Ò... MESMO QUE NOS ARRANQUEM OS DENTES E A LêNGUA.Ó: A POTæNCIA PER-FORMATIVA DA LITERATURA DE ELIANE POTIGUARA[43]

 

Ò... EVEN IF THEY PULL OUR TEETH AND TONGUE.Ó: THE PER-FORMATIVE POTENCY OF THE LITERATURE OF ELIANE POTIGUARA

 

 

Renata Daflon Leite[44]

https://orcid.org/0000-0002-2498-779X

 

 

Resumo: Discute-se o tema da ancestralidade nas narrativas da autora Eliane Potiguara, relacionando-o ˆ defesa de uma pol’tica da exist�ncia, destacando, assim, o aspecto ritualizado dessa literatura que se desenvolve na t�nue fronteira entre a oralidade e a escrita. Parte-se da escrita de Eliane Potiguara para apontar a conquista de um espa�o que vem se firmando enquanto pr‡tica permanentemente articulada em redes de saberes ind’genas como o Grumin – Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena, surgido na dŽcada de 80, constituindo pol’ticas de resist�ncia objetivas. Ressalta-se o quanto o car‡ter social e Žtico da literatura ind’gena pode nos estimular a fazer aproxima�›es com o Campo de Estudos da Performance, por meio da investiga�‹o de Diana Taylor sobre Mem—ria Cultural nas AmŽricas. Destaca-se o aspecto de inova�‹o deste g�nero liter‡rio que nasce articulado com o movimento ind’gena, tendo a singularidade de afirmar-se enquanto cria�‹o que redimensiona os aspectos pol’ticos da prosa, da poesia, de cartilhas educativas, do desenho e da literatura de testemunho, nos quais a ancestralidade fundamenta a a�‹o pol’tica.

Palavras-chave: Literatura ind’gena. Ancestralidade. Performances pol’ticas.

 

Abstract: It discusses the theme of ancestry in the narratives of the author Eliane Potiguara, relating with the defense of a politics of existence thus highlighting the ritualized aspect of this literature that develops in the tenuous border between orality and writing. It starts from the writing of Eliane Potiguara to point out the conquest of a space that has been established as a practice permanently articulated in networks of indigenous knowledge such as GRUMIN, the Group of Indigenous Women-Education that emerged in the 80's, constituting as an objective political resistance. It is noteworthy how much the social and ethical character of the indigenous literature can stimulate us to make approximations with the Field of Performance Studies, through the investigation of Diana Taylor on Cultural Memory in the Americas. The innovation aspect of this literary genre is articulated with the indigenous movement, with the singularity of being affirmed as a creation that reshapes the political aspects of prose, poetry, educational booklets, drawing and testimonial literature, where the ancestry grounds the political action.

Keywords: Indigenous Literature. Ancestry. Political Performances.

 

 

Foram muitas vidas violadas, culturas, tradi�›es, religi›es, espiritualidade e l’nguas. A verdade est‡ chegando ˆ tona, mesmo que nos arranquem os dentes! O importante Ž prosseguir. ƒ comer caranguejo com farinha, peixe seco com beiju e mandioca. ƒ olhar o mar e o cŽu. E reverenciar os mortos, os ancestrais. ƒ sonhar os sonhos deles e v�-los. ƒ conviver com as Òmanias de cabocoÓ, mesmo que sufocados pela confus‹o urbana ou as amea�as agrestes, porque na realidade s‹o as rela�›es mais sagradas de nosso povo, porque s‹o rela�›es com a terra e com o criador, nosso Deus Tup‹. Bonito Ž vestir os trajes do TorŽ e honrar-se como se vestisse os trajes dos reis e senti-los como a express‹o m‡xima das rela�›es entre o homem, a terra e Deus. ƒ sentir o sagrado e o universo. O importante Ž crer e confiar mesmo que na noite anterior violaram nossa casa ou nosso corpo (POTIGUARA, 2004, p. 79-80).

 

 

A literatura como expans‹o de um grito estrangulado

 

A literatura ind’gena apresenta-se como um espa�o pol’tico-cultural em cont’nuo movimento, deixando-nos entrever uma rela�‹o tensional-criativa tanto entre escrita e oralidade, quanto entre pol’tica e ancestralidade, ao evidenciar em sua transmiss‹o um processo em que as performances de resist�ncia pol’tica est‹o imbricadas nas performances rituais tradicionais. Um livro escrito por um autor ind’gena Ž uma obra que apresenta a singularidade de ser delineada na t�nue fronteira entre o oral e o escrito, fruto de uma individualidade autoral concebida na partilha e difus‹o de uma cosmovis‹o espec’fica, reafirmada pelo movimento ind’gena de fortalecimento identit‡rio, preserva�‹o e renova�‹o cultural. Lan�amos aqui um olhar para o livro Metade Cara, Metade M‡scara da escritora ind’gena Eliane Potiguara, por evidenciar uma estreita rela�‹o entre ancestralidade e pol’tica, a come�ar pelo t’tulo em refer�ncia ao sinal em cor de jenipapo que a autora traz no rosto. Nascida com uma mancha roxa no olho direito, identificada pelos Kaiap—s como marca de ancestralidade, a autora nos conta que teve sua espiritualidade reacendida pelo cacique Jo‹o Batista Faustino, que lhe dizia que o p‡ssaro Pitiguary cantava sempre que ela se aproximava. O canto m’tico desta ave, conhecida por anunciar a chegada de quem tem uma miss‹o na Terra, envolve, assim, as palavras da escritora numa espacialidade fecundada pelas mœltiplas vozes coletivas da tradi�‹o redescoberta. Na apresenta�‹o da obra, feita por Daniel Munduruku, podemos ler que Òo movimento ind’gena nasce de um primeiro exerc’cio de express‹o da pr—pria dor, de um momento de liberdade, ainda que ilus—rio; um ‡timo de futuroÓ. Ele nos lembra que Òagora Ž hora de ler as palavras que foram ditas ao papel, j‡ que dos primeiros l’deres muito se viu e ouviu, mas pouco se leuÓ (MUNDURUKU, 2004, p. 15-16). ƒ interessante destacarmos tambŽm a introdu�‹o feita por Gra�a Graœna, na qual o livro Ž visto como exemplo de Òuma literatura que expande o seu grito, dos mais exclu’dos, e tece a esperan�a de poder refletir os problemas dos povos ind’genas e seus descendentesÓ (GRAòNA, 2004, p. 17).

Defendemos aqui que a performatividade dessa escrita est‡ em resgatar o espa�o sagrado da fala ancestral, reiterando pr‡ticas espiritualizadas, antes restritas a oralidade e defendendo o direito de exerc�-las, por meio de um posicionamento pol’tico em que a subjetividade do autor est‡ profundamente implicada, conforme podemos ler na ep’grafe:

 

No dia em que eu conseguir abrir as p‡ginas de minhÕalma e contar essas linhas de meu inconsciente coletivo – com alegrias ou dores, com prazeres ou desprazeres, com amores ou —dios, no cŽu ou na terra – a’ sim, vou soltar a minha voz num grito estrangulado, sufocado h‡ cinco sŽculos. Quinhentos anos, de pretenso reconhecimento de nossa cidadania, n‹o pagam o sangue derramado pelas bisav—s, av—s, m‹es e filhas ind’genas deste pa’s. Este dia certamente chegar‡, mesmo que eu esteja em outros planos (POTIGUARA, 2004, s/p).

A narrativa de Eliane traz ˆ tona mem—rias que foram apagadas pelo colonialismo e neocolonialismo, insistindo em nos fazer ver aquilo que ela denomina como sendo o Òin’cio da solid‹o das mulheresÓ (POTIGUARA, 2004, p. 24). A autora Potiguara nos lembra os relat—rios do sŽculo XVIII feitos por Padre Fernandes, em que 2 milh›es de ’ndios Guaranis foram assassinados em 130 anos, exemplificando com o assassinato de SepŽ Tiaraju e mais de 10 mil Guaranis na batalha de 7 de fevereiro de 1756, pr—ximo a BagŽ, sudoeste do Rio Grande do Sul:

Sua esposa Marina (Ju�ara)[45], levaria ˆs costas a menina recŽm-nascida que SepŽ jamais veria. Era o in’cio da solid‹o das mulheres, motivada pela viol�ncia, racismo e todas as formas de intoler‰ncia, referentes inclusive ˆ espiritualidade e ˆ cultura ind’genas (POTIGUARA, 2004, p. 23).

            Este epis—dio de exterm’nio dos Guaranis revela um imagin‡rio pol’tico racializado, que legitima a domina�‹o dos ÒcivilizadosÓ europeus sobre os povos ÒselvagensÓ, proclamando, na subjuga�‹o do corpo e na Òcoisifica�‹oÓ do sujeito ind’gena, um princ’pio de organiza�‹o calcado no terror. Mbembe (2018, p. 35) comenta que Òas col™nias s‹o o local por excel�ncia em que os controles e as garantias de ordem judicial podem ser suspensos – a zona em que a viol�ncia do estado de exce�‹o supostamente opera a servi�o da civiliza�‹oÓ. O exerc’cio de um poder ˆ margem da lei nas col™nias provŽm da nega�‹o racial de qualquer v’nculo entre conquistador e nativo. Os ÒselvagensÓ careceriam de humanidade e quando os europeus os massacravam n‹o tinham consci�ncia de cometerem um crime. Na col™nia, o direito soberano de matar n‹o est‡ sujeito a c—digos legais e comp›e uma ocupa�‹o sociopol’tica, cultural e econ™mica, baseada na classifica�‹o das pessoas de acordo com diferentes categorias, donde emergem zonas e enclaves que d‹o margem ˆ uma territorialidade restrita. Na contemporaneidade, o exerc’cio do direito de matar n‹o se restringe ˆs guerras territoriais de conquista-anexa�‹o da modernidade, espraiando-se em um mosaico de direitos de governar sobrepostos que visam a sujei�‹o e a coer�‹o do colonizado (MBEMBE, 2018).

Quijano (2015, p.122-126) estabelece que a colonialidade do poder eurocentrado surge na constitui�‹o hist—rica da AmŽrica, culminando no processo de globaliza�‹o contempor‰nea, calcada num novo padr‹o de poder mundial que tem na ra�a o elemento fundacional de rela�›es de domina�‹o exigidas pela conquista e, mais tarde pelas formas hist—ricas de controle do trabalho, dos recursos e de produtos no mercado mundial capitalista. O projeto civilizat—rio etnoc�ntrico relocalizou as singulares identidades nativas dentro de um padr‹o cognitivo associado ao passado e ao primitivo. Vemos em Quijano (2015, p. 127) que o eurocentrismo reduziu as heterogeneidades culturais astecas, maias, chimus, aimar‡s, incas, chibchas, etc., circunscrevendo-as todas sob uma œnica identidade: ’ndios. O mesmo vai acontecer com os escravos achantes, iorub‡s, zulus, congos, bacongos, etc, que a racionalidade colonialista homogeneizaria sob uma œnica nomenclatura: negros. A constru�‹o do Estado-na�‹o nas col™nias europeias foi trabalhada contra a maioria da popula�‹o composta por negros, ’ndios e mesti�os. ÒA colonialidade do poder ainda exerce seu dom’nio, na maior parte da AmŽrica Latina, contra a democracia, a cidadania, a na�‹o e o Estado-na�‹o modernoÓ (QUIJANO, 2005, p. 135-136).

Eliane comenta que a invas‹o das terras ind’genas, conveniente para pol’ticas locais, causou desmatamento, assoreamento dos rios, polui�‹o ambiental e diminui�‹o da biodiversidade local, alŽm de trazer fome e empobrecimento compuls—rio da popula�‹o ind’gena, levando muitas fam’lias ˆ migra�‹o, ao trabalho semiescravo e a pŽssimas condi�›es de moradias (favelas e casas de palafitas na periferia dos centros urbanos), trazendo distœrbios mentais, alcoolismo e suic’dio. Sua an‡lise cr’tica prop›e que a coloniza�‹o e a neocoloniza�‹o tambŽm refletem grupos de interesses religiosos, que tentam impor um paternalismo eclesi‡stico como forma de racismo, desrespeitando as tradi�›es culturais ind’genas (POTIGUARA, 2004, p. 44).

            A autora Potiguara afirma a cosmovis‹o das mulheres como um instrumento de liberta�‹o do povo ind’gena que leva ao despertar do ser sutil, intuitivo e selvagem no sentido de uma ess�ncia espiritual primeva. Sob esse prisma, Òo ato de cria�‹o Ž um ato de amorÓ e resgate do selvagem sagrado que Òj‡ estava dentro de n—s e n‹o sab’amosÓ. A cria�‹o art’stica em todas as suas vertentes, dentre as quais a liter‡ria, emerge como um vulc‹o, uma (r)evolu�‹o do esp’rito, um �xtase: ÒE esse œnico ato de cria�‹o Ž o suficiente para alimentar um oceano, assim como o leite doce e materno de uma jovem m‹e Ž o suficiente para trazer de volta um ser nascido prematuramenteÓ (POTIGUARA, 2004, p. 58).

Estamos diante de uma escrita-como-ve’culo, um Òsoltar a voz num grito estranguladoÓ, narrativa que serve como impulso ˆ a�‹o de outras mulheres ind’genas. Estes versos cor de jenipapo saltam da pele do papel, mostrando-nos a saga de uma mulher ind’gena discriminada, violentada e v’tima de opress‹o social, mas que guarda consigo a tradi�‹o passada pelas mulheres de sua fam’lia, conduzindo-a ao que ela chama de Òretorno ao inconsciente coletivoÓ (POTIGUARA, 2004, p. 27), quando entra para o movimento ind’gena e reacende sua ancestralidade. A palavra escrita, apreendida dentro de uma l—gica de expans‹o de sentidos, foi por mim trabalhada em êndios Online: posts que n‹o querem calar, ressaltando o car‡ter n‹o linear da significa�‹o poŽtica endere�ada ˆ divindade. A densidade da autoria feminina ind’gena Ž lida, portanto, numa apreens‹o deleuziana, na qual o corpo do poema se distende qual plat™ ininterrupto.[46] Dentro desta concep�‹o inspirada em Deleuze e Guattari (1980), a escritura tem uma corporeidade vibr‡til, distendendo-se em agenciamentos que transcodificam e transduzem as cosmovis›es ind’genas, compondo for�as centr’fugas errantes por onde a voz de Eliane reverbera. Os gradientes de intensidade do poema ganham a colora�‹o de uma escrita cor de jenipapo que se espraia pela superf’cie textual, fazendo ecoar vozes e paragens que se inscrevem, como marcas na pele. A palavra rememora este grito estrangulado que habita, por exemplo, o poema Nossa Casa Ancestral:

AtŽ que um dia

Os nossos filhos mortos, nascidos, e renascidos

Possam relembrar do olhar, docemente,

Da luz envolvente

E da tinta de jenipapo

Cravada pelo Grande Esp’rito em nossa cara (POTIGUARA, 2004, s/p).

            O ato de ler percorre, assim, as pot�ncias poŽticas de uma escrita-ve’culo, impulsionado n‹o por uma signific‰ncia un’voca, mas sim pela multiplicidade de sentidos relembrados no poema. Estamos diante de uma escrita que ausculta o terreno da palavra renascida, abrindo-se para uma cartografia pol’tica da voz feminina ind’gena.

Podemos enxergar uma escrita-denœncia no relato do epis—dio de assassinato do bisav™ da autora, consumado por a�‹o da fam’lia inglesa colonizadora X:

Conta-se que ’ndio X, pai das meninas Maria de Lourdes, Maria Isabel, Maria das Neves e Maria Soledad, por combater a invas‹o ˆs terras tradicionais do Nordeste, foi assassinado cruelmente, segundo palavras de uns velhos que encontrei um dia. Amarraram-lhe pedras aos pŽs, introduziram-lhe um saco ˆ cabe�a e o arremessaram ao fundo das ‡guas do litoral paraibano (POTIGUARA, 2004, p. 24).

Crueldade que provoca a migra�‹o da fam’lia para Pernambuco em 1928, quando nasce sua m‹e Elza, filha de Maria de Lourdes, sua av— violentada sexualmente aos 12 anos pelo colonizador. Pouco tempo depois, a fam’lia migra para o Rio de Janeiro, permanece por um tempo nas ruas, atŽ que Maria de Lourdes, Ò’ndia, mulher, analfabeta, paraibana, nordestina e j‡ separada do homem que lhe fez mais dois filhosÓ (POTIGUARA, 2004, p. 24-25) consegue trabalho, estabelecendo-se numa zona degradante da cidade. Elza passa a tomar conta de seus dois irm‹os, e oito anos depois a jovem se casa e tem dois filhos, mas seu marido Ž atropelado e ela repete o destino solit‡rio de sua m‹e. Quando Eliane j‡ tinha 6 anos de idade, sua av—, que ela descreve como Òmulher ind’gena, analfabeta, paraibana, nordestina e agora quase m‹o-de-obra escrava nas feiras cariocasÓ (POTIGUARA, 2004, p. 25), inicia seu processo de cria�‹o para ajudar sua m‹e que trabalhava como faxineira numa firma, sendo educada e mantida a sete chaves num quarto semiescuro para preservar sua identidade moral, f’sica e psicol—gica, j‡ que viviam numa ‡rea socialmente comprometida. A av— curandeira tratou de seus tumores alojados um no olho e outro no mamilo com uma mistura de minhoca amassada, teia de aranha e visgo de jaca. Quando conseguiam, comiam caranguejo e caldo de farinha. A menina cresceu ouvindo as hist—rias ind’genas contadas por sua av— e tias que, mesmo separadas de suas terras originais e violentadas cultural e fisicamente, souberam preservar seus la�os com a cosmologia ancestral.

A encarcerada domiciliar cresce, torna-se professora prim‡ria, entrando em contato com a Filosofia da Educa�‹o de Paulo Freire e, incentivada por sua av— e pelo cantor de origem ind’gena Charrua, Taiguara, com o qual se une em 1978, faz seu Òretorno ao inconsciente coletivoÓ, visitando na�›es ind’genas e perseguindo a hist—ria de sua fam’lia. Ela entra para o movimento ind’gena e, por arquitetar pol’ticas de resist�ncia denunciando o tr‡gico impacto do arrendamento de terras ind’genas, sofre abuso sexual, difama�‹o e amea�as de morte, sendo levada a Pol’cia Federal e liberada ap—s uma a�‹o de solidariedade do Pen Club da Inglaterra e da organiza�‹o internacional Escritores na Pris‹o, a�‹o indicada por Genaro Bautista, ’ndio mexicano coordenador da AIPIN (Ag�ncia de Imprensa Ind’gena).

Eliane, ao narrar a sua hist—ria, tira-a da penumbra e do processo de apagamento da mem—ria, lembrando-nos, no entanto, que este Ž apenas mais um dos casos de v’timas de viol�ncia e racismo que permanecem invisibilizados, assim como a situa�‹o de mulheres ind’genas que sofrem abuso sexual e se tornam v’timas de tr‡fico de mulheres. Entramos em contato com os testemunhos que Eliane escutou ao longo de sua luta pela garantia dos direitos ind’genas, como, por exemplo, o da velha louca que foi violentada sexualmente na inf‰ncia nos anos 1940 por um colonizador que depois fugiu, deixando-a a espera de seu homem-peixe: ÒEu estava em casa sozinha, cozinhando; entrou um homem-peixe em minha casa e me tomou o esp’rito e partiuÓ (POTIGUARA, 2004, p. 44-45).

 

 

Outros arquivos, outros repert—rios: o roteiro do descobrimento e a quest‹o do apagamento

 

O Campo de Estudos da Performance pode nos ajudar a entrever as disputas presentes na constru�‹o da mem—ria cultural por intermŽdio da literatura ind’gena, trazendo elementos para enfocar os aspectos criativos e pol’ticos de inscri�‹o e conquista da palavra ind’gena no mundo. Taylor (2013) nos diz que as performances funcionam como atos de transfer�ncia vitais, transmitindo o conhecimento, a mem—ria e um sentido de identidade social, por meio do que Schechner (2003, p. 27) denomina Òcomportamento restauradoÓ ou Òcomportamento duplamente exercidoÓ. Este artigo trabalha a performance como uma lente metodol—gica que alarga e distende as possibilidades de leitura cr’ticas do livro de Eliane Potiguara, entendendo sua escrita como fruto da performatiza�‹o di‡ria na esfera pœblica de sua resist�ncia pol’tica e de suas identidades Žtnicas e de g�nero, funcionando como um eco dos acontecimentos performativos, uma escrita-a�‹o. Sua voz emerge como fruto das muitas mem—rias incorporadas transmitidas ˆ autora no colo de sua av— ind’gena enquanto faziam juntas bolinhas de farinha e caldo de caranguejo com a m‹o, bem como de todo o sofrimento e discrimina�‹o que testemunhou ao longo da vida. Trata-se de uma escrita fruto de suas pr‡ticas incorporadas extremamente fecunda e potente, apontando para um despertar de consci�ncias.

A literatura ind’gena vai na contram‹o de uma escrita de m‹o œnica, de um saber que n—s, acad�micos, produzimos sobre eles, os ’ndios; trata-se de um espa�o de cria�‹o e circula�‹o de conhecimentos que rompe o paradigma euroc�ntrico e logoc�ntrico das universidades, apresentando-se como via de acesso a um outro modelo, afinal, as pr‡ticas culturais ind’genas, profundamente marcadas pela transmiss‹o do conhecimento incorporado, aparecer‹o tambŽm na palavra escrita. Escrita-a�‹o? Escrita-mem—ria? Que espa�o essa literatura que expande o Ògrito dos exclu’dosÓ reivindica ao contar sua pr—pria hist—ria e que pr‡ticas colonialistas ela denuncia? Que territ—rios ela desestabiliza?

Diana Taylor, em seu livro O arquivo e o repert—rio: performance e mem—ria cultural nas AmŽricas, debate as no�›es de arquivo e repert—rio como formas de transmiss‹o de conhecimento, lembrando-nos, no entanto, que a mem—ria arquiv’stica composta por textos e documentos n‹o Ž imune a mudan�as, podendo ser ressignificada ao longo do tempo. O repert—rio, por sua vez, encena a mem—ria incorporada a partir do ritual, da performance e da oralidade, atos geralmente vistos como conhecimento ef�mero, n‹o reproduz’vel, mas Ž imprescind’vel sublinhar que as diferen�as entre as duas formas apontam muito mais para um campo tensional do que um conjunto bin‡rio antag™nico.

Ao delinearmos a performance enquanto lente metodol—gica e enfocarmos a literatura ind’gena enquanto escrita-a�‹o, entendemos, enfim, que ela prop›e um movimento entre o livro e o campo, colocando em xeque a separa�‹o entre arquivo e repert—rio, ao abarcar o repert—rio de conhecimentos incorporados na forma textual do arquivo, n‹o como objeto de an‡lise, mas por meio do fluxo performativo das palavras ditas ao papel, o livro sendo visto como campo performativo.

O texto liter‡rio ind’gena funda um espa�o de fala que traz para o papel as mem—rias que antes estavam apagadas, apresentando uma din‰mica em que a emerg�ncia da palavra escrita leva a uma valoriza�‹o da palavra oral, em que as performances de resist�ncia, manuten�‹o da tradi�‹o e luta pela garantia dos direitos ind’genas, sustentam e impulsionam a propaga�‹o do arquivo textual e vice-versa.

A partir do campo de estudos da performance, esta textualidade pode ser lida para alŽm da palavra, enquanto atitude cultural, fruto de pr‡ticas culturais incorporadas verbais e n‹o verbais. Taylor (2013) prop›e trabalhar com roteiros ao invŽs de textos, enquanto paradigmas de constru�‹o de sentidos que carregam um arcabou�o port‡til de repeti�›es cumulativas que moldam e ativam dramas sociais. ÒO roteiro coloca os espectadores dentro de sua moldura, enredando-nos em sua Žtica e pol’ticaÓ (TAYLOR, 2013, p. 67). Os poemas de Eliane transmitem conhecimento e mem—ria ao propor a encena�‹o de roteiros n‹o-hegem™nicos dotados de corporeidade, afinal, Ž Òimposs’vel pensar sobre a mem—ria cultural e a identidade como desincorporadasÓ (TAYLOR, 2013, p. 134). O poema dedicado ˆs viœvas ind’genas, No dia que mataram Mar�al Tup‹-Y (ou Òno dia que mataram nossos av—s ou quando eles desapareceramÓ), fala de uma Òtristeza cor de prataÓ, de um Òamor doidoÓ, um Òamor das matasÓ proclamado na solid‹o de uma mulher que prossegue sua luta:

CONSCIENTE

Que jamais se cala...

Mesmo se lhe arranquem os dentes

Ou se lhe cortem a garganta gritante!

             (POTIGUARA, 2004, p. 73).

No cap’tulo Angœstia e desespero pela perda das terras e a amea�a ˆ cultura, ˆs tradi�›es, n—s nos deparamos com a rememora�‹o das palavras de Mar�al Tup‹-Y quando ele esteve no Sul do Brasil em 18 de abril de 1977: ÒEu n‹o fico quieto n‹o! Eu reclamo... Eu falo... Eu denuncio!...Ó. Potiguara (2004) pontua que esta lideran�a foi assassinada em 25 de novembro de 1983, fato que remete ao assassinato do bisav™ da autora, levando-nos a encarar frente a frente a foto da bisav— de Eliane, Maria de Lourdes, que aparece na dedicat—ria da obra, como uma mulher consciente e que jamais se calou, apesar de carregar uma Òtristeza cor de prataÓ. A palavra incorporada desta escritora ind’gena Ž composta de mœltiplas camadas de sentido, fruto de experi�ncias que vivenciou quando em 1995 viajou pelo interior da êndia com o Programa de Combate ao Racismo, descobrindo pr‡ticas de viol�ncia ˆs mulheres, que tinham como puni�‹o serem queimadas vivas pelos homens em suas pr—prias cozinhas, bem como de sua luta em defesa dos direitos reprodutivos da mulher ind’gena, de sua conviv�ncia com velhos pajŽs e caciques de diversos povos ind’genas, dos ensinamentos ancestrais passados por sua av— ou ainda de seu trabalho na Subcomiss‹o de Direitos Humanos da ONU em Genebra ou dos inœmeros f—runs nacionais e internacionais sobre direitos ind’genas que participa.

A autora Potiguara nos convida a refletir sobre a estreita rela�‹o entre pol’tica e ancestralidade quando diz que Òa liberta�‹o do povo ind’gena passa radicalmente pela cultura, pela espiritualidade e pela cosmovis‹o das mulheresÓ (POTIGUARA, 2004, p. 46), esclarecendo-nos que se trata de uma mulher selvagem, n‹o no sentido primitivo da palavra, mas uma mulher sutil, uma mulher primeira, que n‹o est‡ condicionada a transmitir o esp’rito de competi�‹o e domina�‹o da sociedade contempor‰nea. Eliane prossegue e afirma que o poder dela Ž outro: ÒSeu poder Ž o conhecimento passado atravŽs dos sŽculos e que est‡ reprimido pela hist—riaÓ (POTIGUARA, 2004, p. 46). A cria�‹o art’stica espiritualizada promove uma a�‹o pol’tica de fortalecimento Žtnico-identit‡rio e a conquista de um espa�o de express‹o, impulsionando o autor ind’gena a perpassar os sŽculos como um porta-voz do conhecimento ancestral.

Podemos considerar que o ato de escritura e propaga�‹o da palavra ritualizada no mundo seria capaz de promover um furo no territ—rio competitivo de alto rendimento-efic‡cia-produtividade, consistindo, assim, num ato essencialmente pol’tico. Eliane Potiguara prop›e a transforma�‹o do sofrimento e do esfacelamento, por meio da purifica�‹o do esp’rito no ato criador, neste sentido ela vai alŽm e afirma uma pol’tica da exist�ncia:

Tudo isso Ž simplesmente pol’tica, a pol’tica da exist�ncia. CRIEMOS, ent‹o... porque a cria�‹o Ž um ato divino que tende a mudar consci�ncias, formar opini›es, suavizar o individualismo que ronda as mentes (POTIGUARA, 2004, p. 58).

            Trata-se de uma literatura que faz emergir o espa�o sagrado da fala, mas n‹o podemos esquecer que s‹o as mulheres as guardi‹s da palavra ancestral, como Potiguara (2004, p. 59) nos lembra: ÒE a palavra delas Ž sagrada como a terra que d‡ o alimento ao pr—ximo, alimento da CURA em todos os sentidosÓ. Em seu poema Ato de Amor Entre os Povos, temos dois personagens, Jurupiranga e Cunhata’, que perpassam o tempo e o espa�o para falar da sobreviv�ncia ˆ coloniza�‹o e neocoloniza�‹o. ƒ a saga de Cunhata’ que, ap—s vivenciar o desterro pelo assassinato de Jurupiranga, lembra-se de sua Òidentidade caminhanteÓ gerada no fogo eterno do œtero de seus av—s, como enunciado nos versos da autora ind’gena:

Porque minha identidade pra renascer

A qualquer instante

Basta um fio de luz (POTIGUARA, 2004, p. 64).

Ao percorrermos a narrativa de Eliane, damo-nos conta da fecunda dŽcada de 80, quando ela se articula politicamente com outras lideran�as com o intuito de resgatar e preservar a identidade ind’gena. O Grumin (Grupo Mulher-Educa�‹o Ind’gena), hoje Grumin/Rede de Comunica�‹o Ind’gena surge como um espa�o de livre express‹o, circula�‹o de saberes e de organiza�‹o pela garantia dos direitos ind’genas, concebido em 1978 e criado juridicamente em assembleia em 1987. No fim da dŽcada de 80, Eliane editou com o Grumin uma cartilha de apoio ˆ alfabetiza�‹o dos ind’genas da etnia Potiguara, na qual pod’amos ler: Òƒ preciso sorrir, Ž preciso criar quando estamos na luta pela sobreviv�ncia e preserva�‹o cultural, mesmo que nos arranquem os dentes ou a l’nguaÓ (POTIGUARA, 2004, p. 99). O material, com financiamento da UNESCO e apoio da UERJ, procurava discutir a realidade cultural de seu povo, incluindo a quest‹o da discrimina�‹o a que este estava sujeito. O grupo teve o papel pioneiro de levantar a bandeira da invisibilidade da mulher ind’gena, bem como dos ind’genas ressurgidos, discutindo temas como saœde e direitos reprodutivos, quest›es vistas como pertencentes a feministas n‹o-ind’genas. Eliane Potiguara atuou incansavelmente, sobretudo entre 1988 e 1996, buscando promover o acesso ˆ informa�‹o e o exerc’cio de empoderamento, por meio de muitas estratŽgias descritas pela autora, tais como:

Cursos de Capacita�‹o, Consultas Nacionais, os Semin‡rios sobre Fam’lia e Cidadania, sobre Direitos Reprodutivos, as feiras de artesanatos, os projetos de desenvolvimento comunit‡rio, as cartilhas, jornais, panfletos, livros de conscientiza�‹o contra o alcoolismo, contra a viol�ncia, contra a desinforma�‹o, contra o analfabetismo, contra a ignor‰ncia de n‹o se querer preservar e resgatar a identidade ind’gena (POTIGUARA, 2004, p. 50).

Neste sentido, as atitudes culturais per-formadas ao longo da vida de uma lideran�a ind’gena no espa�o pœblico aparecem restauradas e ressignificadas em sua escrita, sendo redimensionadas pela utiliza�‹o da poesia. Podemos dizer que o estigma de atraso cultural associado ˆs culturas ind’genas Ž difundido no cotidiano, seja na comemora�‹o romantizada do Dia do êndio nas escolas – onde as crian�as da sociedade envolvente se cobrem de penas e cocares, desenhando canoas e arcos e flechas para satisfa�‹o dos pais e professores que multiplicam ad infinitum as mesmas poses, gestos, cen‡rios e indument‡rias em murais imut‡veis; seja pelo uso indiscriminado do termo genŽrico ’ndio, que encobre o apagamento das nuances e multiplicidades culturais ind’genas; seja na naturaliza�‹o de assassinatos, torturas, abuso sexual e viola�‹o de direitos humanos cada vez mais invisibilizados pela m’dia majorit‡ria.

Desta forma, o neocolonialismo Ž sustentado pela incans‡vel encena�‹o e reencena�‹o do roteiro hegem™nico da conquista que propaga antagonismos, dualidades, vencedores e vencidos, numa distribui�‹o de cartas marcadas e papŽis estereotipados que mesmo j‡ tendo uma conclus‹o previamente determinada ainda encanta plateias no mundo inteiro, sustentando e fomentando a domina�‹o. A cada novo espa�o praticado pelos ind’genas, n‹o apenas na literatura, mas tambŽm na mœsica, na poesia, no cinema, nos blogs, jornais, r‡dios e webr‡dios ind’genas, o movimento de reafirma�‹o identit‡ria e Žtnica d‡ mais um passo, caminhando na contram‹o do famoso roteiro da conquista ou roteiro do descobrimento, borrando indument‡rias, papŽis e cen‡rios previamente desenhados para propor novos arquivos e repert—rios praticados pelos agentes culturais ind’genas.

Taylor (2013, p. 94) pontua que o roteiro do descobrimento n‹o tem original: ÒEle Ž sempre uma cita�‹o, uma c—pia da œltima c—piaÓ. A carta de Colombo ˆ coroa espanhola, relatando sua primeira viagem ao Caribe em 1493, bem como o resumo do di‡rio de Colombo escrito por BartolomŽ de las Casas em 1552, desapareceram do arquivo, fundando uma documenta�‹o baseada na reprodu�‹o de c—pias que performatizam eternamente o show inaugural estrelado pelo descobridor, diante de um pœblico ileg’timo de espectadores n‹o autorizados descritos na carta como Ò’ndiosÓ e um pœblico leg’timo de europeus que testemunham o movimento de fincar a bandeira no solo conquistado. O ato de transfer�ncia inclui o rei e a rainha como destinat‡rios e benefici‡rios do ato de transfer�ncia de posse, os espectadores n‹o autorizados como objetos transfer’veis e Deus como espectador m‡ximo da cerim™nia (TAYLOR, 2013).

Em todos os lugares que os exploradores desembarcavam, repetiam-se varia�›es desse roteiro, autenticando a perspectiva do descobridor, como podemos ver na permanente encena�‹o da conquista do MŽxico:

O roteiro da conquista tem sido encenado repetidas vezes – desde a entrada de CortŽs em Tenochtitl‡n atŽ o encontro entre Pizarro e Ataualpa, ou a declara�‹o de posse do Novo MŽxico por O–ate. Cada repeti�‹o acrescenta algo ao seu poder afetivo e explicativo atŽ o resultado parecer uma conclus‹o previamente determinada. Cada novo conquistador pode esperar que os nativos caiam a seus pŽs simplesmente devido ˆ for�a do roteiro reativado (TAYLOR, 2013, p. 64).

            Podemos, no entanto, escolher seguir os roteiros da conquista como pr‡ticas reiteradas disseminadas em escolas e na m’dia majorit‡ria ou criticar os roteiros, apontando suas brechas, falhas e mem—rias submersas. Esta segunda op�‹o aparece, por exemplo, quando Eliane sublinha a particularidade do Òin’cio da solid‹o das mulheresÓ, apontando no roteiro hist—rias que foram silenciadas pela pr‡tica de reativa�‹o de um roteiro padr‹o, trazendo para o foco vozes que foram caladas, como a da crian�a-velha-louca que passou a vida esperando seu homem-peixe colonizador, ou a de muitas Marinas, Ju�aras e Marias de Lourdes obrigadas a migrar com suas crian�as ˆs costas para vivenciar o racismo cotidiano. Que sistemas significantes e econ™micos, porŽm, mant�m essas vozes silenciadas? Taylor (2013, p. 92) prop›e que, ao identificarmos o roteiro, reflitamos sobre a efic‡cia de sua re-encena�‹o:

Como um sistema paradigm‡tico de visibilidade o roteiro tambŽm assegura a invisibilidade. Ainda h‡ mais raz‹o para nos perguntarmos, ent‹o, por que esse roteiro continua a ser reencenado e por que ele ainda exerce tanto poder.

            Podemos depreender de Taylor (2013, p. 100-101) que o roteiro situa o descobridor como aquele que Òv�Ó e que nunca se sente obrigado a se descrever ou a se situar; j‡ os amer’ndios, apesar de presentes fisicamente, s‹o reconhecidos apenas para Òserem desaparecidosÓ nesse ato. A objetifica�‹o do corpo primitivo reafirma a supremacia cultural do sujeito que Òv�Ó, legitimando toda uma indœstria de especialistas em l’nguas ou etnografia que, assim como Colombo, se sentem capazes de interpretar as performances do nativo. Diante da reprodutibilidade de corpos n‹o falantes institu’dos pelos roteiros hegem™nicos, a voz de Eliane nos apresenta um roteiro n‹o-hegem™nico que difere da unilateralidade da conquista dos dominantes sobre os dominados para situar-se n‹o como aquela que Òv�Ó, mas como aquela que per-forma a pr—pria mem—ria a partir das experi�ncias vivenciadas. O assassinato do ’ndio X pela fam’lia colonizadora inglesa X reencena o assassinato de SepŽ Tiaraju em 1756; da mesma forma, as solid›es de Maria de Lourdes e Marina (Ju�ara) rememoram o assassinato de Mar�al Tup‹-Y e a dor das viœvas ind’genas que jamais se calam, Òmesmo se lhe arranquem os dentesÓ. A cartilha de alfabetiza�‹o, editada pelo Grumin no fim da dŽcada de 80, modifica os roteiros hegem™nicos de apagamento, subvertendo letramentos verticalizados exteriores ˆ realidade cultural Potiguara, para propor a discuss‹o da discrimina�‹o e a conscientiza�‹o pol’tica. Eliane Ž testemunha, sujeito e participante do ato de transfer�ncia vital da mem—ria cultural passada em sua literatura. Ela n‹o Ž apenas uma observadora impass’vel, pois, ao descrever o mundo o modifica no ato divino da cria�‹o, propondo nas simbologias das personagens Cunhata’ e Jurupiranga novas espacialidades para as identidades ind’genas ressurgidas.

 

 

Re-inventando a Ancestralidade, apesar das Performances de Poder

 

            Em oposi�‹o ˆs constantes performances de poder, encontram-se as mem—rias incorporadas que comp›em a identidade ind’gena, sendo continuamente performadas a cada a�‹o ritual e cotidiana, trazendo em si a continuidade da hist—ria ancestral. Os roteiros da conquista representam muitas vezes as performances de domina�‹o e opress‹o, baseadas e sustentadas pelo antagonismo e pela domina�‹o do Eu sobre o Outro. As performances rituais s‹o movidas por uma necessidade inelut‡vel de cont’nua reafirma�‹o identit‡ria atravŽs da honra ˆ mem—ria dos ancestrais de um povo. A autoafirma�‹o Žtnica n‹o se faz em oposi�‹o ao Outro, mas sim pelo encontro com uma cosmovis‹o que, por estar acima de qualquer binarismo, sabe apenas seguir seu percurso e manter sua for�a motriz e vital, como podemos ler nesses versos do poema Identidade Ind’gena:

Nosso ancestral dizia: Temos vida longa!

Mas caio da vida e da morte

E range o armamento contra n—s.

Mas enquanto eu tiver o cora�‹o aceso

N‹o morre a ind’gena em mim

E nem tampouco o compromisso que assumi

Perante os mortos

De caminhar com minha gente passo a passo

E firme, em dire�‹o ao sol.

Sou uma agulha que ferve no meio do palheiro

Carrego o peso da fam’lia espoliada

Desacreditada, humilhada.

Sem forma, sem brilho, sem fama. [...] Mas a consci�ncia se levanta a cada murro

E nos tornamos secos como o agreste

Mas n‹o perdemos o amor.

Porque temos o cora�‹o pulsando

Jorrando sangue pelos quatro cantos do universo.

Eu viverei 200, 500 ou 700 anos

E contarei minhas dores pra ti

Oh! Identidade (POTIGUARA, 2004, p. 102-103).

A identidade Ž, ent‹o, o que mantŽm o Òpulsar do cora�‹oÓ e a consci�ncia ind’gena, n‹o sendo, de forma alguma, fruto de um roteiro reencenado para dominar o Outro. Apesar do Òpeso da fam’lia espoliadaÓ, a reconstru�‹o identit‡ria traz em si a for�a motriz que permite Òcaminhar em dire�‹o ao solÓ e honrar o Òcompromisso assumido perante os mortosÓ. ƒ a ancestralidade que mantŽm a identidade ind’gena e Ž esta que reativa perpetuamente a mem—ria ancestral. Quando em 1990 Eliane vai ao 49¼ Congresso dos êndios Norte-Americanos entregar um dossi� sobre a situa�‹o ind’gena brasileira, ela descreve ter experimentado, em meio aos 1.500 ind’genas presentes com seus trajes mesclados a milhares de penas de ‡guia, em horas e horas de dan�as, o que ela chama de Òas mœsicas e os tambores dos sŽculosÓ, gerando uma outra sensa�‹o espa�o-temporal: ÒSenti o espa�o compartimentar-se, transformando-se em fagulhas do tempo, pequenas gotas aŽreas coloridas que me enfeiti�aram e me colocaram em contato com os ancestraisÓ (POTIGUARA, 2004, p. 111). Segundo a autora Potiguara, nesta ocasi‹o foi enviada, pela primeira vez, uma mo�‹o ˆs Na�›es Unidas sobre o exterm’nio dos Povos Ind’genas do Brasil. Por meio desse exemplo, podemos entrever que a a�‹o pol’tica Ž n‹o apenas a mo�‹o enviada ˆ ONU e o dossi� de denœncias, mas tambŽm os sons imemoriais dos tambores dos sŽculos, afinal, a afirma�‹o de uma pol’tica da exist�ncia Ž o que permite a afirma�‹o identit‡ria.

Em Metade Cara, Metade M‡scara, entramos em contato com uma escrita que reitera, na poesia, no testemunho e em narrativas, os diversos movimentos de uma a�‹o pol’tica que caminha junto a uma estŽtica da exist�ncia, constituindo-se tanto de denœncias, organiza�‹o de grupos de discuss‹o, conscientiza�‹o, luta pela garantia de direitos pol’ticos e representatividade junto a mecanismos internacionais, quanto de exalta�‹o cultural e ancestral.

A literatura ind’gena surge enquanto um espa�o praticado, em que a ag�ncia cultural de seus autores reafirma a processualidade deste territ—rio essencialmente n‹o-normativo, mas sim afirmativo de uma permanente pol’tica da exist�ncia, onde a escrita ind’gena, enquanto fruto e reflexo da transfigura�‹o da dor em cria�‹o, sustenta e mantŽm tanto a preserva�‹o da oralidade, quanto a renova�‹o da palavra ancestral inscrita no papel ou no ambiente digital das novas tecnologias. A din‰mica de um corpo org‰nico e vivo da cultura ind’gena continuamente presente nessas cria�›es liter‡rias, dilui as fronteiras entre escrito e oral, pol’tica e ancestralidade, arquivo e repert—rio, preserva�‹o e renova�‹o, dissolvendo os binarismos que sustentam um projeto societ‡rio logoc�ntrico.

A pot�ncia poŽtica da voz de Eliane comp›e n‹o uma etnografia descritiva do sujeito ind’gena urbano, mas sim a corporifica�‹o de sua imagem diante de nossos olhos, a partir de relatos que apontam para a condi�‹o dos ind’genas desplazados, denunciando sua invisibiliza�‹o social. Sua escrita cor de jenipapo n‹o nos deixa tapar os olhos para a misŽria e o abandono de um indiozinho que escorria pelo bueiro diante da autora, Òmetade de seu corpo superior debru�ava-se sobre o meio-fio da rua e a outra parte jazia cansada, escorrendo pelo esgoto urbanoÓ (POTIGUARA, 2004, p. 93). O relato nos traz um menino de dez anos derretido feito um rel—gio de Salvador Dal’, com o corpo magro e imundo escorrendo pelo bueiro, olhinhos de tigre, roupas de mendigo, catando centavinhos. A voz de Eliane nos permite ouvir a voz do indiozinho que, indagado pela autora, responde que os meninos de rua lhe roubaram o dinheiro que conseguiu pedindo. Seu œtero de m‹e rosnou, afinal, ele n‹o se considerava um menino de rua e ela estava diante de uma nova classe social criada pela pobreza: a de pedinte ind’gena.

Escrita-denœncia e cosmopol’tica liter‡ria que nos transporta para o plano da fala ancestral cravada na nervura da folha de jenipapo, que lhe tra�a os contornos. Escrita que se faz terra, signo que transcende a palavra, distendendo-a atŽ alcan�ar a r’tmica do TorŽ Potiguara e erguer-se em sonho revelado atravŽs de textos, ora�›es, poesias e articula�›es pol’ticas dentro do Grumin. Estamos diante de uma escrita cosmovisiva que nos abre outras dimens›es de consci�ncia moral, Žtica, pol’tica e espiritual. Eliane nos lembra que a palavra da mulher ind’gena, condicionada pelo racismo e pelo medo, sobrevive porque Ž sagrada como a terra, alimento da cura em todos os sentidos. A personagem Cunhata’, ap—s o sofrimento da perda de suas terras, de sua fam’lia e de sua consci�ncia de mulher ind’gena, n‹o conseguindo saber o paradeiro de seu homem, v� sua dor refletida em p‡ginas de desterro, que revolvem a identidade perdida na ÒinŽrcia da pr—pria exist�nciaÓ ou em versos que falam da agonia dos Patax—s ou do sentimento Pankararu de ser marginal das cidades, das fam’lias e das palho�as. Ao retratar as gotas rubras do sangue louco e desvairado de um guerreiro desprendido durante o per’odo da coloniza�‹o, no poema Tocantins de Sangue, a linguagem poŽtica transp›e o corpo ind’gena colonial para o contempor‰neo, conclamando em tom de denœncia:

Banha o suor do mundo

Com tua luta

Junta l’quidos, faz crescer

Nossa gente pobre

Nossa vida amarga

N—s _ Decadentes!

Ind’genas, n‹o...

Indigentes.

(POTIGUARA, 2004, p. 60).

Esta for�a cosmopol’tica aponta para uma palavra f�mea que cura porque reacende o inconsciente coletivo ancestral, beijando as cicatrizes do mundo. Sua letra se levanta para percorrer com seu corpo palp‡vel, toda uma trajet—ria de preconceito no poema Neste sŽculo de dor, resistindo Òespoliada na condi�‹o de mulherÓ em Òfebre pra subexestirÓ, ÒPra que matem nossos filhos / E os joguem nas valasÓ (POTIGUARA, 2004, p. 61). Em meio a tanta dor, a materialidade de sua voz de mulher ind’gena conclama ˆ Uni‹o das Na�›es Ind’genas e a uma busca da identidade adormecida, dizendo no poema Desilus‹o: ÒNÌO ˆ morte da fam’lia / NÌO ˆ perda da terra / NÌO ao fim da identidadeÓ (POTIGUARA, 2004, p. 64). A mem—ria incorporada de Cunhata’, enfim, se rasga, entoando c‰nticos de um amor louco e desvairado no poema Velho êndio, ao mirar a imensid‹o dos sŽculos por meio dos olhos do amante. Estas palavras ditadas ao papel nos contam que certa vez o Grande Esp’rito disse a Cunhata’: ÒVai ave-menina e mulher! Cria asas e enxergue; um dia, quem sabe, seremos livres!Ó (POTIGUARA, 2004, p. 67). Eliane-Cunhata’ cria asas e luta em 1988 dentro da Assembleia Constituinte por entre bocas, dentes, sorrisos, entre o cheiro do vermelho do urucum que besuntava os cabelos dos Kaiap—, liderados por Megaron, as palhas ressecadas dos ind’genas do Nordeste, os olhares de lince dos Terena e Tukano, os olhares saltitantes dos Guarani e o rosto pintado de jenipapo de Ailton Krenak. Personagens hist—ricas e m’ticas perpassam as p‡ginas da autora, compondo a trama pol’tica da exist�ncia, entre suas mem—rias da Constituinte dedicadas ˆ ’ndia guerreira Dona Marta Guarani e sua lembran�a de tia Severina, anci‹ guerreira Potiguara, a quem a escritora dedica o poema O Segredo das Mulheres, publicado em 1984 na cartilha de apoio ˆ alfabetiza�‹o ind’gena editada pelo Grumin.

A textualidade aqui se faz textura, demarcando um territ—rio, fincando posi�‹o: ÒO ind’gena precisa sair das paredes, dos museus, das salas de exposi�‹o!Ó (POTIGUARA, 2004, p. 94). A voz de Eliane ecoa a autodetermina�‹o dos povos, lembrando-nos da luta pol’tica travada pelo movimento ind’gena internacional para a cria�‹o do F—rum Permanente para Povos Ind’genas da ONU. Metade Cara, Metade M‡scara faz uma refer�ncia hist—rica importante a associa�›es que deram um pontapŽ inicial na ruptura com organiza�›es de cunho paternalista, como a Coiab (Coordena�‹o ind’gena da Amaz™nia Brasileira), inicialmente coordenada por Manoel Moura Tukano, e a Unind (Uni‹o das Na�›es Ind’genas), criada por Marcos Terena, M‡rio Juruna, çlvaro Tukano, Lino Miranha, entre outros. Eliane nos lembra que territ—rio Ž cosmologia e n‹o apenas um peda�o ou vastid‹o de terras, integrando a cidadania dos povos ressurgidos, como os Pitiguary, no Cear‡, os Cat—kin, no Alagoas, ou ainda os Porubor‡ de Rond™nia, bem como os ’ndios-descendentes, em sua luta individual por sua territorialidade ind’gena.

A escrita Potiguara de Eliane, filha de um povo comedor de camar‹o, volteia e dan�a envolvente no poema Cunhata’, surgindo plena de odores, gostos e sensa�›es t‡teis. O leitor se banha nas ‡guas do Orinoco, espreitando o massacre de Potosi e o canto do pitu‹, as letras se movimentam na cad�ncia de um xaxado, ao sabor do churrasco, do chimarr‹o, de uma saia de chita e um chocalho bonito que integra a Zamacueca dos Andes e o TorŽ do Sert‹o. A escrita se faz aud’vel, sonora e Eliane nos reparte carne-de-sol, bai‹o temperado, a�a’ geladinho e uma rede quentinha, onde o leitor se deita, transportando-se para as libertas Ilhas Gal‡pagos ou para o Amazonas, ao som das zabumbas e das zampo–as. Cada conta de letra de Metade Cara, Metade M‡scara vai tecendo um colar de mi�angas repleto de simbologias e matizes por onde a palavra passeia fio a fio, entre colora�›es e estilos liter‡rios. A poesia Ž entremeada pela prosa na qual as personagens Cunhata’ e Jurupiranga perpassam debates em torno dos direitos reprodutivos da mulher e da luta dos ind’genas ressurgidos, dialogando com trechos de uma cartilha de alfabetiza�‹o ind’gena, que prop›e ensinar n‹o um letramento enrijecido, mas a corporeidade da letra em seu adensar-se no mundo, onde a leitura e a escrita aparecem como matŽrias de express‹o cosmopol’tica.

 

 

Considera�›es finais

Entrevemos na literatura de Eliane Potiguara o espa�o sagrado da fala inscrito por xam‹s, curandeiras, vision‡rias, guerreiras e inœmeras mulheres ind’genas violadas e subjugadas pela a�‹o colonizadora. O fazer liter‡rio materializa um grito estrangulado, perpetuando a mem—ria ancestral da identidade ind’gena reconfigurada no fluxo performativo das vozes ditas ao papel, dando corpo a falas submersas. As mem—rias incorporadas na textualidade de Eliane se op›em ˆs performances de poder, testemunhando uma pol’tica da exist�ncia na qual a dor se transfigura em cria�‹o e pot�ncia poŽtica.

A escritura feminina ind’gena surge como cura frente ao esfacelamento, promovendo a reconstru�‹o identit‡ria ao reencenar o mito de Cunhata’ e Jurupiranga, personagens lend‡rios impulsionados pela for�a motriz de uma identidade caminhante. O mito se encarna na escrita-testemunho dos relatos sobre a av— da autora, Maria de Lourdes, violentada sexualmente pelo colonizador e obrigada a migrar com a fam’lia para o Rio de Janeiro. Adentrando a escritura desta autora Potiguara, percorremos mœltiplas camadas de sentido, em que a hist—ria de sua av—, reencena o in’cio da solid‹o das mulheres, cuja origem remete ao exterm’nio dos Guaranis ainda no sŽculo XVIII, quando Marina, esposa do l’der SepŽ Tiaraju migra sozinha com sua filha nos bra�os ap—s o assassinato do esposo.

A incans‡vel trajet—ria da autora na garantia dos direitos ind’genas redimensiona e ressignifica sua escrita, dando-lhe a dimens‹o de fala per-formativa que trilha um caminho oposto ˆ reencena�‹o dos roteiros hegem™nicos, apontando em meio ˆ normatividade estabelecida, poss’veis brechas por onde ecoam mœltiplas vozes ind’genas capazes de propor outros roteiros e percursos. Estamos diante de uma literatura incarnada, na qual a mem—ria cultural tem a pot�ncia poŽtica de uma pol’tica da exist�ncia, que cultiva a palavra da mulher ind’gena como elemento de cura espiritual.

 

 

Refer�ncias

 

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TAYLOR, Diana. O arquivo e o repert—rio: performance e mem—ria cultural nas AmŽricas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.

 

[Recebido : 04 ago 2020 – Aceito : 9 mar 2021]

 



[43] Uma vers‹o preliminar da tem‡tica abordada aqui foi apresentada pela autora no IV Semin‡rio Fluminense de Sociologia, realizado pelo PPGS-UFF em 2015 em comunica�‹o intitulada Ò... Mesmo que nos arranquem os dentes e a l’nguaÓ: o espa�o sagrado da fala na literatura ind’gena. O presente artigo amplia o debate, aprofundando conceitos e propondo novas quest›es de investiga�‹o.

[44] P—s-doutora em Sciences de LÕInformation et de la Communication pela UniversitŽ dÕAvignon et des Pays de Vaucluse-UAPV. Integrante do Grupo de Pesquisa CNPQ Imagem, Corpo e Subjetividade, p—s-doutoranda em Comunica�‹o e Cultura pelo Programa de P—s-gradua�‹o em Comunica�‹o e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro – PPGCOM-UFRJ.

[45] Eliane Potiguara apelida Marina, a esposa do l’der ind’gena guarani do sŽculo XVIII, SepŽ Tiaraju. Ela aparece como Ju�ara em outros textos seus.

[46] Para mais informa�›es, ver LEITE, Renata Daflon. êndios Online: posts que n‹o querem calar. Curitiba: Editora Prismas, 2017, p. 46.