COLETIVO LUSA MAHIN - SARAU DAS PRETAS: O PROMIC E A PERFORMANCE COMO MOBILIZADOR IDENTITRIO E FORMATIVO

 

 

COLETIVO LUSA MAHIN - SARAU DAS PRETAS: PROMIC AND PERFORMANCE AS IDENTITY AND FORMATIVE INSTRUMENT

 

 

Amanda Maria Damasio Teixeira[74]

https://orcid.org/0000-0002-4064-05

 

Ana Cristina Pereira da Silva [75]

https://orcid.org/0000-0003-2924-95

 

Resumo: Utilizando como foco o projeto londrinense Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas, este artigo pretende expor como o PROMIC (Programa Municipal de Incentivo Cultura) viabiliza performances em torno da literatura, da formao e de questes identitrias. Dito isso, utilizaremos como vis de anlise os textos de Zumthor (2007) e Aguilar e Cmara (2017), para compreender o papel da voz e da performance, e a teoria dos polissistemas de Even-Zohar (2013), em que discute sobre os polissistemas literrios e suas periferias. Tambm sero utilizadas transcries de entrevistas com duas produtoras culturais encarregadas do projeto. Levando em conta o artigo de Mariano (2019), em que pressupe-se uma interseco entre os polissistemas perifricos de Even-Zohar e a literatura afro-brasileira, foi possvel concluir que o PROMIC mobilizou aes mltiplas (em espaos privilegiados ou no, utilizando como base o texto escrito ou saberes orais) que contribuem para maior nfase mulher negra e de narrativas afro-brasileiras silenciadas por uma questo racial e perifrica, contribuindo, ento, para a oxigenao do cnone.

Palavras-chave: Sarau. Polticas pblicas. Literatura afro-brasileira.

 

Abstract: Using as a focus point the project Coletivo Lusa Mahin - Sarau das Pretas, based in Londrina, this article aims to show how PROMIC (a municipal cultural program) enables performances around literature, learning and identity matters. That said, the following authors were used as analisis bias: Zumthor (2007) and Cmara (2017) (to comprehend the role of voice and performance) and the Even-Zohars polysystem theory (2013), work in which he discusses literary polysystems and its peripheries. Transcribed interviews with the two cultural producers behind the project will be presented also. Taking into account Marianos article (2019), in which one could presuppose an intersection between the Even Zohars peripheral polysystems and afro-brazilian literature, was possible to conclude that PROMIC made actions viable (in multiple places and via written text or oral knowledge), giving more emphasis to black women and afro-brazilian narratives that were silenced by a racial and peripheral issue, contributing, finally, to a more balanced canon.

Keywords: Soiree. Public Policy. Afro-brazilian literature.

 

 

 

 

Introduo

 

Atualmente, os impactos das polticas pblicas de cultura so colocados em discusso, so questionados. Em Londrina, o PROMIC (Programa Municipal de Incentivo Cultura) viabiliza a execuo de inmeros projetos a partir de renncia fiscal. Um dos projetos contemplados, categorizado na rea destinada Literatura, o Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas, originalmente criado em 2015 para financiar a ida de um grupo de mulheres negras londrinenses para Braslia, onde participaram da 1 Marcha Nacional das Mulheres Negras. Esse acontecimento fez com que as pessoas envolvidas formassem o Coletivo de Mulheres Negras Lusa Mahin, responsvel pelo Sarau e por outros eventos formativos em que questes identitrias e relacionadas literatura afro-brasileira so colocadas em discusso. Segundo Fiama Helosa[76], uma das produtoras do evento, os objetivos so:

 

trabalhar a cultura afro-brasileira nas escolas e demais espaos educativos, abordando a importncia da compreenso da identidade negra e os desafios que ela enfrenta na sociedade brasileira a partir de diferentes formas (literatura, teatro, contao de histrias, palestras, roda de conversa) e tambm marcar a cena cultural londrinense com um espao dedicado cultura negra ( exaltao das nossas razes africanas) e ao fortalecimento da nossa comunidade por meio de um Sarau.

 

Assim, fica claro que o Sarau um dos espaos de fortalecimento da cultura negra local, que tem como atividade principal as performances que nele acontecem, mas que no se restringe s a isso.

O sarau tambm um dos espaos de discusso e de abertura para dilogo acerca da identidade afro-brasileira. Dessa forma, busca-se entender de que forma o PROMIC auxilia na realizao desses objetivos? De que forma a voz e a performance contribuem ou no para o fortalecimento de uma identidade londrinense e para o protagonismo da mulher negra?

 

 

Poltica pblica, polissistema e performance: uma questo de carter social

 

            Um dos tericos que utilizaremos neste trabalho Itamar Even-Zohar. Sua pesquisa em relao ao polissistema literrio, expresso cunhada pelo autor, discute o cnone literrio e as relaes que o afetam, dando nfase ao seu carter social. Sua proposta parte do reconhecimento de que a heterogeneidade da cultura ampla e se forma a partir de movimentaes centrpetas e centrfugas, em que a periferia e o centro da recepo literria se impactam. Sobre isso, Even-Zohar (2013, p. 8) declara:

 

A ideologia de uma cultura oficial como a nica aceitvel em uma dada sociedade tem como consequncia uma massiva compulso cultural que afeta a naes inteiras mediante um sistema educativo centralizado e que torna impossvel, inclusive a estudiosos da cultura, observar e valorar o papel das tenses dinmicas que operam no seio da cultura para sua efetiva manuteno. Como um sistema natural que necessita, por exemplo, de regulamentao trmica, os sistemas culturais necessitam tambm de um equilbrio regulador para no entrar em colapso ou desaparecer.

 

Ento, de acordo com a configurao expressa por Even-Zohar, possvel pensar em um repertrio brasileiro (e mltiplo, claro), em que essa centralizao (intrinsecamente relacionada ao social, ou seja, aos indivduos detentores do poder) implicaria uma posio menos prestigiosa literatura afro-brasileira (que se veria ento s custas de uma elite branca, por exemplo) e de outros nichos perifricos, supondo a existncia de um sistema ou um conjunto de elementos afro-brasileiro – hiptese defendida no artigo de Mariano (2019, p. 10):

Dentro da perspectiva brasileira, do sculo XIX, qualquer projeo de sistema literrio proveniente das populaes negras - e aqui poderamos pensar em outros recortes identitrios de minoria - seria devidamente barrada por um sistema hegemnico de literatura, muito bem estruturado nos rgidos moldes de raa, classe, gnero etc.

 

Assim, a literatura afro-brasileira dependeria de intervenes que se relacionam intimamente com o que Even-Zohar (2013, p. 6) expe como luta entre vrios estratos. Estando o polissistema literrio intrnseco ao social, o racismo tambm o afetaria, minimizando, talvez, seu alcance, visibilidade e recepo daqueles que se identificam como afro-brasileiros. interessante notar que o repertrio cannico definido pelas relaes travadas no polissistema, externas a um conjunto de caractersticas literrias, como discute Even-Zohar (2013). Embora, como explica o autor, o polissistema pode reorganizar-se sempre a fim de um equilbrio. Nesse sentido, o financiamento de projetos como o Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas pode auxiliar nessa movimentao? Quais foram as pessoas beneficiadas durante a realizao do projeto? De acordo com Poliana Santos[77], uma das organizadoras do Sarau, este foi o trajeto:

 

Quando ns fomos aprovadas no PROMIC, ns tivemos a possibilidade de realizar o nosso trabalho na zona rural, fizemos oficinas dentro do Eli Vive, o acampamento do MST, ns cruzamos a cidade de Londrina de Norte a Sul, de Leste a Oeste, podendo levar o nosso trabalho, com a estrutura de material pedaggico, material humano, que proporcionado por essas estruturas financeiras, n? Voc poder contratar oficineiros e oficineiras, comprar material didtico, se locomover pra isso... porque as pessoas no se atentam que o movimento social no vive s de amor, n? O movimento social no vive s de educao. Ele precisa de estrutura para ser realizado. E participar de um programa de Bolsa como o PROMIC d a estrutura para que esses trabalhos saiam de determinados nichos, podemos dizer ''privilegiados'', de acesso para ir mesmo para as periferias, para alm das fronteiras do urbano... ento, isso muito importante.

 

 

 

 

 

 

 

 

Imagem 1 – Performance no sarau

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

 

Deve-se ressaltar, ento, a utilizao da bolsa para o desenvolvimento de uma pedagogia e seus materiais, como tambm a contratao de terceiros e o transporte at os locais selecionados. Ele permite que essa ateno se volte a espaos desprivilegiados, fazendo com que esses tenham acesso a servios que dificilmente chegam at eles. Alm disso, h uma mobilizao local em torno de necessidades culturais que poderiam afetar as periferias e reas rurais da cidade. Houve tambm uma movimentao de aproximao entre a Academia e espaos perifricos, quando, obtendo maior visibilidade e estrutura por ser justamente aprovado pelo PROMIC, o Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas juntou-se a um projeto de extenso de Escrita Criativa da Universidade Estadual de Londrina. interessante notar que no mesmo trecho da fala de Poliana Santos vemos formas diferentes de abordagem em relao ao protagonismo da mulher negra – utilizando espaos perifricos (terreiros) e privilegiados (academia), como num contexto educativo informal e formal:

 

O Sarau das Pretas, em suma, tem um propsito fundamental em trabalhar a questo da formao, e essa formao a gente entende como trocas de saberes; dando o protagonismo da mulher, principalmente, da mulher negra. Ento assim, ns obtivemos, por exemplo, dentro do trabalho do Sarau das Pretas, um encontro dentro de uma casa de ax, que o terreiro da me Omin, onde vrias mulheres mais velhas trouxeram a sua cultura do benzimento, ento a gente fez essa troca com elas. Elas nos explicaram as questes das benzedeiras, os chs, trazendo essa historicidade atravs da sua oralidade, ali contando como era quando elas eram crianas, como se deram essa identidade de se ver como mulheres negras, ento muito pontual para ns essas vivncias. Ns nos organizamos para levar, por exemplo, uma oficina de Escrita Criativa, com o pessoal do professor Flvio Freire da UEL, ao pessoal do Flores do Campo. Ns nos organizamos para, com as crianas, trazer um material ldico, mas que faa o debate do racismo. Receber essa devolutiva, sabe, nesse processo educacional, , para ns, o mais importante. Um espao de formao onde a gente consiga resgatar essa historicidade pela questo da mulher negra, pelo olhar da mulher negra, e tambm levar um pouco da academia fazendo essa troca.[78]

 

A multiplicidade de eventos realizados pelo Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas permite uma abrangncia maior em relao discusso em torno da literatura afro-brasileira. Justaposto teoria dos Polissistemas, possvel perceber que o projeto no se limita apenas ao livro, produto final de todo um repertrio, como dir Even-Zohar (2013, p. 10), mas s tradies orais e formao e criao de novos leitores e produtores culturais (escritores):

 

difcil eliminar imagens respeitadas ao longo do tempo, e parece natural, portanto, que produzir e consumir textos tenha sido sempre a atividade mais importante na literatura. Em certos perodos, no obstante, o texto era mais marginal em relao a outras atividades no sistema literrio, tais como o escritor ou algum acontecimento total sob a forma de atuaes diversas.

 

As performances, ento, realizadas em variados espaos culturais da cidade (Usina Cultural, Cemitrio de Automveis e Casa da Vila), alm dos outros lugares j citados, demonstram um entendimento total de literatura por parte das organizadoras do evento, levando em conta que Even-Zohar compreende que as noes de livro e repertrio so parciais e no do conta para discutir um polissistema heterogneo. Dessa forma, capaz de adentrar lugares e alterar, nem que seja por pouco tempo, a hierarquia do espao, o direcionamento da ateno – conscientizando aqueles que permitem o racismo estrutural e aquelas que sofrem com este.

Assim, a partir da visibilidade garantida ao Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas, por meio do financiamento do PROMIC, possvel inferir que o PROMIC provoca maior oxigenao entre a canonicidade literria local, permitindo discusses que no abrangem apenas o livro ou a leitura em voz alta, mas a valorizao de tradies e vozes silenciadas por um sistema intrnseco ao polissistema literrio – o sistema social.

Como relatado por Even-Zohar (2013), existem foras centrfugas que podem carregar ou transferir propriedades de polissistemas perifricos para o centro – e poderamos afirmar que o sarau estudado uma dessas foras, colocando em evidncia essa identidade e suas vivncias:

 

De modo semelhante, por meio da estrutura polissistmica das literaturas envolvidas como podemos dar conta dos vrios e intrincados processos de interferncia. Por exemplo, ao contrrio da crena comum, a interferncia tem lugar, frequentemente, por meio das periferias (EVEN-ZOHAR, 2013, p. 18).

 

interessante relatar, ento, a importncia de projetos de polticas pblicas como o Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas que, por meio da literatura e da voz, impactam o social. Atravs de suas performances, indivduos se conscientizam sobre a posio da mulher negra na sociedade, como tambm adquirem conhecimentos silenciados justamente por uma questo racial. O financiamento decorrente de uma bolsa do PROMIC provoca uma luta mais igualitria, talvez, entre os estratos, permitindo estruturas perifricas terem mais visibilidade e melhor formao mesmo distantes dos grandes centros.

 

 

 

Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas: a performance como forma de re-existncia

 

O Coletivo Lusa Mahin – Sarau das pretas foi criado, conforme j dito, pelo coletivo Lusa Mahin, em 2015. A priori, segundo as organizadoras, o coletivo era formado por Poliana Santos, Fiama Helosa, Thasa Carvalho, Silvia Castro e Rute. A formao atual conta com Fiama Helosa, Poliana Santos, Ana Paula Barcellos, Mariana Valle e Jamile Baptista, frente do coletivo.

Visando arrecadao de recursos para a Marcha das Mulheres Negras, realizada em Braslia em novembro do mesmo ano, o sarau cujo protagonismo a mulher, sobretudo a mulher negra, teve continuidade aps o evento. A reflexo sobre a importncia do protagonismo da mulher negra para o cenrio cultural e artstico de Londrina impulsionou o grupo a buscar parcerias culturais.

A partir disso, o sarau surge como forma de fomento s trocas literrias, sendo visto como um evento, um momento de confraternizao, a princpio, e depois com o PROMIC agregado tambm, ao sarau, um trabalho de formao, um aspecto educacional, segundo Poliana Santos.

Na produo literria contempornea, o singular se faz presente por meio do coletivo, o que leva criao de grupos, denominados coletivos, que so constitudos pela afetividade e pela identidade partilhada, caractersticas essenciais para a formao de redes afetivas (LEON, 2014). Sendo assim, o Coletivo Lusa Mahin vem a ser um agente importante dentro do sistema literrio corroborando para o estabelecimento de redes que fortaleam e deem protagonismo cultura negra.

O modus operandi do Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas conta com diversas atividades que visam promover a cultura afro-brasileira, contemplando as mais diferentes manifestaes artstico-literrias. No entanto, a voz o cerne de todas as edies do sarau, por meio da performance que ressignifica o texto literrio e possibilita as trocas afetivas atravs das redes formadas por ela.

 

Imagem 2 – Exposies e instalaes no sarau

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019Na programao, discotecagem com DJ J

 

Moreno, roda de capoeira com o pessoal do Centro Esportivo de Capoeira Angola (CECA), apresentao musical com Tio Carvalho, Feirinha, gastronomia popular e momento de contao de histria para as crianas. O Sarau das Pretas se insere ainda como pr-abertura do Festival Literrio de Londrina – LONDRIX, por isso permeia a festa com momentos de microfone aberto para as mais diversas possibilidades de manifestao literria. Nosso encontro ser na Vila Cultural Cemitrio dos Automveis, a partir das 18h. Esperamos vocs! A entrada gratuita. Todas as atividades contam com o patrocnio do PROMIC, produo da P! Artstica e realizao do Coletivo Lusa Mahin.[79]

 

O PROMIC possibilitou ao Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas maior visibilidade s performances realizadas no evento, aumentando sua rede de alcance para as discusses sobre a cultura afro-brasileira e para divulgao de sua respectiva literatura. A lei de incentivo, que um dos agentes presentes no polissistema de Even-Zohar (2013), contribuiu para que a literatura afro-brasileira se movesse dentro desse sistema sentido ao centro dele.

claro que muito h de se fazer para que a literatura afro-brasileira chegue ao centro do sistema literrio, pois sabemos que as dificuldades em relao ao mercado editorial ainda so muitas. No entanto, o PROMIC como apoio para o sarau, evento cujo cerne a performance, surgiu como forma de movimentar essa literatura e dar condies de circulao dos textos literrios para alm do livro impresso.

 

Fazer o Sarau sempre foi uma forma de militncia porque acreditamos na importncia de fazer esse trabalho cultural sobre a cultura negra. Ao longo do percurso, tivemos muitos apoiadores e colaboradores, mas nunca de forma financeira. O dinheiro investido para realizar o Sarau, muitas vezes, era colocado do nosso prprio bolso. Muitas vezes, investimos com o nosso prprio dinheiro, depois recupervamos o valor com as coisas que fazamos para serem vendidas no evento (como comidas, bebidas, etc.) e, depois, guardvamos o que sobrava, quando sobrava depois de pagar todo mundo, como uma poupana do Sarau. Esse valor era investido novamente na prxima edio e assim amos indo. Mas essa limitao financeira nos impedia de crescer. Ns tnhamos vontade de ampliar as aes, mas no tnhamos perna. Ento, vimos no PROMIC essa possibilidade, que ele fosse o meio de financiarmos nossas aes. Com esse financiamento, conseguimos ampliar as atividades como j vnhamos planejando. Por isso, nosso projeto do PROMIC contemplou duas faces: a primeira educacional - em que fomos em escolas das reas urbana e rural falar com crianas, adolescentes e adultos sobre a cultura negra, alm tambm de oficinas abertas para a comunidade; e a segunda, cultural - momento em que realizamos edies do Sarau das Pretas para mostrar o resultado dos trabalhos desenvolvidos nas oficinas e para fortalecer a cena cultural negra na cidade.[80]

 

O ato performtico nico, dotado de corporeidade, carregado de sensaes e emoes. Uma voz no pode ser vista separada de um corpo, sempre que existir uma voz vai existir um corpo (ZUMTHOR, 2007). Dessa forma, voz, corpo e espao se fundem a fim de convocar a performance para mostrar que sua presena transforma as leituras possveis de uma obra (AGUILAR; CMARA, 2017, p. 13).

Imagem 3 – Apresentaes musicais

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

O corpo, os gestos, os modos de vestir, as entonaes da voz, so aspectos que o texto escrito sugere, mas no permite vivenciar. Atravs da performance, esses aspectos so vistos, sentidos e apreendidos de forma mais ntima, e assim, os sujeitos se afetam mutuamente permitindo essa experincia vivenciada.

 

Na performance a voz emanao do corpo, uma representao plena, que no apenas uma forma de comunicao que transmite conhecimento, mas que transforma o conhecimento, e sendo assim transforma de alguma forma o ser. A voz marca tanto o performer quanto o espectador, estabelecendo uma comunicao potica, uma experincia vivenciada [...] (SILVA; FERNANDES, 2019, p. 122).

 

As performances que acontecem nos Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas so dotadas de representatividade e ancestralidade. Como exemplo, temos um encontro que aconteceu dentro de uma casa de ax, que o terreiro da me Omin:

 

vrias mulheres mais velhas trouxeram a sua cultura do benzimento, ento a gente fez essa troca com elas nos explicando as questes das benzedeiras, os chs, trazendo essa sua historicidade atravs da sua oralidade, ali contando como era quando elas eram crianas, como se deram essa identidade de se ver como mulheres negras, ento muito pontual para ns essas vivncias.[81]

 

Alm de ser um meio de divulgar a literatura afro-brasileira, as performances do sarau tambm trazem a questo da representatividade a partir da histrias contadas por essas mulheres. E a, a mquina performtica se faz instrumento de transformao do conhecimento e de re-existncia para o performer e para o espectador. Espectador esse que se reconhece no performer ou que conhece a cultura afro-brasileira a partir das vivncias e dos saberes transmitidos pelas mulheres negras atravs da performance.

Nesse sentido, pode-se afirmar que o sarau uma forma de resistncia no sentido de re-existir, de fazer re-existir. importante deixar claro o conceito de resistncia, visto que na atualidade, vrias so as possibilidades de sentido que se pode atribuir ao termo.

 

Ora, diante da ideia de que o poder, como relao de foras, funciona sempre como produtor de afetos, que a resistncia aparece para Foucault como um terceiro poder da fora. Se as foras se definem segundo o poder como um afetar e um ser afetado, resistir a capacidade que a fora tem de entrar em relaes no calculadas pelas estratgias que vigoram no campo poltico. A capacidade que a vida tem de resistir a um poder que quer geri-la inseparvel da possibilidade de composio e de mudana que ela pode alcanar.

Resistir , neste aspecto, o oposto de reagir. Quando reagimos damos a resposta quilo que o poder quer de ns; mas quando resistimos criamos possibilidades de existncia a partir de composies de foras inditas. Resistir , neste aspecto, sinnimo de criar. Sendo assim, a resistncia , para Foucault, uma atividade da fora que se subtrai das estratgias efetuadas pelas relaes de foras do campo do poder. Esta atividade permite fora entrar em relao com outras foras oriundas de um lado de fora do poder [...]. Foras do devir, da mudana, que apontam para o novo e engendram possibilidades de vida (MACIEL JR., 2014, p. 2).

 

Dessa forma, em Foucault que se busca fundamentar essa afirmao do sarau enquanto resistncia (re-existncia), em especial o Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas que coloca em evidncia a mulher negra no campo social e atua nesse mesmo sentido o qual Maciel Jr. (2014), ao retomar Foucault, nos traz o conceito de resistncia como criao, como fora da mudana que aponta para o novo e permite a abertura de possibilidades.

 

Imagem 4 – Integrantes do Coletivo Lusa Mahin – Sarau das PretasDescription: C:\Users\anacp\Downloads\WhatsApp Image 2020-08-18 at 09.33.28.jpeg

Fonte: Arquivo do evento (Facebook), 2019.

 

O Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas resistncia, porque resistir nessa perspectiva Ҏ criar, para alm das estratgias de poder (MACIEL JR., 2014, p. 2). O sarau cria possibilidades de composio e de mudana social por meio da performance. A voz, o corpo e o espao permitem que o texto literrio ganhe vida e possibilitam sua entrada em novos espaos sociais por meio das trocas de saberes e das trocas afetivas que operam nos saraus.

 

 

Consideraes finais

 

O Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas contou com o apoio do PROMIC para realizao das edies do sarau, e esse incentivo foi de grande importncia para a viabilizao do evento que, de acordo com seu modus operandi, mobiliza a divulgao de textos literrios de mulheres negras e a insero deles em diferentes espaos sociais por meio da performance.

A lei de incentivo municipal cultura foi essencial para que a literatura afro-brasileira londrinense rompesse as barreiras do mercado editorial, criando possibilidades de divulgao desses textos para alm do livro impresso.

O PROMIC necessrio, porm ainda insuficiente e tardio, nem sempre realizando a projeo para alcanar todos os grupos que poderiam oxigenar a literatura local, distanciando-se de um cnone que replica um repertrio j conceituado. Sofrendo alguns ajustes, o programa poderia ser ainda mais impactante nesse sentido.

A performance, enquanto cerne de um sarau, funciona no Coletivo Lusa Mahin – Sarau das Pretas como uma possibilidade de fortalecer a cultura afro-brasileira, trazendo em si sua ancestralidade e representatividade e permitindo a vivncia da cultura negra.

A questo identitria, to cara literatura contempornea, a essncia desse sarau, que traz nomes to importantes para homenagear a mulher negra, como Lusa Mahin, Marielle e Y Mukumby. A performance vem contribuir para a valorizao da identidade negra no cenrio local e o PROMIC viabilizou essas aes do Coletivo Lusa Mahin.

Em tempos em que cada vez mais recursos destinados cultura, arte e literatura so cortados, esse trabalho se faz relevante para que se chame ateno para a importncia dessas aes, sobretudo para aqueles que esto margem da sociedade.

 

 

Referncias

 

AGUILAR, Gonzalo, CMARA, Mario. A mquina Performtica: a literatura no campo experimental. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

EVEN-ZOHAR, Itamar. Teoria dos Polissistemas. 2013. Traduo de Luis Fernando Marozo, Carlos Rizzon e Yanna Karlla Cunha. Disponvel em: >https://seer.ufrgs.br/translatio/issue/viewFile/2211/22< Acesso em: 29 jul. de 2020.

LEONE, Luciana Di. Poesia e escolhas afetivas: edio e escrita na poesia contempornea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

MACIEL JR., Auterives. Resistncia e prtica de si em Foucault. Trivium, Rio de Janeiro, v. 6, n. 1, p. 01-08, jun. 2014. Disponvel em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2176-48912014000100002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 15 abr. 2020.

MARIANO, Jos Victor Nunes. Da periferia do hegemnico: o sistema literrio afro-brasileiro. In: Suplemento literrio de Mato Grosso Ndoa do Brim. Edio 67. 2019. Disponvel em: >https://www.researchgate.net/publication/341104225_Da_periferia_do_hegemonico_-_O_sistema_literario_afro-brasileiro<. Acesso em: 30 jul. 2020.

SILVA, Ana Cristina Pereira da; FERNANDES, Frederico Augusto Garcia. Sarau e performance: a rede Londrix e estratgias de insero do texto potico. Revista Boitat, Londrina, n. 27, jan.- jun. 2019, p. 118-131. Disponvel em: http://www.uel.br/revistas/uel/index.php/boitata/article/view/38312/27135. Acesso em: 15 abr. 2020.

ZUMTHOR, Paul. Performance, recepo e leitura. Traduo de Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. So Paulo: Cosac Naify, 2007.

 

 

[Recebido: 16 ago 2020 – Aceito: 03 mar 2021]



[74] Mestranda em Estudos Literrios pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa a relao entre polticas pblicas municipais e estaduais e a literatura.

[75] Mestranda em Estudos Literrios pela Universidade Estadual de Londrina. Pesquisa a performance e os saraus literrios em Londrina.

[76] SANTOS, Fiama Helosa Silva dos. Entrevista - Sarau das Pretas. Concedida a Ana Cristina Pereira da Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 13 jul. de 2020. No prelo.

[77] SANTOS, Poliana. Entrevista 2 – Sarau das Pretas. udios transcritos de WhatsApp. Concedida a Ana Cristina Pereira da Silva e Amanda Maria Damasio Teixeira. Londrina, 28 jul. de 2020. No prelo.

[78] SANTOS, 2020, s/p.

[79] Excerto da pgina do Facebook do coletivo COLETIVO LUSA MAHIN – SARAU DAS PRETAS. Disponvel em: https://www.facebook.com/saraudaspretaslondrina. Acesso em: 10 ago. 2020.

[80] SANTOS, Fiama, 2020, s/p.

[81] SANTOS, Poliana, 2020, s/p.