Pontes sobre o rio Capiberibe e o mar

 

 

Brigdes over the Capiberibe river and the sea

 

 

Ana Cristina Marinho[67]

https://orcid.org/0000-0003-2645-6113

 

 

 

Resumo: O artigo busca construir uma cartografia de duas editoras/livrarias que publicavam/comercializavam colees de livros populares em finais do sculo XIX e incio do XX: a Livraria Portugueza, localizada na cidade do Porto, e a Livraria Contempornea, localizada na cidade de Recife, Pernambuco. Nesse mapa, encontramos dois comerciantes portugueses e um terceiro personagem, o poeta, editor e comerciante de livros Leandro Gomes de Barros, que viveu na cidade de Recife e manteve, nas duas primeiras dcadas do XX, uma intensa atividade ligada ao livro e leitura, caracterizando-se como um agente literrio. O encontro desses trs personagens possibilita discusses sobre a escrita, a leitura e a comercializao de livros no incio do sculo XX, no Brasil e em Portugal. O percurso terico foi norteado por discusses sobre a histria do livro e da leitura encontradas em Abreu (1999), Chartier (1997), Anselmo (1991) e Vencio (2005), alm de estudos sobre cartografias literrias de Fernandes (2012), Cury (2007), Harley (1990) e Martin-Barbero (2004).

Palavras-chave: Leandro Gomes de Barros; Livraria Contemporanea; Livraria Portugueza; Edies populares.

 

 

Abstract: The article seeks to build a cartography of two publishers/bookstores that published/marketed collections of popular books in the late 19th and early 20th centuries: Livraria Portugueza, located in the city of Porto, and Livraria Contempornea, located in the city of Recife - Pernambuco. On this map, we find two Portuguese traders and a third character, the poet, editor, and book trader Leandro Gomes de Barros, who lived in the city of Recife and maintained, in the first two decades of the 20th, an intense activity linked to books and reading, being characterized as a literary agent. The meeting of these three characters allows discussions about writing, reading, and selling books in the early 20th century, in Brazil and Portugal. The journey was guided by discussions about the history of books and reading (Abreu, 1999; Chartier, 1997; Anselmo, 1991; Vencio, 2005), in addition to studies on literary cartography (Fernandes, 2012; Maria Zilda Cury, 2007; Harley, 1990; Martin-Barbero, 2004).

Key-Words: Leandro Gomes de Barros; Livraria Contemporanea; Livraria Portugueza; Popular Editions.

 

 

 

 

 

Neste texto, busco refazer os caminhos de uma editora do Porto, a Livraria Portugueza, que publicava livros de cordel e os enviava para o Brasil, j em finais do sculo XIX e incio do sculo XX. Nessa mesma poca, criava-se e consolidava-se no Brasil a literatura de folhetos, diferente em vrios aspectos da literatura de cordel portuguesa. As obras impressas pelo editor portugus Joaquim Maria da Costa, e enviadas a Pernambuco, eram vendidas na Livraria Contemporanea, de Ramiro Moreira da Costa, casa frequentada pela elite pernambucana e tambm pelo poeta Leandro Gomes de Barros. Seguirei os passos de dois editores de livros populares e um proprietrio de livraria que exerciam suas atividades no perodo que vai de 1883 (data mais antiga de publicao de obras pela Livraria Portugueza a que tive acesso) a 1918 (ano da morte de Leandro Gomes de Barros).

Quando iniciei a pesquisa nos arquivos da Biblioteca Nacional do Porto, no esperava me encontrar com o poeta Leandro Gomes de Barros, antigo conhecido dos estudos sobre tradies orais e populares que fazem parte da minha trajetria como pesquisadora e professora de literatura na Universidade Federal da Paraba.[68] Inquietavam-me, naquele ano de 2013, as discusses veiculadas em jornais e revistas, e tambm em ambientes de discusso acadmica (congressos, seminrios) sobre os novos escritores de literatura brasileira que circulavam em diferentes espaos, participavam de feiras literrias e estabeleciam relaes diferenciadas com as editoras, o mercado, o pblico e a crtica.

Para Maria Zilda Cury, possvel falar em novas cartografias literrias, nesses primeiros anos do sculo XXI, pois os escritores assumem a postura de agentes culturais, transitando por espaos que no o estritamente literrio, o que, inevitavelmente, interfere na escrita de seus textos (CURY, 2007, p. 7). Pensando na literatura de folhetos no Brasil, chamada por Mrcia Abreu de um gnero editorial e no apenas um gnero literrio (ABREU, 1999), essas novas geografias narrativas no me pareciam to novas assim. Os poetas populares, nas primeiras dcadas do sculo XX, eram agentes culturais, viajantes performticos, sobreviventes do verso e da lira.

No estudo sobre a Tipografia So Francisco (1940-1972), em Juazeiro do Norte- CE, Rosilene Melo evidencia o quanto a histria das tipografias populares est ligada s estratgias de sobrevivncia criadas pelos poetas e editores, em um mercado que sofre tanto influncias econmicas quanto religiosas, familiares e afetivas (MELO, 2010). A literatura de folhetos no Brasil acompanhou os caminhos da estrada de ferro, do algodo e da borracha, mas tambm os caminhos da f, do misticismo, do encantamento pelo verso que transformaram pequenas cidades, como Juazeiro do Norte, em grandes centros de distribuio de folhetos de cordel.

No Nordeste brasileiro surgiram, ainda nas quatro primeiras dcadas do sculo XX, tipografias em cidades como Areia, Itabaiana, Guarabira e Catol do Rocha-PB, Novas Russas-CE e Currais Novos-RN. Em Juazeiro do Norte, a Tipografia So Francisco, posteriormente Lira Nordestina, se configurou como a maior editora popular, sobrevivendo durante 30 anos e agregando em torno da produo e venda de folhetos poetas, cantadores, danadores de coco e reisado, praticantes de umbanda e candombl, astrlogos, curandeiros, rezadores, artistas da madeira, da palha, do barro.

Se fosse possvel desenhar novos mapas culturais no Brasil, a partir da trajetria de poetas e vendedores de folhetos, as cidades de Belm (Editora Guajarina), Juazeiro do Norte (Tipografia So Francisco), Campina Grande (Tipografia Estrela da poesia) e So Paulo (Editora Preldio) estariam muito mais prximas da cidade de Recife, lugar escolhido por Leandro Gomes de Barros para editar seus folhetos, do que os estados vizinhos do Rio Grande do Norte e Alagoas.

            A construo de territrios se d a partir de interesses comerciais, polticos, mas tambm simblicos, afetivos, emocionais. As fronteiras geogrficas ou polticas no podem ser referncias para a delimitao de territrios culturais. Hoffman (1999) considera a desterritorializao como marca dominante nas produes literrias da ltima dcada do sculo XX. Personagens em trnsito, poetas transformados em agentes culturais, configuram o que a autora chama de novos nmades. Pensando na experincia dos poetas e editores da literatura de folhetos no Brasil, essas vivncias nmades no representam nenhuma novidade, como pudemos perceber ao longo da pesquisa.

A abordagem cartogrfica, que aqui busco seguir, toma a historiografia no como uma sucesso de fatos, eventos, e sim como uma justaposio de textos, mapas, enfatizando o processo de construo das relaes de poder presente nos textos (FERNANDES, 2012). Para Frederico Fernandes,

Enquanto a abordagem sincrnica culturalista guia-se pela tenso dicotmica, na qual os vetores ideolgicos de formao cultural so intensificados, a abordagem cartogrfica uma anlise descritiva e interventiva que considera os efeitos de subjetividade dos agentes envolvidos na performance (FERNANDES, 2012, p. 151).

Essa anlise descritiva e interventiva busca interligar sujeitos e objetos, na tentativa de construir novos mapas da cultura pois, segundo Martin-Barbero (2004), a cartografia no precisa representar apenas fronteiras, pode representar encontros, relaes, intercmbios. E nesse sentido do encontro e dos intercmbios que caminha a minha escrita, numa tentativa de ligar a cidade do Porto cidade do Recife, a vida de livreiros, editores e tipgrafos dessas duas cidades, ao percurso de poetas populares. Trs sujeitos se cruzam nessa histria: Joaquim Maria da Costa, editor da Livraria Portugueza, na cidade do Porto; Ramiro Moreira da Costa, portugus emigrado para Recife, proprietrio da Livraria Contempornea e Leandro Gomes de Barros, poeta e editor de folhetos, um dos responsveis pela criao do gnero literatura de cordel no Brasil.

 

 

Um Costa de l e outro de c

           

A Editora de Joaquim Maria da Costa, sucessor dos Machado & Costa, estava localizada no Largo dos Loyos, 55-56, Porto. A Livraria Portugueza vendia colees de entremezes, fados, contos populares, lindos livrinhos em versos amorosos e cartas amorosas em prosa e verso. Em um folheto de 1902 aparece o seguinte anncio: Linda Colleco de livrinhos amorosos; Linda Colleco de Oraculos; Livrinhos de Canticos Religiosos; Colleco de contos modernos; Linda Colleco de testamentos. Em 1903, a editora passou a vender tambm Almanachs e Reportorios Saragoanos para o anno e Histrias e contos recreativos para o povo. Publicava ainda a Coleco de fados modernos (1893 a 1897) que teve em torno de 16 nmeros. Na quarta-capa do folheto Brados de Comiserao a favor das almas do purgatrio (s/d) encontramos a seguinte indicao das atividades desenvolvidas pela Livraria Portugueza:

Neste estabelecimento h um variadssimo sortimento de compndios adoptados em todos os lyceus, collegios, aulas e escolas oficiais e particulares do reino; livros de missa e semana santa, desde o preo de 160 reis at 9$000 reis; obras msticas aprovadas pelas autoridades eclesisticas; literatura histrica e clssica, de direito e medicina; uma abundante colleco de romances dos melhores autores e a preos reduzidos; bom sortido de obras recreativas e populares; obras theatraes; dramas, comedias, scenas e poesias cmicas; livros em branco, cartilhas, pautas, traslados, almanachs e reportrios de todos os autores, histrias e contos em prosa e verso para o povo; Alphabetos, taboadas, methodo faclimo, catecismo, Manual Enciclophedico; impressos para as escolas e professores de instruo primaria. Grande desconto para revender. Pedidos a Joaquim Maria da Costa, com direo acima mencionada.

Alm dos cordis publicados pela Livraria Portugueza, tive acesso a textos e colees de histrias populares publicados por outros casas como a Typographia de Antonio Alvarez Ribeiro (Officina de Antonio Alvarez Ribeiro; Tipografia da viva Alvarez Ribeiro & Filhos); o Bazar Feniano - Livraria de Antonio da Silva Santos & C, que depois passa para Diamantino da Silva Cardoso, j no sculo XX; a Livraria Chardron de Lello & Irmo; a Livraria Lello e irmo; a Typographia Gandra e Filhos; a Livraria de J. E. da Cruz Coutinho e a Livraria Civilizao, de Eduardo da Costa Santos. O pesquisador Arnaldo Saraiva tambm menciona, no seu livro Folhetos de cordel e outros da minha coleo, outras 16 livrarias/tipografias/oficinas da cidade do Porto que editavam cordis (SARAIVA, 2006).

Selecionei uma coleo editada por Ramiro Moreira da Costa para acompanhar o percurso desses livros: a Coleo de Histria Populares. Os livros dessa coleo eram impressos na Typographia a vapor de Arthur Jos de Souza & Irmo, Largo de S. Domingos, 66-67 (ou 74-76). Cada ttulo da coleo era vendido, em 1904, por 60, 80 ou 100 reis. Segundo Giselle Martins Venncio,

As colees criadas pelas casas editoriais europeias podem ser consideradas o principal instrumento de afirmao do poder dos editores marcando uma verdadeira ruptura no processo de publicao de livros desenvolvido at ento. A criao de colees populares foi, justamente, o que permitiu aos editores o estabelecimento de um comando editorial atravs do qual eles passaram a estabelecer as normas do mercado (VENNCIO, 2005, p. 5).

No percurso feito pela pesquisadora, trilhando os caminhos da coleo Biblioteca do Povo e das Escolas, e que envolve trs livreiros/editores – David Corazzi, Lisboa; Francisco Alves, Rio de Janeiro e Gualter Rodrigues, Cear –, possvel conhecer aspectos da histria dos livros, desvendando, pelo menos em parte, a dinmica cultural que se estabelecia entre a Europa e as diversas regies do Brasil no sculo XIX (VENNCIO, 2005, p. 5). Seguindo esse mesmo caminho, tento traar uma cartografia da produo e comercializao de folhetos de cordel, de finais do sculo XIX at as primeiras duas dcadas do sculo XX, levada pela mo do poeta Leandro Gomes de Barros. Mas, antes, sigo a refazer o percurso que me trouxe de volta para o Brasil.

Tive acesso a 29 ttulos da Coleo de Histrias Populares, o mais antigo deles datado de 1891. Ttulos como as verdadeiras histrias da Princesa Magalona, da Imperatriz Porcina, de Joo de Calais, do infante D. Pedro de Portugal, do Imperador Carlos Magno, passando pela Verdadeira Malicia e maldade das mulheres e a malicia dos homens (1901) e chegando Histria curiosa e engraada do Preto e o Bugio Ambos no Matto, discorrendo sobre a arte de ter dinheiro sem ir ao Brasil e acrescentado com o engraado Tango Americano e O velho, o rapaz e o burro e as canonetas – o sonho (1897).

A editora tambm publicava a Bibliotheca de Leituras Populares, que reunia obras mais voltadas para histrias de crimes, venturas e desventuras amorosas, milagres de santos, monlogos para amadores dramticos, entre outros ttulos. E ainda, segundo informaes de Arnaldo Saraiva, a coleo de contos populares portugueses – 16 ttulos publicados desde o ano de 1885.

Joaquim Maria da Costa, no folheto Breves noes de Histria Ingleza, escreve a seguinte advertncia:

Advertncia do editor aos leitores dos livrinhos

Quando me resolvi publicar a Bibliotheca da Histria de todos os povos no tive em mira lucros a auferir de tal publicao, mas to somente divulgar o mais possvel pelas classes menos abastadas, que no conhecem as lnguas estrangeiras umas breves noes, ou pequeno resumo da Histria das grandes naes do mundo para instruo no s dos portugueses, mas dos filhos da outras naes que desejem aperfeioar-se no nosso idioma. Os portuguezes encontraro nesta amena leitura o conhecimento dos principaes factos dos povos que at hoje mal conheciam, e aos estrangeiros servir-lhe- de estmulo ao estudo quando desejem dedicarse lngua portuguesa, pois que ao mesmo tempo que se habilitam, pelo estudo, a uma lngua estranha, utilizam e recordam os feitos heroicos dos seus antepassados. Se o Editor desta interessante colleco de livrinhos uteis, poder conseguir o que intenta, julgar-se- bem pago do pequeno servio que julga prestar quelles que desejam instruir-se, preenchendo com esta publicao uma lacuna que desde h muito se sentia na literatura portuguesa. Porto, 1 de maro de 1903. O editor, Joaquim Maria da Costa.

Foi a partir dos anos 1845 que comearam a surgir as sries e colees populares em Portugal, destinadas ҈ vulgarizao de um modelo massificado da boa literatura, de conhecimentos teis ou de formas de comportamento social e moral (PINTO; MONTEIRO, 2013, p. 206). A abertura do mercado e a possibilidade de os editores ganharem dinheiro com a comercializao de obras parecia desagradar aos intelectuais e literatos, mas garantiu o sustento de muitas famlias e contribuiu para a profissionalizao desses mesmos trabalhadores.

Os livrinhos uteis que chegavam s classes menos abastadas atravessaram o mar e chegaram s mos de outro livreiro portugus. Nesse mesmo folheto de 1903 aparece a informao de venda das obras editadas na Livraria Portugueza para a ndia, frica, EUA (Califrnia) e Brasil. No Brasil o depsito geral de livros era a livraria do snr. Ramiro Moreira Costa & C, em Pernambuco.

E chego ao nosso segundo viajante, atraco no cais do porto, em Recife, e caminho at a rua 1 de Maro, onde estava localizada a Livraria Contemporanea de Ramiro Moreira da Costa. Em 1890, j aparecem notcias sobre caixas enviadas a Ramiro Costa em vapores que chegavam de Lisboa ao porto do Recife (Jornal A provncia, 21 de janeiro de 1890). A livraria vendia materiais para escritrio, instrumentos musicais, tinta e typos, brinquedos, impressos, ferragens, papel, livros, pratos de porcelana, pinturas de artistas franceses, charutos, imagens sacras, fotografias, mveis, bolsas escolares...

Sobre a vida movimentada do estabelecimento, do conta as seguintes notcias publicadas tambm no jornal A provncia:

- Exposio do retrato do grande chefe abolicionista e republicano cearence Joo Cordeiro, feito por Libanio Amaral (15 de maio de 1890);

- Exposio Peitoral de Cambar – quadro com a fotografia do suntuoso estabelecimento Agrico Industrial do Parque Pelotense [...] onde funciona a importante fbrica do precioso medicamento denominado Peitoral de Cambar (18 de janeiro de 1891);

- Exposio de um grande quadro das fotografias do atelier Frederico Ramosa (2 de junho de 1891);

- Anncio procura de professor para atuar no engenho da Gamelleira, tendo a livraria como local de contato (21 de janeiro de 1900).

            Chama a ateno uma exposio de um quadro de suntuoso estabelecimento que poderia funcionar para atrair compradores para um remdio que seria vendido, futuramente, no mesmo estabelecimento loja. A presena de anncios para a contratao de professores tambm evidencia o importante papel desempenhado pela livraria no campo da instruo e formao de novos leitores e leitoras.

Ramiro Moreira da Costa viveu 76 anos, entre idas e vinda a Portugal para cuidar da sade e dos negcios. Chegou ao Brasil em 1878, desembarcando no Maranho, onde foi comerciante durante algum tempo. Depois, em 1888, instalou a Livraria Contemporanea na cidade do Recife que passa, a partir de 1905, a aparecer nas notcias de jornal com o nome de Ramiro Moreira da Costa & Filho. Nesse perodo, o local, mais do que um ponto de venda, era um ponto de encontro de intelectuais, a exemplo do que acontecia no Rio de Janeiro, como demostram os estudos sobre livrarias, tipografias e editoras de Hallewell (1985), Abreu e Schapochnik (2005) e Venncio (2005), para citar apenas alguns nomes.

Ramiro Costa participou da vida cultural e de negcios da cidade do Recife. Foi suplente da comisso fiscal do Banco Popular, eleito em 1891; em 1900 possua 20 aes da Companhia Tethys de seguros martimos e terrestres; foi procurador do senhor Jos Gonalves Dias, proprietrio de fbrica de surragem, compra e venda de solla, sita a rua da Palma, n. 97 (A provncia, 16 de maio de 1900); fez parte da comisso de rbitros da Alfndega de Pernambuco para o fim de resolver sobre as questes que forem suscitadas acerca da classificao de mercadorias, na Classe 19 – Papel e suas aplicaes (A provncia, 14 de maro de 1901); juiz por devoo da tradicional festa do senhor Bom-Jesus do Bom-Fim a realizar-se no dia 01 de janeiro de 1906 na cidade de Olinda; acionista da Companhia Industrial Fiao e Tecidos de Goyanna, em 1906, negcio que passa a ser de um dos seus filhos; membro da Junta administrativa da Santa Casa de Misericrdia do Recife, 1916, e, por fim, integrante da Comisso Pro-Ptria criada em funo da situao melindrosa de Portugal diante da declarao de guerra feita pela Alemanha (A provncia, 20 de maro de 1916). Temos aqui apenas alguns exemplos da atuao de Ramiro Costa na cidade de Recife e tambm em Goyanna (atual Goiana-PE), nas duas primeiras dcadas do sculo XX.

Durante o velrio do seu filho, Eugenio de Almeida Costa, morto aos 36 anos, compareceram associaes religiosas, membros de associaes manicas, alto comercio, funcionrios pblicos estaduais e federais (A provncia, 09 de agosto de 1921). Talvez esse seja um bom resumo dos espaos ocupados pelo comerciante e da atuao do Costa de c, durante as cinco dcadas em que viveu na cidade do Recife.

 

E eis que surge o poeta

 

Construir uma cartografia de editores, impressores e livreiros das cidades do Porto e do Recife me levou a um encontro inusitado com o poeta Leandro Gomes de Barros, encontro este que terminou por me trazer de volta s questes que me inquietavam, naquele ano de 2013: sobre os novos escritores que circulavam em feiras e exposies, recebiam cachs para participarem de eventos culturais e acadmicos, chamados de verdadeiros agentes culturais. Seguindo os passos de Ramiro da Costa, atravs dos jornais disponveis na Hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como descrito anteriormente, eis que me deparo com a seguinte notcia: Enviado pelo seu autor o sr. Leandro Gomes de Barros, recebemos ontem um exemplar de sua edio de versos sobre A Morte do dr. Jos Marianno. Gratos. (Jornal de Recife, 20 de junho de 1912).

Leandro Gomes Barros, assim como o Ramiro Moreira da Costa que comunicava ao Jornal as novidades que chegavam sua livraria, tambm anunciava suas novas produes. Em 16 de novembro de 1915, o mesmo jornal noticia um opsculo do poeta, tomando por tema a morte do D. Luiz Raymundo da Silva Brito, arcebispo de Olinda. No dia 31 de maio de 1916, temos a seguinte notcia:

 

Um protesto

Veio ontem ao nosso escritrio o sr. Leandro Gomes de Barros, autor de numerosos versos populares, tais como A vassourinha e tantos outros e declarou-nos protestar contra o sistema de alguns indivduos venderem livros de versos com o seu nome. Entre outros citou o nome do Sr. Simo Francisco Marques, que assim procedeu no Amazonas.

 

            Protestos semelhantes tambm foram feitos pelo poeta Gonalves Dias, como comprovam os estudos de Marisa Lajolo: o poeta se queixava na imprensa sobre a distribuio no Brasil de exemplares da edio de seus poemas intitulados Contos, publicados em 1857 pelo tipografo/editor alemo Brockhaus, pois o contrato com a editora s permitia a distribuio do livro na Europa (LAJOLO, 2005).

            A participao de Leandro no mundo das editoras e livrarias no se restringia edio e venda de folhetos. possvel afirmar que ele administrava, com a ajuda da filha Rachel, que assinava muitos dos seus folhetos como uma forma de garantir a originalidade da cpia, um completo sistema de produo e comercializao. O poeta se inseria nas brechas do sistema (capitalista, globalizado) que envolvia, alm da escrita, a edio, publicao e venda de livros; a participao nas redes de socializao da cidade de Recife e de outras cidades; o envio de notas para os jornais e as viagens constantes s cidades de Juazeiro do Norte-CE, Paraba e Rio Grande do Norte, alm de cidades do interior dos estados de Pernambuco. A imagem do poeta popular com sua mala de livros debaixo do brao, vendendo em feiras de pequenas cidades do serto, no parece compor, por completo, a figura do Leandro Gomes de Barros que venho tentando desenhar.

            Em 23 de agosto de 1917, o poeta enviou ao jornal A provncia o folheto O po e a batata. Essa primeira notcia que encontrei me conduziu a uma srie de outras notas publicadas em jornais de Pernambuco e do Cear. No jornal O rebate (Juazeiro do Norte), de 28 de novembro de 1909, publica o cordel Lucta do diabo com Antonio Silvino. A partir dessa publicao, localizei outros 6 poemas, todos publicados numa seo intitulada Lyra Popular:

 

- A creao do mundo, em 19 de dezembro de 1909;

- As capas de uma viva, em 16 de janeiro de 1910;

- Ciume de duas noivas, em 23 de janeiro de 1910;

- O padre de Joazeiro, em 06 de fevereiro de 1910;

- A proclamao dos banhos, em 20 de fevereiro de 1910;

- As lagrimas de Antonio Silvino por Tempestade, em 6 de maro de 1910.

 

            O folheto Lucta do diabo com Antonio Silvino, publicado no jornal com um total de 26 estrofes, est disponvel na Coleo Cordel, da Fundao Casa de Rui Barbosa, numa verso com 40 estrofes. Nesse folheto tambm consta o poema Vingana dum filho. Foi publicado ainda nessa coleo o folheto As lagrimas de Antonio Silvino por Tempestade.

            Sobre o jornal O Rebate sabemos que foi impresso em Juazeiro do Norte-CE entre os anos de 1909 e 1911, com edies semanais, geralmente aos domingos. Fundado pelo padre Joaquim de Alencar Peixoto, tambm diretor e redator-chefe do jornal, tinha como propsitos contribuir para a autonomia poltica de Juazeiro, naquela poca subordinado ao Crato, e defender o Padre Ccero, um dos principais motivadores e apoiadores do peridico. Assis Daniel Gomes analisa os poemas publicados na seo Lyra Popular, nos anos de 1909 e 1910, e enumera os principais temas e poetas que ocuparam as pginas do jornal (GOMES, 2013). Leandro Gomes de Barros estava entre os primeiros, com 48% das citaes.

A publicao do folheto O padre de Joazeiro, em 06 de fevereiro de 1910, evidencia um trao do poeta que difere dos muitos outros folhetos nos quais a defesa do clero jamais aparecia. Talvez como parte das estratgias do poeta para se inserir na cultura letrada, o tom bastante ameno e h mesmo uma defesa do padre contra todos que o acusavam de se aproveitar da f e devoo dos pobres com fins polticos:

No serto do Cear

Apareceu um pastor

E qual outro Christo, nosso

Adorvel Salvador,

um anjo de bondade

Enviado do Senhor.

 

um pastor exemplar

O padre do Joazeiro

Do-lhe esmola e d esmola

E no interesseiro

Tudo que faz de graa

No aprecia dinheiro.

[...]

A uns quinze dias passados

Disse-me um velho romeiro

Que est suspenso de ordem

Por no ser interesseiro

Os padres detestam elle

Por no gostar de dinheiro.

[...]

Elle desses que detestam

A maldita corrupo

Julga que a graa de Deus

o verdadeiro po

E o homem lucra tudo

Se ganhar a salvao.

            As notcias veiculadas nos peridicos chamam a ateno para uma rede de sociabilidade que coloca o poeta em contato com as chamadas elites intelectuais da cidade de Recife e tambm do Juazeiro do Norte, alm de profissionais liberais e comerciantes em geral. Vejamos os que dizem os estudos mais recentes sobre a obra do poeta e sobre a literatura de folhetos do Nordeste.

Sobre o campo literrio que envolve a literatura de cordel, evidencio os estudos da pesquisadora Bruna Paiva de Lucena que vem discutindo, desde a sua dissertao de mestrado, defendida em 2010, esses lugares de disputa. No seu livro Poticas a cu aberto: o cordel e a crtica literria, Lucena (2018) tece crticas concepo escriptocntrica da literatura brasileira e a forma como a crtica literria, em especial as obras de Silvio Romero, Jos Verssimo, Afrnio Coutinho e Antonio Candido, lida com a presena/ausncia das literaturas de tradio oral na vida cultural do pas.

            Lucena (2018), no captulo I – Fora do Prumo, discorre ainda sobre as estratgias de resistncia utilizadas pelos/as escritores/as no mbito das poticas perifricas e populares. Menciona, a partir dos questionamentos de Judith Butler (posicionalidade estratgica) e James C. Scott (resistncia cotidiana), formas de resistncia presentes nas prticas dos/as escritores/as da literatura de cordel, que, para alguns setores do meio erudito, podem parecer formas de submisso.

Acredito que as prticas de Leandro Gomes de Barros, as estratgias utilizadas pelo poeta para conseguir viver de poesia, no adquiram esse carter de submisso, mesmo quando aparecem em meios eruditos. O trnsito entre os locais da cultura (BHABHA, 2005) por onde transitava revela, talvez, muito mais uma insero pelas bordas, com a inteno de fazer parte do centro, do que uma submisso, mesmo que estratgica. Leandro ocupa os jornais, as livrarias, os locais de prestgio, ao mesmo tempo que vende seus folhetos nas feiras, viaja pelos interiores com sua mala e compra briga na rua com aqueles que vendem seus poemas por debaixo do balco.

Um escritor que vive da venda de seus folhetos, que circula por vrias cidades do Nordeste, que publica versos em um jornal de Juazeiro do Norte-CE, no parece se encaixar no perfil traado por alguns pesquisadores e repetido infinitas vezes nos estudos sobre a chamada poesia popular. Vejamos a biografia presente no site da Fundao Casa de Rui Barbosa:

Sua atividade potica o obriga a viajar bastante por aqueles sertes para divulgar e vender seus poemas e tal fato comentado por seus contemporneos, Joo Martins de Atade e Francisco das Chagas Baptista [...]. Foi um dos poucos poetas populares a viver unicamente de suas histrias rimadas, que foram centenas. Leandro versejou sobre todos os temas, sempre com muito senso de humor.[69]

            Nascido na cidade de Pombal-Parahyba, em 1865, mas criado at os quinze anos na cidade de Teixeira, possvel afirmar que a formao de escritor passa pela mo de padres da Igreja Catlica (era sobrinho do Padre Vicente Xavier de Farias), de poetas/cantadores da cidade, como Francisco Romano, Germano da Lagoa e Silvino Pirau, de frequentadores das livrarias, tipografias e redaes de jornais e do mercado So Jos, na cidade de Recife, sem falar nos trilhos do trem. Como sabemos, a Rede Ferroviria do Nordeste (antiga Great Western of Brazil Ry) unia os estados do Rio Grande do Norte, Paraba, Pernambuco e Alagoas. Nesse mapa esto interligadas as cidades de Recife, Fortaleza, Teresina e depois Belm, que passou a ser um centro de produo e distribuio de folhetos no Brasil.

As andanas de Leandro Gomes pelos sertes sempre aparecem nas notas biogrficas. O que nunca aparece a sua atuao no meio intelectual da cidade de Recife, o convvio entre os homens de letras, as conversas na Livraria Contemporanea, visitas s bibliotecas e gabinetes de leitura (disso no tenho notcia, mas quero poder imaginar que, de fato, aconteciam).

possvel desenhar um mapa de percurso do poeta na cidade do Recife: da rua 1 de Maro, onde se localizava a Livraria Contemporanea, para o Mercado So Jos eram 7 minutos a p; o Gabinete Portugus de Leitura ficava a 2 minutos da Livraria e a Cmara Municipal, onde funcionou a Biblioteca Provincial (no perodo de 1875 a 1930), a 14 minutos, com uma passagem pela ponte Santa Isabel, ltima ponte sobre o rio Capibaribe.

Leandro Gomes de Barros, que escrevia, imprimia e vendia seus folhetos, tambm fazia suas performances nos mercados e estaes de trem, conversava com intelectuais da cidade, pagava anncios de suas produes nos jornais e denunciava alguns indivduos [por] venderem livros de versos com o seu nome, como pudemos acompanhar nesse estudo. Ruth Terra informa que o poeta vendia seus folhetos nas ruas de Recife, nos bares do largo das Cinco Pontas, nas estaes de trem e dentro dos trens (TERRA, 1983). Essa informao parece ter contaminado todas as outras aes do poeta, como se vender folhetos na rua e nas estaes de trem o impossibilitasse de tambm publicar seus versos em jornais e participar de ciclos de conversa e trocas de experincias de leitura em locais frequentados pela elite intelectual da cidade. Um pblico urbano, com prticas de sociabilidade que envolvem os gabinetes de leitura, as bibliotecas, as livrarias, parece no fazer parte da histria da literatura de cordel. E essa imagem vai se propagando nos vrios estudos sobre o gnero.

Por fim, retomo a discusso sobre cartografias e mapas na tentativa de imprimir mais alguns versos a essa narrativa. Para Harley (1990), a cartografia nunca apenas o desenho de mapas – ela a fabricao de mundos. E j que eu posso fabricar mundos, mas no sem muito esforo e apoiada em alguma documentao, imagino um mundo separado por um oceano, mas unido por poetas e cantadores, tipgrafos e homens de negcio.[70] Conversas na Livraria Contemporanea, visitas aos jornais e tipografias, calorosos debates em praas pblicas. As trocas culturais, nesse mundo globalizado do sculo XIX, como afirma Jean-Yves Mollier (2008), desafiam as fronteiras que ns mesmos, pesquisadores desse sculo XXI, insistimos em levantar. E se, no gnero editorial cordel, Belm fica bem mais perto de Recife do que a Parahyba, o Porto fica logo ali.

 

 

Referncias

 

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[Recebido: 29/12/2020 – Aceito: 29/12/2020]



[67] Professora do Departamento de Letras Clssicas e Vernculas e do Programa de Ps-Graduao em Letras da UFPB.

[68] A pesquisa aqui apresentada foi feita durante o estgio de ps-doutorado, realizado sob a superviso do professor Francisco Topa, na Universidade do Porto, entre setembro de 2013 e agosto de 2014.

[69] Coleo Cordel. Disponvel em: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/. Acesso em: 29 dez. 2020.

[70] No tive acesso a pesquisas que tratem da atuao das mulheres nesse campo, mas fica aqui o convite para futuras investigaes.