UMA CONVERSA COM E SOBRE
SALETE MARIA DA SILVA
A CONVERSATION WITH AND
ABOUT SALETE MARIA DA SILVA
Salete Maria da Silva (Colaboradora)
Andrea Bet‰nia (Pesquisadora)
Bruna Lucena (Pesquisadora)
Salete Maria da Silva Ž, antes de qualquer
caracteriza�‹o, uma mulher com alma e pŽs de sert‹o, que aprendeu a fazer
cordel com uma de suas av—s, e, n‹o por acaso, a vida de n—s mulheres percorre
toda sua obra, seja a cordel’stica – com forte teor feminista e
revolucion‡rio –, seja a acad�mica, como professora do Bacharelado em
Estudos de G�nero e Diversidade na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Em
seus quase 30 anos dedicados ˆ cria�‹o de cordŽis feministas e libert‡rios,
publicou mais de uma centena de folhetos, muitos dos quais podem ser lidos em
seu blog Cordelirando. ƒ membra-fundadora da
Sociedade dos Cordelistas Mauditos ‒ importante coletivo de poetas,
cantadores e performers fundado no
ano 2000, em Juazeiro do Norte/CE.
Esta entrevista Ž uma grande conversa da qual
participam quatro pessoas: a pr—pria Salete Maria, AndrŽa Bet‰nia, Bruna Lucena
e JosŽ Gomes, sendo a primeira a entrevistada; as duas seguintes, as
entrevistadoras; e o œltimo, o respons‡vel pela transcri�‹o literal. Adotamos a
conversa como mŽtodo de realiza�‹o desta entrevista por acreditarmos ser Ò[...]
uma convoca�‹o de saberes diferentes de modo n‹o hier‡rquicoÓ, em que Ò[...] o
conhecimento est‡ sempre no plural, conhecimento(s)Ó, como defendem Maria Luiza
SŸssekind e Raphael Pellegrini
Conversamos no dia 6 de outubro de 2020, em uma
videochamada repleta de hist—rias de vidas, de artes de ontens
e de agoras ancestrais, sobre sua presen�a
inquietante no cen‡rio cordel’stico. Diante da impossibilidade de estabelecer
uma conversa linear com Salete ‒ o que entendemos como um ponto positivo
‒ tendo em vista a exposi�‹o de um pensamento que nos lembra um
palimpsesto, os assuntos abordados foram surgindo motivados n‹o apenas por
nossa curiosidade como entrevistadora, mas, sobretudo, pelos motes com os quais
a entrevistada nos presenteava ˆ medida que tentava refazer sua trajet—ria
tanto pessoal quanto poŽtica, seguindo uma rota que se deixava guiar por seu
modo inquieto e inquietante de estar no mundo.
Ao
optarmos por empregar, no t’tulo dessa entrevista, ÒcomÓ e ÒsobreÓ, sem nos
decidirmos por apenas um, trata-se menos de vontade de escolha e decis‹o, e
mais, muito mais, de vontade de dar conta do que Ž a intimidade de dividir
palavras, escutas atentas, conhecimentos, bem como de dar a ver essa importante
cordelista de nosso aqui e agora.
Bruna
Lucena (BL)
‒ N—s estamos aqui com Salete Maria da Silva, cordelista, ativista,
professora e outras coisas sobre as quais falaremos adiante.
AndrŽa
Bet‰nia (AB)
– Boa tarde, Salete. Agradecemos mais uma vez sua disponibilidade e
generosidade ao se dispor para essa conversa. Sabemos que voc� est‡ muito
ocupada com a vida nesses tempos, mas vamos l‡. Salete, vamos come�ar falando
sobre sua trajet—ria?
Salete Maria (SM) – N‹o estava no
meu horizonte ir para a universidade porque na minha fam’lia n‹o existia essa
tradi�‹o, como de resto todos os meus contempor‰neos, os meus colegas l‡ da
comunidade onde eu vivia. S— que, no Ensino MŽdio, fui fisgada por uma
milit‰ncia Marxista, por meio do Partido Comunista do Brasil, do Partido dos
Trabalhadores. Naquela Žpoca existia uma espŽcie de recrutamento da juventude,
pra que nos organiz‡ssemos. E eu era muito ativa, gostava de ficar recitando
coisas nos eventos da escola. Nessa ocasi‹o, embora ainda n‹o entendesse nada
de Marxismo, de Socialismo, de nada, eu tinha uma revolta relacionada ˆ quest‹o
de classe. Eu nasci em S‹o Paulo, numa favela onde hoje est‡ funcionando o
est‡dio de futebol que pertence ao Corinthians e, ali, na Zona Leste, eu morava
na rua chamada Estado do Cear‡ porque todas aquelas ruas eram ocupadas, naquela
favela, por nordestinos, cearenses em sua maioria. E meus pais foram para l‡,
como tantos outros no final de 1950 e na dŽcada de 1960, em busca do Eldorado,
porque se buscava uma vida melhor. Ambos agricultores, meu pai nascido numa
cidade chamada Vargem Alegre, no Cear‡, e minha m‹e, na menor cidade do Cear‡,
que se chama Granjeiro, especificamente na zona rural desse mun’cipio, que
ainda hoje Ž o menor do Cear‡. Meu pai, embora agricultor, foi para S‹o Paulo
trabalhar na constru�‹o civil. Minha primeira irm‹ nasceu no Cear‡. Depois eu
nasci em S‹o Paulo, depois eles voltaram para o Cear‡. Ao todo, somos seis
filhos: um em cada lugar. Ent‹o, meu pai, como oper‡rio, trabalhou na
constru�‹o civil. Grande parte daqueles prŽdios que tem na Avenida Paulista tem
o suor do meu pai.
Ent‹o, eu tinha uma coisa
assim de questionar as desigualdades sociais e Ž essa turma de esquerda do Ensino MŽdio que
vai me despertar. E, uma vez, minha m‹e, quando ela era faxineira do Pal‡cio do
Governo, foi acusada de roubar um material de limpeza, uma coisa assim. Isso me
marcou muito. E embora nesse tempo eu j‡ fosse muito apaixonada pela
literatura, porque meu melhor professor de todos os tempos foi um homem, um professor
chamado Sebasti‹o, professor de letras: Literatura, L’ngua Portuguesa e
Literatura l‡ na Escola JosŽ Lins do R�go, em S‹o Paulo. Era 5» sŽrie e depois
ele foi meu professor na 7» tambŽm, e esse professor me emprestava muitos
livros e eu participava de concursos de poesias, s— que a escola n‹o oferecia
possibilidade de falar da Literatura de Cordel. E meus pais tinham cordel em
casa e eu levava, esse professor era muito receptivo, mas nunca inseria no
programa, nŽ? Enfim. O fato Ž que eu queria fazer Letras, eu me inspirava
naquele professor que dava oportunidade, que estimulava a leitura, enfim. A’ a
hist—ria era assim: n‹o era exatamente pensando Òeu vou pra faculdade fazer
LetrasÓ; era pensando assim: Òeu quero ser uma escritora, eu quero ler mais, eu
quero escrever maisÓ. Mas n‹o era tipo: Òeu vou pra faculdadeÓ, nŽ?
Depois, quando terminei o Ensino MŽdio, eu j‡
fiz todo o Ensino MŽdio, grande parte dele, no estado do Cear‡. Ent‹o, eu j‡
estava militando no Partido Comunista e meu companheiro ‒ que Ž o pai da
minha filha, nŽ? ‒, meu companheiro da Žpoca, ele era trotskista e atuava
numa ala do PT chamada Converg�ncia Socialista e ele disse: ÒEu vou fazer
faculdade, vou fazer Hist—riaÓ. A’ ele se inscreveu e eu fiquei na dœvida. Eu
queria me inscrever em Letras, s— que eu ainda tinha muita m‡goa, muita revolta
pelo que aconteceu com minha m‹e. Eu falei assim: ÒAh, ent‹o acho que eu vou
fazer Direito porque eu quero atuar na ‡rea do Direito do TrabalhoÓ. Ent‹o, eu
fiz vestibular, nŽ? Eu era muito autodidata e eu lia muito, e eu era a œnica
mulher que atuava no Partido Comunista. Ent‹o, assim, eu passei na faculdade de
Direito, apaixonada pelo Direto do Trabalho, mas quando chegou l‡ eu me
encantei pelo Direito Constitucional, mas, paralelamente a isso, eu seguia
lendo e escrevendo muito, muita Literatura de Cordel sem publicar.
A’, em 94, quando eu pari minha primeira e œnica
filha, eu pari tambŽm um cordel. Ela nasceu em mar�o e eu pari o cordel e
publiquei. Eu tava desempregada, ent‹o, eu escrevi,
nŽ? Houve uma morte l‡ no bairro e eu escrevi aquele cordel que Ž de 94, a
primeira edi�‹o: Mulher Consci�ncia ‒ nem viol�ncia, nem opress‹o.
Ent‹o, eu mesma paguei. Tinha uma gr‡fica l‡ em Juazeiro do Norte, onde
publiquei quase a maioria dos meus cordŽis. Depois eu fui publicar na gr‡fica
Lira Nordestina, que Ž uma gr‡fica assim... ela, hoje acho que est‡ vinculada ˆ
Universidade Regional do Cariri, ainda est‡! Mas eu publicava em uma gr‡fica de
fundo de quintal, ela nem tinha CNPJ, era de Seu C’cero, e a gr‡fica L’deres.
Depois ele regularizou, muitos anos depois. Ent‹o, eu publiquei esse cordel e
como eu era militante, eu discutia com as mulheres, conversava com elas e esse cordel
era sempre muito lembrado para dialogar sobre essas viol�ncias. N‹o eram os
documentos que eu aprendia na faculdade, n‹o eram as regras, n‹o eram os textos
acad�micos porque as minhas interlocutoras n‹o eram acad�micas. Ent‹o, esse
cordel foi a minha entrada no mundo da Literatura. Assim, minha entrada oficial, nŽ? J‡ que eu era uma leitora e
uma escritora, mas n‹o publicava.
S— que Ž —bvio que eu digo que a influ�ncia Ž da
milit‰ncia, ela foi importante pra mim, mas [pausa] antes mesmo de eu estar na
escola, eu tinha essa paix‹o pela Literatura de Cordel por causa da minha av—.
Eu falo muito sobre isso em outras entrevistas e eu dei uma entrevista pra Caros
Amigos uma vez e eles deram a visibilidade que a minha av— merecia naquela
entrevista porque come�am falando dela e o impacto dela na minha vida. Ela era
uma performer, eu n‹o tinha essa no�‹o, mas a minha av— era miudinha. Eu
tenho um metro e cinquenta e dois [1,52m]; minha av— era muito menor do que eu
e se agigantava diante de mim assim. N‹o s— porque eu era uma crian�a e ela era
uma adulta, mas porque eu via assim uma poetriz,
digamos assim, uma mulher que era fascinante. Ent‹o, ela n‹o sabia ler, nŽ?
Durante um per’odo da vida ela enxergava, mas depois ela ficou cega e ela era
apaixonada pela Literatura de Cordel. Todo mundo na minha fam’lia era, mas minha
v— era a que tinha mais for�a, nŽ? A que nos unia em torno dessa literatura. E
a’ ela vivia na zona rural l‡ de Granjeiro, num lugar chamado Canabrava,
Canabrava dos Greg—rios, e essa mulher que amava a Literatura de Cordel exerceu
em mim essa influ�ncia.
Ent‹o, assim, eu conto isso num cordel chamado Feminismo
em Cordel: como foi que come�ou? e l‡ eu conto um pouco dessa coisa de eu
gostar muito de todos os cordŽis. L‡ tinha um baœ, cheio de cordŽis, embora
fosse numa casa que somente uma pessoa lia, que era minha tia Senhora, que Ž
viva atŽ hoje. Era a œnica pessoa que lia, lia muito pouco, mas era ela a
pessoa respons‡vel por ler o cordel, os cordŽis ali [r‡pida pausa] e meu av™,
quando ele ia pra cidade, fazendo compra – feira do m�s. Eu brinco, acho
que no cordel Cordelirando [r‡pida pausa
novamente] eu conto isso e tambŽm nesse outro Feminismo e Cordel, eu
lembro que meu av™, as vezes que eu ia pra l‡, porque voc�s deveriam pensar:
ÒMas como assim, voc� tava em S‹o Paulo e no Cear‡ ao
mesmo tempo?Ó. A minha, a nossa vida era uma vida de idas e vindas. Meus pais
foram l‡ por conta do �xodo rural, tiveram uma filha, voltaram pro Cear‡: todas
as vezes que tinha uma crise econ™mica, que ficavam desempregados, que as
coisas apertavam porque o aluguel era caro e eles moravam, apesar de n‹o
morarem numa casa, mas era um barraco alugado; e quando tambŽm a viol�ncia
come�ava a espreit‡-los, corriam de volta para o Cear‡. E l‡ eles tinham as
casas dos parentes pra ficar, tinha ro�a, n‹o faltava aonde eles serem
acolhidos. Ent‹o, assim, havia fŽrias em que eu estava na casa dos meus av—s e
havia per’odos em que eu morava na casa deles.
Ent‹o, assim, meu av™ ia pra ro�a, pra feira e
ele levava um saco que era a bolsa que ele transportava a feira, a’ ele
trazia... eu costumava brincar que ele trazia os quatro ÒefesÓ: era o feij‹o, a
farinha, o fumo e ÒfoietoÓ porque minha av— nunca
chamou o cordel de Cordel, ela chamava Òos foietoÓ,
nŽ? Ent‹o, ela tinha os cl‡ssicos: A hist—ria de Jo‹o Grilo, O
soldado jogador, ela tinha l‡ A hist—ria do Valente Jo‹o Garcia, ZŽ
Garcia ‒ n‹o lembro agora. Ela tinha tudo, tudo, tudo, tudo. E meu av™,
ele tava se alfabetizando, ent‹o, ele ficava na ro�a
o dia inteiro, quando chegava tomava banho, jantava e depois sentava um pouco
l‡ no terreiro, conversava com as pessoas. Mas, depois ele voltava e sentava
num tamborete e acendia uma lamparina e come�ava: ‒ÒUm B com A, BA; um B
com E, BEÓ; tudo cantado. Eu ficava impressionada, nŽ? De ver aquele homem...
Meu av™ tinha uma apar�ncia muito bonita, ele era um homem negro, baixinho,
cambota; e ele tinha essa coisa de querer estudar, ent‹o, ele tinha a tabuada e
tinha a carta de ABC. E ent‹o eu ficava observando aquele homem aprendendo a
ler.
E minha av—, n‹o! Nunca aprendeu a ler, mas ela
era quem articulava o... vamos chamar de sarau, que na Žpoca ninguŽm usava
esses termos, nŽ? A’ l‡ tinha um alpendre, na casa dela, ent‹o, sentavam-se as
pessoas nas cadeiras, as crian�as sempre no ch‹o junto com os cachorros; mas os
adultos tinham cadeiras [risos] e tinha a muretinha
do alpendre onde vizinhos, compadres, conhecidos chegavam, conversavam sobre
v‡rios assuntos, mas sempre tinha o recital. E a’ minha tia Senhora, ela Ž que
lia essas hist—rias, e minha av— ficava a corrigindo porque minha av— tinha de
cor; todos os folhetos minha av— tinha decorado. E quando eu aprendi a ler de
verdade, minha m‹e contava que eu j‡ tava lendo
cordel e num sei o qu�, e minha av— dizia: ÒPois sente aqui na cadeira que eu
quero ver se voc� sabe ler mesmoÓ.
Ent‹o, minha av— era uma espŽcie de professora,
mesmo sem saber ler, sem decodificar palavras, letras etc. Eu lia os cordŽis
pra ela e ela me corrigia porque tinha a cad�ncia, nŽ? Tinha toda uma coisa de
voc� performatizar e eu ficava lendo ali como quem l�
qualquer coisa, e minha av— corrigia: ÒN‹o Ž bem assim...Ó; e claro, uma
crian�a ˆs vezes num sabe ler direito e minha av— ia me dizendo como era a
palavra e tal. A chegada do Lampi‹o no Inferno foi o primeiro cordel que
eu lembro de ter lido; lido eu mesma – n‹o ouvido, ouvi outros. A’, eu
dizia: ÒUm cabra de Lampi‹oÓ, a’ ela dizia: ÒPor nome Pil‹o DeitadoÓ; e voltava
pra mim: ÒQue morreu numa trincheira / Num certo tempo passado / Agora pelo
Sert‹o anda causando vis‹o / Fazendo mal-assombradoÓ. A’, ela dizia: ÒPare a’,
n‹o Ž bem assimÓ. A’, ela voltava e dizia: ÒUm cabra de Lampi‹o / Por nome
Pil‹o Deitado / Que morreu numa trincheira / Num certo tempo passadoÓ[82]. Ent‹o, ela imprimia
musicalidade, ela tinha uma coisa assim. E ela se levantava – se ela
tivesse sentada – e ela agitava os bra�os, aquela coisa, nŽ?
Ent‹o, assim, eu fui percebendo que n‹o era s—
uma escrita, era uma coisa de mœsica! Era uma articula�‹o entre mœsica,
oralidade, escrita etc. etc. Mas nada de teoria, n‹o tinha acesso ˆs teorias e
atŽ hoje n‹o tenho muito conhecimento sobre Teoria Liter‡ria ou Oralidade ou
Cordel ou Tradi�‹o. Conhe�o voc�s duas e tantas outras pesquisadoras que
conhecem bem, que t�m dom’nio sobre essas quest›es, mas ali com ela, era uma
escola de teatro, digamos assim, nŽ? Ent‹o era uma coisa... E eu percebia o
seguinte: minha av— tambŽm criava. Eu entrevistei minha av— algumas vezes,
quando eu j‡ estava adulta e minha av— j‡ estava bem velhinha. E eu entrevistei
naqueles gravadores antigos e parte dessas fitas cassetes eu cedi pra pesquisadora Fanka
e depois ela cedeu pra Ria e essas coisas desapareceram porque primeiro
eram mal condicionadas, o calor destru’a, nŽ? Enfim, mas l‡ no Juazeiro do
Norte deve ter ainda alguma coisa.
Ent‹o, minha av— quando recitava para mim nas
entrevistas ou mesmo nas conversas comuns, eu n‹o sabia quando era uma coisa
era dela ou era de algum autor cl‡ssico porque como a minha av— n‹o estava
preocupada em dar crŽditos e fazer refer�ncias, tinha vez que ela mesclava as
coisas do imagin‡rio dela, da lembran�a dela, do cotidiano dela, ent‹o, quando
estava varrendo o terreiro – ela estava recitando alguma coisa ‒,
eu dizia: ÒDe quem Ž esse Cordel, v—? De quem Ž esse folheto, v—?Ó. Essa
hist—ria, nŽ? A’, ela dizia: ÒNum sei, n‹o. S— sei que eu aprendi, nŽ? Esse a’
eu n‹o sei de quem Ž n‹oÓ. A’ em outro peda�o ela dizia: ÒEsse aqui Ž meu. Foi
eu que inventei isso aquiÓ. Ent‹o, talvez por ela escutar tanto, tantos
folhetos e por ela tambŽm pensar sobre criar, ela n‹o sabia mais o que era
dela, o que era dos outros e eu n‹o sei explicar. Sei que isso a’ foi me
influenciando.
Ent‹o, como diz ZŽ Ramalho, naquela Žpoca eu era
inocente, porŽm, besta; e eu achava que os cordŽis eram lindos e maravilhosos.
S— que depois, essa coisa de racionalizar, de refletir sobre as desigualdades
sociais, me mobilizou a questionar aqueles folhetos que sempre tinham os homens
como protagonistas ou os homens como autores, nŽ? E, ent‹o, eu comecei a
prestar aten�‹o no meu cotidiano. Eu sei que as hist—rias que minha av—
apreciava e que tambŽm gostava, e que minha tia lia, eram sempre de pessoas de
outros pa’ses ou ent‹o eram narrativas assim... hist—rias imaginadas: O
Valente ZŽ Garcia, A Princesa do Vai N‹o Torna, O Pav‹o
Misterioso. Era muita coisa, assim, que n‹o era da vida real, digamos
assim. Ent‹o, eu comecei prestando aten�‹o ˆs coisas da vida real e na minha
vida real tinha muitas mulheres, dentre as quais eu me inclu’a, com v‡rios
problemas, e tinha tambŽm uma coisa de eu achar um pouco ofensivo e dialogar
com as mulheres do meu bairro, da minha fam’lia falando daquelas coisas, do
artigo 5¼ da Constitui�‹o. Eu n‹o me sentia confort‡vel por estar falando sobre
o nosso cotidiano a partir dali.
Ent‹o, em 94 eu estava no penœltimo ano da
faculdade quando eu publiquei meu primeiro cordel. E nas rodas de conversas,
n‹o s— na milit‰ncia, mas com mulheres e ali n‹o era uma conversa entre
feministas n‹o, era entre mulheres de uma comunidade que estavam muito
impressionadas e muito, digamos assim, temerosas com a morte da vizinha Cristina,
que foi assassinada na Žpoca. Ent‹o, o cordel come�ava assim: ÒOs nœmeros de
viol�ncia t�m crescido sem parar / Pra garantir resist�ncia Ž preciso n‹o
calarÓ; a’ eu dizia: ÒDo Cariri para o Brasil quero me manifestarÓ. E come�a
assim. Eu vou narrando uma sŽrie de coisas e o Cordel tem uma influ�ncia assim
marxista porque a explica�‹o que eu dava na Žpoca para isso tinha a ver com a
acumula�‹o da propriedade em poucas m‹os, a viol�ncia estava relacionada tambŽm
com a quest‹o econ™mica, n‹o era uma explica�‹o totalmente baseada no
patriarcado. Era a influ�ncia que eu tinha da Žpoca, de que era uma leitura
ideol—gica, ligada ao marxismo, num sei o qu�. E ent‹o eu levei esse Cordel
para a minha av—, em 94, e ela morreu em 2002, parece.
Eu levei esse cordel para a minha av—, eu li pra
ela e ela disse: ÒIsso a’ n‹o Ž foieto, n‹o. Isso a’
n‹o tem nada a ver com foietoÓ. Ela n‹o reconheceu
[risos], a’ eu falei: ÒV—, tem sim! Olha aqui a rima t‡ bem direitinho...Ó. Eu
acho, nŽ? Achava! [continua�‹o do di‡logo] ÒA rima t‡ bem constru’da, eu t™ rimando bem aqui, —Ó. A’ ela disse assim: ÒN‹o, mas essa
hist—ria Ž muito feia, muito ruim, num tem uma coisa assim que prenda, num
tem... Quem Ž a mulher dessa hist—ria? Quem Ž o homem? Quem Ž a pessoa?Ó, nŽ?
A’ n‹o tinha uma personagem espec’fica, que tivesse uma hist—ria que tivesse
in’cio, meio e fim, porque falava de um monte de pessoas ao mesmo tempo, de
grupos sociais e tal. E a’ ela disse: ÒDe onde foi que voc� tirou isso?Ó. A’,
eu disse: ÒDa minha cabe�a, Ž da minha cabe�a, mas foi porque morreu Cristina,
l‡ na Rua S‹o Bento, assim, assim, assado e tudoÓ. A’ ela disse assim: ÒMulher
(muiŽ, nŽ? Que ela falava), muiŽ,
num se mete com isso n‹oÓ. Ela sempre me dava v‡rios conselhos e ela achava que
eu j‡ estava velha, que eu j‡ deveria ter me casado. A’, ela dizia: Òï, minha
filha, arranja um dono pra tu; Ž t‹o feio uma mulher sem um donoÓ. E ela dizia
assim, eu fui l‡ pra me despedir dela, que eu ia viajar pra Fortaleza pra fazer
mestrado; a’ ela disse assim: ÒTu ainda vai estudar? Tu j‡ leu os livros do
Juazeiro, do Crato e agora vai ler os livros de Fortaleza? Minha filha...Ó. A’
come�ava a falar que era melhor eu me casar... A’ eu fui fazendo cordŽis,
problematizando tambŽm essa nossa matriz social, cultural; e vieram outros
folhetos e, enfim, quando chegou em 100 eu parei de contar. Mas o fato Ž que a
maioria Ž relacionada a essa nossa condi�‹o feminina, nŽ? Eu digo nossa,
considerando a’ tambŽm toda a diversidade das mulheres.
E a’ o curioso Ž que a velhice me chamava muita
aten�‹o tambŽm. E eu escrevi o cordel O que Ž velhice, o t’tulo Ž esse: O
que Ž a Velhice? E a capa tem a foto de minha av—; minha av— com um paninho
assim no ombro, que ela sempre usava um paninho de prato assim no ombro o tempo
inteiro, exceto quando ela sa’a pra viajar ou pra missa. E ela est‡ na porta da
casa dela nesse Cordel e eu vou perguntando o que Ž a velhice, vou questionando
e trago v‡rios elementos porque tambŽm eu estava influenciada com a obra de
Simone de Beauvoir, que ela trata tambŽm dessa tem‡tica da velhice, que Ž o
lado menos conhecido de Simone de Beauvoir, nŽ? E eu n‹o era estudiosa de
Teoria Feminista, n‹o era estudiosa de quest›es de g�nero, n‹o. Eu era uma
militante, uma comerci‡ria na Žpoca. Eu estudava, trabalhava, escrevia Cordel,
cuidava de minha filha e, enfim, n‹o tinha muita abertura no Partido Comunista
pra os debates de g�nero. Mas, curiosamente, tambŽm era atravŽs do Jornal,
desse editorial que vinha pra Juazeiro do Norte ‒ que a gente vendia,
tentamos recrutar outras pessoas ‒ que, vez por outra, no 8 de mar�o a’
aparecia uma discuss‹o sobre mulheres e vinha uma marxista l‡, Alexandra Kollontai, que s— depois de 300 anos Ž que eu vim estudar e
conhecer. Mas ela problematizava as mulheres no mundo do trabalho, no mundo
social, na pol’tica e tal e coisa.
Ent‹o, eu tinha muita intui�‹o que eu fui
desprezando aos poucos, por uma vis‹o equivocada da racionalidade; e depois eu
passei a valorizar. Agora, nos œltimos 5 anos, eu t™
muito f‹ de intui�‹o. Por exemplo, o cordel A Mulher de Sete Vidas, que
Ž o mais longo cordel meu em termos de quantidade de p‡ginas e de estrofes e
tal. Esse cordel foi escrito no momento em que eu estava questionando muito as
minhas convic�›es pol’ticas, filos—ficas e Ž meio autobiogr‡fico. Embora, sendo
a mulher de sete vidas, e ela tem sete vidas [risos], e ela aparece com sete
experi�ncias diferentes: uma hora ela Ž uma meretriz, outra hora ela Ž uma
artista. Ela tem v‡rias, eu n‹o me lembro, ela tem v‡rias facetas e ali Ž o
momento em que eu dialogo com o Espiritismo, com o Catolicismo Popular, trago
coisas do Budismo, alguma inspira�‹o na quest‹o da espiritualidade mesmo, nas
suas v‡rias nuances. Mas, assim, eu depois leio e digo assim: ÒN‹o fui eu quem
escreveu esse CordelÓ porque n‹o Ž o meu estilo, n‹o eram as minhas quest›es,
entende? Ent‹o Ž isso, fui escrevendo...
Outro dia uma pessoa estava me chamando aten�‹o
para algo que eu n‹o percebia: Ž que eu escrevia as personagens que estavam
todas ali na revista na regi‹o do Cariri, mesmo depois que eu sa’ do Cariri e
mesmo depois que eu sa’ do Brasil ‒ os cordŽis feitos fora ‒, todos
est‹o de alguma maneira ali, como diz Belchior, ÒOnde jaz meu cora�‹oÓ, nŽ?
Porque Ž uma for�a muito grande, Ž uma rela�‹o muito forte que eu tenho com a
Chapada do Araripe, com a regi‹o do Cariri cearense etc. Em que pese ter havido
alguns deslocamentos, porque depois que vim pra Bahia eu escrevi o cordel Tr�s
Ž um Real porque andando muito de ™nibus aqui em Salvador eu via homens e
mulheres entrando no busu e gritando tr�s Ž um
real, ent‹o, Ž uma hist—ria que envolve dois vendedores: um homem e uma mulher.
E a’ eu digo: ÒEle entra e pede desculpa por atrapalhar o sil�ncio da viagemÓ,
ela entra e diz isso e eles v‹o vendendo produtos variados com uma pegada de
g�nero. Geralmente ela traz produtos mais vinculados ˆs [entre aspas]
Ònecessidade das mulheresÓ.
E a’, a Minha Preta vem Para a Marcha eu
escrevi aqui em Salvador, mas Ž um apelo ˆ minha m‹e. Eu falo um pouco dessa
condi�‹o dela, de mulher negra, de trabalhadora sempre no espa�o privado e
quando foi trabalhar no espa�o pœblico foi realizar no pœblico o que ela fazia
no privado, nŽ? Porque ela foi agricultora familiar ali no quintal da casa
dela. Ela nunca plantou numa ro�a como os meus tios que tinham uma ro�a fora de
casa, sa’am pela estrada pra ir pra ro�a. Minha m‹e n‹o: a ro�a de minha m‹e
era no quintal da casa dela, dela e das irm‹s dela. Depois ela vai para S‹o
Paulo, trabalhou de domŽstica. Eu conto isso no Cordelirando,
o cordel chamado Cordelirando, que eu digo
que: ÒSendo filha de um pedreiro e de uma camponesa / A palavra companheiro me
foi servida ˆ mesa / Aprendi desde crian�a a ser eu minha fortalezaÓ. Ent‹o l‡
tem algumas estrofes... Eu n‹o me lembro, n‹o tenho vergonha de dizer que eu
n‹o tenho de cor nenhum cordel meu, na ’ntegra. Eu n‹o consigo, Ž muita coisa,
ai, quando alguŽm come�a a recitar, eu puxo na mem—ria, diferentemente da minha
av—, e a’ Ž uma pura intui�‹o, considerando que ela n‹o aprendeu a ler, talvez
ela tivesse uma mem—ria e uma capacidade... N‹o sei, voc�s talvez tenham
melhores condi�›es de me explicar isso. Mais capacidade de memorizar, de
armazenar, de organizar, de sistematizar aquilo. Eu n‹o, pelo fato de ler
tantas coisas e meu cŽrebro Ž t‹o cansado que [pequena pausa] eu leio, eu tenho
de cor cordŽis de outras pessoas, como Ž o caso tipo A Casa que M‹e Morava,
como Ž o caso de Lu’s Campos, que Ž aquele meu cordel, um dos meus preferidos,
que Ž A carta a Papai NoŽ, nŽ? Como Ž o caso de Patativa, como Ž o caso
do cordel de Fanka, como Ž o caso do cordel dos
Malditos de HŽlio Ferraz, quando ele diz assim: Ò11 de setembro Ž dia sem
precedentes na Hist—ria / Aconteceu a vit—ria de Davi contra Golias / Impactou
a ousadia dessa gente Talib‹ / E l‡ na grande ma�‹ o capital p™s no ch‹o / E a
trupe o Alcor‹o meteu o kibe em Tio SamÓ. Ent‹o, assim, esse Ž um dos meus
cordŽis favoritos porque me inspira a trabalhar mais a musicalidade do meu
pr—prio texto.
E eu vinha numa pegada hist—rica de falar muito
das dores das mulheres, eu falei muito das dores, das mortes... Aquele cordel Mulheres
do Cariri: morte e persegui�‹o, Embalando meninas em tempos de viol�ncia,
Mulher Consci�ncia – Nem viol�ncia, nem opress‹o, Basta de
Feminic’dio, N‹o ˆ cultura do estupro. Eu sempre tive,
contextualmente falando, uma produ�‹o que era [r‡pida pausa] uma denœncia, pra
usar uma figura jur’dica, era um libelo crime acusat—rio, nŽ? E depois eu
passei a ter necessidade de fazer anœncios tambŽm porque sen‹o eu ficava numa
coisa de n‹o ter sa’da, nŽ? De n‹o espalhar esperan�a, ent‹o, o Mulheres
fazem, por exemplo, j‡ destoa um pouco. No Mulheres fazem eu t™ falando de protagonismo das mulheres em v‡rios
terreiros, em v‡rios lugares, em v‡rias coisas. Lugar de Mulher tambŽm,
nŽ? Lugar de Mulher n‹o t™ propriamente
falando de mortes ou de viol�ncia etc. Ent‹o, sem perceber e sem ser uma coisa
deliberada eu comecei a focar mais tambŽm naquilo que as mulheres s‹o capazes
de fazer, n‹o s— no que fazem contra elas ou com elas, e a’ escrevi Minha
Preta Vem Pra Marcha, que tem uma hora que eu falo: ÒVem,
traz o doce de mam‹o, traz tambŽm a rapadura / Com tua fŽ segue seguraÓ. Que Ž
mais ou menos falando um pouco sobre minha m‹e, essa marcha da vida dela e
tudo.
E a’ falei de Violeta Arraes, que foi Reitora da
universidade onde eu trabalhei e Ž aquele Cordel... Eu fiz alguns cordŽis em
homenagem porque eu quase nunca escrevi sobre encomenda, eu sempre escrevi o
que eu quis, tanto que eu estava no MŽxico recentemente e eu fiz um cordel, Minha
livre express‹o, onde eu falo que, [pequena pausa] onde eu
intertextualizo com o poema de Cl‡udia Rejane e eu digo: ÒMinha obra ninguŽm
tutelaÓ. Ent‹o, eu sempre escrevi sobre o que eu quis, mas eu aceitei, poucas
vezes eu aceitei fazer alguma coisa sob encomenda porque a causa era justa e as
pessoas que me pediram eram pessoas que significavam muito pra mim. Um deles
foi Jana’na Dutra, ativista brasileira, que era uma homenagem ˆ primeira
travesti a obter uma carteira da OAB no Brasil, era uma ativista cearense,
faleceu depois e esse cordel foi feito pra abertura do filme Jana’na Dutra[83]. Tem um
sobrenome... tem um subt’tulo a’, Jana’na Dutra num sei o que l‡, Ž do
cineasta carioca Vagner de Almeida, que Ž um grande amigo. Ent‹o, eu fiz em
homenagem a Jana’na. Eu convivi com ela l‡ no Cear‡, a gente se encontrou em
algumas atividades, ela mora ne Fortaleza, mas ela nasceu em CanindŽ e foi atŽ
ent‹o – durante muitos anos – a œnica Ž... ela se apresentava como
travesti, nŽ? Em que pese ela n‹o conseguiu exercer o direito do nome social
porque na carteira de OAB o nome dela era Jaime, nŽ? O nome de nascimento, mas
ela era reconhecida socialmente como Jana’na Dutra e eu fiz esse cordel a
pedido! N‹o vou nem dizer sob encomenda porque pode soar que alguŽm disse: ÒDiga
isso!Ó, mas era a pedido.
E o outro foi a pedido de Orlando, um dos meus
maiores amigos ali na regi‹o do Cariri. Orlando era um ativista, Ž um homem gay
formado em Letras pela URCA, amante da literatura, amante dos cordŽis e do
cinema. Numa conversa com ele, eu j‡ tava aqui na
Bahia, e numa dessas madrugadas insones, eu e ele conversando sobre zilh›es de
coisas, ele disse: ÒVou fazer um filme!Ó. Ele j‡ tinha feito um filme chamado TambŽm
sou teu povo, Senhor, que uma Drag descia a principal rua da cidade
com uma vela na m‹o cantando um bendito chamado: ÒTambŽm sou teu povo, senhor,
e estou nessa estradaÓ [colaboradora canta como no filme]. Porque nossa vida
ali no Juazeiro do Norte era muito marcada pelas, nŽ? Mesmo os ateus, mesmo as
pessoas de esquerda, elas tinham esse sentimento de perten�a, nŽ? Suas fam’lias
todas tinham a sala do santo. Todas, todas. AtŽ hoje minha m‹e honra a mem—ria
de minha av— fazendo a renova�‹o do santo, no dia 25 de dezembro. Ent‹o, ele
disse: ÒSalete, eu quero um filme baseado num cordel teu, mas eu queria uma
coisa nova, a’, a gente dialogando, enfim, depois de muita conversa eu n‹o
consegui dormir e fiquei escrevendo. Quando foi 8 horas da manh‹, o cordel
estava pronto e Ž o cordel O Milagre Travesthriller:
A Hist—ria da Travesti que (com fŽ) engravidou. Essa hist—ria Ž muito
intertextual porque eu trago outras personagens de outros cordŽis meus e tambŽm
de outros contextos l‡ do Cariri e dentro da hist—ria tem uma outra hist—ria
porque ela vai se basear na hist—ria das macarenas, que eram umas beatas que
chupavam umas rosas lilases e nas suas catatumbas
elas bailavam e, enfim, era um cordel que era meio assim parecido com o Teatro
do absurdo. Depois que eu assisti uma pe�a do Teatro do absurdo, eu fiquei
muito impressionada com aquilo e aquelas imagens vinham, ent‹o, tudo que eu
escrevo ainda que nem sempre eu me dei conta [r‡pida pausa], Ž um di‡logo com
as coisas que eu vejo, que eu leio, que eu aprendo. Ent‹o, no Milagre Travesthriller, a personagem Ž essa travesti que era
temente a Deus, que fez um milagre e que engravida. Ou seja, Ž um debate
p—s-moderno, pero no mucho, porque
ela n‹o recorre ˆs tecnologias de reprodu�‹o, ela recorre ˆ fŽ no Padre C’cero
e ela engravida, mas ela dialoga nessa saga, nessa batalha por engravidar, vai
recorrer a v‡rias pessoas. Ent‹o, ela vai dialogar com a feminista e a
feminista diz: ÒAh, mas todo mundo hoje a pauta do aborto e voc� t‡ preocupada
com essa quest‹oÓ. E vai dialogar com um homem gay amigo dela. Todas as
personagens ali s‹o reais, s— a Shirley Dayanna, que
Ž o nome que eu dei pra personagem, que Ž fict’cia, mas todas as pessoas com
quem ela dialoga, inclusive o pr—prio Orlando.
Ent‹o, assim, a’ eu vou saindo daquela mulher...
H‡ um conjunto de mulheres que fazem parte da minha literatura, por exemplo, o
cordel Maria, Helena, que s‹o duas mulheres [risos]: Maria v’rgula
Helena; Ž uma rela�‹o homoafetiva. ƒ uma rela�‹o lŽsbica entre duas mulheres
ali da regi‹o do Cariri. ƒ claro que eu as imaginei como sendo duas vizinhas
l‡, que eram beatas e que trabalhavam na ro�a e moravam ali na cidade. Na
regi‹o do Cariri, as pessoas t�m [pequena pausa], digamos, esse privilŽgio de,
ˆs vezes, morarem num bairro e serem agricultoras e irem pros seus trabalhos e
voltarem. Ent‹o, Ž uma coisa entre o urbano e o rural, nŽ? E a’ na hist—ria de Maria,
Helena falo desse amor entre elas, mas eu n‹o trago nada de extraordin‡rio,
de tentar mexer naquele ambiente. Elas continuam frequentando a missa,
continuam fazendo as coisas delas.
J‡ na hist—ria da Shirley Dayanna
tem uma sŽrie de debates envolvendo a Teoria Queer e num sei o qu� l‡, mas nada
disso dizendo: ÒOlha aqui uma teoriaÓ, como, por exemplo, O que Ž ser
mulher?, que Ž uma resposta, nŽ? Uma resposta n‹o! [colaboradora
demonstra contrariedade]. ƒ um di‡logo com Simone de Beauvoir, nŽ? Ent‹o, eu
digo: ÒSobre a mulher j‡ se disse / tudo que se imaginar / DÕuns eu j‡ ouvi
tolices / DÕoutros, me pus a pensar / Mas este ser – a mulher – /
Afinal o que Ž que Ž? / Quem se atreve a explicar?Ó. E vou desenvolvendo... A
capa Ž uma interroga�‹o, nŽ? A’, eu depois vou desenvolvendo v‡rios argumentos
e em algum momento eu pergunto: ÒE se um homem quiser / Ent‹o mudar sua
forma?Ó. Ent‹o, Ž um jeito de falar dessas teorias sofisticadas a partir dessa
linguagem, apesar de minha av— n‹o ter legitimado num primeiro momento, nŽ?
Porque ela disse que isso n‹o era um ÒfoietoÓ e tal e
coisa.
Mas depois que eu li pra ela A Hist—ria de ZŽ
Leitor, que eu vim publicar bem depois. Mas eu escrevi ainda com ela em
vida, j‡ t‡ na terceira edi�‹o A Hist—ria de ZŽ Leitor, foi a hist—ria
que ela mais gostou das minhas hist—rias, porque se trata de um homem que com
mais de 60 anos vai pra a EJA nŽ, a Educa�‹o de Jovens e Adultos, e vai se
alfabetizar, e ele quer aprender a
ler e ele tem dificuldade ou tem hora que ele quer desistir, e a’ ele leva um
cordel de Patativa, Vaca Estrela e Boi Fub‡, e depois Fagner
musicou e etc.; e ele l� esse cordel pra turma, e... enfim. Ali Ž a apoteose
nŽ, da alfabetiza�‹o dele, e o colega dele que Ž pedreiro vai assistir, e a
esposa dele vai, todo mundo vai e enfim. Ent‹o minha av— achou a hist—ria
linda, porque tinha uma fam’lia, tinha nŽ [risos mais contidos] uma hist—ria de
uma pessoa com in’cio, meio e fim, e o fim foi feliz e etc., enfim. Ent‹o, ela
aben�oou esse cordel digamos assim, nŽ? Mas Ž. Meninas, eu t™
falando muito coisas sem ˆs vezes nem ter uma conex‹o com a outra, mas Ž o que
t‡ me vindo as...
(AB) – Tem conex‹o
demais...
(SM) – Porque os fios
da conex‹o voc�s Ž que t�m capacidade de articular porque eu t™ falando assim coisas que me v�m ˆ mem—ria. Eu tava falando dos cordŽis a pedido, nŽ? Ent‹o, a pedido de
Orlando, a pedido de Vagner Almeida, dois cineastas, e eu fiz o cordel pra
homenagear a Violeta Arraes. Eu homenageei Violeta Arraes, homenageei v‡rios
amigos l‡ do Carari, uma amiga que fez uma cirurgia e
ela tava fazendo radioterapia, nŽ? E eu chamei isso
de Mais uma dose de amor porque ela tinha que tomar mais Iodoradioterapia[84].
E recentemente eu homenageei uma pessoa que n‹o
Ž muito bem-vista entre as feministas baianas etc. porque ˆs vezes ele Ž
etiquetado de mis—gino e tal, mas Ž um amigo querido que eu tenho aqui na
Bahia, se chama Luiz Mott e eu fiz um cordel sobre os 70, ou mais, anos dele.
Ele tava passando a pandemia l‡ na It‡lia e com medo
de morrer e num sei o qu�, no olho do furac‹o, nŽ? E eu fiz um cordel O Mott
Ž Festejar! Ent‹o, n‹o foi exatamente um cordel que ele me pediu, mas ele
disse assim: Ò Salete, vamos falar de CordelÓ, eu l‡ no MŽxico e ele l‡ na
It‡lia, e a gente lutando pra ter um voo de repatria�‹o. Por que que eu t™ falando do Luiz Mott? Porque a pedido dele, h‡ uns anos,
eu fiz um cordel sobre Tibira do Maranh‹o, Santo Gay do Brasil. Ele, como Ž um
Antrop—logo, pesquisa essas coisas da Inquisi�‹o, e a’ ele descobriu l‡ no
Maranh‹o essa coisa do primeiro crime de homofobia do Brasil, que foi praticado
contra esse ind’gena chamado Tibira, ainda no in’cio nŽ do sŽculo XVI e a’ ele
me passou a hist—ria, a pesquisa dele e disse: ÒAh, seria legal ter um cordel e
tudoÓ. E eu li a hist—ria toda e contei isso num cordel que foi objeto de
pesquisa l‡ no Rio de Janeiro, num grupo de Hist—ria e tal. Ent‹o, Ž assim, mas
Ž todo inspirado na pesquisa do Luiz Mott. A fonte do cordel Ž a pesquisa do
Luiz e eu conto essa hist—ria sobre por que o GGB – o Grupo Gay da Bahia
– fez um requerimento ˆ Santa SŽ para reconhecer a santidade desse santo,
desse m‡rtir e como ele antes de morrer foi obrigado a se converter ao Catolicismo.
O Luiz Mott ironicamente diz: Ò Ent‹o, j‡ que ele se converteu ao Catolicismo e
gente que foi martirizado, igual ou menos do que ele mereceu essa santifica�‹o,
vamos constranger a Santa SŽ para reconhecer e tal e coisa...Ó. Isso divide as
opini›es porque tem muita gente que n‹o est‡ interessada em ter um santo gay,
muito menos na Igreja Cat—lica. Mas o fato Ž que Ž uma disputa pol’tica e achei
interessante contar essa hist—ria porque a mim me interessava muito j‡ que a
minha disserta�‹o do mestrado foi sobre a igualdade jur’dica na a�‹o contra
pessoas LGBT. Ent‹o, gostei muito de saber dessa hist—ria. A’, foi um cordel
que eu fiz a pedido do Luiz e submeti a ele e quando eu submeti, ele disse uma
coisa l‡... Ah, duas ou tr�s coisas que eu tinha dito que ele queria alterar,
ent‹o eu disse: ÒN‹o, Luiz, n‹o aceito que voc� mexa no cordel e muito menos
que altere a minha rima porque o meu compromisso Ž com a hist—ria e o cordel Ž
meu e a rima n‹o vai ser alterada...Ó. Era uma coisa l‡, mas ele compreendeu,
nŽ? E a’ o cordel Ž um outro cordel sob encomenda.
Mas, fora isso, eu vou escrevendo quando tenho
vontade. Tem tempos que eu n‹o escrevo nada, fico travada, tem tempos que eu
escrevo. No MŽxico eu escrevi 6 cordŽis em 3 meses. Ent‹o, eu estava num desespero
assim.... eu tenho uma aproxima�‹o com minha vida aqui no Brasil e mais perto
com minhas... eu pedia a minha av—, eu orava muito pra que ela me desse
inspira�‹o pra eu n‹o pirar, que eu tava ficando
maluca trancada dentro de uma casa e com medo de nunca mais voltar, enfim. A’,
eu sei que eu escrevi o cordel Por amor, cuidem das vidas. Foi em mar�o,
nŽ? ƒ todo sobre a pandemia e fazendo um apelo, Ž um cordel denœncia e anœncio
e tudo. E eu n‹o sei nenhuma estrofe dele [risos], t‡ l‡ no Blog, nŽ? E escrevi
outros que eu n‹o lembro agora, mas sei que foram 6 cordŽis. O outro foi sobre
Luiz Mott, fez anivers‡rio l‡ na It‡lia e enfim.
Ent‹o, assim, s‹o v‡rias mulheres que eu vou
trazendo, mas n‹o s— mulheres, nŽ? Tem muitas figuras vinculadas ˆ feminilidade,
ent‹o, voc� tem a’ as travestis, voc� tem os homens gays, voc� tem a’ Ž... A
personagem mais austera, digamos, que eu j‡ tive foi ZŽ Leitor, mas na verdade
tem uma... [r‡pida pausa] pegada assim geracional e de classe.
Bruna
Lucena (BL)
– Tem o do seu pai, nŽ, Salete?
(SM) – Ah, ok!
(SM) – Verdade, Bruna,
tem... Meu pai Ž aquele cordel eu n‹o consigo recit‡-lo porque eu come�o a
chorar. Ent‹o, no dia do lan�amento dele, eu tive de me socorrer de pessoas...
(BL) – Que Ž lindo
aquele cordel...
(SM) – ƒ...
(BL) – Por isso que eu
lembro, eu acho ele lindo... [risos]
(SM) – ƒ. ƒ uma
homenagem pro meu pai que eu fa�o, logo ap—s ele ter passado por um c‰ncer
agressiv’ssimo, nŽ? E diz assim: ÒMeu pai por seu um pedreiro...Ó – Ž a
œnica estrofe que eu ainda lembro porque Ž muito emocionante pra mim: ÒMeu pai
por ser um pedreiro / Dele muito me orgulho / Sempre foi muito guerreiro /
Homem de muito barulho / Seja curando tormento / Seja mexendo cimento...
– [colaboradora tenta relembrar a rima]: ÒEle desata o embrulhoÓ. Ele diz
assim: ÒSeja curando tormento / Seja mexendo cimento / Ele desata o embrulhoÓ.
A’ eu vou contando a hist—ria dele, que ele saiu em 44 [1944]... Que ele nasceu
em 44 e depois ele saiu do Nordeste brasileiro ainda jovenzinho pra trabalhar
na constru�‹o civil, a’ ele brinca que subiu na vida, nŽ? Ele deixou a lavoura
para subir num andaime, ele brinca assim. Tem essa boa lembran�a.
Ent‹o, Bruna, tem o do meu pai... Eu homenageei
alguns homens que eu considero importantes na minha vida. Ent‹o o meu tio ZŽ
Alexandre, recentemente, que eu nomeei o cordel dele de Vai nas asas dos
Arcanjos. O curioso Ž que, um m�s antes do meu tio falecer, eu liguei para
ele e ele disse assim: ÒOlha, eu t™ deixando aqui uma
heran�a pra voc�Ó. A’ eu achei estranho aquela conversa e tudo... A’ ele: ÒN‹o,
eu t™ velho...Ó. Porque em mar�o ele perdeu um neto e
ele tinha dito: Òï, porque que Deus n‹o me levou e deixou meu neto, t‹o
jovem?Ó. Ent‹o, quando eu cheguei do MŽxico, que eu liguei pra ele, ele disse
assim: ÒEu n‹o tinha mais fŽ que eu ia ver voc�, n‹o, ser‡ que eu ainda lhe
vejo?Ó. A gente conversando no telefone, a’, eu disse assim: Òï tio, num fala
um coisa dessa, num sei o qu�...Ó. A’ ele disse assim: ÒEu t™
deixando aqui uma heran�a pra voc�: um caderno de folhetos e a m‡quina de
escrever, mas ela t‡ toda quebrada, as letras saindo fora de lugar e tudo...Ó.
A’, eu disse: Òî, num t™ gostando desse papo de
heran�a, mas em termos de presente eu estou adorando, ent‹o quando essa
pandemia passar, eu vou a’ e a gente vai ver esses cordŽis e vai – ele
tambŽm n‹o chama de cordel, chama de folheto – a gente vai publicar e num
sei o qu�...Ó. Enfim.
Ent‹o, assim, minha heran�a t‡ l‡, eu ainda n‹o
pude ter contato, nŽ? Quando passar essa pandemia eu vou atr‡s, mas ele sabia
que de todos os parentes a pessoa mais fissurada assim no cordel e na produ�‹o
dele e tudo, sou eu. Ele escreveu A Casa que M‹e Morava, que Ž um
cl‡ssico, nŽ? ÒFui visitar meu sert‹o / Aonde morou meus pais / A saudade era
demais / Pra ver aquele torr‹o / Atravessei o boqueir‹o e avistei a Canabrava /
Com tanta saudade eu tava pra ver aquela casinha /
Que hoje n‹o Ž mais minha / A casa que m‹e moravaÓ [colaboradora recita o
cordel do tio]. E a’ ele vai desenvolvendo toda a hist—ria de v‡rias passagens
da vida dos meus av—s nessa casa etc., etc. Tem uma hora que ele diz: ÒTendo
dinheiro eu comprava / A casa que meu pai fez / Pra eu morar outra vez / Na
casa que m‹e moravaÓ. ƒ lindo esse cordel, muito emocionante. E tem um muito
engra�ado que ele diz: ÒEm cada dez brasileiros / Tem oito ou nove ladr‹oÓ; que
ele fez a’ num dos per’odos a’ de campanha eleitoral, l‡ comprou muitas
confus›es, por isso o cordel n‹o foi publicado assim em grande escala, mas era
assim uma outra inspira�‹o pra mim. Era n‹o, segue sendo, nŽ? [pequena pausa]
Fiz o do meu primo tambŽm... Tem tanta coisa. O de Orlando Ž muito emocionante
porque o Orlando faleceu sem ver o resultado do filme baseado no meu cordel. O
filme existe e se chama Travesthiller. O meu
cordel Ž Milagre Travesthiller, mas o filme Ž Travesthiller.
Ent‹o, s‹o cordŽis em que eu trago
majoritariamente a tem‡tica das mulheres, falando da desigualdade de g�nero,
trago en passant a quest‹o da velhice,
a quest‹o geracional, racial, mas a classe t‡ muito presente porque de todas as
minhas consci�ncias a primeira foi a consci�ncia de classe, nŽ? Ent‹o, isso foi
o que me levou a me desviou de ser alguŽm da ‡rea de Letras pra ser alguŽm do
Jur’dico. Foi uma coisa de dizer assim: ÒAh, ent‹o eu vou fazer faculdade de
Direito e eu vou me dedicar ao Direito do Trabalho porque eu n‹o quero que
aconte�a com nenhuma pessoa, nenhuma mulher, o que aconteceu com minha m‹e e
num sei o qu�Ó.
E de fato eu advoguei um tempo na ‡rea do
Direito do Trabalho e depois eu me desencantei com essa coisa da advocacia
trabalhista. A’, eu fiz cordŽis e nos atos processuais t‡ l‡ o qu� que a Sammyra botou o cordel chamado Alvar‡ Judicial, que
Ž uma peti�‹o que eu fa�o em cordel pra que o juiz autorize que um agricultor
l‡ de Cariri saque o res’duo do FGTS, que ele chegou de S‹o Paulo e tava desempregado e era agricultor, foi pra S‹o Paulo
trabalhou um pouco com carteira assinada e estava desempregado e voltou. A’, eu
fiz essa peti�‹o sabendo que ela n‹o seria indeferida porque o juiz era um
poeta tambŽm: Doutor Pedro Bezerra. N‹o era um poeta de cordel, mas era um
poeta e muito sens’vel. Do ponto de vista legal, ele n‹o teria como dizer que
eu tinha que escrever em prosa porque o c—digo do processo diz que tem que ser
na l’ngua vern‡cula, nŽ [risos]? A peti�‹o tem que ser em L’ngua Portuguesa e
tem que dizer os fatos e dizer o direito. S— que n‹o Ž tradi�‹o escrever em
poesia e a’ o pessoal escreve uma coisa com in’cio, meio e fim, mas qualquer
outro juiz poderia indeferir dizendo que n‹o estava de acordo com a tradi�‹o
jur’dica bl‡, bl‡, bl‡, bl‡. Ent‹o, ele acolheu,
ficou muito emocionado e abriu vistas pro promotor de justi�a. O promotor
tentou fazer uma gracinha despachando em uma estrofe [risos], n‹o conseguiu
rimar, mas despachou. O que vale Ž a inten�‹o. E esse senhor, chamado Jesus, t‡
l‡ no folheto... E ainda era na m‡quina de datilografia. Se voc�s olharem no Cordelirando, Ž um scanner da p‡gina, do
processo, v‹o ver que ainda era no tempo da m‡quina de datilografia que eu
peticionei. S— que eu recentemente percebi o seguinte: que aquilo para o que eu
menos me esforcei na vida Ž algo que tem tido algum valor, entende?
Eu n‹o fiz cordel pra me tornar famosa, eu n‹o
fiz cordel pra ganhar dinheiro porque primeiramente eu pagava do meu bolso, por
isso que eu publiquei pouco na dŽcada de 90, que eu n‹o tinha emprego. Eu vim
ter um emprego em 98, emprego assim que me deu condi�‹o de me sustentar porque
eu tralhava, obviamente, desde os quatorze, mas assim como comerci‡ria, depois
como pesquisadora do SINE, depois como pesquisadora do IBGE, depois eu
trabalhei numa escolinha – mesmo sem eu ser formada ‒, eu fiz um
teste e fui professora infantil. Na Žpoca eu fui professora da Educa�‹o
Infantil no ColŽgio Bal‹o M‡gico, ent‹o n‹o dava para eu sustentar o meu hobby,
digamos assim, ent‹o, foi uma Žpoca em que eu produzi muito e n‹o publiquei
muito e... Teve coisa que eu produzi em 90 e s— vi publicar no ano 2000. Ent‹o,
por exemplo MARIA DE ARAòJO e seu lugar na hist—ria, que Ž a beata
Beatitude, ele Ž publicado em 2001, quando eu consegui recursos porque teve
tempo que eu publiquei pelo Cordel, ou o projeto SESCordel,
e a’ Ž uma pol’tica; n‹o Ž nem uma pol’tica pœblica porque o SESC que Ž do
Sistema S, da Indœstria e tal, comŽrcio. Mas o SESC tinha uma iniciativa, um
projeto de autoria de Fanka chamado SESCodel Novos Talentos, ent‹o, eu me submeti
a esse edital chamados novos talentos l‡ na Regi‹o do Cariri. E eu cheguei a
publicar dois ou tr�s: o MEU PAI foi publicado pelo SESCodel
Novos Talentos.
Ent‹o, ˆs vezes, uma coisa Ž publicada numa
dŽcada e ela foi produzida numa dŽcada anterior, mas faltava condi�›es, n‹o
tinha uma pol’tica pœblica no estado do Cear‡, um edital, uma coisa... um
incentivo ˆ produ�‹o. Tinha incentivo ˆ leitura, mas o leitor e a leitora ia
ler o que j‡ estava dispon’vel naquelas prateleiras. A’, com esse projeto
criou-se uma Cordelteca e eu que n‹o era s— escritora
de cordel, mas era tambŽm leitora, frequentava pra ler os cordŽis das pessoas,
participava de uns saraus, recital etc. Os lan�amentos eram lindos. Porque eu
sou anterior aos Mauditos, nŽ? Ent‹o, eu publico antes dos Mauditos
‒ que Ž o grupo que eu ajudei a fundar junto com Fanka
e outras pessoas ‒, que ali‡s vai sair um livro agora de autoria de
Cl‡udia Rejane sobre os Mauditos. Eu quero atŽ
confessar para voc�s que deu o maior babado...
[Seguindo
a t™nica dos folhetins, a continua�‹o da entrevista ser‡ publicada em outro
momento, de modo a manter agu�ada a curiosidade de nossas leitoras e leitores]
[82] Neste trecho da entrevista, a
colaboradora Salete Maria recita o cordel ÒA chegada do Lampi‹o no InfernoÓ
numa tentativa de exemplifica�‹o das corre�›es da av— sofridas por ela na sua
inf‰ncia. Essa pr‡tica se repetir‡ ao longo da entrevista.
[84] A colaboradora se referia a mesma
terapia conhecida tambŽm como Iodoterapia ou mesmo Radioiodoterapia.