Corporeidade vocal e a pesquisa acad�mico-art’stica

 

Vocal Corporeity and Academic-Artistic Research

 

Vagner de Souza Vargas[1]

https://orcid.org/0000-0002-6350-9256

 


Resumo:
Abordagens investigativas relacionadas aos processos criativos nas mais distintas linguagens art’sticas t�m se desenvolvido com diferentes �nfases ao longo do tempo. O objetivo deste artigo Ž o de apresentar uma proposta de trabalho de campo na pesquisa acad�mica em artes c�nicas, na qual foi desenvolvido um tipo de processo criativo, com o intuito de refletir sobre as interfaces entre aspectos corporais e vocais na pesquisa acad�mico-art’stica. Este trabalho demonstrou uma possibilidade outra para o desenvolvimento do trabalho de campo, assim como tambŽm reafirma a necessidade de que a grande ‡rea das artes como um todo se permita a divulgar outras abordagens para a pesquisa acad�mica.

Palavras-Chave: Metodologia da Pesquisa. Corporeidade Vocal. Corpo-Voz. Processo Criativo. Pesquisa Acad�mico-Art’stica.

 

 

Abstract: Investigative approaches related to creative processes in the most distinct artistic languages have emerged with different approaches, especially nowadays. The aim of this article is to present a proposal for field work in academic research, in which a kind of creative process was developed, with the purpose of reflecting about the interfaces between body and vocal aspects in academic-artistic research. This work has demonstrated another possibility for the development of field work, as well as reaffirming the need for the great area of the arts - as a whole - to be allowed to disseminate other approaches to academic research.

Keywords: Research Methodology, Vocal Corporeity, Body-Voice, Creative Process, Academic-Artistic Research.

 

 

Introdu�‹o

 

A pesquisa acad�mica em artes performativas possui abordagens metodol—gicas, em acordo com as suas especificidades de ‡rea, estabelecidas ao longo dos anos (CARREIRA et al., 2006). Entretanto, em acordo com as necessidades contempor‰neas, alguns artistas-pesquisadores sentem o desejo de desenvolverem suas investiga�›es por vias metodol—gicas que n‹o necessariamente venham ao encontro dos seus anseios conforme os mŽtodos tradicionalmente desenvolvidos o fazem.

Neste sentido, urge a necessidade em se propor abordagens para o desenvolvimento da investiga�‹o acad�mica de um modo geral, propiciando perspectivas que hibridizem, borrem fronteiras entre as metodologias tradicionais e/ou que possibilitem se desenvolver por meios outros[2]. Mas, potentes em viabilizar reflex›es que contribuam ˆ produ�‹o acad�mica e art’stica. Estas abordagens outras encontram em suas caracter’sticas, par‰metros e desenvolvimentos, os elementos essenciais para se legitimarem em si, constituindo-se como perspectivas alternativas ˆ pesquisa acad�mica, em especial, ˆs pesquisas em artes performativas (PRENDERGAST, 2003; 2014; PARKER-STARBUCK; MOCK, 2011; KERSHAW; NICHOLSON, 2011; KERSHAW, 2012; AALTONEN; BRUNN, 2014; VARGAS et al., 2019). Apesar de haver muitas abordagens metodol—gicas para as pesquisas acad�micas na grande ‡rea das ci�ncias humanas, este artigo focar‡ suas reflex›es para o contexto das pesquisas em artes performativas.

O objetivo deste artigo Ž o de apresentar uma proposta de trabalho de campo na pesquisa acad�mica em artes performativas, na qual foi desenvolvido um tipo de processo criativo por um ator[3], com o intuito de refletir sobre as interfaces entre aspectos corporais e vocais em sua investiga�‹o. Neste texto, tambŽm ser‡ relatada esta perspectiva sobre como trazer um processo criativo que trabalhe aspectos relacionados ˆs viv�ncias corporais e vocais no trabalho em artes performativas por meio de uma etapa de empiria em uma investiga�‹o acad�mica, ou como chamada por Vargas (2018), acad�mico-art’stica, pois se prop›e a hibridizar quaisquer linhas separat—rias que possam dividir a pesquisa entre estas ‡reas.

Antes de mais nada, para ler este texto, h‡ de se faz�-lo como um convite a observar como um ator se utilizou de uma proposta tŽcnica, associando corpo e voz, sonoridade e corporeidade, ou, como Ž mencionado por Vargas (2018): Òcorpo-vozÓ – vide p. 85 – e Òcorporeidade vocalÓ – vide p. 23 –, para desenvolver uma pesquisa acad�mica, na qual a sua pr‡tica como investiga�‹o no trabalho de campo tambŽm envolveu um processo criativo. Por se tratar de um artigo no qual se explanar‡ sobre alguns procedimentos adotados durante o trabalho feito ao longo de um doutoramento, neste texto, em certos momentos, os relatos ser‹o escritos em primeira pessoa, como um convite ’ntimo e intencional de trazer quem o esteja a ler para perto de reflex›es t‹o particulares desenvolvidas na tese de Vargas (2018).

Este texto tambŽm se prop›e a oferecer um outro modus[4] de se pensar e efetuar o trabalho de campo em pesquisas que envolvam processos art’stico-criativos. Talvez, a descri�‹o dos procedimentos adotados no estudo que serve de mote para a escrita deste artigo possa oferecer algum ru’do ˆqueles que n‹o est‹o acostumados a transgredir as propostas de metodologias das pesquisas tradicionalmente efetuadas no meio acad�mico. Entretanto, justamente por este motivo, muitos artistas-pesquisadores t�m optado por buscar maneiras outras para o desenvolvimento dos trabalhos emp’ricos em suas investiga�›es, de modo que estejam em acordo com seus anseios, como Ž o caso dos estudos publicados por Prendergast (2003; 2014), Parker-Starbuck e Mock (2011), Kershaw e Nicholson (2011), Kershaw (2012), Aaltonen e Brunn (2014), Vargas (2018) e Vargas et al. (2019). Por outro lado, para a leitura do texto deste artigo, tambŽm convido o(a) leitor(a) a um olhar afetuoso, uma vez que a descri�‹o de um processo criativo, mesmo que tenha sido desenvolvido com o intuito de suscitar reflex›es, tambŽm Ž um ato de desnudamento do artista que se prop›e a relat‡-lo, expondo suas fragilidades, vulnerabilidades e dilemas ao longo deste processo.

 

 

Etapas de uma composi�‹o no processo criativo: conceitos necess‡rios

 

Os processos criativos em artes performativas podem ser realizados com distintas abordagens, conforme aprouver ˆs necessidades dos trabalhos que as(os) artistas estiverem desenvolvendo. Neste momento do texto, faz-se importante ressaltar que, apesar de a discuss‹o deste artigo estar focada a partir da perspectiva do trabalho de ator, por se tratar de uma tem‡tica relacionada ˆs reflex›es sobre corpo e voz, o que aqui ser‡ exposto tambŽm serve ˆs perspectivas de trabalhos de artistas em dan�a, —pera, performance art, mœsica, circo, burlesque, dragging e demais artes, as quais ser‹o englobadas dentro da terminologia Òartes performativasÓ apenas por uma quest‹o de facilidade de escrita textual a este artigo. AlŽm disso, tambŽm Ž necess‡rio enfatizar que, apesar de este artigo centrar suas abordagens falando sobre uma perspectiva para atores, por se tratar de uma discuss‹o que pode ser ampliada ˆs diversas artes, quando estiver falando sobre estes aspectos para atores, todas as reflex›es e propostas aqui tratadas tambŽm podem ser expandidas e reverberadas ˆs demais artes performativas.

Nesse sentido, ao se propor uma abordagem investigativa acad�mico-art’stica, na qual o processo criativo em artes se desenvolva como parte essencial dos procedimentos de investiga�‹o, podemos pensar todo o contexto de pesquisa como um processo de composi�‹o. No caso deste artigo, permito-me tra�ar um paralelo com as reflex›es propostas por Bonfitto (2009, p. 142) sobre o ator-compositor, ao considerar que

H‡, alŽm disso, especificidades ligadas ao ator-compositor. A partir do conhecimento dos elementos que envolvem a pr‡tica de seu of’cio, e utilizando-se da a�‹o f’sica como eixo dessa pr‡tica, ele adquire a possibilidade de deixar de ser somente uma pe�a da engrenagem que constitui a obra teatral, assim como pode superar a condi�‹o de Òconsumidor de tŽcnicasÓ de interpreta�‹o. [...]. O ator adquire um valor de instrumento potente, capaz de oferecer inœmeras possibilidades de resolu�‹o para os processos c�nicos.

O enlace feito com o que Ž destacado acima, a partir de Bonfitto (2009), se refere a pensar a pesquisa acad�mico-art’stica em artes performativas como um processo para alŽm do desenvolvimento de tŽcnicas. Nesse sentido, os artistas-pesquisadores, ao avan�arem em um processo criativo de pesquisa nesta ‡rea, devem estar abertos a este processo buscando que o fornecimento de elementos estŽtico-reflexivos e poŽticos durante esses vivenciamentos em pesquisa, lhes possibilite subs’dios necess‡rios ˆ amplia�‹o das discuss›es pertinentes aos seus trabalhos. Este direcionamento se refere a um modus particular desta especificidade de ‡rea em desenvolver seus estudos, pedagogias, achados e reflex›es. Neste caso, a composi�‹o parte de um princ’pio no qual o artista ir‡ pensando, elaborando, vivenciando e refletindo sobre cada etapa antes e durante o seu trabalho de campo, encontrando elementos que servir‹o como disparadores reflexivos a serem desenvolvidos a posteriori. O ator se p›e como parte ativa neste processo em busca dos subs’dios que lhe conduzir‹o ao caminho das reflex›es relacionadas ˆ sua investiga�‹o, tudo isso ao longo do processo criativo, compondo o seu trajeto de pesquisa de campo por meio de sua corporeidade[5].

Quando nos propomos a desenvolver uma investiga�‹o acad�mico-art’stica em artes performativas por meio de uma proposta metodol—gica focada no trabalho corporal e vocal para atores, de maneira conjunta e indissociada, h‡ de se perceber que as reflex›es oriundas desse processo ser‹o permeadas profundamente por viv�ncias e experimenta�›es corporais e vocais. As experi�ncias desse processo potencializar‹o as pr—ximas etapas da pesquisa proposta. Ao se refletir sobre elementos relacionados a quest›es corporais e vocais ao longo do processo criativo, necessitamos conceber esses aspectos tambŽm englobando saberes sens’veis do corpo humano. Sobre isso, apesar de Aleixo (2010) n‹o desenvolver uma tese sobre o que venha a ser um saber sens’vel, explicando seus meios e compondo um arcabou�o epistemol—gico para tanto, este autor refere alguns elementos importantes de serem trazidos ˆ discuss‹o aqui proposta, quando diz que

O acesso aos mœltiplos procedimentos do trabalho vocal para o exerc’cio de cria�‹o poŽtica, uma vez que experimentados e assimilados praticamente – ou seja, como um saber sens’vel do corpo, como algo que Òeu sei porque posso realizarÓ – amplia as possibilidades do ator pesquisar, improvisar e criar poŽticas vocais, bem como compreender e propor formas ampliadas de rela�‹o com a fala e com o texto em cena, alŽm de dominar distintos modos objetivos de abordagem de estilos e propostas da linguagem teatral (ALEIXO, 2010, p. 104).

Desse modo, partindo destes disparadores de ind’cios reflexivos expostos acima, podemos pensar no trabalho corporal e vocal de maneira ampliada. Esta acep�‹o, conduz o ator a considerar esta abordagem como um aprofundamento nos elementos que comp›em a corporeidade vocal. Esta corporeidade vocal aqui Ž compreendida como sendo fruto de uma interrela�‹o entre aspectos corporais – relacionados a experi�ncias e exerc’cios f’sicos/estŽticos/expressivos – e vocais – relacionados tambŽm a experi�ncias e exerc’cios espec’ficos pensando nas estruturas vocais e correlatas. Corpo e voz sendo assim indissociados, expandem a concep�‹o de voz ao todo corporal, um imenso fluxo de rela�›es entre o som em cada parte de seu corpo, descobrindo possibilidades e se deixando aberto ˆ cria�‹o poŽtica da voz enquanto corpo e do corpo enquanto voz, resultando em uma corporeidade vocal.

Nesse sentido, refletir sobre o processo criativo sob a via da corporeidade vocal, permite potencializar n‹o apenas experi�ncias e viv�ncias que fornecer‹o subs’dios a serem desenvolvidos ao longo do processo, mas, tambŽm, a assumir este aspecto como integrante de um processo de saber sens’vel. Este processo potencializa a corporeidade vocal a desempenhar um papel como disparadora de significa�›es. Ao longo de seu processo criativo, caber‡ ao ator ir mesclando, experimentando, pesquisando e vivenciando possibilidades e, neste ’nterim, ir selecionando caminhos e experi�ncias que estejam lhe fomentando reflex›es relacionadas ˆ sua investiga�‹o (VARGAS, 2018). Associo a isso o que Bonfitto (2009, p. 140-141) refere ao falar sobre as escolhas metodol—gicas de trabalho dos atores:

A utiliza�‹o de materiais de diferentes naturezas dever‡ gerar, por sua vez, a necessidade de inserir transi�›es entre esses materiais. A busca de sentido de cada material e das poss’veis transi�›es entre eles envolve, dessa forma, uma compet�ncia espec’fica do ator. Utilizando-se de v‡rios materiais, o ator poder‡ selecion‡-los somente a partir das percep�›es resultantes de uma experimenta�‹o pr‡tica. Ele dever‡ ser capaz de perceber quais os materiais adequados, que produzem ÒsentidoÓ a partir da execu�‹o de suas a�›es.

Com o intuito de ir gerando sentidos e significa�›es ao longo de seu processo criativo durante a pesquisa de campo, em sua pr‡tica como investiga�‹o, o ator dever‡ compor um modus que lhe permita organizar os elementos trabalhados, assim como, tambŽm, em constituir meios para recuper‡-los e expandi-los a cada dia de trabalho. Uma possibilidade para este tipo de composi�‹o se refere ˆ cria�‹o de partituras corporais e vocais. Neste caso, o termo ÒpartituraÓ ao qual me aproximo Ž aqui empregado tomando por base o que fora referido por Barba (2010, p. 62) como sendo:

O desenho geral da forma de uma sequ�ncia de a�›es e ao desenvolvimento de cada uma das a�›es (in’cio, ‡pice, conclus‹o); ˆ precis‹o dos detalhes de cada a�‹o e de seus desdobramentos (sats, mudan�as de dire�‹o, varia�›es de velocidade); ao dinamismo e ao ritmo: a velocidade e a intensidade que regulavam o tempo (no sentido musical) de uma sŽrie de a�›es. Era a mŽtrica das a�›es com suas micro pausas e decis›es, o alterar-se de a�›es velozes e lentas, acentuadas e n‹o acentuadas, caracterizadas por uma energia vigorosa e macia; ˆ orquestra�‹o das rela�›es entre as v‡rias partes do corpo (m‹os, bra�os, pernas, pŽs, olhos, voz, rosto).

O que esse autor descreve no trecho acima se refere a uma maneira de organizar movimentos, a�›es f’sicas e vocais dentro de uma sequ�ncia fixada (no sentido de poder ser rememorada e resgatada em cada dia de trabalho) pelo ator ao longo de seus treinamentos. A elabora�‹o dessas a�›es deve obter um certo grau de precis‹o n‹o apenas no que diz respeito ˆ sua execu�‹o, mas para que, por meio desse processo, o ator possa ir percebendo as nuances e sutilezas de cada aspecto que pode estar no entre cada a�‹o. Esses procedimentos s‹o realizados ao longo dos momentos em que os atores se p›em nas salas de ensaio/trabalho/estœdios desenvolvendo exerc’cios e experi�ncias que lhes permitam a abertura e a disponibilidade para a identifica�‹o de matrizes corporais e vocais que ser‹o integradas, elaboradas em sequ�ncias posteriormente organizadas em movimentos, sons e a�›es (VARGAS, 2018). Quando se situa esta possibilidade como integrante de uma etapa ˆs pesquisas acad�mico-art’sticas em artes performativas, deve-se ter em mente que haver‡ a necessidade em se tra�ar hip—teses de partida, objetivos e quest›es iniciais que servir‹o como primeiros passos antes do processo criativo em si como trabalho de campo dessa investiga�‹o. Esta abordagem, utilizando-se de partituras corporais e vocais, requer um per’odo prolongado durante o trabalho de campo, uma vez que, segundo Barba (2010, p. 63):

Uma partitura s— come�ava a viver depois de ter sido fixada e repetida muitas vezes. A partitura era a manifesta�‹o objetiva do mundo subjetivo do ator. [...]. A partitura era a busca da ordem para dar espa�o ˆ Desordem. [...]. A elabora�‹o compreendia as mudan�as de ritmo e de dire�‹o no espa�o, a fixa�‹o das micro pausas entre uma a�‹o e outra e um novo arranjo das v‡rias partes do corpo (bra�os, pernas, express›es faciais), que era diferente do material origin‡rio. [...]. Durante suas improvisa�›es, o ator ia pescar materiais de onde destilar (elaborar) em seguida uma partitura. Teria sido estœpido pescar com redes furadas e deixar que os peixes fugissem quando chegassem ˆ superf’cie.

Para o ator-pesquisador que se proponha a realizar um trabalho nessa perspectiva, n‹o basta apenas organizar as a�›es em uma ordem espec’fica. Ele precisa compreender em seu corpo, em sua corporeidade, os caminhos que transpassam cada uma delas, permitindo que essa disposi�‹o ou justaposi�‹o em ordenamento fomente possibilidades de gerar material criativo de trabalho di‡rio. Cada fragmento contŽm um mundo, uma constela�‹o de possibilidades instigantes. A cada dia de trabalho, sentidos e significados surgem e se potencializam na medida em que o ator se compreende e se entrega ˆ experimenta�‹o de possibilidades. No entre-espa�o desse processo, existe um fio condutor que pode ser chamado de subpartitura (VARGAS, 2018). Segundo Barba (2010, p. 64), subpartitura Ž:

O modo em que o ator via, ouvia, sentia o cheiro e reagia dentro de si, ou seja, como ele contava a hist—ria da improvisa�‹o para si mesmo atravŽs de a�›es. Essa hist—ria interior comportava ritmos, sons, melodias, sil�ncios e suspens›es, perfumes e cores, figuras isoladas e montes de imagens contrastantes, uma enchente de a�›es interiores que se manifestavam em precisas formas din‰micas. A subpartitura Ž um elemento tŽcnico que pertence ˆ particular l—gica criativa de cada ator.

Partitura e subpartitura s‹o conceitos interligados, porŽm com distintas especificidades. Sobre esse assunto, Barba (2010, p. 65) ainda afirma que

A subpartitura Ž um apoio interno, um pilar escondido que o ator esbo�a para si e que n‹o tenta representar. N‹o deve ser confundido com o significado que a partitura vai assumir para quem a observa. Sem a subpartitura, aquilo que o ator apresenta n‹o Ž mais a cria�‹o de uma corrente subjetiva de rea�›es, uma linha org‰nica guiada por uma coer�ncia interna, mas gesticula�‹o, movimento e deslocamentos casuais.

Por este motivo, ao se utilizar da cria�‹o de partituras e subpartituras durante o seu processo criativo, em uma investiga�‹o enfocando a corporeidade vocal, h‡ de se estar aberto a extrapolar a pura execu�‹o de tŽcnicas. Nesse sentido, devemos buscar nas inter-rela�›es do corpo-voz as sensa�›es, experi�ncias, sentidos, significados, emo�›es e vivenciamentos que conduzam a possibilidades reflexivas, as quais servir‹o de vias de acesso aos caminhos a que esta etapa da investiga�‹o se abrir‡. Este tipo de abordagem requer que as tŽcnicas sejam ultrapassadas em prol de que o artista-investigador se permita e se entregue ˆ cria�‹o.

Entretanto, tambŽm gostaria de enfatizar que processos criativos que se utilizem dos aspectos relacionados ˆ cria�‹o de partituras corporais e vocais fazem parte de diversas abordagens metodol—gicas nas pesquisas acad�mico-art’sticas em artes performativas. Este artigo n‹o est‡ expondo alguns destes elementos como uma inova�‹o metodol—gica. Mas, sim, com o intuito de propiciar um enlace com o que ser‡ apresentado mais a diante neste texto, ressaltando a singularidade da proposta que ser‡ brevemente descrita e, assim, expor os referenciais que a legitimam tambŽm como uma perspectiva outra ˆ pesquisa acad�mico-art’stica contempor‰nea. PorŽm, nesse contexto, como poderia o ator conduzir e desenvolver seu processo criativo ao longo do trabalho de campo?

 

 

Um experimento poŽtico-teatral

 

O que ser‡ dito como sendo um experimento poŽtico-teatral no texto deste artigo parte da concep�‹o feita por Vargas (2018, p. 32), ao referir que este procedimento Òenvolveu a cria�‹o de uma partitura c�nica a partir do texto Prometeu Acorrentado, de ƒsquiloÓ. Segundo este autor descreve nesta parte de sua tese, o experimento poŽtico-teatral envolve a cria�‹o e adapta�‹o de movimenta�›es corporais, vocais e suas inter-rela�›es com a corporeidade, a fim de se criar um fragmento de cena que n‹o necessite ter as mesmas concep�›es ligadas ˆ dramaturgia liter‡ria, situa�›es cotidianas, nem muito menos ˆ utiliza�‹o em encena�›es. Esse experimento se refere a um modus operandi de que os atores disp›em para gerarem matrizes de trabalho e vivenciarem sensa�›es que poder‹o ou n‹o ser utilizadas ao longo dos seus processos criativos. Esses materiais de trabalho sobre si fornecem subs’dios para que o ator possa expandir suas reflex›es para outros contextos e quest›es n‹o necessariamente relacionados ao trabalho que est‡ realizando naquele momento. TambŽm considero que esta abordagem seja uma maneira pela qual os atores consigam buscar elementos de reflex‹o para quaisquer quest›es a partir das rela�›es que estabelecem com a sua corporeidade por meio de um modus peculiar de ir desenvolvendo o processo criativo e a pr—pria compreens‹o de seu trabalho (VARGAS, 2018).

O experimento poŽtico-teatral Ž um procedimento compreendido de muitas nuances durante o processo criativo, sendo uma delas a cria�‹o da partitura c�nica. Esse Ž um tipo de pesquisa de campo, na qual o pr—prio campo Ž o corpo do ator, sua corporeidade, ou seja, as maneiras pelas quais experiencia, vivencia e se relaciona com as experi�ncias ao longo desse processo, resultam em reflex›es que n‹o compartimentalizam o corpo, mas o potencializam como elemento disparador de possibilidades. Este aspecto permite ao ator conduzir sua pesquisa, considerando o corpo como um ente global de rela�›es, ou seja, assumindo-o como/em corporeidade (VARGAS, 2018). Apesar de estar frisando que o experimento poŽtico-teatral desenvolvido por Vargas (2018) tenha sido efetuado com o intuito de aprofundar reflex›es sobre corporeidade de maneira ampliada, suas possibilidades como procedimento vi‡vel ˆ investiga�‹o sobre quest›es relacionadas ˆ sonoridade e voz n‹o devem ser esquecidas, nem muito menos a sua intr’nseca rela�‹o com o corpo do ator, com sua corporeidade. Esta proposta de trabalho permite conceber uma perspectiva de desenvolvimento das partituras corporais e vocais, pensando-as como elementos estŽticos, poŽticos, imbricados, vivenciados de maneira insepar‡vel, potencializando corpo, voz, emo�›es, sentimentos e sensa�›es como matrizes un’ssonas e/ou dissonantes em atividade.

Entretanto, faz-se necess‡rio ressaltar que este tipo de abordagem n‹o visa apenas descrever procedimentos, processos e vivenciamentos durante a pesquisa de campo. Estas descri�›es s‹o importantes de serem feitas e, de certa maneira, tambŽm legitimam, registram e fornecem elementos para se compreender n‹o apenas os procedimentos adotados e escolhas ao longo do trabalho de campo, mas tambŽm, poss’veis evid�ncias que estar‹o surgindo para compor o arcabou�o de reflex›es futuras ˆs pr—ximas etapas da pesquisa em quest‹o. Mas, para alŽm disso, este tipo de proposta de trabalho de campo possui caracter’sticas de pesquisa espec’ficas das artes performativas. Desse modo, tambŽm possibilita que artistas-pesquisadores desta especificidade de ‡rea conduzam suas investiga�›es encontrando meios que venham ao encontro das maneiras pelas quais eles desenvolvem seus processos de significa�‹o, reflex‹o e legitima�‹o das potencialidades evidenciadas em suas pesquisas. Para alŽm das descri�›es dos procedimentos e vivenciamentos ao longo da pesquisa de campo, neste tipo de abordagem, a amplia�‹o dos disparadores reflexivos, surgidos ao longo do processo, se faz necess‡ria como catalisadora das discuss›es propostas nos objetivos da investiga�‹o que esteja sendo desenvolvida.

Por este motivo, com o intuito de avan�ar a discuss‹o proposta neste artigo e exemplificar o que vem sendo exposto neste texto, logo a seguir, ser‹o brevemente descritos alguns princ’pios sobre como se desenvolveu uma parte da proposta realizada por Vargas (2018) para se trabalhar com arquŽtipos vocais, associados a ressonadores corporais. Esta divis‹o textual se faz importante para que, quem estiver a ler, possa dispor de subs’dios que lhe propicie uma leitura mais fluida sobre quando o experimento poŽtico-teatral for descrito. Nesse sentido, possibilitar-se-‡ que se percebam as reflex›es poss’veis sobre como pensar em um tipo de dramaturgia da corporeidade vocal, configurando-se como uma peculiaridade que se expande ˆ tŽcnica e se desenvolve por meio de um mergulho estŽtico ao longo do processo criativo.

 

 

ArquŽtipos vocais e o experimento poŽtico-teatral

 

A proposta de trabalho com arquŽtipos vocais surge a partir de terap�uticas desenvolvidas em um tipo de pr‡tica espec’fica de voz-terapia, conforme apresentada por Stein (2009), na qual a autora descreve detalhadamente exerc’cios de voz-terapia por meio de arquŽtipos e as tŽcnicas relacionadas a estes procedimentos. Nessas atividades, foram estipulados e elencados quatro arquŽtipos – Crian�a, Amante, Guerreiro e M‹e – associados a ressonadores localizados em certas partes do corpo. O acionamento sonoro de cada um desses arquŽtipos na parte do corpo relacionada com o ressonador espec’fico de cada um deles, desencadeia sentimentos/emo�›es/sensa�›es com localiza�›es corporais espec’ficas e acionadas a partir de uma vibra�‹o sonora da voz no ressonador associado a cada arquŽtipo em espec’fico (VARGAS, 2018, p. 94).

Devido ao fato de a tŽcnica sobre os arquŽtipos vocais ser uma proposta singular e que requer especifica�›es sobre a sua adapta�‹o a partir do que fora descrito por Stein (2009), por uma quest‹o de espa�amento textual, esta tŽcnica em espec’fico n‹o ser‡ detalhada neste artigo, uma vez que o objetivo deste texto se foca mais no que Ž poss’vel apreender a partir do experimento poŽtico-teatral em si e n‹o em uma das tŽcnicas que propiciaram o seu desenvolvimento. Contudo, caso seja de interesse do(a) leitor(a) em perceber como a tŽcnica dos arquŽtipos vocais foi adaptada a uma proposta de trabalho nas artes performativas, a tese de doutoramento de Vargas (2018) contŽm elementos aprofundados sobre esta abordagem e o trabalho de Stein (2009) descreve, em detalhes, os procedimentos relacionados ˆ voz-terapia.

Segundo Vargas (2018, p. 95), neste tipo de abordagem, Òos indiv’duos t�m possibilidades de se relacionarem de maneira diferente com as suas sonoridades e descobrir possibilidades ainda n‹o vivenciadas por meio de outras tŽcnicasÓ. Cabe ainda frisar que Vargas (2018) se utilizou dos arquŽtipos vocais como uma das abordagens tŽcnicas durante o desenvolvimento de seu experimento poŽtico-teatral. Entretanto, este autor deixa claro que esta foi uma escolha particular, o que n‹o significa que outros artistas-investigadores possam empregar tŽcnicas e abordagens diferentes, caso desejem desenvolver suas investiga�›es se utilizando de um experimento poŽtico-teatral. Nesse sentido, antes de descrever sobre o experimento poŽtico-teatral em si, logo abaixo, ser‹o explicitados, brevemente, os quatro arquŽtipos escolhidos que foram trabalhados por Vargas (2018), nos quais a voz era dinamizada, associada a ressonadores corporais espec’ficos, propiciando experi�ncias emocionais/estŽticas que serviram de matrizes para o processo criativo que ser‡ descrito logo a seguir neste texto.

 

a) O ArquŽtipo da Crian�a

Todas as emo�›es vivenciadas nesses exerc’cios eram percebidas e associadas ˆs suas localiza�›es nos ressonadores de cabe�a, relacionados a determinadas vozes agudas. Segundo Vargas (2018, p. 95) relata em seu trabalho: ÒEsse processo me permitia descobrir sensa�›es emotivas que os sons das vozes desvelavam e a localiza�‹o corp—rea de onde eles poderiam ser acessadosÓ.

 

b) O ArquŽtipo do Amante

No trabalho com este arquŽtipo, a voz era deslocada para a parte superior tor‡cica, devendo explorar todas as possibilidades dos ressonadores presentes nesse local. Estes exerc’cios pretendiam investigar sonoridades n‹o mais agudas. Mas, agora, de extens‹o mediana, buscando o encontro desses sons com as emo�›es que poderiam ser associadas nessa regi‹o do corpo. Segundo Vargas (2018, p. 95), os Òexerc’cios utilizados envolviam sentimentos relacionados ao amor e ˆ afetividade, aliados ˆ responsabilidade e ao poderÓ.

 

c) O ArquŽtipo do Guerreiro

Esta etapa do trabalho envolvia exerc’cios nos quais o impulso vocal deveria partir da regi‹o diafragm‡tica de maneira din‰mica e expansiva, deixando as sonoridades da’ emergidas, reverberarem ao longo de todo corpo, observando as sensa�›es e emo�›es que despertavam. Segundo Vargas (2018, p. 96), ÒEsse arquŽtipo Ž acessado por meio de movimentos e ritmos fortes em uma constante rela�‹o com o ch‹o e a baseÓ.

 

d) O ArquŽtipo da M‹e

Os trabalhos associados a este arquŽtipo propunham exerc’cios que envolviam o deslocamento do centro de resson‰ncia da voz para a por�‹o infra umbilical. Segundo Vargas (2018, p. 96), ÒAs emo�›es aqui trabalhadas, bem como das matrizes corp—reas que esses sons nos remetem, forneciam ind’cios para o acesso de matrizes de trabalho relacionadas a sentimentos de conforto, melancolia, saudade, separa�‹o, amor, generosidade, acolhimento, prote�‹o e sensa�›es de introspec�‹oÓ.

 

 

O experimento poŽtico-teatral: criando partituras e subpartituras

 

Durante os treinamentos diariamente realizados ao longo do trabalho de campo, matrizes corporais e vocais, que estavam relacionadas aos arquŽtipos vocais escolhidos para serem o foco de trabalho, foram sendo fixadas, assim como suas localiza�›es corp—reas e as emo�›es ali registradas. Essas matrizes serviam como elementos para a cria�‹o da partitura f’sica e vocal, assim como tambŽm para o seu resgate e desenvolvimento do trabalho a cada dia de pesquisa.

Com o intuito de situar o(a) leitor(a) no contexto da fala e no momento vivenciado pela personagem do texto ÒPrometeu AcorrentadoÓ, uma simples e breve descri�‹o se faz necess‡ria para expor alguns aspectos emotivos que o ator considerou como envolvidos na cena e que foram trabalhados por meio das partituras corporais e vocais. O trecho escolhido para come�ar a ser encaixado nas partituras trabalhadas foi uma parte de uma fala da personagem Prometeu que, ap—s doar a chama do conhecimento e esperan�a aos mortais, Ž condenado por Zeus a ficar acorrentado no alto de um penedo por toda a eternidade. Diariamente, um corvo vem a este local para comer o f’gado de Prometeu ao longo do dia. Ë noite, o corvo vai embora e o f’gado se regenera, para, durante o amanhecer seguinte, iniciar o mart’rio di‡rio de Prometeu por toda a eternidade. O fragmento de texto escolhido conta exatamente o momento em que Prometeu, ap—s receber a condena�‹o divina por ter doado a chama do conhecimento aos humanos, est‡ sendo carregado atŽ o alto do penedo, preso em correntes e, ent‹o, lamenta a sua situa�‹o, temendo a chegada do corvo, pois a noite est‡ acabando. PorŽm, se faz importante salientar que Vargas (2018) tambŽm esclarece que optou pelo texto ÒPrometeu AcorrentadoÓ como uma escolha particular, em conson‰ncia com os argumentos acima expostos sobre as particularidades de escolhas deste autor para o desenvolvimento deste trabalho.

A partir do momento em que o trecho do texto j‡ havia sido escolhido e a partitura b‡sica de matrizes f’sico-vocais j‡ estava elencada, foram inclu’das as pr‡ticas com os arquŽtipos vocais direcionando-os para esse contexto. A partitura corporal-vocal foi dividida em seis momentos: 1. A subida ao penedo, 2. Preso ˆs correntes, 3. Lamento, 4. Revolta contra Zeus, 5. Medo do tŽrmino da noite, 6. Chegada do corvo[6]. Com o intuito de simplificar a escrita deste artigo e facilitar a sua leitura, o que aqui Ž denominado como sendo uma partitura corporal-vocal, engloba os conceitos de partitura e subpartitura mencionados anteriormente neste texto.

Dependendo da frase do texto, foi utilizado um arquŽtipo vocal diferente. Esta tambŽm foi uma escolha particular como investigador, no intuito de verificar como o tr‰nsito da voz pelas localiza�›es corporais de cada arquŽtipo, poderiam conduzir diferentes emo�›es/sensa�›es/experi�ncias que a personagem Prometeu poderia sentir/vivenciar/experienciar durante essa fala. Neste caso, o contexto da personagem Prometeu foi situado dentro das escolhas de condu�‹o tŽcnica para a partitura e subpartituras. Mas, as sinestesias vivenciadas ao longo deste processo criativo extrapolam quaisquer personagens, fornecendo elementos reflexivos ao ator, independentemente de uma rela�‹o com texto e personagem. Apesar de, neste caso, o ator se referir a quest›es relacionadas ˆ personagem, o que ele ia percebendo/vivenciando/experienciando ao longo do processo, lhe fornecia elementos reflexivos a serem desenvolvidos em seu trabalho como ator-pesquisador para alŽm de situa�›es espec’ficas a este texto e personagem. As reflex›es suscitadas ao longo deste processo se configuram como inst‰ncias potentes, catalizadoras de subs’dios ˆs pr—ximas etapas da investiga�‹o. Esta perspectiva, se refere a um modus particular que alguns artistas podem ter para conduzir e elaborar as maneiras pelas quais compreendem, se questionam, refletem e discutem sobre assuntos espec’ficos de/em sua ‡rea do conhecimento.

Na composi�‹o da partitura corporal-vocal, Vargas (2018) optou por trabalhar a passagem da localiza�‹o f’sica de um arquŽtipo vocal para outro de maneira cont’nua. Esta op�‹o foi adotada para que a cria�‹o n‹o se transformasse apenas em uma demonstra�‹o tŽcnica somente pass’vel de compreens‹o por aqueles que conhecem esse processo de trabalho. Muito embora estes procedimentos tenham acontecido durante um per’odo emp’rico de investiga�‹o de um ator, por meio de um tipo de processo criativo, com objetivos e direcionamentos relacionados ao que motivou tal pesquisa, o que est‡ exposto na frase anterior vem ao encontro de ressaltar que estes procedimentos tambŽm podem ser efetuados pensando em matrizes para tambŽm serem utilizadas quando de um evento teatral per se. Nesse sentido, as partituras e subpartituras foram encadeadas simultaneamente, sem impedir o fluxo e continuidade do desenvolvimento das a�›es. Conforme dito acima, esta foi uma escolha particular, o que n‹o impede a outros atores de organizarem suas partituras e subpartituras de maneiras distintas das como foram efetuadas no trabalho de Vargas (2018). Logo abaixo, alŽm de serem descritos momentos deste processo criativo, tambŽm ser‹o expostas algumas percep�›es e reflex›es que foram surgindo ao longo do trabalho de campo, com o intuito de trazer ao texto deste artigo a ilustra�‹o alargada sobre como um artista que desenvolveu um trabalho de pr‡tica como investiga�‹o, conduziu seus catalizadores de reflex›es que viriam a seguir em sua pesquisa.

Entretanto, gostaria de ressaltar que as pr—ximas partes deste texto ser‹o escritas em primeira pessoa, pois se tratam de descri�›es particulares, realizadas durante o experimento poŽtico-teatral, conforme dito anteriormente. Esta abordagem Ž feita com o intuito de compartilhar detalhes deste procedimento. Mas, afinal, como foi dividido o experimento poŽtico-teatral e como foi vivenciado pelo ator-pesquisador que o desenvolveu?

 

 

A subida ao penedo[7]

 

Esse momento se referia ˆ subida de Prometeu ao penedo, j‡ condenado, sendo carregado pelos seus algozes. Para essa sequ�ncia, foi criado um movimento de subida, em que Prometeu caminha sentindo o peso das correntes e as dores pelas torturas que est‡ passando. O som que conduz esse movimento Ž grave, em lamenta�‹o, fazendo refer�ncia aos lamentos das tragŽdias gregas. Esta sonoridade foi trabalhada tendo como origem as emo�›es oriundas da regi‹o pr—xima da base infra umbilical, relacionada ao ArquŽtipo da M‹e. A op�‹o por esse arquŽtipo vocal, associado a esse ressonador corporal, para esse momento da personagem, se deu em fun�‹o de ele estar relacionado a sentimentos de dor, melancolia e sofrimento.

Durante os trabalhos di‡rios, as percep�›es sinestŽsicas[8] forneceram importantes subs’dios para a identifica�‹o e fixa�‹o de matrizes corporais e vocais que podem ser dinamizadas em outros momentos. Considero que essas percep�›es s‹o muito importantes para despertar a compreens‹o do ator sobre como operacionalizar seus momentos criativos, ao se entregar a esse tipo de proposta metodol—gica. Como exemplo disso, descrevo aqui algumas percep�›es surgidas durante o processo:

 

Ao trabalhar o ArquŽtipo da M‹e, sentia uma resson‰ncia grave, muito forte, na altura da crista il’aca, me trazendo uma sensa�‹o de dor que desperta muitas emo�›es e o choro de maneira que ainda n‹o consigo control‡-lo. Conforme vou colocando o som nesse ressonador, vou conseguindo criar o clima da caminhada do Prometeu (VARGAS, 2018, p. 105).

 

Ao longo do processo de vivenciamento das experi�ncias perpassadas pelo som em intr’nseca rela�‹o com a minha corporeidade, ao trabalhar esses aspectos com este ressonador vocal, associado ao ArquŽtipo da M‹e, percebi que as sensa�›es do som nessa regi‹o de resson‰ncia permitiam que as emo�›es fossem expandidas em larga escala. Esta percep�‹o me pareceu ser uma boa alternativa a se trabalhar com o objetivo de abordar situa�›es enfrentadas pelas personagens das tragŽdias gregas. AlŽm disso, essa resson‰ncia de som grave trazia refer�ncias sobre como acredito que poderia ser um tipo de aplica�‹o dessa fala dentro dos aspectos cl‡ssicos de melopeia[9], presentes em muitos textos de teatro grego da Idade Antiga.

 

 

Preso ˆs correntes[10]

 

Essa sequ�ncia Ž bem r‡pida e se d‡ no momento em que Prometeu termina de fazer o movimento em espiral de subida ao penedo e tem seus bra�os presos ˆs correntes, sentindo o cansa�o de tal atividade e o peso de sua senten�a. Ent‹o, Prometeu cai e fica de c—coras durante a pr—xima fala. Nesse momento, utilizei o ArquŽtipo do Guerreiro, pois sentia que era um breve instante de luta, tentativa de mostrar sua for�a e resist�ncia, mesmo que rapidamente. Entretanto, neste fragmento textual, Prometeu aceita sua condi�‹o e sua pena, deixando-se prender. Esse momento Ž realizado em uma fra�‹o de segundos. Mas, a for�a que impulsiona e conduz todos esses movimentos, surge a partir do impulso sonoro suscitado pelo acionamento do ArquŽtipo do Guerreiro. Este tipo de impulso sonoro, associado ao ArquŽtipo do Guerreiro, parte de contra�›es e relaxamentos din‰micos e intensos das musculaturas envolvidas nos movimentos de apoio diafragm‡tico, trazendo um tipo de vigor ao momento que se est‡ experienciando.

 

 

Lamento[11]

 

Nesta parte, inicia a fala de Prometeu propriamente dita. Enquanto ele est‡ agachado, permanece lamentando sua situa�‹o e o que lhe ocorreu. Inicialmente, foi utilizado o ArquŽtipo da M‹e, com a mesma localiza�‹o do ressonador corporal utilizada durante A subida ao penedo. PorŽm, quando Prometeu come�a a questionar os deuses sobre o seu aprisionamento, o foco de resson‰ncia foi deslocado para a regi‹o diafragm‡tica, associada ao ArquŽtipo do Guerreiro, pois, durante o processo criativo, considerei essa situa�‹o como um momento de revolta, resist�ncia e demonstra�‹o de for�a da personagem que merecia ser trabalhado desta maneira. O deslocamento da voz por estas localiza�›es corporais, associadas aos arquŽtipos, foi assim registrado:

Logo que comecei a trabalhar essa partitura do Prometeu, fiquei com receio de trabalhar em cima de apenas um arquŽtipo, pois acredito que ele sinta muitas coisas enquanto conta a sua hist—ria, passando por m‡goa, dor, sofrimento, raiva, revolta, amor e solid‹o por exemplo. Talvez, se eu transitar pelos arquŽtipos consiga imprimir outros coloridos ˆ minha voz, desbravando emo�›es que est‹o localizadas em algumas partes do meu corpo (VARGAS, 2018, p. 106).

Suscitado por essas sensa�›es, com o intuito de verificar como faria para Prometeu sentir a dor localizada na regi‹o do f’gado, desloquei o foco de resson‰ncia para o ressonador corporal associado ao ArquŽtipo da Crian�a. Este direcionamento foi assumido, pois, nesse momento da fala, ao longo dos vivenciamentos do processo criativo, considerei que a personagem se sentia fragilizada, enfraquecida, impotente e a voz de cabe�a, sendo conscientemente falhada, lhe aumentava a sensa�‹o de sofrimento e solid‹o. Enquanto a sequ�ncia de movimentos ia descendo e voltando, ao agachar, considerei que Prometeu ia sentindo o peso das correntes, causando-lhe dor e o fazendo retornar ao lamento anterior. Sobre essa situa�‹o, cito o seguinte:

No momento em que o Prometeu sente a dor da chaga no f’gado, comecei a buscar essa dor f’sica e me surgiu um som agudo de grito. Desloquei a voz para o ArquŽtipo da Crian�a, pois nesse local se pode trabalhar com os sons agudos de maneira mais f‡cil. Ao trabalh‡-los em staccato, encontrei a sensa�‹o de sofrimento que a personagem sente nesse momento e, quando fa�o a voz deslizar pelo meu corpo, por cada um dos arquŽtipos, atŽ voltar para o da M‹e, consigo perceber todo o sofrimento dele (VARGAS, 2018, p. 106).

Ao longo dessa sequ�ncia, trabalhei a voz para ir se deslocando entre os ressonadores atŽ atingir o foco de resson‰ncia na regi‹o do ArquŽtipo da M‹e, pois considero que a personagem volte a ficar melanc—lica e triste, lamentando sua situa�‹o. Dessa maneira, ao longo do processo criativo, este foi um meio experienciado que propiciou tais sensa�›es de maneira mais efetiva. Antes de partir para o pr—ximo momento, Prometeu come�a a se levantar. Para este ’nterim, a motiva�‹o que o conduzia foi trabalhada de maneira a estar associada ˆ regi‹o do ArquŽtipo do Amante. Entretanto, em fun�‹o disso, aqui, os sentimentos trabalhados est‹o relacionados a aspectos do amor, da entrega, da responsabilidade, da compaix‹o, que geram sofrimentos. Sobre essa transi�‹o, saliento as seguintes descri�›es feitas ao longo do processo:

Quando Prometeu vai falar sobre o que fez e do seu castigo, sinto que deve ser algo que ele aceite, que n‹o questione, pois ama tanto aos mortais, quanto aos deuses. Mas, aqui, vou explorar o trabalho do ArquŽtipo do Amante, encarando as emo�›es associadas a essa regi‹o, pelo lado que causam dor e sofrimento, pois, durante os treinamentos, costumo trabalhar esse arquŽtipo apenas pela sua outra faceta (VARGAS, 2018, p. 106).

No œltimo grito de lamento da personagem, antes de falar sobre Zeus, tambŽm houve a op�‹o por se trabalhar o ArquŽtipo do Guerreiro, porŽm sob outra perspectiva. Agora, ao invŽs da for�a, foi trabalhado o impulso vindo dessa regi‹o, mas como uma impot�ncia da personagem frente ˆ situa�‹o. Durante os treinamentos di‡rios, envolvidos no processo criativo, considerei que esse impulso me ajudava a deslocar a voz para a regi‹o do ArquŽtipo do Amante para o momento em que Prometeu fala sobre o seu amor aos homens, conforme foi exposto em:

Procuro maneiras de transitar com a voz pelos diversos ressonadores. Como percebo que o Prometeu passa por muitas emo�›es durante essa cena, quero criar possibilidades para trabalhar os arquŽtipos de diversas formas. Quando ele fala no amor que ele tem pelos mortais, estou em busca das emo�›es do ArquŽtipo do Amante, relacionadas ao Rei, Imperador e o seu amor incondicional ˆqueles que acreditam nele (VARGAS, 2018, p. 107).

A passagem para o pr—ximo momento come�ava ap—s Prometeu falar sobre a situa�‹o de estar preso em correntes no alto do penedo. Com o intuito de vivenciar essas sensa�›es da passagem, os movimentos e a voz foram trabalhados de maneira a mostrar e vivenciar a sua dor f’sica e emocional. Para tanto, foi realizada a mesma transi�‹o entre os arquŽtipos feita antes, com o impulso surgindo da regi‹o diafragm‡tica, associada ao ArquŽtipo do Guerreiro, chegando ˆ regi‹o da cabe�a, associada ao ArquŽtipo da Crian�a, atŽ voltar ˆ regi‹o infra umbilical associada ao ArquŽtipo da M‹e. Desse modo, foi trabalhada a passagem de v‡rias emo�›es da personagem, intrinsecamente associadas ˆs movimenta�›es corporais e vocais experienciadas neste momento da partitura. Ao longo do processo, foi poss’vel observar que este procedimento me auxiliou a preparar a personagem ao pr—ximo momento da fala.

 

 

Revolta contra Zeus[12]

 

Esse Ž um momento bastante breve, quando Prometeu percebe alguma movimenta�‹o pr—xima ao penedo. A personagem aproveita a possibilidade de estar sendo ouvido por alguŽm para, ent‹o, expressar a sua revolta contra Zeus. Aqui, foram trabalhados o ArquŽtipo do Guerreiro e as emo�›es associadas a essa regi‹o. Como Prometeu est‡ preso em correntes, com o intuito de vivenciar esta sensa�‹o, os movimentos foram trabalhados por meio de impulsos leves, vindos da regi‹o diafragm‡tica. As dificuldades sentidas em trabalhar com o ArquŽtipo do Guerreiro foram descritas ap—s um dos dias de treinamento da seguinte maneira:

Tenho muita dificuldade em trabalhar o ArquŽtipo do Guerreiro, pois o excesso de impulso diafragm‡tico me faz perder o controle da voz, podendo faz�-la ficar muito aguda e n‹o acho que trabalhar essa energia de for�a, revolta e coragem com sons muito agudos tenham a ver com o Prometeu. S— consigo segurar o tom da voz, pois puxo a energia do Guerreiro para a base e os movimentos n‹o me deixam levar pelo tom da voz (VARGAS, 2018, p. 107).

Apesar de ser um momento r‡pido, a sequ�ncia vocal e corporal da Revolta contra Zeus, me permitiu trabalhar em cima de uma dificuldade pessoal em lidar com o fluxo de energia associado ao ArquŽtipo do Guerreiro. AlŽm disso, tambŽm possibilitava dar �nfase a um pequeno momento da fala da personagem em que ela protesta contra a sua senten�a.

 

 

Medo do tŽrmino da noite[13]

 

Nesta parte da partitura, ap—s vir da transi�‹o pelo ArquŽtipo do Guerreiro, rapidamente, deslocava o centro energŽtico para o ressonador associado ao ArquŽtipo do Amante, pois, ao longo dos treinamentos di‡rios que envolveram o processo criativo, considerei que esta me foi a via mais efetiva para trabalhar o momento em que Prometeu fala de seu amor aos mortais. Quando a personagem escuta algum som se aproximando, considero que este seja o seu œltimo instante de medo neste trecho do texto, pois Prometeu sabe que o corvo se aproxima para comer o seu f’gado. Essa sequ�ncia de movimentos foi conduzida pela voz trabalhada na regi‹o associada ao ArquŽtipo da Crian�a. Como esse arquŽtipo foi trabalhado em menor propor�‹o que os outros durante a constru�‹o das partituras e subpartituras desse fragmento de texto, nesse r‡pido momento em que a personagem teme a chegada do animal que lhe tortura diariamente, aproveitei para encaixar esse arquŽtipo durante essa transi�‹o. Essa escolha foi feita com o intuito de que, apesar ser um deus e de compreender a sua pena, considero que, neste momento, Prometeu pudesse mostrar sua fragilidade e o quanto sofria tambŽm pelas dores f’sicas causadas pelo corvo. Nesse sentido, ao longo do processo, o ressonador associado ao ArquŽtipo da Crian�a parecia ser o mais adequado para potencializar estas sensa�›es neste momento da fala.

 

 

Chegada do corvo[14]

 

Esse era o œltimo momento da partitura corporal-vocal criada para o experimento poŽtico-teatral. Na verdade, esse momento se referia a uma œltima experimenta�‹o feita para o trabalho dos ressonadores associados a arquŽtipos na voz com essa personagem. PorŽm, neste fragmento da fala, resolvi pontuar o final da partitura. Quando o corvo chega para comer o f’gado do Prometeu, ao invŽs de buscar um som relacionado a algum dos ressonadores associados aos arquŽtipos trabalhados, optei por criar uma espŽcie de fermata para o sil�ncio. Entretanto, apesar de n‹o estar emitindo som, a condu�‹o do movimento se deu pelo acionamento energŽtico a partir do ArquŽtipo da Crian�a, associado ˆ sensa�‹o de medo, temor e dor. Essa op�‹o surgiu ap—s alguns improvisos durante os treinamentos, conforme descrito abaixo:

Hoje, eu queria definir o final da partitura, mas n‹o sabia que som deixar para o momento em que o corvo come o f’gado do Prometeu pela œltima vez nessa fala. Deixar um grito sair, poderia ser uma op�‹o. Tentei faz�-lo vindo da regi‹o do corpo associada a cada um dos arquŽtipos vocais, mas eles n‹o coincidiam com o movimento que o meu corpo estava fazendo. Ent‹o, ao tentar experimentar o ArquŽtipo da Crian�a para esse final, em uma das repeti�›es, n‹o consegui emitir som, s— uma vibra�‹o do ar, senti como se fosse s— um fluxo energŽtico e, da’, surgiu o final da minha sequ�ncia, com todas as emo�›es que o sil�ncio precisava gritar nesse instante (VARGAS, 2018, p. 108).

A experi�ncia do final dessa partitura permitiu explorar outra possibilidade de acesso aos arquŽtipos associados aos ressonadores vocais: a n‹o emiss‹o sonora. Contudo, percebi que esse ind’cio vinha apenas a ressaltar que existem ainda muitos caminhos para se descobrir no trabalho por meio de arquŽtipos na voz, inclusive, para a utiliza�‹o de exerc’cios que permitam a explora�‹o de n‹o-sons, de sons n‹o-oralizados, de um habitat de sentidos que se libertam dos sons, mas que podem se fazer sentir por quem esteja convivenciando esse momento. A percep�‹o de que o ato de n‹o emitir um som tambŽm poderia ser acionado nesses ressonadores, associando essa informa�‹o aos arquŽtipos ali trabalhados, tambŽm me propiciou evidenciar a possibilidade de expressar textos n‹o-oralizados, mas vivos em lat�ncia energŽtica de sensa�›es, imagens, vontades, emo�›es, sinestesias, subtextos. Esse fato tambŽm chamou a aten�‹o para a exist�ncia de uma vida pulsante em um entre-espa�o n‹o expresso por sons, o que me instigou mais a investigar sobre como seriam essas potencialidades presentes em n‹o-sons, nos sil�ncios. Ainda h‡ que se adentrar aos entre-espa�os por onde as rela�›es de/entre corporeidades se expandem para alŽm do som, mas, ainda assim, potentes em vibra�›es em corporeidade. Investiga�›es estas que ficaram para trabalhos futuros, j‡ que n‹o s‹o o foco dos procedimentos descritos no texto deste artigo. Entretanto, no que tange ˆ reflex‹o da tese desenvolvida por Vargas (2018), h‡ um denso aprofundamento sobre aspectos relacionados ao subtexto, inconsciente e o sil�ncio como inst‰ncias vivas relacionadas a aspectos intr’nsecos ˆ corporeidade. PorŽm, estes ser‹o assuntos para serem ampliados em artigos futuros e que foram densamente desenvolvidos na tese de doutorado de Vargas (2018).

 

 

Considera�›es finais

 

A breve descri�‹o feita neste artigo sobre o experimento poŽtico-teatral efetuado por Vargas (2018) ilustra uma perspectiva poss’vel para um tipo de etapa de trabalho de campo na pesquisa acad�mico-art’stica em artes performativas. Esta perspectiva elucida a possibilidade de profissionais destes campos do conhecimento desenvolverem processos criativos como fontes de matrizes que lhes fornecer‹o subs’dios para avan�arem ˆs etapas seguintes de suas pesquisas. Desse modo, sem se ater necessariamente ˆs metodologias tradicionais de pesquisa acad�mica em artes performativas, os artistas destas ‡reas podem legitimar e constituir meios outros ˆ efetiva�‹o de suas investiga�›es, partindo de seu pr—prio contexto de trabalho em arte, como artistas, em seus processos de cria�‹o.

Este tipo de pr‡tica como investiga�‹o em artes requer um robusto arcabou�o te—rico-pr‡tico, com o intuito de estabelecer par‰metros, criar pontes, borrar possibilidades e abrir caminhos coerentes ˆ proposi�‹o metodol—gica de maneira diferenciada das tradicionalmente empregadas no meio acad�mico. Conforme dito anteriormente, este artigo n‹o visa trazer ˆ tona uma inova�‹o metodol—gica no campo das artes performativas, tampouco deslegitimar outras metodologias de pesquisa. H‡ uma grande diversidade de possibilidades metodol—gicas para a realiza�‹o de pesquisas nesta especificidade de ‡rea. O trabalho desenvolvido por Vargas (2018) vislumbra uma possibilidade outra para este campo do conhecimento, como tambŽm, ilustra uma perspectiva sobre como um ator mergulha em seu processo criativo, com o intuito de buscar disparadores reflexivos a elementos que extrapolam a etapa emp’rica em si.

AlŽm disso, a reafirma�‹o de pesquisas acad�mico-art’sticas que se desenvolvam a partir de abordagens metodol—gicas que se distinguem de alguma maneira das tradicionais, assim como tambŽm de sua publica�‹o e divulga�‹o, corroboram para o fortalecimento e estabelecimento de possibilidades outras ˆs pesquisas no contexto contempor‰neo. Mas, para que isso seja poss’vel, avaliadores e consultores de peri—dicos espec’ficos de ‡rea, assim como acad�micos que orientam e conduzem pesquisas nas universidades e centros de investiga�‹o/cria�‹o art’stica, necessitam estar abertos e dispon’veis a estas possibilidades outras, distintas das tradicionalmente realizadas e publicadas. Desse modo, alŽm de se estar consolidando outras perspectivas e caracter’sticas destas especificidades de ‡reas do conhecimento, se est‡ contribuindo para ressaltar suas singularidades, sem que isso signifique minimizar critŽrios de qualidade cient’ficos, acad�micos e art’sticos.

No que tange aos aspectos relacionados ˆ corporeidade vocal, neste artigo fica evidenciada uma proposta singular em se experienciar possibilidades vocais por meio de uma perspectiva estŽtica que se prop›e a desenvolver pr‡ticas corporais e vocais de maneira indissociada. AlŽm disso, neste texto, a partir do trabalho de Vargas (2018), tambŽm fica evidenciada uma maneira particular para artistas dessa ‡rea descreverem seus percursos de pesquisa, metodologias, pedagogias e reflex›es ao longo dos processos criativos. Com isso, tambŽm considero poss’vel vislumbrar esta abordagem como um tipo de proposta diferenciada ao trabalho criativo dos profissionais das artes performativas.

Trabalhar poŽticas relacionadas ˆ corporeidade vocal suscita que as(os) artistas se entreguem a experienciar e vivenciar situa�›es criativas para alŽm das tŽcnicas previamente adquiridas e/ou desenvolvidas. Desenvolver investiga�›es na perspectiva da corporeidade vocal propicia englobar as reflex›es de maneira a n‹o desvincular as pedagogias, processos de significa�‹o e matrizes reflexivas oriundas das percep�›es e viv�ncias integradas entre corpo e voz. Esta abordagem requer uma genu’na e sincera disponibilidade aos processos inerentes ao ato criativo. Produzir conhecimento a partir dos contextos dos processos criativos de artistas, contribui para o espraiamento, progresso, desenvolvimento e divulga�‹o de peculiaridades caracter’sticas a este of’cio. AlŽm disso, este tipo de abordagem tambŽm exp›e maneiras diferenciadas de se operacionalizar o conhecimento e suas reverbera�›es poss’veis no campo da pesquisa acad�mico-art’stica.

 

 

Refer�ncias

 

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[Recebido em  17 out 2020 – Aceito em 17 set 2020]



[1] Doutor em Educa�‹o, Ator, Licenciado em Teatro. E-mail: vagnervarg@gmail.com

[2] Ao longo deste texto, as palavras outro(s), outra(s), em alguns momentos, ser‹o utilizadas em it‡lico com o intuito de ressaltar uma �nfase a algum aspecto diferenciado e amplo sobre o que se est‡ abordando na discuss‹o em determinado momento do texto. Esse recurso tambŽm Ž utilizado para ressaltar que estas palavras n‹o ser‹o utilizadas somente como pronomes indefinidos. Quando forem indicadas em it‡lico, estas palavras representar‹o um convite a quem l� este texto para refletir sobre possibilidades distintas das atŽ ent‹o desenvolvidas sobre o aspecto exposto naquele momento da discuss‹o desse artigo. O emprego deste recurso em it‡lico a essas palavras tambŽm foi feito com o intuito de que quem esteja a ler este artigo, as considere em it‡lico como um tipo de provoca�‹o ˆ reflex‹o desapegada das maneiras habituais como se depara com a leitura de um texto.

[3] Como a discuss‹o deste artigo se dar‡ a partir da pesquisa realizada por um ator, apenas por uma quest‹o de simplifica�‹o de escrita, ao longo deste texto, quando forem mencionadas quest›es que possam ser extrapoladas e relacionadas ˆs(aos) profissionais das artes performativas, ser‹o referidos os termos ÒatorÓ ou ÒatoresÓ. Entretanto, as discuss›es aqui propostas n‹o se limitam somente a designa�›es de g�nero para profissionais desta ‡rea que se identifiquem com o g�nero masculino. Sempre que for indicado ÒatorÓ ou ÒatoresÓ, o texto tambŽm estar‡ fluindo as reflex›es para o g�nero feminino, n‹o-bin‡rie, etc. Neste sentido, convido a quem leia este texto que o fa�a substituindo as terminologias relacionadas a g�nero para maneira como melhor se identificar.

[4] Este outro modus ser‡ explicado adiante neste texto, quando forem mencionados os procedimentos relacionados ao Experimento PoŽtico-Teatral, realizado por Vargas (2018).

[5] Sempre que o termo ÒcorporeidadeÓ for referido neste texto, ele estar‡ em acordo com as premissas defendidas no trabalho de Vargas (2018), dentre as quais, de maneira geral, se pode dizer que a corporeidade evoca um modus particular em se relacionar com suas percep�›es sinestŽsicas, estando atento aos processos significativos advindos ao longo deste processo no qual o corpo se apresenta com o campo emp’rico catalisador de reflex›es em por vir.

[6] VARGAS, Vagner. Demonstra�‹o tŽcnica da partitura corporal-vocal, referente ao experimento poŽtico-teatral, baseado no texto Prometeu Acorrentado, de ƒsquilo, j‡ com a organiza�‹o dos arquŽtipos vocais associados aos ressonadores corporais. Dispon’vel em: <https://youtu.be/dWLD-mCpBB4>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[7] VARGAS, Vagner. A subida ao penedo. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: < https://youtu.be/GAaEOquU_Kc>. Acesso em:15 jun. 2020.

[8] Quando me referir neste texto ao termo ÒsinestesiaÓ e suas variantes, estarei concebendo-o de acordo com o que Vargas (2018, p. 151) refere ao dizer que sinestesia Òcompreende um conjunto geral de percep�›es e sensa�›es interligadas por todos processos sensoriais. [...] oportunizando uma vis‹o mais ampla ao leitor sobre como o sistema sensorial/afetivo/emocional/volitivo influi no processo de significa�‹oÓ.

[9] Segundo Arist—teles (2007, p. 35-36), ÒA melopeia ou composi�‹o Ž a parte da arte musical que, entre os gregos, referia-se ˆ composi�‹o mel—dica. Esta parte, pela falta de documentos, Ž a que menos conhecemos; nela a mœsica estava subordinada ˆ poesia. A melodia Ž uma sequ�ncia de sons musicais dispostos por ordem tal que logram criar um sentido satisfat—rio ao ouvido e ao esp’ritoÓ.

[10]VARGAS, Vagner. Preso ˆs correntes. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: <https://youtu.be/crDbkXcmQh0>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[11] VARGAS, Vagner. Lamento. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/CkEyIZedQR4>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[12]VARGAS, Vagner. Revolta contra Zeus. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em: <https://youtu.be/3yXJm372J7s>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[13]VARGAS, Vagner. Medo do tŽrmino da noite. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/B7lmnbh4z6k>. Acesso em: 15 jun. 2020.

[14]VARGAS, Vagner. Chegada do corvo. Experimento poŽtico-teatral. Dispon’vel em:<https://youtu.be/tGQl66EacuY>. Acesso em: 15 jun. 2020.