Revista do GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL – ISSN 1980-4504



A EDUCAÇÃO SENSÍVEL NA VIBRAÇÃO DA VOZ POÉTICA







Este universo em que se firma a literatura oral/ impressa é construído numa esfera de aproximações dos sentidos, em várias formas de expressar: ver, ouvir, dizer, gesticular, da voz, do gesto, e da figura

Jerusa Pires Ferreira





A voz penetrada pela poiesis, voz pulsante do ser, vibra ressonante o sentido da existência humana. Assim, a educação promovida pela voz poética, educação sensível, responde bem ao ser humano em suas relações consigo, com a vida, com o mundo. O que faz constituir e manifestar o sentimento de outridade tão necessário para vivermos a diversidade característica de nosso tempo. Educar para viver uma poética da diversidade é propósito primal de uma Educação para/com/do Sensível. E esta, nos parece ser a ordem do dia, diante do desassossego global vivido nestes tempos de transição paradigmática que exige de nós respostas fortes frente às questões fortes que nos impunha. Desse modo, este número da revista recebeu artigos que refletem e/ou projetam imagens de vozes que vibram uma educação aproximada da razão sensível e seus valores complexos, conjuntivos, paradoxais do pensamento; textos que elaboram a reflexão de uma educação de voz poética para uma poética da voz que, por si só, educa ao fazer revelar o ser, a vida e o mundo em profusão.

Esta Boitatá compõe-se de 11 artigos que tratam da força poética em diferentes lugares - no palco, na rua, na sala de aula, no urbano e no campo - se expressam nas formas verbal, visual, sonoro-musical, cênica e cuidam de experimentos teóricos e leituras literárias. Os artigos estão apresentados pela ordem alfabética do título, não seguem ordem de importância, nem temática. Os textos seguem um fio onde se penduram experiências de leitura a partir de textos orais, textos em matrizes impressas do oral, textos escritos, em ambiências de diferentes semiosferas, em que se concebe o espaço da recepção estética, de autores da literatura brasileira não canônica, especialmente. Nesta apresentação, nossas vozes se unem às vozes dos pesquisadores para dizer das temáticas dos estudos.

A linguagem poética é recriação do mundo através de subjetividades capazes de atingir o leitor nas suas emoções e razões, tornando-o um fruidor da voz sensível da criação. Assim, no poema Um corpo sobre a areia, de Leonardo Tonus (2018), a voz poética passa a ser a voz do eu-leitor que constitui um novo olhar sobre o mundo contemporâneo, analisado como o submundo. Em Somanlu, de Abguar Bastos, obra tecida a partir da origem de seres da mitopoética amazônica, habitantes da floresta, das águas, do céu, ultrapassa os limites do local, apresenta temáticas universais, o estudo suscita questionamentos acerca de dramas e problemáticas sempre presentes no existir humano. A partir da experiência com os textos Antes o Mundo Não Existia (1995), de Tõrãmu Kehirí e Meu Querido Canibal (2000), de Antônio Torres, comprova-se a ausência da literatura indígena nos currículos escolares e impulsiona-se a luta para sua inclusão. Com a narrativa indígena Iapinari, recolhida por Antonio Brandão de Amorim e publicada postumamente em Lendas em Nheengatu e em português (1928), também há intensão de romper com o preconceito da exclusão, com a invisibilidade dos textos produzidos pelos povos indígenas, ainda considerados pela crítica literária como não-literatura. Em Anciões em Contos e Encontros, coletânea de quatorze narrativas de resistência, contadas por velhos da nação Tupinambá de Olivença, organizada por Alessandra Mendes e Jaborandy Tupinambá, entre relatos memorialísticos e contos tradicionais, retratam o Caboclo Marcelino, relevante personagem histórico do povo Tupinambá, analisado como forma de fortalecimento da identidade da comunidade.


A contemporaneidade coloca em discussão novas formas de pensar a literatura e impulsiona mudanças nos cânones da teoria literária. Experimentações performáticas em espaços públicos são formas de sensibilizar o leitor/espectador para uma leitura em que se escarna a critica às opressões/desigualdades políticas, sociais, raciais, de gênero/orientação sexual, a loucura, que corpos periféricos/minoritários vivenciam na sociedade. Na periferia de Belo Horizonte, a literatura marginal dos saraus e slams promove a formação sensível de leitores e de escritores, por meio da recepção de performances poéticas, a exemplo das periferias de São Paulo, onde o movimento nasceu. Em Londrina, o Sarau Artístico e Literário de Cambé, um dos mais antigos da região, entre outros grupos, permite o compartilhamento de novas formas de fazer poético, colaborando para a formação e fortalecimento da literatura londrinense, a partir da rede Londrix. Nos palcos de Belém e de outras cidades brasileiras, a vida e a obra da escritora brasileira Maura Lopes Cançado é apresentada a partir de experimentações performativas vivenciadas, que proporciona pensar caminhos possíveis entre as relações corpo/ vida/ arte/ performance/ memória na contemporaneidade. Outra experiência de formação de leitores acontece na Educação do Campo – sujeitos com diferentes perfis, sujeitos históricos de resistência - a partir de textos literários, que propiciam diálogos culturais e identitários.


Na sessão livre, dois outros trabalhos enriquecem este número da revista: um artigo sobre pesquisa com crianças como um instrumento de escuta sensível e de visibilidade das vozes das crianças e de suas infâncias, e outro sobre uma das obras que compõe a Série Os dramas da Amazônia, de Abguar Bastos, o romance Safra, analisado na perspectiva da memória e da resistência na Amazônia.

Agora convidamos o leitor a percorrer os textos e encontrar-se com as imagens incontornáveis que as diversas experiências dos artigos nos trazem por meio dos sentidos que nos tocam sob a presença da Poesia que as fazem. A educação sensível em que está aportado este número da revista Boitatá não é aquela que revela a sensibilidade daqueles que sabem ver, mas dos que transvêem a partir dos diferentes sentidos e assim desvelam a diversidade poética de que é feita a educação da poesia da voz.


Josebel Akel Fares

Délcia Pombo

Dia Favacho

BOITATÁ, Londrina, n. 27, jan.- jun. 2019 1