trovadores, a
ideia do amor cort�s se revelava como a contempla�‹o de um objeto superior,
perante quem o poeta se submete, numa condi�‹o de vassalagem, experimentando o
prazer de amar e sofrer. Acerca disso, Rougemont (1988, p. 63) escreve:
Que Ž a poesia dos
trovadores? A exalta�‹o do amor infeliz. Em toda a l’rica e na l’rica de
Petrarca e Dante h‡ somente um tema: o amor; n‹o o amor feliz, pleno ou
satisfeito (esse espet‡culo nada pode engendrar), mas, ao contr‡rio, o amor
perpetuamente insatisfeito; enfim, h‡ apenas dois personagens: o poeta, que
oitocentas, novecentas ou mil vezes repete seu lamento, e uma bela, que sempre
diz n‹o.
Observemos
que as tramas com o tema do sofrer por amor possuem exatamente em seus
conflitos a raz‹o de ser da hist—ria, pois os autores encontrados n‹o
representam necessariamente algo objetivamente insuport‡vel, mas os entes
renunciam em nome da felicidade. Assim, o tema das narrativas de amor
contrariado Ž exatamente a separa�‹o dos amantes, mas em nome da paix‹o e do
amor que lhes atormenta, raz‹o pela qual esse sentimento Ž exaltado e
transfigurado, mesmo em preju’zo da felicidade e da pr—pria vida. As tramas de
amor contrariado, ent‹o, retratam amores correspondidos que enfrentam
dificuldades para se concretizarem. Konder (2007, p.119) destaca, remetendo-se
a Agnes Heller que, na obra Shakespeare, os amores s‹o sempre correspondidos. O
estudioso, contudo, destaca que, ao longo da produ�‹o shakespeariana,
[...]
estavam sendo criadas novas condi�›es hist—ricas, nas quais a abertura para o
di‡logo n‹o podia ficar limitada a algo vis’vel e tinha de admitir a
legitimidade da suspeita do cora�‹o na rela�‹o com os outros, no confronto da
minha subjetividade com a subjetividade deles. Nem os que amavam, nem os que
queriam entender o que era o amor podiam recorrer a esquemas ÒfatalistasÓ. O
amor, em especial, passava a exigir a participa�‹o efetiva dos sujeitos
diferentes, movendo-se dos dois lados; ele passava a exigir o espa�o necess‡rio
para que cada sujeito pudesse fazer suas op�›es, tomar suas iniciativas.
Rougemont
v� em Romeu e Julieta, de
Shakespeare, a tragŽdia cort�s que representa a mais bela ressurrei�‹o do mito
de Trist‹o e Isolda, ainda anterior ˆ adapta�‹o da pe�a de Wagner. O estudioso
desconsidera, contudo, que a composi�‹o da pe�a shakespeariana possui tr�s
vers›es italianas: Il Novellino, de
Masuccio Salernitano, de 1476, com a novela 33, que descreve a hist—ria de
Mariotto e Giannozza, dois jovens amantes da nobreza, cujo amor Ž proibido pelo
—dio de suas fam’lias; Historia
novellamente ritroata di due nobili amanti, de Luigi da Porto, de 1530, com
tra�os romejulietianos, pois a trama
ocorre em Verona, as fam’lias s‹o chamadas de Montecchi e Cappelletti,
divergindo no fato de que a mo�a se apaixona primeiro e Ž mais oferecida; Romeo e Giulietta, escrita em 1554 por
Matteo Bandello, bispo e poeta do sŽculo XVI, compondo um conjunto de novelas,
cuja escrita se enquadra no que atualmente denominamos conto, visto que o texto
original possui uma escrita corrida, numa narrativa curta de œnico cl’max e
desfecho.
Na Inglaterra, Shakespeare tambŽm
n‹o foi o primeiro a adaptar a narrativa romejulietiana,
pois, em 1559, Arthur Brooke publicou um longo poema com 3020 versos,
intitulado A tr‡gica hist—ria de Romeu e
Julieta. A pe�a de Shakespeare aproveita deste poema a trama da tragŽdia e
informa�›es sobre a It‡lia e os h‡bitos culturais e sociais do pa’s.
Entretanto, faz mudan�as que ultrapassam a transmuta�‹o do enredo, pois Brooke
estabelecia um axioma moralizante de que a desobedi�ncia dos amantes teria sido
a causa de sua tragŽdia, mas o dramaturgo ingl�s retira a responsabilidade
deles e transfere para o —dio das duas fam’lias. Heliodora (2014, p.98)
argumenta:
Copiando
a trama muito fielmente de um poema moralizante do ingl�s Arthur Brooke, que
tivera imenso sucesso, em vez de condenar os dois jovens pelo imperdo‡vel
pecado de desobedi�ncia aos pais, Shakespeare os faz v’timas da luta entre suas
fam’lias, e escreve n‹o apenas uma grande hist—ria de amor como tambŽm uma
grave denœncia contra a guerra civil, ilustradas na pe�a por meio do conflito
entre os MontŽquio e os Capuleto.
Outra diferen�a na composi�‹o est‡ associada ˆ
dura�‹o dos fatos, pois Shakespeare comp›e a a�‹o em cinco dias – do
conhecimento do casal ao suic’dio, ao passo que, no poema de Brook, o casal
permanece casado por seis meses. Quando a vers‹o de Shakespeare (2017) Ž
comparada com a de Bandello (2012), Ž poss’vel perceber tambŽm significativas
distin�›es: no desfecho da novela, Romeu se suicida com veneno e a jovem apela
para a morte e morre repentinamente de dor; por sua vez, na pe�a
shakespeariana, Romeu se envenena e a jovem se suicida com o punhal do seu
amante, aproximando-se da teia significante de P’ramo e Tisbe. Ao final, tanto Shakespeare
quanto Bandello informam da reconcilia�‹o das fam’lias, sendo que a novela
bandelliana prev� que tal paz n‹o durou muito tempo depois. A vers‹o
shakespeariana concebe um final de paz duradoura e a fala do pr’ncipe de Verona
culpa o —dio das fam’lias e a condescend�ncia do poder do Estado.
A
seguir, ent‹o, examinaremos o modo como o romanceiro nordestino se apropriou do
enredo romejulietiano, oferecendo uma
nova composi�‹o adaptada ao cordel.
Adapta�›es
de Romeu e Julieta para os cordŽis nordestinos
Na GrŽcia antiga, os poetas realizavam releitura
dos mitos, com a liberdade de modific‡-los. S—focles, por exemplo, entre outras
mudan�as, altera o nome da m‹e de ƒdipo, introduz a enigm‡tica esfinge e a
peste. Essas inova�›es eram adapta�›es que chamavam a aten�‹o do pœblico, sem a
preocupa�‹o de fidelidade total ao texto-fonte. Linda Hutcheon (2013, p. 23-24)
diz que os adaptadores narram hist—rias ao seu pr—prio modo, asseverando que:
Eles utilizam
as mesmas ferramentas que os contadores de hist—rias sempre utilizaram, ou
seja, eles tornam as ideias concretas ou reais, fazem sele�›es que n‹o apenas
simplificam, como tambŽm ampliam e v‹o alŽm, fazem analogias, criticam ou
mostram seu respeito, e assim por diante. As hist—rias que contam, entretanto,
s‹o tomadas de outros lugares, e n‹o inteiramente inventadas. Tal como as
par—dias, as adapta�›es t�m uma rela�‹o declarada e definitiva com textos
anteriores, geralmente chamados de Òfontes; diferentemente das par—dias,
todavia, elas costumam anunciar abertamente tal rela�‹oÓ
Adaptar um texto significa traduzi-lo para um
suporte, g�nero ou linguagem diferente. A deprecia�‹o que ainda nutrimos pelas
adapta�›es Ž produto da valoriza�‹o rom‰ntica da originalidade e do g�nio
criativo, bem como do pr—prio apego que f‹s t�m pela fidelidade ˆs fontes.
Contudo, as adapta�›es s‹o fundamentais ˆ cultura ocidental, de modo que as
hist—rias s‹o sempre recontadas por suportes diferentes. Hutcheon (2013, p. 27)
afirma:
Trabalhar
com adapta�›es significa pens‡-las como obras inerentemente ÒpalimpsestuosasÓ
[...] assombradas a todo instante pelos textos adaptados. Se conhecemos esse
texto anterior, sentimos constantemente sua presen�a pairando sobre aquele que
estamos experienciando diretamente. Quando dizemos que a obra Ž uma adapta�‹o,
anunciamos abertamente sua rela�‹o declarada com outra(s) obra(s). ƒ isso que
GŽrard Genette (1982, p. 5) entende por um texto em Òsegundo grauÓ, criado e
ent‹o recebido em conex‹o com um texto anterior. Eis o motivo pelo qual os
estudos de adapta�‹o s‹o frequentemente estudos comparados.
ƒ assim que o enredo romejulietiano chega ao Nordeste do Brasil na pena de cordelistas
que assumem o papel de contar para o povo a cl‡ssica hist—ria de amor adaptada
nos versos dos folhetos. Ao menos quatro cordŽis nordestinos realizaram
adapta�›es da narrativa de Romeu e Julieta, em tempos diferentes, sob os
seguintes t’tulos: Romance de Romeu e Julieta (1975), atribu’do a Jo‹o
Martins de Athayde (Para’ba); Romeu e Julieta (2001), de Maria Ilza
Bezerra (Piau’); Romeu e Julieta em cordel (2011), de Sebasti‹o Marinho
(Para’ba); Romeu e Julieta: William Shakeaspere (2012), de StŽlio
Torquato Lima (Cear‡). A recep�‹o no Nordeste do enredo de amor contrariado
lembra os diversos casos no locus
sertanejo de conflitos familiares com numerosas mortes.
Assim como Shakespeare, Bandello e tantos outros
foram adaptadores, os poetas populares assumem esse compromisso, trazendo para
o verso as narrativas de outros, fazendo refer�ncia ou n‹o ˆs fontes de sua
composi�‹o. Ariano Suassuna (1973 apud SUASSUNA, 2012, p.176) comenta esse
papel do cantador nordestino:
O cantador nordestino n‹o se detŽm
absolutamente diante dessas considera�›es: apropria-se tranquilamente dos
filmes, pe�as de teatro, not’cias de jornal e mesmo dos folhetos dos outros.
Que importa o come�o, se, no final, a obra Ž sua? Ele, depois de tudo,
acrescentou duas ou tr�s cenas, torceu o sentido de tr�s ou quatro outras, de
modo que a obra resultante Ž nova. N‹o era assim que procediam Moili�re,
Shakespeare, Homero e Cervantes? [...] Os cantadores procedem do mesmo jeito.
H‡ mesmo, uma palavra que entre eles, indica o fato, o verbo versar, que
significa colocar em verso a hist—ria em prosa de outro. Quando Shakespeare
escreveu Romeu e Julieta n‹o fez mais do que versar as cr™nicas
italianas de Luigi Dal Porto e Bandello.
Tradicionalmente, os cordŽis se apresentam mais
atrativos do que os textos em prosa para o pœblico leitor por serem escritos em
versos compostos num padr‹o que favorece as leituras coletivas em voz alta,
pois, conforme Abreu (2004), fazendo refer�ncia ˆs palavras do poeta Manoel
dÕAlmeida Filho, o povo nordestino se acostumou a ler o verso como quem canta.
Ainda segundo essa autora, as adapta�›es de
textos cl‡ssicos realizadas pela literatura de cordel n‹o ocorrem
aleatoriamente, mas seguem um certo padr‹o que caracteriza a composi�‹o e a
recep�‹o dos folhetos. H‡ um certo padr‹o no processo de adapta�‹o dos textos
eruditos, pois, de modo geral, os cordelistas escolhem narrativas que sejam pr—ximas
do que se convencionou denominar Òromances de cordelÓ, um subg�nero de folheto
nordestino com 24 ou mais p‡ginas, com narrativas ficcionais, tematizadas entre
o amor e a luta, privilegiando hist—rias semelhantes ˆs narrativas tradicionais
da literatura popular.
Os folhetos nordestinos, publicados desde a
segunda metade do sŽc. XIX tornaram os homens pobres na posi�‹o de autores,
leitores, editores e cr’ticos de composi�›es poŽticas, envolvendo pessoas
simples no mundo das letras, pelo viŽs da composi�‹o e recep�‹o dos versos. Foi
assim que Romeu e Julieta, como diversas outras narrativas can™nicas, chegaram
ao Nordeste, pelo viŽs da recep�‹o dos cordelistas, como destaca Abreu (2004,
p. 200):
A distin�‹o
entre a composi�‹o e a recep�‹o de folhetos nordestinos e a produ�‹o e a
leitura de obras liter‡rias eruditas fica clara quando se examinam vers›es para
folheto de narrativas eruditas, fato relativamente comum no interior da
literatura de folhetos, em que h‡ vers›es de A Escrava Isaura, de Bernardo Guimar‹es,
de Ubirajara, Iracema, A Viuvinha, de JosŽ de Alencar, de Amor de Perdi�‹o, de
Camilo Castelo Branco, de Paulo e Virg’nia, de Bernardin de Saint Pierre, de
Romeu e Julieta, de Shakespeare, de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre
Dumas, para citar apenas alguns exemplos.
Segundo Abreu (2004), a recep�‹o e nova
composi�‹o dos poetas leva em conta a sele�‹o de narrativas eruditas com
enredos, cujo tema central envolve, basicamente, o amor e a luta, variando
entre os tr�s nœcleos tem‡ticos seguintes: mulheres virtuosas perseguidas por
perversos apaixonados; amores contrariados; e enfrentamentos entre poderosos e
valentes. As adapta�›es romejulietianas
se enquadram, certamente, nos romances de amor contrariado.
Ademais, a estudiosa afirma que a sele�‹o e adapta�‹o
dos textos can™nicos para o cordel segue os seguintes critŽrios: semelhan�a de
enredo com os romances tradicionais dos folhetos; transposi�‹o da prosa para o
verso setiss’labos (padr‹o dos folhetos); adequa�‹o da sintaxe e do lŽxico;
desembara�amento da trama com a reestrutura�‹o do enredo, reduzindo personagens
e a�›es; caracteriza�‹o sucinta das personagens com poucos atributos f’sicos e
morais, basicamente para identific‡-las no enredo como boas ou m‡s, vil›es ou
her—is, etc.; por vezes, faz-se a altera�‹o do enredo para adequar ao final dos
paradigmas do cordel, qual seja, a felicidade dos apaixonados; apresenta�‹o dos
sentimentos mais por a�›es do que por descri�›es. AlŽm disso, geralmente, os
folhetos privilegiam o tipo de narrador-onisciente, com o papel preponderante
de interpretar as atitudes dos personagens e fazer ju’zo de valor Žtico e
moral, pois as hist—rias t�m um car‡ter exemplar.
Semelhantemente, os quatro cordŽis romejulietianos constroem a narrativa de
forma l’rica, de modo que Ž poss’vel reconhecer os aspectos destacados por
Abreu (2004). Quando comparados, percebemos que os cordŽis possuem um enredo
cuja estrutura b‡sica pode ser resumida assim: inimizade entre as proles; amor
ing�nuo entre os filhos dos patriarcas; a igreja como medianeira na
reconcilia�‹o; casamento secreto entre os namorados/rivais; morte do primo de
Julieta; ex’lio de Romeu; acordo secreto da morte de Julieta; m‡ comunica�‹o
com Romeu; morte do conde P‡ris; suic’dio dos jovens.
CordŽis
nordestinos: intertextos de Romeu e Julieta
A produ�‹o liter‡ria dialoga com outras
produ�›es art’sticas, culturais e do pr—prio universo da literatura. Kristeva
(2005) v� o texto como um mosaico de cita�›es, retomando sempre outros textos,
seja pela vincula�‹o, a retomada expl’cita, um ato leg’timo ou a ilegalidade do
pl‡gio.
A intertextualidade admite a forma�‹o de uma
grande rede de textos que sempre retoma produ�›es anteriores, cujos fios se
encontram com outros, formando um grande mosaico caleidosc—pico e
multidimensional. Assim, a cria�‹o art’stica Ž tanto individual como coletiva,
pois a mem—ria do artista tambŽm se comp›e de cita�›es, lembran�as e
esquecimentos involunt‡rios ou n‹o.
Os quatro cordŽis romejulietianos dialogam intertextualmente com a tradi�‹o europeia
da qual s‹o herdeiros, mas, ao faz�-lo, reconstroem o prototexto original,
adaptando ao novo contexto de produ�‹o. Tal processo de reescritura Ž muito
mais percebido sob a pena do cordel mais antigo de Athayde, devido ao seu v’nculo
com a tradi�‹o amparada na cultura de conflitos parentais do in’cio do sŽculo
XX no sert‹o nordestino.
Do ponto de vista do suporte, Athayde e Ilza
Bezerra, mant�m a publica�‹o no modelo tipogr‡fico do folheto de cordel. Por
outro lado, os cordŽis de Marinho e Lima foram publicados em livros por
editoras de divulga�‹o nacional, respectivamente, a Nova Alexandria e o ArmazŽm
da Cultura.
Quanto ˆ fonte de adapta�‹o, os tr�s cordŽis
recentes de Bezerra, Lima e Marinho apresentam-se claramente identificados com
a pe�a de William Shakespeare[26], conforme se pode
perceber, a seguir:
Vasculhando alfarr‡bios
Desbotados na gaveta,
Deparei-me com a obra
Maior de todo planeta:
ƒ a shakespeariana
De Romeu e Julieta (MARINHO, 2011,
p.13)
AtravŽs desta hist—ria
Resgatarei a leitura
De um drama muito antigo,
Famoso em sua candura,
Porque o cordel Ž arte
E valoriza a cultura.
As personagens do drama
Comoveram muita gente
Por mostrar um grande amor
Profundo e contundente,
Criadas por Shakespeare
Pra se amar eternamente (BEZERRA, 2011,
p.1)
N‹o h‡ em todo o planeta
Algo que ven�a o amor,
Que Ž belo qual borboleta,
Forte qual mar em furor.
ƒ o que mostra a historieta
De Romeu e Julieta.
Shakespeare Ž seu autor. (LIMA, 2012,
p.70)
No
caso do cordel de Athayde, n‹o encontramos nenhuma indica�‹o textual que
relacione o texto com a obra de Shakespeare. Todavia, desde que Ariano Suassuna
(2018) adaptou o cordel de Athayde para sua pe�a A hist—ria do Amor de Romeu
e Julieta: imita�‹o Brasileira de
Matteo Bandello, referenciou,
pelo pr—prio t’tulo, o conto italiano como sendo a fonte usada por Athayde. O
texto de Athayde, porŽm, n‹o nos permite ter tanta certeza disso, embora
possamos inferir, pelas duas primeiras sextilhas, que o autor tenha conhecido a
hist—ria atravŽs do cinema ou de alguma encena�‹o teatral:
Vou
contar neste romance
a
desdita de Romeu
na
sua curta exist�ncia
de
tudo que padeceu
foi a lenda mais tocante
que
a nossa imprensa escreveu
Essa
hist—ria Ž conhecida
em
quase toda na�‹o
no teatro e no cinema
tem
causado sensa�‹o
deixando
amarga lembran�a
no mais brutal cora�‹o. (ATHAYDE, 1975, p.1)
A
poesia de Athayde estabelece uma teia intertextual produtiva que ultrapassa os
limites da linguagem verbal dos textos fundantes e chega a outros universos
semi—ticos, visto que o pr—prio poeta admite que esta hist—ria j‡ foi traduzida
para outras m’dias, como o teatro e o cinema, e j‡ ÒŽ conhecida em quase toda
na�‹oÓ.
Athayde (1975) incorpora altera�›es
significativas, como o ju’zo de valor negativo para a fam’lia Capuleto (ra�a
tirana), em detrimento ˆ descri�‹o positiva da fam’lia MontŽquio (fam’lia
honesta e humana). Assim, esta representa o bem e a honra, valores exaltados na
Žtica nordestina, enquanto aquela retrata a impiedade e o autoritarismo.
No conto de Bandello, n‹o h‡ essa dicotomia
moralista retratada no romanceiro popular, de modo que um amigo de Romeu,
embora reconhe�a o afeto de MontŽquio pelo filho, descreve a sua dureza e apego
aos bens materiais: Ò[...] voc� Ž – deixe-me ser sincero – cort�s,
virtuoso, am‡vel e de boa cultura, o que muito valoriza sua juventude. AlŽm
disso, œnico filho de um pai cuja grande riqueza Ž de todos conhecida; Ž
poss’vel que ele seja avaro e o repreenda se voc� esbanja os seus dotesÓ
(BANDELLO, 2012, p.19).
O
enredo athaydiano desenvolve o conflito das duas fam’lias, acrescentando uma
tragŽdia n‹o apresentada em nenhuma das tradi�›es romejulietianas. No cordel, MontŽquio foi preso por Capuleto e
assistiu o assassinato brutal de sua esposa, que ainda tinha Romeu nos bra�os.
A composi�‹o deste conflito aumenta o drama, pois n‹o houve qualquer
miseric—rdia do tirano Capuleto:
Montequio inda pediu
mas ele n‹o atendeu,
disse o duque a um carrasco
esse logo obedeceu
dos bra�os da propria m‹e,
foi arrancado Romeu. [...]
Ali tirou um punhal
Que na cinta carregava
Cravou-o no peito da jovem
Dizendo: eu bem que jurava;
O punhal ia rangindo
Com a for�a que ele botava
Disse ela: senhor duque
seu cora�‹o Ž perverso
tenha d— do meu filhinho
que ainda fica no ber�o;
ele calcou no punhal
que sumiu-se atŽ no ter�o (ATHAYDE, 1975,
p.4-5)[27]
Na
continuidade da narrativa, MontŽquio retira o punhal da esposa e jura que seu
filho haver‡ de vingar-se do algoz inimigo. Como se n‹o bastasse o assassinato
a m‹o armada, Capuleto arrastou pela cidade o corpo da esposa de MontŽquio e
mandou jog‡-la no mar, privando-lhe atŽ de um enterro digno.
AlŽm disso, a presen�a de Romeu no baile de
m‡scaras da fam’lia Capuleto Ž retratada de forma diferente. No conto, Romeu Ž
reconhecido e tolerado sem troca de ofensas, sobretudo por ser muito jovem. Na
vers‹o de Athayde, o jovem MontŽquio comparece com o punhal para vingar-se,
conforme incumb�ncia do pai. Entretanto, ao se apaixonar por Julieta, Romeu Ž
obrigado a fazer uma escolha entre o amor de seu pai e o da jovem Capuleto,
numa tens‹o cuja escolha pesa a balan�a contra o c—digo de Žtica nordestino,
conforme descreve o poeta:
Por fim falou o mancebo:
escuta, loura crian�a
do castelo do meu pai
vim tomar uma vingan�a;
e arrastando um punhal
aos pŽs da mo�a lhe lan�a
Diante a tua beleza
eu sinto o peito chagado
pelos teus olhos azuis
tornei-me escravizado
e te confesso sem pejo
Por ti, vivo apaixonado
Teu pai matou minha m‹e
Quando eu era pequenino,
E eu ving‡-lo jurei
Mas a for�a do destino
Fez com que tudo acabasse
Ante o teu porte divino
Serei perjuro e jamais
Ao meu pa’s voltarei
Aos teus pŽs palida imagem
Como escravo viverei
Juro-te em nome dos cŽus
Que junto a ti morrerei (ATHAYDE, 1975,
p.15,16)
A
decis‹o de Romeu est‡ tomada e n‹o h‡ retorno, raz‹o pela qual o cordelista
emite seu parecer, apresentando um ju’zo de valor com base na Žtica sertaneja
para a qual a desonra ˆ fam’lia Ž uma atitude imperdo‡vel e, diante da qual, o
eu l’rico esquece a abnega�‹o dos jovens apaixonados e execra:
Quem possui este romance
conhece bem o que leu,
a esposa de Montequio
em que condi�‹o morreu
tambŽm conhece a misŽria,
e covardia de Romeu. [...]
Romeu fez como saguim
que se ilude com careta
bastou ver no peito dela
um ramo de violeta
foi perguntar logo seu nome
lhe dissera; Ž Julieta
Nas condi�›es que ele estava
n‹o tinha mais um rodeio
era vingar-se de tudo
fingindo como um passeio
n‹o tinha o que perguntar
quem Ž bonito nem feio
Mas ele n‹o fez assim
depois que se achou na sala
viu Julieta dan�ando
fez tudo pra namor‡-la
inda ela sendo uma deusa
ela devera odi‡-la
Romeu foi falso a seu pai
por isto teve castigo
como faltou-lhe a coragem
para enfrentar o perigo
casou-se com a pr—pria filha
do seu fatal inimigo (ATHAYDE, 1975, p.30,31)
O enredo athaydiano construiu a imagem de um
MontŽquio vitimado para, ao final, emitir um ju’zo de valor sobre a tomada de
atitude de Romeu ao renunciar a vingan�a em nome do amor ˆ filha do inimigo. A
composi�‹o de cordelista certamente considera o sil�ncio que o enredo
bandelliano realiza em rela�‹o ˆ esposa de MontŽquio, pois, no conto, a fam’lia
Capuleto Ž composta por um casal e a sua filha, mas isso n‹o sucede na fam’lia
MontŽquio, em que apenas o pai e o filho s‹o retratados. Certamente, essa Ž uma
das raz›es porque Bandello Ž tido como fonte de Athayde e n‹o Shakespeare, para
quem a m‹e de Romeu morreu devido ao seu ex’lio em M‰ntua.
Na vers‹o de Athayde, Romeu n‹o Ž apresentado
como um her—i, assim como acontece nas vers›es cl‡ssicas ou mesmo no romanceiro
popular dos outros cordŽis. Aqui, ele Ž tratado como um traidor dos seus
progenitores, alguŽm que renegou o seu sangue. No dizer de Oliveira (2019,
p.1003), Ž o cordel Òassumindo o papel de correia transmissora de alguns
valores culturais nordestinosÓ. O estabelecimento de uma moral n‹o Ž plena
novidade dos romances nordestinos, pois, conforme Oliveira (2019, p.998), os
autores europeus j‡ o faziam:
Brooke pregava em seu poema que a
desobedi�ncia de Julieta foi a causa deflagradora da tragŽdia dos dois jovens,
uma vez que Julieta n‹o quis ouvir os conselhos da m‹e. Com seu poema, Brooke
deixa para os jovens a li�‹o de que o ato de n‹o obedecer ˆs ordens dos pais
pode gerar consequ�ncias amargas e irrevers’veis. Esse tom moralizante foi
relutado por Shakespeare em sua pe�a que retirou a responsabilidade da tragŽdia
das m‹os de Julieta, transferindo-a para as duas fam’lias nobres e o seu eterno
—dio.
No cordel de Lima (2012), a moral da narrativa Ž
pronunciada no in’cio e no final do cordel, exaltando o poder do amor que une o
casal na morte e pacifica a rela�‹o entras fam’lias rivais:
N‹o h‡ em todo
o planeta
Algo que ven�a
o amor,
Que Ž belo qual
borboleta,
Forte qual mar
em furor.
ƒ o que mostra
a historieta
De Romeu e
Julieta.
Shakespeare Ž
seu autor. [...]
Mas, no fim, o
amor ganhou
pois o —dio ali
morreu
E a verdade
floresceu
Mesmo sendo
borboleta,
Nenhuma for�a
excedeu
Ao amor, neste
planeta
Diz
Shakespeare, n‹o eu,
Na hist—ria que
escreveu
De Romeu e Julieta.Ó (LIMA, 2012, p.70,74).
Na narrativa de Bezerra (2011), a moral aparece
tambŽm no final do romance, enfatizando as consequ�ncias do —dio e o modo como
a paz selou-se:
E a que ponto
chega o —dio
Ficou marcado
no instante.
A Maldi�‹o teve
o fim
Selou-se a paz
doravante.
Isto serviu de
li�‹o. (BEZERRA, 2011, p.31)
O tempo da narrativa Ž semelhante em todos os
cordŽis, tal como em Shakespeare cuja a�‹o transcorre num per’odo de cinco
dias, quando os jovens se conhecem, se casam, consumam o amor, Romeu foge e
acabam se encontrando no sepulcro com a morte.
No cordel de Lima (2012), o casal se conhece na
festa, com Romeu mascarado e oculto, resolvem se casar e a morte de Teobaldo
n‹o Ž desenvolvida, como um elemento da composi�‹o que potencializou o conflito
das fam’lias, apenas exilando Romeu, sem qualquer comprometimento de Julieta.
Nos folhetos de Bezerra (2011) e de Marinho (2011), por outro lado, Romeu Ž
reconhecido por Teobaldo no baile de m‡scaras, mas Capuleto reconhece a virtude
do jovem MontŽquio e tolera sua presen�a, orientando o sobrinho a nada fazer,
tendo em vista que o rapaz se mostrava virtuoso e educado. Em todos os cordŽis,
Romeu mata Teobaldo apenas ap—s a provoca�‹o deste, que chega a matar Mercœrio,
amigo do jovem MontŽquio.
Entretanto, apenas os cordŽis de Bezerra (2011)
e de Marinho (2011) desenvolvem o drama de Julieta entre o primo morto e o
marido exilado, exaltando ainda mais a natureza do conflito familiar e
desencadeando a angœstia da mo�a. Na vers‹o de Bezerra (2011), a senhora Capuleto, relacionava o sofrimento de Julieta ˆ
morte do Teobaldo, e promete que Romeu pagaria, sem saber, contudo, que a jovem
chorava pela saudade do seu esposo.
Somente no cordel de
Marinho (2011), aparece a senhora MontŽquio, apelando ao pr’ncipe para n‹o
estabelecer a pena capital a Romeu devido ˆ morte de Teobaldo, tal como
requeria a senhora Capuleto. Tal constru�‹o estabelece uma forte distin�‹o do
car‡ter narrativo de Athayde, para quem a morte da senhora MontŽquio no in’cio
do folheto Ž elemento fundamental do conflito entre os rivais.
Cabe ainda registrar
que as œltimas estrofes dos cordŽis de Bezerra e Marinho encerram em forma de
acr—stico, um carimbo de autoria caracter’stico do cordel.
Considera�›es
finais
êtalo Calvino (1993, p.11) define um cl‡ssico
como Òum livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizerÓ. No que
pese a diversidade de reescrituras de Romeu e Julieta, Ž poss’vel consider‡-lo
o grande enredo do ocidente, com o qual qualquer narrativa de amor proibido
ser‡ sempre comparada. Sendo assim, n‹o
Ž de se estranhar que os poetas populares tenham encontrado raz›es para
ÒtraduzirÓ Romeu e Julieta para o
cordel.
Enfatizamos, porŽm, que as adapta�›es dos
cordŽis demonstram a liberdade dos autores em contar ao seu modo a trama.
Contudo, do ponto de vista do enredo, foi poss’vel perceber muito mais
liberdade no texto de Athayde, sobretudo pela incorpora�‹o de fatos e temas que
permitem a identifica�‹o do pœblico leitor dos folhetos com o texto.
Entretanto, n‹o se percebe o mesmo processo criativo nos demais textos aqui
estudados, que se mostram mais propensos a cristalizar a hist—ria de
Shakespeare.
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BonitaÓ - Rela�›es entre Folhetos de Cordel e Literatura Erudita. Horizontes
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SUASSUNA, Ariano. A compadecida e o romanceiro nordestino. In: ______. Almanaque Armorial. 3. ed. Rio de Janeiro: JosŽ Olympio, 2012.
[Recebido: 16 ago 21- Aceito: 16 set 21]
O estatuto m’tico e a dimens‹o argumentativa em narrativas
de enterro produzidas em comunidades quilombolas
The mythical status and the argumentative dimension in buried treasure
narratives produced in quilombola communities
Emanuel da Silva Fontel[28]
https://orcid.org/0000-0002-7805-6464
Regina CŽlia Fernandes
Cruz[29]
https://orcid.org/0000-0003-3985-1024
Benedita do Socorro
Pinto Borges[30]
https://orcid.org/0000-0002-8188-9563
Thaynara Thays Ferreira
Paix‹o[31]
https://orcid.org/0000-0002-7363-8406
Resumo: Neste artigo, discutimos como a constru�‹o de mitos se
articula ˆ dimens‹o argumentativa em narrativas orais, mais especificamente em
narrativas de enterro, as quais habitam o imagin‡rio da cultura quilombola e se
referem ao enterramento de um tesouro por entidades m’ticas, que, considerando
as qualidades dos indiv’duos da comunidade, revelam-lhe n‹o s— a exist�ncia da
riqueza, mas tambŽm o local onde ela est‡ enterrada e as instru�›es necess‡rias
ao resgate. O corpus analisado tem
sido estudado por Borges (em andamento) e foi coletado em oito comunidades
quilombolas do Baixo Tocantins - PA: Itabatinga, Itapocu, Laguinho, Mola,
Taxizal, Tom‡zia, Frade e Laguinho. As bases te—rico-metodol—gicas
fundamenta-se na Teoria da Argumenta�‹o no Discurso (AMOSSY, 2016, 2020), que
prop›e a no�‹o de dimens‹o argumentativa como um efeito de sentido projetado
pelo enunciador, que pretende n‹o a ades‹o expl’cita do enunciat‡rio a uma
tese, mas t‹o somente lhe alterar os modos de ver e de sentir; na no�‹o de mito
proposta por Chau’ (2020); nos estudos acerca das narrativas de enterro
desenvolvidos por Fernades (2007). As an‡lises demonstram que enunciador e
narrador mobilizam opera�›es argumentativas e ret—ricas para divulgar e estimular
valores Žticos e morais importantes para a sobreviv�ncia e resist�ncia da
comunidade.
Palavras-chave: Narrativa oral;
Narrativa de enterro em comunidade quilombola; Estatuto m’tico; Dimens‹o
argumentativa; Aspectos ret—ricos.
Abstract: This research aims to
discuss how the construction of myths is articulated with the argumentative
dimension in oral narratives, more specifically in buried treasure narratives.
They inhabit the imagination of quilombola culture and refer to the burial of a
treasure by mythical entities, which, considering the qualities of the
individuals in the community, reveal the existence of wealth, the place where
it is buried and the necessary instructions for its rescue. The analyzed corpus
has been studied by Borges (in progress) and was collected in eight quilombola
communities in Baixo Tocantins - PA: Itabatinga, Itapocu, Laguinho, Mola,
Taxizal, Tom‡zia, Frad and Laguinho.
The theoretical-methodological bases subscribe to the Theory of
Argumentation within Discourse (AMOSSY, 2016, 2020), which proposes the notion
of argumentative dimension as an effect of meaning projected by the enunciator,
who intends not to explicitly persuade the enunciatee to a thesis, but only to
change their ways of seeing and feeling; to the notion of myth proposed by
Chau’ (2020); and to studies about burial narratives developed by Fernades
(2007). The analyzes demonstrate that both enunciator and narrator mobilize
argumentative and rhetorical operations to disseminate and encourage ethical and
moral values that are important for the communityÕs survival and
resistance.
Keywords: Oral narrative; Buried treasure
narrative in a quilombola community; Mythical status; Argumentative dimension;
rhetorical aspects.
Introdu�‹o
A narrativa de enterro[32] caracteriza-se como um
g�nero discursivo que comp›e as pr‡ticas orais cotidianas de certas
comunidades. Fernandes (2007), em trabalho seminal, coletou e analisou v‡rias
formas narrativas orais no Pantanal sul-mato-grossense. Entre essas formas,
est‹o as aqui denominadas narrativas de enterro quilombola[33],
que t�m sido estudadas, no ‰mbito da Universidade Federal do Par‡, por Borges
(em andamento) e por Fontel (em andamento)[34]. Parte desse estudo j‡ se
encontra publicado em Borges et. al. (2020). O corpus analisado foi
coletado na regi‹o do Baixo Tocantins no Estado do Par‡, onde se encontram as
comunidades remanescentes de quilombo: Itabatinga, Itapocu, Laguinho, Mola,
Taxizal, Tom‡zia, Frade e Laguinho. Parte desse material Ž exposto no presente
artigo.
Nas narrativas de enterro quilombola,
verificamos a presen�a de um narrador que lan�a m‹o de v‡rias estratŽgias
argumentativas com diferentes fun�›es, como a de produzir uma inst‰ncia
discursiva cujo status garante a autoridade daquilo que enuncia. Desse modo,
pode-se atribuir ao narrador um ethos afian�ador das suas credenciais
para contar hist—rias nas quais o enunciat‡rio possa crer. A constru�‹o desse
estado de cren�a n‹o pleiteia explicitamente a ades‹o a nenhuma tese. Muitas
vezes h‡ investimentos em afetos e em sentimentos possivelmente despertados no
enunciat‡rio, adentrando, em virtude disso, no dom’nio do pathos. Assim,
o narrador n‹o parece, stricto sensu, pretender persuadir ou convencer o
enunciat‡rio, mas apenas alterar o seu estado de cren�a. Nos casos sob an‡lise,
parece pretender retirar o enunciat‡rio de um estado de poss’vel descren�a e
desconfian�a acerca da veracidade da exist�ncia de um tesouro que foi enterrado
por uma entidade m’tica na comunidade e lev‡-lo a um estado de cren�a na exist�ncia
do referido tesouro, o que configura, nos termos de Amossy (216, 2020), a
formula�‹o de uma dimens‹o argumentativa, entendida como a configura�‹o que um
discurso assume quando os objetivos de convencer ou persuadir n‹o atendem a um
objetivo program‡tico, isto Ž, n‹o s‹o primeiramente constitu’dos para fazer
com que o interlocutor adira a uma tese espec’fica. A busca de ades‹o a teses
Ž, por assim dizer, acidental ou secund‡ria. Nesses casos, afirma a autora, o
mais importante para o enunciador Ž alterar os modos de ver e de sentir do
enunciat‡rio (AMOSSY, 2020).
Nesse processo Òde fazer crerÓ nas narrativas de
enterro, entram discursivamente em cena uma sŽrie de entidades m’ticas
associadas a explica�›es de base sobrenatural, atuando, dessa maneira, no plano
simb—lico e constituindo, portanto, um mito (CHAUê, 2020), que t�m em vista
revelar e certificar a exist�ncia do tesouro enterrado. O conhecimento do
narrador acerca da exist�ncia tanto do tesouro quanto das entidades que o
gerenciam e das condi�›es que elas imp›em ao escolhido para que ele tenha
acesso ˆs riquezas o credenciam a dar conselhos e ensinamentos de ordem Žtica e
moral, a fim de garantir a exist�ncia, o bom funcionamento e a resist�ncia da
comunidade quilombola
Adiante, situamos o g�nero discursivo objeto do
presente estudo, a no�‹o de estatuto m’tico e apresentamos ainda uma an‡lise
poss’vel para as estratŽgias utilizadas pelo enunciador com vista a
sensibilizar o enunciat‡rio relativamente a determinados valores morais e
Žticos.
O g�nero narrativa de
enterro
Nesta se�‹o, apresentamos os diferentes
significados e a estrutura narrativa desse g�nero nos termos de Fernandes
(2007). Em Borges et. al (2020) e em Paix‹o; Borges; Cruz (2020) tanto os
significados quanto a estrutura est‹o amplamente explicados e exemplificados,
raz‹o por que n‹o procederemos de igual modo. Remetemos esses trabalhos ao
leitor interessado no tema.
As
narrativas de enterro caracterizam-se como uma narrativa oral cujo tema central
Ž a saga de uma pessoa em busca de um tesouro encantado, o qual foi revelado
por meio de uma for�a sobrenatural (FERNANDES, 2007). O pioneiro nos estudos
sobre o tema foi Fernandes (2007), que coletou e registrou v‡rias narrativas
orais no Pantanal sul-mato-grossense, entre elas, as narrativas de enterro. O
nome enterro foi dado pelos pantaneiros, pois geralmente o tesouro
perdido est‡ escondido debaixo da terra, o que tambŽm simboliza a rela�‹o do
enunciador com o espa�o onde ele habita.
Apesar de caracterizarem-se como varia�›es de
uma mesmo g�nero discursivo, dada a apenas relativa estabilidade dos enunciados
(BAKHTIN, 2011) e dividirem a mesma estrutura formal – o que foi
comprovado no estudo de Borges et. al. (2020) – as narrativas de enterro coletadas no
pantanal e as narrativas de enterro coletadas em comunidades quilombolas s‹o
diferentes no que se refere a alguns aspectos do conteœdo tem‡tico, o que pode
ser justificado pelas diferen�as hist—ricas e sociais de seu contexto de
produ�‹o.
O ponto comum entre as duas Ž que a aus�ncia de
bancos para dep—sito do dinheiro justificava o enterro, porŽm, cada uma dessas
narrativas apresenta motiva�›es diferentes para que ele acontecesse. Segundo
Fernandes (2007), nas narrativas de enterro pantaneiras s‹o citados fatos
hist—ricos locais, como, por exemplo, a Guerra do Paraguai. Algumas fazem
men�‹o ˆ Žpoca das miss›es.
As comunidades quilombolas do Baixo Tocantins
foram constru’das por meio de um processo hist—rico-social iniciado no tempo da
escravid‹o. Atualmente, essas comunidades remanescente, apesar de n‹o serem
mais constitu’das por escravos, tentam manter sua identidade e culturas
preservadas. As mem—rias desse passado s‹o recorrentes nas narrativas coletadas
nas comunidades.
O g�nero discursivo em estudo pode ser definido,
de forma geral, como uma narrativa em que um tesouro enterrado Ž revelado a uma
pessoa por meio de acontecimentos sobrenaturais. Fernandes (2007) classificou
as narrativas de enterro em quatro categorias, considerando a varia�‹o de
significados: o protoconto, a explicativa, a descritiva e o logro.
Etimologicamente, protoconto pode significar
Òconto inacabadoÓ, porŽm o verdadeiro sentido dessa categoria de narrativa de
enterro n‹o se refere a uma hist—ria acabada, mas sim em gesta�‹o, posto que se
desenvolve ˆ medida que a hist—ria transcorre. Segundo Fernandes (2007, p.
287), o protoconto traz em seu significado certa aproxima�‹o com o conto
maravilhoso, porque em ambos ÒŽ ressaltada a prova�‹o do escolhido e do her—iÓ.
O her—i do conto maravilhoso passa por percal�os e prova�›es atŽ a resolu�‹o
dos problemas. Dessa mesma forma,
nas narrativas de enterro quilombolas, o escolhido enfrenta algumas
dificuldades atŽ encontrar e desenterrar o tesouro.
Na narrativa do tipo explicativa, h‡ a inser�‹o
de elementos que s‹o encontrados em mitos e lendas, com o objetivo de explicar
a exist�ncia do enterro. Ou seja, quando um fen™meno incompreens’vel acontece,
lan�a-se m‹o de explica�›es do imagin‡rio popular para explic‡-lo. Nas
narrativas pantaneiras, Fernandes (2007) observou que o mito M‹e de Ouro era
mencionado para explicar manifesta�›es de enterro. J‡ nas narrativas de enterro
quilombolas encontramos a hist—ria do Pretinho, que, segundo a narradora, Ž
antiga. A apari�‹o desse ser, que faz alus‹o ˆ lenda do saci, j‡ faz parte do
imagin‡rio da comunidade e Ž usada para justificar a exist�ncia de um tesouro
encantado.
AlŽm disso, como afirma Borges (em
adamento), os relatos de apari�‹o de um ser com a mesma cor de pele dos
moradores produzem uma identifica�‹o e assumem uma posi�‹o de autoridade ao
orientar os indiv’duos para atitudes e valores que estimulam a resist�ncia do
povo negro.
A narrativa do tipo descritiva, por sua vez, tem
como finalidade descrever elementos do enterro, ou suas partes, geralmente a
marca�‹o, a manifesta�‹o e a prova�‹o. Nessa categoria de narrativa, n‹o h‡ um
enredo propriamente dito. O foco Ž explicar os detalhes do enterro, como: o
local do tesouro, os tipos de manifesta�›es que podem acontecer e as prova�›es
pelas quais o escolhido pode passar.
AlŽm da classifica�‹o das narrativas de enterro
de acordo com seu significado, Fernandes (2007) identificou que a estrutura
formal desse g�nero poderia ser composta de atŽ seis partes: origem,
anuncia�‹o, manifesta�‹o, marca�‹o, prova�‹o e desenlace.
A parte denominada origem transporta a narrativa
ao eixo da temporalidade, (FERNANDES, 2007). A origem revela a proced�ncia da
riqueza enterrada, no caso das narrativas quilombolas, geralmente Ž resgatado o
tempo da escravid‹o.
Outra parte da estrutura definida por Fernandes
(2007) Ž a anuncia�‹o: revela�‹o do enterro ao escolhido, por meio de sonhos,
vis›es, vozes, dentre outros.
H‡ casos ainda em que, quando o tesouro n‹o Ž revelado por meio de
sonhos ou vis›es, o pr—prio enterro se revela ao escolhido. Nesse caso,
trata-se da manifesta�‹o, que tambŽm est‡ diretamente relacionada ˆ liga�‹o
existente entre o narrador e a terra, pois se acredita que, quando o ouro entra
em contato com a terra, torna-se encantado e demonstra vontade pr—pria ao se
revelar a quem se sup›e ser merecedor dele, declara Fernandes (2007).
A marca�‹o Ž outra parte da estrutura da narrativa de enterro que
pode acontecer de duas maneiras distintas: geograficamente, situa�‹o em que o
dono do enterro conta ao escolhido onde est‡ o tesouro; ou simbolicamente,
quando o escolhido, para quebrar o encanto do tesouro, marca, ou seja, batiza o
enterro, acendendo uma vela, pingando gotas do pr—prio sangue etc.
A
quinta parte da estrutura Ž chamada de prova�‹o e acontece quando o escolhido
passa por testes para provar que Ž merecedor do tesouro. A honestidade e a
moralidade do escolhido s‹o testadas, especialmente em casos em que o tesouro
deve ser dividido.
Finalmente,
o desfecho da hist—ria se d‡ no desenlace, o qual pode ser positivo ou
negativo. Essa parte revela o que aconteceu com o escolhido e o enterro: o
�xito, com a retirada do enterro e a obten�‹o da riqueza; a perda, que pode
ocorrer porque o escolhido n‹o teve coragem suficiente para passar pela
prova�‹o ou quando Ž enganado por alguŽm que rouba seu tesouro.
Fernandes (2007) destacou que esse g�nero
discursivo expressa um anseio coletivo, transmite valores, costumes e preceitos
morais dos indiv’duos de uma comunidade. A estrutura formal da narrativa Ž
percebida pelo narrador, o qual, por meio da consci�ncia lingu’stica, movimenta
suas partes de forma criativa, gerando atualiza�›es. Segundo o autor:
Por consci�ncia
lingu’stica compreende-se a assimila�‹o, no ‰mbito textual, de elementos
constitutivos de uma narrativa pelo ouvinte-leitor e do modo como eles se
apresentam na reatualiza�‹o do texto, quando o ouvinte-leitor torna-se
narrador. A consci�ncia lingu’stica capacita o narrador a articular e a
associar motivos, invariantes e vari‡veis na atualiza�‹o de um arquŽtipo.
(FERNANDES, 2007, p. 229).
Em resumo, as
narrativas de enterro podem apresentar quatro diferentes significados, que s‹o:
protoconto, o qual apresenta certa semelhan�a com o conto maravilhoso; a
narrativa explicativa, que utiliza os mitos e lendas como comprova�‹o da
exist�ncia do enterro; a descritiva, a qual tem como finalidade descrever e
detalhar algumas partes da estrutura da narrativa; o logro, narrativa na qual o desfecho da
hist—ria se d‡ com o roubo do tesouro. Sua estrutura pode ser constitu’da de
atŽ seis partes: origem, anuncia�‹o, manifesta�‹o, marca�‹o, prova�‹o e
desenlace.
Desse modo, constatamos
que a narrativa de enterro de cada comunidade possui uma identidade pr—pria,
que vai ao encontro dos seus valores e costumes, no entanto, essas diferentes
narrativas parecem encontrar-se no alinhavado produzido pelos diferentes
aspectos m’ticos que as atravessam. A se�‹o seguinte apresenta uma breve
discuss‹o te—rica acerca no�‹o de mito, na qual este artigo se baseou.
Estatuto m’tico da
narrativa de enterro
Um caix‹o ÒaluminadoÓ,
uma galinha choca e o Pretinho[35]
s‹o alguns dos elementos sobrenaturais presentes nas narrativas.
Visto que a pr—pria defini�‹o de narrativa
apresenta um car‡ter fant‡stico – quando a revela�‹o se d‡ exclusivamente
ou por meio de sonhos e vis›es (anuncia�‹o), ou por meio de apari�›es
sobrenaturais (manifesta�‹o) –, fica evidente o estatuto m’tico das
narrativas de enterro. Para compreender esse estatuto, devemos levar em
considera�‹o a necessidade intrinsecamente humana de tentar entender e explicar
os fatos e os fen™menos incompreendidos, o que resulta na cria�‹o de mitos.
Segundo Chau’ (2000):
Um mito Ž uma narrativa
sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das
plantas, dos animais, do fogo, da ‡gua, dos ventos, do bem e do mal, da saœde e
da doen�a, da morte, dos instrumentos de trabalho, das ra�as, das guerras, do
poder etc.).
A palavra mito
vem do grego, mythos, e deriva de dois verbos: do verbo mytheyo
(contar, narrar, falar alguma coisa para outros) e do verbo mytheo
(conversar, contar, anunciar, nomear, designar) (CHAUê, 2000, p. 32).
A defini�‹o acima
descrita se mostra pertinente para o entendimento da presen�a do mito na
narrativa de enterro, pois, de fato, entidades m’ticas s‹o mobilizadas para
justificar a origem do tesouro. Chau’ (2000) afirma, ainda, que o mito:
tem como fun�‹o
resolver, num plano simb—lico e imagin‡rio, as antinomias, as tens›es, os
conflitos e as contradi�›es da realidade social que n‹o podem ser resolvidas ou
solucionadas pela pr—pria sociedade, criando, assim, uma segunda realidade, que
explica a origem do problema e o resolve de modo que a realidade possa
continuar com o problema sem ser destru’da por ele (CHAUê, 2000, p. 396).
No entanto, na
narrativa de enterro, n‹o Ž a inten�‹o de resolver Òconflitos e contradi�›es da
realidade socialÓ que justifica o emprego de elementos m’ticos e lend‡rios, mas
sim o intuito de explicar o enterro de um tesouro. Observamos que a pr—pria
men�‹o ao enterro j‡ revela o seu lugar na dimens‹o do fant‡stico.
Dessa forma,
consideramos relevante a explica�‹o de Benjamin (1987) sobre a narrativa:
Cada manh‹ recebemos
not’cias de todo o mundo. E, no entanto, somos pobres em hist—rias
surpreendentes. A raz‹o Ž que os fatos j‡ nos chegam acompanhados de
explica�›es. Em outras palavras: quase nada do que acontece est‡ a servi�o da
narrativa, e quase tudo est‡ a servi�o da informa�‹o (BENJAMIN,
1987, p. 203).
A liberdade de poder
ler o mundo conforme suas cren�as permite aos moradores das comunidades onde os
dados foram coletados utilizar o extraordin‡rio, o m’tico para explicar os
acontecimentos do mundo real.
Segundo Campbell (1990,
p. 25), Ž preciso pensar os mitos de forma incorporada ˆ vida, pois Òa
mitologia tem muito a ver com os est‡gios da vida, com as cerim™nias de
inicia�‹o, quando voc� passa da inf‰ncia para as responsabilidades do adulto,
da condi�‹o de solteiro para a de casado. Todos esses rituais s‹o ritos
mitol—gicosÓ. Esses rituais s‹o not—rios em toda a trajet—ria do escolhido: na
anuncia�‹o e na manifesta�‹o do tesouro; na marca�‹o simb—lica (batismo do
tesouro); na prova�‹o, na qual o escolhido passa por provas que exigem que ele
demonstre sua coragem (seguir uma galinha choca que sai da boca de um pote, por
exemplo) ou honestidade (dividir a riqueza com alguŽm).
AlŽm disso, os
elementos e objetos das narrativas de enterro quilombolas que recebem essa
segunda camada, situada no campo m’tico, fazem parte da identidade cultural e
dos costumes da comunidade: ‡rvores, igarapŽs, tachos, fornos, bilhas. De
acordo com LŽvi-Strauss (1993):
cada mitologia local,
confrontada com uma determinada hist—ria e com um determinado meio ecol—gico,
muito nos ensina acerca da sociedade de que provŽm, exp›e-lhe as for�as
motrizes, esclarece o funcionamento, o sentido e a origem das cren�as e
costumes /.../ (LƒVI-STRAUSS, 1993, p. 174).
Diante do exposto, fica
evidente, portanto, que as narrativas de enterro est‹o diretamente ligadas ao
m’tico. A pr—pria defini�‹o desse g�nero discursivo e os objetos mencionados no
enredo das hist—rias est‹o inseridos no campo do fant‡stico.
A se�‹o seguinte
apresenta nove segmentos de v‡rias narrativas que comp›em o corpus da pesquisa.
Com base neles, busca-se demonstrar como o estatuto m’tico atua na configura�‹o
da dimens‹o argumentativa do g�nero sob an‡lise.
Mitos e constru�‹o da
dimens‹o argumentativa em narrativas de enterro quilombolas: um exerc’cio de
an‡lise
Nesta se�‹o, discutimos
a caracteriza�‹o de uma dimens‹o argumentativa com base na maneira como algumas
categorias ret—ricas aliam-se a aspectos articulados ao que temos denominado de
estatuto m’tico das narrativas de enterro quilombolas. Nessa articula�‹o,
entidades m’ticas interv�m tendo em vista alterar o estado de cren�a do
enunciat‡rio. Discutiremos ainda as maneiras como as narrativas de enterro
contribuem para a transmiss‹o e a fomenta�‹o de princ’pios e de valores morais
ˆ comunidade.
Na prova�‹o, que
corresponde a uma das partes da estrutura formal dessas narrativas, o escolhido
deve enfrentar situa�›es que causam medo ou realizar um pedido que o ser
sobrenatural determinou como condi�‹o para ser merecedor do tesouro. Bom
car‡ter, coragem, honestidade, lealdade e esperteza s‹o algumas das virtudes
que o escolhido deve apresentar para receber a recompensa. Ali‡s, a coragem Ž a
caracter’stica mais exigida como comprova�‹o de merecimento do tesouro.
Observemos o segmento da narrativa Maldi�‹o:
SEGMENTO 01
quando a alma vem dizer
pras pessoa nŽÓ (+) que t‡ o dinheiro se a pessoa for l‡ n‹o tiver medoÕ
ele tira o dinheiro e fica rico.
Para descrever o
racioc’nio presente nesse trecho, podemos aplicar o Òmodelo entimem‡ticoÓ,
proposto por Amossy (2020, p. 150) e abaixo exemplificado. Segundo a autora,
por meio desse quadro, pode-se reconstituir um racioc’nio silog’stico a partir
dos entimemas que se encontram subsumidos no discurso:
Quadro
1. Modelo entimem‡tico
aplicado ao segmento da Prova de coragem
|
Premissa maior (ausente) |
ƒ preciso n‹o ter medo
para conseguir tirar o dinheiro e ficar rico. |
|
Premissa menor |
Se o escolhido n‹o tiver
medo. |
|
Òse a pessoa for l‡ n‹o
tiver medoÓ |
|
|
Conclus‹o |
Logo, conseguir‡ tirar o
dinheiro e ficar‡ rico. |
|
Òele tira o dinheiro e
fica ricoÓ |
Fonte: Elaborado pelos autores com base no
modelo de Amossy (2020).
De acordo com Amossy
(2020), o silogismo pode ser definido, de maneira ampla, como todo racioc’nio
dedutivo; Ž constitu’do de duas premissas – premissa maior e premissa
menor – e de uma conclus‹o. Conforme explica Fiorin (2018, p. 17),
Arist—teles dividia os racioc’nios entre necess‡rios e prefer’veis (ou
prov‡veis).
O racioc’nio necess‡rio
Ž Òaquele cuja conclus‹o decorre necessariamente das premissas colocadas, ou
seja, sendo verdadeiras as premissas, a conclus‹o n‹o pode n‹o ser v‡lidaÓ
(FIORIN, 2018, p. 17). Do ponto de vista aristotŽlico, o tipo perfeito de
racioc’nio necess‡rio era o silogismo demonstrativo. Podemos utilizar, a t’tulo
de exemplifica�‹o, o cl‡ssico ÒTodos os homens s‹o mortaisÓ (premissa maior);
ÒS—crates Ž um homemÓ (premissa menor); ÒLogo, S—crates Ž mortalÓ (conclus‹o).
Os racioc’nios
prefer’veis s‹o Òaqueles cuja conclus‹o Ž poss’vel, prov‡vel, plaus’vel, mas
n‹o necessariamente verdadeira, porque as premissas sobre as quais ela se
assenta n‹o s‹o logicamente verdadeirasÓ (FIORIN, 2018, p. 18). Um exemplo
desse tipo de racioc’nio Ž o silogismo dialŽtico ou ret—rico. Emprestamos o
exemplo utilizado pelo autor:
Todo professor Ž dedicado.
Ora, AndrŽ Ž professor.
Logo, AndrŽ Ž dedicado.
(FIORIN, 2018, p. 18)
ƒ prov‡vel, Ž poss’vel
que AndrŽ seja um professor dedicado, mas n‹o Ž logicamente verdadeiro. Desse
modo, Òa admiss‹o de certas premissas e, portanto, de determinadas conclus›es
depende de cren�as e de valoresÓ (FIORIN, 2018, p.18). Os racioc’nios
prefer’veis s‹o estudados pela ret—rica, enquanto os racioc’nios necess‡rios
pertencem ao campo da l—gica.
O entimema, por sua
vez, corresponde a um silogismo truncado que se utiliza do impl’cito, na medida
em que o enunciador pode ocultar tanto a premissa maior quanto a conclus‹o,
supondo que, mesmo n‹o sendo enunciadas, ser‹o deduzidas pelo ouvinte.
Retornando ao exemplo
do modelo entimem‡tico, podemos afirmar que Ž prov‡vel, ou seja, Ž poss’vel que
o escolhido, se n‹o tiver medo, consiga tirar o tesouro enterrado e ficar rico,
porŽm, n‹o Ž logicamente prov‡vel. TambŽm podemos provar que se trata de algo
plaus’vel se utilizarmos uma prova dentro do pr—prio g�nero discursivo: a
narrativa com significado de logro, em que o escolhido, mesmo apresentando
coragem, ao final, se n‹o for esperto o suficiente, pode ter seu tesouro
roubado. Essa reconstru�‹o tambŽm demonstra que pathos, compreendido como as
emo�›es que o enunciador tenta gerar no enunciat‡rio e logos, que, grosso modo,
corresponde ao eixo que articula a raz‹o ˆ linguagem, s‹o muitas vezes
indissoci‡veis no funcionamento discursivo (AMOSSY, 2020).
Nem todos os
ensinamentos e valores que podem ser transmitidos por meio das narrativas de
enterro s‹o expostos explicitamente. ƒ o que demonstra o segmento 2, que
apresenta um trecho da narrativa Prova de coragem. Como sugere o t’tulo, o enredo
Ž voltado para a demonstra�‹o de coragem do escolhido:
SEGMENTO 02
e a’ falaro pra ele OLHA se tu trazer o pac�ro
(++) corajusoÕ (+) se tu n‹o conseguir tirar com pac�ro c� v‹o/ c� v‹o
apanh‡Õ /.../ agora se tu desist’ num vai ficar por issoÕ vai acontecer alguma
cuisa contingoÕ (Borges em andamento)
De acordo com o
segmento 02, o escolhido poderia convidar um parceiro que apresentasse coragem suficiente para
ir atŽ o fim da empreitada. A desist�ncia implicaria puni�‹o: eles iriam
ÒapanharÓ, ou seja, seriam castigados fisicamente, e, ainda mais, aconteceria
algo que a ÒvozÓ – Ž como o narrador denomina esse ser sobrenatural
– n‹o especifica (Òvai acontecer alguma cuisa contigoÓ). Diferentemente
do que apresenta o segmento 02, no segmento 03, a prova�‹o Ž anunciada pelo ser
sobrenatural. Nessa narrativa, a ÒvozÓ somente diz que ele e o parceiro devem
ser corajosos. O narrador continua a hist—ria dizendo que o escolhido optou por
ir sozinho retirar o dinheiro. O segmento 3, abaixo, apresenta a estrutura
narrativa correspondente ˆ prova�‹o na narrativa Prova de coragem.
SEGMENTO 03
a’ chegu l‡ come�u a cavarÕ (+) a’ le/ ele
t‡ pensando que Ž s— chegar e cavar que num tinha um movimento daqui alguma
cuisa estranha nŽÓ (++) /.../ a’ veio uma vozÕ (+) cava pra c‡ pra
esquerda ele falava a’: (+) mais pra direitaÕ (++) a’: ele come�u ver o
neg—cio mu::ito aqui ele ficou com medoÕ ele come�u quer� sa’ ele
falou n‹oÕ tu vai t�/ tu vai t� que terminar o selvi�o (+) /.../ ele pensava
que num era assim (Borges em andamento)
O narrador afirma que o escolhido tinha uma
ideia equivocada de como seria essa retirada do dinheiro (Òele t‡ pensando que
Ž s— chegar e cavarÓ; Òele pensava que num era assimÓ). A prova�‹o aconteceu de
duas formas: uma prova de obedi�ncia, a ÒvozÓ dando instru�›es de onde cavar
para encontrar o dinheiro; uma prova de coragem, na qual algo que o escolhido
viu (Òele come�u a ver o neg—cioÓ) lhe causou medo.
A seguir, no segmento 04, temos o desenlace
tambŽm da narrativa Prova de coragem.
SEGMENTO 04
DEIXARO ele vimÕ (+) e a’ ele veio (++) passu
a nuite inteira com dor de cabe�a e eu sei que atŽ huje i:/ ele t‡ meio
mais doido como diz do que bemÕ (Borges em andamento)
Ap—s v‡rias tentativas de desist�ncia, enfim, o
escolhido consegue ir embora do local do enterro, porŽm, a puni�‹o foi
aplicada. Por n‹o ter sido corajoso para finalizar a miss‹o, o escolhido teve
dor de cabe�a a noite inteira, o que, aparentemente, causou-lhe doen�as mentais
desde ent‹o.
Diante desse cen‡rio, devemos buscar entender de
que maneira essa narrativa, mesmo sem pretens‹o expl’cita de busca de ades‹o a
uma tese, apresenta uma Òmoral da hist—riaÓ. Podemos encontrar a
argumentatividade desse g�nero discursivo investigando o Òn‹o ditoÓ ou Òo poder
do expl’citoÓ, de acordo com Amossy (2020).
O impl’cito contribui para a for�a da
argumenta�‹o na medida em que empenha o alocut‡rio a completar os elementos
ausentes [...] [e] refor�a a argumenta�‹o ao apresentar, sob uma forma indireta
e velada, as cren�as e opini›es que constituem suas premissas incontestadas.
(AMOSSY, 2020, p. 178-179.).
Nesse viŽs, os ensinamentos compartilhados pela
hist—ria contada ser‹o constru’dos pelo ouvinte a partir de seus pr—prios
valores e cren�as. Os excertos da narrativa Prova de coragem,
apresentados no segmento 04, permitem inferir que Ž preciso ter coragem para
passar pelas prova�›es e alcan�ar sucesso. Isso se aplica tanto ˆ miss‹o de
desenterrar um tesouro encantado quanto a outros percal�os da vida.
O excerto 05, a seguir, pertence ˆ narrativa O
caix‹o aluminado. Em suma, trata-se de uma escolhida que v� um caix‹o
ÒaluminadoÓ (iluminado) e Ž chamada por alguŽm para buscar uma riqueza.
Amedrontada, conta para o marido, o qual vai ao lugar marcado tentar retirar,
entretanto, n‹o encontra nada. Ao final da hist—ria, ocorre o seguinte:
SEGMENTO 05
o cara veio no SONHO delaÕ (+) e disse
olha ERA PRA TI n‹o era pra eleÕ (++) ent‹o era pra ti ir s— tu ir buscar
e num ia te acontecer nadaÕ agora tu n‹o fica com nadinhaÕ nem tu e nem ele (Borges
em andamento)
A escolhida n‹o cumpriu a regra segundo a qual
somente o escolhido pode retirar a riqueza. Observamos essa condi�‹o em v‡rias
narrativas, quando o tesouro se manifesta na presen�a de escolhido e some na
presen�a de outras pessoas. A puni�‹o para a infra�‹o de regras Ž a perda do
tesouro (Òtu n‹o fica com nadinhaÓ).
Abaixo, no segmento 06, apresentamos outro
trecho da narrativa O fogo, na qual a escolhida tambŽm n‹o teve coragem
de retirar o tesouro e contou para outras pessoas sobre a exist�ncia dele.
SEGMENTO 06
e faziam tipo uma RIMPADA assim no punho
da redeÕ a’ vov— (+) ficava assimÕ dizia assim tu vai apanharÕ pra ti
tudo tu conta pros outro (+) pra O QUæ tu saber tu n‹o contar pro outroÕ
(Borges em andamento)
AlŽm da falta de coragem para buscar o tesouro,
a escolhida infringiu outra regra frequentemente imposta como prova�‹o nas
narrativas de enterro: n‹o se deve contar para ninguŽm o segredo que envolve o
local onde o tesouro est‡ enterrado, a n‹o ser que seja permitido pelo dono da
rel’quia. Dessa forma, com base nos segmentos 05 e 06, o enunciat‡rio deve
alterar a sua vis‹o de mundo, entendendo a import‰ncia moral do ensinamento,
segundo o qual Ž importante saber guardar segredos.
O segmento 07, apresentado a seguir, faz parte
da narrativa Ambi�‹o:
SEGMENTO 07
falaru que o dinheiro era pra ele com
paulo pintoÕ que era irm‹o do tio roxo (++) e a’ o papai usou a imbi�‹o
e disse que o/ ele ia convidar o manŽ borge que era irm‹o dele nŽÓ /.../ e quando ele chegou l‡:Õ (+) o
dinheiro j‡ num estava maisÕ j‡ tinha/ sumidoÕ (Borges em andamento)
Nessa narrativa, tambŽm Ž poss’vel observar a
transmiss‹o de princ’pios morais; nesse caso, a honestidade e a desambi�‹o. O
dinheiro deveria ser dividido entre o protagonista e outro personagem que
tambŽm foi considerado merecedor do tesouro. PorŽm, como diz o narrador, ele
usou a Òambi�‹oÓ e chamou outra pessoa para retirar o tesouro com ele. Por ter
agido contra a determina�‹o de quem lhe doou o dinheiro, tornou-se indigno de
retirar o referido tesouro (Òo dinheiro j‡ num estava maisÓ).
No segmento 08, exposto a seguir, temos um
trecho da narrativa Bico de vela:
SEGMENTO 08
disque o homem enganou ela (0.36)
DEU OUTRAS MOEDA e ficou com aquelas (+) e ela nu/ num se lucrou de nada
(2.33) (j‡) pensouÓ (Borges em andamento)
ƒ interessante observarmos que a escolhida,
mesmo passando por todas as prova�›es (ter coragem e batizar o tesouro), perde
as moedas de ouro no final. A escolhida perdeu o tesouro para alguŽm mais
esperto, dessa forma, o narrador alerta: a prud�ncia e a desconfian�a em
rela�‹o a pessoas pr—ximas devem permanecer sempre agu�adasÓ (FERNANDES, 2007,
p. 300).
AlŽm disso, tambŽm Ž poss’vel perceber, no
trecho supracitado, o apelo ao pathos inscrito de forma impl’cita como
uma estratŽgia de sensibiliza�‹o do ouvinte. Toda essa hist—ria pode suscitar
uma resposta emocional do interlocutor, porŽm, isso Ž mais percept’vel no
trecho: Òela num se lucrou de nadaÓ, seguido do convite da narradora ˆ
reflex‹o: Òj‡ pensou?Ó. De acordo com Amossy (2020, p. 208), a emo�‹o pode ser
constru’da no discurso a partir de enunciados que carregam emo�›es e Òque levam
a uma determinada conclus‹o afetivaÓ. Nesse contexto, tendo em considera�‹o
todo o enredo que leva ao logro da escolhida, podemos chegar a uma conclus‹o:
ele [o homem que enganou a mulher] n‹o foi justo. Nessa narrativa, s‹o
mobilizados a compaix‹o pela escolhida e o sentimento de injusti�a.
Benjamin (1987, p. 200) declara que a narrativa:
tem
sempre em si, ˆs vezes de forma latente, uma dimens‹o utilit‡ria. Essa
utilidade pode consistir seja num ensinamento moral, seja numa sugest‹o
pr‡tica, seja num provŽrbio ou numa norma de vida. [...] O extraordin‡rio e o
miraculoso s‹o narrados com a maior exatid‹o, mas o contexto psicol—gico da
a�‹o n‹o Ž imposto ao leitor. Ele Ž livre para interpretar a hist—ria como
quiser, e com isso o epis—dio narrado atinge uma amplitude que n‹o existe na
informa�‹o. (BENJAMIN, 1987, p. 200-203)
Diante do exposto, conclu’mos que as narrativas
de enterro podem ser uma fonte de transmiss‹o e fortalecimento de cren�as e
valores, ˆs vezes t‡citos, compartilhados por uma comunidade.
Mais uma vez, a dimens‹o argumentativa se mostra
constitutiva das narrativas de enterro, visto que Amossy (2020, p. 12) define a
argumentatividade, tambŽm presente no enunciado, como algo Òque convida o outro
a compartilhar modos de pensar, de ver e de sentirÓ. Por outro lado, s‹o
recorrentes os elementos m’ticos que atuam nessa dimens‹o. A alma que vem dizer
algo; a voz espectral que exige uma prova de coragem; uma galinha choca; o
pretinho que se assemelha ao saci-perer�; o cara que, em sonho, revela o local
do tesouro, mas exige a manuten�‹o do segredo e do mistŽrio, entre outros, s‹o
elementos que, ao intervirem diretamente nas a�›es narradas, instituem
claramente um estatuto m’tico para as narrativas de enterro de tesouro em
comunidades quilombolas.
Considera�›es finais
Nesse estudo, analisamos um aspecto espec’fico
da narrativa de enterro - o car‡ter m’tico - usado pelo narrador como
estratŽgia que autoriza considerar a exist�ncia de uma dimens‹o argumentativa
nesse g�nero do discurso, que, embora n‹o apresente um car‡ter tipicamente
persuasivo, na medida em que nele o enunciador n‹o exige do enunciat‡rio a
ades‹o expl’cita a uma tese, sutilmente busca encaminhar a comunidade onde
circula o g�nero a desenvolver valores Žticos e morais primordiais para a sobreviv�ncia
e resist�ncia da comunidade.
No caso espec’fico das narrativas de enterro
quilombolas, a fomenta�‹o de valores morais e Žticos como a coragem, a
capacidade de guardar segredos e a honestidade, tematizados nesse g�nero
discursivo, s‹o estratŽgias que parecem tentar encaminhar os indiv’duos para as
regras legais de sobreviv�ncia em sociedade e estimular neles a capacidade de
resistir tanto no mundo real quanto no imagin‡rio.
Refer�ncias
AMOSSY, R.
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FIORIN, J. L. Argumenta�‹o.
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respeito ˆs identidades. BelŽm: UFPA/Faculdade de Letras, 2019. v. 8. p. 40-56.
Dispon’vel em: <https://geolinterm.com.br/segel/?page_id=2471>
[Recebido:
28 set 21 - Aceito: 28 out 21]
Oralidade e quadrinhos:
possibilidades pedag—gicas
Orality
and comics: pedagogical possibilities
Alberto Ricardo Pessoa[36]
https://orcid.org/0000-0002-0231-3778
Cristiano Clemente de Souza[37]
https://orcid.org/0000-0003-0868-7663
Resumo: A
proposta do artigo Ž apresentar possibilidades pedag—gicas que promovam o
ensino da oralidade por meio das Hist—rias em Quadrinhos. A Justificativa deste
estudo se deve ao fato dos quadrinhos serem uma m’dia que tem como pœblico
primordial a crian�a e adolescente e por ter um discurso verbal e n‹o verbal do
qual apresenta um espa�o sonoro prop’cio para o estudo da oralidade.
Apresentamos o conceito de oralidade, os elementos das hist—rias em quadrinhos
pertinentes para o estudo da oralidade e possibilidades pedag—gicas no intuito
de complementar as estratŽgias de ensino e aprendizagem do professor da
educa�‹o b‡sica.
Palavras-chave. Oralidade; Hist—ria em quadrinhos; Par‰metros Curriculares Nacionais;
EstratŽgias de ensino; Discurso verbal e n‹o verbal.
Abstract: The purpose of the article is to present pedagogical possibilities that
promote the teaching of orality through Comics. The justification for this
study is due to the fact that comics are a medium whose primary audience is
children and teenagers and because they have a verbal and non-verbal speech
which presents a sound space suitable for the study of orality. We present the
concept of orality, the relevant elements of the comic books to the study of
orality and pedagogical possibilities in order to complement the teaching and
learning strategies of the basic education teacher.
Keywords: Orality; Comics; National Curriculum Parameters; Teaching Strategies;
Verbal and non-verbal speech.
Introdu�‹o
A educa�‹o brasileira sofreu ao
longo dos anos com discrep‰ncias sociais, econ™micas e tecnol—gicas, oriundas de
pol’ticas pœblicas equivocadas e descaso administrativo.
Enquanto algumas escolas se
apresentam com infraestrutura capaz de oferecer a melhor experi�ncia de ensino
para um aluno igualmente capaz de se desenvolver, h‡ institui�›es e comunidades
que se encontram em condi�›es prec‡rias no que se refere a produzir um ambiente
prop’cio de aprendizagem.
Dentro deste contexto, os Par‰metros
Curriculares Nacionais (PCNs), a Base Nacional Curricular Comum (BNCC) e mais
recentemente os Objetivos de Desenvolvimento Sustent‡vel (ODS) se colocam como
um eixo norteador no intuito de dirimir essa discrep‰ncia e que coloca o
professor como ator mediador deste processo educacional de tantas vari‡veis.
O pr—prio docente muitas vezes se
encontra em sua jornada trabalhista atuando em escolas e comunidades com
possibilidades distintas de ensino e aprendizagem. O cen‡rio do ensino remoto
emergencial, decorrente da pandemia oriunda do COVID-19 apenas intensificou a
sensa�‹o de desigualdade educacional e da necessidade de uma revis‹o pol’tica e
de interesse pœblico em considerar a educa�‹o como quest‹o priorit‡ria no
Brasil.
Ë partir deste contexto, n—s
docentes/pesquisadores devemos pelos mais diversos meios, inclusive na
apresenta�‹o de artigos, debater estratŽgias de ensino e aprendizagem poss’veis
em um ambiente educacional t‹o desigual, n‹o cabendo aqui dizer como um docente
deve ou n‹o ministrar a sua aula, mas criar uma rela�‹o interpessoal de
pesquisa, emitindo e recebendo da comunidade acad�mica apontamentos acerca da
educa�‹o.
Assim, uma das estratŽgias de ensino
que consideramos pertinente Ž o do uso de produtos de f‡cil acesso pelo docente
e discente, que se caracteriza pela boa receptividade mœtua, baixa dificuldade
em obter tal material, o baixo custo do mesmo e potencialidade como material
complementar para a rela�‹o interpessoal de ensino.
As hist—rias em quadrinhos s‹o uma
das poucas m’dias que t�m a crian�a e adolescente como public-alvo. No
cotidiano brasileiro, as revistas de hist—rias em quadrinhos geralmente est‹o
posicionadas em bancas de jornais na parte de baixo de prateleiras, propondo
f‡cil acesso para o seu pœblico ser capaz de pegar o produto e escolher de
forma aut™noma, diferente de outros tipos de m’dia que geralmente quem pode
acessar e apresentar ˆ crian�a Ž o adulto.
Esta autonomia da crian�a no simples
ato de poder pegar e escolher as hist—rias em quadrinhos, agregado ao fato de
ainda ter um baixo custo propicia ao docente possibilidades de trabalho com
material de boa aceita�‹o n‹o somente pelo aluno mas a comunidade estudantil em
seu entorno.
As hist—rias em quadrinhos s‹o
formadas por uma mir’ade de discursos verbais e n‹o verbais conectadas por
signos dos quais amparados pelo arcabou�o imagin‡rio do leitor apresentam
infinitas possibilidades de estudos em torno da oralidade.
Outro ponto positivo que as
hist—rias em quadrinhos possuem no seu uso para o ensino da oralidade Ž o fato
de seu conteœdo ser em sua maioria, baseado em personagens da cultura pop e
assim, se ramificar para diferentes produtos como filmes, jogos, pe�as de
teatros e atŽ mesmo marcas licenciadas para aplica�‹o em diferentes formas de
consumo que formam novos discursos que s‹o assimilados dentro do espa�o da
oralidade e que o docente e discente podem se beneficiar.
A concep�‹o de hist—rias em
Quadrinhos
A
ci�ncia acerca do que s‹o hist—rias em quadrinhos Ž de suma import‰ncia para o
docente que pretende utilizar enquanto estratŽgia complementar de ensino, uma
vez que dever‡ explicar, selecionar exemplos, manusear materiais e
principalmente, criar uma interlocu�‹o com o discente que ao contr‡rio do
professor, possui em seu cotidiano a m’dia, hist—rias e personagens, sejam
pelos pr—prios quadrinhos ou por outros meios de comunica�‹o e linguagem.
Um
exemplo comum Ž o docente utilizar o cartoon e a caricatura como hist—rias em
quadrinhos. Scott McCloud (1995 p.9) afirma que as hist—rias em quadrinhos s‹o
imagens pict—ricas, concretas ou abstratas das quais em justaposi�‹o e em
sequ�ncia se prop›e a se comunicar com o receptor. Ou seja, nesse caso a
caricatura e o cartoon n‹o se aplicam pois eles n‹o possuem a premissa de
comunicar com textos verbais e n‹o verbais em sequ�ncia.
Quando o leitor consegue realizar uma leitura fluida, a narrativa dos
quadrinhos atinge a sua completude, pois se eliminam as fronteiras entre a
leitura verbal e a visual, procedendo-se a uma leitura œnica. Essa linguagem Ž
aut™noma e oferece ao seu leitor uma gama de elementos a serem observados
separadamente como tipografia, desenhos, perspectiva, onomatopŽias, narrativa,
oralidade e dependendo do g�nero que se apresenta, diferentes formas de leitura
de uma mesma hist—ria. (PESSOA, p.15, 2010)
Eisner (2005,
p.10) aproxima ainda mais as hist—rias em quadrinhos dos estudos orais quando
alega que os quadrinhos estruturam-se conforme disposi�‹o impressa de arte e
bal›es em sequ�ncia, ou seja, o bal‹o, para Eisner Ž um elemento essencial e
dentro da estrutura da linguagem, o bal‹o de texto simula di‡logos e estruturas
orais que estimulam o imagin‡rio do leitor e refrata no seu cotidiano.
A Oralidade e
hist—rias em quadrinhos
A capacidade de
articula�‹o oral enquanto forma de se comunicar Ž a primeira a ser
desenvolvida, antes mesmo do indiv’duo ter idade para a vida escolar. A
habilidade de constru�‹o de textos verbais e n‹o verbais s‹o auxiliados por
tecnologias como a escrita e a rela�‹o entre textos por linguagens como as
hist—rias em quadrinhos.
O ensino dos
g�neros orais Ž por muitas vezes negligenciado na educa�‹o, muito em parte pela
pr—pria natureza do espa�o educacional que por si s— Ž um espa�o sonoro e por
assim dizer, repleto de manifesta�›es orais que podem se confundir com bagun�a,
falta de concentra�‹o ou de aproveitamento escolar. O docente acaba por
privilegiar g�neros textuais como uma estratŽgia disciplinar ou de condu�‹o da
aula, uma vez que em muitas institui�›es o sil�ncio em sala de aula ainda Ž
considerado um item importante para o aprendizado.
Assim, os alunos
acabam em seu desenvolvimento apresentando dificuldades em relacionar a
oralidade, seja ela formal ou informal com g�neros textuais, deixando-os com
marcas de oralidade no discurso. Ao mesmo tempo, o indiv’duo apresenta
problemas de oralidade em apresenta�‹o de semin‡rios ao ler o material de
apoio, como slides e textos complementares ˆ apresenta�‹o de maneira ap‡tica,
sem a aplica�‹o de entona�‹o, pausa, alongamento, respira�‹o, postura
comunicacional perante o seu pœblico e tempo de leitura.
As hist—rias em
quadrinhos s‹o em sua grande maioria baseadas em personagens que possuem arquŽtipos
nas hist—rias de tradi�‹o oral e que possuem di‡logos com contextos
considerados de natureza universal, o que facilita o seu uso para estratŽgias
de ensino focados na oralidade.
As
hist—rias de tradi�‹o oral est‹o presentes em praticamente todas as
civiliza�›es, desde os tempos remotos. Elas s‹o testemunhos, ver’dicos ou n‹o,
que s‹o transmitidos em forma de contos, provŽrbios, baladas, entre outras.
Dessa maneira, os contos tradicionais que conhecemos foram recolhidos por
pesquisadores que fizeram seu registro escrito, por vezes fidedigno, ˆs vezes,
nem tanto, para que as mesmas n‹o se perdessem ao longo do tempo e se tornassem
conhecidas por outras regi›es e atŽ mesmo na�›es distintas. (Sç SILVA, MAI e
WANZELER p.79, 2018)
Neste contexto,
as hist—rias em quadrinhos apresentam algumas caracter’sticas em sua constru�‹o
que podem beneficiar o estudo da oralidade, pois apesar de ser em um primeiro
momento um material textual, ele Ž bastante sonoro.
Nos
quadrinhos, a representa�‹o da fala na escrita ganhou um estudo particularmente
pertinente ˆ nossa discuss‹o. Eguti (2001) mostrou que os quadrinhos possuem
mecanismos pr—prios de representa�‹o da oralidade. Todos os elementos da l’ngua
oral abordados aqui teriam um recurso correspondente. O turno Ž representado
com o aux’lio dos bal›es. O contorno do bal‹o - tracejado, tr�mulo ou outro -
indica �nfase ou tom de voz alto. A fala dos personagens Ž indicada por meio de
uma seta, chamada de ap�ndice (em Eguti, 2001) ou rabicho (em Vergueiro,
2005a), que vai na dire�‹o do personagem. As onomatopŽias indicam os sons (n‹o
falados pelos personagens). (RAMOS, p.06, 2006)
O primeiro olhar
do uso das hist—rias em quadrinhos como estratŽgia complementar do ensino da
oralidade se d‡ pelos seus elementos estruturais. O conectivo entre o texto
verbal e n‹o verbal, o bal‹o de texto se comporta como uma veicula�‹o de
di‡logo entre personagens, ou ainda entre leitor e personagem. Para tanto, o
bal‹o de texto se apresenta de diferentes morfologias, com o intuito de
enfatizar emo�›es, entona�›es, altura da fala dentre outras indica�›es que
remetem ˆ fala.
As onomatopŽias
s‹o outro elemento pertinente ao estudo da oralidade pelas hist—rias em
quadrinhos, uma vez que elas complementam a paisagem sonora de uma determinada
cena, ilustram um som de um golpe, um impacto, funcionamento de uma determinada
tecnologia entre outros.
Por
meio de onomatopŽias, o narrador das hist—rias orais consegue passar de forma
realista, vigorosa e convincente a carga emotiva que est‡ por tr‡s do gesto da
personagem, dando a ideia aproximada da dramaticidade da cena. (ALCOFORADO,
2008, p. 69-70)
O texto verbal
das hist—rias em quadrinhos s‹o repletos de exemplos de discursos extra’dos da
oralidade, tanto em sua esfera informal quanto formal, uma vez que sua
aplica�‹o reside na interpreta�‹o oral de seus respectivos personagens. A
natureza intr’nseca das hist—rias em quadrinhos Ž o ato de dialogar. Os
letristas, profissionais respons‡veis pela editora�‹o e aplica�‹o dos textos
nas artes, procuram explorar elementos que refor�am o car‡ter sonoro, tais como
o uso de exclama�›es, palavras ou express›es em negrito, com tipografias ou
cores diferenciadas para determinados personagens.
A anatomia
expressiva, bem como os rostos ressaltam a dramaticidade do texto verbal, bem
como enquadramentos de cenas. O estilo de desenho ressalta um discurso formal
ou ir™nico.
Por fim, Ž
importante destacar a natureza da cria�‹o de personagens e hist—rias que em
muitos casos remontam a tradi�‹o oral de contar hist—rias. Todos esses
elementos podem, portanto, servir de subs’dios para a transposi�‹o do
aprendizado de g�neros orais.
Possibilidades
Pedag—gicas
ƒ recomendado ao
docente que o trabalho com oralidade seja constante e progressivo, ou seja, que
se inicie da sensibiliza�‹o, perpassando pela oralidade informal atŽ os g�neros
orais mais formais e tŽcnicos, aprofundando o tema gradativamente. Consideramos
que o mesmo deve ser feito em rela�‹o ˆs hist—rias em quadrinhos.
Entendemos que a
troca de refer�ncias de hist—rias em quadrinhos entre alunos e professor Ž uma
experi�ncia muito enriquecedora, uma vez que todos os atores envolvidos ir‹o
aprender acerca de hist—rias, personagens, publica�›es e o professor, enquanto
agente mediador de processo j‡ pode estabelecer com essa sensibiliza�‹o
trabalhar alguns conceitos de oralidade, estimulando o ato da conversa�‹o, da
espera, do saber escutar o outro, de promover o ato de contar hist—rias ou das
raz›es que os motivam para gostar ou detestar um determinado personagem entre
outros. No espa�o da escola, outros agentes podem colaborar com a pr‡tica da
oralidade enquanto meio de ensino e aprendizagem.
(...)
os profissionais envolvidos nas atividades de leitura podem ser bibliotec‡rios,
professores, pedagogos, escritores, volunt‡rios etc. os quais devem trabalhar
em conjunto com planejamento e discuss›es sobre o assunto, com intuito de
observar um excelente resultado no desempenho dos leitores. (CORRæA, p.184,
2017)
Outra possibilidade que envolve
quadrinhos e oralidade Ž a pr‡tica da leitura dram‡tica, ou seja, a leitura
para o pœblico de uma hist—ria em quadrinhos. O docente pode iniciar promovendo
uma leitura de uma hist—ria, de prefer�ncia curta e rica de di‡logos, com
conectivos, palavras em negritos, bal‹o de texto em formas variadas e
personagens com discursos orais distintos.
O ato
de contar hist—rias Ž atribu’do, em grande parte dos casos, a alguŽm com maior
experi�ncia, como sendo uma atividade que merece aten�‹o e trato refinados,
fazendo com que o ouvinte prenda sua aten�‹o ˆquilo que est‡ sendo contado. Esse
fator de experi�ncia maior Ž refor�ado por Benjamin (1994, p. 200), quando diz
que Òo narrador Ž um homem que sabe dar conselhosÓ, ou seja, sendo possuidor de
viv�ncias maiores, aquele que narra assume a propriedade de passar a
experi�ncia socialmente compartilhada aos outros membros do grupo. (HAERTER,
BARBOSA JòNIOR e BUSSOLETTI, p.91, 2017)
A leitura pode
iniciar pelo professor e depois ser compartilhada entre os alunos. Essa pr‡tica
ir‡ estimular a rela�‹o entre leitura e discurso e por ser uma atividade
lœdica, cabe ao docente gerenciar o espa�o de fala de cada um. A leitura
dram‡tica pode ser realizada com quadrinhos impressos, slides ou ainda em
dispositivos m—veis.
Outra atividade
que atua na rela�‹o entre oralidade e escrita Ž o de recriar di‡logos nas
hist—rias em quadrinhos. O Docente pode apresentar hist—rias com bal›es de
texto em branco e solicitar que o aluno, baseado nas representa�›es visuais n‹o
verbais como as express›es dos personagens, que escreva di‡logos com elementos
pertinentes aos textos nos quadrinhos, tais como palavras em negrito,
exclama�›es, frases com marcas de oralidade entre outros. O di‡logo reescrito
pode servir de base para uma varia�‹o da leitura dram‡tica, pois desta vez
podemos observar a leitura a partir de um texto criativo e autoral, o que faz
com que o discurso ou a forma que o aluno faz a leitura do texto seja mais
espont‰nea e assertiva.
As hist—rias em
quadrinhos podem servir de escopo para a produ�‹o de semin‡rios, que envolvam a
leitura ou discuss‹o de uma hist—ria, ou um tema que possua subs’dios para um
debate entre alunos.
O
mŽtodo para implanta�‹o dessas atividades Ž, justamente, apresentar pr‡ticas de
leituras, com tarefas que podem ser desenvolvidas de diversas maneiras, tanto
em voz alta como em sil�ncio absoluto, individual ou em grupo, na sala de aula
ou na biblioteca, com a utiliza�‹o de diferentes recursos para criar um maior
envolvimento do leitor com as hist—rias, tais como: mœsicas, ilustra�›es de
livros, dramatiza�‹o com a representa�‹o do modo de agir dos personagens,
material audiovisual (KUHLTHAU, 2006). ConvŽm ressaltarmos que as atividades
devem ser adequadas ˆs diferentes faixas et‡rias. (CORRæA, p.184, 2017)
O escopo da hist—ria pode ser
relacionado com a comunidade fandom dos personagens e com isso ser proposto a
cria�‹o de v’deos, podcasts ou resenha orais, sobre o quadrinho em quest‹o. O
aluno passa de leitor a criador de conteœdo a partir das hist—rias em
quadrinhos. Neste caso o docente pode avaliar se o uso de tecnologias de
grava�‹o audiovisual Ž vi‡vel para o espa�o educacional do qual ele e os alunos
est‹o inseridos propicia o desenvolvimento dessa atividade.
ƒ poss’vel tambŽm construir os
di‡logos a partir de situa�›es elaboradas em um storyboard, por exemplo,
desse modo compreender como o contexto interfere diretamente no texto, pois
este Ž decorrente daquele. Posteriormente seria poss’vel representar a cena
criada, seja ela um anœncio, comercial, ou esquete, ressaltando como o texto
muda de acordo com a finalidade, regi‹o, tempo, circunst‰ncia e outras
situa�›es onde seja necess‡ria a articula�‹o entre o que ocorre e o que Ž
falado.
Por fim, consideramos a cria�‹o de
hist—rias em quadrinhos e seu respectivo ato de ler e apresentar a hist—ria
como um ponto relevante na pr‡tica da oralidade, uma vez que o aluno ir‡ criar
narrativas com marcas de oralidade para construir di‡logos para a trama e
apresentar essa hist—ria para receptores como alunos e professores. A leitura e
recep�‹o ir‹o trazer ao aluno uma compreens‹o acerca de sua assertividade
textual e oral, apontamentos que ir‹o estimular o aprimoramento do texto
produzido e apresentar o aluno n‹o apenas como um ator que aprende, mas como um
ator que possui conteœdo e est‡ disposto a compartilhar com a comunidade
educacional do qual o mesmo est‡ inserido.
Considera�›es
O artigo apresenta uma proposta de
uso de hist—rias em quadrinhos como estratŽgia complementar de ensino de
oralidade na educa�‹o b‡sica, abordando desde a sensibiliza�‹o do aluno ao contexto
das hist—rias em quadrinhos atŽ o estudo da oralidade a partir de quadrinhos
escritos e produzidos pelos pr—prios alunos. Para fundamentar nossa proposta,
apresentamos aqui autores que ressaltam o quanto Ž importante o ensino de
oralidade e hist—rias em quadrinhos na educa�‹o b‡sica, alŽm de pesquisadores
que refletiram em concord‰ncia com o autor deste artigo acerca do uso dos
quadrinhos para ensinar oralidade.
Dentro do contexto do uso das
hist—rias em quadrinhos e oralidade, Ž importante que o docente esteja aberto a
compreender os elementos constituintes das HQÕs, tanto no contexto da leitura
quanto da cria�‹o. N‹o solicitamos que o docente saiba desenhar ou escrever
quadrinhos, mas que, a partir do conhecimento da linguagem, narrativa e
constru�‹o de uma hist—ria em quadrinhos seja capaz de gerenciar e apresentar
estratŽgias criativas, que o utilize para ensinar oralidade e os g�neros orais
para criar quadrinhos.
Solicitamos ainda que o ensino da
oralidade seja pensado como um ato frequente e de evolu�‹o ao longo do per’odo
letivo, e n‹o como uma aula isolada ou um t—pico a ser estudado. A oralidade Ž
um processo vivo de aprendizado, do qual o discente apresenta um conhecimento
anterior ˆ escola e ao ato de escrever ou desenhar. A oralidade n‹o deve ser
negligenciada em nome de uma suposta ordem disciplinar. Sil�ncio n‹o Ž sin™nimo
de aten�‹o ou de aula bem sucedida.
O mesmo pode ser recomendado em
rela�‹o ˆs hist—rias em quadrinhos. Apesar de ser primordialmente um meio de
entretenimento, n‹o devemos subestimar o seu potencial educacional, tanto na
quest‹o da leitura, escrita verbal e n‹o verbal, bem como na sua
potencialidade, enquanto uma linguagem sonora, a de apresentar potencialidades
no uso da oralidade.
N‹o cabe aqui ponderar como ou quais
ferramentas o docente da educa�‹o b‡sica deve utilizar para realizar o seu
trabalho a contento. Apesar de buscarmos refletir o uso das hist—rias em
quadrinhos e oralidade em mœltiplos contextos sociais, entendemos que o Brasil
Ž um pa’s que tem na educa�‹o um dos maiores indicativos discrepantes no que se
refere ˆ condi�›es igualit‡rias de ensino e aprendizagem.
O que objetivamos enquanto
pesquisadores Ž apresentar propostas e ideias que podem ser aproveitadas e
debatidas na comunidade acad�mica e desenvolvidas em sala de aula. O artigo n‹o
apresenta resultados por n‹o ser um relato de experi�ncia. Entendemos o artigo
como uma proposta pedag—gica, da qual pode ser incorporada e adaptada ao
docente dentro do seu contexto e realidade de trabalho em seu espa�o
educacional.
Refer�ncias
ALCOFORADO, Doralice F. Xavier; ALBçN, Maria del
Ros‡rio Suarez. Contos populares brasileiros. Bahia; Recife: Fund. Joaquim
Nabuco; Ed. Massangana, 2001.
CORRæA, Jean Pereira. Experi�ncia com a literatura
de Cordel como atividade de est’mulo ˆ leitura no ambiente escolar.
In: Boitat‡, Londrina, n. 23, jan-jul 2017.
EISNER, Will. Narrativas Gr‡ficas de Will Eisner.
S‹o Paulo: Devir, 2005.
HAERTER , Leandro. BARBOSA JòNIOR, HŽlcio Fernandes e
BUSSOLETTI, Denise Marcos. A conta�‹o de hist—rias como elemento de
resist�ncia em comunidades quilombolas. In: Boitat‡, Londrina, n.
23, jan-jul 2017.
MCCLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos.
2» edi�‹o. S‹o Paulo: Makron Books, 2005.
PESSOA, Alberto Ricardo. As hist—rias em quadrinhos nas
aulas de l’ngua portuguesa como instrumento de leitura e de produ�‹o autoral.
Tese (Doutorado em Letras) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2010.
RAMOS, Paulo. ƒ poss’vel ensinar oralidade usando
hist—rias em quadrinhos? In: Revista Interc‰mbio, Volume XV. S‹o
Paulo: LAEL/PUC-SP, 2006.
Sç SILVA, Roberv‰nia de Lima S‡ Silva. MAI ƒrica de
C‡ssia, WANZELER, Zaline do Carmo dos Santos. Literatura e Cinema: As
fun�›es narrativas de PROPP em duas vers›es do conto A Bela Adormecida e suas
implica�›es para o contexto escolar. In: Boitat‡, Londrina, n. 26, ago.-
dez. 2018.
[Recebido:
01 jun 21 - Aceito: 01 jul 21]
Paisagem religiosa: o catolicismo popular e as companhias de
reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG
Religious landscape: popular catholicism and the company of
kings and the company of the Baby Jesus of Carmo Do Rio Claro, MG
F‡bio Martins[38]
https://orcid.org/0000-0003-4290-4086
Leonel Brizolla Monastirsky[39]
https://orcid.org/0000-0003-1853-8960
Resumo:
No munic’pio de Carmo do Rio
Claro-MG evidencia-se a express‹o do catolicismo popular, com destaque para um
sistema cultural religioso e inœmeras pr‡ticas de religiosidade vinculadas ao
calend‡rio litœrgico. A partir da observa�‹o das Companhias de Reis e do Menino
Jesus buscou-se identificar as diversas pr‡ticas de religiosidade popular e a
espacialidade dos s’mbolos e manifesta�›es religiosas. Ainda focou-se na
identifica�‹o e interpreta�‹o da simbologia que as sustentam. Como metodologia
adotou-se a pesquisa de campo - com a observa�‹o participante e a realiza�‹o de
entrevistas. O conceito de paisagem religiosa foi contemplado na perspectiva da
Geografia Cultural como pressuposto para se pensar as Companhias de Reis e do
Menino Jesus enquanto um sistema de cren�a religiosa, permeada por c—digos,
s’mbolos e signos que revelam pr‡ticas hist—ricas, viv�ncias, mem—rias
individuais e coletivas para ser preservadas.
Palavras-chave: Paisagem; Religiosidade;
Manifesta�›es religiosas; Catolicismo popular; Geografia Cultural.
Abstract:
In the munic’pality of Carmo do Rio
Claro-MG, the expression of popular Catholicism is evident, with emphasis on a
religious cultural system and numerous practices of religiosity linked to the
liturgical calendar. From the close observation of the Company of Kings and the
Company of the Baby Jesus, we sought to identify the various practices of
popular religiosity and the spatiality of symbols and religious manifestations.
It also focused on identifying and interpreting the symbolism that underpins
them. Field research was adopted as a methodology - with participant
observation and the conducting of interviews. The concept of religious
landscape was considered from the perspective of Cultural Geography as a
presupposition for thinking about the Company of Kings and the Company of Baby
Jesus as a system of religious belief, permeated by codes, symbols and signs
that reveal historical practices, experiences, as well as individual and
collective memories to be preserved.
Keywords: Landscape; Religiosity; Religious Manifestations;
Popular Catholicism; Cultural Geography.
Introdu�‹o
A presen�a das manifesta�›es de religiosidade do catolicismo
popular na paisagem de Carmo do Rio Claro-MG[40],
se configura desde a funda�‹o do munic’pio, dos cinco grupos de Companhias de
Reis, quatro ternos de Congo, um terno de Mo�ambique, alŽm de grupos de homens
rezadores para almas. Atualmente, apenas quatro grupos de Companhias mant�m
suas atividades, sendo tr�s Companhias no per’metro urbano: Companhia do Menino
Jesus e duas Companhias de Reis (Estrela da Guia e Estrela do Oriente), alŽm de
uma Companhia de Reis no distrito rural das Tr�s Barras.
Com a
significativa redu�‹o dessas manifesta�›es de religiosidade popular e a
representatividade dessa tradi�‹o cultural no estado e no pr—prio munic’pio,
como elemento integrante da paisagem tem-se sua presen�a durante o ciclo
natalino, em locais como pra�as, igrejas, ruas, estradas, casas, na jornada dos
foli›es.
A
presente pesquisa tem como objetivo identificar as diversas pr‡ticas de
religiosidade popular e a espacialidade que assume os s’mbolos e manifesta�›es
religiosas. A escolha da tem‡tica e do recorte espacial justificam-se pela
identifica�‹o de uma multiplicidade de saberes e pr‡ticas populares envolvendo
a religiosidade. Adotou-se como
aporte metodol—gico a pesquisa de campo durante o per’odo de 25 de dezembro de
2018 a 27 janeiro de 2019, atravŽs da observa�‹o participante e entrevistas
semiestruturadas.
O trabalho de campo permite captar subjetividades,
significados, sentidos e caracter’sticas socioculturais. Uma das pr‡ticas de
pesquisa qualitativa mais difundida Ž a observa�‹o participante ou
participativa, em que existe media�‹o, a�‹o dial—gica e elabora�‹o conjunta
entre o pesquisador com os interesses da comunidade ou grupo, Òenvolvendo
tomadas de decis›es sobre uso de recursos, demanda ou ado�‹o de pol’ticas
pœblicas.Ó (HEIDRICH, 2016, p. 25).
Na primeira se�‹o faz-se uma discuss‹o te—rico-conceitual da
paisagem religiosa pela perspectiva da Geografia Cultural. Na segunda se�‹o
revela-se a paisagem religiosa desde a funda�‹o do munic’pio mineiro mantendo
viva uma sŽrie de tradi�›es, como as Companhias de Reis e do Menino Jesus. A
terceira se�‹o aborda na paisagem a religiosidade popular atrelada ao
catolicismo.
A
paisagem religiosa na geografia cultural
As
pesquisas da geografia cultural, p—s 1970, abordam Ò[...] o simbolismo de
coisas e objetos na paisagemÓ enfatizando aspectos materiais e imateriais da
cultura. (ROSENDAHL, 2012, p. 29-31). De acordo com Claval (1999, p. 14), a
paisagem Ž como objeto de interpreta�‹o, pois Òcarrega a marca da cultura e
serve-lhe de matrizÓ, assim como, Ž moldada e projetada pelas convic�›es
religiosas.
Contudo,
Òa religi‹o influencia, enfim, os ritmos de vida de todos pelos calend‡rios e
as festas que institui. Ela cria para os sacerdotes e religiosos, g�neros de
vida espec’ficos.Ó E, a partir de 1976, em Yi-Fu Tuan destaca Ò[...]o peso das
representa�›es religiosasÓ, com intuito do conhecimento acerca da Òl—gica
profunda das ideias, das ideologias ou das religi›es para ver como elas modelam
a experi�ncia que as pessoas t�m no mundo e como influem sobre sua a�‹o.Ó
(CLAVAL, 1999, p. 53).
A
paisagem descrita por Dardel (2015, p. 32) circunscreve Òa inser�‹o do homem no
mundo, lugar de um combate pela vida, manifesta�‹o de seu ser com os outros,
base de seu ser social.Ó
A paisagem Ž um conjunto, uma converg�ncia, um momento vivido, uma
liga�‹o interna, uma impress‹o que une todos os elementos. [...] A paisagem se
unifica em torno de uma tonalidade afetiva dominante, perfeitamente v‡lida,
ainda que refrat‡ria a toda redu�‹o puramente cient’fica. Ela coloca em quest‹o
a totalidade do ser humano, suas liga�›es existenciais com a terra, ou se
preferimos, sua geograficidade original: a terra como lugar, base e meio de sua
realiza�‹o. (DARDEL, 2015, p. 31).
A
Escola de Berkeley trouxe as qualidades simb—licas da paisagem, que sustentam
seu significado social, como um texto Ò[...] a ser lido e interpretado como
documento socialÓ, uma imagem cultural, que pode ser revelada enquanto configura�‹o
de s’mbolos e signos atravŽs de diversos meios e superf’cies [...]Ó. (COSGROVE;
JACKSON, 2011, p. 137).
Geertz
(2012) prop›e a an‡lise de cren�as e pr‡ticas religiosas enquanto um sistema
cultural, do qual o conceito semi—tico de cultura se adapta.
E sabendo-se que a paisagem conforme Torres (2013) est‡ em
constante transforma�‹o e repleta de elementos simb—licos, sua leitura de mundo
se estabelece a partir da experi�ncia de cada indiv’duo que interage com ela,
Ò[...] seja no plano da materialidade das coisas que os seres humanos
constroem/desconstroem e organizam no espa�o, seja no plano da imaterialidade;
dos sentidos e significados atribu’dos a cada elemento constituinte da
paisagemÓ. (p. 95).
As paisagens segundo Torres (2013) cont�m hist—rias e
discursos, expressos em mem—rias individuais e coletivas de valores constru’dos
ao longo do tempo, alŽm de confirmarem-se no subjetivo de cada indiv’duo, as
paisagens tornam-se elos de contato a partir de experi�ncias de coletividade.
Os discursos decorrentes da paisagem e presentes nela podem estar
contidos em uma ou mais formas simb—licas (arte, mito, religi‹o, linguagem), o
que garante o sentido atribu’do a cada paisagem. Portanto, numa observa�‹o
estŽtica da paisagem que considere apenas os subs’dios materiais vis’veis,
elementos do sagrado podem passar despercebidos, o que inviabiliza ou minimiza
o potencial do estudo da paisagem religiosa. (idem, p. 98).
Kozel
(2012) destaca a paisagem pelos mœltiplos elementos (visuais, sonoros,
odor’feros, palat‡veis e t‡cteis), sendo estes, portadores de significados por
aqueles que os vivenciam. Portanto, h‡ Òinœmeras maneiras de represent‡-la, uma
vez que tambŽm s‹o inœmeras as percep�›es, valores e significa�›es de quem vive
e capta essa paisagem.Ó (p. 68).
Cada paisagem Ž produto e produtora de cultura, e Ž possuidora de
formas e cores, odores, sons e movimentos, que podem ser experienciados por
cada pessoa que nela se insira, ou abstra’do por aquele que l� pelos relatos
e/ou imagens. Nesse sentido, Ž por meio da paisagem que os elementos que
integram no espa�o Ôsaltam aos olhosÕ do ser humano, Ôgritam aos seus ouvidosÕ,
e envolvem-no nas suas dimens›es sens’veis. (KOZEL, 2012, p. 69).
Desse
modo, a reflex‹o posta por esses autores possibilita a compreens‹o da paisagem
das Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG enquanto um
sistema de cren�a religiosa permeada por c—digos, s’mbolos e signos, que se
revelam atravŽs das viv�ncias, mem—rias individuais e coletivas.
Paisagem
religiosa em Carmo do Rio Claro-MG
O
processo hist—rico de forma�‹o cultural em Carmo do Rio Claro-MG,
desenvolveu-se em face a uma paisagem marcada por serras, vales, ribeir›es,
cachoeiras, alŽm do Rio Grande (Jetic‡) e do Rio Sapuca’. Conforme Grilo (1996,
p. 11-14), a paisagem revela-se pela linguagem poŽtica e geogr‡fica:
Vemos l‡ no alto. Depois de um breve descanso do esfor�o de
subida, calmamente fiquemos de pŽ e olhemos a nossa volta. Se apontarmos o
nosso bra�o direito para o lado onde o sol est‡ nascendo, veremos ˆ nossa
frente bem aqui embaixo, ao pŽ da serra a cidade est‡ acordando... Um pouco a
direita e seguindo para o norte, que Ž tudo o que vemos ˆ nossa frente, h‡ uma
superf’cie prateada e recortada: s‹o as ‡guas da represa de Furnas que chegam
atŽ perto da cidade. Depois das ‡guas, cresce a silhueta escuro-azulada das
serras; come�am bem a frente, como Serra da Tromba e v‹o se espichando na
dire�‹o do nosso bra�o esquerdo (para Oeste), como Serra do Ferreira, Serra do
Tabuleiro e Serra dos Pinheiros, bem longe, na dire�‹o de Alpin—polis... Ali,
ao pŽ do Tabuleiro e dos Pinheiros, h‡ um represamento especial das ‡guas. Hoje
n‹o d‡ pra perceber que Ž um rio, mas Ž um rio represado, e um rio muito
importante para n—s: o Sapuca’.
Enquanto isso, vamos olhar na dire�‹o do nosso bra�o esquerdo:
aqui embaixo, bem ao lado da cidade, come�a uma outra serra formada por duas
sequ�ncias: a da Rapadura e do Santana. Dirige-se sempre para o oeste
inclinando um pouco a norte: parece que vai se encontrar com a dos Pinheiros l‡
longe, j‡ perto da Ventania.
Entre estas, e na mesma dire�‹o, fica, portanto, uma regi‹o baixa,
alongada, com pouca eleva�‹o, v‡rios c—rregos pequenos que, daqui do alto,
quando os vemos, parecem fiozinhos de prata. Podemos chamar a esta ‡rea de vale
e talvez pudŽssemos dar-lhe o nome de Vale do ItapichŽ, pois este Ž seu
principal ribeir‹o. TambŽm segue na dire�‹o da Serra da Ventania e morre l‡,
aos seus pŽs.
Olhando, ao contr‡rio, na dire�‹o de nosso bra�o direito (leste)
vemos em primeiro lugar o pr—prio prolongamento da serra em que estamos, que Ž
hoje chamada de Tormenta. Logo depois dela, mais ‡gua, mais represa. A’ tambŽm
est‡ o Rio que n‹o vemos, o Sapuca’...Para alŽm das ‡guas, podemos ver um pouco
emba�ados os prolongamentos dos morros e as regi›es mais planas que formam os
campos. De um lado, os morros e as regi›es mais planas que formam os campos, os
Campos Gerais, o Campo do Meio e outros...Temos de virar de costas. Vamos
apontar agora o nosso bra�o esquerdo na dire�‹o do sol nascente e dando as
costas a Serra da Tromba e a cidade. Bem a nossa frente (Sul) logo ao pŽ da
serra em que estamos, podemos ver uma ponta da represa que depois se prolonga
em dois fios de ‡gua: Ž onde o Rio Claro, que vem mais do sul, se encontra com
o Santa QuitŽria, que vem quase beirando a Serra da Rapadura. Hoje desaparecem
juntos na represa; antes, desaguavam juntos no Rio Sapuca’, formando a barra do
Rio Claro. Depois se estendem outros morros, outras serras, outras pontas de
represa – uma delas, bem ao longe, Ž a do Rio Mo�ambo ou Muzambo –
outras, mais pr—ximas s‹o as do Correnteza, do Cavaco etc.
Nesta
paisagem t‹o rebuscada de morros, serras, rios e c—rregos de Carmo do Rio
Claro-MG reverbera-se manifesta�›es de religiosidade popular vinculadas aos
calend‡rios litœrgico e c’clico, pautado em celebra�›es - missas, novenas,
prociss›es, comemora�›es e festejos.
Identificou-se
a seguinte organiza�‹o das atividades religiosas e per’odos em um calend‡rio
litœrgico (Quadro 01): entre os meses de dezembro
e janeiro contempla-se o ciclo de
comemora�›es natalinas que se encerra com a festa da epifania; entre os
meses de fevereiro, mar�o e abril,
contempla-se o per’odo de quarenta dias da
quaresma, alŽm das celebra�›es da semana
santa; j‡ entre os meses de junho a
novembro, contemplam-se as celebra�›es
e ou comemora�›es mensais: Corpus Christi (junho), padroeira do munic’pio
Nossa Senhora do Carmo (julho), Bom Jesus dos Aflitos do Itacy (agosto), Nossa
Senhora Aparecida (outubro) e finados (novembro). (INFORMA‚ÌO VERBAL[41]).
Quadro 01- Calend‡rio Litœrgico
Celebra�›es e Manifesta�›es de Religiosidade em Carmo Do Rio
Claro (MG)
|
ATIVIDADE |
PERêODO |
LOCAL |
|
DEZEMBRO |
||
|
Novenas
de Natal |
Durante todo o m�s de dezembro |
Casa das fam’lias |
|
Apresenta�‹o
dos Grupos de Companhias de Reis e do Menino Jesus |
25 de dezembro a 06 de janeiro -
per’odo que pode se estender em fun�‹o das demandas de promessas |
Casa das fam’lias (devotos de
Santos Reis) |
|
Missa
da Passagem de Ano |
òltimo dia do m�s de dezembro |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
F‡tima e Sagrada Fam’lia |
|
JANEIRO |
||
|
Festejo
de chegada dos grupos de Companhia de Reis e do Menino Jesus |
Dia 06 de janeiro |
Participa�‹o dos grupos Companhias
nas missas. Chegada das Companhias de Reis:
Sal‹o de festa Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e do Menino Jesus: Lar do Idoso
Frederico Ozana |
|
FEVEREIRO - MAR‚O - ABRIL |
||
|
Quaresma |
40 dias |
V‡rias localidades: atividades que
se iniciam na Quarta-Feira de Cinzas e se estendem atŽ a comemora�‹o da
P‡scoa |
|
Quarta-feira
de Cinzas |
Ap—s os festejos de carnaval entre
os meses de fevereiro ou mar�o |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
F‡tima e Sagrada Fam’lia: celebra�›es com a un�‹o e distribui�‹o de cinzas |
|
Vias
Sacras |
40 dias durante a quaresma:
quartas e sextas |
Pelas ruas da cidade ou dentro da
Igreja |
|
Prociss‹o
Penitencial |
Todas as sextas durante a quaresma |
Ruas da cidade: 5 horas da manh‹ |
|
Prociss‹o
Domingo de Ramos |
Durante a Semana Santa |
Capela N. Sr. dos Passos atŽ a
Igreja Matriz Nossa Senhora de F‡tima |
|
Prociss‹o
do Dep—sito |
Segunda-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos
Passos (por homens) e de N. Sr.» das Dores (por mulheres) as suas Capelas de
origem |
|
Vig’lia
|
Segunda-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Capela N. Sr. dos Passos |
|
Prociss‹o
do Encontro |
Quarta-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Condu�‹o das Imagens de N. Sr. dos
Passos (por homens) e de N. Sr. a. das Dores (por mulheres) atŽ a Igreja
Matriz Nossa Senhora de F‡tima |
|
Institui�‹o
da Eucaristia e Missa de Lava PŽs |
Quinta-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
F‡tima |
|
Ato
de Penit�ncia |
Quinta-feira ˆ noite - Semana
Santa |
Subida da Serra da Tormenta |
|
Via
Sacra dos Jovens |
Sexta-feira da paix‹o Semana Santa |
Subida da Serra da Tormenta |
|
Prociss‹o
das Velas: Jesus morto com os esquifes |
Sexta-feira da paix‹o - Semana
Santa |
A imagem de Jesus morto com os
esquifes sai da Igreja Matriz e faz um percurso em torno da Pra�a Cap. Pedro
Tito Pereira com retorno ˆ Matriz |
|
Missa
de Aleluia |
S‡bado ap—s sexta-feira da Paix‹o
de Cristo |
Igreja Matriz Nossa Senhora do
Carmo e Sagrada Fam’lia |
|
Prociss‹o
da Ressurrei�‹o |
Domingo de manh‹ ap—s S‡bado de
Aleluia |
Igreja Matriz Nossa Senhora do
Carmo: Missa na Capela do Senhor dos Passos com prociss‹o atŽ a Matriz
Senhora de Carmo Sagrada Fam’lia: ruas do bairro
Jardim AmŽrica |
|
JUNHO |
||
|
Celebra�›es
de Corpus Christi |
Comemorado no m�s de junho 60 dias
ap—s a P‡scoa |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
Carmo e Sagrada Fam’lia: confec�‹o de tapetes art’sticos para prociss‹o nas
ruas pr—ximas ˆs igrejas |
|
JULHO |
||
|
Comemora�›es
padroeira Nossa Senhora do Carmo: prociss‹o e festejos |
16 de julho |
Igreja Matriz Nossa Senhora do
Carmo: Prociss‹o de Nossa Senhora do
Carmo pelas ruas da cidade; alŽm de festa de barraca armada na pra�a em
frente ˆ Igreja |
|
AGOSTO |
||
|
Celebra�›es
e festejos Bom Jesus dos Aflitos do Itacy |
29 de julho a 06 de agosto |
Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos:
Novena e missas do Bom Jesus dos Aflitos, distrito do Itacy, fluxo de 30 a 50
mil devotos |
|
OUTUBRO |
||
|
Nossa
Senhora Aparecida |
15 de outubro |
Subida da serra da tormenta atŽ a
capelinha Nossa Senhora Aparecida; Celebra�›es de missas nas matrizes Nossa
Senhora de F‡tima e Sagrada Fam’lia |
|
NOVEMBRO |
||
|
Finados |
O2 de novembro |
Visita�‹o aos tœmulos no cemitŽrio
municipal de Carmo do Rio Claro (MG) |
Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor
Existem
ainda, as pr‡ticas de religiosidade que acontecem semanalmente, como as missas
nos bairros e na zona rural, o ter�o dos homens, grupos de ora�›es, catequese e
visita�‹o da capelinha M‹e Rainha nas casas dos devotos (Quadro 2).
Quadro 02- Atividades de Religiosidade que acontecem durante
todo o ano
|
LOCAL |
|
|
Missas
semanais nas Igrejas Matrizes |
Igreja Matriz Nossa Senhora de
Carmo e Sagrada Fam’lia |
|
Missas
com celebra�›es nos bairros |
Capela Nosso Senhor dos Passos,
Jacuba, Ros‡rio, Porto, Bananal, S‹o Benedito e Nosso Senhor dos Aflitos |
|
Ter�o
dos homens |
Segunda-feira Par—quia Sagrada
Fam’lia e quarta-feira Par—quia Nossa Senhora do Carmo |
|
Grupos
de ora�›es |
Segunda-feira: Par—quia Sagrada Fam’lia;
Quarta-feira: Capela do Hospital (S‹o Vicente de Paulo) e sexta-feira: Capela
S‹o Benedito |
|
Visita�‹o
uma vez por m�s da capelinha M‹e Rainha Nossa Senhora de Schoenstatt |
Casas de devotos |
|
Catequese
|
Par—quia Nossa Senhora do Carmo
funciona de segunda a sexta com hor‡rios espec’ficos Par—quia Sagrada Fam’lia: Primeira
etapa (eucaristia), quarta-feira ˆs 17:30. Segunda etapa (crisma) domingo ˆs
18:00 |
|
Missas
rurais |
Par—quia Sagrada Fam’lia:
quinta-feira em um bairro rural. Par—quia Nossa Senhora do Carmo:
quarta-feira em um bairro rural |
|
Missas
setoriais (bairros) |
Par—quia Nossa Senhora do Carmo
celebra na segunda-feira e no s‡bado missas nos bairros |
|
Grupo
de Jovens |
Encontro semanal ˆs quintas-feiras
ˆ noite ap—s a missa |
Fonte: Informa�‹o Verbal, 2029. Org.: O Autor
As
diversas pr‡ticas de religiosidade configuram a paisagem de Carmo do Rio Claro,
h‡ cerca de um sŽculo e meio, por meio de elementos simb—licos materiais e
imateriais que carregam consigo elos de uma tradi�‹o em celebra�›es e festejos,
experienciados de forma coletiva ou individual em face de distintas
espacialidades.
As
espacialidades (imagem 1) vivenciadas pelas
pr‡ticas de religiosidade do catolicismo popular vinculam-se a nove locais -
igrejas matrizes: Nossa Senhora do Carmo, situada no centro da cidade e a
Sagrada Fam’lia, situada no bairro Rua Nova; Capela Nosso Senhor dos Passos,
situada aos ÔpŽs da Serra da TormentaÕ e a Capela de Nossa Senhora Aparecida no
alto da Serra da Tormenta; Igreja do Ros‡rio e Igreja S‹o Benedito nos bairros
do Ros‡rio e S‹o Benedito; Centro de Forma�‹o S‹o JosŽ situado no bairro
Cora�‹o Eucar’stico; Capela do Hospital S‹o Vicente de Paulo situado no bairro
Santo Ant™nio; e o CemitŽrio Municipal situado no bairro Rua Nova.
A
capela Nosso Senhor dos Passos, constru’da em estilo colonial aos pŽs da Serra
da Tormenta no ano de 1860, constitui-se a edifica�‹o mais antiga do munic’pio
e abriga a imagem de Nosso Senhor dos Passos que faz parte da prestigiada
Prociss‹o do Encontro realizada durante a semana santa.
No centro da cidade fica a igreja matriz Nossa Senhora do
Carmo, onde h‡ mais de um sŽculo ocorre a maior parte das celebra�›es e ritos
religiosos, como as prociss›es do Encontro e do Senhor Morto, que na semana
santa reœnem milhares de fiŽis em caminhada pelas ruas da cidade, alŽm das
celebra�›es de Corpus Christi e a festa em louvor a Nossa Senhora do Carmo.
Uma
espacialidade Ž evidenciada na quarta-feira da semana santa, quando realizam a
prociss‹o do Encontro. Enquanto a imagem sacra de Nosso Senhor dos Passos Ž
carregada por homens que partem da Capela Nosso Senhor dos Passos com destino ˆ
igreja matriz Nossa Senhora do Carmo, a imagem de Nossa Senhora das Dores
paralelamente Ž carregada atŽ aquela, por mulheres da Igreja de Nossa Senhora
do Ros‡rio.
A
prociss‹o de Jesus Morto com os Esquifes acontece na noite da sexta-feira da semana
santa (da paix‹o). Popularmente conhecida como prociss‹o das Velas, os fiŽis,
empunhando suas velas acesas, conduzem ora�›es e cantos penitenciais fœnebres
de alus‹o a Jesus Morto. Ap—s a prociss‹o, a imagem de Jesus Morto adentra a
igreja Nossa Senhora do Carmo onde as pessoas fazem suas rever�ncias ˆ imagem.
No m�s de julho, comemora-se o
anivers‡rio da padroeira do munic’pio com festejos de barraca em frente ˆ
igreja matriz, alŽm da prociss‹o, na qual os fiŽis proferem hinos de louvor ˆ
imagem de Nossa Senhora do Carmo.
A
Igreja Nossa Senhora do Ros‡rio e S‹o Benedito, atŽ meados de 1990, realizavam
pr‡ticas vinculadas ˆ religiosidade de matrizes africanas, como a Congada e o
Mo�ambique, quando existiam ternos de congo e Mo�ambique que sa’am em cortejo
pelas ruas da cidade ao encontro do seu rei e da sua rainha. A chegada destes
grupos acontecia na pra�a localizada em frente ˆ Igreja do Ros‡rio, entre o
cruzeiro e a igreja, dan�avam e cantavam sincronizados ˆ sonoridade dos
instrumentos percussivos e das latinhas com pedrinhas e sementes amarradas nas
pernas. A pra�a tambŽm era palco de outras celebra�›es dedicadas ˆ Nossa Senhora
do Ros‡rio, onde se realizava a prociss‹o pelo bairro, missas e o festejo.
Ainda
na pra�a em frente ˆ Igreja do Ros‡rio atŽ a dŽcada de 1990, durante o ciclo
natalino, no dia 06 de janeiro, acontecia o rito de chegada (imagem 2) do grupo
de Companhia de Reis Estrela da Guia para celebrar o dia dos Santos Reis. Arcos
de bambu, fitas e correntes de papŽis coloridos enfeitavam a pra�a, de modo que
a paisagem se transformava no palco de consagra�‹o de mais um ciclo de jornada
completado pelos foli›es.
Nos
meses de junho ou julho a pra�a do Ros‡rio era decorada com bandeirinhas. Ali
acontecia a festa junina com a apresenta�‹o de quadrilhas. TambŽm era comum
nesse per’odo a pr‡tica de ter�os dedicados aos santos cat—licos, como S‹o Jo‹o
e Santo Ant™nio. Em v‡rias casas da cidade erguiam-se mastros de bambu, com
lim›es espetados em suas varetas. No seu topo, colocava-se a imagem de um
santo, que era decorada com flores de pl‡stico ao seu redor.
No
cruzeiro localizado em frente ˆ Igreja do Ros‡rio e em outros, realiza-se a
pr‡tica de descarte de imagens de santos quebrados, devido ˆ tradi�‹o popular
de que o descarte incorreto traz castigos. O cruzeiro tambŽm era o local de
onde partiam na madrugada, no per’odo da quaresma, um grupo de homens, os
cantadores para as almas. Acompanhados de um instrumento percussivo de madeira,
matraca, cantavam na frente de algumas casas para as almas de pessoas j‡
falecidas. Existia a cren�a de que n‹o se podia observar esse rito, sobre o
risco de visualizar imagens das almas dos falecidos.
Na
Serra da Tormenta, todos os anos, milhares de fiŽis realizam a subida atŽ seu
cume, onde encontra-se localizada a capela dedicada ˆ Nossa Senhora Aparecida,
para os agradecimentos, ora�›es e dep—sito de objetos pelas gra�as alcan�adas.
No ano
de 2006, ocorreu a constru�‹o da Igreja Matriz Sagrada Fam’lia e com isso as
principais atividades religiosas, ritos e celebra�›es, passaram a acontecer de
forma paralela nas duas par—quias.
O
Santu‡rio Bom Jesus dos Aflitos atrai no m�s de agosto um fluxo de 30 a 50 mil
pessoas, para as celebra�›es de missas e novenas. Parte dos fiŽis atravessa de
balsa a represa de Furnas, para visitar o santu‡rio e depositar objetos ˆs
gra�as alcan�adas.
As
manifesta�›es ligadas ao catolicismo de Carmo do Rio Claro-MG fazem-se
presentes no calend‡rio litœrgico durante todo o ano, de modo que milhares de
fiŽis (re)vivem pr‡ticas de fŽ dedicadas a distintos santos em diferentes
espacialidades. Nesse contexto, marcado pelas manifesta�›es de religiosidade
popular, aprofundar-se-‡ nas Companhias de Reis e do Menino Jesus.
Uma paisagem religiosa pelo catolicismo popular: as
Companhias de Reis e do Menino Jesus
1.Tendo, pois, Jesus nascido
em BelŽm de Jud‡, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a
JerusalŽm. 2. Perguntaram eles: ÔOnde est‡ o rei dos judeus que acaba de
nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos ador‡-loÕ. 3. A essa not’cia, o
rei Herodes ficou perturbado e toda JerusalŽm com ele. 4. Convocou os pr’ncipes
dos sacerdotes e os escribas do povo e indagou deles onde havia de nascer o
Cristo. 5. Disseram-lhe: ÔEm BelŽm, na Judeia, porque assim foi escrito pelo
profeta: 6. E tu, BelŽm, terra de Jud‡, n‹o Žs de modo algum a menor entre as
cidades de Jud‡, porque de ti sair‡ o chefe que governar‡ Israel, meu povoÕ. 7.
Herodes, ent‹o, chamou secretamente os magos e perguntou-lhes sobre a Žpoca
exata em que o astro lhes tinha aparecido. 8. E, enviando-os a BelŽm, disse:
ÔIde e informai-vos bem a respeito do menino. Quando o tiverdes encontrado,
comunicai-me, para que eu tambŽm v‡ ador‡-loÕ. 9. Tendo eles ouvido as palavras
do rei, partiram. E eis que a estrela, que tinham visto no Oriente, os foi
precedendo atŽ chegar sobre o lugar onde estava o menino e ali parou. 10. A
apari�‹o daquela estrela os encheu de profunda alegria. 11. Entrando na casa,
acharam o menino com Maria, sua m‹e. Prostrando-se diante dele, o adoraram.
Depois, abrindo seus tesouros, ofereceram-lhe como presentes: ouro, incenso e
mirra. 12. Avisados em sonhos de n‹o tornarem a Herodes, voltaram para sua
terra por outro caminho.Õ (MATHEUS II: 1-12).
Ap—s
um ano de espera, Ž chegada a hora! J‡ nasceu o menino Deus. Os instrumentos
que se encontravam adormecidos em um cantinho de suas moradas reavivam-se: a
sanfona volta a respirar as melodias da devo�‹o; a caixa sente aos poucos o
despertar de sua coura�a animal, que ressuscita ao esticar/estralar/receber o
pulsar das batidas, que emergem em comunh‹o com o cora�‹o daqueles que insistem
em reviver esta tradi�‹o; o chocalho se contorce ao guizo movimento repetitivo;
o pandeiro se revolta ao trepidar de um ritmo frenŽtico a sentir o contato das
m‹os que o movimenta de um lado a outro, num zigue-zague sonoro; os
encordoamentos aos poucos aproximam dedos e corpos em busca da afina�‹o perfeita,
que dar‡ ritmo aos diferentes timbres de vozes ˆqueles que est‹o em prontid‹o:
Ž chegada a hora!
Tr�s
Reis preparam-se novamente para sair em jornada. Guiados pela estrela do
oriente v‹o em busca do Menino Deus, da esperan�a e da fŽ. Revelam-se atravŽs
do objeto sagrado: a bandeira, e seguem sempre ˆ frente acompanhados por
cantadores e basti›es que fazem alus‹o aos guardas de Herodes em disfarce, com
a miss‹o de matar o recŽm-nascido em BelŽm de Jud‡.
A
paisagem sonora dos transeuntes/autom—veis/p‡ssaros/ ou do sil�ncio noturno
cede espa�o aos anjos que cantam na gl—ria: Ž chegada a hora! Assim, a paisagem
se transforma em face de uma melodia caracter’stica, da qual o gingado da
sanfona, aliado ˆ batida da caixa anuncia: Ž chegada a hora! Ao longe, a
popula�‹o avista a chegada dos Reis Santos que s‹o escoltados pelo colorido dos
adere�os/roupagens dos foli›es. Basti›es sussurram em meio a performances
corporais, e s‹o observados por devotos em janelas/portas/cal�adas de suas
moradas.
As
portas abertas se fazem c—digo ˆ recep�‹o: d‡ licen�a patr‹o/d‡ licen�a patroa,
Ž chegada a hora! Em sil�ncio, junto ao representante da morada, Tr�s Reis
Santos adentram na busca pelo Menino Deus; mœsicos cantadores v‹o se
acomodando. Encontramos o menino Deus: Ž chegada a hora da adora�‹o! O s’mbolo
do arrependimento se revela na figura dos basti›es, que em nome dos Tr�s Reis
Santos proferem adora�›es e ofertas simb—licas: ouro, incenso e mirra na forma
de trovas.
Mas a
troca de ofertas vai alŽm; e os instrumentos musicais anunciam: Ž chegada a
hora de ben�‹o ˆs fam’lias! Em nome dos Tr�s Reis Santos, vozes germinam
solo-conjunto; embaixador-poeta-criador atento aos detalhes profere versos em
forma de cantos: b�n�‹os, pedidos e agradecimentos; e assim os salutares de
vozes encaixam-se em seis tonalidades distintas. Na paisagem ’ntima da morada,
devotos acompanhados de emo�›es distintas, expressam l‡grimas em face de
olhares enobrecidos: reveladores testemunhos de sœplicas e gra�as. Completadas
as sauda�›es: Ž chegada a hora da despedida. Um instante, pois Tr�s Reis Santos
ainda ter‹o que visitar os c™modos da morada, neste ’ntimo sobrep›em-se b�n�‹os
a objetos e fotografias dos entes familiares.
ƒ
chegada a hora: pagamento de promessas! A retribui�‹o de uma gra�a pode se
configurar atravŽs de um banquete: cafŽ, almo�o ou janta. A paisagem neste
momento se mistura entre as melodias de sons, devo�‹o, aromas. Card‡pios
variados exibem a diversidade de texturas/cores/sabores/paladares. Alimentos
que despertam gratid‹o daqueles que em suas jornadas s‹o contemplados com a
fartura e la�os de sociabilidade, reveladores de trocas simb—licas: alimentos
para corpo em contrapartida ao alimento para a alma: fŽ/b�n�‹os ofertadas aos
familiares. Tr�s Reis Santos agradecem e v‹o embora descansar para mais um dia
de caminhada.
Ap—s cumprido mais um ciclo de jornada Ž chegada a hora dos
festejos! Encontraram o menino Deus! A sociedade carmelitana, reunida, aguarda
a chegada dos viajadores. Bingos, leil›es, comidas, bebidas e mœsica comp›em a
paisagem; arcos de bambu adornados por correntes coloridas de papel que s‹o
rompidos, simbolizam as dificuldades superadas em cada dia desta longa jornada
que abre caminho a BelŽm. ƒ chegada
a hora: eis que vieram ador‡-lo! Ali est‡ o Menino Deus! Viva o Menino Deus! Na
orla do altar, a musicalidade embriagada de emo�‹o toma conta dos viajadores
que proferem versos e prosas atravŽs de cantos/adora�›es ao Menino Deus! Salve,
Salve: Pastores e Foli›es! Eis que foi cumprida nossa miss‹o; Ž chegada a hora
do retorno e atŽ o ano... se Deus quiser!
Esta
paisagem religiosa indica um mundo c—smico, santificado no tempo sagrado das
festas, tempo m’tico, tempo litœrgico, ou seja, um tempo circular, revers’vel,
recuper‡vel, indefinidamente repet’vel, ÒespŽcie de eterno presente m’tico que
o homem emprega periodicamente pela linguagem dos ritos.Ó (ELIADE, 2018, p.
64).
As
Folias ou Companhias de Reis s‹o constru�›es cosmol—gicas do catolicismo
popular orientadas pelo nascimento de Cristo e pela Epifania, de modo a
reproduzir a viagem dos Tr�s Reis Magos, guiados por uma estrela para a
adora�‹o do menino Jesus em BelŽm. Brand‹o (1977) destaca que as Folias de Reis
s‹o formadas por um grupo de precat—rios que saem em jornada no ciclo natalino
de 25 de dezembro a 6 de janeiro, composta por mœsicos, instrumentistas,
bandeiristas e palha�os - os foli›es v‹o de casa em casa apresentando suas
cantorias, levando b�n�‹os ˆs fam’lias de devotos e recolhendo esmolas.
O fen™meno religioso conforme Pereira e Torres (2016) abarca
a experi�ncia humana em extratos f’sicos materiais e simb—licos, e, funde o
mundo dos sentidos com o mundo da imagina�‹o.
Assim, tem-se Òespacialidades f’sicas, como templos,
igrejas, santu‡rios, sinagogas, mesquitas, terreiros e demais constru�›es
diversasÓ; como tambŽm espacialidades n‹o materiais: Òdiscursos, narrativas,
mitos, sistemas teol—gicos, mœsicas, sons etcÓ. Tais espacialidades podem estar
em movimento Ò[...] como as peregrina�›es, as romarias, as v‡rias jornadas
espirituais ou comportamentos rituaisÓ. (p. 98).
A Companhia do Menino Jesus, presente no munic’pio de Carmo
do Rio Claro-MG desde o ano de 1929, possui, inclusive, adapta�›es em sua estrutura
e rito em rela�‹o ˆs Companhias de Reis. Os personagens presentes s‹o: Sime‹o,
tr�s reizinhos e os pastores-cantadores que carregam o orat—rio com o menino
Jesus (presŽpio andante) atŽ a casa dos fiŽis.
O espa�o sagrado que se constitui em torno dos referenciais
e simbologias divide-se segundo Gil Filho (2008) em tr�s espacialidades:
concreta de express›es religiosas, do pensamento religioso e das representa�›es
simb—licas. Na espacialidade concreta tem-se o espa�o sagrado recebendo as
pr‡ticas religiosas. Na espacialidade das representa�›es simb—licas projeta-se
o plano da linguagem aos referenciais religiosos e na espacialidade de
pensamento religioso articula o plano sens’vel ao do conhecimento
religioso.
Estas
espacialidades podem ser observadas em Carmo do Rio Claro em uma das falas da
entrevista realizada em 2019 com um dos foli›es:
No evangelho existe uma pequena descri�‹o, o que nos Ž transmitido
Ž que suas viagens tiveram in’cio no dia primeiro de janeiro e que sa’ram cada
um de suas terras guiados por um sinal. Viajaram o dia todo e no final daquele
primeiro dia eles se encontraram, se conheceram, dormiram e no segundo dia
perceberam que apesar de serem de diferentes regi›es e sem estabelecer nenhuma
comunica�‹o anterior, tinham o mesmo objetivo e receberam os mesmos sinais. Do
segundo ao quarto dia em suas caminhadas, foram conhecendo suas diferen�as e o
que cada um poderia oferecer para o outro. No quinto dia avistaram JerusalŽm,
uma cidade grandiosa, sede do poder, o que chamou a aten�‹o dos Tr�s Reis.
Vislumbrados acreditavam que o Rei do mundo s— poderia estar por ali,
esquecendo-se do humilde sinal, a estrela que os guiava atŽ ent‹o, e foram atŽ
a cidade de JerusalŽm. A partir da’ encontramos no evangelho de Matheus, o
relato de que chegando atŽ a cidade, Herodes n‹o sabia do que se tratava,
mandou que os Tr�s Reis seguissem viagem, pois ali n‹o existia nenhum outro rei
alŽm dele, e pediu que sua guarda os acompanhasse. A partir do momento em que
deixaram a cidade de JerusalŽm para tr‡s com a ilus‹o da claridade, conseguiram
avistar novamente o sinal da simplicidade, a luz da estrela que os guiavam em
sua viagem. Completando o sexto dia, chegaram atŽ BelŽm, uma cidade pobrezinha
onde encontraram e adoraram o Menino Jesus. Esta caminhada do dia 01 ao dia 06
Ž uma caminhada de aprendizado, partilha. Assim como em nossas vidas, eles
tiveram seus deslizes deixando se ofuscar pela grandeza de JerusalŽm, mas
voltaram seu olhar novamente para a simplicidade do projeto de Deus para n—s.
(INFORMA‚ÌO VERBAL, 2019).
Gil
Filho (2008) tambŽm sugere quatro inst‰ncias de an‡lise aos estudos de
fen™menos religiosos, sendo, a Òpaisagem religiosaÓ com sua materialidade,
exterioridade e express‹o do sagrado; o Òsistema simb—lico culturalÓ com seu
referencial conceitual, a l—gica simb—lica e o contexto religioso; as
Òescrituras e tradi�›es sagradasÓ com as constru�›es epistemol—gicas, seu
registro e transmiss‹o; e o Òsentimento religiosoÓ como a experi�ncia pessoal
do sagrado.
Nesse
sentido, compreende-se que as manifesta�›es de religiosidade popular:
Companhias de Reis e do Menino Jesus de Carmo do Rio Claro-MG, constituem
elementos caracter’sticos de subjetividades presentes na paisagem religiosa
local. As Companhias, atreladas ao calend‡rio litœrgico (natal/epifania),
expressam-se atravŽs de peregrina�›es (espacialidades em movimentos em meio as
ruas, casas, igrejas) permeadas por distintos momentos: ritos, performances,
rela�›es de sociabilidades e trocas simb—licas.
Considera�›es finais
Desde
os fins do sŽculo XVIII, o processo de forma�‹o e desenvolvimento
hist—rico-cultural do munic’pio de Carmo do Rio Claro-MG se consolidou diante
de um sistema cultural religioso alicer�ado em valores e preceitos do
catolicismo. Inœmeras pr‡ticas de religiosidade popular vinculadas ao
calend‡rio litœrgico, se consagram h‡ mais de dois sŽculos e seu reflexo faz-se
presente na paisagem. Para Torres (2013), a paisagem Ž reflexo da rela�‹o
direta com o ser humano, no plano material ou imaterial, pois comp›em-se de
discursos e formas simb—licas - arte, mito, religi‹o e linguagem. Segundo
Torres (2013) e Kozel (2012) o conceito de paisagem configura-se pela tr’ade:
olhar/sentir/ouvir e perpassa por diferentes aspectos sensitivos - formas,
cheiros, sons, texturas, cores, sabores, movimentos -, com os quais os
indiv’duos percebem e atribuem significados a cada elemento constituinte.
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[Entregue: 15 jul 21 –
Aceito: 15 ago 21]
Poesia in concert: a
palavra de volta ˆ rua[42]
Poesia in concert: the word back on the street
Kaedmon Sellberg[43]
https://orcid.org/0000-0002-4185-2598
Palavras-Chave: Poesia; Mœsica; Performance; Londrina; Poesia in Concert
Abstract (Times New Roman, 12, bold): Poesia in Concert is an artistic event in
Londrina, PR – Brazil, dating from the 1990s that still takes place to
this day. It revolves around presentations with music and poetry performed,
initially, by the group of poets and artists M‡rio Bortolotto (playwright), Rodrigo
Garcia Lopes (poet), Maur’cio Arruda Mendon�a (poet) and S’lvio DemŽtrio
(musician). After a break in the mid-90s, the event returns in 2009, with the
same name, inserted in the literary festival of Londrina, Londrix, being
Christine Vianna, vocalist of the band Benditos Energœmenos, the main
poet/singer. Between 1990 and 2009, there is, of course, a transformation
within the social, historical, political context, at national and regional
level, which motivates different strategies of insertion in the public space.
The article aims to study, comparatively and briefly, the two moments of Poesia
in Concert and its relations with the public space of Londrina. In short
terms, Poesia in Concert and its meaning have been updated for current
literary and artistic needs, educating the public to artistic expression less
common in the mainstream market. The research was based on the survey of
cultural references, interviews and theoretical contribution.
Keywords: Poetry; Music; Performance; Londrina; Poesia in Concert;
Introdu�‹o
O Poesia in Concert, iniciado em 1993, foi um agrupamento de
poetas, dramaturgos e mœsicos de Londrina: Mario Bortolotto (1962, ator,
diretor, dramaturgo, escritor), Rodrigo Garcia Lopes (1965, poeta, mœsico,
tradutor), Mauricio Arruda Mendon�a (1964, dramaturgo, poeta, mœsico, tradutor)
e S’lvio DemŽtrio (1970, jornalista, professor universit‡rio, mœsico) que,
embora n‹o estivesse ligado ˆs produ�›es art’sticas, tinha um programa na R‡dio
Uel da Žpoca. O agrupamento lia poemas de diferentes origens (autorais,
tradu�›es, nacionais) acompanhados de mœsica, frequentemente, blues, MPB e rock.
O primeiro momento do Poesia termina
em 1994, seguido de um hiato atŽ a incorpora�‹o oficial do evento, retomado
pela atriz, poeta, cantora, professora Christine Vianna, no Londrix (festival liter‡rio de Londrina)
em 2009. Durante esse per’odo, concertos isolados aconteceram com a mesma
proposta: poema e mœsica. A dificuldade metodol—gica de tra�ar uma linha
temporal, contextual e coesa, Ž a de discutir se essas express›es
independentes compartilhavam do mesmo significado social. Esteticamente,
v�-se a coes‹o.
O que este artigo prop›e Ž:
a) apresentar o Poesia in Concert nos dois
momentos citados, atravŽs de entrevistas coletadas, v’deos assistidos,
apresenta�›es analisadas;
b) comparar as duas express›es, localizar diferen�as
e padr›es, que situem a import‰ncia social do evento na hist—ria de Londrina;
Para a realiza�‹o do artigo, alŽm de levantamentos de refer�ncias
bibliogr‡ficas sobre Londrina e sobre o Poesia
in Concert da dŽcada de 80 e 90, foram entrevistados M‡rio Bortolotto,
Rodrigo Garcia Lopes, S’lvio DemŽtrio e Cristiane Vianna, em 2018. Maur’cio n‹o
p™de ser entrevistado devido a um problema de saœde, infelizmente. Ao longo do
artigo, cita�›es das entrevistas ser‹o colocadas entre aspas. Todas as
entrevistas estar‹o dispon’veis em link nas refer�ncias. Os v’deos usados para
an‡lise podem ser encontrados no canal ÒCemitŽrio de Autom—veisÓ, dispon’vel no
Youtube. Link nas refer�ncias.
A partir daqui, apresento o Poesia in Concert que explora a
dimens‹o sonora da palavra com a fun�‹o de levantar bandeira pol’tica e
cultural: fazer a palavra voltar para a
rua, como dir‡ Rodrigo Garcia Lopes. O autor observava que a palavra
permaneceu na torre de marfim do poeta (como diz o ditado) por muito tempo.
Entretanto, h‡ diferentes formas de interpretar a Òtorre de marfimÓ em 1990: a
ditatura militar, que dŽcadas antes foi a principal fonte de censura liter‡ria;
o pr—prio circuito liter‡rio, que era um ciclo privilegiado de escolarizados
atŽ a segunda metade do sŽculo XX; ou, ainda, o espa�o que ocupava a literatura
nas universidades em rela�‹o ao espa�o pœblico. Por pœblico, entende-se o bar,
a rua, a esquina da pra�a.
H‡ diversas Òtorres de marfimÓ que enclausuraram a palavra liter‡ria
no Brasil atŽ 1990. O ponto comum entre todas as torres Ž a Òpalavra liter‡ria em
distanciamento socialÓ em rela�‹o ˆ rua. Ou seja, a palavra liter‡ria n‹o
participava da estŽtica do Òpapo furadoÓ, da conversa de meio-fio, da conversa
desengon�ada do bar. N‹o participava da inevitabilidade do som. A p‡gina era
educada demais para se impor dessa forma. A palavra na rua evoca a
circunst‰ncia biol—gica, corporal, presencial – o som da cidade, a mœsica
tocada, a performance. Nesse sentido, o argumento do Poesia in Concert Ž
que na palavra Òdo distanciamento socialÓ h‡ um sil�ncio comum ao livro. Para
bem ou para mal, a mobilidade do objeto impresso fragmenta o significado do
texto conforme Ž lido em diferentes contextos, a partir de diferentes leitores.
Por isso a brincadeira do Òdistanciamento socialÓ da palavra que o Poesia,
desde 1993, quis fazer retornar ˆ rua. Quando a palavra Ž solta na
performance sonora, o contexto Ž da aglomera�‹o, os significados se aproximam
porque se aproximam as pessoas.
Quem eram os atores e as influ�ncias do Poesia in Concert, portanto?
Como se pode antecipar, inserir a poesia liter‡ria no espa�o pœblico Ž do campo
da margem, da juventude, da sensa�‹o e do corpo, que encontra ‰ncora na
literatura beatnik e simbolista,
representada por Arthur Rimbaud. Essa foi, de fato, a bagagem que Mario
Bortolotto e Rodrigo Garcia Lopes trouxeram ao Poesia. Rodrigo estava
nos Estados Unidos entre 1990 e 1992, no Arizona, cursando o mestrado
Humanidades Interdisciplinares, que resultar‡ no comp�ndio de entrevistas, em
forma do livro Vozes & vis›es:
panorama da arte e da cultura norte americanas hoje, publicado no Brasil
pela Editora Iluminuras em 1996. Entre os entrevistados est‹o William
Burroughs, John Cage, Allen Ginsberg, Thom Gunn, Wanda Coleman, Amiri Baraka,
nomes associados ˆ arte de vanguarda, ao beatnik,
ao blues, ˆ cultura afrodescendente americana. Outros nomes citados por Rodrigo
Garcia Lopes, porŽm n‹o entrevistados para o livro, s‹o David Lynch e Francis
Ford Coppola.
Amigo de tradu�‹o do Rodrigo, Maur’cio Mendon�a de Arruda, hoje
dramaturgo premiado internacionalmente, traduziu com ele Sylvia Plath, Poemas (1990) e Iluminuras
(1994), obra do Arthur Rimbaud. Vale a pena mencionar tambŽm a antologia Trilha Forrada de Folhas – Nenpuku
Sato, um Mestre de Haikai no Brasil (1999), do poeta japon�s Nenpuku Sato, o introdutor do haikai no Brasil.
Paulo Leminski bebeu dessa fonte.
J‡ Mario Bortolotto traz consigo o teatro, o Chiclete com Banana, que a partir de 1987 ser‡ chamado CemitŽrio de Autom—veis. Na dŽcada de
1990, o grupo j‡ era premiado e reconhecido em S‹o Paulo e S‹o JosŽ dos Campos.
Nessa mesma Žpoca sentia-se a necessidade de advogar pela cena local, conforme
complementa Mario Bortolotto, pois a efervesc�ncia oitocentista que tinha
levantado o teatro decaiu a partir dos anos 90. O mesmo ocorria com a
literatura londrinense. Os nomes art’sticos de Londrina iam muito bem entre
grupos art’sticos. O que faltava era realmente, tornar a arte da rua, torn‡-la uma experi�ncia do pœblico.
Cito tr�s trechos para os amarrar em seguida:
Ao pensar
sobre os sons de uma cidade, muitos ambientes sonoros emergem aos nossos
ouvidos. Certamente, os sons da cidade, diretamente ligados a sua
morfologia e sua arquitetura, nunca foram ou ser‹o os mesmos, seja em
T—quio, Londres ou Londrina, pois, como o observa o ge—grafo FrŽderic Roulier
(1999), Òos tipos de economia, os comportamentos sociais, a tecnologia e a
densidade populacional induzem varia�›es que fazem com que cada cidade possua
uma identidade sonoraÓ ou Òpaisagens sonorasÓ caracter’sticas. (CARNEIROS DOS
SANTOS, 2011, p. 83, negritos meus)
As
vanguardas hist—ricas e a p—s-vanguarda da segunda metade sŽculo XX deixaram
uma grande li�‹o sobre dissolu�‹o de fronteiras entre literatura e outras
artes, em que a performance se tornou uma importante refer�ncia para a
cr’tica. (FERNANDES, 2017, p. 104, negritos meus)
Ora,
nestes fen™menos festivos, por um lado aplica-se o ajuntamento (endoidecimento)
e, por outro, a pluralidade de cada um. O imagin‡rio est‡ na ordem do dia e com
ele a multiplicidade de sentidos que cada pessoa d‡ ˆ sua exist�ncia.
(MAFFESOLI, 2002, p. 84, negritos meus)
De cima abaixo, observa-se uma rela�‹o entre arquitetura urbana,
f’sica, concreta, tambŽm abordada como uma estrutura abstrata, no sentido de um
comportamento art’stico, ideol—gico. De acordo com Frank (1979, p. 13), h‡ um
espa�o de fazer arte e literatura que ocorre em fun�‹o do seu espa�o
arquitet™nico, social e vice-versa. Ambos estabelecem uma identidade – e,
para este artigo, usarei o termo afinidade
– entre mem—ria (passado) e cria�‹o (presente). A simbiose se processa em
fen™meno liter‡rio. A afinidade entre arquitetura e literatura ser‡ o
ponto-comum para o espa�o do Poesia in Concert em 1993. Qual era o
espa�o londrinense?
Londrina experienciava um refluxo da efervesc�ncia cultural da dŽcada
de 80: o teatro era reconhecido. A mœsica sofria os voos de um MPB que discutiu
com o recŽm finado ufanismo ditatorial. A literatura tinha contato com: Paulo
Leminski, o inutens’lio curitibano e com a influ�ncia das tradu�›es e
entrevistas de beatniks, simbolistas, vanguardistas e poemas minimalistas
(haikai). Era uma linguagem que flertava com a dramaturgia londrinense de
Bortolotto. Inclusive, essa linguagem fazia mais a cara dos bares do que dos
teatros tradicionais. O PROTEU (Projeto Experimental de Teatro
Universit‡rio, criado em 1978) era o teatro Òdiferent‹oÓ, levou o papel
principal da boemia londrinense, alternativo em rela�‹o a valores
mercadol—gicos e engajado na consolida�‹o do FILO (Festival Internacional de Londrina). O PROTEU influencia os
nomes importantes da hist—ria da arte em Londrina e tambŽm o teatro da
vanguarda de S‹o Paulo. Por exemplo, CemitŽrio
de Autom—veis ser‡ o nome da importante Vila Cultural em Londrina,
inaugurada em 2007 por Christine Vianna via PROMIC (Programa Municipal de
Incentivo ˆ Cultura).
Ou seja, o Teatro em Londrina dos anos 80 e dos anos 90 n‹o tinha do
que se envergonhar. Em um festival de teatro em S‹o JosŽ dos Campos, o grupo
teatral CemitŽrio de Autom—veis e a Cia. Dram‡tica Bombom pra Que se Pirulito
tem Pauzinho Pra se Chupar, tambŽm de Londrina, ganharam 10 dos Ò12 ou 13Ó
pr�mios (Mario n‹o se recorda). ÒSobrou pro resto do Brasil tr�s pr�miosÓ,
conta M‡rio em uma entrevista de 1990 na TV Tropical de Londrina, dispon’vel nas
refer�ncias do artigo. J‡ o pœblico londrinense era um pouco recalcado na
dŽcada final. Lotar um teatro de 200 pessoas era muito dif’cil.
Partindo dessa conjectura que, em matŽria de literatura e de mœsica
n‹o era muito diferente, nota-se uma presen�a cultural de peso em
contraste com um pœblico escasso. O espa�o art’stico de Londrina se organizava,
socialmente e esteticamente, em torno de uma certa bo�mia e da performance. ƒ
um terreno fŽrtil para saudar a nostalgia de Rodrigo que um pouco antes estava
nos Estados Unidos traduzindo seus poemas em bares com acompanhamentos de
mœsicos no Arizona. ÒEu voltei de l‡ querendo fazer coisas em LondrinaÓ, o
poeta conta. J‡ se observa um deslocamento estŽtico dos beatniks norte-americanos e suas poesias bo�mias para dentro da
arquitetura londrinense. Caso se mergulhe um pouco mais na experi�ncia estŽtica
beatnik, observa-se uma poesia que andava com o jazz estadunidense dos anos 50
e 60.
Rodrigo traz sua experi�ncia estadunidense ao Brasil, cuja
predomin‰ncia estŽtica era o movimento neorrealista da dŽcada de 30, ecoada
pelo engajamento necess‡rio (sempre) de artistas locais, brasileiros. H‡ uma
pequena barreira, embora n‹o insuper‡vel, entre uma tradi�‹o liter‡ria que
gostaria de subjugar a pura Òarte pela arteÓ vanguardista (como de M‡rio,
Rodrigo e Maur’cio) e ainda educar o pœblico ˆ arte. Aqui, Rodrigo faz sua
tarefa social e art’stica: des-criptografar a ‡urea escol‡stica de um poema,
torn‡-lo do bar, da rua, da boca, em oposi�‹o ˆ sacralidade dada ˆ palavra por
uma modernidade conservadora. ƒ sua flexibiliza�‹o da cultura da escrita.
Finalmente, j‡ em termos geogr‡ficos, a Òpoesia da RuaÓ pode ser
compreendida como uma Òpoesia da Humait‡Ó. Em 1990, na longa extens‹o entre as
ruas Prefeito Ferreira Lima e Humait‡, havia repœblicas de jovens de maioria
universit‡ria. TambŽm se encontram bares que convidavam ˆ experi�ncia bo�mia. AlŽm
dessas ruas, na Av. Bandeirantes, havia o Bar Valentino, palco principal das
apresenta�›es do Poesia in Concert. Curiosamente,
hoje o Bar Valentino se encontra na Prefeito Faria Lima. Mais abaixo se
encontram as imagens.
Portanto, h‡ um duplo jogo sem‰ntico em Òpoesia da RuaÓ. Na sem‰ntica
da rua conotativa, um imagin‡rio de protesto aos espa�os aristocr‡ticos,
elitizados, um espa�o pensado pela sua mobilidade social. Na sem‰ntica da rua
denotativa, embora n‹o seja uma regra, a rua era localizada geograficamente
entre a Prefeito Faria Lima-Huma’ta-Av. Bandeirantes, onde se encontrava a
maioria dos atores sociais do evento Poesia
in Concert.
Nessa rela�‹o conotativa-denotativa, encontra-se a tal presen�a
arquitet™nica-estŽtica da rua. Composto de sujeitos art’sticos e
universit‡rios, a poesia voltou ˆ rua na Prefeitura Ferreira Lima com a Humait‡
e foi atŽ ao Bar Valentino, na Žpoca
presente na av. Bandeirantes, nœmero 61. Como contam S’lvio DemŽtrio e Mario
Bortolotto, os espet‡culos no bar estavam lotados. Era de um relativo sucesso,
de loucura, de encher a casa do Bar
Valentino, de deixar gente do lado de fora, de levar essas apresenta�›es
para fora de Londrina, atŽ Curitiba. No sentido de ressignificar uma realidade
social, o Poesia in Concert de 1993
foi bem-sucedido.
Fora do Valeco
O Valeco ou O Bar Valentino era sofisticado, escreveu
Mario Bortolotto. ÒEra o bar que a rapaziada do Grupo Proteu adotou e l‡ sempre
estava cheio de atores, mœsicos, artistas pl‡sticos, etc. E s— tocava jazz de
trilha sonora, alŽm da melhor macarronada da cidadeÓ.
O Bar Valentino, hoje na rua Prefeito Faria Lima, 486, antigamente na
avenida Bandeirantes, 61, era um espa�o para pessoas art’sticas, talvez tanto
quanto a Vila Cultural CemitŽrio de Autom—veis seja hoje. Toda a ‡rea entre a
rua Humait‡ e a Ferreira Lima era contemplada pela juventude, aglutinada com antigas
repœblicas da rua Humait‡. ÒDe manh‹, pra vir pra UEL, eles vinham de carona.
Ficavam pedindo caronaÓ, conta S’lvio DemŽtrio. Eram lugares menos
gourmetizados, com tradi�‹o bo�mia, acess’vel.
Extens‹o Prefeito Faria
Lima e Huma’ta
Fonte: Google Maps de Londrina, 2022
No c’rculo vermelho ˆ
esquerda do leitor, pr—ximo ˆ Rodovia Celso Garcia, encontra-se a UEL (Universidade Estadual de
Londrina). No c’rculo vermelho central, na rua Prefeito Faria Lima e ao lado da
Universidade Positivo, encontra-se hoje o Bar
Valentino. No bal‹o ˆ direita, a rua Humait‡, que termina na Avenida
Higien—polis, uma das avenidas principais de Londrina. No c’rculo vermelho ˆ
direita, o antigo espa�o do Valentino. Entre o espa�o intelectual de Londrina
(UEL) e um dos espa�os centrais do ponto de vista comercial (Av. Maring‡, Av.
Higien—polis, Av. Bandeirantes), havia extens‹o colonizada por repœblicas e
espa�os marginais (bares, adegadas) cruzando essas extremidades, observada na
linha preta. J‡ o lago Igap—, um dos pontos importantes de lazer da cidade,
cruza essa via de cima a baixo. N‹o Ž dif’cil imaginar como esse tr‡fego
geogr‡fico influenciava na opera�‹o social desse per’odo, desses artistas,
dessa juventude.
Como atŽ 2005 o Bar Valentino era localizado na avenida Bandeirantes, o fluxo de
caronas e de pessoas exigia subir a Humait‡ em dire�‹o ˆ Higien—polis e, em
seguida, descer uma das ruas perpendiculares atŽ a rotat—ria da Bandeirantes.
M‡rio e S’lvio contam sobre uma agita�‹o naquele espa�o. M‡rio conta ainda uma
experi�ncia pessoal:
ÒEu
gostava muito de l‡, embora o meu poder aquisitivo n‹o me permitisse desfrutar
do whisky do lugar, mas eu tinha alguns amigos gar�ons que conseguiam traficar
algumas doses pra mim. Eu ficava sentado no muro l‡ fora e os copos de whisky
se materializavam nas minhas m‹os. [...] Era foda!Ó
Extens‹o Prefeito Faria
Lima e Humait‡
Grifo rosa: Humait‡ ao Bar
Valentino (ponto vermelho)
Fonte: Google Maps de Londrina, 2022
Nesse espa�o, jovens nascidos entre 1960 e 1970
viviam o rescaldo da abertura do pa’s ap—s o fim da ditadura. Por conta da
explora�‹o comercial e da reabertura, essa juventude convivia com a m’dia
estadunidense no Brasil. Havia, claro, nomes brasileiros ganhando peso –
a influ�ncia da literatura beatnik j‡
aparecia em Paulo Leminski, por exemplo. S’lvio DemŽtrio menciona alguns
brasileiros como art’sticos aut�nticos avessos ao mercado de reprodutibilidade.
Havia, tambŽm, influ�ncias de cinema, mœsica e atŽ quadrinhos.
Fonte: MatŽria na Folha de Londrina, 1 Set 1993,
arquivada e emprestada por Silvio Demetr’o Reportagem
Os Insatisfeitos MatŽria
reporta juventude londrinense em 1993
Em uma matŽria publicada na Folha de Londrina em 1¼ de setembro de 1993, a manchete ÒOs
InsatisfeitosÓ descreve a situa�‹o de autoflagelo de uma garota de 21 anos, uma
tentativa de suic’dio, suavizada pela pr—pria entrevistada: ÒAcho que estava s—
tentando chamar a aten�‹o, n‹o queria realmente morrerÓ. Seguido de testemunhos
de denominados ÒinsatisfeitosÓ, a matŽria chega atŽ S’lvio Ricardo DemŽtrio, 24
anos, estudante de jornalismo, Òsolit‡rio divertidoÓ, cuja insatisfa�‹o fora
descrita como sin™nimo de uma inquieta�‹o interna, uma insatisfa�‹o com o
social como se o questionasse. ÒQuem Ž novo e est‡ esperando alguma coisa Ž
insatisfeito. S— os que n‹o esperam nada Ž que est‹o satisfeitos.Ó ÒI CanÕt Get
No SatisfactionÓ, mœsica dos Rolling
Stones foi citada para descrever sua sensa�‹o, de quem via em Paulo Coelho
e Duran Duran acomoda�‹o cultural.
Logo abaixo, o cartunista Angeli continua o
assunto da insatisfa�‹o, expressando no�›es da vida bo�mia paulistana entre
1980 e 1990. H‡ uma tirinha com dois personagens seus dessa Žpoca: os velhos
hippies, Wood & Stock, refer�ncia ao festival Woodstock da dŽcada de 60. Esses e outros personagens expressariam
tra�os da sua personalidade:
ÒEu sou recluso, quase n‹o saio de
estœdio. Sou uma pessoa deslocada, me sinto contemplador e n‹o um cara
participativo; n‹o compactuo com o mundo e isso ati�a o meu senso cr’tico. As
pessoas positivas demais n‹o tem [sic] gra�a. Eu acho que todo alegre no fundo
Ž um paranoico, alguŽm que perdeu o senso cr’tico.Ó
A matŽria (meio sensacionalista, meio tendenciosa)
Ž vista, aqui, como registro de temas e de pensamentos dos jovens de 1993, que criavam
seu pr—prio discurso social, estŽtico, ideol—gico, sobre seus comportamentos. A
insatisfa�‹o Ž linha vertebral, um descontentamento com o sistema social e
pol’tico. Em s’ntese, um status quo que n‹o valia a pena ser vivido. S’lvio
DemŽtrio cita v‡rias influ�ncias para Òos insatisfeitosÓ: Sam Shepard Ž citado
como influ�ncia do pœblico e dos artistas do Poesia in Concert, j‡ que suas pe�as de teatro relatavam
personagens sintom‡ticos de um sonho americano falho, de uma fratura no ideal
da fam’lia americana. N‹o surpreende que Mario Bortolotto, em 2017 e 2016,
tenha dirigido as pe�as Oeste Verdadeiro (True West, de 1980) e ÒCrian�a
EnterradaÓ (Buried Child, de 1977),
no Teatro e Bar CemitŽrio de Autom—veis em S‹o Paulo[44]. J‡
nos filmes, assim como viu-se a inten�‹o do Rodrigo Garcia Lopes em ter um
cara-a-cara com Francis Ford Coppola, Silvio cita O Selvagem da Motocicleta (Rumble
Fish, de 1983), do mesmo diretor, cujo personagem central Ž um jovem l’der
de gangue de uma fam’lia desajustada. E o filme Condenados pelo V’cio (Barfly,
de 1987) inspirado no alter ego de Charles Bukowski, Henry Chinaski, um
alco—lico em Los Angeles, do diretor Barbet Schroeder.
Uma mœsica de Barfly, para citar uma
influ�ncia pr‡tica, foi usada como acompanhamento musical durante um dos
eventos do Poesia in Concert. Essas e
outras refer�ncias menores marinavam, como caldos, a experi�ncia juvenil. Por
exemplo, como conta S’lvio, houve umas decis›es Òsem no�‹oÓ e t’picas de uma
juventude em busca de criar uma afinidade com a insatisfa�‹o. Decis›es como: Òvou
embora daqui porque t™ cansado; puts, cara, isso n‹o se faz. Mas era assim que
as coisas funcionavam.Ó. A aventura pessoal, o dizer ÒsimÓ ˆ vida que, como
veremos mais tarde, j‡ estava registrada em Rimbaud, Nietzsche, beatniks, compartilhada pelos
personagens dos filmes.
Eram as influ�ncias brasileiras no Poesia in
Concert mais h’bridas que as influ�ncias estadunidenses, pois nossos
brasileiros eram n™mades. O Poesia n‹o
tinha uma inten�‹o regionalista; isso seria um ufanismo do per’odo anterior ao
qual o Poesia queria marcar oposi�‹o,
a ditadura militar nacionalista. S’lvio conta, a princ’pio, uma forma�‹o
musical do Hermano Reis, Grupo DÕAlma e outros nomes do universo violon’stico
brasileiro. Mais tarde, o conv’vio com Mario traria uma mœsica ligada ao
universo da gera�‹o beat: jaz bepop,
blues, trilha sonora do filme Paris, Texas (1984). De Londrina, atŽ Bernardo Pellegrini e o Bando do C‹o Sem
Dono, embora n‹o participasse diretamente do evento, dialogava com ele. Um
poema musicalizado pelo Rodrigo, trabalhado junto com o S’lvio, com slides de
blues, foi gravado pelo Bernardo nos anos 90. As letras da mœsica, assim como o
estilo do Bando, mais uma vez,
colocam em evid�ncia a caracter’stica bo�mia do som e das experi�ncias de vida.
Dentro do Valeco
Segundo um documento publicado pelo site da Prefeitura de Londrina, na
primeira p‡gina:
No come�o
da dŽcada de 80, segundo Jo‹o Henrique Bernardi, o Valentino era o local para
onde iam as pessoas que acompanhavam o movimento teatral da cidade quando uma
pe�a nova estreava, sendo cen‡rio da rivalidade entre os maiores grupos de
teatro de Londrina. O bar ainda passou pelas m‹os de outro dono, Marcos Marangoni,
atŽ chegar aos donos atuais, Valdomiro e Rosangela ChammŽ, que est‹o ˆ frente
da administra�‹o do Valentino desde 1991. Em 25 anos de hist—ria, o bar foi
segunda casa dos bo�mios da cidade de todas as ra�as, cren�as e op�›es sexuais,
foi palco de pe�as de teatro, shows musicais de todos os estilos, atividades do
FILO, exposi�›es de artistas pl‡sticos, lan�amentos de livros e CDs, mostras de
v’deo. Foi inspira�‹o para mœsicas, poemas, livro, curta-metragens, hist—rias
em quadrinhos. Recebeu visitantes ilustres, como Paulo Leminsky [sic], Glauco,
Angeli, C‡ssia Eller e diversos mœsicos e atores que se apresentaram na cidade.
O Valentino n‹o Ž apenas palco, mas Personagem da hist—ria cultural de Londrina. (LONDRINA.PR.GOV.BR, p. 01)
Fonte: MatŽria na Folha de Londrina, 7 Abr 1993,
arquivada e emprestada por Silvio Demetr’o Poesia in Concert Reportagem de evento no bar
Valentino
Londrina
contava com um teatro que efervesceu a cidade, uma literatura em torno da
marginalidade beatnik (mesmo que a literatura
tenha ficado abandonada, como as not’cias de 1993 mostram), MPB, rock e jazz,
um espa�o bo�mio para artistas. No Bar
Valentino, o Poesia in Concert cola
estes fragmentos art’sticos em um caldo coeso. Veja, por exemplo, um dos
concertos que se chamava ÒPalavra cantada Ž palavra voandoÓ. A performance
trazia, por exemplo, Mario Bortolotto com textos do Bukowski, em seguida
tradu�›es de Rimbaud, e, mais tarde, inclusive Maur’cio com sua influ�ncia
japonesa, o haikai. Uma verdadeira ÒJam PoetryÓ, como conta Silvio, pois
envolve geleia, gosma, de misturas e sons de costura. AtŽ coisas improvisadas.
Billy Holliday foi cantada, alŽm de outras experi�ncias de solid‹o do gueto
americano. Essa geleia, que de um ponto de vista historiogr‡fico atŽ pertence a
um nœcleo relativamente est‡vel de influ�ncias, encontra uma Òcontradi�‹oÓ do
ponto de vista cr’tico liter‡rio.
A reportagem acima cita refer�ncias marginais
(Leminski, Sylvia Plath, gera�‹o beat: Burroughs, Kerouac) em rela�‹o ao c‰none
tradicional. Mais curioso Ž que, em certos momentos da cr’tica liter‡ria, essas
refer�ncias degeneraram a cultura e a poesia can™nica americana. Par‡grafos
depois – assim como na outra not’cia da Folha – introduz-se uma compara�‹o com nomes aceitos pelo
c‰none, como os trovadores do sŽculo medieval e os gregos. A reportagem e os
convidados pareiam comunidades culturais e estil’sticas, aparentemente, vistas
como ant’teses. A Folha escreve Òsalmo e rapÓ e ÒAllen Ginsberg, por
exemplo, ser‡ recitado como se fosse um salmoÓ.
O nivelamento entre dois estados distintos de
cr’tica (a gera�‹o marginal e os trovadores, os rapsodos) Ž selado pelo Poesia in Concert enquanto uma
Òreconquista de um lugar para a poesia na cidadeÓ. Assim fica registrado o
impacto do Poesia em m’dia pœblica: a flexibiliza�‹o da trova
para margem, a concilia�‹o da progressista gera�‹o beat com a tradi�‹o do rapsodo. Na dŽcada de 90 londrinense, essa
afinidade poŽtica condizia com um pœblico que intelectualizava o marginal e
marginalizava a canonicidade, como discurso cr’tico ˆs bases morais da
ditadora, dos discursos c’vicos, ufanistas.
Essa afinidade poŽtica, entretanto, j‡ era comum
no circuito cr’tico. Em uma entrevista com Burroughs, Rodrigo questiona o autor
sobre seu processo de autor marginal ˆ institucionaliza�‹o liter‡ria. Burroughs
responde: ÒDe certa forma isso Ž verdade. Eu sou os Estados Unidos da AmŽrica!Ó
(LOPES, 1996, p. 13), o mesmo Burroughs que, segundo Rodrigo Garcia Lopes, Òfoi
um dos escritores do sŽculo 20 que mais levou adiante o Ôdesregramento gradual
e racional de todos os sentidosÕ proposto por RimbaudÓ[45]
Outra afinidade entre o movimento cr’tico e o movimento art’stico do Poesia
in Concert est‡ Anna Balakian, no livro O
Simbolismo, publicado inicialmente em 1967, e publicado no Brasil pela
editora Perspectiva em 1985. A literatura de Rimbaud ocorre pelo afastamento do
liter‡rio, com suas aventuras pessoais: ÒRimbaud foi, na verdade, o œnico que
escolheu a chamada Ôfuga da literaturaÕÓ (BALAKIAN, 1985, p, 49). Rimbaud voa
para a realidade, em oposi�‹o ao her—i simbolista de Villiers, Ax‘l, que se
isola na ina�‹o e no sonho da torre de m‡rmore liter‡ria. O tipo de viagem pessoal que encontra
nos beatniks uma solu�‹o agrad‡vel
– tornar a viagem (a perambula�‹o na rua, o deslocamento social)
um processo liter‡rio, bem ao jeito da an‡lise de Frank (1979, p. 13). A arquitetura da cidade, nesse sentido,
passa a ser um espa�o para o liter‡rio do sŽculo XX. A experi�ncia de viagem
transforma-se em viagem liter‡ria.
Rapidamente, aponto a institucionaliza�‹o de
Burroughs como um processo liter‡rio da cr’tica americana que, p—s dŽcada de
60, n‹o conseguiria mais fingir que os Estados Unidos pertencia apenas aos
subœrbios (LOPES, 1996, p. 15). Isso seria ser c™modo com o neoconservadorismo
que viria nos anos Ronald Reagan duas dŽcadas depois. Em dire�‹o a an‡lise de
uma performance do Poesia in Concert,
cito uma entrevista feita com Michael Maffesoli (2012, p. 166), no qual o autor
explica:
ƒ por
isso que o pensamento cr’tico n‹o me parece mais ser um pensamento
contempor‰neo. ƒ dif’cil de dizer, eu sei. Quando pensamos como intelectuais,
pensamento cr’tico Ž a grande tradi�‹o moderna do sŽculo XIX. O que quer dizer
cr’tica? Em grego, krimeia, Ž a
balan�a do juiz. Pesam-se as coisas e retŽm-se o que precisa reter, jogando-se
fora o que n‹o presta. Marx dizia que o intelectual Ž o cŽrebro, o prolet‡rio Ž
o vento, querendo dizer com isso que o prolet‡rio agia, mas era necess‡rio o
cŽrebro que lhe desse ˆ luz. Atualmente, parece-me prevalecer uma posi�‹o
afirmativa da exist�ncia. O pensamento cr’tico Ž o pensamento do n‹o; o
pensamento afirmativo, ali‡s, nietzschiano, Ž o pensamento do sim. Dizer sim ˆ
vida. Ao passo que no pensamento cr’tico observam-se bem as formas de
perfei�‹o, as formas de submiss‹o, as formas de explora�‹o, etc., mas apesar de
tudo existe o desejo de viver essa vida. O drama Ž que existe uma discrep‰ncia,
um fosso enorme entre o pensamento intelectual e o vivido social em geral, e em
particular no que tange ˆs novas gera�›es. Para mim, todo o meu trabalho, tal
como disse no meu livro A raz‹o sens’vel (um livro de epistemologia) tem sido o
de mostrar que Ž preciso desenvolver a exist�ncia de um pensamento, que n‹o
seja um pensamento do exterior e cr’tico, mas que seja um pensamento do
interior, que acompanha a vida.
No livro Elogio
ˆ Raz‹o Sens’vel (1998), Maffesoli discute uma forma de Òpensamento
org‰nicoÓ, ou pensamento do ventre[46], no
qual o corpo p—s-moderno, em ruptura com o pensamento cr’tico, escol‡stico,
vive um ÒprŽ-modernoÓ, uma organicidade ÒarcaicaÓ (ou, chamadas assim apenas em
rela�‹o ao pensamento moderno) a fim de dar for�a a esse ventre. De acordo com
Maffesoli (1998, p. 64-65), a organicidade remete para o vivente e para as
for�as que o animam. O que vive tende a se reunir, a conjugar os elementos
d’spares. ƒ quando Òo conjunto todo se sustentaÓ que h‡ vida. A observa�‹o
ressoa n‹o apenas com a organiza�‹o de elementos d’spares da cr’tica liter‡ria
no Poesia in Concert, como tambŽm com uma atitude espec’fica da
juventude da Žpoca: uma intelectualiza�‹o (ent‹o, afinal, um pensamento
cr’tico) das experi�ncias do ventre, do corpo, da sensa�‹o. Dar o ventre ˆ palavra –
corporific‡-la em pœblico.
De volta ao Bar Valentino, o deslocamento social para aquele Òambiente de
BurroughsÓ buscava flexibilizar uma cr’tica e um processo liter‡rio que n‹o
poderia ser vivida na ina�‹o e no sonho de Ax‘l. Nietzscheanamente falando, o
dizer ÒsimÓ ao desregramento da vida, j‡ prenunciado na aventura pessoal de
Rimbaud, precisava imergir na rua. Logo, pensar o Bar Valentino enquanto
espa�o do ventre n‹o Ž ignorar o pensamento cr’tico. Ao contr‡rio, Ž pensar
os fen™menos do Poesia in Concert como articuladores cr’ticos, intelectuais,
n‹o apenas da experi�ncia ditatorial, mas tambŽm como um espa�o de cr’ticos
sobre a cr’tica liter‡ria tradicional.
Gostaria, portanto, de analisar uma performance
do Poesia in Concert da dŽcada de 90 dispon’vel no link a seguir, o qual sugiro acessar antes de avan�ar o texto:
<https://www.youtube.com/watch?v=Ar2W0QdCl48>.
Em seguida, deixo um link, apenas para
compara�‹o, da mesma performance sendo ensaiada:
<https://www.youtube.com/watch?v=H0qhVvquy3Q&t>
Sobre o equipamento do palco, Ònada muito
sofisticado em termos de equipamentoÓ, Mario e Rodrigo dizem. Microfones e um
viol‹o. A balada em quest‹o Ž entre country e blues, tŽcnicas de slides
do viol‹o e um som descontra’do. Nada grave, nada melanc—lico, um pouco texano,
um pouco relaxado. Um pouco daquela Òmœsica de barÓ mesmo.
Rodrigo est‡ prestes a ler uma tradu�‹o de
Lawrence Ferlinghetti (precursor dos beatniks),
ÒSometime During Eternity...Ó. Destaco aqui uma frase de Leminski que Rodrigo
confidenciou a mim ÒCantar Ž apenas a maneira mais bonita de dizerÓ. Assim como
os slides do viol‹o, haver‡ uma escorregada – entre dizer e cantar
– durante a performance e, propositalmente, obscurecida sobre seu
ponto exato de transi�‹o. Ou seja, Rodrigo propositalmente quer obscurecer a
tŽcnica de sua voz, se Ž canto ou se est‡ dizendo. Escreverei um asterisco (*)
a fim de transcrever os momentos de imprecis‹o. Entre par�nteses est‡ a
interven�‹o de Rodrigo no poema, ou seja, partes que n‹o correspondem a uma
tradu�‹o, correspondem a marca de oralidade perform‡tica.
Rodrigo segura um papel na m‹o. Come�a:
Era uma vez
Durante a eternidade
Uns carinhas entram em cena
e um deles
Que pinta meio tarde no peda�o
ƒ um tipo de um carpinteiro, meio bicho grilo
Vindo de algum lugar careta, tipo... Galileia
E o cara come�a a delirar e dizer que ele Ž o ÒO caraÓ
– o ÒO caraÓ
E que t‡ em liga�‹o direta com a figura que fez o cŽu e a
terra
E que o sujeito que aprontou essa com a gente Ž o papai dele
E tem mais: o carinha diz que tudo isso est‡ escrito nos
rolos de pergaminho
que os br—ders dele mocozaram em algum canto do mar morto
*H‡ muito tempo atr‡s...
E que v‹o ficar assim perdidos durante milhares e milhares e
milhares de anos
*1947, pra ser exato
E mesmo assim, ninguŽm t‡ nem a’ pra o que ele diz
A’ dizem assim pra ele, nŽ (pro Jesus, obviamente, que Ž a
figura toda): *bixo, voc� Ž quente
E penduram o cara numa cruz pra ele esfriar a cabe�a
E desse dia em diante todo mundo entra numas e come�a a
fazer modelitos dessa cruz, que o cara t‡ pregado, e ficam cantando embaixo
dela pedindo pra ele ([come�a a gaguejar]) descer dali [ca�oa a ora�‹o
rab’nica, fazendo sons guturais, incompreens’veis] e entrar pro grupo e tirar
um som tambŽm, j‡ que ele Ž o fera, o cara quente, o... (tal, nŽ, o cara) que
tem que mandar a ver (mesmo, nŽ, porque se n‹o for Jesus, hoje em dia, eu n‹o
sei quem Ž), se n‹o, nada v�
s— que dali o cara n‹o desce nem a pau
Fica ali pendurad‹o, fica ali frio, ali na dele, dando um time (meu Òtime!Ó [abre os
bra�os imitando a crucifica�‹o]
E, tambŽm, segundo informam as œltimas not’cias das ag�ncias
internacionais, vindo de fontes nada fidedignas, como sempre
realmente – morto
Na performance, h‡
palavras marginais, misturas entre ingl�s e portugu�s, uma caracter’stica da
urbanidade brasileira – que tambŽm resgata um estilo vanguardista de
Oswald de 22. O nomadismo de informa�‹o, citado por S’lvio, alŽm de refer�ncias
art’sticas, traz refer�ncias lingu’sticas aportuguesadas. Observa-se, tambŽm,
inser�›es subjetivas de Rodrigo entre um verso e outro do poema de
Ferlinghetti, quando, por exemplo, ca�oa o termo ÒtimeÓ ao simular a
gravidade do Cristo na Cruz: ÒMeu, time!Ó (imita a crucifica�‹o). Entre
uma palavra e outra h‡ o blues: a aten�‹o desfoca, acidentalmente/escorregadiamente,
daquela sem‰ntica liter‡ria, ficcional, para a atmosfera bo�mia do bar, da rua:
as conversas paralelas, o tr‰nsito dos carros, o ru’do dos garfos e pratos, o
relacionar-se com a espuma da cerveja e beb�-la enquanto alguŽm assopra a
fuma�a do cigarro e o country-blues os imerge no bar. Quase n‹o se sente que se
trata de uma conversa sobre a b’blia – ent‹o volta-se ˆ narrativa, ao
eu-l’rico que, localizado naquele espa�o com qual se relacionam, marca sua
presen�a como membro do espa�o.
A linguagem
perform‡tica antropomorfiza a boemia e o viol‹o como quem diz: ÒArthur
Rimbaud era como n—s. N—s existimos com os gregos antigos. O blues foi
inventado em uma lira deitada de trovador que fumou algum —pio; se perdeu em
hero’na encontrada no bar da av. Bandeirantes, nœmero 61, banheiro do sŽculo
XX. E a santifica�‹o de Cristo Ž um assunto para os slides dos negros
– porque, como a rua e como o blues, a cruz somos todos n—s. Jesus,
afinal, era da margem e foi a�oitado. Era grunge. Era da parte de baixo
do continente americano. Era de Londrina. Era do Valeco.Ó
ƒ o limiar cr’tico por
onde nasce o Poesia in Concert: viver o arca’smo do ventre com a
experi�ncia dionis’aca sonora, grega, da maneira de um trovador. Nesta
performance, h‡ o fen™meno cr’tico-liter‡rio que, atŽ hoje, faz parte da
heran�a cultural de Londrina: ser cr’tica, ser liter‡ria, e ainda assim
sentir a pulga atr‡s da orelha quando se trata do c‰none.
Conforme explica
Rodrigo, n‹o havia nada acad�mico. Nada formal. Nada intencional. Era uma
maneira natural como viam a cultura: sincr™nica, ver todos os poetas como
absolutamente contempor‰neos e, por isso, n‹o haveria necessidade de deslocar
Shakespeare de um poeta contempor‰neo brasileiro. ƒ a vis‹o sincr™nica que
herda de Ezra Pound, sobretudo a vis‹o da poesia produzida atŽ hoje como um
manancial, como uma fonte rica, himalaia, como um topo que pode ser escalado
por v‡rios lugares. Nesta perspectiva de um manancial, Rodrigo acaba
recuperando a oralidade – traduz, por exemplo, o poema O Navegante
(The Seafarer), poema anglo-sax‹ (antes da l’ngua inglesa) com mais de
900 anos de idade. ƒ curioso, portanto, a perspectiva do Rodrigo de observar o
Poesia in Concert como uma produ�‹o nada acad�mica. Pois, embora n‹o tenha
nascido pela Academia, os discursos e deslocamentos se tornaram pontualmente
cr’ticos de um sistema de vida ufanista, tradicionalista, Òdos bons costumes,
dos bons valoresÓ.
O poema de volta ˆ
rua deve perder o car‡ter escol‡stico para vocalizar a for�a do ventre –
o ÒdeslizeÓ entre falar e cantar, como critŽrio estŽtico, seria o que
localizaria o poema na vanguarda ou no cl‡ssico, talvez, entre a universidade e
o mercado massivo. Enfim, Ž importante que o poema esteja nos bares para
embebedar seu ventre. ƒ importante que se torne pœblico para evitar, nos
momentos de distanciamento social, ser monopolizado pelo processo acad�mico.
Legado e conclus‹o
Trata-se de uma lei social bem conhecida:
todas as coisas tendem a debilitar-se. Perde-se mem—ria da efervesc�ncia
fundadora. O choque amoroso torna-se tŽdio conjugal, a energia revolucion‡ria
metamorfoseia-se em partido pol’tico institucional, o dinamismo juvenil dos
come�os inverte-se em repetitividade mon—tona. AtŽ mesmo a intui�‹o criativa de
um pensamento inovador tende a tornar-se sistema est‡tico com os seus dogmas e
o seus c‹es de guarda zelando, ciosamente, pela rigidez doutrinal (MAFFESOLI,
2002, p. 22)
Os criadores do Poesia in Concert saem de
Londrina no final da dŽcada de 90. Depois dos anos 2000, Rodrigo, M‡rio e
Maur’cio permaneceram artistas com estŽticas performativas. M‡rio participa de
dois grupos, Trovadores do Mioc‡rdio e
o Jazz Poetry. O Trovadores trabalha com um DJ que providencia camas sonoras para as
leituras. Costuma trabalhar com temas. Em setembro do ano da conclus‹o deste
trabalho (2018), pretendiam comemorar o anivers‡rio de Nick Cave. J‡ no Jazz Poetry, os escritores escolhem o
jazz que acompanha textos autorais. Rodrigo desabafa sobre as apresenta�›es
contempor‰neas do Poesia em Londrina:
Òa œnica coisa que parece repetitiva e sem criatividade Ž que Ž sempre o bluesÓ, conta.
Hoje, o Valentino,
na Rua Prefeito Faria Lima, passou a ser visto como um lugar menos da margem,
mais elitizado – de fato, em Londrina de 2018, os espa�os das coisas marginais,
viscerais e espont‰neas s‹o outros. Outras s‹o, tambŽm, as estŽticas do
ÒmarginalÓ. A Vila Cultura CemitŽrio de Autom—veis Ž o espa�o principal, onde,
inclusive, acontecem a maioria dos encontros de Poesia in Concert.
Christine Vianna, porta-voz do Benditos
Energœmenos (banda de poema e mœsica blues, inicialmente fazia leituras de
poemas brasileiros, inclusive fora do Brasil, atŽ, ultimamente, investir em
trabalhos autorais) era pœblico do Poesia
in Concert em 1990. Aproximou-se da mœsica atravŽs do Poesia. Em 2009, reinsere o Poesia
na pauta londrinense celebrando o anivers‡rio da cidade de 75 anos, que
acontece em 10 de dezembro. Apresenta o show
no Museu de Arte, em julho e, em novembro, na Vila Cultural. A partir de 2010,
o incorpora ao Londrix, que planeja as apresenta�›es do Poesia principalmente na Vila Cultural (j‡ aconteceu, tambŽm, na
Concha Acœstica, em Londrina, em 2012).
O festival liter‡rio de londrina, Londrix,
discute a palavra atravŽs de v‡rios ‰ngulos: confraterniza�‹o com escritores,
oficinas, palestras, leituras, lan�amentos de livros. Christine resolveu
retomar o Poesia in Concert neste
contexto de tate‡-lo, de perceb�-lo, de expandir a experi�ncia com a palavra. A
diferen�a Ž que, anexado ao Londrix, o espa�o Ž tambŽm de um pensamento conscientemente
cr’tico (uma vez que o festival Ž organizado, principalmente, por nomes da
Universidade Estadual de Londrina). Nesse festival, de experi�ncia cr’tica e de
experi�ncia do ventre da palavra, a vida de bar Ž mais limitada.
Entenda: na dŽcada de 90, o Poesia in Concert era um evento do bar. Um lugar de comŽrcio, aberto cotidianamente, no qual o pœblico
vai e vem com liberdade. Com a inser�‹o do evento em um festival e um espa�o
cultural espec’fico, no qual a experi�ncia direta da boemia no bar Ž restrita,
a palavra-voz do Poesia sofre outra
experi�ncia sociol—gica. N‹o corre o risco, como era o caso do Poesia em 90, de um cliente despreparado
entrar no bar e por acaso sentir o h‡lito alco—lico de Rimbaud. H‡ boemia e h‡
bebidas na Vila Cultural, mesmo assim. O que ocorre Ž que quase 40 anos depois
da ditadura, as necessidades cr’ticas da literatura s‹o outras.
Com a inser�‹o do Poesia in Concert em um festival liter‡rio, o equipamento e as
possibilidades aumentam com o investimento monet‡rio. Christine relatou o
nœmero de bandas locais, por exemplo, que se empenham em trazer novas
materialidades sonoras ˆ palavra. Bonus
Trash, com punk rock e performances energŽticas, quase esquizofr�nicas,
como se a ansiedade man’aca ganhasse pernas. Outras bandas locais, como Radicais Livresü que em parceria com o Benditos, sonorizaram poemas de Herman
Schmitz, curitibano naturalizado londrinense. Dentro de um festival liter‡rio,
s‹o v‡rias as conversas liter‡rias, v‡rias as refer�ncias e, conforme avan�am
os anos e as percep�›es – e os poetas – Ž natural que se notem
novas performances montadas. Inclusive novos objetivos.
Se antes o Poesia in Concert queria
questionar o conceito de liter‡rio, hoje quer
assegurar uma educa�‹o pol’tica sobre o conceito. Christine, como
professora e musicista, usou o projeto para levar poemas londrinenses ˆs
escolas. Alunos vinham pedir os poemas apresentados, ela conta a
experi�ncia. ÒVoc� canta, professora? N‹o canto, eu falo.Ó – agora Ž o
trajeto contr‡rio. O foco se torna questionar o conceito de ÒmœsicaÓ e ÒsomÓ
pela for�a liter‡ria. Nesse percurso, a educa�‹o retira o aluno apenas da experi�ncia do ventre para
inseri-lo ˆ experi�ncia cognitiva (um objetivo que, na presente dŽcada, parece
mais adequado).
Antes o discurso fazia oposi�‹o ˆ ufanismo
ditatorial e ˆ pris‹o da palavra acad�mica; hoje, as necessidades de oposi�‹o
s‹o outras. Christine reitera: as redes de literatura de massa n‹o trabalham o
diferencial; e o diferencial desconstr—i uma estrutura de realidade fixa. Cabe
ˆ vanguarda, que est‡ ˆ frente na quest‹o cultural, mostrar coisas que s‹o
produzidas ˆ margem da rede de massa.
Nesse sentido, n‹o Ž preciso mais recitar
Burroughs, Kerouac, Leminski; todos esses nomes v‹o muito bem e obrigado. O
atual Òlevantar bandeiraÓ Ž levantar o nome de um autor independente para o
conhecimento pœblico. Esse Ž o novo prop—sito do Poesia in Concert:
fundamentar um espa�o de arte independente, e disseminar a mesma arte
independente entre os espa�os londrinenses, um circuito de divulga�‹o e
fundamenta�‹o da arte local.
Observe uma diferen�a de resposta de palco: em
uma apresenta�‹o relatada por Christine com o Benditos em Curitiba,
havia 800 pessoas, espa�o lotado. Era uma homenagem a Paulo Leminski. Um
b�bado, talvez drogado, subiu no palco e abaixou a cal�a. Segundo a autora, ele
ficou assim, meio de quatro. Aquilo foi constrangedor, desconcentrou, tirou a
aten�‹o do show para o mo�o – e o que fazer, ent‹o? O show n‹o podia parar, conta Christine. Se
a poesia n‹o enla�a o pœblico, ele se perde; voc� tem que prender aten�‹o com o
fluxo. ÒEu abaixei no mesmo n’vel que eleÓ, ela diz. ÒE fiz o poema pra eleÓ.
Ele ficou calmo; estava agitado... e acredito que tenha sido envolvido pela
poesia – Òeu olhei pra eleÓ, e as pessoas aplaudiram muito.
Ë diferen�a dos mœsicos, poetas e tradutores
universit‡rios, recŽm-formados, que atuaram no primeiro Poesia in Concert para
um pœblico de bar, o contexto escolar de Christine contextualiza a literatura
inicialmente com formar e educar, menos preocupada com o ÒdesregrarÓ dos
sentidos. ƒ question‡vel se a resposta de palco do primeiro Poesia ao
b�bado teria sido acalm‡-lo.
Assim, menos preocupada com o discurso de uma
Òpalavra no barÓ, h‡ um discurso mais apegado ˆ palavra enquanto um direito
humano de Antonio Candido. Inclusive, literatura pensada como ativismo
pol’tico e manuten�‹o de espa�o para os direitos humanos. Nesse sentido, no Poesia in Concert atual h‡ uma ideologia da raiz, que parte, por exemplo, dos
poemas e do blues americanos, ressaltados nas figuras Amiri (1996, p. 44-47) e
Wanda (1996, p. 113-116), entrevistadas por Rodrigo Garcia Lopes. Embora nos
dois Poesias haja diferentes rela�›es sociol—gicas com Londrina, o
evento permanece como um espa�o para discursar um processo cr’tico da
literatura contr‡rio ˆ cifra monet‡ria da literatura de massa.
O sentido do Poesia in Concert (Òpalavra
que retorna ˆ ruaÓ) Ž um sentido que se ressignificou conforme as necessidades
sociol—gicas da ÒpalavraÓ e da ÒruaÓ mudaram. Antes, levar a palavra para rua e
para o bar. Agora, lev‡-la ˆs escolas. Quando vestida de elite, dar-lhe roupas
da rua; quando se tornar marginalizada demais, reivindicar uma palavra que
resguarda direitos humanos. Se a palavra for monetizada pelos recursos de massa,
educar ao diferencial, educar ˆ palavra enquanto um outro. Ora, assim como Burroughs
foi institucionalizado pela cr’tica norte-americana, a qu’mica efervescente do Poesia
marginal se transformou em uma matŽria-prima. Agora, o que fazer com um
Burroughs que j‡ Ž vendido atŽ em lojas de rodovi‡rias? Responder com aqueles
que raramente conseguem uma prateleira.
A literatura, a palavra, participam dos
processos de lucro. ƒ indubit‡vel. A Forbes publica anualmente uma lista
com 10 escritores de fic�‹o norte-americana milion‡rios. A palavra Ž
comercializada em forma de Facebook, WhatÕs App e Tweets globalmente compartilhados. E, com o racioc’nio relativista
p—s-moderno, haver‡ discuss›es intermin‡veis sobre o que existe ou n‹o de
literatura nisso. A palavra gira um capital consider‡vel. O que o cr’tico
liter‡rio e o empres‡rio t�m em comum Ž querer entender quais palavras s‹o mais
capitalistas do que vanguardistas. Entre os dois momentos do Poesia, Rodrigo
Garcia e o Benditos Energœmenos
quiserem abordar a palavra pelo sentido contr‡rio ˆ mare.
Embora os sentidos e as proje�›es do Poesia
in Concert tenham sido atualizados, observa-se um espa�o londrinense para
se opor ao sentido mainstreem da palavra. Talvez seja essa a maior
heran�a de colocar a palavra na rua. Conhecer aquele que, no centro da cidade
ou na periferia, Ž o outro.
Refer�ncias
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Pasta com
entrevistas realizadas.
Dispon’vel
em: <https://1drv.ms/u/s!AknHzGD3Drz3gdYOg8ti2RsNAdRBqA?e=eltDAg> Acesso em: 4 de Maio de 2021
[Recebido: 04 mai 2021 – Aceito: 04 jun 2021]
Vozes poŽticas e
(re)exist�ncias quilombolas do Grupo Ra’zes do Samba de Tocos de Ant™nio
Cardoso - BA
Poetic voices and quilombola
(re)existences of the Ra’zes do Samba de Tocos Group by Ant™nio Cardoso –
BA
Renailda Ferreira Cazumb‡[47]
https://orcid.org/0000-0002-3396-1962
Eliziane Santos e Santos[48]
https://orcid.org/0000-0001-9685-0066
Resumo: A vida e as hist—rias dos
mestres e mestras, sambadores e sambadeiras do grupo Ra’zes do Samba de Tocos
de Antonio Cardoso - BA resguardam um precioso manancial poŽtico e narrativo
corporificado em sambas e hist—rias tradicionais do grupo. Nesse sentido, este
artigo pretende visibilizar a intera�‹o e a recolha das vozes do repert—rio
cultural oral e os referenciais ancestrais afro-brasileiros a partir do
levantamento e registro do seu repert—rio oral. Fruto das a�›es da pesquisa
ÒVozes ancestrais quilombolas em contos e narrativas do grupo Ra’zes do Samba
de Tocos de Antonio Cardoso – BAÓ, este estudo concentra-se em acessar as
narrativas de cunho oral e autobiogr‡ficas dos mestres do samba rural. O aporte
te—rico-metodol—gico se fundamenta na teoria de Benjamin (1994), nas concep�›es
de Costa (2015) acerca dos narradores tradicionais, em Ferraroti (1988), sobre
o mŽtodo autobiogr‡fico, e nas concep�›es de HampatŽ B‰ (1977) a respeito da
tradi�‹o oral em comunidades africanas. O manancial narrativo insere os sambadores/sambadeiras
do Ra’zes do Samba de Tocos dentre os guardi›es das vozes ancestrais que
reencenam as (re)exist�ncias negras no interior da Bahia.
Palavras-Chave:
Ra’zes do Samba de Tocos; Vozes poŽticas tradicionais; (Re)exist�ncias.
Abstract: The
life and stories of mestres and mestras, sambadores and sambadeiras of the
group Ra’zes do Samba de Tocos by Antonio Cardoso - BA
traditional knowledge constitute precious poetic and narrative source embodied
in sambas and traditional stories by the group. In this sense, this article
intends to make visible the interaction and collection of the voices of the
oral cultural repertoire and the Afro-Brazilian ancestral references from the
survey and registration of their oral repertoire. It is the result of the research
actions of the project Cacimba de hist—rias: vidas e saberes dos contadores de
hist—rias tradicionais de cidades do interior da Bahia, (UEFS/ UFSB/UNILAB),
study focuses on accessing the oral and autobiographical narratives of the
masters of rural samba. The theoretical and methodological contribution is
based on Benjamin's theory (1994), on Costa's (2015) conceptions about
traditional narrators, Ferraroti's (1988) theory about the autonomy of the
autobiographical method, and HampatŽ B‰'s (1977) conceptions about oral
tradition in African communities. The narrative source inserts the
sambadores/sambadeiras of the Ra’zes do Samba de Tocos among the keepers of
ancestral voices that re-enact black (re)existences in the interior of Bahia.
Keywords: Ra’zes do Samba de Tocos; Traditional
poetic voice; (Re)existences.
Introdu�‹o
Neste artigo socializamos parte dos resultados
da pesquisa ÒVozes ancestrais quilombolas em contos e narrativas do grupo
Ra’zes do Samba de Tocos de Antonio Cardoso - BAÓ (FAPESB/2019-2020), na qual
realizamos o levantamento do repert—rio cultural de cunho oral advindo dos
mestres e mestras sambadeiras integrantes do Grupo Ra’zes do Samba de Tocos, da comunidade quilombola situada no
munic’pio de Ant™nio Cardoso, estado da Bahia. Interessadas em investigar a
preserva�‹o e a visibiliza�‹o dos saberes populares provindos dos narradores
tradicionais do Rec™ncavo Baiano, interagimos com o grupo por reconhecermos o
processo de silenciamento e marginaliza�‹o desse conhecimento no ‰mbito da
educa�‹o formal, assim como o poss’vel apagamento desse acervo cultural na
sociedade moderna.
Neste sentido, focalizamos as vozes poŽticas
das sambadeiras e sambadores, por meio do interc‰mbio de saberes entre a
comunidade tradicional, que Ž o campo emp’rico da nossa pesquisa, e os espa�os
acad�micos envolvidos. Neste percurso, interagimos com o Mestre Saturnino Dias Neri,
de cognome Mestre Satu, e com as sambadeiras Ant™nia Neri e Valdemira Sena de
Almeida, Dona Mira, integrantes do grupo de samba tradicional na comunidade
quilombola de Tocos, atravŽs da Entrevista Narrativa. Tais a�›es resultaram no
levantamento e registro das hist—rias contadas – vers›es originais de
contos populares e de sambas rurais – de forma individual e coletiva
pelos sambadores, situados no estudo como narradores tradicionais e que
revelaram um manancial poŽtico tradicional a ser reconhecido como repert—rio
das reexist�ncias negras no contexto das comunidades quilombolas do interior da
Bahia.
O mestre e as sambadeiras, atores da pesquisa
em quest‹o, foram situados a partir da concep�‹o de narradores tradicionais,
adotada durante o processo de investiga�‹o. Para tanto, essa movimenta�‹o fundamentou-se
na teoria de Walter Benjamim a respeito de quais tra�os caracterizam um
narrador tradicional. Segundo o fil—sofo alem‹o:
Assim definido, o narrador figura entre os
mestres e os s‡bios. Ele sabe dar conselhos: n‹o para alguns casos, como o
provŽrbio, mas para muitos casos, como o s‡bio. Pois pode recorrer ao acervo de
toda uma vida (uma vida que n‹o inclui apenas a pr—pria experi�ncia, mas em
grande parte experi�ncia alheia. O narrador assimila ˆ sua subst‰ncia mais
’ntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom Ž poder contar sua vida; sua
dignidade Ž cont‡-la inteira. O narrador Ž o homem que poderia deixar a luz
t�nue de sua narra�‹o consumir completamente a mecha de sua vida (BENJAMIM,
1994, p. 221).
AlŽm da defini�‹o da figura do narrador
tradicional, que popularmente conhece e possui o acervo dos saberes, buscou-se,
de antem‹o, compreender qual a funcionalidade desse indiv’duo para a sociedade.
Segundo Edil Costa (2015, p.06): ÒO papel dos narradores tradicionais Ž o de
interpreta�‹o e recria�‹o da mem—ria ancestral que herdaram e, a seu modo,
preservamÓ. Sendo assim, chegamos atŽ Mestre Satu, Dona Ant™nia e Dona Mira, um
trio de anci›es que representam a sua comunidade e resguardam saberes coletivos.
Ouvimos e aprendemos com o mestre e as sambadeiras sobre a import‰ncia da
preserva�‹o desse manancial cultural, pois que tais saberes, segundo esses
sujeitos, est‹o se tornando raros na contemporaneidade.
A perspectiva metodol—gica autobiogr‡fica
O Grupo Ra’zes do Samba de Tocos Ž liderado
pelo Mestre Satu e se constitui como grupo h‡ cerca de 16 anos, a partir dos
encontros entre vizinhos, amigos e familiares que se reuniam de forma frequente
a fim de celebrar as datas religiosas como as novenas, a festa de Reisado (o
Rei, segundo denominam) e as festas para os caboclos – manifesta�›es estas
sempre regadas com rezas, cantigas e sambas que variam em suas mœltiplas
modalidades, como o samba coco, o cantado e o pisado. O grupo Ž formado
principalmente por camponeses e camponesas que vivem na regi‹o da antiga
fazenda de Tocos, munic’pio de Ant™nio Cardoso, no interior da Bahia, a 30 km
de Feira de Santana, o qual tem como principal atividade econ™mica a produ�‹o
agr’cola, especialmente do fumo, milho e feij‹o (SESC, 2014). Para alŽm do
l’der, integram esse coletivo Roque da Viola, Afonso das Virgens, Ant™nio Luiz,
Manoel Concei�‹o, Dona Ant™nia, Dona Edilma e Dona Maria de Lourdes.
Mestre Satu, Dona Ant™nia e
Dona Mira participam desta pesquisa por integrarem especialmente uma comunidade
afro-brasileira, na qual est‡ concentrada a cultura negra ancestral de forma
muito potente atravŽs, sobretudo, da mem—ria e da oralidade. Esse aspecto
torna-se relevante ao considerarmos a concep�‹o do etn—logo e fil—sofo malin�s
Amadou HampatŽ B‰ sobre a rela�‹o da oralidade com a forma�‹o das sociedades
africanas, a saber:
Quando falamos de tradi�‹o em
rela�‹o ˆ hist—ria africana, referimo-nos ˆ tradi�‹o oral, e nenhuma tentativa
de penetrar a hist—ria e o esp’rito dos povos africanos ter‡ validade a menos
que se ap—ie nessa heran�a de conhecimentos de toda espŽcie, pacientemente
transmitidos de boca a ouvido, de mestre a disc’pulo, ao longo dos sŽculos.
Essa heran�a ainda n‹o se perdeu e reside na mem—ria da œltima gera�‹o de
grandes deposit‡rios, de quem se pode dizer s‹o a mem—ria viva da çfrica (HAMPATE Bå, 1977, p. 1).
A contribui�‹o de um dos
maiores pensadores africanos do sŽculo XX para que a oralidade fosse
reconhecida como uma fonte significativa e especialmente leg’tima de circula�‹o
de conhecimento hist—rico foi a fundamenta�‹o indispens‡vel para o
desenvolvimento desta pesquisa. Pensar na hist—ria e na cultura pertencentes aos
diversos povos africanos Ž falar de oralidade e mem—ria e, portanto, n‹o
haveria via mais simb—lica para nosso estudo do que a de adentrar em uma
comunidade quilombola afro-brasileira atravŽs das manifesta�›es de cunho oral
em toda a sua multiplicidade, a fim de acessar e fazer o levantamento dos seus
saberes presentes nas mem—rias do grupo.
Ao se referir ao saber
tradicional dos narradores enquanto um acervo resultante de toda a trajet—ria de
vida desses indiv’duos, o autor supracitado Walter Benjamim (1944) nos
apresenta um importante recurso para a gera�‹o de dados de pesquisa: os relatos
autobiogr‡ficos.
A fim de alcan�ar estes materiais, adotamos a
perspectiva metodol—gica autobiogr‡fica e nos embasamos nas concep�›es do
soci—logo Franco Ferraroti em rela�‹o ˆ autonomia do mŽtodo (auto)biogr‡fico,
com base na etnografia, e
considerando as pr‡ticas e saberes de alguns dos integrantes do grupo Ra’zes do
Samba de Tocos. Segundo aquele
que foi descrito como pai da sociologia italiana moderna: Ò(...) o nosso
sistema social encontra-se integralmente em cada um dos nossos atos, em cada um
dos nossos sonhos, del’rios, obras, comportamentos. E a hist—ria deste sistema
est‡ contida por inteiro na hist—ria da nossa vida individualÓ (FERRAROTTI,
1988, p. 26). Dessa forma, tencionamos partir da investiga�‹o das hist—rias
individuais do Mestre Satu, da Dona Ant™nia e da Dona Mira a fim de, para alŽm
dos relatos de suas viv�ncias, abranger narrativas que dialoguem com a mem—ria
de Tocos enquanto uma coletividade. Para isso, foi utilizado um dispositivo de produ�‹o e an‡lise de dados de
pesquisas, qual seja, a Entrevista Narrativa:
Idealizada por Fritz SchŸtze como um
dispositivo para compreender os contextos em que as biografias foram
constru’das, os fatores que produzem mudan�as e motivam ˆs a�›es dos portadores
da biografia, essa entrevista produz textos narrativos sobre as experi�ncias
das pessoas, expressando maneiras como os seres humanos vivem o mundo por meio
de hist—rias pessoais, sociais e coletivas. Ela tem como objetivo incentivar a
produ�‹o de uma narrativa pelo depoente (MOURA;
NACARATO, 2017, p. 17).
Este dispositivo tende, na verdade, a promover uma ruptura com o
padr‹o de entrevistas estruturadas ou semiestruturadas e oferta uma maior
flexibilidade para que o entrevistado tenha a fluidez necess‡ria para transitar
por diversos temas de seu interesse, sem que uma sequ�ncia de perguntas limite
suas narrativas. Ademais, propicia n‹o apenas o levantamento de hist—rias
pessoais como tambŽm a an‡lise do contexto no qual o indiv’duo est‡ inserido,
considerando os atravessamentos de idade, g�nero, ra�a, etnia, classe social e
momento hist—rico.
Dessa forma, a nossa entrevista narrativa ocorreu de forma coletiva
e on-line no dia 26 de maio de 2021,
atravŽs da plataforma digital Google
Meet, assim configurando as adapta�›es que j‡ estavam previstas desde o
in’cio da pesquisa devido ˆs restri�›es consequentes da pandemia de COVID-19.
De antem‹o, foi elaborado um material com algumas quest›es disparadoras apenas
para nos guiar durante a entrevista, mas o conteœdo real foi conduzido pelos
mestres e pelas mestras que, com pouco tempo de grava�‹o, j‡ se sentiam ˆ
vontade para fazer da mem—ria o seu principal orientador. Em sequ�ncia ao
trabalho de intera�‹o com os mestres da comunidade de Tocos, o movimento foi
registrar todo o material coletado, que variou desde os relatos autobiogr‡ficos
atŽ vers›es de contos populares e letras de samba.
No processo de entrevista aos mestres h‡ muitos detalhes da
performance oral e narrativa que, infelizmente, apenas a escrita n‹o Ž capaz de
captar. Os corpos desses contadores tradicionais narram significativamente, bem
como o olhar, os gestos, o riso e outros elementos contribuem para uma
compreens‹o mais ampla do que est‡ sendo narrado e cantado. Portanto, dentro de
todas as limita�›es dos textos escritos, buscamos transpor para as letras
algumas dessas manifesta�›es, decis‹o que tornou o processo de transcri�‹o um
dos mais ‡rduos de toda a pesquisa. Traremos, no corpo da an‡lise, trechos das
narrativas com o mestre e sambadeiras, a fim de potencializar o texto escrito
com a riqueza do manancial poŽtico-narrativo do grupo.
As vozes
poŽticas do Ra’zes do Samba de Tocos: ancestralidade e reexist�ncia
Nossa inten�‹o n‹o Ž a de dar voz ao grupo de sambadores e
narradores tradicionais, pois cremos que nosso percurso se concentra em
dialogar e aprender com o grupo, ponderando que a voz j‡ pertence aos narradores
e s‹o sua fonte de vida e reexist�ncias. A Entrevista Narrativa coletiva
concedida a n—s pelo Mestre Satu, pela Dona Ant™nia e pela Dona Mira foi
organizada de forma a promover a socializa�‹o de narrativas, ap—s pedirmos
licen�a para adentrar ao espa�o da ancestralidade do grupo. Nas conversas, os
sambadores nos revelaram, no primeiro momento, a sua identidade enquanto
indiv’duos; em sequ�ncia, como sujeitos imersos em um determinado grupo e, por
fim, enquanto mestres da tradi�‹o popular do Rec™ncavo Baiano. A t’tulo de
exemplo desse movimento tem-se o relato do Mestre Satu acerca da origem do seu
nome, portanto, do come�o da sua hist—ria de vida:
Saturnino
Dias Neri, meu apelido Ž Satu, Mestre Satu e meu nome Ž Saturnino Dias Neri.
Meu pai me contou um neg—cio do nascimento era que os pai pra registrar os fi
tinha que v� um livro, um almanaque de pensamento que era pra escolher o nome
dos meninos quando nascia, ai escolhia, fulano nasceu nim tal m�s ai botava o
nome, quer dizer que era um pensamento que as pessoa tinha, iai botaram meu
nome Satu, Saturnino e botaram o apelido Satu e Ž, acho que Ž bem pouco que tem
aqui no munic’pio porque o povo n‹o, hoje tudo Ž pensando como eles quer
fazer, antes dos meninos nascer j‡ t‡ com nome marcado nŽ: Òvou botar fulano de
tal, isso e aquilo outroÓ. Papai e mam‹e se reuniram e botaram Saturnino (Mestre Saturnino Neri).
Nascido
e criado no munic’pio de Ant™nio Cardoso, o Mestre Satu Ž filho de Jovina Neri de Souza e Is’dio Dias de Souza, e possui oito irm‹os, dentre os quais sete
s‹o mulheres e um homem. A mem—ria muito viva Ž um dos tra�os que nos saltaram
aos olhos durante a intera�‹o com o Mestre Satu, no auge dos seus 79 anos: cantador,
contador e rezador, ele nos narrou hist—rias completas da sua inf‰ncia e
juventude, per’odo este marcado especialmente pelo trabalho manual nas ro�as:
Era tudo devagar, mas dava pra passar, dava pra
divertir, a gente ia trabalhava mais os pais, mais as m‹es, a vaidade era
passear mais os amigo. j‡ era tudo marcado e a ida era marcada, ali a gente n‹o
podia sair pra ir pra canto nenhum, era tudo dominado, escravizado. Quando
terminava o servi�o iam pra ro�a, ia pisar milho, catar baxeiro, sentar pra
amarrar fumo, era um bocado de coisa. Iai quando terminava de tarde Ž: Òv‹o pra
ro�a fazer a rocinha de voc�sÓ, ai a gente vinha fazer a rocinha da gente,
prantava um feij‹ozinho, prantava um pezinho de fumo, n‹o tinha munturo naquele
tempo, a gente ia pros matos, pros morros pra pegar folha de Gravat‡ pra fazer
os munturo, a gente n‹o podia sair numa estrada se n‹o fosse acompanhado que
naquele tempo a pol’cia pegava, os inspeto pegava (sinal de lavar as m‹os) e
ajeitava l‡, ai ia levar pros pais chegava l‡ entregava pros pais. Mai, mai! eu
n‹o tenho tristeza por isso n‹o, gostei muito, eu prantava meu fumo, prantava
meu feij‹o, n‹o vendia, mas dava pra gente cumer, quando eu peguei a me
entender, a’ eu peguei, plantei minha ro�a, prantando minha farinha e levando
pra Anguera pra vender pra eu comprar roupa pra vestir, chapŽu sapato... (Mestre
Saturnino Neri).
A mem—ria da inf‰ncia e juventude do Mestre Satu demonstra como a
explora�‹o pode ser relativizada no meio das comunidades afro-brasileiras. Apesar
de reconhecer a grande sobrecarga de trabalho presente no seu cotidiano e no
dos seus pares, ao empregar termos como ÒescravizadosÓ e ÒdominadosÓ, o mestre
afirma que n‹o sente remorsos ou tristeza ao se recordar do passado, e que dava
para se divertir. Dessa forma, podemos refletir que, apesar de em nenhum
momento o Mestre ter abordado de forma literal as quest›es raciais, esse
discurso se revelou atravŽs da sua fala e do relato de como os seus corpos
foram estruturalmente controlados e destinados, quase que integralmente, ao
labor e ˆ subsist�ncia – enquanto o lazer, as brincadeiras e o aspecto
lœdico, que deveria predominar durante sua inf‰ncia, foram elementos distantes
da realidade desse sujeito e das outras crian�as do seu entorno.
Na vida do Mestre Satu essa problem‡tica n‹o se restringe aos
primeiros anos de sua vida, mas segue ao longo de sua trajet—ria, visto que ele
afirma, nos desdobramentos finais da entrevista, n‹o dominar a linguagem
escrita devido ˆs suas jornadas de trabalho. Essa tem‡tica surgiu enquanto
fal‡vamos da literatura de cordel, muito bem representada na comunidade por
Ant™nio Ribeiro da Concei�‹o, nacionalmente reconhecido como Mestre Bule-Bule. Outras
poss’veis literaturas poderiam ter feito parte das suas vidas e da mem—ria do
grupo, conforme Dona Mira nos revela: ÒVou dizer, eu n‹o sei l�, n‹o sei l�,
guardo tudo na minha cabe�aÓ. Essa declara�‹o ensejou o mestre a contar tambŽm
a sua experi�ncia e a forma com que a necessidade de trabalhar para sustentar
seus doze filhos o impediu de dedicar o seu tempo aos estudos, ˆ escrita e aos
livros:
Meu tempo n‹o dava pra eu l� esse neg—cio de
cordel, meu cordel era rancar toco pra criar meus fio, aqui em Cruz das Almas
pra c‡, eu rancava toco ai em S‹o Gon�alo, Santa Matibiri, Concei�‹o de Feira,
esses pau tudo, a gente sa’a daqui com uma mochila nas costas pra ir trabalhar,
rancar toco, cortar lenha pra poder criar os filhos, mas gra�as a Deus meus fi
ta criado e eu tambŽm n‹o perdi a minha disposi�‹o, a minha vontade, sou
feliz, hoje eu sou o que eu n‹o esperava, meus filho n‹o me d‡ dor de cabe�a,
todo mundo tem seu trabalhozinho pra trabalhar, todo mundo tem seu larzinho pra
colocar, tem seu motorzinho, ent‹o eu tenho alegria (Mestre Saturnino
Neri).
Ainda nesse contexto Ž poss’vel trazer para a discuss‹o os relatos
das viv�ncias da Ant™nia Lima Neri, sambadeira e companheira do Mestre Satu h‡
mais de cinco dŽcadas, alŽm de m‹e de doze filhos que, segundo ela, foram
criados com muito esfor�o e trabalho: Ò(...) tudo nesses bracinhos capinando terra,
prantando mandioca, batata, fumo, pisando milho pra fazer cuscuz, mucunz‡ pra
criar, criei. Gra�as a Deus eu t™ reagindo ainda, pareceu um sambinha a’ nois
samba nŽ, gra�as a Deus, t™ arrependida n‹oÓ. Em rela�‹o aos estudos, Dona
Ant™nia afirma que tambŽm n‹o domina as letras, entretanto, lista uma sŽrie de
outros saberes que ela possui: Ò(...) sei fazer um caruru, um
vatapazinho de S‹o Cosme, sambar, trabalhar de enxada, fazer beiju no forno,
isso a’ eu sei ne, e passearÓ.
Ademais, tambŽm conseguimos fazer o levantamento das narrativas da Valdemira Sena de Almeida, filha de Valeriana Sena e Firmino Gon�alves, viœva de Adolfo Paulino dos Santos e que se apresenta pelo apelido Dona Mira. As falas dessa sambadeira nos trouxeram resultados bastante enriquecedores, pois, ao fazer relatos de sua inf‰ncia, ela estabeleceu um panorama do modo com o qual tanto ela como seus pares foram introduzidas no samba e nas tradi�›es populares da comunidade quilombola de Tocos:
A gente ia pro samba, minha m‹e botava a gente
pra ir pra uma reza, a gente ia mais ela, chegava l‡ o pessoal botava uma
esteira no ch‹o, as m‹es falava "voc�s tem que ficar aqui comigo, atŽ
terminar a reza" a gente ficava l‡, quando terminava a reza ia cantar o
rei, ia cantar o rei a gente ficava l‡ de junto do Rei tambŽm cantando,
parmeando e tudo, a’ as amiga falava Òo samba n‹o d‡ pra gente que o povo t‡
sambando caboclo, bora cantar roda, a gente saia pra cantar rodaÓ (Dona Mira Almeida).
O munic’pio de Ant™nio Cardoso possui antigas tradi�›es populares e de refer�ncia africana que s‹o indispens‡veis para a preserva�‹o da cultura sertaneja no estado da Bahia, sendo estas, muitas vezes, pautas da nossa entrevista narrativa. De acordo com Edil Costa (2016, p. 54): ÒSendo a Bahia um forte reduto de afrodescendentes, sabemos que a contribui�‹o de povo africanos na nossa forma�‹o cultural Ž ineg‡velÓ. Assim, o mestre e as sambadeiras autoras da nossa pesquisa expuseram relatos das celebra�›es e fazeres culturais, como as rodas de Samba Rural, a festa do Reisado, as cantigas que nascem e circulam nesses meios festivos, assim como as comidas t’picas que fazem parte do saber ancestral das mulheres da comunidade e os contos populares que tambŽm comp›em o acervo da cultura oral e de cunho afrodescente.
A respeito de sua inser�‹o no universo do samba, o Mestre Satu confirma que, na comunidade de Tocos, isso ocorre de forma muito natural (assim como narrado acima pela Dona Mira), j‡ que a maior parte das crian�as se inicia na pr‡tica acompanhando os pais e, dali em diante, elas n‹o deixam mais a roda. Ademais, o Mestre ainda traz em sua coloca�‹o uma cr’tica ˆs novas gera�›es que, segundo ele, n‹o se interessam mais por aprender as tradi�›es como em seu tempo de juventude:
A dan�a a gente mesmo aprende, s— bastava o
vento tocar, marminino! O samba tambŽm, hoje que ninguŽm quer nada mais, (...)
n‹o aguentava v� um camarada tocar. Eu fazia samba aqui (...) eu fazia samba
esse mundo todo. Em Feira de Santana meu mestre foi Gon�alo Barbosa,
cumpanheiro, os dois cumpanheiros de encontro era Francisco e Jo‹o Quente, e a’
a gente ia fazendo festa nesse Brasil todo, daqui a gente cantava, eu e Jo‹o
cantava, Francisco tocava viol‹o e eu tocava o pandeiro e Jo‹o tocava o
pandeiro, naquele tempo n‹o tinha marca�‹o. O primeiro sanfoneiro que tinha
aqui era Simpl’cio e tinha o Roque Gasparino que era violeiro tambŽm, tocava
viola e esse Mudesto e o Simpl’cio era quem fazia as festas da gente e era
direto! A gente n‹o passava um s‡badu dendi casa n‹o, pouca hora ele chamava,
ou muntado ou andando. Era reza direto e samba, era samba atŽ 8 hora atŽ 9 hora
do dia (Mestre Saturnino Neri).
A festa de Reisado tratava-se do movimento mobilizador da comunidade e partia de um grupo formado, geralmente, pelos familiares, amigos e vizinhos que se organizavam com o objetivo de visitar, de surpresa, a casa um dos outros e festejar com mœsica, dan�a e bebidas – a�‹o denominada por eles de Òroubar reisÓ. Essa tradi�‹o integra o repert—rio das Festas Natalinas e Ž realizada em um per’odo que se estende do dia 24 de dezembro atŽ o dia 6 de janeiro. Dona Mira relata como era a experi�ncia da festa de Reis:
ƒ mintira
que o Rei era l‡ em sua casa, a gente marcava que era longe pra voc� n‹o ir,
(...) quando era de noite a gente fazia, pegava as coisas botava no saco: era
bolacha, a�œcar, cafŽ, bibida, xarope. [...]. Num tinha um dia, todo santo dia
a gente cantava rei na casa do povo, hoje quetou por causa dessa impidemia,
tudo caro, e a gente sambava sabe como era que a gente sambava? Era sanfona e
rapa culŽ e o prato de fronte que a gente fazia rei. Os homi com uma foice
fazendo ten ten ten terenren tocanu (som dos instrumentos) com a foice, culŽ,
enxada, tudo que viesse a gente pegava tudo, prato de pranta (...) a’ que era
um samba gostoso, a gente sambava atŽ de manh‹ (Dona Mira).
Para alŽm do relato acima, tanto o Mestre como as sambadeiras entoaram versos e cantaram as cantigas que comumente faziam parte dessa festividade, no momento da chegada e da sa’da do Reis, respectivamente, os quais alegravam a festividade:
Dona da
Casa vim lhe ver, vim lhe ver, vim lhe ver
Uma
garrafa de cacha�a/ Pra me dar pra eu beber
Oh Dona
da casa me d� licen�a
Que eu
vou sambar na varanda
Com um
chapŽu na cabe�a/ E meu fac‹o numa banda
Oh gente vamos embora
Que aqui n‹o fica ninguŽm
S— fica o dono da casa
Encostado com seu bem
S‹o Cosme e S‹o Dami‹o
Sua casa cheira
Cheira cravo e cheira rosa
Cheira a flor de laranjeira
A mœsica Ž uma linguagem art’stica universal
porque, ainda que expressa em diferentes idiomas, tem a capacidade de produzir
sensa�›es nos ouvintes: de enlevo, de medo, de suspense, de alegria, de
tristeza (...). ƒ uma forma de comunica�‹o que se utiliza de sons. Os elementos
constituintes da linguagem musical: o ritmo, a melodia, o timbre e a harmonia
s‹o utilizados para comunicar ideias, sentimentos e sensa�›es aos ouvintes
(ROCHA, 2010, p. 209).
Dessa forma, a pesquisa em quest‹o buscou
demonstrar qual o papel das letras dos sambas e da corporeidade na difus‹o e
perpetua�‹o das hist—rias, das viv�ncias e das tradi�›es do grupo Ra’zes do
Samba de Tocos. Neste caminho, interessou-nos a pesquisa de Paul Zumthor (2010) sobre a predomin‰ncia da vocalidade das
narrativas tradicionais; o autor enfatiza que foi por meio de lendas, mitos,
hist—rias, contos e reminisc�ncias que determinados povos se situaram e se
estabeleceram no/com o mundo. A partir dessa abordagem, Ž poss’vel ent‹o
acessar o patrim™nio cultural e os saberes da tradi�‹o afro-brasileira,
especialmente das suas cantigas, sendo algumas delas registradas a seguir:
O
sapato que eu usei/ No lixo eu j‡ joguei/ N‹o importo que tu use/ Daquele que
eu j‡ usei/ Meu anel de trinca trinca/ Bateu na pedra trincou/ Quem achar n‹o
jogue fora/ Quebre- se dizia amor
Oh
Deolina, oh Deolina, oh Deolina/ Qual Ž a mo�a que n‹o pode namorar? (2x) /
Mulher bonita voc� vai se casar (2x) / J‡ me casei deixei pra namorar (2x) / Oh
Deolina, oh Deolina, oh Deolina
A partir das letras dessas cantigas supracitadas, foi poss’vel compreender a relev‰ncia dessas manifesta�›es musicais para a circula�‹o e resguardo da cultura/tradi�‹o de cunho oral da comunidade de Tocos. ƒ muito comum em alguns espet‡culos de conta�‹o de hist—rias, ou atŽ mesmo em determinados contos, haver a presen�a da mœsica em meio ˆs narrativas. No caso desse grupo Žtnico em quest‹o, os sambas n‹o apenas se fundem ˆ conta�‹o, como s‹o a pr—pria conta�‹o. A t’tulo de exemplo, tem-se a primeira cantiga, que, segundo Dona Mira, nasceu como uma forma de afronta ou resposta ˆs jovens que ÒroubavamÓ os parceiros umas das outras, e atŽ mesmo o quarto samba, que apresenta uma verdade abertamente disseminada durante a entrevista em rela�‹o ao matrim™nio.
Na casa do Mestre Satu, cen‡rio no qual os mestres se encontravam no per’odo em que a entrevista narrativa se desenvolveu, e apesar das limita�›es da imagem devido ao formato adotado durante a ida a campo (on-line, via Google Meet) foi poss’vel notar a presen�a de imagens de diversos santos do Catolicismo, simbologia essa que foi confirmada pelo Mestre Satu e pela Dona Ant™nia que se declararam cat—licos praticantes. Nesse ’nterim, tornou-se bastante relevante ponderar as cren�as dos sujeitos entrevistados e perceber que o sincretismo religioso Ž presente na comunidade de Tocos.
Dona Mira n‹o se autodeclarou praticante de nenhuma religi‹o espec’fica, no entanto, ao longo de suas falas foi poss’vel constatar que a fŽ da sambadeira incorpora, em concomit‰ncia, elementos pertencentes tanto ˆs pr‡ticas cat—licas como aos rituais advindos das religi›es afro-brasileiras. A t’tulo de exemplo, h‡ o relato da anci‹ sobre uma promessa feita aos santos g�meos S‹o Cosme e S‹o Dami‹o: ÒCosme e Dami‹o Ž um menino que cura todas as feridas, se ele prometer, ele d‡. Eu fui me operar, me operei me peguei, oh eu n‹o sabia se eu tinha vida, me operei pedi a Bom Jesus da Lapa e a Santa B‡rbara que era pra eu chegar nos pŽs dele, de joelho, pra cumprir minha promessaÓ.
AlŽm da forte fŽ nos santos cat—licos, Dona Mira tambŽm demonstrou ser iniciada na Umbanda ao relatar receber Caboclo n‹o s— nas rodas de samba, mas tambŽm em atividades cotidianas e no trabalho na ro�a. Ademais, a sambadeira tambŽm narrou, com detalhes, um ritual de purifica�‹o do qual fez parte. No entanto, nessa ocasi‹o, as letras do Samba de Caboclo n‹o foram expostas, pois tanto Mestre Satu como Dona Ant™nia julgaram melhor n‹o entoar os cantos. Sobre isso, Adil Costa (2016, p. 57) chama a aten�‹o de que Ò(...) atŽ hoje, assumir a publicamente sua perten�a ao candomblŽ Ž tabu para os iniciadosÓ. Assim, ficamos atentas aos sentidos estabelecidos pelo grupo, mas sem impor a nossa vis‹o. A fus‹o de elementos pertencentes a variadas cren�as em um indiv’duo dialoga tambŽm com a concep�‹o de Edil Costa acerca da multiplicidade presente nas culturas que emergem a partir da influ�ncia de outras: Ò[...] pois quando se trata de culturas mesti�as, como Ž o caso da cultura afrodescendente, inevitavelmente se est‡ abordando produ�›es culturais fronteiri�as (Ibidem, p. 51).
No decorrer desta pesquisa, nos interess‡vamos
muito a coleta, o registro e a cataloga�‹o dos poss’veis contos populares que
nos fossem narrados; no entanto, os mestres se estenderam na conta�‹o das
hist—rias autobiogr‡ficas. O Mestre Satu afirma que seu pai n‹o lhe contava
hist—rias, pois Òa gente era mais andeiro, tinha reza a gente
sa’a pra rezar, chegava l‡ ensinava as meninas cantar roda e tal, os meninos
oiando e a gente rezando, terminava de rezar fazia uma roda de samba ia tomar
uma birinight e prontoÓ. J‡ Dona Mira enfatiza que n‹o conhece muitas
hist—rias, mas que o seu falecido marido detinha um repert—rio vasto que,
inclusive, foi transmitido a um dos seus filhos.
Entretanto,
para alŽm dos sambas que s‹o hist—rias musicalizadas, coletamos quatro contos
que, segundo a classifica�‹o do folclorista brasileiro Lu’s da C‰mara Cascudo
(1898-1986), enquadra-se como causos. Segundo a classifica�‹o do Sistema
Aarne-Thompson, que divide os contos em tr�s grandes grupos (a saber: contos de
animais, contos de fadas propriamente ditos e facŽcias e anedotas, sendo todos
esses subdivididos em demais categorias), as narrativas coletadas durante a
entrevista com os narradores populares da comunidade de Tocos s‹o classificadas
como contos com opositor sobrenatural, que est‡ englobado no segundo grupo
supracitado. A seguir h‡ o registro da transcri�‹o original:
Eu fui
numa festa na Pedra Branca e vim de l‡ pra c‡ de noite, eu Francisco e Jo‹o
Quente, cheguei l‡ em Margarida, l‡ na casa de Arlindo, ali encostado a Jo‹o de
Luca. Tinha um pŽ de caju denda baixada e a gente vinha de l‡ de Lourdes, tr�s
pra quatro horas da manh‹ que a gente n‹o amanheceu o dia, e vem dois p‡ssaro
branco de l‡ pra c‡, a’ Francisco disse ÒŽ a cavalaÓ, a’ ela gritou: Òcavala,
cavala, cavalaÓ. Oh nossa senhora, minha gente, pelo amor de Jesus que eu n‹o
t™ contando mentira. A gente disparou, ela no ar desapareceu, e eu cheguei em
casa bati na porta, bati na porta, vea j‡ tava dormindo, deu trabalho de abrir
a porta e Francisco mais Jo‹o eu n‹o sei aonde foi parar (Mestre Saturnino
Nery).
Ele some,
o lobisomem Ž uma pessoa. Minha m‹e j‡ viu e eu j‡ vi tambŽm, quando eu tava
parida desse menino a’ oh, de Paulo. A’ eu tava com a panela no fogo, e eu fui
que a casa era pequenininha, s— tinha uma, assim, uma parede e o fog‹o era
assim de junto. A’ Adolfo saiu eu fui botar um Andu no fogo e fui oiar essa
panela. Quando eu fui oiar a panela eu vi um neg—cio e fez vup, quando fez vup
eu fechei a porta, quando eu fechei a porta o lobisomem saiu de debaixo do
fog‹o, dirrubou a panela do andu, aonde eu achei mais comida pra comer? Quando
ele chegou e perguntou o que foi ele viu l‡ no ch‹o a panela no ch‹o, quebrou e
ficou sem comer, foi dormir com fome e quando Ž no outro dia de manh‹ cedo que
ele levanta vai ver o pelo do lobisomem l‡ no arame (Dona Mira).
Minha
m‹e tambŽm contava que o lobisomem dirrubou ele com um tacho de beiju na cabe�a
com o menino no bra�o. Ele veio da casa de farinha com um chalŽ vermei, que
antigamente tinha esses chalŽ, pegava o chale e jogava em cima do menino,
pegava o tacho e botava na cabe�a e sa’a e ia embora umas dez hora da noite
sozinha, a lua bonita que lobisomem gosta de lua bonita. Ela saiu e ÒOh cumadi,
eu vou pra casa que fulano de tal ta me esperando e eu t™ com os meninos em
casa, a’ ela pegou o tacho botou na cabe�a, o beiju, pegou o menino jogou no
ombro e foi se embora. Quando chegou adiante o lobisoni mutuo ela e ela pegou o
tacho do beiju e jogou na cabe�a do lobisomi e o lobisomi querendo lascar ela e
quederrei quederrei quederrei, gente! a’ saiu um homem: ÒOh fulana de tal ta
ali gritando vai ver o que ta acontecendoÓ. Quando falou vou pegar o fac‹o e a
faca de cortar fumo, oxe! ele se mandou. Quando ela chegou, que ela j‡ sabia
que era um lobisomi, quando ela chegou na casa do candidato o’a o dente com o
chale, com um peda�o da coisa do chale no dente. Ai a mulher disse assim ÒOh
cumadi ValŽria o que a senhora vem fazer uma hora dessa aqui? ÒN‹o, eu vim ver
um neg—cio que me pegou ontem di noite, fulano de tal t‡ ai? T‡, t‡ deithado.
Chama ele a’ pra eu ver, pra conversar com ele. A’ quando ele levantou ela
oiou, ela oiou e viu o dente do cara com um peda�o de chale na boca. Dest‡
camarada, eu vou te pegar no caminho ainda de novo, tu me dirrubo, mai tu j‡ ta
marcado, vai me pagar. Quando foi quatro dia ele morreu (Dona Mira).
Considera�›es
finais
A intera�‹o
com os mestres e mestras, sambadores e sambadeiras pertencentes ˆ comunidade de
Tocos permitiu percebermos que a vocalidade e a mem—ria s‹o os principais
propiciadores de circula�‹o das tradi�›es populares. Na localidade quilombola
de Tocos permanece o reconhecimento de que a tradi�‹o dos sambas, festas e
celebra�›es tradicionais esteja passando por um processo de escassez, caso
estas sejam comparadas com outras Žpocas em que eram mais cultivadas,
sobretudo, entre os mais jovens.
De tal modo,
ressaltamos a import‰ncia do levantamento e do registro feitos atravŽs da
pesquisa de recolha das cantigas e dos contos, assim como das hist—rias de vida
de tr�s anci›es atravŽs da Entrevista Narrativa. O legado poŽtico e cultural do
grupo indica uma contribui�‹o importante para as gera�›es mais jovens, que
podem aprender com os sambas, com os cantos e com as hist—rias tradicionais
reencenadas no presente.
Refer�ncias
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cultura tradicional africana, suas mœltiplas facetas, a oralidade, mitologia,
religiosidade e formas de express‹o. In: Introdu�‹o ˆ Cultura Africana. Lisboa:
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DE MOURA, J—nata Ferreira de; NACARATO, Adair Mendes.
A entrevista
narrativa: dispositivo de produ�‹o e
an‡lise de dados sobre trajet—rias de professoras. Cadernos de Pesquisa, S‹o Lu’s, v. 24, n. 1, p. 15-30, jan./abr. 2017.
FERRAROTTI,
Franco. Sobre a autonomia do mŽtodo
biogr‡fico. In: NîVOA, Ant—nio; FINGER, Matthias
(Orgs.) O mŽtodo (auto)biogr‡fico e a
forma�‹o. Lisboa: MinistŽrio da Saœde. Depart. de Recursos Humanos da
Saœde/Centro de Forma�‹o e Aperfei�oamento Profissional, 1988, p. 17-34.
ROCHA, Vivian Munhoz. Aprender pela arte a arte de narrar: educa�‹o estŽtica e art’stica
na forma�‹o de contadores de hist—rias.
2010. 343f. Tese (doutorado em Artes) – Escola de Comunica�›es e Artes da
Universidade de S‹o Paulo, S‹o Paulo, 2010.
SESC Santana Catarina - Ra’zes do Samba de Tocos (BA) circula SC no Sonora Brasil.
Dispon’vel em: https://www.sesc-sc.com.br/blog/cultura/raizes-do-samba-dehttps://www.sesc-sc.com.br/blog/cultura/raizes-do-samba-de-tocos--ba--circula-sc-no-sonora-brasiltocos--ba--circula-sc-no-sonora-brasil. Acesso em: 02 mai.
2021.
ZUMTHOR, Paul. Introdu�‹o ˆ poesia oral. Tradu�‹o Jerusa Pires Ferreira, Maria
Ines de Almeida, Maria Lucia Diniz Pochat. Belo Horizonte: UFMG, 2010.
[Recebido:16
ago 21 - Aceito: 16 set 21]
[1] Doutor em Estudos Liter‡rios
pela Universidade Federal de Londrina. Porfessor da Secretaria Estadual e tutor
EAD na Universidade Federal do Par‡.
[2] Alguns trechos deste
cap’tulos foram retirados da minha tese de doutorado Caleidosc—pio amaz™nico: a oralidade em som imagem e movimento
defendida em 2016 na Universidade Estadual de Londrina.
[3] Doutoranda
em Estudos Liter‡rios pelo Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras da Universidade
Federal do Par‡
(PPGL-UFPA), vinculada ˆ linha de pesquisa
Literatura, mem—ria e identidade. E-mail: adjaramos@gmail.com
[4] Doutora em Letras (Letras Vern‡culas) pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ). Professora permanente do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras,
BelŽm, PA. Coordenadora do Programa de Estudos Geo-BioCulturais da Amaz™nia
–Campus Flutuante, da Universidade Federal do Par‡ (UFPA). E-mail: galvao@ufpa.br
[5] Doutora em Letras –
‡rea de concentra�‹o em Estudos Liter‡rios (UFPA). Professora da Universidade
Rural da Amaz™nia (UFRA) e vice-coordenadora do projeto de pesquisa e extens‹o
PoŽticas Orais e Pensamento Decolonial (LANMO/UNAM) E-mail:
rafaellacontente@gmail.com
[6]
Doutor em Letras – ‡rea de concentra�‹o em Estudos Liter‡rios (UFPA).
Professor Adjunto I de Literaturas de
L’ngua Portuguesa (UFMA). Professor permanente do
Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras de Bacabal
(PPGLB). L’der do Grupo de Pesquisa em Literatura,
Negritude e Diversidade (GEPELIND). Vice-l’der do Grupo de Pesquisa em Literatura, enuncia�‹o e cultura (LECULT).
E-mail: rubenoliveira50@hotmail.com/
rubenil.oliveira@ufma.br
[7] ÒThe plastic surgery craze: latin american women are sculping their bodies as never before - along California lines. Is this cultural imperialism?Ó (GOLDENBERG, 2008, p. 52, tradu�‹o nossa).
[8] Neste estudo entendo a tradu�‹o n‹o como um trabalho entre l’nguas distintas ou iguais, mas como um ato interpretativo, que produz transforma�‹o, baseado em um jogo de diferen�as, isto Ž, como os narradores do IFNOPAP compreendem a figura da Matintaperera. Para tanto, pautamo-nos no pensamento do espanhol Jorge Larrosa em sua obra La Experiencia de la Lectura: estudios sobre literatura y formaci—n (1996).
[9] Neste artigo empregamos a palavra ÒvelhaÓ, pois acreditamos, assim como Zimerman (2007), que o termo n‹o carrega nada de pejorativo. Pelo contr‡rio: pejorativo Ž substituir o nome velha por eufemismo, como se a velha fosse uma irregularidade ao ser escondida. Na realidade, o que precisa ser mudado n‹o Ž a maneira de se cham‡-la, mas sim o jeito de trat‡-la.
[10] Nos estudos sobre a Matintaperera existes distintas grafias para a personagem estudada, tais como, ÒMatinta pereraÓ, ÒMatinta pereiraÓ e ÒMatintapereraÓ. Para este trabalho adotamos a escrita da palavra ÒMatintapereraÓ de Silva Junior (2014), pois acreditamos que seus objetivos de pesquisa se aproximam dos nossos.
[11] A senilidade refere-se, de acordo com Mucida (2018), ˆs patologias do envelhecimento.
[12] Doutorado
em Letras pela Pontif’cia Universidade Cat—lica do Rio de Janeiro, Brasil(2006). Professor Associado II da Universidade Federal do Par‡
, Brasil
[13] Em
outros trabalhos, j‡ se anotou os problemas envolvidos no traslado do termo MŠrchen, algumas vezes traduzidos para o
portugu�s por conto de fadas,
outras, por conto maravilhoso. Optou-se por esta œltima variante, em raz‹o da
etimologia do termo. (TRUSEN, 2012)
[14] Trad nossa de ÒIm
MŠrchen zeigt der Held, der sprechenden Tieren, Winden oder Gestirnen begegnet,
weder Verwunderung noch Angst. Dies nicht, weil ihm das sprechende Tier oder
Gestirn von Haus aus vertraut wŠre; es gehšrt durchaus nicht zu der ihm
gewohnten Umwelt, nichts deutet an, dass er von der Existenz solcher
sprechenden Tiere auch nur gehšrt hat. Aber er verwundert sich nicht, und
fŸrchtet sich nicht: das GefŸhl fŸr das Absonderliche fehlt ihm. Ihm
scheint alles zur selben Dimension zu gehšren.Ò
[15] Trad nossa de
ÒEl rechazo de lo sobrenatural se tradujo tambiŽn en la condena de su uso
literario y estŽtico. Las perspectivas ilustradas de la segunda mitad del siglo
XVIII enarbolaron los conceptos de verosimilitud y m’mesis como armas fundamentales
para la presencia de lo sobrenatural y lo maravilloso de los textos literarios.Ó
[16] Conforme nota explicativa, o
projeto procurou manter tanto quanto poss’vel os ’ndices de oralidade,
utilizando-se, quando necess‡rio, dos colchetes para indicar express›es ou
palavras que suscitaram dœvida por parte do transcritor.
[17]
Trad
nossa de : Hab’a respirado la
atmosfera creada por Henri Christophe, monarca de incre’ble empe–os, mucho m‡s
sorprendente que todos los reyes inventados por los surrealistas, muy afectos a
tiran’as imaginarias, aunque no padecidas.
A cada paso hallaba lo real maravilloso
[grifo do autor]. Pero pensaba, adem‡s. que esa presencia y vigencia de lo real
maravilloso no era privilegio œnico de Haiti, sino patrimonio de la AmŽrica
entera (...)Ó
[18] Trad.
nossa de CÕest le contraire de lÕidentitŽ, comme lÕautre est le contraire du m�me.
On pourrait en faire un principe : toute chose Žtant identique ˆ soi
(principe dÕidentitŽ) est aussi diffŽrente de toutes les autres (principe
dÕaltŽritŽ).
[19] No original, ÒLa carcajada
es un s’ntesis (provisional) entre el alma y el cuerpo, el yo y el otro.Ó(PAZ, 1969, p. 15)
[20] Trad. nossa de ÒLeerlo es
participar en el secreto. ÀEn quŽ consiste ese secreto? Este libro nos ense–a
nuestra otra cara, la oculta e inferior. Lo que digo debe entenderse
literalmente: hablo de la realidad que est‡ debajo de la cintura y que la ropa
cubre. Me refiero a nuestra cara animal, sexual: al culo y los —rganos
genitales. Ò
[21] Trad.
nossa de ÒEl
drama de toda cultura (....) es el intento de reducir lo irreductible, la
alteridad, hacia la tranquilidad ideol—gica de lo Mismo, de la Identidad. La
alteridad parece ser lo insoportable. El ÔordenÕ que toda cultura de alguna
manera sacraliza, es el intento de reducir la alteridad hacia las formas de lo
Mismo.Ó
[22]
Trad nossa de ÒCuando el limite persiste y un ‡mbito ÔotroÕ se pone en escena
sin atender a las verosimilitudes de las certezas de lo real, y sin penetrar
estas certezas y cuestionarlas, cuando el l’mite persiste deslindando el ‡mbito otro del ‡mbito de lo real,
estamos en presencia de lo maravilloso. Podr’a decir-se que en lo fant‡stico lo
otro es una irrupci—n y, en lo maravilloso, un espect‡culo. Ò
[23] Doutorando em Linguagem e
Ensino pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Mestre em Literatura e Interculturalidade pela
Universidade Estadual da Para’ba (2011). Professor efetivo do Instituto Federal de
Educa�‹o, Ci�ncia e Tecnologia da Para’ba (IFPB). Contato: prweberalves@gmail.com
[24] Doutora em Letras
pela Universidade Federal da Para’ba (2005) e P—s-doutorado na ‡rea de Letras
pela Universidade Federal de Pernambuco (2007). Atualmente, Ž professora
Associada da Universidade Federal de Campina Grande (UAEF/PPGCF/PPGLE/UFCG)..
Contato: naelzanobrega@gmail.com
[25] Utilizaremos esse
neologismo para se referir ˆ trama de Romeu e Julieta, considerando as mais
diversas obras medievais que remontam ao mesmo enredo.
[26] A preocupa�‹o em
contar a vers‹o do autor, certamente justifica a pouca modifica�‹o no enredo
por estes autores.
[27] Foi preservada a
escrita original dos cordŽis.
[28] Doutor em Estudos
lingu’sticos pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor Associado da
Universidade Federal do Par‡.
[29] Doutora em Ci�ncias Humanas pela
UniversitŽ d'Aix-Marseille I – Fran�a. Professora Titular da Universidade
Federal do Par‡. Bolsista Produtividade CNPq-PQ2.
[30] Doutoranda em Letras –
Lingu’stica do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras da Universidade Federal do
Par‡.
[31] Graduanda da Faculdade de
Letras da Universidade Federal do Par‡
[32] As
narrativas de enterro aqui analisadas t�m sido estudadas no contexto das a�›es
propostas por dois projetos de pesquisa desenvolvidos no ‰mbito da Universidade
Federal do Par‡. Um deles denomina-se Vozes da Amaz™nia, coordenado pela
Profa. Dra. Regina CŽlia Fernandes Cruz. Nesse projeto, integram-se os planos
de trabalho desenvolvidos por Thaynara Thays Ferreira Paix‹o, em n’vel de
Inicia�‹o Cient’fica (PIBIC) e a pesquisa de doutorado de Benedita do Socorro
Pinto Borges, que t�m coletado, transcrito e analisado as narrativas de enterro
em localidades do Baixo-Tocantins. O outro projeto denomina-se Estrutura
ret—rica de cr™nicas brasileiras e sua aplica�‹o no ensino, coordenado pelo
Prof. Dr. Emanuel da Silva Fontel. A produtiva interlocu�‹o entre os
pesquisadores tem permitido um debate em torno de como as narrativas de enterro
incorporam as quest›es do cotidiano, tema central nas pesquisa que envolvem o
g�nero cr™nica. Alguns trabalhos acad�micos, fundamentados, ˆ semelhan�a do
presente artigo, na interface sociolingu’stica e Estudos do Texto e do
Discurso, j‡ foram desenvolvidos com base na aproxima�‹o entre esses dois
g�neros discursivos investigados nos projetos supramencionados.
[33] N‹o ignoramos que o voc‡bulo
quilombola nesse contexto gera ambiguidades, no entanto, por economia
lingu’stica, manteremos o termo, em vez de narrativa de enterro de tesouro
em comunidade quilombola, que mais literalmente expressaria a fun�‹o desse
g�nero discursivo.
[34] Em uma das a�›es do projeto de pesquisa Estrutura
ret—rica de cr™nicas brasileiras e sua aplica�‹o no ensino (em andamento),
busca-se estabelecer um di‡logo entre as narrativas de enterro e as cr™nicas,
considerando um ponto de conting�ncia entre esses dois g�neros, que Ž ˆ
promo�‹o do debate da vida cotidiana.
[35] Entidade que guarda semelhan�a com o saci-perer�.
[36]
Doutorado
em Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Brasil (2011), Professor
Titular da Universidade Federal da Para’ba , Brasil.
[37] Professor de Ensino
Fundamental II e MŽdio – Artes. Licenciatura em Artes Visuais - Centro
Universit‡rio êtalo Brasileiro
[38] Doutorando no Programa
de P—s-gradua�‹o em Geografia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa,
Mestre em Gest‹o do Territ—rio pelo PPGEO-UEPG, Especialista em Hist—ria, Arte
e Cultura pelo PPGH-UEPG, Graduado (Bacharel e Licenciatura) em Artes Pl‡sticas
pela UFU, Integrante dos grupos de pesquisa CNPQ: Geografia e Hist—ria: mem—ria
social e patrim™nio cultural UEPG, Grupo de
Pr‡ticas de Pesquisas Qualitativas em Geografia UEPG e do Nœcleo de
Pesquisa em Pintura e Ensino UFU, Atua como professor de Artes pela Secretaria
de Estado da Educa�‹o do Paran‡, Artista Visual, suas pesquisas abarcam os
seguintes temas: Arte - Educa�‹o, Paisagem, Bens Culturais, Antropologia Visual
e Folias de Reis.
[39] Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2007),
Mestre em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina (1997),
Especialista em Geografia Humana pela Unicentro (1991), licenciado em Geografia
pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984) e Bacharel em Administra�‹o
de Empresas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (1984). Professor
Associado da Universidade Estadual de Ponta Grossa: Programa de P—s-gradua�‹o
em Geografia e Departamento de Geoci�ncias. çreas de atua�‹o: Geografia Social
e Cultural, Geografia Hist—rica (mem—ria social, patrim™nio cultural, hist—ria
da cidade, planejamento urbano e turismo). L’der do Grupo de Pesquisa
(CNPq/UEPG): Geografia e Hist—ria: Patrim™nio Cultural e Mem—ria Social.
Presidente da Associa�‹o de Preserva�‹o do Patrim™nio Cultural e Natural (APPAC).
Membro do Conselho Municipal do Patrim™nio Cultural de Ponta Grossa (COMPAC)
– UEPG.
[40] O munic’pio de Carmo do Rio Claro situa-se na mesorregi‹o
Sul/Sudoeste do estado de Minas Gerais, a 363 quil™metros da capital Belo
Horizonte e possui popula�‹o estimada pelo IBGE (2018) entorno de 21.180
habitantes.
[41] Entrevista concedida ao autor em 23/01/2019 com os membros
das equipes pastorais do Conselho pastoral paroquial Sagrada Fam’lia e do
Conselho pastoral paroquial Nossa Senhora do Carmo.
[42] Artigo escrito inicialmente como relat—rio de
inicia�‹o cient’fica entre 2017-2018, com bolsa CNPq.
[43] Aluno de doutorado em Letras pela Universidade
Estadual de Londrina (UEL) desde 2021. E-mail para contato:
kaedmon.sellberg@hotmail.com.
[44] Not’cia dispon’vel em:
Òhttps://guia.folha.uol.com.br/teatro/2017/04/mario-bortolotto-dirige-texto-do-dramaturgo-americano-sam-shepard.shtmlÓ,
publicada em 7 de Abril de 2017.
[45] Dispon’vel em:
<https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,poeta-narra-encontro-com-william-burroughs,1125360>
publicado
[46] Ò [...] percebemos que o
importante hoje Ž o ventre, isto Ž, o emocional, as emo�›es, e n‹o o racional.
ƒ por esta raz‹o que a palavra ÒhistŽrico" – n‹o numa acep�‹o
pejorativa – mostra a import‰ncia do œtero, isto Ž, do ventre. Em grego, hysterus Ž o ventre.Ó Dispon’vel em: <
https://www.fronteiras.com/entrevistas/michel-maffesoli-nao-e-mais-o-futuro-que-importa-e-sim-o-presente>
publicado em
[47] Doutorado em Mem—ria pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Brasil(2016). Professora Adjunta A - Dedica�‹o Exclusiva da Universidade Estadual de Feira de Santana.
[48] Acad�mica do Curso de Licenciatura em Letras
com L’ngua Portuguesa, ofertado pela Universidade Estadual de Feira de Santana.
Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em PoŽticas Orais na UEFS, com
participa�‹o no Projeto de Pesquisa Cacimba de Hist—rias:vidas e saberes dos
contadores de hist—rias tradicionais de cidades do interior da Bahia. Comp›e a
atual gest‹o do Diret—rio Acad�mico de Letras JosŽ Jer™nimo de Moraes como
diretora de viagens e eventos.