AUTOBIOGRAFIA DE MULHERES CORDELISTAS: UMA CONTRIBUI‚ÌO
PARA A NOVA HISTORIOGRAFIA DO CORDEL
WOMEN
CORDELISTÕS AUTOBIOGRAPHY : A CONTRIBUTION TO THE NEW CORDELÕS HISTORY
Maria
Gislene Carvalho Fonseca[47]
http://orcid.org/0000-0003-3201-1946
Resumo: Este artigo trata das narrativas autobiogr‡ficas de tr�s poetas cordelistas: Julie Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara. Discutimos aqui sobre como, ao narrar a si mesmas, elas reescrevem a hist—ria do cordel. Para isso, utilizamos como refer�ncia a Teoria do Ponto de Vista de Hill Collins (2019, 2019a) e embasamo-nos metodol—gica e epistemologicamente nas perspectivas do feminismo decolonial apontadas em Curiel (2020), Lugones (2019) e Anzaldœa (2019). Para discutir a dimens‹o do g�nero no cordel, apoiamo-nos nos trabalhos de Santos (2020) e Lemaire (2017, 2018, 2020). Com isso, observamos que Ž preciso nos voltarmos para as biomitografias e pontos de vista das mulheres cordelistas para sermos capazes de refletir sobre o universo do cordel.
Palavras-chave: Cordel. Mulheres. Autobiografias.
Abstract: This article deals with the autobiographical narratives of three poets:
Julie Oliveira, Izabel Nascimento and Auritha Tabajara. We discuss here how, in
narrating themselves, they rewrite the history of the cordel. For that,
we used Hill Collins' Theory of Point of View (2019, 2019a) as a reference and
based methodologically and epistemologically on the perspectives of decolonial
feminism pointed out in Curiel (2020), Lugones (2019) and Anzaldœa (2019). To
discuss the gender dimension in the cordel, we rely on the work of
Santos (2020) and Lemaire (2017, 2018, 2020). With that, we observed that It is
necessary to turn to the biomitographs and points of view of the women
cordelists in order to be able to reflect on the universe of the cordel.
Keywords: Cordel, Women, Autobiographies.
Introdu�‹o
Historicamente, as narrativas produzidas por mulheres v�m sendo apagadas da historiografia oficial – produzida por homens acad�micos, brancos, a partir de conhecimentos eurocentrados. No caso do cordel, isso n‹o Ž t‹o diferente. As narrativas tambŽm priorizam os pontos de vista masculinos, de homens que muitas vezes est‹o buscando aceita�‹o do universo acad�mico, e que invisibilizam as produ�›es de mulheres. Sem falar nas formas como as mulheres s‹o tratadas enquanto suas personagens: estereotipadas como doces e belas, ou como descontroladas e feias.
A forma poss’vel de reverter essa situa�‹o Ž a partir do reconhecimento, valoriza�‹o e visibilidade das produ�›es de mulheres. As cordelistas s‹o parte importante e fundamental para a hist—ria do cordel, para o entendimento de suas perspectivas de tradi�‹o e suas produ�›es reescrevem aquilo que costumamos aprender sobre este universo. Ao olharmos para as autobiografias das mulheres poetas, estamos olhando para sua pr—pria vida, mas tambŽm para suas a�›es que afetam e que constituem aquilo que Ž o cordel contempor‰neo.
Neste artigo, observamos como isso se d‡ em cordŽis autobiogr‡fico das poetas Julie Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara. O objetivo n‹o Ž fazer uma compara�‹o entre as hist—rias, mas identificar como cada uma, ao seu modo, ao contar sobre suas vidas e trajet—rias art’sticas, tambŽm registram o tempo e contam a hist—ria do cordel.
Para essa reflex‹o, temos como base te—rica os estudos sobre a mulher no cordel de Santos (2020) e Lemaire (2017, 2018, 2020) articulados com a Teoria do Ponto de Vista de Hill Collins (2019). Nossa an‡lise est‡ ancorada em uma metodologia feminista decolonial, descrita por Curiel (2020), e no Pensamento de Fronteiras, proposto por Anzaldœa (2019), que nos permitem reconhecer as vozes das poetas como forma de conhecimento fundamental para o entendimento aqui proposto, buscando nos versos aqueles elementos que desestabilizam as estruturas narrativas patriarcais.
A teoria do Ponto de Vista
e as contribui�›es do pensamento feminista negro de Hill Collins para pensar
o trabalho das mulheres cordelistas
O pensamento feminista negro tratado por Hill Collins Ž quase um chamamento para todas aquelas cuja produ�‹o de conhecimentos est‡ fora dos centros de reconhecimento. ƒ desse pensamento que emerge a discuss‹o sobre o ponto de vista, conforme nos apresenta ångela Figueredo. ÒO pensamento feminista negro Ž um conjunto de experi�ncias e ideias compartilhadas por mulheres negras que envolve interpreta�›es te—ricas da realidade a partir de um ponto de vistaÓ (FIGUEREDO, 2017, p. 3) Trata-se de uma convoca�‹o para que todas contemos as nossas pr—prias hist—rias a partir de nossas experi�ncias – muitas vezes subalternizadas por um sistema que hierarquiza saberes e modos de transmiss‹o.
Para Patr’cia Hill Collins, a luta das mulheres afro-americanas para terem suas vozes ouvidas desenvolveu um Òponto de vista autodefinido e coletivo sobre a feminilidade negraÓ (HILL COLLINS, 2017, p. 3) e isso ajudou a responder ˆ sua representa�‹o nos discursos dominantes. Trata-se de uma a�‹o que nos ajuda a pensar sobre as estratŽgias de visibilidade de outros grupos, externos ˆqueles que se prop›em universais, como Ž o caso das mulheres poetas cordelistas do Nordeste brasileiro.
Para refletirmos sobre a produ�‹o dos cordŽis autobiogr‡ficos de Izabel, Julie e Auritha como narrativas que tecem tambŽm a historiografia do cordel, partimos das discuss›es de Hill Collins (2019) sobre a teoria do ponto de vista. A autora afro-americana tra�a essa reflex‹o para falar sobre a import‰ncia do ponto de vista das mulheres negras ao contarem suas pr—prias hist—rias. Tomamos de emprŽstimo tal reflex‹o para falarmos sobre uma manifesta�‹o cultural que Ž marginalizada a partir do olhar do c‰none letrado e academicista.
A hist—ria oficial do cordel, defendida pela Academia Brasileira de Literatura de Cordel e por centros de estudo, como a Funda�‹o Casa de Rui Barbosa, vem sendo contada a partir de uma perspectiva masculinizada, que trata a poesia de cordel como um ambiente conservador e localizado no espa�o destinado ao ÒpopularÓ no ‰mbito da literatura. Enquanto n‹o encontrarmos espa�os para que as mulheres poetas contem suas hist—rias, os seus Òpontos vistasÓ, n‹o poderemos desestabilizar essa narrativa normatizadora.
As mulheres cordelistas s‹o silenciadas em diversos momentos: quando n‹o podem usar seus nomes como autoras de seus versos; quando n‹o podem participar de disputas e pelejas; quando os homens afirmam que s‹o poucas e raras as mulheres cordelistas; quando eles negam o sexismo no ambiente da poesia; quando reservam uma mesa apenas, como uma espŽcie de cota que n‹o pode se extrapolada, para a participa�‹o de mulheres nos eventos. ƒ a partir desses silenciamentos que aqueles que dominam a narrativa historiogr‡fica conseguem se impor. E Ž contra isso que nos posicionamos.
Assim, a partir de Collins (2019, 2019a), a teoria do ponto de vista nos ajuda a refletir sobre o poder da autodefini�‹o. Segundo a autora, Òas vozes das mulheres afro-americanas n‹o s‹o de v’timas, mas de sobreviventesÓ (HILL COLLINS, 2019a, p. 273) e isso Ž fundamental para pensarmos sobre uma nova escrita da hist—ria. Precisamos olhar para as diversidades das experi�ncias, que produzem diferentes narrativas. As vozes que se sobressaem nas rela�›es de poder, que criam e reverberam tradi�›es, n‹o podem ser tomadas como as œnicas poss’veis. E contra isso Ž que as vozes das mulheres poetas que tratamos aqui se mobilizam.
Deste modo, elas transformam silenciamentos em linguagem materializada, o que contribui para evidenciar as rela�›es de opress‹o contra as quais as mulheres poetas de cordel lutam. Suas falas reivindicando espa�os mais respeitosos para seus trabalhos, como durante o movimento #cordelsemmachismo de 2020, geraram rea�›es de repres‡lias que exigem estratŽgias cuidadosas de a�‹o. Nestes termos, essas narrativas, que emergem de movimenta�›es e inquieta�›es, desafiam as opress›es e criam outras hist—rias poss’veis.
Segundo Hill Collins (2019a), a autodefini�‹o, que decorre das narrativas de si, rejeita os pressupostos de que aqueles em posi�›es poder teriam autoridade e legitimidade para interpreta�›es de uma realidade universalizante. Essa discuss‹o aponta para uma urg�ncia fundamental ao discutirmos quest›es de g�nero no que dizem respeito ˆ interseccionalidade de ra�a, de sexualidade e de classe social. Quando falamos sobre as mulheres poetas de cordel, consideramos sua diversidade interna. S‹o mulheres negras, ind’genas, gordas, lŽsbicas, bissexuais que s‹o frequentemente silenciadas em seus espa�os de circula�‹o e que t�m no cordel um modo de express‹o. Mas, nesse ambiente, elas encontram outros desafios e necessidades de mobiliza�›es. Deste modo, Ž imprescind’vel que suas experi�ncias narradas a partir de suas pr—prias vozes – aqui consideradas a partir de cordŽis autobiogr‡ficos – sejam definidoras de outras hist—rias poss’veis sobre o universo do cordel.
Pensar pela dimens‹o do feminismo negro e a teoria do ponto de vista n‹o significa que estamos igualando as experi�ncias distintas de opress›es pelas quais passam as mulheres. Pelo contr‡rio. A partir desse pensamento, fundamentamos as especificidades das agendas e demandas que as mulheres, individualmente ou em grupo, convocam. Rejeitamos um ideal universalista Òda mulherÓ a partir do que Lugones (2019) considera como um problema da modernidade europeia: o binarismo de g�nero. Em vez disso, entendemos o que prop›e Hill Collins (2017):
Inserindo o adjetivo ÒnegroÓ desafia a brancura
presumida do feminismo e interrompe o falso universal desse termo para mulheres
brancas e negras. [...] O termo Òfeminista negraÓ destaca as contradi�›es
subjacentes ˆ brancura presumida do feminismo e serve para lembrar ˆs mulheres
brancas que elas n‹o s‹o nem as œnicas nem a norma ÒfeministasÓ (HILL COLLINS,
2017, p. 13-14)
A partir destas discuss›es, podemos entender o poder da autodefini�‹o para a constru�‹o de outras narrativas historiogr‡ficas poss’veis, que nos levam a transformar a escrita da hist—ria do cordel. Que passa a ser um espa�o que, em sua diversidade, evidencia e se define tambŽm pelos trabalhos desenvolvidos pelas mulheres. Neste sentido, narrar a si articula rela�›es de poder que s‹o retomadas e assumidas pelas mulheres que contam suas pr—prias hist—rias.
Feminismo decolonial
Como uma investiga�‹o que visa contribuir para uma reescrita da hist—ria do cordel, partimos de um posicionamento epistemol—gico feminista e decolonial (ORTIZ OCA„A, 2019). Segundo Curiel (2020, p. 121), as metodologias decoloniais nos Òoferecem um pensamento cr’tico para entendermos a especificidade hist—rica e pol’tica de nossas sociedades, [...] questionam narrativas da historiografia oficial e mostram como se configuram hierarquias sociaisÓ. Entretanto, esta autora aponta que, em uma perspectiva feminista decolonial, a partir de Lugones (2019), as colonialidades n‹o s‹o definidas apenas por operadores raciais, mas tambŽm por dimens›es de g�nero e de sexualidade.
Ainda nessa perspectiva, Gl—ria Anzaldœa prop›e um pensamento a partir de uma Òconsci�ncia mesti�aÓ, como alguŽm que rompe as fronteiras e vive o tr‰nsito que entende a mesti�a como Òum produto da transfer�ncia de valores culturais e espirituais de um grupo para outroÓ (ANZALDòA, 2019, p. 324). Este entendimento nos permite pensar o saber a partir de posi�›es que n‹o podem (ou n‹o deveriam ser) hier‡rquicas. Sendo constru’do de formas conjuntas, em parcerias, o saber se faz nas fronteiras entre o eu e o outro/a outra.
La mestiza tem de se mover constantemente para fora
das forma�›es cristalizadas – do h‡bito; para fora do pensamento
convergente, do racioc’nio anal’tico que tende a usar a racionalidade em
dire�‹o a um objetivo œnico (um modo ocidental). Para um pensamento divergente,
caracterizado por um movimento que se afasta de padr›es e objetivos
estabelecidos, rumo a uma perspectiva mais ampla, que inclui, em vez de excluir
(ANZALDòA, 2019, p. 325).
Anzaldœa (2019) prop›e que pensar como mesti�a n‹o se trata de uma mera jun�‹o de peda�os, tampouco uma jun�‹o de for�as opostas. Para a autora, a consci�ncia mesti�a rompe com aspectos unit‡rios e universalizantes e tem o trabalho de desmontar as dualidades sujeito-objeto, mostrando de que maneira essa dualidade pode ser transcendida.
Quando pensamos na historiografia do cordel tradicionalmente compartilhada por institui�›es oficiais, como a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, que colocam poetas homens como protagonistas na produ�‹o de folhetos sob o argumento de que haveria Òpoucas mulheresÓ fazendo poesia, nos vemos diante da necessidade de alguns rompimentos. H‡ um silenciamento das vozes das mulheres e das narrativas que destacam sua participa�‹o – inclusive daquelas decorrentes de quando se fazia necess‡rio que mulheres assinassem seus folhetos com pseud™nimos masculinos, como Ž o caso de Maria das Neves, que assinava com o nome de seu marido, Altino Alagoano.
Deste modo, pensando a partir de uma consci�ncia mesti�a (ANZALDòA, 2019), inquietamo-nos com essa invisibilidade imposta ˆs mulheres. Imposi�‹o que parte de homens, que tambŽm s‹o exclu’dos de uma literatura can™nica, que almejam um micropoder, cuja exist�ncia se faz no exerc’cio de apagamento dos conflitos e disputas de sentidos presentes e em tr‰nsito nas fronteiras das defini�›es do cordel.
Nossos escritos devem, ent‹o, ser modos de articular nossas pr—prias inquieta�›es e servirem para evidenciar desestabiliza�›es de narrativas tidas como dadas. Deste modo, ao entender que a luta mesti�a Ž, acima de tudo, uma luta feminista, Anzaldœa (2019, p. 330) considera que apesar de sabermos de onde vem o —dio masculino e a consequente viol�ncia contra as mulheres, Òn—s n‹o desculpamos, n‹o toleramos e n‹o iremos mais tolerarÓ. Segundo a autora, Ž preciso coragem para romper com a sujei�‹o que Ž imposta ˆs mulheres em estratŽgias narrativas de ternura, como um sinal de vulnerabilidade. Uma forma poss’vel de rompimento Ž quando passamos a contar as nossas pr—prias hist—rias, como vemos as mulheres poetas fazerem.
AtravŽs de nossa literatura, arte, corridos e contos
populares, temos de compartilhar nossa hist—ria com elas/eles, para que quando
organizarem comit�s de ajuda aos navajos ou aos agricultores chicanos ou a los
nicaraguenses, n‹o rejeitem algumas pessoas por causa de seus medos e ignor‰ncias
raciais. Elas/eles entender‹o que n‹o est‹o nos ajudando, mas seguindo nossa
lideran�a (ANDALZòA, 2019, p. 332).
Precisamos retomar a possibilidade de narrarmos a n—s mesmas, desestabilizando aquelas hist—rias que foram contadas como forma de Òcompensar seus pr—prios defeitosÓ (LUGONES, 2019, p. 332), como formas de exercer poderes de uns grupos sobre outros. Nestes termos, Lugones (2019, p. 361) aborda uma Òcoloniza�‹o da mem—riaÓ e prop›e que o termo ÒcolonialidadeÓ nomeia
N‹o apenas uma forma de classificar pessoas atravŽs de
uma colonialidade do poder e dos g�neros, mas tambŽm para pensar sobre o
processo ativo de redu�‹o das pessoas, a desumaniza�‹o que as qualificam para a
classifica�‹o, o processo de subjetiva�‹o, a tentativa de transformar o colonizado
em menos que humano.
Anzaldœa (2000, p. 230) tambŽm discute os desafios de se fazer ouvir sendo mulher, mesti�a, queer. Para a autora, ÒelesÓ combatem e atacam as mulheres Òde corÓ, Òporque desequilibramos e muitas vezes rompemos as confort‡veis imagens estereotipadas que os brancos t�m de n—sÓ. A escrita das mulheres, ent‹o, aparece como uma afronta e uma forma de resist�ncia.
N—s anulamos, n—s apagamos suas impress›es de homem
branco. Quando voc� vier bater em nossas portas e carimbar nossas faces com
ESTòPIDA, HISTƒRICA, PUTA PASSIVA, PERVERTIDA, quando voc� chegar com seus
ferretes e marcar PROPRIEDADE PRIVADA em nossas n‡degas, n—s vomitaremos de
volta na sua boca a culpa, a auto-recusa e o —dio racial que voc� nos fez
engolir ˆ for�a. N‹o seremos mais suporte para seus medos projetados (ANZALDòA,
2000, p. 231, destaques da autora).
ƒ isso o que fazem as mulheres poetas quando se organizam para contarem suas pr—prias hist—rias. Seja nos folhetos e em suas narrativas autobiogr‡ficas, seja ao mobilizarem-se por transforma�›es socioculturais, mercadol—gicas e pol’ticas. As poetas enfrentam as imposi�›es hist—ricas das narrativas que frequentemente apagam suas contribui�›es e devolvem ao universo do cordel as suas hist—rias, o seu ponto de vista.
A mulher na poesia de cordel
Quando olhamos para a hist—ria da poesia de cordel, somos levados a longas antologias baseadas em folhetos de autoria masculina. Isso n‹o Ž diferente, por exemplo, quando acompanhamos eventos, feiras e festivais. Os espa�os ocupados pelas mulheres poetas ainda s‹o restritos (CARVALHO; OLIVEIRA, 2018) e muito disso se deve a um poder institu’do para que essa hist—ria seja contada: ela vem sendo conduzida por homens.
Essa situa�‹o n‹o Ž exclusiva do universo do cordel, mas reflete uma situa�‹o que atravessa as sociedades capitalistas (FEDERICI, 2019) e a sua historiografia. Resulta, ainda, de toda uma estrutura de forma�‹o e valoriza�‹o do conhecimento (LEMAIRE, 2017; 2018). ƒ esse saber eurocentrado, masculinizado, branco, heterossexual, que Ž criticado ao apoiarmo-nos em uma perspectiva decolonial para o desenvolvimento desta reflex‹o.
Lemaire (2020) nos explicita, em uma aprofundada discuss‹o, que parte do Cancioneiro das Donas de Carolina Michaelis, diversas estratŽgias de poder a partir do uso da linguagem e do saber para um movimento excludente que faz parte da historiografia do cordel. Segundo Santos (2020), h‡ registros de publica�›es de mulheres desde os anos 1930. A pesquisadora faz refer�ncia a Maria das Neves Pimentel, que assinava como Altino Alagoano (nome de seu marido) e ˆ gravadora Maria Athayde, filha do conhecido editor Jo‹o Marins de Athayde nos anos 1940. Ainda assim, elas n‹o constam nas antologias e cat‡logos sobre o cordel que come�am a ser publicados nos anos 1960.
Um estudo da Funda�‹o Casa de Rui Barbosa, organizado em 5 volumes e publicado nos anos 1970, configura-se em uma importante e densa pesquisa sobre a poesia de cordel. ƒ uma obra utilizada como bibliografia em universidades para o estudo da poesia de cordel e, assim, tem um grande alcance ainda nos dias de hoje. Esses textos, produzidos com a colabora�‹o de Cavalcanti Proen�a, Or’genes Lessa, Ant™nio Houaiss e Manuel Diegues Junior, tiveram o apoio do MinistŽrio da Educa�‹o e Cultura e, portanto, tratam do que se tornou a historiografia oficial do cordel. ƒ essa a hist—ria que Ž repetidamente contada quando se fala da poesia de cordel – a de folhetos impressos, separados de suas formas orais, de origem portuguesa etc. ƒ nessa hist—ria que n‹o encontramos as vozes das mulheres – ou as encontramos como raras e ÒdesinteressadasÓ[48] pela poesia.
Ainda sobre a hist—ria contada pela FCRB, Lemaire (2020, p. 184) aponta que
Para indicar os autores dos folhetos, privilegia-se o
nome de trovador, uma palavra medieval. Trata-se de uma estratŽgia discursiva
que permite, pela aproxima�‹o com a literatura da Idade MŽdia europeia e com o
tipo de poeta que era o trovador medieval – homem e membro da nobreza
–, impor a ideia de uma poesia ao mesmo tempo antiga e de autoria
exclusivamente masculina, com origens alheias, nobres e escritas, silenciando e
ocultando a atualidade, a especificidade regional do folheto, a sua base oral,
cantada, a presen�a de mulheres cantadoras.
Por meio de poderes acad�micos e
letrados estabelecidos, o cordel Ž inferiorizado a partir de um referencial can™nico.
Torna-se uma poesia marginalizada. E, dentro da esfera desta margem, os homens
se utilizam de um micropoder criador de normas, regras e ordens que excluem e
minimizam as mulheres que tambŽm s‹o poetas. Segundo Mello (2020, p. 8), Òa
mulher que faz cordel tem pouca visibilidade em virtude de preconceitos duplos:
o de pertencimento a uma cultura das bordas e pelo pertencimento a uma cultura
marcada pelo androcentrismoÓ. S‹o aceitas, apenas, aquelas que est‹o dispostas
a submeterem-se a essas normas e ˆs narrativas constru’das por esses detentores
de um poder que emana da posse de editoras, da dire�‹o de academias, de
visibilidade internacional e da retroalimenta�‹o de egos pelos pares.
Movida pela
inquieta�‹o diante da invisibilidade das inœmeras mulheres poetas que n‹o
apareciam nas antologias, silenciadas em espa�os pœblicos, a professora Fanka
Santos cataloga em O Livro Delas t’tulos de mulheres cordelistas atŽ os
anos 2010. Santos (2020) prova com sua pesquisa que as produ�›es das autoras
n‹o sou poucas ou raras, e sugere que
um grande problema, que teve como consequ�ncia esse apagamento das mulheres
poetas, Ž que a historiografia da literatura que conta a trajet—ria do cordel Ž
feita a partir de uma perspectiva Òscriptoc�nticaÓ, que utiliza como
mŽtodo de investiga�‹o da oralidade as mesmas formas utilizadas para a pesquisa
de fen™menos escritos. Por isso, a pesquisadora aponta uma urg�ncia de
transforma�‹o n‹o apenas nos objetos de estudo, mas tambŽm dos paradigmas que
direcionam esses trabalhos.
Nesse cen‡rio, as mulheres poetas t�m se organizado politicamente para reagirem a um apagamento hist—rico de suas contribui�›es para a poesia de cordel. Elas se reœnem em grupos e associa�›es, mas tambŽm informalmente, pensando produtos, eventos e a�›es pol’ticas de mobiliza�‹o. Essas estratŽgias t�m encontrado nas redes sociais on-line um espa�o para sua exist�ncia, divulga�‹o e convoca�‹o de novas ades›es ˆ causa de um cordel menos excludente.
E Ž por caminhos das discuss›es de g�nero no cordel
que eu vejo uma possibilidade de fratura mais evidente: essa que os poetas
tradicionalistas e os que se pregam progressistas tentam apagar. Porque Ž a
produ�‹o das mulheres que vem questionando e oferecendo condi�›es de
continuidade, n‹o pelas vias de suporte ou de formato, mas pela dimens‹o
pol’tica de resist�ncia que o cordel oferece (FONSECA, 2019, p. 209),
E uma reivindica�‹o fundamental dos grupos de mulheres poetas Ž de que suas vozes sejam ouvidas e respeitadas. Para isso, Ž fundamental que elas contem suas pr—prias hist—rias e, assim, contem tambŽm uma nova hist—ria do cordel. Como aponta Adichie (2019), os riscos imanentes de uma hist—ria œnica s‹o de que os indiv’duos repercutam seus desconhecimentos como verdades œnicas.
Em um universo simb—lico de produ�‹o de conhecimento pautado em uma refer�ncia masculinizada, Ž importante referirmo-nos a um registro de mem—rias que desloca o eixo narrativo para as mem—rias de mulheres, de mulheres negras, de mulheres perifŽricas, que contam suas pr—prias hist—rias pelas vias do cordel, testemunhando suas vidas, seus embates, suas resist�ncias sociais, culturais e pol’ticas. Eis o que buscamos, quando olhamos para as narrativas autobiogr‡ficas de Auritha Tabajara, Julie Oliveira e Izabel Nascimento.
Autobiografias em cordel
Em um mundo de conhecimentos pautados pelos saberes produzidos e difundidos em rela�›es de poder, Adichie (2019) indica a urg�ncia de acessarmos uma ampla diversidade de hist—rias. A partir dos estudos de Hill Collins (2019) sobre a produ�‹o de conhecimento de mulheres negras sobre elas mesmas, pensamos aqui na import‰ncia de as mulheres poetas contarem tambŽm as suas pr—prias hist—rias e, assim, contribu’rem para a nova historiografia do cordel, proposta por Santos (2020).
bell hooks (2019) reflete sobre a import‰ncia de narrar a si mesma a partir da escrita de uma autobiografia. Para a autora, um dos principais aspectos transformativos do movimento feminista tem sido o de convocar as mulheres a contarem suas pr—prias hist—rias. Como uma estratŽgia de resist�ncia, Òerguer a voz era uma forma de rebeli‹o consciente contra a autoridade dominanteÓ (HOOKS, 2019, p. 20).
A partir de reflex›es pedag—gicas, hooks (2019) considera que as hist—rias pessoais s‹o formas de as pessoas se conectarem e se identificarem, mas as experi�ncias pessoais seriam desconsideradas nos sistemas educacionais e de forma�‹o do conhecimento. Haveria uma busca pela universalidade do saber, sendo que o universal Ž sempre externo, masculino, branco, elitista. E, nesse cen‡rio, as vozes das mulheres incomodam, assustam e, por isso, s‹o silenciadas.
A narra�‹o de si, para hooks (2019, p. 226), Ž uma forma de constru�‹o de identidades e de fortalecimento das mem—rias individuais cotidianas:
Para muitas pessoas exploradas e oprimidas, a luta para
criar uma identidade e nomear a pr—pria realidade Ž um ato de resist�ncia, pois
o processo de domina�‹o – seja a coloniza�‹o imperialista, o racismo ou a
opress‹o machista – tem nos esvaziado de nossa identidade, desvalorizando
nossa linguagem, nossa cultura, nossa apar�ncia. Repito, isso Ž s— uma fase no
processo de revolu�‹o.
Para hooks (2019, p. 227), isso permitiria que mulheres e homens utilizassem suas pr—prias experi�ncias como formas de teoriza�‹o e de politiza�‹o dos saberes, tornando-se um processo de historiciza�‹o e permitindo reconhecermo-nos como parte da hist—ria, como fazem as mulheres cordelistas.
No livro autobiogr‡fico em cordel ÒCora�‹o na aldeia, pŽs no mundoÓ, escrito por Auritha Tabajara (2018), mulher ind’gena nascida no Cear‡, encontramos na orelha deste que ela considera a poesia de cordel como Òautoexpress‹o e resist�ncia. Por meio dela busco descontruir estere—tipos atribu’dos ˆs mulheres ind’genas, uma vez que n‹o perco a minha ancestralidade morando na cidade e usando tecnologiaÓ.
Os textos de Julie Oliveira, professora, poeta e editora cearense, foram publicados em sua rede social Instagram[49], que ela utiliza como espa�o de divulga�‹o de seus trabalhos. A poeta Ž uma das organizadoras do movimento Cordel sem Machismo e coordena o coletivo Cordel de Mulher.
Izabel Nascimento Ž sergipana, professora e poeta de cordel. Atualmente preside a Academia Sergipana de Literatura de Cordel e est‡ ˆ frente do movimento Cordel sem Machismo. Seus dois folhetos de cunho autobiogr‡fico tratados nesse texto s‹o ÒCordel de M‹e e FilhaÓ (NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2019) e ÒRelato de voz e versoÓ (NASCIMENTO, 2018).
H‡ quatro eixos que identificamos nas narrativas das tr�s poetas como articuladores para essa outra hist—ria do cordel. S‹o temas que n‹o aparecem tratados nas discuss›es conceituais e nas abordagens definidoras do cordel, pautadas nas experi�ncias folcloristas, acad�micas, tampouco naquelas produzidas por poetas homens. S‹o eles: a ancestralidade, as lutas pessoais cotidianas, os machismos e os di‡logos individuais com o universo do cordel.
Destacando o primeiro eixo, observamos que as autoras trazem uma importante refer�ncia ˆ ancestralidade matrimonial. As tr�s poetas n‹o inauguram suas a�›es poŽticas individualmente em suas vidas, mas emergem de di‡logos com outras mulheres. Elas se apresentam como herdeiras dos bens culturais transmitidos pelas mulheres mais velhas, ou seja, de bens matrimoniais, como descreve Lemaire (2018): um conjunto de bens materiais e culturais pertencentes ˆs linhagens femininas.
No livro de Auritha, ela aborda essa ancestralidade a partir da imagem da av—, com quem aprendeu a contar hist—rias:
Contava para a vov—,
Que dizia: Òv‡ sem medo,
O tempo que vai chegar
Desvendar‡ o segredo.
Escute, prenda, pratique,
Vai precisar logo cedoÓ (TABAJARA, 2018, p. 12).
AlŽm de ter herdado o aprendizado sobre conta�‹o de hist—rias em rimas, Tabajara (2018) tambŽm tinha na av— um referencial de for�a, de luta e de sabedoria.
Izabel Nascimento Ž filha de pai e m‹e poetas e tambŽm aborda esse aprendizado em sua narrativa autobiogr‡fica. Em ambos os textos de Nascimento (2018; 2019), ela destaca o que aprendeu sobre a poesia com sua m‹e.
Os meus pais s‹o os poetas
Que Deus me deu de presente
Mam‹e, grande cordelista
Papai, cordel e repente
Fruto desse amor gigante
Versejo desde o instante
Que me entendo como gente (NASCIMENTO, 2018, p. 7).
Desta heran�a, ela evidencia tambŽm sua gratid‹o no cordel em que assina junto de Ana Santana Nascimento:
Assim como o fruto nasce
Quando a raiz traz ˆ vida
Feliz o fruto que honra
A jornada percorrida
Eu honro quem me gerou
Se serei, se fui, se sou:
Obrigada, M‹e querida!
(NASCIMENTO; NASCIMENTO, 2019, p. 16)
E ainda:
Ana Santana, mam‹e,
Forte, inteligente e bela
H‡ tempos que o vŽu da arte
Flamula, buscando nela
Hist—ria, ch‹o, garantia
Assim, bebi poesia
Do leite materno dela (NASCIMENTO, 2018, p. 7).
Julie Oliveira Ž filha de pai poeta, com quem aprendeu as tŽcnicas e estruturas de sua poesia. Mas em seus relatos apontados aqui, ela tambŽm traz outros aprendizados adquiridos com sua m‹e e uma declara�‹o de respeito por sua m‹e e por sua av—.
Sou filha de Assun�‹o
Mulher doce, paciente;
Neta de Alice, tambŽm,
E honro cada semente
Porque carrego comigo
A for�a de minha gente (OLIVEIRA, 2020, on-line).
Da ancestralidade, heran�as de mulheres, seja nos aprendizados sobre poesia de cordel, sobre conta�‹o de hist—rias ou mesmo sobre outros aspectos da vida, seguimos para as abordagens que as poetas fazem do universo do cordel. Elas contam sobre como entraram nesse universo, sobre aprendizados.
Auritha conta que come�ou a escrever poesia ainda na escola e uniu a isso ˆs conta�›es de hist—rias que acompanhava da av—:
Aprendeu a ler na rima
Tudo queria rimar:
As brincadeiras e hist—rias
Que ouvia a vov— contar.
Com tambor e marac‡,
De mœsica foi gostar (TABAJARA, 2018, p. 10).
Julie apresenta seus aprendizados em um dos poemas e atribui sua entrada no universo do cordel tambŽm a uma rela�‹o heredit‡ria, mas, no caso, refere-se a seu pai, o poeta Rouxinol do RinarŽ.
A poesia eu herdei
De um amigo de fŽ,
Companheiro de jornada
A quem aplaudo de pŽ:
Sou filha do cordelista
Rouxinol do RinarŽ (OLIVEIRA, 2020, on-line).
A entrada de Izabel Nascimento na poesia de cordel se deu ainda crian�a, aprendendo sobre poesia com seus pais. Ao descrever sua entrada nesse universo, Izabel destaca tambŽm os desafios que encontraria em seu percurso.
Assim, entrei nesse mundo
Pautada nos bons valores
Meus irm‹os e eu tivemos
Na arte, dois bons doutores
A estrada iniciava
Eu sequer imaginava
Que nem tudo aqui s‹o flores (NASCIMENTO, 2018, p. 9).
Os desafios de sua vida, atŽ reconhecer-se como cordelista, aparecem nos versos de Auritha Tabajara ao mencionar seu tr‰nsito do espa�o de sua aldeia atŽ estabelecer-se em grandes cidades como Fortaleza e S‹o Paulo. Nesses espa�os, ela ainda muito jovem identifica que nem todo mundo tinha boas inten�›es.
Agora, l‡ na cidade
Era mocinha inocente
Sorria pra todo mundo
Que passasse ˆ sua frente
Mas a maldade do povo
Se fazia ali presente (TABAJARA, 2018, p. 16).
Izabel Nascimento conta sobre as dificuldades de saœde que enfrentou e sobre como a poesia de cordel foi sua aliada para a supera�‹o
Meus problemas de saœde
Deixavam por perto a morte
Que desde cedo tentava
P™r o meu nome no corte
Com diretriz resumida
Busquei dar sentido ˆ vida
O cordel foi minha sorte (NASCIMENTO, 2018, p. 10).
A poeta Julie Oliveira trata, ainda, dos desafios que encontra pelo caminho, sendo um deles, os trabalhos em parceria e coletividade, que ela entende como fundamentais para que as cordelistas se fortale�am em seus trabalhos.
Seguir sozinha Ž f‡cil
ƒ c™modo, eu sei fazer
Mas, decidi caminhar
Em conjunto, pra vencer
Com cordel e aliadas
N‹o vamos ficar caladas
Chegue junto, venha ver! (OLIVEIRA, 2020a, on-line).
O machismo Ž uma situa�‹o recorrente, como j‡ apontado nas discuss›es te—ricas deste trabalho. Ele aparece na narrativa das mulheres poetas tanto quando elas falam sobre suas inser�›es no universo do cordel quanto ao mencionar outras experi�ncias da vida – visto que o machismo como um comportamento n‹o Ž exclusivo de um grupo unificado, mas se expande por toda a sociedade.
Nascimento (2018) denuncia situa�›es me machismo no universo do cordel a partir de suas experi�ncias:
Ser mulher na poesia
Exigiu muito de mim
A m‹o do machismo pesa
O seu disfarce Ž ruim
Carrega na estrid�ncia
O joio da incompet�ncia
Ainda hoje Ž assim. (NASCIMENTO, 2018, p. 12).
Julie Oliveira destaca essa situa�‹o a partir de sua a�‹o de resist�ncia e de luta
Ser Youtuber, popstar
ƒ sonho de muita gente
O meu Ž ver a mulher
Ter tratamento decente
Por isso, eu estou no front
E n‹o fujo desse afronte,
A minha for�a Ž pungente.
[...]
Eles nos querem chorando
Chateadas, desunidas
ƒ verdade que algumas
Ainda est‹o iludidas
PorŽm v‹o se esclarecer
E nunca mais vamos ter
Nossas vozes preteridas! (OLIVEIRA, 2020a, on-line)
Na narrativa de Auritha Tabajara, o machismo se manifesta em suas experi�ncias cotidianas alŽm do cordel. Acontece, por exemplo, quando ela chega ˆ cidade e um homem a assedia com olhares.
Um cabra meio de longe
Desde cedo a observava
Veio se achegando aos poucos,
Fez que uma fruta comprava
E, como um lobo faminto,
Para a mocinha olhava (TABAJARA, 2018, p. 17).
E quando o pai de sua filha a processa por Òabandono do larÓ e pede, judicialmente, o pagamento de pens‹o aliment’cia.
Rejeitado, o companheiro
Recusou-se a aceitar
Foi bancar o pai-her—i
No conselho tutelar.
Esperou ela sair
E j‡ foi denunciar (TABAJARA, 2018, p. 28).
Dialogando com o conceito de biomitografia de Audre Lorde, ou seja, uma narrativa mais preocupada com o estado de esp’rito de quem narra do que com a precis‹o de detalhes, a autobiografia para hooks (2019, p. 319) Ž um relato de uma hist—ria muito pessoal que convoca n‹o exatamente como os eventos aconteceram, mas como nos lembramos deles. ƒ isso o que as tr�s poetas fazem em suas narrativas. Mais do que, precisamente, contar fatos com uma pretens‹o de verdade, elas narram suas perspectivas diante de suas pr—prias experi�ncias, trazendo ˆ tona suas emo�›es e sentimentos, evidenciado as afeta�›es de suas hist—rias com o universo do cordel.
Considera�›es finais
Segundo hooks (2019, p. 264), Òfalar Ž a marca da liberdade, de se fazer sujeitoÓ. Para a autora, contar as nossas pr—prias hist—rias Ž a forma de alcan�armos o poder por compartilharmos o nosso ponto de vista sobre a hist—ria. E Ž isso que Julie Oliveira, Izabel Nascimento e Auritha Tabajara fazem quando escrevem sobre si mesmas: declaram suas liberdades individuais ao mesmo tempo em que contam a hist—ria do cordel.
ƒ importante considerarmos as narrativas das mulheres para contarmos a hist—ria do cordel. Como a professora Fanka Santos iniciou, precisamos construir novos olhares para a historiografia oficial, inserindo as contribui�›es das mulheres poetas. Deste modo, estamos transformando a hist—ria do cordel, mas tambŽm a hist—ria da literatura. Ao observarmos as brechas na hist—ria, a partir de questionamentos e de fraturas aparentes, Ž que podemos pensar nessa reescrita.
As narrativas das mulheres cordelistas est‹o inseridas em uma rela�‹o de disputa de poderes sobre a mem—ria, sobre os modos de conhecimento sobre o universo do cordel. Elas desestabilizam os saberes institucionalizados destacando suas experi�ncias pessoais, suas rela�›es de matrim™nio cultural e apontando as opress›es machistas que configuram desafios em suas lidas. ƒ preciso nos voltarmos para as biomitografias e pontos de vista das mulheres cordelistas para sermos capazes de refletir sobre o universo do cordel.
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[Recebido: 07 ago 2020 –
Aceito: 24 jan 2021]
[47] Doutora pela Universidade Federal de Minas Gerais e professora da Universidade Federal de Ouro Preto.
[48] ÒSe os autores, por uma raz‹o ou por outra, n‹o conseguiram citar uma s— autora, uma s— trovadora, Ž que realmente o Ôsexo fracoÕ n‹o se interessa pelo cancioneiro nordestinoÓ (LUYTEN, 2003, p. 146 apud Santos, 2020, p. 14) [grifo nosso].
[49] instagram.com/julie.oliveras