
A poesia oral de um
s‡bio da floresta: fragmentos e di‡logos
The oral poetry of a forest sage: fragments
and dialogues
Fernanda Cougo Mendon�a[3]
https://orcid.org/0000-0002-8302-8302
Resumo: No presente artigo
pretende-se trazer ˆ tona fragmentos da poesia oral, daimista, amaz™nica de
Luiz Mendes, um s‡bio anci‹o da/na Amaz™nia acreana. Objetiva-se ainda realizar
uma breve an‡lise cultural em di‡logo Žtico com tal repert—rio (pelo menos com
as breves notas que se procura fazer ecoar), entendido aqui como repert—rio de
resist�ncia. O documento oral constitui o cerne da pesquisa realizada e da
escrita aqui apresentada; e Ž em di‡logo com ele (e, consequentemente, com o
narrador e sua cultura) bem como com diversos autores, que se torna poss’vel
apreciar quest›es que dizem respeito ˆs caracter’sticas, rela�›es e embates
de/entre linguagens e culturas; oralidades e escrituras; tradi�›es e tradu�›es;
mem—rias e narrativas; corpo, voz, letra, performance.... Enfrenta-se o desafio
de (no interior e a partir de um estudo acad�mico) escutar, transcrever, ler,
analisar e tecer representa�›es escritas de notas de uma obra viva de poesia
oral amaz™nica ayahuasqueira, sem incorrer no erro de folcloriz‡-la.
Palavras-Chave: Poesia oral; Amaz™nia;
Ayahuasca/Daime; Performance; Luiz Mendes.
Abstract: This article intends to bring to
light fragments of oral poetry, daimista, amazonian by Luiz Mendes, a wise old man from/in
the Acre Amazon. It also aims to
carry out a brief cultural analysis in ethical dialogue with such a repertoire
(at least with the brief
notes that they try to echo),
understood here as a repertoire of resistance.
The oral document constitutes
the core of the research carried
out and the writing presented here; and it is
in dialogue with him (and, consequently, with the narrator
and his culture)
as well as with different authors, that it becomes possible to appreciate
questions that concern the characteristics,
relationships and clashes of/between
languages and
cultures; orality and scriptures; traditions and translations; memories and narratives; body, voice, letter, performance....
The challenge is faced (inside and
from an academic
study) to listen, transcribe, read, analyze and
weave written representations of notes from a living work of Ayahuasqueira Amazonian oral poetry , without making the mistake
of folklorizing it.
Keywords:
Oral poetry; Amazon;
Ayahuasca/Daime; Performance; Luiz Mendes
Considera�›es iniciais
A ci�ncia
pode classificar e nomear os —rg‹os de um
sabi‡
mas n‹o
pode medir seus encantos.
A ci�ncia
n‹o pode calcular quantos cavalos de for�a
Existem
Nos
encantos de um sabi‡.
Quem
acumula muita informa�‹o perde o cond‹o de
Adivinhar:
divinare.
Os sabi‡s
divinam. (BARROS, 1996, p.53)
Em
campo senti os encantos do sabi‡ (ou ser‡ que escutei os cantos do rouxinol?).
Para mim bastaria a experi�ncia que me proporcionaram. N‹o sou cientista. Quero
antes ser sabi‡ e Òseguir cantando o cantar do rouxinolÓ[4].
Aqui, porŽm, o desafio de verdejar.
Cabe
destacar que o presente artigo constitui um breve recorte da minha disserta�‹o
de mestrado tecida em di‡logo com Luiz Mendes do Nascimento - um s‡bio orador,
narrador, poeta da/na Amaz™nia acreana. Disserta�‹o publicada em coautoria com
o anci‹o (MENDON‚A; NASCIMENTO, 2019) e revisitada neste artigo a partir dos
estudos realizados na disciplina Oralidade,
Tradi�‹o Oral e Literatura Oral do Programa de P—s-Gradua�‹o em Letras: Linguagem
e Identidade, da Universidade Federal do Acre[5].
Imposs’vel
ser‡ trazer ˆ tona todos os sentidos que o conto de Luiz Mendes aqui transcrito
despertou ou desperta. S‹o muitos e est‹o abertos ˆs refuncionaliza�›es de
acordo com cada situa�‹o e com a experi�ncia que proporcionam a cada ouvinte
(ou leitor). Como afirma Zumthor:
Liberada,
portanto, aos caprichos do tempo, a obra poŽtica oral oscila na indetermina�‹o
de um sentido que ela n‹o cessa de desfazer e recriar. O texto oral pede uma
interpreta�‹o tambŽm movente. A energia que o sustŽm e comp›e suas formas, a
cada performance, recupera a experi�ncia vivida e a integra a seu material.
(ZUMTHOR, 2010, p.292)
AlŽm
disso, Ž preciso destacar que a voz do narrador ressoa no interior da doutrina
do Daime. A organiza�‹o da vida de Luiz Mendes e comunidade se d‡ a partir do
uso do referido ch‡ - tambŽm conhecido como Ayahuasca (ALBUQUERQUE, 2011) - no
contexto ritual implantado por Raimundo Irineu Serra. Seus cantos e narrativas
versam sobre experi�ncias cujo eixo central Ž o Daime, um professor vegetal, e
os estados de consci�ncia por ele proporcionados. Tais estados propiciam tanto
ao orador quanto aos ouvintes percep�›es mais aprofundadas ou ampliadas da
experi�ncia vivida e/ou narrada-cantada.
Ao
procurar realizar a aprecia�‹o cultural de um fragmento da poesia/literatura
oral de Luiz Mendes, que Ž ela mesma representa�‹o em uma linguagem humana,
secular, de viv�ncias profundamente interiores com o sagrado, de suas mira�›es[6],
muito se esvai. Assim como no caso do registro de mem—rias cotidianas, n‹o Ž
poss’vel conservar na plenitude o que se foi. Portanto, minhas interpreta�›es
nada mais s‹o do que gotas. Gotas do oceano de infinitas possibilidades e
insond‡veis profundezas que Ž o Daime (ou a Ayahuasca com seus muitos nomes e
usos); ou melhor, gotas da poesia oral daimista de Luiz Mendes. Importa
ressaltar ainda que a cultura moderna ocidental,
orgulha-se
de ser cient’fica; nossa Žpoca Ž apontada como a Era Cient’fica. Ela Ž dominada
pelo pensamento racional, e o conhecimento cient’fico Ž frequentemente
considerado a œnica espŽcie aceit‡vel de conhecimento. N‹o se reconhece
geralmente que possa existir um conhecimento (ou consci�ncia) intuitivo, que Ž
t‹o v‡lido e seguro quanto o outro. Essa atitude, conhecida como cientificismo,
Ž muito difundida, e impregna nosso sistema educacional e todas as outras
institui�›es sociais e pol’ticas (CAPRA, 2012, p.38)
Assim,
dentro dos limites que a escrita de um artigo acad�mico me imp›e, enfrento o
desafio de escapar ˆ Òmiopia intelectual, instrumento de um saber que se
predisp›e ˆ recusa do outroÓ (ZUMTHOR, 2010, p.42); escapar ao pensamento
abissal, ˆ monocultura do saber (ALBUQUERQUE, 2011) fundamentados na ilus‹o do
cientificismo. De lidar com a experi�ncia proporcionada pela poŽtica de Luiz
Mendes. O desafio de libertar meus sentidos do opressor que reside em mim
(FREIRE, 2014); me libertar de paredes aprisionadoras, e verdejar como ‡rvores,
pois: Òpoesia n‹o Ž para compreender, mas para incorporar. Entender Ž parede:
procure ser ‡rvoreÓ (BARROS, 1990, p.212).
Importa
destacar que, ancorada na metodologia da Hist—ria Oral (PORTELLI, 1997), assumi
com Luiz Mendes e sua comunidade um compromisso Žtico e procurei, tanto em
campo quanto em minha aprecia�‹o escrita, escutar o narrador. E estabelecer com
ele, em todas as etapas do processo, um efetivo di‡logo. Observo que o ato de
transcri�‹o Ž um ato de escolha (tŽcnica, cognitiva e pol’tica) e, portanto, o
in’cio da interpreta�‹o e a continua�‹o da elabora�‹o de um texto multivocal. E
Ž tambŽm uma arte, porque as escolhas s‹o subjetivas, intuitivas; est‹o ligadas
ˆ percep�‹o estŽtica, ao gosto. Assim, como transcritora das performances de
Luiz Mendes e coautora do documento oral, procurei formas na escrita (na formata�‹o
do texto, pontua�‹o, ortografia...) ’ndices de oralidade, que possibilitassem
deixar ressoar os ecos da mem—ria e da voz vivas. Mantenho a fidelidade ˆs
palavras de Luiz e vou procurando solu�›es para essa transposi�‹o/tradu�‹o do
oral para o escrito (BENJAMIN, 1998). Tradu�‹o entendida aqui como Òtradu�‹o da
pr—pria l’nguaÓ (LAROSSA, 2004, p.63); experi�ncia relacionada ˆ media�‹o, ao
transporte, ˆ interpreta�‹o de culturas, de contextos, de sentidos no interior
de uma mesma l’ngua.
Cabe
ressaltar, ainda, que percebo as mem—rias narradas de Luiz Mendes como artes
verbais; poŽticas da voz; poesia/literatura oral daimista e amaz™nica. Suas
narrativas n‹o se enquadram em g�neros liter‡rios can™nicos euro e
etnoc�ntricos, excludentes e exclusivistas. Embora gravadas em entrevistas e
conversas cotidianas n‹o as escuto/leio como simples relatos, porque chegam aos
meus sentidos como narrativas providas de arte, de poesia e por isso decidi
cham‡-las de contos. Mesmo que versem sobre suas experi�ncias de vida,
experi�ncias cotidianas e ext‡ticas e, portanto, n‹o possam ser tomadas como
fic�‹o, elas tambŽm n‹o trazem o real vivido porque est‹o inseridas na
linguagem. E dentro dos referenciais aqui adotados a linguagem Ž, em si mesma
ficcional e subjetiva. Terreno de lutas.[7]
A
linguagem Ž uma produ�‹o humana, portanto, subjetiva. Assim tambŽm Ž a mem—ria
pois quem lembra, lembra sempre a partir de determinado presente. O ato de
narrar as mem—rias Ž subjetivo; de acordo com Portelli as narrativas s‹o
estimuladas e de certa forma adaptadas ˆ presen�a do gravador e do pesquisador;
dependem das inten�›es deste e do narrador; do di‡logo que se d‡ entre ambos e
do contexto em que se d‡ a ÒentrevistaÓ. Di‡logo e subjetividade que se
estendem aos atos de transcri�‹o e an‡lise (PORTELLI, 2010). Bakhtin (2009) e
Zumthor (2010) tambŽm assinalam que a inten�‹o discursiva e a fun�‹o exercida
por uma narrativa s‹o indissoci‡veis da rela�‹o dial—gica estabelecida entre
narrador, mensagem, ouvintes e circunst‰ncias; assim, Òum observador n‹o tem
posi�‹o fora do mundo observado, e sua observa�‹o integra como componente o
objeto observadoÓ (BAKHTIN, 2011, p.332). Nesse sentido, posso afirmar que
aquilo que se estabelece entre a pesquisadora, o narrador, sua mensagem e voz,
os referenciais te—rico-metodol—gicos e a escrita Ž um di‡logo; uma rela�‹o
din‰mica, lembrando que, nas palavras do poeta ÒPara que haja rela�‹o Ž preciso
que haja duas ou v‡rias identidades ou entidades donas de si e que aceitem
transformar-se ou permutar com o outroÓ (GLISSANT, 2005, p.45). Dentro dessa
perspectiva, lido com mœltiplas subjetividades e claro est‡ que n‹o existe a
possibilidade (nem a inten�‹o) de oferecer uma descri�‹o ou an‡lise objetiva
acerca dos textos e contextos de Luiz Mendes. O que te�o s‹o minhas representa�›es.
Fragmentos e di‡logos da/com a poesia oral de Luiz Mendes
Considerando
que um di‡logo exige altern‰ncia de falantes, exige escutar o que o outro tem a
dizer (BAKHTIN,
2011; PORTELLI 1997), na pr—xima parte do artigo condido Luiz Mendes ao di‡logo
para que possamos, de certa forma, escut‡-lo a partir da leitura. Lembrando,
com Zumthor (2014, p.57), que Òa leitura Ž a apreens‹o de uma performance
ausente-presenteÓ;
A leitura se
desenrola sobre o pano de fundo do barulho de voz que a impregna. Para o homem
[/mulher] do fim do sŽculo XX, a leitura responde a uma necessidade, tanto de
ouvir quanto de conhecer. O corpo a’ se recolhe. ƒ uma voz que ele escuta e ele
reencontra uma sensibilidade que dois ou tr�s sŽculos de escrita tinham
anestesiado, sem destruir. (ZUMTHOR, 2014, p. 60).
Depois de
escutarmos o narrador, a’ sim, ser‡ minha vez de retomar o di‡logo colocando a
minha pr—pria voz (ainda que escrita); compartilhando as
representa�›es/leituras que fa�o. Antes de narrar o conto[8]
transcrito a seguir, Luiz Mendes estava conversando sobre o destino de cada um
que, de acordo com ele, Òj‡ vem tra�adoÓ. Dizia o anci‹o que Ž preciso que cada
um esteja disposto a percorrer o seu ÒcaminhoÓ, porque Òtem os altos, mas
tambŽm tem os baixosÓ e Òda onde a gente menos espera, da’ Ž que vemÓ. Falava
sobre fortes trabalhos de Daime que teve a oportunidade de participar ainda com
Mestre Irineu vivo... fez ent‹o uma pausa e come�ou a contar...
Persegui�›es: gavi›es-urubus e a equipe de pronto-socorro
Luiz Mendes: Eu te digo, ™, Fernandinha, atŽ d‡ pra se pensar que n‹o. Mas Ž
verdade. Eu fui muito perseguido. Muito perseguido. [Pausa] Hoje t‡ mais um
tanto, aliviado, nŽ. AtŽ eu chegar, a essa posi�‹o. Assim mesmo ainda pelejo
muito. Quando dou fŽ tem besteira por acol‡, mas... Eu j‡ fui muito perseguido
assim, tanto... Ž... na coisa em si, materializada, no dia-a-dia, e acho que muito mais, espiritual, nŽ. ƒ
uma guerra. ƒ aquela hist—ria: ÒEu t™ no meio. Num
vou, mas voc� tambŽm num vai.Ó ƒ. E eu rompendo! Rompendo essas, essas
barreiras, todas, ne. J‡ fizeram muita coisa comigo, assim, que [pausa].
Fernanda: Como assim? Conta a’ alguma.
Luiz Mendes: He, he, he, he. ƒ tanto que, quando o compadre Chico. Compadre Chico
Ribeiro, voc� conhece o hin‡rio dele. Pelo menos um... nŽ?
Fernanda: Sim.
Luiz Mendes: A’ ele diz que ÒPor causa da inveja, Ž que eu sou perseguidoÓ. E a’
eu, a gente Ž do, contempor‰neo, coitadinho, era um, um, um homem muito doente.
Desprez’vel [desprezado] atŽ, deixado da fam’lia e pa,
pa, pa, pa. A’ julgo... A’
eu, quando eu ouvi esse hino [pausa]. Eu digo: mas ser‡ que isso tem, alguma
proced�ncia? ... Porque eu olho pra criatura, o que Ž que se vai, o que Ž que a
gente vai invejar, duma criatura dessa? ... E persegui... Num sei n‹o. Sei quem
Ž que tem inveja dele n‹o. Porque eu procuro, nem acho. Espiritual! Pelo
segmento. NŽ, da pessoa, ele era muito perseguido, mesmo. E a’, tambŽm eu tive
que provar, na pele. Assim a inveja. Muitas, muita inveja. E a’, armadilhas!
De, de, de, de todas as formas, nŽ. S— que eu num, num, num. O meu mestre Ž t‹o
bom, que num deixava eu, eu cair em nenhuma! Antes de... [pausa]
Um dia eu vou num
caminho, eu n‹o sei se mirando ou sonhando.[9]
Que o mestre dizia que quando a gente passasse a tomar Daime, o sonho era a
mesma coisa que a mira�‹o. E Ž. E Ž. Ës vezes voc� deixa de mirar, vai sonhar.
AtŽ uma passagem assim, pesada, no sonho a gente tem mais condi�›es de, de,
de... nŽ. Talvez mirando v‡ atŽ.... Dar trabalho! H‡, h‡, h‡, h‡. A’ Ž
revogado, voc� faz em sonho. A’ ele disse que Ž a mesma coisa e Ž mesmo.
Eu sei que eu entrei
num caminho, e l‡ vai eu, l‡ vai eu, l‡ vai eu, l‡ vai eu... A’ quando eu
cheguei l‡aaa numa dist‰aaancia...
A’ eu ia cansado. Eu me olhava... suado ... e a roupa assim meia suja... Assim
c-c-c-co-como gente da mata. Eu sei que eu ia cansado
a’ tinha um pau assim na beira do caminho. A’ eu digo: ÒVou j‡ me sentar aqui e
descansar um tanto, nŽ.Ó A’ quando eu me sentei, que me acomodei, a’ escutei um
converseiro. A’ l‡ vem um converseiro.
Eu digo: ÒL‡ vem gente! E Ž muita gente, porque pelas conversas, nŽ.Ó Eu digo,
Òvou ver se eles passam aqui e n‹o me veem. Tomara que eles passem aqui e n‹o
me vejam.Ó Ora, eles j‡ vinham era atr‡s de mim. Quando se depararam, disse:
_ Ah! T‡ aqui ele!!
A’ eu me espantei
assim, a’, l‡ vem aquele grupo. Olha, o que faziam comigo! ... Eu acho que um
bocado fizeram com Jesus. Porque me escarravam... Me cuspiam... Me davam
tapa... Isso, cada um passando e tirando um sarro, nŽ.[10]
Eu sei que a’ eu fiquei ali dentro de uma condi�‹o, todo escarrado... todo
cuspido, chega, eu olhava assim, chega, a baba assim... Digo: ÒSim senhor! Que
canalhas...Ó Eles passaram e foram-se embora. Eu digo: ÒGra�as a Deus, passou!Ó
A’... Quando eu bem
num pensei, l‡ vem de novo! O mesmo converseiro
voltando! De l‡ pra c‡, nŽ. O mesmo grupo. A’ j‡ vinham feito assim um, um, um,
uns gavi‹o.[11]
Com aquelas garras! Assim:
_ Ah! Mas ele inda
t‡ aqui!!?
A’ j‡ era diferente.
Cada um passava e levava um mœsculo. Outro passava e me levava... eu sei que
terminaram me, me, me descarnando todinho, nŽ... Cada um levava um, um peda�o,
nŽ... A’ que eu bem num pensei, que eu olhei assim! S— tava
a caveira. Eu digo: ÒValha-me! Nossa Senhora... E agora?Ó A’ j‡ fiquei foi com
medo de me mover, porque uma caveira, eu digo, me movendo aqui, a’ espeda�a
tudo, e a’, caba tudo!
A’ foi justamente o
que aconteceu. Quando eu bem num pensei, aquilo despencou! A’ aquela caveira se
desfez.[12]
[Pausa] Eu via o f�mur, as costelas... O cr‰nio... Tudo! Espeda�ou tudo! A’
digo [rindo]: Òagora sim... mas me aprontaram mesmo, nŽÓ. A’, fiquei ali,
naquele meio... A’ quando eu, escutei uma voz dizer assim:
_ Eu quero o homem
refeito!
Quando disse assim
ÒEu quero o homem refeitoÓ a’ la vem umas enfer, vem chegando umas enfermeiras, uns mŽdicos! ... Um
pessoal da equipe, de saœde! Tudo com, com, Ž, Ž, aqueles aprontamentos
pr—prios, de hospital, nŽ. Com uma malotinha dum
lado. E a’... Estenderam uma mesa assim, a’ come�aram, a juntar! E, aquilo
demorou, mas, acho que Ž no trabalho que demora, que aquilo Ž logo! A’ foram
juntando, juntando, juntando, juntando, junta por junta, quando eu bem num
pensei a’, eu olhei, a’ j‡ vi a caveirinha. Toda montada, nŽ. Eu digo ÒMas, e
agora?Ó. A’, justamente, a’, come�a, come�aram trazer aqueles mœsculos, —, os
—rg‹os! Isso saiu tudo nŽ. Aqueles —rg‹os assim chegando. O certo Ž que a’,
quando foi l‡ prumas tantas, que que me procurei, tambŽm fui saindo daquela,
fui me encontrando tava inteirinho! He, he, he, he,
Fernanda: [Rindo] Que bom nŽ?! Mas assim, a’ o senhor, na Žpoca nŽ... Isso tinha
alguma correspond�ncia com alguma coisa que tava
acontecendo? ... O senhor fez alguma liga�‹o assim?
Luiz Mendes: ƒ. Sempre Ž. Sempre Ž, nŽ. AtŽ pra gente tomar conhecimento. Com um
bocado. Aquele, esse pessoal, que eu, eu... eu conheci tudinho! Eu sabia
tudinho quem era! E eu num tava nem indo l‡ fora n‹o!
Tudo de dentro, da, da irmandade. ƒ um tro�o! Eu nem entendo, como Ž que Ž
isso. [Pausa] Uns invejosos... Mas a’, gra�as a Deus, a gente sempre vai
vencendo!
(Comunidade Fortaleza, Capixaba/Acre.
17/03/2015)
Breve aprecia�‹o cultural
Em
suas artes verbais, como intŽrprete e tradutor de mundos, seu Luiz Ž tambŽm um contador de hist—rias; assim como o s‹o os
pajŽs e vegetalistas amaz™nicos; os s‡bios africanos; os intŽrpretes medievais.
(MACRAE, 1992; HAMPËTæ Bç, 2003; ZUMTHOR, 1993). Dentre os contos apreciados na
disserta�‹o/livro Ž poss’vel identificar aqueles onde Luiz versa sobre suas
mem—rias cotidianas, mas tambŽm aqueles onde conta hist—rias de suas
experi�ncias com o Daime. Em ambos os casos s‹o mem—rias de experi�ncias
vividas e ancoradas em seu corpo e divulgadas/reatualizadas por suas palavras,
por sua voz. Como observamos no conto aqui transcrito n‹o ocorre, porŽm, uma
separa�‹o abrupta, sendo que mem—rias/viv�ncias/ hist—rias cotidianas e
ext‡ticas intercambiam. A poesia oral de Luiz Mendes se aproxima do que Langdon
(2002, p.70) chama de Òtradi�‹o poŽtica e performativaÓ entre os ’ndios Siona se referindo ˆs suas narrativas sobre experi�ncias
com o yagŽ
(Ayahuasca). A pesquisadora descreve que, em sua pesquisa/conviv�ncia entre
tais ind’genas, passou Òdias e dias ouvindo relatos de seus xam‹s m’ticos e
hist—ricos, de suas experi�ncias pessoais com o yagŽ, dos voos xam‰nicos pelo
outro lado da realidade, dos sonhos e de seus encontros amea�adores frente ao
mundo invis’velÓ (LANGDON, 2005, p.17). Assim tambŽm eu com Luiz.
Nessa
arte de contar hist—rias a respeito de realidades n‹o ordin‡rias destaquei, no
presente artigo, o conto ÒPersegui�›es: os gavi›es-urubus e a equipe de
pronto-socorroÓ. Relembrando e contando um pouco de sua trajet—ria e marcando o
lugar de onde fala hoje (mestre conselheiro do Centro EclŽtico Flor do L—tus
Iluminado - CEFLI[13],
padrinho Luiz da Fortaleza, querido por sua grande fam’lia espiritual) seu Luiz chega, ao longo de nossa
conversa, em um tema grave: persegui�›es. O narrador afirma que j‡ foi muito
perseguido e, atŽ hoje, quando Òda fŽÓ Òtem besteira por acol‡Ó. De acordo com
sua explica�‹o, s‹o invejas que impulsionam guerras, estabelecem barreiras,
tanto no plano material quanto no espiritual posto que eles n‹o est‹o, em sua
vis‹o de mundo, desconectados. Persegui�›es ocasionadas pelo que entendo ser
aquela incapacidade de abrir-se ao outro; a ‰nsia de marcar territ—rios,
estabelecer fronteiras e hierarquias - tal como destacadas por Glissant (2005)
em sua PoŽtica da Diversidade. Seu
Luiz afirma que, em sua trajet—ria foi rompendo essas barreiras.... Mas
recorda: ÒJ‡ fizeram muita coisa
comigo, assim, que [pausa]. Ó
No breve momento de sil�ncio que se fez, o
narrador me pareceu absorto em suas lembran�as. Seu olhar se tornou distante
dos ouvintes/interlocutores. A pausa na conversa�‹o foi interrompida por uma
pergunta que fiz no intuito de provocar, ou trazer ˆ tona suas mem—rias.
Sorrindo e, a exemplo do narrador benjaminiano, contextualizando a hist—ria que
iria contar, Luiz remonta ao hino e ˆ vida de seu contempor‰neo Francisco
Ribeiro ÒPor causa da inveja, Ž que eu sou perseguidoÓ. Diz o narrador: ÒA’ eu, quando eu ouvi
esse hino [pausa]. Eu digo: mas ser‡ que isso tem, alguma proced�ncia? ... Num
sei n‹o. Sei quem Ž que tem inveja dele n‹o. Porque eu procuro, nem achoÓ.
E ent‹o afirma que, para acreditar nas palavras de seu companheiro teve
que provar Òna peleÓ as persegui�›es e armadilhas dos invejosos. Mas afirma
ainda que seu bom Mestre nunca lhe deixou cair em nenhuma. E nesse ponto come�a
a hist—ria dos urubus. E que hist—ria! Talvez de mira�‹o, talvez de sonho, n‹o
se recorda mais, atŽ porque para ele n‹o importa muito pois Òo Mestre dizia que
quando a gente passasse a tomar Daime, o sonho era a mesma coisa que a
mira�‹oÓ.
Chama aten�‹o a forma�‹o de imagens suscitada,
a plasticidade da narrativa. Minha impress‹o como ouvinte foi a de estar
assistindo a um filme com um roteiro fant‡stico que, performatizado
por Luiz Mendes, com as modula�›es r’tmicas e tonais de sua voz, onomatopeias,
olhares, express›es corporais/faciais, reflex›es, risos e lamentos, prendeu
minha aten�‹o do in’cio ao fim e me deixou com a sensa�‹o de Òquero maisÓ. Impressiona
a capacidade de mem—ria do narrador; a descri�‹o de detalhes das cenas vividas,
sentidas Òna peleÓ, mesmo que em sonho ou mira�‹o. Dos di‡logos travados, das
impress›es/sensa�›es experimentadas; dos personagens, atos, figurinos,
cen‡rios... Enfim, me parece que estou diante do que Hampˆt� considera uma
mem—ria fotogr‡fica-auditiva; e n‹o se trata aqui apenas de recordar, Òmas de
trazer ao presente um evento passado do qual todos participam, o narrador e a
sua audi�nciaÓ (HAMPËTæ Bç, 2010, p.208).
Destaco tambŽm a linguagem simb—lica,
metaf—rica do sonho/mira�‹o que permite ao narrador, em um estado de
consci�ncia n‹o ordin‡rio, perceber a realidade cotidiana por outros ‰ngulos. Seu Luiz est‡ ciente que aquelas imagens
e personagens s‹o s’mbolos que ele deve/pode traduzir para melhor apreender os
sentidos da experi�ncia. Dentro dessas met‡foras, noto que tempos e espa�os s‹o
relativizados. Se trata de uma experi�ncia m’stica que n‹o pode ser, e n‹o Ž,
desvinculada de quem a vive e de seu dia-a-dia. E, parafraseando Benjamin
(1994, p.210) Ž justamente dentro dessa urdidura que une os fios dourados do
sobrenatural aos fios coloridos do cotidiano que seu Luiz vive, compreende e narra seus sonhos/mira�›es.
Alguns exemplos ilustrativos de imagens suscitadas;
de s’mbolos e correspond�ncias: o caminho pelo qual ele andava na floresta; os
urubus ou gavi›es que representavam pessoas da irmandade... os invejosos; o
corpo dilacerado, com discrimina�‹o dos —rg‹os e ossos e com uma cabe�a, que
mesmo dele apartada, olhava, pensava e escutava; a equipe de saœde que, a mando
de uma voz superior, veio lhe atender com vestimentas e instrumentos
caracter’sticos de uma medicina ÒconvencionalÓ, entre outras. Imagens que podem
se desdobrar em mœltiplas interpreta�›es. S‹o imagens, situa�›es, tempos
e espa�os percebidos/vividos por Luiz Mendes, em um Òestado ampliado de
percep�‹o conscienteÓ (CAPRA, 2012, p.37) e que ele traduz em palavras, gestos,
tons; em uma poesia (literatura) oral; em um texto
para ser falado/ouvido/presenciado. Um texto que nasceu de uma experi�ncia
viva, gravada no corpo-mem—ria do narrador, traduzida como performance para os
ouvintes e retraduzido para a escrita pela pesquisadora.... Com certeza
muito se perde.... Mas tambŽm muito se ganha, posto que, n‹o fossem as
tradu�›es em diferentes linguagens a experi�ncia morreria com quem a viveu.
Luiz Mendes, ao contar suas hist—rias/mem—rias parece vivenci‡-las outra vez. A performance me faz, de certa
forma, sentir junto com o narrador aquelas emo�›es vividas/lembradas/ contadas
– as af‡veis e as desagrad‡veis. A impress‹o que a narrativa causa Ž t‹o
cativante que, mesmo ouvindo-a inœmeras vezes durante o processo de transcri�‹o
ela n‹o se torna enfadonha. Posso apreender novos ‰ngulos, novos sentidos. Pela
refuncionaliza�‹o da mensagem poŽtica oral (ZUMTHOR, 2005, p.86-88) pela
liberdade de interpreta�‹o que a narrativa permite (BENJAMIN, 1994, p.203) a
experi�ncia do narrador se torna a experi�ncia dos ouvintes. E quem sabe assim
tambŽm possa ocorrer, em diferentes graus, com os leitores. Cabe
destacar, contudo, a import‰ncia do Ògrupo ao qual o texto se dirige. Fora
desse grupo, o sentido esvai-se: texto Ž texto para aqueles que o esperam e, de
certo modo, dele t�m necessidadeÓ (ZUMTHOR, 1993, p.226).
Luiz
Mendes, anci‹o daimista, ao narrar suas hist—rias vividas, cotidianas ou
ext‡ticas, exerce a fun�‹o social que lhe Ž pr—pria: a de lembrar; de atuar
como homem-mem—ria; aquele conhece, lembra, narra e mantŽm viva a mem—ria da
comunidade em que est‡ inserido (HAMPËTæ Bç, 2003; 2010). Ao recordar e narrar
a partir do presente as experi�ncias passadas, ele atribui sentidos e as faz
significativas para si e para os que o escutam. Estou diante do Òmovimento
peculiar ˆ mem—ria do velho que tende a adquirir, na hora da transmiss‹o aos
mais jovens, a forma de ensino, de conselho, de sabedoria, t‹o bem esclarecida
na interpreta�‹o que Walter Benjamin fez da arte narrativaÓ (BOSI, 1994,
p.481). E no caso dos contos de Luiz Mendes essa arte de narrar se amplia fazendo
parte do que Langdon (2002) chama de Òtradi�‹o narrativa da AyahuascaÓ. Ou
ainda do que Pizarro (2015) entende por Òliteratura amaz™nicaÓ: literatura
produzida na ÒAmaz™niaÓ que, de
acordo com a pesquisadora, pode ser exemplificada pelas narrativas orais
constitu’das a partir da Ayahuasca (com seus muitos nomes e usos), onde a vida
Ž perpassada por diferentes formas de percep�‹o e ocorre uma transposi�‹o de
linguagem. Uma linguagem narrativa que incorpora outras formas de mundo, ou
outros mundos, outras cosmologias. Pizarro a diferencia de uma literatura
escrita fora da ÒAmaz™niaÓ e que versa sobre
ela. No caso, literatura de tema amaz™nico, produzida a partir de um olhar
externo que, na maioria dos casos, folcloriza as Amaz™nias, suas culturas e
habitantes.
De
acordo com Zumthor, o termo folclore Ž empregado por uma Òelite liter‡riaÓ
consolidada a partir da modernidade ocidental para qualificar o seu Outro.
Elite culturalmente etnoc�ntrica que funda a ÒliteraturaÓ como institui�‹o
totalit‡ria onde prevalece a hegemonia da escrita e dos modelos socioculturais
do dominador europeu (governantes, burgueses, colonizadores...). Cria-se e
difunde-se um discurso totalit‡rio que veicula uma vis‹o de mundo que serve aos
interesses dominantes. Discurso que tra�a estratifica�›es e oposi�›es bin‡rias
tais como ÒeruditoÓ x ÒpopularÓ, ÒliteraturaÓ x Òo restoÓ (ZUMTHOR, 1993; 2005;
2010). Corpos e vozes foram, e continuam sendo, ativamente marginalizados;
tidos como algo ÒdistanteÓ (no tempo e no espa�o); ÒatrasadoÓ, ÒpopularÓ. Seus
saberes e pr‡ticas culturais tomados como objetos de adorno da Òcultura
nacionalÓ. Alegorias que n‹o exercem mais nenhuma fun�‹o social. S‹o, enfim, folclorizados.
Por
isso Zumthor (2005; 2014) descarta a express‹o literatura oral para assumir o
termo poesia oral. Compartilho de suas proposi�›es. Mesmo que nesse artigo a
express‹o literatura seja algumas vezes utilizada, ela n‹o deve ser lida como
adjetivo, em oposi�‹o aos Òc‰nones liter‡riosÓ. Deve ser apreendida como
mœltiplos textos que fazem parte de culturas vivas; que trazem ˆ tona vozes
aviltadas, silenciadas; Òperformances e
literaturas insurgentes que v�m abalando o predom’nio norte ocidental com seus
sistemas de avalia�›es e classifica�›esÓ (ANTONACCI, 2014, p.333). Enfim, ao
invŽs de ser lida a partir das lentes etnoc�ntricas, essencialistas e
dicot™micas da modernidade norte ocidental (Òalto ou baixoÓ Òpopular ou
eruditoÓ, Òescritura ou oralidadeÓ, Òcentro ou periferiaÓ, Òmem—ria ou
hist—riaÓ, etc.) a poesia oral amaz™nica-daimista que procuro fazer ecoar neste
artigo, ainda que em notas, passa a ser lida como Òrepert—rio de resist�nciaÓ
(HALL, 2003, p.229).
Considera�›es finais
Mergulho
em notas/fragmentos da voz poŽtica e arte das palavras praticada pelo orador do
Mestre Irineu. E me deparo com rela�›es entre (e quest›es sobre) linguagens e
culturas; oralidades e escrituras; corpo, voz, performance, mem—ria.... Importa
lembrar que os cantos e contos de Luiz Mendes est‹o diretamente relacionados
com suas experi�ncias e mem—rias vivas, din‰micas, que t�m como œnico suporte o
seu corpo. Corpo que realiza suas performances. E cada performance Ž uma Òobra
de arte œnica, na opera�‹o da vozÓ (ZUMTHOR, 1993, p.240). Uma obra viva que s—
existe naquele aqui/agora, na presen�a de intŽrprete e interlocutores, onde Òo
som vocalizado vai de interior a interior e liga, sem outra media�‹o, duas
exist�nciasÓ (ZUMTHOR, 2010, p.13). Obra viva que n‹o pode ser desvinculada de
seu contexto (no caso, a doutrina do Daime, mais especificamente a irmandade do
CEFLI) e da fun�‹o que ali exerce. Obra que abrange, alŽm de palavras, risos,
gestos, sons, express›es, tons, ritmos, texturas e etc. Nela tudo acrescenta
significado ao texto, Òtudo Ž linguagemÓ (ZUMTHOR, 1993, p.229).
Em poŽticas e pol’ticas orais o corpo
fala, n‹o s— porque a voz emana do corpo, que emite sons, ritmos, sinais,
pulsa�›es, mas porque a mem—ria oral faz do corpo seu suporte. Torna-se
poss’vel dizer que o corpo se constitui em texto, por onde transitam
experi�ncias e narrativas encarnadas, com pr‡ticas corporais mentalizadas e
imersas na subjetividade e hist—ria de corpos comunit‡rios. (ANTONACCI, 2014,
p.62)
Ciente
da impossibilidade de trazer aqui a totalidade/vivacidade da performance, e
ouvindo o alerta do poeta ao assinalar que Òpoesia n‹o Ž para entenderÓ
(BARROS, 1990, p.212) n‹o pretendi explicar a narrativa contemplada.
AtŽ porque Òo texto poŽtico oral, na medida em que engaja um corpo pela voz que
o leva, rejeita, mais que o texto escrito, qualquer an‡lise. Essa o dissociaria
de sua fun�‹o social e do lugar que ela lhe confere na comunidade realÓ
(ZUMTHOR, 2010, p.40). Assim, procurei traduzir para a escrita os sentidos que
o conto em mim despertou. Traduzir minhas impress›es como ouvinte/transcritora
diante das experi�ncias vividas/mem—rias encarnadas de Luiz Mendes, por ele
narradas. Lembrando que a tradu�‹o Ž Òinerente ˆ express‹o e ˆ compreens‹o
humana, a qualquer forma de intersubjetividade, e existe tradu�‹o de uma l’ngua
ˆ outra, mas tambŽm de um momento a outro da mesma l’ngua, de um grupo de
falantes a outro e, no limite, de qualquer texto (oral ou escrito) a seu
receptorÓ (LARROSA, 2004, p.72). Lembrando tambŽm que a performance, aberta ˆs
refuncionaliza�›es de acordo com os ouvintes e as circunst‰ncias em que Ž simultaneamente
pronunciada e percebida exige uma interpreta�‹o n™made (ZUMTHOR, 2010). Quanto
mais a poesia oral ayahuasqueira ou, especificamente aqui, a poesia oral
daimista de Luiz Mendes, um s‡bio da floresta que faz soar os cantos do
rouxinol; os encantos do sabi‡...
Importa
destacar que, ciente dos embates culturais, pol’ticos presentes na linguagem,
as no�›es de oralidade/escritura, popular/erudito, mem—ria/hist—ria,
sagrado/profano, saber/ci�ncia s‹o compreendidas aqui como constru�›es sociais (em
disputa). Assim, no processo da pesquisa e escrita procurei me distanciar de
binarismos opostos, hierarquizantes e excludentes, da busca por origens,
identidades ou culturas puras; de modelos homogeneizantes e etnoc�ntricos de
pertencimento cultural; de discursos forjados pela l—gica da modernidade
colonizadora e euroc�ntrica que somente se coloca em rela�‹o ao Outro para
exclu’-lo ou subordin‡-lo. Nesse processo, procurei me aproximar das pessoas e
de suas identidades fluidas e intercambi‡veis, suas pr‡ticas culturais e
linguagens que sutilmente subvertem padr›es hegem™nicos e que podem contribuir
para ampliar as paisagens poŽticas, para descolonizar os imagin‡rios. Me
aproximo, pois, de oralidades e pr‡ticas culturais amaz™nicas, literaturas
insurgentes, repert—rios de resist�ncia. Mais especificamente me aproximo de, e
procuro dialogar com, Luiz Mendes; suas linguagens e identidade, textos e
contextos, mem—rias e narrativas, saberes e fazeres; voz, performances e
poŽticas. E, em contato/di‡logo com esse anci‹o conhecido como o orador do
Mestre Irineu me proponho, ent‹o, a revistar uma dimens‹o da sua literatura e
cultura daimista amaz™nica.
E
procurando me manter em sintonia com os versos do poeta nas miudezas trazidos
na abertura deste artigo; procurando verdejar em minhas pesquisas e escritas
acad�micas, mantendo os ouvidos abertos, concluo atenta ao alerta de Hampˆt�:
A condi�‹o mais importante de todas,
porŽm, Ž saber renunciar ao h‡bito de julgar tudo segundo critŽrios pessoais.
Para descobrir um novo mundo, Ž preciso saber esquecer seu pr—prio mundo, do
contr‡rio o pesquisador estar‡ simplesmente transportando seu mundo consigo ao
invŽs de manter-se Òˆ escutaÓ. (HAMPËTæ Bç 2010, p. 212).
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[3] Doutoranda e Mestra pelo
Programa de Pr—-Gradua�‹o em Letras: Linguagem e Identidade, da Universidade
Federal do Acre (PPGLI-UFAC). Pesquisadora vinculada ao Grupo de Pesquisa
Hist—ria e Cultura, Linguagem, Identidade e Mem—ria. Projeto de Pesquisa: Patrim™nios
culturais nas Amaz™nias e Pan-Amaz™nia: artes do fazer e do dizer. Artista,
brincante e
educadora respons‡vel pela Companhia Casmerim: A�‹o Cultural para o Bem Viver. Curr’culo
lattes: http://lattes.cnpq.br/4220829879117592. Contato: cougo.fer@gmail.com
[4] Refer�ncia ao hino n¼ 1 do ÒNovo HorizonteÓ de Luiz
Mendes. MENDON‚A; NASCIMENTO, 2019, p.61.
[5] Ministrada em 2021 pelos professores
Dr. Agenor Sarraf Pacheco e Dra. Claudia Vanessa Bergaminie.
[6] Termo nativo para
se referir aos estados de �xtase proporcionados, em alguns casos, durante os
rituais daimistas.
[7] Cf. ANTONACCI, 2014. BAKHTIN, 2011. HALL, 2003. PORTELLI, 2010.
ZUMTHOR, 2010.
[8] O conto aqui
compartilhado foi gravado e transcrito durante a pesquisa realizada e faz parte
do livro ÒT’tuloÓ (AUTOR, 2019). Fundamentada na metodologia da Hist—ria Oral,
tal como proposta por Portelli (2010), evitando uma hierarquiza�‹o de saberes
(onde comumente prevalece a voz/letra do pesquisador sobre a do narrador) e
considerando que conteœdo e forma n‹o est‹o dissociados, no texto escrito opto
por manter as falas transcritas de Luiz Mendes sem recuo e com o mesmo tamanho
da fonte do texto geral. Vale lembrar que o referido livro foi publicado em
coautoria com Luiz Mendes pois suas narrativas constituem o cerne da pesquisa.
Contudo para que o leitor possa visualizar com mais clareza a altern‰ncia de
falantes no di‡logo que proponho no texto, coloco as narrativas colhidas em
campo em it‡lico. Conforme j‡ mencionado na introdu�‹o, s‹o escolhas (tŽcnicas,
cognitivas e pol’ticas) presentes no ato da transcri�‹o, na constitui�‹o do
documento oral.
[9] Em outra conversa (gravada em 30/07/2014) Luiz disse que havia tomado Daime e entrado numa mira�‹o. E contou essa mesma hist—ria, com algumas varia�›es.
[10] Na outra grava�‹o desse
conto, h‡ alguns
acrŽscimos dessa parte, quando ele diz:
ÒNo m’nimo, tinha deles que tirava a roupa e dava um peido mesmo na, na minha
venta. ƒ ÔpœmÕ! Outros passavam escarravam, me cuspiam, chega eu via aquele
babeiro descendo. Outros, outros passavam e, e, e me davam aqueles belisc‹o
danado e, passando aquilo ali, eu aguentando aquilo ali tudo, nŽ?Ó (Luiz Mendes, 30/07/2014).
[11] Na outra grava�‹o j‡
referida, ao invŽs de gavi›es ele diz ÒUrubusÓ.
[12] TambŽm na outra grava�‹o nessa hora ele diz: Òaquela ossada se discambembou.Ó Faz uma onomatopeia e gestos de ossada ÒdiscambembandoÓ.
[13] Centro daimista
fundado por Luiz Mendes; sede localizada na comunidade Fortaleza, zona rural de
Capixaba/Acre.