ANTîNIO ALEIXO E ANTïNIO VIEIRA: DIçLOGOS IAGINADOS OU BOCA DE PAPEL: ESPA‚OS DE FRIC‚ÌO DA PALAVRA POƒTICA

 

 

ANTîNIO ALEIXO E ANTïNIO VIEIRA: IMAGINED DIALOGUES OR MOUTH AND PAPER: FRICTION SPACES OF THE POETIC WORD

 

 

Edilene Matos[1]

http://orcid.org/0000-0003-3201-1946

 

 

Resumo: Este estudo p›e em relevo interfaces nas obras de dois poetas ÒpopularesÓ. De um lado, o poeta portugu�s Ant—nio Aleixo[2] e sua s‡tira Òhuman’sticaÓ, com destaque para o recurso apropriado da expressividade verbal. De outro lado, o poeta brasileiro (baiano) Ant™nio Vieira[3] e a ’ndole musicante de sua poesia sat’rica, integrando o que denominou ÒCordel Remo�adoÓ[4]. A poesia de ambos os poetas, feita para provocar vibra�‹o nas palavras, aponta para a coreografia do gesto, no palco semovente oralidade/escritura.

Palavras-chave: Ant—nio Aleixo. Ant™nio Vieira. Di‡logos imaginados. Palavra poŽtica

 

Abstract: This study highlights the interfaces / overpassing in the works of two "popular" poets. On the one hand, the Portuguese poet Ant™nio Aleixo (Algarves) and his "humanistic" satire, with emphasis on the appropriated use of the verbal expressiveness. On the other hand, the Brazilian poet Ant™nio Vieira (Bahia) and the musical nature of his satirical poetry, integrating what he called as "Rejuvenated Cordel".  The poetry of both poets, which was made in a way that provokes vibration in the words, points to the choreography of the body / gesture, on the stage / space moving by itself orality/writing.

Keywords: Ant—nio Aleixo. Ant™nio Vieira. dialogues imagined. poetic Word.

 

Por uma poŽtica da voz

 

Voz. Voz na garganta. Voz no papel. Voz no corpo. Voz no palco. Voz na rua. Voz velha. Voz nova. Voz ruidosa. Voz silenciosa.

Enfim, voz!

A voz Ž modulante, disso n‹o se tem dœvida. E se ela Ž modulante, m—vel, ela sai e entra sem se fixar.

A voz, mutante por natureza, Ž parte do corpo que n‹o se reduz a um espa�o, mas alonga e prolonga esse corpo, locus de origem, refer�ncia. Nesse movimento sinuoso, trapaceira, a voz se desdobra em perpetuum mobile.

ƒ exatamente essa complexa opera�‹o de dobras e desdobras, de tecidos plissados, que implica o espelhamento sonoro de nossas marcas identit‡rias, de evoca�‹o de mem—rias. O barthesiano gr‹o da voz se faz marca de corpo na voz. Voz que Ž Òquerer dizerÓ, Òvontade de existirÓ.

Assim, ao falar de espa�os de fric�‹o da palavra poŽtica, trago, aqui, um texto como resultado preliminar do projeto de pesquisa Ant—nio Aleixo e Ant™nio Vieira: di‡logos imaginados ou Boca e Papel: espa�os de fric�‹o da palavra poŽtica.

E esse espa�o de fric�‹o envolve as chamadas poŽticas orais. Estou, evidentemente, me referindo ao verbo poŽtico que nasce na boca, entendida enquanto canal de emiss‹o de voz ou vozes. ƒ l—gico, pois, que a voz se produz (se esculpe) nos —rg‹os fonadores, que s‹o tambŽm modeladores da voz. E a boca funciona tambŽm como um desses modeladores: abre-se e fecha-se como canal flex’vel que Ž. E faz passar a voz, rejeitando tudo o que Òquebra a voz vivaÓ.

Falar sobre poŽticas orais, hoje, requer entrar num jogo pol�mico, e isto por conta da diversidade de estudos que tratam do assunto. De in’cio, e h‡ consenso, no caso, entre os estudiosos, a oralidade implica tudo o que em n—s se endere�a ao outro: seja um gesto mudo, um olhar (ZUMTHOR, 2010); Òo gesto n‹o transcreve nada, mas produz significativamente as mensagens do corpoÓ (ZUMTHOR, 2010 p. 206); Òo gesto denuncia o n‹o-ditoÓ (ZUMTHOR, 2010, p. 205); a gestualidade, ˆs vezes, confere uma fun�‹o ao sil�ncio: gestos zeros.

Zumthor, cujas ideias s‹o basilares para minhas reflex›es, diferencia boca e voz. A boca, alŽm de ser um canal, Ž um dos fatores que ajudam e interferem na produ�‹o da voz. A voz est‡ intimamente ligada ao corpo por vibra�›es corporais. A voz Ž acompanhada por movimentos corporais n‹o-vocais e que interferem no significado da mensagem vocal. H‡, portanto, uma voz sonora, comprometida com o som, e uma voz muda, n‹o comprometida exatamente com o som, mas aliada ao som e que contribui para a produ�‹o da mensagem verbi-vocal. A voz, signo escult—rico, Ž constru’da na garganta e entalhada no corpo. Multiplicam-se, assim, as possibilidades de produ�‹o de sentido da mensagem verbi-vocal, pois a voz, enquanto linguagem, Ž feita de signos sonoros e de signos gestuais. ƒ neste caso que se pode falar em mensagens verbi-voco-visuais, considerando que esses signos mudos, de configura�‹o n‹o sonora, portanto n‹o aud’veis, s‹o, no entanto, visuais, visualidade que se faz necess‡ria para que tais signos sejam captados e decodificados.

A mensagem vocal, segundo Zumthor, envolve, pois, voz e corpo, envolve a palavra aud’vel e signos visuais inaud’veis, que se tornam aud’veis na medida em que se aliam ˆ voz. ƒ essa alian�a dos signos corporais inaud’veis com a voz, produtora de signos aud’veis, que torna os signos inaud’veis signos tambŽm aud’veis. O corpo mudo se torna aud’vel por for�a da alian�a de sua gestualidade com a voz.

Quando designamos a opera�‹o do uso da voz de vocalidade, estamos nos referindo a um espa�o de produ�‹o de signos extremamente complexo, e isto porque tais signos s‹o, ao mesmo tempo, mudos, sonoros, aud’veis e inaud’veis, convergindo todos eles para uma espŽcie de sonoridade corporal, que Ž o que caracteriza a performance vocal, que n‹o Ž s— som, mas envolve corpo e voz – corpo e voz intimamente entrela�ados de forma que o que n‹o Ž sonoro se sonoriza, e o que n‹o Ž visual adquire uma espŽcie de potencialidade sonora, fazendo da vocalidade uma espŽcie de cena teatral complexa, feita de signos verbi-voco-visuais.

Zumthor reivindicava a paternidade do termo teatralidade (thމtralitŽ). Este termo exerceu uma espŽcie de fascina�‹o para ele, e o conceito que lhe imprimiu jamais se enfraqueceu, e, muito pelo contr‡rio, constituiu uma marca inscrita a ferro e fogo de sua proposta (ZUMTHOR, 1998). Tal teatralidade evoca uma espontaneidade que se inventa a ela pr—pria ao exprimir-se, como uma sensa�‹o espacial, em que se amalgamam o som (o canto, ou simplesmente os jogos da voz), o gesto, a m’mica, a dan�a (ZUMTHOR, 2000). Desta forma, privilegia-se o calor da voz, que ultrapassa e muito os limites acanhados da letra.

O homem, produtor de mensagens vocais (cantador, trovador, ator, leitor e intŽrprete de textos em voz alta) revela-se, por isso, sobretudo um ator, exatamente porque a voz, criadora de mensagens, o obriga a se colocar por inteiro no centro do palco.

Falar de poŽticas da voz, portanto, Ž falar desse teatro vocal, enquanto produtor e encenador de poesia, entendida aqui enquanto encena�‹o de signos-atores interligados (vocais, gestuais, sonoros). Primordialmente, a poŽtica da voz, portanto, Ž teatro poŽtico ou poesia teatral, que n‹o deve, em hip—tese alguma, reduzir-se ˆ palavra meramente vocalizada e muito menos ˆ palavra grafada.

Essa interliga�‹o da palavra com o gesto, sabemos n—s, vem do nascimento da poesia, quando o homem se manifesta teatralmente (o poeta e a poesia n‹o nascem nas p‡ginas do livro!), quando o homem descobre a voz como for�a verbi-voco-visual. ƒ por tal motivo que a poesia, mesmo quando grafada, mantŽm as marcas da origem, de sua natureza propriamente original. Isto porque a poesia nasceu na voz e da voz, intimamente ligada ao corpo, ou seja, a poesia nasceu como teatro de signos. E justamente porque Ž teatro de signos Ž que, ao l�-la no texto escrito, est‹o l‡ em reverbera�‹o as marcas da origem. Por conta dessas marcas, o homem n‹o pode deixar de ouvir, mesmo na escritura, essa voz ancestral, esses tra�os ainda vivos de uma ancestralidade indelŽvel.

Ler Ž decodificar signos grafados, signos traduzidos em sinais gr‡ficos, mas ler tambŽm implica a recupera�‹o das marcas originais da palavra, porque a palavra originalmente n‹o Ž letra, mas voz e corpo.

A qualidade poŽtica de um texto est‡ ligada ˆ natureza teatral da voz, porque a voz Ž teatral desde os prim—rdios; ela Ž poŽtica porque a poŽtica envolve a conjuga�‹o de diferentes signos, tendo em vista a produ�‹o de uma linguagem plurissignificativa, n‹o apenas no plano conceitual, mas, de igual modo, no plano sensorial, porque a plurissignifica�‹o nunca Ž somente conceitual – ela s— se instala no momento em que o conceito se alia ˆ sensorialidade. Quando uma linguagem sufoca a sensorialidade dos seus signos tendo em vista o privilegiamento do conceito, ocorre sua despoetiza�‹o, ou seja, sua desteatraliza�‹o e consequente monologiza�‹o. O monologismo Ž a marca de uma linguagem despida de sensorialidade, linguagem tŽcnica, formal, espartilhada, sem liberdade, sem a menor condi�‹o de contribuir para a transforma�‹o do homem, de fazer hist—ria, porque Ž puro registro est‡tico de fatos concretos. A hist—ria humana s— se faz quando o homem assume sua poeticidade, sua teatralidade natural. O homem Ž um ser teatral, repito. As sociedades do passado, que abafaram a natureza teatral do homem, morreram; e Ž o que parece estar ocorrendo hoje, face ˆ pseudo-seguran�a, e ˆ pseudo-certeza dos discursos monovalentes, que escravizam e amorda�am o pensamento, a criatividade, a a�‹o, a livre circula�‹o das ideias. E o poŽtico Ž isto: espa�o livre de circula�‹o e dan�a dos saberes, que fecunda culturas, insemina civiliza�›es.

PoŽtica das culturas orais – poŽticas das culturas apoiadas nas linguagens verbi-voco-visuais, sens—rio-conceituais e multissignificativas. Melhor seria falar de poŽticas vocais, pois que, e pensando nos ensinamentos de Zumthor, a vocalidade como produ�‹o concreta do homem, como energia, Ž mais palp‡vel, ou vis’vel, que a oralidade. AlŽm disto, a voz confere, atravŽs de cada timbre, um sinete autoral. Evoco a quest‹o da emiss‹o da voz como algo musicante, entendendo com Ruth Finnegan (2008) que a mœsica vocal pode estar na can�‹o ou na fala, nos recitativos, nas declama�›es. Penso, pois, em n’veis de musicalidade vocal, que na can�‹o pode ser acentuadamente mel—dica.

A anula�‹o da oralidade Ž imposs’vel, porque n‹o Ž poss’vel eliminar as marcas da voz. E ao falar em poŽticas da voz, falo das linguagens sens—rio-conceituais, em que o conceito n‹o se imp›e apenas no plano do logos, mas se faz espa�o cambiante e prism‡tico de sensa�›es e sentidos, de experi�ncias mœltiplas verbi-voco-sens—rio-corporais.

 

Encontros poŽticos moventes

 

Trago como exemplos dessa poŽtica sensorial os espet‡culos teatralizados em torno do poeta Ant—nio Aleixo, hoje uma voz sem corpo, que se insinua em seus poemas/quadras como um canto, vindo de um outro tempo, mas que ecoa, ainda nesse sŽculo XXI, combativo, ir™nico, denunciador, provocador de incontida euforia coletiva e, em todos os momentos, atual’ssimo. Trago tambŽm como exemplo dessa poŽtica sensorial a atua�‹o perform‡tica do poeta Ant™nio Vieira, tambŽm hoje uma voz sem corpo.

Rondas. Rotas. Mapas. Sagas. Peregrina�›es. Travessias. Andan�as. Veredas. Literatura de movimento. Poesia n™made. Poesia movente. Poesia da voz viva. Poesia do social. Poesia de carne e sangue.

Homero, imitador, criador de apar�ncias – pelo menos para Plat‹o era assim –, saiu pelo mundo e deixou plantada sua Odisseia. Semente que se multiplicou atravŽs do canto das sereias. As sereias, m’ticos seres, testemunharam as diversas travessias do her—i quase-divino, mais-que-humano. As vozes dessas sereias, ecoadas no vai e vem das espumas, diziam de narrativas fabulosas. Diz-se, hoje, de marcas espec’ficas dessas narrativas: viagens reais e viagens imagin‡rias.

Literatura de fric�‹o: encruzilhada. Ponto de encontro, intersec�‹o de literatura com outras sŽries art’sticas. Penso, sobretudo, em mœsica/som, em dan�a/gesto, imagem/olho.

Essa literatura movente, poŽtica viajeira, que vai e volta da letra ˆ voz, inscrita no que se denomina poŽticas da voz, permite circularidade entre as v‡rias culturas.

Este estudo p›e, pois, em relevo interfaces nas obras de dois poetas ÒpopularesÓ. De um lado, o poeta portugu�s Ant—nio Aleixo e sua s‡tira Òhuman’sticaÓ, com destaque para o recurso apropriado da expressividade verbal. De outro lado, o poeta brasileiro (baiano) Ant™nio Vieira e a ’ndole musicante de sua poesia sat’rica, integrando o que denominou ÒCordel Remo�adoÓ. A poesia de ambos os poetas, feita para provocar vibra�‹o nas palavras, aponta para a coreografia do gesto, no palco semovente oralidade/escritura.

 

 

O poeta de l‡: Ant—nio Aleixo

O dia foi 4 de setembro de 2019, uma bonita manh‹ de ver‹o. No comboio 180 (Alfa Pendular), cadeira 51, parto, enfim, de Lisboa para LoulŽ. Nunca tinha ido ao Algarve! Minha expectativa Ž a terra do poeta, Aleixo. Ainda naquele dia contemplaria sua est‡tua[5]. Interessante Ž entender a import‰ncia dada a um poeta popular e isto Ž algo muito especial, mas que n‹o me consola e me faz refletir sobre lacunas imperdo‡veis que acontecem no Brasil, meu pa’s. Bem que algumas vozes importantes j‡ se levantaram nesse sentido, a exemplo dos alertas de M‡rio de Andrade e de Carlos Drummond.

Fiquei hospedada no Allons-y Guesthouse, Rua de S‹o Domingo, 13, bem perto do famoso ÒCafŽ CalcinhaÓ, reduto dos improvisos de Aleixo, reduto das mem—rias em torno dele.

Em LoulŽ, agrad‡veis surpresas: 1. o encontro com Helena Miguel, especialista no que se refere ao arquivo de documentos e fotografias do Museu Municipal de LoulŽ – agrade�o a Helena o contato, a visita ao museu, explica�›es da Sala Polivalente da Alcaidaria do Castelo, as conversas sobre o Brasil, loas a Portugal, ao Algarve, a LoulŽ. Simp‡tica e acolhedora, Helena se mostrou sens’vel e inteligente. 2. O acolhimento generoso do professor/pesquisador J.J. Marques, incluindo importantes e elucidativos di‡logos sobre quest›es e pesquisas das oralidades, visitas a monumentos e um agrad‡vel almo�o. 3. Uma bem montada exposi�‹o sobre a rica trajet—ria de T—ssan. 4. O di‡logo com o Presidente do Concelho, muito bem avaliado e respeitado pelos louletanos e, por coincid�ncia, neto do poeta Ant—nio Aleixo. Essa minha visita o deixou comovido ao tomar conhecimento da proposta de uma pesquisa em terras brasileiras sobre a poŽtica de seu av™. Historiador, V’tor Aleixo me presenteou com uma alentada edi�‹o de Encontros Imagin‡rios, de autoria de HŽlder Mateus da Costa, premiado escritor, dramaturgo, encenador e autor. Percebi, pois, que Vitor Aleixo entendeu muito bem minha proposta com base nos di‡logos imaginados entre Aleixo e Vieira. O referido livro reuniu uma sŽrie de encontros imagin‡rios promovida pelo Grupo de Teatro A Barraca, a partir de fevereiro de 2011, com o objetivo de Òinventar situa�›es e conflitos com figuras da humanidadeÓ (COSTA, 2015, p. 5). Nesses encontros se d‡, exatamente no Encontro Imagin‡rio 29, em 17 de novembro de 2014, um di‡logo insuspeitado entre Ant—nio Aleixo, C‰ndido de Oliveira e Juiz Veiga (COSTA, 2015, p. 329-338).

No Algarve, na primeira metade do sŽculo XX, Ant—nio Aleixo se tornou respons‡vel pela irradia�‹o de uma poderosa corrente do cancioneiro popular portugu�s. Tal corrente foi apontada pelo artista pl‡stico T—ssan[6], e por Joaquim Magalh‹es, um dedicado professor de liceu, figura indispens‡vel na divulga�‹o do poeta Ant—nio Aleixo.

Espantosamente lœcido e consciente de sua inclina�‹o poŽtica, Ant—nio Aleixo deixou registrada em versos sua concep�‹o de arte e de artista. E como artista, tinha um olhar caleidosc—pico, girante, que lhe permitia sair dos espa�os limitados de uma vida comum:

Vejo a arte definida

Na forma de descrever

O bem ou o mal que a vida

 

Nos faz gozar ou sofrer

Ser artista Ž ser alguŽm!

Que bonito Ž ser artista...

ver as coisas mais alŽm

do que alcan�a a nossa vista!

 

A arte Ž dom de quem cria

portanto n‹o Ž artista

aquele que s— copia

as coisas que tem ˆ vista

 

A arte em n—s se revela

sempre de forma diferente;

cai no papel ou na tela

conforme o artista sente

Textos poŽticos autorados, ditos em alta voz por este chamado poeta oral, do sul de Portugal, vendedor de cautelas e gravatas, guardador de rebanhos, cantor popular nas ruas, mercados e feiras, trazem express‹o filos—fica original, tantas vezes considerada Ò‡cidaÓ. Em quadra ou sextilha, poetava natural e exemplarmente, com vocabul‡rio surpreendemente adequado ˆs situa�›es em foco.

Motivos e temas variados, mas o tom melanc—lico e ir™nico na exibi�‹o da capacidade de improviso, vis‹o de mundo especial, com grande inclina�‹o para a s‡tira.

Esta inclina�‹o para exibi�›es e improvisa�›es j‡ se fazia evidente desde a mais tenra idade com perform‡ticas atua�›es como cantor das janeiras[7]. Cantava as quadras das janeiras e quando o repert—rio j‡ tinha sido repetido muitas vezes, o menino Aleixo fazia curiosas improvisa�›es que passaram a chamar a aten�‹o de todos.

Ant—nio Aleixo, l‡ pelos idos de 1939/1940, teve ajuntadas por um amigo (JosŽ Rosa Madeira) algumas quadras em duas folhas de papel e que viriam a se constituir nœcleo do seu primeiro livro: Quando come�o a cantar (1» edi�‹o, Faro, 1943; 2» edi�‹o, Coimbra, 1948; 3» edi�‹o, Lisboa, 1960)

Figura 1 ‒ Dedicat—ria de Ant—nio Aleixo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


                                                 

                                                  Fonte: Livro Quando come�o a cantar.

 

Depois, se seguiram: Intencionais – 1» edi�‹o, Faro, 1945; 2» edi�‹o, Lisboa, 1960; Auto da vida e da morte (1 acto) – 1» edi�‹o, Faro, 1948; 2» edi�‹o, Faro, 1968; Auto do curandeiro (1 acto) – 1» edi�‹o, Faro, 1949; 2» edi�‹o, Faro, 1964; Este livro que vos deixoÉ Volume I, 18» edi�‹o, Lisboa, 2003; Este livro que vos deixoÉ InŽditos – Volume II , 13» edi�‹o, Lisboa, 2003; InŽditos – 1» edi�‹o, LoulŽ, 1978; 2» edi�‹o, LoulŽ, 1979.

Seguindo seu ritual cotidiano de andarilho, Ant—nio Aleixo cumpriu o tra�ado do seu destino e ficou como um personagem-tipo, desses que marcam profundamente uma Žpoca, um espa�o social. Pessoa/personagem impressa na mem—ria do povo portugu�s, figura not‡vel e not—ria, poeta boquirroto, gritador e denunciador dos males sociais, expert na arte da performance, Ant—nio Aleixo encarnou a si mesmo em v‡rios papŽis, sobressaindo-se enquanto corpo/voz convertido em a�‹o, coisa viva, que alardeava, feria, rasgava, cauterizava, ecoando sempre um universo de sugest›es e sedu�›es.

Essa sua voz, inscrita no papel, como autor que foi de quadras e/ou sextilhas, ou articulada, a do narrador, a do cantor dos acontecidos do povo de Algarve, obteve enorme sucesso. Anunciava e denunciava tudo em voz alta, na busca de aperfei�oar o timbre, no gasto do fr‡gil poder de seus pulm›es, da materializa�‹o e da pulsa�‹o da voz, do ineditismo de suas performances, em um cont’nuo corpo a corpo com seu pœblico.

 

Figura 2 ‒ Quadra e glosas de Ant—nio Aleixo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       Fonte: Funda�‹o Ant—nio Aleixo, 2019.

Se Ant—nio Aleixo foi testemunha atenta e inquieta de momentos empolgantes da vida portuguesa, acompanhando a revolu�‹o dos costumes, afrontou tambŽm de dedo em riste essa ÒmodernidadeÓ. N‹o deve ser esquecido que Aleixo viveu e fez sua obra em um Portugal sob o regime ditatorial salazarista ou Estado Novo (1933-1975)[8]. No livro Ao encontro de Ant—nio Aleixo, Joaquim Magalh‹es conta que, por ocasi‹o do preparo para publicar Quando come�o a cantar, foi necess‡rio um exerc’cio cuidadoso: Òtudo o que n‹o pudesse ser motivo para eventual apreens‹o do livro, caso pudesse vir a ser considerado alvo das vistas curtas da censura intelectual de ent‹oÓ (MAGALHÌES, [s.d.], p. 10). Sabemos todos n—s que Magalh‹es[9] referia-se ˆ PVDE.

Decididamente, Ant—nio Aleixo nunca foi, como o personagem de Apollinaire, um vagabundo urbano, quase um clochard, um patŽtico perdido na multid‹o. Foi, antes, um poeta, dotado de grande poder de comunica�‹o. Um lœdico e lœcido poeta cuja voz soava m‡gica para o pœblico que o aplaudia e o tinha como seu leg’timo porta-voz. Pela boca desse extraordin‡rio artista fala a outra voz, a voz do poeta sens’vel ˆ vida de seu povo.

Sua voz, seja como sussuro de confid�ncia – note-se o car‡ter notadamente autobiogr‡fico da maior parte dos poemas de A. Aleixo (FERREIRA, 1978) – seja altissonante como a da multid‹o na pra�a, me faz ouvir o tempo que passou e que volta transformado, mesmo que seja numa folha de papel. Para a exibi�‹o de suas quadras e/ou sextilhas, sonetos, glosas, poemas com v‡rias estrofes, autos[10], Ant—nio Aleixo lan�ava m‹o de recursos inusitados e imprevistos.

N‹o concordo com certos pronunciamentos que se referem ˆ incorre�‹o da escrita de Ant—nio Aleixo como senha para que o poeta fosse inclu’do num grau abaixo do que se convencionou como poeta culto. Essa distin�‹o entre literatura/poesia popular e literatura/poesia erudita ou culta n‹o tem mais sentido. Tida como ing�nua, rude e tosca pela hist—ria liter‡ria, a literatura/poesia popular, na realidade, Ž um tipo de manifesta�‹o ficcional e imaginativa bastante pr—xima daquela que se costuma chamar propriamente de literatura, n‹o existindo diferen�as de ess�ncia entre um e outro tipo de produ�‹o, j‡ que possuem, de modo an‡logo, aquilo que Ž comum a qualquer obra, seja qual for a tradi�‹o a que esteja vinculada: sua capacidade de criar formas significativas, expressivas e reveladoras da exist�ncia humana. Ali‡s, a pretensa ingenuidade que se atribui ˆ literatura/poesia popular parece-me algo que se gostaria de encontrar na literatura culta. Em verdade, o preconceituoso posicionamento por parte dos eruditos com rela�‹o ˆ literatura/poesia de express‹o popular reflete, simult‰nea e contraditoriamente, o desejo e a rejei�‹o de uma inoc�ncia e uma ignor‰ncia invejadas, j‡ que seriam elas o verdadeiro testemunho e garantia de certa autenticidade e originalidade de raiz, nem sempre vis’veis em manifesta�›es liter‡rias de car‡ter erudito.

Estou de acordo, pois, com aqueles que viram inspira�‹o muito rara nas quadras de Aleixo em v‡rios momentos, e com um tom forte, expressivo, ajustado em vocabul‡rio justo e cortante.

                                Figura 3 ‒ Manuscrito de Ant—nio Aleixo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


                                                     Fonte: Funda�‹o Ant—nio Aleixo, 2019. https://fundacaoantonioaleixo.com/wp-content/uploads/2016/10/5822007_orig.jpg

Nesse mundo girante, a atualidade dos versos improvisados de Aleixo o insere na contemporaneidade quanto ˆ expressividade do corpo e da voz como fen™menos poŽticos totais, traduzindo as gritantes e t‹o presentes misŽrias e desigualdades dos seres humanos, alŽm de uma postura cr’tica com rela�‹o a si mesmo, postura esta a que se referiu em uma de suas œltimas quadras, recordada pelo irm‹o de T—ssan, Armando dos Santos:

Quando em mim penso com calma

e me compreendo melhor

bem merecia que a minha alma

tivesse um corpo maior

Tudo isso toma assento no pensamento de Paul Zumthor ao se referir ˆ rela�‹o voz e gesto:

Um la�o funcional liga de fato ˆ voz o gesto: como a voz, ele projeta o corpo no espa�o da performance e visa a conquist‡-lo, satur‡-lo de seu movimento. A palavra pronunciada n‹o existe (como o faz a palavra escrita) num contexto puramente verbal: ela participa necessariamente de um processo mais amplo, operando sobre uma situa�‹o existencial que altera de algum modo e cuja totalidade engaja os corpos dos participantes.

[...] o gestus d‡ conta do fato de que uma atitude corporal encontra seu equivalente numa inflex‹o de voz, e vice-versa, continuamente (ZUMTHOR, 1993, p. 243-244, grifo meu).

Sabe-se da vida cotidiana do homem e do poeta, como ele apareceu, local, dia e hora. Sabe-se de sua fam’lia, av—s, pai, m‹e, irm‹os, amada, filhos e netos. Sabe-se de sua saœde fr‡gil. Sabe-se de suas proezas heroicas e sedutoras. Conhecem-se seus poemas e recitam-nos de cor. N‹o h‡ dœvidas sobre estas quest›es.

Sei que, em Portugal, Ant—nio Aleixo Ž muito conhecido para que seja necess‡rio insistir sobre ele. Mas insisto. Insisto em mergulhar num amplo espa�o, fluido e disperso, de textos, entrevistas, relatos, participa�‹o em semin‡rios, sess›es de homenagens e outros tipos de manifesta�›es, onde Ant—nio Aleixo se delineia como um mito, personagem transformado em sugestiva figura romanesca, feita de evoca�›es e sugest›es ret—ricas e poŽticas, de achegas, de fragmentos e que ganha for�a como paladino de uma nova ordem. Mito, no caso, entendido, por extens‹o de significado, como concep�‹o individual ou coletiva, espŽcie de cren�a vaga, oscilante, de gosto, de culto, de adora�‹o leiga, espont‰nea ou cultivada.

A composi�‹o da imagem do poeta, no caso, decorreria da articula�‹o das imagens de uma realidade dada, com base em documentos oficiais, colhidas na mem—ria, mas tambŽm, de imagens que obedecem aos ditames de uma imagina�‹o mais propriamente criadora uma vez que atravessam gera�›es e se imp›em ou afirmam na coletividade, propiciando a cria�‹o de poetas m’ticos, como Ž o caso de Ant—nio Aleixo.

Para isso, foi necess‡rio despir-me de prŽ-conceitos tradicionais, esdruxulamente laudat—rios ou eufemisticamente malŽvolos, observando as possibilidades de olhares (furtivos, voluptuosos, impass’veis, ternos, apaixonados, invejosos, parciais) sobre um centro m—vel e continuamente ˆ deriva.

Com o objetivo de delinear o mito de um poeta-g�nio, encontro respaldo no pensamento – ainda muito atual – de J. Tynianov quando acentua que, Òem certas Žpocas, a biografia torna-se literatura oral ap—crifaÓ (TYNIANOV, 1971, p. 116).

Ant—nio Aleixo foi, sem dœvida, um personagem singular no momento em que viveu, e tambŽm na dimens‹o m’tica que lhe foi atribu’da pelo povo, pelos cr’ticos e atŽ por sua pr—pria poesia.

Ao me referir a uma personalidade m’tica, falo de um conjunto de atributos que se evidenciam mais em determinados poetas ou artistas. Trata-se de algo que lhes vem do interior e atinge o exterior, delineando-lhes um c’rculo luminoso como se fosse uma aurŽola, conferindo-lhes ÒsantidadeÓ e poderes quase divinos, sem que, por vezes, exista qualquer conex‹o entre tal processo de mitifica�‹o e a qualidade da obra. Em sua biografia de Maiakovski, Roman Jakobson acentua:

Quando esse mito entrou na vida, foi imposs’vel sem esfor�o sobre-humano tra�ar um limite entre a mitologia poŽtica e o curriculum vitae do autor, e o testamento de Maiakovski viu-se inteiramente justificado: na vida aut�ntica do poeta, Ž significativo apenas aquilo que foi Òdefendido com a palavraÓ (JAKOBSON, 1993, p. 134).

A especial venera�‹o que se tributa ˆ imagem de Ant—nio Aleixo, porŽm, implica o assentamento e desdobramento de um sem nœmero de tra�os, reais ou fict’cios, biogr‡ficos ou textuais, retrabalhados tambŽm pelo imagin‡rio. As imagens revigoram a mem—ria, estimulam-na.

O poeta Ant—nio Aleixo, enquanto personagem, construiu-se na cr’tica e na boca do povo, e sua vida converteu-se, repetindo Barthes, num plural de encantos. Tentativas (algumas atŽ felizes) de mitific‡-lo ainda em vida se acentuaram com a morte. A partir da’, foi um fluir ininterrupto de imagin‡rios diversificados e atŽ fabulosos. Os contornos do personagem e do mito permanecem, porŽm, atŽ hoje, imprecisos. Todos apostam, entretanto, em algumas constantes: a cr’tica mordaz, as limita�›es financeiras, a saœde debilitada, o talento para atrair multid›es, o g�nio criador de retumbantes e inflamadas imagens. Historiadores e bi—grafos costumam apresent‡-lo como um poeta que teve grande repercuss‹o, nacionalmente, entre os cr’ticos e o pr—prio povo.

 

Fonte: Exposi�‹o T—ssan, em LoulŽ, 2019.

 

Fonte: Exposi�‹o T—ssan, em LoulŽ, 2019.


Figura 5 ‒ Aleixo e T—ssan


             Figura 4 ‒ Desenho de Ant—nio Aleixo por T—ssan

       

 

Deste modo, a semeadura do mito se deu, e o mito floresceu e frutificou. N‹o se sabe a ponta do novelo nem o embara�o das linhas, mas pouco importa. No caso, verdade e fic�‹o, emo�‹o e raz‹o se fundem, se misturam. Cada um quer acrescentar um dado novo, e nesse jogo de dados, de varia�›es e interpreta�›es, os espa�os do mito v‹o sendo preenchidos – porŽm nunca se preenchem – e a personagem se esculpe nos sons da voz, nos grafos da escritura, nas leituras e releituras cr’ticas, no teatro, nas ruas, escolas, agremia�›es, nas figura�›es pl‡sticas, nos espa�os culturais, espalhados por todo Portugal e chegando ao Brasil.

Sementes plantadas, aqui e ali, em Portugal, onde s‹o publicados, ditos (e atualizados) poemas como se fossem de sua autoria. Nesse sentido, trago, aqui, a reflex‹o de J.J. Marques, ao mencionar a sec�‹o ÒEr—ticas, Burlescas e Sat’ricasÓ, de InŽditos:

 

Refiro-me em primeiro lugar ao seguinte aspecto: depois de mencionar as ÒquadrasÓ (no sentido de quadras glosadas) Òpicantes, mas recheadas de humor e mal’ciaÓ integradas na sec�‹o ÒEr—ticas, Burlescas e Sat’ricasÓ, que obtivera Òpor intermŽdio de velhos amigos do poeta, que as ditaram de mem—riaÓ, Ferreira confessa: Òo nosso trabalho neste campo consistiu em dar ˆs vers›es orais destas ÔquadrasÕ a forma escrita que nos pareceu mais pr—xima duma composi�‹o de A. AleixoÓ.

ƒ curioso (para os mais rigorosos ser‡ talvez arrepiante) ver a boa consci�ncia com que Ezequiel Ferreira admite ter retocado aqueles versos, de modo a aproxim‡-los do que Aleixo teria escrito. Como Ž que ele sabia determinar qual a forma Òmais pr—xima duma composi�‹o de A. AleixoÓ Ž coisa que n‹o diz... Assim como n‹o diz que altera�›es fez (MARQUES, 2013, p. 43, grifos meus).

AlŽm disso, h‡ uma grande quantidade de versos memorizados de pr—pria autoria do poeta algarvio ou versos criados em que lhe s‹o feitas refer�ncias, como o de Natanael Pian�o, citado por Ana Paula Guimar‹es (2000, p. 136) em N—s de Vozes – acerca da tradi�‹o popular portuguesa:

N‹o quero ser um Aleixo

Nem ser Torga nem Miguel

E uma mensagem vos deixo

S— quero ser Natanael.

Surgem tambŽm par—dias, pois vale sempre lembrar que a imagem e a obra de Ant—nio Aleixo encontram ainda hoje repercuss‹o e resson‰ncia junto ao povo, da’ Ž bom pensar em Mikhail Bakhtin, ao apontar Òo coro popular rindo na pra�a pœblicaÓ (BAKHTIN, 1987, p. 11). Esse referido coro era alimentado por parodistas, que se utilizavam de modelos de obras conhecidas e aceitas pelo pœblico para, invertendo-lhes o sentido, produzir novas vers›es. Os autores parodiados atestavam, assim, sua popularidade. Desse modo, isso se d‡ com Ant—nio Aleixo. A repercuss‹o desse poeta Ž realmente espantosa, sobretudo em Portugal. Em cada canto, em cada esquina, Ž poss’vel conversar sobre Ant—nio Aleixo!

 

 Figura 7 ‒ Est‡tua do Poeta na Quinta do

                              Lago (LoulŽ)

 


  Fonte: Acervo pessoal da autora.


 

Figura 6 ‒ Escultura Ant—nio Aleixo em Madeira, de M‡rio Albano

 Fonte: Escultura Ant—nio Aleixo em Madeira, de M‡rio Albano, Galeria da Galeria da Exposi�‹o, JosŽ Manuel Figueiredo, Baixa da Banheira, Vila de Moita, 2019.

 

 

 

 

 

 


Hoje, Ant—nio Aleixo, que Ž verbetado na Nova EnciclopŽdia Larousse, cuja obra se encontra espalhada por v‡rias bibliotecas em Portugal e fora de Portugal, a exemplo da Biblioteca Nacional do Brasil[11], da Library of Congress[12], da Biblioth�que Nationale de France[13], Ž nome de rua, de agremia�›es culturais, de escolas, com destaque para a Funda�‹o[14] Ant—nio Aleixo, sediada na Av. JosŽ da Costa Mealha, 14 – 1¼ andar, LoulŽ.

Figura 9 ‒ Placa da Rua Ant—nio Aleixo

 


   Figura 8 ‒ Placa da Funda�‹o Ant—nio Aleixo

Fonte: Acervo pessoal da autora.

Fonte: Acervo pessoal da autora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Em texto esclarecedor, o pesquisador e professor portugu�s J. J. Dias Marques registra a preciosidade da n‹o t‹o numerosa cole�‹o de manuscritos de Aleixo conservada na Funda�‹o Manuel ViŽgas Guerreiro, em Queren�a, concelho de LoulŽ (2013, p. 48). Registra, ainda, duas outras institui�›es que conservam manuscritos do poeta: a Biblioteca da Universidade do Algarve, em Faro e a Funda�‹o Ant—nio Aleixo, em Quarteira/LoulŽ (e j‡ aqui referida).

Aleixo foi prestigiado na ‡rea musical por grandes nomes da can�‹o, com realce para Zeca Afonso[15] e sua famosa Balada Aleixo, no LP Cantares de JosŽ Afonso, 1967.

 

 

Quem canta por conta sua

Canta sempre com raz‹o

Mais vale ser pardal na rua

Que rouxinol na pris‹o

Adeus que me vou embora

Adeus que me quero ir

Deita c‡ estes teus olhos

que me quero despedir

 

Com os cegos me confundo

Amor desde que te vi

Nada mais vejo no mundo

Quando n‹o te vejo a ti

 

Adeus que me vou embora

Adeus que me quero ir

Deita c‡ esses teus olhos

Que me quero despedir

 

 


                                                              Figura 10 ‒ Cartaz do espet‡culo

                                                   Fonte: Acervo pessoal da autora.

Aleixo, que escreveu autos, figura tambŽm em espet‡culos teatrais, a exemplo do espet‡culo Diz-me, Ant—nio[16], um tributo ao poeta algarvio Ant—nio Aleixo, no Teatro das Figuras, em Faro. Integrado no programa 365 Algarve, Ž uma coprodu�‹o da ArQuente Associa�‹o Cultural, com o apoio da Dire�‹o Regional de Cultura do Algarve e parceria da Eating Algarve Tours. Trata-se, segundo a divulga�‹o do espet‡culo, de uma nova cria�‹o da Rede Azul – Rede de Teatros do Algarve, revisitando a obra de Ant—nio Aleixo – na passagem dos 120 anos do seu nascimento – como Òum cruzamento art’stico entre dan�a, mœsica e spoken wordÓ.

A esmola n‹o cura a chaga;

Mas quem a d‡ n‹o percebe

Ou ela avilta, que ela esmaga

O infeliz que a recebe.

 

A ninguŽm faltava o p‹o,

Se este dever se cumprisse:

– Ganharmos em rela�‹o

Com o que se produzisse

         Figura 12 ‒ Est‡tua de Ant—nio Aleixo em LoulŽ

 Figura 11 ‒ L‡pide de Ant—nio Aleixo, CemitŽrio de LoulŽ

 

 

 

 



Fonte: Acervo pessoal da autora, 2019.

 


             

Fonte: Acervo pessoal da autora, 2019.

 

 


O poeta de c‡: Ant™nio Vieira

 

Ant™nio Vieira

Nasceu em Santo Amaro

Tem sobrenome do pai

O nome, a m‹e deu, Ž claro

No ano de 49

Introduziu-se no orbe

Onde faz o seu trabalho.

 

Viajou pelo Brasil

Investigou um bocado

Escreve em seus cordŽis

Imagens que lhe marcaram

Resgates e personagens

An™nimos e consagrados[17].

 

Ant™nio Vieira, com poemas narrativos, capazes de suscitar a curiosidade do ouvinte/leitor, confiava na for�a de sua imagina�‹o ao rearticular hist—rias inscritas na tradi�‹o, dando-lhes novas cores e fisionomias. Sabia Vieira que sua palavra tinha poder, que poderia repercutir no imagin‡rio social, provocando atŽ certa euforia coletiva, e influenciando os sonhos e atŽ mesmo os destinos, pois que se insinua e penetra nos ouvidos, transmitindo encantamentos pela letra e pela voz.

Sabia, de igual modo, que sua atividade de poeta, nascida no contato direto com o pœblico, abriu caminho para seu sucesso como herdeiro dos trovadores medievais.

Leitores eu vou contar

E este Ž meu papel

De poeta, cordelista

Cantador e menestrel

Como tudo come�ou

De que forma aqui chegou

O folheto de cordel (s.d., p. 26)

A poŽtica popular narrada em folhetos de cordel j‡ em si transgride os c—digos da escritura, que Ž um desenho da voz. E, ao romper as linhas que limitam a escrita ao tamanho do papel, essa poŽtica se imp›e, transita por espa�os moventes e, sinuosa, se molda aos diversos contextos, como o escolhido por Vieira como Cordel Remo�ado. Essa proposta de Ant™nio Vieira traz o di‡logo da tradi�‹o rural com o urbano, do antigo com o contempor‰neo, incluindo a participa�‹o do narrador/cantador in presentia ou midiatizado em shows gravados. Mais uma vez busco apoio em Zumthor, ao tratar das atua�›es dos jograis quando predominava a Òpalavra gesticulada dos poetas, a mœsica, a dan�a, esse jogo c�nico e verbal que Ž linguagem do corpo e coloca�‹o em obra das sensualidades carnaisÓ (ZUMTHOR, 1993, p. 45).

Na proposta poŽtica de Ant™nio Vieira, o corpo participa da a�‹o de dizer, desde a variada tonalidade da voz ou a estrutura�‹o r’tmica atŽ a gesticula�‹o corporal, que se manifesta nos movimentos das m‹os, nos meneios da cabe�a, na curvatura do tronco, na dan�a do corpo de um lado para outro, para frente, para tr‡s, num vai e vem pr—prio da atua�‹o perform‡tica.

Ant™nio Vieira comp™s seu personagem movido evidentemente pelo desejo de se distinguir da multid‹o das pra�as pœblicas: usava um chapŽu tipo Òpanam‡Ó e portava um viol‹o como se fosse extens‹o de seu pr—prio corpo, marcas de um artista.

 


                                                      Figura 13 ‒ Ant™nio Vieira

                                          Fonte: Acervo pessoal da autora.

 

Ant™nio Vieira, que come�ou realmente a escrever e a atuar j‡ no sŽculo XXI, nesse terceiro mil�nio, tinha perfeita no�‹o de sua fun�‹o de poeta/pesquisador. Nesse sentido, n‹o foi um improvisador – confessava que utilizava a estrutura e o pr—prio nome de Cordel – e chegou a fazer uma classifica�‹o de sua obra, naturalmente ancorado nas classifica�›es feitas por estudiosos da literatura popular. Deixou uma obra marcada por um elevado teor de intencionalidade, preocupa�‹o com os debates acirrados de um novo momento, conformando uma polifonia de narrativas de grande interesse. Trago, aqui, por exemplo, uma de suas propostas, qual seja a da cole�‹o afro-Brasil, com um conjunto de folhetos abordando a tem‡tica da africanidade e sua repercuss‹o na forma�‹o do povo brasileiro.

No rol de sua produ�‹o poŽtica, figuram duas colet‰neas – Hist—rias que o povo conta, volumes I e II – e um CD gravado – Ant™nio Vieira: o cordel remo�ado – com 12 mœsicas narradas e/ou cantadas.

Homem sens’vel e atento ˆ diversidade de seu pœblico, Ant™nio Vieira sabia seduzir plateias, como ocorria nos shows que eram cuidadosamente preparados. Por conta disso, foi convidado pela TVE (TV Educativa/IRDEB/Bahia) para gravar um especial, o que foi concretizado em 2005.

As atua�›es perform‡ticas de Ant™nio Vieira provocaram repercuss‹o na Escola de Artes C�nicas da Universidade Federal da Bahia. O professor Dr. Armindo Bi‹o, de saudosa mem—ria, escreveu um pref‡cio para a colet‰nea Hist—rias que o povo conta, de Ant™nio Vieira:

H‡ alguns anos, lecionando para jovens estudantes de teatro, da Universidade Federal da Bahia, e tratando com as possibilidades Žpicas (narrativas) e dram‡ticas (de a�‹o) do cordel, convidei para fazer uma aula para meus alunos o poeta, compositor e cantor Ant™nio Vieira, que me foi apresentado por Antonio Marques, estudante da turma. A publica�‹o do livro deste artista hoje aqui (2003, por ocasi‹o de uma feira nacional do livro, na Bahia) Ž um importante momento do hist—rico acima relatado. Ler um folheto de Ant™nio Vieira, em sua presen�a, numa festa de 13 de maio em Santo Amaro, sua terra, t�-lo fazendo uma nova aula – desta vez aberta – para meus novos alunos da UFBA, h‡ algumas semanas e mais recentemente, t�-lo num projeto da Funda�‹o Cultural para um pœblico maci�amente jovem (o Julho em Salvador), s‹o outros momentos daquele hist—rico pessoal, que se completam com as considera�›es que se seguem (BIÌO, 2003, p. 12-13).

Em 2004, Ant™nio Vieira teve a oportunidade de fazer uma viagem a Portugal, desejoso de conhecer a terra de Ant—nio Aleixo, poeta por quem nutria uma profunda admira�‹o. L‡, fez alguns shows e se encantou com a Universidade de Coimbra.

Em rota de viagem, Ant™nio Vieira deixou gosto de quero-mais no seu antol—gico encontro virtual com Ant—nio Aleixo. Encontro dos dois Ant™nios. Ant™nio Vieira viajou da Bahia para Portugal e o fez no duplo sentido: real e imagin‡rio. Em suas andan�as por terra de alŽm-mar, redesenhou um encontro poŽtico insuspeitado.

Na Bahia, sabia muito bem Ant™nio Vieira que o centro da cidade de Salvador n‹o era somente reduto de sobrad›es onde se misturam os cheiros de dend�, incenso, cravo e canela. Era tambŽm reduto de tipos humanos, populares ou n‹o, que passavam das ruas para a mem—ria, a exemplo de Greg—rio de Mattos, poeta seiscentista que nasceu no casar‹o de n¼ 8 da Pra�a Anchieta (bem em frente ao Cruzeiro de S‹o Francisco, cruz de m‡rmore erguida em 1807, sob a batuta de Frei JosŽ de S‹o Sebasti‹o), expoente maior da nossa poesia barroca e que circulou de viola em punho pelos becos e ladeiras, satirizando desafetos pessoais e pol’ticos, ele que era doutor in utroque jure pela Universidade de Coimbra.

A viagem que Ant™nio Vieira fez a Portugal possibilitou-lhe reflex‹o a respeito de si pr—prio, de seu pa’s, de seu povo, abrindo espa�o para a constru�‹o de um discurso sobre o outro. O poeta da terra de samba-de-roda e usinas de a�œcar viu sua viagem como um aprendizado, como experi�ncia vivencial e textual. O ritmo Ž do sujeito que tudo olha, tudo contempla e tudo fixa. O desejo de conhecer os lugares por onde versejou Ant—nio Aleixo fez com que, para Ant—nio Vieira, essa viagem se tornasse mais ’ntima e imagin‡ria que real. Ao olhar o outro, estabeleceu de imediato um di‡logo entre a sua cultura e aquela do outro. Importava, para ele, ler o outro, buscar identidades e diferen�as, tentando reviver, atravŽs do corpo textual, tudo aquilo que viu ou contemplou.

O olhar de Vieira – aqui, evoco Bachelard – passa de algo passivo para algo ativo, de movimento, n‹o sendo o olho seu s’mbolo, mas a m‹o, que tem movimento e Ž criadora, ao agir sobre o objeto observado (BACHELARD, 1991). Tens‹o no olhar. Olhar que se transforma em atividade criadora, transferindo para a m‹o do escritor a fixa�‹o dos instantes. Instantes viajeiros, agora fixados, dinamizados pela imagina�‹o. Nos campos do imagin‡rio, a mem—ria se rearruma, se rearticula, se reorganiza, redimensionando, desse modo, o que foi olhado, tocado, cheirado, ouvido, saboreado. Imagina�‹o que opera, portanto, transforma�›es de dados efetivos que se movem em espa�os fluidos e tempos imemoriais.

A viagem de Vieira a Portugal, lugar de espa�o e tempo para experimenta�›es, fez vicejar uma nova proposta de escritura: n‹o documento, n‹o testemunho, n‹o mem—ria. Mas um bocadinho de cada, compondo um tecido de mœltiplos fios e de intrincados tran�ados que se exp›em nos v‡rios deslocamentos, no tr‰nsito, na err‰ncia por opostos espa�os, na dimens‹o cambiante de toda mudan�a.

Veja-se que suas cr™nicas/relatos/narrativas de viagem lan�aram sementes para seus folhetos, nos quais, por exemplo, Portugal foi muito alŽm de refer�ncias hist—ricas, arquitet™nicas, e passou a significar um espa�o de liberdade por onde os personagens circulavam num vai e vem incessante. Nesse espa�o, a’ inclu’do o cotidiano do trabalhador, do vagabundo, do moleque, h‡ o desfrutar dos prazeres, sugerindo possibilidade de felicidade. Escapam, assim, os personagens de Vieira da dimens‹o da raz‹o e passam a expressar-se em outro plano, plano t‹o enevoado, pleno de matizes e cambiantes, plano aberto, sem f—rmulas fixas, r’gidas ou definitivas. Nesse plano, tudo pode ser mudado, tudo est‡ em constante ir e vir como as ins—litas espumas flutuantes.

Viajar Ž preciso. No confidenciar desse viajor, h‡ a divis‹o entre a viagem real e a viagem da imagina�‹o. Uma interfere na outra, possibilitando reflex›es para a compreens‹o da op�‹o estŽtica e ideol—gica do escritor. Nessas viagens, Vieira pensou e refletiu a poesia e as v‡rias dimens›es da oralidade e da musicalidade.

Essa viagem para Portugal motivou o folheto O Encontro de Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo. N‹o h‡ aventura imposs’vel para a imagina�‹o do poeta, que viaja solto, sem rŽdeas, nas asas do vento. Voam os poetas de cordel, obcecados pelos voos.

Espa�o e tempo se movimentam e as narrativas ressurgem com novas fisionomias no rec™ncavo da Bahia. S‹o tra�os de uma narrativa oral, movente, surpreendentemente camale™nica, que ressurgem nos intrigantes textos de literatura de cordel. Composto de septilhas setessil‡bicas, e editado com o apoio da Funda�‹o Cultural do Estado da Bahia em 2005, o folheto, j‡ no seu in’cio, indica rever�ncia ao poeta portugu�s:

Grande mestre Ant—nio Aleixo

Eu estando em Portugal

Para cantar os meus versos

Em sua terra natal

N‹o lhe pedi permiss‹o

Para tal interven�‹o

Perdoe-me, n‹o fiz por mal!

Apenas n‹o conhecia

Sua verve merit—ria

Que o povo portugu�s

Guarda viva na mem—ria

E fala com muito zelo

Do poeta cauteleiro

Que deixou o nome na hist—ria.

Nesse folheto, o poeta viaja atravŽs da imagina�‹o sem travas e sem limites. Aporta o poeta no mundo portugu�s e estabelece rela�›es com o mudo de Òc‡Ó:

Mas como eu considero

O mundo um s—: l‡ e c‡

Tomei a iniciativa

De com voc� versejar

Baseado na ess�ncia

Que a sua sapi�ncia

Me inspirou a cantar.

Fascinado pela viv�ncia entre rios – SubaŽ-sergi-mirim, Araguaia, Paragua�u, Tocantin—polis, Arataœ, Itapecuru –, o poeta Ant™nio Vieira, de Santo Amaro/Bahia, era atento observador do dif’cil cotidiano de seu povo, de um povo sofrido e carente. N‹o ser‡ dif’cil, portanto, entender a fabulosa viagem que o poeta empreende em busca de um outro espa�o. Assim, vai a Coimbra e contempla o Mondego. Contempla�‹o igualmente se dar‡ com a ida a Braga quando avista o Douro.

Essa narrativa em versos metrificados Ž, sem dœvida, baseada em modelos que s‹o recriados com base na circula�‹o de elementos textuais viajantes, n™mades, que se combinam aqui e ali, fazendo surgir hist—rias sempre prontas a se refazer na infinitude das leituras poss’veis. Num complexo processo da boca ao ouvido e do ouvido ˆ boca, ocorre o afastamento gradativo da matriz original. E a modifica�‹o da matriz original de uma hist—ria assentada na tradi�‹o tem, a meu ver, um aspecto transgressor, que seduz pela novidade, oriunda da imagina�‹o, essa forma de aud‡cia humana.

A voz do poeta popular inquieta, se adentra em variados mundos, transmite verdades e sonhos, funda reinos fabulosos ou n‹o. Essa voz em muta�‹o se reelabora constantemente, tecendo e retecendo os retalhos da tradi�‹o em formas novas e fisionomias particulares.

Escrito por um poeta de acentuado esp’rito cr’tico, o folheto h’brido – septilhas e peleja em quadras – com a vers‹o do encontro fict’cio entre o Ant—nio portugu�s e o Ant™nio brasileiro da Bahia, Ž uma viagem pela imagina�‹o. Com sua palavra cheia e cantante, Ant™nio Vieira se insere, agora, no rol dos criadores de viagens fant‡sticas.

A narrativa de viagem real de Ant™nio Vieira exp›e a experimenta�‹o ao vivo das mais variadas manifesta�›es art’sticas de nossos antepassados portugueses: poesia, mœsica, drama. Na volta, sob a a�‹o da mem—ria e da imagina�‹o, selecionou os fatos experenciados e os metamorfoseou em viagens fict’cias.

Ant™nio Vieira ter‡ sua vida escrita[18], certamente, por bi—grafos, e ela trar‡ a legenda da heroiciza�‹o. Desde a terra de origem (Bahia) – uma terra m’tica – atŽ as pessoas que o cercam – parentes, amigos, admiradores –, dizem eles que Vieira foi um homem ’mpar, mœltiplo e v‡rio. E eu, que cheguei a conhec�-lo, concordo que seus v‡rios perfis se superp›em: o Ant™nio Vieira de Santo Amaro da Purifica�‹o, cantada terra do Rec™ncavo baiano; o Ant™nio Vieira na cidade de Salvador, seduzido pelas luzes da ribalta; o Ant™nio Vieira da fam’lia (com Coracy e filhos); o Ant™nio Vieira agitador, arauto da liberdade; o Ant™nio Vieira, poeta que figura no pante‹o de grandes poetas da literatura de cordel; o Ant™nio Vieira dos palcos, mestre violeiro e ex’mio cantador; o orador destacado de semin‡rios e entrevistas; o inesgot‡vel combatente, apoiador ardoroso de um pensamento afro-descendente; o Ant™nio Vieira, modelo de eleg‰ncia e aud‡cia; o Ant™nio Vieira dos jovens, o arrebatado paladino da liberdade, o ut—pico, o sonhador; o Ant™nio Vieira das gera�›es mais velhas, modelo de homem justo, educado, orador brilhante, poeta de estirpe; o Ant™nio Vieira do povo, o simples, o defensor dos oprimidos, o proclamador das igualdades sociais.

 

 


                    Figura 14 ‒ Ant™nio Vieira em atua�‹o

      Fonte: Acervo pessoal da autora.

Ant™nio Vieira deixa uma grande contribui�‹o ao conceituar uma nova maneira de pensar o cordel, denominado por ele de cordel remo�ado, e que consiste na apresenta�‹o do cantador recitando/cantando fragmentos de hist—rias tradicionais em processo de uso da bricolagem com novas hist—rias de sua lavra, satirizando os acontecimentos, denunciando mazelas. Com for�a e forte carisma, o poeta exibia gestos, tons de voz adequados a cada narrativa cantada. O poeta Vieira fez, em verdade, uma releitura do cordel, fazendo o texto circular e, desse modo, ÒcosturarÓ habilmente as linhas da tradi�‹o e da contemporaneidade sem deixar entre elas lacunas e Òpontos vis’veisÓ.

Ardoroso defensor do prest’gio que deveria ser dado ˆ poesia ÒpopularÓ, A. Vieira buscou estabelecer um di‡logo com os poetas sem subservi�ncia, sem tirar seu chapŽu como rever�ncia.

A cantora e intŽrprete Maria Beth‰nia, tambŽm nascida em Santo Amaro da Purifica�‹o/Bahia, gravou, ao som de um instigante fundo musical com percuss‹o e lev’ssimo dedilhar de viol‹o, um irreverente poema de seu conterr‰neo[19]:

 

A nossa poesia Ž uma s—

Eu n‹o vejo raz‹o pra separar

Todo o conhecimento que est‡ c‡

Foi trazido dentro de um s— moc—

 

E ao chegar aqui abriram o n—

E foi como ela sa’sse do ovo

A poesia recebeu sangue novo

Elementos deveras salutares

 

Os nomes dos poetas populares

Deveriam estar na boca do povo

No contexto de uma sala de aula

N‹o estarem esses nomes me d‡ pena

 

A escola devia ensinar

Pro aluno n‹o me achar um bobo

Sem saber que os nomes que eu louvo

S‹o vates de muita qualidade

O aluno devia bater palmas

 

Saber de cada um o nome todo

Se sentir satisfeito e orgulhoso

E falar deles para os de menor idade

Os nomes dos poetas populares.

Ant™nio Vieira foi acometido por um c‰ncer pulmonar. Durante 10 anos, lutou contra essa doen�a e, segundo me relatou sua viœva, ele dizia sempre ÒEu estou doente, n‹o sou doenteÓ. Essa doen�a se espalhou para a medula —ssea e o poeta veio a falecer no dia 10 de maio de 2010, deixando mulher e tr�s filhos.

FOLHETOS[20] DE ANTïNIO VIEIRA:

1.             A medicina altru’sta de Doutor JosŽ Silveira, xilo: Naizuo, 2001.

2.             Santo Ant™nio de P‡dua, a PŽrola Maior da Ordem Franciscana, edi�‹o especialmente produzida para o Evento Ant™nio Tempo, Amor, Tradi�‹o – ANO V – 2001 (MOSTRA DE ARTE – de 1¼ a 13 de junho, Centro de Mem—ria dos Correios, desenho s/i, acr—stico, 24 p.,  junho de 2001.

3.             Mouraria, tradi�‹o Mouro Cigana, desenho s/autoria, acr—stico. 16 p. outubro de 2001.

4.             A poesia esculachada dÕEle, o Tal Cu’ca de Santo Amaro, xilo com a figura do poeta popular Cu’ca de Santo Amaro, de autoria do xil—grafo Natividade, acr—stico, junho de 2002.

5.             Pop— do Macul�l� de Santo Amaro, 2» edi�‹o, desenho, agosto de 2002.

6.             O encontro de Besouro com o valent‹o Doze Homens, 4» edi�‹o, acr—stico, desenho s/identifica�‹o, setembro de 2002.

7.             Usar ChapŽu – uma arte milenar, 12 p‡ginas, desenho s/autoria – acr—stico, outubro de 2002

8.             Se a ferrovia traz progresso e porque o trem parou?, 16 p‡ginas, acr—stico. Funda�‹o Luis Ademir de Cultura, S‹o FŽlix/Bahia, 2002.

9.             Akar‡-Je – o mesmo que comer fogo, xilo: Natividade, 8 p‡ginas, acr—stico, janeiro de 2003.

10.          O sacerd—cio humanista de Monsenhor Gaspar Sadoc, 8 p‡ginas, acr—stico, mar�o 2003, foto do Padre.

11.          Manuel Faustino dos Santos Lira, o m‡rtir santo-amarense da Conjura�‹o Baiana, desenho s/ident, 12 p., acr—stico, abril de 2003.

12.          Feli�a – uma prostituta que ensinou uma gera�‹o inteira, 8 p‡ginas, Xilo Luiz Natividade, com acr—stico, abril de 2003.

13.          Dona Can™[21], referencial de M‹e e de Sabedoria, 12 p‡ginas, acr—stico. Capa, foto de D. Can™, setembro de 2003.

14.          Aprende a escrever na areia, desenho sem identifica�‹o, 8 p‡ginas, acr—stico, com informa�‹o aos leitores, no verso da capa, Çque a hist—ria foi inspirada na obra de Malba TahanÈ. Na capa: ÇD� cordel de presenteÈ[22], dezembro 2003.

15.          Palmares, a for�a da ra�a negra, xilo s/i, 20 p‡ginas, acr—stico fora do padr‹o.

16.          P‡ginas, acr—stico, fevereiro de 2004.

17.          Louva�‹o do poeta ˆ Funda�‹o Cultural do Estado da Bahia, abril de 2004.

18.          Igrejas da Bahia, um estado de esp’rito, desenho s/identifica�‹o, (Espa�o Cultural In‡cio da Catingueira), 28 p‡ginas, acr—stico, dezembro de 2004.

19.          O encontro de Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo, junho de 2005, com 26 p‡ginas e um acr—stico. Na capa, desenho dos dois poetas: por Natividade (A. Vieira) e Toss‡n (A. Aleixo). ContŽm um texto de Joaquim Magalh‹es, datado de fevereiro de 1975 – Actualidade Viva de um poeta Morto.

20.          Assis Valente, o santamarense que queria ver Tio Sam tocar pandeiro, 8 p‡ginas, acr—stico, s/d.

21.         

Fonte: Foto da autora.

Fonte: Foto da autora.

A Peleja da ci�ncia com a sabedoria popular, xilo de Gabriel Arcanjo e Luiz Natividade, contra-capa, Hino Nacional de CDA (uma quadra), 65 p. Acr—stico. 3» edi�‹o, junho de 2013.

Figura 16 – Espa�o Cultural In‡cio da Catingueira, criado por Ant™nio Vieira e sediado em sua pr—pria casa


Figura 15 ‒ Capas de folhetos de Ant™nio Vieira

 

 

Os dois Ant™nios: Aleixo e Vieira

Ant—nio Aleixo e Ant™nio Vieira viveram em espa�os e tempos distintos. Enquanto o Ant—nio Aleixo viveu um momento em que n‹o se assistia, se vivia, Žpoca em que Òuma corrente magnŽtica ligava todas aquelas almas, tornando-as solid‡rias na comunh‹o emotivaÓ (TORGA, 1960, p. 68), Ant™nio Vieira viveu e transitou em outros espa�os e outra Žpoca, exatamente entre as quatro œltimas dŽcadas do sŽculo XX e a primeira dŽcada do sŽculo XXI (1962-2010).

Ant—nio Aleixo ficou dividido entre alguns espa�os: o de sua origem em Vila Real (centro piscat—rio), o de LoulŽ (agr‡rio artesanal) e onde se deu seu real assentamento a partir da inf‰ncia, vida inst‡vel e por pouco tempo em Fran�a, passagem importante por Coimbra. Nos anos 1930-1940, o poeta conviveu em muitos encontros com reconhecidos algarvios, que se pronunciavam quanto ao inconformismo da pol’tica, eram anticlericais e com assentados princ’pios Žticos.

O conjunto da obra de Ant—nio Aleixo mostra um grau elevado de insatisfa�‹o com o mundo. A melancolia e a s‡tira compuseram a maior parte de sua obra e isto Ž um consenso entre os pesquisadores.

Ant™nio Vieira tambŽm ficou dividido entre alguns espa�os: o de sua origem como filho mais velho do dono de um pequeno armazŽm na cidade de Santo Amaro da Purifica�‹o (quando crian�a, escrevia ÒversinhosÓ no papel de embrulho das mercadorias), depois a circula�‹o por v‡rios estados do Brasil, a servi�o de uma institui�‹o federal (INCRA), atŽ se firmar em Salvador, capital da Bahia. Mas, quis atravessar o Atl‰ntico para sentir os ares da terra por onde transitou o poeta portugu�s Ant—nio Aleixo.

O conjunto da n‹o extensa obra de Ant™nio Vieira mostra uma consci�ncia de seu fazer art’stico como uma forma de conscientizar seu povo e fazer isto tambŽm de maneira divertida, em busca por reiventar alegrias. A s‡tira de sua poesia convergia para uma s‡tira ÒjocosaÓ, em que o riso se unia ˆ reflex‹o, pois n‹o visava o c™mico. Assim, de maneira camale™nica, apontava sua ironia tran�ada de sutilezas para tratar da realidade social da Žpoca.

Por sua presen�a, impressa de forma indelŽvel na mem—ria dos poetas, dos cantadores, dos estudiosos da cultura popular, dos intelectuais e do pr—prio povo portugu�s, como figura de proa, agitador, refer�ncia, Ant—nio Aleixo, artista de destacada produ�‹o, um expert na arte da performance, transformou-se em l’der e numa espŽcie de modelo.

Ant™nio Vieira ainda Ž muito pouco estudado e, portanto, n‹o tem uma fortuna cr’tica, m’nima que seja, sobretudo no Brasil, um pa’s que mantŽm, n‹o t‹o aparentemente mas com um delicado desdŽm, uma separa�‹o entre os poetas ÒeruditosÓ e ÒpopularesÓ. Muito me chama a aten�‹o, em Portugal, uma aura m’tica em torno do Aleixo, o que acho instigante e bastante pertinente.

Ah! Sedu�‹o (se-ducere: afastamento, desvio do caminho, encanto, atra�‹o, fasc’nio), jogo e desafio, lance de dados, ritual sem vencedor nem vencido, presen�a do trompe lÕoeil, espa�o onde se assentam as marcas da ilus‹o. Mas o momento da sedu�‹o n‹o Ž s— ilus—rio, tem um qu� de m‡gico, de encanto. A sedu�‹o, rito articulado no imagin‡rio, encena uma espŽcie de fantasia do real.

A pr—pria rever�ncia de parte do poeta Ant™nio Vieira diante da obra de Aleixo foi o eixo central para este estudo. Seduzido pela obra poŽtica de Aleixo, Vieira (2005, p. 5-6) buscou identificar-se, de certa maneira, com o poeta portugu�s.

 

Por termos muito em comum

Desde as ra’zes da terra

Porquanto seu sangue bom

As minhas veias preserva

No ano 49

Eu cheguei aqui no orbe

Voc� foi pra vida eterna.

 

As nossas vidas coincidem

Nascemos no mesmo m�s

Voc� no dia dezoito

Dezenove foi minha vez

Voc� veio c‡, primeiro

E o m�s de fevereiro

Nos recebeu bem cort�s.

 

E a partir de agora

Eu passo a versejar

Baseado em sua obra

As cantigas de atirar

Vou repetir uma linha

Com a qual eu fa�o a minha

Quadra que vai se casar.

E, assim, em pleno per’odo de uma pandemia, covid-19, meu deslocamento para pesquisas, aqui no Brasil, se deu movida pelo imagin‡rio. Em companhia desses dois poetas, busco perambular pelas ruas de LoulŽ ou da Bahia, insistindo na capta�‹o dos sentidos, do olfato ou da audi�‹o de momentos n‹o vividos. Por intermŽdio desses poetas, recomponho mapas e, imaginariamente, percorro ruas, becos, mercados e feiras populares para, em seguida, desenh‡-los na minha escrita. Assim, esses poetas procederam, observadores infatig‡veis da vida s—cio-pol’tica de sua polis.

Escrito por um poeta de acentuado esp’rito cr’tico, o folheto h’brido[23] – septilhas e peleja em quadras – com a vers‹o do encontro fict’cio entre o Ant—nio portugu�s e o Ant™nio brasileiro, Ž uma viagem pela imagina�‹o. Com sua palavra cheia e cantante, Ant™nio Vieira se insere, agora, no rol dos criadores de viagens fant‡sticas.

A narrativa de viagem real de Ant™nio Vieira exp›e a experimenta�‹o ao vivo das mais variadas manifesta�›es art’sticas de nossos antepassados portugueses: poesia, mœsica, drama. Na volta, sob a a�‹o da mem—ria e da imagina�‹o, selecionou os fatos experenciados e os metamorfoseou em viagens fict’cias.

 

Figura 17 ‒ Capa de folheto


Fonte: Acervo da autora.

 

 

Ë guisa de conclus‹o ou pensando em concluir

Se, por um lado, utopia pode parecer um discurso ilus—rio, por outro, se apresenta como um poss’vel entendimento do real, capaz de transformar o ilus—rio numa fun�‹o construtiva do discurso poŽtico. Desse modo, as decep�›es, os fracassos, as engana�›es convergem para a cria�‹o de novos mundos. Seriam esses novos mundos um refœgio e um testemunho da inadequa�‹o ˆ realidade vivida? Da’ o chamamento para a utopia nesse mundo j‡ considerado Òdist—picoÓ e agora mais acentuada fica essa distopia por conta de um Ònovo normalÓ ou mundo Òp—s-pand�micoÓ.

As reflex›es em torno das obras desses dois poetas apontam uma tem‡tica abrangente que traz reflex›es sobre cultura, mem—ria, tradi�‹o e inven�‹o, tra�os que convivem conosco neste nosso mundo de hoje, marcado pela instabilidade e pela imprevisibilidade, pela mov�ncia e pelo di‡logo.

Neste in’cio de mil�nio, em que a humanidade em crise (econ™mica, pol’tica, ideol—gica, religiosa, Žtica, afetiva) aferra-se a incertos valores e duvidosas certezas, na busca do para’so perdido do passado, ou de instaurar o para’so poss’vel do futuro, creio que talvez valha a pena enveredar pela mem—ria e pela resist�ncia, sob o foco da cultura.

Nas entrelinhas desse texto, ecos e sons coreografam a dan�a saborosa do(s) saber(es), que, como Barthes vislumbrou, n‹o t�m qualquer tipo de fim, conclus‹o, alvo ou porto.

Este texto toca, aqui, pois, em assuntos candentes para se pensar a rela�‹o da globaliza�‹o e a diversidade cultural e faz um convite: olhar para o mundo e a vida, n‹o como espa�os de certeza, de precis‹o, de hierarquias tra�adas, mas antes de tudo como espa�os moventes, prism‡ticos, onde o que interessa Ž a ilumina�‹o, ao contr‡rio de luzes ofuscantes que impedem o olhar. O ouvinte n‹o vai se guiar por certezas absolutas, mas por curiosas indaga�›es que se mostram no espa�o de reflex›es sobre temas importantes.

Tendo por base dois poetas populares inseridos no par mem—ria/mov�ncia, este texto organizou-se, intencionalmente, no (des)compasso de sequ�ncias. Ao fim e ao cabo, pretendi com essa (des)organiza�‹o erguer uma espŽcie de babel cultural, na qual textos desses poetas tenham voz, em que nos seja permitido ouvir as falas em sua multiplicidade, e enxergar cintil‰ncias de significados.

Cultura Ž express‹o, express‹o que revela sentidos potenciais e infinitamente multiplicados. Assim, a possibilidade de as culturas se aproximarem, se tocarem, dialogarem e atŽ mesmo se completarem, mantendo suas individualidades como signos que produzem interpretantes com modos semelhantes de express‹o, ainda que por meios diferentes, ou suportes, para falar contemporaneamente.

As culturas n‹o s‹o excludentes, e, muito pelo contr‡rio, desembocam num ponto de conflu�ncia. E nesse ponto, com base nas ÒestratŽgias sens’veisÓ (SODRƒ, 2016), o Òlugar singular’ssimo dos afetosÓ atravessa e ilumina meu nœcleo de investiga�‹o que envolve a ideia de voz como espa�o de fronteiras entre culturas, como um tecido de tramas entre mem—ria, hist—ria, encena�‹o (corpo), tra�o, olho e letra – diferentes vozes que permeiam o que chamamos de poŽtica das culturas orais – e que, inscritas no presente, formam teias de contato com aquelas vozes marcadas na hist—ria.

Falo de textos que, resguardados pela impress‹o tipogr‡fica, trazem marcas acentuadas da voz, textos hibridizados entre sil�ncio, voz, gesto, imagem, mas percebidos tambŽm como performance do corpo, onde se d‡ a plenival�ncia da voz viva, dos fen™menos que remetem ˆ vocaliza�‹o, ˆ visualiza�‹o e ˆ gestualidade. O que se pretendeu aqui foi priorizar a voz poŽtica enquanto corpo e imagem. Na escuta de uma voz, na mirada de uma imagem, o leitor/receptor reencontra uma sensibilidade ÒanestesiadaÓ, ÒadormecidaÓ. O leitor/receptor, agora despertado, passa a ser uma espŽcie de coautor. E o despertar, enfim, de novos olhares, bem como o rompimento de um modelo est‡tico e convencional de nossas percep�›es, constituem-se em pontos fulcrais de reflex‹o sobre o poŽtico como um locus de resist�ncia e transgress‹o.

A poesia n‹o foi feita para ser lida t‹o somente em sil�ncio. Exige ser pronunciada, proferida em voz alta, j‡ que a palavra original Ž voz, Ž som. E a voz Ž a semente inaugural de toda comunica�‹o.

Apesar de escrita na maioria das vers›es e destinada, pois, a ser lida, a poesia traz em sua origem, e atŽ mesmo no corpo de sua escritura, a vibra�‹o da voz. O que a caracteriza, antes de tudo, Ž seu acento oral (mais acentuado, gritante, mais sutil), seus aspectos perform‡ticos (em maior ou menor grau), ou atŽ mesmo uma voz sem corpo (na aus�ncia do poeta ou diseur), apenas eco ou som de um fantasma, que invade nossos ouvidos.

Essas narrativas em versos metrificados s‹o, sem dœvida, baseadas em modelos que s‹o recriados com base na circula�‹o de elementos textuais viajantes, n™mades, que se combinam aqui e ali, fazendo surgir hist—rias sempre prontas a se refazer na infinitude das leituras poss’veis. Num complexo processo da boca ao ouvido e do ouvido ˆ boca, ocorre o afastamento gradativo da matriz original. E a modifica�‹o da matriz original de um texto assentado na tradi�‹o tem, a meu ver, um aspecto transgressor, que seduz pela novidade, oriunda da imagina�‹o, essa Òforma de aud‡cia humanaÓ, como acentuou Bachelard.

A voz do poeta popular inquieta, se adentra em variados mundos, transmite verdades e sonhos. Essa voz em muta�‹o se reelabora constantemente, tecendo e retecendo os retalhos da tradi�‹o em formas novas e fisionomias particulares.

Ambos os poetas, aqui redesenhados, exp›em o real, transfiguram-no imaginariamente, com o intuito de inscrever, no espa�o da p‡gina em branco ou no palco da oralidade, o tra�ado cambiante de suas mœltiplas viagens pelas veredas da poesia.

Enfim, h‡ Ant—nio Aleixo e h‡ Ant™nio Vieira que deixam marcas em suas obras, cicatrizes que apontam para a complexidade de suas for�as interiores, convergentes todas para um nœcleo de fogo e ar, onde crepitam as chamas da paix‹o e da liberdade. Liberdade na Paix‹o. Paix‹o pela Liberdade. Paix‹o e Liberdade – palavras de ordem desses dois poetas.

 

 

Refer�ncias

 

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BACHELARD, Gaston. O Direito de Sonhar. 3. ed. Trad. JosŽ AmŽrico Mota Pessanha. Rio de Janeiro: Bertand Brasil, 1991.

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DUARTE, Antonio de Sousa. Ant—nio Aleixo – o poeta do povo. Lisboa: åncora, 1999.

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JAKOBSON, Roman. La gŽnŽration qui a gaspillŽ ses po�tes. In: Questions de poŽtique. Paris: Seuil, 1973, p. 120-19.

MAGALHÌES, Joaquim. Ao encontro de Ant—nio Aleixo. Lisboa: Secretaria de Estado da Juventude e Desportos, s.d.

MAGALHÌES, Joaquim. Antonio Aleixo – testemunho em forma de apontamento breve sobre a vida e a obra do poeta. In: Literatura Popular Portuguesa – Teoria da Literatura Oral/Tradicional/Popular. Lisboa: Funda�‹o Calouste Gulbenkian, 1992, p. 43.

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ZUMTHOR, Paul. Introdu�‹o ˆ Poesia Oral. Tradu�‹o Jerusa Pires Ferreira e Maria Lœcia Pochat. Belo Horizonte/S‹o Paulo: Editora da UFMG/Humanitas, 2010.

 

[Recebido: 22 set 2020]



[1] Edilene Matos Ž ensa’sta, professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia. Ocupa a cadeira nœmero 13 da Academia de Letras da Bahia.

[2] Ant—nio Aleixo foi agraciado com o Grau de Oficial da Ordem de Benemer�ncia, em 27 de maio de 1944.

[3] Ant™nio Vieira (Ant™nio JosŽ dos Santos Vieira), poeta, nasceu em fevereiro de 1949 e morreu em junho de 2007.

[4] Cordel Remo�ado Ž um conceito criado por Ant™nio Vieira e consiste na palavra dita e/ou escrita ao modo dos folhetos de cordel, que se faz acompanhar pelo movimento do corpo ao som de instrumentos musicais: viol‹o, pandeiro e percuss‹o.

[5] Refiro-me ˆ est‡tua em bronze do poeta Ant—nio Aleixo, sentado ˆ mesa na Esplanada do CafŽ Calcinha, em LoulŽ, de autoria de Lagoa Henriques. H‡, ainda em LoulŽ, uma outra est‡tua de Aleixo, na Quinta do Lago, de autoria do mesmo Lagoa Henriques e igual ˆ do CafŽ Calcinha.

[6] Ant—nio Fernando dos Santos – T—ssan (1918-1991), grande amigo de Ant—nio Aleixo, foi um expressivo artista e poeta portugu�s.

[7] H‡, no sul de Portugal, um antigo costume de grupos de crian�as que v‹o de porta em porta, durante as festas natalinas, cantar as ÒjaneirasÓ, quadras que se v‹o repetindo, alterando-se apenas o nome do dono da casa, que Ž ent‹o homenageado em troca de algum dinheiro ou prenda natalina.

[8] Na concep�‹o de Ant—nio de Oliveira Salazar, o popular tem uma matriz rural, com a qual se identifica, explica�‹o dada em seus discursos pol’ticos. Cf. MELO, Daniel. O essencial sobre a cultura popular no Estado Novo. Coimbra: Angelus Novus, 2010.

[9] ÒEste sujeito Ž capaz/de fazer mil promessas/mas faz tudo ˆs avessas/das promessas que faz.Ó O primeiro verso dessa quadra era ÒO Salazar Ž capazÓ e foi substitu’do por Magalh‹es para proteger o amigo poeta. Cf. DUARTE, Ant—nio de Sousa. Ant—nio Aleixo, o poeta do povo. Lisboa: åncora, 1999, p. 79.

[10] Acrescida ˆ obra de improviso de Aleixo, a parte do teatro Ž muito interessante. S‹o tr�s autos: 1. O Auto do Curandeiro, no qual exp›e sua vis‹o a favor do saber mŽdico e faz cr’ticas ˆ explora�‹o dos curandeiros. 2. O Auto da Vida e da Morte. Nesse auto, o autor cria personagens como o da vida œtil e o da vida fœtil e traz novamente a vis‹o da ci�ncia a servi�o da vida. 3. Ti Joaquim. Auto inconcluso, escrito em coautoria com T—ssan, anuncia uma sociedade que n‹o tolera formas de subvers‹o.

[11] 7» edi�‹o do livro Este Livro que vos deixo, publica�‹o de V. Martins Aleixo, 1983, localizada em Obras Gerais IV – 348.3.33

[12] Ant—nio Aleixo: o poeta do povo por Ant—nio de Sousa Duarte. Lisboa: åncora, 1999. PQ 9261 – A484 Z67 1999; ALEIXO, Ant—nio. InŽditos (sele�‹o, pref‡cio, notas, fixa�‹o de textos e t’tulos por Ezequiel Ferreira. LoulŽ, 1978. NLCS 81/0610.

[13] ALEIXO, Ant—nio. InŽditos. LoulŽ. V. Aleixo, 1978. FRBNF 35232149; Este livro que vos deixo (3». ed.). Lisboa, 1975 (contŽm um inŽdito do autor – O Auto de Ti Joaquim). FRBNF 35408496.

[14] E-mail: fundacao.aleixo@gmail.com.

[15] Zeca Afonso – JosŽ Manuel Cerqueira Afonso (1929/1987), compositor, cantor, poeta, autor de v‡rias can�›es, incluindo Gr‰ndola, Vila Morena (Cantigas do Maio, 1971), que virou senha pelo Movimento que instaurou a democracia, em Portugal no dia 25 de abril de 1975.

[16] O espet‡culo Ž uma cocria�‹o e interpreta�‹o de Armando Correia, Carolina Cantinho e Pedro Pinto.

[17] Acr—stico de Ant™nio Vieira e constante de todos os seus folhetos a que tive acesso.

[18] Em 2007, foi defendida uma disserta�‹o de Mestrado em torno da obra de Ant™nio Vieira, sob o t’tulo O Cordel Remo�ado: os casos e prosas do poeta cordelista Ant™nio Vieira, de autoria de Maria Luiza Franca Sampaio, no Curso de P—s-gradua�‹o em Cultura, Mem—ria e Desenvolvimento Regional do Departamento de Ci�ncias Humanas, Campus V, da UNEB (Universidade do Estado da Bahia).

[19] Essa poesia foi declamada por Maria Beth‰nia no espet‡culo dentro do mar tem rio. E foi gravada posteriormente no DVD Piratas.

[20] Os folhetos eram tambŽm denominados por Ant™nio Vieira de ÒlivretosÓ. Esses folhetos/livretos foram adquiridos por mim nas m‹os de sua viœva (Coracy Vieira).

[21] Dona Can™: m‹e dos artistas Caetano Veloso e Maria Beth‰nia.

[22] Essa publica�‹o foi no m�s de dezembro e o poeta habilmente chamou a aten�‹o para a tradi�‹o de dar presentes no Natal, publicizando seu folheto.

[23] O Encontro de Ant™nio Vieira com Ant—nio Aleixo, folheto de autoria de Ant™nio Vieira, 2005. Este folheto se encontra na Biblioteca do Congresso Americano, AFC 1970/002: M08302.